Clínica MédicaInterpretação de Exames à Beira do Leito

Ultrassom à beira do leito

O aparelho que cabe no bolso do jaleco responde, em minutos, perguntas de sim ou não — e erra justamente quando a pergunta que se faz a ele é outra. Este capítulo ensina as janelas que o interno precisa reconhecer, o que cada achado desloca na probabilidade e o que nenhuma imagem focada autoriza a concluir.

Fontes deste capítulo

Alcantara ML, Bernardo MPL, Beck ALS, Santos SN, Morhy SS, Lira Filho EB, et al. Posicionamento sobre o Uso do Ultrassom “Point of Care” (POCUS) na Medicina Cardiovascular – 2026. Departamento de Imagem Cardiovascular da Sociedade Brasileira de Cardiologia. Arquivos Brasileiros de Cardiologia. 2026;123(4):e20260222. DOI 10.36660/abc.20260222.

Albricker ACL, Freire CMV, Santos SN, et al. Diretriz Conjunta sobre Tromboembolismo Venoso – 2022. Departamento de Imagem Cardiovascular da SBC, Colégio Brasileiro de Radiologia, Sociedade Brasileira de Angiologia e Cirurgia Vascular e demais. Arquivos Brasileiros de Cardiologia. 2022;118(4):797-857. DOI 10.36660/abc.20220213.

Espírito Santo. Secretaria de Estado da Saúde. Atendimento de Urgência ao Paciente Vítima de Trauma — Diretrizes Clínicas (Diretriz Assistencial Multidisciplinar de Abordagem ao Paciente Politraumatizado). Versão 2018, aprovada em 30 de setembro de 2018. Vitória: SESA-ES, 2018.

American College of Emergency Physicians. Ultrasound Guidelines: Emergency, Point-of-care, and Clinical Ultrasound Guidelines in Medicine. Policy statement aprovado em abril de 2023. Annals of Emergency Medicine. 2023;82(3):e115-e155.

Volpicelli G, Elbarbary M, Blaivas M, Lichtenstein DA, Mathis G, Kirkpatrick AW, et al. International evidence-based recommendations for point-of-care lung ultrasound. Intensive Care Medicine. 2012;38(4):577-591. DOI 10.1007/s00134-012-2513-4.

01

Responda antes de ler

Homem de 71 anos, tabagista, chega com dor lombar esquerda súbita há duas horas, pressão de 96/60 mmHg e frequência cardíaca de 112. O plantonista suspeitava de cólica renal. O ultrassom à beira do leito mostra aorta abdominal com 6,1 cm de diâmetro, sem líquido livre nas janelas do FAST e sem hidronefrose. Qual é a leitura correta?

02

O paciente que você vai ver

Duas e quarenta da madrugada. Hospital regional de cento e vinte leitos, ala de ortopedia no terceiro andar, enfermaria de seis camas com a luz do corredor acesa. Você é o interno de plantão da clínica, escalado para dar suporte às enfermarias cirúrgicas. O senhor Damião Murtinho tem 74 anos, 70 quilos, e está no terceiro dia de pós-operatório de uma artroplastia parcial do quadril esquerdo, feita depois de uma queda no banheiro que fraturou o colo do fêmur. Hipertenso, ex-tabagista, caminhava com bengala antes da queda. Desde a cirurgia não saiu da cama.

O técnico de enfermagem, Divino Velloso, te chama no posto com a voz baixa de quem já viu aquilo antes: o senhor Damião acordou agitado, dizendo que falta ar, e a saturação caiu para 87% em ar ambiente. No monitor que ele trouxe, a frequência cardíaca é 122 e a pressão 86 por 54 — às dez da noite era 132 por 78. A frequência respiratória, contada no relógio, é 32. As mãos estão frias e o enchimento capilar demora quatro segundos no leito ungueal do polegar. A temperatura é 37,2.

Você examina. A ausculta é difícil com o paciente se mexendo e o ruído da enfermaria, mas o murmúrio parece presente dos dois lados, sem estertores que você consiga afirmar. As bulhas são rápidas e somem sob a respiração. O pescoço é curto e ele não para quieto na cabeceira elevada: você não consegue dizer se a jugular está cheia. O dreno do quadril tem 40 mililitros de líquido serossanguinolento desde a manhã. A panturrilha esquerda parece mais grossa que a direita, mas é a perna operada, e edema no pós-operatório de quadril é a regra. A hemoglobina de ontem era 10,4.

O eletrocardiograma que o Divino faz em seguida mostra taquicardia sinusal e nada que você saiba nomear com segurança. Você instala oxigênio por cateter nasal, a saturação sobe para 91%, e liga para a residente de clínica, a doutora Clorinda Salomão, que está na sala vermelha do pronto-socorro ajudando a intubar outro paciente. Ela escuta, pede a pressão de novo e diz que vai demorar uns quinze minutos.

A residente pede que acione imediatamente outro médico disponível/equipe de resposta rápida enquanto mantém suporte: paciente em choque não deve esperar quinze minutos por ela. Se houver profissional proficiente ao leito, o ultrassom pode responder perguntas focadas sem atrasar tratamento. Orientação por telefone não substitui supervisão adequada para um aluno sem experiência em pacientes instáveis.

Você fez o curso de ultrassom da liga no semestre passado: oito horas de prática em modelo saudável, algumas dezenas de janelas, nenhum paciente instável. O aparelho tem o tamanho de um livro, uma sonda de baixa frequência que serve para coração e abdome e uma linear para vasos e pleura. A bateria marca 60%.

Enquanto o Divino afasta a mesa de cabeceira e abre a camisola do paciente, você percebe que a pergunta que vinha fazendo desde o posto — o que ele tem — não é a que o aparelho responde. O que ele responde são as quatro perguntas da residente, uma de cada vez, com sim, não ou não consegui ver. O resto deste capítulo é sobre fazer essas perguntas no lugar certo, reconhecer a resposta e não pedir à imagem o que ela não tem.

03

Quem adoece disso

O ultrassom à beira do leito — no inglês, point-of-care ultrasound, abreviado POCUS — é o uso da ultrassonografia como extensão do exame clínico, focada em responder uma pergunta urgente. O aparelho encolheu até o tamanho de um celular e hoje está no pronto-socorro, na unidade de terapia intensiva, no centro cirúrgico e em lugares onde não há ecocardiografista nem radiologista de madrugada. É por isso que ele chega às mãos do interno antes do exame completo: está perto do paciente, e o exame completo não está.

No Brasil, a formação nesse exame entra pouco nos currículos de graduação e de residência, e quem o usa costuma ter aprendido em curso extracurricular, o que produz qualificação muito heterogênea — é o diagnóstico do posicionamento do Departamento de Imagem Cardiovascular da Sociedade Brasileira de Cardiologia publicado em 2026. O mesmo documento registra que não há regulamentação formal do Conselho Federal de Medicina definindo o escopo de quem faz o exame, a capacitação mínima e a certificação, e pede essa regulamentação; registra também que o exame não tem codificação padronizada nem reembolso previsto no SUS ou na saúde suplementar. A consequência para quem está de plantão é concreta: o aparelho chegou antes da regra, e a responsabilidade pelo que se conclui da imagem é de quem a interpretou e registrou.

Onde ele muda desfecho, o dado mais forte vem do choque. A diretriz internacional de sepse de 2026, a Surviving Sepsis Campaign, cita uma meta-análise segundo a qual a ressuscitação guiada por ultrassom à beira do leito provavelmente reduz a mortalidade em 28 dias no paciente em choque, com risco relativo de 0,88. É um efeito modesto, mas no paciente mais grave do hospital — e é a razão para o aparelho sair do posto quando a pressão cai, e não no dia seguinte.

Onde ele supera a alternativa que o interno tem à mão, a comparação é com a radiografia de leito. O posicionamento brasileiro de 2026 dá ao ultrassom acurácia de 93% para derrame pleural contra 47% da radiografia, com detecção a partir de 20 mililitros, e sensibilidade de 90% com especificidade de 98% para pneumotórax. O consenso internacional de ultrassom pulmonar de 2012 classifica o ultrassom como mais acurado que a radiografia em decúbito dorsal tanto para confirmar quanto para afastar pneumotórax. No paciente deitado, que é o paciente da madrugada, isso quer dizer que a radiografia normal não encerra a pergunta do ar nem da água na pleura — e o capítulo Radiografia de tórax: leitura sistemática à beira do leito, desta apostila, mostra onde o filme de leito esconde os dois.

Os números que mais importam, porém, são os de falha, porque é neles que o exame focado faz mal. O ecocardiograma tem sensibilidade em torno de 60 a 70% para tromboembolismo pulmonar, e o sinal de McConnell, o mais lembrado, aparece em só 12 a 20% dos pacientes: um coração direito de aparência normal não afasta embolia. O protocolo de compressão venosa de dois pontos deixa passar de 5 a 7% das tromboses isoladas da veia femoral, segundo a diretriz de ultrassom do Colégio Americano de Médicos de Emergência, de 2023. Na cólica renal, o ultrassom à beira do leito tem sensibilidade de 70,2% e especificidade de 75,4%: sem hidronefrose, o cálculo continua possível. Cada um desses números é um paciente mandado para casa, ou deixado sem tratamento, porque alguém tratou um exame negativo como exclusão.

No sentido oposto, o exame é muito bom naquilo que se propõe a ver. O FAST, no trauma fechado, tem sensibilidade de 87 a 98% e especificidade de 99 a 100% para líquido dentro do peritônio; o ultrassom feito pelo emergencista detecta aneurisma de aorta abdominal com sensibilidade de 97 a 100% e especificidade de 94 a 100%, pelos dados reunidos na mesma diretriz americana. Os dois números são altos para a pergunta que respondem — há líquido? há aorta dilatada? — e os dois ficam perigosos quando alguém os lê como resposta a outra: o FAST procura líquido, não lesão de víscera nem sangue no retroperitônio, e a aorta dilatada não diz se ela rompeu.

O peso brasileiro de uma dessas perguntas está medido. A Diretriz Conjunta sobre Tromboembolismo Venoso, de 2022, registra mais de 520 mil internações por tromboembolismo venoso no país entre 2010 e 2021 e mais de 67 mil óbitos entre 2010 e 2019. No paciente com suspeita de embolia e instabilidade hemodinâmica, a mesma diretriz torna o ecocardiograma à beira do leito exame obrigatório, com recomendação de classe I. É o paciente do terceiro andar: a janela de minutos em que a imagem feita no leito vale mais do que a imagem perfeita que exigiria transporte.

Quanto custa aprender, o posicionamento brasileiro também dimensiona. O primeiro nível de competência que ele propõe pede 30 exames supervisionados em duas semanas, o segundo 50 em quatro e o terceiro 70 em doze, com manutenção de pelo menos dez exames por mês e revalidação anual. Um curso de oito horas em modelo saudável não chega ao primeiro nível. Isso não impede o interno de usar o aparelho; define o que ele conclui sozinho — presença ou ausência de um achado grosseiro, descrita e comunicada — e o que precisa passar pelo olho de quem assina a decisão.

04

Por que acontece o que acontece

Esta seção é curta e entra só a física que dá sentido aos critérios do capítulo. O aparelho emite um pulso de som e escuta o eco. O eco nasce onde o som passa de um tecido para outro com resistência acústica diferente, e a intensidade do eco cresce com essa diferença. Três consequências governam tudo o que vem depois: o líquido deixa o som passar sem ecoar e aparece preto, o que se chama anecoico; o ar reflete quase todo o som na primeira superfície e não deixa ver nada atrás dele; o osso bloqueia o som e projeta uma sombra.

Daí vem a primeira regra prática. O ultrassom é excelente para achar líquido onde não deveria haver — no pericárdio, na pleura, no peritônio — e para medir líquido onde deveria haver, como numa bexiga cheia. E é péssimo para mostrar diretamente o pulmão, que é ar. O exame do pulmão é, quase inteiro, a leitura de artefatos: imagens que não correspondem a uma estrutura anatômica, mas ao comportamento previsível do som diante do ar.

A segunda regra é a da sonda. Frequência alta dá imagem nítida e penetra pouco; frequência baixa penetra fundo e perde detalhe. Por isso a sonda linear, de alta frequência — de 5 a 12 megahertz na lista do posicionamento brasileiro —, é a da pleura e das veias, e as sondas convexa e setorial, de frequência mais baixa, são as do coração, do abdome e do paciente obeso ou edemaciado. A setorial tem a face pequena e passa entre as costelas: é a única que o posicionamento recomenda durante a parada cardiorrespiratória, porque examina coração, pulmão e abdome sem troca de sonda.

Na pleura, o que se vê é uma linha brilhante logo abaixo das costelas: a interface entre a pleura parietal e a visceral. Com a respiração, a visceral desliza sob a parietal e a linha cintila — é o deslizamento pleural. Abaixo dela, o pulmão aerado não mostra tecido: mostra cópias horizontais da própria linha pleural, repetidas a intervalos iguais, que são as linhas A, reverberações do som que vai e volta entre a sonda e o ar. Quando os septos entre os alvéolos engrossam, ou os alvéolos se enchem de líquido, o ar perde o monopólio da superfície e surgem artefatos verticais que partem da pleura, descem até o fim da tela sem esmaecer e se movem com o deslizamento — as linhas B. Elas não dizem qual líquido: podem ser água de congestão, exsudato de inflamação ou fibrose.

Dessa física saem as regras do pneumotórax. Deslizamento e linhas B só existem quando a pleura visceral encosta na parietal, e o pulso pulmonar — a pleura que oscila com os batimentos cardíacos — também. Havendo qualquer um dos três num ponto, não há pneumotórax naquele ponto. Quando o ar se interpõe, sobram só linhas A paradas, e a linha A deixa de significar pulmão normal: passa a significar ar, dentro ou fora do pulmão. O ponto pulmonar é o lugar da parede em que o padrão parado encontra o padrão que desliza — o limite do pneumotórax desenhado na pele —, e por isso é o único sinal específico. Tudo o que tira o deslizamento sem pôr ar na pleura produz falso pneumotórax para quem olha só o deslizamento: o pulmão que não ventila por intubação seletiva, a pleura colada por pleurodese, a contusão, a fibrose.

A terceira regra é a da gravidade: líquido desce e ar sobe. No paciente em decúbito dorsal, o sangue livre no abdome se acumula nos recessos mais baixos — entre o fígado e o rim direito, em volta do baço e do rim esquerdo, e na pelve —, e é exatamente aí que ficam as janelas do FAST. O derrame pleural se acumula atrás, acima do diafragma, e se procura na linha axilar posterior. O ar do pneumotórax se junta na parede anterior do tórax e se procura começando pelas áreas menos pendentes, progredindo para os lados. Procurar ar e água onde eles ficam no paciente de pé é o mesmo erro que o capítulo de radiografia de tórax descreve para o filme de leito.

A quarta regra é a da pressão. Veia tem parede fina e pressão baixa: colaba inteira quando a sonda aperta a pele sobre ela, e a artéria ao lado não colaba. Um trombo ocupa a luz e impede o colapso — e a perda da compressibilidade é o indicador mais confiável de trombo, mais do que vê-lo, porque o trombo recente pode ser anecoico e se confundir com o próprio sangue. A veia cava inferior obedece à mesma física, só que quem a enche é a pressão do átrio direito e quem a esvazia é a pressão do tórax: na respiração espontânea a inspiração baixa a pressão intratorácica e a cava diminui; na ventilação com pressão positiva o padrão se inverte. Calibre e variação da cava contam, portanto, a pressão do lado direito do coração, e não quanto volume ainda cabe na circulação — por isso a diretriz de sepse de 2026 afirma que a medida da cava reflete principalmente a pressão venosa central e carrega os mesmos limites dela.

A última regra é a das câmaras. O pericárdio é pouco elástico, e o que eleva a pressão dentro dele é a velocidade com que o líquido chega, além do volume: um derrame pequeno e rápido pode tamponar, e um grande e lento pode não tamponar. A câmara de menor pressão cede primeiro — o átrio direito colaba durante a sístole ventricular, e o ventrículo direito colaba na diástole, que é o sinal mais específico. O ventrículo direito, de parede fina, dilata quando a resistência à sua frente sobe de repente: fica do tamanho do esquerdo ou maior, empurra o septo para a esquerda e deixa o ventrículo esquerdo em forma de D no corte transversal. Nenhum desses sinais nomeia a causa; mostram a física que a causa produziu.

Três painéis anatômicos mostram ar pleural anterior claro e líquido pleural posterior azul em um tórax supino, líquido entre fígado e rim direito e líquido no recesso entre bexiga e reto.
No paciente em decúbito dorsal, o ar pleural tende a ocupar a região anterior e o líquido pleural regiões posteriores dependentes. Líquido intraperitoneal é pesquisado em recessos próprios, como hepatorrenal e pélvico. As cavidades são distintas, e líquido livre não equivale necessariamente a sangue. A prancha mostra anatomia, não imagens de ultrassom.
05

Como se apresenta de verdade

Antes de colocar gel em alguém vem a pergunta que quase ninguém faz em voz alta: o que exatamente eu quero que esta imagem me diga? O exame à beira do leito só vale alguma coisa quando nasce de uma dúvida clínica concreta, e as seis seções abaixo tratam do que acontece antes da primeira janela — o que o exame é, o que ele não é, quem pode fazê-lo, como ajustar o aparelho, como registrar e onde ele falha por limite do operador, do paciente ou da máquina.

As janelas propriamente ditas — pulmão, coração, veia cava, abdome, aorta, veias, bexiga e rim — e os protocolos que as integram estão no bloco seguinte, de investigação.

Percurso de aprendizagem

No choque, suporte e ajuda imediata precedem a imagem. Um curso em modelos saudáveis não torna o aluno proficiente para decidir sozinho em pacientes instáveis.

Separe achado de inferência: VD dilatado não prova agudeza/TEP, cava não mede volemia, ausência de deslizamento não confirma pneumotórax e linhas B não são específicas de IC.

Exame negativo vale para a região e pergunta examinadas. Compressão limitada não exclui toda TVP; FAST não exclui sangramento retroperitoneal. Rever imagem e conduta pela evolução.

Exame focado: uma pergunta de sim ou não, feita por quem está com o paciente

O posicionamento brasileiro de 2026 define o ultrassom à beira do leito como o uso da ultrassonografia como método auxiliar ao exame clínico, focado em responder uma questão clínica urgente. A diretriz americana de 2023 organiza os usos em cinco categorias funcionais: ressuscitação, diagnóstico de emergência, caminho clínico guiado por um sintoma ou sinal (como falta de ar), guia de procedimento, e terapêutica ou monitorização. Nenhuma das duas definições fala em descrever o órgão inteiro. A diferença para o exame completo é de natureza, não de qualidade de aparelho: o ecocardiografista e o radiologista medem, descrevem e assinam tudo o que há; o exame focado responde à pergunta que foi feita.

Por isso a pergunta precisa ser formulada de modo que a imagem possa respondê-la. “O que o paciente tem” não é uma pergunta de ultrassom. “Há líquido em volta do coração?” é. Também são: o ventrículo direito está do tamanho do esquerdo ou maior? Há deslizamento pleural nos pontos anteriores dos dois lados? Há líquido entre o fígado e o rim direito? A veia femoral comum colaba inteira sob a sonda? A bexiga está cheia? A aorta abdominal está dilatada? Cada uma tem resposta visível em uma ou duas janelas, e cada uma desloca uma hipótese para cima ou para baixo.

Toda pergunta tem três respostas possíveis, e não duas: sim, não e não consegui ver. A terceira não é fracasso — é informação, e precisa ser escrita. Uma janela subcostal que não abriu por causa de gás, de curativo ou de obesidade não é uma janela negativa; tratar a imagem que não se obteve como imagem normal é o caminho mais curto para o erro que o posicionamento brasileiro põe no topo da sua lista de riscos: imagem insuficiente levando a diagnóstico incorreto, atraso no tratamento ou terapia desnecessária e até prejudicial.

O exame focado também tem uma ordem natural, que segue a gravidade e não a anatomia. No paciente que parou ou está parando, primeiro o que mata em minutos e se trata na hora — tamponamento, pneumotórax hipertensivo, ventrículo direito agudamente dilatado, hipovolemia grave. Depois o que organiza a conduta da hora seguinte. A mesma janela subcostal, feita às duas da manhã num paciente em choque e às dez da manhã num paciente estável, responde a perguntas diferentes, com urgências diferentes.

O que ele não é: laudo, rastreamento nem exclusão

O posicionamento brasileiro é explícito: o exame à beira do leito não substitui, quando indicado, o exame diagnóstico completo. Daí saem duas regras para o plantão. Primeira: o registro nunca deve imitar um laudo — “ecocardiograma normal”, “abdome sem alterações” — porque ninguém avaliou valvas, paredes, fígado ou pâncreas; avaliou-se se havia derrame, se o ventrículo direito estava dilatado, se havia líquido nas quatro janelas. Segunda: o achado inesperado, fora da pergunta, não se resolve à beira do leito: registra-se o que se viu e pede-se o exame completo.

O ponto mais importante, e o mais desrespeitado, é que o exame focado negativo não exclui. Entre as habilidades que o posicionamento lista para quem se forma no método está justamente saber indicar exame completo sem demora quando houver dúvida — e também quando a suspeita clínica permanece a despeito da ausência de achados. O coração direito sem dilatação não afasta embolia, a compressão negativa em dois pontos não afasta trombose da veia femoral, o FAST sem líquido não afasta lesão de víscera nem sangramento retroperitoneal, a ausência de hidronefrose não afasta cálculo. Os números de cada uma dessas falhas estão no bloco de critério; a regra que os resume cabe numa linha: o exame focado positivo, quando bem feito, pesa muito, e o negativo pesa pouco.

Também não é rastreamento. Passar a sonda em todo paciente internado à procura de alguma coisa não é o uso que as duas diretrizes descrevem, e multiplica os achados sem pergunta — que depois precisam de exame completo para serem explicados, ocupando a agenda do serviço de imagem com dúvidas que ninguém tinha.

Quem faz, quem assina e o que cabe ao interno

No Brasil, o posicionamento de 2026 trata o exame como ato médico realizado à beira do leito para responder perguntas clínicas específicas e apoiar decisões imediatas. O médico que o usa assume responsabilidade civil direta pela indicação, pela execução técnica, pela interpretação e pelo registro em prontuário; e a responsabilização decorre não só de erro técnico, mas também do uso fora do escopo de competência, sem capacitação ou em desacordo com os protocolos da instituição. O mesmo documento reconhece que não há regulamentação formal do Conselho Federal de Medicina sobre escopo, capacitação mínima e certificação, e defende que o conselho a produza com as sociedades de especialidade. Até lá, a régua em uso é a do posicionamento e a do protocolo interno de cada hospital.

Entre os pré-requisitos que o posicionamento lista para um serviço usar o método estão médicos cardiologistas, intensivistas, pediatras ou emergencistas devidamente treinados, programa formal de treinamento com certificação de competência, e infraestrutura e equipamentos adequados. O primeiro nível de competência que ele propõe se resume a quatro habilidades: identificar as principais estruturas ao ultrassom, interpretar sob supervisão de um profissional treinado, reconhecer a presença ou a ausência de alterações de acordo com a suspeita clínica — em avaliação qualitativa, do tipo sim ou não — e relatar os achados junto com o exame físico.

É esse, por dedução direta, o espaço do interno: adquirir as janelas que aprendeu, descrever o que viu em linguagem de presença e ausência, comunicar imediatamente a quem responde pelo paciente e registrar sob a orientação dessa pessoa. A decisão que o achado sustenta — drenar, anticoagular, trombolisar, dar ou suspender volume, operar — é do médico que assume, com o protocolo do serviço. A imagem nunca substitui a ligação: o interno que viu um derrame e não chamou cometeu um erro mais grave que o interno que não conseguiu abrir a janela e chamou.

A acurácia depende de quem segura a sonda. Na meta-análise de compressão venosa que o posicionamento cita, a acurácia foi maior quando o exame era feito por emergencistas do que por residentes; e na que a diretriz conjunta de tromboembolismo venoso cita, sensibilidade e especificidade altas se associaram ao treinamento específico do examinador. Traduzido para o plantão: o exame negativo do examinador inexperiente vale ainda menos do que o número publicado.

O aparelho em trinta segundos: sonda, ajuste e orientação

Escolha a sonda pela profundidade da pergunta. A linear, de alta frequência, é a da pleura e das veias: é nela que se vê melhor a linha pleural e o deslizamento, e é ela que o posicionamento indica para a compressão venosa, na faixa de 5 a 10 megahertz, deixando a convexa, de 2 a 5, para o paciente obeso ou edemaciado. Para coração, veia cava e abdome, a sonda de baixa frequência — convexa ou setorial. Em pulmão, o posicionamento aceita as quatro sondas: convexa, setorial, microconvexa e linear.

Escolha o ajuste de fábrica, o preset, adequado à estrutura. Se o aparelho não tiver preset pulmonar, o posicionamento indica o abdominal como o mais apropriado, e aceita o cardíaco sem prejuízo substancial. Aprenda três botões antes de qualquer outro: profundidade, para que a estrutura ocupe a tela sem sobrar fundo preto; ganho, para que o líquido fique preto e o tecido cinza, sem clarear tudo nem escurecer tudo; e foco, quando existir, na altura da estrutura. Um derrame pode desaparecer num ganho alto demais, e um ganho baixo pode fabricar um derrame que não existe.

Oriente a sonda pelo marcador. Toda sonda tem uma saliência ou luz de um lado que corresponde a um sinal na tela, e toda janela tem uma convenção. No coração, o posicionamento descreve cinco janelas: paraesternal longitudinal, com o marcador para o ombro direito; paraesternal transversal, girando noventa graus, com o marcador para o ombro esquerdo; apical de quatro câmaras, no ictus, com o marcador para a esquerda; subcostal, abaixo do apêndice xifoide, com o marcador para a esquerda; e subcostal da veia cava inferior, com a sonda perpendicular à parede e o marcador para a cabeça. Sonda invertida faz o ventrículo direito parecer esquerdo — e o erro de lado é banal e grave.

Por fim, as condições do exame: paciente no decúbito que a pergunta exige e que ele tolera, gel à mão, imagens gravadas quando o aparelho permitir, e a sonda limpa entre um paciente e outro segundo a rotina da comissão de controle de infecção do hospital. Quando o exame guiar uma punção, a sonda vai dentro de capa estéril, com gel dentro da capa, como descreve o passo a passo do posicionamento.

Registrar: a pergunta, as janelas, o achado e o limite

O posicionamento pede que quem faz o exame arquive as imagens, relate os achados no prontuário integrados à clínica do paciente e registre a decisão tomada com base na análise integrada. Na prática do interno, o registro que protege o paciente e o próprio interno tem cinco partes, nesta ordem: quem fez, a que horas e sob orientação de quem; a pergunta clínica; as janelas obtidas e as que não abriram; o que se viu, em linguagem de presença e ausência; e o limite do exame, com o que foi pedido em seguida.

Um exemplo do formato, para o paciente da cena: “Ultrassom à beira do leito às 2h52, realizado pelo interno, com orientação por telefone da residente de clínica. Pergunta: causa obstrutiva, cardiogênica ou hipovolêmica para hipotensão e hipoxemia no terceiro dia de pós-operatório de artroplastia de quadril. Janelas obtidas: subcostal, veia cava inferior, pleura anterior bilateral, compressão venosa do membro inferior esquerdo; paraesternal não obtida por agitação. Achados: sem derrame pericárdico; ventrículo direito maior que o esquerdo; veia cava dilatada, sem variação respiratória; deslizamento pleural presente nos pontos anteriores dos dois lados, com linhas A; veia femoral comum esquerda não compressível. Exame focado, não substitui ecocardiograma nem ultrassonografia vascular completos. Achados comunicados à residente às 2h55.”

Três palavras não entram nesse registro: normal, afastado e descartado. O exame focado não enxerga o suficiente para chamar um órgão de normal, e não tem sensibilidade para afastar nem descartar nada sozinho. Escreve-se o que foi visto e o que não foi possível ver.

Os limites: operador, paciente e aparelho

O posicionamento brasileiro lista os desafios que atrapalham o exame: janelas acústicas difíceis, pacientes pouco colaborativos, posicionamento e iluminação inadequados, e aparelhos portáteis com menos recursos e menor resolução. Lista também o risco que eles produzem — imagens insuficientes ou inadequadas que levam a diagnóstico incorreto, atraso de tratamento ou terapia desnecessária — e a falta de capacitação e de confiança de quem examina.

Do lado do paciente, a física do mecanismo antecipa quem vai dar trabalho. Ar bloqueia o som: enfisema subcutâneo, curativo com bolha de ar e alça intestinal distendida fecham janelas. Distância atenua o som: obesidade e edema afastam a estrutura da sonda e pedem sonda de baixa frequência. Pulmão hiperinsuflado se interpõe entre a parede e o coração e rouba as janelas paraesternais, e aí a subcostal costuma ser a que sobra. Drenos, feridas operatórias e o próprio decúbito que o paciente não consegue mudar limitam onde a sonda pode ir — e o paciente em decúbito dorsal esconde justamente os recessos posteriores do tórax.

Do lado do tempo, o limite é o paciente. Nenhuma imagem justifica atrasar compressão torácica, descompressão de um pneumotórax que já está matando ou a ligação para quem decide. O exame que leva vinte minutos num paciente que não tem vinte minutos é pior do que não fazer o exame.

06

Como fechar o diagnóstico

Aqui está o miolo do capítulo: as janelas que o interno precisa reconhecer, cada uma com a pergunta que responde, o que se vê quando a resposta é sim, o que se vê quando é não, e o que ela não consegue dizer. A ordem das seções é a de uso, não a de gravidade — no paciente instável, a ordem é a das cinco perguntas do choque, na última seção.

Em cada janela, o capítulo fica com o achado e cede a decisão ao capítulo dono da síndrome, nomeado no próprio parágrafo. Os números que mudam conduta reaparecem reunidos no bloco de critério.

Pulmão: deslizamento, linhas A e B, derrame, consolidação e pneumotórax

A varredura mais usada é a do protocolo BLUE, do inglês bedside lung ultrasound in emergency, que o posicionamento brasileiro recomenda na emergência pela simplicidade e pela validação. Cada hemitórax é dividido em três pontos: dois anteriores, o superior e o inferior, onde se procuram linhas B e pneumotórax; e um posterolateral, na base, chamado ponto PLAPS, onde se procuram derrame e consolidação. A sonda fica no plano sagital, com o marcador para a cabeça, e cada ponto é varrido durante um ciclo respiratório completo. O ponto posterolateral pode ser difícil no paciente que não consegue virar de lado; a imagem certa mostra o recesso costofrênico, o diafragma e o fígado ou o baço. Quando a pergunta é quantificar congestão e acompanhar a resposta ao tratamento, o posicionamento recomenda a varredura de oito regiões, e o consenso internacional de 2012 a descreve como a técnica ideal para a síndrome intersticial.

O pulmão aerado mostra a linha pleural que cintila com a respiração e, abaixo dela, linhas A. No modo M — a imagem que registra uma única linha ao longo do tempo — o deslizamento aparece como o sinal da beira-mar: linhas horizontais paradas da parede torácica até a pleura, e abaixo delas uma textura granulada, a areia. Quando não há deslizamento, a textura granulada some e a tela inteira vira linhas horizontais, o sinal do código de barras, também chamado de estratosfera. Linhas curtas e paradas que não chegam ao fim da tela, as linhas Z, não têm significado patológico e precisam ser separadas das linhas B.

A contagem de linhas B tem uma unidade: a região. Pelo consenso internacional, uma região é positiva quando mostra três ou mais linhas B num plano longitudinal entre duas costelas, e o exame sugere síndrome intersticial quando há duas ou mais regiões positivas de cada lado. O perfil B do protocolo BLUE é essa síndrome na face anterior dos dois hemitórax, com deslizamento preservado, e o posicionamento brasileiro o dá como indicativo de congestão pulmonar com sensibilidade de 97% e especificidade de 95%. Mas o próprio posicionamento lembra que a congestão cardiogênica só pode ser considerada dentro de um quadro clínico de insuficiência cardíaca, porque as linhas B também aparecem na síndrome do desconforto respiratório agudo, na pneumonia, na contusão e na fibrose.

O desenho das linhas B separa o edema do coração do edema da inflamação melhor do que o número delas. O de origem cardiogênica é homogêneo, bilateral e dependente da gravidade — mais intenso nas bases do que nos ápices —, com linha pleural fina e regular. O inflamatório é heterogêneo e assimétrico, alterna áreas com e sem linhas B no mesmo campo, tem linha pleural espessada e irregular e consolidações pequenas logo abaixo da pleura. A fibrose espessa a pleura, reduz o deslizamento e forma cistos subpleurais que imitam consolidação. A decisão sobre diurético, ventilação e antibiótico é do capítulo Dispneia aguda indiferenciada, da apostila Síndromes do Paciente na Emergência, e dos capítulos Edema agudo de pulmão: reconhecer e agir e Pneumonia adquirida na comunidade (CURB-65 / gravidade).

O derrame pleural é um espaço anecoico entre a pleura parietal e a visceral, acima do diafragma. O consenso de 2012 põe o melhor sítio para achá-lo na linha axilar posterior, logo acima do diafragma, afirma que o ultrassom é mais acurado que a radiografia em decúbito e tão acurado quanto a tomografia, e recomenda usá-lo diante de toda opacidade da radiografia para separar derrame de consolidação. O que o derrame anecoico não diz é se ele é transudato ou exsudato — isso exige punção ou contexto clínico. Ecos pontilhados que se movem no líquido, o sinal do plâncton, sugerem infecção ou hemotórax, mas também aparecem depois de diurético agressivo; septações e debris indicam derrame complexo, de origem infecciosa provável, que dificulta a drenagem. Com a inspiração, o pulmão aerado desce e cobre o fígado ou o baço, o sinal da cortina, que diz que naquele ponto a base está aerada. No derrame volumoso, a língua de pulmão colapsado ondula dentro do líquido, o sinal da medusa. A punção é do capítulo Toracocentese: diagnóstica e de alívio.

A consolidação tem textura de órgão sólido, a hepatização. É translobar quando ocupa todo o campo e não translobar quando uma linha brilhante e irregular separa a parte consolidada da parcialmente aerada, o sinal do retalho. Dentro dela, pontos brilhantes presos nos brônquios formam o broncograma aéreo: quando se movem com a respiração, sugerem pneumonia; quando ficam parados, atelectasia. A pneumonia costuma aparecer nas bases, no ponto posterolateral, com pequeno derrame no seio costofrênico e linhas B inflamatórias ao redor; a diretriz americana dá ao ultrassom sensibilidade de 85 a 92% e especificidade de 93% para o diagnóstico. Atelectasia e pneumonia coexistem com frequência, e a diferença exige o quadro clínico. Consolidações pequenas, triangulares e subpleurais nas bases posteriores, onde o paciente refere dor pleurítica, sugerem infarto pulmonar — mas o ultrassom pulmonar não é método de escolha para embolia, e pulmão sem essas consolidações não afasta nada.

Para o pneumotórax, o consenso de 2012 lista quatro sinais: presença de ponto pulmonar, ausência de deslizamento, ausência de linhas B e ausência de pulso pulmonar. No paciente deitado, a exploração começa pelas áreas menos pendentes, na face anterior, e progride para os lados. A ausência de deslizamento é o sinal mais sensível e o menos específico: o posicionamento brasileiro lembra que ela também aparece na intubação seletiva, na pleurodese, na contusão pulmonar e na fibrose. O ponto pulmonar é o único sinal específico, e quanto mais lateral ele estiver, maior o pneumotórax; mas ele não existe no pneumotórax que descola o pulmão inteiro, e sua ausência não exclui nada. A regra que protege o paciente instável vem do mesmo consenso: em emergência extrema, ausência de deslizamento e de pulso pulmonar, sem linhas B, permite o diagnóstico sem procurar o ponto pulmonar — e a diretriz americana desaconselha atrasar a conduta para encontrá-lo. A descompressão e a drenagem são dos capítulos Atendimento inicial ao politraumatizado (ABCDE do ATLS) e Pneumotórax espontâneo (primário e secundário).

A fronteira com o capítulo Radiografia de tórax: leitura sistemática à beira do leito, desta apostila, é recíproca. A radiografia continua dona do que o ultrassom não mostra: a posição do tubo, dos cateteres e das sondas, o mediastino, a comparação com o filme anterior e o conjunto do tórax numa imagem só. O ultrassom fica com o que o filme de leito esconde: o pneumotórax anterior pequeno, o derrame pequeno que se espalha atrás do pulmão no paciente deitado e a separação entre derrame e consolidação numa opacidade da base.

Coração focado: derrame pericárdico, contratilidade grosseira e ventrículo direito

Das cinco janelas descritas na apresentação, a subcostal é a que o interno deve dominar primeiro. Ela abre no paciente com pulmão hiperinsuflado, em quem as paraesternais somem, é a indicada durante a parada cardiorrespiratória, mostra derrame pericárdico, tamanho relativo das câmaras e contratilidade global, e ao girar a sonda leva direto à veia cava. As paraesternais mostram melhor a contratilidade e o formato do ventrículo esquerdo no corte transversal; a apical de quatro câmaras é a melhor para comparar o tamanho dos dois ventrículos.

A função do ventrículo esquerdo, no exame focado, é qualitativa. O posicionamento brasileiro dispensa as medidas do ecocardiograma completo, porque exigem treino adicional, consomem tempo, estão sujeitas a erro e não resultam necessariamente em maior acurácia, e classifica o que se vê pela excursão do endocárdio em direção ao centro da cavidade e pelo espessamento do músculo a cada contração, em quatro categorias: normal; hiperdinâmico, com a cavidade quase ou totalmente obliterada na sístole, as paredes que se beijam; função reduzida, que inclui as disfunções leves e moderadas; e disfunção grave. A estimativa visual feita pelo emergencista se correlaciona bem com a do cardiologista, segundo as duas diretrizes.

Cada categoria desloca o raciocínio do choque. O ventrículo hiperdinâmico e pequeno sugere falta de enchimento — hipovolemia — ou vasodilatação, e o posicionamento lembra que a sepse inicial produz exatamente esse padrão. A disfunção grave com perfil B e veia cava dilatada sugere choque cardiogênico. A disfunção com pulmão sem linhas B e veia cava fina sugere doença cardíaca antiga, e não choque cardiogênico puro. E há uma armadilha que o posicionamento descreve com todas as letras: a insuficiência mitral aguda grave, por ruptura de corda tendínea, deixa o ventrículo hiperdinâmico e engana quem não usa Doppler; ao contrário da hipovolemia, costuma vir com perfil B e veia cava pouco colapsável, e pede avaliação imediata do ecocardiografista.

O derrame pericárdico é um espaço anecoico em volta do coração, e a diretriz americana considera o exame do emergencista muito sensível e muito específico para encontrá-lo. Duas confusões precisam ser evitadas. A primeira é com o derrame pleural esquerdo: na janela paraesternal longitudinal, o líquido que passa na frente da aorta descendente é pericárdico, e o que fica atrás dela é pleural. A segunda é com a gordura epicárdica, que o capítulo Diferenciar os tipos de choque e conduzir cada um lista entre os erros previsíveis do interno.

Derrame não é tamponamento. O posicionamento brasileiro afirma que a medida da espessura do derrame não permite o diagnóstico, porque a velocidade de instalação e a natureza do líquido elevam a pressão dentro do pericárdio mesmo com volume pequeno. O que confirma a fisiologia do tamponamento, quando há suspeita clínica, é a repercussão: veia cava e veias hepáticas distendidas e colapso do átrio direito na sístole ventricular, que são os achados mais sensíveis, e o colapso diastólico do ventrículo direito, que é o mais específico. No derrame maciço, o coração balança dentro do saco. Durante a parada cardiorrespiratória, os colapsos não são visíveis, e a veia cava dilatada é o que resta para sustentar a suspeita. A decisão e a pericardiocentese são do capítulo Pericardite aguda e tamponamento cardíaco.

O ventrículo direito é comparado com o esquerdo. Na janela apical, a área do direito corresponde normalmente a no máximo dois terços da área do esquerdo; quando a relação passa de 1, o posicionamento a considera sugestiva de aumento e sobrecarga importantes. No corte paraesternal transversal, a sobrecarga de pressão empurra o septo para a esquerda e deixa o ventrículo esquerdo em forma de D. A excursão sistólica do anel tricúspide, o TAPSE, é anormal abaixo de 1,7 centímetro, mas é medida de quem já tem treino em modo M. No paciente instável com ventrículo direito dilatado, o posicionamento manda pensar em três diagnósticos: tromboembolismo pulmonar agudo, infarto do ventrículo direito — que acompanha de 30 a 50% dos infartos de parede inferior — e disfunção do ventrículo direito dentro de uma insuficiência cardíaca aguda por infarto, miocardite, sepse, cardiomiopatia periparto, valvopatia aguda ou Takotsubo.

No tromboembolismo pulmonar, os achados cardíacos só existem quando há sobrecarga aguda do ventrículo direito, o que em geral significa embolia com repercussão hemodinâmica. O sinal de McConnell — parede livre do ventrículo direito parada na base e no meio, com a ponta contraindo — aparece em só 12 a 20% dos pacientes, e a sensibilidade do ecocardiograma para embolia fica em torno de 60 a 70%: coração direito sem sobrecarga não afasta embolia no paciente estável. No paciente instável, a leitura se inverte, e o posicionamento afirma que a ausência de sinais de sobrecarga e de insuficiência do ventrículo direito pode excluir o tromboembolismo maciço como causa da instabilidade. Por isso a diretriz conjunta de tromboembolismo venoso de 2022 torna o ecocardiograma à beira do leito obrigatório na suspeita com instabilidade, e não obrigatório no paciente estável. Somar o coração às veias das pernas e ao pulmão — o triplo exame — elevou a sensibilidade para 90%, com especificidade de 86%, no estudo multicêntrico que o posicionamento cita; isolados, o coração teve sensibilidade de 33%, as veias de 53% e o pulmão de 61%. A decisão de anticoagular ou reperfundir é do capítulo Tromboembolismo pulmonar: diagnóstico e manejo.

Na parada cardiorrespiratória, o exame só acontece dentro da pausa de dez segundos para checar ritmo, pela janela subcostal, com a sonda setorial, e a imagem gravada é analisada no ciclo seguinte, com as compressões correndo. O que ele procura são as causas reversíveis dos ritmos não chocáveis — tamponamento, pneumotórax hipertensivo, tromboembolismo e hipovolemia — e a atividade mecânica do coração. A diretriz americana registra que, na parada traumática, a ausência de líquido pericárdico ou de atividade cardíaca ao ultrassom se associou a sobrevida zero; na parada clínica, o coração parado se associou a mortalidade, mas 0,6% desses pacientes ainda tiveram alta vivos — por isso a imagem de coração parado, sozinha, não encerra a reanimação. O papel do interno na parada é do capítulo Parada cardiorrespiratória na enfermaria: o papel do interno, e a da gestante, do capítulo de parada cardiorrespiratória na gestante da apostila Parto e assistência ao nascimento.

Veia cava inferior: o que ela mede e por que sozinha não decide volume

A veia cava se vê pela janela subcostal com a sonda perpendicular à parede abdominal e o marcador para a cabeça, entrando no átrio direito. Observam-se duas coisas ao longo de um ciclo respiratório: o diâmetro máximo e quanto ele varia. Como descrito no mecanismo, os dois contam a pressão do átrio direito contra a pressão do tórax, e não o volume de sangue que ainda cabe na circulação.

O posicionamento brasileiro de 2026 resume a evidência sem otimismo. Para estimar a pressão do átrio direito, a veia cava é mais acurada no paciente em ventilação espontânea. Para prever resposta a volume no paciente em ventilação mecânica controlada, sem esforço respiratório, os estudos iniciais mostraram acurácia de 90%, que não se confirmou nas publicações posteriores, onde caiu para 65%; na ventilação espontânea, a acurácia também é baixa. A diretriz de sepse de 2026 vai na mesma direção por outro caminho: a medida do diâmetro ou da colapsabilidade da cava reflete principalmente a pressão venosa central e tem os mesmos limites dela.

Sobra valor nos extremos. Pelo posicionamento, a veia cava muito fina, de 10 milímetros ou menos, ou colabando ao longo do ciclo, indica provável resposta e tolerância a volume; a dilatada, acima de 25 milímetros e com variação respiratória mínima, indica provável ausência de resposta e de tolerância. O algoritmo de choque do mesmo documento usa a veia cava acima de 20 milímetros com variação menor que 50% como sinal de pressão venosa alta no tamponamento, na disfunção grave do ventrículo esquerdo e no cor pulmonale. Entre os extremos, a cava não diz nada que mereça decisão.

Mesmo nos extremos há quem engane. Ventilação mecânica, cirrose e doença pulmonar crônica alteram a variação respiratória, avisa o posicionamento, e a veia cava pletórica sem variação, sozinha, não contraindica volume. Do outro lado, a hipertensão intra-abdominal comprime a cava por fora: o capítulo Diferenciar os tipos de choque e conduzir cada um aponta como o erro mais perigoso tomar a cava murcha por licença para volume sem limite, quando o problema do paciente é obstrução. E toda causa de choque obstrutivo — tamponamento, embolia, pneumotórax hipertensivo — pode trazer pulmão sem linhas B e ventrículo esquerdo pequeno junto de uma cava dilatada, que conta a verdade sobre o coração direito, e não sobre a volemia.

O que decide o volume, fora da fase inicial da ressuscitação, é uma medida dinâmica. A diretriz de sepse de 2026, na Recomendação 49, sugere guiar a reposição por medidas dinâmicas em vez de exame físico ou de medidas estáticas isoladas — a resposta à elevação passiva das pernas ou a um bolus, medida pelo volume sistólico, pela sua variação, pela pressão de pulso ou pela variação da pressão de pulso —, com recomendação condicional e certeza baixa; aumentos de 10 a 15% no parâmetro escolhido refletem resposta a volume. O posicionamento brasileiro descreve a elevação passiva das pernas com a integral velocidade-tempo da via de saída do ventrículo esquerdo, em que um aumento de 10% ou mais prevê resposta com acurácia de 84%, mas avisa que a variabilidade da própria medida é de cerca de 11% para o mesmo examinador — aumentos próximos disso podem ser falso positivo, e acima de 20% a resposta é mais provável. É exame de quem tem proficiência, não do interno.

Para o interno, a regra que resulta é curta: a veia cava é uma peça de um padrão — ventrículo esquerdo, ventrículo direito, pulmão e cava lidos juntos —, nunca a razão isolada para dar ou negar volume. O desempate entre o algoritmo do posicionamento e a diretriz de sepse, quando os dois apontam para lados diferentes no mesmo paciente, está no bloco de divergências. A reposição volêmica em si é dos capítulos Diferenciar os tipos de choque e conduzir cada um, Hipotensão na enfermaria: causas e conduta imediata e Sepse e choque séptico: identificação precoce e pacotes iniciais.

Líquido livre: o FAST como técnica, e o que ele não vê

O FAST, do inglês focused assessment with sonography for trauma, é a pesquisa de líquido livre à beira do leito, na sala de choque, sem tirar o paciente do lugar. A diretriz de trauma da Secretaria de Estado da Saúde do Espírito Santo, que é a régua usada pelo capítulo Trauma abdominal fechado (FAST, laparotomia x conservador), descreve as quatro regiões do exame: o saco pericárdico, pela janela subcostal; o espaço hepatorrenal; o espaço esplenorrenal; e a pelve, no recesso atrás da bexiga ou, na mulher, no fundo de saco de Douglas. A versão estendida, o eFAST, acrescenta a face anterior dos dois hemitórax para pneumotórax e as bases para hemotórax, e a diretriz americana inclui ainda a contusão pulmonar no seu escopo.

Na janela positiva, o líquido é uma faixa ou um triângulo preto onde os órgãos deveriam se tocar: entre a borda do fígado e o rim direito, entre o baço e o rim esquerdo ou o diafragma, em volta da bexiga na pelve. A bexiga cheia é a janela da pelve — o som atravessa a urina e mostra o que há atrás dela —, e por isso a pelve fica mais difícil de avaliar depois que a bexiga foi esvaziada. A diretriz americana reúne sensibilidade de 87 a 98% e especificidade de 99 a 100% para líquido intraperitoneal no trauma fechado, e registra que o exame está incorporado aos protocolos dos centros de trauma e ao ATLS.

O que o FAST não vê decorre do que ele procura. Ele procura líquido, e não lesão: a víscera que rompeu sem sangrar ainda, o órgão sólido com hematoma contido e tudo o que sangra no retroperitônio — pâncreas, duodeno, rins, grandes vasos — ficam fora das quatro janelas. A diretriz capixaba registra que a tomografia, no paciente estável, diagnostica as lesões retroperitoneais e pélvicas que o exame físico, o FAST e o lavado peritoneal não avaliam bem; e a diretriz americana dá ao exame baixa sensibilidade no trauma abdominal penetrante, a ponto de chamá-lo de ferramenta limitada nesse cenário. O FAST é, além disso, a fotografia de um momento: o sangramento que começa agora não aparece na imagem de cinco minutos atrás, e o exame se repete quando o quadro muda.

A decisão que o achado sustenta tem dono. Pela diretriz capixaba, o trauma contuso com hipotensão e FAST positivo é indicação de laparotomia de emergência; o paciente estável segue para tomografia. Essa decisão, com todas as suas exceções, é do capítulo Trauma abdominal fechado e do capítulo Atendimento inicial ao politraumatizado; o ferimento penetrante é do capítulo Trauma abdominal penetrante (indicações de laparotomia), e a reposição do choque hemorrágico, do capítulo Choque hemorrágico no trauma e reposição volêmica / transfusão maciça. Aqui fica a técnica e o reconhecimento do líquido.

Fora do trauma, a mesma janela muda de pergunta. Líquido livre em volume no paciente com cirrose é ascite, e a punção guiada é do capítulo Paracentese: diagnóstica e de alívio. Líquido livre numa mulher em idade fértil com dor e hipotensão põe a gravidez ectópica rota entre as primeiras hipóteses, e o diagnóstico e a conduta são do capítulo Gravidez ectópica, da apostila de Obstetrícia. E no idoso com dor lombar ou abdominal e aorta dilatada, a ausência de líquido livre não tranquiliza ninguém, pelas razões da seção seguinte.

Aorta abdominal, veias das pernas, bexiga e rim

A aorta abdominal se procura com a sonda de baixa frequência em corte transversal, do epigástrio até a bifurcação, e depois em corte longitudinal. Ela fica à esquerda da coluna, na frente do corpo vertebral, redonda, pulsátil e de parede espessa; a veia cava fica à direita, é ovalada, varia com a respiração e colaba sob pressão. Gás intestinal fecha a janela, como fecha todas as outras. A régua de tamanho é a do capítulo Aneurisma de aorta abdominal (rastreamento, rotura), da apostila Cirurgia Vascular: abaixo de 3,0 centímetros é ectasia, e a partir de 3,0 é aneurisma. O exame feito pelo emergencista detecta aneurisma com sensibilidade de 97 a 100% e especificidade de 94 a 100%, pela diretriz americana, que também registra que o ultrassom feito por estudante superou o exame físico de cirurgiões vasculares nessa tarefa.

A rotura é outra pergunta, e o ultrassom a responde mal. A diretriz americana diz que a rotura é difícil de discernir e lista sinais propostos como muito específicos — contorno irregular do aneurisma, descontinuidade focal da parede, trombo flutuante ou interrompido, focos hipoecoicos em volta da aorta e líquido no peritônio ou no retroperitônio —, mas nenhum deles tem sensibilidade para afastar. O capítulo de aneurisma diz isso com todas as letras: o sangue da rotura pode ficar preso no retroperitônio, fora do alcance da sonda, e por isso a falta de líquido livre, diante de aneurisma com dor, simplesmente não responde à pergunta da rotura. Aorta dilatada, dor e instabilidade juntas são emergência cirúrgica, e o encaminhamento é do capítulo de aneurisma e do capítulo Dor lombar aguda: os sinais de alarme. A dissecção da aorta abdominal apareceu ao ultrassom do emergencista com sensibilidade de 86% e especificidade de 100%; na dissecção proximal, derrame pericárdico, insuficiência aórtica e raiz dilatada ajudam quando presentes, mas sua ausência não afasta nada, e o assunto é do capítulo Dissecção aórtica aguda (Stanford, DeBakey).

A compressão venosa das pernas pesquisa trombose proximal. O posicionamento brasileiro descreve o paciente deitado no próprio leito, com a cabeceira a 30 graus se possível, o membro em rotação externa e o joelho levemente fletido, o que dá acesso à virilha e ao oco poplíteo sem reposicionar a perna. A sonda linear fica transversal sobre a veia e aperta até as paredes se encostarem, sem medo: o posicionamento avisa que, na trombose aguda, a veia deixa de colabar antes de o trombo ficar visível, e que compressão suave demais fabrica falso negativo. A artéria ao lado, que não colaba, é o controle.

Há dois protocolos abreviados. O de dois pontos comprime a veia femoral comum na virilha, de 1 a 2 centímetros acima e abaixo da junção com a safena magna, e a veia poplítea até a confluência das veias da perna. O estendido, de três pontos, acrescenta a veia femoral ao longo da coxa — no desenho do posicionamento, nos segmentos proximal e médio-distal, a cada 2 a 3 centímetros —, e a diretriz conjunta de tromboembolismo venoso o descreve como a avaliação de todas as veias proximais, da femoral comum até a poplítea. O diagnóstico, nos dois, é a veia que não colaba ou o material ecogênico dentro dela, e a trombose aguda costuma deixar a veia dilatada em comparação com o outro lado. O posicionamento dá ao exame de trombose proximal feito por profissional treinado, na urgência, recomendação de classe I.

O que a compressão abreviada não faz também está escrito. Ela não examina as veias da perna abaixo da poplítea. A diretriz americana reúne sensibilidade de 90 a 95% e especificidade de 91 a 98% para a compressão limitada, e registra que o protocolo de dois pontos, por não avaliar a veia femoral isolada, deixa passar de 5 a 7% das tromboses dessa veia — a escolha entre dois e três pontos está no bloco de divergências. A diretriz conjunta recomenda o exame vascular completo, de todas as veias abaixo da virilha até o tornozelo, com Doppler, para o diagnóstico de trombose aguda, e manda repetir a compressão quando os sintomas persistem ou o dímero-D está elevado. Cisto de Baker, hematoma muscular, abscesso e linfonodo imitam a queixa. Compressão positiva é trombose e permite discutir tratamento agora; negativa com probabilidade clínica alta não encerra a investigação. A decisão — escore, dímero-D, anticoagulação — é do capítulo Trombose venosa profunda e diagnóstico (escore de Wells), e a trombose do membro superior tem pouca evidência de exame à beira do leito.

A bexiga é a janela mais fácil do capítulo: suprapúbica, em corte transversal e longitudinal, preta quando cheia. O volume se estima pelos três diâmetros, e a aproximação geométrica é a do elipsoide, em que o volume é o produto dos três diâmetros multiplicado por pi sobre seis, cerca de 0,52 — uma bexiga de 10 por 9 por 8 centímetros tem perto de 380 mililitros. É estimativa, não medida, e erra mais em bexiga de formato irregular. O que ela responde bem é a pergunta de sim ou não do plantão: o paciente que não urina tem urina presa? No idoso anúrico do pós-operatório, olhar a bexiga vem antes do diurético e antes do volume. O limiar de retenção, a drenagem e o que fazer depois dela são do capítulo Hiperplasia prostática benigna, STUI e retenção urinária aguda e do capítulo Sondagem vesical de alívio e de demora.

No rim, a pergunta é dilatação: a hidronefrose aparece como pelve e cálices pretos dentro do seio renal, que normalmente é brilhante. Na cólica renal, a diretriz americana dá ao ultrassom sensibilidade de 70,2% e especificidade de 75,4%, e a especificidade sobe para 94,4% quando se considera só a hidronefrose moderada ou acentuada — a dilatação discreta é a menos confiável, e a ausência de dilatação não afasta cálculo. O capítulo Litíase urinária e cólica nefrética (conduta) resume a pergunta que o método responde bem: dilatação, não cálculo; e é dele a escolha entre ultrassom e tomografia. Hidronefrose bilateral com função renal caindo aponta obstrução pós-renal, e a bexiga é o primeiro lugar a olhar; a investigação da injúria renal é do capítulo Injúria renal aguda: pré-renal, renal e pós-renal. E no idoso com a primeira cólica da vida, olhe a aorta antes de aceitar o cálculo.

Integrar: o choque indiferenciado, a dispneia e o procedimento guiado

Janela isolada engana; padrão não engana tanto. O posicionamento brasileiro afirma que o exame à beira do leito identifica o perfil hemodinâmico do choque em até dois minutos, mesmo feito por não especialistas, e que combinar pulmão, coração e eFAST acrescenta sobre o coração ou o eFAST isolados. Afirma também, e isso vale para o interno, que quem está no início do treinamento deve se concentrar na avaliação qualitativa, porque decidir com base em medidas objetivas sem proficiência compromete o manejo. Os protocolos têm muitos nomes — RUSH, EGLS, FATE para o choque, BLUE para a insuficiência respiratória —, e o valor de todos está na ordem em que fazem as perguntas.

O posicionamento propõe para o choque cinco perguntas, adaptadas do protocolo EGLS, nesta ordem. Primeira: há tamponamento? Derrame moderado a importante, colapso do átrio ou do ventrículo direitos, veia cava acima de 20 milímetros com variação abaixo de 50%. Segunda: o paciente está hipovolêmico? Ventrículo esquerdo hiperdinâmico, veia cava de 10 milímetros ou menos ou colabando, perfil A no pulmão — e aí se procura sangramento ou sepse, com eFAST. Terceira: há disfunção importante do ventrículo esquerdo como causa do choque? Contratilidade gravemente reduzida, perfil B, veia cava dilatada e sem variação. Quarta: há sinais de cor pulmonale agudo? Ventrículo direito dilatado, ventrículo esquerdo em D, veia cava dilatada — e aí se pensa em embolia e em infarto do ventrículo direito. Quinta: há pneumotórax? Ausência de deslizamento e ponto pulmonar.

A ordem não é enfeite. As perguntas prioritárias procuram causas reversíveis em minutos e avaliam se a reposição é necessária e tolerável. O perfil A no pulmão diz que o pulmão não está congesto; não diz que o coração direito aguenta volume — o tamponamento, a embolia maciça e o pneumotórax hipertensivo também têm pulmão limpo. O posicionamento afirma que, com padrão pulmonar normal, é improvável que um choque cardiogênico puro seja a causa da instabilidade e que o volume provavelmente é seguro; a ausência desses achados reduz algumas preocupações, mas não comprova, sozinha, necessidade ou segurança da reposição. Integre clínica, perfusão e reavaliação dinâmica. Duas armadilhas completam o quadro: o coração normal fica levemente hiperdinâmico no choque séptico, pela vasodilatação, e a disfunção do ventrículo esquerdo pode aparecer só depois que o vasopressor sobe a resistência. As decisões de cada ramo são dos capítulos donos nomeados nas seções acima.

Na dispneia aguda, a lógica é a mesma com outra ordem: pulmão primeiro, depois coração e veias. Perfil B com ventrículo esquerdo disfuncionante e cava dilatada pesa para edema cardiogênico; linhas B focais com consolidação e pleura irregular pesam para pneumonia; perfil A com trombose nas pernas ou ventrículo direito dilatado pesa para embolia; ausência de deslizamento anterior pesa para pneumotórax. A diretriz americana registra, com base numa meta-análise de 31 estudos, que o ultrassom foi o teste isolado mais útil para diagnosticar insuficiência cardíaca aguda. O que cada achado faz é deslocar a probabilidade; quem decide o tratamento é o capítulo Dispneia aguda indiferenciada e os capítulos de cada doença.

Guiar procedimento é o uso em que a evidência de segurança é mais direta. A diretriz americana reúne: no acesso venoso central, pela jugular interna, subclávia ou femoral, o ultrassom aumenta o sucesso e reduz complicações, a ponto de a agência americana de qualidade em saúde incluí-lo entre as onze principais estratégias de segurança do paciente; no acesso periférico, a chance de sucesso dobra, com razão de chances de 2,1; na punção arterial, as complicações caem, com risco relativo de 0,39; na paracentese, o sucesso sobe de 61% para 95% e o sangramento cai; na toracocentese, o pneumotórax cai, com razão de chances de 0,3; e a pericardiocentese guiada tem sucesso de 97 a 98%, com complicações de 4,7 a 7%. O posicionamento brasileiro acrescenta três regras: preferir a técnica dinâmica, com a agulha acompanhada em tempo real, à marcação prévia da pele; lembrar que a artéria femoral se sobrepõe à veia em até metade dos pacientes, e trocar de lado quando a artéria cobre a veia inteira; e não puncionar a subclávia em corte transversal, pelo risco de pneumotórax.

O ultrassom torna visíveis o alvo e a agulha; não muda indicação, contraindicação, antissepsia nem posição do paciente, que são dos capítulos de cada técnica: Acesso venoso periférico: técnica, escolha e complicações; Acesso venoso central: indicação, sítios e o que dá errado; Toracocentese: diagnóstica e de alívio; Paracentese: diagnóstica e de alívio; Sondagem vesical de alívio e de demora; e Pericardite aguda e tamponamento cardíaco, para a pericardiocentese. É justamente na posição que o posicionamento brasileiro erra num ponto que muda conduta, com a conta feita nas notas do critério: para a jugular e a subclávia, a regra continua sendo a do capítulo de acesso central — cabeça baixa, e não elevada.

A fronteira com o capítulo Radiografia de abdome: o que procurar e o que ela não mostra, desta apostila, segue a física do mecanismo. A radiografia fica com o ar — alças distendidas, níveis, ar fora das alças — e com o que é denso; o ultrassom fica com o líquido e com os órgãos cheios de líquido: sangue livre, ascite, bexiga, pelve renal dilatada e a luz da aorta.

07

As janelas, os números e o que cada achado autoriza

Aprenda a usar POCUS como exame focado integrado à clínica, com supervisão e limites explícitos de competência.

  1. 10. Antes da sonda: chame quem decide e formule a pergunta de sim ou não que a imagem vai responder — e aceite que “não consegui ver” é uma das respostas.
  2. 21. Escolha sonda, preset, profundidade e ganho pela estrutura, e confira o marcador antes de interpretar qualquer lado.
  3. 32. Parada ou quase parada: imagem só dentro da pausa de dez segundos, pela subcostal, com análise no ciclo seguinte e compressões correndo.
  4. 43. No choque, procure rapidamente causas que exigem intervenção imediata e avalie pericárdio, ventrículos, pleuras e sinais de depleção ou congestão conforme a hipótese clínica. Hipovolemia verdadeira pode exigir reposição; cardiopatia e choque obstrutivo exigem avaliação da tolerância e tratamento da causa. Nenhum achado isolado de cava ou pulmão define necessidade de volume. Não atrase suporte nem tratamento de causas reversíveis para completar uma sequência fixa de janelas.
  5. 54. Pulmão: deslizamento e linhas B nos pontos anteriores; derrame e consolidação no ponto posterolateral; no instável, ausência de deslizamento sem linhas B e sem pulso basta.
  6. 65. Coração: derrame e sinais de repercussão, contratilidade qualitativa do esquerdo, tamanho do direito contra o esquerdo.
  7. 76. Veia cava: só os extremos têm valor, e só lidos junto com coração e pulmão; volume além da fase inicial se decide por medida dinâmica.
  8. 87. Abdome: FAST no trauma, aorta no idoso com dor, bexiga no paciente que não urina, rim na cólica — cada janela com a sua pergunta.
  9. 98. Pernas: compressão em três pontos; positiva confirma trombose proximal, negativa com suspeita alta não encerra a investigação.
  10. 109. Registre pergunta, janelas obtidas e não obtidas, achados e limite; comunique o achado a quem decide e peça o exame completo quando a dúvida persistir.
AchadoO que ele dizO que ele não dizQuem decide o que fazer
Deslizamento pleural, linhas B ou pulso pulmonar num pontoNão há pneumotórax naquele pontoNada sobre o resto do hemitórax nem sobre o outro ladoPneumotórax espontâneo (primário e secundário); Atendimento inicial ao politraumatizado
Ausência de deslizamento, sem linhas B e sem pulso pulmonarPneumotórax provável; no instável, basta para agirSem ponto pulmonar não é específico: intubação seletiva, pleurodese, contusão e fibrose também tiram o deslizamentoAtendimento inicial ao politraumatizado; Pneumotórax espontâneo
Perfil B: três ou mais linhas B por região, nos pontos anteriores dos dois ladosSíndrome intersticial; congestão, se houver quadro de insuficiência cardíacaQual líquido: inflamação, contusão e fibrose também produzem linhas BDispneia aguda indiferenciada; Edema agudo de pulmão: reconhecer e agir
Derrame pleural anecoicoHá líquido na pleura, detectável a partir de 20 mLSe é transudato ou exsudatoToracocentese: diagnóstica e de alívio
Derrame pericárdicoHá líquido no pericárdioTamponamento: quem o sustenta é o colapso das câmaras direitas com cava dilatada, não a espessura do derramePericardite aguda e tamponamento cardíaco
Ventrículo direito do tamanho do esquerdo ou maior, septo em DSobrecarga de pressão do ventrículo direitoA causa — embolia, infarto do ventrículo direito, insuficiência cardíaca aguda — nem se a sobrecarga é agudaTromboembolismo pulmonar: diagnóstico e manejo
Ventrículo direito sem sobrecarga no paciente instávelEmbolia maciça fica improvável como causa da instabilidadeNo paciente estável, não afasta emboliaTromboembolismo pulmonar: diagnóstico e manejo
Ventrículo esquerdo pequeno e hiperdinâmicoEnchimento baixo ou vasodilataçãoHipovolemia com certeza: sepse inicial e insuficiência mitral aguda imitam o padrãoDiferenciar os tipos de choque e conduzir cada um
Veia cava de 10 mm ou menos, ou colabandoProvável resposta e tolerância a volumeQue o paciente precisa de volume; compressão abdominal e ventilação mecânica enganamDiferenciar os tipos de choque; Sepse e choque séptico
Veia cava acima de 20 mm com variação menor que 50%Pressão venosa altaQue volume está proibido: sozinha, não contraindicaDiferenciar os tipos de choque; Hipotensão na enfermaria
Líquido em alguma janela do FASTHá líquido no peritônio ou no pericárdioQual órgão sangrou; no trauma penetrante, a sensibilidade é baixaTrauma abdominal fechado (FAST, laparotomia x conservador)
FAST sem líquido nas quatro janelasNão há líquido acumulado nas janelas neste momentoLesão de víscera, sangramento retroperitoneal, sangramento que ainda não acumulouTrauma abdominal fechado; Atendimento inicial ao politraumatizado
Aorta abdominal de 3,0 cm ou maisAneurismaSe rompeu: o sangramento contido no retroperitônio não apareceAneurisma de aorta abdominal (rastreamento, rotura)
Veia femoral ou poplítea que não colabaTrombose venosa proximalExtensão para as veias da perna e idade do tromboTrombose venosa profunda e diagnóstico (escore de Wells)
Compressão normal em dois ou três pontosSem trombose nos segmentos comprimidosTrombose das veias da perna; em dois pontos, trombose isolada da veia femoralTrombose venosa profunda e diagnóstico (escore de Wells)
Bexiga cheia no paciente que não urinaUrina retidaPor que reteve e se o volume já é de retençãoHiperplasia prostática benigna, STUI e retenção urinária aguda
Hidronefrose moderada ou acentuadaObstrução provávelCálculo; e a ausência de dilatação não afasta cálculoLitíase urinária e cólica nefrética (conduta)

Pulmão: os sinais, onde se procuram e onde enganam

SinalOnde e como se vêO que significaOnde engana
Deslizamento pleuralLinha pleural que cintila com a respiração; no modo M, sinal da beira-marPleuras encostadas: não há pneumotórax naquele pontoSome sem pneumotórax na intubação seletiva, na pleurodese, na contusão e na fibrose
Linhas ACópias horizontais da linha pleural, a intervalos iguaisAr abaixo da pleura — pulmão aerado ou ar na pleuraCom deslizamento, pulmão aerado; sem deslizamento, podem ser pneumotórax
Linhas BArtefatos verticais da pleura até o fim da tela, sem esmaecer, movendo-se com o deslizamentoSeptos espessados por líquido, inflamação ou fibrose; excluem pneumotórax no pontoNão dizem qual líquido; região positiva exige três ou mais entre duas costelas
Linhas ZArtefatos verticais curtos e parados, que não chegam ao fim da telaSem significado patológicoContadas como linhas B, fabricam congestão
Pulso pulmonarPleura parada que oscila no ritmo do coraçãoPleuras encostadas: exclui pneumotórax no pontoAparece no pulmão que não ventila, como na intubação seletiva
Ponto pulmonarTransição entre padrão parado e padrão que desliza, no mesmo ponto da paredePneumotórax; quanto mais lateral, maiorAusente no pneumotórax que descola o pulmão inteiro
Código de barras (estratosfera)No modo M, linhas horizontais em toda a profundidadeAusência de deslizamentoTem as mesmas causas não pneumotórax da ausência de deslizamento
Derrame anecoicoEspaço preto acima do diafragma, melhor na linha axilar posteriorLíquido na pleura, a partir de 20 mLNão separa transudato de exsudato
Plâncton, septações e debrisEcos móveis no líquido; traves e grumosInfecção ou hemotórax provável; septado dificulta drenagemEcos móveis também depois de diurético agressivo
Consolidação com broncograma dinâmicoTecido com textura de fígado e pontos brilhantes que se movemPneumonia provávelAtelectasia e pneumonia coexistem
Broncograma estáticoPontos brilhantes parados dentro da consolidaçãoAtelectasia provávelExige o quadro clínico para separar de pneumonia
Consolidação subpleural triangularPequena área escura sob a pleura, nas bases posterioresSugere infarto pulmonarEmbolia sem infarto tem pulmão normal ao ultrassom

Choque indiferenciado: as cinco perguntas, na ordem

PerguntaAchados que dizem simO que enganaPróximo passo e capítulo dono
1. Há tamponamento?Derrame moderado a importante, colapso do átrio ou do ventrículo direito, cava acima de 20 mm com variação abaixo de 50%Derrame pleural esquerdo e gordura epicárdica tomados por derrame; espessura do derrame tomada por diagnósticoChamar já; drenagem é decisão de Pericardite aguda e tamponamento cardíaco
2. Há hipovolemia?Ventrículo esquerdo hiperdinâmico, cava de 10 mm ou menos ou colabando, perfil ASepse inicial, insuficiência mitral aguda grave, compressão abdominal da cavaProcurar sangramento e sepse, eFAST; volume por Diferenciar os tipos de choque e Sepse e choque séptico
3. O ventrículo esquerdo é a causa?Contratilidade gravemente reduzida, perfil B, cava dilatada e sem variaçãoDisfunção antiga com pulmão limpo e cava fina não é choque cardiogênico puroDiferenciar os tipos de choque e conduzir cada um
4. Há cor pulmonale agudo?Ventrículo direito dilatado, ventrículo esquerdo em D, cava dilatadaJanela oblíqua que aumenta o direito; hipertensão pulmonar antigaTromboembolismo pulmonar: diagnóstico e manejo; infarto do ventrículo direito
5. Há pneumotórax?Ausência de deslizamento, sem linhas B e sem pulso; ponto pulmonar quando visívelIntubação seletiva, pleurodese, contusão, fibroseDescompressão por Atendimento inicial ao politraumatizado; não atrasar para achar o ponto pulmonar

Os números do exame focado, traduzidos para o plantão

Medida ou testeValorDe onde vemTradução para o plantão
FAST para líquido intraperitoneal, trauma fechadoSensibilidade 87–98%; especificidade 99–100%Diretriz americana de 2023Em cada 100 pacientes com líquido, de 2 a 13 têm FAST negativo; positivo quase nunca é falso
Ecocardiograma para tromboembolismo pulmonarSensibilidade 60–70%; McConnell em 12–20%Posicionamento brasileiro de 2026Em cada 100 embolias, 30 a 40 sem sinal no coração: no estável, coração normal não afasta
Triplo exame: coração, veias e pulmão, para emboliaSensibilidade 90%; especificidade 86%Posicionamento brasileiro de 2026Somar janelas rende mais que qualquer uma sozinha (33%, 53% e 61%)
Compressão venosa limitadaSensibilidade 90–95%; especificidade 91–98%Diretriz americana de 2023Positiva confirma; negativa com suspeita alta pede exame completo ou repetição
Compressão em dois pontosPerde 5–7% das tromboses isoladas da veia femoralDiretriz americana de 2023Razão para comprimir a coxa: três pontos
Pneumotórax ao ultrassomSensibilidade 90%; especificidade 98%Posicionamento brasileiro de 2026Supera a radiografia em decúbito para confirmar e para afastar
Derrame pleuralAcurácia 93% contra 47% da radiografia; detecta a partir de 20 mLPosicionamento brasileiro de 2026Radiografia de leito normal não encerra a pergunta da água
Perfil B para congestãoSensibilidade 97%; especificidade 95%Posicionamento brasileiro de 2026Vale dentro de um quadro de insuficiência cardíaca; linhas B focais pesam para inflamação
Cólica renal ao ultrassomSensibilidade 70,2%; especificidade 75,4%; 94,4% com hidronefrose moderada ou acentuadaDiretriz americana de 2023Sem dilatação, o cálculo continua possível; dilatação discreta é a menos confiável
Aneurisma de aorta pelo emergencistaSensibilidade 97–100%; especificidade 94–100%; aneurisma a partir de 3,0 cmDiretriz americana de 2023; régua do capítulo de aneurismaEncontra o aneurisma; não afasta rotura
Veia cava inferior10 mm ou menos ou colabando; acima de 25 mm sem variação; acima de 20 mm com variação abaixo de 50%Posicionamento brasileiro de 2026Só os extremos informam; acurácia para resposta a volume caiu de 90% para 65% nos estudos posteriores
Ventrículo direito contra esquerdoÁrea normal até 2/3 (0,667); acima de 1, sobrecarga importante; TAPSE anormal abaixo de 1,7 cm (17 mm)Posicionamento brasileiro de 2026O limiar que decide é direito do tamanho do esquerdo ou maior (ver nota)
Elevação passiva das pernas com integral velocidade-tempoAumento de 10% ou mais prevê resposta (acurácia 84%); variabilidade da medida cerca de 11%Posicionamento brasileiro de 2026Aumento perto de 11% pode ser ruído; acima de 20% é mais provável resposta real; exame de quem tem proficiência
Volume vesical pelo elipsoideDiâmetros × π/6 (0,5236): 10 × 9 × 8 cm ≈ 377 mL; 6 × 5 × 4 cm ≈ 63 mLGeometria do elipsoideEstimativa, não medida; responde bem se a bexiga está cheia
Pressão dentro da veia do pescoço conforme a alturaCerca de 0,78 mmHg por centímetro de sangue acima do átrio: PVC 5 com ponto 10 cm acima ≈ −2,8 mmHg; 5 cm abaixo ≈ +8,9 mmHgHidrostática (1,06 g/mL × 9,81 m/s² × 0,01 m ÷ 133,3 Pa/mmHg)Cabeça elevada murcha a jugular e aspira ar; é a base da nota sobre posição na punção

O passo a passo de punção venosa guiada do posicionamento brasileiro de 2026, na seção 10.1.2, manda posicionar o paciente preferencialmente em Trendelenburg reverso, para aumentar o calibre da veia — e o passo 7 da mesma sequência manda girar o rosto 45 graus para o lado oposto, ou seja, descreve a punção da jugular interna. Para essa veia a posição está invertida, e o próprio objetivo declarado no passo desmente a posição prescrita. A conta: cada centímetro de sangue acima do átrio direito subtrai cerca de 0,78 mmHg da pressão dentro da veia (1,06 g/mL × 9,81 m/s² × 0,01 m ÷ 133,3 Pa por mmHg). Com pressão venosa central de 5 mmHg e o ponto de punção 10 cm acima do átrio, a pressão na jugular fica em 5 − 7,8 = −2,8 mmHg: a veia murcha, o alvo encolhe e a agulha aberta aspira ar. Com a cabeça 5 cm abaixo do átrio, a mesma conta dá 5 + 3,9 = +8,9 mmHg. A posição que vale é a do capítulo Acesso venoso central: indicação, sítios e o que dá errado — Trendelenburg para jugular e subclávia; a punção femoral é a que dispensa Trendelenburg.

O mesmo posicionamento dá duas réguas sobrepostas para o tamanho do ventrículo direito. Na seção 2.3, a área do ventrículo direito na janela apical é normalmente de até dois terços da do esquerdo, e a relação acima de 1 sugere sobrecarga importante. Na seção 6.3, a proporção entre os ventrículos classifica o cor pulmonale como leve quando o direito passa de 60% do esquerdo, moderado quando os dois se igualam e grave quando o direito é maior — sem dizer se mede área ou diâmetro. A conta: dois terços são 0,667, e toda relação acima de 0,60 e até 0,667 é normal pela primeira régua e cor pulmonale leve pela segunda. Lida pela segunda, um ventrículo direito normal vira argumento a favor de embolia num paciente instável. O ponto em que as duas seções concordam — ventrículo direito do tamanho do esquerdo ou maior — é o limiar que este capítulo usa, e a faixa intermediária não deve ser lida como sinal de sobrecarga.

08

A conduta, hora a hora

Um exame à beira do leito só vale o tempo de ligar o aparelho se terminar numa ação: uma ligação, uma decisão tomada por quem responde pelo paciente, um registro, um exame completo pedido. A linha do tempo abaixo é a do paciente instável, porque é nele que o interno mais usa — e mais erra — o aparelho. Os minutos são aproximados e servem para dar ordem, não meta.

Nenhum marco prescreve fármaco nem volume: a conduta que cada achado sustenta pertence ao capítulo dono da síndrome, nomeado no próprio marco. O que se prescreve aqui são atos do exame — onde pôr a sonda, o que procurar, o que dizer e o que escrever. No paciente estável, os mesmos marcos valem sem o relógio.

  1. Antes de ligar o aparelho — a ligação e a pergunta

    O primeiro ato do exame não é a imagem: é chamar quem decide. O aparelho demora a chegar, a bateria pode estar no fim e a janela pode não abrir; nada disso pode atrasar a ligação nem o suporte básico. Enquanto o equipamento vem, o interno faz o que o capítulo Hipotensão na enfermaria: causas e conduta imediata ensina para a primeira hora e transforma a dúvida clínica em perguntas que a sonda pode responder. No paciente da cena, foram quatro, ditadas pela residente — e a ordem delas não foi acaso: primeiro as causas que exigem intervenção imediata e os achados que mudam a decisão de repor volume.

    Prescrição
    • Chamar o médico responsável antes do exame, e não depois; a imagem acrescenta à ligação, não a substitui.
    • Manter monitorização, oxigênio e acesso venoso conforme o capítulo de hipotensão na enfermaria enquanto o aparelho chega.
    • Escrever as perguntas de sim ou não na ordem das cinco perguntas do choque: tamponamento, hipovolemia, ventrículo esquerdo, ventrículo direito, pneumotórax.
    • Conferir a identificação do paciente no aparelho quando ele gravar imagens.
    • Explicar ao paciente consciente que é um ultrassom no próprio leito, que não usa radiação e não dói, e pedir licença para expor o tórax e o abdome.
  2. Minuto 0 — se o paciente parar

    Na parada, o ultrassom é convidado, não anfitrião. O posicionamento brasileiro reconhece que o uso durante a reanimação ainda é cercado de incerteza, e que a principal preocupação é o exame atrasar a volta das compressões. Por isso a imagem só é adquirida dentro da pausa de checagem de ritmo, de no máximo dez segundos, pela janela subcostal, e analisada depois, com as compressões correndo. O que se procura são causas que se tratam na hora e que a reanimação sozinha não corrige. A imagem de coração parado não encerra a reanimação por si: na série de parada clínica citada pela diretriz americana, 0,6% desses pacientes ainda tiveram alta.

    Prescrição
    • Seguir o capítulo Parada cardiorrespiratória na enfermaria: o papel do interno; o ultrassom entra só se houver alguém treinado e mãos sobrando.
    • Posicionar a sonda setorial na subcostal antes da pausa, gravar durante a pausa e retirar a sonda quando a pausa terminar.
    • Analisar o clipe gravado no ciclo seguinte, sem pedir nova pausa para rever.
    • Procurar derrame pericárdico, ventrículo direito dilatado, câmaras vazias e atividade mecânica, e dizer ao líder o achado em voz alta, numa frase.
    • Não sugerir fim de reanimação com base apenas em coração parado na imagem.
  3. Minuto 1 a 3 — subcostal: tamponamento e ventrículo direito

    Derrame com repercussão nas câmaras e clínica compatível levanta tamponamento. VD dilatado com desvio septal sugere sobrecarga, mas não distingue por si causa aguda de crônica nem comprova TEP. Em choque pós-operatório, integrar início súbito, ecocardiograma prévio, ECG e outras janelas. Evitar volume indiscriminado; pequenas alíquotas podem ter papel em situações selecionadas de baixo enchimento, sem atrasar tratamento definitivo.

    Prescrição
    • Obter a subcostal com a sonda de baixa frequência e o marcador para a esquerda; se não abrir, tentar paraesternal e apical, e registrar qual abriu.
    • Diante de derrame com colapso de câmara direita e cava dilatada, comunicar imediatamente como suspeita de tamponamento; a pericardiocentese é decisão do capítulo Pericardite aguda e tamponamento cardíaco.
    • Comunicar dilatação/sobrecarga do VD e o contexto agudo, sem afirmar cronicidade pela imagem isolada. Discutir TEP, infarto de VD, hipertensão pulmonar e outras causas; decidir fluidos e investigação pela repercussão e pela equipe.
    • Não usar a espessura do derrame para afirmar ou negar tamponamento.
    • Não inferir o que não se viu: janela que não abriu é registrada como não obtida.
  4. Minuto 3 a 5 — pulmões: ar e água

    Ausência de deslizamento não confirma pneumotórax: considerar apneia, intubação seletiva, aderências/pleurodese, atelectasia, doença parenquimatosa e falha técnica. Deslizamento, linha B verdadeira ou pulso pulmonar excluem pneumotórax no ponto observado quando reconhecidos corretamente. Instabilidade compatível com tensão requer decisão rápida pela clínica e conjunto ultrassonográfico, sem exigir ponto pulmonar ou radiografia.

    Prescrição
    • Examinar os dois pontos anteriores de cada hemitórax, começando pelo mais alto no paciente deitado, durante um ciclo respiratório completo em cada ponto.
    • Registrar em cada ponto: deslizamento presente ou ausente, linhas A ou B, pulso pulmonar quando visto.
    • No instável com ausência de deslizamento, sem linhas B e sem pulso, comunicar como suspeita de pneumotórax hipertensivo; a descompressão segue o capítulo Atendimento inicial ao politraumatizado (ABCDE do ATLS).
    • No paciente intubado com deslizamento ausente de um lado só, conferir a marcação do tubo na rima labial e avisar o responsável da hipótese de intubação seletiva antes de qualquer punção.
    • No ponto posterolateral, procurar derrame e consolidação; a punção de derrame é do capítulo Toracocentese: diagnóstica e de alívio.
  5. Minuto 5 a 7 — a veia cava, e a pergunta do volume

    A cava é um dado contextual de pressão/interação cardiopulmonar, não um medidor isolado de volemia ou resposta a fluidos. Diâmetro e variação dependem de esforço, ventilação, pressão abdominal, função direita e técnica. Mesmo extremos não excluem choque misto ou déficit de volume. Avaliar benefício e risco de fluidos pela perfusão, coração, pulmão e testes dinâmicos quando aplicáveis.

    Prescrição
    • Obter a cava em corte longitudinal, com a sonda perpendicular à parede e o marcador para a cabeça, e observar um ciclo respiratório completo.
    • Registrar ventilação espontânea, controlada ou assistida, esforço e parâmetros relevantes; não assumir inversão simples da variação em toda ventilação mecânica.
    • Registrar a cava em três categorias — fina e colabando, dilatada e fixa, intermediária — sem converter o achado em volume a infundir.
    • Diante de cava colabada com abdome tenso e distendido, levantar para o responsável a hipótese de compressão abdominal da cava antes da de hipovolemia.
    • Deixar a decisão sobre volume com os capítulos Diferenciar os tipos de choque e conduzir cada um e Sepse e choque séptico: identificação precoce e pacotes iniciais.
  6. Minuto 7 a 9 — abdome e pelve: líquido, aorta e bexiga

    O abdome tem três perguntas diferentes, e a história escolhe qual fazer. No trauma, é o FAST: quatro janelas em busca de líquido. No idoso com dor abdominal, lombar ou no flanco, e em todo idoso hipotenso sem causa, é a aorta — e aneurisma com dor e instabilidade é emergência cirúrgica, com ou sem líquido livre. No paciente que não urina, é a bexiga, antes de qualquer diurético ou volume. Numa mulher em idade fértil com dor e hipotensão, o líquido livre muda a pergunta para gravidez ectópica rota.

    Prescrição
    • No trauma, examinar pericárdio, espaço hepatorrenal, espaço esplenorrenal e pelve, e repetir o exame quando o quadro mudar; a decisão é do capítulo Trauma abdominal fechado (FAST, laparotomia x conservador).
    • No idoso com dor ou hipotensão, varrer a aorta em corte transversal do epigástrio à bifurcação; aneurisma com dor ou instabilidade é comunicado como emergência vascular, pelo capítulo Aneurisma de aorta abdominal (rastreamento, rotura).
    • Não registrar ausência de líquido livre como tranquilizadora no paciente com aneurisma e dor.
    • No paciente que não urina, olhar a bexiga antes do diurético; bexiga cheia é comunicada como retenção e segue o capítulo Sondagem vesical de alívio e de demora.
    • Na mulher em idade fértil com líquido livre e instabilidade, comunicar como suspeita de gravidez ectópica rota, pelo capítulo Gravidez ectópica, e garantir o teste de gravidez.
  7. Minuto 9 a 12 — as pernas, quando a pergunta é embolia

    Quando o coração direito está dilatado ou a suspeita de embolia é alta, a compressão venosa é a janela que mais rende em um paciente que não pode ir à tomografia: trombose proximal encontrada, num paciente com sintomas respiratórios, é achado altamente sugestivo de embolia e ajuda quem decide sem precisar de transporte. Comece pela perna mais suspeita — no paciente da cena, a operada — e comprima em três pontos, com força suficiente para as paredes se tocarem. Positiva, é trombose, e se comunica como tal. Negativa, não afasta embolia nem trombose das veias da perna, e isso também se comunica.

    Prescrição
    • Posicionar a perna em rotação externa com o joelho levemente fletido e a cabeceira a 30 graus, se o paciente tolerar.
    • Comprimir com a sonda linear transversal a veia femoral comum na junção com a safena e logo abaixo dela, a veia femoral ao longo da coxa e a veia poplítea até a confluência das veias da perna.
    • Registrar cada segmento como compressível, não compressível ou não avaliado.
    • Veia não compressível: comunicar como trombose venosa proximal; a conduta é dos capítulos Trombose venosa profunda e diagnóstico (escore de Wells) e Tromboembolismo pulmonar: diagnóstico e manejo.
    • Compressão normal com suspeita alta: registrar o limite do exame e pedir o exame vascular completo ou a repetição, como manda a diretriz conjunta de 2022.
  8. Depois da imagem — integrar, comunicar, registrar e pedir o exame completo

    O exame termina quando o achado chega a quem decide numa frase que ele consiga usar. A frase tem a mesma estrutura do registro: o que se perguntou, o que se viu, o que não se conseguiu ver e o que isso desloca. “Ventrículo direito maior que o esquerdo, cava dilatada sem variação, deslizamento presente dos dois lados, sem derrame, e a femoral esquerda não colaba” é uma frase que muda a conduta de quem a ouve; “o eco está alterado” não é. Depois vem o prontuário, e depois o pedido de exame completo sempre que o achado precisar de confirmação, de medida ou de descrição que o exame focado não faz.

    Prescrição
    • Comunicar o achado ao responsável em uma frase: pergunta, achados em presença e ausência, janelas não obtidas e o padrão sugerido.
    • Registrar no prontuário quem fez, a que horas, sob orientação de quem, a pergunta, as janelas obtidas e não obtidas, os achados e o limite do exame.
    • Não usar as palavras normal, afastado ou descartado para um exame focado.
    • Pedir ecocardiograma, ultrassonografia vascular ou ultrassonografia completa quando o achado exigir confirmação, medida ou quando a suspeita persistir apesar do exame negativo.
    • Gravar e arquivar as imagens quando o aparelho e o serviço permitirem, para que outro examinador possa rever.
09

Como saber se está funcionando

O exame à beira do leito tem uma vantagem que nenhum exame completo tem: pode ser repetido no mesmo lugar, pela mesma pessoa, quantas vezes a pergunta mudar. A repetição só serve se o segundo exame for comparável ao primeiro — mesmos pontos, mesma sonda, mesma profundidade, mesmo decúbito — e se houver uma pergunta nova. Repetir por hábito produz achados sem pergunta.

Os sete parâmetros abaixo são os que o interno mais vai reavaliar. Em todos, o que muda a conduta é a comparação com o exame anterior somada ao quadro clínico; e em todos, a decisão diante do que não melhora é de quem responde pelo paciente, no capítulo dono.

Linhas B depois do tratamento da congestãoNas horas seguintes a diurético ou ventilação não invasiva, nos mesmos pontos, com a mesma sonda e a mesma profundidade do primeiro exame

Esperado: Menos linhas B por região e menos regiões positivas, acompanhando a melhora da respiração. A diretriz americana registra que edema pulmonar, pneumonia e derrame podem ser acompanhados ao longo do tempo em resposta a diurese, ventilação não invasiva e antibiótico; o posicionamento brasileiro propõe um escore por faixas de linhas B somado em oito regiões, que declara ainda sem validação.

Se não melhora: Linhas B que não diminuem com diurese eficaz pedem rever se eram mesmo cardiogênicas — distribuição focal, pleura irregular e consolidação apontam inflamação — e comunicar ao responsável; a decisão é do capítulo Insuficiência cardíaca aguda descompensada: perfil, gatilho e resposta diurética.

Coração, pulmão e veia cava depois de cada bolus de volumeLogo após cada bolus decidido pelo responsável, antes do seguinte

Esperado: Pressão, perfusão periférica e diurese melhorando, sem linhas B novas nos pontos anteriores. A cava pode aumentar de calibre sem que isso signifique que o paciente respondeu — resposta é a perfusão que melhora, não a cava que engorda.

Se não melhora: Linhas B que aparecem, ou cava que passa a dilatada e fixa sem melhora da perfusão, sugerem que o volume deixou de ajudar: comunicar antes do próximo bolus. O posicionamento lembra que a avaliação de congestão venosa, o VExUS, mede tolerância a fluido e não necessidade de volume; a decisão é dos capítulos de choque e de sepse.

Pleura anterior depois de descompressão ou dreno de tóraxDepois da drenagem e a cada nova piora respiratória

Esperado: Volta do deslizamento nos pontos anteriores do lado drenado. Quando havia ponto pulmonar, ele se desloca em direção à face anterior à medida que o pulmão reexpande, porque sua posição acompanha o tamanho do pneumotórax.

Se não melhora: Deslizamento que não volta com o dreno funcionando pede radiografia de tórax para ver a posição do dreno e a expansão do pulmão — leitura do capítulo Radiografia de tórax: leitura sistemática à beira do leito — e avaliação imediata do responsável.

Derrame pericárdico em observação ou depois de pericardiocenteseDepois da drenagem, e sempre que a pressão cair ou a frequência cardíaca subir

Esperado: Sem colapso das câmaras direitas, veia cava voltando a variar com a respiração, derrame residual pequeno e estável na mesma janela.

Se não melhora: Colapso de câmara direita que reaparece, ou cava que volta a ficar dilatada e fixa com hipotensão, se comunica como recidiva de tamponamento; a decisão é do capítulo Pericardite aguda e tamponamento cardíaco.

FAST repetido no traumaQuando pressão, frequência, hemoglobina ou dor abdominal mudarem, e na avaliação secundária

Esperado: Janelas que seguem sem líquido num paciente que estabilizou e segue estável.

Se não melhora: Líquido que aparece na repetição, ou instabilidade que persiste com FAST negativo, se comunica na hora. No estável, a tomografia vê o retroperitônio e a pelve que o FAST não avalia bem; no instável, a decisão é do capítulo Trauma abdominal fechado (FAST, laparotomia x conservador).

Bexiga e rins depois da drenagem vesicalLogo depois da sondagem e nas horas seguintes, se a diurese não se mantiver

Esperado: Bexiga vazia com a sonda drenando; a dilatação da pelve renal que se devia à bexiga cheia deve diminuir depois do esvaziamento.

Se não melhora: Bexiga que volta a encher com sonda passada é sonda obstruída ou mal posicionada, e se confere antes de pensar em diurético. Hidronefrose que persiste com a bexiga vazia aponta obstrução acima dela, e segue para os capítulos Injúria renal aguda: pré-renal, renal e pós-renal e Litíase urinária e cólica nefrética (conduta).

Compressão venosa negativa com suspeita que persisteQuando os sintomas persistem ou o dímero-D vem elevado depois de uma compressão abreviada normal

Esperado: Exame vascular completo ou compressão repetida sem trombose. A diretriz conjunta de 2022 explica o motivo da repetição: flagrar a propagação para o segmento proximal de uma trombose das veias da perna que não foi vista na fase aguda.

Se não melhora: Veia que não colaba na repetição se comunica como trombose proximal, com o registro do exame anterior; a conduta é do capítulo Trombose venosa profunda e diagnóstico (escore de Wells).

10

Onde o erro machuca

Responder uma pergunta que não foi feita

O dano: O exame focado vira laudo: “ecocardiograma normal”, “abdome sem alterações”. O plantão seguinte lê a frase, não pede o exame completo, e passam despercebidas a valva doente, a alteração segmentar, a massa, tudo o que ninguém procurou. O posicionamento brasileiro põe a responsabilidade pelo registro em quem interpretou, e a frase indevida é dele.

Como pegar a tempo: Escreva a pergunta e responda só a ela, em linguagem de presença e ausência, com as janelas obtidas e as não obtidas. Declare no registro que o exame é focado e não substitui o completo, e peça o completo sempre que o achado precisar de medida, confirmação ou descrição.

Usar a veia cava como volumômetro

O dano: Cava colabada vira ordem de volume no paciente cujo abdome sob pressão comprime a veia por fora — o erro que o capítulo Diferenciar os tipos de choque e conduzir cada um chama de mais perigoso —, e cava dilatada vira proibição de volume em quem responderia. A diretriz de sepse de 2026 lembra que a cava reflete principalmente a pressão venosa central e tem os mesmos limites dela, e o posicionamento brasileiro registra acurácia de 65% para prever resposta nos estudos mais recentes.

Como pegar a tempo: Leia a cava por último, junto com ventrículo esquerdo, ventrículo direito e pulmão, e só nos extremos. Não converta cava em mililitros. Volume além da ressuscitação inicial se decide por medida dinâmica, feita por quem tem proficiência, sob decisão do capítulo dono do choque.

Chamar de pneumotórax toda ausência de deslizamento — ou procurar o ponto pulmonar com o paciente morrendo

O dano: No primeiro sentido, dreno de tórax num pulmão que não desliza por intubação seletiva, pleurodese, contusão ou fibrose, com o risco de um procedimento sem indicação. No segundo, minutos gastos à procura de um sinal que não existe no pneumotórax que descola o pulmão inteiro, enquanto o hipertensivo evolui para parada.

Como pegar a tempo: Procure, em cada ponto, deslizamento, linhas B e pulso pulmonar: qualquer um deles afasta pneumotórax naquele ponto. No intubado com um lado parado, confira o tubo antes. No instável, siga o consenso internacional: ausência de deslizamento e de pulso, sem linhas B, basta para comunicar a hipótese e deixar a descompressão com quem decide, sem esperar o ponto pulmonar.

Tratar exame negativo como exclusão

O dano: FAST sem líquido num paciente com lesão de víscera ou sangramento retroperitoneal; coração direito sem sobrecarga num paciente estável com embolia; compressão em dois pontos normal com trombose isolada da femoral; cólica sem hidronefrose com cálculo obstrutivo; aneurisma sem líquido livre que já rompeu. Cada um desses negativos já mandou paciente para casa ou deixou tratamento sem começar.

Como pegar a tempo: Guarde a assimetria: o exame focado bem feito pesa muito quando é positivo e pouco quando é negativo. Diante de suspeita clínica que persiste, peça o exame completo sem demora — é uma das habilidades que o posicionamento brasileiro exige de quem se forma no método — e registre o limite do negativo.

Chamar toda linha B de congestão

O dano: Diurético em paciente com pneumonia ou síndrome do desconforto respiratório agudo, que perde volume sem ganhar pulmão, e atraso do antibiótico. O posicionamento brasileiro lembra que as linhas B também vêm de inflamação, contusão e fibrose, e que a congestão cardiogênica só pode ser considerada dentro de um quadro de insuficiência cardíaca.

Como pegar a tempo: Olhe o desenho antes da contagem: homogêneo, bilateral, maior nas bases e com pleura fina sugere coração; focal, assimétrico, com áreas poupadas, pleura irregular e consolidação sugere inflamação. Some o coração e a clínica antes de nomear.

Parar a reanimação para fazer ultrassom

O dano: Pausas longas nas compressões, que é exatamente o risco que faz o uso do ultrassom na parada ser cercado de incerteza, segundo o posicionamento brasileiro; e decisões de encerrar reanimação apoiadas numa imagem de coração parado, quando parte desses pacientes ainda sobrevive.

Como pegar a tempo: Sonda posicionada antes da pausa, imagem só dentro dos dez segundos da checagem de ritmo, pela subcostal, e análise no ciclo seguinte. Quem segura a sonda não lidera a reanimação, e o achado é dito ao líder em uma frase.

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O que dizer ao paciente e à família

O ultrassom no leito é o exame de imagem que acontece na frente da família, com a tela virada para quem quiser olhar. Isso muda o que se diz: o paciente vê o médico hesitar, vê a sonda voltar ao mesmo ponto, lê preocupação no rosto de quem examina. As falas abaixo cobrem o que o interno mais vai precisar dizer — ao paciente, à família, a quem decide e a quem assume o plantão —, com o que evitar em cada uma.

Explicando ao paciente e à família o exame que vai ser feito no leito

Vou passar um aparelho de ultrassom aqui no senhor, no próprio leito, para olhar o coração, o pulmão e as veias das pernas. Não dói, não tem radiação, e o gel é só um pouco frio. É uma avaliação rápida que faz parte do exame que estou fazendo agora; ela ajuda a responder algumas perguntas urgentes, mas não é o exame completo, que um especialista faz depois se for preciso.

Não diga: Vou fazer um ecocardiograma no senhor. Dar ao exame focado o nome do exame completo promete uma avaliação que não está sendo feita, e a família vai repetir essa palavra para o próximo médico.

A filha pergunta se o ultrassom mostrou alguma coisa, e o exame focado veio sem os achados procurados

Olhei algumas coisas específicas que podiam explicar a falta de ar dele agora, e essas eu não encontrei. Isso ajuda, mas não quer dizer que o exame dele está normal: esse ultrassom rápido não vê tudo, e a gente vai continuar investigando com outros exames. Assim que a médica responsável avaliar, a gente conversa de novo com a senhora.

Não diga: Graças a Deus, deu tudo normal. O exame focado não autoriza a palavra normal, e a frase desarma a família justamente quando a investigação precisa continuar.

Passando o achado à residente pelo telefone

Doutora, é o interno do terceiro andar, sobre o senhor Damião, do pós-operatório de quadril hipotenso. Fiz o ultrassom à beira do leito: não tem derrame pericárdico; o ventrículo direito está maior que o esquerdo; a cava está dilatada e não varia; o pulmão desliza dos dois lados, com linhas A; e a femoral comum esquerda não colaba. Não consegui a paraesternal. A pressão agora é 84 por 52 e a saturação 90% com cateter. Não abri soro. O que a senhora quer que eu faça até chegar?

Não diga: O eco dele está bem alterado, acho que é embolia, já posso começar alguma coisa? Conclusão sem os achados obriga quem decide a refazer tudo, e a pergunta sobre começar tratamento passa por cima de quem responde pelo paciente.

Pedindo o exame completo ao ecocardiografista ou ao radiologista

Queria pedir um ecocardiograma completo para o paciente do leito 12. No ultrassom à beira do leito, feito por mim com a residente, o ventrículo direito parecia maior que o esquerdo e a cava estava dilatada, mas não consegui a janela paraesternal nem medir nada. A pergunta é se há sobrecarga do ventrículo direito e qual a função dele. Ele está instável, por isso seria importante o exame no leito.

Não diga: Pede um eco completo, que o nosso aparelho mostrou um monte de coisa. Pedido sem pergunta e sem descrição do que já se viu faz o especialista começar do zero e não sabe dizer por que o exame é urgente.

O paciente pergunta se você é o médico e quem vai olhar o exame

Eu sou interno, estudante de Medicina no internato, e estou fazendo esse exame com a orientação da médica responsável pelo plantão. Ela está sabendo de tudo, vai olhar as imagens e vai conversar com o senhor sobre o que fazer.

Não diga: Pode ficar tranquilo, eu sei fazer. Esconder a condição de estudante, ou responder pela competência em vez de responder pela supervisão, tira do paciente o direito de saber quem cuida dele.

Um achado aparece fora da pergunta, como uma aorta dilatada num paciente internado por outro motivo

Enquanto eu olhava a barriga por outro motivo, vi que a aorta, a artéria grande que passa por aqui, parece mais larga do que o esperado. Esse exame rápido não serve para medir isso direito, então vou avisar a médica responsável e pedir um exame completo. Não é algo para resolver hoje à noite se o senhor está sem dor, mas é algo que precisa ser olhado com calma.

Não diga: Ficar calado para não assustar, ou dizer que o senhor tem um aneurisma. O primeiro deixa o achado sem dono; o segundo dá um diagnóstico que o exame focado não sustenta.

Passando o caso ao plantonista que assume

O senhor Damião, do leito 12, teve hipotensão e hipoxemia às duas e vinte. O ultrassom à beira do leito das 2h52 mostrou ventrículo direito maior que o esquerdo, cava dilatada sem variação, deslizamento presente dos dois lados e trombose na femoral comum esquerda; a paraesternal não abriu. A residente avaliou e a conduta está no prontuário. Está pedido ecocardiograma completo e ultrassonografia vascular. Se a pressão cair de novo, a primeira coisa a olhar é a subcostal.

Não diga: O ultrassom já foi feito e estava tudo explicado. Passar o exame focado como assunto encerrado apaga as janelas que não abriram e os exames completos que ainda faltam.

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Onde bons médicos discordam

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.

Compressão venosa à beira do leito: dois pontos bastam, ou é preciso comprimir a veia femoral ao longo da coxa?

Dois pontos equivalem a três em acurácia (Diretriz Conjunta de TEV 2022; diretriz americana de 2023)

A Diretriz Conjunta sobre Tromboembolismo Venoso de 2022 relata meta-análise de 17 estudos em que o exame de dois pontos teve sensibilidade combinada de 0,91 e especificidade de 0,98, semelhantes às do de três pontos, de 0,90 e 0,95, com falsos negativos de 4,0% e 4,1%, e dá à comparação classe II. A diretriz americana de 2023 cita a mesma linha de evidência e chama os dois protocolos de excelentes, em vários cenários e com vários examinadores. O de dois pontos é mais rápido e é o que muitos cursos de emergência ensinam.

Diretriz Conjunta sobre Tromboembolismo Venoso – 2022 (DIC/SBC, CBR, SBACV e demais), Arq Bras Cardiol 2022;118(4):797-857, seção 3.3.3; ACEP, Ultrasound Guidelines, abril de 2023, Apêndice 1

Três pontos, com a veia femoral da coxa (posicionamento DIC-SBC de 2026)

O posicionamento do Departamento de Imagem Cardiovascular da SBC, de 2026, recomenda, com base na diretriz brasileira de 2022, o protocolo estendido de três pontos, com a veia femoral comprimida nos segmentos proximal e médio-distal da coxa, e dá classe I ao exame de trombose proximal feito por profissional treinado na urgência. A diretriz americana de 2023 registra que o consenso da Society of Radiologists in Ultrasound, de 2018, considerou o estendido o exame mais apropriado, e que o de dois pontos, por não avaliar a veia femoral, deixa passar de 5 a 7% das tromboses isoladas dessa veia.

Posicionamento sobre o Uso do Ultrassom “Point of Care” (POCUS) na Medicina Cardiovascular – 2026 (DIC-SBC), Arq Bras Cardiol 2026;123(4):e20260222, seções 5.1 e 5.3; ACEP, Ultrasound Guidelines, abril de 2023, Apêndice 1

Como decidir

Esta apostila adota os três pontos. Os dois documentos brasileiros têm o mesmo escopo — compressão venosa feita à beira do leito —, e o degrau que decide é a data: o posicionamento de 2026 é o mais novo e fixa o protocolo estendido. O lado perdedor não erra sobre a acurácia média, em que os dois protocolos empatam na meta-análise. O que pesa no paciente à frente é outro número, reconhecido pelos dois lados: a trombose isolada da veia femoral, que o protocolo curto não comprime, responde por 5 a 7% dos casos, e é trombose proximal, justamente a que a compressão existe para encontrar. Comprimir a coxa acrescenta pouco tempo. Se o tempo acabar antes — paciente que piora, aparelho requisitado em outro leito —, dois pontos positivos já confirmam trombose; dois pontos negativos não permitem escrever que não há trombose proximal.

Veia cava inferior no choque: sinal que leva a volume, ou pressão venosa central com os mesmos limites?

Cava fina ou colabando compõe o padrão de hipovolemia e leva a volume (posicionamento DIC-SBC de 2026)

No algoritmo de choque adaptado do protocolo EGLS, o posicionamento põe cava de 10 milímetros ou menos ou com colapso respiratório, ventrículo esquerdo hiperdinâmico e perfil A como sinais de hipovolemia, com fluidos como conduta. No texto, afirma que variações respiratórias substanciais ou colapso da cava no paciente em choque são sempre indicativos de possível hipovolemia, e, na seção de fluido-responsividade, que a cava muito fina ou colabada indica provável resposta e tolerância a volume.

Posicionamento sobre o Uso do Ultrassom “Point of Care” (POCUS) na Medicina Cardiovascular – 2026 (DIC-SBC), seção 6.3 e Figura 20; seção 6.4.2

Cava reflete a pressão venosa central; volume adicional se decide por medida dinâmica (Surviving Sepsis Campaign 2026)

A diretriz internacional de sepse de 2026 afirma que diâmetro e colapsabilidade da cava refletem principalmente a pressão venosa central e estão sujeitos aos mesmos limites dela. Na Recomendação 49, sugere guiar a reposição por medidas dinâmicas — resposta à elevação passiva das pernas ou a um bolus, medida pelo volume sistólico, pela sua variação, pela pressão de pulso ou pela variação da pressão de pulso — em vez de exame físico ou de medidas estáticas isoladas, com recomendação condicional e certeza baixa, e considera a administração de fluido além da fase inicial como algo a guiar pela resposta a volume.

Surviving Sepsis Campaign: international guidelines for management of sepsis and septic shock 2026, Intensive Care Med 2026;52:863-936, Recomendação 49 e texto sobre ultrassom à beira do leito

Como decidir

Primeiro a cronologia, porque parte do conflito é aparente: o algoritmo do posicionamento classifica o choque nos primeiros minutos, dentro de uma sequência que começa excluindo tamponamento, sobrecarga do ventrículo direito e pneumotórax; a Recomendação 49 trata do volume dado além da ressuscitação inicial. Onde os dois disputam o mesmo paciente no mesmo momento — o séptico que já recebeu a ressuscitação inicial, segue hipotenso e tem a cava colabando —, decide o primeiro degrau, o escopo: a diretriz de sepse foi escrita para esse paciente, e o posicionamento trata de ultrassom cardiovascular em geral. Nesse paciente, esta apostila adota a medida dinâmica, e a cava sozinha não autoriza o próximo bolus. No choque que não é séptico, nenhum dos dois documentos é específico, e esta apostila aplica a leitura mais coerente com a evidência que o próprio posicionamento resume: acurácia da cava de 65% para prever resposta, valor só nos extremos e cava pletórica que sozinha não contraindica volume. A cava classifica; não dosa. O lado perdedor fica certo no que descreve: cava fina, ventrículo hiperdinâmico e pulmão sem linhas B, depois de afastadas as causas obstrutivas, sustentam a hipótese de hipovolemia e a ligação imediata para quem decide.

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O raciocínio, em voz alta

Volte ao senhor Damião Murtinho, 74 anos, 70 quilos, terceiro dia de pós-operatório de artroplastia parcial do quadril esquerdo. São 2h48. Pressão de 86 por 54, frequência cardíaca de 122, frequência respiratória de 32, saturação de 91% com oxigênio por cateter nasal, mãos frias, enchimento capilar de quatro segundos, jugular impossível de avaliar e eletrocardiograma com taquicardia sinusal. Você está com o aparelho ao lado do leito, as quatro perguntas da residente anotadas no verso da folha de prescrição, e o Divino segurando a lanterna.

  1. passo 0 — a ordem das perguntas, antes da sonda

    As quatro perguntas da doutora Clorinda não seguem a anatomia: derrame, ventrículo direito, cava e pleura cobrem as causas de choque que pioram com volume dado às cegas e que se tratam com procedimento ou decisão imediata. A pergunta da hipovolemia ficou implícita — se outras hipóteses perderem força, ainda é necessário avaliar hipovolemia e causas distributivas ou mistas, sem diagnóstico por exclusão de poucas janelas, e o dreno e a hemoglobina entram no raciocínio. Você acrescenta uma quinta, porque o contexto pede: a perna operada. Pós-operatório de quadril, três dias de cama, hipotensão e hipoxemia súbitas — a embolia está no topo da lista antes de a sonda tocar a pele, e a compressão venosa é a janela que mais rende nesse paciente.

  2. passo 1 — subcostal: derrame e ventrículo direito

    Ele não tolera deitar reto; você abaixa a cabeceira o que ele aguenta e põe a sonda de baixa frequência abaixo do apêndice xifoide, com o marcador para a esquerda. A imagem abre depois de meio minuto de ajuste de profundidade. Não há faixa preta em volta do coração: sem derrame pericárdico. A câmara mais próxima da sonda, logo abaixo do fígado — o ventrículo direito — está maior que o ventrículo esquerdo, que parece pequeno e se contrai com força. A paraesternal não abre com a agitação dele; a apical dá uma imagem rápida em que o direito ocupa mais espaço que o esquerdo. Primeira pergunta respondida com não, segunda com sim. O que o achado diz: sobrecarga de pressão do ventrículo direito. O que não diz: a causa, nem se a sobrecarga é aguda.

  3. passo 2 — a veia cava

    Cava aproximadamente 24 mm com pouca variação em respiração espontânea é compatível com pressão direita elevada, no conjunto do VD dilatado. A cava é um dado contextual de pressão/interação cardiopulmonar, não um medidor isolado de volemia ou resposta a fluidos. Diâmetro e variação dependem de esforço, ventilação, pressão abdominal, função direita e técnica. Mesmo extremos não excluem choque misto ou déficit de volume. Avaliar benefício e risco de fluidos pela perfusão, coração, pulmão e testes dinâmicos quando aplicáveis. Dreno com 40 mL e Hb de ontem não excluem hemorragia interna atual. Examinar sítio cirúrgico, perfusão e outras fontes, solicitar Hb contemporânea e considerar choque misto.

  4. passo 3 — pleura anterior e bases

    Com a sonda linear nos dois pontos anteriores de cada lado, a linha pleural cintila nos quatro, com linhas A abaixo e nenhum conjunto de linhas B. Deslizamento presente nos pontos examinados: não há pneumotórax neles. Não há perfil B: o pulmão não desenha congestão, o que torna o ventrículo esquerdo uma causa improvável do choque, como a contração vigorosa já sugeria. No ponto posterolateral direito, que ele deixa examinar virando um pouco, há uma pequena faixa anecoica acima do diafragma; o esquerdo não se alcança. Perfil A num paciente em choque com ventrículo direito grande não é pulmão tranquilizador: é o pulmão que as causas obstrutivas deixam.

  5. passo 4 — a perna operada

    Sem forçar o quadril recém-operado e respeitando as restrições ortopédicas, posiciona-se a perna dentro do tolerado, sonda linear transversal na virilha. A veia femoral comum, na altura da junção com a safena, está mais larga que a artéria ao lado e, comprimida suavemente de modo suficiente para avaliar a coaptação venosa, não colaba; há material acinzentado dentro dela. Logo abaixo da junção, o mesmo. Na coxa, a veia femoral também não colaba no segmento proximal; no oco poplíteo, a veia colaba inteira. Na perna direita, a femoral comum colaba normalmente. Achado: trombose venosa proximal no membro inferior esquerdo, da femoral comum à femoral da coxa. O que não diz: a idade do trombo, nem se há trombo nas veias da perna.

  6. passo 5 — as cinco perguntas, integradas

    Não há derrame visível nas janelas obtidas; isso reduz a hipótese de tamponamento sem excluir coleções difíceis de ver. VD dilatado e cava ampla indicam sobrecarga direita de duração ainda incerta. Deslizamento exclui pneumotórax nos pontos examinados. Trombose proximal, hipoxemia e choque de início súbito após cirurgia tornam TEP de alto risco muito provável. Não excluir hemorragia ou outra causa associada; ECG e avaliação experiente ajudam. A equipe decide confirmação e tratamento sem esperar um exame completo em caso de deterioração.

  7. passo 6 — a ligação, às 2h55

    O suporte e a chamada da equipe de emergência já ocorreram no início. O exame focado é realizado ou revisto por profissional proficiente ao leito, sem deixar o interno iniciante sozinho conduzindo choque por vários minutos. Comunicar imediatamente VD dilatado e trombose proximal. Artroplastia recente eleva muito o risco de sangramento com trombólise sistêmica; reperfusão, quando indicada, exige decisão urgente especializada, considerando alternativas por cateter ou cirurgia, disponibilidade e risco vital. Não apresentar trombólise pós-operatória como consequência automática do POCUS.

  8. passo 7 — o registro

    No prontuário vai o registro no formato do capítulo: hora, quem fez e sob orientação de quem, a pergunta, as janelas obtidas e as não obtidas — paraesternal e posterolateral esquerdo —, os achados em presença e ausência, o limite do exame e a hora da comunicação. Não entram as palavras embolia confirmada, nem ecocardiograma alterado, nem pulmão normal. Ficam pedidos, quando a residente e o protocolo do serviço permitirem, o ecocardiograma completo e a ultrassonografia vascular completa dos membros inferiores.

  9. passo 8 — o que teria mudado a leitura

    Vale fazer a conta ao contrário, porque é assim que o padrão se aprende. Com cava fina e colabando, os dois ventrículos pequenos e hiperdinâmicos e o dreno cheio de sangue, a pergunta seria sangramento, e a ligação seria outra. Com linhas B nos quatro pontos anteriores e ventrículo esquerdo fraco, o choque seria cardiogênico. Com um lado sem deslizamento, sem linhas B e sem pulso, e o paciente piorando, a hipótese de pneumotórax hipertensivo passaria à frente de todas. E com a compressão normal em dois pontos, a embolia continuaria possível — com o ventrículo direito dilatado, provável —, e a frase do registro seria que a trombose não foi vista nos segmentos comprimidos.

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Faça você

Agora é o pronto-socorro, às onze da manhã. Dona Efigênia Labarthe tem 78 anos, 61 quilos e insuficiência cardíaca com fração de ejeção reduzida conhecida, acompanhada no ambulatório de cardiologia. Há três dias tem tosse com catarro amarelado e, desde ontem, febre de 38,4 e falta de ar que piora deitada. Chega com saturação de 88% em ar ambiente, frequência respiratória de 28, pressão de 138 por 82, frequência cardíaca de 106 e estertores na base direita. O neto diz que é o coração de novo, porque ela sempre fica assim quando descompensa, e já há uma prescrição de diurético em dose de congestão esperando a sua avaliação. O preceptor da emergência, doutor Júlio Merlo, pede que você faça o ultrassom à beira do leito antes de a medicação correr e diga o que ele mostra.

  1. passo 0 — a pergunta

    Congestão de origem cardíaca, pneumonia, ou as duas? O que a imagem responde é o desenho das linhas B, a presença de consolidação e o que coração e cava acrescentam.

  2. passo 1 — pontos anteriores

    À esquerda, nos dois pontos anteriores, deslizamento presente e linhas A. À direita, no ponto anterior superior, deslizamento e linhas A; no inferior, quatro a cinco linhas B entre duas costelas, algumas se fundindo, com a linha pleural espessada e irregular e duas pequenas áreas escuras logo abaixo dela.

  3. passo 2 — pontos posterolaterais

    No ponto posterolateral direito, com a paciente virada um pouco, um tecido com textura de fígado ocupa a base, com pontos brilhantes dentro que se movem a cada respiração, e uma lâmina fina de líquido anecoico restrita ao seio costofrênico. No esquerdo, a cada inspiração o pulmão aerado desce e cobre o baço, sem líquido acima do diafragma.

  4. passo 3 — coração

    Subcostal: sem derrame pericárdico; ventrículo esquerdo com contração globalmente reduzida; ventrículo direito menor que o esquerdo.

  5. passo 4 — veia cava

    Cerca de 16 milímetros, com variação respiratória visível mas incompleta, em respiração espontânea.

  6. passo 5 — o que falta você decidir

    O diagnóstico chegou pronto — descompensação da insuficiência cardíaca — e a prescrição trata congestão. Decida o que o padrão de hoje mostra, qual achado sustenta a sua leitura, o que ele não permite afirmar e o que você diz ao preceptor antes de o diurético correr.

Ver como fecharíamos

A distribuição focal de linhas B com pleura irregular e consolidação com broncograma dinâmico, junto de febre/tosse, favorece pneumonia à direita. Não há padrão difuso de edema nas regiões examinadas, mas isso não exclui congestão associada, inclusive edema assimétrico ou com áreas poupadas. Broncograma dinâmico apoia pneumonia sem definir germe; ausência dele não provaria atelectasia. Contração global reduzida pode refletir doença conhecida ou piora: comparar com exames prévios e avaliar perfusão, peso, edema, jugular e evolução. Não afirmar que o VE não participa da hipoxemia só porque falta perfil B bilateral. Cava de 16 mm com variação incompleta é informação de baixo poder isolado e deve ser integrada, sem calcular volume por ela. Ao preceptor: consolidação basal direita com broncograma dinâmico e linhas B focais; sem padrão difuso nas áreas acessadas; função esquerda visualmente reduzida; pequeno líquido pleural; hipótese principal de pneumonia com possível contribuição cardíaca. Oferecer suporte de oxigenação, avaliar gravidade e discutir antibiótico e diurético segundo o conjunto. O exame não demonstra a natureza do derrame nem substitui ecocardiograma completo ou outra imagem quando necessários. Reavaliar resposta clínica e ultrassonográfica com a equipe.

Gabarito da questão de abertura
Comentário

Com 6,1 cm, a aorta é aneurismática pela régua do capítulo de aneurisma de aorta abdominal, que chama de ectasia só o que fica abaixo de 3,0 cm, e o ultrassom do emergencista detecta aneurisma com sensibilidade de 97 a 100%. A rotura é outra pergunta: a diretriz americana registra que ela é difícil de ver ao ultrassom, e o sangramento contido no retroperitônio não aparece nas janelas do FAST. Por isso a ausência de líquido livre não tranquiliza — é irrelevante para essa pergunta. Dor, hipotensão e aneurisma juntos são emergência vascular: a comunicação ao responsável e ao cirurgião vascular é imediata, e a decisão sobre outros exames é deles, não uma condição para avisar. A ausência de hidronefrose tampouco confirma ou afasta cálculo, porque a sensibilidade do método para cólica fica em torno de 70%.

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Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
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Plano de revisão

Em 7 dias

Explique cada achado de Damião, mantendo TEP prioritário sem excluir hemorragia associada nem indicar trombólise automática após cirurgia.

Em 30 dias

Compare pneumonia, congestão e coexistência em Efigênia: diga o que o ultrassom sustenta e quais dados clínicos mudariam antibiótico ou diurético.

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Agora atenda

Agora atenda: homem de 63 anos, em ventilação mecânica na unidade de terapia intensiva há dois dias por pneumonia grave, que recebeu um cateter venoso central na subclávia direita há uma hora. Durante o banho no leito, a saturação cai de 95% para 84%, a pressão de pico do ventilador sobe e a pressão arterial vai a 92 por 58. O enfermeiro pergunta se é pneumotórax do cateter e se já pode chamar a cirurgia para drenar. Conduza com o ultrassom à beira do leito: diga quais pontos examina e em que ordem, o que cada achado permitiria concluir — inclusive o que muda se o lado sem deslizamento for o esquerdo e houver pulso pulmonar —, o que você comunica ao médico responsável antes de qualquer punção e o que escreve no prontuário.

Ultrassom à beira do leito — Internato | OsceLabs