Clínica Médica › Nefrologia
Injúria renal aguda
A creatinina que subiu de 0,9 para 1,8 no quarto dia de internação quase nunca é uma doença nova. É a folha de prescrição, o jejum de ontem, o contraste de anteontem — e a bexiga que ninguém checou.
Ministério da Saúde — Relação Nacional de Medicamentos Essenciais: Rename 2024. Brasília, 2024 (atualizada pela Portaria GM/MS nº 6.324, de 26 de dezembro de 2024)
Ministério da Saúde, Secretaria de Atenção à Saúde — Organização Local da Linha de Cuidado da Pessoa com Doença Renal Crônica (DRC): guia instrutivo. Brasília, 2014, publicado no contexto da Portaria GM/MS nº 389, de 13 de março de 2014
Hospital Universitário Alcides Carneiro, Universidade Federal de Campina Grande (Ebserh) — Protocolo PRT.UUE.001, Manejo clínico de pacientes com hipercalemia, versão 1, emissão 30/11/2022
Hospital Universitário Lauro Wanderley, Universidade Federal da Paraíba (Ebserh) — Protocolo PRT.USU.010, Abordagem do paciente com lesão renal aguda em urgência dialítica, versão 1, emissão 05/05/2021
Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto — Universidade de São Paulo, Revista Qualidade HC: Lesão Renal Aguda, Unidade de Emergência / Clínica Médica, versão de 24 de julho de 2017
Younes-Ibrahim M, Rocha E, Reis T, Colares VS, Lima EQ, Andrade LC, Rosa EC, Cardoso HS, Thomé F, Ponce D, Suassuna JHR, Yu L — Guia de assistência nefrológica hospitalar da Sociedade Brasileira de Nefrologia. Brazilian Journal of Nephrology, 2025;47(3):e20240239
Reis T, Colares VS, Rocha E, Younes-Ibrahim M, Lima EQ, Andrade LC, Ponce D, Suassuna JHR, Yu L — Injúria renal aguda e métodos de suporte: padronização da nomenclatura. Jornal Brasileiro de Nefrologia, 2022;44(3):434-442
Kidney Disease: Improving Global Outcomes (KDIGO) Acute Kidney Injury Work Group — Section 2: AKI Definition. KDIGO Clinical Practice Guideline for Acute Kidney Injury. Kidney International Supplements, 2012;2(1):19-36
Colégio Brasileiro de Radiologia e Diagnóstico por Imagem — Diretrizes para o uso de meios de contraste intravenosos, equipe do Curso de Assistência à Vida em Radiologia, edição de janeiro de 2024
Ponce D, Zorzenon CPF, Santos NY, Teixeira UA, Balbi AL — Injúria renal aguda em unidade de terapia intensiva: estudo prospectivo sobre a incidência, fatores de risco e mortalidade. Revista Brasileira de Terapia Intensiva, 2011;23(3)
Pinto PS, Carminatti M, Lacet T, Rodrigues DF, Nogueira LO, Sanders-Pinheiro H, Bastos MG — Insuficiência renal aguda nefrotóxica: prevalência, evolução clínica e desfecho. Jornal Brasileiro de Nefrologia, 2009;31(3)
Rocha PN — Hipercalemia (editorial). Jornal Brasileiro de Nefrologia, 2009;31(1)
Nerbass FB, Lima HN, Zawadzki B, Moura-Neto JA, Lugon JR, Sesso R — Censo Brasileiro de Diálise 2024. Brazilian Journal of Nephrology, 2026;48(1):e20250112
Li PKT, Burdmann EA, Mehta RL — Injúria renal aguda: um alerta global (editorial do Dia Mundial do Rim). Jornal Brasileiro de Nefrologia, 2013;35(1)
Aerolin solução para nebulização (sulfato de salbutamol 5 mg/mL) — bula profissional aprovada pela Anvisa, registro 1.0107.0226, GlaxoSmithKline Brasil
Romão Júnior JE, Haiashi ARM, Vidonho Júnior AF, Abensur H, Quintaes PSL, Araújo MRT, Barros RT, Marcondes M — Causas e prognóstico da insuficiência renal aguda hospitalar em pacientes idosos. Revista da Associação Médica Brasileira, 2000;46(3):248-256
UK Kidney Association. Management of Hyperkalaemia in Adults, 2023. https://www.ukkidney.org/sites/default/files/FINAL%20VERSION%20-%20UKKA%20CLINICAL%20PRACTICE%20GUIDELINE%20-%20MANAGEMENT%20OF%20HYPERKALAEMIA%20IN%20ADULTS%20-%20191223_0.pdf
KDIGO. Acute Kidney Injury — situação da atualização. https://kdigo.org/guidelines/acute-kidney-injury/
ESUR. Guidelines on contrast media, seção B. https://esur-cm.org/index.php/b-renal-adverse-reactions-2
Responda antes de ler
Mulher de 74 anos, 61 kg, no quarto dia de internação por erisipela em perna direita, com melhora local evidente e sem febre há 72 horas. Creatinina da admissão 0,9 mg/dL; a de hoje é 1,8 mg/dL. Ureia 96 mg/dL, potássio 5,6 mmol/L. Pressão arterial 118 x 72 mmHg, frequência cardíaca 92 bpm, mucosas secas, refere tontura ao sentar, sem edema e sem estertores. A folha de prescrição tem, ativos: cefalexina, losartana 50 mg ao dia, hidroclorotiazida 25 mg ao dia, cetoprofeno 100 mg intravenoso de 12 em 12 horas e dipirona se dor. O balanço hídrico registra, nos quatro dias, apenas a anotação "diurese presente". Qual é a conduta mais adequada agora?
O paciente que você vai ver
Sexta-feira, sete e meia da manhã. O leito 12 é da dona Marlene, 74 anos, 61 quilos, internada há quatro dias por erisipela na perna direita. Ela está bem: a perna desinchou, o eritema recuou dois dedos da marca que alguém desenhou a caneta na coxa, e a febre não volta desde terça. A alta está desenhada para segunda.
Você abre o resultado do laboratório de hoje, coletado às cinco da manhã. Creatinina 1,8 mg/dL. Você volta na tela e procura a da admissão: 0,9 mg/dL. Ureia subiu de 34 para 96 mg/dL. Potássio 5,6 mmol/L. O laboratório marcou a creatinina com um asterisco e a frase padrão: acima do valor de referência.
A primeira reação, a que quase todo mundo tem, é olhar para a doença. A erisipela piorou? Foi para o sangue? Você examina a perna: está melhor. Temperatura 36,4 °C, pressão 118 x 72 mmHg, frequência cardíaca 92 bpm. Ela não parece infectada. Parece cansada, com a boca seca, e diz que ficou tonta quando sentou na cama ontem. A segunda reação é chamar a nefrologia. E a terceira, a mais perigosa das três, é prescrever furosemida, porque a creatinina subiu e a impressão é de que o rim está represando líquido.
Só que a resposta está na prancheta que você tem na mão, e ela já estava lá ontem. A folha de prescrição de dona Marlene tem cinco linhas ativas: cefalexina, losartana 50 mg (a medicação que ela usa em casa), hidroclorotiazida 25 mg (idem), cetoprofeno 100 mg intravenoso de 12 em 12 horas — prescrito na segunda-feira, para a dor da perna, por um plantonista que não a viu de novo — e dipirona se dor. Quarta-feira ela ficou em jejum a manhã inteira para uma tomografia com contraste que só saiu às 16h. Quinta-feira ela recusou o almoço e o jantar, e ninguém prescreveu nada no lugar. E o balanço hídrico, na folha da enfermagem, traz nos quatro dias a mesma anotação: diurese presente.
Nenhuma dessas cinco linhas é um erro grave sozinha. Juntas, num paciente de 74 anos que passou dois dias comendo pouco e um período de jejum com contraste no meio, elas são o diagnóstico. Dona Marlene não adquiriu uma doença renal nova na sexta-feira. Ela recebeu uma, prescrita, ao longo da semana — e cada assinatura foi de alguém que estava fazendo o certo para outro problema.
Este é o capítulo do diagnóstico que o interno causa com mais frequência do que trata. A regra que organiza tudo o que vem a seguir cabe numa frase: antes de investigar, desfaça o que você fez.
Quem adoece disso
Injúria renal aguda aparece em 3,2% a 9,6% das internações hospitalares, com mortalidade hospitalar em torno de 20% e chegando a 50% entre os internados em terapia intensiva. A leitura prática desses números não é a gravidade: é a frequência. Numa enfermaria de vinte leitos, um ou dois pacientes por semana vão ter creatinina subindo — reconhecer isso não é habilidade de nefrologista, é rotina de quem passa visita.
A coorte prospectiva brasileira mais útil para o interno é a do Hospital das Clínicas de Botucatu, que acompanhou pacientes de terapia intensiva por dois anos: incidência de 25,5%, com mortalidade de 62,5% entre os que tiveram injúria renal aguda contra 16,4% entre os que não tiveram. Dois achados dessa coorte mudam conduta na segunda-feira de manhã. O primeiro: creatinina basal acima de 1,2 mg/dL multiplicou por 5,2 a chance de desenvolver injúria renal aguda — quem já tem rim ruim é quem mais adoece, e é exatamente nesse paciente que a prescrição precisa ser lida com mais cuidado. O segundo: uso de anti-inflamatório não esteroide foi fator de risco independente, com razão de chances de 2,15. Não é um efeito adverso raro de bula. É uma linha de prescrição que dobra o risco.
A parcela medicamentosa tem tamanho medido no Brasil. Numa série nacional, 12% dos casos foram puramente nefrotóxicos e outros 24% foram multifatoriais com droga nefrotóxica envolvida — cerca de um em cada três casos tinha uma droga na origem. Dos casos nefrotóxicos, antimicrobianos e antivirais responderam por 87%, com vancomicina em 12% e aminoglicosídeos em 8%. Isso reposiciona a folha de antibiótico: ela não é só o tratamento da infecção, é também a principal hipótese diagnóstica quando a creatinina sobe no terceiro dia.
No idoso internado, a distribuição das causas em série brasileira foi de 38% isquêmicas, 35% nefrotóxicas, 31% sépticas e 7,7% obstrutivas — as somas passam de cem porque as causas se acumulam no mesmo paciente, e é assim que elas aparecem de verdade. A letalidade separou-se pelo lugar: 17% em enfermaria contra 69% em terapia intensiva. A causa obstrutiva é a menor fatia e a que mais dói perder, porque é a única que se resolve com uma sonda.
E há um número que descreve o desfecho de longo prazo do que se faz nesta semana: cerca de 70% das pessoas que iniciam diálise no Brasil chegam ao sistema pela porta da urgência, sem acompanhamento prévio e sem acesso vascular pronto. O país tinha 172.585 pacientes em diálise crônica em julho de 2024, com 52.944 entrando naquele ano. Injúria renal aguda que não recupera é uma das estradas que levam até ali, e a consulta de retorno com creatinina em três meses é barata perto do que ela evita.
Por que acontece o que acontece
A filtração glomerular é o resultado de uma diferença de pressão dentro de um novelo de capilares que tem uma arteríola na entrada e outra na saída. A arteríola aferente dilata para deixar entrar mais sangue; a eferente contrai para segurar a pressão lá dentro. Quando o volume circulante cai, o rim compensa nas duas pontas: prostaglandinas locais dilatam a aferente, e a angiotensina II contrai a eferente. É esse duplo movimento que mantém a filtração quase constante enquanto a perfusão despenca — e é ele que as drogas da folha desmontam.
Anti-inflamatório não esteroide bloqueia a síntese de prostaglandina e tira a dilatação da aferente. Inibidor da enzima conversora e bloqueador do receptor de angiotensina tiram a contração da eferente. Diurético tira o volume que alimenta as duas. Cada um sozinho, num paciente cheio, quase não aparece. Os três juntos, num paciente que passou o dia em jejum, retiram simultaneamente o volume, a entrada e a saída — e a pressão de filtração cai de uma vez. É por isso que a associação de anti-inflamatório, bloqueador do sistema renina-angiotensina e diurético tem nome próprio nas listas de segurança, e é por isso que, na folha de dona Marlene, as três linhas mais perigosas são as que ninguém olha.
Existe uma segunda trava, a autorregulação, e ela explica um erro de leitura muito comum. O rim mantém a filtração estável dentro de uma faixa de pressão arterial média; abaixo dessa faixa, a filtração cai proporcionalmente à pressão. No hipertenso de longa data, a faixa inteira está deslocada para cima — o rim dele aprendeu a trabalhar com pressão alta. Uma pressão de 105 x 60 mmHg num senhor que vive em 160 x 95 mmHg é uma pressão normal na tabela e uma hipotensão renal na prática. Por isso a meta de reanimação da injúria renal aguda é pressão arterial média acima de 65 mmHg, com alvos mais altos em quem era hipertenso.
Quando a queda de perfusão é só funcional, o túbulo continua íntegro e faz o que foi desenhado para fazer: economiza. Hormônio antidiurético e aldosterona sobem, o sódio é reabsorvido avidamente, e a urina sai pouca, escura e concentrada, com sódio urinário baixo; como a ureia é reabsorvida junto com a água e a creatinina não, a ureia sobe proporcionalmente mais. Nada disso é doença do rim — é o rim funcionando bem num corpo seco. É por isso que o quadro reverte em horas quando se devolve volume, e piora quando se dá diurético.
Se a hipoperfusão persiste, ou se soma a uma agressão direta, o túbulo morre. A região mais vulnerável é a medular externa, onde o segmento reto do túbulo proximal e o ramo ascendente espesso trabalham com alta demanda de oxigênio numa área que já vive com oferta baixa. Ali é onde a isquemia, a sepse, o contraste e a droga nefrotóxica se somam. Morto o epitélio, três coisas mudam ao mesmo tempo: a urina deixa de ser concentrada (o túbulo perdeu a capacidade de economizar, e o sódio urinário sobe), o sedimento passa a mostrar cilindros granulosos e células tubulares, e a recuperação deixa de ser questão de horas e passa a ser de dias a semanas — porque depende de o epitélio se reepitelizar. Essa é a diferença que importa: a disfunção hemodinâmica pode melhorar com correção da causa, que é reposição no déficit de volume e pode ser descongestão na insuficiência cardíaca; a lesão tubular estabelecida só melhora quando se para de agredir e se dá tempo.
A obstrução funciona por outro mecanismo, e é o mais mecânico dos três: a pressão da urina represada sobe pelo ureter, chega à cápsula de Bowman e anula a diferença de pressão que fazia o filtrado atravessar. O rim continua perfundido, continua vivo, e para de filtrar. Duas consequências valem a beira do leito. Aliviada a pressão, a filtração volta rápido — é a categoria com o maior retorno por minuto de trabalho. E a dilatação que o ultrassom enxerga leva horas para se formar e pode faltar nas primeiras horas, no paciente muito depletado ou com o ureter envolvido por fibrose ou tumor.
Falta explicar por que a creatinina chega atrasada, porque é isso que decide o horário da conduta. Ela é um marcador de equilíbrio: a musculatura produz um tanto por dia, o rim tira o mesmo tanto, e o número fica parado. Quando a filtração cai, a produção continua e a retirada diminui — a concentração sobe e só encontra um novo patamar um a dois dias depois. Enquanto a função está caindo, a creatinina de hoje é mais otimista que a função de hoje; enquanto está se recuperando, é mais pessimista. E, no idoso magro, na mulher pequena, no cirrótico e em quem perdeu massa muscular na internação, a produção diária é baixa: o mesmo número esconde uma função muito pior, e um paciente com metade da filtração pode ainda exibir creatinina dentro da faixa de referência.
O que mata na injúria renal aguda quase nunca é a ureia — é o potássio. A excreção de potássio depende de duas coisas que o quadro derruba juntas: fluxo de urina chegando ao néfron distal e ação da aldosterona. A oligúria reduz a primeira; bloqueador do sistema renina-angiotensina, espironolactona, heparina, trimetoprima e anti-inflamatório reduzem a segunda. Somando as duas com o potássio que sai das células na acidose, o número sobe rápido num paciente que não sente nada até o coração parar. Depois dele vêm, em ordem de pressa, a acidose metabólica, a sobrecarga de volume com edema pulmonar e a síndrome urêmica.

Como se apresenta de verdade
Injúria renal aguda tem três formas de aparecer, e elas não têm a mesma frequência. A primeira, de longe a mais comum no internado, é um número num exame de rotina, num paciente que não se queixa de nada. A segunda é a diurese que cai — e só aparece para quem mede. A terceira é a complicação chegando antes do diagnóstico: a arritmia da hipercalemia, a dispneia da congestão, a confusão que a equipe interpreta como delirium do idoso.
Metade dos casos não é oligúrica, e esse é o dado que mais desarma a intuição: diurese normal não exclui injúria renal aguda, e quem continua urinando um litro por dia pode estar em estágio 2 pela creatinina. O espectro de gravidade também é largo — vai de uma creatinina que sobe 0,4 mg/dL e volta ao basal em dois dias, sem nada além de suspender uma droga, até diálise em 24 horas. Na série brasileira de casos com droga envolvida, 15% precisaram de diálise; os outros 85% foram conduzidos com suspensão, volume e tempo.
Percurso de aprendizagem
Comece explicando como a mesma creatinina pode representar situações diferentes conforme o basal, o tempo e a massa muscular.
Acompanhe o caso perguntando, a cada intervenção, o que se espera da diurese, perfusão, potássio e exame pulmonar. Use as tabelas para conferir a prescrição e reconhecer necessidade de apoio.
O idoso — o paciente arquetípico da enfermaria
É onde a doença mais acontece e onde ela mais se esconde. A creatinina do idoso magro é baixa porque a produção de creatinina é baixa, não porque o rim é bom: sarcopenia, menos massa magra e menos ingestão proteica derrubam a produção, e o resultado do laboratório sai sem asterisco. Um homem de 79 anos e 54 quilos com creatinina de 1,2 mg/dL tem depuração estimada em torno de 38 mL/min por Cockcroft e Gault — e o laudo dele não traz nenhuma marca.
A apresentação clínica também muda: o idoso com injúria renal aguda aparece como confusão, sonolência, queda ou recusa alimentar, e isso é atribuído à idade ou ao delirium antes de alguém pedir a creatinina. A régua prática é simples — idoso internado que muda de comportamento merece eletrólitos, função renal e revisão de prescrição no mesmo pedido. E é o grupo com mais linhas na folha: cada comorbidade traz uma droga, e várias delas mexem no rim. A soma é o mecanismo.
Quem já tinha o rim reduzido: diabético, hipertenso antigo, doente renal crônico
Creatinina basal acima de 1,2 mg/dL multiplicou por 5,2 a chance de desenvolver injúria renal aguda na coorte brasileira de terapia intensiva. Rim com reserva pequena descompensa com agressão pequena — o mesmo dia de jejum que não faz nada num jovem tira boa parte da função de quem já tem 40 mL/min.
Esse paciente exige uma distinção que muda conduta: é agudo, é crônico, ou é crônico agudizado? No crônico agudizado, parte da creatinina de hoje não vai voltar, o alvo da reanimação é menos ambicioso, o risco de sobrecarga ao expandir é maior, e o encaminhamento ao nefrologista deixa de ser eventual e passa a ser regra. Três coisas separam: a creatinina antiga no prontuário ou no cartão do posto (o dado mais valioso e o mais esquecido), o tamanho e a ecogenicidade dos rins no ultrassom, e a presença de anemia, hiperfosfatemia e hipocalcemia estáveis. O manejo da doença renal crônica em si tem capítulo próprio nesta apostila.
O cirrótico e o cardiopata: cheios de água e secos por dentro
É a apresentação que mais leva a erro de categoria, porque o exame físico grita hipervolemia — ascite, edema, estertores — enquanto o volume que chega ao rim está baixo. Na cirrose descompensada, a vasodilatação esplâncnica sequestra o volume arterial efetivo; na insuficiência cardíaca, a congestão venosa eleva a pressão de saída e reduz a diferença de pressão que perfunde o rim. Nos dois, a resposta neuro-hormonal é a de um paciente hemorrágico: retenção ávida de sódio, urina concentrada, sódio urinário baixo.
Na prática, nem edema autoriza diurético nem creatinina alta o proíbe: a decisão passa a depender da pressão de enchimento e da resposta, medida, ao que se fez. No cirrótico com creatinina em ascensão, a expansão de prova é feita com albumina em vez de cristaloide, e a suspensão de diurético e de betabloqueador vem antes de qualquer outra coisa. Se a creatinina não volta com volume adequado no cirrótico, o quadro deixa de ser do interno.
O paciente séptico e o pós-operatório
Sepse é a causa isolada mais frequente de injúria renal aguda grave no hospital, e apareceu em 31% dos casos de idosos internados em série brasileira. O que muda não é o diagnóstico renal: é a ordem de prioridade. Controle de foco, antimicrobiano precoce e restauração da perfusão vêm antes de qualquer raciocínio sobre categoria, porque a única intervenção que muda a trajetória do rim é tratar a sepse. O pacote e as metas de reanimação têm capítulo próprio nesta apostila, e a conduta de lá substitui a daqui enquanto o paciente estiver instável.
No pós-operatório os fatores se somam de forma previsível: jejum prolongado, perda para o terceiro espaço, hipotensão intraoperatória, anti-inflamatório para analgesia e bloqueador do sistema renina-angiotensina reintroduzido cedo demais. Hemoglobina abaixo de 8 g/dL antes ou depois da cirurgia é fator de risco reconhecido para injúria renal aguda na maioria dos procedimentos.
O que chega da rua: o quadro comunitário
Injúria renal aguda adquirida fora do hospital tem outro rosto, e no Brasil ele inclui causas que quase não aparecem nos livros importados: desidratação por diarreia, vômito e calor; rabdomiólise por exercício extremo, imobilização prolongada, convulsão ou trauma; leptospirose com icterícia e hemorragia; arboviroses com queda de plaquetas e choque; anti-inflamatório comprado sem receita e tomado por dias; suplementos, anabolizantes e chás.
A anamnese que muda o diagnóstico é a que ninguém faz com calma: o que tomou, quanto, por quanto tempo, comprado onde; se urinou escuro; se teve febre e onde esteve; se houve enchente, lama ou contato com roedor; se ficou caído no chão por horas. Urina cor de coca-cola com fita reagente positiva para sangue e sedimento sem hemácias é rabdomiólise até prova em contrário, e o exame que confirma é a creatinoquinase.
A obstrução: a que se perde por não pensar nela
É a menor fatia — cerca de 5% dos casos — e é a única que se resolve com um gesto de dois minutos. Ela se apresenta de três jeitos, e nenhum deles é óbvio. O primeiro é a anúria súbita e completa: rim que para de uma vez raramente é lesão tubular, que costuma ser gradual. O segundo é o oposto e engana mais: diurese que alterna entre pouca e muita, porque a obstrução é parcial e transborda. O terceiro é o paciente que urina volumes pequenos e frequentes, com globo vesical palpável, e que a equipe registra como incontinência.
Os candidatos habituais estão no corredor de qualquer enfermaria: homem idoso com hiperplasia prostática, paciente com sonda vesical de demora que dobrou, entupiu ou saiu do lugar, paciente neurológico com bexiga neurogênica, mulher com neoplasia pélvica ou de colo uterino, paciente em uso de opioide ou anticolinérgico com retenção urinária medicamentosa. Em todos eles, a conduta de dois minutos é palpar e percutir o hipogástrio, checar fisicamente a sonda e o volume drenado, e pedir o ultrassom.

Como fechar o diagnóstico
A investigação da injúria renal aguda tem uma ordem, e ela não é a dos livros. Não se começa perguntando se é pré-renal, renal ou pós-renal: começa-se desfazendo. As duas primeiras providências não são exames — são a folha de prescrição e a bexiga —, e juntas resolvem ou encaminham a maior parte dos casos de enfermaria antes de qualquer resultado voltar. Depois delas vêm quatro perguntas, nesta sequência: quanto o rim caiu, quanto ele está produzindo, como está o volume do paciente, e o que a urina e a imagem dizem sobre a categoria. O objetivo não é um rótulo elegante: é saber se este paciente precisa de volume, de suspensão, de sonda — ou de nefrologista agora.
Primeiro passo: a folha de prescrição e as últimas 48 horas
Percorra a prescrição linha por linha e classifique cada uma em três pilhas — o que sai agora, o que muda de dose ou intervalo, e o que fica. A tabela do bloco seguinte traz as três pilhas prontas; o que importa aqui é que a classificação vem antes de qualquer exame, e que a maior parte dos casos de enfermaria se resolve nela. A suspensão precisa dizer se é temporária ou definitiva, e isso vai escrito na própria prescrição: bloqueador do sistema renina-angiotensina suspenso na injúria renal aguda de um hipertenso é medida de dias, não de vida.
Em seguida, reconstitua as últimas 48 horas com quem estava lá. As perguntas que mais rendem: houve contraste iodado, e quando? Ficou em jejum, por quanto tempo, e alguém prescreveu líquido no lugar? Teve hipotensão no plantão da noite, mesmo transitória? Houve sangramento, vômito, diarreia, débito alto de dreno? Trocou-se algum antibiótico? Foi ao centro cirúrgico? A folha de sinais vitais, a anotação da enfermagem e a passagem de plantão respondem quase tudo.
Segundo passo: a bexiga, antes de qualquer exame
Palpe e percuta o hipogástrio. Se o paciente já tem sonda vesical, não confie no fato de ela existir: siga o cateter com a mão do meato ao coletor, procurando dobra, e olhe o volume drenado nas últimas horas — sonda entupida por coágulo ou sedimento produz anúria com bexiga cheia, e o achado é reversível com uma lavagem ou uma troca. Havendo dúvida sem sonda, o ultrassom de cabeceira mede o resíduo em segundos; onde ele não estiver disponível, o cateterismo vesical de alívio é diagnóstico e terapêutico ao mesmo tempo. A técnica e as armadilhas da sondagem têm capítulo próprio nesta apostila.
O número que decide: resíduo pós-miccional acima de 300 mL, ou drenagem imediata de volume grande após a sondagem, confirmam retenção. Registre o volume drenado — é ele que sustenta a conduta e permite antecipar a diurese pós-desobstrutiva.
Quanto o rim caiu: a régua de creatinina, e por que ela chega atrasada
A definição vigente é internacional, e é ela que o consenso brasileiro de nomenclatura adota. Há injúria renal aguda quando ocorre qualquer um destes três: aumento da creatinina sérica de 0,3 mg/dL ou mais em 48 horas; aumento para 1,5 vez o valor basal ou mais nos últimos 7 dias; ou volume urinário abaixo de 0,5 mL/kg/h por 6 horas. Um só critério basta, e o de diurese é tão diagnóstico quanto o de creatinina.
Dona Marlene foi de 0,9 para 1,8 mg/dL: variação de 0,90 mg/dL e razão de 2,00 vezes o basal — estágio 2, atingido sem que ninguém tivesse notado nada nela. Os dois critérios pegam pacientes diferentes, e por isso os dois existem: 0,9 para 1,2 já é injúria pela variação absoluta (0,30 mg/dL) com razão de apenas 1,33; e 0,9 para 1,35 é injúria pela razão (1,50) com variação absoluta de 0,45.
O basal é uma peça frequentemente ausente na internação. Procurar creatininas ambulatoriais anteriores, de preferência recentes e em condição estável, interpretando também a trajetória dos últimos meses e a história clínica. A creatinina da admissão pode já representar injúria renal aguda; a menor da internação pode sofrer influência de diluição e perda muscular. Nenhuma delas deve ser declarada basal por uma ordem automática. Se não houver medida confiável, registrar a incerteza e usar evolução, diurese e demais dados para reconhecer gravidade. Estimar basal a partir de filtração presumida também introduz erro, especialmente no idoso.
Duas contas mostram por que a creatinina isolada não decide nada. Um homem de 79 anos e 54 quilos com creatinina de 1,2 mg/dL tem 38 mL/min por Cockcroft e Gault e 62 mL/min/1,73 m² por CKD-EPI — as fórmulas discordam em mais de 60%, e é a primeira que as bulas usam para definir cortes de ajuste. Um homem de 54 anos e 118 quilos com a mesma creatinina tem 118 mL/min por Cockcroft e Gault com peso real, 89 mL/min com peso ajustado e 72 mL/min/1,73 m² por CKD-EPI: a gordura não produz creatinina, e o peso da balança na fórmula superestima a função de quem mais recebe dose plena. Escolha uma fórmula, escreva qual usou e mantenha a mesma no seguimento.
E a trava que governa o horário: nenhuma fórmula de estimativa vale em estado de não equilíbrio. O paciente com creatinina em movimento tem função pior do que o número devolve, e a conduta deve tratá-lo assim.

Quanto o rim está produzindo: diurese medida, não estimada
Diurese é o parâmetro que se move primeiro, custa nada e quase nunca é medido direito. A régua é por peso e por hora, não por impressão. Abaixo de 0,5 mL/kg/h por 6 horas já é injúria renal aguda; abaixo de 0,3 mL/kg/h por 24 horas, ou anúria por 12 horas, é estágio 3.
Traduza para o volume que a enfermagem consegue anotar. Numa paciente de 61 quilos, 0,5 mL/kg/h são 30,5 mL/h, ou seja, 183 mL em 6 horas e 732 mL em 24 horas — qualquer coisa abaixo disso é diagnóstico. Num paciente de 80 quilos, os mesmos 0,5 mL/kg/h são 40 mL/h, 240 mL em 6 horas e 960 mL em 24 horas; um litro de diurese em 24 horas, que soa tranquilizador, é 0,52 mL/kg/h e está na fronteira. Numa paciente de 50 quilos, o corte de 24 horas cai para 600 mL. É por isso que 'diurese presente' na folha não é informação: 300 mL em 24 horas também é diurese presente.
Como medir de verdade sem sondar todo mundo: peça diurese de 24 horas com totalização por turno, entregue à paciente e à acompanhante um recipiente graduado, e escreva na prescrição o horário do fechamento. Sonda vesical de demora só para quem já tem indicação — ela mede melhor e infecta mais. E peça peso diário, na mesma balança, no mesmo horário: variação de peso é o balanço hídrico que não mente, e um quilo a mais em 24 horas é um litro retido.
Como está o volume: o exame que decide a categoria
É aqui que se ganha ou se perde a decisão mais importante do capítulo, porque dar volume a quem está congesto e dar diurético a quem está seco são os dois erros de sinal trocado. Nenhum sinal isolado resolve; a leitura é do conjunto.
A favor de hipovolemia: mucosa oral e axila secas, turgor reduzido em local confiável (esterno ou fronte no idoso, não o dorso da mão), jugulares colabadas a 45 graus, queda de sistólica maior que 20 mmHg ou de diastólica maior que 10 mmHg ao sentar ou levantar, taquicardia, enchimento capilar lento, extremidades frias, perda de peso desde a admissão, balanço acumulado negativo, urina escura. A favor de hipervolemia: turgência jugular a 45 graus, estertores em bases, terceira bulha, edema com cacifo, ascite nova, ganho de peso, balanço positivo, ortopneia.
Duas honestidades. No idoso, turgor e mucosa perdem sensibilidade, e o dado mais confiável passa a ser a variação de peso e o balanço. E edema periférico convive com hipovolemia efetiva no cirrótico, no cardiopata e no hipoalbuminêmico — nesses, o edema não autoriza diurético nem exclui a necessidade de volume. Quando o exame não resolve, a saída não é chutar: é uma prova de volume controlada, com alvo definido e reavaliação marcada.
O ultrassom de rins e vias urinárias: o exame que exclui
É o exame de imagem da injúria renal aguda, e a pergunta que ele responde é decisiva: há obstrução? Peça para todo paciente sem causa evidente, com prioridade para quem tem anúria, história urológica, doença pélvica, bexiga neurogênica ou sonda. Não usa contraste, não expõe a radiação e está disponível em qualquer hospital com serviço de imagem no SUS.
Ele responde outras duas coisas de graça. Rins pequenos, com cortical afinada e parênquima hiperecogênico, dizem que a doença é antiga e que parte da creatinina de hoje não vai voltar — e isso muda a meta do tratamento e o destino do paciente depois da alta. Rins de tamanho normal com boa diferenciação corticomedular mantêm o quadro no território do reversível.
Os limites, com a mesma clareza: a dilatação leva horas para se formar, e pode faltar nas primeiras horas, no paciente muito depletado e quando o ureter está encarcerado por fibrose retroperitoneal ou tumor. Ultrassom normal em quem tem anúria e história urológica compatível não fecha a porta — reavalie, e considere tomografia sem contraste ou avaliação urológica.
A urina: o exame mais barato e o mais desprezado
O sedimento urinário é a única janela para dentro do rim que se abre no mesmo dia. Sedimento limpo, com cilindros hialinos apenas, aponta para causa pré-renal ou obstrutiva. Cilindros granulosos grosseiros e células epiteliais tubulares apontam para lesão tubular. Hemácias dismórficas e cilindros hemáticos apontam para doença glomerular e mudam o telefonema: esse paciente é do nefrologista hoje, não amanhã. Leucócitos e cilindros leucocitários sem infecção urinária apontam para nefrite intersticial, quase sempre por droga — e a droga culpada costuma ter sido introduzida entre 5 e 10 dias antes.
Os índices urinários são um complemento, com regras de uso rígidas. A fração de excreção de sódio compara o sódio que o rim descartou com o que ele filtrou: multiplica-se o sódio urinário pela creatinina plasmática, divide-se pelo produto do sódio plasmático pela creatinina urinária, e multiplica-se por 100. Abaixo de 1% indica rim ávido por sódio, o padrão pré-renal; acima de 2%, lesão tubular estabelecida. Em dona Marlene, com sódio urinário 11 mmol/L, sódio plasmático 138 mmol/L, creatinina urinária 96 mg/dL e creatinina plasmática 1,8 mg/dL, o resultado é 0,15% — retenção de sódio compatível com a hipótese clínica, sem provar integridade tubular. Num paciente com necrose tubular, sódio urinário 62, sódio plasmático 136, creatinina urinária 38 e creatinina plasmática 3,1, o resultado é 3,72%.
E o momento em que o índice mente. Quem recebeu diurético de alça nas últimas 24 horas descarta sódio por causa da droga: com sódio urinário 45, sódio plasmático 137, creatinina urinária 70 e creatinina plasmática 2,2, o resultado é 1,03% — um paciente pré-renal disfarçado de tubular. A saída é a fração de excreção de ureia, que troca o sódio pela ureia e pode ser menos influenciada pelo diurético, mas também sofre interferências e tem acurácia limitada: nos mesmos números, com ureia urinária 320 mg/dL e plasmática 92 mg/dL, ela dá 10,9%, e valores abaixo de 35% podem apoiar, sem confirmar, a hipótese hemodinâmica. Os índices também perdem valor na doença renal crônica, na injúria por contraste, na glomerulonefrite aguda e na obstrução.
Peça sempre, junto: sumário de urina com sedimento, e sódio e creatinina urinários em amostra isolada — colhidos antes da primeira dose de diurético. Uma amostra colhida antes vale mais que qualquer índice colhido depois.
O que não pedir, e o que custa pedir
Tomografia com contraste para investigar a causa da injúria renal aguda é a inversão mais cara: o exame que se pede para achar o problema é uma das causas do problema. Contraste iodado tem indicação quando a pergunta clínica é outra e é urgente — suspeita de dissecção, tromboembolismo, abdome agudo cirúrgico, abscesso —, e nesse caso se faz, com preparo. Fora disso, o ultrassom responde a pergunta que importa.
Repetir creatinina em intervalo curto não antecipa nada: como o marcador leva um a dois dias para achar o novo patamar, uma dosagem em 4 ou 6 horas só produz ruído, e ele será interpretado. O que se acompanha nesse intervalo é a diurese, hora a hora. A exceção é a suspeita de erro laboratorial ou de amostra trocada.
Biópsia renal não é exame de primeira linha: ela se justifica quando a causa não se explica após a revisão da prescrição, a exclusão de obstrução e a correção de volemia, e a indicação é do nefrologista. Painéis sorológicos disparados em bloco no primeiro dia, sem hipótese, produzem resultados que ninguém sabe interpretar — peça o que a história pede: creatinoquinase na suspeita de rabdomiólise, sorologia de leptospirose no quadro compatível, hemocultura se há febre, eletroforese e cadeias leves no idoso com anemia, dor óssea e hipercalcemia.
E o exame que quase todo mundo esquece de pedir, e que é o mais urgente de todos: eletrocardiograma, quando o potássio está acima de 5,5 mmol/L. Ele não diagnostica injúria renal aguda — decide se o próximo passo é uma ampola de cálcio agora.
O que existe no SUS
Todo o essencial deste capítulo está disponível na rede pública, e isso deveria elevar o padrão de exigência do interno. Creatinina, ureia, sódio, potássio, gasometria, sumário de urina com sedimento, sódio e creatinina urinários, hemograma, eletrocardiograma e ultrassonografia de rins e vias urinárias são rotina hospitalar. Bicarbonato de sódio a 8,4%, cloreto de sódio a 0,9%, furosemida injetável, insulina humana regular e salbutamol para inalação constam da relação nacional de medicamentos essenciais, no componente básico.
O que costuma faltar não é o exame, é o horário: sódio e creatinina urinários muitas vezes só saem no dia seguinte, e o ultrassom fora do horário administrativo depende de plantão de imagem. A consequência de conduta é a mesma dos serviços com mais recursos — suspender droga, corrigir volume e checar a bexiga não esperam resultado nenhum. Biomarcadores precoces de lesão tubular existem na literatura e não fazem parte da rotina assistencial no país, e isso não é obstáculo prático: o que antecipa o diagnóstico na enfermaria brasileira é medir diurese e reler a prescrição.
Reconhecer lesão renal e tratar suas complicações
O objetivo é reconhecer a injúria renal pela trajetória e pela diurese, distinguir hipoperfusão, congestão, lesão parenquimatosa e obstrução, e organizar as primeiras medidas com reavaliação. Doses e critérios ajudam a decidir; não substituem exame, tendência e supervisão. O fluxo abaixo é a sequência da visita, na ordem em que ela salva tempo. As tabelas são para consultar com a prancheta na mão: a primeira estadia o paciente; as seguintes traduzem as três categorias em gestos, separam a prescrição em pilhas, resumem a sequência da hipercalemia (as doses por extenso estão no bloco de conduta), classificam a urgência dialítica e traduzem o corte de diurese em mililitros.
- 1Leia a folha de prescrição inteira antes de pedir qualquer exame, separando em três pilhas: o que sai agora, o que muda de dose ou intervalo, e o que fica.
- 2Reconstitua as últimas 48 horas: contraste, jejum, hipotensão no plantão, sangramento, vômito, diarreia, débito de dreno, centro cirúrgico, troca de antibiótico.
- 3Palpe e percuta o hipogástrio; havendo sonda, siga o cateter com a mão e olhe o volume drenado. Bexiga cheia é diagnóstico e é conduta.
- 4Olhe o potássio: acima de 5,5 mmol/L, eletrocardiograma agora, antes de qualquer outro exame.
- 5Estabeleça o basal, calcule a variação (0,3 mg/dL em 48 h, ou 1,5 vez o basal em 7 dias) e escreva o estágio na evolução.
- 6Peça diurese medida por turno com totalização de 24 horas, e peso diário — traduzindo 0,5 mL/kg/h para o volume deste paciente. Examine a volemia à beira do leito e decida: seco, congesto, ou indefinido.
- 7Peça ultrassonografia de rins e vias urinárias, sedimento urinário e sódio e creatinina urinários, colhidos antes da primeira dose de diurético. E marque na prescrição o horário da reavaliação e o que será reavaliado nela.
| Estágio | Creatinina sérica | Débito urinário | O que muda na conduta |
|---|---|---|---|
| Diagnóstico | Aumento ≥ 0,3 mg/dL em 48 h OU ≥ 1,5 vez o basal em 7 dias | < 0,5 mL/kg/h por 6 h | Qualquer um dos três critérios basta. Revisar prescrição, checar bexiga, medir diurese. |
| 1 | 1,5 a 1,9 vez o basal OU aumento ≥ 0,3 mg/dL | < 0,5 mL/kg/h por 6 a 12 h | Suspender nefrotóxico, corrigir volume, recalcular doses, recolher creatinina em 24 h. |
| 2 | 2,0 a 2,9 vezes o basal | < 0,5 mL/kg/h por 12 h ou mais | Tudo do estágio 1, mais monitoração de potássio e bicarbonato, e avaliação de nefrologia se não houver causa clara ou se não melhorar em 24 a 48 h. |
| 3 | 3,0 vezes o basal OU creatinina ≥ 4,0 mg/dL OU início de suporte renal artificial (abaixo de 18 anos, filtração estimada < 35 mL/min/1,73 m²) | < 0,3 mL/kg/h por 24 h ou mais, OU anúria por 12 h ou mais | Nefrologia agora. Procurar ativamente indicação de diálise de urgência e vaga de terapia intensiva. |
As três categorias: cada uma tem um gesto
| Categoria | Fatia dos casos | Pistas | O gesto que resolve | O que piora |
|---|---|---|---|---|
| Pré-renal (funcional) | Cerca de 55% | Mucosa e axila secas, queda postural de pressão, taquicardia, urina escura, sódio urinário baixo, fração de excreção de sódio < 1%, sedimento limpo | Corrigir a causa da redução de perfusão: volume se houver déficit; no paciente congesto, tratar a congestão e a condição cardíaca. Integrar exame e resposta, não apenas o rótulo pré-renal. | Expandir quem está congesto ou usar diurético em quem está depletado. Índices urinários isolados não escolhem a intervenção. |
| Renal (parenquimatosa) | Cerca de 40% | Sepse, hipotensão prolongada, droga nefrotóxica, contraste, rabdomiólise; sódio urinário alto, fração de excreção de sódio > 2%, cilindros granulosos e células tubulares | Parar de agredir: suspender nefrotóxico, ajustar dose do que sai pelo rim, manter perfusão e dar tempo. Tratar a causa. | Insistir em volume depois de restaurada a volemia — troca uma lesão por congestão pulmonar. |
| Pós-renal (obstrutiva) | Cerca de 5% | Anúria súbita, ou diurese alternando pouco e muito; globo vesical; sonda dobrada ou entupida; homem idoso, doença pélvica, bexiga neurogênica, opioide ou anticolinérgico | Localizar e aliviar a obstrução: sonda se retenção vesical; obstrução alta pode exigir duplo J ou nefrostomia pela urologia. Monitorar diurese pós-obstrutiva e eletrólitos. | Supor que toda obstrução se resolve com sonda vesical, ou que ultrassom precoce normal a exclui. |
A folha de prescrição: o que sai, o que muda, o que fica
| Pilha | Linhas típicas | Por quê |
|---|---|---|
| Sai agora | Retirar anti-inflamatório e outras exposições dispensáveis; suspender temporariamente IECA/BRA e diurético quando houver hipovolemia, hipotensão ou outra contraindicação. Suspender metformina na injúria aguda. Rever potássio e poupadores de potássio conforme o resultado. Antimicrobiano potencialmente nefrotóxico exige avaliação de necessidade, alternativa e dose, não interrupção automática de tratamento essencial. | Separar nefrotoxicidade direta, efeitos hemodinâmicos e risco de acúmulo. Congestão pode exigir diurético; infecção grave pode exigir um fármaco de risco com monitorização. A decisão resulta do balanço entre indicação e dano no paciente atual. |
| Muda dose ou intervalo | Vancomicina, betalactâmicos, aciclovir, colistina, sulfametoxazol com trimetoprima, anticoagulante de eliminação renal, opioide, gabapentinoide, digoxina, lítio | Continuam necessárias e acumulam. A escolha entre reduzir dose e esticar intervalo, e o cálculo de cada uma, estão no capítulo de ajuste de dose desta apostila. |
| Fica | Antimicrobiano de eliminação predominantemente hepática ou biliar, analgésico simples em dose ajustada, profilaxia de trombose com a dose revisada, insulina com monitoração mais frequente | Suspender o que não precisa sair troca injúria renal aguda por infecção mal tratada, dor e trombose. Revisar não é cortar. |
| Escreva junto | Se a suspensão é temporária ou definitiva; o peso da balança; a depuração estimada e por qual fórmula; a data da próxima creatinina | Suspensão sem prazo vira alta com o cardioprotetor cortado para sempre. Depuração sem fórmula declarada não pode ser comparada na visita seguinte. |
Hipercalemia: a sequência, o que cada passo faz e em quanto tempo
| Passo | Quando | O que faz | Início e duração |
|---|---|---|---|
| 1. Gluconato de cálcio 10% | Hipercalemia com cardiotoxicidade no ECG; se muito grave e ECG indisponível, seguir protocolo de emergência enquanto providencia monitorização. | Estabiliza a membrana; não reduz o potássio. Conferir cálcio elementar e apresentação. Suspeita de intoxicação digitálica requer discussão imediata com toxicologia e avaliação do antídoto. | Início em 1 a 3 min; dura 30 a 60 min |
| 2. Insulina regular com glicose | Potássio ≥ 6,0, ou ≥ 5,5 com alteração de traçado ou destruição tecidual em curso | Empurra o potássio para dentro da célula. Hipoglicemia é o efeito adverso que mata neste passo | Início em 15 a 30 min; pico em 60 min; dura 4 a 6 h; abaixa 0,5 a 1,0 mmol/L |
| 3. Salbutamol inalatório em dose plena | Junto com o passo 2, salvo taquiarritmia ou isquemia ativa | Mesmo mecanismo, por outra via; o efeito soma ao da insulina | Início em 30 min; pico em 90 min; abaixa 0,5 a 1,0 mmol/L |
| 4. Remoção do potássio | Escolher conforme função residual, volemia e urgência | Diurético quando apropriado; diálise se indicada; quelante conforme contexto. Resina clássica não é rotina de emergência. | O efeito de quelantes não substitui a remoção urgente por diálise nem dispensa nova dosagem de potássio |
| 5. Bicarbonato de sódio 8,4% | Somente com pH < 7,2 e bicarbonato sérico < 15 mEq/L, sem hipervolemia | Corrige a acidemia. Efeito modesto e lento sobre o potássio, e carrega 1 mEq de sódio por mL | Infusão em 1 h, em linha separada da solução de cálcio, que é incompatível |
| 6. Diálise | Potássio > 6,5 mmol/L refratário, ou com alteração de condução, fraqueza muscular ou destruição tecidual em curso | Único método que remove potássio de forma rápida e confiável quando o rim parou | Acionar a nefrologia enquanto os passos 1 a 4 correm, não depois |
Discussão de terapia renal substitutiva: gravidade, resposta e contexto
| Domínio | Achado de alarme | O que integrar à decisão | O que não decide sozinho |
|---|---|---|---|
| Ácido-base | Acidemia grave persistente com repercussão | Causa, ventilação, perfusão, resposta ao tratamento e tolerância ao bicarbonato | Um valor de pH sem contexto ou uma contagem de itens |
| Potássio | Hipercalemia grave, recorrente ou com alteração elétrica | Medidas imediatas em paralelo à nefrologia; refratariedade e capacidade de remover potássio | Melhora transitória após insulina |
| Intoxicação | Exposição a substância potencialmente dialisável | Agente, concentração, tempo e toxicidade; discutir com toxicologia | Ingestão de metformina, lítio ou salicilato sem critérios específicos |
| Volume | Edema pulmonar e hipoxemia por sobrecarga refratária | Resposta ao suporte e ao diurético quando indicado; balanço e perfusão | Anasarca ou oligúria isoladamente |
| Uremia | Pericardite, encefalopatia ou outra complicação urêmica | Avaliação clínica e exclusão de explicações alternativas; discussão urgente | Ureia ou creatinina em um corte fixo |
Débito urinário: o corte traduzido em volume, por peso
| Peso | 0,5 mL/kg/h | Em 6 horas | Em 24 horas | 0,3 mL/kg/h em 24 horas |
|---|---|---|---|---|
| 50 kg | 25 mL/h | 150 mL | 600 mL | 360 mL |
| 61 kg | 30,5 mL/h | 183 mL | 732 mL | 439 mL |
| 70 kg | 35 mL/h | 210 mL | 840 mL | 504 mL |
| 80 kg | 40 mL/h | 240 mL | 960 mL | 576 mL |
| 100 kg | 50 mL/h | 300 mL | 1200 mL | 720 mL |
A tabela de estadiamento é a régua internacional de 2012, adotada integralmente pelo consenso brasileiro de nomenclatura da SBN. O mesmo consenso decide o vocabulário deste capítulo: o termo é injúria renal aguda, com a sigla IRA, e ficam desencorajados lesão renal aguda, insuficiência renal aguda e falência renal aguda.
O corte para indicar cálcio foi fixado em potássio de 6,5 mmol/L ou qualquer alteração no eletrocardiograma, seguindo o protocolo hospitalar público adotado como referência; há serviços que dão cálcio a partir de 6,0 mmol/L com traçado normal. A escolha aqui é a mais econômica em cálcio e a mais exigente em eletrocardiograma: nenhum potássio acima de 5,5 mmol/L fica sem traçado.
A dose inalatória de 10 mg de salbutamol vem da conversão da apresentação brasileira (5 mg/mL; 2 mL equivalem a 10 mg, volume descrito na própria bula aprovada). Protocolos que prescrevem 10 gotas para hipercalemia estão prescrevendo 0,5 mL, isto é, 2,5 mg — a dose de broncoespasmo. A régua editorial da nefrologia nacional é explícita: as doses de beta-2 agonista para hipercalemia são bem maiores que as habitualmente usadas para broncoespasmo.
O bicarbonato foi tirado da linha de frente da hipercalemia e restrito à acidemia com pH abaixo de 7,2 e bicarbonato sérico abaixo de 15 mEq/L, como recomenda o guia nacional. O motivo é aritmético: 100 mL da solução a 8,4% carregam 100 mEq de sódio, e num oligúrico essa carga vira congestão. A leitura da gasometria que sustenta a decisão tem capítulo próprio nesta apostila.
A classificação de urgência dialítica serve a uma coisa específica: dar ao interno uma linguagem objetiva ao telefone. Dizer 'pH 7,15, potássio 6,8, diurese de 80 mL em 24 horas' faz o nefrologista sair do lugar; dizer 'a creatinina subiu' não faz. E as fatias de 55%, 40% e 5% calibram a suspeita, não fecham diagnóstico — na enfermaria as categorias se somam no mesmo paciente.
A conduta, hora a hora
A conduta da injúria renal aguda hospitalar começa com uma inversão de ordem. O reflexo treinado é investigar e depois tratar; aqui a primeira intervenção acontece antes de qualquer resultado voltar, e ela é retirar. Nenhuma das medidas dos primeiros cinco minutos depende de exame: suspender droga, checar bexiga e pedir eletrocardiograma se o potássio está alto são decisões que se tomam com a prancheta na mão.
A linha do tempo abaixo é a de dona Marlene, do começo do capítulo: 74 anos, 61 quilos, quarto dia de internação por erisipela, creatinina de 0,9 para 1,8 mg/dL, ureia 96 mg/dL, potássio 5,6 mmol/L, pressão 118 x 72 mmHg, mucosas secas, sem edema, e uma folha com anti-inflamatório, bloqueador do receptor de angiotensina e tiazídico ativos. Toda dose vem com a fonte que a sustenta.
Minuto 0 a 5 — o que se faz antes de pedir exame
Ler a folha inteira e separar em três pilhas. Palpar e percutir o hipogástrio. Olhar o potássio e, se estiver acima de 5,5 mmol/L, pedir eletrocardiograma agora. Em dona Marlene: hipogástrio sem globo, potássio 5,6 — eletrocardiograma pedido, sem alterações. Três linhas saem da folha na mesma canetada, e cada uma delas é uma das três alavancas do mecanismo.
Prescrição- SUSPENDER cetoprofeno 100 mg intravenoso de 12/12 h — anti-inflamatório não esteroide foi fator de risco independente para injúria renal aguda, com razão de chances de 2,15, em coorte prospectiva brasileira de terapia intensiva (Ponce e cols., Rev Bras Ter Intensiva 2011). Retira a dilatação da arteríola aferente.
- SUSPENDER losartana 50 mg ao dia, temporariamente, com registro na folha de que a suspensão é temporária e será reavaliada antes da alta — retira a contração da arteríola eferente num paciente hipovolêmico (Guia de assistência nefrológica hospitalar da SBN, Braz J Nephrol 2025).
- SUSPENDER hidroclorotiazida 25 mg ao dia, temporariamente — retira volume de quem já está seco, e destrói o índice urinário antes que ele seja colhido.
- MANTER cefalexina, com a dose revisada pela depuração estimada — o tratamento da erisipela não é negociável; o método de recalcular esta e as demais doses está no capítulo de ajuste de dose na disfunção renal e hepática desta apostila.
- Dipirona 1 g intravenoso a cada 6 horas se dor ou temperatura axilar ≥ 37,8 °C, no lugar do anti-inflamatório suspenso — analgesia não sai junto com a nefrotoxicidade.
- Eletrocardiograma de 12 derivações agora, por potássio de 5,6 mmol/L (protocolo PRT.UUE.001, HUAC-UFCG/Ebserh, 2022: o traçado é imprescindível na avaliação inicial de qualquer hipercalemia).
- Peso agora e peso diário no mesmo horário; diurese medida por turno com totalização de 24 horas, em mililitros — nesta paciente, 0,5 mL/kg/h são 30,5 mL/h, 183 mL em 6 horas e 732 mL em 24 horas.
Minuto 5 a 20 — hipercalemia grave: acionar o supervisor e iniciar o atendimento monitorado
Não é o caso de dona Marlene, e é o cenário que o interno precisa saber de cor, porque acontece com o mesmo paciente 48 horas depois. Potássio de 7,1 mmol/L, onda T apiculada e alargamento do QRS no traçado. A sequência é fixa: proteger a membrana, empurrar o potássio para dentro da célula, tirar potássio do corpo, e acionar a nefrologia enquanto isso corre — não depois.
Prescrição- Na hipercalemia com alteração eletrocardiográfica, administrar gluconato de cálcio 10% intravenoso sob monitorização contínua. O esquema UKKA 2023 utiliza 30 mL (3 g; aproximadamente 6,8 mmol de cálcio), em 10 minutos, com acesso seguro e conferência da apresentação; reavaliar imediatamente o ECG e repetir se a cardiotoxicidade persistir. Protocolos locais que usam 10 mL iniciais exigem reavaliação e doses adicionais: uma ampola não corresponde à dose total de 30 mL. Cálcio estabiliza o miocárdio, sem remover potássio. Na suspeita de intoxicação digitálica, envolver toxicologia e discutir o antídoto específico; evitar tratar a contraindicação histórica como regra absoluta sem avaliar a emergência.
- Insulina humana regular 10 UI intravenosa com glicose, conforme protocolo institucional. O esquema aqui adotado mantém glicose 50% 100 mL (50 g), em 20 minutos, com acesso e diluição conferidos; a UKKA utiliza 25 g iniciais e suplementação orientada pela glicemia. Medir as 10 UI em seringa própria para insulina e fazer dupla conferência. Glicemia antes e aos 30, 60, 90 e 120 minutos, depois de hora em hora até 6 horas; antecipar diante de sintomas e prolongar se houver recorrência, nova dose ou alto risco. Não esperar o próximo horário se surgir hipoglicemia.
- Salbutamol nebulizado 10 a 20 mg como adjuvante à insulina, sob monitorização de frequência e ritmo. Na solução 5 mg/mL, 10 mg correspondem a 2 mL, completados conforme o nebulizador e protocolo local. A dose é maior que a usada habitualmente no broncoespasmo. Não repetir três nebulizações automaticamente nem utilizá-lo como única medida; considerar taquiarritmia, isquemia e resposta clínica.
- Furosemida 10 mg/mL — 40 mg (4 mL) intravenoso, repetíveis a cada 4 horas, somente se houver diurese e o paciente não estiver hipovolêmico (protocolo PRT.UUE.001; o guia da SBN de 2025 indica furosemida no tratamento da hipervolemia e da hipercalemia).
- Definir como o potássio será removido: diálise quando indicada, diurético se houver função residual e indicação volêmica, ou quelante conforme disponibilidade e avaliação da equipe. Poliestirenossulfonato de cálcio não é medida de resgate nem prescrição obrigatória na hipercalemia aguda: o efeito é imprevisível e existem riscos gastrointestinais, sobretudo com íleo. A UKKA 2023 retirou seu uso rotineiro do algoritmo agudo. Nenhum quelante deve atrasar diálise.
- Bicarbonato de sódio 8,4% (1 mL = 1 mEq, apresentação da Rename 2024) — 1 a 2 mEq/kg, isto é, 61 a 122 mL nesta paciente, intravenoso em 1 hora, SOMENTE se pH < 7,2 com bicarbonato sérico < 15 mEq/L e sem hipervolemia (Guia da SBN, 2025). Em linha venosa separada da solução de cálcio.
- Acionar a nefrologia AGORA, com os números na mão: potássio, pH, bicarbonato, diurese das últimas 24 horas em mililitros, e o que já foi feito. Potássio acima de 6,5 mmol/L refratário às medidas clínicas, ou com alteração de condução, é indicação de diálise de urgência (protocolo PRT.USU.010, HULW-UFPB/Ebserh, 2021).
- Repetir potássio em cerca de 1 hora e acompanhar novamente em 2, 4 e 6 horas, ajustando à gravidade; conferir manutenção da resposta em 24 horas. Manter monitorização cardíaca até resolução da instabilidade elétrica e risco de recorrência. A queda inicial pode ser transitória, porque insulina e salbutamol apenas deslocam o potássio.
Hora 1 — decidir a categoria e agir: a prova de volume
Com a folha limpa e a bexiga descartada, resta decidir se falta volume. Dona Marlene tem mucosa e axila secas, tontura ao sentar, taquicardia leve, sem estertores, sem turgência jugular, sem edema, e perdeu 1,4 kg desde a admissão: é pré-renal até prova em contrário. A prova de volume é uma intervenção com alvo e horário, não um soro correndo sem fim — a expansão desnecessária é explicitamente desaconselhada pelo guia nacional, e num idoso ela vira edema pulmonar em poucas horas.
Prescrição- Nesta paciente com sinais de hipovolemia, iniciar prova cautelosa com cristaloide isotônico, por exemplo 250 mL intravenosos em 15 a 30 minutos, e examinar novamente ao término. O volume e a velocidade dependem da perfusão, perdas e tolerância cardiopulmonar; 500 mL podem ser apropriados em outro contexto, mas não são garantia de segurança pela idade. Cristaloide balanceado ou salina são escolhidos conforme eletrólitos e contexto. O volume infundido não pode ser simplesmente “revertido” se causar congestão.
- Após cada alíquota, conferir pressão, pulso, perfusão periférica, dispneia, ausculta, jugulares e diurese. Repetir somente se persistirem sinais de déficit e houver benefício sem congestão. Ausência de resposta exige rever a hipótese antes de mais volume; não há sequência automática de três bolsas. A manutenção só se justifica quando a ingestão não cobre as necessidades, descontando alimentação, diluições e outras entradas; escrever volume, duração e horário de reavaliação.
- NÃO prescrever furosemida para 'melhorar a creatinina'. A diretriz internacional sugere não usar diurético para tratar injúria renal aguda, exceto no manejo da sobrecarga de volume (KDIGO 2012, recomendação 3.4.2), e não há evidência de que ele reduza a incidência ou a gravidade do quadro (protocolo PRT.USU.010, HULW-UFPB/Ebserh, 2021).
- Coletar ANTES de qualquer diurético: sumário de urina com sedimento, sódio e creatinina urinários em amostra isolada. Solicitar ultrassonografia de rins e vias urinárias.
- Interpretar a pressão junto à perfusão, consciência, diurese e trajetória clínica. PAM de 65 mmHg é alvo inicial frequente no choque, com individualização; hipertensão prévia não torna 118 x 72 mmHg, isoladamente, indicação de expansão ou vasopressor. Em dona Marlene, a reposição é sustentada pelo conjunto de perdas e exame, não pela comparação com sua pressão habitual.
Hora 6 — a primeira reavaliação, que é a que decide a noite
É o marco que quase nunca acontece, e é o que separa conduta de intenção. Seis horas depois da prova de volume, três números dizem se a estratégia está certa: quanto ela urinou, quanto pesa e como está o potássio. Em dona Marlene, 210 mL nas últimas 6 horas — 0,57 mL/kg/h, acima do corte —, peso estável, mucosas mais úmidas, potássio 5,1 mmol/L.
Prescrição- Reavaliar necessidade de cada entrada de líquido em 6 a 12 horas; reduzir ou suspender a infusão quando a ingestão e a perfusão forem adequadas. Diurese melhor não autoriza manter soro indefinidamente.
- Repetir potássio e gasometria em 6 horas se o potássio inicial passava de 5,5 mmol/L ou se houve qualquer alteração no eletrocardiograma. NÃO repetir creatinina agora: o que se acompanha neste intervalo é a diurese, hora a hora.
- O teste de estresse com furosemida é aprofundamento para equipe experiente, após correção da hipovolemia e exclusão de obstrução, com monitorização. Doses estudadas: 1 mg/kg IV sem exposição recente, ou 1,5 mg/kg com exposição; diurese menor que 200 mL em 2 horas associa-se a maior risco de progressão. Não é teste obrigatório, não trata a lesão tubular e não determina diálise sozinho. Oligúria persistente ou complicações já justificam discutir nefrologia, sem aguardar o teste.
Dia 1 — a prescrição do dia seguinte, escrita por inteiro
Creatinina de 24 horas depois: 1,4 mg/dL, caindo. Diurese de 24 horas: 900 mL, ou 0,61 mL/kg/h. Potássio 4,6 mmol/L. A trajetória confirma pré-renal. A prescrição do dia tem três tarefas: manter o que funciona, recolocar o que precisa voltar, e proteger contra a próxima agressão — que, num internado, quase sempre já está agendada.
Prescrição- Cefalexina mantida enquanto indicada, com dose revista pela trajetória renal e pelo esquema da bula/protocolo. Cockcroft–Gault com creatinina de 1,4 mg/dL fornece aproximadamente 34 mL/min nesta paciente, mas a creatinina ainda está caindo: a estimativa não representa função em equilíbrio. Rever a dose diariamente para evitar tanto acúmulo quanto subtratamento da infecção.
- Dipirona 1 g intravenoso a cada 6 horas se dor; anti-inflamatório não esteroide permanece suspenso durante toda a internação e sai como orientação de alta.
- Losartana e hidroclorotiazida permanecem temporariamente suspensas enquanto houver hipovolemia ou instabilidade. Reavaliar indicação original, pressão inclusive ortostática, creatinina e potássio antes de retomá-las. Não exigir retorno exato ao basal por 48 horas como regra universal; estabelecer com o supervisor o momento, o responsável e a coleta após a reintrodução.
- Prescrever líquido intravenoso apenas para o déficit ou a necessidade que ainda não pode ser suprida por via oral, computando todas as entradas e perdas. Reavaliar peso e balanço e retirar assim que desnecessário; não manter automaticamente 1.000 mL a cada 12 horas em uma paciente que voltou a comer e beber.
- Dieta livre, com 20 a 30 kcal/kg/dia e 0,8 a 1,0 g/kg/dia de proteína, sem restrição proteica com o objetivo de adiar diálise, e glicemia mantida abaixo de 180 mg/dL (Guia da SBN, 2025).
- Se houver exame com contraste iodado programado: reavaliar primeiro a real necessidade. Sendo indispensável, profilaxia com cloreto de sódio 0,9% 1 mL/kg/h por 3 a 4 horas antes e 4 a 6 horas depois — nesta paciente, 61 mL/h, ou seja, 183 a 244 mL antes e 244 a 366 mL depois; alternativa descrita é bicarbonato de sódio 1,4% 3 mL/kg/h por 1 hora antes (Colégio Brasileiro de Radiologia, Diretrizes para o uso de meios de contraste intravenosos, 2024). Na presença de injúria renal aguda, suspender metformina independentemente da filtração estimada; após contraste, reavaliar a função renal em cerca de 48 horas e só retomar se estável e sem contraindicação. A permissão de manter com filtração ≥ 30 aplica-se ao paciente sem injúria aguda e depende da via e do procedimento. Hidratação profilática deve ser individualizada se houver risco de congestão; um exame urgente que muda o tratamento não deve ser atrasado para completar preparo.
- Potássio, sódio, ureia e creatinina diários enquanto o número estiver em movimento; a cada 48 horas depois de estabilizado.
Dia 2 a 3 — quando não melhora
Se a creatinina não cede em 48 horas com volemia restaurada e prescrição limpa, a hipótese pré-renal foi testada e falhou. O erro clássico deste marco é continuar dando volume: a hipovolemia já foi corrigida, e o que se acrescenta agora vira congestão.
Prescrição- Refazer o exame de volemia e o peso. Volemia restaurada com creatinina subindo desloca a categoria para renal: parar de expandir e reavaliar cada droga de novo, inclusive as que 'já estavam ajustadas'.
- Repetir a ultrassonografia se a primeira foi feita nas primeiras horas de anúria — a dilatação leva horas para aparecer.
- Rever o sedimento urinário. Cilindros hemáticos ou hemácias dismórficas, proteinúria alta, rash com eosinofilia, ou droga nova introduzida 5 a 10 dias antes mudam a hipótese para glomerular ou intersticial, e a decisão de biópsia é do nefrologista.
- Solicitar avaliação da nefrologia com os números organizados: estágio, basal, trajetória da creatinina, diurese em mL/kg/h, potássio, pH, bicarbonato, balanço acumulado e a lista do que já foi suspenso.
- Rastrear ativamente as indicações de diálise de urgência: edema pulmonar; potássio acima de 6,5 mmol/L ou com alteração de condução; acidose metabólica grave com hipervolemia; sinais de uremia como pericardite ou queda inexplicada do nível de consciência; e intoxicação por substância dialisável (protocolo PRT.USU.010, HULW-UFPB/Ebserh, 2021). O paciente que já dialisa e chega depois de perder a sessão é de Indicações de diálise e manejo da uremia, nesta apostila, que usa estas mesmas indicações.
Alta — o que precisa estar escrito, e por quê
Injúria renal aguda que se resolve não termina na alta: ela deixa um paciente com risco aumentado de doença renal crônica. O resumo de alta é o instrumento que quebra a estatística dos 70% que chegam à diálise pela porta da urgência, e ele custa cinco linhas.
Prescrição- Escrever no resumo, com todas as letras: houve injúria renal aguda estágio 2 durante a internação, com creatinina basal de 0,9 mg/dL, pico de 1,8 mg/dL e alta com 1,0 mg/dL.
- Listar o que foi suspenso, por quê, e quem reintroduz, quando e com qual controle: losartana reavaliada em consulta em 7 a 14 dias, com aferição de pressão em pé e deitado; hidroclorotiazida a critério do médico do posto.
- Contraindicar por escrito o anti-inflamatório não esteroide de venda livre, em linguagem de paciente, oferecendo a alternativa analgésica.
- Agendar controle precoce de creatinina e potássio, em geral em 1 a 2 semanas ou antes se persistirem disfunção, hipercalemia ou mudança de medicamentos. Reavaliar recuperação e albuminúria em torno de 3 meses. Necessidade de nefrologia depende da gravidade, recuperação, causa e complicações; não esperar três meses diante de deterioração ou recuperação incompleta importante.
- Entregar a lista de medicamentos revisada, com as doses da alta — não as da internação.
Como saber se está funcionando
A pergunta de 48 horas não é 'a creatinina baixou' — é 'a estratégia certa foi escolhida'. E os dois parâmetros que respondem primeiro são a diurese e o peso, não o exame que todo mundo espera.
Esperado: Subir acima de 0,5 mL/kg/h e ficar. Numa paciente de 61 kg, mais de 30,5 mL/h; num paciente de 80 kg, mais de 40 mL/h
Se não melhora: Rever obstrução, perfusão, congestão, sedimento e medicamentos. Oligúria persistente apesar da estratégia apropriada exige discussão com a equipe e nefrologia conforme gravidade. Teste de estresse com furosemida, quando selecionado, é prognóstico e supervisionado; não se deve esperar seu resultado para tratar complicações.
Esperado: Melhora da perfusão e dos sintomas sem dispneia, estertores, turgência jugular ou balanço progressivamente positivo. Não há meta universal de ganhar 1 a 2 kg; o peso é interpretado com o déficit estimado e o exame.
Se não melhora: Ganho contínuo de peso com diurese caindo, estertores novos, terceira bulha ou turgência jugular significam que o alvo foi ultrapassado: parar a expansão na hora, suspender soro de manutenção, revisar diluições de medicação e reavaliar indicação de diurético — agora sim para sobrecarga de volume, que é a única indicação reconhecida. Congestão iatrogênica é a complicação mais frequente do tratamento certo feito por tempo demais.
Esperado: Estabilizar em 24 a 48 horas e começar a cair. Uma queda de 20% em 48 horas já confirma a direção
Se não melhora: Creatinina que continua subindo com volemia restaurada e prescrição limpa significa que a categoria pré-renal foi testada e falhou. Parar de expandir, refazer ultrassonografia se a primeira foi precoce, revisar sedimento e acionar a nefrologia.
Esperado: Potássio abaixo de 5,5 mmol/L de forma sustentada; bicarbonato acima de 15 mEq/L; pH acima de 7,2
Se não melhora: Potássio que reaparece depois de tratado significa que a fonte continua: reveja soluções, dieta, hemoderivados e drogas retentoras. Potássio acima de 6,5 mmol/L refratário, ou pH abaixo de 7,2 com hipervolemia, são indicação de diálise de urgência — e o telefonema é com os números, não com a impressão.
Esperado: Nenhuma linha nova de nefrotóxico; todas as doses coerentes com a depuração de hoje; a data de reintrodução do que foi suspenso escrita
Se não melhora: Uma piora sem explicação nova quase sempre tem explicação na folha: uma dose que voltou ao valor cheio na virada de plantão, um anti-inflamatório reintroduzido para dor, um contraste agendado por outra equipe. Procure a causa iatrogênica antes de aceitar a piora como evolução da doença.
Esperado: Retorno ao basal, com monitoração periódica anual em quem recuperou por completo
Se não melhora: Investigar e encaminhar antes de três meses se houver recuperação incompleta importante, piora, etiologia incerta ou complicações. A persistência por mais de três meses ajuda a caracterizar doença renal crônica, mas não determina quando o cuidado especializado começa.
Onde o erro machuca
O dano: É o erro mais comum do plantão e o de sinal trocado. Cerca de 55% dos casos são pré-renais, isto é, pacientes secos. Dar diurético a quem está seco aprofunda a hipoperfusão, converte um quadro funcional reversível em horas numa lesão tubular que leva dias a semanas, e ainda destrói o índice urinário que faria o diagnóstico. O paciente urina mais no primeiro turno, o gráfico melhora, e a função piora.
Como pegar a tempo: Diurético em injúria renal aguda tem uma indicação, e é o manejo da sobrecarga de volume — não o tratamento do número. Antes de qualquer dose, responda em voz alta: este paciente está seco ou congesto? Se o exame não responder, o próximo passo é prova de volume com reavaliação marcada, não furosemida.
O dano: Perde-se meio dia esperando parecer enquanto o anti-inflamatório continua correndo de 12 em 12 horas. Cerca de um em cada três casos tem droga na origem, e antimicrobianos e antivirais respondem por 87% dos casos puramente nefrotóxicos em série brasileira. O parecer chega e recomenda exatamente o que estava ao alcance da caneta do interno na primeira hora.
Como pegar a tempo: A ordem é fixa: folha, bexiga, eletrocardiograma se o potássio estiver alto, e só então o telefone. E quando ligar, ligue com números — estágio, basal, trajetória, diurese em mL/kg/h, potássio, pH, balanço e a lista do que já foi suspenso.
O dano: Trezentos mililitros em 24 horas também é diurese presente. Num paciente de 80 kg, um litro em 24 horas soa confortável e é 0,52 mL/kg/h — na fronteira do critério diagnóstico. Sem número, o parâmetro que se move primeiro e que custa zero simplesmente não existe, e o diagnóstico só chega quando a creatinina alcança o atraso dela.
Como pegar a tempo: Prescreva diurese medida por turno com totalização de 24 horas e escreva na folha, para este paciente, quanto é 0,5 mL/kg/h em mililitros por hora. Peça peso diário. E pergunte à acompanhante quantas vezes ele urinou e quanto — ela costuma saber melhor que o prontuário.
O dano: É a menor fatia dos casos e a que mais dói perder, porque é a única que se resolve em dois minutos. Sonda dobrada, entupida ou deslocada produz anúria com bexiga cheia e leva o time a investigar sepse, nefrotoxicidade e glomerulopatia num paciente que precisa de uma lavagem. Obstrução mantida por dias deixa dano permanente num rim que era recuperável.
Como pegar a tempo: Palpe e percuta o hipogástrio em todo paciente com creatinina subindo. Se há sonda, siga o cateter com a mão do meato ao coletor e olhe o volume drenado por turno. Peça ultrassonografia de rins e vias urinárias em todo caso sem causa evidente — e repita se a primeira foi feita nas primeiras horas de anúria, porque a dilatação leva horas para aparecer.
O dano: A reação de pânico à creatinina alta corta o antibiótico que trata a infecção que está causando a injúria renal aguda, a profilaxia de trombose de um paciente acamado e a analgesia de quem está com dor. Troca-se um problema renal por sepse não tratada, trombose e sofrimento.
Como pegar a tempo: Revisar não é cortar. Separe em três pilhas: sai, muda, fica. Antimicrobiano de eliminação hepática ou biliar fica; o de eliminação renal muda de dose ou intervalo; nefrotóxico sem substituto sai. O método de recalcular cada dose está no capítulo de ajuste de dose desta apostila.
O dano: Hipercalemia é assintomática até deixar de ser, e o risco de morte independe dos sintomas: a primeira manifestação pode ser fibrilação ventricular. A justificativa 'ele está lúcido e conversando' descreve exatamente o paciente que morre na hora seguinte.
Como pegar a tempo: Potássio acima de 5,5 mmol/L manda fazer eletrocardiograma imediatamente. Alteração no traçado ou potássio a partir de 6,5 mmol/L manda dar cálcio agora e acionar a nefrologia enquanto o restante da sequência corre. E depois de estabilizar, procure a fonte: solução com potássio, hemoderivado, dieta, bloqueador do sistema renina-angiotensina, espironolactona, heparina, trimetoprima.
O dano: A suspensão que salvou o rim na segunda-feira vira, sem uma linha de resumo, a retirada definitiva de uma droga cardioprotetora e nefroprotetora de um hipertenso diabético — e o dano só aparece anos depois, sem que ninguém ligue uma coisa à outra. O espelho disso é reintroduzir cedo demais, no paciente ainda depletado, e recriar a injúria em casa.
Como pegar a tempo: Registrar no resumo de alta a injúria renal aguda, estágio, basal conhecido ou estimado e pico; listar medicamentos suspensos, motivo e plano de reintrodução com responsável e controle. Orientar evitar automedicação com anti-inflamatórios. Agendar creatinina e potássio precocemente, em geral em 1 a 2 semanas ou antes conforme o risco, e reavaliar recuperação e albuminúria em torno de 3 meses. Recuperação incompleta relevante, piora ou complicações justificam nefrologia sem esperar esse prazo.
O que dizer ao paciente e à família
Injúria renal aguda hospitalar tem uma característica que complica a conversa: com frequência ela foi causada pelo tratamento, e o paciente percebe. A saída não é esconder nem se acusar — é explicar o que aconteceu, o que já foi feito e o que se espera, em frases que a família consiga repetir para o resto da casa.
Explicar que a função renal caiu, sem assustar e sem minimizar
“O exame de hoje mostra que os rins da senhora estão trabalhando mais devagar do que na entrada. Isso acontece com frequência durante uma internação e, na maioria das vezes, melhora quando a gente corrige a causa. Não quer dizer que a senhora vai precisar de diálise. A gente já mudou o que precisava mudar hoje de manhã, e vamos acompanhar de perto com exame e com a medida da urina.”
Não diga: Dizer 'seus rins estão falhando' ou 'insuficiência renal', que a família ouve como diálise para sempre. E também evitar o oposto — 'é só uma alteraçãozinha' —, que impede o paciente de entender por que estamos medindo tudo.
Dizer que a causa foi um remédio prescrito pela equipe
“Uma parte do que aconteceu foi o remédio para dor que a senhora vinha recebendo. Ele funciona bem, e em muita gente não causa problema nenhum, mas em quem tem mais idade e passou um tempo comendo pouco ele pode reduzir a circulação dentro do rim. Nós suspendemos hoje e trocamos por outro analgésico. Vou escrever isso no papel da alta, porque esse tipo de remédio, que se compra sem receita, a senhora vai precisar evitar daqui para frente.”
Não diga: Usar voz passiva para sumir com o autor ('houve uma intercorrência medicamentosa') e, no extremo oposto, transformar a conversa numa confissão dramática. O paciente precisa do fato e da conduta, não da culpa de ninguém.
Explicar por que não vai dar 'remédio para urinar'
“Eu sei que parece que o caminho é dar um remédio para fazer urinar mais. Só que, no caso da senhora, a urina está pouca porque está faltando líquido dentro dos vasos, e não porque está sobrando. Se eu desse esse remédio agora, ia tirar ainda mais líquido e piorar o rim. O que vamos fazer é o contrário: repor soro e medir a urina de hora em hora para ver se responde.”
Não diga: Ceder à pressão da família por 'fazer alguma coisa mais forte'. E prometer que a urina vai voltar em determinado número de horas.
Falar sobre a possibilidade de diálise sem prometer nada
“Existe a possibilidade de o rim não responder ao que estamos fazendo. Se isso acontecer, pode ser necessário fazer diálise por um tempo, enquanto o rim se recupera. Não é o que a gente espera hoje, mas prefiro que a senhora saiba disso agora, comigo, e não de madrugada com alguém que não conhece o caso. Se chegarmos nesse ponto, quem conversa com vocês é o nefrologista, junto comigo.”
Não diga: Garantir que não vai precisar de diálise, e o contrário: falar em diálise como ameaça para conseguir adesão. Também evitar prometer que a diálise seria temporária — isso depende da recuperação, e ninguém sabe no primeiro dia.
Onde bons médicos discordam
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.
CKD-EPI, porque é a régua moderna de filtração
A equação CKD-EPI foi desenvolvida sobre creatinina rastreável a material de referência internacional, tem menos viés e é a recomendada para estimar filtração glomerular em adultos, inclusive na avaliação de risco antes de contraste iodado. É também a que dialoga com o estadiamento de doença renal crônica, que trabalha em mL/min/1,73 m².
Colégio Brasileiro de Radiologia e Diagnóstico por Imagem — Diretrizes para o uso de meios de contraste intravenosos, 2024, que recomenda CKD-EPI para adultos; Ministério da Saúde, estadiamento da doença renal crônica em mL/min/1,73 m², 2014
Cockcroft e Gault, porque é a régua em que as bulas foram calibradas
Os cortes de ajuste de dose que aparecem em bula e em monografia foram estabelecidos em estudos que mediram depuração de creatinina, não filtração indexada por superfície corporal. Aplicar um corte de bula sobre um número de outra equação é usar a régua errada no ponto em que ela decide — e a diferença não é cosmética: num homem de 79 anos e 54 quilos com creatinina de 1,2 mg/dL, Cockcroft e Gault devolve 38 mL/min e CKD-EPI devolve 62 mL/min/1,73 m².
Convenção das monografias e bulas profissionais brasileiras, que expressam os ajustes por faixa de depuração de creatinina; o método de conversão e de escolha do peso está no capítulo de ajuste de dose desta apostila
Use as duas, para perguntas diferentes, e declare qual usou. Para decidir dose de droga, use a régua que a bula usou — depuração de creatinina por Cockcroft e Gault, com o peso adequado. Para estadiar o rim, comparar com valores antigos e conversar com o nefrologista, use CKD-EPI. E no paciente com creatinina em movimento nenhuma das duas vale: trate a função como pior do que o número devolve.
Antecipar, olhando demanda contra reserva renal
A indicação de suporte renal artificial não se resume às urgências clássicas. Ela também nasce da demanda que o paciente vai gerar — nutrição, volume de drogas, hemoderivados — comparada à reserva renal que sobrou, avaliada pela trajetória das escórias, pela sobrecarga de volume e pelo acometimento de outros órgãos. A decisão sobre diálise não deve ser retardada, especialmente quando não há resposta a diurético; e mesmo com alguma resposta, a diálise deve ser considerada se a função renal continua piorando.
Guia de assistência nefrológica hospitalar da Sociedade Brasileira de Nefrologia, Brazilian Journal of Nephrology, 2025;47(3)
Esperar critérios objetivos de urgência
Uma estratificação objetiva por pH, potássio, volume, ureia e sintomas urêmicos indica a terapia quando há um único item muito urgente ou três itens pouco urgentes, e deixa explícito quando não indicar: instabilidade hemodinâmica em que a diálise pode acelerar a deterioração, dano neurológico irreversível, cuidados paliativos exclusivos, doença de base sem chance significativa de recuperação. O protocolo foi escolhido por evidenciar menor mortalidade intra-hospitalar.
Hospital Universitário Lauro Wanderley, UFPB (Ebserh) — Protocolo PRT.USU.010, Abordagem do paciente com lesão renal aguda em urgência dialítica, 2021
A divergência é sobre o paciente do meio — o que ainda não tem indicação de urgência e cuja trajetória é ruim. Inclinam para antecipar: demanda de volume que não cabe (nutrição parenteral, muitos antibióticos, hemoderivados), disfunção de outros órgãos, e ausência de resposta ao teste de estresse com furosemida. Inclinam para esperar: instabilidade hemodinâmica que a sessão pioraria, causa reversível já removida com trajetória se achatando, e um projeto de cuidado que não inclui suporte invasivo. Para o interno, o ponto prático não tem divergência: quem decide é o nefrologista, e a sua obrigação é entregar os números a tempo de a decisão ser tomada com margem.
Entra junto com insulina e beta-2, como medida de redistribuição
Protocolos assistenciais listam o bicarbonato de sódio entre as medidas de transferência do potássio para o meio intracelular, ao lado da solução polarizante e do beta-2 agonista, com esquema de 100 mL da solução a 8,4% por via intravenosa em 1 hora. A lógica é que a alcalinização favorece a entrada de potássio na célula, e o paciente com injúria renal aguda quase sempre tem algum grau de acidose associada.
Hospital Universitário Alcides Carneiro, UFCG (Ebserh) — Protocolo PRT.UUE.001, Manejo clínico de pacientes com hipercalemia, 2022
Só quando há acidemia documentada
A recomendação nacional condiciona o bicarbonato a pH sanguíneo abaixo de 7,2, particularmente com bicarbonato sérico abaixo de 15 mEq/L, e sem evidência de hipervolemia. O documento acrescenta duas cautelas: procurar outras causas de acidose metabólica que não a renal, e lembrar que a correção derruba o cálcio ionizado, exigindo linha venosa separada porque as soluções de cálcio e bicarbonato são incompatíveis.
Guia de assistência nefrológica hospitalar da Sociedade Brasileira de Nefrologia, Brazilian Journal of Nephrology, 2025;47(3)
A conta decide melhor que a preferência: 100 mL da solução a 8,4% carregam 100 mEq de sódio, e num paciente oligúrico esse sódio não sai. Havendo acidemia com pH abaixo de 7,2 e bicarbonato abaixo de 15 mEq/L, o benefício justifica a carga. Com o pH preservado, o mesmo volume compra pouca queda de potássio e cobra congestão — e o esforço deve ir para insulina com glicose, beta-2 em dose plena e as medidas que efetivamente removem potássio do corpo.
O raciocínio, em voz alta
Homem de 78 anos, 72 quilos, hipertenso e diabético, no segundo dia de pós-operatório de artroplastia de quadril. A enfermagem chama porque ele está agitado desde a madrugada. Creatinina da admissão 1,0 mg/dL; a de hoje é 2,6 mg/dL. Ureia 118 mg/dL, potássio 5,9 mmol/L. Diurese registrada nas últimas 24 horas: 120 mL. Pressão 138 x 84 mmHg, frequência cardíaca 96 bpm, temperatura 36,8 °C. Na prescrição: cefazolina, morfina em regime fixo, cetorolaco 30 mg intravenoso de 8 em 8 horas, enalapril 10 mg de 12 em 12 horas reintroduzido ontem, e escopolamina se cólica.
O que penso agora
Creatinina de 1,0 para 2,6 é 2,6 vezes o basal: injúria renal aguda estágio 2 pela creatinina. Mas o número que me interessa mais é a diurese: 120 mL em 24 horas, num homem de 72 quilos, são 0,07 mL/kg/h — estágio 3 pelo débito urinário, e praticamente anúria. Anúria quase completa não é o padrão da lesão tubular, que costuma ser gradual. Isso desloca a obstrução para o topo da lista, e ela é a categoria com o gesto mais rápido.
O gesto de dois minutos, antes de qualquer exame
Palpo o hipogástrio: massa lisa, dolorosa, que sobe três dedos acima da sínfise. Percuto: macicez. Ele não tem sonda. Passo sonda vesical de alívio e drenam 850 mL de imediato. A agitação da madrugada, que a equipe registrou como delirium pós-operatório, era desconforto de bexiga cheia num homem que não conseguia verbalizar bem.
Por que ele reteve — e por que ninguém viu
Três causas somadas, todas na folha. Ele tem hiperplasia prostática, que ninguém perguntou. Recebeu morfina em regime fixo, e opioide reduz o tônus detrusor. Recebeu escopolamina, anticolinérgico, que fecha a conta. Sem diurese medida em mililitros, a retenção passou 24 horas sem nome.
O que faço com a folha, agora que a bexiga está vazia
Cetorolaco sai imediatamente: anti-inflamatório não esteroide sobre um rim obstruído e sob enalapril é a combinação que transforma obstrução reversível em lesão tubular. Enalapril sai temporariamente, com registro do prazo. Morfina e escopolamina são reavaliadas — a morfina troca por analgesia com menos efeito sobre o detrusor, e a escopolamina sai. Cefazolina fica, com a dose recalculada pela depuração de hoje, porque a profilaxia cirúrgica não é o problema. Potássio de 5,9 mmol/L manda pedir eletrocardiograma agora, antes de qualquer outro exame.
O que peço, e o que cada exame responde
Ultrassonografia de rins e vias urinárias: confirma a dilatação e dá tamanho e ecogenicidade, que dizem se havia doença renal crônica por trás. Sumário de urina com sedimento: limpo sustenta obstrução pura; com cilindros granulosos, já houve dano tubular somado. Potássio, gasometria, sódio e ureia. E diurese horária medida a partir de agora, porque o que vem a seguir depende dela.
Como a resposta muda o que penso
Nas 6 horas seguintes ele urina 1.400 mL: 3,2 mL/kg/h. Isso é diurese pós-desobstrutiva, e ela confirma o diagnóstico e cria um problema novo — o rim represado perde temporariamente a capacidade de concentrar e reabsorver sódio, e o paciente pode desidratar e perder potássio, sódio e magnésio em poucas horas. A conduta muda de sinal: reponho parte do volume perdido, com eletrólitos a cada 6 a 12 horas e peso duas vezes ao dia. Repor cegamente mililitro por mililitro perpetua a poliúria; não repor nada devolve o paciente à hipovolemia que acabei de tratar.
Como sei que deu certo, e o que fica escrito
Creatinina de 2,6 para 1,7 mg/dL em 24 horas e 1,2 mg/dL em 48 horas; potássio 4,4 mmol/L; diurese estabilizando em torno de 1,5 mL/kg/h no terceiro dia. Fica escrito no resumo: injúria renal aguda estágio 3 por retenção urinária, com fatores medicamentosos somados; anti-inflamatório contraindicado; enalapril a ser reintroduzido em consulta com controle de creatinina; avaliação urológica ambulatorial; controle de creatinina e potássio em 1 a 2 semanas ou antes segundo a evolução e a reintrodução de medicamentos, com avaliação de recuperação e albuminúria em torno de 3 meses. O que salvou este rim não foi um exame — foi uma sonda, passada na primeira hora.
Faça você
Mulher de 69 anos, 58 quilos, internada há três dias por pneumonia adquirida na comunidade, em uso de ceftriaxona e azitromicina. Fez tomografia de tórax com contraste iodado anteontem, depois de uma manhã inteira em jejum. Tem hipertensão e usa enalapril e clortalidona em casa, ambos mantidos na internação; recebeu também ibuprofeno prescrito para dor pleurítica. Creatinina da admissão 0,8 mg/dL; hoje 2,1 mg/dL. Potássio 6,3 mmol/L. Diurese de 24 horas: 400 mL. Eletrocardiograma de agora: onda T apiculada em derivações precordiais, PR normal, QRS estreito. Pressão 104 x 62 mmHg, mucosas secas, sem estertores, sem edema.
achado
Creatinina 2,6 vezes o basal (estágio 2) com diurese de 400 mL em 24 horas, o que em 58 quilos são 0,29 mL/kg/h — abaixo de 0,3 mL/kg/h, portanto estágio 3 pelo débito urinário; vale o estágio mais alto. Potássio de 6,3 mmol/L com alteração no eletrocardiograma. Exame compatível com hipovolemia, sem congestão.
raciocínio
Quatro agressões somadas e todas na prescrição: jejum sem reposição, contraste iodado sobre um rim já hipoperfundido, bloqueador da enzima conversora e diurético mantidos, e anti-inflamatório para dor. O padrão é pré-renal com componente de nefrotoxicidade por contraste. A hipercalemia com alteração de eletrocardiograma é a prioridade absoluta e precede qualquer raciocínio sobre categoria.
conduta
— sua vez —
Ver como fecharíamos
Acionar o supervisor, monitorizar e tratar primeiro a hipercalemia com alteração no ECG: cálcio IV com apresentação, dose e resposta conferidas; insulina regular com glicose e salbutamol como adjuvante. Acompanhar glicemia desde antes da insulina e em intervalos curtos nas primeiras horas, e potássio em cerca de 1 hora, depois segundo resposta e risco de rebote. Discutir desde já remoção efetiva e indicação de diálise; resina clássica não é medida de resgate. Bicarbonato depende de acidemia e contexto, e diurético não é indicado para esta paciente hipovolêmica. Suspender ibuprofeno, enalapril e clortalidona temporariamente, revisar potássio administrado e manter o tratamento necessário da pneumonia com doses apropriadas. Fazer prova cautelosa de cristaloide em alíquotas, por exemplo 250 mL em 15 a 30 minutos, reexaminando perfusão, pulmões e jugulares a cada etapa; não programar três bolsas automáticas. Investigar retenção e obstrução e obter sedimento urinário sem atrasar a emergência. Índices urinários apoiam a interpretação, não confirmam isoladamente a etiologia. Documentar as intervenções e a resposta para a nefrologia.
A primeira conduta na injúria renal aguda hospitalar é desfazer o que foi feito, e ela não depende de nenhum exame. As três linhas suspensas retiram, somadas, o volume circulante (tiazídico), a dilatação da arteríola aferente (anti-inflamatório não esteroide) e a contração da eferente (bloqueador do receptor de angiotensina) — exatamente as três alavancas que sustentam a pressão de filtração. Palpar o hipogástrio custa dois minutos e é o gesto que resolve a única categoria reversível de imediato. Potássio acima de 5,5 mmol/L manda fazer eletrocardiograma antes de qualquer outro exame. E diurese anotada como "presente" não é medida: nesta paciente, 0,5 mL/kg/h são 30,5 mL/h, ou 732 mL em 24 horas. Furosemida em paciente com mucosas secas e tontura postural é o erro de sinal trocado mais comum do plantão; repetir creatinina em 6 horas produz ruído, porque o marcador leva 24 a 48 horas para achar o novo patamar; e contraste iodado é uma das causas do problema, não o exame que o investiga.
Teste-se
Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.
Plano de revisão
Em 7 dias
Reconstrua a abordagem de uma pessoa com oligúria: confirme o basal, procure obstrução, diferencie falta de volume de congestão e indique quais achados exigem ação imediata. Explique o que cada medida pretende corrigir.
Em 30 dias
Compare dois pacientes com a mesma creatinina: um desidratado e outro congesto. Proponha condutas iniciais diferentes, parâmetros de reavaliação e critérios para chamar Nefrologia. Termine com o plano de seguimento após a alta.
Agora atenda
Sexta-feira de manhã, enfermaria de clínica médica. Senhora de 74 anos internada há quatro dias por erisipela, melhorando da perna, com creatinina que saiu de 0,9 para 1,8 mg/dL e potássio de 5,6 mmol/L. A folha tem anti-inflamatório, losartana e tiazídico ativos, e a diurese está anotada como presente. Você é o interno da visita: revise a prescrição linha por linha, decida a categoria à beira do leito, prescreva o que precisa ser prescrito e explique à filha por que dois remédios de casa foram suspensos — e por que a senhora não vai receber remédio para urinar.
