Clínica MédicaInterpretação de Exames à Beira do Leito

Radiografia de tórax

O filme que chega às três da manhã é anteroposterior, mal inspirado e rodado — e metade do que ele parece mostrar é a geometria, não o paciente. Este capítulo ensina a julgar o filme antes de interpretá-lo, a percorrer seis passos que começam pelos aparatos, e a saber o que a radiografia não responde.

Fontes deste capítulo

Wada DT, Rodrigues JAH, Santos MK. Aspectos técnicos e roteiro de análise da radiografia de tórax. Medicina (Ribeirão Preto. Online) 2019;52(supl1):5-16. DOI 10.11606/issn.2176-7262.v52isupl1.p5-16.

Wada DT, Rodrigues JAH, Santos MK. Sondas, cateteres e outros aparatos médicos na radiografia de tórax. Medicina (Ribeirão Preto. Online) 2019;52(supl1):57-71. DOI 10.11606/issn.2176-7262.v52isupl1.p57-71.

Wada DT, Rodrigues JAH, Santos MK. Semiologia radiológica e terminologia da radiografia de tórax. Medicina (Ribeirão Preto. Online) 2019;52(supl1):31-43. DOI 10.11606/issn.2176-7262.v52isupl1.p31-43.

Wada DT, Rodrigues JAH, Santos MK. Sinais radiológicos no tórax. Medicina (Ribeirão Preto. Online) 2019;52(supl1):45-56. DOI 10.11606/issn.2176-7262.v52isupl1.p45-56.

Wada DT, Rodrigues JAH, Santos MK. Anatomia normal da radiografia de tórax. Medicina (Ribeirão Preto. Online) 2019;52(supl1):17-29. DOI 10.11606/issn.2176-7262.v52isupl1.p17-29.

01

Responda antes de ler

Paciente intubado na sala de emergência. A radiografia de controle mostra a extremidade do tubo orotraqueal a 1,5 cm da carina, atelectasia do pulmão esquerdo e desvio do mediastino para a esquerda. A cabeça estava em posição neutra durante o exame. Qual conduta e qual raciocínio?

02

O paciente que você vai ver

Três e dez da madrugada. Noventa leitos, hospital municipal do interior, ala de clínica médica. Você é o interno de plantão. O senhor Ademilson Curvelo tem 68 anos, 64 quilos, está no quinto dia de internação por doença cerebrovascular com disfagia, e ontem à tarde recebeu uma sonda nasoenteral — a dieta começou às dezoito horas. A técnica de enfermagem, a Dalvina, te chama no posto: ele dessaturou para 86% em ar ambiente, está taquipneico, com febre de 38,1, e tosse desde a virada da noite.

Você pede uma radiografia de tórax. O aparelho móvel sobe às três e vinte, o técnico faz o exame com o paciente semissentado no leito, e às três e trinta e cinco a imagem está na tela do posto. Não há radiologista no hospital. A telerradiologia contratada devolve laudo em até doze horas, o que significa que o laudo deste exame chega depois do almoço — e a decisão sobre o que fazer com o senhor Ademilson é agora.

O que está na tela é o filme que você vai receber a vida inteira: anteroposterior, feito no leito, com o paciente semissentado e um pouco torto, respirando mal. O coração parece grande. O mediastino parece largo. Há uma opacidade na base direita, junto ao contorno diafragmático. Os campos pulmonares estão apagados e a trama vascular parece toda aumentada. Um interno com pressa olha esse conjunto e escreve, em quinze segundos, a frase que fecha a madrugada: cardiomegalia com congestão pulmonar e provável pneumonia à direita.

Três dos achados podem ser produzidos ou ampliados pela técnica e precisam de confirmação clínica. O coração parece grande porque, no filme anteroposterior, ele está longe do detector e é projetado ampliado. O mediastino parece largo pela mesma razão. Os campos apagados e a trama exuberante vêm de um exame feito em expiração, com o pulmão pequeno e os vasos amontoados num volume menor. Não é possível afirmar, apenas com este filme, quanto desses achados representa doença — e os três produzem prescrição: furosemida na madrugada, restrição hídrica, ecocardiograma pedido para amanhã.

O quarto achado é real, e ele não é pneumonia. Está no lugar em que o olho não foi olhar, porque quem procura doença não olha para plástico. Mas isso só aparece se a leitura obedecer a uma ordem, e a ordem deste capítulo começa num lugar incomum.

Há uma diferença entre este exame e os dois que você já leu nesta apostila. O eletrocardiograma e a gasometria devolvem números: você mede, aplica um corte e decide. A radiografia devolve uma imagem bidimensional de um tórax tridimensional, feita numa geometria que muda de exame para exame — e por isso o primeiro trabalho não é interpretar. É julgar se aquele filme é interpretável, e para quais perguntas. Metade dos erros deste exame nasce antes da interpretação, na hora em que alguém aceita como doença uma coisa que é distância, ângulo ou volume pulmonar.

O senhor Ademilson volta no fim, com o filme lido em ordem. Adianto uma coisa só: o que muda a madrugada dele está no primeiro passo da leitura, e o primeiro passo não é o pulmão.

03

Quem adoece disso

A radiografia é o exame de imagem mais antigo, mais barato e mais disponível do arsenal torácico, e é por isso que ela é o primeiro exame de imagem pedido na maioria das doenças do tórax. O aparelho existe em unidade básica, e a versão móvel permite fazer o exame no leito, no centro cirúrgico e na sala de emergência — a vantagem que gera todo o problema deste capítulo, porque o exame que vai até o paciente é sempre pior do que o exame ao qual o paciente vai.

O tamanho dessa fatia foi medido no Brasil. Num estudo prospectivo de uma unidade de terapia intensiva universitária de Santa Catarina, publicado em 2012, foram catalogados 447 exames de imagem em 106 pacientes ao longo de três meses e meio: 425 deles — cerca de 90% de tudo que se pediu — eram radiografias de tórax em incidência anteroposterior, feitas no leito. Ressonância não foi pedida uma única vez. A média foi de 4,01 radiografias por paciente internado.

O rendimento dessas radiografias é o dado que reorganiza a expectativa de quem está começando: 79,3% delas foram interpretadas como normais pelo intensivista assistente. E, entre as normais, 99,4% não mudaram nada na conduta — em 337 exames normais, apenas dois foram seguidos de mudança de prescrição ou de parâmetro ventilatório. Aproximadamente metade de tudo que se pediu naquela unidade (216 dos 425 exames) foi pedida sob a rubrica de checagem de admissão e rotina, e só 12,7% para investigação diagnóstica.

Duas informações do mesmo estudo apontam para onde o exame rende. Quando a radiografia mostrou dispositivo mal posicionado — foram 13 casos —, a conduta mudou em 92,3% deles. Quando mostrou alteração pleuropulmonar, mudou em 42 de 71 exames. Ou seja: a radiografia de leito quase não decide nada quando é pedida por hábito, e decide quase tudo quando encontra um tubo, uma sonda, um cateter ou um dreno fora do lugar. Esse contraste é a razão de a leitura deste capítulo começar pelos aparatos.

A ordem também tem norma. A Resolução da Diretoria Colegiada nº 611, de 9 de março de 2022, da Agência Nacional de Vigilância Sanitária, é o regulamento sanitário que rege os serviços de radiologia diagnóstica no Brasil e o controle das exposições médicas. No artigo 79, ela proíbe toda exposição que não possa ser justificada, e lista nominalmente, no inciso IV, os exames de rotina de tórax para fins de internação hospitalar, ressalvando apenas o caso em que haja justificativa no contexto clínico e considerados possíveis métodos alternativos. Não é recomendação de sociedade: é proibição sanitária, com infração prevista.

Essa regra é mais velha do que parece. A frase quase idêntica já estava na Portaria SVS/MS nº 453, de 1º de junho de 1998, que regeu o radiodiagnóstico brasileiro por vinte e um anos: exames de rotina de tórax para fins de internação hospitalar, exceto quando houver justificativa no contexto clínico, considerando-se os métodos alternativos. A portaria foi revogada pela Resolução nº 330, de 2019, que por sua vez foi revogada pela 611 de 2022 — e a proibição atravessou as duas substituições praticamente sem mudar uma palavra. O que muda de 1998 para hoje é a palavra possíveis, inserida antes de métodos alternativos.

Sobre a dose, o Brasil tem número próprio. A Instrução Normativa nº 90, de 27 de maio de 2021, da mesma agência, traz no Anexo II os valores representativos de dose de entrada na pele para o paciente adulto típico, definido como o indivíduo entre 60 e 75 quilos e entre 1,60 e 1,75 metro. Para o tórax, são 0,4 mGy na incidência posteroanterior e 1,4 mGy no perfil — os dois menores valores de toda a tabela, contra 10 mGy para abdome e coluna lombar em anteroposterior, 20 mGy para coluna torácica em perfil e 40 mGy para a junção lombossacra. Na tabela nacional, a radiografia de tórax é o exame de menor dose.

Isso não a torna gratuita, e a norma não deixa espaço para achar que torna. A radiografia é barata o suficiente para que o argumento contra o exame de rotina não seja o risco do paciente, e sim o que a Resolução nº 611 chama de justificação — a exigência de que cada exposição responda a uma pergunta. O estudo brasileiro mostra o custo real de ignorar isso: quatro filmes por paciente, oito em cada dez normais, e uma conduta mudada a cada sete exames.

04

Por que acontece o que acontece

Esta seção é curta e entra só o que faz um critério do capítulo ter sentido. Quase tudo que engana numa radiografia de tórax vem de três fatos físicos: o feixe diverge, a imagem é uma projeção, e o contraste depende de quanto cada tecido absorve.

O feixe diverge porque sai de um ponto — o foco do tubo. Por isso a sombra de qualquer estrutura é maior que a estrutura, e o quanto maior depende da distância entre ela e o detector. Encostar o objeto no detector deixa a sombra quase do tamanho real; afastá-lo aumenta a sombra. É essa única frase que explica por que a incidência padrão é a posteroanterior: o paciente fica de pé, com o tórax anterior encostado no detector e o feixe entrando pelas costas, o que deixa o coração — que é anterior — colado no receptor de imagem. A distância recomendada entre o foco e o paciente é de no mínimo 1,5 metro, sendo 1,8 metro o padrão técnico, e ela existe pela mesma razão: quanto mais longe o foco, mais paralelos chegam os raios e menor a ampliação.

Invertendo o arranjo, invertem-se as consequências. No exame anteroposterior de leito o detector fica sob o dorso e o feixe entra pela frente: agora o coração está do lado oposto do tórax em relação ao detector, e é projetado ampliado. A distância foco-paciente também encolhe, porque o aparelho móvel não tem braço de um metro e oitenta dentro de um quarto. O resultado é sistemático e previsível — a área cardíaca aumenta, o mediastino alarga, e a comparação com o filme anterior de outro dia só vale se o outro dia teve a mesma geometria.

O segundo fato é que a imagem é uma projeção: toda a espessura do tórax é comprimida num plano, e estruturas que estão em profundidades diferentes se sobrepõem no mesmo ponto do papel. É essa sobreposição que a tomografia elimina e que a radiografia não tem como eliminar. Dela vêm duas consequências práticas opostas. Uma lesão pode existir e não aparecer, porque está escondida atrás do coração, atrás das cúpulas diafragmáticas ou dentro do mediastino — e é por isso que a incidência em perfil, que olha o mesmo tórax de outro ângulo, resolve boa parte das dúvidas de localização. E uma lesão pode aparecer sem existir, quando duas estruturas normais se somam por acaso e produzem uma opacidade que não corresponde a nada, como o mamilo projetado no campo pulmonar inferior.

O terceiro fato é o contraste. Ele nasce da diferença de atenuação entre ar, gordura, água, osso e metal — cinco degraus que o olho lê como cinco tons. Tudo que aumenta a quantidade de água no lugar do ar aumenta a atenuação e produz o que se chama de opacidade; tudo que aumenta a quantidade de ar reduz a atenuação e produz hipertransparência. Não existe, na radiografia, nada entre esses dois movimentos: todo achado é ou uma coisa mais branca ou uma coisa mais escura do que deveria.

Desse degrau de atenuação saem os dois sinais mais úteis do exame inteiro. O primeiro: duas estruturas de atenuação parecida, encostadas uma na outra, deixam de ter borda entre si — porque a borda só é visível quando há diferença de atenuação nos dois lados dela. É o sinal da silhueta, e ele é um localizador: se uma opacidade apaga o contorno do coração à direita, ela está encostada no coração, portanto no lobo médio; se apaga o contorno cardíaco à esquerda, está na língula; se apaga a cúpula diafragmática, está no lobo inferior daquele lado. A opacidade que se projeta sobre o coração sem apagar o contorno dele não está encostada nele — está adiante ou atrás, e a incidência em perfil diz qual. O segundo: quando o alvéolo se enche de líquido, sangue, pus ou tecido e o brônquio que o serve continua cheio de ar, o brônquio aparece como um traço escuro ramificado dentro de uma área branca, e isso é o broncograma aéreo. Ele não diz qual doença é, mas diz duas coisas que valem muito às três da manhã — que a alteração é do pulmão e não da pleura ou da parede, e que o mecanismo é preenchimento de espaço aéreo. Cabem nele edema, infecção, sangue, aspiração, infarto e tumor.

Falta o fato que governa o filme de leito, e é o mais esquecido: gravidade. Líquido escorre para o ponto mais baixo do espaço pleural e ar sobe para o mais alto — e onde ficam esses pontos depende de o paciente estar de pé ou deitado. De pé, o líquido se acumula no seio costofrênico e desenha o menisco, e o ar sobe para o ápice e desenha a linha pleural apical. Deitado, o líquido se espalha em lâmina por trás do pulmão e produz apenas um véu difuso sobre o hemitórax, sem menisco e sem nível; e o ar sobe para a região anterior e para o recesso costofrênico anterior, que no filme de frente aparece como um seio costofrênico anormalmente profundo e escuro em vez de uma linha no ápice. Um derrame de médio volume e um pneumotórax de médio volume podem, os dois, passar despercebidos num filme deitado se você procurá-los onde eles ficam quando o paciente está de pé.

O último mecanismo é volumétrico, e explica dois terços dos falsos achados do plantão. O pulmão inspirado é grande, com pouca água por unidade de volume e vasos afastados uns dos outros. O pulmão expirado é pequeno: a mesma quantidade de vasos e de tecido cabe num volume menor, a transparência cai, a trama parece exuberante e o coração, apoiado num diafragma que subiu, parece largo. Um exame feito em expiração produz, de uma vez só, quatro achados falsos que imitam a mesma doença — cardiomegalia, congestão, opacidades basais e mediastino alargado. Reconhecer a expiração é, na prática, a manobra que mais evita prescrição errada neste exame.

Dois diagramas geométricos de fonte, objeto e detector mostram maior projeção do mesmo objeto quando a fonte se aproxima e o objeto se afasta do detector.
A geometria ajuda a explicar a ampliação cardíaca em projeções AP portáteis. Distâncias, posição e inspiração interferem na comparação do tamanho cardíaco. A figura é um esquema óptico, não uma radiografia.
05

Como se apresenta de verdade

Antes de olhar para o pulmão vem a pergunta que quase ninguém faz: este filme foi feito de que jeito, e para quais perguntas ele serve? A resposta não é acadêmica. Uma radiografia com técnica ruim não é um exame anormal — é um exame que responde a menos perguntas do que você acha, e tratar as suas limitações como achados é o erro mais produtivo deste capítulo.

Três parâmetros técnicos são avaliados na rotina clínica, e os três levam poucos segundos somados: o regime de dose, ou seja, a penetração; a inspiração; e o alinhamento. Só depois deles vem a incidência, que é a informação que mais muda o que você pode concluir. Este bloco percorre os quatro, e termina com o que fazer quando o filme é ruim e não dá para repetir.

Percurso de aprendizagem

Leia qualidade, aparatos e estruturas em sequência. Falha técnica pode imitar doença e também esconder doença verdadeira; não conclua que todo achado no filme de leito é artefato.

Interprete sinais pela postura e pela repercussão. Traqueia centrada ou ausência de linha pleural não excluem tensão; ultrassom e TC respondem dúvidas diferentes.

Confirme sondas e cateteres antes do uso e discuta correções de dispositivos críticos com a equipe. Uma imagem é evidência dentro do caso, não autorização para agir sozinho.

Penetração: a coluna é a régua

Avalie se a imagem permite distinguir estruturas retrocardíacas, com coluna torácica discretamente visível através da silhueta cardíaca, sem perda de detalhes. Ver apenas T1–T3 não comprova penetração adequada. Na radiografia digital, brilho e janela não medem a dose recebida: ajuste a apresentação, mas isso não recupera informação perdida por ruído ou saturação.

As duas falhas erram para lados opostos e por isso enganam de formas opostas. O filme muito penetrado apaga opacidades sutis: uma consolidação discreta, um derrame pequeno e um nódulo de baixa densidade somem no escuro, e o exame parece mais normal do que é. O filme pouco penetrado faz o contrário: tudo fica mais branco, as bases parecem opacas, a trama parece aumentada e o exame parece mais doente do que é. Um interno que não olha a coluna acha que o primeiro paciente está bem e que o segundo está congesto, e os dois estão iguais.

Ajustar janela pode melhorar a visualização digital, porém não desfaz uma exposição inadequada nem reduz a dose já recebida. Se a dúvida persistir, conversar com radiologia sobre suficiência técnica e necessidade de outra imagem para a pergunta clínica.

Inspiração: contar arcos costais antes de contar qualquer outra coisa

O exame é feito pedindo ao paciente uma apneia inspiratória máxima. Numa aquisição com inspiração correta, identificam-se de nove a onze arcos costais posteriores projetados sobre os campos pulmonares. O arco posterior é o que se vê subindo, mais horizontal e mais nítido, enquanto o anterior desce em diagonal e é mais apagado; conte só os posteriores, e conte à direita, onde o coração não atrapalha.

Menos de nove arcos é um exame pouco inspirado, e ele mente de quatro maneiras ao mesmo tempo. Dificulta identificar e caracterizar opacidades pulmonares, dificulta a avaliação de doença pleural, apinha a trama vascular e — o mais consequente — produz falsa cardiomegalia, porque o diafragma sobe e o coração se deita sobre ele. Um paciente com dor, com dispneia, com dreno ou sedado raramente consegue a apneia máxima, o que significa que o filme pouco inspirado é a regra, e não a exceção, exatamente na população em que ele mais engana.

A conduta diante de um filme expirado depende da pergunta. Se a pergunta é o tamanho do coração ou a existência de congestão, o exame não responde e não adianta insistir na imagem: responda pelo exame físico e pela evolução, ou repita o filme com o paciente melhor posicionado. Se a pergunta é a posição de um tubo, de um cateter ou de um dreno, o exame responde perfeitamente — a posição do dispositivo não depende do volume pulmonar. É isso que significa dizer que o filme ruim ainda serve para alguma coisa: ele perde umas perguntas e mantém outras.

Imagens expiratórias podem responder perguntas selecionadas de aprisionamento aéreo. Para pneumotórax, não são recomendação de rotina adicional ao filme inspiratório: ultrassom ou TC podem esclarecer uma suspeita persistente conforme contexto. A técnica deve ser escolhida pela pergunta, não por regra única.

Alinhamento: rotação e centralização

Num exame centrado, as bordas mediais das clavículas ficam à mesma distância do centro da coluna torácica, e a referência mais fácil é o processo espinhoso da vértebra que está no nível das clavículas. Se uma clavícula está claramente mais perto do processo espinhoso do que a outra, o paciente está rodado para aquele lado. As escápulas também devem estar projetadas fora dos campos pulmonares, de forma simétrica, o que na posteroanterior se consegue pedindo ao paciente que apoie as mãos na cintura e afaste os ombros.

A grafia rodada distorce a anatomia radiológica normal do tórax e pode tanto mascarar lesões quanto criar imagens falsas que simulam alteração. As três falsificações mais comuns são o mediastino que parece alargado ou desviado, o hilo que parece aumentado do lado para o qual o paciente rodou, e a assimetria de transparência entre os hemitórax, que imita tanto um pneumotórax de um lado quanto uma opacidade difusa do outro.

Há uma segunda pergunta de alinhamento, independente da rotação: o paciente está centrado no detector? A coluna deve ficar equidistante das margens laterais da imagem. Quando não está, um hemitórax recebe mais radiação e fica mais penetrado que o outro, e a comparação entre os dois lados — que é metade da leitura de uma radiografia de tórax — deixa de valer. Diante de uma diferença de transparência entre os pulmões, a primeira pergunta não é qual dos dois está doente: é se os dois receberam a mesma dose.

A incidência: o que cada uma responde

O protocolo padrão é posteroanterior e perfil, com o paciente de pé e em inspiração profunda. A posteroanterior aproxima o coração do detector e reduz a magnificação, e ainda tira as escápulas dos campos pulmonares. O perfil, obtido de preferência com o lado esquerdo junto ao detector, existe porque uma lesão atrás do coração ou nas bases atrás das cúpulas diafragmáticas costuma ser pouco visível na posteroanterior — e porque, no perfil, os dois pulmões se sobrepõem, o que realça opacidades sutis e difusas.

A anteroposterior é feita quando o paciente está impossibilitado de fazer o padrão: criança pequena, paciente acamado, em cadeira de rodas ou com dificuldade de mobilização. Ela pode ser feita sentada ou deitada. Além de ampliar o coração, dificulta a avaliação de opacidades pulmonares anteriores, como as do lobo médio e da língula; e, se o paciente estiver deitado, prejudica também a avaliação da trama vascular, o que inclui a caracterização de redistribuição ou cefalização relacionada à congestão. Traduzindo para o plantão: no filme de leito, três perguntas ficam sem resposta confiável — o tamanho do coração, a congestão e o que está na frente.

O decúbito lateral com raios horizontais, chamado de Laurel, é a incidência que separa derrame de espessamento pleural. O paciente deita sobre o lado suspeito, o feixe entra horizontalmente pela frente e o detector fica junto ao dorso; se o líquido é livre, ele escorre junto ao gradil costal inferior e forma um nível. Se não escorre, ou se escorre só em parte, o derrame é septado ou loculado, e a avaliação segue com ultrassonografia ou tomografia. O mesmo decúbito serve, menos comumente, para pneumotórax — e aí o lado suspeito fica para cima, porque é ar e não líquido.

As demais incidências são pouco usadas hoje, justamente porque a tomografia ficou disponível. A apicolordótica eleva as clavículas e as retira dos campos pulmonares, facilitando a leitura dos ápices, do lobo médio e da língula, ao custo de prejudicar coração e grandes vasos. As oblíquas ajudavam a identificar aumento isolado de câmara cardíaca e hoje perderam espaço para o ecocardiograma. E a radiografia com marcador torácico — um clipe metálico ou um pouco de contraste sobre o mamilo ou sobre uma lesão de pele — existe para resolver a dúvida mais banal e mais frequente do exame: se aquela opacidade arredondada no campo pulmonar inferior é um nódulo ou um mamilo.

O que o filme de leito falsifica — e o que ele continua respondendo

Vale separar as duas listas, porque é essa separação que impede tanto o excesso quanto a paralisia. O filme anteroposterior de leito não responde de forma confiável: o índice cardiotorácico, porque o coração está ampliado; o alargamento do mediastino, pela mesma geometria somada ao ingurgitamento dos vasos da base que a posição deitada produz; a redistribuição da trama vascular, que é um sinal descrito na posteroanterior em ortostase e depende da gravidade agindo de pé; a existência e o volume de um derrame pleural, que se espalha em lâmina posterior; e a exclusão de pneumotórax, que muda de lugar no tórax deitado.

O mesmo filme responde muito bem: a posição de todos os dispositivos, que não depende de volume nem de postura; a existência e a localização de consolidações, com o sinal da silhueta funcionando igual; a comparação com um filme anterior feito na mesma incidência, que é a comparação que de fato importa na enfermaria; e a presença de ar onde não deveria haver ar, desde que você conheça os sinais que o decúbito produz, tratados adiante. É uma lista maior do que o desânimo sugere.

Existe uma regra que fecha essa seção e vale gravar. Comparar uma radiografia de leito com uma radiografia de pé, ou uma de hoje com outra feita com o paciente em ângulo diferente, produz diferenças que não são do paciente. A régua da comparação é sempre a mesma incidência, a mesma postura e, de preferência, o mesmo aparelho. Quando o exame anterior é de outra geometria, a comparação vale para achados que não dependem de geometria — o dispositivo, a consolidação, a linha pleural — e não vale para tamanho de coração, largura de mediastino e trama vascular.

O mesmo exame em pacientes diferentes

No obeso e na mulher com mamas volumosas, as partes moles aumentam a atenuação das bases e produzem opacidade bilateral simétrica que imita derrame ou consolidação. O que separa é a simetria e a ausência de sinal da silhueta com o diafragma: o tecido de parede não apaga o contorno diafragmático, porque não está em contato com ele dentro do tórax. No obeso, o exame tende a ficar pouco penetrado e a inspiração costuma ser insuficiente, somando dois erros técnicos no mesmo filme.

No idoso, a ectasia da aorta muda a silhueta: o arco cardíaco superior direito pode passar a ser representado pela aorta ascendente, e o botão aórtico à esquerda fica proeminente e calcificado. Nada disso é doença aguda, e confundir ectasia com alargamento de mediastino num paciente com dor torácica gera investigação de dissecção que o exame não sustenta nem afasta.

Na gestante, a decisão que aparece primeiro não é de leitura, e sim de indicação. A radiografia de tórax é o exame com a menor dose de entrada na pele de toda a tabela nacional, e o feixe é colimado no tórax; a exposição do útero é indireta e pequena. A regra que a Resolução nº 611 impõe é a mesma de qualquer paciente: o exame precisa responder a uma pergunta que muda conduta. Recusar uma radiografia de tórax a uma gestante com suspeita de pneumonia grave é uma decisão que precisa ser justificada tanto quanto pedi-la.

Na criança pequena, o exame é anteroposterior por necessidade, o timo alarga o mediastino superior de forma normal e a inspiração é ainda mais difícil de obter — três motivos para que a leitura pediátrica não use as réguas do adulto. Este capítulo é do interno diante do adulto internado; as particularidades da imagem torácica da criança pertencem aos capítulos de pneumonia na criança e de bronquiolite.

E há o paciente que muda a si mesmo entre um exame e outro: o que foi intubado, o que ganhou um dreno, o que recebeu um cateter central. Nele, a comparação com o filme anterior deixa de ser uma conferência de evolução e vira uma conferência de procedimento, com pergunta objetiva e resposta binária. É o cenário em que a radiografia mais decide, e ele abre o próximo bloco.

06

Como fechar o diagnóstico

Aqui está o miolo do capítulo. A ordem abaixo se executa com a imagem na tela, sempre igual, inclusive quando a alteração grande já saltou aos olhos no primeiro segundo — e sobretudo nesse caso, porque o achado grande sequestra a atenção e é assim que se perde o tubo seletivo que estava junto, o pneumotórax do lado oposto ou o nódulo que ninguém viu.

A referência é o roteiro de laudo normal publicado pela radiologia torácica do Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto, que tem oito itens: partes moles; arcabouço ósseo; mediastino e traqueia; hilos e trama vascular; parênquima pulmonar; cúpulas e seios costofrênicos; coração; aorta. Esse roteiro traz uma instrução que costuma passar batida e que aqui vira o passo 1: a presença de aparatos médicos, como tubos, drenos e cateteres, pode ser descrita no início do relatório. Os oito itens estão todos abaixo, reagrupados em seis passos e reordenados por uma régua só — o que muda a conduta nos próximos minutos vem primeiro.

Cada passo termina numa afirmação verificável, não numa impressão. Escreva o que mediu e onde: dizer que a ponta do tubo está quatro centímetros acima da carina é uma frase conferível pelo próximo plantão; dizer que o tubo está bem posicionado não é. As tabelas do bloco seguinte guardam todos os números; leia o texto quando quiser entender de onde vem cada corte, e vá direto à tabela quando o que faltar for o número.

Passo 1 — Os aparatos: tudo que entrou no paciente e não é dele

Comece pelo que é artificial, e comece porque é aqui que este exame decide. No estudo brasileiro de terapia intensiva, dispositivo mal posicionado apareceu em 13 dos 425 exames — pouco mais de 3% — e mudou a conduta em 92,3% das vezes em que apareceu. Nenhuma outra categoria de achado chega perto dessa proporção. E há um segundo motivo, menos estatístico: o mau posicionamento de um dispositivo pode levar a complicações sérias que muitas vezes não são clinicamente evidentes, ou seja, o paciente não avisa.

Tubo orotraqueal. A extremidade distal deve estar no terço médio da traqueia torácica, a aproximadamente 5 cm da carina — não menos que 3, não mais que 7. A referência é a carina, que é o ponto em que a coluna aérea da traqueia se bifurca, e não a clavícula nem um espaço intercostal. O exame deve ser feito com a cabeça em posição neutra, porque a flexão e a extensão do pescoço podem mudar em até 2 cm a posição do tubo: um tubo a 3 cm da carina com a cabeça estendida pode estar dentro do brônquio fonte direito com a cabeça fletida.

Alto demais, o tubo arrisca extubação, ventilação ineficiente, distensão gástrica e lesão de cordas vocais. Baixo demais, produz intubação seletiva, quase sempre do brônquio fonte direito, que é mais verticalizado — e o que aparece no filme é atelectasia parcial ou completa do pulmão esquerdo, com desvio do mediastino para o lado colabado. A intubação seletiva ainda aumenta o risco de pneumotórax contralateral, por hiperinsuflação compensatória do pulmão que está recebendo todo o volume corrente. E há a possibilidade que muda a conduta em segundos: o tubo no esôfago, que no filme aparece lateral à coluna aérea da traqueia, ou estendendo-se abaixo da carina, muito comumente com distensão aérea do estômago.

Cânula de traqueostomia. A ponta deve estar aproximadamente na metade da distância entre a estomia e a carina. Diferentemente do tubo orotraqueal, a avaliação da traqueostomia independe da posição da cabeça, porque a cânula entra por um orifício fixo na parede traqueal. Logo após a confecção da traqueostomia, pequena quantidade de enfisema subcutâneo ou mesmo um pequeno pneumomediastino podem aparecer sem repercussão clínica — saber disso evita transformar um achado esperado numa intercorrência.

Antes do primeiro uso, confirmar todo o trajeto e a ponta por método validado para a sonda. Na confirmação radiográfica da gástrica, exigir percurso esofágico, passagem pelo diafragma e ponta suficientemente distal à junção esofagogástrica, com orifícios de infusão intragástricos. Ponta apenas além da cárdia não basta. Se a intenção é pós-pilórica, demonstrar passagem pelo piloro e posição duodenal/jejunal apropriada; estar à direita da linha média isoladamente não confirma. Anatomia operada e hérnia hiatal exigem interpretação específica.

O mau posicionamento mais comum da sonda digestiva é o mais banal: inserção incompleta, com a sonda enrolada na faringe ou no esôfago. O mais grave é a sonda que desce pela árvore traqueobrônquica, e mais raramente a que perfura e termina no pulmão, na cavidade pleural ou no mediastino. Duas incidências ajudam quando o trajeto é ambíguo. E há um achado que obriga a suspeitar retroativamente: depois de administrada medicação ou dieta, o aparecimento rápido de derrame pleural, alargamento mediastinal, pneumotórax ou pneumomediastino aumenta a suspeição de que a sonda estava fora do tubo digestivo.

Cateter venoso central. A ponta deve estar em projeção da veia cava superior, abaixo da primeira costela anterior e logo acima do contorno do átrio direito. Confirmar localização venosa, trajeto e ponta antes de uso conforme técnica/protocolo. Radiografia é muito útil após acesso torácico quando não há confirmação adequada por outro método e para suspeita de complicação; não é obrigatória após toda punção central, incluindo femoral. Trajeto aberrante pode ser malposição, punção arterial, perfuração ou variante anatômica. Não injetar contraste como teste improvisado nem retirar cegamente um cateter de grande calibre possivelmente arterial: interromper uso e obter avaliação experiente/imagem apropriada. O cateter intra-atrial deve ser evitado: apesar de raro, há risco de arritmia, ruptura miocárdica e tamponamento. Quando o trajeto não está onde deveria, as possibilidades são cava inferior, veia ázigos, ventrículo direito, ou uma variante anatômica — persistência de veia cava superior esquerda, drenagem venosa pulmonar anômala, defeitos septais — que faz o cateter percorrer um caminho estranho sem estar mal posicionado. O mesmo filme responde pelas complicações da punção: pneumotórax, hemotórax, hematoma extrapleural e hematoma mediastinal.

Cateter de artéria pulmonar. A ponta deve estar na artéria pulmonar direita ou esquerda, sem se estender aos ramos interlobares — no filme, não além de 2 cm de distância do hilo pulmonar. Um cateter que avançou demais pode causar infarto pulmonar e, mais raramente, dissecção da artéria pulmonar.

Dreno de tórax. A posição correta depende do objetivo, e essa é a parte que se erra ao ler. Para pneumotórax, o dreno pode ser mais alto e deve cursar lateral e superiormente, com a extremidade próxima da região apical. Para derrame, pode ser inserido mais baixo, com trajeto posterior e inferior e extremidade em projeção basal ou lateral. Em derrame loculado ou septado, o dreno precisa cursar através das coleções. O orifício proximal — o último furo lateral do tubo — tem de estar dentro do tórax, medialmente à borda interna das costelas; se estiver fora, a inserção está incompleta e o sistema não sela. Dreno que parou de drenar ar ou líquido é mau posicionamento até prova em contrário: pode estar no subcutâneo, interfissural, intrapulmonar, acotovelado sobre si mesmo, entupido por coágulo ou com a ponta justaposta ao mediastino ou à parede.

Marca-passo e cardiodesfibrilador. O marca-passo definitivo mais comum tem dois cabos finos e uniformes, um com extremidade em átrio direito e outro em ventrículo direito; na terapia de ressincronização há um terceiro, que cursa pelo seio coronariano até uma veia cardíaca esquerda ou tem posição epicárdica. O cardiodesfibrilador tem gerador maior e um cabo heterogêneo, com uma mola na porção distal e extremidade em ventrículo direito. O que se procura no filme é fratura ou deslocamento de cabo, que costumam ser fáceis de ver, e a ponta que se estende além da borda cardíaca, que indica perfuração miocárdica.

E há tudo que está por cima do paciente e não dentro dele: eletrodos e fios de monitorização, conexões do circuito do ventilador, sondas apoiadas sobre o tórax, o cateter de derivação ventriculoperitoneal que cursa no subcutâneo da parede. Nada disso é lesão, e reconhecê-los existe para não confundi-los com corpo estranho ou com alteração torácica. A regra oposta também vale: um dispositivo ou instrumento que você não esperava encontrar ali — uma compressa com fio radiopaco, uma agulha, um afastador — em paciente operado é suspeita de corpo estranho esquecido, e isso se investiga, não se ignora.

Passo 2 — Via aérea central e mediastino: a coluna de ar e as linhas

A traqueia é uma coluna de ar vertical, escura, que desce pela linha média e se bifurca na carina. Ela é o marcador mais sensível de desvio do mediastino, e o sentido do desvio responde uma pergunta que decide conduta: o que está no hemitórax opaco empurra ou puxa? Processo que ocupa volume — derrame volumoso, pneumotórax hipertensivo, massa grande — empurra a traqueia e o mediastino para o lado contrário. Processo que perde volume — atelectasia, ressecção, fibrose retrátil — puxa para o mesmo lado. É a diferença entre drenar e broncoscopar.

Procure também estreitamento e compressão da coluna aérea, especialmente na altura do tubo endotraqueal e do balonete: hiperinsuflação do balonete acima de uma vez e meia o diâmetro da traqueia normal é o mecanismo principal da estenose traqueal tardia, e em casos mais graves pode chegar à ruptura. A estenose já instalada não se diagnostica na radiografia — quem faz isso é a tomografia, com fase expiratória ou estudo dinâmico quando há suspeita de traqueomalácia. O que a radiografia faz é levantar a suspeita e mostrar o balonete distendido.

O mediastino se avalia por contornos, não por impressão. Quando as linhas mediastinais estão abauladas, caracteriza-se o alargamento, mais comumente visto no aspecto superior e anterior. Ele pode ser benigno — timo na criança, ingurgitamento dos vasos da base no exame anteroposterior — ou representar massa: timoma, teratoma, bócio mergulhante, linfoma. Duas referências ajudam a localizar: a janela aortopulmonar, à esquerda, entre o arco aórtico e a artéria pulmonar; e o recesso ázigo-esofágico, à direita. Apagamento ou abaulamento dessas regiões aponta para linfonodomegalia ou massa daquele compartimento.

Dois sinais deste passo valem por si. O sinal cervicotorácico separa mediastino anterior de posterior: se o alargamento é mal definido acima do nível da clavícula, a lesão provavelmente é anterior, porque faz sinal da silhueta com as partes moles do pescoço; se tem limite bem definido acima da clavícula, tende a ser posterior. E o sinal da borda incompleta indica que a opacidade é extrapulmonar: a margem voltada para o pulmão é bem delimitada, enquanto a voltada para a parede torácica ou para o mediastino tem limites imprecisos.

No filme de leito, este passo tem uma ressalva que precisa vir escrita. O alargamento do mediastino é um dos três achados que a incidência anteroposterior falsifica, junto com a área cardíaca e a trama vascular. Diante de um mediastino aparentemente largo num filme de leito, a pergunta não é qual massa é — é se existe um filme anterior na mesma incidência para comparar, e se o paciente tem alguma razão clínica para uma massa mediastinal. Sem uma dessas duas coisas, o achado não sustenta conduta.

Passo 3 — Coração, hilos e trama vascular

A área cardíaca se mede pelo índice cardiotorácico: o maior diâmetro transverso do coração dividido pelo diâmetro interno da caixa torácica no nível cardíaco. No adulto, é normal quando menor ou igual a 50% — e a definição carrega três condições que quase nunca se enunciam: aferido na imagem em posteroanterior, inspirada e em ortostase. Fora dessas três condições o índice não vale, o que exclui de uma vez todo filme de leito, todo filme expirado e todo filme feito sentado. Aplicar o corte de 50% a um exame anteroposterior é o erro mais frequente deste capítulo e o que gera mais prescrição desnecessária.

A silhueta cardiomediastinal se lê por arcos. À direita, o arco superior é a veia cava superior — ou, no idoso com aorta ectasiada, a aorta ascendente — e o inferior é o átrio direito. À esquerda são três: o superior é a aorta, o médio é o tronco pulmonar e o inferior é o ventrículo esquerdo. Alteração focal de um arco vale mais que a impressão geral de coração grande: o surgimento de um quarto arco à esquerda, com duplo contorno na silhueta cardíaca direita e deslocamento superior do brônquio fonte esquerdo, é a assinatura do aumento do átrio esquerdo. No perfil, a silhueta é delimitada à frente pelo ventrículo direito e pelo tronco pulmonar, e atrás pelas câmaras esquerdas e pela veia cava inferior.

Os hilos são estruturas vasculares, e o aumento deles se classifica em vascular ou não vascular. O aumento vascular — congestão, hipertensão pulmonar — tende a manter o aspecto anatômico e a densidade, com os vasos ainda individualizáveis. O aumento não vascular, por linfonodomegalia ou massa, tem contornos lobulados e pode alterar a atenuação. Dois sinais separam o que está no hilo do que está apenas projetado sobre ele: na convergência hilar, não se individualizam as estruturas normais do hilo, e a alteração é hilar; na sobreposição hilar, os vasos normais continuam visíveis através da opacidade, e a lesão é mediastinal, pleural ou pulmonar.

A trama vascular pulmonar normal é a imagem dos vasos, e não do interstício: o pulmão normal é radiotransparente, e o que se vê nele são os vasos fisiológicos. A redistribuição, também chamada de cefalização, ocorre quando os vasos dos lobos superiores ficam aumentados em número e calibre em relação aos dos lobos inferiores, e indica aumento da resistência vascular pulmonar, tipicamente na congestão da insuficiência cardíaca. Uma comparação prática é entre os vasos da região supra-hilar esquerda e os da infra-hilar direita. A ressalva pesa aqui de novo: o sinal é descrito na posteroanterior em ortostase, porque depende de a gravidade estar puxando o sangue para as bases. Num paciente deitado, a distribuição já é homogênea por posição, e chamar isso de cefalização é ler a maca.

A congestão tem um segundo marcador, mais confiável no leito porque não depende da postura: as opacidades intersticiais de padrão septal, as linhas de Kerley, que são linhas perpendiculares à superfície pleural representando espessamento do interstício interlobular — as mais comuns são as linhas B, basais, curtas, que tocam a pleura. Elas aparecem no edema pulmonar e na insuficiência cardíaca congestiva. O manejo da congestão e da insuficiência cardíaca descompensada pertence aos capítulos de cardiologia; aqui o que se decide é se a imagem sustenta ou não a hipótese que a clínica levantou.

Passo 4 — Pulmões: o vocabulário que a prescrição vai citar

Nomear certo não é preciosismo: o termo que você escreve é o que o próximo plantão vai ler sem ver a imagem. Existe consenso brasileiro e internacional sobre esses termos, e a divisão didática é simples — alterações que aumentam a atenuação, alterações que reduzem a atenuação, e alterações extrapulmonares. As primeiras deixam o pulmão mais branco; as segundas, mais escuro.

Opacidade é o termo genérico e inespecífico para qualquer imagem que atenua o feixe e fica mais branca. Use-o quando não conseguir caracterizar melhor — é honesto e é conferível. Consolidação é a principal opacidade alveolar: indica preenchimento do espaço aéreo, obscurece os vasos e a via aérea, tende a ser densa, homogênea e de limites imprecisos, e frequentemente traz broncograma aéreo. O que preenche o alvéolo pode ser transudato, exsudato, sangue, material gástrico aspirado, material necrótico ou tecido neoplásico — a consolidação diz o mecanismo, não a causa. Opacidade em vidro fosco é a versão menos densa: opacifica parcialmente sem obliterar a vasculatura, e no filme simples costuma ser difícil de afirmar.

Consolidação com sinais de perda de volume é atelectasia. Os sinais diretos de perda volumétrica são o deslocamento das fissuras, dos vasos e dos brônquios; os indiretos são elevação da cúpula diafragmática, desvio do mediastino para o lado e retração dos espaços intercostais. O mecanismo pode ser reabsorção, quando há obstrução do brônquio; compressão, por derrame; ou passiva, por pneumotórax. Distinguir consolidação de atelectasia muda a conduta imediata: uma pede antibiótico ou investigação de causa alveolar, a outra pede desobstrução — aspiração, fisioterapia, correção de tubo seletivo, e broncoscopia quando persiste.

As opacidades intersticiais têm quatro padrões, e vale tentar nomear um deles em vez de escrever infiltrado. Reticular é a coleção desorganizada de linhas com aspecto de rede, característica das doenças intersticiais fibrosantes. Nodular são inúmeras pequenas opacidades arredondadas ou ovaladas menores que 9 mm, ligadas às doenças granulomatosas — sarcoidose, silicose, tuberculose, fungos. Septal são as linhas de Kerley, do edema. Padrão miliar são nódulos menores que 3 mm, redondos, de distribuição difusa, homogênea e aleatória: difícil de ver no filme simples, mas de alta especificidade, e a principal hipótese diante dele é tuberculose, com histoplasmose no diferencial. O diagnóstico e o tratamento da tuberculose são do capítulo de infectologia; o padrão miliar reconhecido às três da manhã é o que faz o paciente ser isolado antes disso.

Nódulo e massa se separam por tamanho: nódulo é a opacidade bem delimitada, arredondada ou ovalada, que mede menos de 3,0 cm no maior diâmetro; massa é a lesão que mede mais de 3,0 cm. Nódulo isolado tem como principais hipóteses granuloma, neoplasia primária ou metastática e hamartoma; massa é suspeita de neoplasia, especialmente carcinoma broncogênico. Cavidade é imagem radiotransparente de paredes irregulares, comumente espessadas, que representa uma consolidação, nódulo ou massa que drenou para a via aérea — nível líquido dentro dela, em paciente com quadro infeccioso, favorece abscesso. Cisto e bolha são radiotransparências de paredes finas quase imperceptíveis: os cistos tendem a ser centrais e a bolha é periférica e ligada ao enfisema.

Dois sinais fecham a localização, e os dois foram construídos no passo do mecanismo. O sinal da silhueta diz o que está encostado em quê: consolidação que apaga o contorno cardíaco direito está no lobo médio, a que apaga o contorno cardíaco esquerdo está na língula, e a que apaga a cúpula diafragmática está no lobo inferior. O broncograma aéreo diz que a alteração é pulmonar e alveolar. Junte os dois e você localiza e caracteriza uma consolidação sem tomografia — o que basta para decidir a noite. Lembre a divisão lobar: o pulmão direito tem lobo superior, médio e inferior, separados pelas fissuras horizontal e oblíqua; o esquerdo tem superior, com a língula como parte dele, e inferior, separados pela fissura oblíqua. Quando só existe a imagem de frente, é mais honesto descrever a alteração em terço superior, médio ou inferior do hemitórax do que arriscar um lobo.

Passo 5 — Pleura, diafragma e seios: onde o ar e a água vão parar

Os seios costofrênicos, lateral e posterior, são o principal marcador de doença pleural. A obliteração do seio pode ser por derrame, por espessamento, ou pelos dois, e a radiografia em posteroanterior e perfil nem sempre separa um do outro — nem diz a causa do derrame. Na presença de derrame livre e do paciente de pé, aparece o sinal do menisco: obliteração homogênea com aspecto côncavo, que quando identificado indica líquido livre.

Deitado, esse sinal some. É a consequência prática mais subestimada do filme de leito: o líquido escorre para trás, se distribui em lâmina posterior e produz um véu difuso sobre todo o hemitórax, com transparência reduzida de forma homogênea e sem nível nenhum. Um derrame que de pé desenharia um menisco evidente pode, deitado, parecer apenas um pulmão um pouco mais opaco que o outro — ou seja, exatamente igual a um erro de centralização. Quando a diferença de transparência entre os hemitórax não tem explicação técnica, e a pergunta é derrame, a resposta rápida não é outro raio X: é o ultrassom à beira do leito, que responde em segundos e sem radiação. O que ele mostra e o que não mostra está no capítulo Ultrassom à beira do leito: o que o interno precisa reconhecer, nesta apostila.

O pneumotórax obedece à mesma física ao contrário. De pé, o ar sobe para o ápice e desenha a linha da pleura visceral, com hipertransparência periférica e ausência da vasculatura pulmonar além dessa linha, principalmente na periferia e no aspecto superior. Deitado, o ar vai para a região anterior e para o recesso costofrênico anterior, e o achado deixa de ser uma linha apical: passa a ser o sinal do sulco profundo, com o seio costofrênico lateral hipertransparente e com aspecto mais profundo que o habitual. Procurar linha no ápice de um filme deitado é procurar no lugar errado. Para detectar pneumotórax, o ideal é o exame em posteroanterior com o paciente em ortostase, e a persistência da dúvida pode justificar ultrassom ou TC, sem radiografia expiratória de rotina.

O pneumotórax hipertensivo tem sinais próprios: aumento dos espaços intercostais, desvio contralateral do mediastino e rebaixamento da cúpula diafragmática ipsilateral. Vale escrever a frase inteira, porque ela é a mais importante do capítulo: pneumotórax hipertensivo é diagnóstico clínico e o tratamento não espera imagem. Se o paciente está hipotenso, com dispneia grave e hemitórax silencioso, a descompressão vem antes do filme. O manejo está no capítulo de trauma torácico com risco iminente de morte; aqui a regra é saber que a radiografia entra depois, para documentar e para conferir o dreno.

Ar em dois outros lugares aparece neste passo. O pneumomediastino, no filme anteroposterior de paciente deitado ou sentado, produz o sinal do diafragma contínuo: uma linha horizontal radiotransparente que atravessa a linha média superiormente ao diafragma, abaixo do coração — porque o ar mediastinal separa o coração do diafragma e deixa visível a porção central do músculo, que normalmente se confunde com a silhueta cardíaca. E o pneumoperitônio, que aparece como ar livre subdiafragmático quando o exame é feito em ortostase, e que numa radiografia de tórax de um paciente com dor abdominal é achado que muda o destino do paciente para o centro cirúrgico — a conduta está no capítulo Úlcera péptica perfurada e pneumoperitônio, na apostila de Urgência e Emergência Cirúrgica, e a leitura do ar livre no filme de abdome, em Radiografia de abdome: o que procurar e o que ela não mostra, nesta apostila.

Por fim, a opacificação de todo um hemitórax, que é o achado mais dramático deste passo e o que mais se resolve com um único olhar. O diferencial principal tem dois lados: derrame pleural volumoso, com efeito de volume e desvio do mediastino para o lado contrário; e atelectasia pulmonar, com perda de volume e desvio das estruturas para o mesmo lado. Um pede drenagem, o outro pede desobstrução — e olhar para onde a traqueia foi resolve a dúvida em dois segundos.

Passo 6 — A moldura, o abdome e o exame anterior

Sobra o que fica em volta, e é onde se encontra o que ninguém procurava. Nas partes moles, avaliam-se pele, subcutâneo, músculos e mamas: calcificações, assimetria mamária e, o achado que importa no plantão, enfisema subcutâneo — que num paciente com dreno, com punção central recente ou com trauma é o sinal de que existe ar escapando para onde não deveria. As alterações do abdome superior e da região cervical que aparecerem no filme também se descrevem aqui.

No arcabouço ósseo, avaliam-se coluna, arcos costais, clavículas e ossos dos ombros. Mais comumente se encontram alterações degenerativas e fraturas, e por vezes lesões suspeitas. Duas coisas justificam olhar de propósito: fratura de arco costal em paciente que caiu ou foi reanimado explica dor e pode explicar pneumotórax; e lesão lítica ou blástica num arco costal, num paciente que veio por outra coisa, é achado que muda a investigação inteira. Vale lembrar que o arco costal aparece em dois momentos na imagem de frente, com o aspecto posterior mais alto e o anterior mais baixo, e que a contagem para julgar inspiração usa os posteriores.

No andar superior do abdome, procure a bolha gástrica à esquerda e a opacidade do fígado à direita, e conte-as como referência de lateralidade — situs invertido existe e aparece assim. Ar livre subdiafragmático, distensão de alças visíveis abaixo do diafragma e a posição da sonda gástrica são as três coisas que essa faixa da imagem responde.

Termine naquilo que custa menos e se faz menos: buscar e comparar com o exame anterior. A comparação não custa nada, não expõe ninguém e muda a categoria do achado — uma opacidade basal que existia igual há duas semanas é outra coisa que a mesma opacidade que apareceu ontem. Procure o exame anterior no prontuário eletrônico, no arquivo do serviço e, quando o paciente veio transferido, na papelada que veio com ele. Compare, nesta ordem, o que menos depende de geometria: a posição dos dispositivos, as opacidades pulmonares, a pleura e os seios, e só então o mediastino e a área cardíaca — e estes dois últimos apenas se a incidência for a mesma.

Quando não existe exame anterior, que é a situação mais comum, a leitura não termina: ela troca de eixo. O filme de hoje vira o marco zero deste paciente, e o que restará comparar é o de amanhã contra este. Registre no prontuário a data, a hora, a incidência e a postura em que foi feito — não porque é burocracia, mas porque sem essas quatro informações o próximo médico não tem como saber se a diferença que ele vai ver é do paciente ou da maca.

07

Os seis passos, as medidas dos dispositivos e os padrões que decidem a noite

Aprenda a formular uma pergunta para a radiografia, avaliar suas limitações e reconhecer achados que exigem ação imediata.

  1. 10. Antes de interpretar, julgue o filme: qual incidência, com o paciente em que postura, com que penetração, que inspiração e que alinhamento. Filme com técnica ruim não é anormal — é um filme que responde a menos perguntas.
  2. 21. Aparatos: tubo, cânula, sondas, cateteres, dreno, cabos. Meça a distância do tubo à carina e confira a ponta de cada dispositivo. É o passo com maior chance de mudar a conduta agora.
  3. 32. Via aérea e mediastino: a traqueia está na linha média? Para onde ela foi? Empurrada (ocupação) ou puxada (perda de volume)? As linhas mediastinais estão abauladas?
  4. 43. Coração e hilos: os arcos estão preservados? O índice cardiotorácico só vale em posteroanterior, inspirada e de pé. Os hilos aumentaram — e o aumento é vascular ou lobulado?
  5. 54. Pulmões, comparando um lado com o outro na mesma altura: aumento de atenuação (consolidação, vidro fosco, padrão reticular, nodular, septal ou miliar, nódulo, massa) ou redução (cisto, bolha, cavidade, bronquiectasia)?
  6. 65. Sinal da silhueta e broncograma aéreo: o que a opacidade apaga diz onde ela está; o broncograma diz que ela é alveolar. Descreva por lobo quando tiver duas incidências; por terço do hemitórax quando tiver uma só.
  7. 76. Pleura, cúpulas e seios: menisco (paciente de pé) ou véu difuso (deitado) para derrame; linha apical (de pé) ou sulco profundo (deitado) para pneumotórax; diafragma contínuo para pneumomediastino; ar subdiafragmático para pneumoperitônio.
  8. 87. Hemitórax opaco: olhe a traqueia. Desviada para o lado contrário é derrame volumoso; desviada para o mesmo lado é atelectasia.
  9. 98. Moldura: partes moles (enfisema subcutâneo), arcabouço ósseo (fraturas, lesões), abdome superior (bolha gástrica, ar livre).
  10. 109. Compare com o exame anterior da mesma incidência, e registre no prontuário a data, a hora, a incidência e a postura — depois escreva o laudo dizendo o que você mediu, não o que você achou.
PassoO que procurarReferência de normalidadeO que a alteração significa
1 · AparatosPonta e trajeto de tubo, cânula, sondas, cateteres, dreno e cabosCada dispositivo na posição da tabela específica adianteMau posicionamento foi o achado que mais mudou conduta no estudo brasileiro de terapia intensiva (12 de 13 casos), e frequentemente não é clinicamente evidente
2 · Via aérea e mediastinoColuna aérea traqueal, carina, linhas e contornos mediastinaisTraqueia na linha média; linhas mediastinais retas ou levemente côncavasDesvio contralateral = ocupação de volume (derrame volumoso, pneumotórax hipertensivo, massa). Desvio ipsilateral = perda de volume (atelectasia). Abaulamento = massa ou linfonodomegalia — e, no filme anteroposterior, ampliação geométrica
3 · Coração e hilosArcos da silhueta, índice cardiotorácico, volume e natureza do hilo, trama vascularÍndice cardiotorácico até 50% (só em posteroanterior, inspirada e em ortostase); hilos com vasos individualizáveisQuarto arco à esquerda com duplo contorno à direita = aumento do átrio esquerdo. Hilo lobulado = linfonodomegalia ou massa. Cefalização e linhas de Kerley = congestão — a cefalização só é interpretável de pé
4 · PulmõesAtenuação comparada lado a lado na mesma alturaPulmão radiotransparente, com apenas os vasos visíveisConsolidação com broncograma = preenchimento alveolar. Perda de volume associada = atelectasia. Padrão septal = edema. Padrão miliar = tuberculose até prova em contrário. Nódulo abaixo de 3,0 cm; massa acima
5 · Pleura e diafragmaSeios costofrênicos, linha pleural, contorno das cúpulasSeios livres e agudos; cúpula direita mais alta que a esquerda na maioria das pessoasMenisco = derrame livre (de pé). Véu homogêneo do hemitórax = derrame em lâmina (deitado). Linha pleural apical (de pé) ou sulco profundo (deitado) = pneumotórax. Diafragma contínuo = pneumomediastino
6 · Moldura e comparaçãoPartes moles, ossos, abdome superior e o exame anteriorSem enfisema subcutâneo, sem fratura, bolha gástrica à esquerda, sem ar livre subdiafragmáticoEnfisema subcutâneo após punção, dreno ou trauma indica escape de ar. Ar livre subdiafragmático em ortostase é pneumoperitônio. Achado que já existia no exame anterior rebaixa a urgência de quase tudo

Os três parâmetros técnicos: como conferir e o que cada falha falsifica

ParâmetroComo se confereAceitávelO que a falha inventa
Penetração (regime de dose)Procurar a coluna torácica através da sombra cardíacaVertebras visíveis apenas no terço superior, de T1 a T3Avalie se a imagem permite distinguir estruturas retrocardíacas, com coluna torácica discretamente visível através da silhueta cardíaca, sem perda de detalhes. Ver apenas T1–T3 não comprova penetração adequada. Na radiografia digital, brilho e janela não medem a dose recebida: ajuste a apresentação, mas isso não recupera informação perdida por ruído ou saturação.
InspiraçãoContar arcos costais posteriores sobre o campo pulmonar direito9 a 11 arcos costais posterioresMenos de 9: falsa cardiomegalia, trama aparentemente exuberante, opacidades basais e mediastino alargado — quatro achados falsos que imitam congestão. Prejudica também a caracterização de doença pleural
AlinhamentoComparar a distância das bordas mediais das clavículas ao processo espinhoso no mesmo nível; conferir se a coluna está equidistante das margens da imagemClavículas equidistantes; escápulas fora dos campos pulmonares; coluna centradaRotação: mediastino aparentemente alargado ou desviado, hilo aparentemente aumentado do lado da rotação, assimetria de transparência entre os hemitórax. Descentralização: um hemitórax mais penetrado que o outro, invalidando a comparação lado a lado
Incidência e postura (a quarta pergunta)Ler a marcação do exame e perguntar à equipe como o paciente estavaPosteroanterior e perfil, de pé, em inspiração profundaAnteroposterior: coração ampliado, mediastino alargado, opacidades anteriores (lobo médio e língula) prejudicadas. Deitado: trama vascular não interpretável, derrame em lâmina sem menisco, pneumotórax deslocado para a região anterior

Posição correta dos dispositivos, e o que o desvio provoca

DispositivoPosição correta no filmeReferência que se usaConsequência do mau posicionamento
Tubo orotraquealExtremidade no terço médio da traqueia torácica, a cerca de 5 cm da carina — não menos que 3, não mais que 7Carina; exame com a cabeça em posição neutra, porque flexão ou extensão mudam a posição do tubo em até 2 cmAlto: extubação, ventilação ineficiente, distensão gástrica, lesão de cordas vocais. Baixo: intubação seletiva (mais comumente do brônquio fonte direito), com atelectasia contralateral e risco de pneumotórax por hiperinsuflação. No esôfago: tubo lateral à coluna aérea ou abaixo da carina, com distensão aérea do estômago
Cânula de traqueostomiaPonta aproximadamente na metade da distância entre a estomia e a carinaEstomia e carina; independe da posição da cabeçaEnfisema subcutâneo discreto e pequeno pneumomediastino logo após o procedimento podem ser esperados e sem repercussão. Estenose pode ocorrer no nível do traqueostoma
Sonda gástricaAntes do primeiro uso, confirmar todo o trajeto e a ponta por método validado para a sonda. Na confirmação radiográfica da gástrica, exigir percurso esofágico, passagem pelo diafragma e ponta suficientemente distal à junção esofagogástrica, com orifícios de infusão intragástricos. Ponta apenas além da cárdia não basta. Se a intenção é pós-pilórica, demonstrar passagem pelo piloro e posição duodenal/jejunal apropriada; estar à direita da linha média isoladamente não confirma. Anatomia operada e hérnia hiatal exigem interpretação específica.Cúpula diafragmática e bolha gástrica; ponta radiopacaEnrolada na faringe ou no esôfago (mais comum); na árvore traqueobrônquica; perfuração com a ponta em pulmão, pleura ou mediastino. Derrame, alargamento mediastinal, pneumotórax ou pneumomediastino de aparecimento rápido após dieta ou medicação levantam a suspeita
Sonda entéricaConfirmar posição pós-pilórica duodenal/jejunal conforme indicação e anatomia; localização à direita da linha média não é condição suficiente nem universal.Linha média e projeção duodenalMesmas do item anterior. Confira antes se há hérnia hiatal volumosa, má rotação ou cirurgia prévia do trato gastrointestinal alto, que mudam a anatomia esperada
Cateter venoso centralPonta em projeção da veia cava superior, abaixo da primeira costela anterior e logo acima do contorno do átrio direitoPrimeira costela anterior e contorno atrial direitoIntra-atrial: risco de arritmia, ruptura miocárdica e tamponamento. Trajeto aberrante para cava inferior, ázigos ou ventrículo direito. O mesmo filme responde por pneumotórax, hemotórax e hematoma extrapleural ou mediastinal da punção
Cateter de artéria pulmonarPonta na artéria pulmonar direita ou esquerda, sem alcançar ramos interlobares — não além de 2 cm do hiloHilo pulmonarAvanço excessivo: infarto pulmonar e, mais raramente, dissecção da artéria pulmonar
Dreno de tóraxPneumotórax: trajeto lateral e superior, extremidade próxima ao ápice. Derrame: trajeto posterior e inferior, extremidade basal ou lateral. Derrame loculado: através das coleçõesBorda interna das costelas — o orifício proximal precisa estar medial a elaOrifício proximal fora do tórax = inserção incompleta. Subcutâneo, interfissural, intrapulmonar ou acotovelado = drenagem ineficaz. Laceração pulmonar pode gerar hematoma, infarto e fístula broncopleural
Marca-passo e cardiodesfibriladorMarca-passo: dois cabos finos, um em átrio e outro em ventrículo direito; um terceiro cabo na ressincronização. Cardiodesfibrilador: cabo com mola distal e extremidade em ventrículo direitoContorno das câmaras direitas e borda cardíacaFratura ou deslocamento de cabo, geralmente visíveis. Ponta além da borda cardíaca indica perfuração miocárdica

Padrões que mudam a conduta nas próximas horas

PadrãoComo se reconhece no filmeO que significaO que dispara
Pneumotórax hipertensivoHipertransparência com aumento dos espaços intercostais, desvio contralateral do mediastino e rebaixamento da cúpula ipsilateralAr sob pressão comprimindo o mediastino e o retorno venosoO diagnóstico é clínico e a descompressão não espera imagem. O filme documenta e confere o dreno — o manejo está no capítulo de trauma torácico com risco iminente de morte
Pneumotórax no paciente deitadoSinal do sulco profundo: seio costofrênico lateral hipertransparente e mais profundo que o habitual, sem linha pleural apicalAr acumulado na região anterior e no recesso costofrênico anterior, porque o paciente está em decúbitoSe estável, esclarecer com ultrassom, radiografia inspiratória apropriada ou TC conforme dúvida. Tratar pela repercussão, contexto e suporte ventilatório; deterioração compatível com tensão não espera imagem.
PneumomediastinoSinal do diafragma contínuo: linha horizontal radiotransparente atravessando a linha média acima do diafragma e abaixo do coraçãoAr no mediastino, por barotrauma, procedimento de via aérea, laceração traqueal ou perfuração esofágicaRever ventilação e procedimentos recentes; tomografia quando há suspeita de laceração traqueal ou perfuração esofágica
Tubo em brônquio fonteExtremidade além da carina, com atelectasia do pulmão contralateral e desvio do mediastino para o lado colabadoUm pulmão inteiro fora da ventilação, e o outro recebendo todo o volume correnteTracionar o tubo à beira do leito e refazer o filme; verificar pneumotórax contralateral por hiperinsuflação
Sonda digestiva na via aéreaTrajeto ou ponta projetados sobre brônquio ou campo pulmonar, em vez de cruzar o diafragma até o estômagoDieta e medicação sendo administradas no pulmãoSuspender a dieta imediatamente, retirar a sonda e reavaliar; procurar consolidação, derrame, pneumotórax e pneumomediastino de aparecimento novo
Opacificação de hemitóraxTodo o hemitórax opaco; a traqueia diz o restoDesvio contralateral = derrame volumoso. Desvio ipsilateral = atelectasiaDerrame: toracocentese ou drenagem conforme volume e clínica. Atelectasia: desobstruir — aspirar, corrigir tubo seletivo, fisioterapia, e broncoscopia se persistir
Consolidação com broncograma aéreoÁrea densa e homogênea de limites imprecisos, com brônquios aéreos ramificados dentro, apagando o contorno vizinho (sinal da silhueta)Preenchimento do espaço aéreo: infecção, edema, sangue, aspiração, infarto ou tumorA imagem localiza e caracteriza; quem decide destino e antibiótico é o capítulo de pneumonia adquirida na comunidade, e a gravidade é clínica
Padrão septal (linhas de Kerley)Linhas curtas perpendiculares à pleura, mais evidentes nas basesEspessamento do interstício interlobular por edemaSustenta a hipótese de congestão mesmo no filme deitado, em que a cefalização não é interpretável — conduta nos capítulos de insuficiência cardíaca e edema agudo de pulmão
Padrão miliarNódulos menores que 3 mm, difusos, homogêneos e de distribuição aleatóriaAlta especificidade; a principal hipótese é tuberculose, com histoplasmose no diferencialIsolamento respiratório antes de qualquer outra coisa; investigação e esquema no capítulo de tuberculose
Ar livre subdiafragmáticoFaixa radiotransparente entre a cúpula diafragmática e o fígado, em exame feito em ortostasePneumoperitônioAvaliação cirúrgica imediata — a conduta está no capítulo de dor abdominal no pronto-socorro
Massa ou nódulo achado por acasoOpacidade bem delimitada; nódulo abaixo de 3,0 cm, massa acimaGranuloma, neoplasia primária ou metastática, hamartoma; massa é suspeita de carcinoma broncogênicoNão é achado de madrugada, e não se resolve com outro raio X: registrar no sumário de alta com a data do exame e encaminhar para tomografia. Nenhum capítulo deste nível assume o câncer de pulmão, e é este capítulo que garante que o achado não se perca

Todas as medidas em centímetros deste capítulo são medidas na imagem, e a imagem amplia. Como o feixe diverge, a sombra de uma estrutura é sempre maior que a estrutura, e o exagero cresce com a distância dela até o detector. Isso não invalida a régua do tubo orotraqueal, porque tubo e carina estão praticamente no mesmo plano e são ampliados na mesma proporção; invalida, sim, comparar o diâmetro do coração entre um exame de pé e outro de leito.

O índice cardiotorácico normal de até 50% no adulto é definido com três condições explícitas — posteroanterior, inspirada e em ortostase. As três estão ausentes no filme de leito. Isso não é uma ressalva de rodapé: é a razão de a cardiomegalia ser o falso achado mais prescrito do plantão.

A tabela nacional de dose tem uma lacuna que vale conhecer. O Anexo II da Instrução Normativa nº 90/2021 traz valores de dose de entrada na pele para tórax em posteroanterior (0,4 mGy) e em perfil (1,4 mGy), e traz linhas em anteroposterior para coluna lombar, abdome, pelve, bacia, coluna torácica e crânio. Não há linha para tórax em anteroposterior — justamente a incidência do exame de leito, que foi 425 dos 447 exames de imagem no estudo brasileiro de terapia intensiva. O valor de referência nacional não cobre a incidência que o paciente internado mais recebe.

Duas linhas da mesma tabela nacional de dose descrevem a mesma região com nomes diferentes e o mesmo valor: pelve em anteroposterior, 10 mGy, e bacia em anteroposterior, 10 mGy. Em português, bacia e pelve nomeiam a mesma estrutura, e a tabela não define qual exame cada linha designa.

Ainda no Anexo II da mesma Instrução Normativa, uma linha traz colecistectomia entre os exames com dose de entrada na pele: abdome, urografia e colecistectomia, em anteroposterior, 10 mGy. Colecistectomia é uma operação, e operação não tem dose de entrada na pele. O termo que a linha descreve é colecistografia, que é o exame radiográfico contrastado da vesícula. É uma troca de sufixo que transforma um exame de imagem numa operação dentro de uma norma em vigor. As demais linhas da tabela foram conferidas e são coerentes entre si.

A Resolução nº 611/2022 declara, no artigo 3º, que as definições de justificação, otimização, limitação de dose, nível de referência de diagnóstico e outras são as estabelecidas pela Comissão Nacional de Energia Nuclear. A norma da comissão que carrega essas definições, a NN 3.01, foi integralmente reescrita e renomeada pela Resolução CNEN 323, publicada em abril de 2024 — dois anos depois. Na prática, as definições que sustentam a norma sanitária de 2022 mudaram de redação sem que uma palavra da resolução sanitária mudasse. É leitura deste capítulo, não afirmação de nenhum dos dois documentos.

Na mesma norma da comissão nuclear, o artigo 54 estabelece que os limites de dose nela previstos não se aplicam às exposições médicas de pacientes. Não existe, portanto, teto de dose para o paciente que faz exames: o que limita o número de radiografias de um internado não é um número de miligrays, é a exigência de justificação de cada exposição. E o artigo 153 registra que, para instalações reguladas por outra autoridade — o radiodiagnóstico médico é regulado pela vigilância sanitária —, os artigos daquela norma valem como diretrizes. A norma que obriga no hospital é a Resolução nº 611.

A numeração final da norma NN 3.01 na versão de 2024 tem um defeito verificável: depois do artigo 152, que trata do caráter geral da norma, e do artigo 153, que trata das instalações reguladas por outras autoridades, vem um segundo artigo numerado como 152 — justamente o que revoga doze Posições Regulatórias. O artigo que revoga é o que repete o número.

O estudo brasileiro de terapia intensiva de 2012 foi conferido linha a linha. As contagens fecham: 337 exames normais mais 71 com alteração pleuropulmonar, 13 com dispositivo mal posicionado e 4 outros somam os 425 exames; 425 divididos por 106 pacientes dão os 4,01 exames por paciente relatados; 337 em 425 dão os 79,3% de exames normais; e todas as linhas da tabela de indicação clínica somam 100%. Uma célula não fecha: na tabela de conduta, a linha das alterações pleuropulmonares traz 29 exames com conduta mantida (40,8%) e 42 com conduta alterada, impressos como 69,2% — mas 42 de 71 são 59,2%, e os dois percentuais da linha somam 110%. O número correto é 59,2%, e o valor impresso reaparece no texto corrido do artigo.

Ainda nesse estudo, a conclusão do corpo do artigo afirma que a maior parte das radiografias consideradas anormais pelo intensivista não levou a alteração de conduta. Pela própria tabela do artigo, entre os 88 exames alterados, 57 mudaram a conduta e 31 não — ou seja, 64,8% mudaram. O resumo do mesmo artigo traz o número certo pelo avesso, ao dizer que 35,2% das alteradas não suscitaram alteração de conduta. A conclusão contradiz a tabela e o resumo do próprio trabalho; o que o estudo sustenta é que o filme normal quase nunca muda conduta, não que o filme alterado não mude.

Duas definições de tamanho do suplemento brasileiro usado neste capítulo deixam um valor órfão: nódulo é a opacidade que mede menos de 3,0 cm e massa é a que mede mais de 3,0 cm. Fica de fora, sem classe, o diâmetro de 3,0 cm exatos. Na prática de plantão, descreva a medida em vez do rótulo — três centímetros no maior diâmetro é uma informação que ninguém precisa reclassificar.

Duas conferências internas do mesmo suplemento não fecharam. No texto sobre sinais radiológicos, o sinal é apresentado como pico justafrênico no título e como pico epifrênico na legenda da figura correspondente; e o exercício final pede a correlação de quatro itens — sinal da cauda de cometa, split pleura, atelectasia redonda e empiema — que não são descritos em nenhum ponto do texto. No texto sobre dispositivos, o exercício final pede a correlação do balão intra-aórtico, que também não aparece no corpo do artigo. São defeitos de material didático, não de conteúdo clínico, e não afetam as medidas usadas aqui.

08

A conduta, hora a hora

Uma radiografia só vale o transporte do aparelho se terminar em decisão. A lista abaixo traduz achado em ação, na ordem em que as coisas acontecem numa noite de enfermaria — e o que ela decide, na maioria das vezes, é o que se faz com um tubo, com uma sonda, com um dreno e com o próximo pedido de exame.

Nenhum tratamento é reescrito aqui. A pneumonia pertence ao capítulo de pneumonia adquirida na comunidade; a congestão, aos capítulos de insuficiência cardíaca e de edema agudo de pulmão; o pneumotórax e o trauma, ao capítulo de trauma torácico com risco iminente de morte; a tuberculose, ao capítulo de tuberculose; e a dessaturação, enquanto síndrome, ao capítulo de dessaturação aguda na enfermaria. O que este capítulo prescreve é o que a imagem obriga a fazer com o dispositivo, com o próximo exame e com o registro.

  1. Antes de olhar — os quinze segundos de julgamento técnico

    Metade dos erros deste exame acontece antes da interpretação. Um filme feito em expiração, rodado, mal penetrado ou numa incidência que você não conferiu não é um exame anormal: é um exame que responde a menos perguntas do que você vai pedir a ele. Julgar primeiro custa quinze segundos e evita a maior parte das prescrições erradas da madrugada.

    Prescrição
    • Conferir nome, data e hora na imagem, e a qual incidência ela corresponde — o exame do vizinho de enfermaria é um erro banal e frequente.
    • Perguntar à equipe como o paciente estava: de pé, sentado ou deitado. Essa informação não vem escrita na imagem e muda o que se pode concluir sobre coração, mediastino, trama e derrame.
    • Avalie se a imagem permite distinguir estruturas retrocardíacas, com coluna torácica discretamente visível através da silhueta cardíaca, sem perda de detalhes. Ver apenas T1–T3 não comprova penetração adequada. Na radiografia digital, brilho e janela não medem a dose recebida: ajuste a apresentação, mas isso não recupera informação perdida por ruído ou saturação. Conferir inspiração, rotação, projeção e postura; a contagem de costelas é aproximada e deve acompanhar a avaliação global.
    • Se a penetração está ruim numa imagem digital, ajustar a janela na estação de trabalho antes de pedir outro filme — corrigir depois do exame reduz a necessidade de repetir e de expor o paciente de novo.
  2. Minuto 0 — a extremidade do tubo orotraqueal fora da faixa

    Tubo muito baixo ou alto exige avaliação imediata com a equipe responsável pela via aérea. No adulto com cabeça neutra, cerca de 5 cm acima da carina é referência aproximada, ajustada à anatomia. O interno participa sob supervisão; não manipula sozinho um dispositivo crítico. Monitorar ventilação e capnografia, além da ausculta, durante correção.

    Prescrição
    • Medir a distância da extremidade do tubo à carina e registrar o número no prontuário, junto com a posição da cabeça no momento do exame.
    • Extremidade além da carina, com atelectasia contralateral: tracionar o tubo à beira do leito sob ausculta, refixar, anotar o novo nível na marcação centimétrica do tubo e repetir a imagem.
    • Extremidade acima de 7 cm da carina em paciente instável: reposicionar sob ausculta e vigiar extubação inadvertida durante o transporte e a mudança de decúbito.
    • Suspeita de posição esofágica exige avaliação imediata da via aérea e capnografia com curva. Radiografia não é o método inicial para confirmar intubação traqueal e não deve atrasar correção. Tubo abaixo da carina pode estar seletivo, e distensão gástrica não define posição esofágica sozinha.
    • Balonete aparentemente distendido levanta suspeita; medir pressão com manômetro e ajustar conforme protocolo, mantendo vedação e ventilação. Não esvaziar apenas pela dimensão projetada na radiografia.
  3. Minuto 0 — ar onde não deveria haver ar

    Pneumotórax hipertensivo é diagnóstico clínico, e a descompressão não espera imagem: hipotensão, dispneia grave e hemitórax silencioso bastam. A radiografia entra depois, para documentar e para conferir o dreno. O que a imagem decide sozinha é o pneumotórax que não está tensionando — e, no paciente deitado, ela só decide se você procurar no lugar certo.

    Prescrição
    • No paciente deitado, procurar o sinal do sulco profundo — seio costofrênico lateral hipertransparente e mais profundo que o habitual — antes de procurar linha pleural apical.
    • Em paciente estável com dúvida de pneumotórax, usar ultrassom por examinador capacitado, radiografia inspiratória em ortostase quando viável ou TC se a incerteza relevante persistir. Radiografia expiratória não é exame adicional de rotina.
    • Diante de enfisema subcutâneo novo, de pneumomediastino ou do sinal do diafragma contínuo, revisar procedimentos recentes de via aérea e os parâmetros de ventilação, pelo risco de barotrauma e de laceração traqueal.
    • Ar livre subdiafragmático em exame feito em ortostase: chamar a cirurgia imediatamente, sem repetir o exame.
    • Registrar sempre a postura em que a imagem foi obtida, porque ausência de pneumotórax num filme deitado não é exclusão de pneumotórax.
  4. Minuto 5 — a sonda digestiva no lugar errado

    É o achado mais silencioso da lista e o que mais produz dano cumulativo: a dieta corre por horas antes de alguém desconfiar. A checagem tem de acontecer antes da primeira administração, e a radiografia é o método que responde. Suspeitar depois, quando o paciente já dessaturou, ainda salva — mas o dano começou.

    Prescrição
    • Antes do primeiro uso, confirmar todo o trajeto e a ponta por método validado para a sonda. Na confirmação radiográfica da gástrica, exigir percurso esofágico, passagem pelo diafragma e ponta suficientemente distal à junção esofagogástrica, com orifícios de infusão intragástricos. Ponta apenas além da cárdia não basta. Se a intenção é pós-pilórica, demonstrar passagem pelo piloro e posição duodenal/jejunal apropriada; estar à direita da linha média isoladamente não confirma. Anatomia operada e hérnia hiatal exigem interpretação específica.
    • Trajeto ou ponta projetados sobre brônquio ou campo pulmonar: suspender a dieta imediatamente, retirar a sonda e reavaliar o paciente antes de qualquer nova tentativa.
    • Quando o trajeto for ambíguo, pedir uma segunda incidência antes de liberar a dieta — duas incidências ajudam a confirmar a suspeita.
    • Derrame pleural, alargamento mediastinal, pneumotórax ou pneumomediastino que apareceram depois do início da dieta: tratar como suspeita de sonda fora do tubo digestivo até prova em contrário.
    • Antes de julgar a posição, conferir se o paciente tem hérnia hiatal volumosa, má rotação intestinal ou cirurgia prévia do trato gastrointestinal alto — a escolha e a progressão da via alternativa de alimentação estão no capítulo de dieta hospitalar.
  5. Minuto 10 — cateter central e dreno de tórax

    Confirmar localização venosa, trajeto e ponta antes de uso conforme técnica/protocolo. Radiografia é muito útil após acesso torácico quando não há confirmação adequada por outro método e para suspeita de complicação; não é obrigatória após toda punção central, incluindo femoral. Trajeto aberrante pode ser malposição, punção arterial, perfuração ou variante anatômica. Não injetar contraste como teste improvisado nem retirar cegamente um cateter de grande calibre possivelmente arterial: interromper uso e obter avaliação experiente/imagem apropriada.

    Prescrição
    • Cateter central: confirmar a ponta em projeção da veia cava superior, abaixo da primeira costela anterior e logo acima do contorno do átrio direito; recuar o cateter intra-atrial antes de usar.
    • No mesmo filme, procurar ativamente pneumotórax, hemotórax e hematoma extrapleural ou mediastinal do lado puncionado.
    • Confirmar localização venosa, trajeto e ponta antes de uso conforme técnica/protocolo. Radiografia é muito útil após acesso torácico quando não há confirmação adequada por outro método e para suspeita de complicação; não é obrigatória após toda punção central, incluindo femoral. Trajeto aberrante pode ser malposição, punção arterial, perfuração ou variante anatômica. Não injetar contraste como teste improvisado nem retirar cegamente um cateter de grande calibre possivelmente arterial: interromper uso e obter avaliação experiente/imagem apropriada.
    • Dreno para pneumotórax: conferir trajeto lateral e superior com extremidade próxima ao ápice. Dreno para derrame: trajeto posterior e inferior com extremidade basal ou lateral.
    • Em qualquer dreno, conferir se o orifício proximal está medial à borda interna das costelas. Dreno que parou de drenar é mau posicionamento até prova em contrário — subcutâneo, interfissural, intrapulmonar, acotovelado ou entupido.
    • Cateter de artéria pulmonar com a ponta a mais de 2 cm do hilo: recuar, pelo risco de infarto pulmonar.
  6. Hora 1 — o hemitórax opaco e a pleura

    O hemitórax opaco é uma descrição. Desvio contralateral sugere aumento de volume e ipsilateral sugere perda; ausência de desvio pode ocorrer em consolidação ou em combinações de derrame e atelectasia. Não indicar drenagem apenas pela direção da traqueia: correlacionar com clínica e ultrassom pleural.

    Prescrição
    • Olhar para onde a traqueia foi: desviada para o lado contrário à opacidade é ocupação de volume (derrame volumoso); desviada para o mesmo lado é perda de volume (atelectasia).
    • Derrame: definir volume e loculação antes de puncionar — ultrassom à beira do leito quando disponível, ou decúbito lateral com raios horizontais sobre o lado suspeito para ver se o líquido escorre.
    • Líquido que não escorre ou escorre só em parte no decúbito lateral indica derrame septado ou loculado: a avaliação segue com ultrassonografia ou tomografia, e o dreno precisa cursar através das coleções.
    • Atelectasia: desobstruir. Aspirar via aérea, corrigir tubo seletivo, iniciar fisioterapia respiratória e considerar broncoscopia quando persiste apesar dessas medidas.
    • No filme de leito, lembrar que derrame se apresenta como véu difuso do hemitórax, sem menisco: diferença de transparência entre os hemitórax sem explicação técnica é indicação de ultrassom, não de repetir o raio X.
  7. Hora 2 — o filme normal no paciente que continua mal

    A radiografia normal é o resultado mais frequente do plantão — quase oito em cada dez, no estudo brasileiro — e é o que mais se confunde com exclusão. Ela exclui pouca coisa: não exclui embolia pulmonar, não exclui pneumonia nas primeiras horas nem no desidratado, não exclui isquemia, não exclui derrame pequeno no paciente deitado, não exclui pneumotórax anterior, e nunca disse nada sobre a via aérea distal. O que fazer diante dela é mudar de método, não repetir o mesmo.

    Prescrição
    • Escrever no prontuário radiografia sem alterações às três e trinta, em anteroposterior de leito — e não radiografia normal. A frase com hora e incidência é conferível; a outra encerra o raciocínio de quem vier depois.
    • Diante de dispneia ou dessaturação com filme normal, seguir pela clínica e por outros métodos: ultrassom à beira do leito para pleura e para pneumotórax anterior, e tomografia quando a pergunta é embolia, dissecção, laceração traqueal, abscesso ou doença intersticial.
    • Tomografia também é o passo quando a radiografia mostra alteração que ela não consegue caracterizar: massa, cavidade complexa, derrame loculado, suspeita de perfuração esofágica ou de corpo estranho intratorácico.
    • Nódulo ou massa achados por acaso não se resolvem de madrugada nem com outro raio X: registrar no prontuário e no sumário de alta com a data do exame, e encaminhar para tomografia ambulatorial com prazo definido.
    • Repetir quando a evolução temporal, a intervenção ou a limitação técnica tornar provável uma resposta útil. Uma mesma hipótese pode justificar controle em outro momento; a imagem não é necessariamente idêntica se a doença evoluiu.
  8. Antes de pedir outro exame — formule a pergunta clínica

    Solicite o exame quando seu resultado puder orientar cuidado. Rotinas indiscriminadas na admissão ou todo dia na pneumonia estável acrescentam exposição, deslocamento e achados incidentais sem benefício demonstrado. Prefira uma indicação explícita e leve em conta exames anteriores.

    Prescrição
    • Escrever no campo de indicação clínica a pergunta que o exame deve responder, e não o motivo da internação. Conferir posição de sonda nasoenteral responde alguma coisa; controle não responde nada.
    • Não pedir radiografia de tórax de rotina para fins de internação hospitalar: a norma proíbe expressamente, ressalvando apenas o caso em que haja justificativa no contexto clínico e considerados possíveis métodos alternativos.
    • Nenhum procedimento radiológico pode ser realizado a menos que solicitado por profissional legalmente habilitado — o pedido verbal no corredor não é pedido, e a equipe de radiologia tem obrigação de recusá-lo.
    • Radiografia com equipamento móvel em leito hospitalar ou em ambiente coletivo de internação, como terapia intensiva e berçário, só é permitida quando for inexequível ou clinicamente inaceitável transferir o paciente para instalação com equipamento fixo. Se o paciente pode descer, o exame é melhor lá embaixo.
    • Quando o exame for feito no leito, garantir que os outros pacientes que não puderem ser removidos do ambiente estejam protegidos por barreira de no mínimo 0,5 mm equivalente de chumbo, ou a distância suficiente do cabeçote e do receptor — a obrigação é do serviço, e quem está na enfermaria é você.
    • Acompanhante segurando o paciente só quando for imprescindível para conter, confortar ou ajudar, em caráter voluntário, com proteção individual de no mínimo 0,25 mm equivalente de chumbo — e nunca gestante ou menor de 18 anos.
09

Como saber se está funcionando

A radiografia seriada é útil quando existe uma pergunta nova, e é desperdício quando existe apenas um horário. Comparar exige quatro coincidências: o mesmo paciente, a mesma incidência, a mesma postura e as duas imagens abertas lado a lado. Faltando qualquer uma, o que muda entre um filme e outro pode não ter saído do doente.

A lista abaixo traz, para cada item, em que momento repetir, qual resultado antecipar e como reagir quando ele não vem. Repare que quase todos têm um gatilho — alguma coisa mudou no paciente, ou alguma coisa foi feita nele — e que nenhum tem como gatilho o relógio.

Posição do tubo orotraqueal após tração ou reposicionamentoImediatamente após a manobra, e sempre que houver mudança do padrão ventilatório, dessaturação nova ou assimetria de ausculta

Esperado: Extremidade a cerca de 5 cm da carina, dentro da faixa de 3 a 7, com reexpansão do pulmão que estava colabado

Se não melhora: Pulmão que não reexpande com o tubo já corrigido levanta rolha de secreção, corpo estranho ou obstrução brônquica proximal, e passa a ser indicação de aspiração dirigida e de broncoscopia. Reavaliar também pneumotórax contralateral, que pode ter surgido pela hiperinsuflação durante o período de intubação seletiva.

Posição da sonda digestiva após nova passagemAntes de liberar a primeira dieta ou medicação, e sempre que houver vômito, tosse durante a infusão, dessaturação ou saída de dieta pela cavidade oral

Esperado: Antes do primeiro uso, confirmar todo o trajeto e a ponta por método validado para a sonda. Na confirmação radiográfica da gástrica, exigir percurso esofágico, passagem pelo diafragma e ponta suficientemente distal à junção esofagogástrica, com orifícios de infusão intragástricos. Ponta apenas além da cárdia não basta. Se a intenção é pós-pilórica, demonstrar passagem pelo piloro e posição duodenal/jejunal apropriada; estar à direita da linha média isoladamente não confirma. Anatomia operada e hérnia hiatal exigem interpretação específica.

Se não melhora: Sonda que não progride além do esôfago após duas tentativas não se insiste às cegas. Sonda cuja posição continua ambígua depois de duas incidências não libera dieta. E o aparecimento de derrame, alargamento mediastinal ou pneumotórax depois de iniciada a infusão obriga a suspender tudo e reavaliar antes de repor a sonda.

Drenagem torácica em cursoApós a colocação, após qualquer reposicionamento, e sempre que o dreno parar de oscilar, borbulhar ou drenar

Esperado: Reexpansão progressiva do pulmão, redução do volume de líquido ou de ar, e extremidade e orifício proximal na posição correta para o objetivo da drenagem

Se não melhora: Dreno que parou de drenar é mau posicionamento até prova em contrário: procurar trajeto subcutâneo, interfissural ou intrapulmonar, acotovelamento sobre si mesmo, entupimento por coágulo ou debris, e oclusão da ponta por justaposição ao mediastino ou à parede. Duas incidências ajudam; tomografia quando persiste a dúvida. Pulmão que não reexpande com dreno funcionante levanta fístula broncopleural e pulmão encarcerado.

Congestão pulmonar após diuréticoQuando a resposta clínica não acompanha o esperado, e não como controle diário programado

Esperado: Redução das linhas septais, do derrame e das opacidades alveolares, acompanhando a melhora do trabalho respiratório e do balanço hídrico

Se não melhora: A imagem melhora depois do paciente, não antes — e no filme de leito a cefalização não é interpretável, o que deixa como parâmetros confiáveis apenas as linhas septais e o derrame. Congestão que não regride com resposta diurética adequada muda a pergunta para causa não cardiogênica, e a conduta segue nos capítulos de insuficiência cardíaca aguda descompensada e de edema agudo de pulmão.

Consolidação em tratamentoSó quando houver piora clínica, febre persistente após o prazo esperado de resposta, ou suspeita de complicação — não como controle de cura

Esperado: Estabilidade ou regressão lenta; a imagem resolve semanas depois da melhora clínica, e a defasagem é a regra

Se não melhora: Aumento da opacidade, aparecimento de cavidade com nível líquido ou de derrame novo levanta abscesso e empiema, e nesse ponto a tomografia com contraste é o exame que responde. Consolidação que não regride em paciente que melhorou clinicamente não pede antibiótico novo; pede investigação de causa não infecciosa, incluindo neoplasia obstrutiva.

Filme de controle após procedimento à beira do leitoApós intubação, traqueostomia, passagem de sonda, punção venosa central e drenagem torácica

Esperado: Dispositivo na posição correta e ausência de complicação da punção

Se não melhora: No estudo brasileiro de terapia intensiva, entre 95 radiografias pedidas como controle após procedimento, 81,0% foram normais e apenas 5,3% mostraram dispositivo mal posicionado — proporção que não diferiu estatisticamente da dos exames pedidos por rotina. O exame vale quando o procedimento foi difícil, quando o paciente mudou, ou quando o dispositivo vai receber dieta, droga ou sucção. Fora disso, essa é uma das indicações em disputa, tratada no bloco de divergências.

Comparação com o exame anteriorEm toda leitura, sem abrir exceção; ir atrás do exame antigo é parte do atendimento, não tarefa opcional

Esperado: Imagem sobreponível à anterior, o que derruba a urgência da maior parte dos achados crônicos

Se não melhora: Sem exame anterior, o de hoje vira a linha de base: registre data, hora, incidência e postura. Quando o exame anterior existe mas foi feito em outra incidência ou outra postura, compare apenas o que não depende de geometria — dispositivos, consolidações, pleura — e não compare área cardíaca, mediastino nem trama vascular.

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Onde o erro machuca

Aplicar ao filme de leito as réguas do filme de pé

O dano: É o erro mais frequente e o mais caro em prescrição. O índice cardiotorácico de 50% é definido para posteroanterior, inspirada e em ortostase, e nenhuma das três condições existe no leito; o mediastino do exame anteroposterior alarga por geometria e por ingurgitamento dos vasos da base; a redistribuição da trama é um sinal descrito em ortostase e depende da gravidade. O resultado é um paciente que recebe diurético, restrição hídrica e ecocardiograma por causa de uma cardiomegalia que é a distância entre o coração e o detector.

Como pegar a tempo: Antes de medir qualquer coisa do coração e do mediastino, pergunte a incidência e a postura. Se for anteroposterior de leito, essas três perguntas ficam sem resposta e o registro deve dizer isso com todas as letras: área cardíaca não avaliável nesta incidência. Para congestão, use os parâmetros que não dependem de postura — linhas septais e derrame — e a clínica.

Chamar de doença o que é técnica

O dano: Um filme expirado produz, ao mesmo tempo, falsa cardiomegalia, trama aparentemente exuberante, opacidades basais e mediastino largo. Um filme rodado produz mediastino alargado ou desviado, hilo aparentemente aumentado e assimetria de transparência entre os hemitórax. Um filme pouco penetrado deixa as bases opacas; um muito penetrado apaga consolidação, derrame pequeno e nódulo. Cada uma dessas falhas tem uma doença correspondente que ela imita, e todas elas geram exame adicional e prescrição.

Como pegar a tempo: Conte os arcos costais posteriores antes de olhar o pulmão, procure a coluna através do coração, e compare a distância das duas clavículas ao processo espinhoso. São três conferências de poucos segundos e elas ordenam tudo que vem depois. Diante de qualquer assimetria entre os hemitórax, a primeira hipótese é técnica, não doença.

Procurar o pneumotórax e o derrame onde eles ficam no paciente de pé

O dano: No paciente deitado, o ar sobe para a região anterior e para o recesso costofrênico anterior, e o líquido se espalha em lâmina posterior. Quem procura linha pleural no ápice e menisco no seio costofrênico não encontra nem um nem outro, e escreve ausência de pneumotórax e ausência de derrame num exame que não podia excluir nenhum dos dois. É assim que se libera para transporte um paciente com pneumotórax anterior e se atrasa a toracocentese de um derrame de meio litro.

Como pegar a tempo: No filme deitado, procure o sinal do sulco profundo para ar e o véu difuso do hemitórax para líquido. Registre a impossibilidade em vez da exclusão: sem sinais de pneumotórax nesta incidência é diferente de sem pneumotórax. Quando a pergunta é pleura e o paciente está deitado, o ultrassom à beira do leito responde melhor, mais rápido e sem radiação.

Deixar os dispositivos por último, ou por conta da enfermagem

O dano: É a inversão de prioridade mais cara do plantão. Dispositivo mal posicionado apareceu em pouco mais de 3% das radiografias de terapia intensiva no estudo brasileiro e mudou a conduta em 92,3% das vezes em que apareceu — nenhuma outra categoria de achado chega perto. E o mau posicionamento frequentemente não é clinicamente evidente: o paciente com sonda no brônquio não avisa, e o cateter intra-atrial só se manifesta quando arritmia.

Como pegar a tempo: Comece a leitura pelos aparatos, sempre, e descreva-os no início do laudo — é onde o próprio roteiro de laudo brasileiro os coloca. Escreva a medida, não o adjetivo: extremidade do tubo a 4,5 cm da carina, ponta do cateter em projeção da veia cava superior. A conferência é ato médico e não delega.

Pedir o exame por rotina, e chamar isso de controle

O dano: Metade dos exames de imagem daquela unidade brasileira foi pedida como checagem de admissão e rotina, e o rendimento dessa metade foi baixo: oito em cada dez normais, e entre os normais praticamente nenhum mudou a conduta. Além do desperdício, há a questão legal — a norma sanitária em vigor proíbe expressamente o exame de rotina de tórax para fins de internação hospitalar sem justificativa clínica, e proíbe toda exposição que não possa ser justificada.

Como pegar a tempo: Antes de assinar o pedido, escreva a pergunta que o exame vai responder e confira se a resposta muda alguma coisa hoje. Se a resposta for igual nos dois cenários possíveis, o exame não tem indicação. E prefira o método que responde sem radiação quando ele responde melhor — ultrassom para pleura, e o exame físico para o que o exame físico já resolve.

Tratar a radiografia normal como exclusão

O dano: A radiografia normal foi o resultado de 79,3% dos exames naquela série. Ela não exclui embolia pulmonar, não exclui pneumonia nas primeiras horas, não exclui derrame pequeno nem pneumotórax anterior no paciente deitado, e não diz nada sobre a via aérea distal nem sobre a perfusão. Escrever radiografia normal como frase final de um raciocínio transfere para a imagem uma decisão que ela não tomou.

Como pegar a tempo: Registre sempre com hora, incidência e postura, e trate o exame como um teste que confirma, não como um teste que exclui. Diante de paciente que continua mal com filme normal, mude de método em vez de repetir o mesmo — ultrassom à beira do leito, tomografia quando a pergunta exige — e reavalie a hipótese clínica antes de reavaliar a imagem.

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O que dizer ao paciente e à família

A radiografia é o exame de imagem que o paciente e a família mais reconhecem pelo nome, e é sobre ele que se faz a pergunta mais direta do plantão: deu alguma coisa no raio X? Responder bem exige duas coisas que costumam faltar juntas — não prometer mais do que o exame entrega, e não desqualificar um exame que ainda vai ser lido por outra pessoa.

Explicando por que vai fazer a radiografia no leito, e não descer com o paciente

Vou pedir um raio X aqui mesmo no quarto, com um aparelho que sobe até a cama. A imagem que sai daqui é menos boa do que a que sairia lá embaixo, com o senhor de pé — mas descer agora significa tirar o senhor do oxigênio e do monitor por uns vinte minutos, e nesse momento isso é mais arriscado do que a imagem ser pior. Assim que o senhor melhorar, se ainda for preciso, a gente faz o exame direito lá embaixo.

Não diga: É só uma radiografiazinha de rotina. Chamar de rotina um exame que expõe o paciente e que tem norma própria de indicação é o começo do hábito que este capítulo inteiro tenta desfazer.

A família pergunta se tanto raio X faz mal

É uma boa pergunta e eu vou responder com números. A radiografia de tórax é a que usa menos radiação de todos os exames de raio X que existem — bem menos que uma do abdome ou da coluna. O que a gente evita não é o risco da dose, é pedir exame que não vai mudar nada no tratamento. Por isso eu só peço quando tem uma pergunta para responder, e eu escrevo essa pergunta no pedido.

Não diga: Não faz mal nenhum, pode fazer quantas quiser. Não é verdade, e ainda desmonta a única explicação boa que existe para não pedir o exame de amanhã.

O paciente pergunta se deu alguma coisa no exame, e o filme está normal

O raio X de agora não mostrou alteração. Isso é uma boa notícia, mas quero ser claro sobre o que ele responde: ele mostra bem pulmão e coração numa foto só, deste momento e nesta posição. Tem coisa que não aparece nele, e o senhor continua com falta de ar — então a investigação não para aqui. Vou repetir o exame se alguma coisa mudar, e já vou pedir outro tipo de exame para responder o que este não responde.

Não diga: O raio X está limpo, o pulmão do senhor está bom. É a frase que promove um exame incapaz de excluir seja o que for à condição de autorização para ir embora.

Comunicando que uma sonda ou um cateter estava fora do lugar

O exame mostrou que a sonda que passamos ontem não estava no estômago, e por isso eu suspendi a alimentação e retirei a sonda agora. Isso acontece porque a sonda é passada às cegas, e por isso é rotina conferir com o raio X antes de usar. O senhor pode ter uma reação nos próximos dias por causa do que já entrou, e a gente vai ficar de olho nisso. Vamos passar outra sonda e conferir de novo antes de começar a dieta.

Não diga: Foi só um desencontro, já está tudo resolvido. Minimizar tira da família a informação de que existe uma vigilância em curso, e é ela que vai perceber a piora à noite.

Pedindo ao técnico para refazer o exame

Consegue refazer esse com o paciente mais sentado e pedindo para ele encher bem o peito de ar? Neste aqui deu para contar sete arcos costais e ele está um pouco rodado, e do jeito que ficou eu não consigo responder se o coração está grande. Para o que eu preciso agora, que é ver o pulmão e a posição da sonda, esse já serve — mas se der para melhorar antes de eu decidir sobre o coração, ajuda muito.

Não diga: Esse exame não presta, faz outro. Além de descortês, é errado: um filme com técnica ruim quase sempre continua respondendo a algumas perguntas, e vale dizer quais.

Passando o caso ao plantonista que assume, ou ao radiologista pelo telefone

Radiografia de tórax das três e meia, anteroposterior, no leito, paciente semissentado, pouco inspirada, com sete arcos posteriores e discreta rotação à direita. Sonda nasoenteral com a extremidade projetada sobre brônquio lobar inferior direito; dieta suspensa e sonda retirada às três e cinquenta. Opacidade heterogênea em terço inferior do hemitórax direito, apagando a cúpula diafragmática, com broncograma. Área cardíaca e mediastino não avaliáveis nesta incidência. Não há exame anterior no prontuário; este é o primeiro.

Não diga: Fiz um raio X e deu uma pneumonia à direita. A frase esconde a incidência, a técnica, o achado que mudou a conduta e a ausência de comparação — e obriga o próximo médico a começar do zero.

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Onde bons médicos discordam

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.

Radiografia diária de rotina no paciente crítico, ou radiografia sob demanda clínica

Radiografia diária no paciente com suporte cardiovascular ou ventilação mecânica

Nos pacientes criticamente doentes, com suporte cardiovascular ou ventilação mecânica, recomenda-se a realização diária da radiografia de tórax, além do exame imediato em todos os que receberam tubo endotraqueal, sonda de alimentação, cateter vascular ou dreno de tórax. A justificativa declarada é que o mau posicionamento desses dispositivos pode levar a complicações sérias que muitas vezes não são clinicamente evidentes — ou seja, o paciente não avisa, e o intervalo entre a checagem e a próxima é o tempo em que o dano corre solto.

Wada DT, Rodrigues JAH, Santos MK, radiologia torácica do Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto, suplemento sobre radiografia simples de tórax, Medicina (Ribeirão Preto), 2019, apoiado nos critérios de adequação do American College of Radiology para pacientes em terapia intensiva, de 2015.

Exame pedido por justificativa clínica, sem protocolo de horário

Dados brasileiros de uma unidade de terapia intensiva universitária mostram rendimento baixo do exame pedido por hábito: 79,3% das 425 radiografias foram interpretadas como normais, e entre as normais 99,4% não mudaram a conduta; cerca de metade dos pedidos entrou como checagem de admissão e rotina. A norma sanitária vai na mesma direção e é mais dura: a Resolução nº 611/2022 proíbe toda exposição que não possa ser justificada e determina que os procedimentos sejam os mínimos necessários para atingir o objetivo pretendido, considerando informações prévias capazes de evitar exames adicionais desnecessários.

Ruza GC, Moritz RD, Machado FO, Revista Brasileira de Terapia Intensiva, 2012; e Agência Nacional de Vigilância Sanitária, Resolução da Diretoria Colegiada nº 611, de 9 de março de 2022, artigos 35, 43 e 79.

Como decidir

As duas posições não disputam o mesmo paciente. A primeira protege o paciente instrumentado, em que o exame é a única vigilância de um dispositivo que não dá sinal clínico; a segunda protege o paciente estável, em que o exame diário só produz filme normal. Diante do paciente que está no leito, a pergunta que resolve é uma: mudou alguma coisa nele, ou foi feita alguma coisa nele, desde o último exame? Se um dispositivo foi passado, tracionado, reposicionado ou vai começar a receber dieta, droga ou sucção, peça. Se o paciente piorou — dessaturou, febre nova, mudou o padrão ventilatório, mudou a ausculta —, peça. Se a resposta às duas perguntas é não, o exame de amanhã de manhã não tem indicação, e a norma exige que a indicação exista por escrito. E, seja qual for a escolha, registre no pedido a pergunta a ser respondida: é ela que o serviço de radiologia precisa para cumprir a norma, e é ela que o próximo plantão precisa para saber por que o exame foi feito.

Filme de controle obrigatório após todo procedimento à beira do leito, ou seletivo

Controle imediato após todo dispositivo, sem exceção

A recomendação é de exame imediato para todos os pacientes submetidos à colocação de tubo endotraqueal, sonda de alimentação, cateter vascular e dreno de tórax, e Confirmar localização venosa, trajeto e ponta antes de uso conforme técnica/protocolo. Radiografia é muito útil após acesso torácico quando não há confirmação adequada por outro método e para suspeita de complicação; não é obrigatória após toda punção central, incluindo femoral. Trajeto aberrante pode ser malposição, punção arterial, perfuração ou variante anatômica. Não injetar contraste como teste improvisado nem retirar cegamente um cateter de grande calibre possivelmente arterial: interromper uso e obter avaliação experiente/imagem apropriada.. O argumento é o mesmo que sustenta o filme diário: o mau posicionamento não é clinicamente evidente, e as complicações da punção — pneumotórax, hemotórax, hematoma extrapleural e mediastinal — podem se manifestar horas depois do procedimento tecnicamente bem-sucedido.

Wada DT, Rodrigues JAH, Santos MK, suplemento sobre radiografia simples de tórax, Medicina (Ribeirão Preto), 2019.

Controle quando o procedimento ou o paciente levantam dúvida

Na série brasileira, das 95 radiografias pedidas como controle após procedimento, 81,0% foram normais e apenas 5,3% mostraram dispositivo mal posicionado — e a proporção de alterações nesse grupo não diferiu estatisticamente da dos exames pedidos por rotina de internação. A leitura dos autores é de que exames normais depois de procedimento indicam que a técnica foi adequada, e que a solicitação deveria basear-se em justificativa clínica e na possibilidade de o resultado mudar a conduta.

Ruza GC, Moritz RD, Machado FO, Revista Brasileira de Terapia Intensiva, 2012.

Como decidir

A decisão muda com o que o dispositivo vai fazer em seguida, e não com o nome dele. Dispositivo que vai receber substância — sonda que vai receber dieta ou medicação, cateter que vai receber droga vasoativa ou nutrição parenteral — precisa de confirmação de posição antes do primeiro uso, porque o dano de errar é imediato e irreversível. Dispositivo cuja falha se manifesta clinicamente e depressa, como um acesso periférico, não precisa. No meio ficam os casos em que o procedimento foi difícil, houve mais de uma tentativa, o paciente ficou sintomático durante ou depois, ou a punção foi em local com risco de pneumotórax: nesses, o filme responde a uma pergunta real. A pergunta que resolve a maioria dos casos à beira do leito é uma só — o que eu faria de diferente se este exame viesse alterado? Se a resposta é nada, não peça; se é suspender a dieta, recuar o cateter ou drenar, peça agora.

Fazer o exame no leito, ou levar o paciente ao equipamento fixo

O leito é exceção, e a norma escreve isso

A realização de procedimentos radiológicos com equipamentos móveis em leitos hospitalares ou em ambientes coletivos de internação, como unidades de terapia intensiva e berçários, somente é permitida quando for inexequível ou clinicamente inaceitável transferir o paciente para instalação com equipamento fixo. A mesma norma proíbe utilizar equipamento móvel como se fosse fixo, exceto em condições temporárias de urgência ou emergência mediante parecer do responsável técnico, e impõe ao serviço proteger os demais pacientes do ambiente com barreira de pelo menos 0,5 mm equivalente de chumbo ou distância suficiente. Do lado da imagem, o argumento é o mesmo: a incidência anteroposterior tem pior qualidade e prejudica a avaliação da área cardíaca, da trama vascular e das opacidades anteriores.

Agência Nacional de Vigilância Sanitária, Resolução da Diretoria Colegiada nº 611, de 9 de março de 2022, artigos 60, 61 e 81; e Wada DT e cols., Medicina (Ribeirão Preto), 2019, sobre a qualidade da incidência anteroposterior.

O transporte tem risco próprio, e ele não é pequeno

O paciente internado em terapia intensiva está restrito ao leito, incapacitado de assumir as posturas que permitem as incidências específicas, e seu transporte até o serviço de radiologia requer planejamento, recursos humanos e pode gerar risco adicional. A má qualidade do exame de leito é reconhecida e tem causas conhecidas — a incidência com o paciente deitado, a menor distância entre o foco e o receptor de imagem, as deficiências técnicas dos aparelhos móveis —, mas é o preço de não desconectar um paciente instável do oxigênio, do monitor e das bombas.

Ruza GC, Moritz RD, Machado FO, Revista Brasileira de Terapia Intensiva, 2012, com a discussão sobre qualidade do exame no leito.

Como decidir

A norma não permite escolher pelo conforto da equipe, e a clínica não permite escolher pela qualidade da imagem quando o transporte é perigoso — as duas restrições se aplicam ao mesmo paciente e o critério que resta é o que a pergunta exige. Se a pergunta é a posição de um dispositivo, a presença de consolidação ou a comparação com um filme anterior de leito, a incidência anteroposterior responde e o transporte não se justifica. Se a pergunta é o tamanho do coração, a existência e o volume de um derrame, ou a exclusão de pneumotórax, o exame de leito não responde — e aí a escolha real não é entre leito e sala de raio X, é entre esperar o paciente estabilizar, descer com equipe e monitorização, ou usar o ultrassom à beira do leito, que responde a duas dessas três perguntas sem sair do quarto. Registre a razão da escolha no prontuário: quando o exame for feito no leito, a norma exige que a impossibilidade ou a inaceitabilidade clínica do transporte seja o motivo, e é o médico assistente quem sabe disso.

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O raciocínio, em voz alta

Volte ao senhor Ademilson Curvelo, 68 anos, 64 quilos, quinto dia de internação por doença cerebrovascular com disfagia, sonda nasoenteral passada ontem à tarde e dieta iniciada às dezoito horas. Às três e dez da manhã dessaturou para 86% em ar ambiente, taquipneico, febre de 38,1, tosse nova. A imagem está na tela: anteroposterior, feita no leito, paciente semissentado, três e trinta e cinco da manhã. Não há radiologista no hospital e o laudo da telerradiologia chega em até doze horas. Vamos ler em ordem.

  1. passo 0 — o julgamento que vem antes de qualquer interpretação

    Nome e data conferem, e é o exame das três e trinta e cinco. A marcação diz anteroposterior, e a Dalvina confirma que ele estava semissentado, não deitado nem de pé. Penetração: a descrição de apenas T1–T3 não demonstra qualidade retrocardíaca adequada; confiro janela e detalhes antes de julgar essa região. Inspiração: conto sete arcos costais posteriores à direita, abaixo dos nove necessários; o exame está pouco inspirado. Alinhamento: a clavícula direita está mais perto do processo espinhoso que a esquerda; ele está rodado à direita. Conclusão da etapa: este filme é válido, mas responde a menos perguntas do que eu ia perguntar. Área cardíaca, largura do mediastino e trama vascular saem da minha lista agora, antes que eu me convença delas.

  2. passo 1 — os aparatos, e é aqui que a madrugada muda

    Ele não tem tubo, não tem cateter central, não tem dreno. Tem uma sonda. Sigo o trajeto radiopaco desde a narina: desce pela linha média, cruza a região cervical, entra no tórax — e então, em vez de continuar descendo até cruzar o diafragma, ela desvia para a direita e a extremidade fica projetada sobre um ramo brônquico do lobo inferior direito. Nenhuma parte dela está abaixo do diafragma. A ponta não está no estômago nem no duodeno: está na árvore brônquica. A dieta correu por nove horas.

  3. o que sai da minha mão agora, com a leitura ainda pela metade

    Suspendo imediatamente toda infusão pela sonda, chamo o médico responsável e avalio via aérea, ventilação e perfusão. Ofereço oxigênio e monitorização, considerando aspiração e lesão pleural. A equipe remove a sonda mal posicionada com avaliação das complicações; em suspeita de perfuração, planeja a retirada de modo apropriado. Não aguardo o laudo tardio para iniciar suporte.

  4. passo 2 — via aérea e mediastino

    A traqueia desce na linha média e a carina está visível. Não há desvio para nenhum lado, o que já me diz uma coisa útil: seja o que for que está na base direita, não ocupa volume suficiente para empurrar o mediastino, nem retrai o suficiente para puxá-lo. As linhas mediastinais parecem cheias, mas ele está rodado e o exame é anteroposterior — os dois falsificam exatamente isso, e eu não vou concluir nada daí.

  5. passo 3 — coração e hilos

    O coração parece grande, ocupando bem mais da metade da largura do tórax. Não meço o índice cardiotorácico: o exame é anteroposterior, pouco inspirado e com o paciente semissentado, e as três condições da definição estão violadas de uma vez. Os hilos parecem densos, mas os vasos continuam individualizáveis dentro deles, o que favorece componente vascular, sem excluir massa ou linfonodomegalia. E não procuro cefalização: ela é um sinal de ortostase. Não há linhas septais nas bases. Escrevo: área cardíaca e trama vascular não avaliáveis nesta incidência; sem linhas septais.

  6. passo 4 — os pulmões

    Comparando os dois lados na mesma altura, há uma opacidade no terço inferior do hemitórax direito. Ela é heterogênea, de limites imprecisos, e tem dentro dela traços escuros ramificados — broncograma aéreo. Ela apaga o contorno da cúpula diafragmática direita, e não apaga o contorno cardíaco direito. Os dois sinais juntos dizem onde ela está: broncograma indica preenchimento alveolar, portanto é do pulmão e não da pleura; e o sinal da silhueta com o diafragma, e não com o coração, coloca a alteração no lobo inferior direito, e não no lobo médio. À esquerda o pulmão está limpo.

  7. passo 5 — pleura, diafragma e seios

    O seio costofrênico direito está obliterado, mas o contorno é reto e continua com a opacidade acima, sem menisco — e ele está semissentado, o que significa que um derrame de médio volume se apresentaria em lâmina e não desenharia menisco de qualquer forma. Não há sinal do sulco profundo dos dois lados, nem linha pleural apical, nem sinal do diafragma contínuo. Não há ar livre subdiafragmático. Registro: sem sinais de pneumotórax nesta incidência — que é diferente de sem pneumotórax.

  8. passo 6 — a moldura e a comparação

    Partes moles sem enfisema subcutâneo. Arcabouço ósseo com alterações degenerativas de coluna, sem fratura. Bolha gástrica presente à esquerda, sem ar livre subdiafragmático, sem distensão de alças visíveis. E aqui vem a informação que fecha o raciocínio: no prontuário existe uma radiografia da admissão, feita há cinco dias, também anteroposterior de leito — mesma incidência, portanto comparável. Nela não há opacidade nenhuma na base direita, e não há sonda. A alteração é nova, e apareceu no intervalo em que a sonda estava passada.

  9. o desfecho, e o que ele ensina

    Sonda nasoenteral com extremidade em ramo brônquico do lobo inferior direito e consolidação do lobo inferior direito, novas em relação ao exame da admissão, num paciente que recebeu dieta enteral por nove horas. Não é a pneumonia adquirida na comunidade que a frase rápida diria: é dieta no pulmão. A conduta é suspender e retirar a sonda, avaliar lesão por infusão e pneumonite, infecção secundária e complicações pleurais; se houver pneumonia bacteriana hospitalar, escolher tratamento pelo contexto e microbiologia, sem aplicar automaticamente esquema de pneumonia comunitária, reavaliar a via de alimentação com a equipe pela manhã, e conferir a próxima sonda com imagem antes da primeira dieta, o que é a rotina que faltou ontem. Repare no que fez o diagnóstico. Não foi reconhecer um padrão: foi seguir a ordem. Os três achados que o olho tinha visto primeiro — coração grande, mediastino largo, trama exuberante — eram pouco específicos por interferência técnica e não justificavam diagnóstico isoladamente. O achado que decidiu estava no passo 1, num objeto de plástico que ninguém considera doença. E a comparação com o exame da admissão, que custou dois cliques, transformou uma opacidade de significado incerto numa alteração nova e datada.

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Faça você

Agora é o leito 9. Dona Deuselina Serejo tem 74 anos, 58 quilos, está no terceiro dia de internação por pielonefrite e recebeu um cateter venoso central em veia subclávia direita às dezesseis horas, depois de duas tentativas, porque os acessos periféricos não seguravam mais a antibioticoterapia. Às vinte e duas e quarenta ela fica dispneica e a saturação cai para 89% em cateter nasal a 2 litros. Você pede uma radiografia. O exame chega às vinte e três horas: anteroposterior, paciente deitada, e a técnica avisa que ela não conseguiu segurar o ar. Está tudo à sua frente. Vértebras visíveis da primeira à terceira. Oito arcos costais posteriores à direita. Clavículas equidistantes do processo espinhoso. Cateter venoso central entrando à direita, com trajeto que atravessa a linha média e a extremidade projetada à esquerda da coluna, na altura da segunda costela. Traqueia na linha média. Seio costofrênico direito hipertransparente e mais profundo que o esquerdo. Ápices sem linha pleural visível. Cúpula diafragmática direita mais rebaixada que a esquerda. Sem opacidades pulmonares. Enfisema de partes moles na região supraclavicular direita. Área cardíaca aparentemente aumentada.

  1. passo 0 — o julgamento técnico

    Penetração possivelmente insuficiente: apenas o terço superior é descrito; conferir detalhes retrocardíacos e janela. Alinhamento adequado: clavículas equidistantes. Inspiração insuficiente: oito arcos costais posteriores, abaixo dos nove. Incidência anteroposterior, paciente deitada. Duas conclusões saem daqui antes de qualquer achado. A primeira: a área cardíaca aparentemente aumentada não entra no raciocínio, porque a incidência amplia o coração e a inspiração insuficiente o alarga de novo — duas causas somadas para o mesmo falso achado. A segunda, mais importante: neste filme, ar e líquido não estão onde estariam se ela estivesse de pé.

  2. passo 1 — os aparatos

    O cateter entrou pela subclávia direita, mas o trajeto cruza a linha média e a extremidade está à esquerda da coluna, na altura da segunda costela. Não está em projeção da veia cava superior, que fica à direita da linha média, abaixo da primeira costela anterior e logo acima do contorno do átrio direito. O trajeto descrito corresponde ao cateter que subiu ou cruzou para a veia braquiocefálica ou subclávia esquerda em vez de descer.

  3. passo 2 — via aérea e mediastino

    Traqueia centrada não exclui pneumotórax hipertensivo nem torna a situação segura. Dispneia nova e dessaturação após punção exigem avaliação imediata de ventilação e perfusão. A necessidade de descompressão é decidida pela repercussão clínica, sem aguardar deslocamento mediastinal.

  4. passos 3 e 4 — coração, hilos e pulmões

    Área cardíaca não avaliável, pelo que ficou estabelecido no passo 0. Hilos sem alteração descrita. Nenhuma opacidade pulmonar dos dois lados — sem consolidação, sem broncograma, sem linhas septais. A dispneia e a dessaturação não têm explicação parenquimatosa neste exame.

  5. passo 5 — pleura, diafragma e seios, onde o caso se resolve

    Seio costofrênico direito hipertransparente e mais profundo que o contralateral; cúpula direita rebaixada; nenhuma linha pleural nos ápices; enfisema de partes moles supraclavicular à direita, do mesmo lado da punção feita há sete horas. Junte o decúbito ao que já foi dito sobre gravidade e o achado se nomeia sozinho.

  6. passo 6 — a moldura e a comparação

    Enfisema de partes moles à direita, na topografia da punção. Não há descrição de fratura. Não existe radiografia anterior desta internação para comparar; a última imagem do prontuário é de outro serviço, de dois anos atrás.

  7. conduta

    — sua vez —

Ver como fecharíamos

O diagnóstico é pneumotórax direito, complicação da punção de subclávia realizada há sete horas, somado a mau posicionamento do cateter venoso central, cuja extremidade está em território braquiocefálico ou subclávio esquerdo em vez da veia cava superior. O que esconde o pneumotórax é a postura: com a paciente deitada, o ar não sobe para o ápice e não desenha a linha pleural que todo mundo procura — ele vai para a região anterior e para o recesso costofrênico anterior, e aparece como o sinal do sulco profundo, exatamente o seio costofrênico hipertransparente e mais profundo que o do outro lado, com a cúpula rebaixada. Procurar linha apical neste filme e concluir ausência de pneumotórax seria o erro clássico do capítulo. O enfisema de partes moles do mesmo lado da punção é a terceira peça, e ele data o evento. A conduta tem quatro frentes. Primeira: não usar o cateter mal posicionado para droga vasoativa nem para nutrição, e programar o reposicionamento ou a troca — antes de retirá-lo, considerar variante anatômica, como persistência de veia cava superior esquerda, mas também punção arterial ou perfuração; confirmar de modo dirigido pela equipe, sem injetar ou retirar cegamente. Segunda: avaliar a repercussão do pneumotórax à beira do leito, lembrando que pneumotórax hipertensivo é diagnóstico clínico e traqueia centrada não exclui tensão; a dessaturação já pede atendimento imediato, e estabilidade deve ser verificada, não presumida. Terceira: avaliar presença, extensão acessível e repercussão com o método adequado, sabendo que ultrassom não quantifica com precisão todo o volume — ultrassom à beira do leito, que responde em segundos e não exige mudar a paciente de posição, ou radiografia em posteroanterior com ela em ortostase se ela tolerar — e indicar a drenagem conforme volume e repercussão, com a técnica no capítulo de trauma torácico com risco iminente de morte. Quarta: manter oxigênio, monitorização e reavaliação clínica frequente, e refazer imagem após qualquer intervenção. Repare no que fez o diagnóstico: nenhum achado deste exame é visualmente dramático. Não há opacidade, não há desvio de mediastino, não há linha pleural. O caso foi resolvido por saber que o decúbito muda o lugar do ar, e por olhar os aparatos no primeiro passo em vez do último.

Gabarito da questão de abertura
Comentário

A ponta 1,5 cm acima da carina está baixa e pode migrar para um brônquio com flexão. Reposicionar de forma controlada com a equipe da via aérea e conferir resposta. Como a ponta descrita ainda é traqueal, a atelectasia esquerda não prova intubação seletiva no momento da imagem: considerar migração prévia, secreção ou outra obstrução. Persistência após correção exige investigação, incluindo broncoscopia quando indicada. Radiografia não substitui capnografia para confirmar ventilação traqueal.

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Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
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Plano de revisão

Em 7 dias

Explique o que uma radiografia AP pouco inspirada permite concluir nos dois casos e qual achado muda o cuidado primeiro.

Em 30 dias

Reconstrua o caso de dessaturação após sonda: suporte, interrupção da infusão, avaliação de lesão pulmonar e confirmação da próxima via.

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Agora atenda

Agora atenda: mulher de 71 anos, internada há seis dias por celulite de membro inferior, em antibiótico venoso, chama a equipe às duas e quarenta da manhã com falta de ar de início súbito e dor no peito ao respirar. A saturação está em 90% em ar ambiente, a frequência respiratória em 30 e a ausculta é simétrica. Você pede uma radiografia de tórax, que chega em anteroposterior de leito, pouco inspirada, e vem sem alterações. Conduza a partir daí: decida o que o exame respondeu, o que ele não respondeu, qual é o próximo método e o que você escreve no prontuário — inclusive a conversa com a filha, que quer saber por que o raio X não mostrou nada.