Pediatria › Neonatologia
O gemido que não é choro
Desconforto respiratório do recém-nascido: doença da membrana hialina, taquipneia transitória e aspiração meconial
O recém-nascido que respira mal nas primeiras horas, do berço do alojamento conjunto à ambulância da transferência: medir o esforço com o boletim de Silverman-Andersen e o oxímetro na mão direita e no pé, separar a taquipneia transitória da membrana hialina, da aspiração meconial, da hipertensão pulmonar, do pneumotórax, da hérnia diafragmática e da cardiopatia que imita pulmão, corrigir a temperatura e a glicemia antes de culpar o pulmão, dar oxigênio por alvo, instalar o CPAP pelo critério, saber quando a hipótese cai e quando chamar a UTI, e transportar sem perder o que se ganhou
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Ações Programáticas Estratégicas. Atenção à saúde do recém-nascido: guia para os profissionais de saúde. 2. ed. atual. Brasília: Ministério da Saúde, 2014. v. 3: Problemas respiratórios, cardiocirculatórios, metabólicos, neurológicos, ortopédicos e dermatológicos. ISBN 978-85-334-1986-5.
Almeida MFB, Guinsburg R; Coordenadores Estaduais do PRN-SBP; Grupo Executivo do PRN-SBP; Departamento de Neonatologia da SBP. Reanimação do recém-nascido ≥34 semanas em sala de parto: diretrizes 2026 da Sociedade Brasileira de Pediatria. Rio de Janeiro: SBP, 12 de junho de 2026. ISBN 978-65-85299-07-7. https://doi.org/10.25060/PRN-SBP-2026-1
Sweet DG, Carnielli VP, Greisen G, et al. European Consensus Guidelines on the Management of Respiratory Distress Syndrome: 2025. Neonatology. 2026;123(4):514-539. doi:10.1159/000551062
Brasil. Ministério da Saúde. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais: Rename 2024. Brasília: Ministério da Saúde, 2024.
Guinsburg R, Almeida MFB; Coordenadores Estaduais do PRN-SBP; Grupo Executivo do PRN-SBP; Departamento de Neonatologia da SBP. Reanimação do recém-nascido <34 semanas em sala de parto: diretrizes 2026 da Sociedade Brasileira de Pediatria. Rio de Janeiro: SBP, 12 de junho de 2026. ISBN 978-65-85299-06-0. https://doi.org/10.25060/PRN-SBP-2026-2
Afiune JY, Rego MAS, Sadeck LSR et al. Sistematização do atendimento ao recém-nascido com suspeita ou diagnóstico de cardiopatia congênita. Manual de Orientação nº 4. Departamentos Científicos de Cardiologia e de Neonatologia da Sociedade Brasileira de Pediatria, 11 de agosto de 2022
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Recém-nascida de 30 semanas e 1.400 g, cuja mãe não recebeu corticoide antenatal, tem gemido e retração desde o nascimento. Com 90 minutos de vida, está em CPAP nasal de 6 cmH2O, com FiO2 de 0,34 e saturação pré-ductal de 91%. O hospital tem surfactante e equipe treinada para administrá-lo por cateter fino. Pelo Consenso Europeu de 2025, adotado no capítulo para o prematuro, qual é a decisão?
O paciente que você vai ver
Uma e cinquenta e cinco da madrugada de sábado, maternidade de um hospital regional numa cidade de cento e quarenta mil habitantes. O alojamento conjunto tem vinte leitos; no fim do corredor fica a unidade de cuidados intermediários neonatal, seis berços, dois CPAP de selo d'água, um capacete de acrílico, um misturador de oxigênio e ar, oxímetros e bombas de infusão. Não há ventilador neonatal nem surfactante no estoque. A UTI neonatal mais próxima fica a cento e dez quilômetros e só se chega a ela pela central de regulação. Você é o interno da pediatria no plantão noturno; a pediatra está no centro obstétrico, numa cesárea de gêmeos.
O telefone da sala de prescrição toca. É a técnica de enfermagem do leito 14: “Doutor, a bebê da Nazira está respirando muito rápido e fazendo um barulhinho quando solta o ar. Eu vim fazer a glicemia das duas horas e não gostei.” Você anota o nome enquanto anda: Theodora, nascida à meia-noite e dez.
No caminho, o prontuário conta a noite. Nazira Lajedo, 34 anos, terceira gestação, duas cesáreas anteriores, diabetes gestacional diagnosticado com 26 semanas e em uso de insulina NPH desde a 30ª, com glicemias irregulares nas duas últimas semanas. A equipe obstétrica agendou a terceira cesárea para 37 semanas e 1 dia, datadas por ultrassonografia do primeiro trimestre. Não houve trabalho de parto, a bolsa estava íntegra, o líquido era claro, a pesquisa de estreptococo do grupo B colhida com 35 semanas veio negativa e Nazira não teve febre. Theodora nasceu chorando, com Apgar 8 e 9, pesando 3.720 g — grande para a idade gestacional —, ficou com a mãe no centro obstétrico e chegou ao alojamento conjunto à meia-noite e cinquenta.
O protocolo da casa para o bebê grande de mãe diabética mandou medir a glicemia com uma hora de vida: 44 mg/dL na fita. A técnica ajudou Nazira a pôr a bebê no peito, e a anotação diz “pegou pouco, soltava a mama, cansada”. A segunda glicemia estava marcada para as duas horas, e foi para ela que a técnica voltou.
Às duas em ponto você está ao lado do berço. Theodora está enrolada numa manta, a touca torta, o cabelo ainda úmido. Você descobre o tórax e conta a respiração num minuto inteiro no relógio: 86. A cada expiração sai um som curto, audível do pé da cama sem estetoscópio. Há um afundamento discreto entre as costelas, as asas do nariz abrem a cada inspiração e o tórax sobe um instante depois do abdome. A boca está rosada, as mãos e os pés, arroxeados. O oxímetro na mão direita marca 88% e, trocado para o pé, 87%. A frequência cardíaca é 158, o enchimento capilar, de dois segundos, e a temperatura axilar, 36,1 °C. A fita da glicemia dá 36 mg/dL.
Nazira, com dor da cesárea, pergunta do leito se pode dar de mamar de novo, “porque ela não mamou quase nada”. O pai, Cecilio, de pé, quer saber se é infecção, “porque a gente leu que bebê de mãe diabética pega mais coisa”.
O caminho curto está aberto. A história parece de manual: cesárea sem trabalho de parto, termo precoce, mãe diabética, respiração rápida nas primeiras horas — taquipneia transitória, oxigênio e esperar. Outro caminho curto, o do lado oposto, também está aberto: bebê gemendo, glicemia baixa, pai perguntando por infecção — hemocultura e antibiótico, e ninguém reclama no plantão seguinte. Os dois atalhos pulam as mesmas coisas. Theodora está fria, está com glicose baixa e respira com esforço, e cada uma dessas três coisas piora as outras duas. O nome “taquipneia transitória” só é verdadeiro no retrovisor, quando a bebê melhora no tempo em que a doença costuma melhorar; hoje, às duas da manhã, é uma hipótese com prazo de validade. O que você faz nos próximos quinze minutos, o que mede de hora em hora e o que precisa ter acontecido às seis horas de vida para essa hipótese continuar de pé é o assunto deste capítulo.
Quem adoece disso
Desconforto respiratório está entre as razões mais comuns para um recém-nascido sair do lado da mãe nas primeiras horas. As diretrizes de reanimação da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP, 2026) estimam que ele apareça em até 7% dos nascidos a termo e em 9% dos pré-termo tardios, sobretudo nos que nasceram de cesárea sem trabalho de parto, e que responda por 15% e 29% das internações em UTI neonatal nesses dois grupos. Numa maternidade como a do plantão de Theodora, com cerca de 2.400 partos por ano, se nove em cada dez bebês nascerem a termo, 7% deles são mais de 150 por ano — três por semana, sem contar os pré-termo. Não é intercorrência de plantão ruim: é rotina, e a rotina é onde o atalho mais se instala.
A cesárea sem trabalho de parto pesa porque o pulmão se esvazia de líquido, em boa parte, antes de nascer. O guia do Ministério da Saúde (MS, 2014) estima que cerca de 70% do líquido pulmonar fetal seja reabsorvido já com o início do trabalho de parto, que a passagem pelo canal elimine outros 5% a 10% e que o restante saia nas primeiras horas pelos linfáticos e capilares. Quem nasce sem trabalho de parto começa a respirar com o pulmão mais cheio. Na mesma lista do que atrasa essa reabsorção, o guia põe a asfixia perinatal, a policitemia e duas doenças da mãe, diabetes e asma. A diretriz da SBP acrescenta que a cesárea, mesmo no bebê a termo sem fator de risco antenatal, aumenta a chance de ele precisar de ventilação ao nascer.
A doença da membrana hialina tem outro retrato. É a doença respiratória mais frequente do pré-termo e é mais comum abaixo de 28 semanas, no sexo masculino, no filho de mãe diabética e no bebê que asfixiou (MS, 2014). O surfactante começa a ser produzido por volta da 20ª semana e só atinge o pico perto da 35ª; todo bebê que nasce antes disso nasce com menos do que vai precisar. A consequência prática é geográfica: o pré-termo que nasce num hospital sem UTI neonatal — o trabalho de parto que chegou com dilatação total, a gestante que não teve tempo de ser transferida — é o paciente em que as primeiras horas decidem mais, e ele cai justamente na mão de quem tem menos recurso.
O mecônio no líquido amniótico é comum e a síndrome de aspiração, rara, mas grave. O guia do MS situa o líquido meconial em 10% a 20% das gestações e a síndrome em 1% a 2% desses bebês, com mais risco acima de 40 semanas e depois de asfixia. Aplicada aos 2.537.576 nascimentos que o Brasil registrou em 2023 (SBP, 2026), a conta dá entre 250 mil e 500 mil bebês com líquido meconial e, entre eles, de 2.500 a 10 mil com a síndrome a cada ano. A mortalidade que o guia registra entre os que precisam de ventilação mecânica vai de 35% a 60%.
É nesse grupo que a mortalidade brasileira aparece com mais clareza. Em 2023, dos 15.933 óbitos na primeira semana de vida, 3.109 — um em cada cinco — tiveram como causa associada a asfixia, a hipóxia no nascimento ou a aspiração de mecônio, e entre os bebês de 2.500 g ou mais essas causas somaram uma morte a cada oito horas (SBP, 2026). Três por dia são mais de mil bebês por ano que nasceram com o peso de quem ia para casa em dois dias.
A hipertensão pulmonar persistente do recém-nascido acompanha boa parte desses casos graves. O guia do MS estima 1 a 2 casos por mil nascidos vivos — de 2.500 a 5.000 por ano, na mesma conta com os nascimentos de 2023 — e a coloca entre as principais causas de morte dos recém-nascidos em ventilação mecânica. Ela quase nunca aparece sozinha: vem com a aspiração meconial, com a asfixia, com a membrana hialina, com a sepse e com a hérnia diafragmática.
E há a pneumonia, que se esconde atrás de todas as outras. O guia registra que ela está presente em cerca de um terço dos recém-nascidos que morrem nas primeiras 48 horas e que, adquirida no canal de parto, costuma ser indistinguível da membrana hialina e da taquipneia transitória na clínica e na radiografia. Esse é o motivo pelo qual a decisão de tratar ou observar tem regra própria, no capítulo de sepse neonatal desta apostila.
O que esses números pedem ao interno é uma divisão rápida e honesta. A maioria dos bebês que respiram depressa nas primeiras horas melhora sozinha, e tratá-los como graves custa antibiótico, separação da mãe, jejum e vaga de UTI. Uma minoria vai piorar, e o que decide o desfecho dela é quanto tempo se leva para perceber. O capítulo inteiro é sobre fazer essa divisão cedo — e refazê-la no horário marcado.
Por que acontece o que acontece
No útero, o pulmão é um órgão cheio de líquido, com pouco sangue passando por ele. Nos primeiros minutos fora, ele precisa virar o contrário: cheio de ar e com todo o débito do ventrículo direito atravessando-o. O líquido sai do alvéolo para o interstício e dali para os linfáticos e capilares, num processo que começa com o trabalho de parto por mecanismos que o guia do Ministério da Saúde (MS, 2014) chama de ainda pouco conhecidos. Enquanto esse líquido não sai, o pulmão fica pesado e pouco complacente, e a saída mais barata para o bebê é respirar com volumes pequenos e frequência alta. É isso a taquipneia transitória: um pulmão encharcado que se esvazia em um a três dias. Na radiografia, o líquido aparece onde ele está — no interstício ao redor dos hilos e nas cisuras — e o pulmão costuma estar insuflado, não colapsado.
A membrana hialina é outro problema: falta a substância que impede o alvéolo de fechar. O surfactante é feito de lipídeos, cerca de 90%, e proteínas, cerca de 10%; a fosfatidilcolina saturada é o componente que baixa a tensão superficial, e as apoproteínas SP-A, SP-B, SP-C e SP-D governam a função e o metabolismo dele. Sem surfactante suficiente, o alvéolo colapsa ao fim de cada expiração e precisa ser reaberto do zero na inspiração seguinte. As atelectasias se somam, a capacidade residual funcional e a complacência caem, o sangue passa por alvéolos que não trocam gás e vêm a hipoxemia, a hipercapnia e a acidose. As três contraem a artéria pulmonar, a pressão pulmonar sobe, parte do sangue desvia pelo forame oval e pelo canal arterial sem passar pelo pulmão, e a hipoxemia piora: é o círculo vicioso que o guia do MS descreve. O pré-termo acrescenta uma membrana alvéolo-capilar mais permeável; o líquido e as proteínas que vazam para o alvéolo inativam o pouco surfactante que havia.
Isso explica a curva da doença. A deficiência de surfactante é máxima no nascimento, e a produção própria aumenta gradualmente nos primeiros três a cinco dias (Consenso Europeu, 2025). Por isso o esforço cresce nas primeiras 24 horas, chega ao pico perto de 48 horas e começa a ceder depois de 72 (MS, 2014). E explica o relógio do tratamento: o surfactante exógeno funciona melhor antes da lesão, quando ainda há alvéolo para abrir; na doença instalada, com epitélio lesado e o espaço aéreo cheio de surfactante inativado, a eficácia cai (Consenso Europeu, 2025). Quem espera o bebê ficar grave para chamar quem dá surfactante chama tarde.
O gemido expiratório é a defesa do próprio bebê contra o colapso. Ele fecha parcialmente a glote durante a expiração, uma manobra de Valsalva incompleta, e segura ar dentro do pulmão para manter a capacidade residual funcional (MS, 2014). É uma pressão positiva no fim da expiração feita com a laringe. As retrações contam a outra metade: o pulmão endurecido exige pressão pleural muito negativa, e a caixa torácica do recém-nascido, maleável, afunda — primeiro entre as costelas e embaixo delas, depois o esterno inteiro, até o tórax descer enquanto o abdome sobe, a respiração em gangorra. O CPAP faz de fora o que o gemido faz de dentro: estabiliza a caixa torácica, impede o colapso alveolar, aumenta a capacidade residual funcional, poupa o surfactante e redistribui o líquido pulmonar. O preço é a pressão, e com ela vem o risco de o ar escapar do alvéolo.
O mecônio lesa de três jeitos ao mesmo tempo. Aspirado no útero, quando a hipoxemia desencadeia movimentos respiratórios em gasping, ou nas primeiras respirações, ele obstrui: partículas grandes fecham vias aéreas centrais e sufocam; partículas pequenas fecham bronquíolos, formam atelectasias ou funcionam como válvula, deixando o ar entrar e não sair, o que hiperinsufla áreas inteiras e rompe alvéolos. Ele inflama: produz uma pneumonite química com necrose celular, que infecção bacteriana pode complicar. E ele inativa o surfactante nas vias aéreas distais. O guia do MS acrescenta um quarto efeito, vascular: o mecônio parece induzir agregação de plaquetas com liberação de substâncias vasoativas no leito pulmonar. O resultado é um pulmão em mosaico — atelectasia ao lado de hiperinsuflação — com a pressão pulmonar alta.
A hipertensão pulmonar persistente é a falha da segunda metade da transição. Ao nascer, a resistência vascular pulmonar precisa cair quando o pulmão se enche de ar e o oxigênio sobe. Quando ela não cai, o sangue continua a fazer o caminho fetal, da direita para a esquerda, pelo forame oval e pelo canal arterial. O canal desemboca na aorta descendente, depois dos ramos que levam sangue à cabeça e ao braço direito; o sangue que passa por ele chega ao pé, e não à mão direita, e por isso a saturação pós-ductal fica abaixo da pré-ductal. Se o desvio for só pelo forame oval, as duas caem juntas e a diferença some — a falta de diferença não afasta a doença. O guia do MS agrupa as causas em três: a má adaptação, com vasos normais que se contraem por asfixia, aspiração, membrana hialina, sepse ou policitemia, em geral reversível e responsiva a vasodilatador; o mau desenvolvimento, com parede muscular espessada desde antes do nascimento; e o subdesenvolvimento, com leito vascular pequeno, como na hérnia diafragmática, que costuma não responder. Como choro, dor e manipulação contraem a artéria pulmonar, esses bebês dessaturam a cada toque — a labilidade que ajuda a reconhecê-los.
Frio e glicose baixa entram nesse circuito por baixo. A hipotermia aumenta o consumo de oxigênio e está associada a mais mortalidade no pré-termo (Consenso Europeu, 2025); a acidose que ela produz contrai a artéria pulmonar. A hipoglicemia tem, entre os sinais que o MS lista, taquipneia, apneia e cianose, e o próprio esforço respiratório grave aparece no guia entre as situações de estresse que consomem glicose. No bebê de mãe diabética soma-se o excesso de insulina, que puxa a glicemia para baixo nas primeiras horas. Theodora está nesse triângulo: cada ponta alimenta as outras duas, e tratar só o pulmão deixa as duas pontas trabalhando contra o oxigênio. O pneumotórax fecha a lista dos agravantes mecânicos: o ar que escapa para a pleura comprime o pulmão e, sob tensão, eleva a pressão intratorácica, dificulta a volta do sangue ao coração e faz cair o débito, até a hipotensão e o choque (MS, 2014).
Duas doenças de fora do parênquima fingem ser pulmão. Na cardiopatia com fluxo pulmonar dependente do canal arterial, o canal ainda aberto garante sangue para o pulmão nas primeiras horas; à medida que ele se fecha, a cianose aparece no choro e na mamada, com pouca ou nenhuma retração e só a frequência respiratória aumentada, porque quem acelera a respiração é o quimiorreceptor, não o pulmão doente (MS, 2014). O oxigênio melhora a doença do parênquima, mas pouco muda a mistura fixa de sangue do coração malformado — é o princípio do teste de hiperóxia. Em algumas lesões, como a hipoplasia do coração esquerdo, oxigênio demais dilata a artéria pulmonar e rouba o fluxo sistêmico. Na hérnia diafragmática, as alças ocupam o tórax desde a vida fetal, o pulmão e o leito vascular crescem pequenos, e a ventilação com máscara enche de ar o intestino que está dentro do tórax — por isso a diretriz da SBP (2026) manda intubar e passar sonda gástrica quando esse bebê precisa de ventilação.


Como se apresenta de verdade
Quase toda doença respiratória do recém-nascido começa nas primeiras 72 horas, e quase todas falam a mesma língua: respiração rápida, gemido, retração, batimento de asa nasal, cianose. O guia do Ministério da Saúde (MS, 2014) resume o problema numa frase — a maioria se manifesta nas primeiras horas de vida, de forma inespecífica e com sobreposição de sinais — e aponta a saída: a história materna e do parto, o exame feito com método e a imagem, juntos. O capítulo de sepse neonatal desta apostila diz o mesmo pelo outro lado: nenhum desses sinais, isolado, separa membrana hialina, taquipneia transitória, aspiração meconial e pneumonia. O que separa é o padrão, a companhia e, sobretudo, o curso.
Este capítulo começa onde a sala de parto termina. A triagem da vitalidade, o líquido meconial na recepção, o CPAP na sala e o transporte até a unidade são de Reanimação neonatal em sala de parto; aqui o bebê já está no berço — ou começa a respirar mal no alojamento conjunto. Este capítulo assume o diagnóstico diferencial completo do desconforto respiratório do recém-nascido, que Começar sem saber, parar sem prova lhe cedeu, e devolve àquele capítulo a metade infecciosa: a pneumonia neonatal precoce como causa de desconforto e a decisão de tratar ou observar. Duas idades no mesmo berço trata a membrana hialina como risco do prematuro e cede a este capítulo os limiares e os tratamentos; ficam com ele a classificação, as complicações próprias do pré-termo, a apneia da prematuridade e a cafeína, a retinopatia, o Canguru e a alta. O corticoide antenatal é de As horas que o corticoide precisa, e a rotura prematura, de Os dois relógios da bolsa rota, ambos em Parto e assistência ao nascimento; a época da cesárea eletiva é de Cesariana e parto vaginal operatório, na mesma apostila. O teste do coraçãozinho é de As cinco triagens neonatais, em Puericultura e Desenvolvimento, e a atresia de esôfago, de A sonda que para em doze centímetros, em Cirurgia Pediátrica. A hipoglicemia do bebê que respira mal é de O cordão foi cortado, a insulina não, e o recém-nascido asfixiado depois da admissão, de Depois que o coração voltou, ambos nesta apostila; deles este capítulo guarda só a parte que decide na urgência — a glicemia do bebê em dieta zero, a normotermia e o prazo de 6 horas da hipotermia terapêutica. A cardiopatia canal-dependente que imita pulmão é de O roxo que o oxigênio não corrige, na apostila de Cardiologia Pediátrica; este capítulo guarda dela só a parte que decide na urgência — reconhecer, começar a prostaglandina sem esperar o ecocardiograma e regular. A hérnia diafragmática congênita não tem capítulo previsto no nível: este assume o reconhecimento e a primeira hora.
Contar, olhar e escutar: os sinais e o boletim de Silverman-Andersen
A frequência respiratória normal do recém-nascido vai de 40 a 60 por minuto. Taquipneia é a frequência que se mantém acima de 60 por minuto em repouso ou durante o sono (MS, 2014) — contada por um minuto inteiro, com o tórax descoberto, e repetida, porque o choro e a mamada aceleram qualquer bebê. Ela é o sinal mais precoce das doenças do parênquima, mas também aparece sozinha, sem retração nem gemido, na febre, na sepse, nos distúrbios metabólicos e na cardiopatia congênita. Taquipneia sem esforço é um sinal que aponta para fora do pulmão.
O esforço se vê em quatro sinais. O batimento de asa nasal diminui a resistência da via aérea superior de um bebê que respira só pelo nariz. O gemido expiratório é a glote semifechada segurando volume, e o guia do MS o descreve como muito comum na membrana hialina. O head bobbing é a cabeça subindo e descendo a cada respiração pela musculatura acessória do pescoço. As retrações começam intercostais e subcostais e, quando a doença progride, pegam o esterno e produzem a respiração em gangorra. A cor fecha a avaliação: a cianose das mãos e dos pés nas primeiras horas é acrocianose, benigna; a da mucosa da boca é central, aparece quando a hemoglobina reduzida passa de 5 g/dL e sempre se investiga — cardiopatia, hipertensão pulmonar ou doença grave do parênquima. Nas primeiras 72 horas, apneia quase sempre tem causa, como asfixia, infecção, hemorragia intracraniana, hipotermia, obstrução ou convulsão; a apneia da prematuridade raramente começa antes de 48 horas (MS, 2014).
O boletim de Silverman-Andersen transforma essa inspeção em número. São cinco parâmetros, cada um de 0 a 2: a sincronia entre tórax e abdome (sobem juntos, o tórax atrasa, ou gangorra), a tiragem intercostal (ausente, discreta, acentuada), a retração do apêndice xifoide (ausente, discreta, acentuada), o batimento de asa nasal (ausente, discreto, acentuado) e o gemido expiratório (ausente, audível só com estetoscópio, audível sem ele). O guia do MS chama de leve a soma abaixo de 5 e diz que 10 é o grau máximo; entre 5 e 9 ele não dá nome. O boletim não diagnostica nem indica tratamento sozinho. O que ele faz bem é mostrar direção: a mesma pessoa, o mesmo bebê, uma nota por hora na folha. Theodora teve 5 às duas da manhã — tórax atrasando 1, tiragem intercostal 1, xifoide 0, asa 1, gemido audível sem estetoscópio 2 — e o número importa menos que o das três e das seis horas.
Taquipneia transitória: o bebê de termo que nasceu molhado
O guia do MS descreve a taquipneia transitória, ou síndrome do pulmão úmido, como desconforto leve a moderado, em geral benigno, pelo atraso na reabsorção do líquido pulmonar. O bebê típico é de termo ou quase termo, nascido de cesárea eletiva sem trabalho de parto, às vezes de mãe diabética ou asmática, às vezes depois de asfixia ou com policitemia. O desconforto começa nas primeiras horas e é leve a moderado, a taquipneia é o sinal mais evidente, e a melhora começa entre 24 e 48 horas, com resolução em dois a três dias.
O mesmo guia faz a advertência que desmonta o diagnóstico precoce: clinicamente, o quadro é muito semelhante ao da membrana hialina leve, e o diagnóstico diferencial pela clínica é muito difícil. A radiografia ajuda, mas também tem idade. Por isso a taquipneia transitória é, na prática, um diagnóstico confirmado pelo curso. Às duas horas de vida ela é a hipótese mais provável para Theodora; às seis, precisa estar se comportando como taquipneia transitória para continuar sendo o nome dela.
O que não faz parte do quadro, e por isso derruba a hipótese, é o que o bebê molhado não costuma ter: febre ou temperatura instável sem causa ambiental, má perfusão, necessidade de oxigênio que sobe hora a hora em vez de cair, gemido e retração que se acentuam depois das primeiras horas, oxímetro do pé abaixo do da mão direita, sopro, pulsos femorais fracos, desconforto que atravessa o terceiro dia. A seção de sinais de alarme, no fim deste bloco, transforma essa lista nos gatilhos que esta apostila adota para reabrir o diagnóstico.
Doença da membrana hialina: o pulmão que fecha a cada expiração
O bebê típico é pré-termo, e quanto mais prematuro, mais provável; mas o filho de mãe diabética e o bebê que asfixiou a têm mais que outros da mesma idade gestacional, e o termo precoce nascido de cesárea sem trabalho de parto não está livre dela. O esforço aparece logo depois do nascimento — o guia do MS põe o início do desconforto nas primeiras 3 horas de vida entre os critérios diagnósticos —, cresce nas primeiras 24 horas, chega ao pico perto de 48 e melhora depois de 72. Gemido e retração são mais marcados que na taquipneia transitória, e a necessidade de oxigênio sobe em vez de estabilizar. A má evolução se anuncia com apneias e com piora hemodinâmica e metabólica.
Essa curva clássica é modificável, e o guia do MS lista três coisas que a modificam: o corticoide antenatal que a mãe recebeu ou não, a assistência ventilatória precoce e o surfactante exógeno. Um prematuro de 31 semanas cuja mãe recebeu o ciclo completo de corticoide e que entrou em CPAP na sala de parto pode nunca desenhar a curva do livro; um bebê de 37 semanas de mãe diabética pode desenhá-la inteira. Quem espera o livro espera errado nos dois.
O guia do MS pede cinco elementos para considerar a doença: um bebê prematuro, de pulmão imaturo; desconforto que começa até a terceira hora de vida; sinais de pulmão rígido e com pouco volume, com esforço aumentado; dependência de oxigênio ou de suporte por mais de 24 horas para manter a gasometria normal; e uma radiografia, feita entre 6 e 24 horas de vida, com infiltrado reticulogranular difuso e broncogramas aéreos. Dois deles só se cumprem com o tempo — as 24 horas de suporte e a radiografia a partir de 6 horas —, o que empurra, de novo, a decisão para a reavaliação.
Aspiração meconial e hipertensão pulmonar: o bebê que dessatura ao toque
A síndrome de aspiração meconial é doença do termo e do pós-termo que asfixiou e nasceu em líquido meconial (MS, 2014). Os sintomas começam cedo e progridem, com cianose grave; o tórax costuma parecer cheio, pela hiperinsuflação. Sem complicação, o mecônio vai sendo absorvido e o quadro se resolve em cinco a sete dias. As complicações que mudam tudo são duas: o ar que escapa e a hipertensão pulmonar.
O bebê com líquido meconial que nasceu com boa vitalidade ficou com a mãe, como manda a diretriz da SBP (2026), e isso está certo — mas ele continua sendo um bebê com mecônio no líquido. Taquipneia, gemido ou cianose que aparecem nas horas seguintes, no alojamento conjunto, pedem a mesma avaliação de qualquer outro, com a aspiração meconial no topo da lista.
A hipertensão pulmonar persistente tem um desenho próprio, que o guia do MS descreve pela desproporção: a hipoxemia é grave e o desconforto, discreto ou moderado. O bebê precisa de muito oxigênio, dessatura a qualquer manipulação — aspirar, pesar, puncionar, trocar a fralda. Ela aparece com a aspiração meconial, a asfixia, a membrana hialina, a sepse, a pneumonia, a hipoplasia pulmonar e a hérnia diafragmática; e há bebês de termo em que ela surge sem doença pulmonar, entre as causas que o guia agrupa como mau desenvolvimento dos vasos: hipóxia fetal crônica, pós-maturidade, uso materno de anti-inflamatório não hormonal ou de inibidor seletivo da recaptação da serotonina, filho de mãe diabética. No exame, o sinal que a denuncia não se ouve com estetoscópio: está na diferença entre o oxímetro da mão direita e o do pé.
O que imita o pulmão ou se soma a ele
Todo recém-nascido que respira mal precisa ter temperatura e glicemia avaliadas enquanto recebe suporte. Hipoglicemia pode causar ou agravar alterações respiratórias e coexistir com sepse, hipotermia e cardiopatia. Um valor baixo no glicosímetro requer confirmação laboratorial, mas não deve atrasar tratamento na hipoglicemia grave ou sintomática. Utilize o percurso de Hipoglicemia neonatal e filho de mãe diabética, distinguindo limiar de intervenção, meta durante tratamento e método de medida; não converta automaticamente sangue total em plasma por uma diferença fixa.
O pneumotórax pequeno pode ser assintomático ou dar só taquipneia, gemido e retração, com murmúrio diminuído do lado acometido. O hipertensivo é dramático: piora abrupta com desconforto, cianose, bradicardia, má perfusão, hipotensão e choque, assimetria do tórax com menos expansão de um lado e o ictus e as bulhas deslocados para o outro (MS, 2014). Ele pode acontecer espontaneamente, mas é mais frequente em quem recebe pressão positiva — no CPAP ou na ventilação — e em quem tem aspiração meconial. O pneumomediastino costuma ser silencioso.
A hérnia diafragmática congênita costuma chegar com diagnóstico da ultrassonografia pré-natal. Quando não chega, é o bebê que respira mal desde o primeiro minuto, com abdome escavado, murmúrio abolido de um lado — em geral o esquerdo — e bulhas deslocadas para o outro, às vezes com ruídos hidroaéreos no tórax. A pista que muda a conduta imediata é essa: ele não pode ser ventilado com máscara.
A cardiopatia congênita que imita pulmão é a dependente do canal arterial. O guia do MS dá o retrato: história perinatal benigna, peso adequado, bom Apgar, cianose que aparece com as horas, primeiro no choro e na mamada, sem retração, gemido ou batimento de asa, só com a frequência aumentada. A saturação normal do recém-nascido depois de 24 horas é de 95% ou mais; frequência acima de 60 em repouso e saturação abaixo de 90% depois de 24 horas são, para o guia, os dois sinais mais importantes de cardiopatia grave e pedem investigação antes da alta. A clínica é traiçoeira no meio do caminho: abaixo de 80% qualquer um vê a cianose, entre 80% e 90% quase ninguém.
E há a infecção, que pode estar por trás de qualquer um desses quadros. Corioamnionite, rotura de membranas acima de 18 horas, trabalho de parto prematuro sem causa aparente e colonização materna pelo estreptococo do grupo B são os fatores de risco que o guia do MS lista para a pneumonia neonatal; os sinais sistêmicos — intolerância alimentar, letargia, hipotonia, temperatura instável, distensão abdominal — somam-se aos respiratórios. Pesar esses fatores e decidir entre tratar e observar é de Começar sem saber, parar sem prova.
Sinais de alarme e a hipótese que cai
Alguns sinais dispensam a discussão diagnóstica e pedem suporte agora. O guia do MS os agrupa em quatro: obstrução de via aérea (gasping, sufocação, estridor), falência respiratória (apneia, esforço débil), colapso circulatório (bradicardia, hipotensão, má perfusão) e má oxigenação (cianose, hipoxemia ou palidez). Com qualquer um deles, a pediatra vem já e a ventilação com pressão positiva fica pronta ao lado do berço.
Fora dessa urgência, o que decide é o relógio. Esta apostila adota seis gatilhos para derrubar a hipótese de taquipneia transitória e reabrir o diagnóstico, reunidos a partir dos documentos deste capítulo: piora ou persistência do desconforto depois de 6 horas de vida, que é também o ponto em que o capítulo de sepse manda tratar; necessidade crescente de oxigênio, e em especial chegar ao critério de CPAP do guia do MS; diferença de saturação entre a mão direita e o pé; sinal sistêmico, como temperatura instável sem causa ambiental, má perfusão ou recusa alimentar; radiografia que não combina com o pulmão úmido; e desconforto que atravessa o terceiro dia, além do prazo de resolução que o guia dá à doença. A lista é leitura desta apostila, não de um documento só.
Nenhum dos gatilhos exige certeza. Eles não dizem o que o bebê tem; dizem que o nome provisório deixou de explicar o que se vê, e que é hora de radiografia de novo, de repensar infecção, de medir a diferença de saturação e de telefonar para a regulação.
Como fechar o diagnóstico
A ordem dos exames neste capítulo é quase o inverso da ordem em que eles costumam ser pedidos. Primeiro vêm os que se fazem com as mãos e custam um minuto — contar, pontuar o esforço, pôr o oxímetro na mão direita e no pé, medir a temperatura, espetar o calcanhar para a glicemia — e a história que o prontuário já tem. A radiografia vem depois, e com hora marcada para ser repetida. Gasometria, exames de infecção e ecocardiograma entram pela pergunta que se quer responder, não pelo reflexo.
O guia do Ministério da Saúde (MS, 2014) desenha o diagnóstico diferencial da dificuldade respiratória como uma árvore de causas respiratórias, cardiovasculares, metabólicas, infecciosas e neuromusculares, com a mesma raiz: história e exame físico. A árvore tem mais de vinte ramos; na primeira hora, os que mudam a conduta são poucos, e cada seção abaixo corresponde a um deles.
A história que separa antes de qualquer exame
Idade gestacional e peso vêm primeiro: abaixo de 35 semanas, membrana hialina é a hipótese a derrubar; no termo, ela desce na lista e sobem a taquipneia transitória, a aspiração meconial, a hipertensão pulmonar, a pneumonia e a cardiopatia. Depois, a via de parto e o trabalho de parto: cesárea sem trabalho de parto é o fator de risco mais citado da taquipneia transitória, e trabalho de parto prematuro sem causa aparente é fator de risco de infecção. A bolsa: rotura acima de 18 horas, febre materna, taquicardia materna ou fetal, útero doloroso e líquido fétido desenham corioamnionite (MS, 2014) e passam a decisão de tratar para Começar sem saber, parar sem prova. O estreptococo do grupo B: colhido, negativo ou desconhecido, e se houve profilaxia.
O líquido amniótico e a sala de parto: líquido meconial, bebê não vigoroso, necessidade de ventilação, Apgar. A mãe: diabetes, asma, pré-eclâmpsia, medicamentos no fim da gestação — anti-inflamatório não hormonal e inibidor seletivo da recaptação da serotonina aparecem no guia do MS entre as causas de hipertensão pulmonar por mau desenvolvimento dos vasos. O corticoide antenatal: se foi feito, quantas doses e quando a primeira. A ultrassonografia pré-natal: hérnia diafragmática, cardiopatia, polidrâmnio.
E a hora em que o desconforto começou, que é o dado mais subestimado. Desde o primeiro minuto aponta para doença estrutural, como hérnia diafragmática e hipoplasia, ou para asfixia. Nas primeiras 3 horas cabem membrana hialina, taquipneia transitória, aspiração e pneumonia. Depois de um intervalo bom, com cianose que aparece no choro e na mamada, a cardiopatia canal-dependente sobe na lista. Engasgo e salivação na primeira mamada levam à atresia de esôfago, de A sonda que para em doze centímetros.
O oxímetro na mão direita e no pé
O sensor na mão direita mede sangue que saiu da aorta antes do canal arterial: é a saturação pré-ductal, a que diz quanto oxigênio chega ao cérebro e a que guia o ajuste do oxigênio. O sensor em qualquer um dos pés mede sangue que já pode ter recebido o desvio do canal: é a pós-ductal. A mão esquerda não serve para nenhuma das duas, porque a artéria subclávia esquerda pode sair antes ou depois do canal. A leitura só vale com curva de pulso boa e bebê quieto; a diretriz da SBP (2026) lembra que a oximetria perde acurácia na hipoxemia grave e com movimentação excessiva.
A diferença pré e pós-ductal é o dado que o estetoscópio não dá. O guia do MS considera significativa, para o diagnóstico de hipertensão pulmonar persistente, uma diferença de saturação acima de 5% entre a mão direita e o membro inferior, ou de PaO2 acima de 20 mmHg. Duas ressalvas mudam a leitura. A primeira: se o desvio da direita para a esquerda for só pelo forame oval, a diferença some e a doença continua lá. A segunda: a triagem de cardiopatia do bebê saudável, feita depois de 24 horas e com bandas próprias, é outro teste, com outra finalidade, e pertence a As cinco triagens neonatais; os números dela não se aplicam ao bebê que está no oxigênio.
Os alvos pré-ductais minuto a minuto da diretriz da SBP — de 65% a 70% aos 2 minutos até 85% a 95% aos 10 — valem para a transição na sala de parto. Na unidade, com horas de vida, o alvo é outro, e a escolha dele por idade gestacional está no bloco de divergências e na conduta. Nas primeiras horas, o que se registra a cada avaliação é o par: saturação pré-ductal e a fração de oxigênio que foi preciso para chegar a ela. Uma saturação de 92% em ar ambiente e uma de 92% com oxigênio a 45% são dois bebês diferentes.
Temperatura e glicemia: dois números antes da radiografia
A temperatura central deve ficar entre 36,5 °C e 37,5 °C o tempo todo (Consenso Europeu, 2025); na prática da enfermaria, é a axilar medida com termômetro digital. Theodora, com 36,1 °C, está hipotérmica — e hipotermia leve, numa sala fria de madrugada, num bebê com o cabelo úmido, é causa suficiente para respirar mais depressa e gastar mais glicose. No bebê que asfixiou, o erro é o oposto: a diretriz da SBP (2026) manda evitar temperatura corporal acima de 38 °C, porque a hipertermia piora a lesão cerebral.
A glicemia de fita é a medida rápida que decide o tratamento na hora, com uma limitação que o guia do MS registra: todas as fitas têm sensibilidade baixa abaixo de 40 mg/dL. Por isso, na fita baixa, colhe-se glicose plasmática para confirmar — sem atrasar o tratamento por ela. Dois detalhes técnicos do mesmo guia pesam na hora de ler o laudo: a glicose do sangue total fica cerca de 15% abaixo da plasmática, e o sangue que espera sem ser processado perde cerca de 18 mg/dL por hora. Uma amostra colhida às duas e analisada às quatro chega com a glicemia inventada para baixo.
No bebê que respira mal, glicemia não é rastreamento de horário marcado: é parte da avaliação inicial e se repete a cada mudança do quadro. Filho de mãe diabética e bebê grande para a idade gestacional, como Theodora, somam o risco do excesso de insulina ao do estresse respiratório.
A radiografia de tórax: o que procurar e em que hora
Antes do padrão, a conferência: posição da sonda e dos cateteres, se houver; a bolha gástrica embaixo do diafragma; o volume pulmonar, que o guia do MS considera adequado quando a cúpula diafragmática direita, na linha hemiclavicular, está entre a oitava e a nona costela posterior; ar onde não deveria haver ar; o tamanho do coração e o desenho dos vasos. Só então se lê o parênquima.
Na taquipneia transitória, o guia descreve congestão peri-hilar radiada e simétrica, espessamento das cisuras, hiperinsuflação leve a moderada e, às vezes, discreta cardiomegalia ou pequeno derrame pleural, e ilustra a evolução com imagens de 2, 24 e 36 horas de vida. Na membrana hialina, o infiltrado é retículo-granular difuso, em vidro moído, uniforme nos dois pulmões, com broncogramas aéreos e volume reduzido — e o guia situa esse padrão entre 6 e 24 horas de vida, o que quer dizer que uma radiografia de duas ou três horas pode não mostrá-lo ainda. Na aspiração meconial, áreas de atelectasia de aspecto granular grosseiro alternam com áreas hiperinsufladas, às vezes com consolidação lobar, enfisema intersticial, pneumotórax ou pneumomediastino. Na pneumonia, qualquer um desses padrões pode aparecer, e o que a distingue é persistir inalterado por mais de 48 horas.
Na hipertensão pulmonar persistente, a radiografia é inespecífica: ou mostra a doença de base, ou mostra pulmões pouco vascularizados — o pulmão preto — com um coração que pode estar aumentado. Na cardiopatia, a área cardíaca aumentada sugere, mas a normal não afasta, e a trama vascular orienta: diminuída nas lesões com fluxo pulmonar dependente do canal, aumentada nas de fluxo sistêmico dependente do canal e nas de mistura (MS, 2014). Na hérnia diafragmática, alças com ar no hemitórax, mediastino desviado e a sonda gástrica, quando passada, subindo para o tórax.
O pneumotórax do bebê deitado engana. O ar sobe para a parte anterior do tórax, e o pneumotórax pequeno pode aparecer só como um hemitórax mais transparente, com a borda do coração nítida demais. Na dúvida, o guia do MS manda complementar com perfil com raios horizontais ou decúbito lateral com o lado suspeito para cima. O pneumomediastino contorna o coração e levanta o timo, no desenho de vela ou asa de morcego; o pneumopericárdio envolve o coração inteiro, inclusive a borda inferior.
A ultrassonografia pulmonar entrou na régua do prematuro: o Consenso Europeu (2025) a considera confiável, com treinamento, para diagnosticar membrana hialina nas primeiras 2 horas e para orientar a indicação de surfactante. Onde houver quem a faça, ela antecipa a decisão; onde não houver, a radiografia com hora certa continua sendo o exame.
Gasometria, exames de infecção e ecocardiograma: cada um com a sua pergunta
A gasometria arterial responde se o suporte está bastando. No bebê em CPAP, o guia do MS considera falha pH abaixo de 7,20, PaCO2 acima de 65 mmHg ou saturação abaixo de 86% com PaO2 abaixo de 50 mmHg em fração de oxigênio acima de 0,60 com pressão de 8 cmH2O. Gasometria capilar serve para pH e PaCO2 no bebê bem perfundido; a PaO2 capilar não tem valor para decidir oxigênio.
Hemograma, proteína C reativa e hemocultura respondem à pergunta da infecção, e quem define quando colher, como ler e o que fazer com o resultado é Começar sem saber, parar sem prova. Vale lembrar aqui por que a proteína C reativa não resolve o diferencial respiratório: ela sobe também na membrana hialina, na aspiração meconial, na asfixia e no pneumotórax, como aquele capítulo registra. O hematócrito tem uma pergunta própria neste capítulo: policitemia, que o guia do MS lista entre as causas de atraso na reabsorção do líquido pulmonar e de hipertensão pulmonar.
O ecocardiograma é, para o guia do MS, o método de escolha na hipertensão pulmonar e em qualquer suspeita de cardiopatia: documenta o desvio pelo canal e pelo forame, estima a pressão pulmonar, avalia a contratilidade e afasta a cardiopatia estrutural dependente do canal. Poucos hospitais sem UTI neonatal o têm de madrugada, e o mesmo guia é explícito: a prostaglandina E1 da suspeita de cardiopatia crítica não espera o ecocardiograma.
Um número que a UTI vai pedir ao telefone, no bebê grave em ventilação, é o índice de oxigenação: pressão média de via aérea multiplicada pela fração inspirada de oxigênio em porcentagem e dividida pela PaO2 pós-ductal. Com pressão média de 15 cmH2O, oxigênio a 100% e PaO2 de 40 mmHg, dá 15 × 100 ÷ 40 = 37,5. O guia do MS usa índice acima de 25 como um dos critérios para óxido nítrico — e escreve a fórmula de um jeito que produz um número cem vezes menor, defeito registrado nas notas do bloco de critério.
Dois testes à beira do berço: transiluminação e hiperóxia
A transiluminação é o teste do bebê que piorou de repente. Com a sala escura, uma fonte de luz fria encostada no tórax produz um halo; compara-se o tamanho e o formato do halo em pontos simétricos dos dois hemitórax. O guia do MS considera o teste negativo quando o halo é simétrico e menor que dois centímetros, e positivo quando é simétrico e maior que dois centímetros ou quando os dois lados são diferentes. Ela é útil nas coleções grandes de ar, justamente as que matam, e não substitui a radiografia nas pequenas.
O teste de hiperóxia separa cardiopatia de doença pulmonar e de hipertensão pulmonar. Oferece-se oxigênio a 100% e colhe-se sangue arterial em dois pontos: do braço direito, antes do canal, e de uma perna, depois dele. Pela leitura do guia do MS, PaO2 acima de 250 mmHg afasta cardiopatia crítica; abaixo de 100 mmHg sugere cardiopatia cianótica crítica com fluxo pulmonar dependente do canal ou circulação em paralelo, como na transposição das grandes artérias; entre 100 e 250 mmHg, cardiopatia com mistura; e diferença pré-pós-ductal acima de 20 mmHg aponta para hipertensão pulmonar. O bebê com teste negativo tem grande chance de ter lesão dependente do canal e recebe prostaglandina E1 até o diagnóstico anatômico.
O teste depende de gasometria arterial, que muitos hospitais sem UTI não colhem de madrugada. Sem ela, o raciocínio fica com o que o guia descreve na clínica — cianose sem esforço proporcional, história perinatal benigna, oxigênio que quase não muda a saturação, pulsos e perfusão — e com a regulação.
Fluxo, tabelas e contas do recém-nascido que respira mal
O fluxo vai do berço à ambulância: primeiro o que ameaça a vida, depois os quatro números que se medem em dez minutos, a correção do frio e da glicose, o oxigênio por alvo, as pistas das doenças que não são do parênquima, a radiografia, o CPAP pelo critério, a reavaliação das seis horas e o momento de pedir a vaga. A primeira tabela põe as doenças lado a lado; a segunda reúne os números que mudam a conduta e de onde cada um vem; a terceira faz as contas de glicose, volume e medicamentos para o peso de Theodora e do prematuro do caso para completar. O cartão diz quando telefonar para a regulação. Nas notas ficam os erros das fontes que alterariam a conduta do interno, cada um com a sua aritmética.
- 1Gasping, estridor, apneia, esforço débil, bradicardia, hipotensão, má perfusão, cianose ou palidez: suporte imediato, pediatra ao lado do berço e ventilação com pressão positiva pronta — a sequência é a de Reanimação neonatal em sala de parto.
- 2Sem sinal de alarme, nos primeiros 10 minutos: frequência respiratória em 1 minuto inteiro, boletim de Silverman-Andersen, oxímetro na mão direita e num pé, temperatura axilar e glicemia de fita — tudo anotado com a hora.
- 3Temperatura abaixo de 36,5 °C: berço aquecido ou incubadora agora, touca e roupa seca. No bebê que asfixiou, normotermia sem passar de 38 °C.
- 4GLICEMIA BAIXA E DESCONFORTO. Siga o capítulo de hipoglicemia neonatal para ação e metas, sem converter automaticamente fita e plasma por um desconto fixo. Dificuldade respiratória que torna a alimentação insegura favorece correção intravenosa. Colha confirmação se possível sem atrasar o tratamento, use bolus apenas quando indicado e mantenha infusão com reavaliação em 30 minutos.
- 5Saturação pré-ductal abaixo do alvo: oxigênio com misturador, titulado pelo alvo que esta apostila adota — 90% a 95% no termo e quase termo; 90% a 94% no prematuro, com alarmes em 89% e 95% — e registrado como par saturação e FiO2.
- 6GRADIENTE PRÉ/PÓS-DUCTAL OU HIPOXEMIA LÁBIL. Suspeite de hipertensão pulmonar persistente, mas não a confirme só pela diferença de saturação. Ausência de gradiente não a exclui. Minimize estímulos, otimize suporte e discuta ecocardiograma e transferência; cardiopatia e doença pulmonar permanecem no diferencial.
- 7Cianose sem esforço proporcional, história perinatal benigna, oxigênio que quase não muda a saturação: cardiopatia canal-dependente até prova em contrário. Prostaglandina E1 sem esperar o ecocardiograma, material de intubação ao lado e regulação.
- 8Abdome escavado, murmúrio abolido de um lado, bulhas deslocadas: hérnia diafragmática. Nada de ventilação com máscara; se precisar ventilar, intubação e sonda gástrica aberta; sem surfactante; regulação.
- 9Piora súbita: pneumotórax até prova em contrário. Transiluminação, pediatra e punção de alívio no hipertensivo antes da radiografia.
- 10INFECÇÃO. O bebê selecionado, de baixo risco perinatal, com desconforto isolado leve e melhora progressiva pode permanecer em observação seriada segundo protocolo. Persistência, piora ou sinal sistêmico reabrem a investigação e a indicação de antibiótico. Não espere completar seis horas se a suspeita já é relevante; culturas não atrasam o tratamento de quem está instável.
- 11SUPORTE NÃO INVASIVO. No prematuro com risco de SDR que respira espontaneamente, o consenso europeu 2025 recomenda suporte precoce, usualmente CPAP de 6–8 cmH2O. Não aguarde atingir os limiares tardios do guia MS 2014 para pedir ajuda. No termo, a indicação e pressão exigem avaliação da causa, resposta e risco de escape aéreo. Registre interface, pressão, FiO2 e descompressão gástrica.
- 12Às 6 horas de vida, os seis gatilhos: piora ou persistência, oxigênio subindo, diferença de saturação, sinal sistêmico, radiografia que não combina, desconforto além do terceiro dia. Qualquer um reabre o diagnóstico.
- 13Prematuro acima de 28 semanas em CPAP de 6 cmH2O ou mais com FiO2 de 0,30 ou mais, ou ultrassom que indique: surfactante agora. Onde não há surfactante, é critério de transferência imediata.
- 14Falha do CPAP (MS, 2014): saturação abaixo de 86% ou PaO2 abaixo de 50 mmHg com FiO2 acima de 0,60 e 8 cmH2O, PaCO2 acima de 65 mmHg, pH abaixo de 7,20, duas ou mais apneias por hora com ventilação: ventilação mecânica. Sem ventilador neonatal, a vaga já devia ter sido pedida.
- 15TRANSPORTE. Estabilize o melhor possível enquanto aciona regulação e equipe neonatal. Não adie indefinidamente uma transferência necessária por uma meta isolada não alcançada. Mantenha suporte respiratório apropriado, controle térmico, monitorização e infusões conferidas, com relatório e passagem verbal das tendências, intervenções e resposta.
Quando telefonar para a regulação
Num hospital sem ventilador neonatal e sem surfactante, a vaga se pede antes da falência. Esta apostila adota como motivo para telefonar: prematuro acima de 28 semanas em CPAP de 6 cmH2O ou mais com FiO2 de 0,30 ou mais, que é o limiar de surfactante do Consenso Europeu; bebê acima de 1.500 g que chegou ao critério de CPAP do guia do MS; diferença pré-pós-ductal acima de 5% ou dessaturação a cada toque; suspeita de cardiopatia canal-dependente ou de hérnia diafragmática; bebê asfixiado com sinais neurológicos, porque a decisão sobre hipotermia terapêutica tem de ser tomada nas primeiras 6 horas depois do nascimento (SBP, 2026); e qualquer sinal de falha do CPAP. A lista é leitura desta apostila: os documentos deste capítulo dão os limiares clínicos, não uma lista de transferência.
As doenças do recém-nascido que respira mal, lado a lado
| Doença | Quem | Começo e curso | Radiografia | O que muda a conduta |
|---|---|---|---|---|
| Taquipneia transitória | Termo e quase termo; cesárea sem trabalho de parto; mãe diabética ou asmática; asfixia; policitemia | Primeiras horas, leve a moderada; melhora a partir de 24 a 48 h; resolve em 2 a 3 dias | Congestão peri-hilar radiada, cisuras espessadas, hiperinsuflação leve a moderada | Oxigênio por alvo; reavaliação às 6 h; sem antibiótico de rotina no bebê de baixo risco; cai pelos gatilhos |
| Doença da membrana hialina | Pré-termo, sobretudo abaixo de 28 semanas; menino; filho de mãe diabética; asfixia | Nas primeiras 3 h; piora nas primeiras 24 h, pico perto de 48 h, melhora depois de 72 h | Retículo-granular difuso em vidro moído, broncogramas, volume baixo — entre 6 e 24 h | CPAP precoce; surfactante pelo limiar; temperatura, glicose e líquidos; transferir onde não há surfactante |
| Aspiração meconial | Termo e pós-termo, líquido meconial, asfixia | Precoce e progressiva, com cianose grave; 5 a 7 dias sem complicação | Atelectasias grosseiras alternando com hiperinsuflação; consolidação; escape de ar | Manipulação mínima; vigiar pneumotórax e hipertensão pulmonar; normotermia sem passar de 38 °C |
| Hipertensão pulmonar persistente | Termo e pós-termo, com aspiração, asfixia, membrana hialina, sepse ou hérnia; às vezes sem doença pulmonar | Hipoxemia maior que o esforço; dessatura a qualquer manipulação | Inespecífica: a doença de base ou pulmões pouco vascularizados | Diferença pré-pós-ductal; ecocardiograma; UTI com óxido nítrico |
| Pneumonia precoce | Corioamnionite, rotura acima de 18 h, trabalho de parto prematuro sem causa, estreptococo do grupo B | Indistinguível das outras nas primeiras horas | Qualquer padrão; o que persiste inalterado por mais de 48 h | Tratar ou observar: Começar sem saber, parar sem prova |
| Pneumotórax | Espontâneo; mais frequente em CPAP, ventilação e aspiração meconial | Pequeno pode ser silencioso; hipertensivo com piora abrupta e choque | Hipertransparência sem vasos; borda cardíaca nítida; perfil com raios horizontais na dúvida | Transiluminação; punção de alívio no hipertensivo; drenagem |
| Hérnia diafragmática congênita | Diagnóstico pré-natal frequente; às vezes só ao nascer | Desde o primeiro minuto; abdome escavado, bulhas deslocadas | Alças no hemitórax; mediastino desviado; sonda gástrica no tórax | Sem máscara; intubar e sonda aberta se ventilar; sem surfactante; transferir |
| Cardiopatia canal-dependente | História perinatal benigna, peso adequado, bom Apgar | Cianose que aparece com as horas, no choro e na mamada, sem retração | Área cardíaca e trama vascular alteradas; pode ser normal | Prostaglandina E1 sem esperar o ecocardiograma; regulação |
Os números que mudam a conduta, e de onde cada um vem
| Medida | Como medir | Faixa ou alvo | Número que muda a conduta | Régua |
|---|---|---|---|---|
| Frequência respiratória | Um minuto inteiro, tórax descoberto, bebê quieto | 40 a 60 por minuto | Persistentemente acima de 60 em repouso: taquipneia | MS, 2014 |
| Boletim de Silverman-Andersen | Cinco parâmetros de 0 a 2, a cada hora nas primeiras horas | 0 | Abaixo de 5 é leve e 10 é o máximo; entre 5 e 9 vale a tendência | MS, 2014 |
| Saturação pré-ductal na unidade | Mão direita, curva de pulso boa | Termo e quase termo: 90% a 95%; prematuro: 90% a 94%, alarmes 89% e 95% | Acima de 1.500 g, abaixo de 89% com FiO2 de 0,40 ou mais: CPAP | Esta apostila (termo); Consenso Europeu, 2025 (prematuro); MS, 2014 (CPAP) |
| Diferença pré e pós-ductal | Mão direita e um pé, no mesmo minuto | Até 5% | Acima de 5% de saturação ou 20 mmHg de PaO2: hipertensão pulmonar | MS, 2014 |
| Temperatura axilar | Termômetro digital | 36,5 a 37,5 °C | Abaixo de 36,5: aquecer; no asfixiado, nunca acima de 38 | Consenso Europeu, 2025; SBP, 2026 |
| Glicemia | Fita, confirmada por glicose plasmática sem atrasar o tratamento | Meta terapêutica do percurso: ≥50 mg/dL até 48 h e ≥60 mg/dL depois; confirmar baixo valor por método laboratorial sem atrasar tratamento | 25 a 45 sem sinais: alimentar e repetir; abaixo de 25 ou com sinais: bolus e VIG de 6 a 8 | MS, 2014 |
| FiO2 no CPAP do prematuro acima de 28 semanas | Com pressão de 6 cmH2O ou mais | Abaixo de 0,30 | 0,30 ou mais, ou ultrassom que indique: surfactante | Consenso Europeu, 2025 |
| Gasometria no CPAP | Arterial, 1 h depois de instalar e a cada mudança | pH de 7,20 ou mais; PaCO2 até 65 | pH abaixo de 7,20, PaCO2 acima de 65 ou oxigenação que falha com FiO2 acima de 0,60 e 8 cmH2O: falha | MS, 2014 |
Tabela de conversão: Theodora, 3,72 kg, e o prematuro do caso para completar, 1,62 kg
| Item | Regra | Conta | Apresentação na Rename 2024 | Como sai na prescrição |
|---|---|---|---|---|
| Bolus de glicose | SG 10% 2 mL/kg (200 mg/kg) quando indicado, com velocidade definida pelo protocolo neonatal e infusão subsequente | 2 × 3,72 = 7,44 mL, equivalentes a 744 mg; conferir arredondamento, preparo e administração | Glicose 100 mg/mL (10%), solução injetável, componente básico | SG 10%: 7,4 mL EV quando indicado; confirmar velocidade com a equipe, manter infusão e checar resposta em 30 minutos |
| VIG com SG 10% | VIG = mL/kg/dia × mg/mL ÷ 1.440 | 70 mL/kg/dia × 100 ÷ 1.440 = 4,9 mg/kg/min; VIG 6 exigiria 86,4 mL/kg/dia | Glicose 10% | Não alcança VIG 6 dentro de 70 mL/kg/dia |
| VIG 6 dentro de 70 mL/kg/dia | Concentração máxima em veia periférica: 12,5% (MS, 2014) | 70 × 125 ÷ 1.440 = 6,1 mg/kg/min; 70 × 3,72 = 260 mL/dia = 10,9 mL/h | Glicose 10% e glicose 500 mg/mL (50%); 12,5% se prepara pela mistura | SG 12,5% (SG 10% 93,75 mL + glicose 50% 6,25 mL) a 10,9 mL/h EV em bomba |
| Expansão de volume | SF 0,9% 10 mL/kg em 10 a 15 minutos, só com perda sanguínea (MS, 2014) | 10 × 3,72 = 37 mL | Cloreto de sódio 9 mg/mL (0,9%), solução injetável, componente básico | SF 0,9% 37 mL EV em 10 a 15 min, se houver perda sanguínea |
| Líquidos do prematuro | 70 a 80 mL/kg/dia (Consenso Europeu, 2025); 50 a 70 mL/kg/dia (MS, 2014): as duas faixas se tocam em 70 | 70 × 1,62 = 113 mL/dia = 4,7 mL/h; VIG com SG 10% = 4,9 mg/kg/min | Glicose 10% | SG 10% a 4,7 mL/h EV em bomba, com glicemia de controle |
| Surfactante | Poractanto alfa 200 mg/kg = 2,5 mL/kg; beractanto 100 mg/kg = 4 mL/kg (Consenso Europeu, 2025) | 1,62 kg: poractanto 324 mg = 4,1 mL; beractanto 162 mg = 6,5 mL | Não consta da Rename | Prescrição da UTI; o interno leva o peso de nascimento e a FiO2 na passagem de caso |
| Prostaglandina E1 | 0,01 µg/kg/min, subindo em degraus até 0,05 µg/kg/min se a saturação não responder (SBP, 2022) | 3,72 kg: 0,037 µg/min = 2,2 µg/h | Alprostadil não consta da Rename | Diluição pelo protocolo do serviço, em bomba e acesso seguro, com material de intubação ao lado; a subida e a solução estão em O roxo que o oxigênio não corrige, na apostila de Cardiologia Pediátrica |
Padrões que orientam, sem substituir a reavaliação
| Hipótese | Contexto e evolução | Imagem sugestiva | O que muda a prioridade |
|---|---|---|---|
| Taquipneia transitória | Termo ou pré-termo tardio, início precoce; tendência de melhora | Hiperinsuflação, reforço perihilar, líquido em fissuras | Piora ou necessidade crescente de suporte exigem rever a hipótese. |
| SDR por deficiência de surfactante | Mais provável no prematuro; desconforto precoce e progressivo | Baixos volumes, padrão reticulogranular, broncogramas | Avaliar CPAP, necessidade de surfactante e estrutura de cuidado. |
| Pneumonia/sepse | Risco perinatal ou sinais sistêmicos; pode imitar SDR | Achados variáveis, não exclusivos de infecção | Suspeita clínica relevante: culturas oportunas e tratamento sem espera indevida. |
| Aspiração meconial | Líquido meconial com quadro respiratório compatível | Opacidades heterogêneas, hiperinsuflação/atelectasias | Hipoxemia desproporcional e escape aéreo ampliam a urgência. |
| Pneumotórax | Piora abrupta, assimetria e possível instabilidade | Ar pleural; imagem não deve atrasar alívio do hipertensivo | Avaliação imediata e tratamento pela equipe habilitada. |
| Hipertensão pulmonar / cardiopatia | Hipoxemia desproporcional ou lábil; gradiente pode estar ausente | Radiografia pode não explicar a hipoxemia | Ecocardiografia, suporte dirigido e referência precoce. |
Índice de oxigenação sem o fator 100 — guia do MS (2014), capítulo 23.6.1. O guia escreve IO = MAP × FiO2 / PaO2 e define a FiO2 como fração inspirada, na mesma notação decimal que usa no volume inteiro (0,40; 1,0). Conta: pressão média de 15 cmH2O, FiO2 de 1,0 e PaO2 pós-ductal de 40 mmHg dão 15 × 1,0 ÷ 40 = 0,375 pela fórmula impressa e 15 × 100 ÷ 40 = 37,5 com a FiO2 em porcentagem. O corte de indicação de óxido nítrico, na mesma página, é índice acima de 25. Pela fórmula como está, um bebê com pressão média de 20 cmH2O, oxigênio a 100% e PaO2 de 20 mmHg teria índice 1,0: nenhum recém-nascido chegaria a 25 e ninguém seria indicado. Este capítulo usa a FiO2 em porcentagem.
Surfactante deve responder à suspeita de deficiência e à evolução respiratória. Interprete necessidade de oxigênio junto da pressão de CPAP, esforço, idade gestacional e imagem/ultrassom quando disponíveis. A pressão de 6 cmH2O isolada não torna todo prematuro candidato automático. A decisão e a técnica de administração cabem à equipe neonatal treinada, com possibilidade de resgate ventilatório.
Duas regras do guia do MS (2014) que não cabem juntas com soro glicosado a 10%. O capítulo de hipoglicemia (25.1.6) manda manter a glicose a 6 a 8 mg/kg/min depois do bolus; o de terapias auxiliares (23.3) limita a oferta de líquidos a 50 a 70 mL/kg/dia nas primeiras 48 horas do bebê com insuficiência respiratória. Conta: com SG 10% (100 mg/mL), VIG 6 exige 6 × 1.440 ÷ 100 = 86,4 mL/kg/dia e VIG 8 exige 115,2; no teto de 70 mL/kg/dia, a VIG máxima é 70 × 100 ÷ 1.440 = 4,9 mg/kg/min. O mesmo guia permite glicose até 12,5% em veia periférica, e 70 mL/kg/dia a 12,5% dão 6,1 mg/kg/min. O guia não faz essa ponte; o bebê hipoglicêmico que respira mal fica sem uma das duas regras se ninguém fizer a conta.
Indicação de CPAP com um peso que não cabe em nenhuma das duas regras — guia do MS (2014), capítulo 22.2.1.1. O guia indica CPAP precoce no bebê com peso inferior a 1.500 g e qualquer sinal de esforço, e no bebê com peso superior a 1.500 g só quando a saturação fica abaixo de 89% com oxigênio a 40% ou mais. O bebê que nasce com exatamente 1.500 g, retração e saturação boa em ar ambiente recebe CPAP precoce se o peso contar como inferior e nada se contar como superior. Esta apostila aplica a esse peso a regra do bebê menor, porque na fronteira o atraso do CPAP custa mais que o CPAP.
A conduta, hora a hora
Suporte e investigação caminham juntos. Avalie esforço, oxigenação, perfusão, temperatura e glicemia, e registre a resposta a cada intervenção. A hipótese inicial é provisória: piora do esforço, aumento da necessidade de oxigênio ou alteração sistêmica exigem revisão imediata. O horário programado de reavaliação não autoriza esperar diante de deterioração. Acione a referência cedo quando os recursos locais forem insuficientes.
Nenhuma prescrição deste capítulo é de antibiótico: o esquema, a dose por quilo e a duração são de Começar sem saber, parar sem prova, e aqui só se registra quando a regra daquele capítulo manda começar.
02h00 — 1 hora e 50 minutos de vida: os primeiros quinze minutos
Você não escreve “taquipneia transitória” ainda. Escreve os números: frequência 86, Silverman-Andersen 5, saturação de 88% na mão direita e 87% no pé, temperatura de 36,1 °C, glicemia de fita de 36 mg/dL. Não há sinal de alarme — frequência cardíaca de 158, enchimento de dois segundos, sem apneia —, e o exame procura o que imita pulmão: murmúrio simétrico, sem estertores; bulhas à esquerda, sem sopro; pulsos femorais iguais aos braquiais; abdome globoso, não escavado; sem salivação. Com isso, as decisões saem juntas. Theodora vai para o berço com monitor da unidade intermediária, no mesmo andar, porque precisa de oximetria contínua e de glicose na veia. Ela não mama agora: esta apostila adota dieta zero enquanto houver gemido ou retração com frequência acima de 60, pelo risco de aspiração e pelo gasto do esforço — e isso fecha o ramo de “alimentar” da hipoglicemia. Como a taquipneia está entre os sinais de hipoglicemia do guia do MS e não se pode atribuí-la ao pulmão antes de corrigir a glicose, ela recebe o bolus que o guia prevê para o bebê com sinais, seguido da infusão; a VIG de 6 mg/kg/min só cabe nos 70 mL/kg/dia com glicose a 12,5%, a conta das notas do bloco de critério. O oxigênio vai no capacete, com misturador, pelo alvo de 90% a 95% pré-ductal. Não há antibiótico: cesárea sem trabalho de parto, bolsa íntegra, estreptococo negativo e mãe sem febre fazem dela o bebê de baixo risco que o capítulo de sepse manda observar. A pediatra, ao telefone do centro obstétrico, concorda e avisa que sobe depois dos gêmeos.
Prescrição- Transferir para a unidade de cuidados intermediários neonatal, com monitor cardíaco e oximetria contínua pré-ductal na mão direita; saturação pós-ductal no pé a cada reavaliação
- Incubadora pré-aquecida; secar o cabelo e trocar a touca; temperatura axilar de hora em hora até duas medidas entre 36,5 e 37,5 °C
- Oxigênio em capacete com misturador: iniciar FiO2 0,30 e titular para saturação pré-ductal de 90% a 95%; anotar saturação e FiO2 de hora em hora
- Colher glicose plasmática antes do bolus e enviar ao laboratório com pedido de processamento imediato, sem esperar o resultado
- SG 10% 7,4 mL (2 mL/kg), se indicado pelo quadro e validado pela equipe; administrar no tempo previsto no protocolo neonatal, com monitorização, seguido da infusão contínua.
- A seguir, SG 12,5% (SG 10% 93,75 mL + glicose 50% 6,25 mL) a 10,9 mL/h EV em bomba — 70 mL/kg/dia, VIG 6,1 mg/kg/min
- Glicemia 30 minutos após intervenção e depois conforme resposta; ajustar à meta do capítulo de hipoglicemia, que neste percurso adota ≥50 mg/dL até 48 horas e ≥60 mg/dL após esse período, individualizando se persistente.
- Dieta zero; orientar a mãe a extrair o colostro, guardado em seringa identificada
- Radiografia de tórax AP no leito, com a hora de vida escrita no pedido
- Frequência respiratória em 1 minuto e boletim de Silverman-Andersen de hora em hora
02h50 às 03h15 — a primeira radiografia e a glicemia de controle
A fita de 30 minutos depois do bolus dá 64 mg/dL; a glicose plasmática colhida às 02h05 e processada em quinze minutos volta com 33 mg/dL, confirmando a hipoglicemia que a fita tinha visto. A temperatura está em 36,6 °C. Com FiO2 de 0,30 a saturação chegou a 94% e você desce para 0,28, mantendo 92%. A frequência caiu para 80 e o Silverman-Andersen para 4: o gemido agora só se ouve com estetoscópio. A radiografia, lida com a pediatra que acabou de chegar, mostra congestão peri-hilar radiada dos dois lados, líquido na cisura horizontal, cúpula direita na nona costela posterior, coração de tamanho normal, bolha gástrica no lugar e nenhum ar fora do pulmão. É o desenho do pulmão úmido. A pediatra lembra o que o guia do MS diz sobre a membrana hialina — o padrão radiológico dela aparece entre 6 e 24 horas — e o que vocês escrevem no prontuário é exatamente isso: radiografia compatível com taquipneia transitória às 2 horas e 50 minutos de vida, reavaliação obrigatória às 6 horas, com os seis gatilhos listados. Você volta ao leito 14 e explica aos pais o que foi feito e o que vai ser olhado às seis.
Prescrição- Manter oxigênio em capacete, FiO2 0,28, titulando para saturação pré-ductal de 90% a 95%
- Controle glicêmico após intervenção e ajustes, até estabilidade. Registrar meta: pelo menos 50 mg/dL até 48 horas e 60 mg/dL depois neste percurso, com metas específicas mais altas quando indicadas pela equipe.
- Temperatura axilar de 2 em 2 horas
- Reavaliação médica obrigatória às 06h10 (6 horas de vida): frequência, Silverman-Andersen, saturação pré e pós-ductal com a FiO2, temperatura, glicemia, perfusão e ausculta
- Sem antibiótico: baixo risco infeccioso, observação até 6 horas conforme Começar sem saber, parar sem prova
06h10 — 6 horas de vida: a hipótese cai
A folha conta a madrugada antes do exame: FiO2 de 0,35 às quatro, 0,40 às cinco, 0,45 agora, e mesmo assim a saturação é de 87% na mão direita e 86% no pé. A frequência é 94, o Silverman-Andersen voltou a subir, para 7 — tiragem intercostal acentuada, retração xifoide discreta, gemido audível sem estetoscópio de novo —, a frequência cardíaca é 168, a perfusão segue boa, a temperatura é 36,9 °C e a glicemia, 71 mg/dL. O murmúrio é simétrico, não há sopro e a transiluminação dá halos simétricos menores que dois centímetros. Três dos seis gatilhos estão acesos: piora depois de 6 horas, oxigênio subindo até o critério de CPAP, persistência. O nome provisório caiu. Pelo guia do MS, bebê acima de 1.500 g com saturação abaixo de 89% em FiO2 de 0,40 ou mais tem indicação de CPAP, e a pediatra o instala com você, começando pela pressão que o guia recomenda. Pela regra de Começar sem saber, parar sem prova, desconforto que piora depois de 6 horas é tratado: hemocultura antes da primeira dose e antibiótico no esquema daquele capítulo. A gasometria arterial, colhida pela pediatra na artéria radial direita 30 minutos depois do CPAP, mostra pH 7,27, PaCO2 56 mmHg e PaO2 54 mmHg — longe dos critérios de falha, perto o bastante para não esperar. E, como Theodora cruzou o critério de CPAP num hospital sem ventilador neonatal, a vaga se pede agora: às 06h35 você está ao telefone com a central de regulação, com peso, idade gestacional, horas de vida, suporte, FiO2, saturação e gasometria anotados antes de discar.
Prescrição- CPAP nasal com pronga tamanho 4 (peso acima de 3 kg): pressão 5 cmH2O, fluxo 8 L/min, FiO2 0,45, gases aquecidos e umidificados; cabeceira elevada a 30 graus; touca para fixação; proteger o septo nasal
- Sonda orogástrica nº 8 aberta, em drenagem
- Titular FiO2 para saturação pré-ductal de 90% a 95%; se saturação abaixo de 86% com FiO2 acima de 0,60, avisar a pediatra imediatamente
- Hemocultura antes da primeira dose; antibiótico empírico no esquema e na dose por quilo de Começar sem saber, parar sem prova, com a hora da primeira dose anotada
- Gasometria arterial 30 a 60 minutos após instalar o CPAP e a cada mudança de parâmetro
- Radiografia de tórax AP em CPAP às 07h15
- Manter SG 12,5% a 10,9 mL/h EV em bomba; glicemia de fita de 3 em 3 horas
- Solicitar vaga em UTI neonatal pela central de regulação
07h30 — a segunda radiografia muda o nome
Com uma hora de CPAP, a radiografia mudou: infiltrado retículo-granular fino e difuso nos dois pulmões, broncogramas aéreos e cúpula direita na sétima costela posterior. O líquido peri-hilar da primeira imagem deu lugar ao desenho da falta de surfactante, agora dentro da janela de 6 a 24 horas em que o guia do MS o situa. Theodora tem 37 semanas, mas é filha de mãe diabética — condição que o guia lista entre as que tornam a doença mais comum — e nasceu de cesárea sem trabalho de parto. A radiografia não afasta pneumonia, e por isso o antibiótico continua até a regra daquele capítulo permitir suspendê-lo. O volume pulmonar abaixo de sete costelas é, pelo guia, motivo para aumentar a pressão do CPAP, e a pediatra sobe para 6 cmH2O; a FiO2 desce para 0,40 com saturação de 91%. Resta a pergunta do surfactante. Para o prematuro, o Consenso Europeu (2025) o indicaria agora; para o bebê de 37 semanas, o mesmo documento registra que não há evidência suficiente para recomendar, e o guia do MS só o indica na ventilação mecânica com FiO2 de 0,40 ou mais. Para Theodora, a decisão é da UTI — e é mais um motivo para ela chegar lá cedo. Você liga de novo para a regulação e atualiza o quadro.
Prescrição- CPAP nasal: pressão 6 cmH2O, fluxo 8 L/min, FiO2 0,40, titulando para saturação pré-ductal de 90% a 95%
- Gasometria arterial 1 hora após a mudança de pressão
- Manter antibiótico e hemocultura conforme Começar sem saber, parar sem prova
- Manter SG 12,5% a 10,9 mL/h; glicemia de fita de 3 em 3 horas
- Atualizar a central de regulação: radiografia, pressão, FiO2 e gasometria
09h00 — a vaga sai: três horas de espera que não são espera
A regulação confirma a vaga na UTI neonatal a 110 km e a saída da ambulância de suporte avançado com incubadora de transporte e equipe neonatal, com chegada prevista para o início da tarde. A gasometria das 08h30 mostra pH 7,30 e PaCO2 52 mmHg em CPAP de 6 com FiO2 de 0,40. As três horas servem para duas coisas. A primeira é manter o que se ganhou, porque o bebê em CPAP piora de repente: você fica perto do berço, confere a pronga e a sonda, e combina com a técnica de enfermagem que qualquer queda súbita de saturação é chamada imediata. A segunda é preparar a saída para que a ambulância não espere por papel: relatório escrito com a história materna e do parto, a série de frequência, Silverman-Andersen, saturação e FiO2, as duas radiografias, as gasometrias, a curva de glicemia com a VIG, a hora da hemocultura e da primeira dose de antibiótico; o colostrum extraído por Nazira, identificado; o termo de ciência da família. A glicemia está em 88 mg/dL; a infusão continua como está até a UTI, porque o transporte não é hora de mexer em VIG.
Prescrição- Manter CPAP 6 cmH2O e FiO2 titulada para saturação pré-ductal de 90% a 95%
- Vigilância contínua: queda súbita de saturação, bradicardia ou assimetria torácica é chamada imediata da pediatra
- Transiluminador e material de punção torácica ao lado do berço
- Preparar relatório de transferência com todas as séries de sinais, exames, horários de coleta e de medicação
- Colostro extraído, identificado e refrigerado para seguir com a bebê
10h20 — a queda que o CPAP cobra
O alarme dispara: saturação de 76% na mão direita, frequência cardíaca de 186, que em um minuto cai para 104. Theodora está agitada, o hemitórax esquerdo expande menos, o murmúrio do lado esquerdo diminuiu e as bulhas se ouvem mais à direita. Você chama a pediatra e, enquanto ela chega, sobe a FiO2 para 1,0 e escurece a sala para a transiluminação: o halo do lado esquerdo é maior e diferente do direito, positivo pelo critério do guia do MS. É um pneumotórax hipertensivo — o escape de ar que a diretriz da SBP (2026) associa ao CPAP na sala de parto do bebê de 34 semanas ou mais, e que o guia do MS manda vigiar em todo bebê em suporte ventilatório —, e ele não espera radiografia. A pediatra faz a punção de alívio do hemitórax esquerdo e aspira ar; em três minutos a saturação volta a 90% e a frequência cardíaca a 150. A radiografia confirma pneumotórax residual à esquerda, e a pediatra, depois de falar com a regulação, coloca o dreno pela técnica que o volume 2 do guia do MS descreve, porque transportar um pneumotórax que já foi hipertensivo sem dreno é apostar na estrada. Com o dreno em selo d'água, o CPAP volta a 5 cmH2O e a FiO2 estabiliza em 0,50, com saturação de 91%. Você atualiza a regulação e vai com a pediatra contar aos pais o que aconteceu.
Prescrição- FiO2 1,0 enquanto se confirma e alivia o pneumotórax; reduzir pela saturação logo após a punção
- Punção de alívio do hemitórax esquerdo pela pediatra
- Radiografia de tórax após a punção e após a drenagem
- Dreno torácico em selo d'água, fixado e com o frasco abaixo do nível do tórax
- CPAP nasal 5 cmH2O, FiO2 0,50, titulando para saturação pré-ductal de 90% a 95%
- Gasometria arterial 30 minutos após a estabilização
- Atualizar a central de regulação e registrar o horário do pneumotórax, da punção e da drenagem
13h05 — a equipe de transporte chega
A passagem de caso é feita à beira do berço, com a equipe que vai levá-la. Theodora está com frequência cardíaca de 148, saturação de 92% em CPAP de 5 com FiO2 de 0,45, temperatura de 36,8 °C, glicemia de 84 mg/dL e o dreno oscilando sem borbulhar. A diretriz da SBP (2026) escreve as regras para o transporte da sala de parto à unidade, e elas valem igual na estrada: só com o bebê estabilizado e frequência cardíaca de 100 ou mais, com equipe habilitada, equipamento pronto e atenção à temperatura, à via aérea, ao suporte respiratório e ao acesso venoso. A incubadora de dupla parede já estava ligada e aquecida; o CPAP passa para o equipamento da ambulância com a sonda orogástrica aberta; a oximetria segue contínua; a bomba de glicose tem bateria; o balão autoinflável vai à mão. A equipe confere com você o relatório, as imagens e os horários. Antes de a incubadora sair, Nazira, na cadeira de rodas, vê a filha e põe a mão pela portinhola. Cecilio vai atrás, de carro. A passagem só termina quando a equipe que recebe tem tudo o que você sabe.
Prescrição- Transferência para UTI neonatal pela central de regulação, em incubadora de transporte de dupla parede pré-aquecida
- CPAP nasal 5 cmH2O e FiO2 titulada para saturação pré-ductal de 90% a 95% durante o transporte, com oximetria contínua e cilindros de oxigênio e ar comprimido com misturador
- Sonda orogástrica aberta; dreno torácico em selo d'água, com o frasco sempre abaixo do nível do tórax
- SG 12,5% a 10,9 mL/h em bomba de infusão com bateria
- Relatório de transferência, radiografias, gasometrias e horários de antibiótico entregues à equipe; colostro identificado
Dia 6 — Theodora volta para o hospital de origem
A carta da UTI conta a semana. Theodora ficou em CPAP de 7 cmH2O por três dias, sem precisar de ventilação mecânica nem de surfactante; a FiO2 caiu para 0,30 em doze horas e para ar ambiente no terceiro dia. O ecocardiograma foi normal. O dreno saiu no terceiro dia. A hemocultura foi negativa e o antibiótico foi suspenso pela regra do capítulo de sepse. Recebeu leite humano por sonda desde o segundo dia e mama no peito desde o quarto; as glicemias ficaram normais sem infusão desde o terceiro. O diagnóstico de alta da UTI é doença da membrana hialina do termo precoce, complicada por pneumotórax. Ela volta para o alojamento conjunto do hospital de origem, com Nazira, para completar o aleitamento e a alta. O que falta é o que se esquece depois de uma internação que deu certo: as triagens neonatais que a internação atrasou, pelas regras de As cinco triagens neonatais; a curva de peso; a orientação sobre os sinais que fazem voltar; e uma conversa sobre a próxima gestação, que pertence ao obstetra — a época da cesárea eletiva é de Cesariana e parto vaginal operatório.
Prescrição- Alojamento conjunto; aleitamento materno sob livre demanda, com observação de mamada pela equipe
- Peso diário até a alta
- Conferir e completar as triagens neonatais conforme As cinco triagens neonatais
- Orientação escrita de sinais de alarme: respiração rápida ou com gemido, cor arroxeada, dificuldade para mamar, sonolência excessiva, temperatura baixa ou febre
- Resumo de alta com o diagnóstico, o pneumotórax e o dreno, e encaminhamento para a consulta de retorno na unidade de saúde
Como saber se está funcionando
No bebê que respira mal, a reavaliação não confere o tratamento: ela escreve o diagnóstico. A taquipneia transitória só vira diagnóstico quando a frequência e o oxigênio descem no tempo esperado; a membrana hialina se confirma quando sobe o que devia subir e a radiografia entra na janela; a hipertensão pulmonar aparece na diferença entre dois oxímetros. Para cada parâmetro abaixo há um horário, uma resposta esperada e um plano para quando ela não vem — e a folha de sinais de Theodora, preenchida de hora em hora, foi o que derrubou o nome provisório às seis da manhã.
Esperado: Na taquipneia transitória, números parados ou descendo desde as primeiras horas, com a melhora franca entre 24 e 48 horas e o fim do quadro em 2 a 3 dias; na membrana hialina, piora nas primeiras 24 horas e melhora depois de 72
Se não melhora: Piora ou persistência depois de 6 horas no bebê rotulado como taquipneia transitória: reabrir o diagnóstico — radiografia de novo, regra de infecção de Começar sem saber, parar sem prova, diferença pré-pós-ductal e telefonema para a regulação.
Esperado: Saturação no alvo — 90% a 95% no termo e quase termo, 90% a 94% no prematuro — com FiO2 estável ou descendo
Se não melhora: Bebê acima de 1.500 g com saturação abaixo de 89% em FiO2 de 0,40 ou mais: CPAP. Prematuro acima de 28 semanas em CPAP de 6 cmH2O ou mais com FiO2 de 0,30 ou mais: surfactante, ou transferência onde não houver. Prematuro em oxigênio com saturação acima de 95%: baixar a FiO2.
Esperado: Até 5% entre a mão direita e o pé
Se não melhora: Acima de 5%, ou dessaturação a cada manipulação: hipertensão pulmonar. Manipulação mínima, corrigir temperatura, glicose e acidose, ecocardiograma onde houver e regulação para UTI com óxido nítrico. Diferença ausente não afasta a doença se a hipoxemia for desproporcional.
Esperado: Entre 36,5 e 37,5 °C
Se não melhora: Abaixo de 36,5 °C: incubadora e busca da perda de calor — roupa ou cabelo úmidos, porta aberta, gás frio. Acima de 37,5 °C: conferir a incubadora antes de pensar em febre. No bebê que asfixiou, nunca acima de 38 °C.
Esperado: Glicose plasmática de 50 mg/dL ou mais até 48 horas de vida, e de 60 ou mais depois — o alvo que esta apostila adota em O cordão foi cortado, a insulina não
Se não melhora: Subir a VIG — até a concentração de 12,5% em veia periférica e, acima dela, só por acesso central. A glicemia que não se sustenta com VIG acima de 12 mg/kg/min é hipoglicemia persistente: a amostra crítica sai no próximo episódio, antes de mudar o tratamento e sem corticoide empírico, como está em O cordão foi cortado, a insulina não; decisão com a UTI, pela regulação.
Esperado: pH de 7,20 ou mais, PaCO2 de até 65 mmHg e PaO2 de 50 a 70 mmHg
Se não melhora: Falha do CPAP pelo guia do MS — pH abaixo de 7,20, PaCO2 acima de 65 mmHg, saturação abaixo de 86% ou PaO2 abaixo de 50 mmHg com FiO2 acima de 0,60 e 8 cmH2O, ou duas ou mais apneias por hora com ventilação: ventilação mecânica. Sem ventilador neonatal, ventilação com pressão positiva manual pela pediatra e regulação em caráter de emergência.
Esperado: Cúpula diafragmática direita entre a oitava e a nona costela posterior; murmúrio simétrico; transiluminação negativa
Se não melhora: Abaixo de sete costelas: subir a pressão de 1 a 2 cmH2O por vez, até 8. Piora súbita com assimetria: pneumotórax — transiluminação, punção de alívio e dreno. Sinal de comprometimento hemodinâmico: tratar a circulação e, se preciso, reduzir a pressão.
Onde o erro machuca
O dano: O antibiótico sem critério tem custo que não aparece no plantão: o Consenso Europeu (2025) registra efeito sobre o microbioma intestinal e possível aumento de enterocolite necrosante e de displasia broncopulmonar no prematuro. Vem com ele o acesso venoso, a separação da mãe e a internação mais longa. E há um dano mais silencioso: o antibiótico vira a explicação, e ninguém volta às seis horas para ver se a hipótese de pulmão úmido se sustenta.
Como pegar a tempo: Aplique a regra de Começar sem saber, parar sem prova: o bebê de baixo risco com desconforto leve a moderado logo depois do nascimento é observado sem antibiótico e tratado se piorar ou persistir por mais de 6 horas. Se começou, o antibiótico tem data para ser reavaliado — o Consenso Europeu fala em suspender em 24 a 36 horas quando as culturas são negativas e não há evidência laboratorial de sepse.
O dano: O bebê com esforço respiratório não coordena sucção, deglutição e respiração: mama pouco, cansa, pode aspirar, e a glicemia não sobe. Enquanto isso, a hipoglicemia continua — e o guia do MS registra risco de dano cerebral em mais da metade dos recém-nascidos com hipoglicemia sintomática, sobretudo os que convulsionam. O ramo de “alimentar” do fluxograma de hipoglicemia pressupõe um bebê que mama.
Como pegar a tempo: Meça a glicemia em todo bebê que respira mal, na primeira avaliação. Se ele não pode mamar com segurança, a glicose vai pela veia, com bolus quando há sinais ou glicemia abaixo de 25 mg/dL, e a mãe extrai o colostro para quando a dieta voltar.
O dano: O nome benigno desliga a vigilância. Membrana hialina, pneumonia, hipertensão pulmonar e pneumotórax progridem com a mesma frequência alta e o mesmo gemido, e o bebê chega ao critério de falha do CPAP de madrugada, num hospital sem ventilador, com a vaga pedida no colapso em vez de no limiar.
Como pegar a tempo: Escreva “compatível com taquipneia transitória” com a hora de vida, a reavaliação obrigatória às 6 horas e os seis gatilhos. O diagnóstico só se fecha quando a curva de melhora aparece no prazo.
O dano: No bebê com hipertensão pulmonar, o pé satura menos que a mão direita: quem titula pelo pé dá mais oxigênio do que o cérebro precisa e perde o sinal da doença. Sem alvo, o oxigênio fica alto “por segurança” — e o Consenso Europeu lembra que, no prematuro, a faixa baixa aumentou mortalidade e enterocolite e a faixa alta expõe à retinopatia; em algumas cardiopatias, o excesso de oxigênio rouba fluxo sistêmico (MS, 2014).
Como pegar a tempo: Sensor contínuo na mão direita para titular; o pé a cada reavaliação para medir a diferença. O alvo por idade gestacional vai escrito na prescrição, e a folha registra o par saturação e FiO2.
O dano: Na coorte citada pela diretriz da SBP (2026), o CPAP na sala de parto do bebê de 35 semanas ou mais multiplicou por 5,5 a chance de pneumotórax, e restringir o CPAP aos bebês fora do alvo de saturação reduziu o escape de ar de 11% para 6%. O pneumotórax hipertensivo derruba o retorno venoso e leva ao choque em minutos (MS, 2014) — e, sem transiluminador por perto, a punção espera a radiografia.
Como pegar a tempo: CPAP pelo critério, com a menor pressão que resolve e o volume conferido na radiografia. Transiluminador e material de punção ao lado do berço. Queda súbita de saturação no bebê em CPAP é pneumotórax até prova em contrário.
O dano: Na cardiopatia com fluxo dependente do canal arterial, o fechamento do canal leva à hipóxia grave e ao choque, e o ecocardiograma que o hospital não tem de madrugada chega depois. O guia do MS é explícito: a conduta com prostaglandina E1 não pode ser adiada até o ecocardiograma, porque essa espera pode decidir a evolução.
Como pegar a tempo: Com a hipótese clínica de cardiopatia crítica canal-dependente — cianose sem esforço proporcional, oxigênio que quase não muda a saturação, teste de hiperóxia negativo onde houver gasometria —, prostaglandina E1 a 0,01 µg/kg/min já, como prova terapêutica. O risco de apneia é alto: material de intubação ao lado. E regulação. A subida da dose, o teto e a apneia estão em O roxo que o oxigênio não corrige, na apostila de Cardiologia Pediátrica.
O que dizer ao paciente e à família
A família de um recém-nascido que respira mal está dividida em dois lugares: a mãe operada, deitada, com dor, no leito do alojamento conjunto, e o bebê no fim do corredor ou a cento e dez quilômetros. A conversa tem de atravessar essa distância. Três perguntas voltam em quase todas as famílias — é grave?, foi culpa minha?, por que não dão logo o remédio? — e cada uma tem uma resposta que tranquiliza sem mentir. A regra deste bloco é a mesma da conduta: dizer o que se sabe, dizer o que vai ser olhado e quando, e voltar na hora prometida. A família de Theodora ouviu às duas da manhã que o médico voltaria às seis; às seis e quarenta, o médico voltou com a notícia que ninguém queria, e é essa volta que sustenta a confiança do resto do dia.
02h20 — explicar a Nazira, no leito, por que a filha vai para a unidade intermediária e não pode mamar agora
““Nazira, a Theodora está respirando mais rápido do que deveria e fazendo um gemidinho para segurar o ar dentro do pulmão. Isso é comum em bebê que nasce de cesárea antes do trabalho de parto, porque o pulmão ainda tem líquido para secar. Ela também está com a glicose baixa e um pouco fria. Vou levá-la agora para a sala do fim do corredor, onde ela fica aquecida, com um aparelho que mede o oxigênio o tempo todo, um pouco de oxigênio e soro com açúcar na veia. Enquanto ela respirar com esse esforço, não vai mamar, porque pode engasgar e cansar. Mas o seu colostro vai ser dela: a enfermeira vai ajudar a senhora a tirar agora, e a gente guarda.””
Não diga: “É só um cansacinho, daqui a pouco ela volta para mamar.” Promete um prazo que ninguém conhece e desautoriza a separação que você acabou de indicar.
02h25 — Cecilio pergunta se não é melhor começar logo o antibiótico
““Cecilio, é uma pergunta justa, e eu olhei isso com cuidado. O que aumenta a chance de infecção num recém-nascido é bolsa rota há muitas horas, febre na mãe, trabalho de parto prematuro ou o exame do estreptococo positivo — e a Nazira não teve nenhum deles. Com um bebê assim, a regra que a gente segue é observar de perto, sem antibiótico, e reavaliar até as seis horas de vida. Se ela piorar ou não melhorar até lá, a gente colhe o exame de sangue e começa o antibiótico na mesma hora. Não é esperar para ver: é olhar de hora em hora, com hora marcada para decidir.””
Não diga: “Antibiótico não faz mal, então já vamos dar.” Faz, e ainda tira o motivo para reavaliar.
02h40 — Nazira pergunta se foi a diabetes dela que causou isso
““A diabetes aumenta, sim, a chance de o bebê nascer com a glicose baixa e de o pulmão demorar mais para funcionar sozinho — por isso a glicose dela foi medida desde a primeira hora. Mas isso não é culpa, é um motivo para cuidar de um jeito diferente, e foi o que aconteceu: a senhora fez o pré-natal, usou a insulina, e a Theodora está sendo acompanhada do jeito certo desde que nasceu. O que eu preciso da senhora agora é descanso e o colostro.””
Não diga: “Se a glicemia estivesse controlada, isso não teria acontecido.” Afirma uma causa que ninguém pode provar e não muda nada do que se faz agora.
06h40 — contar que a hipótese mudou, que ela foi para o CPAP e que a vaga de UTI foi pedida
““Às duas da manhã eu disse que ia olhar de novo às seis, e olhei. A Theodora não melhorou como a gente esperava: está precisando de mais oxigênio. Então três coisas mudaram. Ela está com um aparelho no nariz, o CPAP, que mantém um pouco de pressão para os pulmões não fecharem. A gente colheu o exame de sangue e começou o antibiótico, porque, com a piora, a regra é tratar enquanto a infecção não é descartada. E eu pedi uma vaga numa UTI neonatal, porque, se ela precisar de mais do que o CPAP, aqui não temos o aparelho. Pedir a vaga agora, com ela estável, é melhor do que pedir quando ela estiver pior.””
Não diga: “Ela piorou muito, está grave, vai precisar de UTI.” Transforma em alarme o que é uma decisão planejada no limiar certo.
09h10 — explicar a transferência: para onde, como, quem vai e o que acontece com a mãe
““A vaga saiu num hospital a cento e dez quilômetros daqui. Uma ambulância com incubadora e uma equipe de neonatologia vem buscá-la e deve chegar no começo da tarde. Ela vai no CPAP, com o oxigênio medido o tempo todo. Nazira, a senhora operou esta noite e ainda não pode viajar; o Cecilio pode ir atrás, de carro. Antes de ela sair, a gente leva a senhora para vê-la. O colostro vai junto, e vou deixar anotado o telefone da UTI para vocês ligarem hoje à noite. Quando a senhora tiver alta, vocês combinam com a equipe de lá a sua ida para ficar com ela.””
Não diga: “Lá eles vão resolver.” Desloca a responsabilidade e não responde a nenhuma das perguntas que a família tem.
10h50 — contar o pneumotórax, uma complicação do tratamento
““Eu preciso contar uma coisa que aconteceu há meia hora. A pressão do CPAP, que estava ajudando, fez escapar um pouco de ar do pulmão para dentro do peito, do lado de fora do pulmão — é o que se chama pneumotórax. É uma complicação conhecida desse tratamento, e era exatamente o que a gente estava vigiando. A saturação caiu, a pediatra tirou o ar com uma agulha e depois colocou um tubo fino entre as costelas, ligado a um frasco com água, para o ar continuar saindo. Ela voltou a respirar melhor. O tubo vai com ela para a UTI e costuma sair em poucos dias. Podem me perguntar o que quiserem.””
Não diga: “Houve uma intercorrência, mas já está tudo resolvido.” Esconde o que aconteceu atrás de um termo técnico e promete o que não se sabe.
Dia 6 — na alta, os sinais que fazem voltar e a próxima gestação
““A Theodora vai para casa respirando sozinha e mamando bem. Em casa, vocês voltam com ela no mesmo dia se ela respirar muito rápido ou com aquele gemido, ficar arroxeada, parar de mamar, ficar molinha demais ou com a temperatura baixa ou alta. A consulta de retorno já está marcada na unidade de saúde. E, Nazira, numa próxima gravidez, conte ao seu obstetra o que aconteceu aqui: a data de uma cesárea marcada é conversa do pré-natal, com essa história na mesa.””
Não diga: “Da próxima vez, não deixe marcarem a cesárea tão cedo.” Põe na mão da mãe uma decisão que é do obstetra com ela, na hora da alta e sem espaço para conversa.
Onde bons médicos discordam
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.
De 86% a 93% — guia do Ministério da Saúde, 2014
O guia usa a faixa de 86% a 93% em todos os ajustes de suporte respiratório, sem distinção de idade gestacional: no CPAP, aumentar a FiO2 quando a saturação cai abaixo de 86% e reduzir quando passa de 93%; na indicação de surfactante, a FiO2 é a necessária para manter a saturação entre 86% e 93%; depois do surfactante, os parâmetros são ajustados para a mesma faixa. É a régua federal escrita para qualquer recém-nascido em CPAP ou ventilação.
Brasil. Ministério da Saúde. Atenção à saúde do recém-nascido: guia para os profissionais de saúde. 2. ed. atual. Brasília: Ministério da Saúde, 2014. v. 3, itens 22.2.1.4, 23.5.2 e 23.5.7.
De 90% a 94%, com alarmes em 89% e 95% — Consenso Europeu de síndrome do desconforto respiratório, 2025
O consenso recomenda, para o pré-termo abaixo de 28 semanas que recebe oxigênio, saturação-alvo entre 90% e 94% e alarmes ajustados em 89% e 95%. A base é a colaboração NeOProM: mirar 85% a 89% em vez de 91% a 95% protegeu da retinopatia, mas aumentou a mortalidade (risco relativo 1,17) e a enterocolite necrosante (1,25), e o padrão passou a ser a faixa mais alta. Uma coorte posterior sugere que 88% a 93% talvez funcione tão bem, e o próprio consenso deixa essa pergunta para ensaios futuros; o que ele afirma é que mirar 85% a 89% deve ser evitado e que os alarmes não devem passar de 95%.
Sweet DG, Carnielli VP, Greisen G, et al. European Consensus Guidelines on the Management of Respiratory Distress Syndrome: 2025. Neonatology. 2026;123(4):514-539, seção de oxigênio depois da estabilização.
Decide o primeiro degrau, o escopo, e o segundo confirma. O consenso europeu foi escrito para o paciente em questão — o prematuro com síndrome do desconforto respiratório em oxigênio — e traz recomendação específica para quem tem menos de 28 semanas; a faixa do Ministério é um ajuste geral de aparelho para todo recém-nascido, escrito antes dos ensaios que mediram mortalidade por alvo de saturação. A parte de baixo da faixa federal, de 86% a 89%, é justamente a que esses ensaios associaram a mais mortes. Entre 28 e 34 semanas, nenhum dos dois documentos traz regra própria, e decide a data: o consenso de 2025 trata a faixa mais alta como o padrão do prematuro. Esta apostila adota 90% a 94%, com alarmes em 89% e 95%, para todo prematuro em oxigênio; a extensão para 28 a 34 semanas é leitura desta apostila, porque a recomendação europeia está escrita para os menores de 28. No plantão, isso vira duas linhas na prescrição — o alvo e os limites do alarme do monitor — e o hábito de baixar a FiO2 quando a saturação passa de 95%. Para o bebê de termo ou quase termo fora da sala de parto, nenhum documento deste capítulo fixa faixa própria, e esta apostila adota 90% a 95%: acima dos 90% que o guia do MS trata como sinal de alarme depois de 24 horas de vida e sem passar do limite de 95% que a diretriz da SBP usa aos 10 minutos e o consenso europeu usa como alarme.
Em ventilação mecânica, com FiO2 de 0,40 ou mais — guia do Ministério da Saúde, 2014
Na síndrome do desconforto respiratório, o guia indica surfactante para o bebê que já está em ventilação mecânica e depende de FiO2 de 0,40 ou mais para sustentar PaO2 de 50 a 70 mmHg ou saturação de 86% a 93%, assim que o diagnóstico é feito, com reavaliação de novas doses a cada 6 horas; no nascido com menos de 1.000 g que foi intubado na sala de parto, a primeira dose vai na primeira hora. Somado ao critério de falha do CPAP do mesmo guia — saturação abaixo de 86% com FiO2 acima de 0,60 e 8 cmH2O —, isso quer dizer que um prematuro em CPAP com FiO2 de 0,55 não tem nem falha de CPAP nem indicação de surfactante.
Brasil. Ministério da Saúde. Atenção à saúde do recém-nascido: guia para os profissionais de saúde. 2. ed. atual. Brasília: Ministério da Saúde, 2014. v. 3, itens 22.2.1.4, 23.5.2 e 23.5.3.
Ainda no suporte não invasivo, com pressão de 6 cmH2O ou mais e FiO2 de 0,30 ou mais, ou pelo ultrassom — Consenso Europeu, 2025
O consenso manda dar surfactante cedo, ainda em suporte não invasivo. Acima de 28 semanas, para a doença que piora, sugere tratar o bebê com pressão de 6 cmH2O ou mais e FiO2 de 0,30 ou mais, ou quando o ultrassom pulmonar indicar; abaixo de 28 semanas, considera profilaxia seletiva na primeira hora diante de sinais precoces. O cateter fino é a via preferida no bebê que respira espontaneamente, e o dispositivo supraglótico pode servir aos maiores. A justificativa é o próprio curso da doença: o surfactante funciona melhor antes da lesão instalada. Para o pré-termo tardio e o termo precoce com sinais de desconforto, o mesmo documento diz que ainda não há evidência suficiente para recomendar.
Sweet DG, Carnielli VP, Greisen G, et al. European Consensus Guidelines on the Management of Respiratory Distress Syndrome: 2025. Neonatology. 2026;123(4):514-539, seção de terapia com surfactante.
Para o prematuro, decidem o escopo e a data. O consenso de 2025 é escrito para a síndrome do desconforto respiratório do prematuro e incorpora a administração sem intubação, que o guia federal de 2014 não prevê; o limiar do Ministério só chega depois da falha do CPAP e da intubação, quando a doença já está instalada e o surfactante rende menos. Esta apostila adota o limiar europeu no prematuro acima de 28 semanas — pressão de 6 cmH2O ou mais e FiO2 de 0,30 ou mais, ou ultrassom que indique —, lido como soma de pressão e oxigênio pela razão que está nas notas do bloco de critério. Para o bebê de termo precoce, como Theodora, o escopo decide ao contrário: o consenso declara que não recomenda, e a única regra escrita é a do Ministério, na ventilação mecânica; a decisão é da UTI. O que isso muda para o interno é a hora do telefone. Num hospital sem surfactante, o prematuro de 31 semanas em CPAP de 6 cmH2O que passa de FiO2 0,30 é transferência agora, e não quando cumprir o critério de falha.
Líquido meconial, mecônio na traqueia e radiografia compatível — guia do Ministério da Saúde, 2014
Para o guia, três achados sustentam o diagnóstico: o relato de líquido amniótico meconial, mecônio encontrado na traqueia do bebê e uma radiografia que combine com a síndrome. O segundo critério pressupõe que alguém tenha visto a traqueia — o que acontecia quando a laringoscopia com aspiração traqueal do bebê não vigoroso era rotina na sala de parto.
Brasil. Ministério da Saúde. Atenção à saúde do recém-nascido: guia para os profissionais de saúde. 2. ed. atual. Brasília: Ministério da Saúde, 2014. v. 3, item 21.4.3.1.
Sem laringoscopia nem aspiração traqueal de rotina — diretrizes de reanimação da Sociedade Brasileira de Pediatria, 2026
Com líquido meconial de qualquer viscosidade, a diretriz manda não aspirar a via aérea no desprendimento do polo cefálico, manter com a mãe o bebê com boa vitalidade e, no bebê sem boa vitalidade, fazer os passos iniciais com aspiração de boca e narinas só se houver suspeita de obstrução. Laringoscopia logo ao nascer e aspiração da traqueia como rotina ficam de fora, porque não melhoram o desfecho e retardam o início da ventilação. A base citada é uma metanálise de quatro ensaios, com 581 bebês, somada a um estudo observacional de 131: aspirar a traqueia sob visão direta ou ventilar com máscara sem aspirar deu o mesmo resultado em aspiração meconial, encefalopatia e sobrevida à alta. A aspiração traqueal fica para a obstrução comprovada, uma única vez, pela cânula.
Almeida MFB, Guinsburg R; PRN-SBP; Departamento de Neonatologia da SBP. Reanimação do recém-nascido ≥34 semanas em sala de parto: diretrizes 2026 da Sociedade Brasileira de Pediatria. Rio de Janeiro: SBP, 2026, seção 5.3.3.
As duas regras não governam o mesmo ato — uma é critério diagnóstico, a outra é conduta da sala de parto —, mas uma depende do gesto que a outra aboliu: hoje, a maioria dos bebês com líquido meconial nunca terá a traqueia vista. Decide a data, e com ela a coerência: aplicado ao pé da letra a um bebê de 2026, o critério de 2014 ou deixa sem diagnóstico a aspiração que está na radiografia, ou empurra alguém a fazer uma laringoscopia para “confirmar” — exatamente o que a diretriz vigente proíbe e o que não muda o desfecho. Esta apostila adota como diagnóstico de trabalho a soma de três elementos: líquido amniótico meconial, desconforto respiratório de início precoce sem outra causa que o explique melhor, e radiografia compatível, com atelectasias grosseiras alternando com áreas hiperinsufladas. Mecônio visto na traqueia, no bebê intubado por obstrução, reforça o diagnóstico; a ausência dessa informação não o afasta. A escolha é desta apostila: os três elementos vêm do guia do Ministério, menos o que dependia da prática abandonada, e o de causa alternativa é o que impede que todo bebê com mecônio no líquido e taquipneia receba o rótulo.
O raciocínio, em voz alta
Mesmo hospital regional, uma terça-feira à tarde. Alcebiades nasceu às 16h40, de parto vaginal, filho de Presciliana Surubim, 26 anos, primigesta, com 41 semanas e 4 dias. A bolsa rompeu às 7h40, o líquido saiu meconial espesso e a ausculta mostrou desacelerações no período expulsivo. Ele nasceu hipotônico e sem respirar; a equipe fez os passos iniciais e ventilou com máscara por 90 segundos, com frequência cardíaca acima de 100 no segundo minuto. Apgar 3, 6 e 8. Peso de 3.580 g. A mãe não teve febre; a pesquisa de estreptococo do grupo B não foi feita. Às 17h20, com 40 minutos de vida, você o examina na unidade intermediária: frequência respiratória 92, tiragem intercostal e retração xifoide acentuadas, gemido audível, tórax abaulado, unhas e coto umbilical impregnados de mecônio. No capacete com FiO2 de 0,60, a saturação é de 90% na mão direita e de 78% no pé. Frequência cardíaca de 164, enchimento capilar de 3 segundos, pressão arterial média de 38 mmHg. Temperatura axilar de 38,1 °C — o berço de calor radiante ficou no máximo desde a reanimação. Glicemia de fita de 52 mg/dL. Ele está hipotônico e pouco reativo ao estímulo. Cada vez que a técnica aspira a boca, a saturação cai para 70% e custa minutos para voltar.
Nomear o que está na frente
Termo tardio, líquido meconial espesso, asfixia com ventilação ao nascer, desconforto que começou cedo e progride, tórax hiperinsuflado: é o retrato da síndrome de aspiração meconial do guia do MS. Por cima dela há um segundo diagnóstico, que está no oxímetro: 90% na mão direita e 78% no pé são 12 pontos de diferença, mais que o dobro dos 5% que o guia considera significativos, com hipoxemia maior que o esforço e dessaturação a cada toque — hipertensão pulmonar persistente. E há um terceiro, que não é respiratório: Apgar 3 no primeiro minuto, hipotonia e pouca reatividade num bebê que asfixiou pedem que se pense em encefalopatia hipóxico-isquêmica desde já.
Primeiro, tirar o calor
A primeira prescrição não é oxigênio: é baixar o berço aquecido para manter a temperatura entre 36,5 e 37,2 °C — no bebê asfixiado, esta apostila adota o teto de 37,2 °C do guia federal, abaixo do 37,5 do recém-nascido em geral. A diretriz da SBP (2026) manda evitar temperatura acima de 38 °C no bebê asfixiado, porque a hipertermia piora a lesão cerebral, e manda também não começar hipotermia terapêutica antes de reunir os dados que a indicam. E a mesma diretriz dá o prazo: são seis horas, contadas do nascimento, para decidir se haverá hipotermia terapêutica. Alcebiades nasceu às 16h40; o prazo termina às 22h40. Os critérios e a condução da hipotermia são de Depois que o coração voltou, nesta apostila; o que é deste capítulo é o relógio, que precisa estar escrito no prontuário e dito na primeira ligação para a regulação.
Manipulação mínima e o oxímetro certo
No bebê com hipertensão pulmonar, cada manipulação contrai a artéria pulmonar. Suspende-se a aspiração de rotina, a pesagem e os exames que podem esperar; os cuidados se agrupam num único momento. O oxigênio sobe para manter a saturação pré-ductal, na mão direita, acima de 90% — faixa do termo que esta apostila adota —, e o pé é medido a cada reavaliação para acompanhar a diferença. A pressão arterial média de 38 mmHg e o enchimento de 3 segundos entram na conta: pelo guia do MS, expansão de volume com soro fisiológico só se faz com evidência de perda sanguínea, e o suporte hemodinâmico além disso é decisão da UTI.
Glicose, acesso e dieta zero
A glicemia de 52 mg/dL está acima do limiar, mas asfixia e desconforto respiratório grave estão entre as situações de estresse que o guia do MS lista como causa de hipoglicemia, e o bebê não pode mamar. O acesso venoso vem com soro glicosado a 10% a 70 mL/kg/dia — 3,58 × 70 = 250 mL por dia, 10,4 mL/h, VIG de 4,9 mg/kg/min —, e a glicemia se repete em 1 hora. A dieta fica zero, com sonda gástrica aberta.
Radiografia e gasometria: o suporte que falta
A radiografia mostra atelectasias grosseiras alternando com áreas hiperinsufladas nos dois pulmões, sem ar fora do pulmão — o padrão da aspiração meconial, lido com atenção redobrada ao pneumotórax, que é complicação esperada. A gasometria arterial da radial direita, em FiO2 de 0,80, traz pH 7,18, PaCO2 62 mmHg, PaO2 48 mmHg e excesso de base de −9. Pelo guia do MS, acidose com pH abaixo de 7,20 é indicação de ventilação mecânica. O hospital não tem ventilador neonatal: a pediatra intuba e ventila com ventilador manual em peça T, com oxigênio pelo misturador, e o pedido de vaga passa a ser de emergência.
Infecção: a decisão que não é deste capítulo
Bolsa rota há 9 horas, estreptococo do grupo B não pesquisado e asfixia: quem pesa esses fatores e decide sobre hemocultura e antibiótico é o capítulo Começar sem saber, parar sem prova. Este capítulo registra só duas coisas. A pneumonite química do mecônio pode ser complicada por infecção bacteriana, e a radiografia não separa as duas (MS, 2014). E a decisão sobre infecção não pode atrasar nada do que foi feito acima.
O telefonema: o que a UTI precisa saber
A ligação sai com os dados na ordem: 41 semanas e 4 dias, 3.580 g, 40 minutos de vida na primeira avaliação, líquido meconial espesso, ventilação por 90 segundos, Apgar 3, 6 e 8; síndrome de aspiração meconial com diferença pré-pós-ductal de 12 pontos, labilidade e acidose mista, agora intubado em ventilação manual; temperatura corrigida; hipotonia e pouca reatividade, com o prazo da hipotermia terapêutica terminando às 22h40. O que ele precisa está nessa lista: ecocardiograma, ventilação mecânica, óxido nítrico se a hipertensão pulmonar se confirmar — o guia do MS o reserva para acima de 34 semanas com índice de oxigenação acima de 25 e evidência de hipertensão pulmonar — e avaliação neurológica dentro da janela. Quem calcular o índice na UTI usa a FiO2 em porcentagem, pela nota do bloco de critério.
O que se ganhou e o que não se perde na estrada
O surfactante na aspiração meconial é decisão da UTI: o guia do MS o considera no bebê em ventilação invasiva com FiO2 acima de 0,40, e o Consenso Europeu registra que ele pode ser útil fora da síndrome do desconforto respiratório, sem recomendação formal. No transporte, valem as regras da diretriz da SBP — estabilizado, incubadora de dupla parede, oximetria contínua, sonda gástrica aberta — e mais três deste bebê: temperatura normal sem passar de 38 °C, manipulação mínima e pneumotórax como primeira hipótese de qualquer piora súbita. A equipe de transporte chegou às 19h50. Na UTI, o ecocardiograma confirmou hipertensão pulmonar com desvio da direita para a esquerda pelo canal, e a avaliação neurológica indicou hipotermia terapêutica, iniciada dentro da janela das 6 horas.
Faça você
Mesmo hospital regional, uma madrugada de domingo. Genoveva Melgaço, 29 anos, segunda gestação, chegou às 3h10 em trabalho de parto com dilatação total. A idade gestacional é de 31 semanas e 2 dias pela ultrassonografia de 12 semanas; a bolsa rompeu às 1h30, o líquido é claro, ela não tem febre e não houve tempo para corticoide antenatal. A pesquisa de estreptococo do grupo B não foi feita. A menina nasceu às 3h35, de parto vaginal, chorou, e em cinco minutos estava gemendo e retraindo; a equipe da sala de parto a pôs em CPAP e a levou para a unidade intermediária. Peso de 1.620 g. Às 4h40, com 1 hora e 5 minutos de vida, ela está numa incubadora, em CPAP nasal de selo d'água com 6 cmH2O e FiO2 de 0,35, saturação pré-ductal de 91%, frequência respiratória de 78, Silverman-Andersen 6, frequência cardíaca de 150, enchimento capilar de 2 segundos, temperatura axilar de 36,2 °C e glicemia de fita de 48 mg/dL. O hospital não tem surfactante nem ventilador neonatal; a UTI neonatal mais próxima fica a 110 km.
O diagnóstico e a radiografia
Qual é a hipótese principal, o que a radiografia deve mostrar e em que janela de horas, e o que não pode sair do diferencial?
O alvo e o surfactante
Com FiO2 de 0,35 em CPAP de 6 cmH2O, que saturação você persegue, com quais alarmes, e o que esse par de números decide agora?
Temperatura, glicose, líquidos e dieta
Prescreva para 1.620 g: o aquecimento, a infusão em mL/h com a VIG resultante e o que acontece com a dieta.
Infecção e regulação
Quem decide sobre antibiótico, com base em quê? E o que você diz, na ordem, ao telefone da regulação?
A conversa com Genoveva
O que dizer sobre a transferência e sobre o corticoide que não houve tempo de receber?
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Diagnóstico. Prematura de 31 semanas, sem corticoide antenatal, com gemido e retração desde os primeiros minutos e necessidade de oxigênio em CPAP: a hipótese principal é doença da membrana hialina. A radiografia deve mostrar infiltrado retículo-granular difuso com broncogramas aéreos e volume baixo, mas o guia do MS situa esse padrão entre 6 e 24 horas de vida — uma imagem de 1 hora pode ser pouco expressiva, e isso não afasta a doença; onde houver ultrassonografia pulmonar com quem saiba fazê-la, o Consenso Europeu (2025) a considera confiável já nas primeiras 2 horas. No diferencial ficam a pneumonia precoce, porque trabalho de parto prematuro sem causa aparente é fator de risco de infecção; o pneumotórax, porque ela está em CPAP; e o frio e a glicose, que se medem de novo. Taquipneia transitória, num bebê de 31 semanas com esse esforço, é a hipótese menos provável. Alvo e surfactante. Esta apostila adota, para todo prematuro em oxigênio, saturação pré-ductal de 90% a 94% com alarmes em 89% e 95% — a recomendação europeia para menores de 28 semanas, estendida por leitura desta apostila até 34. Os 91% estão no alvo, mas o que decide é o outro número: prematura acima de 28 semanas, em CPAP de 6 cmH2O, com FiO2 de 0,35, cumpre o limiar de surfactante do Consenso Europeu — pressão de 6 cmH2O ou mais e FiO2 de 0,30 ou mais. A indicação é agora, e não quando o CPAP falhar, que é o limiar do guia do MS de 2014. Como o hospital não tem surfactante, o limiar vira transferência imediata. Enquanto a ambulância não chega: CPAP entre 6 e 8 cmH2O, sonda gástrica aberta, FiO2 titulada pelo alvo, gasometria arterial, transiluminador ao lado e pneumotórax como primeira hipótese de qualquer queda súbita. Temperatura, glicose, líquidos e dieta. Com 36,2 °C, ela está abaixo da faixa de 36,5 a 37,5 °C: incubadora aquecida e umidificada, touca, e temperatura de hora em hora até normalizar. A glicemia de 48 mg/dL está acima do limiar do guia do MS, mas ela não vai mamar: soro glicosado a 10%. O Consenso Europeu começa os líquidos do prematuro com 70 a 80 mL/kg/dia e o guia do MS limita a 50 a 70 mL/kg/dia nas primeiras 48 horas; as duas faixas se tocam em 70. A conta: 70 × 1,62 = 113 mL por dia, 4,7 mL/h em bomba, com VIG de 70 × 100 ÷ 1.440 = 4,9 mg/kg/min, e glicemia de controle em 1 hora. Genoveva extrai o colostro, que segue identificado com a bebê: o Consenso Europeu prefere o leite da própria mãe para começar a dieta e admite pequenos volumes de colostro já no primeiro dia no bebê estável, decisão que será da UTI. Infecção e regulação. Trabalho de parto prematuro sem causa aparente, bolsa rota há pouco mais de 2 horas e estreptococo do grupo B não pesquisado: pesar esses fatores e decidir sobre hemocultura e antibiótico é de Começar sem saber, parar sem prova. O Consenso Europeu acrescenta a régua de saída: se o antibiótico começar, ele é reavaliado para suspensão em 24 a 36 horas com culturas negativas. Ao telefone, na ordem: 31 semanas e 2 dias, 1.620 g, 1 hora de vida, sem corticoide antenatal; desconforto desde o quinto minuto, CPAP de 6 cmH2O com FiO2 de 0,35 e saturação de 91%, Silverman-Andersen 6; temperatura, glicemia e infusão; limiar de surfactante cumprido num hospital sem surfactante e sem ventilador; a decisão sobre infecção e o horário da hemocultura, se colhida. O pedido é de vaga para surfactante e suporte, e a gravidade se descreve pelo limiar cumprido, não por adjetivo. A conversa. “Genoveva, a sua filha nasceu antes do tempo e o pulmão dela ainda não fabrica sozinho uma substância que impede que ele feche a cada respiração. O aparelho no nariz está ajudando, mas ela está precisando de um remédio que se coloca no pulmão e que este hospital não tem. Por isso pedi uma vaga numa UTI a 110 quilômetros; uma ambulância com incubadora e equipe vem buscá-la. O seu leite vai com ela.” Sobre o corticoide: “Existe uma injeção que se dá à mãe antes de um parto prematuro para ajudar o pulmão do bebê, mas ela precisa de horas para agir, e a senhora chegou já em período expulsivo. Não houve tempo, e ninguém deixou de fazer o que dava.” O que se evita é prometer que a UTI resolve ou insinuar que a mãe chegou tarde. O corticoide antenatal, as indicações e o tempo que ele precisa são de As horas que o corticoide precisa.
O Consenso Europeu de 2025 manda dar surfactante cedo, ainda em suporte não invasivo, e sugere tratar o prematuro acima de 28 semanas com pressão de 6 cmH2O ou mais e FiO2 de 0,30 ou mais, ou quando o ultrassom indicar. A bebê cumpre os dois números com 90 minutos de vida. A justificativa é o curso da doença: o surfactante rende mais antes da lesão instalada. Esperar a falha do CPAP ou a intubação com FiO2 de 0,40, que é a régua do guia do Ministério da Saúde de 2014, empurra o tratamento para a fase em que ele funciona menos. Onde não houver surfactante, o mesmo limiar é o motivo para transferir.
Teste-se
Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.
Plano de revisão
Em 7 dias
Na avaliação supervisionada de um recém-nascido com desconforto, registre esforço, saturação pré-ductal, necessidade de oxigênio, perfusão, temperatura e glicemia. Proponha suporte e duas hipóteses, dizendo o que espera na próxima avaliação e qual mudança anteciparia tratamento ou transferência. Confira a conta de VIG dentro da oferta hídrica e a segurança da via.
Em 30 dias
Compare um prematuro em CPAP com FiO2 crescente, um termo exposto a mecônio com hipoxemia lábil e outro com cianose desproporcional ao esforço. Apresente a evolução e uma radiografia disponível, reconheça seus limites e formule o pedido de ajuda. Justifique o próximo suporte e o destino sem esperar uma imagem clássica ou a falha completa do tratamento.
Agora atenda
Agora é a sua vez de atender. Um recém-nascido começa a respirar mal nas primeiras horas de vida e a equipe de enfermagem chama você ao berço. Antes de escrever qualquer nome para o quadro, conte a frequência em um minuto, pontue o Silverman-Andersen, ponha o oxímetro na mão direita e no pé, meça a temperatura e a glicemia, e procure o que imita pulmão. Depois decida o oxigênio pelo alvo, a dieta, a infusão com a conta feita, o que fazer com a pergunta da infecção e a hora em que você vai olhar de novo. Converse com a família, e saiba em que número o telefone da regulação toca.
