Pediatria › Neonatologia
Reanimação neonatal em sala de parto
O que fazer nos primeiros sessenta segundos de vida: como decidir quem precisa de ajuda, como ventilar de verdade, como saber que a ventilação está funcionando e o que fazer quando não está.
Almeida MFB, Guinsburg R; Coordenadores Estaduais do PRN-SBP; Grupo Executivo do PRN-SBP; Departamento de Neonatologia da SBP. Reanimação do recém-nascido ≥34 semanas em sala de parto: diretrizes 2026 da Sociedade Brasileira de Pediatria. Rio de Janeiro: SBP, 12 de junho de 2026. ISBN 978-65-85299-07-7. https://doi.org/10.25060/PRN-SBP-2026-1
Guinsburg R, Almeida MFB; Coordenadores Estaduais do PRN-SBP; Grupo Executivo do PRN-SBP; Departamento de Neonatologia da SBP. Reanimação do recém-nascido <34 semanas em sala de parto: diretrizes 2026 da Sociedade Brasileira de Pediatria. Rio de Janeiro: SBP, 12 de junho de 2026. ISBN 978-65-85299-06-0. https://doi.org/10.25060/PRN-SBP-2026-2
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Recém-nascido de termo com peso estimado de 3 kg, em ventilação por cânula traqueal com oxigênio a 100% e massagem cardíaca adequada e sincronizada há 60 segundos, mantém frequência cardíaca de 42 bpm. Cateter venoso umbilical instalado, com refluxo de sangue. Você dispõe de ampolas de adrenalina 1 mg/mL. Qual a prescrição correta?
O paciente que você vai ver
São 3h40 de uma terça-feira e você está no corredor do centro obstétrico com um copo de café pela metade. A enfermeira obstétrica passa por você e diz, sem parar: "leito 2, primigesta, 39 semanas, sem intercorrência, tá coroando — a pediatra desceu pra UTI resolver um negócio e mandou você receber". Você entra na sala. São seis passos até a mesa de reanimação e, nesses seis passos, você percebe três coisas ao mesmo tempo: que não sabe o peso estimado, que não sabe a cor do líquido, e que nunca conferiu aquele material.
Na mesa, Camila, 22 anos, no expulsivo. O acompanhante de mão dada com ela. A luz da fonte de calor radiante está apagada. Na bandeja ao lado, um balão autoinflável com máscara — você não sabe se aquela máscara é a de termo ou a de prematuro, e não sabe se o balão veda. Tem um estetoscópio. O oxímetro está desligado na tomada. O relógio de parede tem ponteiro de segundos, e você vai precisar dele mais do que imagina.
Às 3h44 o bebê nasce. É um menino, aparentemente grande, coberto de vérnix, com o corpo azulado. E ele não chora. Ele não faz nada. Os braços caem para os lados quando a obstetriz o apoia sobre o abdome da mãe, e o peito não sobe. Camila levanta a cabeça e pergunta: "por que ele não tá chorando?".
Aqui começa o problema real do interno de pediatria, e ele não é o que os livros sugerem. Você sabe o que é reanimação neonatal. Já viu o fluxograma colado na parede, provavelmente já respondeu questão sobre relação três por um e sobre dose de adrenalina. O que você não sabe é o que fazer nos próximos sessenta segundos com um recém-nascido flácido no abdome da mãe, uma fonte de calor apagada e ninguém mais na sala que já tenha feito isso.
E a estatística está do seu lado de um jeito que assusta e alivia ao mesmo tempo. Dois em cada dez recém-nascidos precisam de alguma ajuda para começar a respirar. Um em cada dez precisa de ventilação com pressão positiva. Só um em cada cem precisa de intubação, e entre um e três em cada mil precisam de massagem cardíaca ou de medicação — e isso desde que a ventilação tenha sido bem feita. Ou seja: o procedimento que você mais vai precisar fazer é o mais simples de todos, e é o que quase todo mundo faz errado.
A frase que organiza tudo o que vem a seguir é essa. Quase tudo se resolve com ventilação, e quase todo mundo erra a ventilação. Não é a massagem, não é a adrenalina, não é a intubação. É máscara vedada, pescoço em leve extensão, frequência certa e — sobretudo — a correção sistemática quando o tórax não expande. O bebê de Camila vai ficar bem, e vai ficar bem por causa de uma máscara bem aplicada, não por causa de nada mais sofisticado que isso.
O relógio, porém, é curto. A ventilação precisa começar nos primeiros sessenta segundos de vida — o que o programa brasileiro chama de Minuto de Ouro —, e o risco de morte ou de sequela aumenta 16% a cada trinta segundos de demora para iniciá-la, independentemente do peso ao nascer, da idade gestacional ou de complicações da gravidez. Sessenta segundos é pouquíssimo. E a maior parte do que os atrasa não acontece depois do nascimento: acontece antes, no material que ninguém conferiu, na mesa que ninguém ligou e na equipe que ninguém combinou.
Quem adoece disso
Em 2023 nasceram no Brasil 2.537.576 crianças. Nesse mesmo ano, 21.582 morreram no período neonatal — os primeiros 27 dias de vida —, o que corresponde a 8,50 óbitos por mil nascidos vivos e a 57% de todas as mortes de menores de cinco anos no país. A conta que mais importa para quem está na sala de parto é a fatia precoce: 15.933 desses óbitos aconteceram na primeira semana de vida, e em 3.109 deles, ou 20%, a causa esteve associada à asfixia perinatal, à hipóxia ao nascer ou à síndrome de aspiração meconial.
Um recorte desses números é o que transforma estatística em conduta. Considerando apenas os recém-nascidos com peso de nascimento de 2.500 gramas ou mais — crianças que, em tese, tinham tudo para ir bem —, asfixia, hipóxia ao nascer e aspiração de mecônio matam três por dia no Brasil. Três recém-nascidos de peso adequado, todo dia, por um problema que na maioria das vezes se resolve com uma máscara bem aplicada nos primeiros minutos. Não é uma doença rara com terapia cara: é um procedimento barato feito tarde ou feito mal.
A escala do que se espera do interno também vem de número. Dos cerca de 2,4 milhões de nascimentos anuais no país, estima-se que 480 mil crianças precisem de ajuda para iniciar e manter a respiração ao nascer — cerca de 1.300 por dia. Ventilação com pressão positiva é necessária em uma a cada dez, aproximadamente 240 mil por ano, ou 660 por dia. Intubação, em uma a cada cem, cerca de 66 por dia no país inteiro. Massagem cardíaca ou medicação, em um a três a cada mil — entre 2.400 e 7.200 por ano. Se você fizer trinta partos no seu internato, vai ventilar pelo menos um bebê. É praticamente certo que não vai intubar nenhum.
A necessidade de reanimação cresce quanto menor a idade gestacional e o peso, mas há um dado que desmonta a falsa segurança do parto tranquilo: mesmo no recém-nascido a termo sem nenhum fator de risco antenatal para asfixia, o parto cesáreo aumenta a chance de a ventilação ao nascer ser necessária. Num país que faz muita cesárea, isso significa que a sala em que menos se espera trabalho é justamente uma das que mais produzem recém-nascido que não respira sozinho.
E há a estatística que justifica este capítulo existir. Revisão sistemática de 14 estudos com 296.300 recém-nascidos em países de baixa e média renda mostrou que contar com pelo menos um membro da equipe treinado em curso de reanimação reduziu em 22% a mortalidade neonatal precoce. Um estudo populacional feito no Estado de São Paulo entre 2011 e 2020 encontrou que a presença de no mínimo sete profissionais treinados em reanimação por mil nascidos vivos no município se associou a 12% menos chance de óbito neonatal por asfixia, ajustado para variáveis socioeconômicas e demográficas. Metanálise com 1.653.805 nascimentos mostrou redução de 42% na mortalidade no primeiro dia após a introdução de programa de treinamento.
O pano de fundo é um país que estacionou. A taxa brasileira de mortalidade neonatal caiu de 18,91 por mil nascidos vivos em 2000 para 11,07 em 2010 — uma queda de 41% —, mas de 2010 a 2020 caiu apenas para 8,84, redução de 12% em dez anos. Pelo modelo de transição da mortalidade neonatal em cinco fases, o Brasil deveria estar mirando menos de 5 por mil. A parte dessa distância que depende de sala de parto é exatamente a que este texto cobre, e ela não depende de tecnologia nova: depende de gente treinada presente no nascimento certo.
Por que acontece o que acontece
O nascimento é a transição fisiológica mais brusca da vida humana, e ela é essencialmente pulmonar. Na vida fetal os sáculos e alvéolos estão cheios de líquido, a resistência vascular pulmonar é altíssima e quase nenhum sangue passa pelos pulmões: o sangue oxigenado vem da placenta pela veia umbilical e é desviado para a circulação sistêmica pelo forame oval e pelo canal arterial. Ao nascer, tudo isso precisa se inverter em minutos — o líquido sai dos espaços aéreos e é substituído por ar, o leito vascular pulmonar dilata, a resistência despenca, e o sangue do coração direito passa a ir aos pulmões, ser oxigenado, voltar ao coração esquerdo e sair para o corpo.
É por isso que a ventilação é o procedimento mais importante e mais efetivo da reanimação neonatal, e não uma etapa entre outras. Sem aeração pulmonar adequada não há hematose e não há transição do padrão circulatório fetal para o neonatal — nenhuma outra intervenção funciona enquanto o pulmão não abriu. Massagem cardíaca em pulmão fechado empurra sangue não oxigenado; adrenalina em pulmão fechado aumenta a pressão de perfusão coronariana de um sangue que não tem oxigênio para entregar. A ordem do fluxograma é a ordem em que a fisiologia se deixa consertar.
Há um detalhe anatômico que explica por que o bebê que não respira não se recupera sozinho. Na vida fetal a glote permanece fechada a maior parte do tempo, para reter o líquido pulmonar e permitir o crescimento do pulmão. Ao nascer, se o recém-nascido respira de modo rítmico e regular, ela se abre; na apneia, permanece fechada; na respiração irregular, abre apenas brevemente a cada movimento. O bebê em apneia está com a porta trancada por dentro, e a ventilação com pressão positiva rápida e efetiva é o que a mantém aberta tempo suficiente para o pulmão aerar.
Daí vem a regra que governa tudo o que vem depois: a bradicardia do recém-nascido quase nunca é um problema do coração — é consequência da insuflação pulmonar insuficiente e da hipoxemia. Isso inverte o reflexo de quem se formou em suporte de vida do adulto, onde bradicardia extrema é ritmo e pede droga. Aqui é pulmão e pede ventilação. Melhorar a frequência cardíaca é, por isso, o indicador mais sensível de que a reanimação está funcionando — e é um indicador de ventilação, não de circulação.

Por que o cordão só deve ser clampeado depois da primeira respiração
O clampeamento do cordão não é um gesto administrativo de fim de parto: é uma intervenção hemodinâmica com momento certo. Enquanto o cordão está pérvio, a veia umbilical continua entregando sangue oxigenado ao coração do recém-nascido, e essa entrega é a única fonte de pré-carga que ele tem enquanto o pulmão ainda não abriu. Clampear antes da insuflação e da vasodilatação pulmonar reduz a pré-carga ventricular e aumenta a pós-carga do ventrículo esquerdo ao mesmo tempo, prejudicando a circulação e causando hipóxia.
O quadro fica claro quando se pensa nos dois caminhos possíveis de sangue oxigenado. Se o bebê ainda não respirou, o pulmão não está oxigenando nada; se, além disso, o cordão for cortado, some também a via placentária. O resultado é um estado de baixo fluxo sistêmico, com um coração que precisa manter perfusão sem receber sangue oxigenado por nenhuma das duas rotas. Por isso a ordem fisiologicamente correta é sempre a mesma: primeiro a respiração, depois o clampeamento.
O ganho do clampeamento oportuno é mensurável e não é pequeno. Aguardar pelo menos 60 segundos promove a redistribuição de sangue da placenta para o concepto, o que pode representar até 25% do volume placentário — uma transfusão que não é impulsionada pela gravidade nem pelas contrações uterinas, mas que é favorecida pela respiração espontânea do próprio recém-nascido. O efeito aparece na concentração de hemoglobina nas primeiras 24 horas e, sobretudo, na ferritina dos 3 aos 6 meses, com redução da anemia do lactente. A contrapartida honesta é uma frequência maior de policitemia, que se traduz em vigilância mais atenta da icterícia nos primeiros dias.
Nada disso vale, porém, quando a circulação placentária já está interrompida. Descolamento prematuro de placenta, placenta prévia com sangramento e nó verdadeiro de cordão são indicação de clampeamento imediato — nesses casos, esperar não transfunde nada, apenas atrasa. O manejo do cordão nunca pode atrasar o início da ventilação assistida no recém-nascido sem boa vitalidade.
Por que o frio é um problema fisiológico, não de conforto
A temperatura corporal à admissão na unidade neonatal é um preditor forte de morbidade e mortalidade em todas as idades gestacionais, e é usada como indicador de qualidade do atendimento. A cadeia do dano é direta: a hipotermia compromete a função respiratória, leva à hipóxia tecidual, aumenta a resistência vascular pulmonar — exatamente o oposto do que a transição precisa — e eleva o risco de acidose metabólica, hipoglicemia e bradicardia. Um bebê frio, portanto, é um bebê que resiste à reanimação que você está tentando fazer.
A faixa de normotermia definida pela Organização Mundial da Saúde é de 36,5 a 37,5 graus de temperatura axilar, e ela se defende por medidas ridiculamente baratas: temperatura ambiente da sala de parto entre 23 e 25 graus com portas fechadas, fonte de calor radiante ligada antes do nascimento, campos aquecidos, secagem imediata da cabeça e do corpo, descarte dos campos úmidos e touca. O contato pele a pele com os pais, quando o bebê tem boa vitalidade, aumenta a temperatura corporal em média 0,32 grau, reduz o risco de hipoglicemia em 84% e o de admissão hospitalar em 66%.
O outro extremo também machuca, e é menos lembrado. Temperatura corporal acima de 38 graus deve ser evitada, porque agrava a lesão cerebral no paciente asfixiado. Isso tem uma consequência prática que surpreende o interno: não se desliga a fonte de calor radiante nem se inicia hipotermia terapêutica na sala de parto para o bebê que precisou de reanimação. A decisão sobre resfriar é tomada nas primeiras 6 horas de vida, depois da admissão na unidade neonatal e depois de reunir os critérios. Na sala de parto, o alvo é um só: normotermia.
Como se apresenta de verdade
A triagem do recém-nascido em sala de parto cabe em três perguntas, feitas nos primeiros segundos, olhando para o bebê e não para o monitor: é gestação de 34 semanas ou mais? Está respirando ou chorando? O tônus muscular está em flexão? As respostas a essas perguntas separam o mundo em dois grupos com condutas opostas, e o erro mais frequente do internato é tratar o primeiro grupo como se fosse o segundo.
Boa vitalidade ao nascer significa respirando ou chorando E com tônus em flexão — e isso vale independentemente do aspecto do líquido amniótico, inclusive quando ele é meconial espesso. Sem boa vitalidade significa não respirando, ou não chorando, ou sem movimentos respiratórios regulares, e/ou com tônus flácido. Repare que basta um dos critérios falhar. Um bebê que respira mas está completamente mole não tem boa vitalidade. Um bebê que se move mas faz gasping — suspiros profundos entremeados por apneias — também não.
A frequência respiratória, aliás, não entra nessa avaliação. Ninguém conta movimentos respiratórios por minuto em sala de parto. O que se avalia é se há respiração e se ela é regular e suficiente para manter a frequência cardíaca em 100 batimentos por minuto ou mais.
A maioria: o recém-nascido com boa vitalidade — e por que mexer atrapalha
Oito em cada dez recém-nascidos nascem respirando ou chorando e com tônus em flexão. Para eles, a conduta correta é quase inteiramente uma lista de coisas que não se faz — não se aspira, não se separa da mãe, não se leva à mesa, não se corta o cordão imediatamente —, e cada abstenção tem uma razão medida.
A aspiração de boca e narinas não é recomendada de rotina no recém-nascido de 34 semanas ou mais, e isso vale mesmo com líquido meconial. Recém-nascidos aspirados logo após o nascimento evoluem com saturação mais baixa e demoram mais para atingir o alvo; introduzir a sonda de forma brusca ou na faringe posterior induz resposta vagal e espasmo laríngeo, com apneia e bradicardia — a aspiração de rotina fabrica o problema que finge prevenir.
O contato pele a pele imediato também não é cortesia. Revisão sistemática de 69 ensaios com 7.290 pares de parturiente e recém-nascido de 34 semanas ou mais, em 27 países, mostrou que o contato iniciado nos primeiros 10 minutos, independentemente da via de parto, aumenta a probabilidade de aleitamento materno exclusivo no primeiro mês e entre 6 semanas e 6 meses. O que continua é o avaliar: frequência cardíaca auscultada no precórdio depois de posicionar o bebê, e observação do padrão respiratório e do tônus ao longo da primeira hora, acompanhada pelo pediatra.

O recém-nascido sem boa vitalidade: o que acontece nos primeiros 60 segundos
Cerca de dois em cada dez nascimentos caem aqui, e a sequência é fixa. Primeiro, estímulo tátil no dorso, delicado, com movimentos circulares, por volta de 15 segundos — e antes do clampeamento. A fisiologia é conhecida: a fricção do tórax ou do dorso ativa mecanorreceptores somáticos e viscerais e estimula o centro respiratório; a da planta dos pés ativa proprioceptores, reduz pausas e aumenta a frequência respiratória. Em estudo observacional com 2.563 recém-nascidos que não choraram, estimular antes do clampeamento aumentou em 84% a chance de respiração espontânea.
O que decide o passo seguinte é se o estímulo funcionou. Começou a respirar: clampeie em no mínimo 60 segundos e siga com ele junto da mãe. Não iniciou a respiração: clampeie e leve-o à mesa sob fonte de calor radiante. Não existe terceira opção nem insistir — estímulos prolongados atrasam a ventilação e estímulos vigorosos causam lesão. Nunca chacoalhar o recém-nascido.
Na mesa, os passos iniciais têm teto explícito de 30 segundos e são só duas coisas: normotermia e via aérea pérvia. Secar, aliás, não é só termorregulação — funciona como estímulo sensorial adicional por arco reflexo e pode ajudar a regularizar a respiração. Terminados os passos, avaliam-se simultaneamente respiração e frequência cardíaca: com respiração regular e frequência de 100 ou mais, o bebê volta ao colo da mãe; com apneia, respiração irregular e/ou frequência abaixo de 100, começa a ventilação.
Vale fazer a conta do relógio, porque ela é apertada e ninguém a faz na hora. Do nascimento ao fim do estímulo tátil vão uns 15 segundos. Restam 45 para clampear, transportar até a mesa, executar os passos iniciais em até 30 segundos e avaliar. Não sobra tempo para procurar máscara, ligar a fonte de calor ou descobrir que o balão não veda — e é exatamente por isso que o preparo entra como conduta.
Líquido meconial: o que mudou e o que persiste de errado
Mecônio no líquido amniótico não muda a triagem inicial, muda a composição da equipe. Como a sua presença pode indicar sofrimento fetal e aumenta o risco de a reanimação ser necessária, o atendimento ao recém-nascido deve contar com pelo menos dois profissionais aptos a iniciar a reanimação, sendo um deles médico habilitado a intubar e a indicar massagem cardíaca e medicações.
Três práticas antigas estão explicitamente fora, independentemente da viscosidade do mecônio. Não se aspira a via aérea no momento do desprendimento do polo cefálico. Não se faz laringoscopia direta imediata de rotina. Não se faz aspiração traqueal de rotina no recém-nascido não vigoroso. Revisão sistemática com metanálise de quatro estudos randomizados com 581 recém-nascidos, mais um observacional com 131, comparou aspiração traqueal sob visualização direta com ventilação sob máscara sem aspiração e não encontrou diferença em síndrome de aspiração meconial, encefalopatia hipóxico-isquêmica ou sobrevida à alta.
Na prática, portanto: bebê com líquido meconial e boa vitalidade continua junto da mãe, com clampeamento em pelo menos 60 segundos, como qualquer outro. Bebê com líquido meconial e sem boa vitalidade que não respira após o estímulo tátil vai para a mesa e recebe os passos iniciais, com aspiração de boca e narinas apenas se houver suspeita de obstrução. Se após os passos iniciais ele continua em apneia, com respiração irregular e/ou frequência cardíaca abaixo de 100, ventila-se — dentro dos primeiros 60 segundos.
A exceção existe e é rara: obstrução de via aérea confirmada no recém-nascido não vigoroso com mecônio pode exigir intubação e aspiração traqueal, feita uma única vez através da cânula conectada a um dispositivo para aspiração de mecônio e ao aspirador a vácuo, com pressão máxima de 80 a 100 milímetros de mercúrio. Mesmo aí, a ventilação com pressão positiva é aplicada imediatamente depois.
O que muda em quem não é o caso típico
Menor de 34 semanas. Existe uma diretriz brasileira própria, e ela difere em pontos que mudam a conduta já no primeiro minuto. O corpo do prematuro entra em saco plástico de polietileno sem ser secado, com a face de fora, e o saco só sai depois da estabilização térmica na unidade neonatal; usa-se touca dupla, plástica coberta por lã ou algodão. Todo recém-nascido abaixo de 32 semanas vai para a mesa após o clampeamento, mesmo com boa vitalidade; o de 32 a 33 semanas e 6 dias com boa vitalidade pode ficar em pele a pele, desde que monitorado de perto. O clampeamento de pelo menos 60 segundos vale igual e reduziu em 32% a chance de morte em metanálise de dados individuais de 20 ensaios com 3.260 recém-nascidos abaixo de 37 semanas. A diferença mais marcante está no oxigênio: a ventilação do menor de 34 semanas começa com 60%, e não com ar ambiente. O manejo depois da estabilização é assunto do capítulo de prematuridade.
Hérnia diafragmática congênita. É a situação em que ventilar sob máscara faz mal: intubação traqueal e sonda gástrica imediatas são indicadas nos portadores que necessitam de ventilação, porque insuflar estômago e alças herniadas comprime ainda mais o pulmão. Diagnóstico antenatal conhecido é o tipo de informação que precisa aparecer no briefing.
Anomalias de via aérea. A máscara laríngea é a interface de primeira escolha na via aérea difícil, com relatos de sucesso em sequência de Pierre Robin, síndromes de Treacher Collins, Smith-Lemli-Opitz e Cornelia de Lange e fendas laringotraqueoesofágicas. No Brasil, o menor tamanho disponível é o número 1, para recém-nascidos entre 2 e 5 quilos.
Suspeita de hipovolemia. Descolamento prematuro de placenta, laceração placentária, prolapso ou nó apertado de cordão e perda sanguínea pelo próprio cordão produzem um recém-nascido que não responde às medidas de reanimação e que pode ter palidez, má perfusão e pulsos débeis. É a única situação em que o expansor de volume entra cedo no raciocínio — e a informação vem da história obstétrica, não do exame.
Anomalias congênitas letais ou potencialmente letais. É a única circunstância em que, no recém-nascido de 34 semanas ou mais, se discute não iniciar a reanimação, e a discussão precisa acontecer antes do parto, com comprovação diagnóstica antenatal e com a família informada. Sem certeza quanto à decisão, ou sem oportunidade de conversar com a família, todos os procedimentos são feitos conforme as diretrizes.
Como fechar o diagnóstico
Não há exame de sangue, não há imagem e não há escore que decida nada na sala de parto. O instrumento é o estetoscópio, o monitor cardíaco, o oxímetro de pulso e o relógio com ponteiro de segundos. O que o interno mais erra aqui não é a técnica de cada medida — é qual medida usar em que momento, e quanto tempo esperar antes de reavaliar.
A hierarquia é explícita. A frequência cardíaca é o principal parâmetro para indicar a conduta logo após o nascimento, e a melhora dela é o indicador mais sensível da eficácia dos procedimentos. Respiração é o segundo. Saturação é o terceiro e só entra quando há indicação de ventilação. Cor não é parâmetro de decisão em nenhum momento — o recém-nascido normal leva cinco minutos ou mais para ficar rosado, e olhar para a cor é a forma mais rápida de dar oxigênio a quem não precisa.
Frequência cardíaca: qual método, quando, e por que a escolha muda a conduta
Considera-se adequada a frequência cardíaca de 100 batimentos por minuto ou mais nos primeiros minutos após o nascimento. Bradicardia é definida como frequência abaixo de 100. Os dois limiares que governam o fluxograma são 100 e 60: abaixo de 100 se ventila, abaixo de 60 apesar de ventilação efetiva se acrescenta massagem cardíaca.
A primeira avaliação, logo após os passos iniciais, é feita com o estetoscópio no precórdio. A técnica cabe numa frase: ausculte por seis segundos e multiplique por dez. Oito batimentos em seis segundos são 80 por minuto; dez batimentos são 100. Diga o número em voz alta para a equipe — a comunicação em alça fechada é o que faz o resto da sala saber o que está acontecendo sem parar para perguntar.
A partir do momento em que há indicação de ventilação, a frequência precisa ser avaliada de modo mais acurado, e isso significa monitor cardíaco. A razão é quantitativa e importa: tanto a palpação do cordão quanto a ausculta precordial subestimam a frequência cardíaca em cerca de 15 a 25 batimentos por minuto em comparação ao monitor. A oximetria detecta a frequência de pulso continuamente, mas demora mais que o monitor e também subestima nos primeiros minutos, e vários fatores atrapalham o sinal — vérnix caseoso, circulação transicional, movimentação. Um método que subestima a frequência produz intervenção desnecessária: massagem cardíaca num bebê que está com 70 batimentos e foi contado como 50.
A montagem prática é a que economiza tempo. Enquanto um profissional inicia a ventilação, o outro fixa os três eletrodos do monitor e o sensor do oxímetro. Com eletrodos neonatais de 2,2 centímetros: o primeiro perto do mamilo direito, o segundo perto do mamilo esquerdo e o terceiro na lateral direita do abdome, abaixo do fígado, alinhado ao coto umbilical. Sem eletrodos neonatais, um jeito rápido é um eletrodo em cada braço perto do ombro e o terceiro na face anterior da coxa, fixados com bandagem elástica. O objetivo do monitor é o número da frequência — não se avaliam características do traçado eletrocardiográfico na sala de parto.
O boletim de Apgar não indica nenhum procedimento de reanimação. Ele é determinado no primeiro e no quinto minutos, permite avaliar retrospectivamente a resposta às manobras e tem valor prognóstico em estudos populacionais. Se o Apgar for menor que 7 no quinto minuto, repete-se a cada cinco minutos até os 20 minutos de vida. Ele é documentado de maneira concomitante à dos procedimentos executados, em boletim ampliado que registra, minuto a minuto, o que estava sendo feito — oxigênio suplementar, ventilação com máscara, ventilação com cânula, CPAP, massagem, adrenalina ou expansor. Esse registro é o que permite reconstruir depois o que aconteceu.
Saturação: por que 90% aos dois minutos é errado
A saturação alvo em sala de parto não é a saturação alvo de qualquer outro lugar da medicina, e essa é a fonte de erro mais cara em oxigenoterapia neonatal. Os valores de referência vêm de curvas construídas em recém-nascidos a termo com boa vitalidade que não receberam nenhuma manobra de reanimação, medindo a saturação pré-ductal ao longo dos dez primeiros minutos. O recém-nascido saudável que respira ar ambiente tem, com um minuto de vida, saturação em torno de 60 a 65%, e só atinge valores próximos de 85% no quinto minuto. Passar de 90% exige cinco minutos ou mais.
Ou seja: um bebê com 70% de saturação aos três minutos está exatamente onde deveria estar. Tratar esse número como hipoxemia e abrir oxigênio é expor um recém-nascido saudável à hiperóxia num momento em que ele não tem defesa antioxidante madura. A tabela de alvos por minuto de vida está no bloco de critérios, e ela é o único parâmetro que autoriza mexer na concentração de oxigênio.
O sensor vai sempre no membro superior direito, na região do pulso radial, porque é isso que mede saturação pré-ductal — o sangue que sai do coração antes do canal arterial, que é o que chega ao cérebro. Para obter sinal rápido, a ordem importa: ligar o oxímetro primeiro, depois aplicar o sensor no pulso radial direito cuidando para que o emissor de luz fique diretamente oposto ao receptor, envolvê-los com bandagem elástica, e só então conectar o sensor ao cabo do aparelho. A leitura confiável de saturação e de frequência demora cerca de 1 a 2 minutos após o nascimento, e só aparece se houver débito cardíaco suficiente com perfusão periférica — o que explica por que a oximetria costuma falhar justamente no bebê bradicárdico, que é quando você mais queria um número.
A monitorização da saturação é obrigatória sempre que houver indicação de ventilação com pressão positiva ou uso de oxigênio suplementar. Sem oxímetro não se titula oxigênio; com oxigênio sem oxímetro, titula-se pela cor, que é o método que a curva de referência desmentiu.

Como saber que a ventilação está entrando: o que se olha, o que se ausculta
O objetivo é uma expansão pulmonar adequada sem superdistensão — o que se procura ver é uma leve expansão torácica. Depois das primeiras 3 a 5 ventilações, reajusta-se a pressão inspiratória até visualizar esse movimento e auscultar a entrada de ar. Mas o sinal que realmente decide é outro: o indicador mais importante de que a ventilação está sendo efetiva é o aumento da frequência cardíaca, que em geral ocorre nos primeiros 15 a 30 segundos. Se a frequência sobe, a ventilação funciona, mesmo que a expansão pareça discreta; se não sobe, não adianta continuar fazendo o mesmo por mais tempo.
Ventilar com máscara facial não é simples, e a diretriz diz isso com todas as letras: o escape de gás entre face e máscara e a obstrução de vias aéreas são frequentes, e é difícil ter segurança sobre o volume corrente. Há ainda o reflexo trigeminal-cardíaco — a pressão da máscara sobre a face ativa vias do trigêmeo que induzem apneia e queda da frequência. Em avaliação por vídeo de 128 aplicações de máscara em 35 recém-nascidos, apareceu apneia em 10% delas, mais na primeira aplicação do que no reposicionamento.
Com cânula traqueal, a confirmação clínica — inspeção do tórax, ausculta bilateral e simétrica, ausência de ar no estômago — tem baixa acurácia, e a demora até concluir que a cânula está mal posicionada chega a 30 a 60 segundos. O detector colorimétrico de dióxido de carbono exalado, entre o conector da cânula e o balão ou ventilador, reduz esse tempo para menos de 10 segundos. Ele tem um falso-negativo previsível: com débito cardíaco comprometido e fluxo pulmonar baixo, não há CO2 exalado para detectar mesmo com a cânula no lugar certo.
O que não se faz — e o custo de fazer
Aspiração de rotina, com ou sem mecônio. Custo: saturação mais baixa, tempo maior para atingir o alvo, risco de resposta vagal com apneia e bradicardia, e atraso no início da ventilação. Laringoscopia e aspiração traqueal de rotina no mecônio não modificam o prognóstico e atrasam a ventilação.
Insuflação sustentada maior que 5 segundos e reanimação com cordão intacto. No recém-nascido de 34 semanas ou mais não há dados de segurança e eficácia para a primeira; a segunda foi estudada em três ensaios unicêntricos sem que se pudesse excluir benefício ou dano para qualquer desfecho crítico. Ambas restritas a pesquisa.
Bicarbonato de sódio. Não recomendado: sem evidência de melhora em parada cardiorrespiratória ou acidose metabólica, e com preocupação de que comprometa a pressão de perfusão coronariana ao reduzir a resistência vascular sistêmica, além de hipernatremia, hiperosmolaridade, excesso de dióxido de carbono e piora da acidose venosa central.
Naloxone, mesmo quando a mãe recebeu opioide. Sem evidência de efeito clinicamente importante nessa situação, sem avaliação de segurança no período neonatal e com relatos em animais de edema pulmonar, convulsões e parada cardíaca. Atropina, albumina e vasopressores não têm papel descrito na reanimação ao nascimento.
Hipotermia terapêutica iniciada na sala de parto. Não se desliga a fonte de calor radiante para resfriar: a indicação se decide nas primeiras 6 horas de vida, na unidade neonatal, depois de reunidas as evidências clínicas e bioquímicas de risco de encefalopatia hipóxico-isquêmica moderada ou grave.
CPAP de rotina para desconforto respiratório. Em coorte retrospectiva de 6.913 recém-nascidos de 35 semanas ou mais, a chance de pneumotórax foi 5,5 vezes maior nos que receberam CPAP de 5 cmH2O na sala de parto, tanto maior quanto maior a idade gestacional; em outro estudo, restringir o CPAP aos que estavam fora do alvo de saturação reduziu a síndrome de escape de ar de 11% para 6%. Se a saturação está dentro do alvo do minuto de vida, acompanhe sem adicionar pressão.
O que existe no SUS — e o que costuma faltar
Praticamente tudo o que salva vida aqui é barato e existe em qualquer maternidade brasileira: fonte de calor radiante, campos aquecidos, touca, estetoscópio, balão autoinflável com máscara de tamanho adequado, sonda de aspiração, relógio de parede com ponteiro de segundos e uma ampola de adrenalina. O balão autoinflável é o único equipamento de ventilação que funciona sem eletricidade e sem gás comprimido, e por isso deve estar sempre disponível e pronto para uso em todo nascimento — inclusive onde há ventilador com peça T.
O que costuma faltar é o que qualifica a decisão, não o que executa a manobra: blender, oxímetro com sensor neonatal, monitor cardíaco com eletrodos neonatais, detector colorimétrico de dióxido de carbono, máscara laríngea número 1, videolaringoscópio. A falta do blender é a mais grave, porque ele é obrigatório para fornecer a mistura desejada — sem ele só existem 21% e 90 a 100% com o balão ligado à fonte de oxigênio e ao reservatório, e não há como titular concentrações intermediárias.
Há uma consequência organizacional que o interno costuma descobrir tarde. A Sociedade Brasileira de Pediatria recomenda a presença do pediatra em todo nascimento, e a norma federal exige profissional médico ou de enfermagem capacitado em reanimação neonatal no atendimento ao recém-nascido — com a única responsabilidade de cuidar dele, sem estar auxiliando o parto ao mesmo tempo. Quando o serviço não consegue cumprir isso, o problema é de escala e não do plantão, e é assunto de coordenação.
O fluxograma, passo a passo — e os números que ele carrega
O fluxograma da reanimação neonatal é uma sequência de perguntas de sim ou não, cada uma com um bloco de ação e um relógio próprio. Ele tem três marcações temporais que valem mais que o desenho: 60 segundos até o início da ventilação, 30 segundos de cada tentativa antes de reavaliar, e 60 segundos de massagem cardíaca antes de reavaliar. Quem decora as caixas e esquece os relógios executa o fluxograma errado no ritmo errado. E há um detalhe de leitura que engana: o fluxograma desce, mas o retorno é permanente — a cada reavaliação em que o bebê melhora, sobe-se um degrau e se retira o procedimento mais invasivo, começando pela massagem.
- 1ANTES DO NASCIMENTO. Anamnese materna e idade gestacional, material conferido com a lista de verificação, fonte de calor radiante ligada, sala entre 23 e 25 graus com portas fechadas, e briefing: quem lidera, quem ventila, quem monitora.
- 2NASCIMENTO — três perguntas. Gestação de 34 semanas ou mais? Respirando ou chorando? Tônus em flexão? As três respostas sim definem boa vitalidade, independentemente do aspecto do líquido amniótico.
- 3BOA VITALIDADE. Clampeamento em no mínimo 60 segundos; pele a pele com os pais; normotermia; vias aéreas pérvias; vitalidade avaliada de modo continuado; aleitamento. Com desconforto respiratório ou saturação abaixo do alvo, monitore a saturação pré-ductal e só então considere CPAP.
- 4SEM BOA VITALIDADE. Estímulo tátil no dorso por cerca de 15 segundos, ainda antes do clampeamento. Respondeu: clampeie em pelo menos 60 segundos. Não respondeu: clampeie e leve à mesa.
- 5PASSOS INICIAIS — teto de 30 segundos. Calor radiante, secar, desprezar campos úmidos, touca, pescoço em leve extensão, aspirar só se houver obstrução. Em seguida avalie respiração e frequência cardíaca auscultando o precórdio por seis segundos e multiplicando por dez.
- 6APNEIA, RESPIRAÇÃO IRREGULAR E/OU FC ABAIXO DE 100? Ventilação com pressão positiva em ar ambiente, 30 a 60 movimentos por minuto, dentro dos primeiros 60 segundos de vida. Enquanto um ventila, o outro loca os eletrodos do monitor e o sensor do oxímetro no pulso radial direito.
- 7REAVALIE AOS 30 SEGUNDOS DE VENTILAÇÃO. FC de 100 ou mais com respiração espontânea e regular: suspenda. Nove em cada dez recém-nascidos ventilados com máscara facial melhoram aqui.
- 8AINDA ABAIXO DE 100? Reveja a técnica na ordem da tabela de ações corretivas antes de qualquer outra coisa — e não aumente o oxigênio antes disso. Corrigida a técnica e ainda abaixo de 100, troque a interface: máscara laríngea (peso estimado ≥2.000 g) ou cânula traqueal, ventilando com oxigênio a 60% após intubar.
- 9FC ABAIXO DE 60 APÓS 30 SEGUNDOS DE VENTILAÇÃO POR CÂNULA COM TÉCNICA ADEQUADA? Massagem cardíaca coordenada com a ventilação em 3 para 1, com oxigênio a 100%, e considere o cateterismo venoso umbilical. Reavalie apenas após 60 segundos de massagem.
- 10AINDA ABAIXO DE 60? Confira a lista de problemas — posição e permeabilidade da cânula, pressão, oxigênio, técnica e sincronia da massagem, pneumotórax, tamponamento — e administre adrenalina intravascular. Considere hipovolemia se houver perda de sangue ou sinais de choque.
- 11SUBIU DE 60? Interrompa apenas a massagem e comece a reduzir o oxigênio conforme a saturação alvo. Com FC de 100 ou mais e respiração espontânea regular, interrompa a ventilação; a extubação é individualizada.
- 12DEPOIS. Cuidados pós-reanimação, conversa com a família e debriefing. Registre o Apgar ampliado minuto a minuto, os procedimentos, os horários e a temperatura na admissão.
2 minutos de vida: saturação alvo de 65 a 70%
Neste ponto a leitura do oxímetro mal começou a ser confiável — ela demora 1 a 2 minutos e depende de perfusão periférica. Um bebê com 66% aqui está normal. Se estiver abaixo, a primeira conduta não é abrir oxigênio: é conferir se a ventilação está entrando.
3 minutos: saturação alvo de 70 a 75%
A subida é lenta por desenho da fisiologia, não por falha do pulmão. A curva de referência foi medida em recém-nascidos a termo com boa vitalidade que não receberam nenhuma manobra — é o normal, não o tolerável.
4 minutos: saturação alvo de 75 a 80%
Se a saturação estiver fora do alvo, aumente ou diminua a concentração de oxigênio em 20% a cada 30 segundos — e não mais rápido que isso, porque existe um atraso médio de 30 segundos entre o ajuste no blender e o que chega ao paciente.
5 minutos: saturação alvo de 80 a 85%
Este é o ponto de corte que mais aparece na literatura de prognóstico: a falha em atingir 80% aos 5 minutos se associa de forma consistente a maior risco de morte e de lesão cerebral no prematuro. É a hora de conferir se o bebê está saindo do buraco ou parado nele.
10 minutos: saturação alvo de 85 a 95%
Só aqui a faixa se aproxima do que se considera normal fora da sala de parto — e o teto de 95% também importa. Quando o oxigênio suplementar foi administrado, a concentração deve ser reduzida o mais rápido possível de acordo com o alvo, porque a hiperóxia reduz o fluxo sanguíneo cerebral.
| Momento | O que se avalia | Limiar que muda a conduta | O que fazer |
|---|---|---|---|
| Após os passos iniciais (≤30 s na mesa) | Respiração e FC pela ausculta de 6 s × 10 | FC <100 bpm e/ou apneia ou respiração irregular | Iniciar VPP em ar ambiente dentro dos primeiros 60 s de vida |
| 30 s de VPP com máscara facial | FC no monitor cardíaco e expansão torácica | FC <100 bpm e/ou tórax que não expande | Ações corretivas na ordem da tabela; só depois trocar de interface |
| 30 s de VPP com máscara laríngea ou cânula traqueal | FC no monitor cardíaco | FC <60 bpm | Massagem cardíaca 3:1 com O2 a 100% + considerar cateter venoso umbilical |
| 60 s de massagem coordenada com VPP | FC no monitor cardíaco | FC <60 bpm | Adrenalina intravascular; repetir a cada 3-5 min; considerar hipovolemia |
| 60 s de massagem coordenada com VPP | FC no monitor cardíaco | FC >60 bpm | Interromper apenas a massagem e começar a reduzir o O2 conforme o alvo |
| A qualquer momento | FC e respiração | FC ≥100 bpm com respiração espontânea e regular | Interromper a VPP; individualizar a extubação; iniciar cuidados pós-reanimação |
| ~20 minutos de vida | Retorno da circulação espontânea | Reanimação avançada continuada sem resposta | Discutir a interrupção dos procedimentos entre a equipe e com a família |
Alvos de saturação pré-ductal por minuto de vida
| Minutos após o nascimento | SpO2 alvo pré-ductal | Leitura prática |
|---|---|---|
| 1 minuto | Sem alvo definido — em torno de 60 a 65% no RN saudável em ar ambiente | A leitura do oxímetro ainda não é confiável; a decisão é pela FC |
| 2 minutos | 65 a 70% | Sensor no pulso radial DIREITO; abaixo do alvo, cheque a ventilação antes do O2 |
| 3 minutos | 70 a 75% | Ajustes de O2 de 20% a cada 30 segundos, para cima ou para baixo |
| 4 minutos | 75 a 80% | Existe atraso médio de 30 s entre o ajuste no blender e o que chega ao RN |
| 5 minutos | 80 a 85% | Não atingir 80% aos 5 min se associa a maior risco de morte e lesão cerebral |
| 10 minutos | 85 a 95% | Reduzir o O2 o mais rápido possível assim que a saturação subir |
Ações corretivas quando a VPP com máscara facial não melhora o RN
| Ordem | Problema | Correção |
|---|---|---|
| 1 | Ajuste inadequado da face à máscara | Readaptar a máscara à face delicadamente, no sentido do queixo para o nariz |
| 2 | Obstrução de vias aéreas | Reposicionar a cabeça, mantendo o pescoço em leve extensão |
| 3 | Obstrução de vias aéreas | Aspirar as secreções da boca e do nariz |
| 4 | Obstrução de vias aéreas | Ventilar com a boca levemente aberta |
| 5 | Pressão insuficiente | Aumentar a pressão em cerca de 5 cmH2O, até o máximo de 40 cmH2O |
| A cada ação | — | Verificar o movimento torácico e a frequência cardíaca antes de passar para a seguinte |
| Depois de tudo | VPP com máscara facial ainda não efetiva | Trocar a interface: máscara laríngea (peso estimado ≥2.000 g) ou cânula traqueal |
| VPP prolongada | Distensão gástrica | Inserir sonda orogástrica e mantê-la aberta; reajustar a máscara e continuar |
Material para intubação por idade gestacional e peso estimado
| Idade gestacional | Peso estimado | Cânula traqueal (diâmetro interno) | Lâmina reta | Marca no lábio superior |
|---|---|---|---|---|
| 28 a 34 semanas | 1.000 a 2.000 g | 3,0 mm | nº 0 | 33-34 sem / 1.500-1.800 g: 7,5 cm |
| 35 a 38 semanas | 2.000 a 3.000 g | 3,5 mm | nº 1 | 35-37 sem / 1.900-2.400 g: 8,0 cm |
| Acima de 38 semanas | Acima de 3.000 g | 3,5 ou 4,0 mm | nº 1 | 38-40 sem / 2.500-3.100 g: 8,5 cm — 40-43 sem / 3.200-4.200 g: 9,0 cm |
| Sempre | — | Deixar à mão uma cânula de diâmetro superior e outra inferior à escolhida | Laringoscópio tradicional disponível mesmo se a opção for videolaringoscópio | Cada tentativa dura no máximo 30 segundos |
Reanimação neonatal — demonstração observada no Internato (PRN-SBP 2026)
| Etapa | O que o aluno demonstra | Como a equipe verifica |
|---|---|---|
| Preparação | Confirma população do algoritmo, material e funções | Responsável valida equipamento e divisão de tarefas |
| Primeira avaliação | Comunica respiração, tônus, frequência e tempo | Achados são confirmados sem atrasar suporte |
| Máscara e posição | Escolhe tamanho, posiciona cabeça e obtém vedação | Observa movimento torácico e evolução da frequência cardíaca |
| Ventilação inadequada | Reconhece vazamento ou ausência de resposta e executa correções supervisionadas | Reavalia após cada correção e pede ajuda precocemente |
| Progressão | Explica quando indicar outra interface, compressões e acesso | Equipe confirma ventilação efetiva e critérios antes de avançar |
| Depois da resposta | Passa horários, intervenções e evolução | Plano de monitorização, destino e conversa com a família fica registrado |
Os alvos de saturação valem tanto para o recém-nascido de 34 semanas ou mais quanto para o menor de 34 semanas — a tabela é a mesma nos dois documentos brasileiros de 2026. O que muda entre eles é a concentração de oxigênio com que a ventilação começa: ar ambiente no primeiro caso, 60% no segundo.
A ordenha de cordão intacto é uma opção para prover transfusão placentária quando o recém-nascido não inicia a respiração após o estímulo tátil: comprimem-se cerca de 20 centímetros do cordão da placenta em direção ao bebê ao longo de 2 segundos, repetindo o movimento 3 vezes e permitindo que o cordão se preencha entre uma vez e outra — seis segundos ao todo. Sobre o prazo de clampeamento que se segue, o texto da diretriz brasileira de 2026 traz menos de 60 segundos e o fluxograma do mesmo documento traz menos de 30. Como a ordenha em si consome seis segundos, o clampeamento cai bem antes dos 30 nos dois casos, e o número não é o que decide: o que decide é não atrasar a ventilação.
Existe uma segunda discordância interna no mesmo documento, e ela vale conhecer porque aparece na hora de programar a incubadora de transporte: o corpo do texto orienta ajustá-la em 34 a 35 graus para o recém-nascido de 34 semanas ou mais, enquanto o resumo dos pontos principais fala em incubadora pré-aquecida entre 35 e 37 graus. O alvo que não muda em nenhum dos dois é o do paciente — temperatura axilar entre 36,5 e 37,5 graus, sem ultrapassar 38.
A seringa de 1 mL para a via intravascular e a de 5 mL para a via traqueal não são um detalhe de almoxarifado: são a trava física contra o erro de cinco vezes. A dose traqueal é 1,0 mL/kg e a intravascular é 0,2 mL/kg da mesma solução — trocar a seringa é multiplicar a dose por cinco.
Nenhum limiar deste bloco autoriza pular etapa. Massagem cardíaca antes de a ventilação estar bem estabelecida com a via aérea assegurada é o erro que mais atrasa a recuperação, porque a massagem diminui a eficácia da ventilação e a ventilação é a ação mais efetiva da reanimação neonatal.
A conduta, hora a hora
O percurso abaixo utiliza as Diretrizes PRN-SBP de 12 de junho de 2026 para o recém-nascido com 34 semanas ou mais. A ventilação efetiva organiza a sequência; o recém-nascido com menos de 34 semanas exige o algoritmo próprio. No Internato, prepare material e funções, comunique os achados e demonstre as técnicas em simulação. A participação no atendimento real depende do treinamento, da supervisão e da função atribuída pela equipe. A recuperação inicial abre o cuidado pós-reanimação, que também precisa de plano.
Duas travas valem para todos os marcos. A primeira: chamar ajuda cedo e em voz alta não é sinal de despreparo, é parte do procedimento — a diretriz prevê equipes de dois a três profissionais quando há fator de risco, e reconhece que um parto de baixo risco às vezes resulta num paciente que precisa de tudo. A segunda: o relógio de parede com ponteiro de segundos é equipamento obrigatório da sala, e alguém precisa estar olhando para ele e dizendo os tempos em voz alta, porque a percepção subjetiva de tempo durante uma reanimação é notoriamente ruim.
Antes do nascimento — o marco que ninguém trata como conduta
Antes do parto, reúna a equipe, confirme história materna, idade gestacional e riscos e distribua funções: liderança, ventilação, monitorização, registro e apoio. Confira material e funcionamento dos dispositivos com o responsável. O interno pode antecipar essa preparação e comunicar pendências; a checagem não deve ficar sob sua responsabilidade exclusiva sem validação da equipe.
Prescrição- Temperatura ambiente da sala de parto e da sala de reanimação entre 23 e 25 °C, com as portas fechadas
- Fonte de calor radiante LIGADA antes do nascimento; mesa com acesso pelos 3 lados; relógio de parede com ponteiro de segundos; blender O2/ar; aspirador a vácuo com manômetro
- Material conferido com lista de verificação: balão autoinflável de ~240 mL com reservatório, válvula de escape em 30-40 cmH2O e manômetro; ventilador com peça T e circuito completo; máscaras redondas com coxim nos três tamanhos; máscara laríngea nº 1; estetoscópio e oxímetro neonatais; monitor cardíaco de 3 vias; sondas traqueais nº 6 e 8; touca; campos e compressas aquecidos; termômetro digital
- Bandeja de medicações identificada: 2 ampolas de adrenalina 1 mg/mL, 5 flaconetes de SF 10 mL e 1 frasco de SF 250 mL; seringas de 10 mL (diluição), 5 mL (uso traqueal) e 1 mL (uso intravascular); torneira de 3 vias; bandeja estéril de cateterismo umbilical com cateteres 3,5F e 5F
- Briefing com a equipe perinatal e conversa prévia com a família antes de cada nascimento; precauções padrão sem exceção
- Pelo menos 1 profissional capaz de realizar os passos iniciais e a VPP com máscara em TODO parto, com responsabilidade exclusiva pelo RN; 2 a 3 profissionais treinados quando houver fator de risco, incluindo médico apto a intubar; equipe própria para cada criança em gemelares
Nascimento — avaliar vitalidade e manter o cuidado de transição
No recém-nascido com boa vitalidade e condições para permanecer junto da mãe, mantenha calor, via aérea visível, contato pele a pele, avaliação continuada e apoio à amamentação. O clampeamento segue a situação clínica e o algoritmo adotado. Esse é um cuidado ativo: acompanhe respiração, tônus e temperatura e reconheça qualquer mudança que exija suporte. Aspiração e separação não são rotineiras.
Prescrição- Clampeamento do cordão umbilical em no mínimo 60 segundos após o nascimento no RN com boa vitalidade
- Clampeamento IMEDIATO quando a circulação placentária já está interrompida: descolamento prematuro de placenta, placenta prévia com sangramento e nó verdadeiro de cordão
- Contato pele a pele imediato e ininterrupto com os pais, com amamentação assim que possível
- Manter a temperatura axilar entre 36,5 e 37,5 °C, evitando ultrapassar 38,0 °C. Secar cabeça e corpo com compressas aquecidas, retirar os campos úmidos, colocar touca
- NÃO aspirar boca e narinas de rotina, independentemente do aspecto do líquido amniótico. Se houver suspeita de obstrução por excesso de secreções: aspirar delicadamente primeiro a boca e depois as narinas, com sonda traqueal nº 8-10 e pressão máxima de 80 a 100 mmHg, evitando a faringe posterior e a hipofaringe
- NÃO aspirar a via aérea no desprendimento do polo cefálico na vigência de líquido meconial, qualquer que seja a viscosidade
0 a 15 segundos — o bebê que não tem boa vitalidade
Se falta qualquer um dos três critérios, a primeira ação é o estímulo tátil no dorso — delicado, com movimentos circulares, por cerca de 15 segundos, ainda antes do clampeamento do cordão. Enquanto isso, olhe: apareceram movimentos respiratórios? Se sim, clampeie em no mínimo 60 segundos e siga com o bebê junto da mãe. Se não, clampeie e leve-o à mesa de reanimação sob fonte de calor radiante, envolto em campos aquecidos. Não insista no estímulo e não chacoalhe. Este é o momento de chamar ajuda em voz alta, se ainda não houver mais ninguém na sala.
Prescrição- Estímulo tátil no dorso, delicado, com movimentos circulares, por cerca de 15 segundos, ANTES do clampeamento do cordão
- Fricção da planta dos pés como alternativa ao dorso: ativa proprioceptores, reduz pausas respiratórias e aumenta a frequência respiratória
- Ordenha de cordão intacto como opção para transfusão placentária quando o RN não inicia movimentos respiratórios após o estímulo: comprimir cerca de 20 cm de cordão da placenta em direção ao RN ao longo de 2 segundos, repetindo 3 vezes, seguida de clampeamento imediato
- NÃO chacoalhar o RN; NÃO prolongar o estímulo — estímulos muito vigorosos causam lesão e estímulos prolongados atrasam a VPP
15 a 45 segundos — os passos iniciais, com teto de 30 segundos
Na mesa aquecida, execute os passos iniciais sem atrasar a avaliação de respiração e frequência cardíaca: posicionamento, controle térmico e permeabilidade da via aérea, com aspiração apenas quando indicada. Diga os achados e o tempo em voz alta. Apneia, gasping ou bradicardia relevante pedem ventilação oportuna; um roteiro de preparação não justifica aguardar a criança piorar.
Prescrição- Passos iniciais executados em, no máximo, 30 segundos: manter normotermia (secar, desprezar campos úmidos, colocar touca) e assegurar vias aéreas pérvias (pescoço em leve extensão, coxim sob os ombros se necessário)
- Avaliação da FC pela ausculta do precórdio com estetoscópio: auscultar por 6 segundos e multiplicar por 10. FC adequada é ≥100 bpm; bradicardia é FC <100 bpm
- Avaliação da respiração pela inspeção da expansão torácica ou pela presença de choro. Respiração inadequada é apneia, movimentos irregulares ou gasping. A frequência respiratória NÃO é usada para decidir conduta
- Se a avaliação mostrar respiração espontânea regular e FC ≥100 bpm: colocar em contato pele a pele com a parturiente, coberto com tecido de algodão seco e aquecido, e manter a observação continuada
- NÃO desligar a fonte de calor radiante nem iniciar hipotermia terapêutica na sala de parto
Até 60 segundos — o Minuto de Ouro: ventilação com pressão positiva
Apneia, respiração irregular e/ou frequência abaixo de 100: ventile, e ventile agora. Aplique a máscara no sentido do queixo para o nariz, cobrindo queixo, boca e nariz sem prensar os olhos; polegar e indicador em C sobre a borda, os outros três dedos em E ao longo do arco mandibular, empurrando a mandíbula em direção à máscara e mantendo o pescoço em leve extensão. Se for difícil vedar e posicionar com uma mão só, fique atrás da cabeça e use as duas, com outro profissional ventilando pela lateral. Depois de 3 a 5 ventilações, reajuste a pressão até ver movimento torácico leve e auscultar entrada de ar.
Prescrição- Iniciar a VPP nos primeiros 60 segundos após o nascimento ("Minuto de Ouro")
- No RN ≥34 semanas, iniciar a VPP com AR AMBIENTE (O2 a 21%)
- Balão autoinflável: 30 a 60 mpm ("aperta/solta/solta"), pressão inspiratória inicial de 20 a 30 cmH2O (raramente 30 a 40 em pulmão doente), válvula de escape em 30-40 cmH2O nunca ocluída
- Ventilador com peça T (preferível): fluxo de ~10 L/minuto, pressão máxima do circuito em 40 cmH2O, pressão inspiratória de 20 a 30 cmH2O, PEEP de 5 cmH2O, 30 a 60 mpm ("ocluuui/solta/solta")
- Monitor cardíaco obrigatório assim que se indica VPP; oxímetro com sensor no punho radial DIREITO (pré-ductal) sempre que houver VPP ou O2 suplementar
- Ajuste de O2 pela SpO2 pré-ductal alvo: ±20% a cada 30 segundos, com blender obrigatório. Antes de oferecer O2, SEMPRE corrigir a técnica da ventilação
- Sonda orogástrica aberta durante VPP prolongada com máscara facial
- NÃO usar insuflação sustentada maior que 5 segundos fora de pesquisa no RN ≥34 semanas
60 a 90 segundos — reavaliar, corrigir, e só então trocar de interface
Reavalie a frequência cardíaca e a respiração após ventilação efetiva, verificando resposta desde as primeiras insuflações. Se não houver expansão adequada, corrija vedação, posição, permeabilidade e funcionamento do equipamento, conforme a sequência do protocolo, sem esperar terminar um intervalo com ventilação ineficaz. A melhora da frequência cardíaca é um sinal central de eficácia. Persistência da bradicardia exige ajuda e progressão para a interface e os passos indicados; a equipe deve saber o que foi tentado e qual foi a resposta.
Prescrição- Sequência de ações corretivas na ordem: readaptar a máscara; reposicionar a cabeça; aspirar secreções de boca e nariz; ventilar com a boca levemente aberta; aumentar a pressão em cerca de 5 cmH2O até o máximo de 40 cmH2O
- Máscara laríngea nº 1 no RN ≥34 semanas com peso estimado ≥2.000 g, quando a VPP com máscara facial não é efetiva apesar das ações corretivas e a intubação não é factível ou falhou; mesmos parâmetros da máscara facial
- Intubação traqueal (ato médico) quando a VPP com máscara não é efetiva, quando ela se prolonga sem retomada da respiração espontânea, ou quando se vai aplicar massagem cardíaca. Máximo de 30 segundos por tentativa; em caso de insucesso, voltar à VPP com máscara antes de nova tentativa
- Após a intubação: ventilar com O2 a 60% e ajustar pela SpO2 pré-ductal alvo. Confirmar a posição preferencialmente com detector colorimétrico de CO2 exalado, que reduz o tempo de confirmação para menos de 10 segundos
- Intubação traqueal e sonda gástrica imediatas nos portadores de hérnia diafragmática que necessitem de VPP
- Por ser procedimento de emergência, NÃO há tempo hábil para administrar medicação analgésica antes da intubação na sala de parto
A partir de ~90 segundos — massagem cardíaca
Frequência abaixo de 60 após 30 segundos de ventilação com cânula traqueal e técnica adequada: começa a massagem — e não antes, porque as compressões diminuem a eficácia da ventilação, que é a ação mais efetiva da reanimação neonatal. Você se posiciona atrás da cabeça do bebê e quem ventila se desloca para a lateral: essa posição facilita o acesso ao cordão se o cateterismo for necessário e cansa menos. Comprima no terço inferior do esterno, logo abaixo da linha intermamilar, poupando o apêndice xifoide, com a técnica dos dois polegares e os outros dedos envolvendo o tórax, na profundidade de um terço do diâmetro anteroposterior, permitindo a reexpansão plena a cada liberação.
Prescrição- Massagem cardíaca indicada se, após 30 segundos de VPP com técnica adequada — na prática, com cânula traqueal —, a FC estiver <60 bpm
- Relação 3:1 sincrônica a 120 eventos por minuto: 90 compressões e 30 ventilações por minuto, ou 30 ciclos de 4 eventos — um ciclo a cada 2 segundos, um evento a cada meio segundo
- Técnica dos dois polegares (sobrepostos ou justapostos) no terço inferior do esterno, abaixo da linha intermamilar, poupando o apêndice xifoide; profundidade de 1/3 do diâmetro anteroposterior
- VPP com O2 a 100% durante a massagem cardíaca, reduzindo pela SpO2 alvo assim que a função cardíaca e a leitura da oximetria se recuperarem
- Aplicar a massagem coordenada à ventilação por 60 segundos ANTES de reavaliar a FC — é o tempo mínimo para restabelecer a pressão de perfusão coronariana. Evitar interrupções
- Substituir o profissional que aplica as compressões a cada 2 a 5 minutos por fadiga, invertendo funções com quem ventila
- FC acima de 60 bpm: interromper APENAS a massagem e reduzir o O2 conforme a SpO2 alvo; com respiração espontânea regular e FC ≥100 bpm, interromper também a VPP
A partir de ~2 a 3 minutos — medicações, se a bradicardia persistir
Se, após 60 segundos de ventilação por cânula traqueal com oxigênio a 100% e massagem cardíaca adequada e sincronizada, a frequência permanecer abaixo de 60, indica-se adrenalina — e, para isso, cateterismo venoso umbilical de urgência com técnica estéril. Aqui a equipe precisa de no mínimo três pessoas: uma ventilando pela cânula, outra na massagem e a terceira cateterizando e administrando. Antes de dar a droga, refaça a lista: posição da cânula pela marca no lábio superior, expansão torácica e ausculta bilateral, cânula dobrada ou com secreções, conexões, pressão inspiratória, fonte de oxigênio, local e profundidade das compressões, sincronia, pneumotórax, tamponamento. A adrenalina não corrige ventilação ruim.
Prescrição- Adrenalina — DILUIÇÃO OBRIGATÓRIA, qualquer que seja a via: 1 mL da ampola de 1 mg/mL em 9 mL de soro fisiológico, resultando em 1 mg em 10 mL, ou seja, 0,1 mg/mL
- Adrenalina intravascular (veia umbilical ou intraóssea), via de eleição: 0,02 mg/kg, o que corresponde a 0,2 mL/kg da solução diluída, em seringa de 1 mL. RN de 2 kg: 0,4 mL. RN de 3 kg: 0,6 mL. RN de 4 kg: 0,8 mL. Infundir rápido, seguido de flush de 3,0 mL de SF. Repetir a cada 3 a 5 minutos enquanto a FC permanecer <60 bpm. A faixa da recomendação é 0,01 a 0,03 mg/kg; a dose de 0,02 mg/kg é a prática adotada para minimizar erros
- Adrenalina endotraqueal, dose única, apenas enquanto o acesso vascular está sendo obtido: 0,1 mg/kg, o que corresponde a 1,0 mL/kg da solução diluída, em seringa de 5 mL. RN de 2 kg: 2,0 mL. RN de 3 kg: 3,0 mL. RN de 4 kg: 4,0 mL. Infundir no interior da cânula traqueal e ventilar em seguida. É CONTRAINDICADO fazer flush com salina para empurrar a adrenalina para os pulmões. A faixa da recomendação é 0,05 a 0,10 mg/kg
- TETO ABSOLUTO: doses acima de 0,1 mg/kg não devem ser empregadas por qualquer via no período neonatal — levam a hipertensão arterial grave, diminuição da função miocárdica e piora do quadro neurológico
- Expansor de volume — soro fisiológico 0,9%, 10 mL/kg por via endovenosa, infundido LENTAMENTE em 5 a 10 minutos, em 2 seringas de 20 mL. RN de 2 kg: 20 mL. RN de 3 kg: 30 mL. RN de 4 kg: 40 mL. Indicado quando não há aumento da FC em resposta às outras medidas e/ou há perda de sangue ou sinais de choque hipovolêmico (palidez, má perfusão, pulsos débeis). Uma dose adicional de 10 mL/kg pode ser dada após rever todos os outros fatores
- Concentrado de hemácias O Rh negativo em vez de cristaloide quando houver suspeita de anemia fetal grave
- Cateterismo venoso umbilical de urgência, com técnica estéril: cateter de lúmen único 3,5F ou 5,0F preenchido com SF e conectado a seringa de 10 mL com torneira de 3 vias; cordão cortado em ângulo reto ~2 cm acima da base; veia umbilical em geral na posição de 12 horas, maior e de paredes finas, distinta das duas artérias; progredir 3 a 4 cm após o ânulo, até refluxo de sangue; manter em posição periférica, fora do nível hepático
- Via intraóssea apenas quando o cateterismo umbilical não é factível: face anteromedial da tíbia, 1 a 2 cm abaixo e medial à tuberosidade tibial, com profundidade de 0,5 a 0,75 cm (RN de 1.500 a 2.499 g) ou ~1,0 cm (2.500 a 3.500 g)
- NÃO usar bicarbonato de sódio, naloxone, atropina, albumina ou vasopressores na reanimação em sala de parto
Depois — estabilização, transporte e o que não se faz na pressa
Faltam duas coisas que quase sempre são feitas mal: o transporte e o registro. Transporte só depois da estabilização cardiorrespiratória, em incubadora de dupla parede pré-aquecida, com coxim sob as espáduas mantendo o pescoço em leve extensão e oximetria monitorada. O cateter umbilical em geral é retirado antes de sair, lentamente e com atenção ao sangramento pelo coto; se for mantido, o coto fica visível e a radiografia da ponta é obrigatória na unidade neonatal. O transporte só termina quando quem atendeu relata todos os dados à equipe que recebe e documenta no prontuário. E, antes de todo mundo dispersar, o debriefing. O manejo do recém-nascido asfixiado depois da admissão — incluindo a decisão sobre hipotermia terapêutica — é de Encefalopatia hipóxico-isquêmica e asfixia perinatal, nesta apostila; o bebê que respira mal, de Desconforto respiratório do recém-nascido, e o pré-termo, de Prematuridade.
Prescrição- É CONTRAINDICADO transportar RN com FC <100 bpm, pelo risco iminente de parada cardíaca
- Incubadora de transporte de dupla parede, ligada à rede elétrica até a saída, temperatura ajustada conforme o peso — em geral 34 a 35 °C no RN ≥34 semanas — e touca. Evitar temperatura corporal acima de 38,0 °C
- Se o transporte for em CPAP: sonda orogástrica locada e aberta, para diminuir a distensão abdominal e reduzir o risco de aspiração
- Fixação da cânula traqueal com fitas adesivas longas na face até a região malar, com a pele previamente limpa com água destilada; balão autoinflável sempre disponível durante todo o transporte
- Boletim de Apgar no 1º e no 5º minutos, repetido a cada 5 minutos até os 20 minutos se <7 no 5º, documentado junto aos procedimentos no boletim ampliado
- Mensurar e registrar a temperatura axilar na admissão à unidade neonatal ou ao alojamento conjunto: é indicador de qualidade assistencial
- Debriefing estruturado após o atendimento, conduzido por um facilitador, imediatamente após o evento ou nos dias seguintes
- Registro fidedigno no prontuário materno e/ou do RN de qualquer decisão tomada em sala de parto, inclusive as decisões de não iniciar ou de interromper a reanimação
Como saber se está funcionando
A reanimação neonatal é o único procedimento em que a reavaliação tem prazo cronometrado em segundos e resposta esperada em segundos. Isso é uma vantagem enorme sobre o resto da medicina: você não precisa esperar 48 horas para saber se acertou. Você tem a resposta em 15 a 30 segundos, e ela vem em forma de um número — a frequência cardíaca subindo.
A regra de ouro da reavaliação é que não melhorar quase nunca significa que o procedimento está errado; significa que o procedimento está sendo executado errado. Diante de um recém-nascido que não responde, a pergunta certa não é qual é a próxima droga, e sim qual dos itens da lista de verificação não foi feito. As diretrizes escreveram essas listas quadro a quadro justamente porque, sob estresse, ninguém as lembra sozinho.
E existe uma reavaliação que não cabe em tabela: a do próprio pessoal na sala. Quem faz a massagem cansa e piora a qualidade das compressões em poucos minutos; quem ventila há três minutos com uma máscara mal vedada não vai perceber sozinho. Trocar de função e falar em voz alta o que se está vendo — a frequência, a expansão, a saturação, o minuto de vida — é parte da técnica, não etiqueta.
Esperado: Subida perceptível nos primeiros 15 a 30 segundos de ventilação; FC ≥100 bpm com respiração espontânea e regular como critério para suspender a VPP
Se não melhora: Rode a sequência de ações corretivas na ordem — readaptar máscara, reposicionar cabeça, aspirar, boca levemente aberta, aumentar pressão até 40 cmH2O — verificando tórax e FC a cada ação. Só depois troque de interface. Se a FC estiver <60 bpm com ventilação por cânula e técnica adequada por 30 segundos, some massagem cardíaca. Não aumente o oxigênio antes de corrigir a técnica
Esperado: Movimento torácico LEVE, sem superdistensão, com entrada de ar audível bilateralmente à ausculta
Se não melhora: Tórax que não se move é escape entre face e máscara ou obstrução de via aérea, nessa ordem de frequência. Reveja o selo da máscara e a posição da cabeça antes de mexer na pressão. Tórax que estufa é superdistensão — reduza a pressão. Se estiver ventilando por cânula, verifique a marca em centímetros no lábio superior, se a cânula está dobrada, a posição da cabeça e se há secreções obstruindo
Esperado: Dentro da faixa alvo do minuto de vida — 65-70% aos 2 min, 70-75% aos 3, 75-80% aos 4, 80-85% aos 5 e 85-95% aos 10
Se não melhora: Fora do alvo, ajuste a concentração de O2 em 20% a cada 30 segundos, para cima ou para baixo, e não mais rápido: há atraso médio de 30 segundos entre o ajuste no blender e o gás que chega ao paciente. Antes disso, confirme que a ventilação está entrando — aumentar O2 com técnica incorreta não melhora o recém-nascido. Sem sinal no oxímetro num bebê bradicárdico, decida pela FC do monitor
Esperado: Axilar entre 36,5 e 37,5 °C, sem ultrapassar 38,0 °C
Se não melhora: Hipotermia aumenta a resistência vascular pulmonar e trabalha contra a reanimação: revise campos úmidos esquecidos sob o corpo, touca, portas abertas, fonte de calor desligada e compressas frias em contato. Hipertermia acima de 38 °C agrava a lesão cerebral no asfixiado — não é indicação de desligar o calor radiante e resfriar na sala de parto, e sim de ajustar a fonte
Esperado: Estabilidade progressiva depois da recuperação da FC
Se não melhora: Piora súbita depois de melhora aponta para deslocamento ou obstrução da cânula, mau funcionamento do balão ou do ventilador, desconexão do dispositivo da interface ou da fonte de gases, ou intercorrência clínica — com pneumotórax no topo da lista. Refaça a checagem completa em vez de escalonar a terapia
Esperado: Elevação da FC acima de 60 bpm
Se não melhora: Antes de repetir, assegure que a VPP e a massagem estão adequadas. Confirme se há refluxo de sangue no cateter umbilical — droga em cateter mal posicionado não chega. Confira se a dose foi a correta e se a seringa usada foi a certa. Repita a cada 3 a 5 minutos por via intravascular e considere hipovolemia
Esperado: Aumento da FC, melhora dos pulsos e da palidez
Se não melhora: Reveja posição da cânula, oferta de O2 a 100%, técnica da VPP e da massagem, permeabilidade do acesso e adequação da dose de adrenalina antes de repetir. Lembre que a ausência de resposta pode ser pneumotórax ou tamponamento cardíaco. Cautela com volume adicional sem choque ou perda aguda documentada: sobrecarga em miocárdio lesado pela asfixia precipita edema pulmonar e hemorragia intraventricular
Esperado: FC >60 bpm com massagem suspensa e, adiante, FC ≥100 bpm com respiração espontânea
Se não melhora: A falha em atingir retorno da circulação espontânea após 10 a 20 minutos de reanimação avançada se associa a risco elevado de óbito e de sequela moderada ou grave, mas nenhuma duração específica prediz de modo consistente o desfecho. Em torno de 20 minutos de vida, a conduta é discutir a interrupção entre a equipe e com a família, considerando idade gestacional, anomalias congênitas, duração da agressão asfíxica, adequação da reanimação, desejo familiar e disponibilidade de cuidados pós-reanimação
Onde o erro machuca
O dano: Recém-nascidos aspirados logo após o nascimento evoluem com saturação mais baixa e demoram mais para atingir a saturação alvo. A introdução brusca da sonda ou a aspiração da faringe posterior induz resposta vagal e espasmo laríngeo, com apneia e bradicardia — fabricando o problema que a aspiração deveria prevenir. A aspiração da hipofaringe causa atelectasia e trauma e prejudica o estabelecimento da respiração efetiva. E, no bebê sem boa vitalidade, o tempo gasto aspirando é tempo tirado do Minuto de Ouro.
Como pegar a tempo: Não aspire de rotina no recém-nascido de 34 semanas ou mais, com ou sem mecônio. Aspire apenas com suspeita de obstrução por excesso de secreções: primeiro a boca, depois as narinas, com sonda traqueal nº 8-10, pressão máxima de 80 a 100 mmHg, sem entrar na faringe posterior. Se a mão coçar para aspirar, ponha a máscara: ventilar é o que aquele bebê precisa.
O dano: É o reflexo mais universal e mais inútil: aumentar a oferta de oxigênio ventilando com a técnica incorreta não leva à melhora do recém-nascido, porque o gás não está chegando ao alvéolo. Enquanto se sobe o blender, perdem-se os segundos em que a correção do selo da máscara resolveria o caso. E a hiperóxia não é neutra — a concentração deve ser reduzida o mais rápido possível assim que a saturação sobe, porque o excesso reduz o fluxo sanguíneo cerebral.
Como pegar a tempo: Diante de qualquer não melhora, a ordem é sempre a mesma: máscara, cabeça, secreções, boca aberta, pressão — e só então oxigênio. Guarde a frase: no recém-nascido de 34 semanas ou mais com ventilação bem aplicada, a necessidade de oxigênio suplementar é excepcional. Se você está precisando de muito oxigênio, o problema provavelmente é o selo da máscara.
O dano: A dose intravascular é 0,2 mL/kg e a traqueal é 1,0 mL/kg da MESMA solução diluída. Trocar a seringa de 1 mL pela de 5 mL significa administrar cinco vezes a dose por via endovenosa. Doses acima de 0,1 mg/kg por qualquer via levam a hipertensão arterial grave, diminuição da função miocárdica e piora do quadro neurológico — e a dose traqueal de 1,0 mL/kg já está exatamente no teto de 0,1 mg/kg, sem margem nenhuma para arredondar para cima.
Como pegar a tempo: Deixe as duas seringas preparadas, rotuladas e separadas ANTES: 1 mL para a via intravascular, 5 mL para a traqueal. Diga a via e o volume em voz alta antes de administrar e peça confirmação. E lembre da diluição obrigatória: 1 mL da ampola de 1 mg/mL em 9 mL de soro fisiológico, sempre, para qualquer via — adrenalina não diluída na veia de um recém-nascido de 3 kg é dez vezes a dose.
O dano: A massagem cardíaca diminui a eficácia da ventilação, e a ventilação é a ação mais efetiva da reanimação neonatal. Comprimir um tórax cujo pulmão ainda não abriu empurra sangue não oxigenado e atrasa exatamente a intervenção que resolveria o caso. A bradicardia neonatal é, em regra, consequência de insuflação pulmonar insuficiente e hipoxemia — não é ritmo, não é coração.
Como pegar a tempo: Comprima somente se a frequência estiver abaixo de 60 após 30 segundos de ventilação com técnica adequada e via aérea assegurada — na prática, com cânula traqueal e oxigênio a 100%. Antes disso, a resposta certa para bradicardia é sempre a mesma: melhorar a ventilação. Se você sente vontade de comprimir, olhe o tórax primeiro.
O dano: São necessários 60 segundos de massagem coordenada à ventilação para restabelecer a pressão de perfusão coronariana. Cada interrupção zera essa pressão e obriga a recomeçar do zero. O padrão "comprime um pouco, para e ausculta" mantém o coração permanentemente sem perfusão coronariana, e a impressão que fica para a equipe é a de que a massagem não está funcionando.
Como pegar a tempo: Cronometre. Massagem por 60 segundos completos antes de reavaliar a frequência cardíaca, e interrupções apenas para oferecer a ventilação dentro da relação 3 para 1. Peça a alguém que anuncie os segundos em voz alta — é para isso que o relógio de parede com ponteiro de segundos está na lista de material obrigatório.
O dano: O occipital do recém-nascido é proporcionalmente grande, e em superfície plana ele empurra o queixo contra o tórax. A via aérea se fecha nos dois extremos — flexão e hiperextensão —, e o resultado é uma ventilação que parece estar sendo feita e não entra. Como o profissional está com a máscara na mão e vendo o balão comprimir, a tendência é aumentar a pressão em vez de reposicionar, o que aumenta o escape e a distensão gástrica sem resolver nada.
Como pegar a tempo: Decúbito dorsal, mesa sem inclinação, cabeça voltada para você, pescoço em LEVE extensão. Se o queixo insiste em cair sobre o peito, ponha um coxim sob os ombros — nunca sob a cabeça. Reposicionar a cabeça é o passo 2 da sequência de ações corretivas, e é o que resolve boa parte das ventilações que não expandem o tórax.
O dano: Clampear antes da insuflação e da vasodilatação pulmonar reduz a pré-carga ventricular e aumenta a pós-carga do ventrículo esquerdo, prejudicando a circulação e causando hipóxia. Perde-se uma transfusão placentária que pode chegar a 25% do volume placentário, com prejuízo mensurável na hemoglobina das primeiras 24 horas e na ferritina dos 3 aos 6 meses — ou seja, mais anemia do lactente, com repercussão possível no desenvolvimento.
Como pegar a tempo: No recém-nascido com boa vitalidade, clampeie em no mínimo 60 segundos, e preferencialmente depois que ele já respirou. As exceções são poucas e todas envolvem circulação placentária interrompida: descolamento prematuro de placenta, placenta prévia com sangramento e nó verdadeiro de cordão. Diga o plano de clampeamento em voz alta no briefing — sem combinar antes, o cordão é cortado por hábito.
O dano: Separar da mãe o recém-nascido com boa vitalidade custa temperatura, custa hipoglicemia e custa amamentação. O contato pele a pele aumenta a temperatura corporal em média 0,32 grau, reduz o risco de hipoglicemia em 84% e o de admissão hospitalar em 66%, e aumenta a probabilidade de aleitamento exclusivo no primeiro mês e até os 6 meses. E há um custo invisível: a mesa ocupada por quem não precisa dela é a mesa que não está livre para quem precisa.
Como pegar a tempo: Responda honestamente às três perguntas. Respirando ou chorando E tônus em flexão significa boa vitalidade, mesmo com mecônio, mesmo com o bebê sujo, mesmo com a família olhando. O trabalho, nesse caso, é prover calor, manter a via aérea pérvia, avaliar de modo continuado e ajudar a mamada — no colo da mãe.
O dano: O relógio do Minuto de Ouro não perdoa: o risco de morte ou morbidade aumenta 16% a cada 30 segundos de atraso para iniciar a ventilação. Descobrir na hora que a fonte de calor está desligada, que a máscara é a de prematuro extremo, que o balão não veda ou que ninguém sabe se são 34 ou 39 semanas consome exatamente o tempo que decide o desfecho. E a divisão de tarefas improvisada produz duas pessoas fazendo a mesma coisa e nenhuma fazendo o resto.
Como pegar a tempo: Trate o preparo como conduta e não como burocracia. Chegue antes, ligue o calor radiante, confira o material com a lista de verificação, confirme a temperatura da sala entre 23 e 25 graus e participe do briefing: idade gestacional, peso estimado, fatores de risco, quem é o líder, quem ventila, quem monitora. Se o briefing não acontecer, faça as perguntas você mesmo — em voz alta.
O dano: O recém-nascido que precisa de reanimação avançada precisa de três pessoas ao mesmo tempo: uma ventilando pela cânula, outra na massagem e a terceira cateterizando a veia umbilical e administrando medicação. Quem só chama ajuda ao chegar nesse ponto vai passar dois a três minutos sozinho fazendo duas coisas mal. O atraso na administração de medicações se associa a redução da sobrevida.
Como pegar a tempo: Chame no momento em que indicar a ventilação, não quando ela falhar. A frase certa é objetiva e alta: "recém-nascido em ventilação com pressão positiva na sala 2, preciso de mais duas pessoas agora". Nenhuma diretriz espera que o interno conduza sozinho uma reanimação avançada — todas esperam que ele comece a ventilação nos primeiros 60 segundos e chame quem faz o resto.
O que dizer ao paciente e à família
Numa sala de parto há sempre duas pessoas acordadas que ninguém está tratando: a mãe e o acompanhante. Eles estão a três metros da mesa de reanimação, veem tudo, ouvem tudo e não entendem nada — e o silêncio da equipe é interpretado como a pior notícia possível. A conversa prévia da equipe com a parturiente e seus familiares é parte do briefing, justamente para estabelecer um vínculo de confiança que facilite a comunicação sobre as condições do bebê depois do nascimento.
A análise da evidência disponível sugere ser razoável a presença da família durante os procedimentos de reanimação neonatal, desde que existam condições institucionais e vontade da família. Se ela ficar, alguém precisa estar designado para falar com ela — e essa pessoa não pode ser quem está ventilando.
Três regras cobrem quase tudo. Narre o que está acontecendo em voz alta e em português comum, sem esperar o desfecho. Diga o que sabe e o que ainda não sabe, sem prometer horário nem prognóstico. E não use o silêncio como forma de proteger ninguém: silêncio, nessa sala, comunica catástrofe.
Antes do parto, no briefing com a família
“"Boa noite, meu nome é [nome], sou da equipe que vai cuidar do bebê assim que ele nascer. Vou estar aqui do lado, nesta mesa, com o material todo já preparado. Se ele nascer chorando e bem, ele vai direto para o colo da senhora e a gente espera pelo menos um minuto para cortar o cordão. Se ele precisar de uma ajudinha para começar a respirar, eu vou trazê-lo para esta mesa aqui, que é aquecida, e vou avisando a senhora o que estou fazendo."”
Não diga: Não apareça pela primeira vez quando o bebê já nasceu mal. E não prometa que vai dar tudo certo — prometa presença e informação, que é o que você controla.
O bebê nasceu e não chorou — os primeiros segundos
“"Ele nasceu, está aqui comigo. Ele ainda não chorou, e é por isso que eu vou ajudá-lo a respirar agora. Vou usar uma mascarinha para dar uns empurrõezinhos de ar nos pulmões dele. Isso é comum e resolve na maioria das vezes. Eu vou avisando a senhora."”
Não diga: Silêncio. Levar o bebê para a mesa de costas para a mãe sem dizer uma palavra é o que produz a lembrança que ela vai carregar. Também não diga "calma" nem "não é nada" — ela vai ouvir que você está escondendo alguma coisa.
O bebê melhorou e vai para o colo
“"Pronto: ele está respirando sozinho, o coração está ótimo. Ele precisou de um empurrãozinho para começar, e agora está bem. Vou colocá-lo no colo da senhora, pele com pele. Ele pode querer mamar já nos próximos minutos, e isso é ótimo."”
Não diga: "Foi um susto à toa" — não foi à toa, foi um procedimento indicado e bem feito. Minimizar retira da mãe a chance de entender o que aconteceu e reaparece como culpa mais tarde.
O bebê precisa ir para a unidade neonatal
“"Ele está estável agora, mas precisou de bastante ajuda para começar, e por isso vai ficar em observação na UTI neonatal por um tempo. Eu vou levá-lo nesta incubadora aquecida, com monitor. Antes de sair, quero que a senhora o veja e toque nele. Assim que ele estiver instalado lá, alguém vem falar com vocês e explicar o que vai acontecer."”
Não diga: Sair da sala com o bebê sem mostrá-lo. E não diga "é só rotina" quando não é — se ele precisou de reanimação, é vigilância indicada, e dizer isso com clareza é o que sustenta a confiança quando algo mudar.
O quadro é grave e a reanimação está em curso há vários minutos
“"Preciso ser honesto com a senhora. O bebê nasceu sem respirar e sem batimentos adequados, e a gente está há [x] minutos fazendo tudo o que se faz nessas horas: respiração assistida, massagem no coração e medicação. Ele ainda não respondeu como a gente precisava. É uma situação grave, e eu não sei ainda como vai terminar. Vou continuar aqui e vou falar com a senhora de novo em poucos minutos."”
Não diga: Prognóstico precoce nos dois sentidos. Não diga "ele não vai resistir" e não diga "vai ficar tudo bem". Não use "parada cardíaca" com a família sem explicar o que significa num recém-nascido — o termo carrega, para leigos, o sentido do infarto do adulto.
A equipe decide interromper a reanimação
“"Nós fizemos tudo o que existe para fazer, por [x] minutos, e o coração dele não voltou a bater sozinho. Chegamos ao ponto em que continuar não vai mudar o desfecho e pode trazer sofrimento. Eu sinto muito. Vocês vão poder ficar com ele, pelo tempo que quiserem, e vamos ficar por perto."”
Não diga: Frases que atribuem causa antes de existir causa: "foi porque demorou o parto", "foi o cordão". E não deixe a família sozinha nem entregue essa conversa por telefone. Se a decisão foi tomada, ela precisa ser dita por alguém que estava na sala, presencialmente, e registrada no prontuário.
Dentro da equipe, durante a reanimação
“"Frequência 54 no monitor. Estou aumentando a pressão para 30. [nome], assume a massagem que eu troco com você em dois minutos. Alguém marca o tempo e me diz quando fechar um minuto de massagem."”
Não diga: Pedidos ao ar ("alguém pega a adrenalina"). Dirija-se à pessoa pelo nome, diga o que quer e espere a confirmação de volta — comunicação em alça fechada é o que a diretriz descreve como condição de atendimento seguro.
No debriefing, depois de tudo
“"Vamos revisar rápido: o que funcionou bem? Onde a gente perdeu tempo? O material estava todo pronto? A ventilação começou dentro do primeiro minuto? Alguém ficou sem função definida? E como cada um está agora?"”
Não diga: Transformar o debriefing em busca de culpado, ou pular a última pergunta. O debriefing existe para melhorar desempenho, adesão às diretrizes e desfechos — e o apoio ao bem-estar dos profissionais é um dos dez passos do consenso internacional para melhorar os resultados da reanimação neonatal.
Onde bons médicos discordam
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.
Estímulo tátil de cerca de 15 segundos ANTES do clampeamento (documento brasileiro, 2026)
A diretriz brasileira orienta que, no recém-nascido sem boa vitalidade, se faça o estímulo tátil no dorso por cerca de 15 segundos ainda com o cordão intacto, para tentar desencadear a respiração enquanto o suporte placentário continua funcionando. O argumento é hemodinâmico: enquanto o pulmão não abriu, a veia umbilical é a única fonte de sangue oxigenado, e clampear antes disso reduz a pré-carga e aumenta a pós-carga do ventrículo esquerdo. Em estudo observacional com 2.563 recém-nascidos que não choraram, o estímulo antes do clampeamento aumentou em 84% a chance de respiração espontânea.
Almeida MFB, Guinsburg R et al. Reanimação do recém-nascido ≥34 semanas em sala de parto: diretrizes 2026 da SBP, seções 5.1 e 5.2.
Clampear e cortar para permitir a ventilação efetiva (documento internacional, 2014)
A diretriz da Organização Mundial da Saúde faz duas recomendações complementares: não clampear antes de 1 minuto nos recém-nascidos de termo ou pré-termo que não precisam de ventilação com pressão positiva (recomendação forte), e clampear e cortar o cordão quando o recém-nascido precisa de ventilação, para que ela possa ser realizada de modo efetivo (recomendação condicional). A lógica é operacional: a prioridade absoluta é ventilar, e a organização da sala não deve depender de conseguir fazê-lo junto à parturiente.
World Health Organization. Guideline: delayed umbilical cord clamping for improved maternal and infant health and nutrition outcomes. Geneva: WHO, 2014 — recomendações 1 e 2.
As duas posições concordam no essencial e discordam em quinze segundos, e é assim que a decisão deve ser tomada à beira da mesa. Se a estrutura permite estimular o dorso do bebê onde ele está, com campo aquecido, sem perder o relógio de vista, faça — quinze segundos é barato e pode evitar toda a cascata. Se a estimulação está atrapalhando, se você está sozinho, se a mesa está longe ou se o bebê parece grave desde o primeiro olhar, clampeie e vá para a mesa: o manejo do cordão nunca pode atrasar o início da ventilação assistida, e isso está escrito nos dois documentos. O erro que os dois lados condenam é o mesmo — chegar aos 60 segundos de vida sem ter ventilado. E há situações em que a discussão nem se coloca: com descolamento prematuro de placenta, placenta prévia sangrante ou nó verdadeiro de cordão, a circulação placentária já está interrompida e o clampeamento é imediato.
Iniciar com 60% (documento brasileiro, 2026)
O programa brasileiro recomenda iniciar a ventilação do recém-nascido de menos de 34 semanas com concentração de oxigênio de 60%, titulando pela saturação pré-ductal com ajustes de 20% a cada 30 segundos. A base é a metanálise de dados individuais de 1.055 prematuros de menos de 32 semanas, que encontrou menor mortalidade hospitalar com fração inspirada inicial alta em comparação com baixa, somada ao ensaio multicêntrico publicado em dezembro de 2025 com 1.469 recém-nascidos de 23 a 28 semanas, no qual o grupo iniciado com 60% teve maior probabilidade de atingir a saturação alvo e frequência cardíaca de 100 ou mais aos 5 minutos, com menos episódios de hipóxia e bradicardia e menor necessidade de massagem e adrenalina.
Guinsburg R, Almeida MFB et al. Reanimação do recém-nascido <34 semanas em sala de parto: diretrizes 2026 da SBP, seção 9.1.
Iniciar com 30% ou mais (documento internacional, 2025)
A força-tarefa neonatal do comitê internacional avaliou a mesma metanálise de dados individuais e concluiu que a certeza global da evidência era muito baixa, principalmente porque o tamanho amostral de cada comparação ficou substancialmente abaixo do necessário. A recomendação resultante é de que, entre recém-nascidos de menos de 32 semanas, é razoável iniciar a reanimação com 30% ou mais de oxigênio (recomendação fraca, evidência de baixa certeza), e de que para os nascidos entre 32 e 34 semanas e 6 dias não há evidência suficiente para fazer recomendação. Dois ensaios multicêntricos em andamento comparam justamente 30% e 60%.
Liley HG, Weiner GM, Wyckoff MH et al. Neonatal Life Support: 2025 ILCOR Consensus on Science With Treatment Recommendations. Circulation. 2025;152(16 Suppl 1):S165-S204 — Oxygen concentration for initiating resuscitation in preterm infants.
Repare que não há conflito aritmético: 60% satisfaz "30% ou mais". A divergência real é sobre onde colocar o ponto de partida dentro de uma faixa que ninguém provou. O que decide na sala de parto brasileira é a régua nacional — inicie o prematuro com 60% —, mas o que muda desfecho é o que vem depois: a titulação. Iniciar alto e não descer é hiperóxia iatrogênica; iniciar baixo e não subir é hipóxia. Os dois lados concordam que o alvo de saturação por minuto de vida governa tudo e que a monitorização é obrigatória, e a evidência mais consistente do prematuro é sobre o ponto de chegada, não o de partida: não atingir 80% aos 5 minutos se associa a maior risco de morte e lesão cerebral. Se o seu serviço não tem blender, você não tem como cumprir nenhuma das duas recomendações — e essa é a informação a levar para a coordenação, não para o leito.
Entre 23 e 25 graus (documentos de 2025 e 2026)
A diretriz brasileira de 2026 recomenda temperatura ambiente da sala de parto entre 23 e 25 graus, com as portas fechadas para evitar correntes de ar, e trata isso como parte do preparo que antecede o nascimento, junto com a normotermia da própria parturiente. A recomendação internacional correspondente sugere temperaturas ambientes de pelo menos 23 graus em comparação com 20 graus, para manter a temperatura normal do recém-nascido — tanto no de 34 semanas ou mais quanto no prematuro.
Diretrizes SBP 2026 (RN ≥34 semanas), seções 2.3 e 5.3.1; ILCOR 2025, recomendações de 2022 e 2023 sobre temperatura ambiente.
No mínimo 26 graus (documento federal brasileiro, 2014)
O guia de atenção à saúde do recém-nascido do Ministério da Saúde, cuja segunda edição atualizada é de 2014 e cujo conteúdo se baseia nas diretrizes de reanimação vigentes em 2010 e 2011, orienta que a temperatura ambiente na sala de parto seja de no mínimo 26 graus, para que se mantenha com maior facilidade a temperatura corporal normal do recém-nascido. É o documento federal ainda impresso e distribuído às maternidades, e é frequentemente a régua afixada na parede dos serviços.
Brasil. Ministério da Saúde. Atenção à saúde do recém-nascido: guia para os profissionais de saúde. Volume 1 — Cuidados gerais. 2ª edição atualizada. Brasília, 2014, capítulo 2.
Aqui a divergência é entre um documento antigo e um novo, e a decisão prática não é escolher o número: é lembrar que o número da parede não é o desfecho. O desfecho é a temperatura axilar do bebê entre 36,5 e 37,5 graus na admissão, que é o indicador de qualidade que alguém vai medir. Numa sala a 26 graus, a equipe cirúrgica trabalha mal e a porta acaba aberta — o que anula o ganho. Numa sala a 23 graus com porta aberta e sem calor radiante ligado, o bebê esfria igual. Se você tem de escolher onde gastar energia, gaste no que fecha a conta: fonte de calor ligada antes, campos aquecidos, secar e desprezar os úmidos, touca, portas fechadas e um termômetro que alguém de fato lê. E, se o serviço ainda opera pela régua de 2014, isso não é erro clínico grave — é oportunidade de atualizar o protocolo interno com a diretriz vigente.
Discutir a interrupção em torno de 20 minutos de vida
A orientação brasileira é que, se apesar de todos os procedimentos recomendados o recém-nascido segue precisando de reanimação avançada de modo continuado, se discuta a interrupção entre os membros da equipe e com a família, e que um tempo razoável para essa discussão é em torno de 20 minutos depois do nascimento. A decisão é individualizada e leva em conta idade gestacional, anomalias congênitas, duração da agressão asfíxica, se a reanimação foi bem feita, o desejo familiar e a disponibilidade de infraestrutura e de recursos para os cuidados pós-reanimação.
Diretrizes SBP 2026 (RN ≥34 semanas), seção 11.2; ILCOR 2025 e diretrizes norte-americana e europeia de 2025.
Nenhuma duração prediz de modo consistente o desfecho
A mesma seção registra que não há evidências de que qualquer duração específica dos esforços de reanimação possa predizer, de modo consistente, o óbito ou a sequela moderada a grave nos sobreviventes. Revisão sistemática da força-tarefa internacional mostrou que, entre 39 recém-nascidos reanimados por mais de 20 minutos, 15 sobreviveram e 6 desses sobreviventes não tinham lesão neurológica moderada ou grave. Outra metanálise, com 28 estudos e 820 recém-nascidos com boletim de Apgar zero no décimo minuto, mostrou que dois em cada cinco sobrevivem e um em cada cinco sobrevive sem sequela neurológica moderada ou grave. A disponibilidade de hipotermia terapêutica pode modificar o prognóstico.
Diretrizes SBP 2026 (RN ≥34 semanas), seção 11.2 e Quadro 10, com base em revisão sistemática da Força-Tarefa Neonatal do ILCOR.
Esta é a divergência que o interno não decide, e reconhecer isso é a competência. O que cabe a você é garantir que a discussão aconteça sobre uma reanimação bem feita — porque a pergunta "vale a pena continuar?" só tem sentido depois de "a ventilação estava entrando, a cânula estava no lugar, a massagem estava sincronizada, a adrenalina foi na dose e na via certas?". Vinte minutos é o ponto em que a conversa começa, não um cronômetro que dispara sozinho. O que empurra para continuar é a existência de hipotermia terapêutica acessível, idade gestacional maior, ausência de anomalia e uma agressão asfíxica de duração curta ou desconhecida; o que empurra para parar é o oposto, somado ao desejo de uma família informada. E, quando não houver como conversar com nenhum familiar, a equipe age de acordo com o melhor interesse do recém-nascido — e registra tudo no prontuário.
O raciocínio, em voz alta
Camila, 22 anos, primeira gestação, 39 semanas por ultrassonografia de primeiro trimestre, pré-natal sem intercorrências, bolsa rota há 3 horas com líquido claro. Parto vaginal espontâneo às 3h44. Você é o interno que recebeu o recém-nascido porque a pediatra desceu para resolver uma intercorrência na UTI neonatal. O bebê nasce flácido, sem chorar, sem movimentos respiratórios.
o que penso agora
Três perguntas: 39 semanas, sim; respirando ou chorando, não; tônus em flexão, não. Duas respostas negativas bastam — este recém-nascido não tem boa vitalidade. Isso me dá uma sequência fixa e um relógio: estímulo tátil no dorso agora, cerca de 15 segundos, ainda com o cordão intacto, e a ventilação precisa estar rodando antes dos 60 segundos de vida. Não há nada a decidir e não há tempo para deliberar.
o que faço primeiro — e o que digo
Digo em voz alta, para a sala e para Camila ao mesmo tempo: "o bebê nasceu, ainda não chorou, vou ajudá-lo a respirar; preciso de mais uma pessoa aqui agora". Enquanto falo, friccio o dorso dele com movimentos circulares delicados, sobre o abdome da mãe, com o campo aquecido por cima. Conto até quinze olhando o tórax. Nada. Nenhum movimento respiratório, nenhum ganho de tônus.
3h44 + 25 a 50 segundos — passos iniciais, teto de 30 segundos
Seco cabeça e corpo com compressa aquecida, jogo fora os campos molhados, ponho a touca, alinho o pescoço em leve extensão. Não aspiro: o líquido era claro e não há sinal de obstrução, e aspirar aqui só me custaria tempo e um risco de bradicardia vagal. Ausculto o precórdio por seis segundos: conto seis batimentos. Digo em voz alta: "frequência sessenta, apneia". A técnica auxiliar chegou e está ligando o oxímetro.
3h44 + 55 segundos — ventilação, dentro do Minuto de Ouro
Frequência abaixo de 100 e apneia: indicação de ventilação com pressão positiva. Pego a máscara redonda de termo, aplico no sentido do queixo para o nariz, cobrindo queixo, boca e nariz sem prensar os olhos. Polegar e indicador em C na borda, os outros três dedos em E ao longo da mandíbula, empurrando-a levemente para cima. Balão autoinflável com manômetro, fluxômetro DESLIGADO — ar ambiente. Aperta/solta/solta, aperta/solta/solta, num ritmo em torno de quarenta por minuto. Enquanto isso, a técnica loca os três eletrodos do monitor e o sensor do oxímetro no punho radial direito.
as primeiras cinco ventilações — o que estou olhando
Estou olhando duas coisas ao mesmo tempo: o tórax e o monitor. O tórax quase não se move e o manômetro marca 20. Reajusto a pressão para 25 e o tórax passa a subir de leve — leve, não estufado. A frequência no monitor, que já apareceu, marca 74 e começa a subir. Este é o sinal que decide: o indicador mais importante de que a ventilação está funcionando é o aumento da frequência cardíaca, e ele costuma vir nos primeiros 15 a 30 segundos.
3h45 + 30 segundos — a primeira reavaliação
Trinta segundos de ventilação. Monitor em 128. Tórax expandindo. E o bebê faz uma careta, depois um movimento respiratório, depois um choro fraco que vira um choro forte. Suspendo a ventilação e observo: respiração espontânea, rítmica, regular, frequência mantida acima de 100. Nove em cada dez recém-nascidos que recebem ventilação com máscara facial param aqui, e este é um deles. O oxímetro marca 68% aos dois minutos e dez de vida — dentro da faixa alvo de 65 a 70%. Não toco no oxigênio.
o que eu quase fiz de errado
Aos dois minutos, com 68% no oxímetro e o bebê ainda azulado, meu impulso foi abrir o oxigênio. Se eu tivesse feito isso, teria dado hiperóxia a um recém-nascido que estava exatamente onde deveria estar. O que evita esse erro não é sangue-frio: é ter a tabela de saturação alvo por minuto de vida na cabeça, e saber que passar de 90% exige cinco minutos ou mais mesmo num bebê saudável em ar ambiente.
3h49 — o desfecho
Aos cinco minutos, saturação de 83% em ar ambiente, dentro do alvo de 80 a 85%, frequência de 140, choro forte, tônus em flexão, rosado no tronco. Apgar de 4 no primeiro minuto e 9 no quinto, anotados junto com o registro de que houve ventilação com máscara entre o primeiro e o segundo minuto. Levo o bebê ao colo de Camila, pele a pele, e explico o que aconteceu. Meço a temperatura: 36,8 graus. Aos dez minutos ele mama.
o que este caso ensina
A intervenção que salvou este atendimento foi uma máscara bem vedada, ar ambiente e trinta segundos de paciência. Não houve intubação, não houve massagem, não houve droga — como não há em 99% dos casos. O que quase deu errado foi tudo o que aconteceu antes do parto: fonte de calor apagada, material não conferido, idade gestacional descoberta no corredor, ninguém designado. Se este bebê tivesse precisado de intubação, esses vinte segundos perdidos ligando a fonte de calor e procurando a máscara certa teriam sido descontados do Minuto de Ouro. É por isso que o preparo é conduta.
Faça você
Plantão noturno. Cesárea de urgência por desaceleração fetal prolongada em gestante de 41 semanas, líquido amniótico meconial espesso. Como havia fator de risco, a equipe do recém-nascido foi montada com três pessoas e o briefing foi feito: você ventila, a residente monitora, a pediatra lidera. O bebê nasce às 2h13, pesando cerca de 3.400 gramas estimados, flácido, sem respirar, coberto de mecônio. Estímulo tátil no dorso por 15 segundos sem resposta; cordão clampeado; levado à mesa. Passos iniciais executados em 25 segundos, sem aspiração porque não havia sinal de obstrução. Ausculta do precórdio: 5 batimentos em 6 segundos. Ventilação com pressão positiva iniciada aos 50 segundos de vida, em ar ambiente, com ventilador com peça T — pressão inspiratória 20, PEEP 5, fluxo 10 litros por minuto, frequência em torno de 40. Aos 30 segundos de ventilação, o monitor cardíaco marca 46 batimentos por minuto e o tórax não se move.
o que já sei
Recém-nascido de termo, com mecônio espesso e sofrimento fetal documentado, sem boa vitalidade, que não respondeu ao estímulo tátil. A ventilação começou dentro do Minuto de Ouro, o que é o principal. Mas, aos 30 segundos de ventilação, a frequência caiu de 50 para 46 e o tórax não expande.
o que o número me diz
Frequência abaixo de 60 é o limiar da massagem cardíaca — mas só depois de ventilação com técnica adequada e via aérea assegurada. Tórax que não se move significa que a ventilação NÃO está adequada. Ou seja: o número me empurra para a massagem e o tórax me diz que ainda não é hora dela.
o que NÃO vou fazer
Não vou aumentar o oxigênio: ventilar com técnica incorreta e mais oxigênio não melhora o recém-nascido. Não vou fazer laringoscopia para aspirar mecônio: a aspiração traqueal de rotina no não vigoroso não modifica o prognóstico e atrasa a ventilação. E não vou começar a massagem com o tórax parado.
conduta
— sua vez —
Ver como fecharíamos
Rode a sequência de ações corretivas na ordem, verificando tórax e frequência a cada passo, e sem parar de ventilar entre elas. Primeiro readapte a máscara à face, delicadamente, no sentido do queixo para o nariz, com polegar e indicador em C e os outros três dedos em E elevando a mandíbula — o escape perioral chega a 50 a 70% da mistura gasosa e é a causa mais comum de tórax parado. Segundo, reposicione a cabeça em leve extensão, colocando um coxim sob os ombros se o queixo cair sobre o peito. Terceiro, aspire secreções de boca e narinas — e aqui, sim, há indicação, porque com mecônio espesso e tórax que não expande a suspeita de obstrução é razoável; sonda nº 8-10, pressão de 80 a 100 mmHg, sem faringe posterior. Quarto, ventile com a boca levemente aberta. Quinto, aumente a pressão inspiratória em cerca de 5 cmH2O — de 20 para 25, depois 30 —, até o máximo de 40, e confirme que o equipamento e as conexões estão funcionando. Se, depois de tudo isso, o tórax passar a expandir e a frequência subir, você resolveu o caso sem intubar. Se o tórax continuar parado ou a frequência permanecer abaixo de 100, troque a interface: com peso estimado de 3.400 gramas, a máscara laríngea nº 1 é opção, e a intubação traqueal é a outra — e a intubação é ato médico, de modo que quem faz é a pediatra que lidera, com cânula de 3,5 mm, lâmina reta nº 1, marca de 9,0 cm no lábio superior para esse peso, e no máximo 30 segundos por tentativa. Após intubar, ventile com oxigênio a 60% e confirme a posição com detector colorimétrico de CO2. Só então, se a frequência permanecer abaixo de 60 após 30 segundos de ventilação por cânula com técnica adequada, comece a massagem cardíaca 3 para 1 a 120 eventos por minuto com oxigênio a 100%, por 60 segundos completos antes de reavaliar, e peça que alguém prepare a adrenalina diluída e o cateterismo umbilical enquanto isso. Diga cada número em voz alta e peça a alguém que marque o tempo.
Diluir 1 mL de adrenalina 1 mg/mL em 9 mL de salina produz 0,1 mg/mL. A dose intravascular prática da SBP é 0,02 mg/kg: para 3 kg, 0,06 mg, ou 0,6 mL da solução diluída, seguida de flush de 3 mL de salina. Repetir a cada 3–5 minutos se a frequência permanecer abaixo de 60 bpm apesar da reanimação adequada. As alternativas com 0,3 mL a 1 mg/mL ou 3 mL a 0,1 mg/mL fornecem 0,3 mg, cinco vezes essa dose. Já 0,06 mL a 1 mg/mL contém a mesma massa da dose correta, mas contraria a diluição padronizada e exige medir volume muito pequeno, favorecendo erros. Portanto, o problema dessa alternativa não é uma dose dez vezes maior. Com acesso umbilical funcionante, preferir a via intravascular.
Teste-se
Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.
Plano de revisão
Em 7 dias
Em simulação supervisionada, prepare a estação, anuncie funções e identifique quem precisa de ventilação. Demonstre máscara e posição, reconheça uma ventilação sem resposta e execute as correções com reavaliação da frequência cardíaca. Use o algoritmo PRN-SBP 2026 da faixa gestacional apropriada e explique cada mudança de etapa.
Em 30 dias
Simule um recém-nascido de 3,2 kg com bradicardia persistente apesar de ventilação efetiva. A equipe deve verificar os critérios de compressão e medicação, conferir concentração, dose e volume em voz alta e registrar a resposta. Termine com a passagem do caso, o destino após a reanimação e a explicação à família. O objetivo é integrar cálculo, técnica, comunicação e reavaliação.
Agora atenda
Recém-nascido de termo, parto vaginal de risco habitual, que nasce sem chorar e com tônus flácido. Você é o único profissional designado para o bebê. Conduza o atendimento: responda às três perguntas, decida sobre o estímulo tátil e o clampeamento, execute os passos iniciais no tempo, avalie frequência cardíaca e respiração, indique e aplique a ventilação dentro do Minuto de Ouro, corrija a técnica quando ele não melhorar, diga em que momento chamaria ajuda e o que falaria para a mãe enquanto trabalha.
