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Clínica MédicaNefrologia

Do outro lado da porta da diálise

Indicações de diálise e manejo da uremia

Preparar a terapia renal substitutiva, reconhecer a uremia, decidir quando começar e quando não começar — e receber no pronto-socorro quem já dialisa

Fontes deste capítulo

Brasil. Ministério da Saúde. Portaria de Consolidação GM/MS nº 3, de 28 de setembro de 2017, Anexo IV, Capítulo III (arts. 59 a 94), na redação dada pela Portaria GM/MS nº 1.675, de 7 de junho de 2018, e pela Portaria GM/MS nº 3.415, de 22 de outubro de 2018 — critérios para a organização e o funcionamento do cuidado da pessoa com doença renal crônica no SUS. Texto compilado, Saúde Legis.

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Especializada e Temática. Diretrizes Clínicas para o Cuidado ao Paciente com Doença Renal Crônica (DRC) no Sistema Único de Saúde. Brasília: Ministério da Saúde, 2014. 37 p.

Brasil. Ministério da Saúde. Portaria GM/MS nº 8.041, de 25 de setembro de 2025. Regulamento Técnico do Sistema Nacional de Transplantes. Diário Oficial da União, republicada em 21 de janeiro de 2026, ed. 14, seção 1, p. 78.

Samaan F, Gorayeb-Polacchini FS, Brabo AM, Fraxino PH, Ferraz FH, Cabeça ALLCR, Santos Neto RS, Abreu PF, Moura-Neto JA. Recomendações da Sociedade Brasileira de Nefrologia para regulação de acesso à diálise ambulatorial no Sistema Único de Saúde. Brazilian Journal of Nephrology, 2026;48(1):e20250261. doi: 10.1590/2175-8239-JBN-2025-0261pt.

Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Resolução da Diretoria Colegiada RDC nº 11, de 13 de março de 2014. Dispõe sobre os requisitos de boas práticas de funcionamento para os serviços de diálise. Diário Oficial da União, 14 de março de 2014.

01

Responda antes de ler

Homem de 61 anos, em hemodiálise às segundas, quartas e sextas por fístula arteriovenosa no punho esquerdo, chega ao pronto-socorro na terça às 5h30 com dispneia. A última sessão foi na sexta; na segunda, o transporte do município não passou. Está 4,6 kg acima do peso seco, com estertores em bases, potássio de 7,0 mmol/L e onda T apiculada no eletrocardiograma. A técnica de enfermagem colocou o manguito do monitor no braço esquerdo. Qual é a conduta mais adequada na primeira hora?

02

O paciente que você vai ver

Terça-feira, seis e cinquenta da manhã, pronto-socorro de um hospital regional que recebe quatro municípios. A passagem de plantão é feita em pé, no corredor, e o médico da noite resume em poucas frases três pacientes que parecem não ter nada em comum. Você é o interno que fica com os três.

No box 3 está Nazareno Toledo, 61 anos, hipertenso e diabético, em hemodiálise há três anos, às segundas, quartas e sextas, por uma fístula no punho esquerdo. A última sessão foi na sexta de manhã. Na segunda-feira a van da prefeitura não passou; ele esperou no portão até as dez e desistiu. Chegou às cinco e meia sem conseguir deitar, com 4,6 quilos acima do peso seco que sabe de cor, e o laboratório acabou de ligar para avisar um potássio de 7,0 mmol/L. A técnica de enfermagem está enrolando o manguito do monitor no braço esquerdo, porque é o que fica do lado da parede, e alguém da noite deixou separado um garrote para colher sangue “naquela veia grossa do antebraço”.

No corredor, numa maca encostada à parede, Aderbal Umarizal, 54 anos, pedreiro, trazido pela filha. Há duas semanas vomita quase tudo o que come, coça as pernas até sangrar, soluça há três dias e, desde ontem, responde devagar e troca o nome da neta. Não vai ao médico há mais de dez anos; sabia que tinha pressão alta e nunca tomou remédio. Ureia de 312 mg/dL, creatinina de 16,8 mg/dL, hemoglobina de 7,1 g/dL. A ultrassonografia da madrugada mediu rins de 7,8 e 8,1 centímetros, com o córtex fino. O plantonista escreveu “insuficiência renal aguda? desidratação?” e deixou correndo o segundo litro de soro fisiológico.

Na sala de observação, Sandália Jucurutu, 38 anos, faz diálise peritoneal em casa há catorze meses. Veio de madrugada com dor na barriga e trouxe, numa sacola de supermercado, a bolsa da última troca: o líquido está turvo como água de arroz. A radiografia de abdome pedida na triagem mostrou ar embaixo do diafragma, e o residente da cirurgia já passou, examinou e disse que volta às oito para conversar sobre centro cirúrgico.

Os três estão do mesmo lado de uma porta que o curso quase não atravessa. As aulas de nefrologia costumam parar na porta da terapia renal substitutiva: ensinam a estadiar a doença renal crônica, a proteger o rim que resta e a reconhecer a urgência dialítica. O que acontece com quem já atravessou — ou está atravessando agora, pela porta errada, às duas da manhã — fica para a equipe da diálise. Só que a equipe da diálise não está no pronto-socorro às sete da manhã de uma terça-feira. Você está.

Nazareno perdeu uma sessão e tem potássio e volume demais. Aderbal está começando a diálise sem nunca ter sido preparado para ela, e quase ninguém preparou nada por ele. Sandália tem uma peritonite que não é a do cirurgião. Nos três há um gesto de dois minutos que protege o paciente — tirar o manguito do braço da fístula, fechar o soro, colher o líquido antes do antibiótico — e há um gesto que parece prudente e machuca.

Este capítulo assume o que vem depois da porta: o preparo da terapia renal substitutiva na doença renal crônica — a escolha entre hemodiálise, diálise peritoneal, transplante e cuidado conservador sem diálise, o acesso, o momento de começar —, a síndrome urêmica como quadro clínico, o paciente em diálise que chega ao pronto-socorro ou à enfermaria e o caminho do SUS até a vaga e até a lista de transplante. Cede a indicação de diálise de urgência e as doses da hipercalemia ao capítulo Injúria renal aguda: pré-renal, renal e pós-renal; o estadiamento, a nefroproteção e as vacinas ao capítulo Doença renal crônica: estadiamento e manejo; o potássio da enfermaria ao capítulo Potássio: hipo e hipercalemia na enfermaria; a pericardite ao capítulo Pericardite aguda e tamponamento cardíaco; a endocardite ao capítulo Endocardite infecciosa: critérios de Duke e profilaxia; a instalação do cateter ao capítulo Acesso venoso central: indicação, sítios e o que dá errado; a dose de cada fármaco ao capítulo Ajuste de dose na disfunção renal e hepática; a peritonite que nasce de víscera perfurada ao capítulo Peritonite secundária e abscesso intra-abdominal; o controle de sintomas no fim da vida ao capítulo Cuidados paliativos e manejo da dor oncológica. E assume, declarando que assumiu porque não havia dono no nível, a peritonite da diálise peritoneal, a infecção do cateter de hemodiálise e as complicações do braço da fístula.

03

Quem adoece disso

O Brasil tem a quarta maior população em diálise crônica do mundo e está entre os dez países com maior incidência de pessoas nessa condição, segundo as Recomendações da Sociedade Brasileira de Nefrologia para regulação de acesso à diálise ambulatorial no SUS, publicadas em 2026. O mesmo documento mostra o motor dessa fila: em três décadas, a prevalência de hipertensão em adultos brasileiros subiu de 21% para 28%, a de diabetes de 5% para 9% e a de obesidade de 11% para 23%, enquanto a fração da população com 60 anos ou mais foi de 9% para 13%. A fila cresce pelas duas pontas — mais gente adoece do rim, e mais gente vive o bastante para chegar ao fim dele.

O documento registra também o dado que explica o corredor da cena: no Brasil, o início da terapia renal substitutiva se dá majoritariamente de forma não planejada, durante internação de urgência. Quem começa assim começa por cateter venoso, sem ter escolhido modalidade, sem fístula e sem ter ouvido falar de transplante. Mesmo quem fazia acompanhamento pré-dialítico e já tinha pedido eletivo de vaga pode descompensar enquanto espera. E as recomendações dizem com todas as letras que o paciente internado apenas à espera de vaga de diálise ambulatorial corre alto risco de desnutrição, infecção hospitalar, internação prolongada e morte — além de ocupar um leito que outro doente precisa.

O acesso vascular é onde a falta de preparo cobra primeiro. As diretrizes de acesso vascular para hemodiálise da Sociedade Brasileira de Angiologia e de Cirurgia Vascular, de 2023, estimam que o risco de bacteremia com cateter venoso é dez vezes maior do que com fístula nativa, e que estafilococos — coagulase-negativos e aureus — respondem por 40% a 80% dessas infecções. A fístula, por sua vez, não fica pronta no dia em que é feita: amadurece em quatro a doze semanas, a maioria pode ser puncionada entre seis e oito, e uma parte não amadurece nunca. Num estudo multicêntrico citado pela diretriz, a trombose precoce atingiu 25% das fístulas distais e 13% das proximais, e a falha de maturação em seis meses ficou entre 53% e 64%. Quem começa a pensar na fístula quando a ureia passou de trezentos começa pelo cateter — e fica nele.

Na diálise peritoneal, a complicação que interna é a peritonite. A diretriz da International Society for Peritoneal Dialysis, de 2022, fixa como meta que um serviço não passe de 0,40 episódio por ano de paciente em risco e registra cultura negativa em 13,4% a 40% dos episódios, a depender da técnica do laboratório. E traz um número que muda a conduta de quem nunca viu esse paciente: cerca de um terço de quem faz diálise peritoneal ambulatorial contínua tem ar livre na cavidade, que entra pelo cateter durante as trocas.

Para o transplante, a epidemiologia é de relógio. A Portaria GM/MS nº 8.041, de 2025, que hoje regula o Sistema Nacional de Transplantes, pontua na lista de rim o tempo de espera, desempata a favor de quem dialisa há mais tempo e manda esclarecer sobre transplante — com oportunidade de avaliação por equipe transplantadora — toda pessoa com doença renal crônica fora de diálise e filtração estimada abaixo de 20 mL/min/1,73 m². A data em que Aderbal entrar na sala de hemodiálise vai pesar, anos depois, num desempate da lista; o que ninguém fez por ele antes disso não se recupera.

Esses pacientes são recebidos por uma rede com regras escritas. A Portaria de Consolidação nº 3, no capítulo reescrito em 2018, habilita três tipos de atenção especializada em doença renal crônica — o ambulatório pré-dialítico dos estágios 4 e 5, com equipe de nefrologista, enfermeiro, nutricionista, psicólogo e assistente social; a unidade de hemodiálise; e a unidade de diálise peritoneal — e fixa a equipe mínima da sala: na hemodiálise, um nefrologista para cada 50 pacientes e um enfermeiro para cada 35 em cada turno, e um técnico de enfermagem para cada 4 pacientes por sessão, sem que o paciente fique em momento algum sem médico, enfermeiro e técnico disponíveis durante o procedimento. É por isso que a primeira resposta à intercorrência na cadeira é da própria unidade, e a sua começa quando ela liga para o pronto-socorro.

E nem todo mundo que chega ao fim da função renal ganha com a máquina. A diretriz internacional de doença renal crônica de 2024 dedica uma seção ao cuidado conservador abrangente — manejo ativo, sem diálise, para quem escolhe não fazê-la —, e as Diretrizes Clínicas brasileiras de 2014 já o previam como opção do paciente, com termo de consentimento no prontuário e programa de suporte para o fim da vida. É a conversa mais difícil deste capítulo e a que menos se ensina na graduação.

04

Por que acontece o que acontece

Síndrome urêmica é o nome do que acontece quando o rim deixa de fazer três trabalhos ao mesmo tempo: eliminar o que o corpo produz e não usa; manter água, sódio, potássio e ácido dentro de faixas estreitas; e fabricar o que só ele fabrica em quantidade útil — eritropoetina e a forma ativa da vitamina D. A ureia dá nome à síndrome, mas é mais marcador do que culpada: ela sobe junto com centenas de solutos retidos, e o quadro clínico acompanha o conjunto, não o número. É por isso que dois pacientes com a mesma ureia podem estar um trabalhando e o outro confuso, e é por isso que ureia alta, sozinha, não é indicação de nada.

A filtração cai durante anos sem sintoma porque os néfrons que sobram trabalham mais e o organismo se adapta a uma ureia alta, a uma acidose leve e a uma anemia moderada. Quando a reserva acaba, os sintomas aparecem juntos e por sistemas: o estômago (anorexia, náusea, vômito, gosto ruim na boca), a pele (prurido), o sistema nervoso (lentidão, sonolência, asterixe, mioclonia e, no extremo, convulsão), as serosas (pericardite, pleurite), a hemostasia (sangramento) e o estado nutricional. A diretriz internacional de doença renal crônica de 2024 lista esses sinais como os que indicam começar diálise e observa que eles costumam aparecer — não sempre — com filtração entre 5 e 10 mL/min/1,73 m².

Se o sintoma é o que decide, por que não começar antes dele, por garantia? Porque isso foi testado. O ensaio IDEAL, discutido pela mesma diretriz, sorteou início precoce contra início tardio e não encontrou vantagem de sobrevida, de qualidade de vida, de custo nem de desfecho cardíaco em começar cedo; estudos observacionais posteriores, com ajuste para os vieses dos antigos, confirmaram o resultado. A diálise tem custo para quem a recebe — um acesso que infecta e trombosa, horas na cadeira três vezes por semana, hipotensão durante a sessão — e só se paga quando substitui uma função que o paciente de fato perdeu. A leitura deste capítulo, a partir disso, é que o número de filtração serve para preparar e o sintoma serve para marcar a data.

O paciente em hemodiálise que urina pouco ou nada vive num ritmo de acumular e retirar. Tudo o que bebe fica; todo o potássio que come, e o que sai das células, fica. A sessão retira em algumas horas o que entrou em dois ou três dias, e o intervalo mais longo da semana é o do fim de semana: de sexta de manhã a segunda de manhã são 68 horas. Nazareno, que perdeu a sessão de segunda, chegou na terça com cerca de 90 horas sem diálise. O potássio dele não subiu devagar, como sobe em quem ainda tem rim e perde a função aos poucos: subiu na velocidade do que ele comeu e bebeu no fim de semana, sem a principal via de saída.

Uma fístula arteriovenosa é um atalho: o cirurgião liga uma artéria a uma veia do antebraço ou do braço, e o sangue arterial passa a correr direto para uma veia de parede fina, que dilata e engrossa até aguentar duas agulhas e o fluxo de uma máquina. As diretrizes de acesso vascular descrevem a escala dessa mudança: o fluxo da artéria braquial, em média 31 mL/min em repouso, precisa aumentar de 10 a 20 vezes, e em apenas dez minutos de anastomose o fluxo da artéria radial pode ir de cerca de 21 para 174 mL/min. Um circuito de resistência baixa e fluxo alto se mantém aberto enquanto o sangue corre. O manguito que aperta, o garrote que interrompe o fluxo, o curativo compressivo e o paciente que dorme sobre o braço criam estase — e estase, nesse circuito, termina em trombose. O frêmito, a vibração que se palpa sobre a veia, é o fluxo sentido com a mão: enquanto ele existe, o acesso está vivo.

O cateter de hemodiálise é uma via direta entre a pele, uma conexão manipulada três vezes por semana e o átrio direito. As bactérias da pele colonizam o túnel e a conexão e se organizam em biofilme na parede do cateter, onde o antibiótico que circula no sangue chega mal. É por isso que as diretrizes de acesso vascular tratam a infecção do cateter como duas decisões separadas — o antibiótico e o destino do cateter — e mandam retirá-lo quando a infecção é complicada ou o germe é dos que não se erradicam com o dispositivo no lugar.

Na diálise peritoneal, o filtro é o próprio peritônio: a solução entra pela barriga, fica horas trocando solutos com o sangue dos capilares da membrana e sai. A cavidade tem um tubo que atravessa a parede e é manipulado todos os dias em casa, e a bactéria chega sobretudo por esse caminho — pela mão na conexão durante a troca, pelo orifício de saída ou pelo túnel do cateter —, e às vezes do intestino. O líquido turvo são os leucócitos. E o ar embaixo do diafragma, na maior parte das vezes, é o ar que entrou pelo cateter nas trocas, não o que escapou de uma víscera perfurada: a mesma radiografia que, no paciente sem cateter, leva ao centro cirúrgico, na diálise peritoneal não leva sozinha.

A uremia mexe também na hemostasia, de um jeito que o coagulograma não mostra. As plaquetas estão em número normal, o tempo de protrombina está normal, e o paciente sangra da gengiva, do local de punção, do estômago. O defeito é da função da plaqueta, que adere e agrega mal no ambiente urêmico, e a anemia piora o quadro. O Guia para uso de hemocomponentes do Ministério da Saúde registra que, no paciente urêmico que sangra, o crioprecipitado foi substituído pela eritropoetina, pela desmopressina e pelo estrógeno conjugado — e o que corrige o ambiente é a própria diálise. É o mesmo raciocínio que atravessa o capítulo inteiro: a máquina corrige soluto, ácido, potássio e volume; não corrige o que não é da uremia.

Fístula radiocefálica no antebraço, com artéria no lado do polegar, veia dilatada e palpação leve por dois dedos.
A anastomose conecta a artéria radial à veia cefálica, que recebe fluxo arterial e pode desenvolver frêmito palpável. Sua presença integra a avaliação do acesso, sem garantir sozinha fluxo adequado. Evitar compressão, aferição de pressão e punções alheias ao cuidado do acesso; a punção para diálise cabe à equipe treinada. Ilustração original.
05

Como se apresenta de verdade

O paciente deste capítulo aparece de três jeitos. Sem diagnóstico, com a síndrome urêmica instalada, pela porta do pronto-socorro. Já em diálise, por uma complicação do próprio tratamento — a sessão perdida, o braço da fístula, o cateter, a peritonite. E no ambulatório, ainda do lado de fora da porta, quando dá tempo de escolher. Os dois primeiros são os que você vai encontrar de plantão, e em nenhum deles o número da ureia diz sozinho o que fazer.

Percurso de aprendizagem

Relacione sintomas, volemia, eletrólitos e resposta ao tratamento à urgência da diálise.

Siga o planejamento de modalidade, acesso e acompanhamento, incluindo infecção, preferências e cuidado conservador quando apropriado.

A síndrome urêmica: o que é da uremia e o que é de outra coisa

Aderbal tem o quadro inteiro: duas semanas de anorexia e vômito, prurido que escoria a pele, soluço, lentidão para responder, troca de nomes. Tem também as pistas de que não começou agora — hipertensão conhecida e nunca tratada, anemia de 7,1 g/dL, rins de oito centímetros com córtex fino — e a pista que o pronto-socorro costuma ignorar: faz meses que ele levanta à noite para urinar e que a comida perdeu o gosto. O conjunto é de doença renal crônica avançada que chegou ao fim da reserva, e a hipótese de “desidratação” que abriu dois litros de soro não se sustenta em nada que foi examinado.

O erro clássico, no sentido oposto, é atribuir tudo à ureia. Antes de chamar de uremia a confusão de Aderbal, você precisa ter olhado a glicemia capilar, o sódio, o cálcio, a lista do que ele tomou — analgésico, sedativo, antibiótico de farmácia — e a possibilidade de uma queda com hematoma subdural, de uma infecção ou de uma encefalopatia hipertensiva. O vômito pode ser da uremia ou de gastroparesia; a falta de ar pode ser de volume, de anemia ou de derrame pericárdico. O que for de outra causa não melhora com a diálise, e o que for fármaco acumulado tem capítulo próprio: a dose e a remoção pela diálise estão em Ajuste de dose na disfunção renal e hepática.

O sangramento urêmico engana pelo laboratório: plaquetas normais, tempo de protrombina normal, e sangue que não para na gengiva, no local de punção, no estômago. O que o corrige é a diálise, e a anemia intensa piora a hemostasia; o Guia para uso de hemocomponentes do Ministério da Saúde registra que, nesse paciente, o crioprecipitado cedeu lugar à eritropoetina, à desmopressina e ao estrógeno conjugado. Anti-inflamatório e antiagregante que não sejam indispensáveis saem da prescrição.

Parte desse quadro é urgência, e a lista da urgência é a mesma para o rim agudo e para o crônico: edema pulmonar, potássio acima de 6,5 mmol/L refratário às medidas clínicas ou com alteração de condução, acidose grave com hipervolemia, uremia com pericardite ou com rebaixamento. Quem ensina a rastrear e a tratar essas cinco situações, com as doses da hipercalemia, é o capítulo Injúria renal aguda: pré-renal, renal e pós-renal. O atrito pericárdico que você talvez ausculte em Aderbal é pericardite urêmica, e o capítulo Pericardite aguda e tamponamento cardíaco registra que, nela, quem trata é a própria diálise.

A sessão perdida

Nazareno é o paciente em diálise que mais aparece no pronto-socorro, e as perguntas que resolvem o caso são poucas e sempre as mesmas: quando foi a última sessão e quanto tempo durou; qual é o peso seco e quanto ele pesa agora; quanto urina por dia; que acesso tem, e de que lado; em que unidade dialisa e qual o telefone; que sorologias tem; que remédios usa, inclusive anticoagulante. Muitos pacientes carregam a resposta na carteira: as Diretrizes Clínicas de 2014 mandam a unidade de diálise entregar um documento sumário para atendimento fora dela, com doença de base, sorologias, alergias, contato de familiar e de profissional e avisos como não garrotear o membro da fístula, uso de anticoagulante e não usar os cateteres de diálise. Peça esse papel antes de pedir exame.

Os dois riscos da sessão perdida são o potássio e o volume. O eletrocardiograma vem antes de qualquer resultado; se houver alteração, as medidas que protegem o coração e deslocam o potássio para dentro das células — com dose, diluição e volume de cada apresentação — estão no capítulo Injúria renal aguda: pré-renal, renal e pós-renal, e o manejo do potássio fora da urgência está em Potássio: hipo e hipercalemia na enfermaria. O que este capítulo acrescenta é o que essas medidas não fazem: elas compram tempo e não retiram potássio do corpo de quem não urina. Em Nazareno, a solução é a sessão de diálise, e a pergunta de verdade não é “que remédio dou”, e sim “quem dialisa este homem hoje, e em quanto tempo”.

A resposta tem dono na norma. A Resolução da Diretoria Colegiada nº 11/2014 da Anvisa obriga o serviço de diálise a garantir assistência nas intercorrências relacionadas ao tratamento, inclusive a continuidade quando houver remoção. A Portaria de Consolidação nº 3/2017, no capítulo da doença renal crônica reescrito em 2018, atribui à atenção especializada garantir, pela regulação de urgência, a transferência para hospital de retaguarda vinculado ao SUS quando a internação decorre do tratamento dialítico, e inclui entre as diretrizes do cuidado o transporte sanitário adequado. Na prática, você liga para o nefrologista do seu hospital, se houver diálise nele, e para a unidade de Nazareno, e aciona a regulação se a sessão tiver de acontecer em outro lugar.

Registre por que a sessão foi perdida. Uma van que não passou não é falta de adesão; é falha de um direito que a norma nomeia, e é o assistente social e a secretaria do município que corrigem o transporte da próxima segunda-feira. O mesmo capítulo da Portaria de Consolidação nº 3 dá à Atenção Básica a responsabilidade, no território, pela pessoa em diálise e sua família — a unidade básica de Nazareno precisa saber que ele passou a noite no pronto-socorro.

Há um terceiro perfil do mesmo problema: o paciente que dialisa em outra cidade e aparece no seu pronto-socorro durante uma viagem. A Portaria de Consolidação nº 3 prevê o tratamento dialítico em trânsito por até 30 dias, com um fluxo que começa antes da viagem — o paciente pede à unidade de origem, que pede ao gestor do município de origem a verificação de vaga no destino, e a unidade de origem manda à de destino um relatório com as características do tratamento, o tipo de acesso, os exames do mês, a situação vacinal e os medicamentos. Quem chega sem esse arranjo e com urgência é tratado como urgência; quem chega estável precisa que alguém ligue para a unidade de origem e para a regulação, com esses cinco itens em mãos.

O braço da fístula

O braço com fístula não recebe manguito de pressão, garrote, punção venosa, acesso periférico, curativo compressivo, pulseira apertada nem o peso do corpo durante o sono. Isso vale para o monitor do pronto-socorro, para o laboratório que colhe às cinco da manhã e para a enfermaria que troca de equipe três vezes por dia — e por isso a primeira coisa a fazer com Nazareno é tirar o manguito do braço esquerdo e escrever o aviso na cabeceira e na prescrição. A maioria dos pacientes sabe e avisa; o paciente urêmico, confuso ou dormindo, não avisa.

Examine o acesso toda vez que examinar o paciente. Palpe o trajeto da veia a partir da anastomose: o frêmito contínuo é o normal. Ausculte: o sopro contínuo acompanha o frêmito. Olhe o membro inteiro, pergunte se o sangramento depois da retirada das agulhas tem demorado mais do que antes e compare a mão com a do outro lado. As diretrizes de acesso vascular de 2023 fazem desse exame clínico de rotina — frêmito, sopro, tempo de hemostasia, avaliação do membro — uma recomendação forte, e põem os métodos complementares em segundo plano.

Alguns achados mudam o dia. Frêmito que sumiu é trombose até prova em contrário e pede contato no mesmo turno com a equipe da diálise e com o cirurgião vascular, porque acesso trombosado que não se recupera vira cateter. Sangramento pelo orifício de uma punção recente se controla com a ponta de dois dedos sobre o ponto, sem garrote e sem enfaixar o braço. Braço inteiro inchado sugere estenose de veia central — as diretrizes estimam sinal ou sintoma dela em 15% a 20% dos pacientes em hemodiálise, quase sempre associada a cateter venoso prévio. Mão fria, pálida e dolorosa do lado da fístula é isquemia provocada pelo acesso. Úlcera, lesão de pele ou sangramento sobre uma dilatação da veia estão entre as indicações de cirurgia do aneurisma, pelo risco de sangramento grande. Vermelhidão, calor e secreção são infecção — e as diretrizes admitem tentar preservar a fístula infectada no paciente estável, sem acometimento da anastomose e sem sangramento ameaçador. Todos esses achados são assunto do cirurgião vascular, com o nefrologista.

A fístula nova tem calendário próprio. As diretrizes descrevem a revisão em uma a duas semanas depois da cirurgia, para afastar infecção e confirmar o frêmito; a liberação para punção em torno de seis semanas; tentativas de punção entre oito e doze semanas; e ultrassonografia com Doppler se ela não puder ser canulada até doze semanas. Até lá, o paciente dialisa pelo cateter — e esse é o motivo de a fístula ser feita meses antes, não na semana em que a diálise começa.

O cateter que dá febre

O paciente em hemodiálise por cateter que tem febre ou calafrio durante ou logo depois da sessão tem infecção relacionada ao cateter até prova em contrário. Olhe o orifício de saída e o trajeto do túnel: pus, dor, vermelhidão e endurecimento ao longo do túnel mudam a conduta. Meça a pressão no braço sem fístula, avalie perfusão e procure outro foco, mas não use a procura de outro foco para adiar as culturas.

As diretrizes de acesso vascular de 2023 são específicas. Antes do antibiótico, duas hemoculturas de veia periférica; se houver intenção de manter o cateter, colhe-se ao mesmo tempo sangue dos lúmens e de veia periférica, para cultura quantitativa ou para comparar o tempo de positividade. Em seguida, antibiótico empírico sistêmico de amplo espectro, sem esperar resultado. A escolha precisa cobrir estafilococos, que respondem por 40% a 80% dos casos, e bacilos gram-negativos, que em alguns centros chegam a 30% a 40%; a droga é a da padronização do serviço, e boa parte das opções habituais — vancomicina, cefazolina, ceftazidima, cefepima, gentamicina injetável — não consta da Rename 2024, vindo da farmácia do hospital.

O destino do cateter é a segunda decisão. As diretrizes mandam retirá-lo quando há infecção local complicada (tunelite), choque séptico, febre ou hemocultura positiva que persistem 72 horas depois de antibiótico adequado, embolização séptica (endocardite, tromboflebite, espondilodiscite), outro material protético intravascular — marca-passo, prótese endovascular, valva —, ou germe virulento: Staphylococcus aureus, Pseudomonas, Candida ou bactéria multirresistente. Na bacteremia não complicada, pode-se tentar manter o cateter, com antibiótico sistêmico e selo de antibiótico nos lúmens. Um cateter novo só entra depois de antibiótico adequado e hemocultura de controle negativa, de preferência em outro sítio.

Duas fronteiras. Bacteremia por Staphylococcus aureus num paciente com cateter é o cenário em que se procura endocardite, e a investigação e o tratamento dela estão em Endocardite infecciosa: critérios de Duke e profilaxia. A instalação do cateter novo, com escolha de sítio e guia de ultrassom, está em Acesso venoso central: indicação, sítios e o que dá errado. E uma regra de enfermaria que vale para todo cateter de diálise, infectado ou não: ele não é usado para soro, medicação ou coleta de exame, como o próprio documento sumário previsto nas Diretrizes Clínicas de 2014 avisa.

A barriga turva: a peritonite da diálise peritoneal

Sandália tem as duas pontas do diagnóstico: dor abdominal e efluente turvo. A diretriz da International Society for Peritoneal Dialysis de 2022 define peritonite da diálise peritoneal pela presença de pelo menos dois de três achados — clínica compatível (dor abdominal, efluente turvo ou ambos); leucócitos no efluente acima de 100/µL, depois de permanência de pelo menos duas horas, com mais de 50% de polimorfonucleares; cultura positiva do efluente — e manda tratar como peritonite todo paciente com efluente turvo até que o diagnóstico seja confirmado ou afastado.

O ar embaixo do diafragma não muda isso. A mesma diretriz diz que a radiografia de abdome em geral é desnecessária e pode enganar, porque cerca de um terço dos pacientes em diálise peritoneal ambulatorial contínua tem pneumoperitônio pelo ar que entra no cateter durante as trocas. O que faz pensar em víscera perfurada é outra coisa: dor e defesa localizadas, em vez da dor difusa e com pouca descompressão dolorosa típica da peritonite da diálise; vários germes entéricos na cultura do efluente; hipotensão, sepse, acidose lática ou amilase elevada no efluente, que a diretriz aponta como sinais de doença intra-abdominal; falta de melhora com o antibiótico. Com esses sinais, o paciente muda de capítulo — tomografia e cirurgião, pela lógica de Peritonite secundária e abscesso intra-abdominal, cujo quadro de peritonites registra a da diálise peritoneal como doença de régua própria da nefrologia.

O exame físico inclui o cateter: inspecione o orifício de saída e o trajeto do túnel, e mande para cultura qualquer secreção. Vermelhidão, dor e coleção ao longo do túnel, que a ultrassonografia pode confirmar, sugerem infecção do túnel. Na diálise peritoneal automatizada há duas armadilhas descritas pela diretriz: no ciclo rápido, o que vale é o percentual de polimorfonucleares acima de 50%, mesmo com contagem absoluta abaixo de 100/µL; e o paciente que não faz troca diurna e tem dor durante o dia pode não ter líquido para drenar — infundem-se 1 L de solução, aguardam-se duas horas e drena-se para o exame.

Quem trata é a equipe de diálise peritoneal, e ela precisa ser chamada na primeira hora — a Portaria de Consolidação nº 3 põe o primeiro atendimento das intercorrências entre as obrigações do serviço habilitado. Mas o antibiótico não espera o expediente: a diretriz manda começar o esquema empírico o mais cedo possível depois de colhidas as amostras, dá preferência à via intraperitoneal salvo sepse sistêmica e admite a via venosa quando há atraso previsível — fora do horário da unidade, à espera de leito —, voltando à intraperitoneal assim que possível. O paciente com dor mínima pode ser tratado em regime ambulatorial com antibiótico intraperitoneal, com reavaliação em até três dias; Sandália, com dor que a trouxe de madrugada, fica. E quando o tratamento pode ser ambulatorial, as Diretrizes Clínicas de 2014 mandam que a unidade de atenção especializada em doença renal crônica assegure ao paciente os antimicrobianos da peritonite e das infecções relacionadas ao cateter.

O paciente em diálise internado por outra coisa

Metade dos pacientes em diálise que você vai atender na enfermaria está internada por pneumonia, fratura, pé diabético ou cirurgia, e a diálise continua acontecendo no meio da internação. Pergunte os dias da sessão e escreva-os na prescrição. O horário de cada fármaco em relação à sessão, o que é removido pela hemodiálise e o que precisa de dose suplementar depois dela estão em Ajuste de dose na disfunção renal e hepática. Soro de manutenção no paciente anúrico é volume que só a próxima sessão retira; dieta e líquidos seguem a restrição que ele já fazia em casa.

Transfusão tem um peso a mais no candidato a transplante. O Guia para uso de hemocomponentes do Ministério da Saúde põe a aloimunização entre os riscos de toda transfusão e manda transfundir só com indicação precisa; a Portaria nº 8.041/2025 manda a unidade de diálise informar no sistema de gerenciamento da lista cada evento sensibilizante e renovar o soro do candidato a partir de quinze dias depois de um evento imunizante. A leitura deste capítulo junta as duas regras: transfundir quando a indicação existe é obrigação, e avisar a unidade de que houve transfusão também — o que não se faz é transfundir sem indicação.

Os medicamentos que o paciente traz de casa têm origem própria. Pela Rename 2024, alfaepoetina, sacarato de óxido férrico, calcitriol, cloridrato de sevelâmer e cloridrato de cinacalcete são do Componente Especializado, dispensados pelos protocolos do Ministério; o carbonato de cálcio é do Básico; e o bicarbonato de sódio aparece só como solução injetável a 8,4%. Muitos são aplicados na própria sessão. Não os suspenda por hábito na admissão — pergunte à unidade o que ele recebe e quando — e deixe a dose e as metas para os protocolos e para o capítulo Doença renal crônica: estadiamento e manejo.

As sorologias do paciente importam para a sala de hemodiálise, não para a enfermaria. A RDC nº 11/2014 exige profissional exclusivo durante toda a sessão para o paciente com antígeno de superfície da hepatite B reagente e, para o recém-admitido com sorologia desconhecida, profissional exclusivo e máquina específica; o reúso de dialisador é vedado a quem tem hepatite B, hepatite C ou HIV, ou sorologia desconhecida. É por isso que a unidade pergunta pela sorologia antes de aceitar o paciente — e é por isso que você colhe as sorologias de Aderbal na porta.

06

Como fechar o diagnóstico

A investigação deste capítulo não serve para descobrir que o rim parou — isso costuma estar escrito na folha. Serve para responder, na ordem, seis perguntas que mudam o que se faz: é crônico, agudo ou as duas coisas; o que é urgente agora; se há infecção, onde está e o que a cultura precisa ter antes do antibiótico; o acesso está vivo; o que precisa estar no papel para a vaga sair; e, no ambulatório, o que precisa estar pronto antes da porta.

Primeiro: crônica, aguda, ou aguda sobre crônica

Procure uma creatinina antiga antes de pedir uma nova. Em Aderbal, a filha lembra de um exame de admissão numa obra, há seis anos, com “problema no rim” anotado a caneta; o sistema da unidade básica do bairro tem uma creatinina de 2,9 mg/dL de quatro anos atrás. A trajetória é de doença crônica que avançou em silêncio, e a ultrassonografia conta a mesma história: rins pequenos, com córtex fino e ecogenicidade aumentada.

O que não se pode fazer é encerrar o raciocínio aí. O capítulo Doença renal crônica: estadiamento e manejo registra a armadilha de chamar de doença terminal quem chegou com creatinina alta e rins pequenos e tinha, por cima, uma parte reversível — obstrução, depleção de volume, nefrotóxico recente. Aderbal vomita há duas semanas e pode ter tomado anti-inflamatório para a dor nas costas: a pergunta pela bexiga, pelo volume e pela prescrição é do capítulo Injúria renal aguda: pré-renal, renal e pós-renal, e precisa ser feita antes de o paciente sair do pronto-socorro com o rótulo de diálise para sempre. O que se ganha com ela, quando existe, é filtração — às vezes o suficiente para adiar a porta.

O painel da porta no urêmico e no paciente em diálise

Eletrocardiograma primeiro, sempre que houver chance de potássio alto. Depois, na mesma oportunidade de coleta, com tubos adequados a cada exame: potássio, sódio, glicemia, cálcio, fósforo, ureia, creatinina, gasometria venosa com bicarbonato, hemograma com plaquetas e alanina aminotransferase; coagulograma se houver sangramento ou procedimento à vista. Radiografia de tórax ou ultrassonografia pulmonar à beira do leito para congestão; ecocardiograma quando houver atrito pericárdico, abafamento de bulhas ou pressão caindo sem explicação, pela régua do capítulo Pericardite aguda e tamponamento cardíaco.

E as sorologias, na porta, antes da primeira sessão: antígeno de superfície da hepatite B, anti-HBc total, anti-HBs, anti-HCV e anti-HIV. São as mesmas que as Recomendações da Sociedade Brasileira de Nefrologia de 2026 listam para o pedido de vaga, e são as que a sala de hemodiálise precisa conhecer: pela RDC nº 11/2014 da Anvisa, o paciente com sorologia desconhecida para hepatite B só dialisa com profissional exclusivo e em máquina específica. Colher na admissão encurta o caminho até a sessão e até a vaga.

Antes de repetir tudo no paciente que já dialisa, ligue para a unidade. Pelas Diretrizes Clínicas de 2014, quem está em hemodiálise colhe todo mês hematócrito, hemoglobina, ureia antes e depois da sessão, sódio, potássio, cálcio, fósforo e alanina aminotransferase; a cada três meses, hemograma, ferritina, saturação de transferrina, fosfatase alcalina e paratormônio; e as sorologias têm calendário próprio. A unidade sabe o potássio habitual, o peso seco, a sorologia e o acesso de Nazareno melhor do que qualquer exame de pronto-socorro — e a mesma diretriz manda, diante de alanina aminotransferase elevada, pedir anti-HBc IgM, antígeno de superfície da hepatite B e anti-HCV.

Um detalhe das mesmas recomendações que o pronto-socorro raramente conhece: alanina aminotransferase elevada sem causa, com antígeno de superfície e anti-HCV não reagentes, e o perfil de hepatite B oculta — anti-HBc reagente com anti-HBs não reagente —, exigem pesquisa de carga viral antes da admissão na unidade de diálise. Se a transaminase de Aderbal vier alterada, peça o que falta já, porque é o exame que vai travar a vaga daqui a uma semana.

Na peritonite da diálise peritoneal, o líquido decide

O exame que diagnostica e orienta é o efluente. Drene a cavidade, olhe o líquido contra a luz e mande para contagem de células com diferencial, coloração de Gram e cultura, sempre que houver suspeita — é a recomendação da diretriz internacional de 2022 e é o que as Diretrizes Clínicas brasileiras de 2014 já listavam para a suspeita de peritonite. A contagem só vale depois de permanência de pelo menos duas horas; um líquido que acabou de entrar pode ter poucas células mesmo com a cavidade inflamada.

A cultura tem técnica. A diretriz descreve a semeadura à beira do leito de 5 a 10 mL de efluente em dois frascos de hemocultura, aeróbio e anaeróbio, com cultura negativa em torno de 10% a 20% nessas condições, e rendimento maior quando o sedimento centrifugado é semeado. Os frascos não vão para a geladeira. Hemocultura periférica costuma ser negativa e só se colhe no paciente séptico ou imunossuprimido; secreção do orifício de saída, quando houver, também vai para cultura.

Radiografia de abdome não entra na rotina, pelo motivo já dito: um terço tem ar livre pelas trocas. Tomografia entra quando a suspeita for de doença intra-abdominal — germes entéricos múltiplos, hipotensão, sepse, acidose lática, amilase elevada no efluente, dor localizada — e aí o caso é conduzido junto com a cirurgia. Se a cultura continuar negativa depois de três a cinco dias, a diretriz manda repetir contagem e diferencial e pedir cultura para fungos e micobactérias.

O acesso: culturas antes do antibiótico, mãos antes do Doppler

A ordem é a das diretrizes de acesso vascular de 2023: duas hemoculturas periféricas antes do antibiótico; se a equipe pretende manter o cateter, coleta simultânea dos lúmens e de veia periférica, para cultura quantitativa ou para comparar o tempo de positividade entre as amostras. Pus no orifício de saída vai para cultura. Coletas de controle depois de iniciado o tratamento são o que autoriza, mais adiante, a instalação de um cateter novo.

O resultado muda a decisão, e por isso a prescrição de antibiótico do primeiro dia é reavaliada com a cultura: germe virulento manda retirar o cateter, e bacteremia por Staphylococcus aureus põe em cena a busca de endocardite pelas regras de Endocardite infecciosa: critérios de Duke e profilaxia. Não coloque nenhuma dessas amostras no lugar das outras — hemocultura só dos lúmens não separa colonização de bacteremia.

O acesso se examina com as mãos. Frêmito contínuo ao longo da veia, sopro contínuo à ausculta, membro sem edema, mão quente e com a mesma cor da outra. As diretrizes de acesso vascular recomendam o monitoramento por exame clínico de rotina como primeira linha e deixam os métodos complementares como auxílio: a ultrassonografia com Doppler entra quando o exame acha problema — frêmito ausente, braço inchado, sangramento prolongado depois das agulhas — ou quando a fístula nova não pode ser puncionada até doze semanas.

Anote o que você achou, com hora. “Frêmito presente em toda a extensão às 7h10” numa evolução de pronto-socorro é o que permite, horas depois, dizer que a trombose aconteceu durante a internação — e o que faz alguém ligar para o cirurgião vascular no mesmo dia.

Os exames que abrem a vaga, e os que não abrem

O pedido de vaga de diálise ambulatorial no SUS é um documento clínico, e as Recomendações da Sociedade Brasileira de Nefrologia de 2026 dizem o que ele precisa ter. Para o paciente internado: hemograma, ureia, creatinina, sódio, potássio, glicemia, cálcio e alanina aminotransferase com até 15 dias; anti-HCV, anti-HBc total, antígeno de superfície da hepatite B, anti-HBs, anti-HIV e ultrassonografia renal com até 90 dias. Para quem está em casa, os mesmos exames com prazos de 60, 180 e 360 dias. Para trânsito ou transferência, os exames mais recentes da unidade de origem, na periodicidade da diretriz brasileira.

O relatório médico que acompanha os exames é completo, evolutivo e atualizado: história clínica, medicações em uso, exame físico e, se a diálise já começou, o histórico de acessos — cateter venoso, cateter peritoneal, fístula — e a prescrição da diálise. E há o que não se exige: fósforo, paratormônio, colesterol e frações, triglicérides, ferro, ferritina, saturação de transferrina, eletrocardiograma, ecocardiograma, radiografia de tórax, sorologia para sífilis e carteira de vacinação não condicionam a admissão na unidade, nem se repetem as sorologias virais que já vieram. Pedir o que não abre vaga custa dias de leito.

No ambulatório, abaixo de 20: o preparo que se confere

Vicente Adorno, 47 anos, diabético, chega à consulta de retorno do ambulatório de nefrologia com filtração estimada de 18 mL/min/1,73 m², seis pontos abaixo da de um ano atrás. Nesse ritmo ele chega a 10 em cerca de dezesseis meses — menos do que parece, quando se somam a fila da cirurgia vascular, as quatro a doze semanas de maturação e a chance de a primeira fístula não amadurecer. A investigação deste paciente não é diagnóstica: é a conferência do que precisa estar pronto antes da porta, e cada item tem documento.

Primeiro, a conversa das modalidades, que as Diretrizes Clínicas de 2014 põem como obrigação do estágio 4, feita por equipe multiprofissional e registrada em prontuário — procure o registro, não a lembrança. Segundo, o acesso: abaixo de 20, quem escolheu hemodiálise vai para avaliação de fístula, pela mesma diretriz; quem escolheu diálise peritoneal vai, com a família, para treinamento e visita domiciliar, e o cateter é implantado a tempo do início programado. Terceiro, o transplante: com filtração abaixo de 20, a Portaria nº 8.041/2025 manda esclarecer sobre a possibilidade e oferecer avaliação por equipe transplantadora — é o que abre a porta do transplante com doador vivo antes da diálise, que as Diretrizes admitem. Quarto, a sorologia da hepatite B, que as Diretrizes pedem desde o início do acompanhamento, e o calendário vacinal, cujos detalhes estão no capítulo Doença renal crônica: estadiamento e manejo. Quinto, o ritmo de revisão: acompanhamento multiprofissional trimestral no estágio 4 e mensal no estágio 5 pré-dialítico, pela Portaria de Consolidação nº 3.

A diretriz internacional de 2024 acrescenta um atalho útil para o paciente que perde função depressa: além do corte de filtração, um risco de falência renal acima de 40% em dois anos, calculado por equação validada, já justifica a educação sobre modalidades, o planejamento do acesso e o encaminhamento ao transplante, e o planejamento do transplante preemptivo ou do acesso é considerado com filtração abaixo de 15 a 20. Na prática, Vicente, que perde seis pontos por ano, deveria ter tido essa conversa antes dos 20, e não depois.

E há duas perguntas que a conferência não pode pular. A diálise peritoneal foi oferecida de verdade? As Diretrizes de 2014 registram que menos de 10% dos pacientes com doença renal crônica terminal têm contraindicação a ela; as absolutas são perda comprovada da função peritoneal ou aderências múltiplas, impossibilidade de executar o método sem ajuda disponível — limitação física ou cognitiva não exclui diálise peritoneal assistida e condições cirúrgicas não corrigíveis da parede ou do diafragma. E, no paciente idoso e frágil, o cuidado conservador foi apresentado como tratamento? Pela diretriz internacional, ele inclui comunicação detalhada com estimativa de prognóstico e planejamento antecipado de cuidados, decisão compartilhada, avaliação e manejo ativo dos sintomas, apoio psicológico, social, familiar e espiritual e medidas para retardar a progressão — tudo, menos a diálise; pelas Diretrizes brasileiras, com termo de consentimento no prontuário e plano de fim de vida. O manejo de dor e de sintomas no fim da vida está em Cuidados paliativos e manejo da dor oncológica.

07

Decidir quando a terapia renal substitutiva é necessária

O objetivo é reconhecer complicações urêmicas e outras indicações de diálise, entender modalidades e acessos e participar do planejamento compartilhado. A decisão não decorre apenas da TFG, de um valor de ureia ou de dificuldades administrativas. O critério deste capítulo não é um escore. É uma régua de filtração que diz o que preparar, somada a uma lista de sinais que diz quando começar. A régua é brasileira e normativa — as Diretrizes Clínicas de 2014, mantidas pela Portaria de Consolidação nº 3 na redação de 2018, e a Portaria nº 8.041/2025 para o transplante —; a lista de sinais é a da diretriz internacional de doença renal crônica de 2024. A primeira tabela é a do ambulatório; a segunda, a do plantão; a terceira, a do pedido de vaga; a quarta, a da madrugada em que a equipe de diálise peritoneal não atende.

  1. 1Filtração abaixo de 30: a conversa sobre as modalidades acontece e fica registrada em prontuário, com acompanhamento multiprofissional — o preparo começa no estágio 4, não na urgência.
  2. 2Abaixo de 20: fístula para quem escolheu hemodiálise; esclarecimento sobre transplante e oferta de avaliação pela equipe transplantadora. A fístula leva de 4 a 12 semanas para amadurecer e pode não amadurecer.
  3. 3Abaixo de 15: discutir transplante e modalidades de tratamento, programar acesso quando apropriado e intensificar seguimento. Indicar início de diálise pela combinação de sintomas, complicações refratárias, evolução e preferências; a filtração isolada não obriga a iniciar.
  4. 4Na falência renal avançada, manter modalidades e acesso planejados e seguimento próximo. Cortes de filtração ajudam a organizar esse preparo e regras de transplante, mas não determinam sozinhos a primeira sessão: integrar sintomas, complicações, nutrição, qualidade de vida, exames e preferências.
  5. 5Se não houver sintomas nem outra indicação estabelecida de diálise, a dificuldade de retorno exige um plano de acompanhamento e acesso à nefrologia, não início automático por um corte isolado. Defina com a equipe frequência de reavaliação, exames, sinais de alarme e referência acessível. A decisão de iniciar diálise integra manifestações urêmicas, controle de volume e pressão, distúrbios laboratoriais refratários, nutrição, qualidade de vida, preferências e condições concretas de seguimento.
  6. 6Com urgência, em qualquer filtração: diálise de urgência, pelo capítulo Injúria renal aguda: pré-renal, renal e pós-renal.
  7. 7Quem escolhe não dialisar: cuidado conservador abrangente, com termo de consentimento, plano para os sintomas e planejamento antecipado de cuidados.
  8. 8Já em diálise: em até 90 dias, a opção de inscrição na lista de transplante; a data do primeiro dia de diálise é a que desempata a lista de rim.

Do número à providência: a régua brasileira do preparo e do início

Filtração estimada (mL/min/1,73 m²)O que se decideQuem decide ou fazDocumento
Abaixo de 30 (estágio 4)Esclarecer as modalidades de terapia renal substitutiva, com registro em prontuário; acompanhamento multiprofissional trimestralEquipe multiprofissional da atenção especializadaDiretrizes Clínicas DRC 2014; PRC 3/2017, Anexo IV, art. 92
Abaixo de 20Encaminhar para fístula quem escolheu hemodiálise; esclarecer sobre transplante e oferecer avaliação por equipe transplantadoraNefrologista, cirurgião vascular, equipe de transplanteDiretrizes Clínicas DRC 2014; Portaria 8.041/2025, art. 188, § 1º
Abaixo de 15, sem diálise (estágio 5)Avaliar elegibilidade para transplante, inclusive preemptivo; seguimento próximo e planejamento da modalidade e do acesso. Início de diálise individualizado por sintomas, complicações, evolução e decisão compartilhada, não por filtração isolada.Atenção especializada em DRCDiretrizes Clínicas DRC 2014; PRC 3/2017, Anexo IV, arts. 77 e 93
Abaixo de 10, ou abaixo de 15 no diabético e no menor de 18 anosPlanejar e revisar elegibilidade para transplante e suporte renal conforme normas e contexto; não iniciar diálise automaticamente pelo corte isolado. A indicação clínica é composta e compartilhada.Nefrologista; equipe de transplanteDiretrizes Clínicas DRC 2014; Portaria 8.041/2025, art. 188
Qualquer valor, com sintoma ou sinal da falência renalComeçar diálise: uremia neurológica, pericardite, anorexia, prurido intratável, distúrbio acidobásico ou eletrolítico refratário, volume ou pressão incontroláveis, desnutrição progressivaNefrologista, com o pacienteKDIGO 2024, seção 5.4 e Tabela 41
Qualquer valor, com urgênciaDiálise de urgência: edema pulmonar, potássio acima de 6,5 mmol/L refratário ou com alteração de condução, acidose grave com hipervolemia, uremia com pericardite ou rebaixamentoPlantão, com o nefrologistaCapítulo Injúria renal aguda: pré-renal, renal e pós-renal
Em diáliseApresentar a opção de inscrição na lista em até 90 dias do início; a data de início da diálise desempata a lista e acompanha a inscrição transferidaUnidade de diálise, com a equipe transplantadoraDiretrizes Clínicas DRC 2014; Portaria 8.041/2025, arts. 49, 84, 188 e 192

O paciente em diálise no pronto-socorro: o gesto, o erro e o telefonema

SituaçãoO que se faz na primeira horaO que não se fazQuem se chama
Sessão perdidaEletrocardiograma, potássio, peso comparado ao peso seco; medidas de ponte da hipercalemia pelo capítulo Injúria renal aguda; garantir a sessãoSoro de manutenção; contar com diurético em quem não urinaNefrologista do hospital e unidade de diálise; regulação se a sessão for em outro serviço
Frêmito ausente na fístulaConfirmar ausência de frêmito e de sopro, registrar a hora, manter o braço livre de qualquer compressãoEsperar a próxima sessão para ver se voltaCirurgião vascular e equipe da diálise, no mesmo turno
Sangramento pela punção da fístulaPressão com a ponta de dois dedos sobre o orifício; revisar anticoagulante e plaquetasGarrote; enfaixar o braçoEquipe da diálise; cirurgião vascular se o sangramento recorrer
Febre com cateter de hemodiáliseDuas hemoculturas periféricas, mais lúmens com periférica se o cateter for mantido; antibiótico empírico de amplo espectroAntibiótico antes das culturas; usar o cateter para soro ou medicaçãoNefrologista; retirada do cateter pelos critérios das diretrizes de acesso vascular
Efluente turvo na diálise peritonealEfluente com permanência de 2 h ou mais para contagem, diferencial, Gram e cultura em frascos de hemocultura; antibiótico empírico logo depoisLaparotomia pelo ar livre; radiografia como exame decisórioEquipe de diálise peritoneal; cirurgia só com sinais de doença intra-abdominal
Sangramento no urêmicoHemoglobina, plaquetas e coagulograma; suspender anti-inflamatório e antiagregante dispensáveis; diáliseCrioprecipitado como primeira escolha; tratar pelo coagulograma normal como se não houvesse defeitoNefrologista

Pedido de vaga de diálise ambulatorial no SUS: exames, validade e prioridade

Situação do pacienteLaboratório e validadeSorologias, imagem e validadeOrdem de prioridade
Internado, pedido inicialHemograma, ureia, creatinina, sódio, potássio, glicemia, cálcio e alanina aminotransferase: 15 diasAnti-HCV, anti-HBc total, antígeno de superfície da hepatite B, anti-HBs, anti-HIV e ultrassonografia renal: 90 dias
Mudança de modalidadeA recomendação 8 não fixa lista própria: segue a situação de origemSegue a situação de origem
Em domicílio, pedido inicialOs mesmos laboratoriais: 60 diasSorologias: 180 dias; ultrassonografia renal: 360 dias
Trânsito ou transferênciaHemoglobina, hematócrito, creatinina, sódio, potássio, cálcio, fósforo, alanina aminotransferase, ureia pré e pós e glicemia no diabético: 30 dias; hemograma, saturação de transferrina, ferritina, fosfatase alcalina, paratormônio e hemoglobina glicada no diabético: 90 diasAnti-HCV, anti-HBc total, antígeno de superfície e anti-HBs: 180 dias; anti-HIV: 360 dias

Peritonite da diálise peritoneal: esquema intraperitoneal de referência e o que a Rename tem

CoberturaFármacoDose intraperitoneal intermitente (1 troca ao dia, permanência de 6 h ou mais)Em 58 kgRename 2024
Gram-positivosCefazolina15 mg/kg ao dia em permanência longa; 20 mg/kg em permanência curta870 mg (longa) ou 1.160 mg (curta)Não consta
Gram-positivos, onde a resistência à meticilina é frequenteVancomicina15 a 30 mg/kg a cada 5 a 7 dias na diálise peritoneal ambulatorial contínua870 a 1.740 mgNão consta
Gram-negativosCeftazidima1.000 a 1.500 mg ao dia em permanência longa; 20 mg/kg em permanência curta1.000 a 1.500 mg (longa) ou 1.160 mg (curta)Não consta
Gram-negativosGentamicina0,6 mg/kg ao dia34,8 mgSó colírio e pomada oftálmica
Gram-negativosAmicacina2 mg/kg ao dia116 mg (0,46 mL da solução de 250 mg/mL)Consta, 250 mg/mL, Componente Estratégico
Gram-negativosCeftriaxona1.000 mg ao dia1.000 mg (1 frasco de 1 g)Consta, 1 g, Componente Básico
Monoterapia aceitávelCefepima1.000 mg ao dia1.000 mgNão consta

Tradução em português da diretriz de peritonite da International Society for Peritoneal Dialysis, servida pela própria sociedade: o critério diagnóstico aparece como leucócitos no efluente acima de 100/mL ou acima de 0,1 × 10⁹/L, e o mesmo 100/mL se repete em mais seis passagens — diálise automatizada de ciclo rápido, resposta tardia no quinto dia, reinserção do cateter. No original em inglês, o caractere antes do L está numa fonte de símbolos e é µ: 100/µL. A conta: 0,1 × 10⁹/L = 100.000/mL = 100/µL; já 100/mL é 0,1/µL, mil vezes menos, e contradiz o 0,1 × 10⁹/L da mesma linha. Como o laboratório libera a contagem por mm³, que é o mesmo que µL, um efluente com 50 células/mm³ — abaixo do corte verdadeiro — equivale a 50.000/mL e passaria por peritonite ao pé da letra da tradução, com antibiótico intraperitoneal para quem não tem a doença. Este capítulo usa 100/µL, e a dose em mg/kg da tabela acima vale igual nas duas versões.

Diretrizes de acesso vascular para hemodiálise de 2023, justificativa da pergunta sobre infecção do cateter: a incidência de bacteremia relacionada ao cateter é dada como 2,5 a 5 episódios por 100 dias de uso, o que corresponderia a 0,9 a 2 episódios por ano. A conta não fecha: 2,5 por 100 dias × 365 = 9,1 e 5 por 100 dias × 365 = 18,3 episódios por cateter-ano — uma bacteremia a cada 20 a 40 dias. Os 0,9 a 1,8 episódios por ano só saem com 2,5 a 5 por 1.000 cateteres-dia: o erro é um fator 10 no denominador. Quem usa o número para explicar ao paciente por que a fístula vale a espera precisa usar a leitura coerente, por 1.000 cateteres-dia, que é a que este capítulo adota; o risco dez vezes maior que o da fístula nativa, dado pela mesma diretriz, não depende dessa conta.

Diretrizes Clínicas de 2014, indicação de terapia renal substitutiva: filtração abaixo de 10 mL/min/1,73 m², e abaixo de 15 “em pacientes diabéticos e com idade inferior à 18 anos”. Ao pé da letra, o “e” faz do corte de 15 uma regra só para a criança diabética; lido como “ou”, vale para todo diabético e para todo menor de 18 anos. A diferença é concreta num adulto diabético com filtração de 12: indicação pela leitura disjuntiva, nenhuma pela conjuntiva. A Portaria nº 8.041/2025, que usa os mesmos dois números para a lista de rim, põe o menor de 18 anos e o diabético em incisos separados do art. 188 (III e IV). Esta apostila adota a leitura disjuntiva, pela coerência entre as duas normas; a mesma ambiguidade está registrada no capítulo Doença renal crônica: estadiamento e manejo. A escolha pesa pouco na prática, porque o sintoma continua marcando a data — mas decide quando a vaga é pedida.

Diretrizes de acesso vascular para hemodiálise de 2023, pergunta sobre infecção do cateter: a recomendação graduada manda retirar o cateter quando febre ou hemocultura positiva persistem 72 horas depois do início de antibiótico adequado; a justificativa do mesmo tópico lista, entre os critérios de retirada imediata, persistência de febre ou bacteremia 48 a 72 horas depois do antibiótico. Os dois prazos governam a mesma decisão no mesmo paciente e diferem em até 24 horas: lido pela justificativa, o cateter de um paciente com hemocultura ainda positiva no segundo dia já sairia; pela recomendação, espera-se o terceiro. Este capítulo adota as 72 horas da recomendação graduada, que é o texto que a diretriz submete à classificação de evidência — sem prejuízo da retirada imediata pelos outros critérios, como germe virulento, tunelite ou choque.

08

A conduta, hora a hora

A linha do tempo abaixo é a de Aderbal Umarizal, 54 anos, 66 quilos, que entrou na terapia renal substitutiva pela porta que as recomendações brasileiras descrevem como a mais comum: sem diagnóstico, sem preparo e numa internação de urgência. Ela vai do soro fechado no corredor até a fístula que amadureceu e o dia em que alguém lhe falou da lista de transplante. As condutas de Nazareno e de Sandália aparecem nas tabelas do critério e no caso resolvido; as de Aderbal são as que um interno acompanha do começo ao fim, porque é ele que fica na enfermaria esperando vaga.

Quase nada nesta linha do tempo é prescrição de fármaco com dose, e isso é deliberado. As doses que salvam a vida de quem tem hipercalemia grave estão, com volume e diluição de cada apresentação brasileira, no capítulo Injúria renal aguda: pré-renal, renal e pós-renal; a dose de cada fármaco no paciente em diálise está em Ajuste de dose na disfunção renal e hepática; a dose de alfaepoetina, ferro e quelante está nos protocolos do Ministério. O que este capítulo prescreve são os atos que só a equipe da porta faz: fechar, colher, registrar, proteger, pedir e explicar.

  1. Minutos 0 a 20 — fechar o soro e procurar a urgência

    Aderbal está sonolento, com asterixe nas duas mãos, estertores nas bases e turgência jugular a 45 graus, e o segundo litro de soro fisiológico já passou da metade. Pressão de 186/104 mmHg, frequência cardíaca de 104 bpm, saturação de 91% em ar ambiente. À ausculta cardíaca, um atrito na borda esternal esquerda. O eletrocardiograma não tem onda T apiculada nem alargamento de complexo; a gasometria venosa mostra pH 7,19 e bicarbonato de 10 mmol/L, e o potássio veio 6,1 mmol/L. A primeira decisão não é diagnóstica: é fechar o soro. A segunda é reconhecer que há urgência dialítica pela lista do capítulo Injúria renal aguda — uremia com rebaixamento e com pericardite, num paciente que também está congesto — e ligar para o nefrologista agora, não depois dos exames.

    Prescrição
    • SUSPENDER cloreto de sódio 0,9% em curso; nenhum soro de manutenção enquanto não houver avaliação de volume e medida de diurese
    • Cabeceira elevada; oxigênio suplementar pela meta de saturação do serviço; monitorização cardíaca contínua
    • Confirmar rapidamente o potássio e manter ECG monitorado. Em Aderbal, K 6,1 mmol/L, acidemia e falência renal já exigem avaliar e iniciar medidas de deslocamento enquanto se prepara diálise urgente, com monitorização glicêmica se houver insulina. Não esperar K > 6,5 ou alteração elétrica para agir. Cálcio IV é indicado se surgir cardiotoxicidade, conforme o algoritmo de hipercalemia; ECG normal não garante segurança.
    • Glicemia capilar agora
    • Não prescrever anti-inflamatório para a dor do atrito pericárdico: na pericardite urêmica quem trata é a diálise, pela régua do capítulo Pericardite aguda e tamponamento cardíaco
    • Ecocardiograma à beira do leito, pelo atrito pericárdico
    • Comunicar ao nefrologista de sobreaviso: síndrome urêmica com rebaixamento, atrito pericárdico, congestão e acidose — indicação de diálise de urgência
  2. Minutos 20 a 60 — o que é da uremia e o que é de outra coisa

    Glicemia capilar de 98 mg/dL. Sem febre, sem sinal focal, sem história de queda nem de anticoagulante: não há motivo para tomografia de crânio antes da diálise. A filha conta que ele comprou diclofenaco na farmácia para dor nas costas e tomou por uma semana, e é esse o componente que pode ser reversível — a pergunta pela bexiga, pelo volume e pelo nefrotóxico segue o capítulo Injúria renal aguda, e a bexiga está vazia à ultrassonografia. A creatinina de quatro anos atrás, 2,9 mg/dL, e os rins de oito centímetros dizem que, mesmo que alguma filtração volte, a porta já foi atravessada. A hemoglobina de 7,1 g/dL, sem sangramento ativo e sem instabilidade, não pede transfusão por reflexo: o Guia para uso de hemocomponentes lista a aloimunização entre os riscos da transfusão, e num homem de 54 anos que pode vir a ser candidato a transplante esse risco pesa mais.

    Prescrição
    • Colher: hemograma com plaquetas, ureia, creatinina, sódio, potássio, cálcio, fósforo, glicemia, alanina aminotransferase, gasometria venosa e coagulograma
    • Colher sorologias para hepatites B/C e HIV conforme protocolo de admissão, comunicando resultados desconhecidos à equipe. Organizar precauções e fluxo apropriados; aguardar resultados não pode atrasar uma diálise urgente.
    • SUSPENDER diclofenaco e qualquer anti-inflamatório; registrar o uso em prontuário
    • Transfusão só com indicação precisa, pelo Guia para uso de hemocomponentes; se houver, registrar e informar à unidade de diálise, que comunica os eventos sensibilizantes à lista (Portaria 8.041/2025, arts. 49, II, e 91)
  3. Horas 1 a 6 — o cateter e a primeira sessão

    O nefrologista confirma a indicação e pede a primeira hemodiálise ainda hoje, por cateter venoso de curta permanência. A técnica de instalação é do capítulo Acesso venoso central, mas a escolha do sítio pesa no futuro do braço de Aderbal: as diretrizes de acesso vascular de 2023 põem a veia jugular como primeira escolha, deixam a femoral para uso com cautela e registram que a subclávia deve ficar para quando não houver outro sítio, porque a estenose da veia subclávia depois de cateter chega a 42% a 50%, contra 0 a 10% de estenose de veia inominada com cateter jugular — e veia central estreitada condena a fístula que ainda nem foi feita. O seu papel nas horas seguintes é administrativo e decisivo: o consentimento explicado à filha, a sorologia que ainda não voltou avisada à enfermagem da diálise e a data anotada.

    Prescrição
    • Cateter venoso central de curta permanência para hemodiálise, instalado pela equipe, de preferência em veia jugular interna e guiado por ultrassonografia, conforme o capítulo Acesso venoso central: indicação, sítios e o que dá errado
    • Preservar o cateter para a equipe de diálise; evitar uso rotineiro para infusão ou coleta na enfermaria. Coletas relacionadas à sessão e culturas do cateter podem ser feitas por profissionais treinados conforme protocolo. Em emergência sem alternativa, a equipe responsável avalia o uso excepcional, considerando técnica asséptica e solução de selo; o interno não o manipula autonomamente.
    • Primeira sessão de hemodiálise hoje, com prescrição do nefrologista; sorologias ainda desconhecidas comunicadas à equipe da diálise, que usa máquina e profissional exclusivos (RDC Anvisa 11/2014, art. 16)
    • Registrar em prontuário a data de início da diálise, que a lista de rim usa no desempate e na transferência da inscrição (Portaria 8.041/2025, arts. 84, § 3º, e 192)
  4. Dias 1 a 3 — a enfermaria de quem acabou de começar

    Depois de três sessões, Aderbal para de vomitar, volta a reconhecer a neta e pede comida. O atrito pericárdico diminuiu, e o acompanhamento dele segue o capítulo de pericardite. Agora a prescrição da enfermaria precisa refletir que ele dialisa: dias de sessão escritos, fármacos revisados pelo horário, líquido e potássio contados. A anemia e o distúrbio mineral existem e vão ser tratados — mas pelos protocolos, com a equipe de nefrologia, e não por um pacote de rotina iniciado no plantão.

    Prescrição
    • Peso diário em jejum, na mesma balança, e balanço hídrico com diurese medida
    • Dieta com restrição de sódio, potássio e líquidos, prescrita com a nutricionista
    • Revisar cada fármaco pelo capítulo Ajuste de dose na disfunção renal e hepática: horário em relação à sessão e dose suplementar depois dela
    • Registrar dias de diálise e coordenar os exames com a unidade para reduzir punções desnecessárias e preservar veias. O cateter não é via de coleta indiscriminada; amostras durante o procedimento ou culturas seguem técnica e responsabilidade da equipe de diálise.
    • Anemia e distúrbio mineral e ósseo: alfaepoetina, ferro venoso, quelante e calcitriol pelos protocolos do Ministério e pelo capítulo Doença renal crônica: estadiamento e manejo, com a nefrologia
  5. Dia 3 — a conversa das quatro saídas

    Com Aderbal lúcido, a conversa que deveria ter acontecido anos atrás acontece agora, com a filha junto. São quatro caminhos: hemodiálise numa unidade, algumas vezes por semana; diálise peritoneal em casa, que exige treinamento dele e da família e visita domiciliar, e que as Diretrizes Clínicas de 2014 dizem ser contraindicada em menos de 10% dos pacientes — as contraindicações absolutas são perda comprovada da função peritoneal ou aderências múltiplas, impossibilidade de executar o método sem ajuda disponível — limitação física ou cognitiva pode ser superada com diálise peritoneal assistida e defeito cirúrgico não corrigível da parede ou do diafragma; as relativas, prótese vascular abdominal com menos de quatro meses, derivação ventrículo-peritoneal recente, diverticulite de repetição, doença inflamatória ou isquêmica intestinal e intolerância ao volume; transplante, de doador falecido pela lista ou de doador vivo; e cuidado conservador, sem diálise. Aos 54 anos, sem fragilidade, o conservador não é a escolha natural, mas a informação é dele. Aderbal escolhe seguir na hemodiálise e quer saber do transplante; a filha diz que quer ser avaliada como doadora.

    Prescrição
    • Registrar em prontuário o esclarecimento sobre hemodiálise, diálise peritoneal, transplante e cuidado conservador, e a escolha do paciente (Diretrizes Clínicas DRC 2014)
    • Definir plano de acesso com o paciente, nefrologia e cirurgia vascular conforme modalidade escolhida, anatomia, prognóstico e tempo previsto de uso. Solicitar fístula se hemodiálise e acesso apropriado forem o plano; não indicar fístula automaticamente a quem escolheu outra modalidade.
    • Informar sobre transplante e sobre a avaliação por equipe transplantadora, com registro (PRC 3/2017, Anexo IV, art. 67, XII; Portaria 8.041/2025, art. 49, IV)
    • Encaminhar a conversa sobre doação em vida à equipe transplantadora, que avalia a doadora
  6. Dia 4 — o pedido de vaga

    Aderbal está estável, sem urgência dialítica, e o que o segura no hospital é a vaga de hemodiálise ambulatorial. As Recomendações da Sociedade Brasileira de Nefrologia de 2026 organizam esse pedido: ele vai à regulação do município, é pedido inicial de paciente internado — a primeira prioridade — e anda na velocidade dos documentos que o acompanham. O que atrasa a vaga, quase sempre, é exame vencido, relatório de três linhas e exigência que a recomendação manda não fazer. A falta de fístula não impede o pedido.

    Prescrição
    • Pedido de vaga de hemodiálise ambulatorial à regulação do município, como pedido inicial de paciente internado — primeira prioridade (Recomendações SBN 2026, rec. 6)
    • Anexar exames dentro da validade: laboratoriais com até 15 dias; sorologias e ultrassonografia renal com até 90 dias (rec. 8)
    • Relatório médico completo e evolutivo: história clínica, medicações, exame físico, acessos usados com datas e prescrição da hemodiálise (rec. 9)
    • Não condicionar o pedido a fósforo, paratormônio, perfil de ferro, lipídios, eletrocardiograma, ecocardiograma, radiografia de tórax, sorologia de sífilis ou carteira de vacinação (rec. 10)
    • Enquanto a vaga não sai: manter as sessões no hospital e recolher o exame que vencer antes de a regulação responder
  7. Alta — o papel que viaja com o paciente

    A vaga sai no nono dia, numa unidade a vinte quilômetros, às segundas, quartas e sextas. Aderbal vai para casa com cateter e com a fístula marcada, e o risco das próximas semanas é o de Nazareno e o do cateter com febre. O resumo de alta precisa servir a quem o atender de madrugada em outro pronto-socorro, e o transporte precisa estar resolvido antes da primeira segunda-feira — não depois dela.

    Prescrição
    • Resumo de alta com o conteúdo do documento sumário das Diretrizes Clínicas de 2014: doença de base e comorbidades, sorologias, alergias, contato de familiar e da unidade, uso de anticoagulante, tipo de acesso e o aviso de não usar o cateter de diálise para outra finalidade
    • Orientação escrita de retorno imediato: febre ou calafrio, secreção ou vermelhidão no local do cateter, falta de ar, ganho rápido de peso, sessão perdida, sangramento que não para
    • Transporte sanitário para as sessões solicitado ao município antes da alta (PRC 3/2017, Anexo IV, art. 61, XI)
    • Contrarreferência à unidade básica do território, corresponsável pelo cuidado da pessoa em diálise e da família (PRC 3/2017, Anexo IV, art. 63, I, i)
  8. Semanas 3 a 12 — a fístula que amadurece e a lista

    A fístula radiocefálica é feita na terceira semana. Na revisão, o frêmito está presente; com seis semanas é liberada para punção e, na nona, sustenta as sessões — e o cateter sai. Antes de completar noventa dias de diálise, a unidade apresenta a Aderbal a opção de inscrição na lista e o encaminha formalmente à equipe transplantadora; a data de início que você anotou no primeiro dia de pronto-socorro é a que a lista usa para desempatar candidatos com a mesma pontuação. A filha segue em avaliação como doadora.

    Prescrição
    • Revisar a fístula em 1 a 2 semanas e avaliar maturação clínica, complementando com Doppler se houver dúvida ou evolução inadequada. A primeira punção depende da maturação e da liberação pela equipe, frequentemente em torno de seis semanas, sem proibição universal baseada apenas na data. Não esperar doze semanas se houver frêmito ausente, dificuldade de maturação ou outra alteração.
    • Retirar o cateter quando a fístula sustentar as sessões
    • Até o 90º dia de diálise: opção de inscrição na lista apresentada e registrada, com encaminhamento formal e relatório à equipe transplantadora (Diretrizes Clínicas DRC 2014)
    • Na unidade de diálise: soro para o painel de anticorpos renovado a cada 90 dias e a partir de 15 dias depois de qualquer evento imunizante (Portaria 8.041/2025, art. 91, II, b)
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Como saber se está funcionando

A pergunta de reavaliação neste capítulo não é “a ureia baixou”. A ureia baixa em toda sessão de diálise e sobe de novo até a seguinte; ela não diz se o paciente melhorou, se o acesso está vivo, se a infecção cedeu ou se a vaga vai sair. Os parâmetros abaixo são os que dizem — e cada um tem uma hora certa para ser olhado e uma decisão pronta para quando não vier o esperado.

Sintomas urêmicos: vômito, prurido, asterixe, estado mentalTodo dia e antes de cada sessão, nas duas primeiras semanas de diálise

Esperado: Melhorar ao longo das primeiras sessões. Em Aderbal, o vômito cedeu e a confusão desapareceu depois da terceira.

Se não melhora: Voltar à lista do que não é uremia: glicemia, sódio, cálcio, fármaco acumulado revisado pelo capítulo Ajuste de dose na disfunção renal e hepática, hematoma subdural, infecção. Sintoma que persiste com a diálise acontecendo ou não era urêmico, ou a diálise não está sendo suficiente — as duas perguntas vão ao nefrologista, com os dados.

Peso e volume em relação ao peso secoPeso diário em jejum na enfermaria; antes e depois de cada sessão

Esperado: Chegar ao peso seco sem hipotensão nem cãibra na sessão, com estertores, turgência jugular e edema regredindo. Fora da sessão, as Diretrizes Clínicas de 2014 fixam pressão abaixo de 140/90 mmHg para quem está em diálise.

Se não melhora: Ganho entre sessões acima do combinado pede revisão da ingestão de líquido e sódio e do soro esquecido na prescrição. Hipotensão repetida na sessão pede revisão do peso seco e dos anti-hipertensivos com o nefrologista. Congestão que não cede com a ultrafiltração pede outra causa — cardíaca, pericárdica.

Potássio e eletrocardiogramaNa chegada de quem perdeu sessão; ao fim da sessão de urgência; antes da sessão seguinte

Esperado: Eletrocardiograma sem alteração de potássio depois da sessão e potássio pré-sessão de volta ao habitual do paciente.

Se não melhora: Alteração eletrocardiográfica ou potássio acima de 6,5 mmol/L enquanto a sessão não acontece: ponte do capítulo Injúria renal aguda: pré-renal, renal e pós-renal e antecipação da diálise. Potássio que volta a subir rápido entre sessões: dieta, fármacos que retêm potássio, sessão encurtada ou perdida — revisar cada um.

Frêmito e sopro da fístulaA cada exame do paciente internado, com hora registrada, e em toda troca de plantão

Esperado: Frêmito contínuo ao longo da veia, sopro contínuo, mão quente, braço sem edema e sangramento pós-agulha no tempo habitual.

Se não melhora: Frêmito ausente: equipe da diálise e cirurgião vascular no mesmo turno. Sangramento prolongado depois das agulhas, braço inchado ou mão fria e dolorosa: cirurgião vascular, que decide a ultrassonografia com Doppler. Fístula nova sem condição de punção até 12 semanas: Doppler, pelas diretrizes de acesso vascular.

Efluente da diálise peritoneal: aspecto e contagem de leucócitosInspeção a cada drenagem; nova contagem e novas culturas se não houver melhora em 48 horas; decisão no quinto dia de antibiótico adequado

Esperado: Melhora clínica considerável em 48 horas e efluente clareando; pela diretriz de 2022, a melhora clínica costuma chegar em até 72 horas.

Se não melhora: Sem melhora em 48 horas: repetir contagem, diferencial e culturas e reexaminar orifício de saída e túnel. Efluente que não clareia depois de 5 dias de antibiótico adequado é peritonite refratária, e a diretriz manda retirar o cateter — observar além disso só se a contagem estiver caindo. Piora clínica em qualquer momento antecipa a retirada; germes entéricos múltiplos ou sinais de sepse trazem a cirurgia.

Febre e hemoculturas no paciente com cateter de hemodiáliseCurva térmica diária; hemoculturas de controle depois de iniciado o antibiótico; leitura da cultura no dia em que sair

Esperado: Febre cedendo e hemocultura de controle negativa dentro de 72 horas de antibiótico adequado, com germe que permite manter o cateter.

Se não melhora: Febre ou hemocultura positiva 72 horas depois de antibiótico adequado mandam retirar o cateter, e o novo só entra com antibiótico adequado e hemocultura de controle negativa, de preferência em outro sítio. Staphylococcus aureus, Pseudomonas, Candida ou germe multirresistente mandam retirar desde o resultado, e o aureus traz a investigação de endocardite.

Vaga ambulatorial e prazos do transplanteTodo dia enquanto o paciente estiver internado à espera de vaga; de novo no 90º dia de diálise

Esperado: Vaga liberada com os exames dentro da validade e o relatório completo; opção de inscrição na lista apresentada e registrada até o 90º dia.

Se não melhora: Exame que vence antes da resposta: recolher e reenviar sem esperar a regulação pedir. Vaga que não sai com o paciente estável: acionar a regulação e registrar os dias de leito ocupados só à espera, que as recomendações de 2026 associam a desnutrição, infecção e morte. Noventa dias sem a conversa da lista: cobrar da unidade de diálise, que tem esse dever pelas Diretrizes Clínicas de 2014 e pela Portaria nº 8.041/2025.

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Onde o erro machuca

Hidratar o urêmico porque a ureia está alta

O dano: É o erro do corredor de Aderbal: dois litros de soro num homem que urina pouco viraram estertores, saturação de 91% e mais uma razão para diálise de urgência. Ureia alta da doença renal crônica avançada não é desidratação, e o soro que entra só sai com a máquina.

Como pegar a tempo: Volume se decide pelo exame — turgência jugular, estertores, edema, peso — e pela diurese medida, nunca pela ureia. Diante de creatinina muito alta com rins pequenos e anemia, feche o soro até ter avaliado o volume; se houver depleção de verdade, a reposição é pequena, escrita com volume exato e reavaliada.

Aferir pressão, puncionar ou garrotear o braço da fístula

O dano: O manguito que insufla a cada quinze minutos e o garrote da coleta criam estase num circuito que só se mantém aberto enquanto o sangue corre. A fístula que trombosa pode não voltar, e o paciente volta para o cateter, com risco de bacteremia dez vezes maior.

Como pegar a tempo: Na admissão de todo paciente em diálise, pergunte pelo acesso e marque o braço: aviso na cabeceira, na prescrição e na folha da enfermagem. Palpe o frêmito e registre a hora. Pressão, coleta e acesso periférico, sempre no outro membro.

Levar ao centro cirúrgico a paciente em diálise peritoneal por causa do ar livre na radiografia

O dano: Laparotomia sem víscera perfurada, num abdome cujo peritônio é o filtro da paciente, com risco de ela perder a modalidade — enquanto a peritonite verdadeira espera o antibiótico.

Como pegar a tempo: Lembre o número da diretriz: um terço dos pacientes em diálise peritoneal ambulatorial contínua tem pneumoperitônio pelas trocas. Diagnostique pelo efluente e pense em doença cirúrgica pelos sinais que a indicam — dor localizada, germes entéricos múltiplos, hipotensão, sepse, acidose lática, amilase no efluente, falta de resposta —; com eles, a cirurgia entra.

Dar o antibiótico ao paciente com cateter e febre antes das hemoculturas, ou manter o cateter com germe que manda retirá-lo

O dano: A hemocultura colhida depois do antibiótico pode não crescer, e a decisão sobre o cateter fica sem base. Cateter mantido com Staphylococcus aureus, Pseudomonas ou Candida alimenta recidiva, embolização séptica e endocardite.

Como pegar a tempo: Duas hemoculturas periféricas antes da primeira dose, e lúmens com periférica se houver intenção de manter o cateter. Leia a lista de retirada das diretrizes de acesso vascular no dia em que a cultura chegar, não na semana seguinte.

Segurar a alta à espera de fístula, de cateter de longa permanência ou de exames que não abrem vaga

O dano: Cada dia de leito ocupado só pela espera da vaga é dia de risco de desnutrição, infecção hospitalar, internação prolongada e morte, segundo as recomendações brasileiras de 2026 — e um leito a menos para outro doente.

Como pegar a tempo: Envie o pedido como paciente internado, com exames dentro da validade e relatório completo. As recomendações dizem que o implante de cateter não é pré-requisito de alta para o paciente estável sem urgência e listam o que não se exige: fósforo, paratormônio, perfil de ferro, lipídios, eletrocardiograma, ecocardiograma, radiografia de tórax, sífilis e carteira de vacinação.

Tratar a diálise como a única saída, ou decidir por ela sem perguntar ao paciente

O dano: O idoso frágil começa diálise sem ter ouvido que havia outra opção e passa o tempo que lhe resta entre a casa, a van e a cadeira; no sentido oposto, o paciente recusa por medo de uma máquina que ninguém explicou e volta pela urgência.

Como pegar a tempo: Apresente as quatro saídas — hemodiálise, diálise peritoneal, transplante e cuidado conservador — e registre a escolha. O cuidado conservador é tratamento ativo, com termo de consentimento, controle de sintomas e planejamento do fim da vida, como preveem as Diretrizes Clínicas de 2014 e a diretriz internacional de 2024.

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O que dizer ao paciente e à família

As conversas deste capítulo acontecem em lugares ruins — corredor, box, sala de observação às seis da manhã — e quase sempre com medo do outro lado. Três regras valem para todas: dizer o nome das coisas (diálise, fístula, cateter, transplante); separar o que precisa ser decidido hoje do que pode esperar alguns dias; e nunca prometer o que depende de outra equipe, seja a vaga, a cirurgia ou a lista.

Há também o que o paciente em diálise tem direito de ouvir, e a lista está escrita. As Diretrizes Clínicas de 2014 mandam a unidade entregar, por escrito, as normas e rotinas do serviço com os direitos e deveres do paciente, os tratamentos disponíveis — hemodiálise, diálise peritoneal e transplante — com riscos e benefícios, os cuidados com a fístula e com o cateter, as intercorrências possíveis, a alimentação, como proceder em viagens, os telefones de denúncia e os endereços das associações de pacientes e da vigilância sanitária, e as condições para entrar e acompanhar a própria situação na lista de transplante. A RDC nº 11/2014 deixa à disposição do paciente os registros do reúso do seu dialisador. Quando alguém lhe perguntar no plantão “isso é direito meu?”, a resposta começa por esses documentos.

Dizer a Aderbal e à filha que a diálise começa hoje

“Seu Aderbal, o rim do senhor está funcionando muito pouco, e não é de agora: pelo tamanho dos rins e pelo exame antigo que a sua filha lembrou, isso vem acontecendo há anos, sem dar sinal. O enjoo, a coceira e a confusão de ontem são o corpo acumulando o que o rim deveria tirar. Hoje isso precisa de uma máquina que faz o trabalho do rim, a hemodiálise, e para ela vamos colocar um cateter no pescoço. É hoje porque o coração e a cabeça do senhor já estão sofrendo. As decisões de longo prazo — se vai ser máquina, diálise em casa ou transplante — a gente conversa com calma quando o senhor estiver melhor, e o senhor vai participar de todas.”

Não diga: Dizer “os rins pararam para sempre” no primeiro minuto, ou prometer que é “só por uns dias” antes de a equipe saber se alguma função volta.

Receber Nazareno, que perdeu a sessão porque o transporte falhou

“Seu Nazareno, o senhor fez certo em vir. O potássio subiu porque passaram quatro dias sem diálise, e isso aconteceu porque a van não passou — não porque o senhor descuidou. Agora vamos proteger o coração e conseguir a sessão ainda hoje. E vou pedir ao serviço social que fale com a secretaria, porque o transporte para a diálise é um direito seu e não pode depender de sorte na segunda-feira.”

Não diga: Sermão sobre adesão, ou registrar “abandono de tratamento” quando o que falhou foi o transporte.

Pedir à equipe que tire o manguito do braço da fístula

“Esse braço tem a fístula que ele usa para dialisar. Manguito, garrote e punção nele podem fechar a fístula, e aí ele volta para o cateter. Vamos medir a pressão e colher sempre do outro lado — já deixei o aviso na cabeceira e na prescrição.”

Não diga: Corrigir a colega na frente do paciente como se fosse falha pessoal. O aviso escrito protege mais do que a bronca, porque a equipe troca três vezes por dia.

Explicar a Sandália por que ela talvez não precise de cirurgia

“O ar que apareceu na radiografia, em quem faz diálise pelo peritônio, costuma ser o ar que entra pelo cateter nas trocas — acontece com muita gente e, sozinho, não quer dizer que alguma coisa furou. O líquido turvo está dizendo que há infecção na barriga, e ela se trata com antibiótico colocado no próprio líquido da diálise. Vamos colher o líquido agora, começar o antibiótico e chamar a sua equipe. Se aparecer algum sinal de que o problema é outro, o cirurgião volta a te ver — ele não sai do seu caso.”

Não diga: Desautorizar o cirurgião diante da paciente. A conversa com ele é à parte, com o número da diretriz e o resultado do efluente na mão.

Responder “vou perder o cateter?” ao paciente com febre na hemodiálise

“A febre na sessão, em quem dialisa por cateter, muitas vezes vem do próprio cateter. Colhemos o sangue antes do antibiótico para saber qual bactéria é, e é o resultado que decide: algumas infecções se tratam com o cateter no lugar, outras só saram tirando. Se for preciso trocar, o novo entra depois que o sangue estiver limpo, e a sua diálise não para enquanto isso.”

Não diga: Prometer que o cateter fica antes da cultura, ou apresentar a troca como castigo por cuidado malfeito.

Apresentar o cuidado conservador à família de Brígida Haddad, 86 anos, frágil, que pede “tudo”

“A dona Brígida chegou a um ponto em que o rim quase não funciona, e existem dois caminhos, os dois corretos. Um é a diálise, que tira os resíduos e o líquido, mas pede ida ao hospital três vezes por semana, um cateter ou uma fístula, e não devolve a força que a idade e as outras doenças levaram. O outro também é tratamento: cuidar do enjoo, da coceira e da falta de ar com remédio, dieta e acompanhamento, sem máquina, com a equipe por perto e com um plano combinado para quando piorar. O que eu preciso entender é o que importa para ela. E, se ela puder dizer, é ela quem escolhe.”

Não diga: Chamar o conservador de “não fazer nada” ou de “desistir”, e também empurrá-lo antes de a paciente e a família entenderem as duas opções. A escolha vai para o prontuário com termo de consentimento.

Responder “eu já entro na fila do transplante?”

“Entra no caminho, sim, e é bom que seja cedo. Quem avalia se o transplante é seguro para o senhor é a equipe transplantadora, e a clínica de diálise tem a obrigação de apresentar essa opção e de encaminhar o senhor. Na lista de doador falecido, quando dois candidatos empatam na pontuação, o rim vai para quem dialisa há mais tempo — e o seu tempo de diálise começou no dia em que o senhor chegou aqui. Se alguém da família quiser doar, essa pessoa também é avaliada pela mesma equipe.”

Não diga: Dar prazo de espera, prometer vaga na lista ou dizer que “nessa idade não compensa” — a avaliação é da equipe transplantadora.

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Onde bons médicos discordam

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.

Quando começar diálise no paciente crônico sem urgência: pela filtração abaixo de 10 ou pelo primeiro sintoma

Ministério da Saúde, Diretrizes Clínicas de 2014, mantidas pela Portaria de Consolidação nº 3 na redação de 2018: indicar pela filtração

Indicar terapia renal substitutiva com filtração estimada abaixo de 10 mL/min/1,73 m², ou abaixo de 15 no diabético e no menor de 18 anos, respeitada a condição clínica e laboratorial do paciente. É a régua brasileira normativa — e os mesmos números abrem a lista de rim de doador falecido para quem ainda não dialisa, pela Portaria nº 8.041/2025.

Brasil, Ministério da Saúde. Diretrizes Clínicas para o Cuidado ao Paciente com DRC no SUS, 2014, estágio 5-D; PRC 3/2017, Anexo IV, art. 60

KDIGO, 2024: começar pelo sintoma e pelo sinal, não pelo número

Iniciar diálise por avaliação composta de sintomas, sinais, qualidade de vida, preferências, filtração e exames, quando houver sinal atribuível à falência renal, volume ou pressão incontroláveis ou deterioração nutricional — o que costuma acontecer, mas nem sempre, com filtração entre 5 e 10. O ensaio IDEAL não mostrou benefício em começar cedo.

KDIGO 2024 Clinical Practice Guideline for the Evaluation and Management of CKD, practice points 5.4.1 e 5.4.2 e Tabela 41

Como decidir

Separar preparo, regras de acesso/transplante e indicação clínica de iniciar diálise. No adulto estável sem complicações, filtração abaixo de 10 não obriga a primeira sessão. Integrar sintomas atribuíveis à uremia, alterações refratárias de volume ou eletrólitos, nutrição, qualidade de vida, trajetória e preferência. Dificuldade de retorno exige organizar acesso ao cuidado, transporte, monitorização e eventualmente observação hospitalar; não cria, sozinha, um limiar obrigatório de diálise. Na urgência, iniciar suporte e acionar nefrologia sem esperar completar providências administrativas.

Fístula nativa como regra para todos, ou acesso escolhido paciente a paciente

Portaria de Consolidação nº 3, na redação de 2018, e Sociedade Brasileira de Nefrologia, 2026: fístula antes da diálise como regra

A norma manda que os pacientes sejam submetidos à confecção da fístula arteriovenosa de acordo com a condição vascular e a indicação médica. As recomendações de regulação de 2026 chamam de conceito inequívoco que o candidato à hemodiálise faça, idealmente, a fístula antes da necessidade iminente de começar a diálise.

PRC 3/2017, Anexo IV, art. 69, na redação da Portaria GM/MS nº 1.675/2018; Samaan et al., Braz J Nephrol 2026, comentário da recomendação 11

Sociedade Brasileira de Angiologia e de Cirurgia Vascular, 2023: a fístula nativa nem sempre é a primeira opção

A escolha do acesso é individual e considera expectativa de vida, probabilidade de maturação, escolha do paciente, tempo até o início da diálise, comorbidades, fragilidade, tempo até retirar o cateter e risco de complicações. Padronizar a fístula nativa para todos aumentou as tentativas em veias e pacientes limítrofes, as falhas de maturação e o tempo de dependência de cateter.

Harduin et al. Diretrizes sobre acesso vascular para hemodiálise da SBACV. J Vasc Bras 2023;22:e20230052, pergunta 4 (evidência 2C)

Como decidir

Pela régua de desempate, o primeiro degrau decide: escopo. A diretriz de acesso vascular foi escrita para a pergunta de qual acesso fazer; a portaria organiza a rede, e a recomendação da Sociedade Brasileira de Nefrologia trata de regulação de vaga. E a própria portaria condiciona a fístula à condição vascular e à indicação médica, o que abre espaço para a individualização em vez de fechá-lo. Esta apostila adota a diretriz de 2023: fístula nativa como plano padrão para quem tem veias adequadas, expectativa de vida longa e tempo para maturar, feita meses antes da diálise; decisão individual — outro tipo de fístula, cateter de longa permanência ou diálise peritoneal — para o idoso frágil, a expectativa de vida curta, as veias ruins ou a diálise que começa em semanas. Diante do paciente, a pergunta deixa de ser “fístula ou não” e passa a ser “esta fístula vai amadurecer a tempo e servir a quem ele é”.

Transplante: quando esclarecer e encaminhar — filtração abaixo de 20 ou só no estágio 5

Ministério da Saúde, Diretrizes Clínicas de 2014: encaminhar desde o estágio 5 não dialítico

Os pacientes com doença renal crônica devem ser encaminhados aos serviços especializados em transplante desde o estágio 5 não dialítico, isto é, com filtração abaixo de 15; admite-se o transplante preemptivo, e a indicação segue a portaria de transplantes de 2009 ou a que vier a substituí-la.

Brasil, Ministério da Saúde. Diretrizes Clínicas para o Cuidado ao Paciente com DRC no SUS, 2014, seção 11

Portaria GM/MS nº 8.041, 2025: esclarecer e oferecer avaliação com filtração abaixo de 20

O paciente com doença renal crônica fora de diálise e filtração estimada abaixo de 20 mL/min/1,73 m² deve receber esclarecimento sobre a possibilidade de transplante renal e oportunidade de avaliação por equipe transplantadora. A inscrição na lista de doador falecido fica para quem está em qualquer modalidade de diálise ou tem filtração abaixo de 10, ou de 15 no diabético e em quem tem até 18 anos.

Portaria GM/MS nº 8.041/2025, Regulamento Técnico do Sistema Nacional de Transplantes, art. 188, caput e § 1º

Como decidir

As duas são normas brasileiras em vigor, e o primeiro degrau decide: escopo. A Portaria nº 8.041/2025 foi escrita para o transplante — e é também a mais nova, a norma que hoje ocupa o lugar da portaria de 2009 citada pelas Diretrizes. Esta apostila adota a portaria: com filtração abaixo de 20, o paciente ouve sobre transplante e recebe a oportunidade de ser avaliado, na mesma consulta em que se fala de fístula; o encaminhamento no estágio 5 das Diretrizes passa a ser o prazo máximo, não o ponto de partida. A lista não muda — continua exigindo diálise ou filtração abaixo de 10, ou de 15 no diabético e em quem tem até 18 anos —, mas avaliar cedo é o que torna possível o transplante com doador vivo antes da diálise, que as próprias Diretrizes de 2014 admitem.

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O raciocínio, em voz alta

Sandália Jucurutu, 38 anos, 58 quilos, doença renal crônica por glomerulopatia, em diálise peritoneal ambulatorial contínua há catorze meses, com quatro trocas ao dia feitas por ela mesma; ainda urina cerca de 400 mL por dia. Chega às 4h40 com dor abdominal difusa desde a véspera e a bolsa da última troca turva. Temperatura de 37,9 °C, pressão de 118/76 mmHg, frequência cardíaca de 96 bpm. Abdome doloroso difusamente, sem defesa localizada, com pouca dor à descompressão. Orifício de saída do cateter limpo, túnel indolor. Radiografia de abdome feita na triagem: ar livre sob o diafragma. O residente de cirurgia avaliou e voltará às 8h; a equipe de diálise peritoneal do hospital de referência abre às 8h.

  1. O que penso agora

    Dor abdominal com efluente turvo já são dois achados clínicos, e a diretriz da International Society for Peritoneal Dialysis manda tratar todo efluente turvo como peritonite até que o diagnóstico seja confirmado ou afastado. O ar livre não me move para o centro cirúrgico: um terço dos pacientes em diálise peritoneal ambulatorial contínua tem pneumoperitônio pelas trocas, e a própria diretriz diz que a radiografia pode enganar. O que me moveria é dor localizada, hipotensão, sepse, acidose lática, amilase no efluente ou germes entéricos múltiplos — e ela não tem nenhum desses por enquanto.

  2. O que colho antes do antibiótico

    A bolsa da sacola ficou horas em temperatura ambiente e não serve para cultura. O líquido que está na cavidade entrou às 4h, na troca que ela fez antes de sair de casa: às 6h10 já passou de duas horas de permanência. Drenamos, olho o aspecto contra a luz e mando contagem de células com diferencial, Gram e cultura, com 5 a 10 mL semeados à beira do leito em dois frascos de hemocultura, aeróbio e anaeróbio, que não vão para a geladeira. Não colho hemocultura periférica, porque ela não está séptica nem imunossuprimida. Examino de novo orifício e túnel: sem secreção para cultivar.

  3. O resultado

    Às 6h55 o laboratório libera 2.300 leucócitos/µL com 88% de polimorfonucleares, e o Gram não mostra bactérias. Com clínica compatível e contagem acima de 100/µL com mais de 50% de polimorfonucleares depois de mais de duas horas de permanência, o diagnóstico está feito por dois critérios, sem esperar a cultura. Anoto a unidade com cuidado, porque a tradução em português da diretriz troca µL por mL — e a diferença é de mil vezes.

  4. A conversa com o cirurgião

    Às 8h, com o residente de cirurgia, apresento o número da diretriz sobre o pneumoperitônio, a contagem do efluente, a dor difusa e a estabilidade. Combinamos que ele segue no caso: se a cultura crescer vários germes entéricos, se surgir dor localizada, hipotensão ou acidose lática, ou se ela não melhorar em 48 horas, a tomografia e a reavaliação cirúrgica entram no mesmo dia, pela lógica do capítulo Peritonite secundária e abscesso intra-abdominal.

  5. A prescrição

    O esquema empírico é o do centro e precisa cobrir gram-positivos e gram-negativos; a via preferida é a intraperitoneal, porque ela não está séptica. A enfermeira da diálise peritoneal chega às 8h, e o antibiótico entra no banho que vai permanecer pelo menos seis horas. Pela Tabela 5 da diretriz, em 58 kg: cefazolina 15 mg/kg, 870 mg, uma vez ao dia no banho longo, e ceftazidima 1.000 a 1.500 mg uma vez ao dia no banho longo. Como ela ainda urina mais de 100 mL por dia, a diretriz admite aumentar as doses em 25%: cefazolina em torno de 1.090 mg e ceftazidima 1.250 mg. Nenhuma das duas consta da Rename 2024; saem da padronização do hospital. Se fosse meia-noite e ninguém pudesse administrar por via intraperitoneal até de manhã, a diretriz aceitaria começar pela via venosa e passar à intraperitoneal assim que possível.

  6. O que deixo escrito

    Internação para observação, porque a dor foi suficiente para trazê-la de madrugada; a diretriz admite tratamento ambulatorial só para dor mínima, com reavaliação em até três dias. Efluente inspecionado a cada drenagem, com anotação de aspecto. Nova contagem e novas culturas se não houver melhora em 48 horas. Esquema ajustado pela cultura e pelo antibiograma, com a equipe de diálise peritoneal, que conduz o tratamento dali em diante — é a unidade que responde pelas intercorrências do tratamento dialítico.

  7. Como vou saber se deu certo

    Em 48 horas, a dor cede e o efluente clareia; a contagem cai. Se, depois de cinco dias de antibiótico adequado, o efluente não clarear, a peritonite é refratária e a diretriz manda retirar o cateter — observar mais só se a contagem estiver caindo. Se ela piorar antes disso, a retirada vem antes. E a pergunta que fica para a equipe dela é a da prevenção: como foi a última troca, se houve contaminação, se o treinamento precisa ser revisto.

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Faça você

Manoel Serrano, 70 anos, 72 quilos, diabético, em hemodiálise há cinco meses por cateter de longa permanência na veia jugular interna direita, à espera de uma fístula braquiocefálica esquerda feita há três semanas. Na primeira hora da sessão de quarta-feira, tem calafrios e febre de 38,6 °C; pressão de 104/62 mmHg, frequência cardíaca de 108 bpm. O orifício de saída do cateter está limpo e o túnel, indolor. A equipe colheu duas hemoculturas periféricas e, como pretendia manter o cateter, uma amostra dos lúmens com outra periférica simultânea, e iniciou antibiótico empírico de amplo espectro. Trinta e seis horas depois, as quatro amostras crescem Staphylococcus aureus sensível à oxacilina, e ele ainda tem febre. A fístula tem frêmito presente em toda a extensão.

  1. achado

    Bacteremia por Staphylococcus aureus em paciente com cateter de hemodiálise, com hemoculturas pareadas positivas, febre mantida em 36 horas e orifício e túnel sem sinais locais. A fístula nova tem três semanas e frêmito presente.

  2. raciocínio

    As diretrizes de acesso vascular de 2023 separam duas decisões: o antibiótico e o destino do cateter. A retirada não depende só de tunelite ou de choque; há um critério pelo germe, e a febre de 36 horas ainda não chegou ao prazo de 72 horas que valeria para outros germes. A fístula de três semanas ainda não foi liberada; a equipe deve avaliar sua maturação e definir acesso seguro, sem aplicar um prazo isolado como proibição universal.

  3. o que falta decidir

    O que se faz com o cateter agora, o que se investiga por causa do germe, quando e onde entra o acesso novo, e o que se protege enquanto isso?

Ver como fecharíamos

Retirar o cateter já: Staphylococcus aureus está entre os germes virulentos que, pelas diretrizes de acesso vascular, mandam retirar o cateter desde o resultado, sem esperar as 72 horas de febre persistente. Bacteremia por aureus em paciente com cateter é o cenário em que se investiga endocardite, pelas regras do capítulo Endocardite infecciosa: critérios de Duke e profilaxia, que também orienta o antibiótico dirigido e a duração. Um novo cateter de longa permanência deve, quando possível, aguardar tratamento adequado e culturas de controle negativas, em outro sítio. Se houver necessidade de diálise antes disso, a equipe providencia acesso temporário em local alternativo; a urgência não espera negativação. A escolha do sítio deve preservar o plano de acesso definitivo — e a escolha desse sítio pesa na fístula: a mesma diretriz associa cateter do mesmo lado da fístula a pior maturação, então a equipe evita a jugular esquerda enquanto a braquiocefálica amadurece, e a instalação segue o capítulo Acesso venoso central: indicação, sítios e o que dá errado. Nas próximas semanas, o braço esquerdo não recebe manguito, garrote nem punção, e o frêmito é conferido e registrado a cada exame, porque é essa fístula que vai tirar Manoel do cateter.

Gabarito da questão de abertura
Comentário

Na sessão perdida, os riscos são potássio e volume, e as medidas de ponte da hipercalemia — cujas doses estão no capítulo de injúria renal aguda — protegem o coração e deslocam o potássio para dentro das células, mas não o retiram de quem não urina: o tratamento é a diálise no mesmo dia. A RDC Anvisa 11/2014 obriga o serviço de diálise a garantir assistência nas intercorrências do tratamento, e a Portaria de Consolidação nº 3 prevê transferência regulada quando a internação decorre dele. O braço da fístula não recebe manguito, garrote nem punção: a estase trombosa o acesso e devolve o paciente ao cateter. Furosemida em quem não urina e soro em quem está congesto pioram o quadro, e a alta sem diálise deixa o potássio subir de novo.

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Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
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Plano de revisão

Em 7 dias

Explique quais problemas podem exigir diálise urgente e por que a TFG baixa, isoladamente, não resolve a decisão. Descreva o que tratar enquanto a equipe organiza a terapia.

Em 30 dias

Compare um paciente com TFG muito baixa e estável com outro com hipercalemia e congestão refratárias. Inclua no plano a conversa sobre modalidades, o acesso e a investigação de febre em quem já faz diálise.

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Agora atenda

Um paciente em hemodiálise chega ao pronto-socorro depois de perder a sessão, com falta de ar e potássio alto. Atenda: antes de qualquer remédio, proteja o braço da fístula e confira o frêmito; pergunte pela última sessão, pelo peso seco, pela diurese, pelo acesso e pela unidade; decida o que é urgência e quem dialisa esse paciente hoje; e explique, sem culpá-lo, o que aconteceu e o que vai acontecer — inclusive quem resolve o transporte da próxima sessão.

Indicações de diálise e manejo da uremia – Do outro lado da porta da diálise — Internato | OsceLabs