Clínica MédicaInterpretação de Exames à Beira do Leito

Radiografia de abdome

A radiografia de abdome responde bem a poucas perguntas — ar fora do lugar, alça que não esvazia, objeto que o raio não atravessa — e mal a quase todas as outras. Este capítulo ensina a decidir se o filme serve antes de pedi-lo, a escolher a incidência que o paciente consegue fazer e a lê-lo sempre na mesma ordem, escrevendo o que ele mostrou e o que ele não tem como mostrar.

Fontes deste capítulo

American College of Radiology. ACR Appropriateness Criteria® Acute Nonlocalized Abdominal Pain. Scheirey CD, Fowler KJ, Therrien JA, et al. J Am Coll Radiol. 2018;15(11S):S217-S231. Tabelas de classificação e narrativa no ACR Search, documento 69467.

American College of Radiology. ACR Appropriateness Criteria® Suspected Small-Bowel Obstruction. Chang KJ, Marin D, Kim DH, et al. J Am Coll Radiol. 2020;17(5S). Tabelas de classificação e narrativa no ACR Search, documento 69476.

Brasil. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Resolução da Diretoria Colegiada — RDC nº 611, de 9 de março de 2022. Estabelece os requisitos sanitários para a organização e o funcionamento de serviços de radiologia diagnóstica ou intervencionista e regulamenta o controle das exposições médicas, ocupacionais e do público decorrentes do uso de tecnologias radiológicas diagnósticas ou intervencionistas. Diário Oficial da União, 16 mar. 2022, Seção 1.

Gans SL, Stoker J, Boermeester MA. Plain abdominal radiography in acute abdominal pain; past, present, and future. Int J Gen Med. 2012;5:525-533. doi:10.2147/IJGM.S17410.

Paulson EK, Thompson WM. Review of small-bowel obstruction: the diagnosis and when to worry. Radiology. 2015;275(2):332-342.

01

Responda antes de ler

Mulher de 76 anos, com fibrilação atrial e anticoagulação suspensa, tem dor abdominal intensa há cinco horas, com abdome pouco doloroso à palpação e lactato de 5,1 mmol/L. Fez papilotomia endoscópica há três anos. A radiografia de abdome mostra ramificações lineares de gás sobre a sombra hepática que alcançam a borda do fígado, e linhas de gás na parede de alças do flanco direito que persistem em duas incidências. Qual é a leitura correta?

02

O paciente que você vai ver

Segunda-feira, quatro e quarenta da tarde, pronto-socorro de um hospital geral de cento e oitenta leitos. A residente de clínica médica atravessa o corredor com o celular na orelha e, sem parar, deixa o recado na mesa onde você evolui: pede uma rotina de abdome agudo para a dona Cleonilda, do box 4, e me mostra quando sair. Dona Cleonilda Ribamar tem 58 anos, é costureira, diabética há quinze anos, e chegou às duas da tarde com dor na barriga inteira há dois dias. Ela não consegue apontar o lugar com um dedo; passa a mão aberta do estômago ao pé da barriga. Mediu 38,4 °C em casa, vomitou duas vezes, e os leucócitos acabaram de sair em 17 mil. O abdome dói em toda a extensão à palpação, sem defesa localizada.

Você abre o pedido eletrônico. Na lista de radiologia existe uma linha pronta, rotina de abdome agudo, três incidências, que sai com um clique e já traz a indicação clínica preenchida com duas palavras: dor abdominal. O sistema aceita. O técnico costuma entregar a rotina em quarenta minutos, e o tomógrafo, que fica no mesmo corredor, tem fila de uma hora e meia.

Às cinco e dez, antes de você enviar, o telefone do balcão toca. É a enfermeira do quinto andar, sobre o senhor Rosalvo Urias, leito 512. Ele tem 74 anos, 63 quilos, dirigiu ônibus intermunicipal por trinta anos e está no quinto dia de internação por pneumonia, já sem febre. Uma sequela de acidente vascular cerebral o deixa entre a cama e a cadeira. Desde a madrugada a barriga vem crescendo; vomitou duas vezes um líquido esverdeado, não solta gases desde o café da manhã e não evacua há três dias. Tem uma cicatriz de laparotomia do umbigo para baixo, de uma cirurgia cujo nome ele não sabe dizer. O plantonista mandou pedir raio X de abdome, conta a enfermeira. Só que ele não fica em pé.

São dois pedidos do mesmo exame no intervalo de meia hora, e não são o mesmo pedido. Num deles a radiografia tem uma pergunta que sabe responder, e a resposta decide se o paciente vai ser visto por um cirurgião ainda hoje. No outro, a radiografia devolve a informação que menos importa, gasta o tempo que falta e ainda deixa no prontuário uma frase tranquilizadora que ninguém deveria ter escrito. A diferença não está no aparelho nem no técnico. Está no que você escreve no campo de indicação clínica, na incidência que você pede para um homem que não fica em pé e na ordem em que você olha o filme quando ele aparecer na tela.

Este capítulo trata dessas três coisas. Ele é dono da radiografia simples de abdome do adulto — quando pedir e quando não pedir, qual incidência cada paciente consegue fazer, como ler sempre na mesma sequência e quais padrões obrigam a chamar alguém — e declara, a cada padrão, quem é o dono da conduta. A obstrução intestinal e o volvo são de A pergunta não é se obstruiu; a úlcera perfurada e o pneumoperitônio, de O minuto que ele sabe de cor; a classificação do abdome agudo e a isquemia mesentérica, de Cinco relógios diferentes — os três na apostila de Urgência e Emergência Cirúrgica. A radiografia de abdome do recém-nascido é de A cor do vômito e a fralda que não sujou, na apostila de Cirurgia Pediátrica, que se declarou dona dela. A leitura do tórax, inclusive do ar sob o diafragma no tórax em ortostase e da ponta da sonda, é do capítulo Radiografia de tórax, desta apostila.

03

Quem adoece disso

A radiografia simples de abdome é pedida muito mais do que responde. O documento do American College of Radiology sobre dor abdominal aguda não localizada, na revisão de 2018, reúne o que a literatura mediu: num estudo com 874 pacientes de pronto-socorro sem trauma que fizeram radiografia de abdome, o exame mudou a conduta em 4% deles; em outros dois estudos, a radiografia foi positiva em cerca de 20% dos pacientes, e uma tomografia de baixa dose, sem contraste e com mais ou menos o dobro da radiação de uma radiografia, acertou o diagnóstico em 64%. O mesmo documento classifica o papel da radiografia na dor abdominal não traumática do adulto como limitado e diz em que condição ela se justifica: quando um resultado positivo evita o exame seguinte.

O que a radiografia faz bem é estreito e está medido. Para corpo estranho intra-abdominal, a sensibilidade é de 90%; para obstrução intestinal, de 49%; para abscesso e para a causa de dor com febre, baixa a ponto de limitar o papel do exame nesse cenário. A revisão de Gans, Stoker e Boermeester, de 2012, chega a números da mesma ordem por outro caminho: a radiografia foi diagnóstica em 50% a 60% das obstruções, indiferente em 20% a 30% e enganosa em 10% a 20%; num estudo comparativo, detectou 46% das obstruções completas e 30% das parciais, contra 100% da tomografia nas duas situações.

A obstrução de delgado é a razão mais frequente para pedir o exame e a que mais cobra pelo erro. Segundo o documento do colégio sobre suspeita de obstrução de delgado, revisto em 2019, ela responde por até 16% das internações por dor abdominal, com mortalidade de 2% a 8%, que chega a 25% quando há isquemia; as bridas causam cerca de 70% dos casos. Entre todos os pacientes que chegam com dor abdominal aguda, cerca de 7% recebem diagnóstico de obstrução, segundo a revisão de 2012. Nessa doença o histórico da radiografia é desigual: algumas séries relatam acerto de 80% a 90%, outras ficam entre 30% e 70%, e numa delas o filme foi enganoso em 20% a 40% dos pacientes.

A perfuração é o outro motivo clássico, e é onde a radiografia mais decepciona quem confia nela. Numa série citada pela revisão de 2012, as radiografias mostraram ar livre em apenas 51% dos pacientes com perfuração comprovada. Numa coorte de 1.021 pacientes de pronto-socorro com dor abdominal, a sensibilidade para pneumoperitônio foi de 15%. Numa comparação direta com o ultrassom em 188 pacientes com suspeita de perfuração, a radiografia detectou 78% contra 92%, com valor preditivo negativo de 20%: entre os pacientes com radiografia negativa naquela amostra, quatro em cada cinco estavam perfurados.

No idoso, o volvo de sigmoide pesa mais do que a frequência geral sugere. A diretriz da World Society of Emergency Surgery de 2023 registra que quase um terço das emergências colônicas do idoso se deve a ele — e é justamente a doença em que a radiografia simples costuma bastar para o diagnóstico, o que faz dela uma das poucas situações em que o filme encerra a investigação em vez de apenas abri-la.

O argumento a favor do filme costuma ser a radiação, e ele tem número. A revisão de 2012 dá 0,7 mSv como dose média de uma radiografia de abdome e 10 mSv para uma tomografia de abdome: em dose efetiva, uma tomografia equivale a pouco mais de catorze radiografias. Mas a rotina de abdome agudo tem mais de uma exposição, e a tomografia que o paciente acaba fazendo depois de um filme que não respondeu não substitui a dose do filme — soma-se a ela. O argumento da radiação só vale quando a radiografia tem chance real de dispensar a tomografia.

No Brasil, a norma que governa o exame é sanitária, não clínica. A Resolução da Diretoria Colegiada nº 611, de 2022, da Agência Nacional de Vigilância Sanitária, exige que os procedimentos sejam os mínimos necessários para atingir o objetivo pretendido, considerando informações prévias capazes de evitar exames adicionais (art. 35), e proíbe toda exposição que não possa ser justificada (art. 79) — mas não diz para quais perguntas a radiografia de abdome serve. Por isso a régua de indicação deste capítulo é a do American College of Radiology, declarada aqui como internacional; a régua da gestante vem de dois documentos brasileiros que não dizem a mesma coisa, e o capítulo toma posição entre eles. A descrição dos sinais de gás fora do lugar segue uma revisão brasileira publicada em Radiologia Brasileira, escrita para o recém-nascido, porque a física do gás na radiografia é a mesma em qualquer idade.

04

Por que acontece o que acontece

Toda radiografia é um mapa de quanto cada tecido freia o feixe. No abdome, quase tudo freia parecido: fígado, baço, rim, músculo, sangue e alça cheia de líquido têm densidades próximas e aparecem no mesmo cinza. Destacam-se só quatro coisas — o gás, que quase não freia e fica preto; a gordura, um cinza mais escuro que desenha o contorno do psoas, dos rins e das paredes laterais; o cálcio e o metal, que freiam muito e ficam brancos. A radiografia de abdome não vê órgãos: vê gás, gordura, cálcio e metal. Por isso fala bem de alça distendida por gás, de ar fora da luz, de cálculo e de objeto metálico, e não fala nada de apêndice, vesícula, pâncreas ou vaso. A consequência mais traiçoeira dessa física é a alça cheia de líquido: uma alça obstruída que acumulou secreção some no cinza das partes moles. A revisão de Paulson e Thompson, de 2015, dá nome ao achado — abdome sem gás — e avisa que, entre as várias causas dele, a mais grave é a obstrução de delgado, com ou sem isquemia. O filme quase vazio de gás, no paciente que vomita e tem dor, não é um filme normal: é um filme que não conseguiu mostrar a doença que está lá.

A segunda regra é a direção do feixe. Na radiografia deitada comum, o paciente fica de costas e o raio desce de cima para baixo; toda interface entre ar e líquido fica paralela ao filme, e por isso o nível hidroaéreo não aparece. Ele só aparece quando o raio corre paralelo ao chão — os raios horizontais —, o que acontece com o paciente em pé, deitado de lado ou deitado de costas com o aparelho posicionado lateralmente. Procurar nível numa radiografia deitada comum é procurar o que a geometria não permite mostrar, e a ausência dele nessa incidência não significa nada.

O ar livre obedece à mesma física com uma diferença: ele sobe para o ponto mais alto da cavidade, qualquer que seja esse ponto. Em pé, é a face inferior das cúpulas diafragmáticas; deitado sobre o lado esquerdo, é o flanco direito, entre o fígado e a parede; deitado de costas, é a parede anterior do abdome. A revisão brasileira de Alvares e colaboradores descreve as três posições e o que se vê em cada uma: com o paciente em pé, em decúbito dorsal com raios horizontais ou em decúbito lateral esquerdo com raios horizontais, o ar se desloca para baixo das cúpulas, para a frente ou para o espaço entre o fígado e a parede abdominal direita. O decúbito lateral esquerdo aproveita essa geometria: com o lado esquerdo para baixo, o fígado forma sob o flanco direito um fundo homogêneo, e uma lâmina fina de gás se destaca contra ele.

Deitado de costas, com o raio descendo, o ar livre se espalha numa camada fina sob a parede anterior e fica sobreposto ao gás das alças — por isso a radiografia deitada é a pior incidência para procurar pneumoperitônio. Ele só se torna visível nela quando é volumoso, e então produz os dois sinais que a mesma revisão descreve. A parede da alça passa a ser vista pelos dois lados, porque há ar dentro e fora dela: é o sinal de Rigler. E o ligamento falciforme, contornado por ar, desenha com a cavidade escurecida uma silhueta oval que lembra uma bola de futebol americano. Os dois são sinais de muito ar. A ausência deles não diz nada sobre quantidades pequenas, que são justamente as da perfuração que ainda está no começo.

A revisão de Gans e colaboradores explica por que tantas perfurações passam despercebidas: a falha costuma ser técnica, e não do método — filme de má qualidade ou filme que deixa fora do campo exatamente a porção mais alta da cavidade. Com técnica cuidadosa, 1 mL de ar livre pode ser demonstrado numa radiografia de tórax em ortostase ou num abdome em decúbito lateral esquerdo. É por isso que a rotina clássica inclui o tórax em pé: o filme de tórax, centrado mais alto, traz as cúpulas inteiras dentro do campo. Num estudo citado pela mesma revisão, o ar livre apareceu em 96% das radiografias em decúbito lateral esquerdo, em 85% das de tórax, em 60% das de abdome em pé e em 56% das de abdome deitado. A ordem desses números é a ordem em que a incidência deve ser escolhida para quem precisa responder se há perfuração.

A terceira regra é anatômica. As pregas da mucosa do delgado atravessam a luz de uma parede à outra, próximas umas das outras, e quando a alça dilata elas continuam atravessando: o delgado distendido lembra uma pilha de molas. As haustrações do cólon são mais espaçadas e não cruzam a luz inteira. O delgado ocupa o centro do abdome; o cólon emoldura a periferia. Quando a alça se enche de líquido e resta pouco gás, o ar fica preso entre as pregas e aparece de duas maneiras: como estrias finas transversais na radiografia deitada, o sinal do estiramento, ou como uma fileira de bolhas pequenas alinhadas no filme com raio horizontal, o colar de contas, que Paulson e Thompson atribuem exatamente a esse ar aprisionado entre as pregas de um delgado cheio de líquido.

Gás pode estar fora da luz sem estar livre. Na parede da alça, a pneumatose aparece como imagens radiolucentes curvilíneas, lineares ou em bolhas que acompanham o contorno da alça, e a revisão brasileira ensina a separá-la de fezes pela persistência: em radiografias sequenciais o gás intramural fica no mesmo lugar, e o conteúdo fecal se move. Dentro das veias, o gás segue o sangue portal, que corre do hilo para a periferia do fígado: o ar portal aparece como imagens lineares radiolucentes sobre a sombra hepática que se estendem até a borda. Dentro dos ductos, o gás fica onde os ductos são largos, perto do hilo: a aerobilia tem aspecto parecido, mas localização central. A distinção pesa porque os dois achados não significam o mesmo. O documento do colégio sobre obstrução de delgado lista a pneumatose e o gás venoso mesentérico entre os sinais de isquemia, e registra que a isquemia indica cirurgia imediata; o gás na via biliar, por sua vez, é a consequência mecânica de uma papila que foi cortada ou de uma anastomose entre ducto e intestino, por onde o ar do duodeno sobe sem obstáculo.

A última regra é a do feixe dentro do corpo. Uma radiografia de abdome entrega em média 0,7 mSv de dose efetiva, segundo a revisão de 2012, contra 10 mSv de uma tomografia de abdome. Na mulher grávida, porém, a pergunta não é a dose efetiva: é o que está dentro do campo. O posicionamento da Sociedade Brasileira de Cardiologia de 2020 registra que radiografias que não envolvem diretamente o útero resultam em dose fetal pouco significativa — e a radiografia de abdome é justamente a que põe o útero no meio do campo. O mesmo documento situa em 50 mGy o limiar abaixo do qual o risco não carcinogênico para o embrião, que inclui aborto e malformação, é insignificante diante dos outros riscos da gravidez, e dá 13 a 25 mGy de dose fetal para a tomografia de abdome e pelve, abaixo desse limiar. O risco carcinogênico é outro assunto: não tem limiar, e o documento registra aumento do risco de câncer na infância e de leucemia com 20 mGy. A dose de um exame diagnóstico isolado de abdome, portanto, não proíbe o exame na gestante; o que o autoriza é responder a uma pergunta que um exame sem radiação não responde a tempo.

Três modelos posicionais mostram ar livre sob o diafragma em pé, anteriormente no decúbito dorsal e junto à parede direita no decúbito lateral esquerdo.
O ar livre tende a ocupar regiões não dependentes, que mudam com a posição. Os desenhos são mapas de localização, não radiografias; ausência de ar visível em uma projeção não exclui perfuração.
05

Como se apresenta de verdade

Seis padrões mudam o que acontece com o paciente nas horas seguintes, e em cada um a radiografia faz um trabalho diferente: às vezes fecha o diagnóstico, às vezes só levanta a suspeita, às vezes cala justamente sobre o que mais importa. Cada seção descreve o padrão, diz o que o filme não alcança e termina no capítulo que é dono da conduta — porque reconhecer e acionar o dono é a parte que cabe a quem lê.

Percurso de aprendizagem

Defina pergunta e incidência. Um filme negativo não exclui perfuração, obstrução ou isquemia; não exija radiografia como triagem obrigatória antes de TC.

Dilatado não significa obstrução comprovada, e padrão sugestivo não mostra causa ou viabilidade. Separe achado de hipótese, usando clínica e TC quando indicada.

Em dor desproporcional e risco vascular, organize angio-TC e avaliação cirúrgica urgente. No volvo, a escolha entre descompressão endoscópica e cirurgia depende de complicações.

Obstrução de delgado: o delgado que não esvazia

O achado central é o delgado dilatado antes do ponto de obstrução e colapsado depois dele. Paulson e Thompson definem dilatação como calibre de 3 cm ou mais, e registram que alguns autores preferem o corte mais conservador de 2,5 cm. No filme deitado, o delgado dilatado aparece desproporcional ao cólon, com as pregas cruzando a luz inteira; na obstrução proximal, o estômago também dilata. No filme com raio horizontal — em pé ou em decúbito lateral esquerdo — os sinais são quatro: múltiplos níveis hidroaéreos, níveis com mais de 2,5 cm de comprimento, níveis de alturas diferentes dentro da mesma alça e o colar de contas. Segundo a revisão, os três primeiros são bem mais comuns que o quarto, e quando os quatro estão presentes a sensibilidade e a especificidade para obstrução são muito altas.

Dois achados costumam ser superestimados. A ausência de gás no reto ocorre na obstrução, mas também em pessoas normais e na obstrução do cólon, e por isso pesa pouco. E o abdome sem gás, em vez de tranquilizar, pode ser a obstrução mais avançada, com as alças cheias de líquido. Na leitura com as duas incidências, deitada e com raio horizontal, a mesma revisão cita sensibilidade de 82%, especificidade de 83% e acurácia de 83%, com variação de 69% a 93% entre leitores. A incidência com raio horizontal é parte do exame de quem suspeita de obstrução, e não um acréscimo opcional.

O que a radiografia não mostra é o que decide a cirurgia: a causa, o local exato e, sobretudo, o sofrimento da alça. O documento do American College of Radiology classifica a tomografia de abdome e pelve com contraste venoso como usualmente apropriada na suspeita aguda, com acurácia acima de 90%, e deixa a radiografia como exame que pode ser apropriado, com desacordo do próprio painel, útil para orientar a investigação que em geral termina na tomografia. Mesmo a tomografia vê mal a isquemia: num grupo experiente, a sensibilidade prospectiva para isquemia na obstrução foi de 15%, segundo Paulson e Thompson, e a suspeita continua sendo clínica. A indicação de sonda, de contraste, de observação e de cirurgia é de A pergunta não é se obstruiu, na apostila de Urgência e Emergência Cirúrgica — este capítulo entrega o paciente a ela com o padrão nomeado.

Obstrução do cólon e volvo: a alça grande na moldura

O cólon dilatado ocupa a periferia do abdome e mostra haustrações que não atravessam a luz inteira. O número que os critérios de obstrução de delgado usam para declarar o cólon não dilatado é 6 cm, e acima dele a pergunta deixa de ser só o delgado. Na obstrução do cólon, a distensão vai do ceco até o ponto obstruído, e o reto e o sigmoide distais podem ficar vazios; o delgado pode dilatar junto. A radiografia sugere o nível da obstrução pela última alça com gás, mas não diz o que obstrui, e a causa mais temida no adulto — o tumor — não aparece nela.

O volvo de sigmoide tem o sinal mais reconhecível de toda a radiografia de abdome. A diretriz da World Society of Emergency Surgery de 2023 recomenda a radiografia simples como imagem inicial e descreve o achado clássico, o grão de café: uma alça sigmoide enormemente distendida, dobrada sobre o próprio mesentério, que se projeta para o abdome superior e às vezes sobe acima do cólon transverso. A diretriz afirma que a radiografia simples muitas vezes é diagnóstica, que, havendo perfuração, o filme de tórax é suficiente para mostrar o ar livre e que a tomografia fica para a dúvida diagnóstica e para a suspeita de isquemia ou perfuração. É uma das poucas situações em que o filme não apenas levanta a hipótese: ele a nomeia, e o passo seguinte é chamar a cirurgia, não pedir outro exame.

O cólon largo em quem tem colite grave é outro assunto. O megacólon tóxico é descrito e manejado em A diarreia que não é infecciosa, na apostila de Gastroenterologia, que traz o número de dilatação usado pelo protocolo brasileiro no acompanhamento da colite grave e explica por que, no paciente em corticoide em dose alta, a radiografia seriada passa a fazer parte do exame de segurança. A este capítulo cabe a leitura: cólon dilatado num paciente com diarreia com sangue e toxemia é achado que se comunica no mesmo minuto a quem conduz o caso.

Íleo adinâmico e pseudo-obstrução: tudo dilatado por igual

Quando o intestino deixa de propelir sem que haja obstáculo mecânico, o gás se distribui pelo delgado e pelo cólon ao mesmo tempo, sem ponto de transição. Paulson e Thompson reservam o nome íleo para essa situação — distensão do cólon e do delgado —, sobretudo no pós-operatório. O documento do colégio sobre obstrução de delgado adverte que, no período perioperatório, separar obstrução de íleo com um exame isolado pode ser difícil, e que exames seriados mostrando alças de delgado dilatadas persistentes, com níveis e com pouco gás no cólon, favorecem obstrução. A leitura, aqui, não é um instante: é a comparação entre dois filmes feitos com a mesma técnica.

A pseudo-obstrução colônica aguda é a versão colônica do fenômeno: o cólon distende muito, às vezes com um ceco volumoso, num paciente internado por outro motivo, com frequência acamado. O capítulo que é dono dela, O repouso que ninguém prescreveu, na apostila de Síndromes do Paciente Internado, usa a radiografia para confirmar a dilatação e medir o calibre do ceco, e a tomografia para afastar obstrução mecânica; é ele que decide o que fazer com esse calibre e quando a distensão vira emergência, e é dono também da constipação, do fecaloma e do imobilismo. O íleo pós-operatório é de Cento e vinte, sem febre, na apostila de Pré e Pós-operatório, que o assumiu por não ter outro dono no nível.

O erro que este padrão provoca tem duas direções. Chamar de íleo uma obstrução de delgado que ainda deixa passar algum gás adia a cirurgia; chamar de obstrução um íleo difuso leva a laparotomia a um intestino que só estava parado. Nos dois sentidos, o que protege é a mesma disciplina de leitura: dizer onde está o gás, medir o calibre, dizer se há transição e, quando o filme não decide, escrever que não decide e qual exame decide.

Pneumoperitônio: o ar que mudou de lugar

Ar sob as cúpulas no filme em pé, ar entre o fígado e a parede direita no decúbito lateral esquerdo, parede de alça vista pelos dois lados e ligamento falciforme contornado no filme deitado: os quatro achados dizem a mesma coisa, que há gás fora do tubo digestivo. Fora do pós-operatório e de procedimento que tenha introduzido ar na cavidade, a leitura é víscera perfurada, e o paciente muda de destino antes de mudar de exame. A revisão de 2012 lembra que o filme positivo diz que há perfuração, mas quase nada sobre onde e por quê, e que nem todo ar livre vem de úlcera: o cólon, o divertículo, o apêndice, a doença inflamatória intestinal e a endoscopia também perfuram. A úlcera perfurada, a decisão cirúrgica e o papel da tomografia antes da cirurgia são de O minuto que ele sabe de cor, na apostila de Urgência e Emergência Cirúrgica; a leitura do ar sob o diafragma no tórax em ortostase está em Radiografia de tórax, nesta apostila.

O filme negativo é o problema. Na série citada pela revisão de 2012, as radiografias mostraram ar livre em 51% das perfurações comprovadas; na coorte de pronto-socorro, a sensibilidade foi de 15%; na comparação com o ultrassom, 78% contra 92% — e o que o ultrassom à beira do leito mostra está no capítulo Ultrassom à beira do leito: o que o interno precisa reconhecer, nesta apostila. Um filme sem ar livre, num paciente com dor súbita e abdome em tábua, não autoriza nada — nem alta, nem espera, nem a frase sem pneumoperitônio escrita como se fosse exclusão. A tomografia é, segundo a mesma revisão, a modalidade mais acurada para pneumoperitônio, e a decisão de pedi-la ou de levar o paciente direto ao centro cirúrgico é do capítulo dono.

A incidência se escolhe pelo que o paciente consegue fazer. Quem fica em pé faz tórax em ortostase e abdome; quem não fica em pé, mas vira de lado, faz decúbito lateral esquerdo com raios horizontais; quem não pode ser mobilizado, como o paciente de terapia intensiva, pode fazer a radiografia de costas com o raio horizontal, que desloca o ar para a frente da cavidade, como descreve a revisão brasileira. O que não se faz é pedir a radiografia deitada comum para responder se há ar livre: ela é a incidência que menos mostra, e só mostra quando o volume já é grande.

Ar na parede, nas veias e nos ductos

A pneumatose aparece como linhas ou bolhas escuras acompanhando o contorno da alça, e o primeiro cuidado é não confundi-la com fezes: segundo a revisão brasileira, o gás intramural persiste no mesmo lugar em radiografias sequenciais, enquanto o conteúdo fecal se move. O segundo cuidado é não lê-la sozinha. O documento do colégio sobre obstrução de delgado inclui a pneumatose e o gás venoso mesentérico entre os sinais de isquemia na tomografia e registra que a presença de isquemia indica cirurgia imediata; o documento sobre dor não localizada lembra que a tomografia detecta trombose, gás na parede ou na veia porta e falta de realce da parede, e aponta a angiotomografia como o exame preferido quando a suspeita é isquemia mesentérica. A radiografia pode mostrar o gás, mas não mostra o realce da parede nem o vaso.

O ar portal e o ar biliar se parecem, e o que os separa é o lugar. O ar portal chega à periferia do fígado, porque viaja com o sangue que corre do hilo para a borda; o ar biliar fica central, onde os ductos são largos. A mesma revisão usa exatamente esse critério de distribuição para diferenciá-los. A tradução para o plantão é direta: ramificações escuras centrais num paciente que já teve a papila cortada ou uma anastomose entre via biliar e intestino são o esperado dessa anatomia; ramificações que chegam à borda do fígado num paciente com dor, distensão e piora clínica são ar portal, e o paciente precisa de cirurgião e de tomografia com contraste, não de outra radiografia.

A isquemia mesentérica tem dono: Cinco relógios diferentes, na apostila de Urgência e Emergência Cirúrgica, que ensina a reconhecê-la pela clínica e a tratá-la contra o relógio, e A pergunta não é se obstruiu, que a assume na forma que interessa ao plantonista da obstrução. O que este capítulo acrescenta é a regra de leitura: os sinais de isquemia que a radiografia consegue mostrar dependem de gás que já atravessou a mucosa ou já entrou na circulação, e por isso um filme sem pneumatose e sem ar portal não afasta a doença.

Densidades: cálculo, corpo estranho, material cirúrgico e aparatos

O cálculo urinário é a calcificação que mais se procura, e a revisão de 2012 dá a medida do quanto a radiografia simples o encontra: sensibilidade de 44% a 77% e especificidade de 80% a 87% nas séries citadas, e, num estudo isolado, 45% e 77%. O filme negativo não afasta cálculo, e a calcificação sobre o trajeto do ureter nem sempre é cálculo. A mesma revisão registra a utilidade que sobra para a radiografia — o paciente com litíase já conhecida, cujo cálculo radiopaco serve de referência para comparar — e que a tomografia a substituiu na detecção. A escolha do exame na cólica e o seguimento do cálculo são de A dor que não deixa ficar parado, na apostila de Urologia, que usa a diretriz brasileira para decidir quando a ultrassonografia com radiografia é a porta de entrada.

Para corpo estranho, a radiografia vale o que o objeto deixa o raio passar. O documento do colégio cita sensibilidade de 90% para corpo estranho intra-abdominal, e a revisão de 2012 dá os mesmos 90% para o objeto ingerido — desde que ele seja radiopaco. Objeto transparente ao raio não aparece, e o filme negativo não o exclui. Nos transportadores de droga em cápsulas, a revisão registra sensibilidade de 85% a 100% e falsos-negativos por sobreposição de fezes. Na suspeita de compressa ou instrumento esquecido depois de cirurgia, o documento do colégio lembra que a radiografia é útil porque o marcador radiopaco da compressa tem aparência característica. O corpo estranho retal é de Ninguém chega cedo, na apostila de Coloproctologia. A decisão endoscópica sobre o corpo estranho ingerido pelo adulto não tem capítulo neste nível; este capítulo assume só a parte que cabe à imagem — localizar o objeto radiopaco e dizer, por escrito, que o transparente não aparece.

Aparatos entram na leitura porque mudam conduta quando estão fora do lugar. A leitura da ponta da sonda gástrica ou entérica é do capítulo Radiografia de tórax, nesta apostila, e a técnica e a conferência da posição são de O que confirma, e o que só parece confirmar, na apostila de Procedimentos e Vias de Acesso. O dispositivo intrauterino que aparece fora da pelve é achado que se descreve e se entrega a Contracepção de longa duração, na apostila de Ginecologia, que é dona da sequência que investiga o fio que não se vê. Drenos, clipes cirúrgicos, cateteres e grampos se descrevem pela posição, sem adjetivo: onde começam, por onde passam, onde terminam.

06

Como fechar o diagnóstico

A leitura sistemática existe para uma coisa: impedir que o primeiro achado encerre a leitura. O olho vai direto para a alça mais escura, e a pneumatose, o cálculo, a hérnia e a sonda enrolada ficam para trás. A sequência abaixo é a mesma em qualquer filme de abdome, do pronto-socorro à enfermaria, e cada passo termina numa frase que vai escrita no prontuário — inclusive quando a frase é que aquele passo não pôde ser avaliado.

Ela começa antes do paciente, pelo filme. Uma radiografia só responde à pergunta que a sua incidência permite responder. O filme deitado comum, que é o que mais chega ao plantão, já exclui duas respostas antes de qualquer olhar: nível hidroaéreo e ar livre em pequena quantidade. Saber disso no passo zero poupa a pior frase de uma evolução — a que descreve como ausente algo que o exame não tinha como mostrar.

Passo 0 — O filme antes do paciente: incidência, raio e campo

Confira nome, data e hora. Em paciente internado, procure o filme anterior: a comparação entre dois exames feitos com a mesma técnica dá a direção que um filme isolado não dá, e é ela que separa, no documento do colégio sobre obstrução de delgado, a obstrução que persiste do íleo que melhora. Anote se há exame anterior e de quando ele é.

Depois, descubra a incidência — o que foi feito, e não o que foi pedido. O pedido dizia rotina de abdome agudo, mas o paciente que não fica em pé volta com um filme deitado. A etiqueta de posição e o marcador do técnico dizem a posição; o próprio filme confirma a direção do raio. Se há nível hidroaéreo em qualquer lugar, inclusive na bolha gástrica, o raio era horizontal. Se não há nenhum nível em nenhuma alça com gás, o raio provavelmente desceu na vertical, e as perguntas que dependem do raio horizontal ficam sem resposta.

Em seguida, o campo. As cúpulas diafragmáticas estão inteiras dentro do filme? A revisão de Gans e colaboradores atribui parte das perfurações não vistas a filmes que deixaram fora do campo justamente a porção mais alta da cavidade. A pelve está incluída até a sínfise púbica, com as regiões inguinais? Os flancos foram cortados? No paciente obeso, o abdome inteiro pode não caber num único filme, e um filme que cortou metade da cavidade descreve só a metade que mostrou.

Por último, a qualidade: filme pouco penetrado apaga lâminas finas de gás no meio do cinza das partes moles, e filme rodado desloca a coluna e deforma a moldura. O passo zero termina numa frase como esta: radiografia de abdome em decúbito dorsal, raios verticais, campo das cúpulas à sínfise, sem exame anterior para comparação. Essa frase já diz ao leitor seguinte que o ar livre não foi avaliado.

Passo 1 — O gás que está onde deve: estômago, delgado, cólon e reto

Percorra o gás na ordem do trânsito. A bolha gástrica, no quadrante superior esquerdo. O delgado, no centro. O cólon, emoldurando o abdome — ascendente à direita, transverso atravessando, descendente à esquerda, sigmoide descendo para a pelve. E o reto, na linha média, sobre a pelve. A pergunta, a cada segmento, é a mesma: tem gás, e o calibre é normal?

Meça. Paulson e Thompson definem o delgado dilatado a partir de 3 cm, com alguns autores preferindo 2,5 cm; o cólon não dilatado, nos critérios de obstrução de delgado, fica abaixo de 6 cm. A régua do sistema de imagens mede em segundos, e a medida escrita — delgado central com 3,8 cm, cólon ascendente com 4 cm — vale mais que qualquer adjetivo, porque o plantonista seguinte consegue comparar um número e não consegue comparar a palavra distendido.

Identifique cada alça pelo que ela é. O delgado tem pregas que atravessam a luz inteira, próximas umas das outras, e ocupa o centro; o cólon tem haustrações espaçadas que não cruzam toda a luz, e ocupa a periferia. Quando a alça está tão dilatada que as pregas somem, a posição ajuda; quando nem a posição resolve, escreva que não foi possível distinguir, em vez de escolher um nome.

Então procure a transição. Delgado dilatado com cólon vazio sugere obstrução mecânica do delgado; tudo dilatado por igual, até o reto, sugere íleo; cólon dilatado até um ponto e vazio depois dele sugere obstrução colônica nesse ponto. A última alça com gás aponta para o nível do obstáculo, mas não mostra o obstáculo. A frase do passo 1 diz o calibre de cada segmento, se há desproporção e onde está a transição, quando há.

Passo 2 — Líquido e níveis: o que só aparece com o raio horizontal

Se o filme tem raio horizontal, conte e meça os níveis. Os quatro sinais que Paulson e Thompson listam para o filme em pé ou em decúbito lateral esquerdo são: múltiplos níveis hidroaéreos; níveis com mais de 2,5 cm de comprimento; níveis de alturas diferentes dentro da mesma alça, com diferença acima de 5 mm; e o colar de contas, a fileira de bolhas pequenas presas entre as pregas de um delgado quase todo cheio de líquido. Anote quais estão presentes. A revisão registra que, com os quatro, a sensibilidade e a especificidade para obstrução são muito altas.

Se o filme é deitado comum, os níveis não estão disponíveis, e a leitura usa os sinais dessa incidência. O sinal do estiramento, com estrias transversais finas de gás preso entre as pregas de uma alça cheia de líquido. O pseudotumor, uma área de partes moles no meio do abdome que parece massa e é delgado dilatado e cheio de líquido — sinal que a revisão descreve como mais comum em crianças e também associado a volvo de delgado e a estrangulamento. E o abdome sem gás, que no paciente que vomita e tem dor é suspeita de obstrução com alças cheias de líquido, e não um filme normal.

Evite a expressão padrão gasoso inespecífico. Paulson e Thompson escrevem que se esforçam para eliminá-la e para se comprometer com a presença ou a ausência de obstrução em todo caso em que a obstrução é a pergunta clínica. A expressão devolve a dúvida a quem pediu o exame e costuma ser lida como normal. As frases que servem são outras: sinais de obstrução de delgado presentes; sinais de obstrução de delgado ausentes nesta incidência; ou não é possível afirmar nem excluir obstrução com este filme — seguida do exame que responde.

Passo 3 — Gás fora da luz: livre, na parede, nas veias e nos ductos

Procure o ar livre onde a incidência o coloca. No filme em pé ou no tórax em ortostase, sob as cúpulas; no decúbito lateral esquerdo, entre a borda do fígado e a parede abdominal direita; no filme de costas com raio horizontal, na frente da cavidade, logo abaixo da parede anterior; no filme deitado comum, só o ar volumoso aparece, pela parede de alça vista dos dois lados ou pelo ligamento falciforme contornado. Se as cúpulas ficaram fora do campo, ou se o filme é deitado comum e a pergunta é perfuração, a frase é: ar livre não avaliado nesta incidência.

Procure gás na parede. A pneumatose acompanha o contorno da alça como linhas, curvas ou bolhas escuras; se houver dúvida com fezes, a revisão brasileira ensina a resposta — o gás intramural fica no mesmo lugar no filme seguinte, e as fezes andam. Procure gás sobre a sombra do fígado. Ramificações que chegam à periferia são ar portal; ramificações centrais, perto do hilo, são ar biliar. Descreva a distribuição com essas palavras, porque é a distribuição, e não a forma, que separa os dois.

A frase do passo 3 é curta e completa: sem ar livre sob as cúpulas no tórax em ortostase, sem pneumatose, sem ar portal ou biliar. Ou, quando o achado está lá: ramificações de gás até a periferia do fígado, compatíveis com ar portal, e imagens lineares de gás na parede de alças do flanco direito que persistem no segundo filme — cirurgião avisado às 18h20.

Passo 4 — O que o raio não atravessa: cálculos, objetos, material cirúrgico e aparatos

Varra o filme procurando branco. Calcificações se descrevem por localização, forma e tamanho, antes de receberem nome. Uma densidade sobre a projeção do rim ou do trajeto do ureter pode ser cálculo, e pode não ser; a revisão de 2012 mostra que a radiografia simples perde entre um quarto e mais da metade dos cálculos, conforme a série, e erra também para mais. Escreva densidade cálcica de 6 mm projetada sobre o trajeto do ureter esquerdo na altura de L4, e deixe a interpretação para o exame que responde e para o capítulo que é dono da cólica.

Objetos se descrevem pelo mesmo método. O objeto radiopaco aparece, e o filme localiza; o objeto transparente não aparece, e o filme não o exclui — a sensibilidade de 90% citada pelo documento do colégio e pela revisão de 2012 vale para o que o raio não atravessa. Na suspeita de material cirúrgico retido, procure o marcador radiopaco da compressa, que o documento do colégio descreve como de aparência característica. Na suspeita de transporte de droga em cápsulas, lembre que a própria revisão registra falsos-negativos por sobreposição de fezes.

Aparatos se descrevem por onde começam, por onde passam e onde terminam. Sonda que entra pela narina e termina enrolada no estômago, dreno que sai pelo flanco e termina na pelve, cateter de diálise peritoneal com a ponta na escavação, clipes no leito da vesícula. A leitura da ponta da sonda gástrica ou entérica é do capítulo Radiografia de tórax; o dispositivo intrauterino fora da pelve é descrito aqui e entregue a Contracepção de longa duração, na apostila de Ginecologia.

Passo 5 — A moldura, as bases pulmonares e a frase final

Olhe a moldura. As regiões inguinais entram na leitura porque as hérnias externas são a segunda causa mais frequente de obstrução de delgado, segundo Paulson e Thompson, e uma alça com gás abaixo do ligamento inguinal num paciente obstruído muda o exame físico que você vai repetir em seguida. Os contornos do psoas e a gordura dos flancos entram como moldura; a coluna lombar, a pelve e os arcos costais inferiores entram porque fratura e lesão óssea também doem na barriga.

Olhe as bases pulmonares que aparecem no topo do filme. O documento do colégio sobre dor abdominal não localizada lista a pneumonia entre as causas de dor abdominal, e uma consolidação na base, vista por acaso, pode ser a resposta que o abdome não tinha. A leitura dessa base é do capítulo Radiografia de tórax; o dever deste passo é não deixá-la passar.

Termine com a frase final, sempre com as mesmas quatro partes: o que o filme mostrou, com medidas; o que ele não tinha como responder, com o motivo; qual exame responde; e quem foi chamado, com a hora. Um exemplo: radiografia de abdome em decúbito dorsal e em decúbito lateral esquerdo com raios horizontais; delgado central dilatado até 3,8 cm, com níveis de alturas diferentes na mesma alça, cólon com pouco gás; sem ar livre entre o fígado e a parede direita; filme não mostra causa nem viabilidade da alça; tomografia com contraste solicitada conforme orientação da cirurgia, avisada às 18h05. Essa frase é o exame. O resto é imagem.

07

A ordem da leitura, a régua de indicação e as contas de dose

Aprenda a reconhecer quando a radiografia abdominal ajuda e quando sua limitação exige outro exame ou atendimento imediato.

  1. 11. Antes de pedir, escreva a pergunta: ar livre, obstrução, volvo, corpo estranho radiopaco, aparato ou cálculo já conhecido. Sem uma delas, a radiografia não é o exame, e a tomografia com contraste costuma ser.
  2. 22. Na mulher em idade fértil, pergunte pela gravidez antes do disparo. Na gestante, pergunte se um exame sem radiação responde a tempo; se não responder, peça o exame que responde.
  3. 33. Escolha a incidência pelo paciente: fica em pé, tórax em ortostase e abdome; não fica em pé, decúbito lateral esquerdo com raio horizontal; não pode ser mobilizado, de costas com raio horizontal.
  4. 44. Passo 0: nome, data, exame anterior, incidência de fato feita, direção do raio, campo das cúpulas à sínfise e às regiões inguinais, penetração e rotação.
  5. 55. Passo 1: gás no estômago, no delgado, no cólon e no reto, com calibre medido; delgado a partir de 3 cm é dilatado; transição presente ou ausente.
  6. 66. Passo 2: com raio horizontal, níveis — quantos, comprimento acima de 2,5 cm, alturas diferentes na mesma alça, colar de contas; no filme deitado, estiramento, pseudotumor e abdome sem gás.
  7. 77. Passo 3: ar livre onde a incidência o coloca; pneumatose que persiste entre filmes; ramificação de gás até a periferia do fígado (portal) ou central (biliar).
  8. 88. Passo 4: densidades e aparatos descritos por localização, forma e medida antes de receberem nome.
  9. 99. Passo 5: regiões inguinais, contornos do psoas e dos flancos, coluna, pelve, arcos costais e bases pulmonares.
  10. 1010. Frase final: o que o filme mostrou, o que não tinha como responder e por quê, o exame que responde e quem foi chamado, com a hora.
Pergunta clínicaO que a radiografia fazO exame que respondeDe onde vem
Dor abdominal difusa com febre, sem cirurgia recentePode ser apropriada, mas tem baixa sensibilidade para abscesso e para a causa da febreTomografia de abdome e pelve com contraste venoso, usualmente apropriadaAmerican College of Radiology, dor não localizada, 2018, variante 1
Dor difusa com febre no pós-operatórioPode ser apropriada; tem papel na suspeita de compressa ou instrumento retidoTomografia com contraste venoso; fluoroscopia ou tomografia com contraste oral quando a pergunta é fístula de anastomoseAmerican College of Radiology, 2018, variante 2
Dor abdominal no paciente neutropênicoUsualmente não apropriadaTomografia de abdome e pelve com contraste venosoAmerican College of Radiology, 2018, variante 3
Dor abdominal difusa sem outra especificaçãoPode ser apropriada, recomendada só se um resultado positivo evitar o exame seguinte; mudou a conduta em 4% numa série de pronto-socorroTomografia com contraste venoso, tomografia sem contraste ou ressonância, todas usualmente apropriadasAmerican College of Radiology, 2018, variante 4
Suspeita aguda de obstrução de delgadoPode ser apropriada, com desacordo do painel; orienta a investigação e não mostra causa nem isquemiaTomografia de abdome e pelve com contraste venoso, usualmente apropriadaAmerican College of Radiology, obstrução de delgado, 2019, variante 1
Obstrução intermitente ou de baixo grauUsualmente não apropriadaTomografia com contraste venoso ou enterotomografia, usualmente apropriadasAmerican College of Radiology, 2019, variante 2
Suspeita de perfuraçãoMostrou ar livre em 51% das perfurações numa série e teve sensibilidade de 15% numa coorte de pronto-socorro; o filme negativo não excluiTomografia, a modalidade mais acurada; a decisão cirúrgica é do capítulo donoGans e colaboradores, 2012
Suspeita de volvo de sigmoideImagem inicial recomendada; muitas vezes diagnóstica pelo grão de caféTomografia na dúvida diagnóstica ou na suspeita de isquemia ou perfuraçãoWorld Society of Emergency Surgery, 2023, recomendações 2 e 3
Corpo estranho ingerido ou material cirúrgico retidoSensibilidade de 90% para objeto radiopaco; não vê objeto transparenteTomografia quando a localização exata decide cirurgiaAmerican College of Radiology, 2018; Gans e colaboradores, 2012
Cálculo urinárioSensibilidade de 44% a 77% e especificidade de 80% a 87%; serve para seguir cálculo radiopaco já conhecidoDefinido pelo capítulo de litíase urinária, com a diretriz brasileiraGans e colaboradores, 2012; A dor que não deixa ficar parado
Suspeita de isquemia mesentéricaNão afasta; só mostra gás na parede ou na veia porta quando ele já existeAngiotomografia, o exame preferido nessa suspeitaAmerican College of Radiology, 2018, narrativa
Suspeita de apendicite, colecistite, pancreatite ou diverticuliteNão é o exame dessas perguntasTomografia ou ultrassonografia, conforme o capítulo dono de cada doençaAmerican College of Radiology, 2018, que remete aos documentos específicos; Gans e colaboradores, 2012

Os números da leitura

MedidaValorEm que incidênciaFonte
Delgado dilatado3 cm ou mais; 2,5 cm pelo corte conservadorQualquer incidênciaPaulson e Thompson, 2015
Nível hidroaéreo que conta como sinal de obstruçãoMais de 2,5 cm de comprimentoEm pé ou decúbito lateral esquerdoPaulson e Thompson, 2015
Diferença de altura entre níveis da mesma alçaMais de 5 mmEm pé ou decúbito lateral esquerdoPaulson e Thompson, 2015
Cólon não dilatado, no critério de obstrução de delgadoMenos de 6 cmCritério tomográfico usado como referência de leituraPaulson e Thompson, 2015
Leitura com duas incidências na obstrução de delgadoSensibilidade 82%, especificidade 83%, acurácia 83%, com 69% a 93% entre leitoresDeitada e com raio horizontalPaulson e Thompson, 2015
Menor volume de ar livre demonstrável1 mL, com técnica cuidadosaTórax em ortostase ou decúbito lateral esquerdoGans e colaboradores, 2012
Cólon na colite grave e ceco na pseudo-obstruçãoOs números que decidem conduta ficam nos capítulos donosRadiografia seriadaA diarreia que não é infecciosa; O repouso que ninguém prescreveu

Incidências: o que cada uma mostra e quem consegue fazer

IncidênciaRaioO que mostra bemAr livre visto, na série citada por Gans e colaboradores
Abdome em decúbito dorsalVerticalDistribuição e calibre do gás, calcificações, objetos e aparatos; ar livre só quando volumoso; nenhum nível56%
Abdome em ortostaseHorizontalNíveis hidroaéreos; ar sob as cúpulas quando elas entram no campo; exige paciente que fica em pé60%
Tórax em ortostaseHorizontalAr sob as cúpulas, inteiras no campo; bases pulmonares; exige paciente que fica em pé85%
Abdome em decúbito lateral esquerdoHorizontalNíveis; ar entre o fígado e a parede direita; para quem não fica em pé mas vira de lado96%
Abdome em decúbito dorsal com raio horizontalHorizontalAr livre na frente da cavidade e níveis, no paciente que não pode ser mobilizadoNão medido na série

As contas de dose, refeitas

ContaNúmeros usadosResultadoFonte dos números
Radiografias de abdome equivalentes, em dose efetiva, a uma tomografia de abdome10 mSv ÷ 0,7 mSv14,3 radiografiasGans e colaboradores, 2012
Dose efetiva das duas radiografias de abdome da rotina de abdome agudo2 × 0,7 mSv1,4 mSv, sem contar o tóraxGans e colaboradores, 2012
Tomografias de abdome e pelve até o limiar fetal de 50 mGy50 mGy ÷ 25 mGy e 50 mGy ÷ 13 mGy2 a 3,8 examesSociedade Brasileira de Cardiologia, 2020
Tomografias simples de abdome e pelve até 50 mGy50 mGy ÷ 11 mGy e 50 mGy ÷ 10 mGy4,5 a 5 examesSociedade Brasileira de Cardiologia, 2020
Tomografias de abdome e pelve até 100 mGy, faixa a partir da qual o documento descreve efeitos possíveis100 mGy ÷ 25 mGy e 100 mGy ÷ 13 mGy4 a 7,7 examesSociedade Brasileira de Cardiologia, 2020

O posicionamento da Sociedade Brasileira de Cardiologia de 2020 tem, no mesmo parágrafo sobre radiação na gestação, duas frases que não cabem juntas. A primeira diz que o risco não carcinogênico, que inclui aborto e malformação, é insignificante abaixo de 50 mGy. A segunda diz que a exposição a 10 mGy se associa a probabilidade de malformações, microcefalia e retardo mental da ordem de 0,5%, 0,4% e 0,1%. A conta: lido como risco acrescentado pela dose, 0,5% de malformação a 10 mGy é igual ao piso da incidência natural de anomalias congênitas que a mesma frase cita (0,5% a 5%) — nada de insignificante —, e em leitura linear a tomografia de abdome e pelve da tabela do próprio documento, com 13 a 25 mGy, acrescentaria 0,65% a 1,25% só de malformação, abaixo do limiar que o documento chama de insignificante. As duas leituras não convivem, e a segunda muda o que se diz a uma gestante que acabou de ser exposta. Este capítulo segue a leitura coerente com o limiar: abaixo de 50 mGy o risco não carcinogênico não é motivo de alarme nem de interrupção, e é o risco carcinogênico, que não tem limiar, que obriga a justificar cada exame.

O Manual de gestação de alto risco do Ministério da Saúde, de 2022, afirma no item 63.4, sobre colecistite aguda, que exames de raio X, tomografia e cintilografia devem ser evitados por sua elevada taxa de radiação, além de não serem superiores aos métodos anteriores. A conta, feita com o documento brasileiro que dá números: a tomografia de abdome e pelve expõe o feto a 13 a 25 mGy, abaixo do limiar de 50 mGy do posicionamento da Sociedade Brasileira de Cardiologia de 2020, e a radiografia de abdome aparece na mesma tabela com dose fetal menor que a da tomografia — elevada taxa de radiação não tem número que a sustente para um exame diagnóstico isolado. E o próprio manual não sustenta a frase em outro capítulo: no item 62.3.3, sobre apendicite aguda, aceita a tomografia quando ultrassom e ressonância não concluem, com protocolos que reduzem a dose fetal, e no item 37.3.2.1, sobre pneumonia, manda não postergar exames de imagem indicados na gestação. A recomendação do item 63.4 continua certa na colecistite pelo segundo motivo da frase, porque o ultrassom responde melhor; lida como regra de radiação, ela levaria a negar radiografia ou tomografia indicadas à gestante com suspeita de perfuração ou de obstrução. A posição do capítulo está no bloco de divergências.

08

A conduta, hora a hora

Os marcos abaixo não seguem a história de uma doença: seguem a fila de decisões de quem pede e lê uma radiografia de abdome, do pedido à frase final e ao que vem depois dela. Em cada marco, o que é deste capítulo é o exame; o que é do capítulo dono — a conduta da doença que o filme sugere — está nomeado, e é para lá que o paciente vai.

Os dois pacientes da cena entram juntos na fila. Dona Cleonilda sai dela no primeiro marco, porque a pergunta dela não é da radiografia. O senhor Rosalvo vai até o fim.

  1. Antes de pedir — a pergunta que o filme sabe responder

    O pedido começa numa pergunta que caiba numa linha, e a primeira tabela do critério decide se a radiografia serve para ela. Dona Cleonilda tem dor difusa, febre e leucocitose, sem cirurgia recente. O documento do American College of Radiology de 2018 classifica a tomografia de abdome e pelve com contraste venoso como usualmente apropriada nesse cenário e registra que a radiografia tem baixa sensibilidade para abscesso e para a causa da febre. A rotina de abdome agudo não responde o que se precisa saber dela, gasta quarenta minutos e soma exposição a uma tomografia que vai acontecer de qualquer jeito. O senhor Rosalvo tem outra pergunta — há obstrução, e há ar livre? —, e para ela a radiografia pode ser apropriada, com o desacordo que o próprio painel registra, desde que se saiba de antemão que ela não vai mostrar causa nem sofrimento de alça. A norma sanitária pede exatamente essa conta: procedimentos mínimos necessários, considerando as informações prévias capazes de evitar exames adicionais.

    Prescrição
    • Formular pergunta específica: sinais de obstrução ou ar livre. A radiografia sugere padrão, mas não costuma localizar com segurança ponto de transição nem avaliar viabilidade da alça; se essas respostas forem necessárias, priorizar TC.
    • Não pedir radiografia de abdome para dor difusa com febre sem cirurgia recente; discutir a tomografia de abdome e pelve com contraste venoso, que é o exame usualmente apropriado
    • Não usar rotina de três filmes como etapa obrigatória antes de TC. Radiografia pode ajudar quando o resultado muda a conduta imediata, em situações selecionadas ou quando o método mais informativo não está disponível, sem atrasar avaliação cirúrgica.
    • Conferir se já existe radiografia ou tomografia de abdome recente antes de pedir outra
  2. Ao escolher a incidência — o que o paciente consegue fazer

    A rotina de abdome agudo pressupõe um paciente que fica em pé: abdome deitado, abdome em pé e tórax em pé, as três incidências que a revisão de Gans e colaboradores descreve como a rotina clássica. O senhor Rosalvo não fica em pé, e o filme que voltaria do pedido padrão seria um abdome deitado comum — a incidência que não mostra nível e só mostra ar livre em grande quantidade. Para ele, a incidência que responde é o decúbito lateral esquerdo com raios horizontais, que mostra os níveis e leva o ar livre para o espaço entre o fígado e a parede direita; na série citada pela mesma revisão, essa incidência mostrou ar livre em 96% das vezes, mais que o tórax em pé. O paciente de terapia intensiva que não pode ser virado ainda tem saída: a radiografia de costas com raio horizontal, que traz o ar livre para a frente da cavidade. A escolha se escreve no pedido, porque o técnico faz a incidência que está escrita.

    Prescrição
    • Paciente que fica em pé: tórax em ortostase e abdome em decúbito dorsal, acrescentando abdome em ortostase quando a pergunta for obstrução
    • Paciente que não fica em pé mas vira de lado: abdome em decúbito dorsal e abdome em decúbito lateral esquerdo com raios horizontais, escrito dessa forma no pedido
    • Paciente que não pode ser mobilizado: abdome em decúbito dorsal com raio horizontal, combinado diretamente com o técnico
    • Pedir que o campo inclua as cúpulas diafragmáticas e as regiões inguinais, e avisar o técnico quando o paciente for obeso
  3. Antes do disparo — a mulher em idade fértil e a gestante

    Gestação exige escolher método adequado e otimizar exposição, sem atrasar diagnóstico de ameaça materna. Ultrassom e RM sem contraste são opções importantes quando respondem em tempo oportuno; TC pode ser necessária. Dose fetal varia com área, protocolo e número de fases: não garantir um valor fixo nem risco zero. Abaixo de 50 mGy não se demonstrou aumento de malformações ou perda gestacional, mas isso não significa ausência de todo risco estocástico. Explicar benefício e limites de forma proporcional.

    Prescrição
    • Perguntar a data da última menstruação e a possibilidade de gravidez a toda mulher em idade fértil antes de pedir radiografia de abdome, e registrar a resposta
    • Na gestante com suspeita de colecistite ou apendicite, começar pelo ultrassom, conforme o manual do Ministério da Saúde de 2022
    • Na gestante com suspeita de perfuração ou obstrução, pedir o exame que responde sem adiá-lo por causa da dose, registrando a indicação
    • Discutir protocolo otimizado com radiologia. Não cobrir a região de interesse com blindagem; proteção em campo pode esconder diagnóstico e interferir no controle automático. Seguir prática do serviço e orientação da física médica.
    • Registrar no prontuário cada exame com radiação feito durante a gestação
  4. Quando o filme aparece — conferir se ele é o filme pedido

    O primeiro filme do senhor Rosalvo aparece na tela às 17h50, e o passo zero muda o plantão. É um abdome em decúbito dorsal comum, sem nenhum nível hidroaéreo, com o campo começando abaixo das cúpulas. O técnico fez o que costuma fazer com paciente acamado. Esse filme responde a pergunta do calibre das alças e da distribuição do gás; não responde a pergunta do ar livre nem a dos níveis. A frase certa, portanto, não é sem pneumoperitônio: é ar livre não avaliado, cúpulas fora do campo, filme sem raio horizontal. O complemento se pede na hora, com o nome da incidência escrito e um telefonema para a radiologia antes de o paciente voltar ao quinto andar.

    Prescrição
    • Conferir incidência, direção do raio e campo antes de olhar as alças
    • Se as cúpulas estiverem fora do campo e a pergunta for ar livre, escrever não avaliado e pedir o complemento com a incidência nomeada
    • Se o paciente não fez a incidência com raio horizontal que o pedido exigia, ligar para a radiologia antes que ele volte ao leito
    • Procurar o filme anterior e anotar a data da comparação
  5. Na leitura — a mesma ordem, com medidas escritas

    Às 18h15 chega o decúbito lateral esquerdo com raios horizontais. A leitura segue os cinco passos, na mesma ordem, e cada um vira uma linha. Delgado central dilatado até 3,8 cm, com pregas que cruzam a luz inteira; cólon com pouco gás no ascendente e no descendente; pouco gás no reto. No filme com raio horizontal, níveis múltiplos, vários com mais de 2,5 cm, dois deles em alturas diferentes dentro da mesma alça. Sem ar entre o fígado e a parede direita. Sem pneumatose, sem ar portal, sem gás biliar. Nenhuma densidade suspeita, nenhum aparato. Regiões inguinais sem alça com gás. Na base pulmonar direita, a opacidade da pneumonia em resolução, que já estava no tórax da internação. A leitura inteira leva menos de cinco minutos e produz um registro que qualquer plantonista consegue comparar amanhã.

    Prescrição
    • Ler na ordem: filme, gás e calibre, níveis, gás fora da luz, densidades e aparatos, moldura e bases pulmonares
    • Escrever medidas em centímetros e o número de níveis, e não adjetivos
    • Não escrever padrão gasoso inespecífico; afirmar presença, ausência ou impossibilidade de avaliar sinais de obstrução
    • Descrever calcificações e objetos pela localização e pela medida antes de nomeá-los
  6. Ao nomear o padrão — quem é chamado, e com que frase

    O padrão sugere obstrução de delgado e justifica avaliação cirúrgica urgente, associada a suporte e investigação. A radiografia não demonstrou um ponto de transição e não exclui íleo apenas porque há pouco gás colônico. TC costuma esclarecer nível, causa e sinais de comprometimento. Em volvo de sigmoide sem isquemia/perfuração, descompressão endoscópica urgente pode ser a etapa inicial; peritonite, isquemia ou falha exigem abordagem cirúrgica. Pneumatose e gás portal ganham gravidade conforme a clínica.

    Prescrição
    • Padrão de obstrução de delgado: avisar a cirurgia na hora, lendo a frase da leitura, e registrar o horário do contato
    • Grão de café ou suspeita de volvo: avisar a cirurgia antes de pedir qualquer outro exame
    • Ar livre fora do pós-operatório: avisar a cirurgia; a conduta é do capítulo dono
    • Pneumatose ou ar portal com dor, distensão ou piora clínica: avisar a cirurgia e registrar a suspeita de isquemia
    • Íleo difuso ou cólon muito dilatado no internado: comunicar o médico assistente e seguir a conduta do capítulo dono da causa
  7. Quando o filme é negativo ou não decide — o que ele não autoriza

    O filme negativo é o momento de maior risco do exame, porque ele fala baixo e costuma ser lido alto. Na perfuração, a radiografia mostrou ar livre em 51% dos casos comprovados numa série e teve sensibilidade de 15% numa coorte de pronto-socorro; na obstrução, detectou 30% das obstruções parciais num estudo comparativo; na isquemia, só mostra gás que já atravessou a parede. A consequência prática é uma só: filme negativo com suspeita clínica forte leva ao exame que responde ou ao cirurgião, e não à alta nem a outro filme igual para ver se aparece. O senhor Rosalvo teve filme positivo; se não tivesse, com vômito esverdeado, parada de gases e laparotomia prévia, a frase seria a mesma na essência — sinais de obstrução ausentes nesta incidência, suspeita clínica mantida, cirurgia avisada e tomografia com contraste discutida.

    Prescrição
    • Escrever o filme negativo como sinais ausentes nesta incidência, e nunca como exclusão
    • Com suspeita clínica forte de perfuração, obstrução ou isquemia e filme negativo, pedir o exame que responde ou chamar o cirurgião, conforme o capítulo dono
    • Não repetir a mesma incidência para confirmar um negativo
    • Não usar radiografia de abdome negativa como argumento de alta em paciente com dor abdominal importante sem diagnóstico
  8. Depois — repetir, seriar ou parar

    Radiografias seriadas podem ser úteis para uma pergunta definida, como progressão de contraste ou calibre colônico, inclusive após TC se o acompanhamento justificar. No desafio com contraste hidrossolúvel para obstrução adesiva selecionada, confirmar ausência de indicação operatória imediata e risco de aspiração, hidratação e via segura. Dose, produto e horários seguem protocolo; chegar ao cólon em até 24 horas favorece resolução, mas não exclui deterioração ou dispensa avaliação clínica.

    Prescrição
    • Repetir a radiografia só com pergunta nova ou para a comparação pedida pelo capítulo dono, sempre com a mesma técnica e a mesma incidência
    • No desafio com contraste hidrossolúvel, ler os filmes de 8 e 24 horas procurando contraste no cólon e registrar a hora de cada filme
    • Após TC, só repetir radiografia quando houver pergunta de acompanhamento com impacto clínico; não manter controle por rotina nem proibir todo controle posterior.
    • Na gestante, rever os exames com radiação já registrados antes de pedir o próximo
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Como saber se está funcionando

A radiografia de abdome não tem relógio próprio: ela anda no relógio da doença que o dono do caso está tratando, e só volta a ser pedida quando o filme seguinte muda uma decisão. Os parâmetros abaixo são as situações em que o exame de fato reaparece no plantão, com o achado esperado e a decisão que se toma quando ele não aparece.

Todos dependem de uma condição que quase ninguém anota e que invalida a comparação quando falta: a mesma incidência, feita com a mesma técnica. Um decúbito dorsal comparado com um decúbito lateral não é seguimento — é outro exame, e a diferença entre os dois é da geometria, não do paciente.

Distribuição do gás e calibre do delgado na suspeita de obstrução em observaçãono intervalo definido pelo capítulo dono da obstrução, sempre com a mesma incidência do filme anterior

Esperado: Delgado voltando a calibre abaixo de 3 cm, níveis desaparecendo e gás chegando ao cólon e ao reto — a sequência que afasta a obstrução persistente e aproxima o íleo que se resolve.

Se não melhora: Alças de delgado persistentemente dilatadas, com níveis e com pouco gás no cólon, favorecem obstrução, segundo o documento do American College of Radiology. A leitura comparada vai para a cirurgia com as duas medidas e as duas horas, e a tomografia com contraste, se ainda não foi feita, é discutida com ela.

Contraste hidrossolúvel no desafio da obstrução de delgadofilmes em 8 e em 24 horas após o contraste, no protocolo do capítulo dono

Esperado: Contraste no cólon até 24 horas. O documento do colégio registra que esses pacientes raramente precisam de cirurgia.

Se não melhora: Contraste que não chega ao cólon em 24 horas é o achado que o protocolo usa para apontar obstrução de alto grau ou completa, e a leitura se entrega com a hora de cada filme a A pergunta não é se obstruiu. No pós-operatório imediato o teste não previu reoperação, e o filme não deve ser lido como se tivesse previsto.

Ar livre depois de radiografia negativa, com suspeita clínica de perfuraçãonão se repete a radiografia; a reavaliação é clínica e imediata

Esperado: Não há esperado radiográfico. Um filme negativo não baixa a probabilidade o bastante para dispensar o passo seguinte: numa série, a radiografia mostrou ar livre em apenas 51% das perfurações comprovadas.

Se não melhora: Dor que persiste ou piora com filme negativo leva à tomografia ou ao cirurgião, conforme O minuto que ele sabe de cor — e não a um segundo filme igual ao primeiro.

Pneumatose ou ar portal num paciente que ainda está estávelna mesma hora da leitura, junto com o cirurgião

Esperado: Tomografia com contraste mostrando parede com realce preservado e ausência de sinais de isquemia; a decisão de observar é do cirurgião e do capítulo dono.

Se não melhora: Leucocitose, lactato elevado ou amilase elevada levantam a suspeita de complicação como a isquemia, segundo o documento do colégio sobre obstrução, e a isquemia presente indica cirurgia imediata. Com dor que aumenta ou distensão que progride, o cirurgião é chamado de novo na mesma hora; a radiografia não se repete para acompanhar pneumatose em paciente que piora.

Calibre do cólon ou do ceco no internado com distensão colônicana frequência que o capítulo dono fixar, com a mesma incidência

Esperado: Calibre estável ou em queda entre dois filmes comparáveis, com eliminação de gases e fezes.

Se não melhora: Calibre que aumenta entre dois filmes comparáveis é informação para O repouso que ninguém prescreveu, na pseudo-obstrução, ou para A diarreia que não é infecciosa, na colite grave — os capítulos donos dos números que decidem conduta.

Objeto radiopaco ingerido ou material cirúrgico visto no filmequando a localização for decidir procedimento, e só então

Esperado: Objeto localizado e descrito pela anatomia vizinha, com a hora do filme.

Se não melhora: Quando a decisão de retirada depende da posição exata, a revisão de Gans e colaboradores aponta a tomografia como o exame que dá a localização de que o planejamento cirúrgico precisa. Objeto transparente ao raio que continua suspeito não se procura com um segundo filme.

Exames com radiação somados durante a gestaçãoantes de cada novo exame com radiação na gestante

Esperado: Soma das doses fetais estimadas abaixo de 50 mGy, faixa em que o posicionamento da Sociedade Brasileira de Cardiologia de 2020 considera insignificante o risco não carcinogênico.

Se não melhora: Quando a soma se aproxima de 100 mGy, faixa a partir da qual o documento descreve efeitos possíveis conforme a idade gestacional, a estimativa se discute com a radiologia do serviço antes do próximo exame, e a conversa com a gestante se faz com números. Pelo mesmo documento, um exame radiológico sozinho não leva o feto acima de 250 mGy; essa dose só aparece na soma de exames ou num tratamento essencial à mãe.

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Onde o erro machuca

Pedir rotina de abdome agudo como triagem de toda dor abdominal

O dano: Numa série de 874 pacientes de pronto-socorro, a radiografia mudou a conduta em 4%; na dor difusa com febre, ela tem baixa sensibilidade para abscesso e para a causa da febre. O paciente espera o filme, recebe a exposição e faz, mais tarde, a tomografia de que precisava desde o começo.

Como pegar a tempo: Escreva a pergunta antes de pedir e confira na primeira tabela do critério se a radiografia responde a ela. Sem uma pergunta que ela responda, discuta a tomografia.

Escrever sem pneumoperitônio num filme deitado ou com as cúpulas fora do campo

O dano: A frase vira exclusão no prontuário e é copiada pelos plantões seguintes. Na série citada por Gans e colaboradores, o abdome deitado mostrou ar livre em 56% das vezes, e a porção mais alta da cavidade fora do campo é uma das causas de perfuração não vista.

Como pegar a tempo: Confira incidência e campo no passo zero. Quando a incidência não permite a resposta, escreva ar livre não avaliado e peça tórax em ortostase ou decúbito lateral esquerdo com raios horizontais.

Ler radiografia negativa como exclusão de perfuração, obstrução ou isquemia

O dano: Numa coorte de pronto-socorro, a sensibilidade para pneumoperitônio foi de 15%; num estudo comparativo, a radiografia detectou 30% das obstruções parciais; na isquemia, o filme só mostra gás que já atravessou a parede. A alta ou a espera autorizadas por um filme negativo são o atraso mais caro que esse exame produz.

Como pegar a tempo: Escreva sinais ausentes nesta incidência e mantenha a suspeita clínica. Suspeita forte com filme negativo leva ao exame que responde ou ao cirurgião.

Escrever padrão gasoso inespecífico

O dano: A expressão devolve a pergunta a quem pediu o exame e costuma ser lida como normal. Paulson e Thompson escrevem que se esforçam para eliminá-la e para se comprometer com a presença ou a ausência de obstrução sempre que ela é a pergunta clínica.

Como pegar a tempo: Escolha uma de três frases: sinais de obstrução presentes; sinais ausentes nesta incidência; ou não é possível afirmar nem excluir com este filme — seguida do exame que decide.

Confundir aerobilia com ar portal

O dano: Tomar ar portal por aerobilia adia o cirurgião de um paciente com possível isquemia; tomar por ar portal a aerobilia esperada de quem teve a papila cortada leva um paciente estável a chamados e exames desnecessários.

Como pegar a tempo: Descreva a distribuição antes de nomear: ramificações que chegam à periferia do fígado são ar portal; ramificações centrais, perto do hilo, são ar biliar. Pergunte por papilotomia ou anastomose biliar antes de chamar o achado de esperado.

Negar à gestante, por medo da dose, a radiografia ou a tomografia que responde

O dano: Perfuração e obstrução não esperam o fim da gestação. A tomografia de abdome e pelve expõe o feto a 13 a 25 mGy, abaixo do limiar de 50 mGy do posicionamento da Sociedade Brasileira de Cardiologia de 2020, e o manual do Ministério da Saúde de 2022 manda não postergar exame de imagem indicado na gestação. O atraso cobra da mãe e do feto.

Como pegar a tempo: Pergunte primeiro se o exame responde e se um exame sem radiação responde a tempo. Se o exame com radiação é o que responde, peça-o, registre a indicação e explique a dose à gestante com números.

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O que dizer ao paciente e à família

A radiografia de abdome produz três conversas próprias: com o paciente que quer um raio X para ver o que é, com a gestante que tem medo do exame e com o cirurgião ou o técnico, que precisam ouvir a leitura em poucas frases. Em todas, o conteúdo é o mesmo da frase final da leitura — o que o filme mostrou e o que ele não tem como mostrar —, traduzido para quem está do outro lado.

Dona Cleonilda pergunta por que não vai fazer o raio X que a paciente do box ao lado fez

O raio X da barriga é bom para algumas perguntas, como ver se tem ar fora do intestino ou se o intestino está parado. Para a senhora, ele quase nunca responde o que a gente precisa saber. A febre e a dor espalhada fazem a gente procurar uma infecção lá dentro, e o exame que enxerga isso é a tomografia. Então, em vez de fazer um exame que provavelmente não vai mudar nada e depois fazer a tomografia, vamos direto ao exame que responde.

Não diga: Raio X não serve para nada, a tomografia é melhor. A frase desqualifica o exame da vizinha, soa como preferência pessoal e não explica por que a pergunta dela é outra.

Telefonema para o técnico de radiologia sobre o complemento do senhor Rosalvo

O leito 512 fez o abdome deitado, mas eu preciso de um decúbito lateral esquerdo com raios horizontais. A pergunta é ar livre e nível, e o primeiro filme cortou as cúpulas. Ele não fica em pé, mas vira de lado com ajuda. Você consegue pegar as cúpulas e o flanco direito inteiro?

Não diga: Refaz o raio X do 512, que não deu para ver. O técnico não sabe o que faltou e repete o mesmo filme, com a mesma incidência e o mesmo campo.

Ligação para o cirurgião de plantão sobre o senhor Rosalvo

Aqui é o interno da clínica médica, quinto andar. Senhor Rosalvo Urias, 74 anos, quinto dia de internação por pneumonia, laparotomia antiga infraumbilical. Vômito esverdeado e parada de gases desde a manhã, abdome distendido, sem sinais de peritonite, frequência de 108. Radiografia em decúbito dorsal e em decúbito lateral esquerdo: delgado central até 3,8 cm, níveis múltiplos com alturas diferentes na mesma alça, cólon com pouco gás, sem ar livre entre o fígado e a parede. O filme não mostra causa nem viabilidade. Você pode avaliar agora?

Não diga: Tem um paciente com raio X de obstrução no quinto andar, dá uma olhada quando puder. Sem incidência, sem medidas e sem o que o filme não mostra, o cirurgião não tem como priorizar.

O senhor Rosalvo quer saber o que o raio X mostrou

O raio X mostrou que o intestino fino está cheio e parado, como se alguma coisa estivesse impedindo a passagem. Isso pode acontecer por causa de uma aderência da cirurgia antiga do senhor. O raio X não mostra o que está apertando nem se o intestino está sofrendo, e por isso eu chamei o cirurgião para examinar o senhor agora. Enquanto isso, eu fico por perto.

Não diga: O senhor está com o intestino entupido e vai ter que operar. A radiografia não decide cirurgia, e a frase promete ao paciente uma decisão que ninguém tomou.

Rutília Alarcão, 27 anos, grávida de 22 semanas, com dor abdominal súbita e suspeita de perfuração, não quer fazer o exame

Eu entendo o medo, e ele é uma pergunta justa. A dose desse exame para o bebê é baixa, bem abaixo do nível em que os estudos mostram risco de malformação ou de perda da gravidez. O risco que eu não consigo deixar pequeno é o de uma perfuração no seu intestino passar sem diagnóstico, e isso é perigoso para você e para ele. Por isso eu recomendo o exame, feito só na região necessária, e vou anotar no seu prontuário tudo o que for feito.

Não diga: Pode fazer, raio X não faz mal nenhum. A frase nega um risco que existe, ainda que pequeno, e tira da gestante a razão para confiar no restante do que você disser.

Depois da tomografia, Rutília pergunta se vai precisar pensar em interromper a gravidez

Não. A dose que o bebê recebeu nessa tomografia fica abaixo do nível em que o risco de aborto e de malformação é considerado insignificante, e muito abaixo das doses em que os documentos chegam a discutir interrupção. O que existe é um aumento pequeno no risco de câncer na infância, que não tem um número a partir do qual começa — e é por isso que a gente só faz o exame necessário. Está tudo anotado, e o seu pré-natal vai saber exatamente o que foi feito.

Não diga: Não tem risco nenhum, esquece isso — ou o oposto: vamos ver com o obstetra se precisa interromper. A primeira nega o risco carcinogênico; a segunda cria um alarme que o documento não sustenta.

A filha da dona Aurora Faraco, 86 anos, acamada, com o cólon distendido, pede um raio X por dia para ver se a mãe melhorou

Um raio X a mais só vale quando vai mudar o que a gente faz. Para comparar com o de ontem, ele precisa ser feito do mesmo jeito e no momento que a equipe que cuida da barriga dela definiu. Hoje, o que mostra se ela está melhorando é o exame da barriga, os gases e as fezes que ela eliminar e as medidas que a enfermagem anota. Se alguma dessas coisas piorar, o exame é pedido na hora.

Não diga: Vamos fazer um raio X todo dia para garantir. A frase transforma o exame em ritual, soma exposição sem mudar decisão e ensina à família que a imagem vale mais que o exame físico.

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Onde bons médicos discordam

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.

A radiografia simples ainda tem lugar na dor abdominal aguda do adulto?

Não tem lugar — Gans, Stoker e Boermeester, revisão narrativa, 2012

A revisão conclui que, diante da baixa sensibilidade e da baixa acurácia medidas na dor abdominal aguda e nas doenças que motivam o exame — víscera perfurada, obstrução, corpo estranho ingerido e cálculo ureteral —, não há lugar para a radiografia simples na investigação do adulto com dor abdominal aguda, e que a tomografia, sobretudo depois de um ultrassom negativo, oferece investigação melhor. Os autores acrescentam que um teste com tantos falsos-negativos não serve nem como triagem.

Gans SL, Stoker J, Boermeester MA. Plain abdominal radiography in acute abdominal pain; past, present, and future. Int J Gen Med. 2012;5:525-533.

Pode ser apropriada para perguntas definidas — American College of Radiology, 2018 e 2019; World Society of Emergency Surgery, 2023

Os documentos do colégio mantêm a radiografia como exame que pode ser apropriado na dor abdominal não localizada sem neutropenia e na suspeita aguda de obstrução de delgado — nesta, com desacordo do painel —, recomendada só quando um resultado positivo evita o exame seguinte e útil para orientar a investigação; classificam-na como usualmente não apropriada no neutropênico e na obstrução intermitente, e deixam a tomografia com contraste como exame usualmente apropriado em todas essas situações. A diretriz de volvo de sigmoide de 2023 recomenda a radiografia como imagem inicial.

American College of Radiology. ACR Appropriateness Criteria: Acute Nonlocalized Abdominal Pain (2018) e Suspected Small-Bowel Obstruction (revisão de 2019); Tian BWCA et al. World J Emerg Surg. 2023;18:34, recomendação 2.

Como decidir

Os dois lados são internacionais, e a régua de desempate se aplica a eles do mesmo modo. O escopo empata: os dois tratam do adulto com dor abdominal aguda. A data decide: os documentos do colégio são de 2018 e 2019, posteriores à revisão, e a diretriz de 2023 ainda põe a radiografia como primeiro exame do volvo de sigmoide. A natureza confirma: critérios de adequação construídos por painel com método declarado, contra uma revisão narrativa. Esta apostila adota o lado do colégio, com a restrição que o próprio colégio escreve: a radiografia se pede para uma pergunta que ela responde — ar livre, obstrução, volvo, objeto radiopaco, aparato — e quando um resultado positivo muda o passo seguinte; nunca como triagem de dor abdominal, e nunca quando a tomografia vai ser feita de qualquer maneira. O lado perdedor continua valendo como aviso: os números que a revisão reuniu são o motivo de nenhum filme negativo excluir perfuração, obstrução ou cálculo.

A dose de radiação é motivo para evitar radiografia e tomografia na gestante com dor abdominal?

Evitar pela elevada taxa de radiação — Ministério da Saúde, Manual de gestação de alto risco, 2022, item 63.4

No capítulo de colecistite aguda, o manual lista os exames de imagem e afirma que raio X, tomografia, cintilografia e exames com radioisótopos devem ser evitados por sua elevada taxa de radiação, além de não serem superiores ao ultrassom e à ressonância.

Brasil. Ministério da Saúde. Manual de gestação de alto risco. Brasília: Ministério da Saúde; 2022. Item 63.4, p. 604-605.

Exame indicado não se adia; risco não carcinogênico insignificante abaixo de 50 mGy — Ministério da Saúde, 2022, itens 37.3.2.1 e 62.3.3; Sociedade Brasileira de Cardiologia, 2020

O mesmo manual afirma, no capítulo de pneumonia, que exames de imagem indicados não devem ser postergados por causa da gestação, e aceita, no capítulo de apendicite, a tomografia quando ultrassom e ressonância não concluem, com protocolos que reduzem a dose fetal. O posicionamento da Sociedade Brasileira de Cardiologia situa em 50 mGy o limiar abaixo do qual o risco de aborto e de malformação é insignificante, descreve efeitos possíveis acima de 100 mGy, dá 13 a 25 mGy de dose fetal à tomografia de abdome e pelve e registra que dose fetal acima de 250 mGy só se alcança somando exames ou com tratamento essencial à mãe, nunca com um exame radiológico sozinho.

Brasil. Ministério da Saúde. Manual de gestação de alto risco. 2022. Itens 37.3.2.1, p. 388, e 62.3.3; Sociedade Brasileira de Cardiologia. Arq Bras Cardiol. 2020;114(5):849-942.

Como decidir

Antes de desempatar, a pergunta da régua: as duas frases governam o mesmo paciente? Só em parte. O item 63.4 foi escrito para a suspeita de colecistite, em que o ultrassom responde melhor — e nessa gestante a conclusão dele está certa, pelo segundo motivo que ele mesmo dá. O conflito real é o motivo radiológico, quando levado à gestante cuja pergunta só a radiografia ou a tomografia respondem a tempo, como a perfuração e a obstrução. Para ela, o escopo não resolve e a data e a natureza empatam, porque as frases rivais estão no mesmo manual; decide a coerência interna. O item 63.4 chama de elevada a radiação da imagem diagnóstica e manda evitá-la, enquanto o 62.3.3 aceita a tomografia quando ela é necessária e o 37.3.2.1 proíbe adiar exame indicado — e não há número que sustente a palavra elevada para exame diagnóstico isolado, como mostra a conta nas notas do critério. Esta apostila adota: na gestante, o exame se escolhe pela pergunta, com o ultrassom primeiro quando ele responde, como na vesícula e no apêndice; a dose de uma radiografia ou de uma tomografia diagnóstica não é motivo para negar ou adiar o exame que responde à suspeita de perfuração ou obstrução; e o que a dose exige é justificativa escrita, campo restrito ao necessário e registro de cada exposição. O lado perdedor fica datado e nomeado porque a frase está impressa num manual oficial e vai ser citada no plantão.

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O raciocínio, em voz alta

Volte ao senhor Rosalvo Urias, 74 anos, 63 quilos, quinto dia de internação por pneumonia, com sequela de acidente vascular cerebral e cicatriz de laparotomia infraumbilical. Às 17h30 você o examina: frequência cardíaca de 108, pressão de 132 por 78, temperatura axilar de 37,1 °C, saturação de 95% em ar ambiente. O abdome está distendido e timpânico, doloroso de forma difusa e leve, sem defesa e sem descompressão dolorosa; os ruídos estão presentes, de timbre metálico; não há hérnia palpável nas regiões inguinais nem na cicatriz. O toque retal encontra ampola sem fezes endurecidas. O potássio da manhã veio em 3,9 mmol/L, e ele não recebe opioide. O pedido saiu com a pergunta escrita — suspeita de obstrução de delgado, pesquisar níveis, transição e ar livre —, com decúbito lateral esquerdo com raios horizontais solicitado. O primeiro filme chega às 17h50.

  1. passo 0 — o filme que chegou não é o que foi pedido

    Abdome em decúbito dorsal, raios verticais: nenhum nível em nenhuma alça, nem na bolha gástrica. O campo começa abaixo das cúpulas e termina na sínfise, com as regiões inguinais incluídas. Não há radiografia de abdome anterior; há o tórax da internação, de cinco dias antes. Duas perguntas ficam sem resposta neste filme — ar livre e níveis —, e isso se escreve antes de qualquer outra coisa: ar livre não avaliado, cúpulas fora do campo, filme sem raio horizontal. O complemento em decúbito lateral esquerdo com raios horizontais, que estava no pedido e não foi feito, é cobrado às 17h55 por telefone, com a incidência nomeada.

  2. passo 1 — o gás, segmento por segmento, com medida

    Bolha gástrica pequena. No centro do abdome, várias alças com gás, empilhadas, a maior com 3,8 cm, com pregas finas que atravessam a luz de parede a parede: é delgado, e está dilatado pelo corte de 3 cm. O cólon ascendente e o descendente têm pouco gás e calibre normal; o transverso não se distingue. Há pouco gás no reto, e isso não afasta obstrução — a revisão de Paulson e Thompson lembra que o gás retal pesa pouco nessa leitura. Há desproporção: o delgado está dilatado e o cólon não.

  3. passo 2 — no filme deitado os níveis não existem; no lateral, existem

    Sem raio horizontal, a leitura do líquido se limita ao que a incidência mostra: nenhum pseudotumor, nenhum sinal de estiramento nas alças maiores, gás suficiente para o filme ser lido. A frase honesta é níveis não avaliáveis nesta incidência. Às 18h15 chega o decúbito lateral esquerdo, e o passo 2 se completa: níveis múltiplos, seis contáveis, quatro com mais de 2,5 cm de comprimento, e numa mesma alça dois níveis com diferença de altura evidente. Não há colar de contas. Três dos quatro sinais do filme com raio horizontal estão presentes.

  4. passo 3 — o gás fora da luz, agora com a incidência certa

    No decúbito lateral esquerdo, o flanco direito fica para cima, e entre a borda do fígado e a parede abdominal direita não há faixa de gás. O ponto mais alto da cavidade, nessa posição, está dentro do campo. Não há pneumatose nas alças visíveis e não há ramificação de gás sobre a sombra hepática, nem periférica nem central. A frase é curta: sem ar livre no decúbito lateral esquerdo; sem pneumatose; sem ar portal ou biliar.

  5. passo 4 — nada que o raio não atravesse

    Nenhuma calcificação sobre a projeção dos rins ou do trajeto dos ureteres, nenhum objeto radiopaco, nenhum clipe, nenhuma sonda. A ausência de aparatos também é informação: o paciente ainda não tem sonda gástrica, e, se a cirurgia indicar uma, a ponta será conferida na radiografia de tórax, pelo roteiro daquele capítulo.

  6. passo 5 — a moldura e as bases

    Regiões inguinais sem alça com gás, sem excluir hérnia com conteúdo líquido ou outras lesões; correlacionar com o exame físico. Contornos do psoas visíveis; coluna lombar com osteófitos, sem fratura. Na base direita, a opacidade da pneumonia em resolução, que já estava no tórax da internação e não explica vômito esverdeado nem parada de gases.

  7. o padrão, o que o filme não mostra e o dono

    Delgado até 3,8 cm, pregas completas, pouco gás colônico e níveis múltiplos sugerem obstrução mecânica no contexto de vômitos e laparotomia prévia. A radiografia não mostrou diretamente uma transição nem excluiu íleo. Brida é hipótese, não achado visível. Comunicar cirurgia prontamente; avaliar perfusão, hidratação, eletrólitos, necessidade de descompressão e TC conforme a equipe. Ausência de peritonismo, pneumatose ou ar livre não garante viabilidade da alça. Não esperar o exame se surgirem instabilidade ou sinais de peritonite.

  8. a frase no prontuário

    18h25 — Radiografias de abdome em decúbito dorsal (17h50) e em decúbito lateral esquerdo com raios horizontais (18h15). No primeiro filme, cúpulas fora do campo e sem raio horizontal: ar livre e níveis não avaliados naquela incidência. Delgado central dilatado até 3,8 cm, desproporcional ao cólon, que tem pouco gás; seis níveis, quatro com mais de 2,5 cm, dois em alturas diferentes na mesma alça. Sem ar livre no decúbito lateral esquerdo; sem pneumatose; sem ar portal ou biliar; sem densidades suspeitas; regiões inguinais sem alça com gás. Padrão de obstrução de delgado. O filme não mostra causa nem viabilidade da alça. Cirurgia de plantão avisada às 18h20; conduta conforme a avaliação cirúrgica.

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Faça você

Agora o leito 508, no mesmo andar, às 21h10. O senhor Leocádio Sanches tem 79 anos, 58 quilos e fibrilação atrial, e está internado há três dias por insuficiência cardíaca descompensada. A anticoagulação foi suspensa na admissão por um sangramento digestivo baixo que já parou. Há dois anos fez uma colangiopancreatografia endoscópica com papilotomia para retirar cálculo do colédoco. Desde as sete da noite tem dor abdominal difusa e forte, a que dá nota nove; vomitou uma vez e evacuou fezes com raias de sangue. O abdome está pouco distendido e surpreendentemente pouco doloroso à palpação para a dor que ele descreve, sem defesa. Frequência cardíaca de 118, irregular; pressão de 104 por 62. A gasometria venosa das 20h40 mostra lactato de 4,6 mmol/L. O plantonista pediu radiografia de abdome, e ela chegou: decúbito dorsal comum às 20h55 e decúbito lateral esquerdo com raios horizontais às 21h05. No laudo provisório digitado por outro interno está escrito: aerobilia compatível com papilotomia prévia; distensão leve de alças; sem pneumoperitônio.

  1. passos 0 e 1 — o filme e o gás

    Os filmes incluem cúpulas e pelve, e um tem raio horizontal. Delgado até 3,1 cm e cólon de calibre usual não mostram padrão radiográfico claro de obstrução; isso não a exclui. A prioridade clínica do caso é isquemia mesentérica, que pode ter pouca alteração inicial na radiografia.

  2. passo 2 e o começo do passo 3 — níveis e ar livre

    No decúbito lateral esquerdo há dois níveis curtos, de mesma altura, e nenhuma faixa de gás entre a borda do fígado e a parede direita. Não há ar livre nas duas incidências em que ele poderia aparecer, e as cúpulas estão no campo.

  3. o resto do passo 3 — o que falta decidir

    Sobre a sombra do fígado há ramificações finas de gás. No filme deitado, elas estão no lobo direito e alcançam a borda lateral do fígado, a pouco mais de um centímetro do contorno. Nas alças do flanco direito, nos dois filmes, há linhas finas de gás acompanhando a parede de três alças, na mesma posição nas duas incidências. Leia a distribuição, confira o laudo provisório e decida o que se escreve e quem se chama.

Ver como fecharíamos

A distribuição decide. O gás biliar fica central, perto do hilo, onde os ductos são largos; a ramificação que chega à periferia do fígado é gás portal, e esse é o critério de distribuição que a revisão brasileira usa para separar os dois. A papilotomia de dois anos atrás explicaria aerobilia central, mas não explica gás na borda do fígado — o antecedente é o que torna o laudo provisório plausível, e é exatamente por isso que ele é perigoso. Linhas de gás acompanhando a parede sugerem pneumatose. Persistência entre duas incidências não basta para distingui-la de conteúdo intestinal; padrão e TC esclarecem, sem adiar atendimento. Pneumatose e gás venoso estão entre os sinais de isquemia que o documento do American College of Radiology lista, e o paciente reúne o que Cinco relógios diferentes ensina a reconhecer como isquemia mesentérica: fibrilação atrial sem anticoagulação, dor forte com abdome pouco doloroso, sangue nas fezes, lactato elevado e taquicardia com pressão em queda. A frase correta é: ramificações de gás até a periferia do fígado, compatíveis com ar portal; gás linear na parede de alças do flanco direito, persistente entre as incidências, compatível com pneumatose; sem ar livre; suspeita de isquemia mesentérica. O laudo provisório se corrige no prontuário, com hora. O cirurgião é chamado agora, e a angiotomografia — o exame que o documento do colégio prefere na suspeita de isquemia mesentérica — deve ser providenciada com urgência se o paciente comportar o exame, em paralelo ao acionamento da cirurgia, sem esperar outro filme. O reconhecimento e a conduta são de Cinco relógios diferentes, na apostila de Urgência e Emergência Cirúrgica. O filme não fecha o diagnóstico, e um filme sem esses sinais não o afastaria: o que a leitura sistemática fez aqui foi impedir que um antecedente verdadeiro servisse de explicação para um achado que ele não explica.

Gabarito da questão de abertura
Comentário

Gás portal costuma ter distribuição periférica, e aerobilia, central. Linhas na parede sugerem pneumatose, mas persistência entre filmes não é prova isolada; pneumatose também pode ter causas não isquêmicas. Nesta paciente, FA, interrupção da anticoagulação, dor desproporcional e lactato alto tornam isquemia urgente: acionar cirurgia e providenciar angio-TC prontamente conforme estabilidade. Lactato normal ou filme sem esses achados também não excluiriam doença inicial.

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Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
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Plano de revisão

Em 7 dias

Leia Rosalvo e explique quais sinais sustentam obstrução e quais informações ainda faltam para definir a conduta.

Em 30 dias

Compare filme negativo com peritonite e filme com gás portal: para cada um, determine o próximo passo sem esperar piora radiográfica.

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Agora atenda

Agora atenda: homem de 69 anos, quarto dia de internação por celulite de perna, com distensão abdominal e dois vômitos desde a madrugada, sem evacuar há três dias, com cicatriz de cirurgia abdominal antiga e que só sai da cama com ajuda. Decida se a radiografia de abdome responde à pergunta dele, escolha a incidência que ele consegue fazer, leia o filme em voz alta na ordem dos cinco passos, escreva a frase final e diga a quem você entrega o paciente — e com que frase.

Radiografia de abdome — Internato | OsceLabs