Pediatria › Neonatologia
Começar sem saber, parar sem prova
Sepse neonatal precoce e tardia: fatores de risco e manejo
O recém-nascido que não está bem: quem rastrear e com quê, o que a hemocultura responde e em quanto tempo, quando começar antibiótico e — a decisão que quase ninguém treina — quando parar.
Sociedade Brasileira de Pediatria. Departamento Científico de Neonatologia (2019-2021). Sepse neonatal precoce e a abordagem do recém-nascido de risco: o que há de novo? Documento Científico nº 11, 15 de junho de 2022. Relatoras: Roseli Calil, Maria Regina Bentlin, Leila Denise Cesário Pereira. 18 p. https://www.sbp.com.br/fileadmin/user_upload/23488c-DC_Sepse_neonatal_precoce_e_abordagem_RN_de_risco.pdf
Sociedade Brasileira de Pediatria. Departamento Científico de Neonatologia (gestão 2022-2024). Diretrizes para uso racional de antibióticos em unidades neonatais. Diretriz nº 193, 06 de março de 2025. Rio de Janeiro: SBP, 2025. 15 f. ISBN 978-85-88520-60-8. Relatores: Jamil Pedro de Siqueira Caldas, Roseli Calil. https://www.sbp.com.br/fileadmin/user_upload/sbp/2025/abril/23/24815h-Diretrizes_para_uso_racional_antibioticos_em_Unid_Neonatal.pdf
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Ações Programáticas Estratégicas. Atenção à saúde do recém-nascido: guia para os profissionais de saúde. Volume 2 — Intervenções comuns, icterícia e infecções. 2. ed. atual. Brasília: Ministério da Saúde, 2014. 167 p. ISBN 978-85-334-2002-1 (v. 2); 978-85-334-1982-7 (obra completa). Capítulo 14 — Sepse Neonatal Precoce, p. 79-93.
Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Nota Técnica GVIMS/GGTES/DIRE3/ANVISA nº 03/2025 — Critérios diagnósticos das infecções relacionadas à assistência à saúde de notificação nacional obrigatória, ano 2025. Brasília: Anvisa, 02 de janeiro de 2025. 96 p.
Brasil. Ministério da Saúde. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais — Rename 2024. Brasília: Ministério da Saúde, 2024. 254 p.
Hospital Universitário da Universidade Federal da Grande Dourados / Ebserh. Protocolo PRT.UTIUN.008 — Sepse Neonatal Tardia. Versão 01, emissão 01/07/2024. Publicação: Portaria nº 129, de 01 de julho de 2024, Boletim de Serviço nº 499, de 04 de julho de 2024. 15 p.
Hospital de Clínicas da Universidade Federal do Triângulo Mineiro / Ebserh. Protocolo PRT.HCUFTMUTIPN.001 — Manejo do Recém-Nascido com Risco de Sepse Precoce. 17 p.
Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Critérios diagnósticos de infecção associada à assistência à saúde — Neonatologia. Série Segurança do Paciente e Qualidade em Serviços de Saúde. Brasília: Anvisa, 2017.
Puopolo KM, Benitz WE, Zaoutis TE; Committee on Fetus and Newborn; Committee on Infectious Diseases. Management of neonates born at 35 0/7 weeks gestation or later with suspected or proven early-onset bacterial sepsis. Pediatrics. 2018;142(6):e20182894. Documento irmão para 34 6/7 semanas ou menos: Pediatrics. 2018;142(6):e20182896.
Responda antes de ler
Durante a visita, o residente propõe manter o antibiótico de um recém-nascido no quinto dia, com culturas negativas e bebê em bom estado, argumentando que o caso preenche os critérios de infecção primária de corrente sanguínea clínica da Anvisa, com hemograma alterado e proteína C reativa seriada elevada. Qual é a leitura correta desse argumento?
O paciente que você vai ver
Quatro e cinquenta da manhã, alojamento conjunto de uma maternidade de trinta leitos dentro de um hospital geral do interior. Você é o interno da noite de pediatria. A unidade neonatal fica dois andares acima, tem seis leitos de terapia intensiva e quatro de cuidados intermediários, e a neonatologista de plantão, a doutora Cassiana Iglesias, subiu para lá há quarenta minutos.
A técnica de enfermagem, Marivone, te encontra no corredor com a folha de sinais vitais dobrada em duas e diz a frase que se repete a vida profissional inteira, sempre com essas palavras e nunca com outras: o bebê da Josenilde não está bem.
Você pergunta o que ela quer dizer com isso, e a resposta não melhora. Ele não pegou o peito nas duas últimas mamadas. Está quieto demais. A temperatura axilar das quatro horas foi 36,2 °C e a das quatro e meia foi 37,7 °C. Ela não sabe dizer se ele está gemendo ou se é o jeito de respirar dele. Não há febre alta, não há convulsão, não há nada que caiba numa palavra.
O prontuário dá o resto. Josenilde Morgado, 24 anos, segunda gestação, parto vaginal às dez e vinte da noite anterior, 38 semanas e 4 dias por ultrassonografia de primeiro trimestre. Bolsa rota vinte e duas horas antes do parto, líquido claro. Cartão de pré-natal com seis consultas e sem resultado de cultura para estreptococo do grupo B — o exame foi pedido e ela não conseguiu marcar. Não recebeu antibiótico durante o trabalho de parto. Temperatura materna registrada na admissão: 37,6 °C. O recém-nascido nasceu chorando, com boa vitalidade, foi para o colo da mãe, mamou na primeira hora e está com dezoito horas de vida.
Enquanto você lê isso, o telefone do posto toca. É a unidade neonatal: o Emiliano, filho da Elizângela Riquelme, nascido de 28 semanas e hoje com doze dias de vida e 1.180 gramas, fez duas apneias em uma hora, está com resíduo gástrico esverdeado e teve a temperatura caindo para 35,9 °C. Ele está com cateter central de inserção periférica desde o terceiro dia e recebe nutrição parenteral. A doutora Cassiana pede que você suba assim que resolver o alojamento.
Os dois bebês têm a mesma frase escrita no prontuário — recém-nascido com suspeita de sepse — e vão receber decisões diferentes em quase tudo: fatores de risco diferentes, bactérias diferentes, exames diferentes, antibióticos diferentes e prazos diferentes para parar. O nome é o mesmo por convenção histórica; a doença não é.
E há uma terceira coisa acontecendo, que é a razão de este capítulo existir. Nos próximos minutos você vai começar antibiótico em pelo menos um desses dois sem prova nenhuma de que existe bactéria. Isso é correto, é o que os documentos mandam fazer e é o que salva a vida de quem estiver infectado. O que quase ninguém treina é a segunda metade: em trinta e seis a quarenta e oito horas, alguém precisa voltar àquela prescrição e parar. Se ninguém voltar, o antibiótico continua sozinho, por inércia — e a inércia tem preço medido.
Quem adoece disso
A primeira coisa que um documento brasileiro sobre sepse neonatal não tem é um número brasileiro. O guia do Ministério da Saúde registra incidência de 1 a 8 casos por mil nascidos vivos e mortalidade média de 25%, sem dizer de que série nacional isso saiu nem de que ano. O documento da Sociedade Brasileira de Pediatria de 2022, quando precisa de taxas, usa dados norte-americanos — e diz que os usa. Ou seja: o Brasil trata sepse neonatal todos os dias e não publica, em documento de referência, quantos casos tem. Registre isso como o que é, ausência de dado nacional publicado nas fontes lidas, e não como se o número americano fosse nosso.
Com essa ressalva, os números que existem organizam o raciocínio. A incidência da forma precoce é inversamente proporcional à idade gestacional: cerca de 0,5 por mil nascidos vivos no recém-nascido a termo, 1 por mil entre 34 e 36 semanas, 6 por mil abaixo de 34 semanas, 20 por mil abaixo de 29 semanas e até 32 por mil entre 22 e 24 semanas. Entre os de muito baixo peso, uma rede de pesquisa americana encontrou 13,9 por mil. A mortalidade acompanha a mesma inclinação: 1,6% com 37 semanas ou mais, 2% a 3% com 35 semanas ou mais, 30% entre 25 e 28 semanas e 50% entre 22 e 24 semanas — e, por peso, 3,5% acima de 1.500 gramas contra 35% abaixo.
Dois agentes respondem por cerca de 70% da forma precoce: a Escherichia coli, com 36,6%, e o estreptococo do grupo B, com 30,2%. A proporção entre eles inverte com a idade gestacional. No recém-nascido a termo, o estreptococo do grupo B é mais frequente que a E. coli, com 0,29 contra 0,10 caso por mil nascidos vivos; nos prematuros de 22 a 28 semanas, a E. coli é quase nove vezes mais frequente, com 12,13 contra 1,38 por mil. Isso tem consequência prática direta: o esquema empírico precisa cobrir os dois, e a cobertura de gram-negativo não é um detalhe que se acrescenta depois.
A forma tardia é outra epidemiologia. A incidência de pelo menos uma hemocultura positiva depois das 48 horas de vida em prematuros com peso de nascimento de 1.500 gramas ou menos varia de 20% a 35% — um em cada quatro ou cinco, ao longo da internação. Em países de renda média e alta, o estafilococo coagulase-negativo é o agente mais comum, de 36% a 47% dos casos, seguido pelo Staphylococcus aureus; em países de renda baixa e média, os gram-negativos pesam mais, com Klebsiella, E. coli, Pseudomonas e espécies de Salmonella. O Brasil está no meio desse cruzamento, e é por isso que a flora que decide o esquema empírico da forma tardia é a da sua unidade, não a da literatura.
Agora a epidemiologia que ninguém coloca no slide, e que é o eixo deste capítulo. Estudos observacionais em países de alta renda mostram que de 83% a 94% dos recém-nascidos que recebem antibiótico por suspeita de sepse têm hemocultura negativa. Uma estimativa de julho de 2019 encontrou 26% dos recém-nascidos de alto risco em unidades neonatais do mundo inteiro recebendo pelo menos um antimicrobiano, a maioria como cobertura empírica de uma sepse com cultura negativa. Dito de outro modo: para cada criança que de fato tinha bactéria no sangue, entre cinco e dezesseis receberam o tratamento dela.
Esse excesso não é neutro, e o dano tem tamanho medido. Numa coorte de 4.093 recém-nascidos de extremo baixo peso, o tratamento empírico mantido por cinco dias ou mais associou-se a mais enterocolite necrosante e a mais óbito. O uso empírico prolongado e de amplo espectro em recém-nascido sem infecção documentada está associado a aumento do risco de sepse tardia, de enterocolite necrosante e de morte. E um protocolo de hospital universitário federal registra explicitamente, entre os fatores de risco para sepse tardia, o uso de antibiótico empírico por mais de cinco dias numa sepse precoce que não se confirmou, sobretudo em unidades com pouco leite materno e muita cefalosporina de terceira e quarta geração. O antibiótico da primeira semana é fator de risco para a doença da terceira.
Vinte anos de dados de um serviço brasileiro fecham o argumento pelo outro lado. Numa universidade paulista, entre 2000 e 2020, um conjunto de medidas educativas — evitar cefalosporina e vancomicina, limitar o tempo de uso ao mínimo efetivo, com duração máxima de cinco dias em determinadas situações, e educação continuada no controle da transmissão cruzada — reduziu de forma significativa a sepse tardia e a sepse por bactérias multirresistentes, sem aumentar a mortalidade hospitalar global. Usar menos antibiótico, com critério, não custou vidas: poupou.
Por que acontece o que acontece
A divisão entre precoce e tardia parece uma divisão de relógio e não é: é uma divisão de rota. Na forma precoce, a bactéria vem da mãe. O feto pode ser colonizado ou infectado por via hematogênica, através da placenta, ou — de longe o mais comum no recém-nascido a termo — por via ascendente, durante o trabalho de parto, a partir da flora gastrointestinal e geniturinária materna que coloniza o compartimento uterino. O feto aspira líquido amniótico infectado, e o pulmão é a porta. Na forma tardia associada à internação, considerar a flora da unidade e os dispositivos; na readmissão da comunidade, a exposição é diferente e o esquema deve contemplar essa origem. O relógio de 48 horas é uma convenção para separar essas duas rotas, e é uma convenção boa porque, no plantão, quem decide o esquema empírico está de fato perguntando de onde veio o bicho.
No prematuro, a sequência causal se inverte e isso muda a leitura da história. A infecção intra-amniótica costuma acontecer antes de o trabalho de parto começar e, em cerca de 25% dos casos, é a causa do trabalho de parto prematuro e da rotura prematura de membranas — tanto mais quanto menor a idade gestacional. Não é o prematuro que nasce e depois se infecta; é a infecção que fez aquele parto acontecer. Por isso, em 97% dos prematuros de muito baixo peso com sepse precoce existe alguma combinação de bolsa rota prolongada, trabalho de parto prematuro ou suspeita de infecção intra-amniótica. A prematuridade inexplicada é, ela própria, um sinal.
A terceira peça do mecanismo é imunológica, e explica por que o quadro é sistêmico desde o começo. O recém-nascido, e sobretudo o prematuro, tem deficiências na produção de imunoglobulinas, no sistema complemento e na capacidade de opsonização e fagocitose — o risco de infecção no pré-termo é 8 a 11 vezes o do termo. Ele não constrói barreira, não abscede, não localiza. A resposta que ele monta é de citocinas, difusa, e é por isso que o termo síndrome da resposta inflamatória sistêmica também tem sido usado para descrever o quadro: o que se vê à beira do leito é a resposta, não o foco.

Por que o antibiótico da primeira semana produz a doença da terceira
O recém-nascido nasce com o intestino praticamente estéril e o coloniza nos primeiros dias com o que encontra: a flora da mãe, o leite materno, o ambiente. Um curso de antibiótico de amplo espectro nessa janela não trata só a bactéria que se procurava — ele decide qual flora vai ocupar o intestino daquele bebê pelas semanas seguintes, e a que sobra é a da unidade, que é resistente por definição, porque foi selecionada ali. Daí saem os três desfechos que os documentos registram juntos, sempre nesta ordem: aumento do risco de sepse tardia, de enterocolite necrosante e de morte. O elo com a enterocolite é o mais estudado e o mais direto — a coorte de extremo baixo peso com cinco dias ou mais de antibiótico empírico mostra os dois desfechos subindo juntos. O elo com a sepse tardia é a lógica da seleção: o bebê que passou uma semana em cefalosporina de amplo espectro tem, na segunda semana, um intestino povoado por enterobactérias produtoras de betalactamase de espectro estendido, e é esse intestino que vai translocar quando ele piorar no décimo segundo dia.
É por isso que, num capítulo sobre infecção, metade das páginas trata de quando não tratar. Não é uma preferência estética por conduta expectante: é que a única coisa que aumenta comprovadamente a incidência de sepse tardia numa unidade neonatal, entre as que estão sob controle do médico, é a prescrição que ele mesmo assinou dez dias antes.
Por que o quadro respiratório domina, e por que ele engana
A dificuldade respiratória é a manifestação mais comum da sepse precoce, presente em 90% dos casos, e varia de taquipneia até insuficiência respiratória grave. A razão é anatômica: na rota ascendente, o líquido amniótico infectado é aspirado, e a pneumonia congênita é frequentemente a porta de entrada da bacteremia, não a sua complicação.
O problema é que os primeiros minutos e as primeiras horas de qualquer recém-nascido também são respiratórios. Gemência, taquipneia, retração do esterno e cianose são o vocabulário comum da síndrome do desconforto respiratório, da taquipneia transitória, da aspiração de mecônio e da pneumonia de origem materna — e nenhum desses achados, isolado, separa uma coisa da outra. O maior desafio da neonatologia da primeira hora é diferenciar sinal de infecção de sinal de instabilidade da transição cardiorrespiratória.
Sintomas respiratórios logo após o nascimento podem ter causas infecciosas e não infecciosas. A observação sem antibiótico depende de estabilidade, risco perinatal, evolução e monitorização; não existe um prazo de seis horas que separe sozinho transição de infecção. Deterioração exige tratamento imediato. Integre este percurso ao capítulo de Desconforto respiratório do recém-nascido.
Como se apresenta de verdade
A apresentação da sepse neonatal tem uma característica que nenhum outro capítulo desta apostila tem: o achado principal não é um sinal, é uma impressão. As manifestações são multissistêmicas e inespecíficas, e podem estar presentes em causas não infecciosas. O guia federal chega a dar nome de seção a isso — avaliação subjetiva: o recém-nascido que parece não estar bem. Não é falta de rigor: é a descrição honesta do que existe para trabalhar.
As seis situações abaixo cobrem o que aparece no plantão. Elas não são graus de gravidade: são populações distintas, cada uma com a sua conduta, e misturá-las responde pela maior parte do antibiótico desnecessário.
O sintomático: os oito sinais e a hierarquia entre eles
Instabilidade térmica é o primeiro, e é traiçoeiro porque a temperatura pode estar normal, alta ou baixa. A hipotermia é mais frequente no prematuro e a hipertermia no termo. A régua de vigilância brasileira define instabilidade térmica como temperatura acima de 37,5 °C ou abaixo de 36 °C — e note que a fronteira inferior era 35 °C até a revisão de 2025, o que significa que uma temperatura de 35,5 °C mudou de lado no ano passado.
Dificuldade respiratória é o mais comum, em 90% dos casos. Apneia entra na lista, mas com uma condição que distingue: a apneia da sepse vem acompanhada de outros sinais, enquanto a apneia da prematuridade acontece num bebê que, entre as pausas, está ativo e reativo. Manifestações do sistema nervoso central — hipoatividade, hipotonia, irritabilidade, letargia e convulsão — são o grupo que mais assusta e o que menos localiza.
Manifestações gastrointestinais aparecem em 35% a 40% dos casos: recusa alimentar, vômitos, resíduo gástrico, distensão abdominal, hepatomegalia, diarreia. Instabilidade hemodinâmica inclui taquicardia, hipotensão, palidez, má perfusão, extremidades frias, redução do débito urinário e letargia — e é a apresentação típica da doença por estreptococo do grupo B. Intolerância à glicose, com hiperglicemia, traduz resposta inadequada à insulina e é mais comum no prematuro. Icterícia com elevação de bilirrubina direta ocorre em até um terço dos casos, sobretudo por gram-negativos. Sinais de sangramento — petéquias, hematúria, sangramento em locais de punção — indicam coagulação intravascular disseminada e choque.
A hierarquia útil, quando se tem trinta segundos, é esta: a impressão global vale mais do que qualquer item da lista; dois ou mais itens num bebê sem outra causa reconhecida é o limiar que a régua de vigilância usa; e a velocidade da mudança vale mais do que o valor absoluto. Um bebê que estava mamando às duas da manhã e às quatro e meia não pega o peito mudou de estado em duas horas, e é a mudança que informa.
O assintomático com fator de risco — a população que gera o problema
Esta é, numericamente, a maior das seis, e é a única em que o dano do excesso é maior do que o dano da omissão. São os recém-nascidos de bolsa rota prolongada, de mãe com cultura positiva sem profilaxia adequada, de febre materna intraparto, de trabalho de parto prematuro — bem ao nascer, mamando, corados, sem nada.
A frase que resume a mudança dos últimos anos é curta: nesse grupo, com 35 semanas ou mais, o exame físico objetivo, sistematizado e seriado tem maior valor diagnóstico do que os fatores de risco e do que os exames laboratoriais de triagem. Recém-nascidos a termo em boas condições ao nascimento têm até 70% menos risco de desenvolver sepse precoce do que os que parecem doentes ao nascer ou que desenvolvem sintomas nas primeiras 48 horas. A observação clínica seriada, sem triagem infecciosa e sem antibiótico empírico, é hoje considerada boa prática nesse grupo.
Até 2018, a orientação era outra: todo recém-nascido exposto a corioamnionite materna recebia antibiótico empírico, sintomático ou não, com reavaliação em 48 horas. A mudança veio da conta do dano — mais sepse tardia, mais enterocolite, mais morte, mais separação mãe-filho, mais internação em terapia intensiva, mais custo — e não de nenhuma evidência nova de que a infecção fosse menos grave.
A ressalva brasileira é séria e está escrita na própria fonte: o não conhecimento da prevalência local de sepse, a não investigação da colonização materna pelo estreptococo do grupo B e a ausência de rotina de profilaxia intraparto são condições que podem fazer recém-nascidos de menor risco receberem antibiótico. Onde o cartão da mãe vem em branco, a estratégia de observação seriada perde o denominador que a sustenta.
O prematuro, que quase nunca entra assintomático
Abaixo de 35 semanas, a lógica se separa da idade gestacional e passa a depender da circunstância do nascimento, que é o que informa sobre a rota da infecção. Três situações, com condutas diferentes.
Alto risco: prematuro de mãe com insuficiência cervical, trabalho de parto prematuro, rotura prematura de membranas, infecção intra-amniótica ou outra forma aguda e inexplicável de nascimento. Colhe-se hemocultura e começa-se antibiótico, com reavaliação em 36 a 48 horas. A limitação declarada dessa estratégia é que ela não distingue idades gestacionais, presença de sintomas nem profilaxia intraparto — e por isso trata alguns bebês à toa.
Risco intermediário: nascimentos por parto induzido, com ou sem dilatação, por via vaginal ou cesárea. Aqui se pergunta se a profilaxia intraparto estava indicada, se foi adequada e se houve preocupação com infecção durante o parto. Se sim, conduz-se como alto risco; se não, monitora-se clinicamente.
Baixo risco: cesárea por indicação materna ou fetal com bolsa íntegra — doença hipertensiva, doença materna não infecciosa, insuficiência placentária, restrição de crescimento. Não se faz avaliação laboratorial e não se começa antibiótico. Para os que não melhoram depois da estabilização inicial, ou com instabilidade grave, o antibiótico empírico é razoável, mas não obrigatório — e a fonte acrescenta a frase que mais desarma o reflexo do plantão: nem toda instabilidade hemodinâmica é de causa infecciosa, podendo ser falha de transição, hipotensão do prematuro ou até hipotermia. Este capítulo cede a prematuridade como entidade — as consequências, o seguimento, o manejo global — a Prematuridade: complicações e classificação por idade gestacional e peso, apneia e retinopatia da prematuridade, nesta apostila, e assume apenas o que a idade gestacional muda na decisão sobre infecção.
A apresentação tardia: o bebê que já estava internado
Depois das 48 horas, a cena muda de lugar e de vocabulário. O paciente é quase sempre um prematuro em terapia intensiva, com dias ou semanas de internação, cateter central, nutrição parenteral, às vezes ventilação. Os sinais são os mesmos oito da lista — instabilidade térmica, apneia, bradicardia, intolerância alimentar, piora do desconforto respiratório, intolerância à glicose, instabilidade hemodinâmica, hipoatividade ou letargia —, mas o que os torna significativos é serem novos num bebê que vinha estável.
Os fatores de risco também são outros, e todos são iatrogênicos ou de suporte: prematuridade, quebra de barreiras naturais com lesões de pele e mucosa, procedimentos invasivos como cateteres venosos e ventilação mecânica, uso prévio de bloqueadores H2, inibidores de bomba de prótons, corticoide pós-natal e cefalosporinas, antibioticoterapia empírica prolongada, jejum prolongado, nutrição parenteral prolongada e malformações do sistema nervoso central, do trato urinário e do trato gastrointestinal.
Isso tem uma consequência de raciocínio que vale mais do que a lista: na sepse tardia, a pergunta não é só qual bactéria, mas por onde ela entrou. Cateter, pele, tubo, intestino. A resposta muda o antibiótico e muda a conduta sobre o dispositivo — e a conduta sobre o dispositivo, às vezes, é mais decisiva que o antibiótico.
Um subgrupo desta seção é o recém-nascido que já teve alta e volta de casa doente na segunda ou terceira semana. Ele tem sepse de início tardio pelo relógio, mas a flora dele é da comunidade, não da unidade — e por isso o esquema empírico dele volta a parecer o da sepse precoce. Este capítulo assume o recém-nascido nos primeiros 28 dias, inclusive o readmitido de casa, e cede o lactente febril depois desse período ao capítulo Febre sem sinais localizatórios no lactente, que é onde vive a régua da criança maior.
Meningite e choque: as duas que mudam tudo o mais
Meningite é pouco frequente na sepse precoce — o guia federal cita 0,25 caso por mil nascidos vivos — e comum na tardia. A razão para procurá-la mesmo assim não é a frequência: é que ela define a dose, o antibiótico, a duração e o prognóstico. Um tratamento correto para bacteremia é insuficiente para meningite, e a diferença entre os dois é uma punção lombar que ninguém fez.
O dado que trava o raciocínio preguiçoso é este: 38% das meningites neonatais cursam com hemocultura negativa. Não se pode, portanto, usar hemocultura negativa para dizer que não há meningite. Diante de forte suspeita de infecção, especialmente com manifestações do sistema nervoso central, recomenda-se colher líquor mesmo que o antibiótico já tenha sido iniciado.
Choque séptico no recém-nascido se manifesta com palidez, má perfusão, extremidades frias, redução do débito urinário e letargia antes de manifestar hipotensão, e cursa comumente com coagulação intravascular disseminada — sangramento em locais de punção, hematúria, petéquias. É a apresentação típica da doença por estreptococo do grupo B. O choque séptico do recém-nascido a termo segue a régua de volume, de antibiótico na primeira hora e de droga vasoativa de Choque na criança: hipovolêmico, séptico e distributivo, na apostila de Emergências Pediátricas, que vale do termo ao adolescente; o do prematuro não tem régua no nível. Este capítulo assume o reconhecimento e as medidas gerais no recém-nascido — controle térmico, suporte hemodinâmico e respiratório, glicemia, correção de distúrbios de coagulação, monitorização rigorosa, tratamento em terapia intensiva — e, no prematuro, declara que assume por ausência de dono, não por competência sobre o tema inteiro.
O que não é sepse e se parece com sepse
Cardiopatia congênita grave é o diagnóstico diferencial que mais mata quando se erra: o recém-nascido com lesão ducto-dependente descompensa entre o segundo e o quinto dia, com má perfusão, taquipneia e acidose, exatamente o desenho de um choque séptico. Hipoglicemia, hipotermia, erros inatos do metabolismo e falha de transição completam a lista das quatro que se confundem com sepse e não respondem a antibiótico.
Do lado laboratorial, o mesmo cuidado. Vários fatores clínicos alteram o hemograma sem infecção nenhuma: a depressão medular atribuída à pré-eclâmpsia ou à insuficiência placentária e a reação inflamatória associada à rotura prematura de membranas produzem valores anormais na ausência de infecção e podem manter-se alterados nas primeiras 72 horas de vida. A proteína C reativa sobe em rotura prematura de membranas, asfixia perinatal, síndrome do desconforto respiratório, hemorragia intraventricular, aspiração de mecônio, pneumotórax e defeitos de parede abdominal.
Duas fronteiras a declarar aqui. A icterícia neonatal como entidade — as curvas, a fototerapia, a exsanguineotransfusão — é de Icterícia neonatal: fisiológica versus patológica e curva de Bhutani, nesta apostila; este capítulo assume apenas a hiperbilirrubinemia direta como sinal de sepse. E as infecções congênitas são de outros donos: sífilis vai para o capítulo Sífilis na gestação e sífilis congênita, toxoplasmose para O resultado com IgG e IgM na mesa e a transmissão vertical do HIV para HIV na gestação, todos na apostila de Ginecologia e Obstetrícia. Citomegalovírus congênito não tem capítulo em nenhum lugar deste nível, e este capítulo não o assume: cita-o como diferencial e para por aí.
Como fechar o diagnóstico
A investigação da sepse neonatal tem uma assimetria que precisa ser dita antes de qualquer lista de exames: nenhum exame confirma sepse com rapidez suficiente para decidir se começa o antibiótico, e vários exames ajudam a decidir se ele para. Os exames não servem para a primeira decisão; servem para a segunda. Quem espera resultado para começar, atrasa; quem não colhe antes de começar, perde a única chance de saber.
Hemocultura: o padrão-ouro que depende de quanto sangue você colheu
A hemocultura é o critério considerado padrão-ouro para o diagnóstico, e o resto da investigação existe porque ela é insuficiente sozinha. O guia federal registra que a sensibilidade não ultrapassa 80%; um protocolo de serviço registra que a taxa de positividade em neonatologia é extremamente baixa, e diz por quê — o quantitativo mínimo de sangue coletado.
Essa frase é o centro operacional deste bloco. O estudo que as diretrizes citam para justificar o volume mostra que 1 mL de sangue, comparado a 0,5 mL, aumenta a probabilidade de recuperar bactéria ou fungo de 39% para 63% na presença de 1 unidade formadora de colônia por mL, e de 87% para 98% na presença de 4 unidades por mL. Metade do volume não custa metade do resultado: numa bacteremia de baixa densidade, que é a regra no recém-nascido, custa a metade do diagnóstico.
As recomendações brasileiras divergem exatamente aí, e a divergência é aritmética. O guia federal de 2014 recomenda obter de 0,5 a 1 mL de sangue, em amostra única. A SBP, em 2022 e em 2025, recomenda duas amostras, de dois sítios diferentes, com no mínimo 1 mL por amostra, sendo pelo menos uma por punção periférica, e a outra podendo ser colhida de acesso central no momento da inserção do cateter umbilical. Quem seguir o piso do guia federal — uma amostra de 0,5 mL — está trabalhando com 39% de chance de recuperar o agente numa bacteremia de baixa densidade, pela referência que a própria SBP cita. Não é uma diferença de estilo entre documentos: é a diferença entre saber e não saber.
Duas amostras não servem só para somar volume: servem para distinguir infecção de contaminação. É a única forma de decidir o que fazer diante do crescimento de estafilococo coagulase-negativo, que é o agente mais comum da sepse tardia e também o contaminante de pele mais comum da coleta. E há um segundo discriminador, temporal: considera-se agente etiológico o patógeno que cresce nas primeiras 48 horas de incubação; o crescimento depois desse período sugere contaminação. A régua de vigilância usa esse mesmo corte de 48 horas para classificar o estafilococo coagulase-negativo como contaminante.
Peça o teste de sensibilidade junto com as hemoculturas, no mesmo pedido. É o que vai permitir trocar para monoterapia de espectro estreito quando a cultura vier positiva, e é o que costuma faltar quando o resultado chega.
Hemograma e proteína C reativa: informação complementar, sem exclusão isolada
Hemograma e marcadores inflamatórios têm desempenho limitado, dependente do momento, da população e da probabilidade clínica. Valores normais seriados podem apoiar uma decisão de suspensão junto de culturas e evolução, mas não excluem infecção por si. Os valores preditivos altos descritos nas séries citadas não são garantias para um recém-nascido individual e não autorizam adiar tratamento de um bebê sintomático.
A cinética da proteína C reativa explica por que ela não serve na primeira hora. A elevação ocorre 24 horas após o início da infecção, o pico é em 2 a 3 dias, e o retorno ao normal se dá com 5 a 10 dias de tratamento adequado. Um valor colhido no momento da triagem, portanto, mede um marcador que ainda não teve tempo de subir — e por isso o valor isolado tem baixa sensibilidade e baixa especificidade e não deve ser usado como critério diagnóstico. O que informa é a série: proteína C reativa normal na triagem e mantida normal por 2 a 3 dias reduz a chance de infecção verdadeira a cerca de 2%; valor inicial alterado que normaliza em 48 a 72 horas, com boa evolução e cultura negativa, sugere ausência de infecção bacteriana.
No hemograma vale o mesmo raciocínio e um truque de horário. Uma vez tomada a decisão de iniciar antibiótico logo após o nascimento, prioriza-se a coleta de hemoculturas e pode-se aguardar ao menos 6 a 12 horas para solicitar a contagem total e diferencial de leucócitos, porque as alterações de neutrófilos maduros e imaturos exigem uma resposta inflamatória já estabelecida. Colher o hemograma junto com a hemocultura na primeira hora é colher um exame que ainda não pode estar alterado pela doença — mas pode estar alterado pelo parto.
Os achados que se costuma valorizar são leucócitos totais abaixo de 5.000, relação de neutrófilos imaturos sobre totais acima de 0,3 e número absoluto de neutrófilos abaixo de 2.000. Aqui há um problema de régua que o capítulo audita adiante: existem três cortes brasileiros diferentes em uso para a mesma relação de neutrófilos, e a diferença entre o menor e o maior é quase o dobro.
Procalcitonina, interleucinas 2, 6 e 8, fator de necrose tumoral e CD64 não estão indicados como rotina. A procalcitonina, em particular, aumenta naturalmente nas primeiras 24 a 36 horas após o nascimento, o que exige interpretação por idade e protocolo, impedindo usar um valor isolado como decisão. Velocidade de hemossedimentação é pouco sensível e pouco específica, com falso-positivo na hemólise e falso-negativo na coagulação intravascular disseminada.
Líquor: quando colher, e o que fazer quando não dá para colher
A punção lombar deve ser realizada desde que o recém-nascido tenha condições clínicas para o procedimento, e a análise inclui bacterioscopia, cultura, teste de sensibilidade, bioquímica e contagem total e diferencial de células. Quando a sepse precoce é confirmada por hemocultura, deve-se puncionar, caso ainda não se tenha puncionado.
As três regras práticas que resolvem 90% das dúvidas de plantão são estas. Primeira: o antibiótico não espera a punção — deve ser administrado prontamente e não deve ser adiado por atraso no procedimento. Segunda: se não deu para colher antes, colhe-se o mais breve possível depois, especialmente se houver crescimento na hemocultura, porque a alteração quimiocitológica persiste. Terceira: se o estado clínico não permite a punção, usam-se doses suficientes para tratar meningite — isto é, trata-se como se ela existisse.
Para efeito de notificação, líquor quimiocitologicamente alterado colhido antes ou durante o tratamento é considerado meningite mesmo com cultura negativa, e, se houver hemocultura positiva, o agente identificado no sangue pode ser considerado o agente daquela meningite.
Os valores de referência do líquor no período neonatal não são os do adulto e mudam com os dias de vida. A mediana da celularidade cai ao longo do primeiro mês, de cerca de 5 células por mm³ na primeira semana para cerca de 3 na quarta; a proteína cai de uma mediana em torno de 78 mg/dL na primeira semana para cerca de 56 na quarta; a glicose fica estável, com mediana em torno de 45 mg/dL. O percentil 95 é bem mais alto do que a intuição de quem trabalha com adulto — na primeira semana, ele passa de 19 células por mm³ e de 130 mg/dL de proteína. Ler líquor de recém-nascido com a régua do adulto produz meningite onde não há.
Duas ressalvas honestas. Os valores acima vêm de tabela de percentis reproduzida pela SBP a partir de estudo americano de 2018, e são referência de normalidade, não critério diagnóstico. E, no prematuro extremo, a punção compete com a estabilidade: a própria orientação diz que ela não deve ser feita se comprometer a condição clínica.
Radiografia, urocultura, aspirado traqueal — e para que serve cada um
A radiografia de tórax está indicada nos casos de desconforto respiratório, para o diagnóstico diferencial de pneumonia com síndrome do desconforto respiratório, taquipneia transitória e aspiração de mecônio. O motivo declarado de importar não é acadêmico: o diagnóstico de pneumonia define a duração da antibioticoterapia. Para fins de notificação, pneumonia exige sinais clínicos e duas ou mais radiografias seriadas com infiltrado persistente, novo ou progressivo — uma radiografia isolada não fecha.
Um detalhe de classificação que vale conhecer: pneumonia neonatal precoce, com critério clínico e radiológico compatível de início até 48 a 72 horas, não é considerada pneumonia associada à ventilação mecânica, ainda que o bebê esteja em ventilação desde o nascimento. A origem é materna, não assistencial.
Urocultura tem papéis opostos nas duas metades do capítulo. Na sepse precoce é muito difícil obter cultura de urina positiva, e ela fica indicada apenas no recém-nascido sintomático com diagnóstico pré-natal de malformação do trato urinário. Na sepse tardia, a cultura de urina obtida por cateter ou punção vesical deve ser incluída na avaliação. A investigação de malformação do trato urinário depois do episódio é do capítulo Infecção urinária na criança, da apostila de Nefrologia Pediátrica; aqui fica só o papel da urocultura na avaliação da sepse.
A cultura de aspirado traqueal é útil quando colhida nas primeiras 8 horas de vida, nos recém-nascidos intubados ao nascimento ou logo após, para identificar pneumonia congênita. Depois disso, ela mede colonização, e tratar aspirado traqueal de bebê em ventilação crônica é uma das formas clássicas de tratar colonização em vez de infecção.
Na avaliação da sepse tardia, acrescentam-se culturas de qualquer outro foco potencial — drenagem ocular purulenta, pústulas, líquido peritoneal —, bioquímica, lactato e coagulograma, e, conforme a suspeita, radiografia de abdome, ultrassom transfontanelar e ecocardiograma.
O que não pedir, e a diferença entre infecção, contaminação e colonização
A diretriz de uso racional organiza o desperdício em duas frases que valem ser decoradas. Tratar infecção, não contaminação — porque uma das causas do exagero é tratar cultura contaminada por agente da pele. E tratar infecção, não colonização — porque a maior causa do excesso de antimicrobianos é o tratamento de colonização.
Diferencie colonização de infecção com sinais clínicos e dados microbiológicos. Hemocultura periférica negativa não transforma automaticamente uma cultura de cateter positiva em colonização: volume insuficiente, antibiótico prévio e infecção relacionada ao dispositivo entram na análise. Defina a conduta com a equipe neonatal e o controle de infecção.
O corolário da vancomicina merece linha própria, porque é o erro mais caro. Se cresce Staphylococcus aureus sensível à oxacilina e o bebê está em vancomicina, a substituição para oxacilina é mandatória, mesmo que o tratamento esteja no fim. Não é uma preferência: é a diferença entre selecionar e não selecionar enterococo resistente à vancomicina na sua unidade.
Os critérios da Anvisa não são critérios clínicos — e é a própria Anvisa que diz
Este é o ponto do capítulo que mais muda a prática do interno, e ele não está em nenhum resumo. A régua brasileira de notificação de infecção relacionada à assistência à saúde traz, em destaque, a advertência de que os critérios diagnósticos devem ser utilizados somente para a definição das infecções sob o ponto de vista epidemiológico e não devem ser confundidos com os critérios clínicos, que são utilizados para a definição da infecção e do seu tratamento pelo médico do paciente. O documento vai além e reconhece que, em algumas situações, mesmo com diagnóstico e tratamento estabelecidos pelo médico, o critério epidemiológico não é atendido — e que o contrário também acontece.
Por que isso importa tanto aqui: porque o critério epidemiológico de infecção primária de corrente sanguínea clínica, a chamada sepse clínica, exige explicitamente hemograma com três ou mais parâmetros alterados e proteína C reativa quantitativa seriada alterada, hemocultura não realizada ou negativa, ausência de infecção em outro sítio e terapia antimicrobiana instituída e mantida pelo médico assistente. Lida de trás para a frente, essa definição descreve o que já se está fazendo — ela não autoriza nada. Quando o médico usa esse quadro para justificar manter antibiótico, ele inverteu o documento: transformou um critério de contagem numa indicação de tratamento.
Há um detalhe estrutural que fecha o argumento e que quase ninguém percebe. Nos critérios da Anvisa vigentes, a sepse clínica em recém-nascido é sempre associada a cateter central, e exige que o paciente esteja em uso de cateter central por período maior que dois dias consecutivos. Um recém-nascido com dezoito horas de vida não pode preencher esse critério — não deu tempo. O quadro de sepse precoce clínica que circula nos documentos de sociedade é uma adaptação que retirou o denominador do dispositivo; aplicado literalmente ao bebê da primeira noite, ele nomeia como sepse notificável um caso que a régua vigente não captura.
A leitura prática, para o plantão: use os critérios de notificação para notificar, com a comissão de controle de infecção, e use exame físico seriado, hemocultura e evolução para decidir tratamento. São dois sistemas com finalidades diferentes, e a Anvisa é a primeira a dizer isso.
Quem trata, por quanto tempo — e o que cada régua brasileira responde
Não existe um critério diagnóstico de sepse neonatal do jeito que existe um critério de Duke ou um escore de Alvarado. O que existe é um caminho de decisão com três portas — sintomático, assintomático de risco, prematuro — e dois relógios: o das 36 a 48 horas, que decide se para, e o do sítio de infecção, que decide por quantos dias vai. O fluxo abaixo é o caminho; as tabelas mostram onde as réguas brasileiras concordam e onde não; as notas trazem as contas que não fecharam nos documentos oficiais, com a conta feita.
- 1PRIMEIRA AVALIAÇÃO. Examine o bebê e identifique instabilidade. Em paralelo, consulte idade gestacional, idade pós-natal, história materna, rotura de membranas, colonização por estreptococo B e profilaxia. O cartão orienta o risco, mas não deve anteceder o suporte de quem está doente.
- 2HÁ SINAIS CLÍNICOS COMPATÍVEIS? Acione a equipe, estabilize e colha culturas rapidamente antes do antibiótico se isso não atrasar o tratamento. A punção lombar depende de indicação e estabilidade; não aguarde sua realização nem os marcadores para iniciar o esquema empírico.
- 3DESCONFORTO RESPIRATÓRIO DE INÍCIO IMEDIATO. Observação sem antibiótico é opção apenas em bebê estável, com contexto de baixo risco, hipótese de transição e monitorização próxima. Suspeita de infecção, piora ou necessidade crescente de suporte exige investigação e tratamento sem esperar seis horas. Persistência pede reavaliação da hipótese, não diagnóstico automático de sepse.
- 4PORTA 2 — ASSINTOMÁTICO COM FATOR DE RISCO, 35 SEMANAS OU MAIS. Três estratégias em uso: categoria de risco, calculadora de sepse precoce e avaliação clínica seriada. Esta apostila adota a avaliação clínica seriada, que é a recomendação do próprio documento brasileiro para esse bebê; as outras duas ficam no bloco de divergências. Em qualquer delas, o exame físico objetivo, sistematizado e seriado tem mais valor diagnóstico do que os fatores de risco e os exames de triagem.
- 5AVALIAÇÃO CLÍNICA SERIADA, na prática: rotina de cuidados com observação clínica estruturada por 36 a 48 horas do nascimento; hemoculturas e antibiótico empírico se surgirem sinais clínicos de doença. Sem triagem laboratorial e sem antibiótico no bebê que segue bem.
- 6PORTA 3 — MENOS DE 35 SEMANAS. Não é a idade gestacional que decide, é a circunstância do nascimento. Alto risco (insuficiência cervical, trabalho de parto prematuro, rotura prematura de membranas, infecção intra-amniótica, nascimento agudo inexplicado): hemocultura e antibiótico, reavaliar em 36 a 48 horas.
- 7RISCO INTERMEDIÁRIO (parto induzido, vaginal ou cesárea): conduzir como alto risco se a profilaxia estava indicada e foi inadequada, se houve preocupação com infecção intra-amniótica, ou se há instabilidade respiratória ou cardiovascular. Caso contrário, monitorar clinicamente.
- 8BAIXO RISCO (cesárea por indicação materna ou fetal, bolsa íntegra): sem avaliação laboratorial e sem antibiótico empírico. Se não melhorar após a estabilização inicial ou houver instabilidade grave, o antibiótico é razoável, mas não obrigatório — e, se começar, reavaliar em 36 a 48 horas.
- 9CULTURAS E PRIMEIRA DOSE. Priorize coleta adequada antes do antibiótico, registre volume, sítio e horário. Não prolongue tentativas de coleta nem espere a punção lombar diante de instabilidade. Anote limitações para interpretar posteriormente uma cultura negativa.
- 10ESQUEMA EMPÍRICO — PRECOCE: penicilina G cristalina ou ampicilina, associada a gentamicina ou amicacina. TARDIA: oxacilina e amicacina como primeira opção; vancomicina com cefotaxima ou cefepima como segunda, e só com razão declarada.
- 11REVISÃO EM 36–48 HORAS. Culturas negativas e adequadas, evolução clínica tranquilizadora e ausência de foco favorecem a suspensão do esquema empírico. Persistência de sinais ou limitações importantes da investigação exigem decisão individualizada e nova hipótese. Hemograma e proteína C reativa não decidem sozinhos.
- 12CULTURA POSITIVA. Avalie agente, sítio, possibilidade de contaminação, sensibilidade e foco. Ajuste o esquema e a duração; investigue acometimento meníngeo quando indicado e seguro. Tratamento dirigido não significa monoterapia obrigatória em todas as situações.
36 a 48 horas: o marco em que se decide parar
Revisão em 36–48 horas: culturas negativas e adequadas + bebê clinicamente bem + ausência de foco que exija tratamento favorecem suspender o esquema empírico. Reavalie limitações da coleta e evolução. Marcadores isolados não decidem iniciar, excluir ou prolongar tratamento.
Duas doenças com o mesmo nome
| Eixo | Sepse precoce | Sepse tardia |
|---|---|---|
| Quando | Manifestação em até 48 horas completas de vida (Anvisa, SBP, Ministério da Saúde). A Academia Americana de Pediatria e alguns protocolos de serviço usam 72 horas | Início após 48 horas de vida; nos protocolos que adotam o corte de 72 horas, após 72 horas |
| De onde vem | Da mãe: via ascendente durante o trabalho de parto, a partir da flora gastrointestinal e geniturinária, ou via hematogênica transplacentária | Da unidade: transmissão horizontal por mãos e ambiente, dispositivos invasivos, quebra de barreira cutânea. Também colonização vertical inicial que evolui depois |
| Quem adoece | Qualquer recém-nascido exposto; risco inversamente proporcional à idade gestacional | Sobretudo o prematuro de muito baixo peso com internação longa; 20% a 35% deles têm ao menos uma hemocultura positiva após 48 horas |
| Agentes | Estreptococo do grupo B e Escherichia coli respondem por cerca de 70%. Listeria monocytogenes é rara no Brasil | Estafilococo coagulase-negativo (36% a 47% em países de renda média e alta), Staphylococcus aureus, gram-negativos (Klebsiella, E. coli, Pseudomonas) e Candida |
| O que se pergunta antes | O que a mãe tinha, o que ela recebeu e há quantas horas | Por onde entrou: cateter, pele, tubo, intestino |
| Esquema empírico | Penicilina G cristalina ou ampicilina + gentamicina ou amicacina | Oxacilina + amicacina (1ª opção); vancomicina + cefotaxima ou cefepima (2ª opção, com justificativa) |
| Prevenção que funciona | Rastreio materno para estreptococo do grupo B e profilaxia intraparto adequada; tratamento oportuno de infecção urinária e bacteriúria na gestação | Higiene das mãos, protocolo de cateter, leite materno e nutrição enteral precoce, retirada precoce de dispositivos, uso criterioso de antimicrobianos |
| Documento federal brasileiro | Existe: capítulo 14 do guia do Ministério da Saúde, 2ª edição atualizada de 2014 | Não existe. A régua é da sociedade de pediatria, da vigilância epidemiológica e dos protocolos de serviço |
Por quantos dias — o que cada documento brasileiro responde
| Situação | SBP 2022 (sepse precoce) | SBP 2025 (uso racional) | Protocolo de serviço, 2024 (sepse tardia) |
|---|---|---|---|
| Terapia empírica antes de decidir | Reavaliar e suspender em 36 a 48 horas | Duração ideal da terapia empírica reduzida para 36 a 48 horas | Descontinuar após 48 a 72 horas no bebê que segue bem com culturas negativas |
| Sepse clínica, cultura negativa | 5 a 7 dias | 5 a 7 dias | 7 dias (sem foco definido) |
| Corrente sanguínea com agente isolado | 7 a 10 dias | 7 a 10 dias com cateter removido; 10 a 14 dias se o cateter foi mantido | 10 dias (sem foco definido) |
| Estafilococo coagulase-negativo | Não discriminado | 5 a 7 dias sem cateter ou com cateter removido; 10 a 14 dias se mantido | 7 dias |
| Staphylococcus aureus | Não discriminado | No mínimo 14 dias, mesmo com o cateter removido | 14 dias, se sem complicações |
| Gram-negativo em corrente sanguínea | Não discriminado | Entra em 'demais bactérias': 7 a 10 dias com cateter removido; 10 a 14 se mantido | 14 dias |
| Pneumonia sem agente isolado | 5 a 7 dias | 5 a 7 dias, conforme evolução, melhora radiológica e proteína C reativa normal | 10 a 14 dias |
| Infecção do trato urinário | Não discriminado | 7 a 10 dias; 10 dias se houver bacteremia secundária | 7 a 10 dias |
| Meningite por gram-positivo | 14 dias | 14 dias | 14 dias |
| Meningite por gram-negativo | 21 dias | 21 dias | 21 dias |
| Ventriculite / abscesso cerebral | 4 semanas | 4 semanas, considerar drenagem | 4 a 6 semanas se abscesso |
| Infecção osteoarticular | 4 semanas | 14 a 21 dias, ampliável conforme avaliação ortopédica | No mínimo 28 dias |
| Candidemia | Não discriminado | Não discriminado | 14 dias após a negativação da hemocultura |
Da dose ao êmbolo: recém-nascido a termo de 3,0 kg, 5 dias de vida, mais de 2.000 g de peso de nascimento
| Fármaco e indicação | Dose da fonte | mg por dose | Volume por dose | Apresentação e preparo declarados |
|---|---|---|---|---|
| Ampicilina — sepse | 25 mg/kg a cada 8 h | 75 mg | 1,50 mL | Frasco-ampola de 500 mg ou 1 g; diluir para 50 mg/mL com água destilada; em bolus |
| Ampicilina — meningite | 50 mg/kg a cada 8 h | 150 mg | 3,00 mL | Mesma apresentação e mesma diluição |
| Oxacilina — sepse tardia | 25 mg/kg a cada 8 h | 75 mg | 1,50 mL | Frasco-ampola de 500 mg; diluir para 50 mg/mL com água destilada; em bolus |
| Cefotaxima — meningite por gram-negativo | 50 mg/kg a cada 8 h | 150 mg | 1,50 mL | Frasco-ampola de 500 mg ou 1 g; diluir para 100 mg/mL com água destilada; infundir em 30 minutos |
| Gentamicina — 35 semanas ou mais | 4 mg/kg a cada 24 h | 12 mg | 1,20 mL da ampola de 10 mg/mL — ou 0,30 mL da de 40 mg/mL | Ampolas de 10 mg/1 mL e de 40 mg/1 mL, ambas na mesma linha da fonte; diluir em soro glicosado e infundir em 30 minutos |
| Amicacina — 35 semanas ou mais | 15 mg/kg a cada 24 h | 45 mg | 0,90 mL da ampola de 100 mg/2 mL, que viram 9,00 mL depois de diluídos a 5 mg/mL | Ampolas de 100 mg/2 mL e 500 mg/2 mL; diluir em soro glicosado a 5 mg/mL; infundir em 30 minutos |
| Vancomicina — sepse tardia por gram-positivo resistente | 10 mg/kg a cada 8 h | 30 mg | 6,00 mL a 5 mg/mL, ou 18 mL por dia — 6 mL/kg/dia só de diluente | Frasco-ampola de 500 mg; diluir para 5 mg/mL em soro glicosado; infundir em 60 minutos |
| Meropenem — sepse | 20 mg/kg a cada 8 h pela tabela de posologia por idade gestacional; 20 mg/kg a cada 12 h pela tabela de doses por peso, no mesmo documento | 60 mg por dose | 1,20 mL | Frasco-ampola de 500 mg ou 1 g; diluir para 50 mg/mL com água destilada; infundir em 30 minutos |
| Penicilina G cristalina — sepse precoce | 25.000 UI/kg a cada 6 h ('outros'); 50.000 UI/kg a cada 6 h (meningite) | 75.000 UI e 150.000 UI | 0,15 mL e 0,30 mL, se o frasco de 5.000.000 UI for reconstituído em 10 mL | Frasco-ampola de 5.000.000 UI. A tabela de diluição da fonte tem quinze fármacos e não tem este: o volume de reconstituição precisa vir da bula do frasco que está na sua mão |
Três situações, três decisões a justificar
| Situação | Ação inicial | Reavaliação documentada |
|---|---|---|
| Assintomático de risco, ≥35 semanas | Aplicar a estratégia da unidade, com observação clínica seriada quando indicada; não extrapolar ao prematuro menor. | Horário, profissional responsável e sinais que mudariam o plano. |
| Sintomático ou instável | Suporte, culturas oportunas e antibiótico sem aguardar marcadores ou procedimentos que atrasem. | Resposta respiratória e circulatória, glicemia, diurese e necessidade de ampliar investigação. |
| Suspeita em tratamento, 36–48 horas | Integrar cultura adequada, estado clínico e foco; suspender quando o conjunto permitir. | Justificativa escrita para parar, ajustar ou manter; nova revisão definida. |
| Início tardio | Distinguir criança vinda de casa de exposição prolongada à unidade, dispositivos e antimicrobianos. | Microbiologia local, culturas, foco, toxicidade e possibilidade de estreitar o esquema. |
O escore hematológico pode estar alterado por causas não infecciosas e pode ser normal no início da doença. Sensibilidade, especificidade e valor preditivo dependem da população e do momento da coleta; nenhum desses números transforma o escore em teste isolado de exclusão.
Sepse com cultura negativa exige justificativa clínica explícita e revisão seriada. Uma definição de vigilância ou um marcador alterado não obriga a completar 5–7 dias em bebê bem. Registre os sinais persistentes ou o foco que sustentam continuar.
A relação entre neutrófilos imaturos e totais varia com a idade pós-natal e a referência empregada. Use a faixa da tabela adotada pelo serviço e interprete o resultado em conjunto. Não troque o limite de uma tabela pelo ponto de corte de outra para decidir antibiótico.
A interpretação da contagem de neutrófilos depende de idade gestacional, peso e horas de vida. Registre esses dados ao consultar a referência. Uma contagem isolada, sem contexto, não confirma nem afasta infecção.
A proteína C reativa pode ainda não ter subido na primeira avaliação. O exame seriado pode complementar a trajetória clínica, mas não se deve esperar sua elevação para iniciar tratamento nem sua normalização isolada para encerrá-lo.
Conferência que falhou, com a conta feita. A tabela de doses da SBP 2025 traz penicilina G em duas linhas: 25.000 UI/kg por dose para 'outros' e 50.000 UI/kg por dose para meningite, com intervalos que variam de 12 a 6 horas conforme peso e idade. O rodapé da mesma tabela diz que, para infecções por Streptococcus agalactiae, deve-se administrar de 250.000 a 400.000 UI/kg/dia. As contas: na melhor célula da linha 'outros' — mais de 2.000 g, mais de 7 dias, 25.000 UI/kg a cada 6 horas — o total diário é 100.000 UI/kg, ou seja, 2,5 vezes abaixo do piso do rodapé. Na melhor célula da linha de meningite, 50.000 UI/kg a cada 6 horas, o total é 200.000 UI/kg/dia, ainda 1,2 vez abaixo do piso. Em todas as demais células a distância é maior, chegando a 5 vezes no prematuro de menos de 1.200 g. O agente para o qual o rodapé pede a dose maior é justamente o mais prevalente da sepse precoce no recém-nascido a termo — e a prescrição que segue apenas a tabela fica abaixo do que o rodapé da própria tabela exige.
Duas tabelas do mesmo documento com doses diferentes. Para o meropenem, a tabela de doses por peso de nascimento traz 20 mg/kg a cada 12 horas em todas as colunas, para sepse. A tabela de 'outras posologias segundo idade gestacional e tempo de vida', duas páginas adiante, traz 20 mg/kg a cada 8 horas para o prematuro com 32 semanas ou mais em qualquer idade pós-natal, e para o de menos de 32 semanas com 14 dias ou mais. A conta: 40 mg/kg/dia contra 60 mg/kg/dia, razão de 1,5. As duas tabelas concordam em apenas uma das quatro combinações possíveis — o prematuro de menos de 32 semanas com menos de 14 dias de vida. Para o recém-nascido a termo, elas discordam sempre.
Antes de preparar um antibiótico, confira a apresentação real e a concentração após reconstituição na padronização da farmácia. Dose em UI, dose em mg e volume em mL são informações diferentes; registre as três quando aplicáveis e faça dupla conferência neonatal.
Risco de fator 4 numa linha de tabela. A mesma linha da tabela de diluição lista, para a gentamicina, ampolas de 10 mg em 1 mL e de 40 mg em 1 mL, sem dizer qual usar em recém-nascido. A conta para o bebê de 3,0 kg com 4 mg/kg: são 12 mg, que correspondem a 1,20 mL da ampola de 10 mg/mL ou a 0,30 mL da de 40 mg/mL. Para um prematuro de 1,2 kg a 4 mg/kg, são 4,8 mg — 0,48 mL ou 0,12 mL. Trocar a ampola sem refazer a conta multiplica ou divide a dose por quatro, e 0,12 mL está no limite do que uma seringa comum mede com confiança.
Prefira o esquema empírico adequado à origem provável e à microbiologia local. Ampliação de espectro deve ter uma razão clínica ou microbiológica documentada e uma data de revisão; duplicações editoriais de uma diretriz não criam indicações novas.
A disponibilidade deve ser confirmada com a farmácia da unidade. A ausência de uma apresentação na Rename não demonstra ausência no hospital nem resolve a indicação clínica. Planeje preparo, horários, monitorização e eventual transferência sem improvisar equivalências entre apresentações.
Mesma criança, doses diferentes conforme o documento. Recém-nascido a termo de 3,0 kg, 5 dias de vida. Ampicilina: 200 mg/kg/dia pelo guia federal, contra 25 mg/kg a cada 8 horas pela SBP, que dá 75 mg/kg/dia. A conta: 200 dividido por 75 é 2,7 — o guia federal recomenda, como dose empírica, quase o triplo da dose de sepse da tabela da SBP, e 1,3 vez a dose de meningite dessa mesma tabela, que é 50 mg/kg a cada 8 horas, ou 150 mg/kg/dia. O guia federal declara o motivo: a dose elevada de ampicilina tem por objetivo dar cobertura para eventual infecção por Streptococcus agalactiae, que é a mesma preocupação do rodapé da penicilina na SBP. Gentamicina: 5 mg/kg/dia contra 4 mg/kg a cada 24 horas, diferença de 25%. Amicacina: 20 mg/kg/dia contra 15 mg/kg a cada 24 horas, diferença de 33%. Em todos os três, o documento federal mais antigo dosa mais alto que a diretriz de sociedade mais nova.
Tempo de vida e tempo de incubação respondem a perguntas diferentes. O corte precoce/tardio organiza uma classificação, mas a exposição comunitária ou hospitalar e o foco orientam o esquema. Tempo para positividade ajuda a interpretar a cultura; crescimento depois de 48 horas não é sinônimo de contaminação. Duração de infecção comprovada deve considerar agente, sítio, controle do foco e evolução, mantendo identificada a referência utilizada.
Não use um valor de referência ilegível ou incompatível com o contexto para decidir tratamento. Consulte a tabela original e a referência neonatal validada pela unidade; o atendimento de um bebê instável não aguarda a resolução de uma dúvida editorial.
Uma frase que mudou entre edições, com a própria fonte declarando a mudança. A nota técnica da Anvisa de 2025 abre avisando que é revisão da de 2024 e que, no capítulo de critérios, onde havia 'menos de 35 °C' passou a constar 'menos de 36 °C'. O item afetado é a instabilidade térmica, que é um dos oito sinais da sepse clínica neonatal. Na prática: um recém-nascido com 35,5 °C não preenchia o sinal em 2024 e passa a preencher em 2025. É a mudança de régua mais silenciosa deste capítulo e a mais fácil de não perceber, porque nada no texto do critério indica que aquele número é novo.
A conduta, hora a hora
O tratamento começa pela avaliação do recém-nascido e continua pela sua evolução. Colha culturas antes do antibiótico quando isso for possível sem atraso relevante; em instabilidade, suporte e tratamento não aguardam a segunda amostra nem a punção lombar. Registre a hipótese, o horário da primeira dose e a revisão prevista em 36–48 horas. Qualquer piora antecipa essa revisão: não há um período de espera sem decisões entre a primeira dose e o resultado da cultura.
Duas fronteiras antes de começar. A reanimação em sala de parto é do capítulo Reanimação neonatal em sala de parto, na posição anterior desta apostila; aqui o bebê já nasceu e já foi estabilizado. E o rastreio materno para estreptococo do grupo B e a profilaxia intraparto são do capítulo Estreptococo do grupo B, na apostila de Ginecologia e Obstetrícia — aquele capítulo escreve o que o obstetra entrega e declara que para ali. Este capítulo é o outro lado do balcão: recebe o cartão do jeito que ele vier e decide sobre o bebê.
Antes de o bebê ser seu — ler a mãe
A informação que mais muda a conduta do recém-nascido não está nele: está na ficha da mãe, e some depois que ela sai da sala de parto. Como interno, é aqui que você tem uma tarefa que ninguém vai disputar com você. Anote, no seu papel, oito itens: idade gestacional e por qual método; tempo entre a rotura de membranas e o nascimento; cultura para estreptococo do grupo B, resultado e se foi colhida nesta gestação; profilaxia intraparto — qual droga, quantas doses, quantas horas antes do parto; maior temperatura materna intraparto e se ela persistiu; infecção urinária ou bacteriúria nesta gestação, tratada quando; cerclagem ou pessário; procedimento de medicina fetal nas últimas 72 horas. Profilaxia adequada tem definição precisa e é a única que conta: penicilina G cristalina, ampicilina ou cefazolina, por via endovenosa, na dose correta e com 4 horas ou mais antes do nascimento. Clindamicina, mesmo indicada por anafilaxia à penicilina, não protege o recém-nascido, por baixa passagem transplacentária e por cepas resistentes na comunidade.
Prescrição- Registrar no prontuário do recém-nascido, e não só no da mãe: idade gestacional, método, tempo de bolsa rota em horas, resultado da cultura para estreptococo do grupo B, droga e horário da última dose de profilaxia intraparto, temperatura materna máxima.
- Suspeita clínica de corioamnionite, para efeito de conduta no recém-nascido: temperatura materna intraparto igual ou maior que 39,0 °C, ou entre 38,0 e 38,9 °C persistindo por mais de 30 minutos, associada a pelo menos um de — leucocitose materna acima de 15.000, drenagem cervical purulenta, taquicardia fetal acima de 160 bpm por 10 minutos ou mais.
Primeiras horas — o bebê assintomático com fator de risco
Aqui a conduta certa é quase toda feita de coisas que não se fazem, e cada abstenção tem razão. Não se colhe triagem infecciosa de rotina. Não se inicia antibiótico empírico. Não se separa da mãe. O que se faz é observação clínica seriada, e seriada quer dizer com hora marcada: exame físico objetivo e sistematizado, repetido em intervalos definidos ao longo de 36 a 48 horas do nascimento, com registro do que se viu — não 'observação' escrita na evolução e ninguém voltando ao leito. Se surgirem sinais clínicos de doença, colhem-se hemoculturas e começa-se antibiótico. Duas travas administrativas fazem essa estratégia funcionar ou fracassar: a alta não pode acontecer antes de completar a janela de observação, e quem observa precisa saber o que está procurando, o que significa passar os oito itens da ficha materna para a enfermagem do alojamento. A ressalva brasileira também é sua: onde não há cultura materna, não há profilaxia de rotina e não se conhece a prevalência local, a estratégia perde parte do que a sustenta — e isso é argumento para conversar com a neonatologista, não para começar antibiótico sozinho.
Prescrição- Rotina de cuidados com o recém-nascido, alojamento conjunto, aleitamento sob livre demanda.
- Observação clínica seriada por 36 a 48 horas de vida: exame físico completo a cada 4 horas nas primeiras 12 horas e a cada 6 horas até completar 48, com registro de temperatura axilar, frequência respiratória, esforço respiratório, tônus, atividade, perfusão e aceitação alimentar.
- Comunicar imediatamente ao médico: recusa alimentar, hipoatividade, gemência, temperatura acima de 37,5 °C ou abaixo de 36 °C, apneia, taquipneia, palidez ou tempo de enchimento capilar lentificado.
- Não solicitar hemograma, proteína C reativa ou hemocultura de rotina neste bebê. Não iniciar antibiótico.
Recém-nascido sintomático: estabilizar, colher rapidamente e iniciar tratamento
Acione a equipe neonatal e avalie respiração, perfusão, temperatura e glicemia. Obtenha hemoculturas com técnica e volume adequados, preferencialmente antes da primeira dose. A recomendação de duas amostras de sítios diferentes, com pelo menos 1 mL por amostra, não autoriza atrasar antibiótico na criança instável por dificuldade com a segunda coleta. A punção lombar depende da indicação e da estabilidade; se for adiada, registre o motivo e discuta cobertura e doses para possível meningite. Escolha o esquema segundo idade gestacional, idade pós-natal, origem provável, função renal e protocolo da unidade. Não aguarde hemograma, proteína C reativa ou imagem para tratar uma suspeita clínica relevante.
Prescrição- Hemocultura — duas amostras, dois sítios, 1 mL por amostra, ao menos uma por punção venosa periférica, com antissepsia individualizada de cada sítio. Solicitar teste de sensibilidade aos antimicrobianos.
- Punção lombar com líquor para bacterioscopia, cultura, teste de sensibilidade, bioquímica e contagem total e diferencial de células — se houver condição clínica; não adiar o antibiótico por causa dela.
- Radiografia de tórax se houver desconforto respiratório.
- Glicemia capilar, e correção conforme protocolo — hipoglicemia imita sepse e coexiste com ela.
- Iniciar antibiótico empírico em menos de 60 minutos da suspeita.
O esquema empírico da sepse precoce — e por que ele é estreito de propósito
Penicilina G cristalina ou ampicilina, associada a gentamicina ou amicacina. É isso, e a estreiteza é a virtude: essa combinação cobre estreptococo do grupo B, outros estreptococos, enterococos, Listeria monocytogenes e, pelo aminoglicosídeo, os bacilos gram-negativos entéricos — mais de 90% dos agentes da sepse precoce são sensíveis a um dos dois. A gentamicina tem ação sinérgica com a ampicilina contra o estreptococo do grupo B. Como a listeriose é muito rara no Brasil, alguns serviços adotam penicilina G cristalina em vez de ampicilina, porque os dois agentes que importam aqui são o estreptococo do grupo B e a E. coli. O que não entra: cefalosporina de terceira ou quarta geração empírica, pelo risco de selecionar enterobactérias produtoras de betalactamase de espectro estendido; a indicação delas é meningite, insuficiência renal e infecção por bactéria resistente ao aminoglicosídeo e sensível à cefalosporina, condição hoje infrequente. Vancomicina empírica na sepse precoce não tem lugar. E ceftriaxona é contraindicada em criança recebendo solução parenteral com cálcio, situação corriqueira em unidade neonatal — nesses casos, cefotaxima.
Prescrição- Penicilina G cristalina 25.000 UI/kg/dose por via endovenosa — intervalo conforme peso de nascimento e dias de vida: a cada 12 h abaixo de 2.000 g, a cada 8 h acima de 2.000 g nos primeiros 7 dias, a cada 6 h acima de 2.000 g após o 7º dia. Para infecção comprovada por Streptococcus agalactiae, a própria fonte pede 250.000 a 400.000 UI/kg/dia.
- OU ampicilina 25 mg/kg/dose por via endovenosa — a cada 12 h abaixo de 1.200 g; de 1.200 a 2.000 g, a cada 12 h nos primeiros 7 dias e a cada 8 h depois; acima de 2.000 g, a cada 8 h nos primeiros 7 dias e a cada 6 h depois. Dobrar para 50 mg/kg/dose se houver meningite. Diluir o frasco para 50 mg/mL com água destilada; administrar em bolus.
- Gentamicina 4 mg/kg/dose a cada 24 h com 35 semanas ou mais; 4,5 mg/kg a cada 36 h entre 30 e 34 semanas nos primeiros 7 dias; 5 mg/kg a cada 48 h com 29 semanas ou menos nos primeiros 7 dias. ATENÇÃO à ampola: existem apresentações de 10 mg/mL e de 40 mg/mL — conferir qual está na bandeja antes de aspirar.
- OU amicacina 15 mg/kg/dose a cada 24 h com 35 semanas ou mais; 18 mg/kg a cada 36 h entre 30 e 34 semanas nos primeiros 7 dias; 18 mg/kg a cada 48 h com 29 semanas ou menos nos primeiros 7 dias. Diluir em soro glicosado a 5%, concentração de 5 mg/mL, infusão em 30 minutos.
- Se meningite por gram-negativo suspeita ou confirmada: cefotaxima 50 mg/kg/dose, intervalo conforme peso e idade; não usar ceftriaxona se houver cálcio na solução parenteral.
Escrever a prescrição de fato — do miligrama ao êmbolo
Este marco existe porque a distância entre saber a dose e acertar o volume é onde o erro mora, e porque o interno é quem transcreve. Três hábitos resolvem a maior parte. Primeiro: escreva sempre dose por quilo por dose e intervalo, nunca só a dose total — quem confere precisa poder refazer a conta, e o peso muda. Segundo: escreva a apresentação e a diluição na própria linha, porque o mesmo fármaco tem apresentações com concentrações diferentes; a gentamicina é o exemplo canônico, com ampolas de 10 mg/mL e de 40 mg/mL, e a diferença entre elas é um fator de quatro. Terceiro: para os fármacos cuja diluição não está na diretriz — a penicilina G cristalina é o caso —, o volume de reconstituição vem da bula do frasco que está na farmácia da sua unidade, e ele precisa ser conferido, não presumido; um frasco de 5.000.000 UI reconstituído em 8, 10 ou 12 mL dá três concentrações diferentes, e a dose de um recém-nascido de 3 kg cabe em pouco mais de um décimo de mililitro em qualquer delas.
Prescrição- Recém-nascido a termo de 3,0 kg, 5 dias de vida, sem meningite — ampicilina 25 mg/kg/dose a cada 8 h = 75 mg por dose = 1,5 mL da solução a 50 mg/mL.
- Mesmo bebê, com meningite — ampicilina 50 mg/kg/dose a cada 8 h = 150 mg por dose = 3,0 mL da mesma solução.
- Mesmo bebê — gentamicina 4 mg/kg a cada 24 h = 12 mg = 1,2 mL da ampola de 10 mg/mL ou 0,3 mL da de 40 mg/mL.
- Mesmo bebê — amicacina 15 mg/kg a cada 24 h = 45 mg = 0,9 mL da ampola de 100 mg/2 mL, que se tornam 9 mL depois de diluídos a 5 mg/mL.
- Volumes de diluente entram no balanço hídrico do dia. Vancomicina a 5 mg/mL, na dose de 10 mg/kg a cada 8 h, soma 6 mL/kg/dia só de veículo.
36 a 48 horas — o marco em que alguém precisa voltar
Em 36–48 horas, pergunte: as culturas adequadamente colhidas continuam negativas? O bebê está clinicamente bem, com evolução tranquilizadora? Há ausência de foco infeccioso que exija tratamento? Se as três respostas forem sim, discuta suspender o antibiótico empírico segundo o protocolo e o método de cultura da unidade. A decisão exige rever a qualidade da coleta, antibiótico prévio e a trajetória clínica. Hemograma ou proteína C reativa alterados isoladamente não justificam prolongamento; resultados normais isolados também não excluem sepse. Persistência de sinais, instabilidade ou foco exige nova avaliação. Radiografias devem responder a uma questão clínica: duas imagens seriadas de critérios de vigilância não são requisito para reconhecer ou tratar pneumonia.
Prescrição- Suspender antibiótico se: hemoculturas negativas às 36-48 h, recém-nascido clinicamente bem e sem sinal de localização.
- Manter e completar tratamento se: hemocultura ou cultura de líquor positivas, ou pneumonia ou meningite documentadas, mesmo sem agente isolado.
- Registrar na evolução a decisão, com o horário, o resultado parcial da hemocultura e quem foi consultado. Uma suspensão sem registro é reiniciada por outra pessoa na visita seguinte.
- Se suspender: manter observação clínica; um protocolo de serviço orienta observar por 72 horas depois de suspender.
A cultura veio positiva — estreitar, puncionar e contar os dias
Cultura positiva muda três coisas ao mesmo tempo. Primeira: confirmar se o crescimento representa infecção e avaliar o foco. Na bacteremia verdadeira, investigar meningite quando indicado e clinicamente seguro; instabilidade não deve atrasar antibiótico em dose apropriada. Uma hemocultura negativa não exclui meningite, e um provável contaminante não cria, isoladamente, indicação automática de punção. Segunda: troque para monoterapia de espectro estreito guiada pelo antibiograma, sempre que possível. Estreptococo do grupo B e outros estreptococos do grupo A ou D não enterococo: penicilina G cristalina. Enterococo: ampicilina com gentamicina, por sinergismo. Listeria: ampicilina com aminoglicosídeo. Coliformes e Klebsiella: preferencialmente aminoglicosídeo, e cefotaxima se houver meningite na forma precoce. Staphylococcus aureus: oxacilina, ou vancomicina se resistente à meticilina. E a regra que mais poupa a sua unidade: se cresceu Staphylococcus aureus sensível à oxacilina num bebê em vancomicina, a troca é mandatória, mesmo no fim do tratamento. Terceira: conte os dias pelo sítio — 7 a 10 dias para corrente sanguínea com agente isolado, 14 dias para meningite por gram-positivo, 21 para gram-negativo, 4 semanas para ventriculite e infecção osteoarticular. A duração habitual desses esquemas é baseada em prática clínica e não em estudo controlado, e a própria diretriz diz isso.
Prescrição- Punção lombar assim que a hemocultura for positiva, se ainda não realizada.
- Descalonar para monoterapia guiada pelo antibiograma, dando preferência ao menor espectro e à menor toxicidade.
- Trocar vancomicina por oxacilina diante de Staphylococcus aureus sensível à oxacilina — mesmo no último dia de tratamento.
- Contar os dias a partir da primeira dose eficaz e escrever no prontuário a data prevista de término, para que a contagem não dependa da memória de quem estiver de plantão.
- Cultura de líquor positiva: nova punção em 48 a 72 horas para confirmar a esterilização; se persistir positiva, revisar doses e investigar complicação com exame de imagem.
Sepse tardia — outro esquema, e a decisão sobre o cateter
Na suspeita de sepse tardia associada à internação, o esquema depende da exposição, do foco e do perfil de sensibilidade da unidade, não apenas de ter completado 48 horas. Na diretriz citada, oxacilina com amicacina é a primeira opção, e a diretriz explica por que — baixa indução de resistência, alta sensibilidade dos bastonetes gram-negativos à amicacina, ampla disponibilidade e baixo custo. Vancomicina com cefotaxima ou cefepima é a segunda opção, e o uso empírico de vancomicina só se justifica em unidade com alta prevalência de infecção de corrente sanguínea por Staphylococcus aureus resistente à meticilina; onde o problema é estafilococo coagulase-negativo, mesmo resistente à oxacilina, ela não está indicada, porque são infecções de baixa morbidade e mortalidade e há tempo de trocar com segurança quando o agente for isolado. Se houver suspeita de meningite tardia, suspende-se a amicacina e entra cefepima. Se houver suspeita de foco intestinal por anaeróbios, acrescenta-se metronidazol. E, no bebê da comunidade readmitido, o esquema volta a parecer o da sepse precoce — ampicilina com gentamicina ou amicacina —, porque a flora dele é de casa. A segunda metade da decisão é o dispositivo: diante de sinal flogístico no sítio de inserção, o cateter sai imediatamente; em infecção por fungo, gram-negativo ou Staphylococcus aureus, sai o quanto antes; em estafilococo coagulase-negativo, pode-se tentar mantê-lo, com hemocultura de controle em 48 horas de antibiótico adequado, e ele sai se a cultura persistir positiva ou o bebê piorar. Manter o cateter tem preço em dias de tratamento: de 5 a 7 dias viram 10 a 14.
Prescrição- Oxacilina 25 mg/kg/dose por via endovenosa (50 mg/kg/dose se meningite), intervalo conforme peso e idade; diluir o frasco de 500 mg para 50 mg/mL com água destilada, em bolus.
- Amicacina conforme idade gestacional e dias de vida; diluir a 5 mg/mL em soro glicosado, infusão em 30 minutos.
- Segunda opção, com justificativa registrada: vancomicina 10 mg/kg/dose (a cada 12 h abaixo de 2.000 g, a cada 8 h acima), diluída a 5 mg/mL em soro glicosado, infusão em 60 minutos, associada a cefotaxima ou cefepima.
- Nível sérico: amicacina pelo pico, de 20 a 30 µg/mL; gentamicina e vancomicina pelo vale, de 0,5 a 2 e de 5 a 15 µg/mL respectivamente. Pico colhido 30 minutos após o fim da infusão; vale, 30 minutos antes da dose seguinte.
- Repetir hemocultura após 48 a 72 horas de tratamento na sepse tardia; escalonar apenas diante de falha clínico-laboratorial documentada.
- Manter o leite materno e a nutrição enteral sempre que possível — é medida de prevenção de sepse tardia, não um detalhe de conforto.
Como saber se está funcionando
Acompanhe tendência de perfusão, necessidade respiratória, temperatura, atividade, alimentação, diurese e glicemia desde o início. Ausência de piora pode ser tranquilizadora, mas não substitui a descrição da resposta esperada. Necessidade crescente de suporte, novas apneias, alteração neurológica ou má perfusão exigem revisão imediata de foco, agente, dose, acesso e diagnósticos alternativos.
Na apresentação, a suspeita clínica determina a urgência. Nas horas seguintes, o exame seriado e a necessidade de suporte mostram a trajetória. Em 36–48 horas, integre culturas e evolução para suspender, ajustar ou manter com justificativa. Na infecção comprovada, agente, foco, esterilização quando pertinente e complicações determinam a duração; uma piora tardia reabre a investigação e não fica subordinada a uma data de término previamente escrita.
E há um parâmetro que não cabe em tabela: quem observa. A observação clínica seriada só funciona se a mesma pessoa vir o bebê mais de uma vez, ou se o registro for específico o bastante para que a próxima consiga comparar. 'Bebê em bom estado geral' escrito seis vezes seguidas não é observação seriada; é a mesma frase copiada seis vezes.
Esperado: Ativo, reativo ao manuseio, tônus em flexão, sugando com força, chorando forte. É o parâmetro de maior valor diagnóstico no recém-nascido de 35 semanas ou mais com fator de risco — mais do que os fatores de risco e mais do que os exames de triagem
Se não melhora: Piora ou aparecimento de sinais no bebê que estava em observação sem antibiótico é indicação de colher hemoculturas e iniciar tratamento. No bebê já em tratamento, piora clínica com culturas negativas pede procurar foco não coberto — meningite não puncionada, dispositivo infectado — antes de trocar o antibiótico
Esperado: Estabilidade. A régua de vigilância brasileira define instabilidade térmica como acima de 37,5 °C ou abaixo de 36 °C, e o limite inferior mudou de 35 para 36 °C na revisão de 2025
Se não melhora: Antes de atribuir à infecção, exclua causa ambiental — incubadora, berço aquecido, excesso ou falta de roupa, banho recente. Hipotermia persistente no prematuro é sinal de sepse e também causa de instabilidade hemodinâmica por si só
Esperado: No desconforto leve a moderado de início imediato após o nascimento, resolução em até 6 horas. No bebê em tratamento, redução progressiva do esforço e da necessidade de oxigênio
Se não melhora: Piora exige avaliação imediata de oxigenação, ventilação, hemodinâmica e causas, incluindo sepse. Persistência do desconforto pede revisão diagnóstica; iniciar antimicrobiano conforme suspeita clínica, sem aguardar um prazo fixo em bebê doente.
Esperado: Sucção vigorosa, mamadas mantidas, ausência de resíduo significativo, abdome livre
Se não melhora: Recusa alimentar, vômitos, resíduo, distensão abdominal e hepatomegalia estão presentes em 35% a 40% da sepse precoce. No prematuro internado, intolerância alimentar nova é o sinal mais frequente da sepse tardia e também o primeiro sinal de enterocolite necrosante — que é justamente o desfecho que o antibiótico prolongado aumenta
Esperado: Extremidades quentes, enchimento capilar rápido, diurese mantida. Hipotensão é achado tardio no recém-nascido: a má perfusão vem antes
Se não melhora: Palidez, extremidades frias, oligúria e letargia configuram choque e pedem terapia intensiva. Antes de assumir causa infecciosa, considere cardiopatia congênita ducto-dependente, hipoglicemia, hipotermia e falha de transição — nem toda instabilidade hemodinâmica do recém-nascido é infecção
Esperado: Valor normal — abaixo de 10 mg/L ou 1 mg/dL — mantido por 2 a 3 dias do início do quadro reduz a chance de infecção verdadeira a cerca de 2%. Valor inicial alterado que normaliza em 48 a 72 horas, com boa evolução e culturas negativas, sugere ausência de infecção bacteriana
Se não melhora: Proteína C reativa que permanece elevada sem foco e sem cultura positiva não é indicação de trocar ou ampliar antibiótico: é indicação de procurar foco. E, sozinha, ela não sustenta a continuidade do tratamento além de 48 horas num bebê aparentemente bem com culturas negativas
Esperado: Culturas negativas em 36–48 horas apoiam suspensão quando coleta e evolução são adequadas e não há foco. Crescimento exige interpretar agente, sítio, volume, antibiótico prévio, tempo para positividade e quadro clínico. Positividade tardia, isoladamente, não prova contaminação.
Se não melhora: Discordância entre culturas periférica e de cateter exige revisão da coleta, volume, agente, tempo de positividade e estado clínico. Não concluir colonização apenas pela amostra periférica negativa. Persistência de bacteremia exige avaliação do foco e do dispositivo; consulte o laboratório e o controle de infecção.
Onde o erro machuca
O dano: É o erro que produz a maior parte do dano deste capítulo, porque combina duas decisões erradas em série. A primeira, começar, muitas vezes nem é errada — é conservadora. A segunda, não reavaliar, transforma 48 horas em sete dias por inércia administrativa. O preço tem tamanho: tratamento empírico por cinco dias ou mais associou-se a mais enterocolite necrosante e a mais óbito numa coorte de 4.093 recém-nascidos de extremo baixo peso, e o uso prolongado de amplo espectro sem infecção documentada aumenta o risco de sepse tardia. Some-se a separação mãe-filho, a internação em terapia intensiva e a interrupção do aleitamento.
Como pegar a tempo: Escreva na evolução, no dia em que começar, a frase com hora: reavaliar em 36 a 48 horas para suspensão. Se você começou, você é quem deve a reavaliação. E, no bebê assintomático com 35 semanas ou mais e fator de risco, considere não começar: a observação clínica seriada, sem triagem laboratorial e sem antibiótico, é hoje considerada boa prática.
O dano: É o erro mais bem documentado e o mais difícil de largar, porque tem aparência de rigor. Hemograma e proteína C reativa isoladamente têm valor preditivo positivo insatisfatório; o que eles têm é valor preditivo negativo. Vários fatores não infecciosos os alteram — pré-eclâmpsia, insuficiência placentária, rotura prematura de membranas, asfixia, síndrome do desconforto respiratório, hemorragia intraventricular, aspiração de mecônio, pneumotórax — e as alterações relacionadas a eventos periparto podem persistir por 48 a 72 horas de vida. Continuar por causa desses exames é tratar o parto, não a infecção.
Como pegar a tempo: Leia os marcadores junto da idade da coleta, dos fatores de risco, do exame seriado e das culturas. Um resultado normal precoce não afasta sepse; um resultado alterado em bebê bem não obriga a completar um curso. Escreva qual achado clínico ou microbiológico sustenta a decisão e quando ela será revista.
O dano: Uma hemocultura de 0,5 mL tem, pela referência que as próprias diretrizes citam, 39% de chance de recuperar o agente numa bacteremia de 1 unidade formadora de colônia por mL, contra 63% com 1 mL. Amostra única impede distinguir infecção de contaminação, que é a pergunta central quando cresce estafilococo coagulase-negativo. E amostra colhida apenas do cateter central tem alto risco de contaminação por comensais de pele, produzindo falso-positivo que vira tratamento. O resultado é sempre o mesmo: uma cultura em que ninguém confia, e um antibiótico que ninguém consegue parar porque não há prova de nada.
Como pegar a tempo: Duas amostras, dois sítios, 1 mL cada, antissepsia individualizada de cada sítio, ao menos uma por punção periférica — e teste de sensibilidade pedido junto. Em recém-nascido, 1 mL parece muito e não é: é o volume que separa saber de não saber.
O dano: O uso amplo de cefalosporina de terceira geração está associado à emergência de enterobactérias produtoras de betalactamase de espectro estendido — Klebsiella pneumoniae, Escherichia coli, Enterobacter — capazes de hidrolisar cefotaxima, ceftriaxona, ceftazidima e aztreonam, e também à seleção de não fermentadores como Pseudomonas aeruginosa e Acinetobacter baumannii. O dano não aparece no bebê que recebeu: aparece no próximo, e no seguinte. E, no caso específico da ceftriaxona, há dano imediato — ela é contraindicada em criança recebendo solução parenteral com cálcio, o que descreve boa parte da unidade neonatal.
Como pegar a tempo: Reserve as cefalosporinas de terceira e quarta gerações para meningite, para o recém-nascido com insuficiência renal e para infecção por bactéria resistente ao aminoglicosídeo e sensível à cefalosporina. Esquema empírico é penicilina G cristalina ou ampicilina com aminoglicosídeo na forma precoce, e oxacilina com amicacina na tardia. Quando precisar de cefalosporina em bebê com cálcio na parenteral, use cefotaxima.
O dano: A maior causa isolada de excesso de antimicrobiano em unidade neonatal é o tratamento de colonização, e a segunda é o tratamento de cultura contaminada. Cada uma dessas prescrições tem os mesmos custos das outras — seleção de resistência, risco de enterocolite, dias de internação — e nenhum benefício, porque não havia infecção para tratar. O aspirado traqueal do bebê em ventilação crônica e a cultura de ponta de cateter são os dois exemplos clássicos, e o crescimento de estafilococo coagulase-negativo em uma única hemocultura é o terceiro.
Como pegar a tempo: Culturas devem ser interpretadas com o quadro clínico, qualidade da amostra, local, agente e tempo de positividade. Ponta de cateter ou aspirado positivo isoladamente não confirma infecção. Hemocultura de cateter positiva e periférica negativa também não a exclui: discuta possível infecção relacionada ao dispositivo e necessidade de novas amostras com a equipe.
O dano: É o erro de sinal contrário aos anteriores, e é o mais grave individualmente. A meningite neonatal define dose, escolha do antibiótico, duração e prognóstico, e 38% delas cursam com hemocultura negativa. Suspender às 48 horas por cultura negativa num bebê que teve manifestação neurológica e não foi puncionado é encerrar o tratamento de uma doença que continua. Do outro lado, a criança com hemocultura positiva que nunca foi puncionada pode estar recebendo metade da dose de que precisa, por 7 dias em vez de 14 ou 21.
Como pegar a tempo: Na bacteremia verdadeira ou suspeita de infecção do sistema nervoso central, avaliar líquor quando indicado e seguro, mesmo após início do antibiótico. Se a condição impedir a punção, tratar com cobertura e doses apropriadas à possibilidade de meningite e registrar a limitação. A revisão de 36–48 horas exige ausência de foco, evolução tranquilizadora e avaliação da qualidade das culturas; hemocultura negativa isolada não exclui meningite.
O que dizer ao paciente e à família
Há uma frase que os pais de recém-nascido ouvem e não conseguem processar, e é sempre a mesma: vamos começar antibiótico porque pode ser uma infecção, mas ainda não sabemos. Para quem está do lado de fora, isso soa como contradição — ou tem infecção e trata, ou não tem e não trata. A conversa deste capítulo é inteira sobre traduzir uma decisão sob incerteza para alguém que acabou de parir e não dormiu.
A segunda dificuldade é o desfecho feliz. Quando o antibiótico é suspenso às 48 horas porque a cultura veio negativa, os pais frequentemente ouvem isso como 'então ele nunca teve nada, e vocês furaram meu filho e me tiraram dele por nada'. Se ninguém explicar antes, a suspensão — que é a melhor notícia possível — chega como confissão de erro. Explique a regra no dia em que começar, não no dia em que parar.
A terceira é o aleitamento. A mãe de um bebê que foi levado para a unidade neonatal perde mamadas, e cada mamada perdida sem ordenha é leite a menos daqui a três dias. Manter a lactação durante o tratamento não é acolhimento: é prevenção de sepse tardia, porque o leite materno e a nutrição enteral precoce reduzem o tempo de cateter e de nutrição parenteral.
Explicando por que vai começar antibiótico sem ter certeza
“Ele apresentou sinais que podem acontecer em uma infecção e precisamos tratá-lo enquanto investigamos. Vamos colher as amostras rapidamente, quando possível antes da primeira dose, e acompanhar sua resposta desde agora. Em cerca de 36–48 horas, a evolução e as culturas ajudarão a decidir se podemos suspender ou se precisamos ajustar o tratamento. Se houver qualquer piora, agiremos antes desse prazo.”
Não diga: Não diga 'é só por precaução' — isso soa como se o remédio fosse inofensivo, e ele não é. E não prometa que não é nada.
Combinando, no primeiro dia, a decisão do segundo
“"Quero combinar uma coisa com a senhora desde já, para não assustar depois. Daqui a um dia e meio, mais ou menos, a gente vai reavaliar. Se o exame do sangue não mostrar bactéria nenhuma e ele estiver bem, a gente vai suspender o antibiótico. Isso não vai querer dizer que a gente errou em começar — vai querer dizer que a gente começou porque tinha que começar e parou assim que teve como saber. Antibiótico a mais no recém-nascido tem risco próprio, então parar na hora certa faz parte do tratamento."”
Não diga: Não deixe essa conversa para o dia da suspensão. Dita depois, ela soa como justificativa.
Quando o bebê precisa subir para a unidade neonatal
“"Eu vou precisar levar o seu filho para a unidade lá de cima, porque lá tem monitor e a equipe fica ao lado dele o tempo todo. Ele vai continuar sendo seu e a senhora vai poder subir para ficar com ele — vou pedir para a enfermagem te explicar os horários agora, não depois. E tem uma coisa que só a senhora pode fazer e que faz diferença de verdade: continuar tirando o leite, mesmo que ele ainda não esteja mamando. Esse leite é o que a gente vai oferecer para ele assim que puder."”
Não diga: Não saia da beira do leito antes de alguém ter combinado com ela como e quando ela vai ver o filho. A separação sem hora marcada é o que mais interrompe a lactação.
A mãe pergunta se a culpa é dela, porque a bolsa rompeu cedo
“"Não é culpa sua. A bolsa romper antes da hora é uma coisa que acontece e que a senhora não tinha como evitar nem como perceber mais cedo. O que a gente sabe é que, quando a bolsa fica rota por muitas horas, o risco de o bebê pegar uma bactéria aumenta um pouco — e é por isso que a gente está olhando ele de perto. É por causa desse risco que a gente está sendo cuidadoso, não porque alguém fez alguma coisa errada."”
Não diga: Não entre em detalhe sobre o exame de estreptococo que ela não conseguiu fazer. Se ela perguntar, responda com honestidade e sem transferir a falha do sistema para ela.
Suspendendo o antibiótico às 48 horas
“"Como a gente combinou, eu vim com o resultado. O sangue que a gente colheu não cresceu bactéria nenhuma, e ele está mamando bem e com a temperatura estável. Então a gente vai suspender o antibiótico hoje. A gente vai continuar observando ele por mais um tempo aqui antes de ir para casa, e eu vou te explicar o que é para observar quando chegar em casa também."”
Não diga: Não diga 'era alarme falso'. Diga que a informação que faltava chegou e que a decisão mudou com ela.
A cultura veio positiva e o tratamento vai durar dias
“"O exame mostrou qual bactéria é, e isso é uma informação boa: agora a gente sabe qual remédio funciona melhor e por quantos dias. Vou trocar para um antibiótico mais específico, que é mais dirigido a essa bactéria e mexe menos no resto. O tempo de tratamento depende de onde ela está — vou precisar fazer um exame do líquido da espinha para saber se ela chegou nas meninges, porque isso muda o número de dias. Vou te contar o resultado assim que sair."”
Não diga: Não dê o número de dias antes de saber se há meningite. Corrigir 7 para 21 dias depois é pior do que dizer que ainda vai definir.
Com a mãe do prematuro internado há doze dias, que teve uma piora súbita
“"Dona Elizângela, o Emiliano teve algumas pausas na respiração hoje e não está tolerando bem a dieta. Isso pode ser uma infecção nova, dessas que aparecem quando o bebê fica internado e tem um cateter — não é a mesma infecção do nascimento, é outra coisa. Eu vou colher exames e começar antibiótico agora. Uma das coisas que a gente vai avaliar é se precisa tirar o cateter dele, e isso a gente decide com o resultado."”
Não diga: Não use 'infecção hospitalar' como quem confessa uma falha, nem esconda que o cateter é uma porta de entrada. Explique que o cateter existe porque ele precisa, e que a decisão de tirar é parte do tratamento.
Onde bons médicos discordam
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.
48 horas completas de vida (Anvisa; Ministério da Saúde, 2014; SBP, 2022 e 2025)
A definição usada pela vigilância brasileira e reproduzida pelos documentos nacionais considera precoce a sepse cuja evidência diagnóstica clínica, laboratorial ou microbiológica ocorre em até 48 horas completas de vida — de provável origem materna. O argumento é de proporção: 60% a 80% dos casos manifestam-se nas primeiras 24 horas, de modo que 48 horas já cobre a quase totalidade do que vem da mãe, e alargar o corte passa a incluir casos de origem assistencial na conta da origem materna. Como o corte também define o esquema empírico, um corte mais estreito protege a metade tardia de receber o esquema errado.
Anvisa, critérios diagnósticos vigentes; Ministério da Saúde, Atenção à saúde do recém-nascido, v. 2, cap. 14, 2014; SBP, Documento Científico nº 11, 2022; SBP, Diretriz nº 193, 2025.
72 horas completas de vida (Academia Americana de Pediatria; redes de pesquisa; protocolo de hospital universitário federal brasileiro, 2024)
A Academia Americana de Pediatria usa 72 horas como ponto de corte, critério também adotado pela Rede Brasileira de Pesquisas Neonatais e por redes internacionais de pesquisa — e por protocolos brasileiros de serviço, entre eles o de um hospital universitário federal publicado por portaria em 2024, que define precoce como o quadro que aparece nas primeiras 72 horas e tardia como a que se inicia depois. O argumento é de sensibilidade clínica: a doença de origem materna pode manifestar-se no terceiro dia, sobretudo no prematuro e depois de profilaxia intraparto parcial, e um corte de 48 horas empurra esses casos para o esquema empírico da flora hospitalar, que é mais largo e mais tóxico do que eles precisam.
SBP, Documento Científico nº 11, 2022 (que registra o corte da AAP e das redes de pesquisa); Protocolo PRT.UTIUN.008, HU-UFGD/Ebserh, versão 01, 2024.
Esta apostila adota 48 horas completas de vida. Os dois lados falam do mesmo recém-nascido, e decide a data: o documento brasileiro mais novo deste bloco, a diretriz da Sociedade Brasileira de Pediatria de março de 2025, usa 48 horas, como os critérios da Anvisa e o guia federal de 2014. As 72 horas ficam registradas como o corte da Academia Americana de Pediatria e das redes de pesquisa, adotado por protocolos de serviço como o do hospital universitário federal de 2024. O corte classifica, mas não escolhe sozinho o antibiótico — a própria diretriz de 2025 escreve que a sepse de origem materna se manifesta especialmente até as 48 horas —; para o esquema, o que decide é de onde veio a flora. Faça a pergunta certa: este recém-nascido esteve exposto ao ambiente da unidade, a dispositivo invasivo e a antibiótico, ou ainda está na sequência do parto? Um bebê de 60 horas que nunca saiu do alojamento conjunto, com bolsa rota prolongada e sem profilaxia, tem doença de origem materna e merece esquema de sepse precoce, embora já passe das 48 horas. Um bebê de 40 horas que está intubado, com cateter umbilical, na terapia intensiva desde o nascimento, já está exposto à outra flora. Na hora de registrar e notificar, use as 48 horas; e, quando o esquema seguir a flora e não o relógio, escreva no prontuário por quê — é a falta dessa frase que faz dano.
36 a 48 horas, decidido por hemocultura e evolução clínica (SBP, 2022 e 2025)
A duração ideal da terapia empírica foi reduzida para 36 a 48 horas, e a razão declarada é técnica: as hemoculturas automatizadas atuais detectam crescimento de forma contínua, por produção de gás carbônico ou variação de pressão, e são otimizadas para níveis muito baixos de bacteremia — o período tradicional de 48 a 72 horas baseia-se em dados de uma época em que o caldo era examinado a olho, uma vez ao dia, à procura de turvação. Nessa posição, a continuidade além de 48 horas só se justifica com sinais clínicos associados a hemocultura ou líquor positivos, ou sinal de localização como pneumonia ou meningite, mesmo sem agente isolado; hemograma e proteína C reativa explicitamente não devem sustentar a continuidade.
SBP, Diretriz nº 193, 2025, seção de tratamento empírico; SBP, Documento Científico nº 11, 2022, recomendações 8 e 10 e Figura 1.
Até 72 horas, com a proteína C reativa autorizando a suspensão (Ministério da Saúde, 2014; protocolo de serviço, 2024)
O guia federal escreve que a redução rápida dos níveis de proteína C reativa a valores próximos do normal — abaixo de 10 mg/L ou 1 mg/dL — afasta o diagnóstico inicial de sepse e autoriza a suspensão do antibiótico nas primeiras 72 horas, evitando o emprego excessivo de antimicrobianos. Um protocolo de hospital universitário federal de 2024 opera na mesma faixa: lactentes com sintomas leves ou transitórios que permanecem com boa aparência, valores laboratoriais normais e culturas negativas em 48 a 72 horas provavelmente não têm sepse, e a antibioticoterapia empírica deve ser descontinuada nesse intervalo. Nessa posição, o marcador não é obstáculo à suspensão: é o argumento que a autoriza.
Ministério da Saúde, Atenção à saúde do recém-nascido, v. 2, cap. 14, 2014, seção de testes imunológicos; Protocolo PRT.UTIUN.008, HU-UFGD/Ebserh, 2024, seções 7 e 8.
Repare que as duas posições querem a mesma coisa — parar cedo — e discordam sobre o instrumento e sobre umas poucas horas. O conflito real não é entre 48 e 72: é entre usar a proteína C reativa para parar, o que os dois lados aceitam, e usá-la para continuar, o que nenhum dos dois autoriza. Para o bebê à sua frente: se a cultura está negativa às 36-48 horas, o bebê está bem e não há sinal de localização, você tem respaldo em ambas as posições para suspender agora, e não precisa esperar as 72 horas nem a série da proteína C reativa. Se o bebê está bem mas a proteína C reativa está subindo, você não tem respaldo em nenhuma das duas para simplesmente continuar sem procurar foco — o que a série pede é a punção lombar que faltou, a radiografia seriada, o exame do cateter. E, se as 72 horas chegarem sem cultura, sem foco e com o bebê bem, pare: nas duas réguas esse é o desfecho.
Categoria de risco — a estratégia mais antiga, baseada em epidemiologia e opinião de especialistas
Avalia os fatores de risco em sequência — sinais clínicos de doença, temperatura materna intraparto de 38 °C ou mais, indicação de profilaxia intraparto para estreptococo do grupo B, adequação dessa profilaxia — e chega a três destinos: colher hemocultura e iniciar antibiótico, observar clinicamente por 36 a 48 horas, ou rotina de cuidados. É simples, dispensa dado local e funciona onde o cartão da mãe está incompleto. A limitação declarada na própria fonte é que o risco varia muito entre os recém-nascidos aos quais ela recomenda antibiótico — de muito baixo a muito alto, dependendo de idade gestacional, tempo de bolsa rota, tempo e dose de antibiótico materno —, de modo que muitos bebês de baixo risco, inclusive assintomáticos, acabam tratados.
SBP, Documento Científico nº 11, 2022, Figura 2, com as três abordagens apresentadas lado a lado.
Calculadora de sepse precoce — modelo multivariado que parte da prevalência local
Começa pela probabilidade prévia de sepse precoce do próprio serviço e a modula por tempo de bolsa rota, temperatura materna, colonização por estreptococo do grupo B, tipo e tempo do antibiótico intraparto e exame clínico nas primeiras 12 horas, chegando a três condutas: hemocultura com antibiótico, hemocultura sem antibiótico, ou cuidados de rotina. Numa coorte multicêntrica com mais de 200 mil recém-nascidos de 35 semanas ou mais, sua adoção reduziu o uso de antibiótico nas primeiras 24 horas e o tempo de tratamento, sem mudar a incidência de sepse confirmada; e o uso de antibiótico entre 24 e 72 horas não mudou, sinal de que os antibióticos passaram a ser usados de fato nos que desenvolveram sintomas. A ressalva declarada é brasileira: sem conhecer a prevalência local, sem investigação da colonização materna e sem rotina de profilaxia intraparto, a calculadora pode levar recém-nascidos de menor risco a receber antibiótico.
SBP, Documento Científico nº 11, 2022, seção sobre a calculadora, incluindo a coorte multicêntrica e a ressalva sobre a realidade local.
Avaliação clínica seriada — o exame físico repetido como instrumento
Identifica os de alto risco pela avaliação física estruturada e repetida, partindo de um dado de história natural: recém-nascidos a termo em boas condições ao nascimento têm até 70% menos risco de desenvolver sepse precoce do que os que parecem doentes ao nascer ou que desenvolvem sintomas nas primeiras 48 horas. Nessa estratégia, o bebê com fator de risco e exame normal segue em rotina de cuidados com observação por 36 a 48 horas, e só é investigado e tratado se aparecerem sinais. O documento brasileiro registra que, em recém-nascidos de 35 semanas ou mais, a avaliação clínica tem maior valor diagnóstico do que os fatores de risco e os exames laboratoriais isoladamente, e a considera boa prática. A limitação é operacional e não conceitual: ela exige que alguém de fato examine, com hora marcada e registro, e que a alta não aconteça antes do fim da janela.
SBP, Documento Científico nº 11, 2022, seção de avaliação clínica seriada e recomendação 2.
O documento brasileiro apresenta as três lado a lado, mas não fica neutro: chama a observação clínica seriada de boa prática e faz dela a sua recomendação para esse bebê — valorizar o exame físico seriado, e colher culturas e iniciar antibiótico só se surgirem sintomas sugestivos e persistentes de infecção. Esta apostila adota essa estratégia, e não precisa de degrau de desempate, porque as três posições vêm do mesmo documento e ele mesmo escolheu. Ela tem condição: enfermagem informada, exame com hora marcada e uma trava que impeça a alta antes das 36 a 48 horas — onde a maternidade dá alta em 24 horas, ela não existe, é só um nome na evolução, e a saída é segurar a alta até fechar a janela. Se nem isso for possível, a categoria de risco, que é a que mais trata e a que menos depende de estrutura, é o que resta; a calculadora fica registrada para o serviço que conhece a própria prevalência e recebe o cartão materno preenchido. Escreva qual foi usada e não misture as três no mesmo bebê — a mistura sempre converge para tratar, porque basta um dos três caminhos indicar antibiótico.
O raciocínio, em voz alta
Recém-nascido de Josenilde Morgado, 38 semanas e 4 dias, parto vaginal, peso de nascimento 3.150 g, nasceu chorando e com boa vitalidade. Bolsa rota 22 horas antes do parto, líquido claro. Sem cultura para estreptococo do grupo B nesta gestação e sem profilaxia intraparto. Temperatura materna de 37,6 °C registrada na admissão, sem outro achado. Está com 18 horas de vida, no alojamento conjunto. Nas últimas duas mamadas não pegou o peito; está hipoativo; temperatura axilar de 36,2 °C às quatro horas e 37,7 °C às quatro e meia; frequência respiratória de 68 por minuto, com leve gemência intermitente e sem tiragem; enchimento capilar de 2 segundos; sem cianose.
o que penso agora
Este bebê saiu da categoria assintomático de risco e entrou na categoria sintomático — e essa mudança é a única coisa que precisa acontecer para a conduta virar. Ele tem quatro dos oito sinais da lista: instabilidade térmica, dificuldade respiratória, intolerância alimentar e hipoatividade. E ele tem denominador: bolsa rota de 22 horas, acima do corte de 18, sem cultura materna e sem profilaxia — a combinação exata em que a profilaxia estaria indicada e não foi feita. Enquanto ele era assintomático, a conduta certa era observar. Ele deixou de ser.
o que faço primeiro, e em que ordem
Colher antes de começar, com o intervalo medido em minutos. Duas hemoculturas, dois sítios, 1 mL cada, ao menos uma por punção periférica, antissepsia individualizada de cada sítio, teste de sensibilidade solicitado no mesmo pedido. Glicemia capilar agora, porque hipoglicemia imita sepse e trata-se em segundos. Radiografia de tórax, porque há desconforto respiratório e o diagnóstico de pneumonia muda a duração. Punção lombar: ele está estável, com enchimento capilar de 2 segundos e sem sinal neurológico — tem condição para o procedimento, e o líquor colhido antes do antibiótico vale muito mais do que o colhido depois. Se a punção atrasar, o antibiótico não espera.
o que NÃO faço
Não peço hemograma agora esperando que ele decida alguma coisa: as alterações de neutrófilos exigem resposta inflamatória estabelecida, e o que eu colheria às cinco da manhã reflete o parto de ontem, não a infecção de hoje — o próprio documento admite aguardar 6 a 12 horas. Não peço procalcitonina, que sobe fisiologicamente nas primeiras 24 a 36 horas de vida. Não começo cefalosporina de terceira geração porque o bebê parece grave. E não deixo de colher a hemocultura porque 'vai demorar mesmo' — é exatamente ela que, daqui a um dia e meio, vai me deixar parar.
o esquema, e por que este
Penicilina G cristalina com gentamicina. Os dois agentes que importam aqui são o estreptococo do grupo B e a E. coli, e essa dupla cobre os dois com o menor espectro possível; a gentamicina ainda age em sinergia com o betalactâmico contra o estreptococo. A alternativa igualmente correta é ampicilina no lugar da penicilina, que acrescenta cobertura para Listeria — rara no Brasil. O que não entra: cefalosporina de terceira geração, vancomicina, carbapenêmico. Vale conferir na sua farmácia qual apresentação de gentamicina está disponível antes de escrever o volume: há ampolas de 10 mg/mL e de 40 mg/mL, e a diferença entre elas é um fator de quatro.
a conta que vou escrever no papel
Peso 3,15 kg, mais de 2.000 g, com 18 horas de vida — coluna de 0 a 7 dias. Penicilina G cristalina 25.000 UI/kg a cada 8 horas, o que dá 78.750 UI por dose; o volume depende do volume de reconstituição declarado na bula do frasco de 5.000.000 UI da sua farmácia, e é da ordem de um décimo e meio de mililitro — pequeno o bastante para exigir conferência dupla. Gentamicina 4 mg/kg a cada 24 horas, o que dá 12,6 mg por dose: 1,26 mL da ampola de 10 mg/mL, ou 0,32 mL da de 40 mg/mL. Escrevo na prescrição a dose por quilo, o intervalo, a apresentação e o volume — os quatro, para que quem conferir possa refazer a conta.
o que escrevo na evolução, e que é a parte que muda o desfecho
Uma linha com hora: reavaliação em 36 a 48 horas para decisão de suspensão, prevista para as 17h de amanhã. Escrevo também o que autoriza continuar — hemocultura ou líquor positivos, ou pneumonia ou meningite documentadas — e o que não autoriza: hemograma alterado ou proteína C reativa elevada com bebê bem e culturas negativas. Essa linha é a diferença entre um tratamento de dois dias e um de sete, e ela custa trinta segundos.
o que acontece nas 40 horas seguintes
Às 12 horas de antibiótico ele volta a mamar. Às 24 horas está afebril, com frequência respiratória de 48 e sem gemência. O líquor foi normal, com 8 células por mm³, proteína de 72 mg/dL e glicose de 46 mg/dL — valores dentro da faixa de referência do recém-nascido de primeira semana, que não é a do adulto. A radiografia não mostrou infiltrado. Às 40 horas, as duas hemoculturas seguem sem crescimento, e a microbiologia confirma por telefone que nada cresceu nas primeiras 48 horas de incubação.
a decisão do segundo dia
Três perguntas: culturas cresceram? não. Bebê está bem? sim. Há sinal de localização? não — sem pneumonia radiológica e com líquor normal. Suspendo. O hemograma colhido às 12 horas de vida tinha 4.800 leucócitos e relação de neutrófilos imaturos sobre totais de 0,22, e ele não muda a decisão: pela régua da tabela do próprio documento esse valor é anormal, pelo corte que o texto do mesmo documento chama de mais valorizado ele é normal, e nenhuma das duas leituras sustenta continuar antibiótico num bebê bem com culturas negativas. Registro a suspensão, o motivo e o horário, e aviso a mãe do jeito que combinei com ela ontem.
o que sobra depois
Observação clínica mantida por mais um período antes da alta — um protocolo de serviço orienta observar por 72 horas depois de suspender. Orientação de sinais de alarme para casa, com as palavras que a mãe usa e não as minhas: não quer mamar, fica mole, respira rápido, fica frio ou quente demais. E uma anotação que não é sobre este bebê: o cartão dela não tinha o resultado da cultura de estreptococo do grupo B porque ela não conseguiu marcar o exame. Isso é do capítulo Estreptococo do grupo B, na apostila de Ginecologia e Obstetrícia — mas quem viu a consequência foi você, e a informação volta para a unidade básica pelo relatório de alta.
Faça você
Emiliano Riquelme, nascido com 28 semanas por trabalho de parto prematuro, peso de nascimento 980 g, hoje com 12 dias de vida e 1.180 g. Está na unidade de terapia intensiva neonatal desde o nascimento, com cateter central de inserção periférica desde o terceiro dia, em nutrição parenteral e dieta enteral mínima com leite materno. Recebeu ampicilina e gentamicina nos dois primeiros dias de vida, suspensas com culturas negativas. Nas últimas duas horas: duas apneias com bradicardia, resíduo gástrico esverdeado de 4 mL, temperatura axilar de 35,9 °C mesmo com a incubadora ajustada, e glicemia capilar de 198 mg/dL sem mudança na infusão. O sítio de inserção do cateter está limpo, sem hiperemia. Abdome levemente distendido, sem visceromegalia. Enchimento capilar de 3 segundos.
o que já sei
Prematuro extremo, doze dias de internação, cateter central há nove dias, nutrição parenteral, dieta enteral mínima — o retrato completo dos fatores de risco de sepse tardia. Ele tem quatro dos oito sinais que a régua de vigilância lista: apneia, intolerância alimentar, instabilidade térmica e intolerância à glicose, e ainda uma perfusão limítrofe. O limiar da régua é de dois sinais sem outra causa reconhecida; ele tem o dobro. E a piora é nova: ele vinha estável.
o que a história de antibiótico me diz
Ele recebeu dois dias de ampicilina com gentamicina na primeira semana e as culturas foram negativas — ou seja, alguém fez o que este capítulo pede: começou, reavaliou e parou. Isso não o protege agora; ao contrário, é o curso de antibiótico da primeira semana que entra na lista de fatores de risco desta doença. O que essa informação muda é a flora provável: ele já foi exposto ao aminoglicosídeo, e está há doze dias respirando a microbiologia da unidade, não a da mãe.
o que NÃO vou fazer
Não vou repetir o esquema da sepse precoce, porque a rota é outra. Não vou começar carbapenêmico nem vancomicina de entrada só porque ele é pequeno e piorou: o uso empírico de vancomicina só se justifica em unidade com alta prevalência de infecção de corrente sanguínea por Staphylococcus aureus resistente à meticilina, e onde o problema é estafilococo coagulase-negativo ela não está indicada, porque há tempo de trocar com segurança. Não vou colher hemocultura só do cateter. E não vou tratar um crescimento de estafilococo coagulase-negativo de uma única amostra como se fosse infecção.
o que faço, na ordem
Culturas rapidamente, preferencialmente antes do antibiótico, sem atrasar suporte e tratamento na instabilidade; obter a segunda amostra e o líquor quando viáveis. Duas hemoculturas de sítios distintos, com pelo menos uma periférica, 1 mL cada. Urocultura por cateter ou punção vesical, que aqui entra na avaliação — diferentemente da sepse precoce. Líquor, porque meningite é mais comum na forma tardia e porque o resultado muda dose e duração; se ele não tiver condição clínica, o antibiótico vai assim mesmo e as doses precisam ser suficientes para meningite. Hemograma, proteína C reativa como primeiro ponto de série, bioquímica, lactato e coagulograma. Radiografia de abdome, pela distensão e pelo resíduo — enterocolite necrosante é o diferencial que anda junto com este quadro. Exame do sítio do cateter, que está limpo, mas isso não exclui a origem.
o esquema, e a decisão sobre o cateter
Oxacilina com amicacina, que é a primeira opção declarada para infecção tardia: baixa indução de resistência, boa sensibilidade dos gram-negativos à amicacina, disponibilidade e custo. Amicacina com atenção redobrada à idade gestacional e aos dias de vida, porque a posologia muda de intervalo. Sobre o cateter: sem sinal flogístico, ele não sai agora. Sai imediatamente se surgir sinal no sítio; sai o quanto antes se a cultura mostrar fungo, gram-negativo ou Staphylococcus aureus; e, se crescer estafilococo coagulase-negativo, pode-se tentar mantê-lo, com hemocultura de controle após 48 horas de antibiótico adequado — mantendo-o, o tratamento passa de 5 a 7 para 10 a 14 dias, e é essa a conta que se apresenta à equipe.
onde este capítulo para
A partir daqui, três caminhos saem do escopo. A enterocolite necrosante como entidade — estadiamento, jejum, conduta cirúrgica — é do capítulo Enterocolite necrosante do recém-nascido, na apostila de Cirurgia Pediátrica: aqui fica registrada como o diferencial que precisa ser afastado. O manejo da apneia do prematuro é de Prematuridade: complicações e classificação por idade gestacional e peso, apneia e retinopatia da prematuridade, nesta apostila. E a passagem e a manutenção do cateter central em neonatologia não têm dono no nível: este capítulo assume apenas o cateter como fonte de infecção e a decisão de removê-lo, e declara que assume só essa fatia.
Ver como fecharíamos
A conduta correta é colher duas hemoculturas de sítios distintos com pelo menos uma periférica, urocultura e líquor, e iniciar oxacilina com amicacina em menos de sessenta minutos, sem remover o cateter neste momento, já que o sítio de inserção está limpo. Radiografia de abdome pela distensão e pelo resíduo esverdeado, para afastar enterocolite necrosante. O erro mais comum aqui é repetir o esquema da sepse precoce — ampicilina com gentamicina —, que cobre a flora materna e não a flora da unidade; o segundo erro mais comum é começar vancomicina de entrada, que só se justifica em unidade com alta prevalência de Staphylococcus aureus resistente à meticilina. A reavaliação acontece com o resultado das culturas, e a hemocultura de controle depois de 48 a 72 horas de tratamento; se crescer estafilococo coagulase-negativo em duas amostras e o bebê melhorar, o cateter pode ser mantido, ao preço de estender o tratamento de 5 a 7 para 10 a 14 dias.
Os critérios da Anvisa padronizam a vigilância epidemiológica e não determinam, por si, a indicação ou duração do antibiótico. Hemograma e proteína C reativa alterados devem ser interpretados com evolução clínica, culturas, qualidade das amostras e possíveis focos. No critério específico de IPCSC associada a cateter central em recém-nascidos, o uso do dispositivo por mais de dois dias e a manutenção do antimicrobiano integram a definição de vigilância. Isso não significa que toda sepse neonatal exija cateter nem que manter o antibiótico seja justificado por um critério que já incorpora essa decisão. A necessidade de continuar o tratamento deve ser reavaliada clinicamente.
Teste-se
Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.
Plano de revisão
Em 7 dias
Acompanhe um recém-nascido de risco e outro sintomático. Apresente à preceptoria a diferença entre observar e tratar, quais dados mudaram a decisão e por que uma proteína C reativa normal não autorizaria atrasar o cuidado. Escreva um registro de revisão de 36–48 horas com culturas, evolução, foco e decisão justificada.
Em 30 dias
Resolva uma passagem de plantão com três cenários: cultura negativa e bebê bem; cultura negativa com piora; cultura positiva com antibiograma. Defina o próximo passo e confira uma prescrição real por peso, idade gestacional, idade pós-natal, função renal e apresentação disponível. Demonstre a conta de mg ou UI até mL e diga qual dado exige supervisão antes de administrar.
Agora atenda
Recém-nascido a termo no alojamento conjunto, com 18 horas de vida, filho de mãe com bolsa rota prolongada, sem cultura para estreptococo do grupo B e sem profilaxia intraparto, que passa a recusar o peito e apresenta instabilidade térmica. Conduza o atendimento: colha a história materna que importa, examine e nomeie os sinais, decida se colhe e o que colhe, escolha e prescreva o esquema empírico com dose e volume, diga em que horário vai reavaliar e o que exatamente autorizaria manter o antibiótico — e explique à mãe, com as palavras dela, por que você vai começar sem ter certeza e por que pode parar em dois dias.
