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Clínica MédicaNefrologia

O filtro que vaza e o filtro que inflama

Síndrome nefrótica e síndrome nefrítica

Proteína demais com sedimento limpo é vazamento: mede-se, complica devagar e trata-se com método. Hematúria dismórfica com creatinina subindo é inflamação, e cada dia sem diagnóstico é glomérulo que vira cicatriz.

Fontes deste capítulo

Ministério da Saúde — Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Síndrome Nefrótica Primária em Adultos, aprovado pela Portaria Conjunta SAES/SCTIE nº 8, de 14 de abril de 2020 (Relatório de Recomendação Conitec nº 512/2020).

Ministério da Saúde — Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Síndrome Nefrótica Primária em Adultos, aprovado pela Portaria SAS/MS nº 1.320, de 25 de novembro de 2013 (DOU nº 230, 27/11/2013, seção 1, p. 143). Revogado.

Ministério da Saúde — Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Vasculite Associada aos Anticorpos Anti-citoplasma de Neutrófilos, aprovado pela Portaria Conjunta SAES/SECTICS nº 5, de 1º de julho de 2025 (Relatório de Recomendação Conitec nº 895/2024).

Ministério da Saúde, Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação — Portaria SCTIE/MS nº 2, de 8 de janeiro de 2026, que incorpora ao SUS os testes de ELISA para mieloperoxidase (MPO)-ANCA e para proteinase 3 (PR3)-ANCA no diagnóstico de pacientes com suspeita de vasculite associada ao ANCA (DOU nº 7, 12/01/2026, seção 1, p. 65).

Ministério da Saúde — Relação Nacional de Medicamentos Essenciais: Rename 2024. Brasília, 2024 (Portaria GM/MS nº 6.324/2024).

01

Responda antes de ler

Homem de 58 anos com glomerulopatia membranosa confirmada por biópsia, sem trombose prévia e com baixo risco de sangramento, tem albumina de 2,3 g/dL. O laboratório informa que usa o método do púrpura de bromocresol. Pela régua da diretriz internacional, que esta apostila adota na membranosa confirmada, como ler esse resultado quanto à anticoagulação profilática?

02

O paciente que você vai ver

Quarta-feira, 7h40, no hospital-escola. A passagem de plantão da clínica deixou duas internações novas na sua lista, e o residente, que desceu para o pronto-socorro, pediu que você as veja antes da visita das nove. A primeira se vê da porta. Dirceu Baptista, 61 anos, dirigiu ônibus por trinta e dois anos, fuma desde os dezesseis e pesava 66 quilos no Natal; a balança da enfermaria marcou 79 ontem à noite. As pálpebras amanhecem quase fechadas, a bolsa escrotal está do tamanho de um punho, a pele das pernas brilha e guarda a marca do dedo por quase um minuto. Ele conta, meio sem graça, que há cinco semanas a urina faz espuma que não desce quando ele dá a descarga, e que tomou diclofenaco por conta própria nas últimas três semanas, por dor nas costas.

A folha dele tem pressão de 134 por 82, frequência cardíaca de 88, saturação de 95% em ar ambiente, murmúrio diminuído na base direita e macicez que muda de lugar quando ele vira de lado. Os exames da madrugada: creatinina 1,1 mg/dL, sódio 131 mEq/L, potássio 4,2 mEq/L, albumina 1,7 g/dL, colesterol total 386 mg/dL, triglicerídeos 290 mg/dL. A urina tipo I veio com proteínas em quatro cruzes, três hemácias por campo e nenhum cilindro hemático, e a relação proteína/creatinina em amostra isolada deu 9,2 g/g. É o paciente mais inchado que você viu no mês, e a sua vontade é começar a visita por ele.

O leito 9 é de Romana Chaveiro, 66 anos, 58 quilos, costureira, internada com um pedido de investigação de anemia e cansaço. Ela está sentada na poltrona, conversando com a filha, e não tem edema que se veja. Há três semanas sente um cansaço que não passa, febre baixa no fim da tarde, dor nos punhos e nos joelhos, e perdeu quatro quilos sem tentar. Duas vezes, nessa semana, o catarro veio raiado de sangue. A urina, diz ela, está da cor de chá-mate, e ela achou que era falta de água.

A folha de Romana é menos vistosa e bem mais grave. Pressão de 162 por 96, hemoglobina de 8,9 g/dL, potássio de 5,1 mEq/L, 600 mL de diurese nas últimas 24 horas. A creatinina era 1,3 mg/dL num exame da unidade básica de doze dias atrás e hoje é 3,9. A urina tipo I tem hemácias incontáveis e proteínas em duas cruzes, e o laboratório escreveu à mão, embaixo: dismorfismo eritrocitário de 80%, acantócitos presentes, cilindros hemáticos. A preceptora pede as duas folhas, olha primeiro as creatininas e só depois as pessoas, e inverte a ordem da sua visita.

A razão cabe em duas frases, e o resto deste capítulo é o desdobramento delas. No glomérulo de Dirceu, o filtro está vazando: a barreira perdeu a capacidade de segurar a albumina, mas não há inflamação rasgando capilar, a filtração está preservada e o sedimento é limpo — o que ameaça esse homem nos próximos dias é um trombo, uma infecção ou um diurético mal dosado. No glomérulo de Romana, o filtro está inflamado e rompendo: as hemácias se deformam ao atravessar paredes rotas, se moldam em cilindros dentro dos túbulos, e a creatinina triplicou em doze dias porque a superfície de filtração está sendo destruída — e o que se destrói nessa velocidade vira cicatriz em dias, e cicatriz não responde a remédio nenhum.

O que o capítulo ensina é o que a preceptora fez em trinta segundos, com método: separar as duas síndromes na primeira hora com uma amostra de urina e uma curva de creatinina; quantificar a proteína; pedir o painel que distingue doença primária de secundária antes de qualquer imunossupressor; tratar o que não depende de biópsia; conhecer o que o SUS dispensa e por qual porta; e saber quem precisa do nefrologista antes do almoço. Às oito e dez você telefona para a nefrologia. Não é pelo paciente que incha.

03

Quem adoece disso

O retrato brasileiro das doenças glomerulares vem de biópsia. O protocolo nacional da síndrome nefrótica do adulto usa a maior série do país, de 9.617 biópsias de rins nativos: as glomerulopatias primárias responderam por 51% dos diagnósticos e as secundárias por 22,6%. Entre as causas primárias de síndrome nefrótica, a ordem foi glomeruloesclerose segmentar e focal (24,6%), glomerulopatia membranosa (20,7%), nefropatia por IgA (20,1%), alterações glomerulares mínimas (15,5%) e glomerulonefrite membranoproliferativa (4,2%). A consequência prática é que, no adulto brasileiro biopsiado por síndrome nefrótica, as duas lesões mais prováveis são a esclerose segmentar e a membranosa — e a lesão mínima, que é a regra na criança, é só a quarta.

Esses números descrevem quem foi biopsiado, não quem tem proteinúria na enfermaria. O diabético com retinopatia, cuja proteinúria subiu devagar ao longo de anos, raramente vai à biópsia; o paciente com contraindicação ao procedimento também não entra na série. A leitura desta apostila é que a proporção de causas secundárias no leito é maior do que a do registro — e o próprio protocolo dá a medida do problema do lado de quem é biopsiado: em cerca de 25% dos adultos, é o exame do tecido que revela uma causa secundária que a história e os exames de sangue não mostraram.

A membranosa é o exemplo mais claro de por que a pergunta primária ou secundária não se encerra na anamnese. O protocolo classifica como idiopáticas cerca de 75% delas; no quarto restante há uma doença por trás, e a lista que ele dá é a lista que o interno precisa ter na cabeça ao pedir exames: hepatite B, lúpus eritematoso sistêmico, neoplasias, artrite reumatoide, sífilis, malária e medicamentos. Num homem de 61 anos, fumante, com síndrome nefrótica abrupta, a neoplasia não é hipótese de rodapé.

O prognóstico muda de lesão para lesão, e isso explica por que a biópsia costuma valer o risco. A membranosa vai da remissão espontânea à doença renal crônica terminal, com a progressão concentrada em quem mantém proteinúria persistente. A membranoproliferativa idiopática do adulto é a de pior curso entre as primárias: o protocolo registra evolução para doença renal terminal em 60% dos pacientes em dez anos, com resposta pobre ao corticoide, ao contrário do que ocorre na criança.

As complicações do estado nefrótico não são raridade de livro. O protocolo brasileiro registra que os eventos tromboembólicos venosos são mais comuns na membranosa e na esclerose segmentar, e que costumam ocorrer com albumina abaixo de 2,5 g/dL; a diretriz internacional de doenças glomerulares de 2021 destaca a membranosa como a de risco particularmente alto. Trombose, infecção e perda aguda de função podem estar presentes já na abertura do quadro — não só depois de meses de doença.

Do lado nefrítico, o adulto não é uma criança grande. Na glomerulonefrite aguda pós-infecciosa de hoje, o estreptococo responde por apenas 28% a 47% dos casos; estafilococos aparecem em 12% a 24% e bactérias gram-negativas em até 22%. A glomerulonefrite complica de 22% a 78% das endocardites por Staphylococcus aureus, com o maior risco entre usuários de droga injetável. No adulto, portanto, o rótulo pós-estreptocócico é minoria, e a pergunta que muda a conduta é se a infecção que causou a nefrite ainda está ativa.

A vasculite associada ao ANCA é a causa que mais importa na glomerulonefrite rapidamente progressiva do adulto mais velho, e é justamente a menos contada: o protocolo brasileiro de 2025 afirma que não há estudo abrangente de incidência e prevalência no Brasil. O que ele registra é o perfil — início entre os 50 e os 70 anos, proporção próxima entre homens e mulheres, a poliangiite microscópica como principal causa de síndrome pulmão-rim — e o custo: mesmo tratada, a doença leva cerca de 30% dos pacientes à doença renal terminal em cinco anos. O quadro que a esconde é comum: anemia, cansaço e uma creatinina que sobe numa senhora de sessenta e poucos anos.

04

Por que acontece o que acontece

O glomérulo é um novelo de capilares cuja parede faz o trabalho de peneira em três camadas: o endotélio fenestrado, a membrana basal glomerular e, por fora, os podócitos, células que abraçam o capilar com prolongamentos entrelaçados e deixam entre eles fendas vedadas por um diafragma. Água, sódio, glicose e ureia passam; a albumina, pelo tamanho e pela carga, praticamente não passa. As duas síndromes deste capítulo são duas maneiras de estragar essa parede — uma abre a peneira sem inflamar, a outra inflama e rompe o capilar.

Na síndrome nefrótica, a lesão está na barreira e não há inflamação que destrua o capilar. Nas alterações glomerulares mínimas e na glomeruloesclerose segmentar e focal, o dano é do podócito; na membranosa, depósitos imunes se formam do lado de fora da membrana basal, e em boa parte dos casos são anticorpos contra um antígeno do próprio podócito, o receptor de fosfolipase A2 do tipo M. O resultado comum é proteína em quantidade — gramas por dia — com sedimento quase limpo. O protocolo brasileiro descreve a proteinúria das lesões mínimas como seletiva, em geral sem hematúria e sem hipertensão, e a da esclerose segmentar como não seletiva, que pode vir com alguma hematúria microscópica e com hipertensão.

O edema nefrótico não é só falta de albumina puxando água para fora do vaso. A diretriz internacional de 2021 o atribui a um defeito intrínseco do rim em excretar sódio: o túbulo retém sódio mesmo quando o volume circulante não está baixo, e a plasmina presente na urina nefrótica pode ativar o canal epitelial de sódio do néfron distal. Daí as duas consequências que o interno sente na prescrição. A primeira é que restringir sódio é tratamento, não detalhe. A segunda é a resistência ao diurético: a furosemida circula mais de 90% ligada à albumina, e com hipoalbuminemia chega pouca droga ao túbulo proximal, onde é secretada; a albumina filtrada ainda sequestra a droga dentro do túbulo. Por isso o nefrótico precisa de doses maiores, de duas tomadas ao dia e, às vezes, de outro diurético agindo em outro segmento.

A hipercoagulabilidade tem a mesma origem, a urina levando embora o que não devia. Saem proteínas anticoagulantes — antitrombina III, proteína C e proteína S — enquanto o fígado, estimulado, aumenta fibrinogênio e fatores V e VIII. O protocolo brasileiro descreve esse desequilíbrio e o associa ao risco de trombose venosa e arterial; a diretriz internacional acrescenta que o glicocorticoide aumenta o risco e que, por isso, a anticoagulação indicada não deve ser omitida quando a prednisona começa. A trombose de veia renal é a forma que mais engana: dor lombar, hematúria nova e perda de função num nefrótico que vinha estável.

O fígado que produz fatores de coagulação em excesso também produz lipoproteínas: colesterol LDL, triglicerídeos e lipoproteína(a) sobem, e o protocolo registra que a dislipidemia se desfaz quando a proteinúria responde. Na mesma urina se perde a vitamina D com a sua proteína carreadora, o que soma osteopenia ao efeito do corticoide que virá. E há um efeito sobre a medida da própria função renal: com hipoalbuminemia, o manejo tubular da creatinina muda, e a diretriz internacional adverte que as equações baseadas em creatinina podem superestimar a filtração real em 50% ou mais. A creatinina normal de Dirceu é tranquilizadora — mas menos do que parece.

Na síndrome nefrítica, o problema é inflamação dentro do novelo. Imunocomplexos que se depositam no glomérulo — depois de uma infecção, no lúpus, na nefropatia por IgA —, anticorpos dirigidos contra a própria membrana basal, ou a vasculite de pequenos vasos sem depósito imune significativo, que o protocolo brasileiro chama de glomerulonefrite necrotizante pauci-imune, atraem células inflamatórias e rompem a parede capilar. As hemácias atravessam brechas estreitas, deformam-se na passagem e chegam à urina dismórficas, algumas com as projeções que definem o acantócito; dentro dos túbulos, empilham-se numa matriz de proteína e saem como cilindros hemáticos. O cilindro hemático é a assinatura do glomérulo: hemácia que sangrou da bexiga não tem onde se moldar em cilindro.

A inflamação tira superfície de filtração, e o rim responde retendo sal e água. Daí a tríade clássica — hematúria, hipertensão e edema, com oligúria nos casos intensos —, com proteinúria em geral abaixo da faixa nefrótica. Quando a parede capilar se rompe de verdade, fibrina e células inflamatórias invadem o espaço de Bowman, as células da cápsula proliferam e se forma o crescente, que comprime o novelo. Um crescente celular ainda é inflamação e pode regredir; com o passar dos dias e das semanas ele se torna fibroso, e crescente fibroso é cicatriz. É por isso que o protocolo da vasculite pede que a biópsia diferencie doença ativa de dano permanente — e é por isso que a glomerulonefrite rapidamente progressiva tem relógio.

O complemento é o mapa grosseiro dessa distinção. Onde há imunocomplexo ou ativação do complemento, C3 e C4 podem ser consumidos: a diretriz internacional registra complemento baixo com frequência no padrão membranoproliferativo, em cerca de metade das glomerulopatias por C3, em 53% das glomerulonefrites de endocardite estafilocócica testadas e na nefrite lúpica ativa, ao lado do anti-DNA. Na vasculite por ANCA, que o protocolo brasileiro define pela ausência de depósito imune significativo, não há imunocomplexo para consumir complemento — e a leitura desta apostila é que complemento normal numa glomerulonefrite rapidamente progressiva empurra a hipótese para ANCA ou para doença antimembrana basal antes de lúpus. O mapa é grosseiro de propósito: complemento baixo aponta; complemento normal não exclui.

Perda de albumina através de barreira podocitária alterada e exemplo de glomerulonefrite grave com hemácias no espaço urinário e crescente celular.
À esquerda, um modelo de lesão podocitária com proteinúria. À direita, inflamação glomerular grave com escape de hemácias e crescente dentro da cápsula de Bowman, comprimindo o tufo. Crescentes não estão presentes em toda síndrome nefrítica, e as síndromes nefrótica e nefrítica podem se sobrepor. Ilustração didática original.
05

Como se apresenta de verdade

Antes de nomear a doença, nomeie a síndrome — porque é a síndrome que diz o prazo. Proteína demais com sedimento limpo e creatinina estável dá dias para investigar com calma. Hematúria dismórfica com hipertensão dá horas para quantificar e pedir exames. Hematúria dismórfica com creatinina que sobe de uma semana para a outra dá o dia de hoje para chamar o nefrologista. As seis seções abaixo seguem essa ordem, e a última diz o que sai daqui para capítulos vizinhos.

Percurso de aprendizagem

Explique como alteração da barreira glomerular e inflamação produzem manifestações diferentes e por que o sedimento muda o raciocínio.

Acompanhe as decisões sobre volume, trombose, infecção, sorologias e biópsia; separe suporte inicial de imunossupressão dirigida.

Espuma e inchaço: a síndrome nefrótica do adulto

O protocolo brasileiro define a síndrome nefrótica pela proteinúria acima de 3,0 a 3,5 g por dia, pela hipoalbuminemia e pelo edema, com dislipidemia e hipercoagulabilidade frequentes. O corte de albumina aparece duas vezes no mesmo documento com valores diferentes — abaixo de 3,0 g/dL na introdução e nos critérios de inclusão, abaixo de 3,5 g/dL no diagnóstico laboratorial —, e esta apostila adota 3,0 g/dL para a definição, que é o corte dos critérios de inclusão do próprio protocolo e o mesmo usado pela diretriz internacional na membranosa. O valor de 3,5 g/dL volta, com outro sentido, no critério de remissão completa: é outro momento do mesmo paciente, não outra definição.

A queixa que traz o paciente é o inchaço, e o protocolo descreve o seu desenho: insidioso, mais evidente pela manhã na face e no dorso, e à tarde nas pernas, podendo chegar à anasarca, com ascite, derrame pleural e edema de bolsa escrotal. A urina espumosa é a proteína que o paciente vê. A pressão arterial pode estar normal ou alta, e a frequência de hipertensão varia com a lesão histológica. O que o edema esconde é o resto: trombose, infecção e perda aguda de função podem estar presentes já na chegada.

Proteinúria na faixa nefrótica sem o quadro completo é outra situação e pede outro raciocínio. O protocolo aceita esse paciente nos critérios de inclusão, mas a diretriz internacional chama atenção para o adulto com glomeruloesclerose segmentar e focal na biópsia e sem síndrome nefrótica — proteinúria alta com albumina normal —, que deve ser investigado para causa secundária — a lista da diretriz inclui fármacos e vírus, entre outras. Na leitura desta apostila, a albumina normal é a pista: a esclerose que nasce de sobrecarga do néfron perde proteína sem derrubar a albumina como faz a lesão primária do podócito. E a diretriz é explícita sobre o que não fazer: a imunossupressão não deve ser usada no adulto com esclerose segmentar secundária nem na de causa indeterminada; o teste genético pode ajudar pacientes selecionados, encaminhados a centros com essa experiência.

O que a síndrome nefrótica pura não tem é o que muda a urgência. Cilindros hemáticos, creatinina subindo de uma semana para a outra ou hipertensão nova e grave num nefrótico significam uma de duas coisas: um quadro misto — nefrite lúpica, padrão membranoproliferativo, nefropatia por IgA — ou uma complicação, como trombose de veia renal ou injúria renal por diurético, anti-inflamatório ou contraste. Nos dois casos, o paciente deixa de ser da investigação com calma.

Urina escura, pressão alta e pouca urina: a síndrome nefrítica

A síndrome nefrítica é a tradução clínica da inflamação glomerular: hematúria — muitas vezes macroscópica, com urina cor de chá ou de refrigerante de cola —, hipertensão pela retenção de sódio, edema menos exuberante que o nefrótico e, nos casos intensos, oligúria. A proteinúria costuma ficar abaixo da faixa nefrótica. O exame de urina é o que dá nome ao quadro: hemácias dismórficas, acantócitos e cilindros hemáticos.

No adulto, a glomerulonefrite pós-infecciosa raramente é a história da criança que teve impetigo semanas antes. A diretriz internacional descreve a glomerulonefrite associada a infecção bacteriana como doença que ocorre com infecção ainda ativa, aguda ou crônica, com estafilococos e gram-negativos ocupando boa parte do lugar do estreptococo; e descreve a forma com predomínio de IgA, concomitante a bacteremia por estafilococos ou gram-negativos em pacientes com comorbidades, especialmente diabetes, relatada com infecção de pele e articulação, pneumonia, osteomielite e endocardite, com complemento baixo em 30% a 50% dos casos. A pergunta da anamnese é direta: febre agora, ferida que não fecha, sopro novo, droga injetável, cateter ou derivação.

A nefropatia por IgA é, segundo o protocolo brasileiro, a glomerulopatia mais comum no mundo. Manifesta-se sobretudo como hematúria, mas pode abrir como síndrome nefrótica e até como glomerulonefrite rapidamente progressiva. A hematúria macroscópica que aparece junto com uma infecção de vias aéreas, e não semanas depois dela, é o desenho clássico que a separa da pós-infecciosa.

A mulher jovem com lesões de pele, artrite, serosite ou citopenia e uma urina alterada tem nefrite lúpica até prova em contrário, e ela pode ser nefrítica, nefrótica ou as duas coisas. A diretriz internacional associa a atividade renal do lúpus a complemento baixo e anti-DNA elevado. A doença sistêmica é do capítulo O FAN não fecha o diagnóstico, da apostila de Reumatologia; a porta renal — reconhecer, quantificar, pedir biópsia e tratar como urgência quando a função cai — é deste.

O padrão membranoproliferativo é o que mais mistura as síndromes. O protocolo brasileiro o descreve como síndrome nefrótica com hematúria e, em alguns pacientes, como síndrome nefrítica aguda, e explica por que a imunofluorescência da biópsia muda a investigação: quando há imunoglobulina depositada, procuram-se infecções — em particular a hepatite C, com ou sem crioglobulinemia, a endocardite e outras infecções bacterianas crônicas —, doenças autoimunes e gamopatia monoclonal; quando há só complemento, trata-se das glomerulopatias do C3. A consequência para a conduta é a mesma das outras formas secundárias: antes de pensar em imunossupressor, a causa se procura e se trata.

A hematúria glomerular isolada, com creatinina normal e sem proteinúria relevante, não é síndrome nefrítica e tem dono: a triagem entre urologia e nefrologia, com o quadro brasileiro de achados glomerulares e a pesquisa de dismorfismo, é do capítulo Vermelha, e não doeu, da apostila de Urologia. Este capítulo recebe o paciente quando a hematúria glomerular vem com proteinúria, hipertensão ou perda de função.

Quando o relógio é de dias: a glomerulonefrite rapidamente progressiva

O protocolo brasileiro da síndrome nefrótica descreve a forma rapidamente progressiva como perda aguda de função renal ao longo de dias ou semanas, geralmente com manifestações de síndrome nefrítica aguda — e a aceita no protocolo mesmo sem biópsia. Para o interno, a definição operacional é a soma de duas colunas da folha: sedimento nefrítico e creatinina que sobe entre exames próximos. A de Romana triplicou em doze dias. Oligúria e hipertensão ajudam, mas o que decide é a curva.

Três mecanismos produzem esse quadro, e cada um tem o seu exame de sangue: anticorpos contra a membrana basal glomerular; imunocomplexos, como no lúpus, na glomerulonefrite pós-infecciosa e na nefropatia por IgA; e a glomerulonefrite pauci-imune da vasculite associada ao ANCA. A biópsia dá a palavra final, mas a serologia chega antes e, na vasculite, o protocolo manda não adiar o tratamento à espera do resultado histológico.

A doença sistêmica costuma deixar pistas fora do rim, e o protocolo da vasculite as organiza por órgão: sintomas constitucionais — febre, suor noturno, perda de peso, dor articular e muscular —; crostas nasais, epistaxe, sinusite, otite e nariz em sela; nódulos pulmonares, cavitações e hemorragia alveolar; púrpura palpável e úlceras de pele; mononeurite múltipla; esclerite. O cansaço, a febre baixa, as artralgias e o catarro com sangue de Romana, lidos juntos, são essa lista.

Hemoptise com creatinina subindo é síndrome pulmão-rim, e o diagnóstico diferencial que o protocolo da vasculite dá é o que o interno brasileiro precisa lembrar: lúpus eritematoso sistêmico, doença antimembrana basal, síndrome antifosfolípide e infecções — com a leptospirose nomeada. O mesmo protocolo adverte para duas armadilhas de laboratório: a endocardite bacteriana subaguda pode imitar a vasculite, inclusive com ANCA falso-positivo, e a cocaína contaminada com levamisol produz púrpura e ANCA positivos sem que a doença seja a vasculite primária.

O que o interno faz nessas horas não é escolher o imunossupressor. É reconhecer o quadro, colher o painel certo antes de qualquer pulso de corticoide, avaliar pulmão, potássio e volume, e telefonar para a nefrologia no mesmo dia, com a curva de creatinina e a descrição do sedimento na primeira frase. A indicação de diálise, quando houver, segue as regras do capítulo Injúria renal aguda, desta apostila.

As complicações que abrem o quadro

O protocolo brasileiro é explícito: perda aguda de função renal, fenômenos tromboembólicos e infecções podem estar presentes na abertura do quadro ou durante a evolução. Por isso o exame físico do nefrótico que chega não termina no edema. Compare as panturrilhas, pergunte por dor torácica e dispneia súbita, examine a pele esticada à procura de celulite e confira o que ele usou por conta própria nas últimas semanas.

A trombose é a complicação que mata sem avisar. Ela pode ser venosa profunda nos membros, embolia pulmonar, trombose de veia renal ou, menos vezes, arterial. O risco sobe com albumina muito baixa, é maior na membranosa, aumenta com imobilidade e desidratação, e o glicocorticoide o soma ao da doença. O diagnóstico e o tratamento da trombose venosa profunda são do capítulo Trombose venosa profunda, da apostila de Cirurgia Vascular; o que é deste capítulo é quem, entre os nefróticos sem trombose, recebe anticoagulação para evitá-la.

A infecção é menos frequente no adulto do que na criança, mas o protocolo lembra os cenários em que ela aparece: internação, acesso venoso, germes multirresistentes, pele rompida pelo edema e celulite. Somam-se, depois, os efeitos do imunossupressor, e é por isso que triagem de hepatite B, avaliação de estrongiloidíase e vacinas vêm antes da primeira dose.

A injúria renal aguda do nefrótico tem causas próprias, e várias são do interno: diurese agressiva que esvazia o vaso, anti-inflamatório não esteroide e contraste iodado, que o protocolo manda evitar, bloqueador do sistema renina-angiotensina iniciado em paciente desidratado, e a trombose de veia renal. No nefrítico, a queda de função é a própria doença. Nos dois, o manejo da injúria — volume, potássio, indicação de diálise — é do capítulo Injúria renal aguda.

O sódio sérico baixo aparece com frequência no nefrótico com edema em uso de diurético. O protocolo recomenda restrição de líquidos só na presença de hiponatremia com hipo-osmolaridade, e evitá-la quando há sinais de hipovolemia. A abordagem da hiponatremia em si é do capítulo Hiponatremia na enfermaria, da apostila de Prescrição e Cuidado do Paciente Internado.

Primária ou secundária: a anamnese que muda o painel

O protocolo pede que a história e o exame levantem as causas secundárias antes que o laboratório as confirme: diabetes, lúpus, infecções bacterianas e virais, medicamentos e neoplasias. A pergunta importa por um motivo concreto — a causa secundária se trata tratando a causa, e o imunossupressor que serviria à doença primária pode piorar a secundária.

O diabético de longa data, com retinopatia e proteinúria que subiu ao longo de anos, tem doença renal do diabetes, e o manejo é do capítulo O rim que não volta. A leitura desta apostila é que três mudanças de ritmo tiram esse paciente da explicação óbvia e pedem conversa sobre biópsia: sedimento com hemácias dismórficas ou cilindros hemáticos, síndrome nefrótica de instalação abrupta e perda de filtração rápida demais para a história do diabetes.

As infecções entram por três portas. As crônicas, que o painel do protocolo procura em todos — hepatite B, hepatite C, HIV e sífilis. As endêmicas, que a história de moradia revela: a malária aparece no protocolo entre as causas da membranosa, e a diretriz internacional dedica seção própria às glomerulopatias da esquistossomose e da malária. E as ativas, que o exame físico encontra: endocardite, abscesso, osteomielite, pele infectada. A hepatite B tem tratamento no capítulo Hepatite B, da apostila de Gastroenterologia, e o HIV no capítulo HIV: quem se testa, e o que começa no mesmo dia, da apostila de Infectologia.

Duas infecções endêmicas no Brasil têm regra própria na diretriz internacional, e as duas dizem a mesma coisa sobre o imunossupressor: não há indicação. Na nefropatia da esquistossomose, a diretriz manda procurar as coinfecções que mudam a agressividade da glomerulonefrite — salmonela, hepatite B, hepatite C e HIV —, biopsiar quando houver coinfecção viral, tratar com antiparasitário em dose e duração que erradiquem o verme e acompanhar a função renal de quem tem fibrose hepática pela doença; a biópsia é recomendada na doença renal evidente ou progressiva e pode esperar na proteinúria abaixo de 1 g/dia sem hematúria nem queda de filtração, porque o antiparasitário cura a forma leve. Na malária, a infecção por Plasmodium falciparum ou vivax pode dar proteinúria leve e transitória, hematúria microscópica e, às vezes, complemento baixo, enquanto a infecção crônica por Plasmodium malariae se associa a glomerulonefrite irreversível e progressiva.

No HIV, a diretriz pede biópsia, quando possível, para definir a lesão, porque o nome da doença renal do HIV é o que a morfologia mostra, e recomenda terapia antirretroviral para todo paciente com HIV e doença renal crônica, especialmente na nefropatia associada ao HIV, qualquer que seja o CD4, com a dose ajustada à função renal; o corticoide como adjuvante é decisão caso a caso. A genética entra na conta: as variantes de risco do gene APOL1, que o protocolo brasileiro cita para os afrodescendentes com esclerose segmentar esporádica, aparecem na diretriz entre os fatores que pesam no prognóstico da doença renal do HIV.

Medicamentos e drogas precisam ser perguntados pelo nome. O anti-inflamatório não esteroide aparece entre as causas associadas que a diretriz internacional manda procurar na membranosa e na esclerose segmentar, e o protocolo brasileiro inclui na lista de exposições a evitar os descongestionantes, as anfetaminas, os esteroides anabolizantes e a cocaína, associada ou não ao levamisol.

A neoplasia é a pergunta da membranosa no adulto mais velho. A diretriz internacional recomenda avaliar condições associadas em todo paciente com membranosa, com ou sem anticorpo anti-PLA2R, e reconhece que o rendimento do rastreamento de câncer é baixo, sobretudo no paciente jovem; o que muitos centros fazem é radiografia ou tomografia de tórax, pesquisa de deficiência de ferro, os rastreamentos nacionais de mama e de intestino em dia e o antígeno prostático no homem acima de 50 a 60 anos. No padrão membranoproliferativo com imunoglobulina, o protocolo brasileiro acrescenta a gamopatia monoclonal à lista.

O que é deste capítulo e o que sai daqui

Este capítulo é dono da glomerulopatia do adulto: reconhecer a síndrome nefrótica, a síndrome nefrítica e a glomerulonefrite rapidamente progressiva; quantificar a proteinúria; pedir o painel que separa causa primária de secundária; organizar a biópsia; tratar as complicações e o que não depende da histologia; e saber o que o protocolo brasileiro libera de imunossupressão e por qual porta. Assume também a porta renal da nefrite lúpica e a urgência renal da vasculite associada ao ANCA — a doença sistêmica, a classificação, as manifestações fora do rim e a manutenção ficam para o capítulo Vasculites sistêmicas, na apostila de Reumatologia.

A glomerulonefrite difusa aguda pós-estreptocócica da criança é do capítulo O que mata aqui não é a creatinina, da apostila de Nefrologia Pediátrica; a glomerulonefrite pós-infecciosa do adulto é deste. A síndrome nefrótica da criança não é tratada aqui: é de Síndrome nefrótica idiopática (lesões mínimas) na infância, na apostila de Nefrologia Pediátrica. A proteinúria que aparece na gestação e a decisão sobre pré-eclâmpsia são do capítulo Pré-eclâmpsia, da apostila de Obstetrícia; a gestante com glomerulopatia conhecida é cuidada em conjunto pela nefrologia e pela obstetrícia, como pede a diretriz internacional.

Da própria apostila de Nefrologia saem três fronteiras. O manejo da injúria renal aguda — volume, potássio, diálise — é do capítulo Injúria renal aguda, que manda o paciente com hemácias dismórficas e cilindros hemáticos para a nefrologia no mesmo dia; é esse paciente que este capítulo recebe. O estadiamento da doença renal crônica e a titulação da nefroproteção — dose do bloqueador do sistema renina-angiotensina, a regra de tolerância da creatinina, os demais nefroprotetores — são do capítulo O rim que não volta. E a triagem da hematúria glomerular isolada é do capítulo Vermelha, e não doeu, da apostila de Urologia.

O esquema de indução e de manutenção da nefrite lúpica — a escolha entre micofenolato, ciclofosfamida e inibidor de calcineurina — é decisão da nefrologia com a reumatologia e não é ensinado aqui; este capítulo vai até a biópsia e a urgência. A intensidade da estatina segue o capítulo Dislipidemias e risco cardiovascular global, da apostila de Cardiologia, e a endocardite, que pode ser a causa da nefrite, é do capítulo Endocardite infecciosa, da mesma apostila.

06

Como fechar o diagnóstico

A investigação tem uma ordem, e quem a dá é a síndrome. Primeiro se confirma o que se vê — quanta proteína, que sedimento, que função. Depois se procura a causa, com o painel colhido antes de qualquer imunossupressor. Por último vem a biópsia, que o nefrologista indica e o interno prepara. Na glomerulonefrite rapidamente progressiva as três etapas se comprimem no mesmo dia, e o tratamento não espera a última.

Quantificar a proteína: fita, relação proteína/creatinina e urina de 24 horas

A fita reagente é qualitativa: as quatro cruzes de Dirceu dizem que há muita proteína, não quanto. O protocolo brasileiro põe na definição a excreção acima de 3,0 g em 24 horas, ou de 3,5 g por 1,73 m² de superfície corporal, e aceita a relação proteína/creatinina em amostra isolada igual ou acima de 3, com sensibilidade próxima de 90% em qualquer nível de função renal, como opção para diagnosticar proteinúria nefrótica. Aceita também que a relação substitua a coleta de 24 horas no acompanhamento. Como a relação é expressa em gramas de proteína por grama de creatinina e a excreção diária de creatinina de um adulto gira em torno de um grama, os 9,2 g/g de Dirceu correspondem, grosseiramente, a 9 g por dia.

A diretriz internacional de 2021 pede outra coisa num momento específico: a coleta de 24 horas no momento de começar ou aumentar a imunossupressão, e também quando o quadro clínico muda, porque a amostra isolada varia ao longo do dia e de um dia para o outro. Para essa hora ela propõe um meio-termo prático — coletar a urina de 24 horas e medir a relação proteína/creatinina numa alíquota da coleta. Isso não é divergência entre as duas réguas, é cronologia: a amostra isolada diagnostica e acompanha; a coleta de 24 horas, ou a relação medida dentro dela, sustenta a decisão de começar ou subir o imunossupressor.

A coleta de 24 horas precisa ser completa: desprezar a primeira urina, anotar o horário e guardar todas as micções até a primeira do mesmo horário no dia seguinte, conforme conservação orientada pelo laboratório. Perdas durante banho ou evacuação tornam a quantificação pouco confiável e devem ser informadas. O sódio urinário pode ajudar a estimar ingestão em equilíbrio, mas diurético e mobilização de edema alteram a excreção. Na descongestão ativa, não usar o resultado isolado para afirmar que a dieta foi descumprida ou que a dose é insuficiente.

No nefrítico, a quantificação tem outro papel: separa a nefrite com proteinúria baixa da que já tem componente nefrótico, e dá a linha de base contra a qual a resposta vai ser medida. Romana tem proteínas em duas cruzes na fita; a relação proteína/creatinina colhida hoje é o número que a nefrologia vai comparar no fim da primeira semana de tratamento.

O sedimento: o exame que separa as síndromes

A diretriz internacional recomenda avaliar o sedimento urinário, com a morfologia das hemácias e a procura de cilindros hemáticos e acantócitos, em todas as formas de doença glomerular. É o exame mais barato do capítulo e o que mais decide: sedimento limpo com proteína maciça é nefrótico; hemácias dismórficas com cilindros hemáticos é nefrítico, qualquer que seja a proteinúria. A régua brasileira dos percentuais de dismorfismo, com a faixa indeterminada e o encaminhamento que ela gera, está no capítulo Vermelha, e não doeu, da apostila de Urologia.

A amostra estraga fácil. Cilindros se desfazem na urina que espera horas, a menstruação enche o campo de hemácias que não vieram do rim e a sonda traumatizada faz o mesmo. Peça amostra recente, fora do período menstrual, e anote na requisição a pergunta clínica — morfologia das hemácias e pesquisa de cilindros —, porque o laboratório que não sabe o que se procura faz a contagem e não o exame.

O sedimento também aponta para fora do glomérulo, e essas pistas são do capítulo Injúria renal aguda: cilindros granulosos e células tubulares falam de lesão tubular; leucócitos e cilindros leucocitários sem infecção falam de nefrite intersticial, quase sempre por droga. O anti-inflamatório que Dirceu tomou pode dar as duas coisas, e a urina que você pediu hoje é a linha de base para saber se algo mudou.

A leitura completa da urina tipo I — densidade, pH, cristais, esterase, nitrito — pertence a um tema de interpretação de exames do plano do nível que ainda não foi escrito. Este capítulo usa dela o que decide a síndrome e não a assume inteira.

Sangue: função, albumina, lipídeos — e o que a creatinina esconde

Creatinina com filtração estimada é o primeiro exame de sangue, e a diretriz internacional prefere a equação CKD-EPI no adulto com doença glomerular. Mas ela mesma adverte que, na síndrome nefrótica com hipoalbuminemia, as equações baseadas em creatinina podem superestimar a filtração real em 50% ou mais. O valor isolado importa menos que a série: no nefrótico, uma creatinina que sobe de 1,1 para 1,5 mg/dL é mais grave do que o número sugere; no nefrítico, a curva diária é o sinal vital do rim.

A albumina sérica tem uma armadilha de laboratório que muda conduta. A diretriz internacional registra que os métodos de dosagem discordam: 2,5 g/dL pelo verde de bromocresol equivalem a cerca de 2,0 g/dL pelo púrpura de bromocresol ou por imunonefelometria. Como o limiar de anticoagulação profilática é dado em albumina, pergunte ao laboratório qual método ele usa e escreva o método ao lado do número na evolução. O protocolo brasileiro dá esse limiar como uma faixa, de 2,0 a 2,5 g/dL, sem dizer que a faixa é, em boa parte, a diferença entre dois métodos.

O resto do perfil de entrada vem do que o protocolo monitoriza: colesterol total e frações e triglicerídeos; glicemia e hemoglobina glicada, que o corticoide vai desafiar; sódio, potássio, bicarbonato e cálcio, que o diurético e o bloqueador do sistema renina-angiotensina vão mexer; hemograma com plaquetas; e as provas de coagulação que a biópsia vai exigir.

Na glomerulonefrite rapidamente progressiva, três números pedem vigilância no mesmo dia. O potássio, porque a filtração cai rápido. A hemoglobina, porque anemia que se aprofunda num paciente com hemoptise pode ser sangue no alvéolo. E a saturação de oxigênio, pelo mesmo motivo. Hemoglobina de 8,9 g/dL em Romana, com catarro raiado de sangue, não é só anemia de doença crônica até que o pulmão seja olhado.

O painel etiológico: o que pedir e o que cada resultado muda

O protocolo brasileiro lista os exames que procuram as condições mais associadas, e eles valem para todo adulto com síndrome nefrótica: hemograma com plaquetas, creatinina, glicemia, exame de urina, anti-HIV, anti-HCV, HBsAg, anti-HBc total, sorologia para sífilis, fator antinuclear e dosagem de complemento, C3 e C4. Conforme o quadro, acrescenta anti-DNA de dupla hélice, crioglobulinas e ANCA. É o painel de Dirceu, e ele sai antes de qualquer corticoide.

Na glomerulonefrite rapidamente progressiva, o painel ganha pressa e três exames. O ANCA, que o protocolo da síndrome nefrótica lista pelos padrões citoplasmático e perinuclear, e cujos testes específicos, de ELISA para mieloperoxidase e proteinase 3, o protocolo da vasculite de 2025 dava como indisponíveis no SUS — a Portaria SCTIE/MS nº 2, de janeiro de 2026, incorporou os dois, e eles devem ser pedidos. O anticorpo antimembrana basal glomerular, que a diretriz internacional manda pesquisar sem demora em toda suspeita de glomerulonefrite rapidamente progressiva. E hemoculturas quando há febre ou sopro, porque a endocardite imita a vasculite e pode positivar o ANCA. Fator antinuclear, anti-DNA, C3 e C4 completam o painel de Romana.

Na membranosa, a diretriz internacional dá ao anticorpo anti-PLA2R um papel que muda o caminho: no paciente com síndrome nefrótica e anticorpo positivo, a biópsia não é necessária para confirmar o diagnóstico de membranosa — e, positivo ou negativo, as condições associadas continuam a ser procuradas. O protocolo brasileiro de 2020 não inclui o exame, e a disponibilidade depende do serviço; onde houver, ele pesa na decisão de biopsiar um paciente de risco hemorrágico.

Três exames existem para proteger o paciente do tratamento, e não para diagnosticar a doença. A sorologia de hepatite B, porque a diretriz internacional adverte que ciclofosfamida e rituximabe podem acelerar a replicação viral e devem ser evitados na infecção replicativa não tratada. A investigação de tuberculose latente, que o protocolo da vasculite exige antes do tratamento. E a avaliação de estrongiloidíase em quem morou em área endêmica, que a diretriz internacional lembra e que o protocolo da vasculite manda tratar antes de imunossuprimir.

Leia cada resultado pela decisão que ele muda, não pelo nome da doença. HBsAg reagente adia o imunossupressor e chama o tratamento da hepatite. ANCA ou antimembrana basal positivos numa glomerulonefrite rapidamente progressiva autorizam a nefrologia a tratar antes da biópsia. Complemento baixo empurra para imunocomplexo e reabre a pergunta pela infecção ativa e pelo lúpus. Um painel inteiro negativo num adulto nefrótico não encerra nada: é o que manda para a biópsia.

Biópsia renal: quem indica, quando, e o que o interno prepara

O protocolo brasileiro diz que, no adulto, o exame do tecido confirma a lesão glomerular, guia a decisão terapêutica e, em cerca de 25% dos casos, revela uma causa secundária; em todos os casos de síndrome nefrótica primária do adulto, é a histologia que define o plano. A diretriz internacional chama a biópsia de padrão-ouro e registra duas situações que o interno precisa conhecer: as lesões mínimas do adulto só se diagnosticam com biópsia, e a membranosa com anti-PLA2R positivo dispensa a biópsia para o diagnóstico. A primeira regra é o motivo de não se dar prednisona empírica ao adulto nefrótico, como se faz na criança.

O mesmo protocolo lista as contraindicações. Absolutas: coagulopatia e anticoagulação plena. Relativas: rim único, hipertensão arterial resistente, gestação e infecção do trato urinário persistente. Quando a contraindicação existe, o protocolo permite incluir o paciente no tratamento com base nos achados clínicos e laboratoriais. Para a biópsia, pede hemograma, provas de coagulação e exame de imagem renal prévios; o controle da pressão, a suspensão de antiagregantes e anticoagulantes e o consentimento seguem o protocolo do serviço que faz o procedimento. Feita a biópsia, ela pode ser repetida quando o resultado puder mudar o tratamento ou a estimativa de prognóstico, como prevê a diretriz internacional.

Na vasculite, o protocolo de 2025 descreve a biópsia do órgão acometido como o critério padrão-ouro e, no rim, como o exame que separa doença ativa de dano permanente, o que dá prognóstico. E acrescenta a frase que organiza o dia de Romana: nem sempre a biópsia é viável, e o início do tratamento não deve ser adiado à espera do resultado histológico. A ordem, portanto, é colher o painel, iniciar o que a nefrologia indicar e biopsiar assim que possível — não esperar a biópsia para iniciar.

As regras se cruzam num paciente como Dirceu. Se ele fizer trombose e começar anticoagulação plena, a biópsia passa a ter contraindicação absoluta pelo próprio protocolo, que então permite tratá-lo sem histologia. Se o laboratório do serviço dosar anti-PLA2R e o exame vier positivo, a diretriz internacional dá o diagnóstico de membranosa sem biópsia. Nos dois caminhos, a decisão é do nefrologista; o que é do interno é trazer à discussão, na mesma frase, a trombose, a anticoagulação e o resultado do anticorpo.

Imagem: o tamanho do rim, as veias e o pulmão

A ultrassonografia de rins e vias urinárias é o exame de imagem da entrada. Ela mede o tamanho do rim, e o protocolo brasileiro usa rins diminuídos, com menos de 9 cm, junto com a doença renal crônica avançada, entre os critérios de exclusão do tratamento imunossupressor; na membranosa, recomenda não imunossuprimir o paciente com creatinina persistentemente acima de 3,5 mg/dL e redução do tamanho renal. Rim pequeno fala de cronicidade, e cronicidade tira do imunossupressor o que ele poderia oferecer. É também o exame que o protocolo exige antes da biópsia.

No nefrótico que vinha estável e passa a ter dor lombar, hematúria nova ou perda de função, a hipótese de trombose de veia renal pede exame de imagem vascular, e a escolha do método — ultrassonografia com Doppler ou tomografia com contraste — é discutida com a radiologia, pesando o contraste iodado, que o protocolo manda evitar no nefrótico.

Na síndrome pulmão-rim, a imagem de tórax é do mesmo dia. O protocolo da vasculite registra que tomografia e ressonância avaliam a extensão da doença, mas não confirmam nem afastam o diagnóstico: infiltrado com hemoglobina caindo num paciente com glomerulonefrite rapidamente progressiva é hemorragia alveolar até prova em contrário, e a prova não vem da imagem. Na membranosa do adulto mais velho, a radiografia ou a tomografia de tórax entra por outro motivo, o rastreamento de neoplasia associada.

07

Reconhecer síndromes glomerulares e suas urgências

Aprenda a integrar edema, pressão, sedimento urinário, proteinúria e função renal para reconhecer síndrome nefrítica, nefrótica e apresentações mistas. O interno precisa identificar gravidade, organizar investigação e discutir tratamento específico sem perder tempo com uma sequência rígida. O fluxo abaixo é a sequência da primeira hora ao encaminhamento, e as quatro tabelas são as que se consultam no plantão: as três síndromes lado a lado, o painel com o que cada exame muda, a conversão das doses do capítulo num adulto de 70 kg e o que o SUS fornece, por qual porta. As notas registram os defeitos das fontes oficiais que mudam o que se prescreve ou se lê — cada uma com a conta que o demonstra e a posição que esta apostila adota.

  1. 1Adulto com edema, proteinúria ou hematúria: colha urina recente para sedimento com morfologia das hemácias e relação proteína/creatinina, e compare a creatinina de hoje com o exame anterior mais próximo.
  2. 2Hemácias dismórficas ou cilindros hemáticos com creatinina subindo entre exames próximos: glomerulonefrite rapidamente progressiva até prova em contrário. Nefrologia no mesmo dia, painel colhido antes de qualquer corticoide, pulmão, potássio e volume avaliados.
  3. 3Sedimento nefrítico com creatinina estável: síndrome nefrítica. Quantifique a proteína, meça a pressão, procure infecção ativa e sinais de lúpus, peça o painel; a nefrologia entra em dias.
  4. 4Relação proteína/creatinina de 3 g/g ou mais, albumina abaixo de 3,0 g/dL e sedimento quase limpo: síndrome nefrótica. Painel do protocolo, peso diário, sódio restrito, diurético, heparina profilática se internado.
  5. 5Antes de qualquer imunossupressor: HBsAg e anti-HBc, anti-HCV, anti-HIV, sífilis, tuberculose latente e estrongiloidíase em quem viveu em área endêmica; vacinas indicadas, quando possível, antes da primeira dose.
  6. 6Albumina com o método anotado: decida a anticoagulação profilática pela régua desta apostila, descrita nas divergências, e reveja a decisão a cada nova dosagem.
  7. 7Biópsia indicada com o nefrologista: confira as contraindicações do protocolo e prepare hemograma, coagulação e imagem renal. Na glomerulonefrite rapidamente progressiva, o tratamento não espera a biópsia.
  8. 8O que independe da histologia começa já: sódio, diurético, bloqueio do sistema renina-angiotensina com volume corrigido, estatina conforme o risco e as profilaxias. O imunossupressor sai do diagnóstico e da porta do protocolo.

As três síndromes lado a lado

Síndrome nefróticaSíndrome nefríticaGlomerulonefrite rapidamente progressiva
O que o paciente trazEdema que começa na face e desce; urina espumosaUrina escura, pressão alta, edema discreto, pouca urinaQuadro nefrítico que piora em dias; às vezes hemoptise, febre, artralgia, púrpura
Proteinúria3,0 g por dia ou mais; relação de 3 g/g ou maisEm geral abaixo da faixa nefróticaVariável, em geral abaixo da faixa nefrótica
SedimentoQuase limpoHemácias dismórficas, acantócitos, cilindros hemáticosO mesmo da nefrítica
AlbuminaAbaixo de 3,0 g/dLNão define a síndromeNão define a síndrome
Creatinina na chegadaEm geral estável, e superestima a filtraçãoPode estar altaSobe entre exames próximos
O que ameaçaTrombose, infecção, diurese mal dosadaHipertensão, congestão, perda de funçãoCrescente que vira cicatriz; hemorragia alveolar
Prazo para a nefrologiaDias; internação se anasarca ou complicaçãoPrioridade conforme gravidade; oligúria, hipertensão grave, hipercalemia ou rápida piora exigem avaliação no mesmo dia.Hoje
BiópsiaRegra no adulto; anti-PLA2R positivo dispensa na membranosaConforme a causa provávelAssim que possível, sem adiar o tratamento

O painel: o que cada exame pergunta e o que o resultado muda

ExamePerguntaResultado que muda a condutaFonte
HBsAg e anti-HBc totalHepatite B causando a glomerulopatia, ou latente sob o imunossupressorReagente: adiar ciclofosfamida e rituximabe e tratar a hepatite antesProtocolo da nefrótica, 2020; diretriz internacional, 2021
Anti-HCV, anti-HIV, sífilisInfecção crônica tratável por trás do rimReagente: tratar a infecção é tratar o rim; imunossupressão reavaliadaProtocolo da nefrótica, 2020
Fator antinuclear e anti-DNALúpusPositivos, com complemento baixo: nefrite lúpica; biópsia com pressa proporcional à funçãoProtocolo da nefrótica, 2020; diretriz internacional, 2021
C3 e C4Imunocomplexo ou ativação do complementoBaixos: pós-infecciosa, lúpus, padrão membranoproliferativo; normais não excluemProtocolo da nefrótica, 2020; diretriz internacional, 2021
ANCA e ELISA anti-MPO e anti-PR3Vasculite pauci-imunePositivo na glomerulonefrite rapidamente progressiva: tratar sem esperar a biópsiaProtocolo da vasculite, 2025; Portaria SCTIE/MS nº 2/2026
Anticorpo antimembrana basal glomerularDoença antimembrana basalPositivo: tratamento sem demora, com plasmaféreseDiretriz internacional, 2021
Anti-PLA2R, onde houverMembranosa primáriaPositivo com síndrome nefrótica: diagnóstico sem biópsia; causas associadas ainda procuradasDiretriz internacional, 2021
CrioglobulinasCrioglobulinemia, sobretudo com hepatite CPresentes: a causa se trata primeiroProtocolo da nefrótica, 2020
HemoculturasEndocarditePositivas: a nefrite é da infecção, e o ANCA pode ser falso-positivoProtocolo da vasculite, 2025; diretriz internacional, 2021
Tuberculose latente e exposição à estrongiloidíaseInfecção que o imunossupressor despertaPositiva ou exposição: tratar antes de imunossuprimirProtocolo da vasculite, 2025; protocolo da nefrótica, 2020

Conversão das doses do capítulo — adulto de 70 kg e 1,70 m

Fármaco e apresentação na Rename 2024Dose de referência e fonteContaNa mão
Prednisona, comprimidos de 20 e 5 mg1 mg/kg/dia, máximo 80 mg (protocolos da nefrótica e da vasculite)70 × 1 = 70 mg3 comprimidos de 20 mg + 2 de 5 mg, pela manhã
Metilprednisolona, frasco de 500 mg1 g IV por dia, 1 a 3 dias (protocolo da vasculite)1.000 mg ÷ 500 mg2 frascos por dia
Furosemida injetável 10 mg/mL, ampola de 20 mg em 2 mL1 mg/kg/dia em 2 a 3 tomadas; até 0,5 a 1 mg/kg a cada 6, 8 ou 12 h (protocolo da nefrótica)70 mg/dia; 35 a 70 mg por tomada7 mL por dia (3,5 ampolas); 3,5 a 7 mL por tomada
Furosemida, comprimido de 40 mg40 a 120 mg por tomada, 2 a 3 vezes ao dia; teto de 360 mg/dia no texto, 240 mg/dia na tabela (ver notas)360 ÷ 40; 240 ÷ 401 a 3 comprimidos por tomada; teto de 9 ou de 6 comprimidos por dia
Hidroclorotiazida, comprimido de 25 mg25 a 50 mg/dia (protocolo da nefrótica)1 a 2 comprimidos por dia
Espironolactona, comprimidos de 25 e 100 mg25 a 200 mg/dia (protocolo da nefrótica)1 comprimido de 25 mg até 2 de 100 mg por dia
Heparina sódica 5.000 UI/0,25 mL5.000 UI por via subcutânea a cada 8 a 12 h na internação (protocolo da nefrótica)5.000 UI = 0,25 mL1 ampola por aplicação
Sulfametoxazol + trimetoprima 400/80 mg400/80 mg por dia com ciclofosfamida (protocolo da nefrótica)1 comprimido por dia
Carbonato de cálcio 1.250 mg (500 mg de cálcio) + colecalciferol 400 UICarbonato 1 g/dia + colecalciferol 400 UI/dia se corticoide por mais de 12 a 16 semanas (protocolo da nefrótica)1 g de carbonato = 400 mg de cálcio1 comprimido por dia dá 1,25 g de carbonato e 400 UI
Calcitriol, cápsula de 0,25 mcg0,25 mcg/dia na hipocalcemia persistente (o protocolo escreve 0,25 g; ver notas)0,25 g = 250.000 mcg1 cápsula por dia
Ivermectina, comprimido de 6 mg0,2 mg/kg nos dias 1 e 15 (protocolo da nefrótica)70 × 0,2 = 14 mg2 comprimidos (12 mg, 0,17 mg/kg) ou 3 (18 mg, 0,26 mg/kg)
Ciclofosfamida, comprimido de liberação retardada de 50 mg2 mg/kg/dia (protocolo da nefrótica)70 × 2 = 140 mgNão fecha em múltiplo de 50: 100 mg (1,43 mg/kg) ou 150 mg (2,14 mg/kg), a critério do nefrologista
Ciclosporina, cápsulas de 10, 25, 50 e 100 mg3,5 a 5 mg/kg/dia em 2 tomadas, na membranosa (protocolo da nefrótica)245 a 350 mg/dia; 122,5 a 175 mg por tomadaPor exemplo, 100 + 25 mg a cada 12 h; nível de vale de 100 a 200 ng/mL
Ciclofosfamida IV, frascos de 200 e 1.000 mg (sem linha na Rename; vem pelo procedimento)15 mg/kg (protocolo da vasculite)70 × 15 = 1.050 mg1 frasco de 1.000 mg + 50 mg de um de 200 mg, com ajuste do nefrologista
Rituximabe 10 mg/mL375 mg/m² por semana × 4, ou 1.000 mg nos dias 1 e 15 (protocolo da vasculite)Superfície de 1,82 m² × 375 = 682 mg68,2 mL por infusão; ou 100 mL na dose de 1.000 mg
Albumina humana a 20% (0,2 g/mL) — não consta da Rename 20240,5 g/kg em 1 hora, seguida de furosemida IV (protocolo da nefrótica)70 × 0,5 = 35 g; 35 ÷ 0,2175 mL por infusão

O que o SUS fornece, e por qual porta

MedicamentoComponente na Rename 2024Porta para o paciente deste capítuloObservação
Prednisona 5 e 20 mgBásico e EstratégicoFarmácia da unidade básicaÉ o primeiro imunossupressor do protocolo nas lesões mínimas e na esclerose segmentar
Ciclosporina, cápsulas e solução oralEspecializadoComponente Especializado, pelo protocolo da síndrome nefrótica do adultoA Rename nomeia esse protocolo como documento norteador
Ciclofosfamida, comprimido de 50 mgEspecializadoComponente Especializado, pelo protocolo da síndrome nefrótica do adultoHemograma quinzenal nos dois primeiros meses
Metilprednisolona IV e ciclofosfamida IVMetilprednisolona 500 mg: Especializado; ciclofosfamida injetável: sem linhaProcedimento de pulsoterapia, com fornecimento pelo serviçoAssim diz o protocolo da vasculite
Rituximabe 10 mg/mLEspecializadoProtocolo da vasculite: adulto com diagnóstico recente em idade fértil, ou recidiva refratária à ciclofosfamidaNão entra pelo protocolo da síndrome nefrótica do adulto
Tacrolimo e micofenolatoEspecializadoNão pelo protocolo da síndrome nefrótica do adulto, que não os incluiConstam da Rename por outros protocolos
Captopril 25 mg, enalapril 5, 10 e 20 mg, losartana 50 mgBásicoUnidade básicaTitulação no capítulo O rim que não volta
Furosemida, hidroclorotiazida, espironolactonaBásicoUnidade básica; na internação, farmácia hospitalarFurosemida em comprimido de 40 mg e injetável de 10 mg/mL
Sinvastatina 10, 20 e 40 mgBásicoUnidade básicaAtorvastatina consta como Especializado
Varfarina 1 e 5 mg; heparina 5.000 UI/0,25 mLBásicoUnidade básica; a heparina, na internaçãoEnoxaparina consta como Especializado
Sulfametoxazol + trimetoprima 400/80 mg; ivermectina 6 mgBásicoUnidade básicaProfilaxias antes e durante a imunossupressão
Carbonato de cálcio com colecalciferol; calcitriol 0,25 mcgBásico; calcitriol, EspecializadoUnidade básica; o calcitriol, só pelos protocolos que o incluemO protocolo da nefrótica cita o calcitriol, mas não o lista entre seus fármacos
Albumina humana 20%Não constaUso hospitalar, como o próprio protocolo registraIndicação restrita, descrita na conduta

Albumina que define a síndrome. O protocolo da síndrome nefrótica do adulto (Portaria Conjunta SAES/SCTIE nº 8/2020) define hipoalbuminemia como albumina abaixo de 3,0 g/dL na introdução e nos critérios de inclusão, e abaixo de 3,5 g/dL no item de diagnóstico laboratorial. Conta: um adulto com proteinúria de 4 g/dia, edema e albumina de 3,2 g/dL tem síndrome nefrótica por uma frase e não tem pela outra. Esta apostila adota 3,0 g/dL para a definição — o corte dos critérios de inclusão, que é também o usado pela diretriz internacional na membranosa — e reserva 3,5 g/dL para o critério de remissão completa, onde o próprio protocolo o emprega.

Teto da furosemida oral. O mesmo protocolo prescreve 40 a 120 mg por tomada, 2 a 3 vezes ao dia, com aumento até a dose máxima de 360 mg/dia, e na Tabela 1 dá 40 a 240 mg por dia. Conta: 3 × 120 = 360 mg, nove comprimidos de 40 mg; a tabela para em 240 mg, seis comprimidos. Quem prescreve pela tabela declara falha do diurético oral e passa à via venosa com 120 mg a menos do que o texto admite. Esta apostila segue o texto, que é onde o protocolo descreve a escalada passo a passo, e registra a tabela como resumo discordante.

Sal lido como sódio. O protocolo recomenda 2 g de sódio por dia, ou cloreto de sódio — o sal de cozinha — de 3 a 3,5 g por dia, como se fossem a mesma quantidade. Conta: o sal pesa 2,54 vezes o sódio que contém; 2 g de sódio são 5,1 g de sal, e 3 a 3,5 g de sal têm só 1,2 a 1,4 g de sódio. A diretriz internacional de 2021 recomenda 1,5 a 2 g de sódio por dia, isto é, 3,8 a 5,1 g de sal: a cifra de sal do protocolo fica abaixo da faixa inteira. Esta apostila adota 2 g de sódio, cerca de 5 g de sal, que é o número de sódio do protocolo e cabe na faixa da diretriz; a orientação de 3 g de sal dada ao paciente como se fosse a mesma coisa é uma dieta quase duas vezes mais restrita do que a pretendida.

Calcitriol em gramas. O protocolo escreve calcitriol oral na dose de 0,25 g/dia para a hipocalcemia persistente do nefrótico. A apresentação da Rename 2024 é a cápsula de 0,25 mcg. Conta: 0,25 g = 250.000 mcg, um milhão de vezes o conteúdo de uma cápsula. A única dose compatível com a apresentação disponível é 0,25 mcg/dia, e é a que esta apostila registra.

Pentavalente para adulto. Na vacinação, o protocolo indica ao nefrótico a vacina contra Haemophilus influenzae b contida na pentavalente — difteria, tétano, coqueluche de células inteiras, hepatite B e Hib. O calendário nacional de vacinação indica a pentavalente para crianças até 6 anos, 11 meses e 29 dias. O adulto nefrótico não recebe pentavalente: as vacinas especiais seguem o Manual dos Centros de Referência para Imunobiológicos Especiais, que o próprio protocolo manda consultar.

Limites da ciclofosfamida. O protocolo manda suspender a droga com leucócitos abaixo de 3.500/mm³ na seção da membranosa e abaixo de 3.000/mm³ na seção de monitorização; e exclui do tratamento quem tem plaquetas abaixo de 50.000/mm³, mas manda suspender abaixo de 100.000/mm³. Conta: com 3.200 leucócitos, a droga é suspensa por uma seção e mantida com redução de 50% pela outra; com 80.000 plaquetas, o paciente pode começar e deve parar no mesmo dia. A edição revogada de 2013 usava 100.000 plaquetas nos dois lugares — o número mudou num item e não no outro. Esta apostila adota os limites que protegem a medula, 3.500 leucócitos e 100.000 plaquetas, porque são os únicos que não mandam iniciar o que em seguida mandam suspender.

Esquema da membranosa sem dose. O protocolo de 2020 chama de terapia inicial da membranosa a alternância de pulsoterapia com metilprednisolona nos meses 1, 3 e 5 com corticoide oral e ciclofosfamida nos meses 2, 4 e 6 — mas não traz a dose da metilprednisolona nem a da prednisona, e a metilprednisolona nem está na sua lista de fármacos. A edição revogada de 2013 trazia 1 g por via venosa do 1º ao 3º dia dos meses 1, 3 e 5, prednisona 0,5 mg/kg/dia do 4º ao 30º dia desses meses e o procedimento de Pulsoterapia I da tabela do SUS. Conta: faltam duas das três doses do esquema, que não se prescreve a partir do texto em vigor; a prescrição é do nefrologista, e 2013 é o antecedente datado.

A faixa de albumina da anticoagulação é, em parte, a diferença entre métodos. O protocolo dá o limiar de anticoagulação profilática como albumina abaixo de 2,0 a 2,5 g/dL. A diretriz internacional de 2021 registra que 2,5 g/dL pelo verde de bromocresol equivalem a cerca de 2,0 g/dL pelo púrpura de bromocresol ou por imunonefelometria. Conta: uma albumina de 2,3 g/dL fica acima do corte se o laboratório usa púrpura, onde o corte é 2,0, e abaixo se usa verde, onde o corte é 2,5 — lida como faixa clínica, a mesma amostra anticoagula ou não conforme quem prescreve. O método vai escrito ao lado do número.

Testes de ANCA dados como indisponíveis. O protocolo da vasculite (Portaria Conjunta SAES/SECTICS nº 5/2025) afirma que os testes de PR3-ANCA e MPO-ANCA não estão disponíveis no SUS e não são preconizados. A Portaria SCTIE/MS nº 2, de 8 de janeiro de 2026, publicada em 12 de janeiro, incorporou os dois testes para a suspeita de vasculite associada ao ANCA, com prazo de 180 dias para a oferta. Conta: 12 de janeiro mais 180 dias vence em julho de 2026. O trecho do protocolo está superado: na suspeita, os dois testes se pedem.

Corticoide contraindicado em doença renal, na vasculite renal. O mesmo protocolo da vasculite define doença grave pela creatinina acima de 5,6 mg/dL e recomenda metilprednisolona 1 g por dia na vasculite grave — e lista doença renal entre as contraindicações da metilprednisolona e da prednisona. Lida ao pé da letra, a lista contraindicaria o pulso no paciente para quem ele é prescrito. A leitura desta apostila é que a glomerulonefrite da própria vasculite é a indicação, não a contraindicação; o item vale como alerta para a doença renal de outra causa, e a decisão do pulso é do nefrologista.

Rituximabe na hepatite B: duas frases no mesmo protocolo. Nos esquemas de administração, o protocolo da vasculite diz que o rituximabe é contraindicado em pacientes com hepatite B ou C; na monitorização, diz que na infecção crônica pelo vírus da hepatite B e pelo HIV o rituximabe só deve ser considerado com antiviral simultâneo e avaliação do infectologista. As duas não cabem juntas. A diretriz internacional de 2021 resolve na direção da segunda, mandando evitar ciclofosfamida e rituximabe na infecção replicativa não tratada. Esta apostila adota a segunda frase: sorologia antes, e antiviral com infectologista quando reagente.

08

A conduta, hora a hora

A conduta segue os dois pacientes da cena na ordem em que a preceptora os pôs. Os dois primeiros marcos são de Romana, porque o prazo dela é de horas; os seis seguintes acompanham Dirceu da internação à alta, porque o nefrótico se trata em dias e as decisões dele se empilham uma sobre a outra — diurético, trombose, painel, biópsia, nefroproteção e a porta do protocolo.

As doses usam os pesos da cena: 58 kg para Romana e, para Dirceu, os 79 kg de hoje nas doses de diurético, calculadas sobre o peso com edema, como o protocolo as escreve. Onde a decisão é do nefrologista — pulso, esquema de indução, imunossupressor da membranosa —, o marco diz o que o interno prepara, pede e registra, e não finge que a prescrição é dele.

  1. Quarta, 8h10 — antes da visita: Romana primeiro

    A curva de creatinina e o sedimento de Romana definem glomerulonefrite rapidamente progressiva, e a hemoptise com hemoglobina de 8,9 g/dL acrescenta a hipótese de hemorragia alveolar. Antes de qualquer telefonema, você a examina de novo com outra pergunta: frequência respiratória, saturação, estertores, púrpura nas pernas, crostas nasais, sopro cardíaco, pulso e pressão. O potássio de 5,1 mEq/L pede eletrocardiograma e repetição, e a diurese de 600 mL em 24 horas pede balanço medido. Nada nefrotóxico entra — nenhum anti-inflamatório, nenhum contraste iodado sem discussão. Então você liga para a nefrologia e diz, na primeira frase, o que decide a pressa: a curva, o sedimento e o pulmão. A indicação de diálise, se aparecer, segue o capítulo Injúria renal aguda.

    Prescrição
    • Telefonar para a nefrologia agora: mulher de 66 anos, creatinina de 1,3 para 3,9 mg/dL em 12 dias, hemácias dismórficas com cilindros hemáticos, catarro com sangue, hemoglobina de 8,9 g/dL
    • Avaliar imediatamente respiração, saturação, hemodinâmica e estado mental. Suspeita de hemorragia alveolar exige ambiente monitorado e reavaliações frequentes, antecipando suporte e terapia intensiva se houver deterioração. Frequência fixa de 4/4 horas não basta diante de instabilidade; medir diurese e balanço.
    • Eletrocardiograma e potássio repetido hoje
    • Radiografia de tórax hoje
    • Nenhum anti-inflamatório não esteroide; contraste iodado só depois de discutido com a nefrologia
  2. Quarta, até o meio-dia — Romana: colher antes do pulso, pulsar sem esperar a biópsia

    Colher, se possível antes da imunossupressão e sem atrasar uma intervenção urgente definida pela equipe, o painel: ANCA com os testes de ELISA para mieloperoxidase e proteinase 3, que o SUS incorporou em 2026; anticorpo antimembrana basal glomerular; fator antinuclear, anti-DNA, C3 e C4; e as sorologias de hepatite B, hepatite C, HIV e sífilis, que protegem a paciente do tratamento. Febre ou sopro acrescentam hemoculturas, porque a endocardite imita a vasculite. A nefrologia avalia e, com a suspeita de vasculite, indica o pulso que o protocolo de 2025 descreve — metilprednisolona 1 g por via venosa ao dia, por até três dias —, seguido de prednisona 1 mg/kg/dia, sem esperar a biópsia, que é pedida para o primeiro horário possível. Se o MPO-ANCA vier positivo e a biópsia mostrar glomerulonefrite pauci-imune, a indução do protocolo é ciclofosfamida venosa, 15 mg/kg — 870 mg nos 58 kg de Romana, com o ajuste do nefrologista —, fornecida pelo procedimento de pulsoterapia; o rituximabe, pelo protocolo, é para o adulto com diagnóstico recente em idade fértil ou para a recidiva refratária à ciclofosfamida, e Romana não é nenhum dos dois. O protocolo brasileiro não recomenda plasmaférese na indução da vasculite. Se o positivo for o antimembrana basal, a régua passa a ser a da diretriz internacional, que associa plasmaférese à ciclofosfamida e ao glicocorticoide, salvo no paciente dialítico com 100% de crescentes ou mais de 50% de esclerose global e sem hemorragia pulmonar.

    Prescrição
    • Antes do pulso: ANCA com ELISA anti-MPO e anti-PR3, anticorpo antimembrana basal glomerular, fator antinuclear, anti-DNA, C3 e C4
    • Antes do pulso: HBsAg, anti-HBc total, anti-HCV, anti-HIV, sorologia para sífilis; hemoculturas se houver febre ou sopro
    • Metilprednisolona 1 g IV ao dia, conforme a nefrologia — 2 frascos de 500 mg —, por até 3 dias
    • Depois do pulso, seguir o esquema de corticoide e de indução definido pela nefrologia conforme a etiologia, gravidade e risco infeccioso. Na vasculite ANCA, há esquemas de redução de exposição ao corticoide; não transformar prednisona 60 mg/dia em sequência obrigatória para toda glomerulonefrite rapidamente progressiva.
    • Glicemia capilar antes das refeições e às 22 h enquanto durar o corticoide em dose alta
    • Biópsia renal no primeiro horário possível, com hemograma, coagulação e ultrassonografia de rins
  3. Quarta, manhã — Dirceu: medir, pesar e tirar o sal

    Dirceu tem síndrome nefrótica pela definição que esta apostila adota: relação proteína/creatinina de 9,2 g/g, albumina de 1,7 g/dL — com o método do laboratório anotado ao lado — e edema, com sedimento limpo. O diclofenaco sai hoje. A balança passa a ser o principal exame: peso diário em jejum, na mesma balança, com diurese e balanço. A dieta é de 2 g de sódio por dia, cerca de 5 g de sal, normoproteica — o protocolo fala em 0,8 a 1,0 g/kg/dia para quem tem filtração normal —; dieta hiperproteica não sobe a albumina. Com sódio de 131 mEq/L, a restrição de líquidos só entra se houver hipo-osmolaridade e nenhum sinal de hipovolemia. O protocolo e a diretriz internacional escalonam o diurético da via oral para a venosa; num internado com anasarca, ascite e derrame pleural, esta apostila começa pela veia, porque o próprio protocolo reconhece que o edema da alça intestinal torna a absorção oral errática. A dose inicial do protocolo é de 1 mg/kg/dia sobre o peso de hoje, em duas tomadas, administradas lentamente — a diretriz adverte contra o push venoso rápido, pela ototoxicidade. Internado, com anasarca e pouca mobilidade, recebe heparina subcutânea profilática, como o protocolo prevê para a internação. Definir meta de perda gradual de peso, frequentemente 0,5 a 1 kg por dia, revista conforme congestão, perfusão, eletrólitos e função renal; perdas maiores exigem indicação e vigilância mais estreita.

    Prescrição
    • Peso diário em jejum, na mesma balança; diurese de 24 horas e balanço hídrico
    • Dieta com 2 g de sódio por dia (cerca de 5 g de sal), normoproteica, 0,8 a 1,0 g de proteína/kg/dia
    • Suspender diclofenaco; nenhum anti-inflamatório não esteroide durante a internação
    • Furosemida 40 mg IV (4 mL, 2 ampolas) de 12 em 12 horas, administrada lentamente
    • Heparina sódica 5.000 UI SC de 8 em 8 horas
    • Definir meta de descongestão individualizada e revisar diariamente pressão, sintomas, diurese, creatinina e eletrólitos. Em geral buscar perda gradual, frequentemente 0,5 a 1 kg/dia; perdas maiores exigem indicação e monitorização mais estreita. A cifra de 1,5 a 2 kg/dia não é meta obrigatória, sobretudo com risco de depleção intravascular.
  4. Quinta e sexta — Dirceu: o peso que não cai

    Dirceu perdeu 400 g: antes de aumentar o diurético, conferir se a medida de peso é comparável, quais líquidos e alimentos entraram, como foi administrada a dose e se ainda há congestão. Sódio urinário de 24 horas pode ajudar a estimar ingestão em situação estável, mas durante diurese ativa reflete também a medicação e a mobilização do edema; alto não prova excesso alimentar, baixo não prova dose insuficiente. Se persistir edema relevante com perfusão tolerada, a equipe pode aumentar a dose de alça ou associar bloqueio de outro segmento. Vigiar sódio, potássio, bicarbonato e função renal; albumina não é reposição rotineira de um resultado baixo.

    Prescrição
    • Sódio urinário de 24 horas
    • Se houver congestão persistente, resposta insuficiente confirmada e tolerância hemodinâmica: discutir aumento para furosemida 80 mg IV a cada 12 horas (8 mL na solução de 10 mg/mL), com reavaliação. O sódio urinário isolado não determina esse aumento.
    • Hidroclorotiazida 25 mg VO pela manhã, 2 a 5 horas antes da dose de furosemida
    • Sódio, potássio e bicarbonato diários enquanto durar a associação
    • Albumina humana a 20% só nas indicações do protocolo e depois de discutida com a nefrologia
  5. Sábado — a panturrilha esquerda

    Na visita de sábado, a panturrilha esquerda de Dirceu está três centímetros mais grossa que a direita e dói ao apertar. O Doppler confirma trombose venosa profunda femoropoplítea. A diretriz internacional é direta: evento tromboembólico no contexto da síndrome nefrótica indica anticoagulação plena. O diagnóstico, a escolha do anticoagulante inicial e as doses são do capítulo Trombose venosa profunda, da apostila de Cirurgia Vascular; o que é deste capítulo são três particularidades do nefrótico. A primeira: a varfarina tem mais variabilidade de RNI na síndrome nefrótica e com filtração baixa, e há risco de trombose logo depois de começar em dose alta — a diretriz sugere começar pela heparina e sobrepor a varfarina. A segunda: com trombose prévia, o protocolo preconiza anticoagulante oral com RNI de 2 a 3 enquanto persistir o estado nefrótico, e não por um prazo fixo. A terceira muda o resto da internação: anticoagulação plena é contraindicação absoluta à biópsia, pelo próprio protocolo.

    Prescrição
    • Ultrassonografia com Doppler venoso do membro inferior esquerdo hoje
    • Tratar a trombose confirmada com anticoagulação terapêutica apropriada à função renal e ao risco hemorrágico. Se a opção for heparina seguida de varfarina, manter sobreposição por pelo menos cinco dias e até anticoagulação pelo RNI estar terapêutica conforme protocolo; não suspender a heparina apenas porque a varfarina começou.
    • Com varfarina, alvo habitual de RNI 2 a 3, acompanhado mais frequentemente durante instabilidade. A trombose requer pelo menos o período terapêutico recomendado, em geral três meses; persistência da síndrome nefrótica pode justificar prolongamento. Remissão precoce não autoriza encerrar antes de completar o tratamento da trombose.
    • Avisar a nefrologia hoje: com anticoagulação plena, a biópsia fica contraindicada pelo protocolo
  6. Segunda — o painel volta e a biópsia muda de lugar

    O painel de Dirceu volta sem causa secundária: HBsAg e anti-HBc não reagentes, anti-HCV, anti-HIV e sífilis não reagentes, fator antinuclear negativo, C3 e C4 normais. O laboratório do hospital dosa anti-PLA2R, e ele vem positivo. Pela diretriz internacional, síndrome nefrótica com anti-PLA2R positivo é membranosa sem necessidade de biópsia — e, pelo protocolo brasileiro, a anticoagulação plena é contraindicação absoluta que permite tratar com base nos achados clínicos e laboratoriais. As duas réguas levam ao mesmo lugar por caminhos diferentes. O que o anticorpo positivo não dispensa é a procura das condições associadas, e Dirceu, fumante de 61 anos, entra no rastreamento que a diretriz descreve: imagem de tórax, pesquisa de deficiência de ferro, rastreamento de intestino em dia e antígeno prostático. Antes da decisão de imunossuprimir, a proteinúria é medida numa urina de 24 horas, com a relação proteína/creatinina numa alíquota da coleta, porque é essa a hora em que a diretriz pede a coleta.

    Prescrição
    • Registrar na evolução: anti-PLA2R positivo, painel de causa secundária negativo, anticoagulação plena — biópsia contraindicada pelo protocolo
    • Tomografia de tórax, ferritina e saturação de transferrina, rastreamento de intestino em dia e antígeno prostático
    • Urina de 24 horas para proteína, com relação proteína/creatinina medida numa alíquota
  7. Terça — o que não depende da histologia

    Com o volume corrigido e o peso descendo sem hipotensão, começa a nefroproteção. O protocolo indica o bloqueador do sistema renina-angiotensina para reduzir a proteinúria mesmo no normotenso, com cautela pelo risco de derrubar a filtração, e cita a meta pressórica abaixo de 130 por 80 mmHg no paciente proteinúrico; desaconselha, se não forem necessários, os antagonistas de cálcio di-hidropiridínicos, que podem aumentar a pressão dentro do glomérulo e a proteinúria. A losartana do SUS tem uma apresentação só, o comprimido de 50 mg, e a titulação com a creatinina e o potássio é do capítulo O rim que não volta. O protocolo indica estatina na síndrome nefrótica prolongada ou resistente e em quem tem outros fatores de risco cardiovascular — Dirceu fuma —, e a intensidade segue o capítulo Dislipidemias e risco cardiovascular global; se o esquema tiver ciclosporina, lembre que o protocolo associa rabdomiólise à combinação com estatina. As vacinas vêm antes da imunossupressão: pneumocócica e contra influenza, pelo Manual dos Centros de Referência para Imunobiológicos Especiais — a pneumocócica, desde maio de 2026, pela Nota Técnica nº 52/2026, que dá à síndrome nefrótica a VPC20 em dose única —, e não a pentavalente que o protocolo lista por engano. Quem morou em área endêmica recebe ivermectina antes de imunossuprimir, e o cigarro entra na lista de tratamento, porque o protocolo o conta entre os fatores de progressão.

    Prescrição
    • Losartana 50 mg VO uma vez ao dia, com volume corrigido; creatinina e potássio em 7 dias
    • Sinvastatina na intensidade do capítulo Dislipidemias e risco cardiovascular global
    • Vacina pneumocócica conjugada 20-valente em dose única (Nota Técnica nº 52/2026) e vacina contra influenza (Manual dos CRIE) antes do imunossupressor
    • Avaliar risco epidemiológico de estrongiloidíase antes da imunossupressão e discutir pesquisa e tratamento preventivo conforme protocolo. Se indicado esquema com ivermectina 0,2 mg/kg por via oral, calcular a dose pelo peso e conferir apresentação; não prescrever genericamente “2 a 3 comprimidos”. Número de dias e eventual repetição são definidos pelo protocolo e contexto, com avaliação especializada se houver suspeita de hiperinfecção. Não atrasar atendimento da síndrome pulmão-rim para completar uma medida preventiva.
    • Abordagem do tabagismo registrada na evolução, com a oferta de tratamento
  8. Quinta seguinte, alta — a porta do protocolo

    A indicação de imunossuprimir Dirceu não depende de esperar seis meses: o protocolo aceita, ao lado da proteinúria persistente, sintomas graves ou que ameacem a vida, e a diretriz internacional conta o tromboembolismo entre as complicações graves que justificam tratar já. Pelo Componente Especializado, o protocolo dispensa os dois caminhos que ele descreve para a membranosa: como terapia inicial, ciclofosfamida oral alternada com pulsoterapia e corticoide por seis meses — cujas doses de metilprednisolona e de prednisona o texto de 2020 omite —; e, se esse esquema for contraindicado ou recusado, ciclosporina de 3,5 a 5 mg/kg/dia com prednisona de 0,15 mg/kg/dia. O rituximabe não entra por essa porta. O nefrologista escolhe; o interno prepara o que a dispensação exige e explica o que o paciente vai assinar: o artigo 2º da portaria torna obrigatório informar os riscos do tratamento. A alta sai com peso-alvo, dieta escrita, RNI marcado e os sinais que fazem voltar no mesmo dia.

    Prescrição
    • Termo de Esclarecimento e Responsabilidade explicado e assinado, como exige a portaria do protocolo
    • Solicitação ao Componente Especializado do esquema definido pela nefrologia, com relação proteína/creatinina, creatinina, albumina e hemograma recentes
    • Sulfametoxazol + trimetoprima 400/80 mg, 1 comprimido ao dia, se o esquema tiver ciclofosfamida; hemograma quinzenal nos dois primeiros meses
    • Retorno em 7 dias com peso, pressão, creatinina, potássio e RNI
    • Orientação escrita: voltar no mesmo dia se falta de ar súbita, dor no peito, sangramento, febre ou urina muito reduzida
09

Como saber se está funcionando

Cada decisão deste capítulo tem um número que diz se ela funcionou, e o número tem hora certa. Na glomerulonefrite rapidamente progressiva a reavaliação é diária; no nefrótico, é diária enquanto o diurético for venoso e mensal quando a imunossupressão começa, que é a periodicidade do protocolo.

Peso e diurese do nefrótico em diuréticoTodo dia, em jejum, na mesma balança, enquanto houver diurético venoso

Esperado: Descongestão gradual com melhora funcional e respiratória, sem sinais de depleção ou alterações relevantes de eletrólitos. A meta de peso é individualizada e pode começar em cerca de 0,5 a 1 kg/dia, revista à beira do leito.

Se não melhora: Rever entradas, administração, função renal e exame de volume; conferir a coleta se utilizar sódio urinário. Não atribuir automaticamente sódio alto à dieta nem baixo à dose. Congestão persistente pode exigir intensificação supervisionada; hipotensão, tontura, oligúria ou piora renal exigem revisar a estratégia.

Creatinina e potássioDiários no nefrítico e no nefrótico em diurético venoso; em 7 dias depois de iniciar o bloqueador do sistema renina-angiotensina

Esperado: Estáveis no nefrótico; no nefrítico sob tratamento, a creatinina para de subir

Se não melhora: No nefrótico, creatinina subindo pede três perguntas: hipovolemia por diurese excessiva, droga nefrotóxica e trombose de veia renal; a tolerância de subida com o bloqueador é regra do capítulo O rim que não volta. No nefrítico, creatinina que segue subindo depois do pulso vai de volta à nefrologia no mesmo dia, com a biópsia como prioridade; diálise, pelas regras do capítulo Injúria renal aguda.

Relação proteína/creatinina e albumina, com o mesmo métodoMensalmente durante a imunossupressão, como o protocolo pede, sempre no mesmo laboratório

Esperado: Remissão completa pelo protocolo: proteinúria abaixo de 0,2 g em 24 horas, ou relação abaixo de 0,3, com albumina acima de 3,5 g/dL; parcial: proteinúria de 0,2 a 3,0 g em 24 horas, ou relação de 0,3 a 3,0

Se não melhora: Na membranosa tratada com o esquema de seis meses, o protocolo pede ao menos seis meses de observação depois de completá-lo antes de chamar falha, salvo piora de função ou sintomas graves; com ciclosporina, suspende-se a droga se não houver remissão parcial ou completa em seis meses. A diretriz internacional acrescenta que proteinúria persistente com albumina que já subiu sugere esclerose segmentar secundária, e não resistência da membranosa.

Hemograma e transaminases sob ciclofosfamidaHemograma quinzenal nos dois primeiros meses e depois mensal; transaminases mensais

Esperado: Leucócitos acima de 3.500/mm³ e plaquetas acima de 100.000/mm³, que são os limites desta apostila; transaminases abaixo de 2 vezes o valor basal

Se não melhora: Queda de leucócitos: o protocolo manda reduzir a dose em 50%; leucócitos abaixo de 3.500, neutrófilos abaixo de 1.500 ou plaquetas abaixo de 100.000: suspender até recuperar, e febre com neutropenia é urgência. Transaminases acima de 2 a 2,5 vezes o basal: o protocolo manda suspender.

Nível de vale da ciclosporina e creatininaA cada quatro semanas, ou sempre que houver motivo; sangue colhido uma hora antes da dose

Esperado: Nível de 100 a 200 ng/mL na fase inicial, com creatinina estável

Se não melhora: Nível alto: reduzir a dose e dosar de novo. Nefrotoxicidade que não cede, ou evento adverso grave: o protocolo manda suspender e trocar pelo outro imunossupressor do esquema da lesão. Dor muscular com estatina associada é rabdomiólise até prova em contrário.

RNI do nefrótico anticoaguladoCom frequência maior que a habitual, porque a síndrome nefrótica e a filtração baixa aumentam a variabilidade, até estabilizar

Esperado: RNI 2 a 3 quando escolhida varfarina. A duração integra tratamento mínimo da trombose, persistência da síndrome nefrótica e risco de sangramento; profilaxia primária e tratamento de trombose são decisões distintas.

Se não melhora: Se surgir dispneia, dor torácica, assimetria de membros ou novo evento, reavaliar trombose, adesão, dose e anticoagulação e acionar a equipe. Após trombose confirmada, completar pelo menos o período terapêutico recomendado, em geral três meses; depois reavaliar continuidade conforme síndrome nefrótica, sangramento e outros fatores. Remissão precoce não autoriza interrupção antes do tratamento mínimo.

Pulmão, hemoglobina e glicemia depois do pulso na glomerulonefrite rapidamente progressivaA cada plantão nos primeiros dias: saturação, frequência respiratória, hemoptise, hemoglobina diária, glicemia capilar antes das refeições

Esperado: Saturação estável, sem nova hemoptise, hemoglobina sem queda, glicemia controlada

Se não melhora: Saturação caindo, hemoptise nova ou hemoglobina despencando: hemorragia alveolar até prova em contrário — terapia intensiva e nefrologia no mesmo momento. Hiperglicemia persistente: esquema de insulina do capítulo Hiperglicemia no paciente internado, da apostila de Prescrição e Cuidado do Paciente Internado.

10

Onde o erro machuca

Ordenar a visita pelo edema, e não pela curva de creatinina

O dano: O paciente mais inchado parece o mais grave, e o nefrítico que conversa na poltrona espera. Numa glomerulonefrite rapidamente progressiva, a espera é o tempo em que o crescente celular vira fibroso — e o que vira cicatriz não responde ao pulso nem ao imunossupressor que chegarem depois. A creatinina que triplicou em doze dias, lida na visita da tarde, custa néfrons que a da manhã teria salvado.

Como pegar a tempo: Antes de escolher a ordem, compare a creatinina de hoje com o exame anterior mais próximo e leia o sedimento de todos os pacientes com urina alterada. Hemácias dismórficas ou cilindros hemáticos com creatinina subindo entre exames próximos passam na frente, e a nefrologia é chamada antes da visita, com a curva e o sedimento na primeira frase.

Dar prednisona empírica ao adulto nefrótico, como se ele fosse uma criança

O dano: No adulto, as lesões mínimas só se diagnosticam com biópsia, a esclerose segmentar e a membranosa são tão frequentes quanto ela, e a membranosa não se trata com corticoide isolado, como o protocolo registra. O corticoide dado às cegas atrasa o diagnóstico, soma o risco de trombose, adia a pergunta pela hepatite B — que muda o tratamento inteiro — e expõe à forma disseminada da estrongiloidíase quem morou em área endêmica.

Como pegar a tempo: Colher exames de causas secundárias e risco infeccioso precocemente, avaliar estrongiloidíase e discutir biópsia ou anti-PLA2R conforme o quadro. No adulto nefrótico estável, esclarecer a etiologia antes de corticoide empírico. Na síndrome pulmão-rim ou deterioração rápida, acionar a equipe imediatamente: coleta e biópsia não podem atrasar tratamento urgente já indicado pelo especialista.

Tirar quatro quilos por dia do nefrótico

O dano: O edema está no interstício, mas o diurético tira água do vaso, e o vaso do nefrótico tem pouca albumina para puxar o líquido de volta. Diurese agressiva produz hipovolemia, que o protocolo associa à injúria renal aguda, sobretudo no idoso, e que ainda concentra o sangue de um paciente já hipercoagulável. O resultado é a creatinina subindo e a trombose chegando na mesma semana.

Como pegar a tempo: Avaliar congestão e perfusão antes e durante o diurético. Ajustar a meta à gravidade do edema e à tolerância, conferindo peso, pressão ortostática, diurese, creatinina e eletrólitos. Tontura, hipotensão ou piora renal pedem revisão; não perseguir 1,5 a 2 kg por dia como resultado universal.

Decidir a anticoagulação pela albumina sem saber o método

O dano: O mesmo número vale coisas diferentes: 2,5 g/dL pelo verde de bromocresol equivalem a cerca de 2,0 g/dL pelo púrpura de bromocresol. Quem aplica 2,5 a um laboratório que usa púrpura anticoagula quem não precisaria e expõe ao sangramento; quem aplica 2,0 a um laboratório que usa verde deixa sem proteção o membranoso de maior risco. A faixa de 2,0 a 2,5 do protocolo, lida como margem clínica, deixa a decisão ao acaso.

Como pegar a tempo: Pergunte ao laboratório o método e escreva-o ao lado do número em toda evolução. Antes do diagnóstico, siga o protocolo; confirmada a membranosa, use o limiar da diretriz internacional para o método do laboratório, pesado contra o risco de sangramento. Reveja a decisão a cada nova albumina.

Pulsar antes de colher o painel, ou esperar a biópsia para pulsar

O dano: O primeiro erro expõe o paciente: sorologias e hemoculturas colhidas depois do corticoide chegam tarde para a decisão sobre ciclofosfamida e rituximabe, que a hepatite B muda, e para a endocardite tratada como vasculite — a endocardite pode ter ANCA positivo. O segundo erro é o do relógio: o protocolo da vasculite manda não adiar o tratamento à espera da histologia, e cada dia esperando a biópsia é crescente amadurecendo.

Como pegar a tempo: Nas primeiras horas: ANCA com ELISA anti-MPO e anti-PR3, antimembrana basal, fator antinuclear, anti-DNA, C3, C4, sorologias e hemoculturas quando há febre ou sopro. Com o painel colhido, o pulso sai quando a nefrologia indicar, e a biópsia é pedida para o primeiro horário possível, sem ser condição para começar.

Copiar do protocolo a pentavalente, o calcitriol em gramas ou o sal pelo sódio

O dano: O protocolo da síndrome nefrótica do adulto lista para o adulto a pentavalente, que o calendário nacional indica até 6 anos, 11 meses e 29 dias; escreve calcitriol em 0,25 g, um milhão de vezes a cápsula de 0,25 mcg; e trata 2 g de sódio e 3 a 3,5 g de sal como a mesma dieta, quando 3 g de sal têm 1,2 g de sódio. Transcrito sem conta, cada erro vira prescrição.

Como pegar a tempo: Vacinas especiais pelo Manual dos Centros de Referência para Imunobiológicos Especiais, que o próprio protocolo manda consultar; calcitriol em microgramas, uma cápsula de 0,25 mcg; dieta com 2 g de sódio, cerca de 5 g de sal. As notas do bloco de critérios trazem as contas — confira a conta antes de copiar qualquer dose de protocolo.

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O que dizer ao paciente e à família

As conversas deste capítulo têm dois ritmos. A de Dirceu é longa e se repete ao longo da semana: ele precisa entender uma doença que dura meses, uma dieta que depende dele e remédios com riscos que ele vai assinar. A de Romana e da filha é curta e urgente: elas precisam aceitar pressa num dia em que a paciente parece bem.

Nos dois casos, use as palavras que o paciente trouxe — espuma, inchaço, urina cor de chá — e diga o que vai acontecer nas próximas horas ou dias, não só o nome da doença. Nome sem próximo passo assusta e não orienta.

Dirceu pergunta o que ele tem

Seu Dirceu, o rim tem um filtro que deixa passar a água e segura o que o corpo precisa, como a proteína. No senhor, esse filtro está deixando a proteína escapar — é ela a espuma que o senhor vê no vaso. Com pouca proteína no sangue, o corpo segura sal e água, e daí vem o inchaço. Isso tem nome, síndrome nefrótica, e tem várias causas. A nossa tarefa desta semana é descobrir qual é a sua, porque é a causa que decide o tratamento.

Não diga: Dizer que ele está perdendo o rim, ou nomear uma causa grave antes dos exames, como se já houvesse diagnóstico.

Explicar o sal a quem acha que o problema é água

O inchaço não sai só com remédio. Quanto mais sal entra, mais água o corpo prende, e o diurético perde a briga. A meta é pouco sal na panela, nenhum no prato, e nada de embutido, enlatado, tempero pronto e salgadinho. A quantidade de água a gente acerta pelo exame de sódio do sangue — quem manda no inchaço é o sal. E, por favor, peça à família para não trazer comida de casa sem falar com a enfermagem.

Não diga: Mandar parar de beber água: a restrição de líquidos só entra com sódio baixo e osmolaridade baixa, e desidratar piora o rim e aumenta o risco de trombose.

Por que pedir exames que parecem não ter nada a ver com o rim

Em uma parte das pessoas com esse filtro alterado, existe outra doença por trás — uma hepatite, um problema de imunidade e, mais raramente, um tumor. Por isso vamos pedir alguns exames que parecem de outra especialidade, como a tomografia do pulmão e o exame de próstata. É a procura que se faz em todo mundo com esse diagnóstico. Não quer dizer que a gente desconfie de câncer no senhor.

Não diga: Anunciar que vai procurar câncer, ou pedir os exames sem explicar o motivo e deixar o paciente descobrir sozinho pelo pedido.

Anticoagulação depois da trombose

A perda de proteína deixa o sangue mais fácil de coagular dentro das veias, e foi isso que aconteceu na sua perna. O remédio que afina o sangue vai ficar enquanto o rim estiver perdendo proteína, e não só por umas semanas. Ele precisa de exame de sangue com frequência para acertar a dose. O senhor volta no mesmo dia se tiver sangramento na gengiva, urina escura ou vermelha, fezes pretas, manchas roxas grandes, dor de cabeça forte ou falta de ar de repente.

Não diga: Chamar de remedinho para a circulação, ou deixar a lista de sinais de sangramento só na receita, sem falar.

A filha de Romana pergunta por que tanta pressa se a mãe está conversando

Eu entendo — ela parece bem, e isso é bom sinal. O problema está num exame. Em doze dias o rim dela perdeu boa parte da capacidade de filtrar, e o exame de urina mostra uma inflamação dentro do rim que, se não for tratada nos próximos dias, vira cicatriz, e cicatriz não volta. Por isso a equipe do rim vem ainda hoje, vamos colher exames antes de começar um remédio forte na veia, e a biópsia vai ser marcada o quanto antes.

Não diga: Tranquilizar dizendo que é só uma investigação, ou, no outro extremo, anunciar diálise para sempre antes de qualquer resultado.

Romana pergunta se vai precisar de diálise

Pode ser que precise por um tempo, se o rim não aguentar enquanto o tratamento faz efeito — e precisar por um tempo não quer dizer precisar para sempre. O que a gente sabe hoje é que, quanto antes essa inflamação é tratada, mais rim sobra. Se a diálise for necessária, a equipe explica antes, com calma, e a senhora e sua filha participam da decisão.

Não diga: Prometer que não vai precisar, ou afirmar que vai. Os dois são promessas que o interno não pode cumprir.

Dirceu, na alta, sobre o remédio do protocolo e o termo que vai assinar

O tratamento que o nefrologista escolheu vem da farmácia de medicamentos especiais do SUS. Para liberar, o senhor assina um termo que explica os riscos, e eu quero que o senhor entenda antes de assinar: esse remédio baixa a imunidade, pede exame de sangue a cada quinze dias no começo, e febre durante o tratamento é motivo para procurar o hospital no mesmo dia. Parar de fumar agora também ajuda o rim — e a gente pode começar esse tratamento junto.

Não diga: Entregar o termo dizendo que é só assinar, ou deixar a explicação dos riscos para a farmácia.

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Onde bons médicos discordam

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.

Anticoagulação profilática no nefrótico sem trombose

Protocolo brasileiro da síndrome nefrótica do adulto, 2020

Anticoagular os casos de maior risco — albumina abaixo de 2,0 a 2,5 g/dL e proteinúria persistente acima de 10 g/dia, com sexo masculino, hipovolemia e trombose prévia somando risco —, depois de estimar o risco de sangramento, com varfarina e RNI de 2 a 3 enquanto persistir o estado nefrótico; heparina subcutânea nas internações com repouso no leito.

Portaria Conjunta SAES/SCTIE nº 8, de 14/04/2020

Diretriz internacional de doenças glomerulares (KDIGO), 2021, para a membranosa

Considerar anticoagulação profilática com albumina abaixo de 2,5 g/dL pelo verde de bromocresol, ou de 2,0 g/dL pelo púrpura de bromocresol ou imunonefelometria, pesando o risco de sangramento, sem exigir proteinúria acima de 10 g/dia; começar pela heparina e sobrepor a varfarina; não omitir a anticoagulação quando a prednisona começa. O algoritmo foi desenhado para a membranosa, e a própria diretriz diz que o valor dele nas outras causas é desconhecido.

Kidney Int. 2021;100(4S):S1–S276, capítulos 1 e 3

Como decidir

Degrau 1, escopo, aplicado à cronologia do mesmo paciente. Antes do diagnóstico, e em toda lesão que não seja membranosa, esta apostila adota o protocolo brasileiro: é a norma escrita para o adulto com síndrome nefrótica primária, e a diretriz internacional declara que o seu algoritmo não foi validado fora da membranosa. Na internação com repouso no leito, heparina subcutânea, como o protocolo prevê. Confirmada a membranosa — pela biópsia ou pelo anti-PLA2R positivo —, esta apostila adota a diretriz internacional, escrita para esse paciente e mais nova: o limiar passa a ser a albumina lida pelo método do laboratório, pesada contra o risco de sangramento, sem a exigência de 10 g de proteinúria. Nos dois momentos, o método da albumina vai escrito ao lado do número, porque é ele que transforma a faixa de 2,0 a 2,5 do protocolo num corte.

Membranosa com risco de progressão: o lugar do rituximabe

Protocolo brasileiro da síndrome nefrótica do adulto, 2020

Imunossuprimir a membranosa idiopática com síndrome nefrótica e ao menos uma condição — proteinúria acima de 4 g/dia que se mantém por seis meses de antiproteinúrico, sintomas graves ou que ameacem a vida, ou creatinina subindo 30% em 6 a 12 meses. Terapia inicial: pulsoterapia com metilprednisolona alternada com corticoide oral e ciclofosfamida por seis meses; se contraindicada ou recusada, ciclosporina com prednisona em dose baixa por seis meses. Corticoide isolado não é recomendado. O rituximabe não faz parte do protocolo.

Portaria Conjunta SAES/SCTIE nº 8, de 14/04/2020

Diretriz internacional de doenças glomerulares (KDIGO), 2021

Imunossuprimir quem tem ao menos um fator de risco de progressão ou já teve complicação grave da síndrome nefrótica, como injúria renal, infecção ou tromboembolismo, escolhendo pelo risco estimado entre rituximabe, ciclofosfamida com glicocorticoide em meses alternados por seis meses, ou terapia baseada em inibidor de calcineurina por seis meses ou mais; acompanhar a resposta pelo anti-PLA2R. A imunossupressão não é necessária com proteinúria abaixo de 3,5 g/dia, albumina acima de 3,0 g/dL pelo púrpura de bromocresol e filtração acima de 60.

Kidney Int. 2021;100(4S), capítulo 3, recomendação 3.3.1

Como decidir

Os dois documentos foram escritos para o mesmo paciente, e o escopo empata; a diretriz internacional é mais nova, e pelo degrau 2 esta apostila a adota: o rituximabe é uma das três opções de primeira linha da membranosa com risco de progressão. O lado brasileiro continua sendo a porta de acesso: pelo protocolo de 2020, o Componente Especializado dispensa ciclofosfamida oral e ciclosporina, e não dispensa rituximabe para a membranosa. Para o paciente à frente, a decisão costuma fechar sem conflito, porque ciclofosfamida com glicocorticoide em meses alternados é primeira linha nas duas réguas. O conflito real é o do paciente que não pode receber ciclofosfamida, por fertilidade ou por dose acumulada: a diretriz indicaria rituximabe, e o protocolo oferece ciclosporina. A indicação é do nefrologista; o interno precisa saber que esse caminho não passa pelo protocolo da síndrome nefrótica.

Biópsia no nefrótico com anti-PLA2R positivo

Protocolo brasileiro da síndrome nefrótica do adulto, 2020

Em todos os casos de síndrome nefrótica primária do adulto, o exame histopatológico define o plano terapêutico; a biópsia se dispensa quando há contraindicação absoluta ou relativa. O anti-PLA2R não aparece no protocolo.

Portaria Conjunta SAES/SCTIE nº 8, de 14/04/2020

Diretriz internacional de doenças glomerulares (KDIGO), 2021

A biópsia renal não é necessária para confirmar a membranosa no paciente com síndrome nefrótica e anti-PLA2R positivo; as condições associadas continuam a ser procuradas, com ou sem o anticorpo.

Kidney Int. 2021;100(4S), capítulo 3, ponto de prática 3.1.1

Como decidir

Degrau 1: a recomendação internacional foi escrita exatamente para esse paciente — síndrome nefrótica com anti-PLA2R positivo —, enquanto a frase do protocolo vale para toda síndrome nefrótica primária; a data aponta para o mesmo lado. Esta apostila adota a diretriz internacional. O próprio protocolo não fecha a porta: entre os critérios de inclusão, aceita a proteinúria nefrótica sem diagnóstico histopatológico. Para o paciente à frente: anti-PLA2R positivo com painel de causa secundária negativo dispensa a biópsia para o diagnóstico, e isso pesa mais quando a biópsia tem risco, como na anticoagulação plena. Anti-PLA2R negativo ou indisponível devolve a biópsia ao lugar de regra. A leitura desta apostila é que o anticorpo positivo não dispensa a biópsia quando a função cai mais do que a membranosa explica ou o sedimento aponta outra doença — aí a pergunta já não é qual lesão, mas se há duas.

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O raciocínio, em voz alta

Teódulo Esteves, 27 anos, 72 quilos, entregador por aplicativo, chega ao pronto-socorro com as pálpebras inchadas há dez dias; o inchaço desceu para as pernas, e ontem ele não conseguiu calçar o tênis. Há três semanas toma ibuprofeno quase todo dia por uma tendinite no ombro. Cresceu numa cidade do interior onde, conta, todo mundo andava descalço. Pressão de 118 por 74, sem febre, sem lesão de pele, sem sopro. Creatinina 0,9 mg/dL, albumina 1,9 g/dL pelo púrpura de bromocresol, colesterol total 410 mg/dL; urina com proteínas em quatro cruzes, uma hemácia por campo, sem cilindros; relação proteína/creatinina de 7,8 g/g. O plantonista da noite deixou na evolução uma pergunta: iniciar prednisona 1 mg/kg amanhã?

  1. A síndrome

    Relação de 7,8 g/g, albumina de 1,9 g/dL e edema, com sedimento limpo, pressão normal e creatinina de 0,9 mg/dL: síndrome nefrótica pura. Não há nada nefrítico nem pressa de horas. A pressa é de dias, e ela está nas complicações — trombose, infecção, diurético mal dosado —, não no diagnóstico.

  2. A pergunta do plantonista

    Não inicio prednisona. No adulto, lesões mínimas só se diagnosticam com biópsia; esclerose segmentar e membranosa são tão frequentes quanto ela no registro brasileiro; e a membranosa não se trata com corticoide isolado. Respondo na evolução, com o motivo, para a pergunta não voltar no plantão seguinte.

  3. Causa secundária

    O ibuprofeno sai hoje e fica registrado como possível causa, porque o anti-inflamatório está entre as condições que a diretriz internacional manda procurar. Peço o painel do protocolo — HBsAg, anti-HBc total, anti-HCV, anti-HIV, sífilis, fator antinuclear, C3, C4 e glicemia. A infância descalça no interior me faz anotar exposição a estrongiloidíase, que vai importar antes de qualquer corticoide.

  4. O que já começa

    Dieta com 2 g de sódio, cerca de 5 g de sal, e peso diário. Sem anasarca, o diurético começa pela boca, na primeira dose do intervalo do protocolo: furosemida 40 mg duas vezes ao dia. Internado para a biópsia, recebe heparina subcutânea. O bloqueador do sistema renina-angiotensina espera o volume estabilizar. Estatina não entra agora: o protocolo a reserva para a síndrome prolongada ou resistente e para quem tem outros fatores de risco, e ele não tem.

  5. Anticoagulação

    Albumina de 1,9 g/dL pelo púrpura, proteinúria em torno de 8 g por dia, sem diagnóstico. Antes da histologia, esta apostila segue o protocolo, que junta albumina baixa e proteinúria acima de 10 g/dia para anticoagular: ele não preenche, e fica com a heparina da internação. Anoto que, se a biópsia mostrar membranosa, a régua muda para a da diretriz internacional, cujo corte para o método púrpura é 2,0 g/dL — e ele está abaixo.

  6. A biópsia

    O painel volta negativo, a biópsia sem contraindicação mostra alterações glomerulares mínimas. Agora, sim, prednisona pelo protocolo: 1 mg/kg/dia, máximo de 80 mg, pela manhã — 70 mg, três comprimidos de 20 mg e dois de 5 mg —, por no mínimo 4 semanas, em geral 8, podendo chegar a 16, e a redução gradual costuma levar uns seis meses. A diretriz internacional acrescenta que a retirada começa duas semanas depois da remissão completa e que a dose alta não passa de 16 semanas. Antes da primeira dose, ivermectina pelo esquema do protocolo, pela exposição; e discuto com a nefrologia a profilaxia com sulfametoxazol-trimetoprima enquanto a dose for alta.

  7. O seguimento

    Relação proteína/creatinina e albumina mensais. Remissão completa pelo protocolo é proteinúria abaixo de 0,2 g em 24 horas, ou relação abaixo de 0,3, com albumina acima de 3,5 g/dL. Recidiva esporádica volta ao mesmo corticoide; recidivas frequentes ou dependência levam à ciclofosfamida ou à ciclosporina — e, num homem de 27 anos que pode querer filhos, o protocolo prefere a ciclosporina, pelo risco de infertilidade da ciclofosfamida. Cálcio e vitamina D não entram num surto curto; entram se o corticoide passar de 12 a 16 semanas.

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Faça você

Perpétua Maranhão, 52 anos, 64 quilos, merendeira, chega ao ambulatório com edema de membros inferiores há dois meses. Relação proteína/creatinina de 6,4 g/g, albumina de 2,2 g/dL pelo verde de bromocresol, creatinina 1,0 mg/dL, pressão de 142 por 88, sedimento com cinco hemácias por campo e sem cilindros. O painel do protocolo voltou com HBsAg reagente e anti-HBc total reagente; anti-HCV, anti-HIV e sífilis não reagentes; fator antinuclear não reagente; C3 e C4 normais. O serviço dosou anti-PLA2R, e ele veio negativo. A biópsia está marcada para daqui a três semanas, e o residente pergunta se não seria o caso de começar ciclofosfamida com corticoide para ganhar tempo.

  1. O que muda

    Diga o que o HBsAg reagente e o anti-PLA2R negativo mudam na pergunta primária ou secundária e no plano de imunossupressão.

  2. O que pedir

    Liste o que completa a avaliação da hepatite antes de qualquer decisão, e para qual capítulo e especialista ela vai.

  3. O que começa hoje

    Escreva o que se prescreve hoje sem depender da biópsia, incluindo a decisão sobre anticoagulação com a albumina que você tem.

  4. A resposta

    Responda ao residente em duas frases.

Ver como fecharíamos

O que muda. HBsAg e anti-HBc total reagentes demonstram infecção atual pelo vírus da hepatite B, mas não estabelecem sozinhos cronicidade; conferir duração, resultados anteriores e anti-HBc IgM quando pertinente, e o protocolo brasileiro põe a hepatite B entre as doenças que mais frequentemente estão por trás da membranosa; o anti-PLA2R negativo não afasta membranosa, mas tira o apoio à forma primária e aumenta o peso da causa secundária — e a diretriz internacional manda procurar condições associadas com ou sem o anticorpo. Mais importante para o residente: a diretriz adverte que ciclofosfamida e rituximabe podem acelerar a replicação do vírus e devem ser evitados na infecção replicativa não tratada. Começar ciclofosfamida hoje não ganha tempo; arrisca uma hepatite e trata, talvez, a doença errada. O que pedir. Carga viral do vírus da hepatite B e provas de função hepática. A diretriz internacional recomenda tratar com análogo de nucleosídeo ou nucleotídeo, como na população geral, o paciente com glomerulonefrite e infecção replicativa, definida por carga viral acima de 2.000 UI/mL, e diz que o interferon peguilado não deve ser usado nesse cenário. O tratamento da hepatite e o encaminhamento seguem o capítulo Hepatite B, da apostila de Gastroenterologia. A biópsia continua marcada: ela confirma a lesão e procura uma segunda doença. O que começa hoje. Dieta com 2 g de sódio, cerca de 5 g de sal; furosemida oral, 40 mg duas vezes ao dia, com peso diário em casa; bloqueador do sistema renina-angiotensina para reduzir a proteinúria e levar a pressão para abaixo de 130 por 80 mmHg, com creatinina e potássio em uma semana — a titulação é do capítulo O rim que não volta; nenhum anti-inflamatório; vacina pneumocócica conjugada 20-valente em dose única, pela Nota Técnica nº 52/2026, e contra influenza, pelo Manual dos CRIE. Anticoagulação: sem diagnóstico, esta apostila segue o protocolo, que junta albumina abaixo de 2,0 a 2,5 g/dL a proteinúria acima de 10 g/dia — ela tem cerca de 6 g, não preenche, e anticoagular agora ainda contraindicaria a biópsia. O método está anotado: 2,2 g/dL pelo verde fica abaixo do corte de 2,5 que a diretriz internacional usa para esse método na membranosa, e a decisão volta à mesa quando a biópsia confirmar a lesão. A resposta. Não: com hepatite B ativa, ciclofosfamida pode acelerar a replicação do vírus, e a própria glomerulopatia pode ser da hepatite. Primeiro a carga viral e o tratamento da hepatite, a biópsia mantida, e o imunossupressor só volta à discussão depois da remissão virológica sustentada.

Gabarito da questão de abertura
Comentário

No algoritmo da KDIGO para nefropatia membranosa, o limiar de albumina depende do método: 2,5 g/dL pelo verde de bromocresol corresponde aproximadamente a 2,0 g/dL pelo púrpura. Assim, 2,3 g/dL está acima desse limiar específico. Isso não elimina o risco trombótico nem substitui a avaliação global de trombose e sangramento. A decisão deve ser individualizada e revista ao longo da doença. Varfarina com INR em faixa terapêutica pode ser usada para profilaxia em pacientes selecionados; não é exclusiva de quem já apresentou trombose.

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Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
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Plano de revisão

Em 7 dias

Compare síndrome nefrítica e nefrótica usando história, exame e urina. Indique quais achados fazem suspeitar de síndrome pulmão-rim ou perda rápida de função e quais medidas precisam ser coordenadas imediatamente.

Em 30 dias

Reavalie um paciente com edema, proteinúria e sorologia de hepatite B positiva. Explique o que ainda precisa ser esclarecido, como prevenir complicações e por que edema, anticoagulação e imunossupressão exigem decisões individualizadas.

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Agora atenda

Atenda uma mulher de 66 anos internada para investigar anemia e cansaço: ela parece bem, mas a creatinina triplicou em doze dias e o catarro veio com sangue. Leia o sedimento, compare as creatininas, examine o pulmão, colha o painel antes do corticoide e telefone para a nefrologia com a frase que decide a pressa.

Síndrome nefrótica e síndrome nefrítica – O filtro que vaza e o filtro que inflama — Internato | OsceLabs