Pediatria › Neonatologia
Duas idades no mesmo berço
Prematuridade: complicações e classificação por idade gestacional e peso, apneia e retinopatia da prematuridade
Nascer antes do tempo não é um diagnóstico, é uma data. Dela saem a classificação que decide onde o bebê fica, as complicações que se procuram por calendário — respiração, cérebro, retina, pulmão, sangue e osso — e uma alta que só termina anos depois, contada na idade corrigida.
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Ações Programáticas Estratégicas. Atenção à saúde do recém-nascido: guia para os profissionais de saúde. 2. ed. atual. Brasília: Ministério da Saúde, 2014. v. 4: Cuidados com o recém-nascido pré-termo. ISBN 978-85-334-1984-1. Licença Creative Commons BY-NC-SA 4.0.
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Ações Programáticas Estratégicas. Atenção à saúde do recém-nascido: guia para os profissionais de saúde. 2. ed. atual. Brasília: Ministério da Saúde, 2014. v. 3: Problemas respiratórios, cardiocirculatórios, metabólicos, neurológicos, ortopédicos e dermatológicos. ISBN da obra completa 978-85-334-1982-7. Licença Creative Commons BY-NC-SA 4.0.
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Ações Programáticas Estratégicas. Atenção humanizada ao recém-nascido: Método Canguru: manual técnico. 3. ed. Brasília: Ministério da Saúde, 2017. ISBN 978-85-334-2525-5. Licença Creative Commons BY-NC-SA 4.0.
Sociedade Brasileira de Pediatria. Departamento Científico de Neonatologia. Manual de seguimento do recém-nascido de alto risco. 2. ed. São Paulo: SBP, 2024. 142 f. ISBN 978-85-88520-56-1.
Zin A, Florêncio T, Fortes Filho JB, Nakanami CR, Gianini N, Graziano RM, Moraes N. Proposta de diretrizes brasileiras do exame e tratamento de retinopatia da prematuridade (ROP). Sociedade Brasileira de Pediatria, Sociedade Brasileira de Oftalmologia Pediátrica e Conselho Brasileiro de Oftalmologia, em nome do Grupo de Trabalho ROP-Brasil. Arq Bras Oftalmol. 2007;70(5):875-83.
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Especializada e Temática. Guia para uso de hemocomponentes. 2. ed., 1. reimpr. Brasília: Ministério da Saúde, 2015. ISBN 978-85-334-2161-5.
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente. Manual dos Centros de Referência para Imunobiológicos Especiais. 6. ed. Brasília: Ministério da Saúde, 2023. ISBN 978-65-5993-501-7.
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção Primária à Saúde. Caderneta da Criança: Passaporte da Cidadania. 7. ed. Brasília: Ministério da Saúde, 2024. Versão eletrônica. Licença Creative Commons BY-NC-SA 4.0.
Brasil. Ministério da Saúde. Portaria de Consolidação GM/MS nº 3, de 28 de setembro de 2017. Anexo II, capítulo do Ambulatório de Seguimento do Recém-Nascido e da Criança Egressos de Unidade Neonatal (A-SEG), arts. 89 a 89-E, na redação da Portaria GM/MS nº 5.350, de 12 de setembro de 2024.
Brasil. Ministério da Saúde. Gabinete do Ministro. Portaria nº 2.068, de 21 de outubro de 2016. Institui diretrizes para a organização da atenção integral e humanizada à mulher e ao recém-nascido no Alojamento Conjunto.
Brasil. Ministério da Saúde. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais: Rename 2024. Brasília: Ministério da Saúde, 2024.
Peyona (citrato de cafeína) 20 mg/mL, solução para infusão intravenosa ou oral. Bula para o profissional de saúde. Chiesi Farmacêutica Ltda. Registro Anvisa 1.0058.0115.
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção Primária à Saúde. Manual de gestação de alto risco. Brasília: Ministério da Saúde, 2022. 692 p. ISBN 978-65-5993-312-9. Capítulo 6 — Prematuridade.
Eichenwald EC; American Academy of Pediatrics, Committee on Fetus and Newborn. Apnea of prematurity. Pediatrics. 2016;137(1):e20153757.
Responda antes de ler
Prematuro nascido com 29 semanas, hoje com 1.200 g, com apneia da prematuridade diagnosticada após exclusão de outras causas e dose de ataque já administrada. A unidade dispõe de citrato de cafeína em ampola de 20 mg/mL, que corresponde a 10 mg/mL de cafeína base. Qual prescrição de manutenção está correta?
O paciente que você vai ver
Seis e cinquenta de uma terça-feira. A unidade neonatal do hospital regional ocupa metade do terceiro andar: oito leitos de terapia intensiva, oito de cuidado intermediário e, no fim do corredor, quatro quartos do Método Canguru onde as mães dormem ao lado dos filhos. O alojamento conjunto fica um andar abaixo. Você está na segunda semana do estágio de neonatologia e chegou antes do preceptor para ouvir a passagem de plantão da enfermagem, porque aprendeu na primeira semana que é ali que aparece o que a evolução médica não contou.
O enfermeiro Cassiano começa pelo leito 4 da terapia intensiva. Filho de Alzira Cunha, nascido de parto vaginal com 27 semanas e 4 dias, 980 g, hoje com 23 dias de vida e 1.120 g. Saiu do CPAP nasal há dois dias, está em ar ambiente dentro da incubadora, recebe leite materno ordenhado por sonda a cada três horas, com aditivo desde sexta-feira, e citrato de cafeína desde o segundo dia. “Madrugada ruim”, diz Cassiano. “Três pausas. Duas passaram com estímulo no pé. A das quatro horas baixou a frequência para 70, saturou 76% e precisou de ventilação com balão e máscara por uns vinte segundos. Voltou rosado. Está mais pálido que ontem, e deixou resíduo na última dieta.”
Você anota e pergunta o que falta na pasta. O ultrassom de crânio do terceiro dia foi normal; o do sétimo mostrou uma pequena hemorragia restrita à matriz germinativa à esquerda, e ninguém repetiu desde então. A última hemoglobina, de uma semana atrás, era 10,2 g/dL. No campo do exame de retina está escrito “aguardar oftalmologista”, que vem ao hospital às quintas-feiras, e não há data marcada. A mãe tirou leite às duas da manhã e está dormindo no quarto do Canguru, à espera de uma vaga que depende de o filho pesar 1.250 g.
O segundo caso da passagem não é da unidade. A enfermeira do alojamento conjunto liga pedindo que a pediatria “libere a alta” da filha de Suzana Guerra, que nasceu de cesariana com 35 semanas e 2 dias, 2.240 g, e tem hoje 30 horas de vida. A mãe teve alta obstétrica, o marido já foi buscar o carro e a avó repete no corredor que a menina “é só pequenininha”. Na folha de sinais da noite há uma temperatura de 36,3 °C às três horas, corrigida com mais uma manta, e a anotação de que a bebê “mamou a cada quatro ou cinco horas, muito sonolenta”. Perdeu 4% do peso de nascimento. Ninguém colheu glicemia depois das primeiras seis horas.
O preceptor, doutor Norberto Martins, chega às sete e dez e não deixa você começar pelo exame físico. Pede, para cada bebê, três números escritos na evolução antes de qualquer conduta: a idade gestacional ao nascer, a idade cronológica e a idade que conta para o problema de hoje. “Neste andar ninguém tem uma idade só”, diz ele. “E cada complicação da prematuridade tem um relógio próprio. Se você errar a idade, erra a data do exame, e a data aqui não se recupera.”
No leito 4 você faz a conta devagar. Vinte e sete semanas e quatro dias mais três semanas e dois dias dão 30 semanas e 6 dias de idade pós-menstrual. É um bebê que, se estivesse dentro do útero, ainda teria nove semanas pela frente, e que hoje tem três pausas numa noite depois de semanas estável. Ele pode estar apenas imaturo, e a cafeína talvez precise de ajuste pelo peso novo. Mas pode estar anêmico, ou começando uma infecção tardia, ou fazendo uma enterocolite — e o resíduo e a palidez não deixam você chamar isso de apneia da prematuridade sem antes procurar o resto.
Na filha de Suzana a conta é mais curta e engana mais. Trinta e cinco semanas parecem quase termo, a menina não está em incubadora e ninguém a chamaria de prematura extrema. Mas ela é uma prematura tardia de baixo peso, no segundo dia de vida, com hipotermia leve registrada, mamadas espaçadas por sonolência e sem glicemia recente. É exatamente o perfil que volta ao hospital na primeira semana com icterícia, perda de peso ou hipoglicemia — e a alta que a família quer para agora é a decisão que você precisa conseguir justificar.
O preceptor fecha a conversa com uma lista que você vai carregar o estágio inteiro: o que o menino do leito 4 precisa ter antes do fim da manhã, qual é o primeiro dia e o último dia aceitáveis para o olho dele, o que falta para ele ir para o Canguru e, depois, para casa; e o que a menina do alojamento precisa demonstrar antes de sair, com retorno marcado para quando. Este capítulo é essa lista. Ele começa quando a sala de parto termina e só acaba anos depois, num ambulatório onde a idade que importa não é a da certidão.
Quem adoece disso
O manual federal de gestação de alto risco, de 2022, situa a frequência do parto pré-termo no Brasil em torno de 11% dos nascimentos e registra que, entre as causas de morte neonatal no país, nenhuma pesa tanto quanto as complicações de nascer antes do tempo. O guia federal de atenção ao recém-nascido, no volume do pré-termo, acrescenta o número que o interno sente no plantão: nos hospitais de referência para gestação de alto risco, os prematuros chegam a 20% dos nascidos vivos. Numa maternidade dessas, um em cada cinco berços tem um bebê com mais de uma idade.
O retrato que vem à cabeça é o do bebê de 900 g na incubadora, mas a maior parte dos prematuros não é assim. O manual de seguimento da Sociedade Brasileira de Pediatria, de 2024, estima que os prematuros tardios — nascidos entre 34 semanas e 36 semanas e 6 dias — são cerca de 70% de todos os pré-termo, e que é a faixa que mais cresceu nas últimas décadas. Eles não estão na terapia intensiva: estão no alojamento conjunto, ao lado da mãe, com a mesma rotina do bebê de termo. É por isso que o problema deles passa despercebido.
Os números do pré-termo tardio, no mesmo manual, desfazem a ideia de “quase termo”. Comparado ao recém-nascido de termo, ele tem quatro vezes mais chance de apresentar ao menos uma complicação ainda no alojamento conjunto e 3,5 vezes mais chance de apresentar duas ou mais. O risco de reinternação é três vezes maior, e as causas mais frequentes são icterícia, dificuldade alimentar e perda de peso excessiva. O risco de a bilirrubina total passar de 20 mg/dL é oito vezes o do nascido com 41 semanas. Diante do vírus sincicial respiratório, ele tem o dobro do risco de internação e o triplo do risco de precisar de suporte respiratório.
Na outra ponta, as complicações deixam de ser eventualidade e passam a ser regra. O manual técnico do Método Canguru, de 2017, registra que a apneia pode ocorrer em até 80% dos prematuros com menos de 1.000 g e em praticamente todos os nascidos com menos de 28 semanas; quanto menor a idade gestacional, mais tempo os episódios levam para desaparecer. Uma pausa respiratória na madrugada de um bebê de 27 semanas não é surpresa. A surpresa, quando existe, é o que causou a pausa.
A hemorragia peri-intraventricular tem dado brasileiro. O guia federal de 2014 cita a Rede Brasileira de Pesquisas Neonatais, que acompanhou 1.659 prematuros com menos de 1.500 g nascidos entre 2006 e 2008: 34% tiveram hemorragia, sendo 5,7% de grau III e 5,8% de grau IV — as duas formas graves somam 11,5%, um em cada nove bebês desse peso. Mais de 90% dos casos acontecem na primeira semana de vida, e boa parte sem sinal clínico, o que explica por que o diagnóstico depende de um calendário de ultrassom e não de suspeita.
A displasia broncopulmonar afeta até 45% dos nascidos com menos de 29 semanas, segundo o manual da sociedade. O número exige cuidado de leitura: o manual do Canguru reproduz um estudo em que a mesma coorte de prematuros teve incidência de 5,9% a 57,2% conforme a definição usada — oxigênio contínuo nos primeiros 28 dias, oxigênio no 28º dia, oxigênio com 36 semanas corrigidas. Quem compara taxas de serviços diferentes precisa saber, antes, qual régua cada um usou. Este capítulo usa a do consenso de 2001, a mesma do manual federal.
A retinopatia da prematuridade é a complicação em que a epidemiologia decide a norma. A diretriz brasileira de 2007 estimava que, das 100 mil crianças cegas da América Latina, 24 mil o eram por retinopatia. O guia federal explica o paradoxo que isso cria: nos países de alto índice de desenvolvimento humano, a retinopatia grave se concentra nos nascidos com menos de 30 semanas e menos de 900 g; em países de índice médio, bebês mais maduros e mais pesados também a desenvolvem. Por isso o critério brasileiro de exame é mais largo que o americano e o britânico descritos na mesma diretriz — e por isso importar a régua de fora deixaria de examinar justamente os bebês que aqui cegam. E a retina não é o único risco do olho: com ou sem retinopatia, cerca de 46% dos prematuros apresentam alguma alteração oftalmológica até os cinco anos, como estrabismo, ambliopia ou erro de refração.
Falta ao Brasil o número que mais interessaria depois da alta. O manual de seguimento de 2024 reconhece que os dados nacionais sobre crescimento, desenvolvimento e aprendizagem dos sobreviventes são escassos, e que no setor público não há como manter um seguimento exclusivo em paralelo à puericultura. A norma federal da rede de atenção materno-infantil, na redação de 2024, prevê um ambulatório de seguimento do egresso de unidade neonatal para cada 5 mil nascidos vivos, com foco nos dois primeiros anos de vida. O que se sabe com segurança é o denominador: todo prematuro que sai de uma unidade neonatal leva consigo uma agenda de anos, e é na atenção primária que ela costuma se perder.
Por que acontece o que acontece
Nascer antes do tempo não interrompe o amadurecimento dos órgãos: interrompe o ambiente para o qual esse amadurecimento foi desenhado. O cérebro, a retina, o pulmão e o osso continuam seguindo um calendário fetal, só que agora fora do útero, respirando ar, recebendo oxigênio suplementar, luz, dieta e manipulação. Cada complicação deste capítulo é um programa de construção surpreendido numa semana específica — e é por isso que o prematuro tem várias idades ao mesmo tempo. A idade gestacional ao nascer diz em que ponto o programa parou. A idade cronológica conta os dias desde o parto, e é a que governa as vacinas e o primeiro exame de retina. A idade pós-menstrual soma as duas e diz em que semana fetal cada órgão está hoje: é a régua da apneia, da retina e do pulmão dentro da unidade. E a idade corrigida desconta da idade cronológica o que faltou para 40 semanas; é a que se usa depois do termo para julgar crescimento e desenvolvimento, e a Caderneta da Criança ensina a conta à família.

Por que o prematuro deixa de respirar sem aviso
O controle da respiração do pré-termo é imaturo nos dois sentidos em que precisaria ser maduro. Diante do gás carbônico que sobe, ele não aumenta a frequência nem o volume corrente, e o volume minuto chega a cair; diante da hipóxia, faz um esforço inicial e logo depois para. O manual do Método Canguru acrescenta que a maioria das apneias do prematuro é mista — pausa central seguida ou precedida de obstrução —, e que elas se concentram no sono ativo, quando o tônus da hipofaringe cai e a via aérea colaba. O resultado é um bebê que, sem doença nenhuma, pode parar de respirar por vinte segundos e baixar a frequência cardíaca.
O mesmo sistema frágil desliga com qualquer agressão ao organismo inteiro: infecção, anemia, hipotermia, hipoglicemia, hemorragia intracraniana, enterocolite, magnésio recebido da mãe. Por isso a apneia é um sintoma antes de ser um diagnóstico, e só se chama de apneia da prematuridade o que sobra depois de procurar o resto. A cafeína age bloqueando os receptores de adenosina no cérebro, e o manual do Canguru registra que a predisposição à apneia parece ligada justamente a variantes desses receptores. Ela tem uma propriedade que decide a alta: no recém-nascido, a meia-vida vai de 50 a 100 horas, de modo que o efeito ainda está presente dias depois da última dose — e uma alta marcada para o dia seguinte à suspensão testa o bebê com a cafeína ainda no sangue.
O cérebro, a retina e o pulmão: três obras interrompidas
A hemorragia peri-intraventricular nasce na matriz germinativa, uma região junto aos ventrículos laterais onde se formam neurônios e glia, irrigada por um leito capilar rico e frágil que involui à medida que a gestação se aproxima do termo. O pré-termo não consegue manter o fluxo cerebral constante quando a pressão arterial oscila: o gás carbônico que sobe dilata os vasos e aumenta o fluxo, o pneumotórax e a expansão volumétrica rápida produzem ondas de pressão, a congestão venosa ingurgita os vasos da matriz. O guia federal lista exatamente esses gatilhos — hipercapnia, ventilação mecânica, aspiração traqueal, pneumotórax, expansores, variação ampla da pressão — e é por isso que o cuidado dos primeiros dias, mais do que qualquer remédio, é a prevenção.
A retina é vascularizada de dentro para fora. Os vasos começam a crescer a partir do nervo óptico no quarto mês de gestação, alcançam a periferia nasal no oitavo mês e a temporal só no termo; o prematuro nasce, portanto, com a periferia da retina sem vasos. No útero, a hipóxia fisiológica mantém o fator de crescimento do endotélio vascular trabalhando; fora dele, o ambiente relativamente rico em oxigênio derruba esse fator e o crescimento dos vasos para, agravado pela perda do fator de crescimento semelhante à insulina que vinha da placenta. Semanas depois, a retina periférica que cresceu sem vasos fica hipóxica, o fator se acumula e os vasos voltam a crescer — desta vez de forma desordenada, para dentro do vítreo, podendo tracionar e descolar a retina. Essa segunda fase segue a idade pós-menstrual: no guia federal, as medianas de aparecimento vão de 34 semanas no estágio 1 a 37 semanas na doença limiar, e a forma grave raramente aparece antes de 32 semanas, com pico de aparecimento da doença em torno de 38.
O pulmão do pré-termo nasce entre a fase canalicular, que vai até 26 a 28 semanas, e a sacular, que se estende até 32 a 36 semanas: ainda está construindo os espaços aéreos que virarão alvéolos. Ventilação com pressão e oxigênio suplementar, somados a inflamação e infecção, interrompem essa construção. A displasia broncopulmonar é o pulmão que ficou com menos alvéolos e maiores, com vias aéreas mais estreitas — e que por isso depende de oxigênio por semanas, descompensa com qualquer vírus e, anos depois, ainda mostra obstrução ao fluxo aéreo.
Osso, sangue, calor e açúcar: o que o terceiro trimestre deixaria pronto
No terceiro trimestre o esqueleto fetal cresce depressa e incorpora cálcio e fósforo em ritmo intenso. O manual da Sociedade Brasileira de Pediatria descreve a cadeia da doença metabólica óssea: fora do útero é difícil oferecer cálcio e fósforo comparáveis ao que a placenta entregava, o paratormônio sobe para manter o cálcio, retira mineral do osso e aumenta a perda renal de fósforo, e a hipofosfatemia fecha o ciclo. Nutrição parenteral prolongada, cafeína e diuréticos pioram a conta. O sangue segue lógica parecida: o prematuro produz pouca eritropoetina em resposta à anemia, cresce depressa diluindo a massa de hemácias e perde sangue a cada coleta — um volume que, num bebê de 1.000 g, pesa proporcionalmente muito mais do que parece no tubo.
No prematuro tardio, o que falta é reserva e coordenação, não órgão. Ele tem menos glicogênio no fígado e menos tecido adiposo, os sistemas que produzem glicose em jejum ainda estão imaturos e a sucção cansa antes de esvaziar a mama; o manual da sociedade descreve hipotonia oral, fadiga fácil e incoordenação entre sugar, engolir e respirar. A mamada fraca produz pouco leite, o pouco leite alimenta hipoglicemia e perda de peso, e a perda de peso piora a icterícia, que já é maior porque a hemácia vive menos e o fígado conjuga devagar. Com pouca gordura e uma superfície grande para o peso, ele também perde calor com facilidade. Nenhum desses elos é grave sozinho; juntos, são a filha de Suzana voltando ao pronto-socorro no quinto dia.
Como se apresenta de verdade
A prematuridade se apresenta de dois modos que pedem atenções diferentes. O primeiro é a própria classificação: antes de qualquer sintoma, a idade gestacional e o peso ao nascer já decidem onde o bebê fica, que exames entram no calendário e com que critério ele vai para casa. O segundo são as complicações, e a maioria delas não avisa — a hemorragia no cérebro e a retinopatia costumam ser silenciosas, a displasia e a doença óssea aparecem devagar, e a apneia, que é barulhenta no monitor, é justamente a mais inespecífica de todas.
Este capítulo começa quando a sala de parto termina. A recepção, a ventilação e a estabilização do pré-termo nos primeiros minutos são de Reanimação neonatal em sala de parto, que cede a este capítulo o manejo depois da estabilização. O desconforto respiratório do recém-nascido e a hipoglicemia neonatal têm capítulo nesta apostila — Desconforto respiratório do recém-nascido: doença da membrana hialina, taquipneia transitória e aspiração meconial; e Hipoglicemia neonatal e filho de mãe diabética: aqui os dois aparecem como riscos do prematuro, e os limiares e tratamentos ficam para aqueles capítulos. A infecção é de Começar sem saber, parar sem prova; a icterícia, de A hora antes da cor; a enterocolite necrosante, de A dieta que estava indo bem, na apostila de Cirurgia Pediátrica. Este capítulo assume a prematuridade como entidade — as consequências, o seguimento, o manejo global —, que Começar sem saber, parar sem prova lhe cedeu, e com ela a classificação, as complicações próprias do pré-termo, a apneia e a retinopatia, o Canguru e a alta. A fatia da prematuridade que decide a enterocolite — quem entra na janela, quando e o que muda o risco — fica com A dieta que estava indo bem, que a assumiu. O canal arterial do prematuro — quando tratar e com o quê — é de O bebê que cansa para mamar, na apostila de Cardiologia Pediátrica.
Classificar em segundos: três réguas para o mesmo bebê
A primeira régua é a idade gestacional ao nascer. Prematuro é quem nasce até 36 semanas e 6 dias. Na classificação usual, abaixo de 28 semanas está o prematuro extremo; de 28 a 31 semanas e 6 dias, o muito prematuro; de 32 a 33 semanas e 6 dias, o moderado; e de 34 a 36 semanas e 6 dias, o tardio, que o manual de seguimento da Sociedade Brasileira de Pediatria descreve à parte justamente porque parece o que não é. A idade gestacional só vale se estiver bem datada — pela ultrassonografia precoce ou pela data da última menstruação confiável —, e a primeira pergunta da lista de alta do pré-termo tardio, no mesmo manual, é essa: o bebê está bem datado?
A segunda régua é o peso ao nascer, independentemente da idade: baixo peso abaixo de 2.500 g, muito baixo peso abaixo de 1.500 g e extremo baixo peso abaixo de 1.000 g. A terceira cruza as duas: o peso ao nascer é pequeno, adequado ou grande para aquela idade gestacional, abaixo do percentil 10, entre 10 e 90 ou acima de 90 da curva de referência. Um bebê de 36 semanas e 1.900 g é pré-termo tardio, de baixo peso e pequeno para a idade — três informações diferentes, com três consequências: a idade diz o que é imaturo, o peso diz a reserva e o tamanho para a idade manda procurar por que ele cresceu pouco dentro do útero. As curvas de crescimento do pré-termo depois do nascimento, com o gráfico Intergrowth-21 que a Caderneta da Criança usa, pertencem a A linha, não o ponto, da apostila de Puericultura e Desenvolvimento.
O que a classificação muda aparece nos cortes dos documentos, e cada um abre um calendário próprio. O alojamento conjunto, pela norma federal de 2016, recebe o recém-nascido estável, com sucção e controle térmico, a partir de 34 semanas e 1.800 g. O ultrassom de crânio de rastreio, pelo guia federal, é para todo bebê com menos de 1.500 g e/ou menos de 35 semanas. O mapeamento de retina, pela diretriz brasileira, é para 1.500 g ou menos e/ou 32 semanas ou menos. As vacinas com pertussis acelular, pelo manual dos Centros de Referência para Imunobiológicos Especiais, são para quem nasceu com menos de 33 semanas ou menos de 1.500 g. A segunda etapa do Canguru exige 1.250 g; a alta hospitalar, 1.600 g. O interno que escreve as três réguas na primeira evolução já deixou marcados, sem perceber, meia dúzia de compromissos.
O prematuro tardio que parece bem
O bebê de 35 semanas no alojamento conjunto costuma chegar ao interno como um problema administrativo — alguém precisa assinar a alta —, e é aí que mora o risco. O manual de seguimento da sociedade lista o que ele tem mais do que o de termo: problemas respiratórios, hipoglicemia, dificuldade para mamar, hipotermia, icterícia, apneia e convulsões, e uma taxa alta de reinternação. Nenhum desses sinais aparece pronto na primeira hora. Aparecem na segunda noite, quando a mamada espaça, a temperatura cai um décimo, a bebê fica “boazinha demais” e a mãe comemora que ela dorme cinco horas seguidas.
A mamada é o centro do quadro. O mesmo manual insiste que, no pré-termo tardio, é preciso ver a mamada pessoalmente, e não perguntar se está mamando bem: a sucção é fraca, a fadiga é rápida, a coordenação entre sugar, engolir e respirar falha, a mama esvazia pouco e a apojadura atrasa. Sonolência que espaça as mamadas não é tranquilidade, é sinal. A perda de peso diária e a contagem de fraldas molhadas são o termômetro, e a hipotermia leve — entre 36,0 e 36,4 °C, na faixa que o guia federal chama de estresse do frio — é um aviso de reserva curta, não um detalhe corrigido com mais uma manta.
A icterícia desse bebê sobe mais e mais tarde. O manual da sociedade descreve pico de bilirrubina mais tardio e mais prolongado que no termo, com valores de 10 a 12 mg/dL no quinto dia, e atribui o aumento de casos de encefalopatia bilirrubínica às altas precoces de prematuros tardios sem acompanhamento. Os limiares de fototerapia para a faixa de 35 a 37 semanas e 6 dias estão em A hora antes da cor. O que é deste capítulo é a consequência prática: o pré-termo tardio só sai com mamada eficaz demonstrada, controle térmico e glicêmico, perda de peso aceitável e retorno garantido em até 48 horas.
Apneia: o que é, o que não é e quando desconfiar
O manual técnico do Método Canguru define apneia como interrupção do fluxo de ar por 20 segundos ou mais, ou por tempo menor quando seguida de bradicardia igual ou abaixo de 100 bpm, cianose ou palidez; é apneia da prematuridade quando ocorre abaixo de 37 semanas sem outra causa. Não é apneia a respiração periódica, padrão próprio do pré-termo em que pausas de cinco a dez segundos se alternam com respirações rápidas, sem mudança de cor ou de frequência cardíaca e sem necessidade de intervenção. O olho apressado confunde as duas; só a segunda pode ser observada sem fazer nada.
Os dois documentos federais descrevem o início de modo diferente: o guia de 2014 diz que a apneia da prematuridade raramente começa antes de 48 horas de vida e que a apneia das primeiras 72 horas costuma ter outra causa, enquanto o manual do Canguru registra que a apneia do pré-termo é mais comum nos primeiros sete dias, sobretudo no primeiro e no segundo. As duas frases convergem na conduta: a apneia dos primeiros dias pede que se procure asfixia, infecção, hemorragia intracraniana, hipotermia, hipoglicemia, obstrução ou convulsão antes de qualquer rótulo, e o manual de 2017 acrescenta o magnésio recebido pela mãe com pré-eclâmpsia ou para neuroproteção.
Há uma apneia que exige desconfiança maior do que a primeira: a que volta. O bebê que estava estável há semanas e começa a ter pausas — como o menino do leito 4 — pode estar anêmico, infectado, com enterocolite ou com hemorragia. O refluxo, lembrança frequente na enfermaria, não costuma ser a explicação: o manual do Canguru registra que os estudos não mostram associação direta e que o refluxo parece ser consequência da hipóxia da pausa, e não a causa. Depois da alta, a apneia volta em situações conhecidas: nos nascidos com 24 a 27 semanas até 38 semanas corrigidas, na displasia broncopulmonar até quatro semanas depois do termo, com viroses respiratórias, depois de vacinas e nas 48 horas seguintes a uma anestesia. Em lactente jovem ex-prematuro, a apneia pode ser a primeira manifestação de bronquiolite, antes de qualquer chiado — assunto de Bronquiolite viral aguda.
O cérebro que sangra calado
A hemorragia peri-intraventricular é, na maior parte das vezes, assintomática ou inespecífica, confundida com as intercorrências comuns do prematuro. O guia federal descreve as duas pontas. Na forma catastrófica, a deterioração vem em minutos ou horas: estupor ou coma, hipoventilação, apneia, convulsões, pupilas arreativas, hipotensão, fontanela abaulada, bradicardia, queda do hematócrito, acidose e alterações da glicose. Nas formas leves, só se nota uma mudança discreta no nível de consciência, menos movimento espontâneo, hipotonia ou alteração sutil da posição dos olhos.
Como o sinal clínico falha, o diagnóstico é de calendário, e o calendário é curto: mais de 90% dos casos acontecem na primeira semana. A classificação que o laudo usa vai do sangue restrito à matriz germinativa, passando pelo sangue dentro do ventrículo sem e com dilatação, até a lesão do parênquima; os graus III e IV são as formas graves, e a hemorragia grave aparece no manual da sociedade entre os fatores de risco para atraso do desenvolvimento. A complicação que prolonga o calendário é a hidrocefalia pós-hemorrágica, que pode crescer sem sinal clínico — por isso o guia federal manda repetir o ultrassom toda semana no bebê com hemorragia, e o perímetro cefálico medido na mesma fita, pela mesma pessoa, vira parâmetro diário de vigilância.
A retina que não dói
A retinopatia da prematuridade não tem sintoma nem sinal que o pediatra veja. O teste do reflexo vermelho, que todo recém-nascido faz, não a detecta: o manual de seguimento da sociedade e As cinco triagens neonatais, na apostila de Puericultura e Desenvolvimento, dizem isso com todas as letras, e confiar no reflexo é o erro que cega. Um bebê com reflexo vermelho normal pode estar, no mesmo dia, com uma retinopatia que precisa de tratamento em 72 horas. Quem a vê é o oftalmologista, com a pupila dilatada, oftalmoscópio binocular indireto e a classificação internacional.
O laudo fala em três coisas, e o interno precisa entender as três para saber quando se preocupar. A zona diz onde está a doença: a zona I é a mais central e a mais grave, a II vai até a periferia nasal, a III é o crescente temporal que resta. O estágio diz o que se vê na borda entre a retina com vasos e sem vasos: uma linha de demarcação, depois uma crista, depois proliferação de vasos para o vítreo, e nos estágios 4 e 5 o descolamento parcial ou total. A doença plus é a dilatação e a tortuosidade dos vasos do polo posterior, sinal de atividade. O guia federal registra que os estágios 1 e 2 regridem espontaneamente na maior parte dos bebês, que a doença limiar sem tratamento evolui para desfecho desfavorável em metade dos casos e que, mesmo tratados, muitos ficam com baixa visão — por isso o tratamento se indica cedo, na doença pré-limiar tipo 1.
Pulmão, sangue e osso: as três que aparecem devagar
A displasia broncopulmonar se define pelo tempo de oxigênio, não por imagem. Pelo consenso de 2001 que o manual do Canguru reproduz, é o bebê que precisou de oxigênio acima de 21% por pelo menos 28 dias; a gravidade se mede com 36 semanas de idade pós-menstrual, para quem nasceu com menos de 32 semanas, ou entre 28 e 56 dias de vida, para quem nasceu com 32 ou mais — em ambos, ou na alta, o que vier antes. Em ar ambiente naquele momento, é leve; com menos de 30% de oxigênio, moderada; com 30% ou mais, ou com pressão positiva, grave. Na enfermaria ela se apresenta como o bebê que não sai do cateter, ganha peso mal, descompensa a cada manipulação ou infecção e tem mais apneia.
A anemia da prematuridade se apresenta com o que a falta de oxigênio nos tecidos produz num corpo pequeno: palidez, taquicardia e taquipneia sem outra causa, apneias que voltam, cansaço para mamar e ganho de peso que estaciona apesar da dieta. Os critérios de transfusão dos documentos federais usam exatamente esses sinais — frequência cardíaca acima de 180 ou respiratória acima de 80 por 24 horas, mais de seis apneias em 12 horas ou duas em 24 que precisem de ventilação, ganho abaixo de 10 g por dia por quatro dias com oferta calórica plena —, somados à hemoglobina e ao suporte respiratório. A queda da hemoglobina nas primeiras semanas, que o guia de hemocomponentes chama de anemia fisiológica, é mais acentuada no prematuro — e, como chega quando o bebê já parece estável, costuma ser lida como “ele só está cansado”.
A doença metabólica óssea é oligossintomática até tarde. O manual da sociedade descreve a sequência: primeiro só a bioquímica muda, depois a radiografia mostra rarefação óssea e, nas formas graves, fraturas de ossos longos, às vezes achadas por acaso numa radiografia de tórax, ou fraturas de costela que pioram a respiração pela instabilidade da parede torácica. Por isso a doença se procura por fator de risco e por data, não por queixa — e o bebê que chora ao ser trocado ou tem edema num membro sem trauma conhecido merece radiografia, com a doença óssea na lista antes de qualquer conclusão sobre trauma.
Como fechar o diagnóstico
A investigação do prematuro tem pouco de exame decisivo e muito de calendário. Os testes que mudam conduta são poucos e baratos — ultrassom de crânio, mapeamento de retina, hemoglobina, fosfatase alcalina e fósforo —, mas cada um tem uma janela, e a janela se conta a partir de uma idade específica. A outra metade do trabalho é não pedir o que não muda nada: no bebê de 1.000 g, cada tubo de sangue é uma fração da volemia, e o manual do Método Canguru põe a redução da espoliação entre as medidas mais eficazes para evitar transfusão.
Duas investigações vizinhas terminam fora deste capítulo. A do bebê com suspeita de infecção — hemocultura, marcadores e líquor — é de Começar sem saber, parar sem prova. A do abdome que distende com resíduo e sangue nas fezes, com a leitura da radiografia, é de A dieta que estava indo bem. Aqui elas entram como hipóteses que a apneia ou a palidez obrigam a considerar.
Datar e contar: as idades escritas na evolução
A idade gestacional ao nascer é o dado de que todos os outros dependem, e vale a melhor datação disponível — ultrassonografia de primeiro trimestre, depois a data da última menstruação confiável. Com ela, duas contas se fazem todo dia. A idade pós-menstrual é a idade gestacional ao nascer somada à idade cronológica: o menino do leito 4, nascido com 27 semanas e 4 dias, tem aos 23 dias de vida 30 semanas e 6 dias. É a idade que se escreve para decidir sobre apneia, retina e pulmão, e é nela que se contam as 34 semanas da cafeína e as 36 semanas da displasia.
A idade corrigida é a idade cronológica menos o que faltou para 40 semanas. A Caderneta da Criança ensina a conta com um exemplo: quem nasceu com 28 semanas ficou 12 semanas antes do termo, cerca de três meses, e aos seis meses de vida tem três meses de idade corrigida. O menino do leito 4 ficou 12 semanas e 3 dias antes do termo; aos quatro meses de vida, o esperado dele é o de um bebê de pouco mais de um mês. É com essa idade que se lê o crescimento na curva e os marcos do desenvolvimento, e é por não fazer a conta que a família e o profissional veem atraso onde há só calendário.
Duas regras delimitam a correção. A primeira: a idade corrigida não vale para vacinas, que seguem a idade cronológica — o manual de seguimento da sociedade diz que ela é o único parâmetro que, com a condição clínica, orienta o início da imunização. A segunda: a correção tem prazo. A Caderneta de 2024 manda corrigir até dois anos de idade cronológica, ou até três anos para quem nasceu com menos de 28 semanas; a regra e suas variações entre documentos são decididas em A linha, não o ponto, para o crescimento, e em O marco que ela tinha e perdeu, para o desenvolvimento.
Antes de chamar de apneia da prematuridade
Apneia da prematuridade é diagnóstico de exclusão, e o manual do Canguru diz isso em uma linha: só depois de excluir as causas associadas se faz o diagnóstico de apneia primária. A exclusão não é um pacote fixo de exames; é uma sequência guiada pelo quadro. Começa pelo registro do monitor, que precisa responder a quatro perguntas: quanto durou, se houve bradicardia e queda da saturação, se passou sozinha ou precisou de estímulo, oxigênio ou ventilação com balão e máscara, e quantas vezes aconteceu nas últimas 12 e 24 horas. Esse registro decide a gravidade, entra nos critérios de transfusão e é o parâmetro com que a cafeína será julgada.
A cabeceira resolve metade da lista. Temperatura axilar — o manual do Canguru pede o bebê entre 36,5 e 37,5 °C — e a temperatura da incubadora. Glicemia capilar. Posição da cabeça e do pescoço, sonda e narinas desobstruídas. O abdome: distensão, resíduo, vômito, sangue nas fezes. A cor e a perfusão, porque palidez nova aponta para anemia ou sepse. A história da mãe: sulfato de magnésio, opioide ou sedativo perto do parto, e consumo de cafeína, que atravessa a placenta.
Os exames vêm do que a cabeceira sugeriu. Hemoglobina e hematócrito, com reticulócitos, quando há palidez ou a última dosagem tem mais de uma semana num bebê que cresce. Hemograma, proteína C-reativa e hemocultura quando a apneia é nova e o bebê piorou de outro jeito, seguindo o capítulo de sepse. Gasometria e eletrólitos com cálcio e magnésio. Ultrassom de crânio quando a apneia surge nos primeiros dias, vem com alteração neurológica ou acompanha queda de hematócrito. Radiografia de abdome se o abdome mudou. E o nível sérico de cafeína, onde houver: a bula manda medir antes de começar se a mãe consumiu cafeína ou o bebê recebeu teofilina, e medir de novo quando a resposta for incompleta, porque a falta de resposta pode ser sinal de outra causa.
Ultrassonografia transfontanelar: quem, quando e quantas vezes
O guia federal de 2014 é a régua brasileira do rastreamento: todo recém-nascido com menos de 1.500 g e/ou menos de 35 semanas faz ultrassonografia transfontanelar na primeira semana de vida, quando ocorrem mais de 90% das hemorragias. O exame é feito à beira do leito pela fontanela anterior, não exige sedação, não usa radiação e não tira o bebê da incubadora — as mesmas razões que o tornam preferível à tomografia. Quando o primeiro exame é normal, o guia manda repetir com uma semana e com um mês de vida; quando mostra hemorragia, repetir toda semana, pelo risco de hidrocefalia pós-hemorrágica.
O calendário tem mais dois pontos no bebê que fica muito tempo internado. A lista de alta do guia federal pede que o último ultrassom de crânio seja feito na semana da alta, com o resultado escrito no sumário. E o manual de seguimento da sociedade acrescenta, onde houver o recurso, a ressonância magnética ao termo ou próximo dele — entre 37 e 40 semanas de idade pós-menstrual — em todo prematuro extremo, independentemente da evolução, porque é o exame que mostra o componente difuso da leucomalácia periventricular que o ultrassom não vê. No menino do leito 4, a hemorragia de grau I do sétimo dia pede controle semanal, e o controle não foi feito: esse é o primeiro pedido da manhã.
Mapeamento de retina: a data se marca no dia do nascimento
A diretriz brasileira de 2007, das sociedades de pediatria, de oftalmologia pediátrica e do conselho de oftalmologia, indica o exame para todo recém-nascido com peso de nascimento de 1.500 g ou menos e/ou idade gestacional de 32 semanas ou menos, e manda considerá-lo nos bebês maiores com fatores de risco: síndrome do desconforto respiratório, sepse, transfusões, gestação múltipla e hemorragia intraventricular. O primeiro exame é entre a quarta e a sexta semana de vida — idade cronológica —, feito por oftalmologista com experiência em prematuro, com oftalmoscopia binocular indireta, pupila dilatada e a classificação internacional. O guia federal de 2014 transcreve esse corte com um sinal trocado, e esta apostila adota a diretriz; a divergência está no bloco próprio.
O retorno depende do achado, e é aqui que a data precisa ficar escrita. Retina madura, com vascularização completa: reavaliação com seis meses, para desenvolvimento visual, estrabismo e erro de refração. Retina imatura ou retinopatia abaixo de pré-limiar, e retinopatia em regressão: a cada duas semanas. Retina imatura em zona I: toda semana. Pré-limiar tipo 2: em três a sete dias. Pré-limiar tipo 1 ou doença limiar: tratamento em até 72 horas. A diretriz permite suspender os exames quando a vascularização está completa, ou com 45 semanas de idade pós-menstrual sem doença pré-limiar, ou com a retinopatia completamente regredida.
Três obrigações vêm junto com o exame e costumam cair no interno. A responsabilidade pelo exame é da unidade, que precisa defini-la — e, se o bebê for transferido no meio do acompanhamento, garantir que ele continue do outro lado. Os pais dos bebês com retinopatia precisam ser informados do risco de cegueira e da importância da data, oralmente e por escrito. E o colírio de dilatação costuma ser prescrito pela equipe neonatal: a diretriz usa tropicamida 0,5% ou ciclopentolato 1% com fenilefrina 2,5%, uma gota de cada com cinco minutos de intervalo, 40 minutos antes; o guia federal escreve outra concentração, e a diferença está em criterio.notas. No menino do leito 4, nascido com 27 semanas e 4 dias, a janela abre no 28º dia de vida e fecha no 42º — a quinta-feira da semana seguinte cabe, e precisa sair hoje escrita na pasta com dia, hora e responsável.
Osso e sangue: os exames de data marcada
O manual de seguimento da sociedade indica rastrear a doença metabólica óssea com quatro semanas de vida nos bebês suscetíveis — muito baixo peso ou outros fatores de risco, como nutrição parenteral prolongada, diurético, cafeína e enterocolite —, dosando fosfatase alcalina e fósforo. Fosfatase alcalina a partir de 800 UI/L e em ascensão, sobretudo com fósforo abaixo de 4 mg/dL, torna a doença possível e leva à radiografia de punho e joelho; fosfatase abaixo de 600 UI/L permite encerrar o monitoramento no bebê sem fator de risco novo. A conduta dietética, com aumento de cálcio e fósforo e ajuste da vitamina D, é da equipe da unidade, seguindo o algoritmo do mesmo manual.
A hemoglobina não tem data fixa em nenhum dos documentos lidos; tem gatilho. Pede-se quando o quadro clínico sugere anemia — palidez, taquicardia, apneias que voltam, ganho de peso que estaciona — e para decidir transfusão, sempre com reticulócitos, porque os dois critérios federais de transfusão usam o reticulócito baixo para indicar o sangue no bebê com hemoglobina muito baixa e poucos sintomas. O mesmo manual do Canguru que traz os critérios de transfusão traz as medidas para não precisar dela: clampeamento tardio do cordão no prematuro que nasce bem, uso do sangue da placenta nos primeiros exames, micrométodos, reforço da monitorização não invasiva, nutrição adequada e ferro.
Na véspera da alta: o que precisa estar no sumário
A lista de alta do pré-termo junta pendências de vários capítulos, e cada uma tem dono. As triagens neonatais — o teste do pezinho em esquema seriado no bebê internado, com a data de qualquer transfusão, a triagem auditiva pelo potencial evocado auditivo de tronco encefálico no bebê de risco e o reflexo vermelho — são de As cinco triagens neonatais. As vacinas seguem a idade cronológica, e o esquema do prematuro está resumido na conduta. A elegibilidade ao anticorpo contra o vírus sincicial respiratório é de Bronquiolite viral aguda. O ferro profilático e a sua dose por gota são de O que está escrito no vidro não é a dose, na apostila de Hematologia Pediátrica.
O que é deste capítulo precisa aparecer no sumário por escrito, com data e resultado: o resultado do último mapeamento de retina e a data do próximo, ou o registro de que a vascularização se completou; o último ultrassom de crânio, feito na semana da alta; a ressonância ao termo nos prematuros extremos, onde houver; o último par de fosfatase alcalina e fósforo e a última hemoglobina; a classificação da displasia broncopulmonar, se houver, e a necessidade de oxigênio domiciliar; o tempo desde a última dose de cafeína e desde a última apneia; peso, comprimento e perímetro cefálico medidos no dia; e o retorno marcado. O guia federal pede que a mãe leve o sumário à primeira consulta — e o interno que o escreve está redigindo a única ponte entre a unidade e a unidade básica.
Os cortes que marcam o calendário do prematuro — e onde os documentos brasileiros não coincidem
Nenhuma decisão central deste capítulo sai de um escore. Sai de cortes de idade gestacional, de peso e de tempo, cada um escrito num documento diferente: o guia federal de 2014 para o ultrassom de crânio e o seguimento, a diretriz de 2007 das sociedades de pediatria e oftalmologia para a retina, o manual técnico do Método Canguru de 2017 para a apneia, a transfusão e as etapas do método, o manual dos Centros de Referência para Imunobiológicos Especiais de 2023 para as vacinas, o manual de seguimento da Sociedade Brasileira de Pediatria de 2024 para a alta e a doença óssea, e a norma de 2016 para o alojamento conjunto. Não há documento brasileiro único sobre o prematuro, e o interno trabalha montando esse calendário a partir das peças. As notas no fim registram onde as peças não encaixam — cortes transcritos com sinal trocado, tabelas com faixas que não pertencem a linha nenhuma, doses escritas sem dizer de qual sal — e qual leitura esta apostila adota em cada caso.
- 1Chegada à unidade, depois da estabilização em sala de parto. Escrever na primeira evolução as três réguas — idade gestacional ao nascer, peso ao nascer e adequação do peso à idade — e decidir o lugar do bebê. O alojamento conjunto recebe o recém-nascido clinicamente estável, com sucção e controle térmico, a partir de 34 semanas e 1.800 g; abaixo disso, ou instável, unidade neonatal.
- 2Primeiras 72 horas. Temperatura axilar entre 36,5 e 37,5 °C, glicemia pelo protocolo do capítulo de hipoglicemia neonatal, leite materno desde o início e monitorização contínua em todo prematuro com risco de apneia. Qualquer apneia nesses dias é investigada antes de receber nome: asfixia, infecção, hemorragia intracraniana, hipotermia, hipoglicemia, obstrução, convulsão, magnésio materno.
- 3Primeira semana, abaixo de 1.500 g e/ou de 35 semanas. Ultrassonografia transfontanelar. Normal: repetir com uma semana e com um mês. Com hemorragia: repetir toda semana e medir o perímetro cefálico.
- 4Apneia da prematuridade confirmada por exclusão. Citrato de cafeína 20 mg/kg de ataque e 5 mg/kg a cada 24 horas, começando 24 horas depois — sempre escrito como citrato. Apneia que persiste apesar da cafeína: CPAP nasal de 3 a 5 cmH2O; ventilação mecânica se as outras medidas falharem.
- 5Pré-termo tardio no alojamento conjunto. Mamada observada por quem prescreve, peso diário, temperatura, glicemia e icterícia pelos protocolos próprios. Alta só com mamada eficaz demonstrada, perda de peso aceitável, controle térmico e glicêmico, triagens feitas ou agendadas e retorno garantido em até 48 horas.
- 6Quarta semana de vida. Fosfatase alcalina e fósforo no bebê de muito baixo peso ou com outro fator de risco para doença óssea. Abrir a janela do mapeamento de retina — primeiro exame entre a quarta e a sexta semana — em quem nasceu com 1.500 g ou menos e/ou 32 semanas ou menos, e considerar nos maiores com fator de risco. Retornos pelo achado; pré-limiar tipo 1 ou limiar, tratamento em até 72 horas.
- 7Vinte e oito dias de oxigênio. Diagnóstico de displasia broncopulmonar, com gravidade classificada com 36 semanas de idade pós-menstrual nos nascidos com menos de 32 semanas, ou entre 28 e 56 dias de vida nos nascidos com 32 ou mais, ou na alta, o que vier antes.
- 8Método Canguru. Segunda etapa com estabilidade clínica, nutrição enteral plena e 1.250 g. Alta da unidade para a terceira etapa com 1.600 g, ganho de peso nos três dias anteriores e sucção ao peito ou família capacitada; primeira consulta em até 48 horas e depois no mínimo semanal, até 2.500 g.
- 9Alta. Cafeína suspensa depois de 34 semanas de idade pós-menstrual e de 5 a 7 dias sem apneia, e alta só depois de 7 a 10 dias sem apneia a partir da suspensão. Alimentação exclusiva por via oral com ganho de pelo menos 20 g por dia por três dias, temperatura normal vestido em berço comum com o ambiente entre 20 e 25 °C, saturação acima de 90% em ar ambiente, pais treinados, sumário escrito e primeira reavaliação após a alta em até 48 horas, seguida do acompanhamento neonatal e de alto risco programado.
Duas contas, todo dia
Idade pós-menstrual é a idade gestacional ao nascer somada à idade cronológica, e é a régua de dentro da unidade: apneia, retina, pulmão, suspensão da cafeína. Idade corrigida é a idade cronológica menos o que faltou para 40 semanas, e é a régua de depois do termo: crescimento e desenvolvimento, até dois anos de idade cronológica, ou três se o nascimento foi antes de 28 semanas. Vacina não usa nenhuma das duas: usa a idade cronológica. Exemplo do leito 4: nascido com 27 semanas e 4 dias, aos 23 dias tem 30 semanas e 6 dias de idade pós-menstrual; aos quatro meses de vida terá pouco mais de um mês de idade corrigida.
Os cortes que abrem cada calendário do prematuro
| Calendário | Quem entra | Quando | Régua brasileira |
|---|---|---|---|
| Alojamento conjunto | Clinicamente estável, com sucção e controle térmico, 34 semanas ou mais e 1.800 g ou mais | Desde o nascimento | Portaria GM/MS nº 2.068/2016 |
| Ultrassonografia transfontanelar | Menos de 1.500 g e/ou menos de 35 semanas | Primeira semana; se normal, repetir com uma semana e com um mês; se hemorragia, semanal; último controle na semana da alta | Guia federal de atenção ao recém-nascido, 2014, v. 3 e v. 4 |
| Ressonância magnética de crânio | Prematuro extremo, onde houver o recurso | Entre 37 e 40 semanas de idade pós-menstrual, antes da alta | Manual de seguimento da SBP, 2024 |
| Mapeamento de retina | 1.500 g ou menos e/ou 32 semanas ou menos; considerar nos maiores com fator de risco | Entre a 4ª e a 6ª semana de vida; retorno pelo achado; tratamento do tipo 1 e da limiar em até 72 horas | Diretriz SBP, SBOP e CBO, 2007 |
| Doença metabólica óssea | Muito baixo peso ou outro fator de risco | Fosfatase alcalina e fósforo com 4 semanas de vida | Manual de seguimento da SBP, 2024 |
| Vacinas com pertussis acelular e hepatite B em quatro doses | Acelular: menos de 33 semanas ou menos de 1.500 g, e o bebê ainda internado na idade da vacina. Hepatite B: menos de 2.000 g ou menos de 33 semanas | Idade cronológica; BCG a partir de 2.000 g | Manual dos CRIE, 6ª ed., 2023 |
| Método Canguru | Segunda etapa: 1.250 g, estável, nutrição enteral plena. Terceira etapa: 1.600 g, ganho nos três dias anteriores, sucção | Primeira consulta em até 48 horas após a alta, depois semanal, até 2.500 g | Manual técnico do Método Canguru, 3ª ed., 2017 |
| Seguimento de alto risco | Prioridade para menos de 32 semanas e menos de 1.500 g; também o tardio com internação prolongada | 7 a 10 dias após a alta; mensal até 6 meses de idade corrigida; bimestral ou trimestral até 12; trimestral até 24 meses; semestral até 4 anos; anual até a puberdade | Guia federal 2014, v. 4, e manual de seguimento da SBP, 2024 |
Citrato de cafeína em mililitros para o menino do leito 4 (ampola de 20 mg/mL de citrato = 10 mg/mL de cafeína base)
| Momento | Dose prescrita | Conta para o peso | Volume |
|---|---|---|---|
| Ataque, no segundo dia de vida | 20 mg/kg de citrato, IV em 30 minutos | 20 × 0,98 kg = 19,6 mg de citrato | 0,98 mL |
| Manutenção, hoje | 5 mg/kg de citrato a cada 24 horas, IV em 10 minutos ou oral | 5 × 1,12 kg = 5,6 mg de citrato | 0,28 mL por dia |
| Teto de manutenção usado no estudo de 2006, se a apneia persistir | 10 mg/kg de citrato a cada 24 horas | 10 × 1,12 kg = 11,2 mg de citrato | 0,56 mL por dia |
| O erro de sal: ataque lido como cafeína base | 20 mg/kg de base = 40 mg/kg de citrato | 40 × 0,98 kg = 39,2 mg de citrato | 1,96 mL — o dobro |
| Aminofilina, onde a cafeína não estiver padronizada | 5 mg/kg de ataque e 1 mg/kg a cada 8 horas | 5 × 1,12 = 5,6 mg; 1 × 1,12 = 1,12 mg por dose | Conforme a concentração padronizada no hospital — não consta da Rename |
Gatilho de transfusão de hemácias no prematuro anêmico nos dois documentos federais
| Situação do bebê | Guia para uso de hemocomponentes, MS 2015 (menores de 4 meses) | Manual técnico do Método Canguru, MS 2017 (anemia da prematuridade) |
|---|---|---|
| Sem suporte respiratório e sem sintoma | Hb abaixo de 7 g/dL com reticulócitos baixos, mas exige sintomas de anemia | Hb abaixo de 7 g/dL (Ht abaixo de 20%) com reticulócitos abaixo de 100.000 ou 2%, mesmo assintomático |
| Apneias repetidas, taquicardia acima de 180 ou taquipneia acima de 80 por 24 h, ganho abaixo de 10 g/dia por 4 dias | Hb abaixo de 10 g/dL (as apneias contam se ocorrerem em dose terapêutica de metilxantina) | Hb abaixo de 8 g/dL (Ht abaixo de 25%) |
| Oxigênio em capacete ou CPAP com fração inspirada baixa | Hb abaixo de 10 com cateter nasal ou menos de 35% de oxigênio no capacete; Hb abaixo de 12 com mais de 35% | Hb abaixo de 8 com FiO2 abaixo de 0,35; Hb abaixo de 10 com FiO2 acima de 0,35 |
| Ventilação mecânica | Hb abaixo de 10 com pressão média abaixo de 6 cmH2O; Hb abaixo de 12 com 6 a 8 cmH2O | Hb abaixo de 10 (Ht abaixo de 30%) com pressão média abaixo de 8; Hb abaixo de 12 (Ht abaixo de 35%) com pressão média acima de 8 |
| Cardiopatia congênita cianótica | Hb abaixo de 15 g/dL | Hb abaixo de 13 g/dL (Ht abaixo de 40%) |
Qual idade responde à pergunta?
| Medida | Como calcular | Uso prático |
|---|---|---|
| Gestacional ao nascer | Melhor estimativa obstétrica documentada | Classificar prematuridade e elegibilidade inicial de rastreios. |
| Cronológica | Tempo desde o nascimento | Vacinação e tempo decorrido desde exames ou alta. |
| Pós-menstrual | Gestacional ao nascer + cronológica em semanas | Situar maturação neonatal e decisões como apneia e seguimento de retina, conforme protocolo. |
| Corrigida | Cronológica − semanas que faltavam para 40 ao nascer | Interpretar crescimento e desenvolvimento, dentro da faixa da curva ou instrumento escolhido. |
Agenda mínima a conferir na passagem de cuidado
| Etapa | Dado e objetivo | Responsável / ação se pendente |
|---|---|---|
| Internação | Temperatura, alimentação, glicemia, apneias e crescimento | Equipe neonatal em cada evolução; piora abre investigação, não se atribui automaticamente à imaturidade. |
| Rastreios | US craniano, retina e avaliação óssea conforme elegibilidade | Registrar último resultado, data prevista e serviço executor; uma solicitação não equivale a exame realizado. |
| Preparação da alta | Alimentação eficaz, estabilidade, plano de medicamentos e cuidadores capacitados | Equipe e família demonstram os cuidados, com dupla conferência de dose, concentração e volume. |
| Primeiros dias em casa | Peso, mamada, icterícia, temperatura e condições da família | Retorno precoce conforme o perfil; Canguru e pré-termo tardio em até 48 h no percurso descrito. |
| Seguimento especializado | Crescimento, desenvolvimento, audição, visão e complicações | Ambulatório e atenção primária compartilham plano; consulta em 7–10 dias não substitui retorno precoce necessário. |
| Pendência de retina | Último exame e recomendação do oftalmologista | Contato prioritário com o serviço; não aguardar calendário de consulta visual de rotina. |
O corte do mapeamento de retina aparece de três formas. A diretriz de 2007 escreve peso de nascimento de 1.500 g ou menos e/ou idade gestacional de 32 semanas ou menos. O guia federal de 2014, no capítulo de retinopatia (p. 121), declara reproduzir essa diretriz e escreve menos de 1.500 g e/ou menos de 32 semanas; o Quadro 9 do mesmo volume (p. 134) escreve menos de 1.500 g e/ou 32 semanas ou menos. A conta: o bebê de 32 semanas e 3 dias com 1.650 g e sem fator de risco é examinado pela diretriz e pelo Quadro 9, e não é examinado pela p. 121; o de 33 semanas com exatamente 1.500 g é examinado pela diretriz e por nenhuma das duas páginas federais. Esta apostila adota a diretriz; o desempate está em divergencias.
Na mesma transcrição, o guia federal de 2014 (p. 122) prescreve a midríase com tropicamida 1%, gotas com 15 minutos de intervalo, 45 minutos antes do exame; a diretriz que ele reproduz usa tropicamida 0,5% ou ciclopentolato 1%, com fenilefrina 2,5%, uma gota de cada com 5 minutos de intervalo, 40 minutos antes. A concentração de tropicamida dobrou na transcrição. Nenhum dos três colírios consta da Rename 2024, e a prescrição deve seguir o protocolo do oftalmologista que examina; onde a equipe neonatal prescreve, esta apostila adota o esquema da diretriz, que é o documento de origem.
Pausa respiratória acompanhada de bradicardia, dessaturação, alteração de cor ou necessidade de intervenção é clinicamente relevante, mesmo sem ultrapassar um número rígido de segundos. Registre duração, repercussão e resposta. Investigue causas secundárias antes de atribuí-la à prematuridade, principalmente se nova ou agravada.
Escreva citrato de cafeína por extenso e confira a concentração disponível. Citrato e cafeína base não têm equivalência numérica de dose. Registre peso atual, mg/kg, dose em mg e volume final; a reavaliação inclui resposta das apneias e possíveis efeitos adversos.
O mesmo parágrafo do manual de 2017 manda retirar a xantina quando o bebê tem mais de 34 semanas de idade corrigida e está sem apneia há mais de cinco a sete dias, e duas frases depois atribui à Academia Americana de Pediatria a suspensão com cinco a sete dias sem apneia ou com 33 a 34 semanas, o que vier antes. O guia de 2014 (v. 3, p. 79) escreve manter até 34 semanas de idade pós-concepcional ou por 10 a 14 dias após o último episódio. A conta: um bebê nascido com 26 semanas, em cafeína desde o segundo dia e sem apneia há 14 dias ao completar 29 semanas, poderia ter a cafeína suspensa naquele dia pela leitura literal de 2014 e pela frase atribuída à academia americana, e só depois de 34 semanas — cinco semanas mais tarde — pela recomendação do manual de 2017. Esta apostila adota a recomendação de 2017; o desempate está em divergencias.
A aminofilina tem doses diferentes nos dois documentos federais. O guia de 2014 (v. 3, p. 79) dá ataque de 8 mg/kg e manutenção de 1,5 a 3 mg/kg por dose a cada 8 a 12 horas, de 3 a 9 mg/kg por dia, com nível terapêutico de teofilina de 7 a 12 µg/mL; o manual do Canguru de 2017 dá ataque de 5 mg/kg e 1 mg/kg a cada 8 horas, 3 mg/kg por dia, com nível de 5 a 10 µg/mL. O ataque de 2014 é 60% maior e a manutenção chega a três vezes a de 2017. Os dois documentos têm o mesmo escopo, e esta apostila adota o mais novo, com a ressalva de que a cafeína é a primeira escolha em ambos e que nem a cafeína, nem a aminofilina, nem a teofilina constam da Rename 2024: a disponibilidade depende da padronização do hospital.
As duas tabelas federais de transfusão deixam valores sem linha. No manual do Canguru de 2017 (p. 167), ventilação com pressão média acima de 8 cmH2O leva ao gatilho de hemoglobina 12 e abaixo de 8 ao de 10: a pressão média de exatamente 8 cmH2O não está em nenhuma; o mesmo acontece com a fração inspirada de exatamente 0,35 entre as linhas de 10 e de 8 g/dL. No guia de hemocomponentes de 2015 (Quadro 7), pressão média abaixo de 6 leva ao gatilho de 10 e de 6 a 8 ao de 12: a pressão acima de 8 não aparece; e o capacete com exatamente 35% de oxigênio fica entre as duas linhas. A conta: um prematuro ventilado com pressão média de 9 cmH2O e hemoglobina de 11 g/dL tem indicação pelo manual de 2017 e nenhuma linha que o descreva no guia de 2015. Esta apostila adota a tabela de 2017 e lê o valor de fronteira na linha de maior suporte — leitura desta apostila, não de fonte.
O percurso de alta do Canguru adotado aqui prevê retorno em até 48 horas. Diferencie esse cuidado precoce do agendamento do ambulatório de alto risco. Se transporte, distância ou falta de vaga ameaçarem o prazo, articule o atendimento antes da saída e registre quem confirmará sua execução.
A lista de alta do guia federal de 2014 (v. 4, Quadro 9, p. 134) indica a vacina com pertussis acelular só para a primeira dose de prematuros extremos. O manual dos Centros de Referência para Imunobiológicos Especiais de 2023 indica o componente acelular para todos os nascidos com menos de 33 semanas (até 32 semanas e 6 dias) ou com menos de 1.500 g, e para quem continua internado na unidade neonatal na idade da vacina. A conta: um bebê de 31 semanas e 1.700 g, aos dois meses, ficaria com a vacina de células inteiras pela lista de 2014 e tem direito à acelular pelo manual de 2023. Norma específica e mais nova: vale a de 2023.
A conduta, hora a hora
A conduta do prematuro combina necessidades atuais e uma agenda que muda com a evolução. Anote idade gestacional ao nascer, cronológica e pós-menstrual; use idade corrigida para a leitura do crescimento e desenvolvimento conforme a referência apropriada. Cada exame ou retorno precisa de indicação, data, responsável e forma de verificar o resultado. As doses e intervenções dos marcos são propostas para conferência com a equipe, e devem ser ajustadas ao peso atual e ao estado clínico.
Chegada à unidade e primeiras 72 horas — classificar, aquecer, alimentar, vigiar
O bebê chega da sala de parto estabilizado, e a primeira tarefa é escrever quem ele é: idade gestacional ao nascer, peso, adequação, e a partir do dia seguinte a idade pós-menstrual em toda evolução. A segunda é o calor: o manual do Canguru pede temperatura axilar entre 36,5 e 37,5 °C, e o guia federal lembra que a hipotermia do prematuro se manifesta por sucção débil, letargia, apneia e bradicardia — sinais que se confundem com todas as outras complicações. A glicemia segue o protocolo do capítulo de hipoglicemia neonatal. O leite da própria mãe é o primeiro alimento, e a primeira etapa do Canguru começa aqui: livre acesso dos pais à unidade, sem horário, primeira visita acompanhada por alguém da equipe, apoio à ordenha e contato pele a pele assim que o bebê estiver estável, inclusive em ventilação. Monitorização contínua de frequência cardíaca e saturação em todo prematuro com risco de apneia. Qualquer apneia nesses dias entra na investigação antes de receber nome.
Prescrição- Registrar na evolução: idade gestacional ao nascer, peso ao nascer, adequação e idade pós-menstrual do dia
- Monitorização contínua de frequência cardíaca e saturação de oxigênio
- Temperatura axilar alvo de 36,5 a 37,5 °C; ajustar o ambiente térmico antes de atribuir sintomas a outra causa
- Glicemia capilar conforme o protocolo de hipoglicemia neonatal do serviço
- Leite materno ordenhado da própria mãe assim que houver dieta; orientar e apoiar a ordenha
- Livre acesso dos pais; contato pele a pele assim que houver estabilidade clínica
Pré-termo tardio no alojamento conjunto — do nascimento à alta com retorno em 48 horas
A filha de Suzana pode ficar ao lado da mãe porque tem mais de 34 semanas e mais de 1.800 g e estava estável, com sucção e controle térmico — os critérios da norma do alojamento conjunto. Ficar ali não significa ser tratada como bebê de termo. O manual de seguimento da sociedade manda ver a mamada pessoalmente, colocar ao seio com frequência, a cada três horas ou antes, corrigir a pega, contar fraldas e acompanhar a perda de peso todos os dias. A temperatura de 36,3 °C da madrugada é hipotermia leve e pede contato pele a pele e reavaliação, não manta a mais sem registro. A glicemia segue o protocolo do serviço, que o mesmo manual exige que exista, e a icterícia segue A hora antes da cor. A alta, na lista de verificação do manual para o pré-termo tardio, pergunta se o bebê está bem datado, se a mamada está correta e sustentada, se a glicemia está controlada, se a diurese é adequada, se a perda de peso é menor que 10%, se a incompatibilidade sanguínea e a bilirrubina foram verificadas, se as triagens e a vacinação estão feitas ou agendadas, se os pais foram orientados sobre posição de dormir e vírus sincicial respiratório, se há rede de apoio e se o retorno está marcado em 48 horas. Hoje, com 30 horas, sonolenta e sem glicemia recente, a resposta é não.
Prescrição- Mamada supervisionada a cada 3 horas ou menos, acordando a bebê se preciso; avaliar a pega e a sucção durante a mamada
- Peso diário com percentual de perda em relação ao nascimento; registrar diurese
- Temperatura axilar seriada; abaixo de 36,5 °C, contato pele a pele e reavaliação registrada
- Glicemia capilar conforme o protocolo de hipoglicemia neonatal; icterícia pelo roteiro de A hora antes da cor
- Alta somente com a lista de verificação completa; retorno para reavaliação de icterícia, mamada e peso em até 48 horas
A apneia — do alarme à cafeína, e da cafeína ao CPAP
No alarme, a primeira decisão é distinguir respiração periódica, que se observa, de apneia, que se interrompe: estímulo tátil, e se a pausa não reverter e houver bradicardia ou cianose que persistem, oxigênio e ventilação com balão e máscara, pela técnica de Reanimação neonatal em sala de parto. Cada episódio vai para o registro com duração, frequência cardíaca, saturação e a intervenção necessária. Excluídas as causas, a apneia da prematuridade se trata em camadas, e o manejo ventilatório dela, que Começar sem saber, parar sem prova cedeu a este capítulo, fica todo aqui. As medidas sem fármaco vêm do manual do Canguru: temperatura estável, cabeça e pescoço sem hiperflexão nem hiperextensão, narinas e sonda sem obstrução, posição canguru, e o decúbito prono é aceito dentro da unidade monitorizada — em casa, o bebê dorme de barriga para cima. O fármaco de escolha é o citrato de cafeína, e a prescrição sempre diz o sal. Se as apneias persistem apesar da cafeína, CPAP nasal de 3 a 5 cmH2O, que o mesmo manual diz reduzir os episódios em até metade; cânula de alto fluxo é alternativa; ventilação mecânica, se as outras camadas falharem. No leito 4, a apneia que volta depois de semanas estável é investigada antes de a dose ser aumentada.
Prescrição- Citrato de cafeína 20 mg/kg IV em 30 minutos, dose única de ataque (ampola de 20 mg/mL de citrato: 1 mL/kg)
- Citrato de cafeína 5 mg/kg a cada 24 horas, IV em 10 minutos ou por via oral, iniciando 24 horas após o ataque (0,25 mL/kg); recalcular pelo peso uma vez por semana
- Apneia persistente: rever causas, medir nível sérico de cafeína onde houver e considerar manutenção até 10 mg/kg a cada 24 horas
- Se apneias persistirem com cafeína: CPAP nasal de 3 a 5 cmH2O
- Registro de cada evento: duração, frequência cardíaca mínima, saturação mínima e intervenção necessária
- Decúbito prono só quando indicado e sob monitorização na unidade; tão logo possível, decúbito dorsal ainda na internação, e sempre dorsal para dormir depois da alta (Método Canguru, 2017; o ambiente do sono está em Síndrome da morte súbita do lactente: fatores de risco e prevenção, na apostila de Emergências Pediátricas)
Primeira semana — o ultrassom de crânio e a dieta que precisa crescer
Todo bebê com menos de 1.500 g e/ou menos de 35 semanas faz ultrassonografia transfontanelar na primeira semana, e a data do controle se escreve junto com o laudo: normal, com uma semana e com um mês; com hemorragia, toda semana, com perímetro cefálico. A prevenção da hemorragia está no manuseio: o guia federal lista entre os fatores de risco a aspiração traqueal, o pneumotórax, as variações amplas de pressão e a expansão volumétrica, e cada uma se evita com rotina, não com remédio. Na nutrição, o leite humano é a base. O guia federal registra que a fortificação do leite materno nos prematuros com menos de 1.500 g melhora, a curto prazo, o ganho de peso e o crescimento do perímetro cefálico, e que, recuperado o peso de nascimento entre o 10º e o 20º dia, o ganho esperado é em torno de 15 g/kg por dia. Como a dieta avança, e o que o avanço faz com o risco de enterocolite, é assunto de A dieta que estava indo bem.
Prescrição- Ultrassonografia transfontanelar até o 7º dia de vida (menos de 1.500 g e/ou menos de 35 semanas)
- Controle: com 1 semana e com 1 mês se normal; semanal se houver hemorragia, com perímetro cefálico medido na mesma técnica
- Leite humano, preferencialmente da própria mãe; aditivo multicomponente no bebê com menos de 1.500 g conforme o protocolo nutricional da unidade
- Peso diário; após recuperar o peso de nascimento, meta de ganho em torno de 15 g/kg por dia
Da quarta à sexta semana de vida — retina, osso e sangue
É a semana em que três calendários se cruzam, e os três dependem de alguém escrever uma data. O mapeamento de retina, no bebê que nasceu com 1.500 g ou menos e/ou 32 semanas ou menos, acontece entre o 28º e o 42º dia de vida, com o responsável definido pela unidade e os pais informados; o tratamento, se vier indicado, é do oftalmologista, e o prazo de 72 horas começa no laudo. A fosfatase alcalina e o fósforo se colhem com quatro semanas no bebê de muito baixo peso ou com outro fator de risco, e a vitamina D de 400 UI por dia entra no esquema do manual da sociedade. A hemoglobina se pede pelo quadro, com reticulócitos, e a transfusão segue os critérios do manual do Canguru de 2017, com a divergência resolvida no bloco próprio; o componente, a irradiação e a requisição são de O que fica depois da bolsa, na apostila de Hematologia e Hemoterapia. O ferro profilático também começa nas primeiras semanas, e sua dose e a data de início estão em O que está escrito no vidro não é a dose.
Prescrição- Mapeamento de retina marcado entre o 28º e o 42º dia de vida, com data, hora e responsável escritos na pasta
- Midríase conforme o protocolo do oftalmologista; na diretriz de 2007: tropicamida 0,5% ou ciclopentolato 1%, com fenilefrina 2,5%, 1 gota de cada com 5 minutos de intervalo, 40 minutos antes
- Fosfatase alcalina e fósforo séricos com 4 semanas de vida (muito baixo peso ou outro fator de risco)
- Vitamina D 400 UI por dia por via oral (colecalciferol isolado não consta da Rename; a conta em gotas depende do produto usado)
- Hemoglobina, hematócrito e reticulócitos se palidez, taquicardia, apneias que voltam ou ganho de peso que estaciona
Vinte e oito dias e 36 semanas — o pulmão, e a vaga no Canguru
O bebê que completa 28 dias com necessidade de oxigênio acima de 21% tem displasia broncopulmonar, e a gravidade se escreve com 36 semanas de idade pós-menstrual se ele nasceu com menos de 32 semanas, ou entre 28 e 56 dias de vida se nasceu com 32 ou mais, ou na alta, o que vier antes: leve em ar ambiente, moderada com menos de 30% de oxigênio, grave com 30% ou mais ou com pressão positiva. A classificação muda o calendário: o guia federal pede retornos mais frequentes na displasia e, se houver oxigênio em casa, saturação basal e durante a mamada em cada consulta, com cuidadores treinados. A elegibilidade ao anticorpo contra o vírus sincicial respiratório, que inclui a doença pulmonar crônica da prematuridade, está em Bronquiolite viral aguda. É também a fase em que o bebê costuma chegar aos 1.250 g: com estabilidade clínica, nutrição enteral plena e a mãe disposta e treinada, ele passa para a segunda etapa do Método Canguru, com a mãe ao lado 24 horas.
Prescrição- Registrar os dias de oxigênio acima de 21% e, na data de classificação, a fração inspirada e o suporte em uso
- Classificar a displasia broncopulmonar em leve, moderada ou grave e escrever no sumário
- Oxigênio domiciliar, se indicado: treinar os cuidadores e prever saturação basal e durante a mamada nos retornos
- Registrar a elegibilidade ao anticorpo contra o vírus sincicial respiratório, conforme Bronquiolite viral aguda
- Transferir para a unidade canguru com 1.250 g, estabilidade clínica, nutrição enteral plena e mãe disponível e treinada; posição canguru pelo tempo que mãe e bebê definirem
A suspensão da cafeína e a alta hospitalar
A cafeína se suspende quando o bebê passou de 34 semanas de idade pós-menstrual e está há mais de cinco a sete dias sem apneia — as duas condições juntas, pela recomendação do manual do Canguru. A alta vem depois de um período de segurança: o manual de seguimento da sociedade recomenda de 7 a 10 dias sem apneia a partir da suspensão, mais longo nos nascidos com menos de 26 semanas, porque a meia-vida de 50 a 100 horas faz a cafeína seguir agindo por dias. As outras competências são as do mesmo manual: alimentar-se só por via oral, sem engasgo, cianose ou dispneia, ganhando ao menos 20 g por dia por três dias seguidos; manter a temperatura vestido em berço comum com ambiente de 20 a 25 °C; saturação acima de 90% em ar ambiente. Para a terceira etapa do Canguru, o manual técnico pede ainda 1.600 g e ganho nos três dias anteriores. A receita da alta tem só o necessário, dose ajustada ao peso do dia, concentração, dose e frequência por extenso, sem horários de madrugada quando possível, e é entregue alguns dias antes para que a família providencie e treine. As vacinas seguem a idade cronológica: hepatite B em quatro doses abaixo de 2.000 g ou 33 semanas, pertussis acelular abaixo de 33 semanas ou 1.500 g, BCG a partir de 2.000 g, rotavírus no dia da alta, e não antes, dentro da janela, e nunca na criança operada por enterocolite, com estoma ou com malformação intestinal; o esquema completo é de Quem não pode esperar e quem não pode receber, na apostila de Infectologia Pediátrica.
Prescrição- Suspender o citrato de cafeína após 34 semanas de idade pós-menstrual e mais de 5 a 7 dias sem apneia
- Alta somente após 7 a 10 dias sem apneia desde a suspensão (período maior nos nascidos com menos de 26 semanas)
- Confirmar: via oral exclusiva com ganho de pelo menos 20 g/dia por 3 dias; temperatura estável em berço comum; saturação acima de 90% em ar ambiente; pais treinados
- Receita de alta com concentração, dose em mg e em mL, frequência e horários diurnos, entregue dias antes da alta
- Vacinas pela idade cronológica, com as adequações do manual dos CRIE; BCG a partir de 2.000 g; rotavírus no dia da alta, e não antes, dentro da janela da instrução normativa de 2026
- Orientar decúbito dorsal para dormir e sinais de alerta; sumário de alta escrito com todas as datas e resultados pendentes
Depois da alta — a idade corrigida e o calendário de anos
O bebê que sai na terceira etapa do Canguru volta para a equipe do hospital em até 48 horas e depois toda semana até 2.500 g, e o manual da sociedade descreve o compartilhamento com a atenção básica em três consultas na primeira semana, duas na segunda e uma por semana a partir da terceira. O seguimento de alto risco começa com uma consulta 7 a 10 dias após a alta e segue mensal até seis meses de idade corrigida, bimestral ou trimestral até doze, trimestral até 24 meses, semestral até quatro anos e anual até a puberdade, antecipando diante de ganho de peso ruim, atraso observado ou família com dificuldade de compreensão. A norma de 2024 organiza o ambulatório de seguimento do egresso de unidade neonatal na rede, com acesso regulado; o manual da sociedade reconhece que, no setor público, o seguimento precisa andar junto com a puericultura. O exame oftalmológico do prematuro, pelo guia federal, se repete aos 6, 12, 18 e 24 meses e depois todo ano, porque estrabismo, ambliopia e erro de refração aparecem mesmo sem retinopatia. Crescimento na curva e marcos do desenvolvimento, sempre em idade corrigida, são de A linha, não o ponto, e de O marco que ela tinha e perdeu.
Prescrição- Terceira etapa do Canguru: consulta com a equipe hospitalar em até 48 horas e depois no mínimo semanal até 2.500 g, compartilhada com a unidade básica
- Seguimento de alto risco: 1ª consulta 7 a 10 dias após a alta; mensal até 6 meses de idade corrigida; bimestral ou trimestral até 12; trimestral até 24 meses; semestral até 4 anos; anual até a puberdade
- Exame oftalmológico aos 6, 12, 18 e 24 meses e depois anual; manter o calendário de retina pendente até a alta oftalmológica
- Crescimento e desenvolvimento avaliados em idade corrigida; vacinas na idade cronológica
- Pré-termo tardio: reavaliação em até 48 horas após a alta e seguimento na puericultura com atenção a mamada, peso e icterícia
- No sumário, separar o retorno clínico precoce da primeira consulta especializada: a marcação para 7–10 dias não cancela o retorno em até 48 horas indicado para Canguru ou pré-termo tardio.
Como saber se está funcionando
Compare o prematuro com sua própria trajetória, usando a idade adequada para cada pergunta. Verifique ganho ponderal, eficácia da alimentação, necessidade respiratória, apneias, perímetro cefálico e execução dos rastreios. Não basta estar na data prevista: resultado anormal precisa de ação. Reaparecimento de apneias, regressão, assimetria, perda de habilidade ou dificuldade alimentar exigem avaliação clínica, mesmo que o calendário esteja preenchido.
Esperado: Sempre calculadas e escritas. São o denominador dos outros parâmetros: a mesma apneia significa coisas diferentes com 30 e com 35 semanas, e o mesmo peso aos quatro meses é bom ou ruim conforme a idade corrigida. Evolução sem idade é evolução que não permite decidir cafeína, retina ou alta.
Esperado: Queda progressiva dos eventos com cafeína e medidas de suporte. Apneia que volta ou aumenta num bebê que estava estável pede investigação de anemia, infecção, enterocolite e hemorragia antes de aumentar a dose. Para suspender a cafeína, mais de 34 semanas e mais de 5 a 7 dias sem apneia; para a alta, 7 a 10 dias sem apneia depois da suspensão e saturação acima de 90% em ar ambiente. Oxigênio acima de 21% no 28º dia define displasia broncopulmonar.
Esperado: Recuperação do peso de nascimento entre o 10º e o 20º dia e, depois, ganho em torno de 15 g/kg por dia; antes da alta, pelo menos 20 g por dia por três dias seguidos em alimentação exclusiva por via oral. No pré-termo tardio, perda menor que 10% do peso de nascimento. Ganho abaixo de 10 g por dia por quatro dias com oferta calórica plena entra nos critérios de anemia sintomática.
Esperado: Entre 36,5 e 37,5 °C. Antes da alta, temperatura normal vestido em berço comum, com o ambiente entre 20 e 25 °C. Valor entre 36,0 e 36,4 °C é estresse do frio e, no pré-termo tardio, pede contato pele a pele, revisão da mamada e reavaliação registrada — e hipotermia sem explicação térmica também é sinal de infecção.
Esperado: Ventrículos sem dilatação e perímetro cefálico crescendo em paralelo à curva. Dilatação ventricular nova, fontanela tensa ou perímetro que acelera no bebê com hemorragia sugerem hidrocefalia pós-hemorrágica e pedem novo ultrassom e discussão com a equipe no mesmo dia.
Esperado: Vascularização completa, que encerra o rastreio, ou retinopatia que regride. A data do próximo exame escrita na pasta após cada laudo. Pré-limiar tipo 1 ou doença limiar: tratamento em até 72 horas. Exame que passou da data sem registro é falha do processo, e se corrige hoje.
Esperado: Hemoglobina acima do gatilho do manual do Canguru para o suporte respiratório e os sintomas do bebê. Fosfatase alcalina abaixo de 800 UI/L e fósforo de 4 mg/dL ou mais; fosfatase a partir de 800 e subindo, sobretudo com fósforo baixo, leva à radiografia de punho e joelho; abaixo de 600 UI/L, sem fator de risco novo, o monitoramento pode parar.
Onde o erro machuca
O dano: Cada idade tem um uso, e trocar uma pela outra erra nos dois sentidos. Vacina dada pela idade corrigida atrasa dois ou três meses o esquema de um bebê que já nasceu sem os anticorpos que a mãe transferiria no fim da gestação, e o manual de seguimento da sociedade chama esse período de janela de vulnerabilidade imunológica. Desenvolvimento julgado pela idade cronológica transforma calendário em atraso: o ex-prematuro de 28 semanas que não sustenta a cabeça aos quatro meses de vida tem pouco mais de um mês de idade corrigida e pode estar exatamente onde deveria. E a retina se marca por semanas de vida, não pela idade pós-menstrual — quem espera o bebê “chegar a 32 semanas” para chamar o oftalmologista pode perder a janela.
O dano: A apneia é a via final comum de quase tudo o que adoece o prematuro. Rotulada cedo, ela esconde a sepse tardia, a enterocolite, a hemorragia intracraniana, a anemia e a hipotermia, e a resposta automática — aumentar a cafeína — pode reduzir os eventos por um dia enquanto a causa avança. A apneia das primeiras 72 horas e a apneia que volta num bebê estável são as duas que mais exigem investigação antes de receber nome, e o menino do leito 4, pálido e com resíduo, é o retrato da segunda.
O dano: A retinopatia não tem sinal que a equipe veja e o reflexo vermelho normal não a exclui. O tratamento da doença pré-limiar tipo 1 e da limiar tem prazo de 72 horas, e a doença que ultrapassa esse prazo pode descolar a retina. Um exame sem data escrita, um retorno de duas semanas que vira quatro ou uma transferência de hospital sem garantir a continuidade do acompanhamento são as formas mais comuns de perder a janela, e a diretriz brasileira põe a responsabilidade pelo exame na própria unidade justamente por isso.
O dano: O pré-termo tardio mama menos do que parece, perde calor e glicose com mais facilidade e tem icterícia que sobe mais e mais tarde. O manual da sociedade atribui o aumento dos casos de encefalopatia bilirrubínica às altas precoces de prematuros tardios sem acompanhamento, e registra risco de reinternação três vezes maior, sobretudo por icterícia, dificuldade alimentar e perda de peso. Alta com 30 horas, com mamada não observada, hipotermia na madrugada e retorno “na unidade básica quando der” é a sequência que devolve o bebê pelo pronto-socorro no quinto dia.
O dano: A meia-vida da cafeína no recém-nascido é de 50 a 100 horas. O bebê que tem a última dose num dia e alta no seguinte ainda está sob efeito do fármaco quando sai, e as apneias podem reaparecer em casa, sem monitor, dias depois. O manual de seguimento da sociedade recomenda de 7 a 10 dias sem apneia desde a suspensão antes da alta, e mais tempo nos nascidos com menos de 26 semanas; a suspensão precisa ser planejada com a data da alta, e não decidida junto com ela.
O dano: Vinte miligramas de citrato de cafeína correspondem a dez de cafeína base. O manual técnico do Canguru escreve “20 mg/kg” sem nomear o sal, e a leitura como base dobra a dose: no bebê de 980 g, o ataque passa de 0,98 mL para 1,96 mL da ampola de 20 mg/mL. A intoxicação por cafeína produz taquicardia, irritabilidade, tremores e convulsões, sinais que no prematuro se confundem com a doença que se tratava. Toda prescrição deste capítulo diz “citrato de cafeína”, a dose em mg/kg, a dose em mg para o peso do dia e o volume em mL.
O que dizer ao paciente e à família
A família do prematuro recebe, em poucas semanas, mais informação técnica do que a maioria das famílias recebe numa vida: siglas, números de exame, datas, aparelhos. O guia federal pede que não se sobrecarreguem os pais e que as dúvidas sejam respondidas com clareza e segurança; o mesmo guia, no capítulo do Canguru, lembra que é impossível esperar coerência de quem vive a internação de um filho recém-nascido, e que o primeiro passo cabe à equipe. As falas abaixo são com a mãe e o pai do menino do leito 4 e com a mãe da bebê do alojamento conjunto, e cada uma tenta dizer uma coisa só.
Explicando à mãe as pausas da madrugada e a cafeína
““Dona Alzira, a senhora deve ter ouvido que ele parou de respirar esta noite, e eu imagino o susto. Vou explicar o que acontece. O cérebro dele ainda está na fase em que, dentro da barriga, não precisava comandar a respiração o tempo todo, então às vezes ele faz uma pausa longa e o coração desacelera. É por isso que ele fica no monitor e é por isso que toma a cafeína, que ajuda o cérebro a lembrar de respirar. Mas uma pausa que volta depois de dias tranquilos também pode ser sinal de outra coisa — sangue baixo, uma infecção começando, a barriga. Então hoje vamos colher alguns exames antes de mexer no remédio. Não foi nada que a senhora fez nem deixou de fazer.””
Marcando o exame de retina com os pais e explicando por que a data não pode escorregar
““Seu Aldemir, Dona Alzira, tem um exame que ele precisa fazer na semana que vem, e eu quero que os senhores guardem a data junto com a gente. É o exame do fundo do olho. Os vasinhos da retina de quem nasce antes do tempo ainda não chegaram até a borda, e em alguns bebês eles crescem de um jeito errado. Isso não dói e ninguém consegue ver de fora, nem com o teste do olhinho. Só o oftalmologista vê, com o olho dilatado por um colírio. Se ele encontrar a forma que precisa de tratamento, o tratamento tem de ser feito em até três dias, e é o que protege a visão. Por isso, se por algum motivo ele for transferido ou tiver alta antes, os senhores têm direito a saber quando e onde é o próximo exame.””
Contando o resultado do ultrassom de crânio e o motivo de repetir
““O ultrassom da cabeça que ele fez no sétimo dia mostrou um sangramento pequeno, no lugar mais comum nos bebês que nascem cedo, uma área que ainda estava em formação. Na classificação que o laudo usa, é o grau mais leve. Eu não vou dizer que não é nada, porque a senhora ia perceber que eu estava escondendo alguma coisa; vou dizer o que a gente faz com isso. As formas que mais preocupam são as maiores, e a dele não é uma delas; mesmo assim ela precisa ser acompanhada, porque em alguns bebês o líquido de dentro da cabeça se acumula nas semanas seguintes. O exame devia ter sido repetido e vai ser hoje. A gente também vai medir a cabeça dele sempre com a mesma fita. Qualquer mudança, a senhora fica sabendo por mim.””
Explicando à mãe do alojamento conjunto por que a alta não é hoje
““Dona Suzana, eu sei que a senhora já está de alta e que a família está esperando no carro. A sua filha nasceu com 35 semanas, e bebê dessa idade parece pronto por fora, mas ainda não tem reserva de açúcar e de calor como o bebê de 40 semanas, e cansa antes de mamar o suficiente. Esta noite ela esfriou um pouco e ficou muito sonolenta, mamando com intervalos longos. Hoje eu quero ver uma mamada com a senhora, conferir o açúcar no sangue, a temperatura e o peso. Se amanhã ela estiver mamando bem e aquecida, ela vai para casa com retorno marcado em até dois dias, porque é nessa primeira semana que o amarelo sobe e o peso cai.””
Apresentando o Método Canguru à mãe que espera a vaga
““A senhora já está fazendo o mais importante, que é tirar leite e ficar com ele no colo, pele com pele. Quando ele chegar a 1.250 gramas, estiver estável e se alimentando só pela sonda ou pelo peito, ele pode ir para o quarto do Canguru, onde fica com a senhora dia e noite. Ninguém vai marcar tempo de posição: quem decide quanto tempo ele fica no seu peito são a senhora e ele. Lá a senhora aprende a cuidar dele sozinha, com a equipe do lado. E se precisar sair para ver os outros filhos, pode sair e voltar. O pai e os avós também podem vir.””
Explicando ao pai por que o filho não vai para casa no dia seguinte à suspensão da cafeína
““Seu Aldemir, a gente parou a cafeína ontem, e eu entendo que pareça a hora de ir embora. Mas esse remédio fica no sangue do bebê por vários dias depois da última dose. Se ele fosse para casa amanhã, ainda estaria com o efeito, e só descobriríamos se ele respira sozinho quando já estivesse no berço, sem monitor. Por isso a gente espera de sete a dez dias sem nenhuma pausa desde a suspensão. É uma semana a mais aqui para que a noite dele em casa seja tranquila.””
Explicando à família, na alta, as duas idades do bebê
““A partir de agora ele tem duas idades, e cada uma serve para uma coisa. Para as vacinas, vale a idade da certidão: ele vai tomar tudo no dia certo, como qualquer bebê, e prematuridade não é motivo para atrasar vacina. Para o crescimento e para o que ele deve estar fazendo, a gente desconta os três meses que ele nasceu antes. Então, quando ele tiver quatro meses e a vizinha disser que o filho dela já firma a cabeça, lembrem que, para esse assunto, ele tem pouco mais de um mês. Não comparem com os outros bebês; comparem com ele mesmo, consulta a consulta. E ele dorme sempre de barriga para cima.””
Onde bons médicos discordam
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.
Menos de 1.500 g e/ou menos de 32 semanas — Ministério da Saúde, guia de atenção ao recém-nascido, volume 4, 2014 (p. 121)
No capítulo de retinopatia, o guia federal apresenta como recomendação do Grupo ROP-Brasil, apoiada pelas sociedades de pediatria e de oftalmologia, o exame para recém-nascido com menos de 1.500 g e/ou menos de 32 semanas, e para os que têm fatores de risco. Lido ao pé da letra, o corte deixa fora o bebê de exatamente 1.500 g e toda a semana 32. O mesmo volume, porém, escreve na lista de verificação da alta (Quadro 9, p. 134) peso menor que 1.500 g e/ou idade gestacional de 32 semanas ou menos — o documento tem duas versões do próprio corte.
Brasil. Ministério da Saúde. Atenção à saúde do recém-nascido: guia para os profissionais de saúde, v. 4, 2. ed. atual., 2014, cap. 39 (39.5.2) e Quadro 9.
1.500 g ou menos e/ou 32 semanas ou menos — SBP, SBOP e CBO, diretriz brasileira de exame e tratamento, 2007
A diretriz das sociedades brasileiras de pediatria e de oftalmologia pediátrica e do conselho de oftalmologia, que é o documento de origem da recomendação, escreve peso de nascimento de 1.500 g ou menos e/ou idade gestacional de 32 semanas ou menos, e manda considerar o exame nos bebês maiores com síndrome do desconforto respiratório, sepse, transfusões, gestação múltipla ou hemorragia intraventricular. É mais larga que os critérios americano e britânico descritos no mesmo texto, de propósito: em países de desenvolvimento médio, bebês mais maduros também chegam à retinopatia grave. O manual de seguimento da SBP de 2024 a cita como a referência em uso.
Zin A, Florêncio T, Fortes Filho JB et al. Proposta de diretrizes brasileiras do exame e tratamento de retinopatia da prematuridade (ROP). Arq Bras Oftalmol. 2007;70(5):875-83.
Esta apostila adota 1.500 g ou menos e/ou 32 semanas ou menos, com exame considerado nos maiores com fator de risco. Os documentos têm o mesmo escopo — o rastreio de todo prematuro —, e pela data e pela natureza o guia federal ganharia. Mas o degrau da coerência interna decide antes: o guia contradiz a si mesmo entre a página do capítulo e o quadro da alta, e declara estar transcrevendo a diretriz, que escreve os dois cortes com “ou menos”. O defeito está no ponto exato em disputa, e a conta está em criterio.notas. Na prática, isso muda a conduta de dois bebês que aparecem toda semana numa unidade média: o de 32 semanas e alguns dias com mais de 1.500 g, e o de exatamente 1.500 g com 33 ou 34 semanas. Os dois são examinados. O custo da escolha é um exame a mais; o custo da outra leitura é uma retinopatia não procurada justamente no bebê mais maduro e mais pesado que, segundo o próprio guia federal, também chega à forma grave em países como o Brasil.
Até 34 semanas de idade pós-concepcional ou por 10 a 14 dias após o último episódio — Ministério da Saúde, guia de atenção ao recém-nascido, volume 3, 2014
O guia federal manda manter a metilxantina até que o recém-nascido complete 34 semanas de idade pós-concepcional ou por 10 a 14 dias após o último episódio de apneia. A conjunção admite que a segunda condição baste sozinha: o bebê nascido com 26 semanas, sem apneia há 14 dias ao completar 29 semanas — sem apneia justamente porque está em cafeína —, poderia parar ali.
Brasil. Ministério da Saúde. Atenção à saúde do recém-nascido: guia para os profissionais de saúde, v. 3, 2. ed. atual., 2014, item 23.10.
Depois de 34 semanas de idade corrigida e com mais de 5 a 7 dias sem apneia — Ministério da Saúde, manual técnico do Método Canguru, 3ª edição, 2017
O manual técnico recomenda retirar as xantinas, em geral, quando o bebê tem mais de 34 semanas de idade gestacional corrigida e está sem apneia há mais de cinco a sete dias — as duas condições juntas — e lembra que, mesmo depois disso, quedas de saturação e pausas podem ocorrer. Na mesma página, atribui à Academia Americana de Pediatria a possibilidade de suspender com cinco a sete dias sem apneia ou com 33 a 34 semanas, o que vier antes; a frase é relato de outra fonte, não a recomendação do manual. A bula do citrato registrado no país descreve a duração habitual até 34 semanas após a idade de concepção.
Brasil. Ministério da Saúde. Atenção humanizada ao recém-nascido: Método Canguru: manual técnico, 3. ed., 2017, módulo 4, capítulo 1 (1.5.2).
Esta apostila adota as duas condições juntas: suspender o citrato de cafeína depois de 34 semanas de idade pós-menstrual e com mais de 5 a 7 dias sem apneia. Os dois documentos são federais e têm o mesmo escopo; vence o mais novo, que também é o único dos dois cuja regra não pode ser lida como licença para parar cedo no bebê que só está bem por causa do remédio. A frase atribuída à academia americana fica registrada como atribuição, sem ser tomada como régua brasileira. Antes de decidir, vale separar o que não é rival: o período de segurança de 7 a 10 dias sem apneia desde a suspensão, do manual de seguimento da SBP de 2024, governa outro momento do mesmo bebê — a alta, depois da suspensão —, e se soma à regra em vez de competir com ela. No menino do leito 4, nascido com 27 semanas e 4 dias, as 34 semanas chegam no 45º dia de vida: a cafeína não se discute antes disso, e a alta não se marca antes de pelo menos uma semana depois da última dose.
Critérios para todos os menores de 4 meses — Ministério da Saúde, Guia para uso de hemocomponentes, 2ª edição, 2015
O guia indica transfusão com hemoglobina abaixo de 7 g/dL, reticulócitos baixos e sintomas de anemia; abaixo de 10 g/dL no bebê com oxigênio por cateter ou capacete com menos de 35%, em CPAP ou ventilação com pressão média abaixo de 6 cmH2O, com apneia significativa em uso de metilxantina, com taquicardia ou taquipneia sustentadas ou com ganho de peso reduzido; abaixo de 12 g/dL com capacete acima de 35% ou pressão média de 6 a 8 cmH2O; abaixo de 15 g/dL em oxigenação extracorpórea ou cardiopatia cianótica. Vale para qualquer lactente abaixo de 4 meses, prematuro ou não.
Brasil. Ministério da Saúde. Guia para uso de hemocomponentes, 2. ed., 1. reimpr., 2015, item 4.2, Quadro 7.
Critérios restritos para a anemia da prematuridade — Ministério da Saúde, manual técnico do Método Canguru, 2017, com os critérios da SBP de 2012
O manual reproduz os critérios restritos sugeridos pela Sociedade Brasileira de Pediatria: hemoglobina abaixo de 13 g/dL na cardiopatia cianótica, no choque ou na insuficiência cardíaca refratários; abaixo de 12 com ventilação e pressão média acima de 8 cmH2O, choque, transporte de bebê ventilado ou cirurgia de grande porte; abaixo de 10 com ventilação e pressão média abaixo de 8 ou CPAP com fração inspirada acima de 0,35; abaixo de 8 com oxigênio de fração baixa, apneias repetidas que exigem ventilação, taquicardia ou taquipneia sustentadas ou ganho de peso insuficiente; e abaixo de 7 no assintomático com reticulócitos baixos. Ressalva que as indicações devem ser individualizadas.
Brasil. Ministério da Saúde. Atenção humanizada ao recém-nascido: Método Canguru: manual técnico, 3. ed., 2017, módulo 4, capítulo 4 (4.3.1).
Esta apostila adota os critérios do manual do Canguru de 2017 para o prematuro com anemia da prematuridade. O degrau que decide é o primeiro, o do escopo: o manual foi escrito para essa doença nesse paciente, enquanto o guia de hemocomponentes cobre todo lactente abaixo de 4 meses; a data, mais nova, aponta para o mesmo lado. A diferença é real no leito. No prematuro em ar ambiente com apneias, taquicardia ou ganho de peso que estaciona, o gatilho é 8 g/dL, e não 10; no bebê sem sintoma com reticulócitos baixos, o gatilho de 7 g/dL não exige sintoma; na cardiopatia cianótica, 13, e não 15. As duas tabelas deixam valores de fronteira sem linha — detalhados em criterio.notas —, e esta apostila lê a pressão média de exatamente 8 cmH2O e a fração inspirada de exatamente 0,35 na linha de maior suporte; essa leitura é desta apostila, não de fonte. O guia de 2015 continua sendo a régua do lactente de termo abaixo de 4 meses e das indicações que o manual do Canguru não cobre. No menino do leito 4, em ar ambiente e com uma apneia que exigiu ventilação na noite, a decisão depende da hemoglobina de hoje e da contagem de eventos das próximas 24 horas.
O raciocínio, em voz alta
Filho de Alzira Cunha, leito 4 da terapia intensiva neonatal. Nasceu de parto vaginal com 27 semanas e 4 dias, 980 g, adequado para a idade gestacional. Hoje tem 23 dias de vida e 1.120 g; nos últimos quatro dias ganhou 30 g, recebendo leite materno ordenhado com aditivo por sonda, 150 mL/kg/dia, com oferta calórica acima de 100 kcal/kg/dia. Saiu do CPAP há dois dias e está em ar ambiente na incubadora. Recebe citrato de cafeína 4,9 mg a cada 24 horas desde o segundo dia, dose calculada pelo peso de nascimento e nunca reajustada. Na madrugada teve três apneias: duas revertidas com estímulo tátil e uma com frequência cardíaca de 70 bpm e saturação de 76%, que exigiu ventilação com balão e máscara por cerca de 20 segundos. Ao exame: pálido, frequência cardíaca de 168 bpm, abdome flácido e sem distensão, resíduo de 20% da última dieta, fezes sem sangue, temperatura axilar de 36,6 °C, glicemia capilar de 78 mg/dL. Ultrassom de crânio do sétimo dia com hemorragia restrita à matriz germinativa à esquerda, sem controle posterior. Exames colhidos às 8 horas: hemoglobina 7,6 g/dL, hematócrito 23%, reticulócitos 1,2%; leucócitos e plaquetas normais; proteína C-reativa dentro do valor de referência; hemocultura colhida. O ultrassom de crânio feito às 10 horas mostra a hemorragia em reabsorção, sem dilatação ventricular. Não há data marcada para o mapeamento de retina.
passo 1
Primeiro, as idades e a classificação, escritas antes de qualquer conduta. Idade gestacional ao nascer de 27 semanas e 4 dias: prematuro extremo. Peso de 980 g: extremo baixo peso, adequado para a idade. Idade cronológica de 23 dias, 3 semanas e 2 dias. Idade pós-menstrual de 30 semanas e 6 dias. É com essa última que se julgam a apneia e, adiante, a suspensão da cafeína; é pela idade cronológica que se abre a janela da retina.
passo 2
Segundo, a apneia não recebe nome ainda. É uma apneia que volta depois de dias estável, num bebê pálido, com resíduo gástrico — o perfil que obriga a procurar causa. A cabeceira e os exames da manhã percorrem a lista: temperatura normal e glicemia normal afastam hipotermia e hipoglicemia; abdome flácido, sem distensão e sem sangue nas fezes não fecha, mas não sustenta enterocolite, e o resíduo fica em vigilância pelo roteiro de A dieta que estava indo bem; leucócitos, plaquetas e proteína C-reativa normais não excluem infecção tardia, e a conduta diante da hemocultura pendente segue Começar sem saber, parar sem prova; o ultrassom não mostra sangramento novo nem dilatação. O achado que explica o quadro é a hemoglobina de 7,6 g/dL com reticulócitos baixos, num bebê que cresce: anemia da prematuridade, provável gatilho das pausas e da taquicardia.
passo 3
Terceiro, a dose da cafeína está errada pelo peso, e isso se corrige hoje. A dose de 4,9 mg foi calculada sobre 980 g; para 1.120 g, ela corresponde a 4,4 mg/kg, abaixo dos 5 mg/kg de manutenção. A prescrição correta é citrato de cafeína 5 mg/kg × 1,12 kg = 5,6 mg a cada 24 horas, 0,28 mL da ampola de 20 mg/mL de citrato, com recálculo semanal pelo peso. O que não se faz é pular para 10 mg/kg antes de tratar a causa encontrada: aumentar o fármaco para calar um sintoma de anemia é o erro que o capítulo descreve.
passo 4
Quarto, a transfusão, pela régua adotada por esta apostila — os critérios do manual do Canguru de 2017. O bebê está em ar ambiente, então as linhas que valem são as de 8 e de 7 g/dL. As apneias ainda não preenchem o critério de contagem: foram três em 12 horas, e só uma exigiu ventilação com balão e máscara, quando o critério pede mais de seis em 12 horas ou duas em 24 horas com ventilação. A taquicardia de 168 bpm está abaixo de 180. Mas o ganho de peso preenche: 30 g em quatro dias são 7,5 g por dia, abaixo de 10 g por dia por quatro dias com oferta calórica plena. Hemoglobina abaixo de 8 com ganho insuficiente: transfusão indicada. Aqui o guia de hemocomponentes de 2015 também indicaria, porque o seu gatilho para ganho reduzido é 10 g/dL; se a hemoglobina fosse 9,0, só o guia de 2015 transfundiria, e esta apostila não transfundiria. O componente e a requisição seguem O que fica depois da bolsa, da apostila de Hematologia e Hemoterapia, que trata do concentrado irradiado no recém-nascido abaixo de 1.200 g ou de 28 semanas.
passo 5
Quinto, a prevenção da próxima anemia, que começa na mesma prescrição. Coletas agrupadas e por micrométodo, só os exames que mudam conduta, reforço da monitorização não invasiva. O ferro profilático entra no plano pela dose e pela data de O que está escrito no vidro não é a dose, e a vitamina D de 400 UI por dia fica prescrita. Em 24 horas, recontar os eventos de apneia: se a causa era a anemia, eles devem diminuir sem mudança na cafeína além do ajuste de peso.
passo 6
Sexto, o crânio. A hemorragia de grau I do sétimo dia pedia ultrassom semanal, que não foi feito; o de hoje mostra reabsorção sem dilatação ventricular. O próximo controle fica escrito para daqui a sete dias, e o perímetro cefálico passa a ser medido em série com a mesma técnica. A pendência de hoje vira linha na evolução com data, e não comentário no plantão.
passo 7
Sétimo, a retina. O bebê entra no critério adotado — 1.500 g ou menos e 32 semanas ou menos — por dois motivos, e ainda soma um fator de risco, a transfusão. A janela vai do 28º ao 42º dia de vida. O oftalmologista vem às quintas-feiras: a desta semana é o 25º dia, cedo demais; a da semana seguinte é o 32º dia, dentro da janela. O exame fica marcado para esse dia, com o nome do responsável na pasta, e os pais recebem a explicação e a data por escrito.
passo 8
Oitavo, o osso. Extremo baixo peso e uso de cafeína somam fatores de risco para doença metabólica óssea. Fosfatase alcalina e fósforo ficam pedidos para o 28º dia, na mesma coleta de outros exames que forem necessários, para não criar uma punção só para isso.
passo 9
Nono, o calendário até a alta, projetado com as regras adotadas. A segunda etapa do Canguru exige 1.250 g: ganhando cerca de 17 g por dia, o equivalente a 15 g/kg, ele chega lá em pouco mais de uma semana, e até lá o contato pele a pele segue na unidade. As 34 semanas de idade pós-menstrual chegam no 45º dia; a cafeína só se suspende a partir daí e com mais de 5 a 7 dias sem apneia. A alta vem pelo menos 7 a 10 dias depois da suspensão, com via oral exclusiva, ganho de 20 g por dia por três dias, temperatura estável em berço, saturação acima de 90% em ar ambiente e, para a terceira etapa do Canguru, 1.600 g — a primeira data realista fica na oitava semana de vida, perto de 35 semanas de idade pós-menstrual.
passo 10
Décimo, a família e o registro. Dona Alzira ouve, antes da transfusão, o que foi encontrado, por que o sangue foi indicado e o que se espera nas próximas 24 horas; ouve também a data do exame de retina e o motivo de ela não poder escorregar. A evolução termina com as idades, a hipótese, as linhas de prescrição e cinco datas: recontagem de eventos em 24 horas, ultrassom em sete dias, fosfatase e fósforo no 28º dia, retina no 32º dia e reavaliação da dose de cafeína na próxima pesagem semanal.
Faça você
Unidade básica de saúde, consulta de puericultura agendada pela agente comunitária, que encontrou a família em visita. Filha de Scholastica Piedade, hoje com 4 meses e 5 dias de vida. Nasceu com 30 semanas e 2 dias e 1.380 g, adequada para a idade, ficou 46 dias na unidade neonatal, com cafeína e CPAP nas primeiras semanas, e teve alta com 1.880 g, pela terceira etapa do Canguru; recebeu a BCG na unidade básica ao completar 2.000 g e, desde então, não voltou ao hospital nem tomou outras vacinas, porque uma vizinha disse que “prematuro vacina pela idade corrigida”. O sumário de alta registra hemorragia peri-intraventricular grau I resolvida, “retina imatura em zona II, sem retinopatia; retorno oftalmológico em 2 semanas” — o retorno não aconteceu, porque a ficha de agendamento se perdeu —, sulfato ferroso e vitamina D. O ferro acabou no primeiro frasco e a vitamina D “parou quando a menina fez cólica”. Hoje pesa 3.650 g, mama no peito em livre demanda e dorme de bruços “porque engasga”. A avó conta que ela “ainda não firma a cabeça” e acha que ela é molinha. Sem apneia, febre ou internação desde a alta.
passo 1
Calcule a idade corrigida e a idade pós-menstrual de hoje, e diga para quais decisões desta consulta cada uma serve e para qual nenhuma das duas serve.
passo 2
O que fazer hoje com as vacinas, e o que a família arriscou ao esperar pela idade corrigida?
passo 3
O retorno oftalmológico não aconteceu. Dá para considerar o rastreio de retinopatia encerrado pela idade que ela tem hoje? O que se faz nesta consulta?
passo 4
Em que curva e com que idade se interpreta o peso de 3.650 g, e em que capítulo do nível essa régua é decidida?
passo 5
“Ainda não firma a cabeça”: atraso ou calendário? Com que idade se compara, e o que o exame precisa procurar mesmo assim?
passo 6
O que corrigir na rotina de casa — sono, ferro e vitamina D — e qual é o calendário de retornos dela a partir de hoje?
Ver como fecharíamos
As idades primeiro. Quatro meses e cinco dias são cerca de 125 dias de vida, 17 semanas e 6 dias. Ela nasceu 9 semanas e 5 dias antes das 40 semanas, o equivalente a 68 dias; a idade corrigida é de 57 dias, pouco mais de oito semanas — quase dois meses. A idade pós-menstrual é 30 semanas e 2 dias mais 17 semanas e 6 dias, ou 48 semanas e 1 dia. A idade corrigida serve para julgar crescimento e desenvolvimento; a pós-menstrual serve para situar o rastreio da retina; e nenhuma das duas serve para vacina, que segue a idade cronológica — o manual de seguimento da SBP chama a idade cronológica de único parâmetro que, com a condição clínica, orienta o início da imunização. Vacinas: todas as que estão atrasadas se atualizam hoje, pela idade cronológica, e o manual lembra que a maioria pode ser recuperada com intervalos de quatro semanas. Nascida com menos de 33 semanas e menos de 1.500 g, ela tem direito à vacina com pertussis acelular pelo manual dos Centros de Referência para Imunobiológicos Especiais, e o esquema de hepatite B em quatro doses já está contido no calendário atual. O rotavírus não está perdido: o manual da sociedade ainda traz a primeira dose até 3 meses e 15 dias, mas a instrução normativa do calendário de 2026 abriu a janela até 11 meses e 29 dias, e esta apostila adota a norma mais nova — a primeira dose vai hoje. O que a espera custou foram dois meses sem proteção contra coqueluche, pneumococo e Haemophilus. O detalhamento do esquema do prematuro é de Quem não pode esperar e quem não pode receber, na apostila de Infectologia Pediátrica, e o calendário geral é de Retomar, não recomeçar. Retina: não se encerra o rastreio por idade quando o último exame mostrou retina imatura e nenhum exame foi feito depois. A diretriz de 2007 só permite suspender com vascularização completa, com 45 semanas sem doença pré-limiar documentada ou com a retinopatia regredida — e ninguém documentou nada desde a alta. O encaminhamento ao oftalmologista sai hoje, com prioridade e com o sumário anexado, e não espera o exame de rotina dos 6 meses que o guia federal prevê para todo prematuro. A família precisa ouvir, e ter por escrito, que a consulta perdida é importante. Peso: 3.650 g com quase dois meses de idade corrigida lê-se de modo muito diferente de 3.650 g aos quatro meses; a leitura se faz na idade corrigida, e com 48 semanas de idade pós-menstrual ela ainda cabe no gráfico Intergrowth-21 de crescimento pós-natal do pré-termo que a Caderneta da Criança traz. A escolha entre curvas e o prazo da correção são decididos em A linha, não o ponto. Desenvolvimento: sustentação da cabeça aos quatro meses de vida é esperada no bebê de termo; ela, com quase dois meses de idade corrigida, pode estar exatamente no calendário dela. Isso não dispensa o exame: tônus, simetria, postura, seguimento visual e resposta ao som, porque ela nasceu muito prematura e com muito baixo peso, fatores de risco para atraso do desenvolvimento que o manual da sociedade lista entre os principais. Os marcos e os sinais de alerta por idade corrigida são de O marco que ela tinha e perdeu. Casa: ela dorme de barriga para cima, sempre — o manual do Canguru registra que a posição prona melhora a mecânica respiratória dentro da unidade monitorizada, mas se associa a morte súbita e deve ser evitada depois da alta; o engasgo relatado merece avaliação na própria consulta. O ferro profilático volta, pela dose e pelo prazo de O que está escrito no vidro não é a dose; a vitamina D de 400 UI por dia volta, com uma conversa sobre por que foi prescrita; como colecalciferol isolado não consta da Rename, a família precisa sair sabendo qual produto usar e quantas gotas correspondem à dose. A elegibilidade ao anticorpo contra o vírus sincicial respiratório se confere em Bronquiolite viral aguda. Retornos: ela está no seguimento de alto risco — mensal até 6 meses de idade corrigida, bimestral ou trimestral até 12, trimestral até 24 meses, semestral até 4 anos e anual até a puberdade —, e a primeira tarefa da unidade básica é reconectá-la ao ambulatório de seguimento do egresso de unidade neonatal da região. Exame oftalmológico aos 6, 12, 18 e 24 meses e depois anual, além do retorno de retina de hoje. O seguimento no setor público anda junto com a puericultura: a consulta de hoje já é parte dele.
A manutenção é de 5 mg/kg de citrato de cafeína a cada 24 horas, iniciada 24 horas depois do ataque de 20 mg/kg — é a tabela da bula do citrato registrado no país e a equivalência do guia federal de 2014, em que 20 mg/kg de citrato correspondem a 10 mg/kg de base. Para 1,2 kg: 5 × 1,2 = 6 mg de citrato; na ampola de 20 mg/mL, 0,3 mL. Ler a dose como base dobra a quantidade, erro favorecido pelo manual do Canguru de 2017, que escreve os miligramas sem nomear o sal. A meia-vida da cafeína no recém-nascido é longa, de 50 a 100 horas, o que sustenta a dose única diária e desautoriza o intervalo de 8 horas. O recálculo semanal pelo peso evita a subdose silenciosa do bebê que cresce.
Teste-se
Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.
Plano de revisão
Em 7 dias
Monte uma agenda individual para um prematuro do estágio: calcule as três idades, registre rastreios já feitos e pendentes e confira uma prescrição de citrato de cafeína do peso até o volume. Apresente quem executa cada próximo passo, qual achado anteciparia a avaliação e como a família repetiria as orientações de alta.
Em 30 dias
Resolva três situações com a referência aberta: apneias novas em prematuro de 26 semanas; pré-termo tardio com frio e mamadas ineficazes antes da alta; ex-prematuro que perdeu vacinas e retorno de retina. Justifique investigação e destino, recalcule as idades e construa o plano de recuperação das pendências. Consulta perdida requer busca de solução e prioridade apropriada, não conclusão automática de dano irreversível.
Agora atenda
Alojamento conjunto, 7 horas da manhã. A mãe de uma recém-nascida de 35 semanas e 2 dias, com 2.240 g ao nascer e 30 horas de vida, já recebeu alta obstétrica e pede que você libere a filha hoje. A folha da noite registra temperatura de 36,3 °C, mamadas a cada quatro ou cinco horas, bebê muito sonolenta e perda de 4% do peso. Conduza o atendimento: classifique a bebê pelas três réguas, pergunte sobre a datação da gestação, as mamadas, a diurese e o sono, observe uma mamada, decida o que falta para a alta segura do pré-termo tardio, explique à mãe por que hoje ainda não e combine o retorno em até 48 horas depois da saída.
