Clínica Médica › Interpretação de Exames à Beira do Leito
Urina tipo I e urocultura
O exame de urina se decide antes de chegar ao laboratório: pelo frasco, pelo relógio e pelo lugar de onde a urina saiu. A fita e o sedimento respondem a perguntas diferentes e discordam de maneiras previsíveis; a urocultura conta colônias semeadas de um microlitro, e o mesmo número vale uma coisa na porta da sonda e outra no jato médio. Aqui se aprende a ler cada linha do laudo — e a reconhecer o laudo que nem deveria ter sido pedido.
Sociedade Brasileira de Patologia Clínica/Medicina Laboratorial (SBPC/ML). Recomendações da Sociedade Brasileira de Patologia Clínica/Medicina Laboratorial (SBPC/ML): realização de exames em urina. 1ª ed. Barueri, SP: Manole; 2017. ISBN 978-85-786-8263-7. Capítulos 4 (exame de urina de rotina), 7 (análise físico-química), 8 (sedimentoscopia), 12 (avaliação da função renal), 18 e 19 (exame microbiológico: fase pré-analítica e síndromes bacterianas e fúngicas) e 21 (micobacterioses).
Brasil. Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Nota Técnica GVIMS/GGTES/DIRE3/Anvisa nº 03/2026 — Critérios Diagnósticos das Infecções Relacionadas à Assistência à Saúde de Notificação Nacional Obrigatória, ano 2026. Brasília: Anvisa; 2 de janeiro de 2026, versão de 14 de julho de 2026. Critérios e observações de infecção do trato urinário associada a cateter vesical.
Brasil. Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Gerência de Vigilância e Monitoramento em Serviços de Saúde. Protocolo para a prevenção de infecção do trato urinário relacionada ao uso de cateter vesical de demora (ITU-AC). Versão 1. Brasília: Anvisa; 2025.
Belo Horizonte. Secretaria Municipal de Saúde. Protocolo Colaborativo: Manejo da Infecção do Trato Urinário no Adulto e na Gestante. Belo Horizonte: SMSA; 2022. Parte I (recomendações de diagnóstico e de bacteriúria assintomática) e Parte III (gestação).
Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Faculdade de Medicina. TelessaúdeRS-UFRGS; Rio Grande do Sul. Secretaria Estadual da Saúde. Protocolos de Regulação Ambulatorial — Urologia Adulto: versão digital 2023. Porto Alegre: TelessaúdeRS-UFRGS; 2015 [atualizado em 23 fev. 2023]. Protocolo 8, Hematúria.
Brasil. Ministério da Saúde. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais: Rename 2024. Brasília: Ministério da Saúde; 2024. Portaria GM/MS nº 6.324/2024.
Brasil. Ministério da Saúde. Manual Nacional de Vigilância Laboratorial da Tuberculose e outras Micobactérias. Brasília: Ministério da Saúde; 2008.
AUA/CUA/SUFU — Recurrent Uncomplicated Urinary Tract Infections in Women, atualização 2025. https://www.auanet.org/guidelines-and-quality/guidelines/recurrent-uti
Responda antes de ler
Mulher de 44 anos tem disúria há quatro meses, três uroculturas negativas colhidas fora de antibiótico, leucocitúria persistente, hematúria microscópica, urina ácida e suor noturno. Diante da hipótese de tuberculose urinária, qual é a amostra adequada para a pesquisa de micobactérias?
O paciente que você vai ver
Quinta-feira, seis e cinquenta da manhã, enfermaria de clínica médica. O senhor Lucindo Beltrão tem 79 anos e se internou há nove dias com um acidente vascular cerebral isquêmico que o deixou com disfagia, e está com sonda vesical de demora desde a chegada, quando teve retenção urinária. Duas noites atrás ele ficou agitado, arrancou o oxímetro e chamou pela esposa, que morreu há três anos. A técnica de enfermagem do plantão achou a urina da bolsa turva e com cheiro forte, encheu um frasco com o que estava na bolsa às dez da noite, pediu urina tipo I e urocultura pelo sistema e deixou o frasco no posto, à espera da coleta do laboratório, que passa às seis.
O primeiro laudo chegou ontem e o segundo acabou de chegar. Urina tipo I: aspecto turvo, densidade 1,024, pH 8,0, proteína traços, hemoglobina uma cruz, nitrito positivo, esterase leucocitária duas cruzes; no sedimento, 68.000 leucócitos por mL com referência até 10.000, 12.000 hemácias por mL, bactérias numerosas e cristais de fosfato amoníaco-magnesiano. Urocultura: crescimento acima de 100.000 unidades formadoras de colônia por mL, com três microrganismos identificados — Escherichia coli, Proteus mirabilis e Enterococcus faecalis — e antibiograma liberado para os dois primeiros.
Na evolução da noite, o residente do plantão escreveu: infecção urinária associada a sonda, considerar ceftriaxona. O senhor Lucindo está afebril desde a admissão, com pressão de 134 por 80, frequência cardíaca de 82 e saturação de 95% em ar ambiente. O leucograma de ontem veio com 9.600. Não evacua há quatro dias. Passou a última noite dormindo, depois que a enfermagem reposicionou a sonda, que estava tracionada e dobrada sob a coxa.
Para quem chega à enfermaria, este laudo parece a infecção urinária do livro: nitrito positivo, esterase positiva, leucócitos seis vezes acima da referência, bactérias numerosas e uma cultura acima de cem mil. Tudo aponta para o mesmo lado. É justamente por isso que ele engana. A preceptora chega à beira do leito, lê as duas folhas em silêncio e faz duas perguntas que nenhuma linha do laudo responde: de onde saiu essa urina, e quantas horas ela passou no balcão do posto antes de entrar numa estufa.
Este capítulo é sobre essas duas perguntas e sobre as outras que o laudo esconde. Ao fim dele, o senhor Lucindo volta, e cada linha deste exame vai ser lida pelo que é capaz de afirmar — separando o que foi decidido dentro da bolsa coletora, o que foi decidido no balcão e o que de fato veio da bexiga dele. E a última pergunta vai ser a mais difícil de fazer em voz alta na visita: se este exame deveria ter sido colhido.
Quem adoece disso
A urina tipo I está no painel de admissão, no pré-operatório, na investigação do delirium, na febre do internado, na queda do estado geral e no pedido que ninguém lembra de ter feito. É um exame barato, rápido e com dezenas de campos, e cada campo tem uma faixa de referência impressa ao lado. Essa combinação produz um efeito previsível: quanto mais campos, mais chance de algum sair marcado, e quanto mais o pedido é feito sem pergunta, mais o campo marcado vira a pergunta. A epidemiologia que importa aqui é a do processo — em quem a urina é colhida, com que probabilidade ela vai ter bactéria independentemente de infecção, e o que acontece quando alguém lê essa bactéria como doença.
O primeiro número é o do cateter. O protocolo da Anvisa de 2025 para prevenção de infecção urinária associada a cateter vesical registra que 15 a 25% dos pacientes hospitalizados são cateterizados em algum momento da internação, que a incidência de bacteriúria sobe de 3 a 8% a cada dia depois da inserção e que quase todos os pacientes têm bacteriúria depois de 30 dias de cateterismo. Numa enfermaria de trinta leitos, isso quer dizer de quatro a oito pacientes sondados ao longo de uma internação típica, e cada um deles acumulando bactéria na urina a cada dia de sonda.
Aplicada ao senhor Lucindo, a conta muda a leitura da cena antes de qualquer detalhe do laudo. Com risco diário constante de 3 a 8%, a probabilidade de bacteriúria no nono dia de sonda fica entre 24% e 53% — a conta é desta apostila, feita sobre o intervalo do protocolo, que não a apresenta. Entre um quarto e metade dos pacientes na situação dele teria urocultura positiva sem infecção nenhuma, e essa é a probabilidade pré-teste contra a qual o laudo precisa ser lido. Não é a probabilidade de infecção: é a probabilidade de a urocultura vir positiva de qualquer jeito.
O segundo número é o contrapeso, e é por causa dele que a urina do sondado não pode ser ignorada quando há sinal verdadeiro. O mesmo protocolo dá a medida do outro lado: uma em cada vinte bacteriúrias, cerca de 5%, chega à corrente sanguínea, e é por isso que a infecção ligada ao cateter vesical encabeça as infecções secundárias de corrente sanguínea; das bacteremias contraídas no hospital, perto de 17% começam na urina, e a mortalidade que as acompanha fica próxima de 10%. A mesma urina que não significa nada num sondado afebril significa muito num sondado com febre sem outro foco. O exame é o mesmo; a pergunta é que mudou.
Quem cresce na urina também tem epidemiologia. Na infecção adquirida na comunidade, a SBPC/ML de 2017 atribui à Escherichia coli de 80 a 85% dos casos e ao Staphylococcus saprophyticus de 5 a 10%, e registra que o Staphylococcus aureus na urina geralmente está associado a infecção sistêmica — um germe que, na urocultura, faz perguntar pelo sangue antes de perguntar pela bexiga. A mesma recomendação descreve a candidúria como incomum em pessoas saudáveis e crescente em internados, sobretudo em terapia intensiva, com fatores de risco que são o retrato da enfermaria: diabetes, neoplasia, antibiótico de amplo espectro, corticoide, cateter urinário, cirurgia recente, idade avançada e internação longa.
Resta dizer qual régua o Brasil usa para este exame, e a resposta é fragmentada. A régua de laboratório — como colher, conservar, centrifugar, ler a fita, contar o sedimento e semear a urocultura — é uma recomendação de sociedade, a da SBPC/ML, com primeira edição de 2017 e nenhuma edição posterior. A régua de coleta no paciente sondado é da Anvisa, de 2025. A régua de vigilância da infecção associada a cateter é a nota técnica da Anvisa de 2026, que define o que o hospital notifica. A régua clínica que os capítulos de infecção urinária desta etapa adotam é municipal: o protocolo colaborativo de Belo Horizonte, de 2022. E a leitura do percentual de dismorfismo que decide o encaminhamento vem de um protocolo estadual de regulação, o do TelessaúdeRS, de 2023. Nenhum desses documentos foi escrito para responder, sozinho, à pergunta do interno diante do laudo — e em três pontos eles discordam entre si, como mostra o bloco de divergências.
Por que acontece o que acontece
A primeira coisa a entender sobre a urina é que ela é um meio de cultura. A SBPC/ML descreve a urina como um meio extremamente rico e explica que, se a amostra não for semeada ou refrigerada a tempo, as bactérias se multiplicam antes da semeadura e a contagem sai falsamente alta. A mesma recomendação lista o que muda numa amostra deixada duas horas em temperatura ambiente: o pH sobe, porque bactérias contaminantes transformam ureia em amônia; a glicose cai, consumida pelas células; o nitrito pode subir, produzido pelas bactérias, ou cair, degradado; as cetonas podem negativar, porque o ácido acetoacético vira acetona e evapora; bilirrubina e urobilinogênio caem, oxidados pela luz; hemácias lisam, leucócitos degeneram e cilindros se dissolvem. Uma urina velha, portanto, não é só uma urina pior: é uma urina que mente em direções diferentes em cada campo.
O nitrito conta a história de uma enzima. Enterobactérias como a Escherichia coli reduzem o nitrato que a dieta coloca na urina a nitrito, e a fita detecta o produto. A reação precisa de tempo de contato: por isso a SBPC/ML indica a primeira urina da manhã, ou a urina colhida duas a quatro horas depois da última micção, como a amostra ideal para essa pesquisa. Duas consequências saem daí. A primeira é o falso-negativo: urina que ficou pouco tempo na bexiga, como a de quem urina a cada hora, e germe que não reduz nitrato, como os enterococos e o Staphylococcus saprophyticus, dão nitrito negativo com infecção presente. A segunda é o falso-positivo de balcão: numa urina contaminada deixada horas fora da geladeira, a mesma enzima continua trabalhando dentro do frasco, e o nitrito positivo passa a medir o tempo de espera, não a bexiga.
A esterase leucocitária é uma enzima de granulócito liberada quando a célula se degrada. Isso explica as duas discordâncias clássicas entre a fita e o microscópio. Esterase positiva com poucos leucócitos no sedimento é, muitas vezes, leucócito que já se desfez — em urina velha ou diluída. Leucócitos no sedimento com esterase negativa pedem três perguntas: se as células são linfócitos, que não produzem esterase; se há um interferente que inibe a reação, e a SBPC/ML lista glicose acima de 2 g/dL, albumina acima de 0,5 g/dL, ácido ascórbico acima de 25 mg/dL, densidade alta, cefalexina, cefalotina e tetraciclina; ou se a contagem está abaixo do limite de detecção da área, que vai de 5.000 a 15.000 granulócitos por mL. No sentido oposto, hipoclorito, formaldeído, imipenem, meropenem e ácido clavulânico podem positivar a esterase sem leucócito nenhum.
A área de hemoglobina da fita não enxerga hemácia: enxerga o heme. Ela fica positiva com hemácia íntegra, com hemoglobina livre e com mioglobina, e é por isso que a SBPC/ML manda relacioná-la sempre ao sedimento. Antes de pensar em hemólise ou em rabdomiólise, pense em diluição: em densidade abaixo de cerca de 1,010, as hemácias tendem a lisar, a fita continua detectando o heme liberado e o microscópio não encontra célula para contar. Fita positiva com sedimento sem hemácias, portanto, tem três leituras antes de virar suspeita de pigmento — urina diluída, urina velha e contaminação menstrual já desfeita — e só depois delas entram a hemoglobinúria e a mioglobinúria. A investigação da hematúria que for confirmada é do capítulo Vermelha, e não doeu, da apostila de Urologia; a rabdomiólise é do capítulo Injúria renal aguda, da apostila de Nefrologia.
A área de proteína funciona pelo erro proteico do indicador: um corante tamponado muda de cor quando uma proteína se liga a ele. A reação é muito mais sensível à albumina do que às outras proteínas, e a SBPC/ML é direta sobre a consequência: a fita é limitada à detecção de albumina e praticamente insensível às globulinas e às proteínas pequenas, como as cadeias leves livres das imunoglobulinas. Há uma segunda limitação, que vale para toda a fita: ela mede concentração, não excreção. A mesma perda diária de albumina aparece como uma cruz numa urina concentrada da manhã e desaparece numa urina diluída depois de soro, e a SBPC/ML cita justamente a urina muito diluída como causa de proteína e glicose não detectadas. É esse o motivo de a quantificação dividir a proteína, ou a albumina, pela creatinina da mesma amostra: a creatinina corrige a diluição que a fita não corrige.
Glicose e cetonas completam a química, e as duas têm pontos cegos de mecanismo. A área de glicose usa glicose oxidase, com sensibilidade da ordem de 0,6 g/L, e só positiva quando a carga filtrada ultrapassa a reabsorção tubular — a SBPC/ML situa esse limiar renal entre 160 e 180 mg/dL de glicemia. Qualquer coisa que baixe o limiar produz glicosúria com glicemia normal: a lesão tubular proximal, a gestação e, na enfermaria de hoje, os inibidores do cotransportador de sódio e glicose, que agem exatamente bloqueando essa reabsorção. A área de cetonas usa nitroprussiato, que reage com o ácido acetoacético e a acetona e não detecta o beta-hidroxibutirato — que a própria recomendação situa em 78% dos corpos cetônicos. Uma fita com cetona negativa ou fraca não afasta cetoacidose, e o diagnóstico e o manejo dela são do capítulo Cetoacidose diabética, da apostila de Endocrinologia.
O sedimento traz o problema da unidade. No método padronizado pela SBPC/ML, 10 mL de urina são centrifugados, o sedimento é ressuspenso em 0,5 mL, e 50 µL dessa suspensão vão sob uma lamínula de 32 por 24 mm para leitura de ao menos 20 campos. O número por campo, então, depende do quanto a urina foi concentrada e do volume que ficou sob cada campo do microscópio. Pela geometria desse mesmo método, um elemento por campo de grande aumento corresponde a algo entre 3.200 e 4.800 por mL de urina — conta desta apostila, com microscópio de campo comum e recuperação completa na centrífuga. Analisadores automatizados contam a urina sem centrifugar, por microlitro ou por mililitro, com faixa de referência própria. Os 12.000 por mL do senhor Lucindo são, portanto, cerca de três hemácias por campo, e não doze mil campos de sangue.
A urocultura, por fim, é uma contagem feita com uma alça calibrada. Para amostras de rotina a SBPC/ML indica semear 1 µL de urina não centrifugada, o que permite detectar de 10^3 a 10^5 UFC/mL: cada colônia que cresce na placa vale 1.000 UFC/mL, e 100.000 UFC/mL são cem colônias. Quando a alça é de 10 µL, cada colônia vale 100 UFC/mL — é o volume indicado para contagens baixas e para amostras colhidas por cateterismo ou punção. O corte muda com a coleta porque a uretra distal e a pele têm flora própria: urina de micção espontânea, de sonda de demora ou de saco coletor carrega essa flora em pequena quantidade, e só uma contagem alta distingue a bexiga da contaminação; urina que contorna a uretra, como a de cateterismo isolado ou de punção suprapúbica, pode ser levada a sério em contagens bem menores. E a contaminação tem assinatura: várias espécies em contagens parecidas, sem uma dominante. A infecção verdadeira costuma ser de uma espécie só, ou de uma que domina.

Como se apresenta de verdade
Um exame de urina não tem apresentação clínica; tem apresentações de erro. As seis situações abaixo produzem um laudo alterado, ou um laudo tranquilizador, que não corresponde ao que acontece na bexiga e no rim do paciente. Cada uma tem uma assinatura reconhecível no próprio papel, e reconhecê-la é metade da leitura. As decisões de tratar infecção, investigar hematúria e estadiar doença renal pertencem a outros capítulos, citados em cada seção; o que fica aqui é a leitura.
Percurso de aprendizagem
Antes da fita, confira coleta e transporte. Urina de bolsa e demora inadequada podem produzir resultados que não descrevem a bexiga.
Bacteriúria e piúria não equivalem a ITU. No idoso com delirium isolado, procure outras causas; instabilidade ou sinais infecciosos mudam a avaliação.
Fita negativa não exclui cadeias leves ou CAD euglicêmica. Contagens celulares por volume não são convertidas em campo sem validação do método; dismorfismo é uma pista, não uma origem definitiva.
A urina que passou a noite no posto: o balcão escreve metade do laudo
A SBPC/ML fixa dois relógios diferentes para a mesma urina. Para a urina tipo I, o exame deve ser feito em até 2 horas; se não puder, a amostra vai para a geladeira, protegida da luz, e em geral se mantém adequada por até 12 horas, com o prazo exato definido pelo laboratório. Para a urocultura, o relógio é mais curto: amostra que não for processada em até 1 hora deve ficar refrigerada a 4 °C, e por no máximo 24 horas. A recomendação ainda registra que o consenso americano de microbiologia de 2013 é mais estrito, com 30 minutos em temperatura ambiente. Nenhuma das réguas admite congelar, e nenhuma admite o balcão do posto durante a madrugada.
O laudo de uma urina que esperou tem uma assinatura, e o do senhor Lucindo a traz inteira. O pH de 8,0 é a amônia que as bactérias produzem a partir da ureia dentro do frasco. Os cristais de fosfato amoníaco-magnesiano são a consequência química desse pH: a SBPC/ML descreve que, acima de pH 7, forma-se carbonato em quantidade suficiente para cristalizar a estruvita. O nitrito positivo e as bactérias numerosas podem ter sido produzidos nas oito horas de espera. E a contagem de colônias, que depende de quantas bactérias havia no momento da semeadura, pode ter sido multiplicada no mesmo intervalo.
Nada disso quer dizer que a bexiga dele esteja estéril. Quer dizer que o laudo não permite saber. Uma amostra colhida da bolsa coletora e deixada horas em temperatura ambiente não é um exame ruim que se lê com cautela: é um exame que não responde à pergunta, e a conduta correta diante dele não é interpretar, é decidir se a pergunta ainda existe — e, se existir, colher de novo, do jeito certo.
A urina do sondado: a bacteriúria que ninguém precisava descobrir
O paciente com sonda vesical de demora tem urina com bactéria como regra, e não como exceção. A SBPC/ML acrescenta o dado que desmonta a leitura mais comum: no sondado, a piúria não diferencia colonização de infecção e não deve ser usada como critério para indicar antibiótico — embora a ausência de piúria num sondado com sintomas sugira que o diagnóstico é outro. Leucócitos altos e bactérias numerosas na urina de quem tem sonda há nove dias descrevem a sonda, e não uma doença.
A régua nacional de vigilância vai na mesma direção. A nota técnica da Anvisa de 2026 exige, para contar uma infecção urinária associada a cateter, sinal clínico sem outra causa reconhecida — febre acima de 38 °C, dor suprapúbica ou dor lombar — e urocultura com no máximo duas espécies bacterianas, uma delas com pelo menos 10^5 UFC/mL. Nas observações do critério, a nota manda desconsiderar a bactéria sem clínica, afirma que mais de duas espécies indicam grande probabilidade de contaminação, recusa a cultura de ponta de cateter urinário e exclui do critério qualquer espécie de Candida, levedura não especificada, fungo dimórfico ou parasita. Essa última exclusão contraria uma leitura que ainda circula, a de que qualquer crescimento de Candida bastaria.
Candidúria no sondado é o caso-limite. A SBPC/ML descreve que a maioria dos pacientes com Candida na urina é assintomática, que em grande parte das vezes o achado indica colonização da bexiga, do períneo ou do próprio cateter, e que não existem critérios de quantificação de colônias para Candida na urina. A pielonefrite por Candida existe, por via ascendente ou hematogênica na candidíase disseminada, mas não é o que o laudo de levedura num sondado afebril sugere. A decisão diante do sondado com febre — que culturas colher, quando tratar e o que fazer com a sonda — é do capítulo Febre no paciente internado, da apostila de Síndromes do Paciente Internado; a técnica de passar e retirar a sonda é do capítulo Sondagem vesical, da apostila de Procedimentos e Vias de Acesso.
Duas coisas sobre a sonda são deste capítulo, porque são leitura de amostra. A primeira: urina da bolsa coletora nunca serve para cultura — a SBPC/ML e a Anvisa convergem nisso, e a Anvisa só admite o bico da bolsa para exame de grande volume, como a proteinúria de 24 horas. A segunda: na sondagem de longa duração, a SBPC/ML recomenda trocar a sonda e colher a urina da sonda nova, antes do antibiótico, porque a sonda antiga carrega uma película de bactérias que contamina qualquer amostra que passe por ela.
A fita e o microscópio discordam: a discordância é o achado
O exame de urina de rotina tem dois instrumentos que medem coisas vizinhas por métodos diferentes, e é comum que discordem. A tentação é escolher o resultado que confirma a hipótese e ignorar o outro. A leitura correta é o oposto: a discordância é informação, e cada combinação tem uma lista curta de explicações.
Hemoglobina positiva na fita com sedimento sem hemácias: urina diluída, com densidade abaixo de cerca de 1,010, em que as hemácias lisaram; urina velha, pelo mesmo motivo; hemoglobina livre de hemólise intravascular; mioglobina. Esterase positiva com poucos leucócitos: leucócitos já degradados, ou interferente oxidante, como hipoclorito no frasco, ou meropenem, imipenem e ácido clavulânico em alta concentração. Leucócitos no sedimento com esterase negativa: linfócitos, que não têm esterase; glicosúria acima de 2 g/dL; albuminúria acima de 0,5 g/dL; densidade alta; ácido ascórbico; cefalexina, cefalotina ou tetraciclina. Nitrito negativo com bactérias no sedimento: germe que não reduz nitrato, urina que ficou pouco tempo na bexiga, ou bactéria de contaminação que ainda não teve tempo de trabalhar.
A lista de interferentes da esterase merece atenção especial na enfermaria, porque dois de seus itens são o paciente internado típico. O diabético descompensado com glicosúria acima de 2 g/dL pode ter leucocitúria real e esterase negativa. O paciente em cefalexina, justamente o antibiótico que alguém começou para infecção urinária, pode ter a esterase negativada pelo próprio tratamento. Nos dois, a fita negativa não é a prova de que não há leucócito — é o motivo para olhar o sedimento.
O que a fita não vê: cadeia leve, beta-hidroxibutirato e a glicose da gliflozina
A área de proteína é praticamente cega às cadeias leves livres das imunoglobulinas, e a SBPC/ML registra que situações específicas exigem método alternativo de pesquisa e dosagem das proteínas urinárias. O paciente idoso com anemia, cálcio alto e creatinina subindo pode ter fita negativa para proteína com uma perda urinária de cadeia leve que está lesando o rim. Fita negativa, nessa suspeita, não afasta nada. A investigação da suspeita de mieloma na atenção primária — eletroforese, cadeias leves no soro e, onde a dosagem sérica não existir, a pesquisa urinária — é do capítulo Antes do órgão, da apostila de Oncologia.
A área de cetonas não detecta o beta-hidroxibutirato, que é a maior parte dos corpos cetônicos. Isso produz dois erros de leitura opostos. O primeiro é o falso tranquilizador: cetonúria negativa ou discreta num paciente com acidose, como pode acontecer na cetoacidose de glicemia pouco elevada associada aos inibidores do cotransportador de sódio e glicose. O segundo é o susto na melhora: enquanto a acidose se resolve, o beta-hidroxibutirato, invisível para a fita, é convertido em acetoacetato, que ela enxerga, e a área de cetonas pode escurecer num paciente que está melhorando. As duas leituras, e o exame que de fato decide, são do capítulo Cetoacidose diabética, da apostila de Endocrinologia.
A glicosúria com glicemia normal tem, na enfermaria de hoje, uma causa farmacológica que não está nas listas antigas. A dapagliflozina, que o SUS dispensa pelo Componente Especializado na apresentação de 10 mg, produz glicosúria por mecanismo, porque bloqueia a reabsorção proximal de glicose. Glicose quatro cruzes na fita de um paciente em uso dela não é descontrole glicêmico e não pede nada além da glicemia capilar; o erro é o oposto, ler a glicosúria como diabetes novo ou como sinal de hiperglicemia. Fora dos medicamentos, a SBPC/ML lembra que a gestação, o período pós-prandial, os tiazídicos, os corticoides e a reabsorção tubular rebaixada também produzem glicose na urina.
A coleta contaminada: o laudo que se recolhe, não se interpreta
A contaminação por secreção genital tem sinais no próprio laudo. A SBPC/ML descreve que pequenos números de células epiteliais escamosas são quase invariáveis na urina da mulher, mas que, quando a coleta é feita sem afastar os lábios e sem desprezar o primeiro jato, ou quando há corrimento, as células escamosas podem ser tão abundantes que a análise adequada do sedimento se torna difícil ou impossível. Na mesma recomendação, neutrófilos e hemácias podem vir da secreção genital, sobretudo em mulheres, acompanhados ou não de bactérias, Candida ou Trichomonas vaginalis.
Na urocultura, a contaminação aparece como cultura mista. A SBPC/ML recomenda que culturas mistas sugestivas de contaminação sejam seguidas de pedido de nova coleta, ou ao menos de nota no laudo indicando a hipótese, e registra que Gardnerella vaginalis, parte da microbiota vaginal, sugere contaminação na maioria das vezes, sobretudo sem sintoma, sem piúria e em cultura mista. A nota técnica da Anvisa reforça o limite numérico: acima de duas espécies bacterianas, a probabilidade de contaminação é grande. Três germes acima de cem mil, como no laudo do senhor Lucindo, não são três infecções: são uma coleta que não mediu a bexiga.
A menstruação é a contaminação mais previsível e a mais esquecida no pedido. Hemácias numerosas na urina de uma mulher menstruada não são hematúria até prova do contrário, e o pedido feito nesse período produz um achado que depois precisa de repetição e de explicação. Se a pergunta clínica pode esperar, o exame espera. Se não pode — suspeita de pielonefrite, febre sem foco —, colhe-se com técnica rigorosa, e o laudo é lido sabendo que a linha das hemácias não conta.
O denominador comum das três situações é que nenhum exame de laboratório corrige coleta mal feita. O protocolo de Belo Horizonte tem uma advertência específica sobre isso: os profissionais responsáveis pela coleta devem conhecer a técnica e ser treinados para cada caso, para evitar contaminação e resultados falso-positivos. Quem pede o exame é responsável por saber como ele foi colhido.
Leucócitos sem bactéria: a leucocitúria estéril como pista
Leucocitúria com urocultura negativa, repetida, é um achado com nome e com diagnóstico diferencial próprio, e nenhum capítulo desta etapa o trata como achado — este capítulo assume o tema. O erro que ele gera é conhecido: a paciente recebe o terceiro ciclo de antibiótico para uma infecção urinária que nenhuma cultura confirmou, e a causa real segue sem nome. O primeiro passo é descartar a explicação mais simples, que não é doença nenhuma: a urina foi colhida depois que o antibiótico começou, e a cultura veio negativa porque a bactéria já tinha sido suprimida.
Afastada essa explicação, a SBPC/ML lista causas infecciosas de piúria estéril que o exame de rotina não contempla: Chlamydia trachomatis, Ureaplasma urealyticum, doenças fúngicas sistêmicas, tuberculose e leptospirose. Na mulher jovem sexualmente ativa com disúria e culturas negativas, a clamídia é uma hipótese a nomear cedo — leitura desta apostila sobre a lista da SBPC/ML —, a pergunta sobre parceria sexual precisa ser feita com privacidade, e a abordagem da infecção é do capítulo Cervicite por gonococo e clamídia, da apostila de Ginecologia. A tuberculose urinária é a hipótese que mais se perde: a SBPC/ML descreve que muitos pacientes têm sintomas de cistite e que o diagnóstico só é lembrado depois da falha do tratamento usual, diante de piúria com cultura de rotina negativa; a tríade antiga de hematúria, piúria asséptica e pH ácido tem hoje valor relativo.
As causas não infecciosas vêm do próprio rim e das vias urinárias. A SBPC/ML registra neutrófilos na urina em glomerulonefrite, nefrite intersticial aguda e crônica, doença renal policística e distúrbios urológicos, e lembra que o cilindro leucocitário, antes tido como patognomônico de pielonefrite, aparece também na nefrite lúpica e na nefrite intersticial aguda. A nefrite intersticial por fármaco, com leucócitos e cilindros leucocitários sem infecção, é leitura do capítulo Injúria renal aguda, da apostila de Nefrologia; o cálculo é do capítulo A dor que não deixa ficar parado, da apostila de Urologia; o lúpus, do capítulo O FAN não fecha o diagnóstico, da apostila de Reumatologia.
Para a tuberculose, a amostra muda de natureza, e é por isso que ela precisa ser pedida pelo nome. A SBPC/ML reproduz a orientação do manual laboratorial do Ministério da Saúde: no mínimo três e no máximo seis amostras, em dias consecutivos, com todo o volume da primeira micção da manhã e pelo menos 40 mL em cada uma. Uma urina tipo I e uma urocultura comuns, por mais que sejam repetidas, não investigam tuberculose. Confirmado o diagnóstico, o tratamento é o do capítulo Tuberculose: a pergunta que ninguém faz, da apostila de Infectologia.
Como fechar o diagnóstico
Aqui está a entrega do capítulo. O exame de urina não se lê pelo campo marcado nem pela palavra que o laboratório pôs em negrito: lê-se numa ordem que começa pela amostra, passa pelos dois instrumentos do exame de rotina e termina na cultura, e cada passo pode encerrar a leitura antes do seguinte. Um laudo reprovado no passo zero não precisa de interpretação dos passos seguintes; precisa de outra amostra ou de nenhuma.
São seis passos. O passo 0 é de identidade: de onde, quando e como a urina saiu. Os passos 1, 2 e 3 são o exame de rotina — o aspecto e a densidade, a fita e o sedimento. O passo 4 é a urocultura. O passo 5 devolve o laudo à pergunta clínica e decide quem é o dono do que foi encontrado.
Passo 0 — A amostra: de onde saiu, quando saiu e quem contou
Antes de qualquer número, quatro conferências. A primeira é o método de coleta: jato médio após higiene, cateterismo de alívio, porta de coleta da sonda, bolsa coletora, saco coletor ou punção suprapúbica. O laudo raramente traz isso, e a requisição quase nunca; a informação está com quem colheu. Se ninguém sabe como a urina foi obtida, a urocultura não tem régua, porque o corte de contagem depende do método. Urina de bolsa coletora não é lida: a SBPC/ML e a Anvisa excluem essa amostra para cultura.
A segunda é o tempo. O laudo costuma trazer a hora de recebimento no laboratório; a hora da coleta está no registro de enfermagem. A diferença entre as duas diz se a amostra ficou dentro do prazo — 2 horas para a urina tipo I e 1 hora para a urocultura em temperatura ambiente, pela SBPC/ML — e se ficou refrigerada no intervalo. Uma urocultura recebida oito horas depois da coleta, sem geladeira, é uma contagem de colônias que cresceram no frasco. O mesmo vale para o que o frasco carregava: a SBPC/ML registra que a iodopovidona usada na higiene pode dar falso-positivo na pesquisa de hemoglobina e que a clorexidina pode diminuir a contagem bacteriana.
A terceira é o contexto da coleta: se havia antibiótico em curso, que torna negativa uma cultura de infecção real; se a paciente estava menstruada, que torna inútil a linha das hemácias; se a amostra era a primeira urina da manhã, que a SBPC/ML indica como ideal por ser concentrada, ou uma amostra aleatória diluída, que pode esconder proteína e glicose e deixar o nitrito negativo por falta de tempo na bexiga.
A quarta é o método do laboratório, que decide a unidade. O sedimento manual padronizado é contado por campo; os analisadores automatizados contam urina não centrifugada e informam por microlitro ou por mililitro, com faixa de referência própria. O protocolo gaúcho de regulação em urologia previu isso ao definir a hematúria microscópica em duas formas: três ou mais hemácias por campo na microscopia, ou valor acima do limite de referência quando o método for quantitativo. A coluna de referência ao lado do resultado é do laboratório e do método, não do livro — e é contra ela, com a unidade dela, que o número se lê.
Passo 1 — Aspecto, cor e densidade: o que o frasco já diz
O aspecto turvo é o achado que mais faz a enfermagem pedir urocultura e o que menos diz sozinho. A SBPC/ML registra que a turvação aparece com a formação de uratos amorfos em urina ácida e de fosfatos amorfos em urina alcalina, mais frequentes quando a temperatura ambiente é baixa — sem nenhuma bactéria envolvida. Leucócitos, bactérias, muco e cristais também turvam. Urina turva no sondado sem sintoma não é indicação de cultura; é a descrição de uma urina concentrada, alcalina ou parada.
A cor normal vai do amarelo ao âmbar, pelo urocromo. A lista de cores anormais da SBPC/ML é, na prática, uma lista de medicamentos e pigmentos: a fenazopiridina, a rifampicina e a varfarina deixam a urina alaranjada; hemácias, hemoglobina, mioglobina e porfirinas a deixam rosada, vermelha ou castanha, assim como a beterraba; a bilirrubina e a urobilina a escurecem para o âmbar; o azul de metileno a torna azul ou verde. Urina vermelha com fita negativa para hemoglobina aponta, antes de tudo, para pigmento — de alimento, de fármaco ou de porfirina — e não para sangue.
A densidade, na urina isolada, informa a concentração da amostra mais do que a função renal. A SBPC/ML considera habitual o intervalo de 1,018 ± 0,003, descreve valores de 1,003 com grande ingestão de líquido e de 1,030 a 1,040 com restrição ou perdas, e é explícita: sem controle da ingestão prévia, a densidade de uma amostra isolada tem valor extremamente limitado. Seu uso real na leitura do laudo é outro — ela é o fator de correção dos outros campos. Densidade abaixo de cerca de 1,010 lisa hemácias e dilui proteína e glicose; densidade alta pode negativar a esterase. E proteína e glicose em grande quantidade elevam a própria densidade, 0,003 para cada 10 g/L de proteína e 0,004 para cada 10 g/L de glicose.
Passo 2 — A fita, área por área: o que cada cor afirma e o que ela não pode afirmar
O pH só vale em urina recente; a SBPC/ML limita sua relevância clínica a essa condição. Urina ácida acompanha dieta rica em proteína animal e acidose; urina alcalina aparece depois das refeições, na dieta vegetariana, com alcalinizantes e na infecção urinária por germe que decompõe ureia. Um pH de 8 numa urina que passou horas no posto mede o frasco.
A proteína da fita é albumina em concentração. Uma cruz numa urina concentrada pode ser perda normal; fita negativa numa urina diluída pode esconder perda real; e a fita não vê cadeia leve. Proteinúria na fita, portanto, é pergunta e não resultado: a resposta é a quantificação em amostra isolada, que a SBPC/ML descreve pela relação albumina/creatinina ou proteína/creatinina, de preferência na primeira urina da manhã, com confirmação da persistência por mais de três meses. O estadiamento da doença renal que essa quantificação alimenta é do capítulo O rim que não volta, da apostila de Nefrologia; a proteinúria em faixa nefrótica como síndrome é do capítulo O filtro que vaza e o filtro que inflama, da mesma apostila.
A glicose da fita, com sensibilidade da ordem de 0,6 g/L, só aparece acima do limiar renal ou quando esse limiar cai. Leia-a com a glicemia capilar do mesmo horário e com a prescrição: gliflozina, corticoide e tiazídico entram na lista antes do diagnóstico novo. As cetonas da fita são acetoacetato e acetona — o beta-hidroxibutirato fica de fora —, e a SBPC/ML acrescenta um cuidado de bancada: essa área é extremamente sensível à umidade e deixa de reagir se a tira ficar exposta ao ar por algumas horas. Cetonúria positiva em jejum, febre ou vômito é esperada; cetonúria negativa em acidose não afasta nada.
Bilirrubina e urobilinogênio se leem juntos e em urina recente, porque a luz oxida os dois. A fita só detecta bilirrubina conjugada, que é filtrada; na hemólise, a bilirrubina que sobe no sangue é a não conjugada, que circula ligada à albumina e não passa pelo glomérulo, e o que aumenta na urina é o urobilinogênio. Na obstrução biliar, a bilirrubina conjugada aparece na urina e o urobilinogênio pode desaparecer, porque a bile deixou de chegar ao intestino. A hemoglobina da fita, já discutida, se lê sempre contra o sedimento.
Nitrito e esterase são as duas áreas que o protocolo de Belo Horizonte considera de alta utilidade diagnóstica na suspeita de infecção urinária: com uma das duas ou ambas positivas, o protocolo registra especificidade entre 94% e 98% e sensibilidade entre 75% e 96%. Os números valem para a paciente com sintoma em quem se pergunta por infecção, e não para o sondado assintomático, em quem a pergunta nem existe. Na leitura, lembre o tempo de bexiga que o nitrito exige, os germes que não o produzem, o limite de detecção da esterase e sua lista de interferentes. A decisão de tratar a partir desse par é do capítulo Nem toda bactéria é uma doença, da apostila de Nefrologia.
Passo 3 — O sedimento: células, cilindros, cristais e o que não se conta nele
A SBPC/ML dá o ponto de partida: uma pessoa sem doença renal pode ter de zero a quatro leucócitos e de zero a dois eritrócitos por campo de grande aumento, e um cilindro hialino em 10 a 20 campos de pequeno aumento, além de poucos cristais. Acima disso, o achado precisa de contexto. Leucócitos agrupados são vistos sobretudo na infecção; linfócitos só se identificam com coloração e aparecem, por exemplo, na rejeição do transplante renal; eosinófilos na urina, antes atribuídos à nefrite intersticial, são hoje considerados achado inespecífico pela própria recomendação.
Hemácias contam a partir de três por campo pelo protocolo de regulação gaúcho, e a morfologia delas separa a origem: dismórficas e acantócitos sugerem glomérulo; isomórficas, vias urinárias. O percentual que decide encaminhamento é disputado entre dois documentos brasileiros — ver o bloco de divergências — e a investigação da hematúria confirmada é do capítulo Vermelha, e não doeu, da apostila de Urologia. A SBPC/ML registra três limites do dismorfismo que valem para qualquer régua: não há critério definitivo, a reprodutibilidade entre observadores é baixa, e doença glomerular pode produzir hemácias de aspecto normal quando a hematúria é intensa, quando há insuficiência renal ou depois de furosemida.
Cilindros são moldes do túbulo, e o conteúdo diz de que segmento veio a lesão. O hialino é o de menor importância clínica. O cilindro hemático é marcador de hematúria glomerular e pertence à leitura do capítulo O filtro que vaza e o filtro que inflama. O granuloso e o de células epiteliais tubulares apontam lesão tubular, e o cilindro leucocitário, que já foi tido como patognomônico de pielonefrite, aparece também em nefrite lúpica e em nefrite intersticial aguda; a leitura do sedimento no paciente com creatinina subindo é do capítulo Injúria renal aguda. Um detalhe que a SBPC/ML registra e que muda leitura: bactérias dentro da matriz de um cilindro estão claramente associadas à pielonefrite, porque o cilindro só se forma no túbulo.
Células epiteliais escamosas abundantes significam coleta contaminada, e a SBPC/ML chega a dizer que podem tornar o sedimento impossível de analisar. Células tubulares renais apontam dano tubular. As chamadas células decoy, alteradas pelo poliomavírus BK, aparecem no transplantado renal. Cristais, na maioria, são habituais: refletem dieta, pH e supersaturação transitória — a estruvita, por exemplo, em urina muito alcalina. Os que merecem nome no laudo são os de cistina, leucina, tirosina, colesterol e bilirrubina, e os de medicamento, como o aciclovir, sobretudo em bolo intravenoso ou com desidratação, e a sulfadiazina.
Bactérias e leveduras no sedimento não substituem a cultura e não a dispensam. O sedimento é concentrado, colhido sem a técnica que a cultura exige e contado sem identificação. A leitura bacterioscópica que tem valor quantitativo é outra: a SBPC/ML descreve o Gram de urina não centrifugada, em que cada bactéria vista em campo de imersão corresponde a cerca de 10^5 por mL, e em que numerosas células epiteliais e bactérias de formas diferentes sugerem contaminação.
Passo 4 — A urocultura: contagem, número de espécies, identidade do germe e o prazo do laudo
Comece pela unidade da contagem e pelo que ela esconde. Com a alça de 1 µL, que a SBPC/ML indica para amostras de rotina, a faixa detectável vai de 10^3 a 10^5 UFC/mL: um laudo negativo, nessa semeadura, significa menos de mil, e não zero. Para amostras invasivas e contagens baixas, a recomendação é semear também 10 µL, o que alcança 10^2. Se a amostra veio de cateterismo e a pergunta depende de contagem baixa, o pedido precisa dizer o método de coleta — é essa informação que leva o laboratório a usar a alça maior.
Depois, conte as espécies. Uma espécie, ou uma espécie claramente dominante, é o padrão da bexiga infectada. Duas espécies ainda cabem no critério nacional de vigilância. Mais de duas, em contagens parecidas, a nota técnica da Anvisa lê como grande probabilidade de contaminação, e a SBPC/ML manda seguir cultura mista sugestiva de contaminação com nova coleta. O fluxo de trabalho que a SBPC/ML sugere aos laboratórios reflete isso: com três isolados, só se identifica e testa o germe que chega a 10^5 na micção espontânea, e as demais combinações recebem apenas identificação — o antibiograma ausente, nesses laudos, é uma decisão do laboratório, não um esquecimento.
Interprete a contagem com o método e a clínica. Na micção espontânea, o limiar de 10^5 UFC/mL citado em protocolos locais não deve excluir ITU em mulher sintomática com contagem menor e um uropatógeno predominante. A SBPC/ML sugere identificar e testar o isolado único a partir de 10^4 em seu fluxo laboratorial; esse critério de processamento não é uma definição universal de infecção. No sondado com sintomas compatíveis, crescimento a partir de 10^3 pode ser relevante para o diagnóstico clínico, enquanto a notificação à vigilância segue requisitos próprios, incluindo a contagem de 10^5 no critério citado. Bacteriúria sem sintomas não basta para indicar tratamento. Amostras invasivas, especialmente punção suprapúbica, exigem interpretação específica; a abordagem pediátrica está no capítulo Infecção urinária na criança.
O nome do germe também se lê. Escherichia coli domina a infecção comunitária. Staphylococcus saprophyticus é patógeno real na mulher jovem. Staphylococcus aureus na urina, pela SBPC/ML, geralmente se associa a infecção sistêmica, e a recomendação acrescenta que cultura positiva com contagem baixa e sem piúria pode ser indício de bacteremia em paciente grave: o laudo com Staphylococcus aureus faz perguntar pela hemocultura antes de perguntar pela bexiga. Candida no sondado é, na maioria, colonização. Gardnerella vaginalis sugere contaminação. Streptococcus agalactiae na urina da gestante é marcador de colonização vaginal, com consequência na maternidade, e pertence ao capítulo Os exames do pré-natal, da apostila de Obstetrícia.
Por fim, o prazo. A SBPC/ML indica incubação de 16 a 48 horas e desaconselha leitura antes de 16 horas; admite descartar placas negativas com 24 horas em amostras de jato médio de pacientes ambulatoriais com menos de 65 anos e sem leucocitúria; e estende a incubação para 48 horas ou mais em amostras invasivas e para até 72 horas na pesquisa de leveduras. Um resultado parcial de 24 horas numa amostra de sonda, portanto, pode não ser o resultado final.
Passo 5 — De volta à pergunta: quem é o dono do que o laudo encontrou
O último passo não lê o papel; lê o pedido. Todo laudo lido termina em uma de quatro saídas, e escrever qual delas na evolução é o que impede o plantonista seguinte de reinterpretar o exame do zero. A primeira saída é a amostra que não responde: coleta inadequada, prazo estourado, cultura mista, urina de bolsa. A conduta é recolher, se a pergunta continuar existindo, ou encerrar o assunto, se a pergunta nunca existiu.
A segunda saída é o achado que não pede ação. Bactéria na urina de quem não tem sintoma, fora dos grupos em que o tratamento traz benefício, é bacteriúria assintomática; o protocolo de Belo Horizonte lista esses grupos e as duas exceções, e a decisão pertence ao capítulo Nem toda bactéria é uma doença, da apostila de Nefrologia. No sondado sem sintoma, a nota técnica manda desconsiderar a bactéria, e a conduta diante do sondado com febre é do capítulo Febre no paciente internado. Cristal habitual, cilindro hialino isolado e glicosúria de gliflozina também são achados sem ação.
A terceira saída é o achado que tem dono em outro capítulo, e a leitura termina com o encaminhamento do raciocínio: infecção urinária do adulto para Nem toda bactéria é uma doença; infecção complicada, prostatite e abscesso para O que o antibiótico não alcança, da apostila de Urologia; gestante para A única bactéria que se trata sem queixa, da apostila de Obstetrícia; criança para Infecção urinária na criança; hematúria para Vermelha, e não doeu; proteinúria para O rim que não volta e O filtro que vaza e o filtro que inflama; sedimento com creatinina subindo para Injúria renal aguda.
A quarta saída fica aqui: a leucocitúria estéril repetida, que nenhum desses capítulos trata como achado. Ela pede a revisão da coleta e do antibiótico em curso, a pergunta sobre infecção sexualmente transmissível, a pesquisa de micobactérias com a amostra própria, a revisão de fármacos com o sedimento e a creatinina, e a lembrança de que três ciclos de antibiótico sem cultura positiva são, eles mesmos, um achado.
A ordem de leitura, a contagem por método de coleta e as contas refeitas
Aprenda a interpretar urina e cultura pela amostra, unidade, sintomas e hipóteses clínicas.
- 11. Confira como e quando a urina foi colhida: urina de bolsa coletora não se lê, e urocultura que passou de 1 hora sem geladeira mede o frasco, não a bexiga.
- 22. Confira o contexto e a unidade: antibiótico em curso, menstruação, primeira urina ou amostra aleatória, e se o sedimento veio por campo, por microlitro ou por mililitro, contra a referência do próprio laboratório.
- 33. Use a densidade como fator de correção: abaixo de cerca de 1,010 as hemácias lisam e proteína e glicose se diluem; densidade alta pode negativar a esterase.
- 44. Leia a fita pelo que ela vê: proteína é albumina em concentração, a ser quantificada pela relação com a creatinina; glicose se lê com a glicemia e a prescrição; cetona não inclui o beta-hidroxibutirato.
- 55. Leia hemoglobina, esterase e nitrito sempre contra o sedimento: discordância entre a fita e o microscópio é um achado com lista curta de causas.
- 66. Leia o sedimento: até quatro leucócitos e duas hemácias por campo são compatíveis com normalidade, hematúria conta a partir de três por campo, e cilindros e células dizem de que segmento veio a lesão.
- 77. Converta as colônias em UFC/mL pela alça usada e conte as espécies: mais de duas, em contagens parecidas, é provável contaminação e pede nova coleta, não tratamento.
- 88. Interprete a urocultura pela clínica, método de coleta e microrganismo. No jato médio, 10^5 UFC/mL não é limiar obrigatório nem suficiente para toda ITU: contagens menores podem ser significativas em pacientes sintomáticos, sobretudo mulheres com um uropatógeno predominante. Na amostra de paciente sondado com sintomas compatíveis, contagens a partir de 10^3 podem ser relevantes para a leitura clínica. Critérios de bacteriúria assintomática e de notificação são próprios; não os use como regra universal de diagnóstico ou tratamento.
- 99. Leia o nome do germe: Staphylococcus aureus faz pedir hemocultura; Candida no sondado é colonização até prova em contrário e fica fora do critério de vigilância; Gardnerella sugere contaminação.
- 1010. Devolva o laudo à pergunta e escreva a saída na evolução: amostra que não responde, achado sem ação, achado com dono em outro capítulo, ou leucocitúria estéril, que fica neste.
| Linha do laudo | O que ela pode afirmar | O que ela não afirma | Armadilha que muda a leitura |
|---|---|---|---|
| Método e hora da coleta | Se a amostra mede a bexiga do paciente | Nada sobre doença | Bolsa coletora, ou horas fora da geladeira, invalida cultura, nitrito e contagem de células |
| Aspecto e cor | Concentração, pigmento, fosfato ou urato | Infecção | Turvação de fosfato amorfo em urina alcalina e fria; laranja de fenazopiridina, rifampicina ou varfarina |
| Densidade | Concentração daquela amostra | Função renal numa amostra isolada | Abaixo de cerca de 1,010 lisa hemácias; glicose e proteína elevam o próprio valor |
| pH | Acidez de urina recente | Nada em urina que esperou | Urina parada alcaliniza por amônia bacteriana e cristaliza estruvita |
| Proteína da fita | Albumina em concentração | Excreção diária; cadeias leves | Quantificar pela relação com creatinina; fita negativa não afasta perda de cadeia leve |
| Glicose da fita | Carga filtrada acima do limiar renal | A glicemia | Gliflozina, gestação e lesão tubular dão glicosúria com glicemia normal |
| Cetonas da fita | Acetoacetato e acetona | Beta-hidroxibutirato | Fita negativa não afasta cetoacidose; tira exposta ao ar perde a reatividade |
| Hemoglobina da fita | Heme presente na urina | Hemácia íntegra | Urina diluída ou velha, hemoglobina livre e mioglobina positivam sem hemácia no sedimento |
| Nitrito | Bactéria redutora com tempo de bexiga | Ausência de infecção, quando negativo | Enterococos e Staphylococcus saprophyticus não reduzem nitrato; o positivo pode nascer no frasco |
| Esterase leucocitária | Granulócito íntegro ou já degradado | Linfócito; contagem abaixo do limite da área | Glicose acima de 2 g/dL, cefalexina e ácido ascórbico negativam; meropenem e hipoclorito positivam |
| Leucócitos e hemácias do sedimento | Contagem na unidade do método | Origem das células sem morfologia | Um por campo equivale a 3.200 a 4.800 por mL; secreção genital e menstruação somam células |
| Cilindros e células epiteliais | Segmento do túbulo; qualidade da coleta | Diagnóstico isolado | Escamosas abundantes indicam coleta contaminada; bactéria dentro do cilindro indica pielonefrite |
| Urocultura — contagem | Colônias semeadas pela alça, em UFC/mL | Infecção sem clínica | Com alça de 1 µL, cada colônia vale 1.000 UFC/mL e o laudo negativo significa menos de 1.000 |
| Urocultura — espécies e germe | Se há espécie dominante e qual é | Significado sem o método de coleta | Mais de duas espécies; Staphylococcus aureus faz perguntar pelo sangue; Candida no sondado |
A contagem da urocultura lida pelo caminho da urina
| Como a urina saiu | O que ela carrega além da bexiga | Como ler a contagem | Quem decide o que fazer |
|---|---|---|---|
| Jato médio após higiene | Flora da uretra distal e do períneo | Interpretar com sintomas e qualidade da coleta. Um uropatógeno predominante abaixo de 10^5 UFC/mL pode ser significativo, especialmente em mulher sintomática; contagem elevada sem sintomas não define ITU. Identificação e antibiograma seguem também o método e o protocolo do laboratório. | Nem toda bactéria é uma doença (adulto); A única bactéria que se trata sem queixa (gestante) |
| Cateterismo de alívio | Pouca flora, da passagem pela uretra | Leitura a partir de 10^3, como no fluxo de amostra invasiva da SBPC/ML; o pedido deve dizer o método para o laboratório semear 10 µL | Nem toda bactéria é uma doença; O que o antibiótico não alcança (infecção complicada) |
| Porta de coleta da sonda, com sintoma e sem outro foco | Película bacteriana da sonda, sobretudo na sondagem longa | A partir de 10^3 para a leitura clínica, pela SBPC/ML; 10^5 com até duas espécies para notificação, pela Anvisa; trocar a sonda longa antes de colher | Febre no paciente internado |
| Porta de coleta da sonda, sem sintoma | Bacteriúria esperada, que cresce a cada dia de sonda | Não se colhe; se colhida, a bactéria sem clínica se desconsidera, pela nota técnica da Anvisa | Febre no paciente internado; Sondagem vesical, para rever a indicação da sonda |
| Bolsa coletora | Bactérias multiplicadas na bolsa em temperatura ambiente | Não se lê e nunca vai para cultura; a Anvisa só admite o bico da bolsa para exame de grande volume | Ninguém: recolher pela porta, se houver pergunta |
| Saco coletor | Pele e períneo | Não serve para cultura; na criança, a vigilância nacional não o considera | Infecção urinária na criança |
| Punção suprapúbica | Nenhuma flora externa | Contagens baixas não se descartam | Infecção urinária na criança, onde o método é usado |
As contas deste capítulo, recalculadas
| Conta | Como se faz | Resultado |
|---|---|---|
| Elementos por campo convertidos em elementos por mL | Método da SBPC/ML: 10 mL concentrados a 0,5 mL (20 vezes); 50 µL sob lamínula de 32 x 24 mm, camada de 65 µm; campo de grande aumento com 0,45 a 0,55 mm de diâmetro; cada campo representa 0,21 a 0,31 µL de urina | 1 por campo equivale a 3.200 a 4.800 por mL (3,2 a 4,8 por µL), supondo recuperação completa na centrífuga |
| Referência de até 10.000 por mL expressa em campos | 10.000 dividido por 3.200 a 4.800 | 2,1 a 3,1 por campo |
| Hematúria de três hemácias por campo expressa em mL | 3 multiplicado por 3.200 a 4.800 | 9.700 a 14.500 por mL |
| Limite de detecção da esterase expresso em campos | 5.000 a 15.000 granulócitos por mL divididos por 3.200 a 4.800 | 1 a 4,6 leucócitos por campo: fita negativa convive com até cerca de quatro leucócitos por campo |
| Colônias na placa convertidas em UFC/mL | Colônias multiplicadas por 1.000 com alça de 1 µL, ou por 100 com alça de 10 µL | 100 colônias equivalem a 10^5 com alça de 1 µL; 10 colônias equivalem a 10^3 com alça de 10 µL |
| Densidade corrigida para glicose e proteína | Subtrair 0,004 para cada 10 g/L de glicose e 0,003 para cada 10 g/L de proteína | Glicosúria de 2 g/dL soma 0,008; proteinúria de 0,5 g/dL soma 0,0015 |
| Bacteriúria acumulada no paciente sondado | 1 menos (1 menos o risco diário) elevado ao número de dias, com risco diário de 3 a 8% | 24% a 53% no nono dia; 35% a 69% no décimo quarto dia |
| Gram de urina não centrifugada | Bactérias contadas por campo de imersão | 1 bactéria por campo equivale a cerca de 10^5 por mL |
| Volume para pesquisa de micobactérias | 3 a 6 amostras de primeira micção, com pelo menos 40 mL cada | 120 a 240 mL no total, em dias consecutivos |
A amostra certa para cada pergunta
| Pergunta | Amostra | Prazo até a bancada | O que a invalida |
|---|---|---|---|
| Exame de rotina: fita e sedimento | Jato médio após higiene; ideal a primeira urina da manhã, com pelo menos 2 horas sem urinar | Até 2 horas; refrigerada e protegida da luz, em geral até 12 horas, pelo critério do laboratório | Congelamento; frasco esquecido no posto; coleta sem desprezar o primeiro jato |
| Urocultura | Jato médio, cateterismo de alívio ou porta de coleta da sonda, antes do antibiótico | Até 1 hora; a 4 °C por no máximo 24 horas | Bolsa coletora; saco coletor; urina que passou pela sonda antiga na sondagem longa |
| Nitrito | Primeira urina da manhã, ou urina de 2 a 4 horas após a última micção | O mesmo da urina de rotina | Micções frequentes; germe que não reduz nitrato |
| Dismorfismo eritrocitário | Segunda urina da manhã, 2 horas após a primeira micção; análise em três amostras em poucas semanas | O mesmo da urina de rotina | Menstruação; densidade baixa com lise; contagem abaixo de uma hemácia por campo |
| Proteinúria quantificada | Amostra isolada, de preferência a primeira urina da manhã, com relação proteína ou albumina sobre creatinina; alternativa de 12 ou 24 horas | Pelo critério do laboratório | Fita usada como resultado final; amostra única sem confirmação da persistência por mais de três meses |
| Micobactérias | Todo o volume da primeira micção, com 40 mL ou mais, em 3 a 6 dias consecutivos | Pelo critério do laboratório | Urina tipo I e urocultura comuns, por mais que se repitam |
| Exame de grande volume no paciente sondado | Bico de drenagem da bolsa coletora, com técnica asséptica, como admite a Anvisa | Pelo critério do laboratório | Usar o mesmo caminho para cultura |
Conferência que não fechou, dentro da SBPC/ML de 2017, e que muda o que o laudo diz ao aluno. No capítulo de sedimentoscopia, a recomendação manda informar presença de dismorfismo eritrocitário quando a contagem for superior a 10 hemácias por campo de grande aumento ou a 10.000 por mL, tratando os dois números como a mesma coisa. Pelo método padronizado do próprio livro, eles não são: 10 mL concentrados a 0,5 mL dão fator 20; 50 µL sob lamínula de 32 x 24 mm formam camada de 65 µm; um campo de grande aumento de 0,45 a 0,55 mm de diâmetro cobre 0,0104 a 0,0155 µL do concentrado, isto é, 0,21 a 0,31 µL de urina. Um elemento por campo equivale, portanto, a 3.200 a 4.800 por mL, e 10 por campo a 32.000 a 48.000 por mL — de 3,2 a 4,8 vezes o corte por mL. O laboratório que conta por mL informará dismorfismo a partir de cerca de 2 a 3 hemácias por campo; o que conta por campo, só a partir de 10. A conta supõe recuperação completa na centrifugação; recuperação menor aumenta a diferença. Leitura desta apostila: a ausência da frase sobre dismorfismo no laudo não é dismorfismo negativo, e, quando o laudo traz o percentual, é o percentual que se lê.
Conferência que não fechou na tabela de fluxo de trabalho para amostras de urina colhidas por método invasivo, no capítulo de síndromes bacterianas e fúngicas da SBPC/ML de 2017. A tabela usa 10^3 como corte para isolado único e para dois isolados acima de 10^3; mas, na linha de dois isolados escrita como um acima ou igual a 10^3 e um abaixo ou igual a 10^3, manda antibiograma somente para o isolado a partir de 10^4 — corte que é o da tabela de micção espontânea —, e o valor exato de 10^3 pertence às duas classes da mesma linha. Ao pé da letra, Escherichia coli a 5 x 10^3 UFC/mL em urina de cateterismo sai com antibiograma se crescer sozinha e sem antibiograma se crescer ao lado de um segundo germe a 500 UFC/mL, contagem que a alça de 10 µL indicada para amostra invasiva detecta como cinco colônias. Leitura desta apostila: laudo de amostra invasiva com isolado entre 10^3 e 10^4 sem antibiograma pede contato com o laboratório, e não antibiótico escolhido às cegas.
Duas recomendações do mesmo protocolo em vigor caindo sobre o mesmo paciente com comandos opostos. No protocolo de Belo Horizonte de 2022, Parte I, a recomendação 2 manda solicitar exame de urina rotina, Gram e urocultura nos pacientes com indicação — dúvida diagnóstica, falha do tratamento empírico em 48 a 72 horas, infecção recorrente, gestante e infecção complicada. A recomendação 4, na mesma página, manda, ao solicitar exame de urina para diagnóstico de infecção urinária, não pedir Gram nem sedimentoscopia rotineiramente. Todo paciente da recomendação 2 é um pedido para diagnóstico de infecção urinária, e o exame de rotina que ela pede é, pela definição da SBPC/ML, análise físico-química mais sedimentoscopia. Leitura desta apostila: o Gram de gota entra quando a resposta precisa vir antes da cultura — é assim que o próprio protocolo o usa na gestante diagnosticada na urgência —, e não como rotina; o sedimento acompanha a urina tipo I como parte do exame de rotina, e pedir a fita isolada depende do que o laboratório do serviço oferece.
A conduta, hora a hora
A linha do tempo deste capítulo é a de um frasco. Começa quando alguém pensa em pedir a urina e termina na frase da evolução que diz o que o laudo respondeu e o que ele não respondeu. No meio, há cinco momentos em que o resultado é decidido antes de existir — o pedido, a coleta, o caminho da urina, o relógio e a leitura — e em cada um deles o erro é de quem prescreve, não do laboratório.
O objetivo é usar uma amostra adequada para decidir entre infecção sintomática, bacteriúria sem indicação de tratamento, doença renal e outras causas. O interno aprende a propor investigação e conduta com supervisão, incluindo quando um resultado positivo não deve levar a antibiótico.
Antes de pedir — a pergunta que autoriza a urina
Todo exame de urina deveria nascer de uma frase: se vier alterado, eu faço isto; se vier normal, eu faço aquilo. Quando as duas metades da frase terminam na mesma conduta, o exame não tem pergunta. O protocolo de Belo Horizonte transforma isso em recomendações fortes: a infecção urinária não complicada com quadro típico se diagnostica pela história, sem urina tipo I e sem urocultura; exame de urina e cultura se reservam para dúvida diagnóstica, falha do tratamento empírico em 48 a 72 horas, infecção recorrente, gestante e infecção complicada; e não se pede exame de urina para rastrear infecção em idoso frágil com delirium. No sondado, a nota técnica da Anvisa manda desconsiderar a bactéria sem clínica — o que torna a urocultura do sondado assintomático uma pergunta sem resposta útil.
Prescrição- Escrever no pedido, em uma linha, a pergunta clínica que o exame responde
- Não pedir urina tipo I nem urocultura para rastrear infecção em idoso frágil com delirium, sem sintoma urinário e sem febre
- Não pedir urocultura em sondado assintomático por urina turva, escura ou com cheiro
- Não incluir urina no painel de admissão ou de pré-operatório sem pergunta; a exceção do procedimento urológico que viola a mucosa é decisão do capítulo Nem toda bactéria é uma doença
No pedido — o que o laboratório precisa saber para ler certo
O laboratório lê a urina com as informações que recebe, e a requisição típica não traz nenhuma das que decidem a leitura. O método de coleta muda o volume semeado e o corte de contagem: a SBPC/ML indica semear também 10 µL em amostras invasivas e quando contagens baixas interessam, e isso só acontece se o laboratório souber de onde a urina veio. O antibiótico em uso explica cultura negativa com leucocitúria. E há exames que a rotina não faz e que só existem se pedidos pelo nome: a pesquisa de dismorfismo, com a amostra própria; a quantificação da proteína; a cultura para micobactérias.
Prescrição- Informar o método de coleta: jato médio, cateterismo de alívio, porta de coleta da sonda ou punção suprapúbica
- Informar antibiótico em uso, com a data de início
- Em amostra invasiva, registrar que contagens baixas interessam
- Pedir pelo nome o que a rotina não faz: pesquisa de dismorfismo eritrocitário, relação proteína/creatinina ou albumina/creatinina, cultura para micobactérias
Na coleta de quem urina — o jato médio e as instruções que o frasco não traz
A SBPC/ML descreve a coleta em passos que valem ser ditos em voz alta ao paciente, porque cada um evita um erro de laudo. Mãos lavadas; higiene com água e sabão neutro — o antisséptico é discutível, e a recomendação lembra que a clorexidina pode reduzir a contagem bacteriana e a iodopovidona pode falsear a hemoglobina —; no homem, prepúcio retraído e glande lavada; na mulher, lábios afastados e meato limpo; primeiro jato no vaso, jato médio no frasco até um terço ou metade, resto no vaso; frasco fechado e entregue no prazo. A amostra ideal é a primeira urina da manhã, e a SBPC/ML pede ao menos 2 horas sem urinar antes da coleta do exame de rotina. Beber muita água para conseguir urinar dilui a amostra e derruba a contagem.
Prescrição- Orientar lavagem das mãos e higiene genital com água e sabão neutro, sem antisséptico
- Homem: retrair o prepúcio e lavar a glande; mulher: afastar os lábios e limpar o meato
- Desprezar o primeiro jato e colher o jato médio até um terço ou metade do frasco
- Preferir a primeira urina da manhã, ou pelo menos 2 horas sem urinar
- Durante a menstruação, adiar a coleta quando a pergunta puder esperar; se não puder, registrar no pedido
Na coleta do sondado — pela porta de coleta, da sonda certa
A urina do sondado se colhe pela porta de coleta, e não pela bolsa. O protocolo da Anvisa de 2025 descreve a técnica: desinfetar a porta com álcool 70% e aspirar com seringa estéril, sem abrir o sistema, e mandar a amostra imediatamente ao laboratório. A SBPC/ML acrescenta que, na sondagem de longa duração, se troca a sonda e se colhe a urina da sonda nova, antes do antibiótico — o capítulo Febre no paciente internado usa duas semanas de sonda como marca para essa troca. A SBPC/ML também manda manter a sonda fechada por 1 a 2 horas antes da coleta, enquanto a Anvisa não prevê o fechamento e exige fluxo urinário contínuo; esta apostila adota a Anvisa, pelo degrau da data e da natureza, e a divergência está resolvida no bloco próprio. O volume necessário é pequeno: o sedimento padronizado usa 10 mL, e a cultura semeia microlitros.
Prescrição- Desinfetar a porta de coleta com álcool 70% e aspirar com seringa estéril, sem desconectar o sistema
- Nunca usar a urina da bolsa coletora para urina tipo I ou urocultura
- Na suspeita de ITU com sonda mantida há mais de duas semanas e ainda necessária, geralmente substituir e colher da nova sonda antes do antibiótico quando viável. Obstrução, quebra do sistema ou outra indicação podem exigir troca antes desse prazo; sem indicação de manter, remover. Não trocar todo cateter apenas porque se pediu cultura.
- Não manter a sonda fechada por uma a duas horas para obter a amostra
- Encaminhar a amostra imediatamente, com a indicação de que foi colhida pela porta da sonda
Quando não há jato médio possível e a pergunta não pode esperar
O paciente confuso, o acamado que não controla a micção e a mulher que não consegue colher jato médio precisam de outra via quando a cultura é necessária. A SBPC/ML descreve o saco coletor como recurso de coleta para exame de rotina em quem não tem controle esfincteriano, mas registra que, quando a amostra também for usada para cultura e a coleta espontânea não for possível, procedimentos mais invasivos — cateterismo vesical ou punção suprapúbica — devem ser considerados, sempre por profissional capacitado. No adulto, a via prática é o cateterismo de alívio, cuja técnica e cujos riscos são do capítulo Sondagem vesical, da apostila de Procedimentos e Vias de Acesso. Na criança, a escolha do método é do capítulo Infecção urinária na criança.
Prescrição- Não usar saco coletor para urocultura
- Em adulto sem jato médio possível e com indicação real de cultura, cateterismo de alívio com técnica asséptica
- Registrar no pedido que a amostra é de cateterismo, para o laboratório aplicar o corte e o volume de amostra invasiva
Entre o quarto e a bancada — o relógio da amostra
A mesma urina tem dois prazos pela SBPC/ML: 2 horas para a urina tipo I, com geladeira e proteção da luz até, em geral, 12 horas; 1 hora para a urocultura, com geladeira a 4 °C por no máximo 24 horas. Quando o mesmo frasco vai para os dois exames, vale o prazo mais curto. A amostra não se congela. O ponto cego da enfermaria é o intervalo entre a coleta e a passagem do laboratório: a urina colhida às dez da noite e recolhida às seis da manhã, fora da geladeira, estourou os dois prazos, e o laudo dela — contagem, nitrito, pH e células — já não descreve o paciente.
Prescrição- Registrar a hora da coleta no frasco e no prontuário
- Urocultura: laboratório em até 1 hora ou geladeira a 4 °C, por no máximo 24 horas
- Urina tipo I: laboratório em até 2 horas ou geladeira protegida da luz, em geral até 12 horas
- Não congelar a amostra e não deixá-la em temperatura ambiente à espera da coleta do laboratório
- Amostra que estourou o prazo sem refrigeração: descartar e colher de novo, se a pergunta ainda existir
Quando o laudo chega — a leitura em seis passos, escrita na evolução
A leitura do bloco de investigação só protege o paciente se ficar escrita. Uma evolução que registra infecção urinária a partir de um laudo de urina de bolsa vira fato para os plantonistas seguintes, que não verão o frasco nem o horário. O registro útil tem três partes curtas: a adequação da amostra, o que o laudo afirma depois de lido e a saída escolhida. Escrito assim, o laudo do senhor Lucindo teria virado uma frase sobre uma amostra inadequada, e não uma prescrição de ceftriaxona.
Prescrição- Registrar método de coleta, hora e adequação da amostra
- Registrar os achados que valem e os invalidados, com o motivo em poucas palavras
- Nomear a saída: nova coleta, nenhuma ação, encaminhamento ao capítulo dono ou investigação de leucocitúria estéril
Depois da leitura — recolher, não tratar ou passar ao dono
Cada saída tem uma conduta própria. A amostra que não respondeu é refeita só se a pergunta continuar de pé; no sondado sem febre, geralmente não continua. A bacteriúria sem sintoma fora dos grupos com benefício não recebe antibiótico, e a lista desses grupos está no capítulo Nem toda bactéria é uma doença. O sondado com febre sem outro foco segue a conduta do capítulo Febre no paciente internado, com a amostra colhida do jeito deste capítulo. Hematúria confirmada vai para o capítulo Vermelha, e não doeu; proteinúria quantificada, para O rim que não volta ou O filtro que vaza e o filtro que inflama. A leucocitúria estéril repetida é investigada aqui, e a primeira conduta é interromper o ciclo de antibióticos sem cultura.
Prescrição- Cultura mista ou amostra inadequada, com a pergunta ainda de pé: nova coleta com técnica correta
- Bacteriúria sem sintoma fora dos grupos com benefício: não prescrever antibiótico e registrar o motivo na evolução
- Leucocitúria persistente com culturas negativas pede reavaliar diagnóstico: antibiótico prévio, IST, cálculo, tuberculose conforme risco e doença renal/fármacos. Não iniciar novo ciclo empírico por piúria isolada; não suspender automaticamente um tratamento indicado em paciente com sinais sistêmicos. Escolher exames e amostras dirigidos.
- Hematúria, proteinúria ou sedimento com creatinina subindo: seguir o capítulo dono citado no texto
Como saber se está funcionando
Na urina, repetir o exame costuma ser a resposta automática a um resultado que incomodou, e quase nunca é a resposta certa. Um exame colhido do mesmo jeito, na mesma situação, repete o mesmo erro. O que se reavalia aqui é quase sempre o paciente, e o exame só volta quando a pergunta mudou: apareceu febre, a gestante terminou o tratamento, a hematúria precisa de confirmação, a proteinúria precisa de número, a leucocitúria precisa de outra amostra.
Os sete parâmetros abaixo têm, cada um, o seu relógio. Três deles pertencem a capítulos donos e aparecem aqui só para que a leitura do exame repetido saia certa; os outros quatro são leitura de amostra e ficam neste capítulo.
Esperado: Melhora dos sintomas, sem exame de controle. O protocolo de Belo Horizonte reserva a urocultura de controle à gestante e ao início de profilaxia na infecção de repetição.
Se não melhora: Falha do tratamento empírico em 48 a 72 horas é uma das indicações de urina tipo I e urocultura no protocolo, colhidas com a técnica deste capítulo. A conduta diante da falha é do capítulo Nem toda bactéria é uma doença e, na infecção complicada, do capítulo O que o antibiótico não alcança.
Esperado: Cultura negativa, colhida por jato médio e dentro do prazo de 1 hora ou refrigerada.
Se não melhora: Cultura positiva de novo pede leitura do método de coleta antes de qualquer conclusão, e a conduta — retratamento, profilaxia até o parto, urocultura do terceiro trimestre — é do capítulo A única bactéria que se trata sem queixa, da apostila de Obstetrícia.
Esperado: Uma espécie dominante acima do corte do método, ou cultura negativa. Qualquer das duas responde à pergunta que a primeira amostra não respondeu.
Se não melhora: Nova cultura mista com jato médio bem orientado sugere que a coleta espontânea não serve àquele paciente: se a cultura continua necessária, a via passa a ser o cateterismo de alívio, registrado no pedido.
Esperado: Hematúria confirmada ou afastada; morfologia concordante em pelo menos duas das três amostras, que é como a SBPC/ML fecha a origem glomerular.
Se não melhora: Morfologia discordante entre as amostras, ou percentual entre 30% e 70%, é a faixa indeterminada que esta apostila manda aos dois especialistas; o encaminhamento e a investigação são do capítulo Vermelha, e não doeu, da apostila de Urologia.
Esperado: Relação normal, que encerra a pergunta, ou relação alterada, que precisa ser confirmada antes de virar diagnóstico. Pela SBPC/ML, febre e exercício extenuante produzem proteinúria funcional, e a posição ereta prolongada produz proteinúria postural, que pode chegar a 1 g por dia.
Se não melhora: Proteinúria ou albuminúria persistente, confirmada por método quantitativo, é marcador de lesão renal e deixa de ser pergunta deste capítulo: o estadiamento e o encaminhamento são do capítulo O rim que não volta, e a proteinúria em faixa nefrótica, do capítulo O filtro que vaza e o filtro que inflama.
Esperado: Uma explicação nomeada: cultura suprimida por antibiótico prévio, infecção sexualmente transmissível, fármaco com sedimento sugestivo de nefrite intersticial, tuberculose, cálculo.
Se não melhora: Leucocitúria que persiste sem explicação depois dessas pesquisas deixa de ser pergunta de exame de urina: sedimento com cilindros e creatinina alterada vai ao capítulo Injúria renal aguda; hematúria associada, ao capítulo Vermelha, e não doeu; e a persistência isolada é motivo de avaliação especializada, que esta apostila não substitui.
Esperado: Bacteriúria persistente enquanto a sonda estiver lá, sem significado clínico e sem tratamento.
Se não melhora: Febre acima de 38 °C, dor suprapúbica ou dor lombar sem outra causa mudam a pergunta: a amostra é colhida de novo, pela porta e com a sonda trocada se a sondagem for longa, e a conduta é do capítulo Febre no paciente internado.
Onde o erro machuca
O dano: A bolsa coletora é um reservatório morno onde as bactérias da sonda se multiplicam, e o frasco fora da geladeira faz o mesmo em poucas horas. O laudo resultante traz contagem alta, várias espécies, nitrito produzido fora do corpo, pH alcalino e células degradadas — o retrato completo de uma infecção que pode não existir. Com ele na mão, o plantonista prescreve antibiótico de amplo espectro, e a investigação do delirium ou da febre para ali, porque a causa parece encontrada.
Como pegar a tempo: Pergunte como e quando a urina foi colhida antes de ler o primeiro número. Colha pela porta de coleta, com álcool 70%, e mande ao laboratório em até 1 hora ou refrigere a 4 °C. Laudo de urina de bolsa ou de amostra fora do prazo se registra como amostra inadequada, e não se interpreta.
O dano: Turvação e cheiro descrevem uma urina concentrada, alcalina ou parada, e não uma infecção. No nono dia de sonda, entre um quarto e metade dos pacientes já tem bacteriúria, e a cultura sai positiva com grande probabilidade. A SBPC/ML lembra o preço de tratar a bacteriúria assintomática do idoso: efeito adverso sem benefício, infecção por Clostridioides difficile e seleção de germes resistentes.
Como pegar a tempo: Transforme o pedido numa pergunta: há febre acima de 38 °C, dor suprapúbica ou lombar, sem outra causa? Se não há, não se colhe. A resposta útil para a urina turva do sondado é rever, naquele dia, se a sonda ainda precisa estar lá.
O dano: A cultura com três espécies em contagens parecidas é, pela nota técnica da Anvisa, grande probabilidade de contaminação. Tratá-la como três infecções leva ao esquema mais largo possível, escolhido para cobrir enterococo e enterobactérias ao mesmo tempo, num paciente que talvez não tenha infecção nenhuma — e que, se tiver, terá o germe verdadeiro escondido entre dois contaminantes.
Como pegar a tempo: Conte as espécies antes de olhar o antibiograma. Mais de duas, sem uma dominante, pede nova coleta com técnica correta se a pergunta ainda existir, e nenhum antibiótico escolhido a partir desse laudo.
O dano: Cada área da fita tem um ponto cego com consequência. A proteína negativa perde a cadeia leve que lesa o rim do idoso anêmico; a cetona negativa perde o beta-hidroxibutirato da cetoacidose de glicemia pouco elevada; o nitrito negativo perde a infecção por enterococo; a esterase negativa perde a leucocitúria do diabético com glicosúria acima de 2 g/dL ou do paciente em cefalexina.
Como pegar a tempo: Leia a fita pelo que ela é capaz de ver. Proteína se quantifica quando a suspeita existe; acidose se investiga com gasometria, não com fita; infecção sintomática com nitrito negativo continua na mesa; esterase negativa se confere no sedimento.
O dano: Doze mil hemácias por mL correspondem a cerca de três por campo, na geometria do método da SBPC/ML; lidas como número absoluto, parecem sangramento. No sentido oposto, quinze hemácias por campo são dezenas de milhares por mL, e um laboratório que informa por mL pode ter referência de até 10.000. A troca de unidade transforma achado limítrofe em hematúria importante, ou esconde uma hematúria verdadeira atrás de um número pequeno.
Como pegar a tempo: Leia a unidade antes do número e compare com a referência do mesmo laboratório. Para converter, um elemento por campo equivale a 3.200 a 4.800 por mL no sedimento padronizado; hematúria começa em três por campo ou acima do limite de referência do método quantitativo.
O dano: Cada ciclo de antibiótico sem cultura positiva suprime a cultura seguinte, alimenta a resistência e adia a pergunta certa. Enquanto isso, a clamídia, a tuberculose urinária e a nefrite intersticial por fármaco seguem sem nome. A SBPC/ML descreve exatamente essa trajetória na tuberculose renal: o diagnóstico só é lembrado depois da falha do tratamento usual, diante de piúria com cultura de rotina negativa.
Como pegar a tempo: Dê nome ao achado — leucocitúria estéril — e suspenda o antibiótico empírico. Pergunte pelo antibiótico em uso na coleta, investigue infecção sexualmente transmissível, peça cultura para micobactérias com a amostra própria e revise a lista de fármacos com o sedimento e a creatinina.
O que dizer ao paciente e à família
A conversa sobre exame de urina é, na maior parte das vezes, a explicação de uma decisão de não fazer — não colher, não tratar, não repetir — para alguém que viu uma urina turva, um resultado marcado ou um frasco devolvido. Por isso ela precisa dizer o que seria diferente: qual sinal mudaria a decisão, e o que a pessoa deve avisar. As falas abaixo são modelos, não roteiros, e duas delas são com a equipe, porque metade dos laudos inválidos nasce de uma orientação que ninguém deu à enfermagem.
Filha de um paciente sondado que viu a urina turva na bolsa e pergunta por que ninguém vai tratar a infecção
“A urina que fica na bolsa costuma ficar turva e com cheiro, porque ela passa muitas horas parada ali e a sonda sempre leva algumas bactérias para dentro. Isso acontece com quase todo mundo que usa sonda por vários dias, e sozinho não quer dizer que seu pai esteja com infecção. O que me faria pensar em infecção é febre, dor embaixo da barriga ou nas costas, e eu estou olhando isso todos os dias. Se aparecer, eu colho a urina do jeito certo, pela sonda e não pela bolsa, e decido na hora. Enquanto não aparece, o antibiótico traria mais risco do que ajuda. O que mais protege ele agora é tirar a sonda assim que ela não for necessária, e isso a gente revê todo dia.”
Não diga: Isso é normal, não é nada. A frase encerra a preocupação sem dizer o que seria anormal, e a família para de avisar justamente quando a febre aparece.
Paciente que precisa colher a urina de novo porque a primeira amostra veio contaminada
“O resultado da sua urina não pôde ser lido, e o problema não está no seu rim: a amostra pegou, no caminho, bactérias da pele e da região genital que vivem em todo mundo, e o laboratório encontrou uma mistura que não diz nada sobre a sua bexiga. Não é culpa sua; quase ninguém explica como colher. Vou te mostrar agora, passo a passo, e a gente colhe amanhã cedo, com a primeira urina da manhã, que é a que dá o resultado mais confiável.”
Não diga: Você colheu errado, vai ter que repetir. A frase culpa o paciente por uma orientação que a equipe não deu, e não ensina nada para a segunda coleta.
Explicar a coleta de jato médio a uma mulher internada que vai colher sozinha no banheiro
“Primeiro lave bem as mãos. Lave a região genital com água e sabão, sem usar álcool nem outro antisséptico, e seque. Abra o potinho sem tocar na parte de dentro da tampa. Com uma das mãos, afaste bem os lábios da vagina e mantenha afastados até o fim. Comece a urinar no vaso e deixe o primeiro jato ir embora; sem parar de urinar, coloque o potinho no jato e encha até mais ou menos a metade; termine de urinar no vaso. Feche o potinho e me avise na hora, que ele precisa chegar ao laboratório logo. Se você estiver menstruada, me diga antes, porque isso muda o que eu faço com o exame.”
Não diga: É só fazer xixi no potinho. A instrução resumida é a origem das culturas mistas e das hemácias de contaminação que depois precisam ser explicadas.
Paciente sem queixa urinária que pede um exame de urina de rotina antes da alta
“Eu entendo a vontade de sair daqui com tudo conferido. Esse exame é bom para responder uma pergunta, e hoje você não tem nenhum sintoma de urina que precise de resposta. Se ele viesse com alguma bactéria, eu não trataria, porque bactéria na urina sem sintoma não faz mal e o antibiótico faz; se viesse normal, também não mudaria nada na sua alta. O que eu quero que você saiba é quando procurar: ardência forte para urinar, febre, dor nas costas ou sangue na urina. Aí o exame passa a ter uma pergunta.”
Não diga: Não precisa. A recusa sem explicação soa como descaso, e o paciente pede o exame em outro serviço, onde o resultado vira receita.
Mulher com leucócitos na urina, três ciclos de antibiótico e culturas negativas, que pergunta por que agora não vai sair com outro
“Você já tomou três antibióticos e nenhuma cultura encontrou bactéria. Isso quer dizer que os leucócitos na sua urina provavelmente não vêm da infecção comum que esses remédios tratam, e um quarto antibiótico só ia esconder de novo a resposta. Existem outras causas, e algumas precisam de exames próprios. Vou te fazer umas perguntas mais pessoais, que faço a todas as pacientes nessa situação, sobre relações e parcerias, porque algumas infecções transmitidas assim causam exatamente isso e não aparecem na cultura comum. E vou pedir um exame diferente de urina, colhido em alguns dias seguidos com a primeira urina da manhã inteira, para uma bactéria que cresce devagar. Eu te explico cada passo.”
Não diga: Deve ser uma bactéria resistente, vamos trocar o antibiótico. A frase oferece a explicação que as culturas já negaram e empurra o diagnóstico real para o quarto ciclo.
Técnica de enfermagem que avisa que vai colher a urocultura do sondado pela bolsa, porque o tubo junto à porta de coleta está vazio
“Pela bolsa não serve para cultura: a urina ali ficou horas parada e as bactérias se multiplicaram, e o resultado vai dizer que ele tem infecção mesmo que não tenha. Vamos pela porta de coleta, com álcool 70%. Como o tubo está vazio, a gente dobra o tubo abaixo da porta só pelos minutos necessários para a urina chegar até ali, eu fico junto, e soltamos assim que tirarmos o pouco que a cultura precisa — sem deixar a sonda fechada por uma ou duas horas. E a amostra vai direto para o laboratório; se o transporte não vier agora, fica na geladeira, anotada com a hora.”
Não diga: Pode pegar da bolsa mesmo, é tudo a mesma urina. A frase produz o laudo que abre este capítulo, e ensina à equipe que o atalho é aceitável.
Paciente em uso de dapagliflozina assustado com glicose quatro cruzes no exame de urina
“Esse remédio que o senhor usa para o diabetes funciona justamente fazendo o rim soltar açúcar na urina. Por isso o exame vem com muito açúcar, mesmo com a glicose do sangue boa — a sua de hoje de manhã estava 128. Não é sinal de que o diabetes piorou nem de que o remédio está fazendo mal. O que eu peço é outra coisa: se o senhor tiver vômitos, não conseguir comer, sentir falta de ar ou uma fraqueza fora do comum enquanto usa esse remédio, avise na hora, porque essa situação eu preciso examinar com exame de sangue, e não com exame de urina.”
Não diga: O seu diabetes descompensou. A frase transforma o efeito esperado do remédio em diagnóstico e pode levar à suspensão de um tratamento que está funcionando.
Onde bons médicos discordam
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.
Glomerular com 40% ou mais de dismórficas, ou 5% ou mais de acantócitos — SBPC/ML, recomendações para exames em urina, 2017
A recomendação descreve o método: preferencialmente a segunda urina da manhã, pelo menos uma hemácia por campo para permitir a análise, cem hemácias classificadas como dismórficas ou isomórficas e pesquisa de cilindros hemáticos em 50 campos de pequeno aumento. Para chamar a hematúria de glomerular, usa três critérios da literatura: 40% ou mais de hemácias dismórficas, 5% ou mais de acantócitos ou células G1, ou cilindros eritrocitários. Como o padrão pode variar, recomenda analisar três amostras em poucas semanas e considerar glomerular quando pelo menos duas delas preenchem o critério. A mesma recomendação registra os limites: não há critério definitivo, a reprodutibilidade entre observadores é baixa, e a doença glomerular pode produzir hemácias de aspecto normal.
Sociedade Brasileira de Patologia Clínica/Medicina Laboratorial. Recomendações da SBPC/ML: realização de exames em urina. Barueri: Manole; 2017. Capítulo 8, pesquisa de dismorfismo eritrocitário.
Glomerular acima de 70%, não glomerular abaixo de 30%, indeterminada entre 30% e 70% — TelessaúdeRS-UFRGS e SES-RS, protocolo de regulação em urologia, revisão de 2023
O protocolo de regulação ambulatorial em urologia do adulto, escrito para decidir quem é encaminhado e para onde, registra que há laboratórios que informam o percentual de dismorfismo e diz como lê-lo: mais de 70% sugere origem tipicamente glomerular; menos de 30%, origem tipicamente não glomerular; entre 30% e 70%, origem indeterminada, com indicação de avaliar o paciente na urologia e também na nefrologia. O mesmo protocolo define a hematúria microscópica por três ou mais hemácias por campo na microscopia, ou pelo limite de referência quando o método for quantitativo.
TelessaúdeRS-UFRGS; Rio Grande do Sul, Secretaria Estadual da Saúde. Protocolos de Regulação Ambulatorial — Urologia Adulto, versão digital 2023 (revisão de 23/02/2023). Protocolo 8, Hematúria, notas.
O primeiro degrau decide. O paciente à frente é o adulto com hematúria cujo destino — urologia, nefrologia ou as duas — precisa ser escolhido, e o documento escrito para essa escolha é o protocolo de regulação; ele é também o mais novo, de 2023 contra 2017, e é norma estadual contra recomendação de sociedade. Esta apostila adota a régua de 30% e 70% para decidir o destino, a mesma do capítulo Vermelha, e não doeu. A régua da SBPC/ML não desaparece: é a que o laboratório pode estar usando quando escreve padrão glomerular no laudo. Na leitura, isso tem uma consequência prática — diante de um laudo com 40% a 70% de dismórficas chamado de glomerular, leia o número e não a palavra: para o encaminhamento, essa é a faixa indeterminada, e o paciente vai aos dois especialistas. Acantócitos e cilindro hemático continuam apontando para o glomérulo. E um laudo sem percentual e sem menção a dismorfismo não é dismorfismo negativo, pelo defeito de unidade contado em criterio.notas.
Fechar a sonda por 1 hora, no máximo 2, e aspirar 30 a 60 mL — SBPC/ML, recomendações para exames em urina, 2017
Na seção de coleta de urina do paciente com sonda vesical de demora, a recomendação manda manter a sonda fechada por uma hora e, no máximo, por duas horas antes de colher; fazer assepsia do dispositivo com álcool 70%; colher de 30 a 60 mL com agulha e seringa estéreis; e nunca usar a urina contida na bolsa coletora.
Sociedade Brasileira de Patologia Clínica/Medicina Laboratorial. Recomendações da SBPC/ML: realização de exames em urina. Barueri: Manole; 2017. Capítulo 4, coleta de urina de paciente com sonda vesical de demora.
Colher pela porta de coleta, sem fechamento previsto, com fluxo urinário contínuo — Anvisa, protocolo de prevenção de ITU associada a cateter vesical, versão 1, 2025
O protocolo descreve a coleta de urina para exame com técnica asséptica, desinfecção da porta de coleta com álcool 70% antes da aspiração com seringa e agulha estéreis, de preferência sem corte, e envio imediato da amostra ao laboratório para cultura; para exame de grande volume, como a proteinúria de 24 horas, admite o bico de drenagem da bolsa. Não prevê fechar a sonda antes da coleta, e nas medidas de manutenção manda manter o sistema fechado e garantir fluxo urinário contínuo e desobstruído, sem dobras no cateter e no sistema de drenagem.
Brasil. Anvisa. Protocolo para a prevenção de infecção do trato urinário relacionada ao uso de cateter vesical de demora (ITU-AC), versão 1. Brasília: Anvisa; 2025. Medidas de manutenção e coleta de urina para exame.
O escopo empata: os dois documentos falam da amostra do mesmo paciente, o que tem sonda de demora. A data desempata — 2025 contra 2017 — e a natureza confirma, protocolo da agência federal contra recomendação de sociedade. Esta apostila adota a Anvisa: a urina se colhe pela porta de coleta, sem fechar a sonda por uma a duas horas, porque o fechamento prolongado é exatamente a obstrução do fluxo que o protocolo em vigor manda evitar, num paciente que frequentemente não consegue avisar desconforto. O volume não justifica o fechamento longo: o sedimento padronizado usa 10 mL e a urocultura semeia de 1 a 10 µL. Quando o segmento junto à porta estiver vazio, esta apostila admite ocluir o tubo logo abaixo da porta apenas pelo tempo de acumular os poucos mililitros necessários — minutos, com alguém ao lado — e reconhece que essa é uma escolha dela, e não de nenhum dos dois documentos.
A partir de 10^3 UFC/mL de um ou mais agentes, no sondado sintomático — SBPC/ML, recomendações para exames em urina, 2017
No capítulo sobre síndromes bacterianas, a recomendação afirma que, em pacientes sondados, o encontro de um ou mais agentes com contagens a partir de 10^3 UFC/mL indica bacteriúria significativa quando há sintomas, e o fluxo de trabalho que sugere para amostras invasivas trabalha a partir do mesmo corte. Acrescenta que, na sondagem de longa duração, a sonda deve ser trocada e a urina colhida da nova antes do antibiótico, que a urina da bolsa nunca serve e que, no sondado, a piúria não diferencia colonização de infecção.
Sociedade Brasileira de Patologia Clínica/Medicina Laboratorial. Recomendações da SBPC/ML: realização de exames em urina. Barueri: Manole; 2017. Capítulo 19, utilização do exame de urina nas síndromes bacterianas e fúngicas.
10^5 UFC/mL em pelo menos uma espécie, com no máximo duas espécies bacterianas, Candida excluída — Anvisa, Nota Técnica nº 03/2026, critério de notificação
O critério nacional de infecção urinária associada a cateter vesical exige cateter por mais de dois dias de calendário, um sinal ou sintoma sem outra causa reconhecida e urocultura com no máximo duas espécies bacterianas, com contagem igual ou superior a 10^5 UFC/mL de pelo menos uma. As observações do critério excluem Candida, leveduras não especificadas, fungos dimórficos e parasitas, consideram provável contaminação a cultura com mais de duas espécies e mandam desconsiderar, do ponto de vista epidemiológico, a bactéria sem clínica. O texto declara que a exclusão dos fungos vale do ponto de vista da vigilância.
Brasil. Anvisa. Nota Técnica GVIMS/GGTES/DIRE3/Anvisa nº 03/2026 — Critérios Diagnósticos das Infecções Relacionadas à Assistência à Saúde de Notificação Nacional Obrigatória, ano 2026. Critério de ITU-AC e observações.
O primeiro degrau resolve, porque as duas regras não foram escritas para o mesmo ato. A nota técnica é a régua com que o hospital conta e notifica infecções, e ela precisa ser igual em todo o país para que as taxas se comparem; a SBPC/ML trata da leitura do exame de um paciente. Para decidir se a urina do sondado com febre e sem outro foco mostra bacteriúria significativa, vale a régua escrita para esse paciente: esta apostila adota 10^3 UFC/mL de um uropatógeno, em amostra colhida pela porta de coleta e com a sonda trocada se a sondagem for longa, como contagem significativa para a leitura clínica; o 10^5 com até duas espécies continua sendo o critério com que a comissão de controle de infecção notifica. A consequência na leitura é concreta — 5 x 10^4 UFC/mL de Klebsiella pneumoniae num sondado febril sem outro foco não é urocultura negativa. A decisão de tratar, e com quê, é do capítulo Febre no paciente internado. A candidúria fica fora das duas leituras de infecção bacteriana: a nota técnica a exclui do critério, e a SBPC/ML não reconhece critério de contagem para Candida.
O raciocínio, em voz alta
Volte ao senhor Lucindo Beltrão, 79 anos, no nono dia de internação por acidente vascular cerebral isquêmico, com sonda vesical de demora desde a admissão por retenção urinária. Há duas noites ficou agitado; às dez da noite a técnica de enfermagem encheu um frasco com a urina da bolsa coletora, que estava turva e com cheiro forte, e o frasco ficou no posto até a coleta do laboratório, às seis da manhã, fora da geladeira. Urina tipo I: turva, densidade 1,024, pH 8,0, proteína traços, hemoglobina uma cruz, nitrito positivo, esterase duas cruzes; sedimento com 68.000 leucócitos por mL (referência do laboratório até 10.000), 12.000 hemácias por mL, bactérias numerosas e cristais de fosfato amoníaco-magnesiano. Urocultura: acima de 100.000 UFC/mL, com Escherichia coli, Proteus mirabilis e Enterococcus faecalis, antibiograma liberado para as duas primeiras. Afebril desde a admissão, pressão de 134 por 80, frequência cardíaca de 82, saturação de 95% em ar ambiente, leucócitos de 9.600. Não evacua há quatro dias. Dormiu bem na última noite, depois que a enfermagem desfez uma tração e uma dobra da sonda sob a coxa. A evolução do plantão diz: infecção urinária associada a sonda, considerar ceftriaxona.
passo 0 — a amostra: de onde saiu e quanto tempo esperou
A leitura para aqui antes de começar. A urina saiu da bolsa coletora, que a SBPC/ML e a Anvisa excluem como amostra para cultura, e esperou cerca de oito horas em temperatura ambiente, contra o prazo de 1 hora para a urocultura e de 2 horas para a urina tipo I. Com essas duas falhas, a contagem de colônias, o nitrito, o pH e as células não descrevem a bexiga do senhor Lucindo: descrevem a bolsa e o balcão. O resto do laudo se lê só para mostrar que ele tem a assinatura dessa origem, e não para tirar conclusão sobre o paciente.
passo 1 — aspecto, densidade e pH: a assinatura da urina parada
Urina de bolsa envelhecida pode ter multiplicação bacteriana, alcalinização e formação de cristais. Proteus produz urease e favorece alcalinização/estruvita, sem que isso prove infecção sintomática. Densidade 1,024 descreve a amostra, mas ficar na bolsa não demonstra que houve concentração por evaporação; não inferir hidratação do paciente a partir desta coleta inadequada.
passo 2 — a fita: nitrito, esterase e hemoglobina
Nitrito positivo pode ter sido influenciado por multiplicação no sistema/frascos. Esterase e hemácias refletem material presente na amostra, sem localizar sua origem. Contagens por mL ou µL não se convertem universalmente em células por campo. A relação depende de centrifugação, ressuspensão, área do campo e plataforma; usar referência validada para o método informado. Não aplicar corte por campo a uma estimativa obtida de outro sistema. Tração do cateter pode causar sangramento, mas não deve explicar automaticamente hematúria persistente em amostra adequada após resolver o trauma.
passo 3 — o sedimento e a unidade
Leucócitos 68.000/mL estão acima da referência deste método, mas piúria em sondado não distingue colonização de infecção e a coleta é inadequada. Bactérias no sedimento também não definem necessidade de antibiótico. Contagens por mL ou µL não se convertem universalmente em células por campo. A relação depende de centrifugação, ressuspensão, área do campo e plataforma; usar referência validada para o método informado. Não aplicar corte por campo a uma estimativa obtida de outro sistema.
passo 4 — a urocultura: três espécies em contagem alta
Três espécies acima de cem mil é, pela nota técnica da Anvisa, grande probabilidade de contaminação, e a SBPC/ML manda seguir cultura mista sugestiva de contaminação com nova coleta. A contagem, numa amostra que passou oito horas fora da geladeira, não mede quantas bactérias havia no momento da coleta. O antibiograma liberado para dois dos três germes é uma decisão do fluxo do laboratório, e não um indício de que esses dois sejam os verdadeiros. O laudo não autoriza escolher antibiótico — nem o que cobre os três, nem o que cobre os dois.
passo 5 — o critério que o paciente não preenche
Lucindo não apresenta sinais urinários ou sistêmicos que sustentem ITU no momento. Delirium isolado em idoso com bacteriúria não autoriza antibiótico; avaliar causas e observar evolução. Critérios de vigilância não excluem toda apresentação clínica: instabilidade, febre nova ou outros sinais sem foco exigem nova avaliação. Aqui a qualidade da amostra e o quadro atual não justificam ceftriaxona.
passo 6 — a pergunta que sobrou: a noite de agitação
O que motivou o exame foi uma noite de agitação num idoso com lesão cerebral recente, e não um sintoma urinário. O protocolo de Belo Horizonte, com recomendação forte, desaconselha usar o exame de urina como rastreio de infecção no idoso frágil em delirium: nesses pacientes a bactéria na urina costuma ser só bacteriúria assintomática, e o delirium tem várias causas ao mesmo tempo. No senhor Lucindo, a noite ruim coincide com uma sonda tracionada e dobrada — dor e retenção — e com quatro dias sem evacuar, e melhorou quando a sonda foi reposicionada. A investigação do delirium é do capítulo Delirium no paciente internado; o que este capítulo acrescenta é que o exame de urina não fazia parte dela sem sintoma urinário nem febre.
passo 7 — a saída, escrita na evolução
A saída é a primeira das quatro: amostra que não responde, e pergunta que não existe. Na evolução: urina tipo I e urocultura colhidas da bolsa coletora e processadas cerca de oito horas após a coleta, sem refrigeração, com cultura de três espécies — amostra inadequada, não interpretada; paciente afebril, sem dor suprapúbica ou lombar e com leucograma normal, sem critério de infecção urinária associada a cateter; sem indicação de antibiótico. Condutas: rever hoje a indicação da sonda; tratar a constipação; manter a investigação do delirium. Se surgir febre acima de 38 °C ou dor suprapúbica ou lombar sem outro foco, colher urocultura pela porta de coleta, antes do antibiótico, e seguir o capítulo Febre no paciente internado — a decisão de troca considera duração, obstrução, integridade e necessidade; nove dias não impede troca se houver indicação. E, na passagem de plantão, uma frase para a equipe: urina da bolsa não vai para o laboratório.
Faça você
Agora o leito 17, na mesma manhã. Dona Dinorah Paurilio tem 38 anos e está no quarto dia de internação por uma crise de asma, já controlada com broncodilatador e corticoide, sem antibiótico. Na anamnese de admissão ela contou outra história, que ninguém retomou: há cinco meses tem ardência para urinar e aumento da frequência urinária, e nesse período recebeu três tratamentos para infecção urinária em pronto-atendimento e unidade básica — nitrofurantoína, depois norfloxacino, depois cefalexina, o último encerrado há três semanas —, sempre com melhora parcial e retorno dos sintomas. Duas uroculturas, colhidas antes do segundo e do terceiro tratamentos, foram negativas. Tem um parceiro novo há seis meses. Refere suor noturno algumas vezes por semana e acha que emagreceu, sem ter se pesado. Usa omeprazol há um ano. Não está menstruada. Ontem colheu, com orientação da enfermagem, o jato médio da primeira urina da manhã, que chegou ao laboratório em 40 minutos. Urina tipo I: límpida, densidade 1,016, pH 5,5, proteína traços, hemoglobina uma cruz, nitrito negativo, esterase duas cruzes; sedimento com 85.000 leucócitos por mL (referência do laboratório até 10.000), 18.000 hemácias por mL, raras células epiteliais escamosas, sem cilindros e sem bactérias. Urocultura: negativa, com crescimento abaixo de 1.000 UFC/mL — a terceira cultura negativa no prontuário dela. Creatinina de 0,8 mg/dL. O residente sugere ciprofloxacino, já que a nitrofurantoína, o norfloxacino e a cefalexina falharam.
passos 0 e 1 — a amostra, e por que esta cultura negativa vale
Amostra de jato médio com transporte rápido e sem antibiótico há três semanas é mais confiável que urina de bolsa. Raras células escamosas não provam ausência de contaminação; densidade 1,016 não elimina todos os interferentes. Três culturas negativas bem obtidas tornam ITU bacteriana habitual menos provável e justificam outro caminho diagnóstico, sem excluir toda infecção.
passos 2 e 3 — a fita contra o sedimento, na unidade certa
Esterase e leucócitos 85.000/mL apoiam leucocitúria; cultura negativa repetida configura piúria estéril no sentido da cultura de rotina. Nitrito negativo não exclui enterobactérias, e ausência de bactérias na microscopia não prova esterilidade. Hemácias 18.000/mL exigem leitura pela referência do método, sem conversão automática para 4–6 por campo. Investigar persistência em amostra adequada e causas que também explicam os sintomas.
passo 4 e a pergunta — a lista que a cultura comum não enxerga
A SBPC/ML lista causas infecciosas de piúria estéril que o exame de rotina não contempla — clamídia, ureaplasma, fungos sistêmicos, tuberculose, leptospirose — e causas não infecciosas do próprio rim e das vias urinárias, como nefrite intersticial, glomerulopatias e cálculo. Dona Dinorah tem, na própria anamnese, uma pista para cada um de dois ramos da lista. Complete: quais são as duas pistas, que exame cada uma pede e com que amostra, e o que deve ser escrito na evolução hoje?
Ver como fecharíamos
O achado se chama leucocitúria estéril, e ele é o problema principal da urina de dona Dinorah — não uma infecção urinária resistente. Ciprofloxacino não entra: três antibióticos de classes diferentes falharam e três culturas colhidas fora de antibiótico foram negativas, o que torna menos provável uma ITU bacteriana habitual e pede investigação alternativa, sem excluir todos os agentes ou condições de baixa contagem; um quarto ciclo apenas suprimiria a próxima cultura e adiaria o diagnóstico. A primeira pista é o parceiro novo há seis meses, com disúria desde então: a clamídia está na lista da SBPC/ML de causas de piúria estéril que a cultura comum não detecta. A pergunta sobre a vida sexual é feita com privacidade, como parte da rotina de toda paciente nessa situação, e a pesquisa e a conduta da infecção, incluindo o parceiro, são do capítulo Cervicite por gonococo e clamídia, da apostila de Ginecologia. A segunda pista é o conjunto de suor noturno e emagrecimento com piúria, hematúria microscópica, pH ácido e culturas negativas depois da falha do tratamento usual: é a trajetória que a SBPC/ML descreve para a tuberculose renal, cuja tríade antiga de hematúria, piúria asséptica e urina ácida hoje tem valor relativo — sugere, não fecha. A pesquisa pede amostra própria, que uma urina tipo I repetida nunca substitui: pela orientação que a SBPC/ML reproduz do manual laboratorial do Ministério da Saúde, cultura para micobactérias em no mínimo três e no máximo seis amostras, em dias consecutivos, com todo o volume da primeira micção da manhã e pelo menos 40 mL em cada. Os sintomas gerais levam também à avaliação de tuberculose em outros sítios, e o tratamento, se o diagnóstico se confirmar, é do capítulo Tuberculose: a pergunta que ninguém faz, da apostila de Infectologia. O ramo não infeccioso não se esquece, mas os dados o tornam menos provável agora: creatinina preservada torna lesão renal clinicamente importante menos provável, mas ausência de cilindros não exclui nefrite intersticial, embora o omeprazol de uso contínuo fique anotado na revisão de fármacos; se a creatinina subir ou aparecerem cilindros leucocitários, a leitura passa ao capítulo Injúria renal aguda. A presença de hemácias deve ser interpretada na unidade e referência do laboratório e, se anormal, confirmada após excluir causas transitórias e segue a régua do capítulo Vermelha, e não doeu, sem perder de vista que a tuberculose urinária também sangra. A evolução de hoje registra: amostra adequada, jato médio da primeira urina da manhã, processada em 40 minutos, três semanas depois do último antibiótico; leucocitúria estéril, com a terceira urocultura negativa, e hematúria microscópica; sem indicação de antibiótico empírico; conduta — anamnese sexual e pesquisa de clamídia, cultura para micobactérias em amostras próprias, revisão de fármacos, creatinina e sedimento de controle, e confirmação da hematúria. E a conversa com ela começa pelo reconhecimento de que cinco meses de ardência e três tratamentos sem resposta são um problema real, que agora vai ser investigado pelo caminho certo.
A pesquisa de micobactérias na urina não usa a amostra da urina de rotina nem a da urocultura. A SBPC/ML reproduz a orientação do manual laboratorial do Ministério da Saúde: no mínimo três e no máximo seis amostras, em dias consecutivos, com todo o volume da primeira micção da manhã e pelo menos 40 mL em cada, para aumentar a sensibilidade. A mesma recomendação descreve a trajetória desta paciente — sintomas de cistite, falha do tratamento usual, piúria com cultura de rotina negativa — como o momento em que a tuberculose renal passa a ser lembrada, e registra que a tríade de hematúria, piúria asséptica e urina ácida tem hoje valor relativo. Repetir urocultura comum não investiga micobactéria. Confirmado o diagnóstico, o tratamento é o do capítulo Tuberculose: a pergunta que ninguém faz.
Teste-se
Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.
Plano de revisão
Em 7 dias
Compare Lucindo e Dinorah, explicando por que nenhum precisa automaticamente de outro antibiótico e qual investigação é útil para cada um.
Em 30 dias
Resolva as discordâncias fita/sedimento: heme sem hemácias, proteína negativa com suspeita de mieloma e cetona discreta em usuário de SGLT2.
Agora atenda
Agora atenda: mulher de 72 anos, com sonda vesical de demora há 18 dias por retenção urinária depois de uma cirurgia de quadril, com febre de 38,6 °C desde a madrugada. Não tem tosse, a ferida operatória está limpa, não há diarreia e o acesso venoso periférico foi trocado ontem. A enfermagem traz uma urocultura colhida da bolsa coletora ontem à tarde, com 40.000 UFC/mL de Klebsiella pneumoniae, e pergunta se começa o antibiótico que o plantão anterior deixou sugerido. Conduza o atendimento: decida o que esse laudo vale e diga por quê; colha a amostra certa, do jeito certo e na ordem certa em relação ao antibiótico, considerando o tempo de sonda; peça o que falta para uma febre sem foco evidente; explique à filha, que acompanha, por que a cultura de ontem não serve; e escreva a evolução com a adequação da amostra e a contagem que tornaria significativo o resultado da nova cultura.
