PediatriaNeurologia Pediátrica

Crise febril na criança

Crise febril simples e complexa: manejo e orientação familiar

O evento mais assustador da pediatria de porta é quase sempre benigno. Quase todo o dano que ele causa vem da resposta ao susto — a do plantão e a da família.

Fontes deste capítulo

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde; Secretaria de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Epilepsia. Aprovado pela Portaria Conjunta nº 17, de 21 de junho de 2018. Brasília: Ministério da Saúde, 2018.

Sociedade Brasileira de Pediatria. Departamentos Científicos de Pediatria Ambulatorial e de Infectologia. Abordagem da febre aguda em pediatria e reflexões sobre a febre nas arboviroses. Documento Científico nº 206, 15 de maio de 2025.

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Ciência, Tecnologia, Inovação e Insumos Estratégicos em Saúde. Departamento de Assistência Farmacêutica e Insumos Estratégicos. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais: Rename 2024. Brasília: Ministério da Saúde, 2024. ISBN 978-65-5993-710-3. Atualizada pela Portaria GM/MS nº 6.324, de 26 de dezembro de 2024.

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Hospitalar e de Urgência. Protocolos de intervenção para o SAMU 192: Suporte Avançado de Vida. 2. ed. Brasília: Ministério da Saúde, 2016. Protocolos APed21 (rebaixamento do nível de consciência) e APed22 (crise convulsiva).

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Departamento de Imunizações e Doenças Transmissíveis. Manual de vigilância epidemiológica de eventos adversos pós-vacinação. 4. ed. atual. Brasília: Ministério da Saúde, 2021. ISBN 978-65-5993-045-6.

01

Responda antes de ler

Você vai escrever, para a família levar para casa, o que fazer se a criança tiver outra crise febril. Qual conjunto de orientações está correto?

02

O paciente que você vai ver

São nove e quarenta da noite numa UPA de porte médio e a fila verde tem dezenove nomes. O que entra pela porta não vem pela fila: vem no colo, correndo, com a mãe gritando o nome do filho e o pai vindo atrás com a sandália na mão. Miguel tem um ano e sete meses, doze quilos, e está mole. A mãe diz, sem respirar entre as frases, que ele estava quente desde a tarde, que ela deu remédio, que ele estava no chão brincando e de repente ficou duro, virou os olhos, ficou roxo em volta da boca e começou a tremer o corpo inteiro. Que ela achou que ele estava morrendo. Que durou uns dez minutos, talvez quinze, ela não sabe, foi muito tempo.

Você o recebe no braço. Ele respira. Está quente ao toque, com a roupa encharcada de suor, e responde ao estímulo com um resmungo e um movimento de retirada — não abre bem os olhos, não fixa você, mas se mexe. A saturação marca 96% em ar ambiente sem que você tenha feito nada. A frequência cardíaca está em 168. A temperatura axilar é 39,3 °C. Não há crise acontecendo neste momento: o que existe agora é uma criança sonolenta depois de alguma coisa que já terminou.

A técnica de enfermagem já está com o acesso na mão, perguntando se pode puncionar. O plantonista da sala de emergência, que estava reduzindo uma fratura, grita da outra sala perguntando se precisa de ajuda. O pai pergunta se vai precisar internar. A mãe pergunta se ficou alguma sequela. Alguém do balcão avisa que a tomografia do serviço está funcionando hoje, caso você precise. E, no meio disso, você percebe que a decisão mais importante da próxima meia hora não é nenhuma dessas.

A primeira tarefa é reconstruir o que aconteceu: idade, duração, início e distribuição dos movimentos, repetição e recuperação. A mãe observou sob medo; ajude-a a ancorar o tempo em acontecimentos concretos. Essas respostas orientam a avaliação, mas não decidem sozinhas a punção ou a internação. O exame atual, a causa da febre, os antecedentes e a evolução durante a observação completam a decisão.

Miguel está na faixa etária habitual de crise febril. Para usar esse diagnóstico, a equipe precisa avaliar se há infecção do sistema nervoso central ou outra causa aguda. Uma crise generalizada, breve, sem repetição em 24 horas e com recuperação completa tem prognóstico habitualmente benigno. Focalidade, duração de 15 minutos ou mais ou repetição tornam a crise complexa e exigem avaliação pediátrica dirigida. Alteração persistente da consciência e déficit neurológico são sinais de alarme, qualquer que seja o rótulo escolhido.

O que torna esta noite difícil não é o diagnóstico. É a distância entre a gravidade real do evento e a gravidade sentida por todos os que estão na sala — incluindo você. A mãe acabou de assistir ao que acredita ter sido a morte do filho. O pai quer um exame que prove que está tudo bem. E existe, dentro de quem atende, uma pressão silenciosa e honesta para fazer alguma coisa: pedir uma tomografia, colher um líquor, deixar internado para observar, prescrever um anticonvulsivante para não deixar acontecer de novo. Nenhuma dessas quatro coisas é indicada aqui — e cada uma delas tem um custo que recai sobre a criança.

A tarefa do interno nesta noite tem duas metades, e a segunda é a que muda desfecho. A primeira é provar, por história e exame, que a crise foi simples e que a febre tem um foco que se explica. A segunda é sentar com aquela família e desfazer o que o susto construiu — porque a família que sai daqui entendendo o que aconteceu não volta ao pronto-socorro em pânico no próximo pico febril, não medica a criança por conta, não a leva a três serviços em duas semanas e não passa cinco anos com medo de um termômetro. A criança que sai daqui com o diagnóstico certo e a família errada vai voltar. E vai voltar para o serviço que estiver mais perto, com o médico que tiver tempo, e alguma dessas idas terminará numa tomografia, num líquor ou num fenobarbital que nunca precisou existir.

03

Quem adoece disso

A crise febril é o transtorno convulsivo mais comum da infância. O Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Epilepsia, do Ministério da Saúde, situa a frequência em 2% a 5% das crianças; o manual de vigilância de eventos adversos pós-vacinação trabalha com uma incidência de 3% a 4% na faixa etária de risco, independentemente de vacinação. Traduzido para a porta: numa creche de cem crianças, entre duas e cinco terão apresentado ou apresentarão uma crise febril antes dos cinco anos. Não é evento raro, não é evento de subespecialista e não é evento que exija um neurologista para ser diagnosticado. É evento de médico geral, e a competência para conduzi-lo é exigível de qualquer interno.

O dado brasileiro de melhor qualidade vem de um inquérito de base populacional feito porta a porta em Barra do Bugres, no Mato Grosso, entre agosto de 2012 e agosto de 2013. Foram rastreadas 2.811 crianças, 81,6% da população-alvo, com confirmação diagnóstica por avaliação neurológica: 18 casos, o que dá uma prevalência de 6,4 por mil habitantes, com intervalo de confiança de 95% entre 3,8 e 10,1. Dessas 18 crianças, 16 tiveram crise simples e 2 tiveram crise complexa — 88,8% e 11,2%. Não houve diferença entre os sexos. A idade média da primeira crise foi de 19,38 meses, o que coloca o pico bem no segundo ano de vida.

Esse número brasileiro não é único nem estável: dois estudos anteriores encontraram prevalências de 13,9 por mil em São Paulo e 16 por mil em Pelotas, o dobro e o triplo do valor do Centro-Oeste. A diferença entre regiões e entre métodos de aferição é grande demais para que exista um número nacional de bolso. O que se leva para a beira do leito não é a prevalência exata, é a ordem de grandeza: crise febril é comum, e a criança à sua frente muito provavelmente tem a versão simples, que é a de longe mais frequente. Entre as crises febris atendidas, 70% a 75% são simples e 9% a 35% são complexas.

A distribuição por idade é a informação epidemiológica que mais muda decisão. A crise febril mora entre seis meses e cinco anos, com pico por volta dos dezoito meses. Fora dessa janela, o diagnóstico fica sob suspeita: crise com febre num lactente abaixo de seis meses não deve ser chamada de crise febril sem que se procure ativamente infecção do sistema nervoso central e distúrbio metabólico, e crise febril que começa depois dos cinco ou seis anos, ou que persiste além dessa idade, pede avaliação neurológica — é onde moram síndromes genéticas como a epilepsia generalizada com crises febris plus. A idade não é detalhe de classificação: é o primeiro filtro de risco do caso.

A história familiar é frequente e é um dado que se pergunta, não que se espera que a família ofereça. No inquérito brasileiro, um terço das crianças (33,3%) tinha parente de primeiro grau com crise febril e 11,1% tinham parente de primeiro grau com epilepsia. Um em cada quatro a dois em cada cinco casos, na literatura em geral, tem história familiar positiva. Isso tem duas consequências práticas: a pergunta sobre irmãos e pais que convulsionaram com febre na infância entra na anamnese de rotina, e a resposta positiva serve para explicar à família por que aconteceu — a predisposição é de família, não é culpa de quem não deu o antitérmico na hora certa.

A letalidade da crise febril simples é a informação que fecha o bloco, e ela é a mais importante do capítulo: não há dano cerebral agudo na crise febril simples, não há perda de desempenho escolar, de inteligência ou de comportamento atribuível a ela, e não há diferença de desenvolvimento cognitivo entre crianças tratadas com profilaxia e crianças não tratadas. O risco real que existe é o de recorrência, e a recorrência também é benigna. O que mata criança com febre e crise não é a crise febril: é a meningite bacteriana que se apresentou assim e passou despercebida, é o estado de mal epiléptico febril que não foi interrompido, e é a broncoaspiração de quem tentou colocar alguma coisa na boca da criança durante o abalo. Os três são evitáveis, e os três dependem do que o interno faz nas primeiras horas.

04

Por que acontece o que acontece

A crise febril é o encontro de três coisas que só coincidem nessa faixa etária: um cérebro imaturo, uma resposta inflamatória sistêmica e um limiar convulsivo que é herdado. Nenhuma das três, sozinha, produz o evento. É por isso que a maioria das crianças com febre alta nunca convulsiona, que a mesma criança pode ter febre de 40 °C dez vezes e convulsionar uma só, e que a crise praticamente desaparece depois dos cinco anos ainda que a febre continue acontecendo a vida inteira.

O cérebro entre seis meses e cinco anos está no meio de duas transições que o tornam eletricamente instável. A primeira é a maturação dos circuitos inibitórios: a sinalização gabaérgica, que no cérebro adulto freia a descarga neuronal, ainda está trocando de comportamento nessa faixa de idade e freia menos. A segunda é a excitabilidade aumentada dos circuitos em plena formação de sinapses, que é justamente o que permite o aprendizado explosivo dos primeiros anos. O mesmo desenho que faz uma criança de dois anos aprender trinta palavras por semana a faz convulsionar com febre — e o amadurecimento desses circuitos é o que faz o fenômeno se extinguir sozinho por volta dos cinco anos, sem tratamento nenhum. A crise febril não é uma doença que cura: é uma janela de idade que fecha.

A febre entra por dois caminhos. O primeiro é o mais óbvio e o menos importante: a temperatura em si altera a cinética de canais iônicos e reduz o limiar de disparo. O segundo é o que explica o comportamento clínico do evento: as próprias citocinas que produzem a febre têm ação direta sobre a excitabilidade neuronal. Quando o pirógeno exógeno — vírus, bactéria, toxina — encontra o macrófago tecidual, o que ganha a circulação são interleucina 1, interleucina 6 e fator de necrose tumoral, que chegam ao sistema nervoso central e ativam o centro termorregulador da região pré-óptica do hipotálamo à produção de prostaglandina E2. Essa mesma sinalização inflamatória, e não apenas o calor, é o que baixa o limiar convulsivo.

Daí decorre o achado clínico mais útil do capítulo, e o que mais desmonta a expectativa da família: a crise acontece na subida da febre, e não no pico. Em geral ela é o primeiro sinal da doença febril — muitas vezes a família nem sabia que a criança estava com febre até ela convulsionar. A distribuição temporal descrita na literatura é clara: 21% das crises ocorrem na primeira hora de doença febril, 57% entre uma e vinte e quatro horas, e 22% depois de vinte e quatro horas. Ou seja, quase quatro em cada cinco crises acontecem dentro do primeiro dia. Quando a mãe diz que não deu tempo de dar remédio, ela está descrevendo a fisiopatologia com precisão.

Esse mecanismo é o que condena, de antemão, a estratégia mais popular e mais inútil do país. Se a crise depende da velocidade da subida térmica e da sinalização inflamatória, e não do valor absoluto da temperatura, então derrubar o número no termômetro não protege. É exatamente o que a evidência mostra: uma metanálise de três estudos, com 540 crianças de seis a setenta e dois meses que já haviam tido crise febril, não encontrou diferença na taxa de novas crises entre quem recebeu antitérmico profilático e quem recebeu placebo — razão de chances de 0,9, com intervalo de confiança de 95% entre 0,57 e 1,43, um intervalo que atravessa o 1 com folga. A recomendação da Sociedade Brasileira de Pediatria contra o uso preventivo de antitérmico para prevenir convulsão febril tem nível de evidência I e força de recomendação E, a mais forte contra que existe na escala.

O componente genético fecha o mecanismo. O padrão de herança é variável e poligênico, gêmeos monozigóticos concordam mais que dizigóticos, e há um espectro que vai da predisposição comum e benigna, presente em um a dois de cada cinco casos, até síndromes definidas — a epilepsia generalizada com crises febris plus, ligada a genes de canal de sódio como o SCN1A e o SCN1B, em que as crises são frequentemente complexas, ultrapassam os cinco anos de idade e evoluem para epilepsia generalizada. Isso muda a conduta em um ponto específico: crises febris que continuam depois dos cinco anos, que são repetidamente complexas ou que vêm acompanhadas de crises sem febre não são mais o quadro benigno deste capítulo e pedem avaliação de neurologia pediátrica.

Por fim, o que o mecanismo explica sobre a duração. A maioria das crises febris cessa espontaneamente em dois a três minutos, porque os mecanismos de terminação da crise ainda funcionam. Quando eles falham, a crise se autoperpetua: a exposição prolongada ao disparo faz os receptores GABA-A serem internalizados na membrana e os receptores glutamatérgicos migrarem para a superfície, de modo que o cérebro fica progressivamente menos sensível ao freio e mais sensível ao acelerador. Essa é a razão farmacológica de uma regra que parece arbitrária: benzodiazepínico dado no minuto cinco funciona, e o mesmo benzodiazepínico dado no minuto trinta funciona muito pior. Cinco por cento das crises febris evoluem para estado de mal epiléptico febril, e ele é a forma mais comum de estado de mal na infância. É o único subgrupo em que dano neuronal agudo é descrito — e o relógio é o que separa um grupo do outro.

Três painéis sobre febre, suscetibilidade e idade. A curva não prevê o momento da crise; excitação e inibição aparecem como equilíbrio conceitual; a faixa usual do capítulo é de seis meses a cinco anos.
Febre, suscetibilidade e maturação participam do quadro. A temperatura isolada não permite prever a crise, nem restringi-la à subida da febre; a faixa etária orienta a avaliação, sem excluir outras síndromes.
05

Como se apresenta de verdade

A crise febril quase nunca é vista por quem a diagnostica. Ela acontece em casa, no colo, na creche, e termina antes de a criança chegar ao serviço; o que entra pela porta é o depois. Reconhecer a apresentação, portanto, é sobretudo saber conduzir uma anamnese sob pressão emocional — porque a anamnese é o exame.

O espectro tem quatro degraus, e a distância entre eles é toda clínica: a crise simples, a crise complexa, o estado de mal epiléptico febril e a crise com febre que não é crise febril nenhuma — é a apresentação de uma infecção do sistema nervoso central ou de outro processo agudo. Os quatro se separam por idade, duração, tipo de movimento, repetição em vinte e quatro horas e recuperação. Nada disso vem de exame; tudo isso vem de perguntas.

O que a família viu, e como traduzir isso

A descrição típica de uma crise febril generalizada tem sempre os mesmos elementos, e vale conhecê-los na linguagem da família porque é assim que eles chegam. Primeiro a criança fica dura — a fase tônica, contração muscular sustentada, com os olhos revirados ou desviados, os dentes cerrados e frequentemente cianose perioral, porque a musculatura respiratória também está contraída. Depois vêm os abalos rítmicos, simétricos, de braços e pernas — a fase clônica, contrações e relaxamentos repetitivos, que a família descreve como tremedeira. Pode haver salivação abundante, que a família chama de espuma, e liberação de esfíncteres. Ao final, a criança fica flácida, respira profundamente e dorme.

Nem toda crise febril é tônico-clônica. Ela pode ser puramente tônica, puramente clônica ou atônica — nesta última, a criança simplesmente perde o tônus e desaba, o que a família descreve como desmaio. E há apresentações que passam despercebidas: olhar fixo, parada de comportamento, cianose sem abalo. A regra prática é que crise generalizada sempre altera a consciência; se a criança respondia ao nome, olhava para a mãe e apertava a mão dela durante o episódio, não era crise generalizada.

As perguntas que traduzem o relato em diagnóstico são cinco, e é útil fazê-las nesta ordem, porque cada uma prepara a seguinte. Quanto tempo durou, cronometrado ou estimado por um evento externo — o tempo do trajeto, o tempo de uma música, o tempo até o vizinho chegar. Foi o corpo inteiro ou começou de um lado, com a cabeça ou os olhos virando para um lado só. Aconteceu mais de uma vez desde ontem. Quanto tempo levou até ele voltar a reconhecer vocês. E, por último, quando a febre começou em relação à crise. A resposta a essa quinta pergunta costuma ser a mais reveladora do quadro: na crise febril, a febre em geral estava começando ou nem tinha sido percebida.

O tempo relatado pela família é sistematicamente superestimado, e essa distorção é regra, não exceção. Uma crise de dois minutos assistida por uma mãe é descrita como dez. Isso não é motivo para desprezar o relato, é motivo para ancorá-lo: em vez de perguntar quantos minutos durou, pergunte o que aconteceu enquanto durava. Se a crise já tinha acabado quando o pai voltou do quarto com o celular, foram segundos. Se ela ainda estava acontecendo quando a ambulância chegou, foram muitos minutos. O evento externo é mais confiável que o número.

Crise febril simples: as cinco coisas que precisam ser verdade ao mesmo tempo

A definição normativa brasileira está no Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Epilepsia, do Ministério da Saúde: crise febril simples é uma convulsão generalizada breve, com menos de quinze minutos, não recorrente dentro de vinte e quatro horas, que ocorre durante uma doença febril não resultante de doença aguda do sistema nervoso, em criança entre seis meses e cinco anos, sem déficits neurológicos e sem crises epilépticas afebris anteriores.

Vale destrinchar a definição em cinco condições verificáveis, porque a classificação só é simples quando as cinco valem juntas. A idade está entre seis meses e cinco anos. A crise foi generalizada, e não focal. A crise durou menos de quinze minutos. A crise não se repetiu dentro das vinte e quatro horas do mesmo episódio febril. E a criança recuperou-se de forma espontânea e completa, com exame neurológico normal depois — sem déficit residual e sem sonolência que não passa. Some-se o pressuposto negativo que sustenta o rótulo: não há infecção do sistema nervoso central, não há distúrbio metabólico definido, não há história de crise sem febre.

É importante entender o que esse rótulo autoriza, porque ele é o produto mais valioso do atendimento. Uma crise febril simples, confirmada por história e exame, não exige exame laboratorial de rotina, não exige eletroencefalograma, não exige neuroimagem e não exige punção lombar fora de três situações específicas. A criança pode ir para casa depois de um período de observação, com o foco da febre tratado e a família orientada. Provar que a crise foi simples não é um exercício acadêmico de classificação: é o que dispensa a criança de tudo o que vem depois.

Ainda dentro do simples há gradações que a família nota e que não mudam a conduta: crise mais longa dentro do limite de quinze minutos, cianose intensa, liberação de esfíncteres, salivação abundante, ou uma criança que dormiu por uma hora depois. Nada disso, isoladamente, transforma a crise em complexa. Sonolência pós-ictal pode ser esperada, mas a equipe deve avaliar resposta a estímulos e acompanhar a recuperação. O que importa é se ela desperta ao estímulo e se, ao despertar, está neurologicamente normal.

Comparação dos três critérios clássicos: duração, distribuição e recorrência em 24 horas; quadros separados para recuperação neurológica e faixa etária.
Duração, focalidade e recorrência compõem a classificação clássica. Idade, recuperação neurológica e exclusão de outras causas completam a avaliação; alteração persistente da consciência é sinal de alerta.

Crise febril complexa: quatro portas de entrada, e basta uma

Crise focal, duração de 15 minutos ou mais ou recorrência em 24 horas são características de crise febril complexa. Algumas referências incluem recuperação incompleta entre os critérios; clinicamente, o essencial é que sonolência persistente ou déficit focal nunca sejam atribuídos ao pós-ictal sem reavaliação. Déficit neurológico prévio e idade fora da faixa habitual são modificadores da investigação e do diagnóstico diferencial.

Focal significa que a crise começou ou permaneceu limitada a uma parte do corpo, ou que houve versão sustentada da cabeça e dos olhos para um lado. É a característica mais difícil de capturar na anamnese e a mais importante, porque é a que mais se associa a risco de epilepsia futura. A pergunta útil não é se a crise foi focal — a família não sabe o que isso quer dizer. É: quando começou, o que se mexeu primeiro. Um braço só. A boca torceu para um lado. Os olhos ficaram parados olhando para a parede da direita. Vale também perguntar se, depois que a crise acabou, ele mexia os dois braços do mesmo jeito.

A duração precisa ser reconstruída desde o início observado, incluindo o tempo antes da chegada. Use horários de telefonemas, vídeos e deslocamentos. A necessidade de medicação não prova duração acima de 15 minutos: o tratamento de uma crise em curso começa a partir de 5 minutos. São dois limiares com funções diferentes, um terapêutico e outro classificatório.

Recorrência dentro de vinte e quatro horas significa duas ou mais crises no mesmo episódio febril, com recuperação da consciência entre elas. É o critério que se perde quando não se pergunta pelo dia anterior — e a pergunta correta não é se ele já convulsionou antes na vida, é se ele convulsionou mais de uma vez desde que essa febre começou.

Alteração neurológica pós-ictal quer dizer que a criança não voltou ao normal. A forma clássica é a paralisia de Todd: hemiparesia transitória que se instala depois da crise, dura de minutos a horas e regride sozinha. Ela aponta para foco, mesmo quando a família descreveu a crise como generalizada. Também conta como pós-ictal alterado o rebaixamento que não melhora com o passar do tempo: a criança que, uma hora depois, continua tão sonolenta quanto estava na chegada — ou que piorou.

A crise complexa pede avaliação pela equipe pediátrica e investigação dirigida à apresentação. Uma criança que teve duas crises breves, recuperou-se completamente e permanece bem não tem o mesmo risco imediato de outra com focalidade, prostração persistente ou sinais meníngeos. Escolha cada exame pela hipótese que ele pode esclarecer. Internação depende, entre outros fatores, de recuperação, doença subjacente, crises prolongadas ou recorrentes, necessidade de suporte e segurança do seguimento (RCH, 2026).

Estado de mal epiléptico febril: quando o relógio vira o diagnóstico

O estado de mal epiléptico febril é uma crise febril com duração acima de trinta minutos, seja como crise única prolongada, seja como crises subentrantes — crises que se repetem sem que haja recuperação completa do nível de consciência entre elas. Ele corresponde a cerca de 5% de todas as crises febris e é a causa mais comum de estado de mal epiléptico na infância. É o único subgrupo em que dano cerebral agudo é descrito, e é o único em que a demora do médico custa neurônio.

A forma subentrante é a que engana. A criança convulsiona, para, e o plantão relaxa; três minutos depois ela convulsiona de novo, e entre uma coisa e outra ela nunca chegou a acordar de verdade. Vista em fatias, cada crise é curta. Vista de fora, é estado de mal. A pergunta que desfaz o engano é sempre a mesma: entre um abalo e outro, ela chegou a acordar, a olhar para vocês, a chorar direito? Se não chegou, o relógio nunca parou.

O manejo dos primeiros minutos é o mesmo de qualquer crise que não cessa e está descrito no bloco de conduta, com doses. O que muda no estado de mal, e que se cobra do interno, é a sequência e a antecipação: benzodiazepínico repetido no tempo certo, droga de segunda linha preparada antes de ser necessária, material de via aérea separado, e o chamado por ajuda feito enquanto ainda há tempo de a ajuda chegar. O protocolo completo do estado de mal epiléptico, até o refratário, é de Epilepsias e síndromes epilépticas da infância, nesta apostila.

O pós-ictal pode causar sonolência transitória, mas não autoriza ignorar rebaixamento profundo. Uma criança com consciência muito reduzida precisa de avaliação imediata da proteção da via aérea e da ventilação, mesmo se a crise cessou. Use a evolução clínica e a necessidade de suporte para decidir com a equipe; o diagnóstico de pós-ictal é reavaliado continuamente.

O lactente pequeno: onde o rótulo deixa de caber

Abaixo de seis meses, o diagnóstico de crise febril é, na prática, um diagnóstico que não se faz na primeira consulta. A janela etária existe porque o mecanismo depende de um estágio de maturação cerebral, e porque abaixo dela a chance de a crise com febre ser outra coisa cresce muito. Nessa idade, crise com febre exige investigação ativa de infecção do sistema nervoso central e de causa metabólica, e a criança não vai para casa depois de quatro horas de observação.

Entre seis e doze meses, o rótulo cabe, mas o exame não é confiável. Os sinais clínicos de meningite — rigidez de nuca, sinais meníngeos — são pouco sensíveis nessa faixa etária, e a criança pode ter meningite bacteriana com um exame que parece bom. Por isso a idade entra sozinha como critério para pensar em punção lombar, o que é detalhado no bloco de investigação. Entre doze e dezoito meses a mesma limitação vale, em grau menor, e é o que sustenta as réguas brasileiras que usam dezoito meses como corte operacional.

Vale registrar que a criança de seis a doze meses ainda não recebeu nenhuma dose da vacina tríplice viral, aplicada aos doze meses, e recebeu esquemas incompletos de outras vacinas. A caderneta, portanto, muda o cálculo: a criança de nove meses com febre e crise, sem esquema completo para a idade ou com esquema atrasado, tem risco maior de doença bacteriana invasiva do que a criança de três anos com caderneta em dia — e isso pesa na decisão de investigar.

O que se parece com crise febril e não é

O calafrio é o imitador mais frequente e o mais fácil de desfazer. Na subida da febre, a criança treme de forma rítmica, fina, generalizada, com as extremidades frias — e permanece consciente. Se ela olha para a mãe, responde ao nome, chora quando é tocada, é calafrio. O quadro clínico da febre, aliás, é justamente esse: extremidades frias, ausência de sudorese, sensação de frio e tremores, com taquicardia e taquipneia.

A síncope febril acontece em crianças maiores, geralmente em pé, com palidez que antecede a queda e recuperação rápida e completa em segundos, sem confusão prolongada. Pode haver alguns abalos breves no fim do episódio — mioclonias de hipóxia — que confundem quem viu. A pista é a sequência: palidez e perda de tônus primeiro, abalos curtos depois, recuperação imediata.

O delírio febril é um estado confusional agudo com a febre alta: a criança fala coisas sem sentido, não reconhece direito o ambiente, pode ficar agitada e com alucinações visuais, mas mantém o tônus e não tem movimento tônico-clônico. É assustador e é benigno; costuma ceder quando a temperatura baixa. O que ele não pode ser é confundido com pós-ictal prolongado — no delírio, não houve crise antes.

As mioclonias do sono, os reflexos primitivos exagerados, o soluço, a cólica e as parassonias como o terror noturno entram na lista de diagnósticos diferenciais de crise convulsiva em pediatria e aparecem juntos em fluxogramas de pronto-atendimento brasileiros pela razão óbvia: chegam com a mesma queixa. Todos têm em comum a preservação da consciência ou a ocorrência exclusivamente no sono, com criança normal ao ser despertada.

E há o que não é imitador, é a coisa séria: crise com febre em criança com rebaixamento persistente, petéquias ou púrpura, rigidez de nuca, fontanela abaulada, irritabilidade que não cede ao colo, aspecto toxêmico ou prostração acentuada não é crise febril até prova em contrário. Essa lista de sinais de alerta é o gatilho para considerar meningite, e o que fazer com ela está no bloco de investigação.

A criança que já vem com história

Criança com atraso do desenvolvimento neuropsicomotor, paralisia cerebral, malformação do sistema nervoso central ou déficit neurológico prévio que convulsiona com febre não está no quadro benigno deste capítulo. O déficit prévio é, por definição do protocolo federal, critério de crise complexa — e é também um dos principais fatores de risco para epilepsia futura. Nessas crianças, a febre desmascara um cérebro que já tinha limiar baixo, e a investigação é individualizada.

Criança com epilepsia já diagnosticada que convulsiona durante uma febre está tendo uma crise epiléptica desencadeada por febre, e não uma crise febril. A diferença não é semântica: nela, a conduta inclui verificar adesão, verificar se a dose ficou defasada pelo ganho de peso e verificar perda por vômitos ou diarreia, além de tratar a infecção. O manejo da epilepsia é de Epilepsias e síndromes epilépticas da infância, nesta apostila.

Criança em uso de antibiótico nos dias que antecederam a crise merece um parágrafo isolado, porque é a armadilha mais silenciosa do capítulo. O antibiótico pode ter tratado parcialmente uma meningite e apagado os sinais clínicos, transformando um quadro florido num quadro arrastado e inespecífico. Por isso o uso prévio de antibiótico entra, sozinho, como critério para considerar punção lombar mesmo numa crise que parece simples.

06

Como fechar o diagnóstico

A investigação da crise febril tem uma peculiaridade que a distingue de quase tudo o mais no internato: na maioria absoluta dos casos, o exame certo é nenhum exame. O diagnóstico de crise febril é eminentemente clínico, e o protocolo federal é literal ao dizer que, nos casos de crise febril simples, não estão recomendados exames laboratoriais de rotina, nem eletroencefalograma, nem exames de imagem. Quem pede, não está sendo cauteloso: está transferindo para a criança o custo da própria insegurança.

Isso não significa que não há investigação: significa que ela muda de alvo. O que se investiga não é a crise — é a febre. E há uma exceção que domina todo o bloco e não pode passar: a crise que é a apresentação de uma meningite.

1. O primeiro exame é a história de quem viu

A anamnese é o exame diagnóstico da crise febril, e ela responde três perguntas em sequência: isso foi uma crise; foi uma crise febril; foi simples ou complexa. Ela é feita com a testemunha, não com a criança, e a testemunha precisa ser encontrada — muitas vezes quem traz a criança à unidade não é quem estava na sala quando aconteceu. Se a avó viu e a mãe chegou depois, é com a avó que se conversa, ainda que por telefone.

A primeira pergunta separa crise de imitador: houve perda ou alteração da consciência durante o evento. Se a criança respondia, olhava, chorava com sentido, não houve crise generalizada. A segunda pergunta situa a febre: quando a febre começou em relação ao episódio, e se alguém chegou a medir. Não é raro que ninguém tenha medido e que a febre só seja documentada na unidade — o que basta, desde que exista febre no episódio. A terceira, a quarta e a quinta são as que classificam: duração, lateralidade e repetição em vinte e quatro horas.

A anamnese também precisa recolher três antecedentes que mudam a régua e que ninguém oferece espontaneamente. O primeiro é uso de antibiótico nos dias anteriores, porque ele pode mascarar meningite. O segundo é a caderneta de vacinação, com data das últimas doses — tanto pelo estado imunitário quanto pela possibilidade de o quadro ser um evento adverso pós-vacinação, o que muda o que se diz à família e gera notificação. O terceiro é história familiar de crise febril e de epilepsia em parentes de primeiro grau, presente em um terço e em um décimo dos casos brasileiros, respectivamente, e que serve tanto para explicar quanto para estimar recorrência.

Por fim, a anamnese precisa recolher o que a família fez. Deu antitérmico e qual, em que dose e com que apresentação. Tentou colocar algo na boca da criança — pergunta que não é curiosidade, é rastreio de trauma de mucosa e de aspiração. Deu banho frio, colocou álcool, deu remédio de outra pessoa. Nada disso é para julgar; é para saber o que já entrou na criança e o que precisa ser desfeito na conversa.

2. O segundo exame é o exame neurológico depois da crise

O exame físico da criança que teve crise febril tem dois objetivos que não se confundem: demonstrar que o exame neurológico voltou ao normal e encontrar o foco da febre. O primeiro é o que valida o rótulo de crise simples; o segundo é o que resolve o caso.

Examine a criança repetidamente, observando tendência da consciência, proteção da via aérea, ventilação, pupilas, força e simetria dos movimentos. Sonolência pode ocorrer após a crise, mas precisa melhorar. Ausência de recuperação ou déficit focal persistente exige avaliação urgente de outras causas. Paralisia de Todd é uma possibilidade, não uma conclusão presumida diante de assimetria; sua evolução deve ser documentada.

A busca dos sinais de alerta é feita em cada reavaliação, e não uma vez só. A lista usada em pronto-atendimentos públicos brasileiros é curta e vale decorar: aspecto toxêmico; prostração acentuada, letargia ou coma; rebaixamento do nível de consciência; petéquias; rigidez de nuca ou sinais meníngeos; irritabilidade; fontanela abaulada. Qualquer um deles obriga a considerar meningite. Vale acrescentar a pele: exantema petequial ou purpúrico com má perfusão em criança febril não é assunto deste capítulo — é doença meningocócica até que se prove o contrário, e ela tem prioridade sobre toda a discussão de crise febril.

O exame físico também precisa procurar ativamente o foco da febre, porque é ele que fecha o caso: otoscopia bilateral, orofaringe, ausculta pulmonar, avaliação de abdome, inspeção de pele, avaliação de hidratação, e a pergunta pelo padrão miccional. Otite média aguda, infecção de vias aéreas superiores, síndrome gripal, pneumonia e infecção urinária são as causas comuns que desencadeiam crise febril. Achar o foco é o que permite tratar a doença e dar alta com um diagnóstico completo, e não com 'crise febril a esclarecer'.

Os parâmetros de alerta da criança febril fecham o exame e são numéricos: frequência cardíaca igual ou acima de 160 abaixo de doze meses, igual ou acima de 150 entre doze e vinte e quatro meses, igual ou acima de 140 entre dois e cinco anos; frequência respiratória acima de 50 entre seis e doze meses e acima de 40 acima de doze meses; saturação de oxigênio igual ou abaixo de 95%; enchimento capilar acima de três segundos. Eles não fazem diagnóstico, mas mudam o nível de risco e, portanto, o que se investiga.

3. A glicemia capilar, e o que mais se checa por segurança

Há um único exame que se faz em toda criança que chega convulsionando ou em pós-ictal, sem exceção e sem discussão: a glicemia capilar. Ela não é feita para diagnosticar crise febril — é feita porque hipoglicemia é causa tratável de crise, leva segundos para ser afastada e mata quem não a procura. Os protocolos brasileiros de emergência a colocam dentro da avaliação primária, junto com via aérea, ventilação e circulação, e definem a conduta quando ela está baixa. Fazer a glicemia não contradiz a regra de não pedir exames: ela pertence à estabilização, não à investigação diagnóstica.

Fora dela, na crise febril simples com criança recuperada e foco de febre identificado, não há exame obrigatório. Eletrólitos, cálcio, magnésio, ureia e creatinina não entram de rotina: a criança que precisa deles é a que tem vômitos, diarreia, desidratação relevante, uso de diurético ou quadro que sugira distúrbio metabólico — e nesse caso a indicação vem do quadro, não da crise. A investigação de desidratação e distúrbio hidroeletrolítico associada a diarreia é tema próprio e sai remetida.

Também se afasta trauma de crânio. A pergunta é simples e se faz sempre: houve queda ou pancada na cabeça antes do episódio? Crise após traumatismo cranioencefálico sai deste fluxo. E, quando a história contada não explica o achado, ou quando a lesão não combina com o mecanismo relatado, a hipótese de maus-tratos entra e tem caminho próprio, que sai remetido.

4. O que se investiga é a febre — e a régua é a idade

Depois de estabelecido que a crise foi simples e que a criança está neurologicamente normal, o caso deixa de ser um caso neurológico e vira um caso de criança febril. A investigação segue exatamente a mesma régua que seguiria se essa criança tivesse chegado com febre e sem crise nenhuma. Isso é contraintuitivo e é o núcleo do capítulo: a crise não aumenta a probabilidade de infecção bacteriana grave numa criança que se recuperou completamente, e portanto não justifica, sozinha, uma bateria de exames.

Se o exame físico revela o foco — otite, faringoamigdalite, pneumonia, quadro viral de vias aéreas com sinais claros —, a investigação está encerrada, trata-se o foco e a discussão de exames acaba aqui. Se o exame físico não revela foco, a criança tem febre sem sinais localizatórios, definida como febre com menos de sete dias de duração em criança cuja história e exame não revelaram a causa, e entra na régua etária correspondente — o que é tema próprio da apostila de emergências pediátricas e sai remetido, com a nota de que a estratificação depende de idade, estado geral, situação vacinal e altura da temperatura, e de que a maioria dessas crianças tem doença viral autolimitada.

O que a crise muda nessa investigação é pouco e é preciso: primeiro, ela obriga a documentar a febre, mesmo que a família não a tenha medido; segundo, ela desloca para cima a atenção ao sistema nervoso central, que é a exceção do bloco seguinte; e terceiro, ela é, ela própria, um dos sinais gerais de perigo da Atenção Integrada às Doenças Prevalentes na Infância — convulsões ou movimentos anormais há menos de setenta e duas horas — o que, na atenção básica, obriga referência urgente ao hospital depois do tratamento prévio indicado. Numa unidade básica de saúde sem retaguarda, portanto, a criança com crise febril não fica: ela é referida. Num pronto-atendimento com médico e possibilidade de observação, ela fica e é reavaliada.

Protocolos locais podem prever observação e exames adicionais em subgrupos. Esse fluxo deve ser compreendido em seu contexto, sem ser convertido em uma bateria universal. Na prática, hemograma e marcadores inflamatórios, urina ou radiografia são solicitados para uma hipótese definida pela febre e pelo exame. Registre a pergunta de cada exame e discuta com o responsável quando a padronização local e a apresentação individual exigirem ajuste.

5. Quando puncionar: a exceção que não pode passar

A meningite bacteriana pode se apresentar como crise convulsiva com febre, e a criança pequena pode tê-la sem rigidez de nuca. Essa é a única razão pela qual a punção lombar continua na conversa depois de uma crise que parece simples — e é uma razão suficiente, porque o custo de perder o diagnóstico é a morte ou a sequela permanente.

A punção investiga suspeita de infecção do sistema nervoso central; não é uma consequência automática do adjetivo “complexa”. Sinais meníngeos, alteração persistente da consciência, aspecto muito doente e outros achados aumentam a suspeita. No lactente, vacinação, antibiótico prévio, idade e evolução entram no conjunto, pois manifestações podem ser pouco específicas. A decisão é discutida com o responsável, incluindo a segurança do procedimento (RCH, 2026).

A literatura pediátrica brasileira acrescenta um quarto e um quinto gatilho que valem no plantão: pós-ictal prolongado — a criança que não recupera o nível de consciência no tempo esperado — e comprometimento do estado geral. E lembra a razão de idade: os sinais clínicos de meningite não são confiáveis abaixo de dezoito meses, o que explica por que essa idade, e não doze meses, virou o corte operacional em vários serviços.

Os números que sustentam a régua ajudam a manter a cabeça fria nos dois sentidos. Numa série de 455 crianças admitidas com febre e crise, cerca de 30% receberam punção e a cultura de líquor foi positiva em zero delas. Em outra série, de 839 crianças com crise febril complexa, foram puncionadas as 260 que tinham indicação no momento da avaliação, com cinco culturas positivas — 1,9% das puncionadas, 0,6% do total —, todas em menores de doze meses; e nenhuma das crianças não puncionadas desenvolveu quadro de meningite bacteriana depois. Ou seja: a punção indicada por critério encontra doença, sobretudo no lactente pequeno; a punção feita por ansiedade não encontra nada.

Criança com prostração persistente, sinais meníngeos, púrpura, má perfusão ou déficit focal requer avaliação urgente para infecção grave e outras causas. Isso não significa “punção agora” em qualquer condição: estabilize, examine e verifique contraindicações. Alteração de consciência em deterioração ou sinal focal pode exigir adiamento e investigação prévia. Antibiótico não espera um procedimento inseguro ou demorado. Na criança recuperada, sem sinais de alarme, a necessidade de líquor é individualizada, mesmo após crise complexa.

Duas regras de segurança fecham o tópico. Se houver contraindicação à punção — instabilidade hemodinâmica, sinais de hipertensão intracraniana, coagulopatia, infecção no sítio — e a hipótese de meningite estiver de pé, o antibiótico é iniciado imediatamente e a punção é adiada, nunca o contrário: colher líquor não é mais importante que tratar. E, se a suspeita de meningite se confirmar, o caso sai deste capítulo: o manejo antimicrobiano, a corticoterapia, o isolamento, a quimioprofilaxia de contatos e a notificação são tema próprio.

Fluxo clínico: suspeita de infecção do sistema nervoso central leva à estabilização e à avaliação da segurança da punção; sem suspeita e com crise simples recuperada, punção não é rotina.
A punção investiga suspeita de infecção do SNC e depende da segurança do procedimento. Idade e contexto entram no julgamento clínico; não existe, nesta figura, escore por quantidade de sinais. O tratamento indicado não deve esperar uma punção insegura ou demorada.

6. O que não pedir, e o que custa pedir

EEG não é exame de rotina após crise febril simples e não deve ser solicitado apenas para tranquilizar a família. Nas apresentações complexas ou atípicas, sua indicação depende da suspeita de epilepsia, doença neurológica subjacente, crises recorrentes ou recuperação incompleta; pode integrar o seguimento especializado. Um traçado obtido logo após a crise precisa ser interpretado nesse contexto. A classificação complexa não torna EEG e neuroimagem obrigatórios para todos (RCH, 2026).

A neuroimagem — tomografia computadorizada ou ressonância magnética de crânio — não é indicada de rotina e deve ser considerada apenas em pacientes com anormalidades neurológicas focais, estado de mal epiléptico febril, sinais sugestivos de aumento da pressão intracraniana, possível traumatismo cranioencefálico ou suspeita de malformação estrutural. O custo de pedir uma tomografia sem indicação é concreto: radiação ionizante em crânio de criança pequena, frequentemente sedação para conseguir a imagem, transporte para fora da área de observação, e um achado incidental que gera nova cascata. A frase 'já que a tomografia está funcionando hoje' não é indicação clínica.

Hemograma e proteína C reativa não fazem diagnóstico de crise febril e não predizem meningite. Eles pertencem à investigação da febre, quando ela é indicada pela régua etária e pela ausência de foco, e não à investigação da crise. Pedi-los reflexamente em toda criança que convulsionou produz resultados intermediários que ninguém sabe interpretar e que, na dúvida gerada, terminam em antibiótico empírico e internação.

Punção lombar sem indicação tem custo próprio: é um procedimento doloroso, exige contenção da criança, tem taxa de insucesso e de punção traumática que gera resultado inconclusivo, e o resultado inconclusivo quase sempre termina em antibiótico empírico e internação de quarenta e oito horas. Não puncionar quem não tem indicação é conduta ativa, não omissão.

7. O diferencial mora aqui: o exame que confirma um é o que exclui o outro

O diferencial da crise febril não é uma lista de doenças a decorar — é uma sequência de exclusões que o próprio raciocínio da investigação já executa. A pergunta sobre alteração da consciência exclui calafrio, tremor e delírio febril. A ancoragem da duração e a pergunta sobre lateralidade separam simples de complexa. O exame neurológico na reavaliação exclui paralisia de Todd e rebaixamento persistente. A glicemia capilar exclui hipoglicemia. A pergunta sobre trauma exclui crise pós-traumática. A caderneta e a data da última vacina levantam evento adverso pós-vacinação. E os sinais de alerta, somados à idade, decidem a punção, que é o exame que separa crise febril de meningite.

Vale explicitar o par mais perigoso, porque ele é o único em que errar mata. Crise febril e meningite bacteriana compartilham febre, crise e criança pequena. O que as separa clinicamente é a trajetória depois da crise: na crise febril a criança melhora progressivamente e, em uma a duas horas, está neurologicamente normal; na meningite ela não melhora, ou melhora e piora de novo, e vai acumulando sinais — irritabilidade que não cede ao colo, recusa alimentar, vômitos, fontanela tensa, petéquias, rebaixamento. O exame que confirma meningite, o líquor, é exatamente o exame que, quando normal, devolve a criança ao rótulo benigno. Por isso a observação com reavaliações programadas é, ela mesma, um método diagnóstico: o tempo é o teste.

O segundo par relevante é crise febril e primeira crise afebril. Se a febre for baixa, tardia ou duvidosa, e a criança tiver mais de cinco anos ou menos de seis meses, a hipótese de crise não provocada entra e o caminho é outro — observação, exclusão de causas agudas e avaliação neurológica, sem anticonvulsivante de manutenção prescrito na porta. Epilepsia se diagnostica com pelo menos duas crises não provocadas separadas por mais de vinte e quatro horas, ou com uma crise e risco de recorrência acima de 60%, ou com síndrome epiléptica definida; nenhum desses critérios se preenche numa madrugada de plantão.

O terceiro par é crise febril e evento adverso pós-vacinação. Convulsão febril ou afebril nas primeiras setenta e duas horas após a vacinação é evento notificável, e a definição de caso da vigilância exige história clínica detalhada do episódio, incluindo temperatura corporal, estado de sonolência após o evento e evolução, além dos dados da vacina — nome, lote e fabricante. Isso não muda o manejo agudo da crise, que é o mesmo; muda o que se registra, o que se notifica e o que se orienta sobre as próximas doses.

8. O que existe no SUS, e como isso muda a conduta

A boa notícia deste capítulo é que a conduta correta é também a mais disponível. O diagnóstico é clínico, e um interno com relógio, lanterna, otoscópio e tempo para conversar tem tudo de que precisa. A punção lombar exige agulha, kit estéril e laboratório — está ao alcance de qualquer hospital com pronto-socorro pediátrico e não depende de tecnologia escassa. O que é escasso no país é justamente o que não é indicado: tomografia, ressonância e eletroencefalograma com laudo em tempo útil. A régua correta e a régua exequível coincidem, o que é raro.

Do lado dos medicamentos, a Relação Nacional de Medicamentos Essenciais define o que se pode prescrever e em que apresentação, e isso muda a conta à beira do leito. O diazepam do Componente Básico existe como solução injetável de 5 mg/mL e como comprimidos de 5 mg e 10 mg. O midazolam do Componente Básico existe como solução oral de 2 mg/mL. O fenobarbital existe como solução injetável de 100 mg/mL, solução oral de 40 mg/mL e comprimido de 100 mg; a fenitoína, como solução injetável de 50 mg/mL. Os antitérmicos aparecem como paracetamol solução oral 200 mg/mL, dipirona solução oral e injetável 500 mg/mL e ibuprofeno suspensão oral 50 mg/mL.

Duas consequências práticas nascem dessa lista e precisam ser ditas com clareza. A primeira: não existe, na relação nacional, apresentação retal de diazepam — nem gel, nem supositório, nem enema pronto. O que os protocolos brasileiros descrevem como via retal é a administração da solução injetável por essa via, com seringa e sonda, o que exige que alguém a prepare. A segunda: a relação nacional não lista midazolam injetável, porque ela organiza o financiamento dos componentes básico, estratégico e especializado, e o medicamento de uso hospitalar em urgência é custeado pelo procedimento, não por essa lista. Na prática, o midazolam 5 mg/mL existe no carrinho de emergência e é a apresentação que os protocolos de urgência mandam usar por via intranasal; o que não existe é a expectativa de retirá-lo na farmácia básica para levar para casa.

A última consequência é organizacional e vale para quem trabalha em unidade sem retaguarda. Onde não há observação possível, a criança com crise febril é referida — o próprio material da atenção básica trata convulsão nas últimas setenta e duas horas como sinal geral de perigo, com tratamento prévio indicado e referência urgente. E onde há dúvida sobre punção, sobre crise prolongada ou sobre pós-ictal alterado, a discussão com a regulação médica é parte da conduta, não sinal de fraqueza: fluxos municipais brasileiros a colocam explicitamente no fluxograma.

07

Da porta à alta: o fluxo, a tabela do diferencial e as doses já em mililitros

As quatro perguntas que classificam a crise se respondem por anamnese e custam quatro minutos; a partir delas, tudo o mais é consequência. As doses abaixo estão convertidas para as apresentações padronizadas na relação nacional e calculadas para três pesos que cobrem a faixa etária de risco — o volume errado quase sempre nasce de uma conta feita de cabeça com a criança convulsionando na maca.

  1. 1Crise em curso: proteger, avaliar ABC, glicemia e necessidade de suporte. Reconstruir duração desde o início, incluindo o período pré-hospitalar. Tratar ao atingir 5 minutos; duração desconhecida ou deterioração não justificam esperar outros 5 minutos após a chegada.
  2. 2Glicemia capilar em toda criança que convulsiona ou chega em pós-ictal. Abaixo de 60 mg/dL, corrigir com soro glicosado a 10%, 2,5 mL/kg.
  3. 3Benzodiazepínico pela via disponível, com suporte respiratório preparado. Se persistir após 5 minutos, repetir uma vez; contar doses pré-hospitalares. Após duas doses adequadas no total, avançar para segunda linha com ajuda especializada.
  4. 4Crise que persiste depois de duas doses ou crises subentrantes: estado de mal epiléptico. Segunda linha, material de via aérea preparado e acionamento da regulação; o protocolo do estado de mal sai remetido.
  5. 5Se a crise terminou, não dar benzodiazepínico apenas pela sonolência. Posicionar, monitorar respiração e avaliar resposta a estímulos adequados. Rebaixamento importante ou recuperação que não progride exige avaliação urgente; não presumir que basta esperar.
  6. 6Procurar sinais de alerta agora e a cada reavaliação: aspecto toxêmico, prostração acentuada, rebaixamento do nível de consciência, petéquias, rigidez de nuca, irritabilidade, fontanela abaulada. Qualquer um levanta meningite.
  7. 7Houve trauma de crânio antes da crise? Se sim, o caso sai deste fluxo.
  8. 8A criança tem epilepsia conhecida? Se sim, é crise desencadeada por febre: verificar adesão, dose defasada por ganho de peso e perdas por vômito ou diarreia.
  9. 9Montar a anamnese com quem viu: idade, duração ancorada em evento externo, corpo inteiro ou um lado só, repetição nas últimas 24 horas, tempo até voltar ao normal, e quando a febre começou.
  10. 10Perguntar por antibiótico nos dias anteriores, conferir a caderneta de vacinação com datas e perguntar por crise febril e epilepsia em pais e irmãos.
  11. 11Classifique a crise pela focalidade, duração e repetição. Na faixa habitual, crise generalizada com menos de 15 minutos e sem recorrência em 24 horas, seguida de recuperação completa, favorece crise simples. Fora da faixa etária habitual ou com déficit prévio, amplie o diagnóstico diferencial; não use apenas “complexa” para encerrar essa avaliação.
  12. 12Crise simples: sem exames de rotina, sem eletroencefalograma, sem imagem. Examinar em busca do foco da febre e tratar o foco.
  13. 13Considere punção quando a história e o exame sustentarem suspeita de meningite ou encefalite. Idade pequena, vacinação incompleta e antibiótico prévio modificam o risco. Antes de puncionar, avalie estabilidade, consciência, sinais focais, sangramento e demais contraindicações. Se a suspeita de infecção do SNC for relevante e a punção precisar ser adiada, trate prontamente com a equipe.
  14. 14Sem foco no exame: a criança entra na régua de febre sem sinais localizatórios por faixa etária, que sai remetida.
  15. 15Observação com reavaliações registradas por cerca de 4 horas, olhando a trajetória: quem tem crise febril simples melhora de forma contínua.
  16. 16Alta exige recuperação neurológica, avaliação da febre, ingestão e observação adequadas, família orientada e retorno viável. Casos complexos precisam de discussão pediátrica; internação é definida pela evolução e pelo risco, sem automatismo. Estado de mal ou instabilidade requerem ambiente com suporte apropriado.
  17. 17Na alta: antitérmico único para desconforto com dose em miligramas e mililitros; tratamento do foco; papel com o plano da próxima crise; retorno à atenção básica em 7 dias. Sem anticonvulsivante de manutenção, sem antitérmico de horário para prevenir e sem antibiótico sem foco.
  18. 18Crise nas primeiras 72 horas após vacinação: notificar como evento adverso pós-vacinação, com nome, lote e fabricante da vacina.

Crise febril simples — o desenho no tempo

Generalizada, com duração tipicamente de 2 a 3 minutos e sempre abaixo de 15, episódio único no mesmo dia febril, recuperação espontânea e completa, em criança de 6 meses a 5 anos sem déficit prévio. Representa 70% a 75% das crises febris. Nenhum exame de rotina, nenhum eletroencefalograma, nenhuma imagem, nenhuma medicação de manutenção.

Crise febril complexa — basta uma característica

Focalidade, duração de 15 minutos ou mais ou recorrência em 24 horas caracterizam crise complexa. Recuperação incompleta ou déficit focal persistente são sinais de alarme que exigem avaliação imediata. Investigações, necessidade de imagem, punção e internação dependem dos achados e da evolução; a classificação não corresponde a uma bateria obrigatória de exames.

Estado de mal epiléptico febril — o relógio vira o diagnóstico

Crise com mais de 30 minutos, seja única e prolongada, sejam crises subentrantes sem recuperação da consciência entre elas. É 5% das crises febris e a forma mais comum de estado de mal na infância; é o único subgrupo em que se descreve dano agudo. Segunda linha, via aérea preparada, ajuda chamada e ambiente monitorizado.

A janela de idade, e onde a punção pesa mais

A crise febril mora entre 6 meses e 5 anos, com pico por volta dos 18 meses — a idade média da primeira crise no inquérito brasileiro foi de 19,4 meses. Abaixo de 18 meses os sinais clínicos de meningite não são confiáveis, e é nessa faixa que a punção lombar entra por critério de idade somado a deterioração clínica. Fora da janela, o rótulo de crise febril não se aplica sem investigação.

CaracterísticaCrise febril simplesCrise febril complexaEstado de mal epiléptico febril
Idade6 meses a 5 anosFaixa etária habitual; fora dela ou com déficit prévio, ampliar o diagnóstico diferencial6 meses a 5 anos
Tipo da criseGeneralizadaFocal, ou generalizada com outra característica complexaGeneralizada ou focal
DuraçãoMenos de 15 minutos; tipicamente 2 a 315 minutos ou mais, ou outra característica complexaMais de 30 minutos, ou crises subentrantes
Repetição em 24 horasNãoPode haver — e a repetição já a define como complexaCrises subentrantes sem recuperação entre elas
Exame neurológico depoisNormal na reavaliação, recuperação espontânea e completaPode haver paralisia de Todd ou pós-ictal prolongadoConsciência não recuperada
Frequência entre as crises febris70% a 75%9% a 35%Cerca de 5%
Exames laboratoriais de rotinaNão indicadosDirigidos à apresentação e à causa da febreIndicados
Punção lombarQuando houver suspeita clínica de infecção do SNC e o procedimento for seguroConforme suspeita de infecção do SNC e avaliação de segurançaApós estabilização, se indicado e seguro; tratamento não espera
Eletroencefalograma e neuroimagemNão indicadosConforme indicação clínica e discussão com equipe pediátrica/neurológicaInvestigação conforme causa e evolução, após estabilização
DestinoAlta após observação, com família orientadaObservação, internação ou transferência conforme risco e evoluçãoAmbiente monitorizado, com suporte ventilatório disponível
Risco de epilepsia depois1% a 1,5% (população geral: cerca de 0,5%)4% a 15%Depende da causa subjacente
Anticonvulsivante de manutençãoNãoDecisão de seguimento com neurologia, não de plantãoDecisão de seguimento com neurologia

Benzodiazepínico na crise que passa de 5 minutos: dose, apresentação e volume por peso

Droga e viaDoseTeto por doseApresentação8 kg12 kg18 kg
Diazepam intravenoso ou intraósseo0,3 a 0,5 mg/kg, lento, em pelo menos 2 minutos, sem diluir10 mgSolução injetável 5 mg/mL (0,06 a 0,1 mL/kg)2,4 a 4 mg = 0,48 a 0,8 mL3,6 a 6 mg = 0,72 a 1,2 mL5,4 a 9 mg = 1,08 a 1,8 mL
Diazepam retal (seringa sem agulha com sonda curta)0,5 mg/kg10 mgSolução injetável 5 mg/mL (0,1 mL/kg)4 mg = 0,8 mL6 mg = 1,2 mL9 mg = 1,8 mL
Midazolam intramuscular0,2 mg/kg5 mg5 mg/mL (0,04 mL/kg)1,6 mg = 0,32 mL2,4 mg = 0,48 mL3,6 mg = 0,72 mL
Midazolam intranasal, metade em cada narina0,3 mg/kg7,5 mg5 mg/mL (0,06 mL/kg)2,4 mg = 0,48 mL (0,24 por narina)3,6 mg = 0,72 mL (0,36 por narina)5,4 mg = 1,08 mL (0,54 por narina)
Fenitoína, ataque no estado de mal20 mg/kg, velocidade máxima de 1 mg/kg por minutoSem teto fixo na faixa pediátrica usualSolução injetável 50 mg/mL (0,4 mL/kg), diluída em salina160 mg = 3,2 mL em 20 min240 mg = 4,8 mL em 20 min360 mg = 7,2 mL em 20 min
Fenobarbital, terceira linha20 mg/kg, velocidade máxima de 30 mg por minutoSolução injetável 100 mg/mL (0,2 mL/kg)160 mg = 1,6 mL em ≥ 5 min240 mg = 2,4 mL em ≥ 8 min360 mg = 3,6 mL em ≥ 12 min

Antitérmico para desconforto: dose por peso e volume por apresentação

DrogaDose por doseIntervaloTeto diárioApresentação8 kg12 kg18 kg
Paracetamol10 a 15 mg/kg4 a 6 horas50 a 75 mg/kg/diaSolução oral 200 mg/mL80 a 120 mg = 0,4 a 0,6 mL120 a 180 mg = 0,6 a 0,9 mL180 a 270 mg = 0,9 a 1,35 mL
Dipirona10 a 16 mg/kg6 a 8 horas40 a 64 mg/kg/diaSolução oral 500 mg/mL — 25 mg por gota80 a 128 mg = 3 a 5 gotas120 a 192 mg = 5 a 8 gotas180 a 288 mg = 7 a 11 gotas
Ibuprofeno5 a 10 mg/kg6 a 8 horas40 mg/kg/diaSuspensão oral 50 mg/mL40 a 80 mg = 0,8 a 1,6 mL60 a 120 mg = 1,2 a 2,4 mL90 a 180 mg = 1,8 a 3,6 mL
Ácido acetilsalicílicoNão usar em criançaRisco de síndrome de ReyeRisco de síndrome de ReyeRisco de síndrome de Reye

O que os documentos nacionais dizem sobre a dose de diazepam, e o que isso dá numa criança de 12 kg

DocumentoViaDoseEm miligramas para 12 kgEm mililitros da solução 5 mg/mL
Protocolos de intervenção para o SAMU 192, suporte avançadoIntravenosa ou intraóssea0,3 a 0,5 mg/kg3,6 a 6 mg0,72 a 1,2 mL
Protocolos de intervenção para o SAMU 192, suporte avançadoRetal0,5 a 1 mg/kg6 a 12 mg, limitado ao teto de 10 mg1,2 a 2 mL
Aidpi Criança 2 meses a 5 anosIntravenosa ou retal0,3 a 0,5 mg/kg3,6 a 6 mg0,72 a 1,2 mL
Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da EpilepsiaRetal (profilaxia intermitente, no início da febre)0,4 a 0,5 mg/kg4,8 a 6 mg0,96 a 1,2 mL
Manual de vigilância de eventos adversos pós-vacinaçãoIntravenosa0,05 a 0,2 mg/kg0,6 a 2,4 mg0,12 a 0,48 mL
Manual de vigilância de eventos adversos pós-vacinaçãoRetal0,5 mg/kg6 mg1,2 mL
Fluxo de crises convulsivas em pediatria das UPAs de CuritibaIntravenosa0,2 a 0,5 mg/kg em 2 minutos2,4 a 6 mg0,48 a 1,2 mL
Fluxo de crises convulsivas em pediatria das UPAs de CuritibaRetal0,3 mg/kg3,6 mg0,72 mL

Os números que a família pergunta, e como dizê-los

PerguntaNúmeroFrase que entrega o número
Vai acontecer de novo?10% sem fator de risco; 25% a 50% com 1 ou 2 fatores; 50% a 100% com 3 ou mais. Globalmente, 30% a 40% repetemSem fatores de risco, nove em cada dez crianças não repetem. Com fatores, pode chegar a metade — e mesmo assim continua sendo um evento benigno.
Quantas vezes pode repetir?32% têm uma recorrência, 15% têm duas, 7% têm trêsDe cada dez crianças que tiveram uma crise, cerca de sete não terão nenhuma outra.
Isso vai virar epilepsia?1% a 1,5% após crise simples, contra cerca de 0,5% na população geral; 4% a 15% após crise complexaDepois de uma crise simples, entre 98 e 99 de cada 100 crianças não terão epilepsia. O risco sobe de meio por cento para um por cento — é um caso a mais a cada 100 a 200 crianças.
Ficou alguma sequela? Vai atrapalhar na escola?Nenhum dano estrutural nem cognitivo atribuível à crise febril simplesA crise simples não causa dano cerebral, não muda a inteligência, não muda o comportamento e não atrapalha a escola.
Foi a vacina?Uma crise febril a mais a cada 2.500 crianças vacinadas com a tetraviral na primeira dose, entre 5 e 10 diasNuma fila de 2.500 crianças vacinadas, a vacina acrescenta uma crise febril — enquanto 75 a 100 delas teriam crise febril de qualquer jeito, com ou sem vacina.
Se eu tivesse dado o remédio da febre antes, teria evitado?Metanálise de 3 estudos e 540 crianças: razão de chances 0,9 (IC 95% 0,57 a 1,43)Não. Já foi estudado em crianças que tinham tido crise antes: dar antitérmico de horário não muda a chance de acontecer de novo. Não havia como você impedir.

Sobre a dose retal de diazepam. Os documentos nacionais divergem — 0,3 mg/kg num fluxo municipal, 0,4 a 0,5 mg/kg no protocolo federal da epilepsia, 0,5 mg/kg no manual de eventos pós-vacinação e 0,5 a 1 mg/kg no protocolo do SAMU. O valor adotado aqui é 0,5 mg/kg, com teto de 10 mg, por dois motivos: é o único número que aparece dentro da faixa de três dos quatro documentos, e a biodisponibilidade retal é menor que a intravenosa, de modo que uma dose retal menor que a dose intravenosa (que começa em 0,3 mg/kg) é farmacologicamente incoerente.

Sobre a apresentação retal. A relação nacional padroniza diazepam como solução injetável de 5 mg/mL e comprimidos; gel, supositório e enema prontos de diazepam ficam fora dela. O que os protocolos brasileiros chamam de via retal é a administração da própria solução injetável, com seringa sem agulha acoplada a uma sonda curta lubrificada, introduzida poucos centímetros. Quem escreve 'diazepam retal' numa prescrição precisa escrever também como preparar, ou a ordem não é executável no plantão.

Sobre a faixa etária adotada. Este capítulo trabalha com 6 meses a 5 anos, que é a definição do protocolo clínico federal e a mais usada na literatura pediátrica brasileira. Documentos nacionais operam com bandas maiores — a vigilância de eventos pós-vacinação define o caso entre 3 meses e 6 anos, e material de orientação a escolas fala em 6 meses a 6 anos. A banda maior serve à vigilância, que precisa capturar casos para investigar; a banda menor serve à clínica, que precisa decidir quando não investigar. Nas bordas, a conduta é a mesma nos dois casos: crise com febre abaixo de 6 meses ou acima de 5 anos é investigada, não rotulada.

Sobre a velocidade de infusão da fenitoína. A referência adotada é 1 mg/kg por minuto, do protocolo do SAMU, que produz 20 minutos de infusão em qualquer peso da faixa. Fluxos que fixam a velocidade em 50 mg por minuto foram escritos com o adulto em mente: numa criança de 8 kg, 50 mg por minuto equivalem a 6,2 mg/kg por minuto, mais de seis vezes o teto pediátrico, com risco de hipotensão e bradiarritmia. Pela mesma razão, diluir a dose num volume fixo de 250 mL merece cuidado: infundidos em 20 minutos, 250 mL correm a 750 mL por hora, o que numa criança de 8 kg equivale a mais de 31 mL/kg de volume.

Sobre a dose de dipirona. A faixa adotada aqui, 10 a 16 mg/kg por dose com teto diário de 40 a 64 mg/kg, é a do documento científico de febre aguda da Sociedade Brasileira de Pediatria. Há material oficial em circulação com 20 a 25 mg/kg por dose de 6 em 6 horas, o que chega a 80 a 100 mg/kg por dia — mais de uma vez e meia o teto acima. Em criança, a hipotensão atribuída à dipirona costuma ser efeito de dose, e a dose alta chega por dois caminhos: a prescrição em faixa alta e a regra popular de uma gota por quilo, que entrega 25 mg/kg por dose na apresentação de 500 mg/mL.

08

A conduta, hora a hora

A conduta se divide em dois cenários que quase nunca coexistem: a crise que ainda está acontecendo e a crise que já terminou. Mais de nove em cada dez crianças chegam no segundo cenário, e nele a intervenção medicamentosa aguda é zero. O erro mais comum do plantão é aplicar o protocolo do primeiro cenário a uma criança do segundo — dar benzodiazepínico em quem já parou de convulsionar, o que só acrescenta depressão respiratória e sonolência que atrapalha a reavaliação neurológica. Os protocolos brasileiros de urgência dizem isso literalmente: o diazepam não deve ser administrado se a crise já cessou e o paciente se encontra em período pós-convulsivo.

Todas as doses abaixo vêm de documentos nacionais e estão convertidas para as apresentações que a Relação Nacional de Medicamentos Essenciais de 2024 padroniza, com os volumes já calculados para três pesos que cobrem a faixa etária: 8 kg, por volta dos dez meses; 12 kg, por volta dos dois anos; e 18 kg, por volta dos cinco anos. Volume calculado na hora, com criança convulsionando na maca, é onde nasce o erro de dose — e erro de dose de benzodiazepínico em criança é depressão respiratória.

Os documentos federais brasileiros divergem entre si nas doses de benzodiazepínico, e a divergência chega a dez vezes; as escolhas feitas abaixo estão justificadas no bloco de divergências. A regra de segurança que atravessa todas elas é a mesma: dose calculada por escrito antes de aspirar, teto absoluto respeitado, administração lenta, e alguém olhando a respiração da criança enquanto a droga entra.

  1. Minuto 0 — a criança está convulsionando na sua frente

    Antes de qualquer medicamento vem o que salva mais vida: posição, via aérea e relógio. A maioria das crises febris cessa espontaneamente em dois a três minutos, e nenhuma medicação deve ser administrada nesse primeiro momento. O que se faz é proteger a criança do que a rodeia e começar a contar o tempo — porque a decisão seguinte é toda cronometrada e ninguém consegue estimar de memória quantos minutos se passaram numa sala em pânico.

    Prescrição
    • Lateralizar a criança (decúbito lateral), afastar objetos duros e apoiar a cabeça. Não conter os movimentos e não colocar nada na boca — nem dedo, nem colher, nem gaze.
    • Aspirar secreções se necessário e manter via aérea pérvia com elevação do mento ou tração da mandíbula.
    • Oxigênio suplementar sob máscara não reinalante se a saturação estiver abaixo de 94%.
    • Anotar a hora de início da crise no prontuário, em números, e olhar o relógio a cada minuto.
    • Glicemia capilar imediatamente. Se abaixo de 60 mg/dL: soro glicosado a 10%, 2,5 mL/kg por via intravenosa — 20 mL na criança de 8 kg, 30 mL na de 12 kg, 45 mL na de 18 kg. O soro glicosado a 10% pode ser preparado com 450 mL de soro glicosado a 5% mais 50 mL de soro glicosado a 50%.
    • Monitorizar oximetria, frequência cardíaca e temperatura; obter acesso venoso periférico; prevenir hipotermia.
    • Não medicar crise com menos de 5 minutos de duração.
  2. Minuto 5 — a crise não parou: primeira dose de benzodiazepínico

    Cinco minutos é o corte operacional dos protocolos brasileiros de urgência, e ele tem fundamento farmacológico: quanto mais tempo a crise dura, mais os receptores GABA-A são internalizados e menos o benzodiazepínico funciona. A escolha da droga e da via depende de uma única pergunta — há acesso venoso agora? Se há, diazepam intravenoso. Se não há, midazolam intramuscular ou intranasal, ou diazepam por via retal. Não se perde tempo tentando puncionar uma criança que convulsiona quando existe via alternativa.

    Prescrição
    • COM ACESSO VENOSO — Diazepam 0,3 a 0,5 mg/kg/dose por via intravenosa ou intraóssea, máximo de 10 mg por dose, administrado lentamente em pelo menos 2 minutos, sem diluir. Solução injetável de 5 mg/mL: 0,06 a 0,1 mL/kg. Criança de 8 kg: 2,4 a 4 mg = 0,48 a 0,8 mL. Criança de 12 kg: 3,6 a 6 mg = 0,72 a 1,2 mL. Criança de 18 kg: 5,4 a 9 mg = 1,08 a 1,8 mL. Interromper a administração assim que a crise cessar.
    • SEM ACESSO VENOSO, opção 1 — Midazolam 0,2 mg/kg/dose por via intramuscular, máximo de 5 mg por dose. Apresentação 5 mg/mL: 0,04 mL/kg. Criança de 8 kg: 1,6 mg = 0,32 mL. Criança de 12 kg: 2,4 mg = 0,48 mL. Criança de 18 kg: 3,6 mg = 0,72 mL.
    • SEM ACESSO VENOSO, opção 2 — Midazolam 0,3 mg/kg/dose por via intranasal, máximo de 7,5 mg por dose, metade do volume em cada narina, usando a apresentação mais concentrada disponível (5 mg/mL): 0,06 mL/kg. Criança de 8 kg: 2,4 mg = 0,48 mL, ou seja 0,24 mL por narina. Criança de 12 kg: 3,6 mg = 0,72 mL, 0,36 mL por narina. Criança de 18 kg: 5,4 mg = 1,08 mL, 0,54 mL por narina.
    • SEM ACESSO VENOSO, opção 3 — Diazepam 0,5 mg/kg/dose por via retal, máximo de 10 mg por dose, usando a solução injetável de 5 mg/mL em seringa sem agulha acoplada a sonda curta: 0,1 mL/kg. Criança de 8 kg: 4 mg = 0,8 mL. Criança de 12 kg: 6 mg = 1,2 mL. Criança de 18 kg: 9 mg = 1,8 mL.
    • NUNCA administrar diazepam por via intramuscular — absorção errática e dolorosa. NUNCA administrar diazepam no período neonatal, até 28 dias de vida: nessa idade a droga de primeira linha é o fenobarbital em solução aquosa, 20 mg/kg intravenoso lento.
    • Vigiar respiração e saturação de forma contínua durante e depois da administração. Ter à mão material de ventilação com bolsa-válvula-máscara de tamanho adequado.
  3. Minuto 10 — a crise não parou: segunda dose, e a segunda linha preparada

    Se a crise persistir cinco minutos depois da primeira dose, repete-se a dose do benzodiazepínico. O que muda aqui não é só a repetição: é que, a partir deste ponto, o caso deixou de ser uma crise febril e passou a ser um estado de mal em curso. A segunda linha precisa estar sendo preparada enquanto a segunda dose é administrada, e não depois de ela falhar. Pedir ajuda também é conduta deste marco.

    Prescrição
    • Se persistir após 5 minutos, repetir uma vez a dose adequada. Contar também doses dadas antes da chegada: máximo de duas doses de benzodiazepínico antes da segunda linha, com monitorização respiratória.
    • Chamar ajuda: acionar o colega mais experiente do plantão e, na unidade sem retaguarda pediátrica, acionar a regulação médica de urgência para definir destino e transporte.
    • Separar e conferir, agora: material de intubação orotraqueal de tamanho adequado, aspirador testado, monitor cardíaco, e a droga de segunda linha já diluída.
    • Reavaliar glicemia se ainda não foi feita, e afastar hipotermia e distúrbio hidroeletrolítico se a história sugerir vômitos, diarreia ou desidratação.
  4. Minuto 20 a 30 — estado de mal epiléptico: a segunda linha

    Crise que persiste após as doses de benzodiazepínico, ou crises subentrantes sem recuperação da consciência entre elas, configuram estado de mal epiléptico. A partir daqui a criança precisa de ambiente com monitorização e possibilidade de suporte ventilatório, e o caso sai do escopo de uma sala de observação comum. O protocolo completo do estado de mal epiléptico — da segunda linha ao refratário, até a terapia intensiva — é de Epilepsias e síndromes epilépticas da infância, nesta apostila; o que se exige do interno é iniciar a segunda linha corretamente e não atrasar o pedido de ajuda.

    Prescrição
    • Fenitoína, dose de ataque de 20 mg/kg por via intravenosa, diluída em solução salina a 0,9% — nunca em solução glicosada. Solução injetável de 50 mg/mL: 0,4 mL/kg. Criança de 8 kg: 160 mg = 3,2 mL. Criança de 12 kg: 240 mg = 4,8 mL. Criança de 18 kg: 360 mg = 7,2 mL.
    • Velocidade máxima de infusão da fenitoína: 1 mg/kg por minuto. Isso significa 20 minutos de infusão em qualquer um dos três pesos — 8 mg/min na criança de 8 kg, 12 mg/min na de 12 kg, 18 mg/min na de 18 kg. Acesso venoso calibroso, nunca em extremidade pelo risco de necrose cutânea, com monitorização cardíaca contínua pelo risco de hipotensão e bradiarritmia.
    • Em criança que já usa fenitoína cronicamente, não fazer a dose de ataque: usar 5 a 10 mg/kg ou escolher outra droga.
    • Se a crise persistir após a fenitoína: fenobarbital em solução aquosa 20 mg/kg por via intravenosa ou intraóssea, lento, com velocidade máxima de 30 mg por minuto. Solução injetável de 100 mg/mL: 0,2 mL/kg. Criança de 8 kg: 160 mg = 1,6 mL em pelo menos 5,3 minutos. Criança de 12 kg: 240 mg = 2,4 mL em pelo menos 8 minutos. Criança de 18 kg: 360 mg = 3,6 mL em pelo menos 12 minutos. Pode ser diluído em igual volume de salina. Se persistir, nova dose de 10 mg/kg.
    • Fenobarbital pode causar parada respiratória, hipotensão e bradicardia, sobretudo depois de benzodiazepínico — ter via aérea preparada antes de infundir.
    • Se persistir e houver bomba de infusão: midazolam contínuo, 0,2 mg/kg de ataque (máximo 5 mg) seguido de infusão contínua de 0,1 a 0,2 mg/kg por hora, com intubação orotraqueal e ambiente de terapia intensiva.
    • Neuroimagem entra aqui: estado de mal epiléptico febril é uma das indicações formais de tomografia ou ressonância.
  5. Minuto 0 do caso comum — a crise já terminou antes de chegar

    Este é o cenário de nove em cada dez atendimentos, e a lista mais importante dele é a do que não se faz. A criança sonolenta que respira, satura bem e desperta ao estímulo não precisa de benzodiazepínico, não precisa de oxigênio se satura acima de 94%, não precisa de acesso venoso obrigatório e não precisa de intubação por Glasgow rebaixado no pós-ictal. Precisa de um lugar tranquilo, de reavaliação programada e de um médico fazendo perguntas à testemunha.

    Prescrição
    • Não administrar benzodiazepínico em criança cuja crise já cessou.
    • Avaliar imediatamente proteção da via aérea e ventilação se houver rebaixamento importante; oferecer suporte e discutir via aérea avançada conforme a condição clínica
    • Não acordar a criança que dorme depois da crise. Dormir após a crise é esperado, mesmo sem medicação.
    • Posicionar em decúbito lateral, monitorizar oximetria e temperatura, e registrar o horário do fim da crise.
    • Glicemia capilar, se ainda não foi feita.
    • Iniciar a anamnese estruturada com quem presenciou a crise, ainda nesta hora, enquanto a memória do evento está fresca.
  6. Primeira hora — o foco da febre, e conforto em vez de meta de temperatura

    Enquanto a criança se recupera, o médico procura o foco da febre no exame físico e trata o desconforto. Antitérmico aqui tem uma indicação e uma só: desconforto evidente — choro intenso, irritabilidade, redução da atividade, redução do apetite, distúrbio do sono. Não existe um valor de temperatura a partir do qual se medica por decreto, e não se medica para prevenir a próxima crise, porque isso não funciona. Métodos físicos não são recomendados fora da hipertermia com temperatura central igual ou acima de 40 °C acompanhada de alteração do sistema nervoso central, e aumentam o desconforto da criança com calafrio e irritabilidade.

    Prescrição
    • Paracetamol solução oral 200 mg/mL: 10 a 15 mg/kg por dose, a cada 4 a 6 horas, máximo diário de 50 a 75 mg/kg. Criança de 8 kg: 80 a 120 mg = 0,4 a 0,6 mL. Criança de 12 kg: 120 a 180 mg = 0,6 a 0,9 mL. Criança de 18 kg: 180 a 270 mg = 0,9 a 1,35 mL. É o único antitérmico recomendado abaixo de um mês de idade.
    • Dipirona solução oral 500 mg/mL: 10 a 16 mg/kg por dose, a cada 6 a 8 horas, máximo diário de 40 a 64 mg/kg, a partir de 3 meses e 5 kg. Nessa apresentação, 1 gota contém 25 mg. Criança de 8 kg: 80 a 128 mg = 0,16 a 0,26 mL, ou 3 a 5 gotas. Criança de 12 kg: 120 a 192 mg = 0,24 a 0,38 mL, ou 5 a 8 gotas. Criança de 18 kg: 180 a 288 mg = 0,36 a 0,58 mL, ou 7 a 11 gotas. A regra popular de uma gota por quilo entrega 25 mg/kg por dose — mais de uma vez e meia o teto de 16 mg/kg — e é a causa mais comum da hipotensão que se atribui à droga.
    • Ibuprofeno suspensão oral 50 mg/mL: 5 a 10 mg/kg por dose, a cada 6 a 8 horas, máximo diário de 40 mg/kg, a partir de 6 meses e 5 kg. Criança de 8 kg: 40 a 80 mg = 0,8 a 1,6 mL. Criança de 12 kg: 60 a 120 mg = 1,2 a 2,4 mL. Criança de 18 kg: 90 a 180 mg = 1,8 a 3,6 mL. Evitar na desidratação relevante e na doença renal.
    • Escolher um antitérmico e mantê-lo. Não alternar nem associar dois antitérmicos: todos têm o mesmo mecanismo, a alternância multiplica o risco de erro de dose e de intoxicação sem ganho terapêutico.
    • Não usar ácido acetilsalicílico em criança, pelo risco de síndrome de Reye.
    • Tratar o foco encontrado conforme o diagnóstico: otite média aguda, faringoamigdalite estreptocócica, pneumonia, infecção urinária. Sem foco identificado e sem indicação pela régua etária, não se prescreve antibiótico empírico.
  7. Hora 1 a 4 — observação com reavaliações programadas

    A observação acompanha a trajetória de consciência, respiração, exame neurológico, ingestão e febre. A melhora progressiva favorece o quadro benigno, mas não é prova isolada contra meningite. O tempo de observação depende do evento, da recuperação, das intervenções e da doença febril; as quatro horas descritas no fluxo local são uma referência de organização, não uma obrigação ou garantia universal. Reavalie antes se surgir qualquer sinal de deterioração.

    Prescrição
    • Reavaliação médica registrada em prontuário em pelo menos dois momentos dentro das quatro horas, com nível de consciência, exame neurológico, sinais meníngeos, pele e sinais vitais.
    • Manter a criança acessível ao olhar da equipe e não em sala isolada sem monitorização visual.
    • Reoferecer líquidos por via oral e avaliar aceitação — recusa persistente é sinal de alarme, não de birra.
    • Nos casos complexos ou atípicos, selecionar exames com a equipe conforme a hipótese: glicemia e eletrólitos se causa provocada for plausível; investigação da febre conforme idade e foco; ECG se houver suspeita de evento arrítmico. Radiografia de tórax depende da avaliação respiratória, não apenas da classificação.
    • Avaliar indicação de punção pelo conjunto de suspeita de infecção do SNC; idade pequena e antibiótico prévio modificam o risco. Antes do procedimento, conferir estabilidade e contraindicações com o responsável.
    • Se houver suspeita relevante de meningite e a punção precisar ser adiada, iniciar antimicrobiano prontamente com o responsável e reavaliar a coleta quando for segura.
  8. Hora 4 — a decisão: alta ou internação

    Antes da alta, a criança deve ter recuperado seu estado neurológico habitual, ter a causa da febre avaliada e um plano seguro de observação e retorno. Na crise complexa, discuta o destino com a equipe pediátrica: a decisão é individualizada. Persistência de alteração neurológica, suspeita de infecção do sistema nervoso central, necessidade de suporte, crise prolongada ou novas crises durante a observação favorecem internação. Barreiras de acesso também pesam. Um rótulo isolado não substitui essa avaliação.

    Prescrição
    • Internar ou transferir conforme avaliação pediátrica quando houver recuperação incompleta, suspeita de infecção grave ou do SNC, necessidade de suporte, crises prolongadas ou recorrência preocupante, risco pela idade ou ausência de condições seguras de seguimento
    • Dar alta: crise febril simples com exame neurológico normal, foco de febre identificado ou risco baixo, criança hidratada e aceitando líquidos, família orientada por escrito e com transporte para retornar.
    • Registrar em prontuário, com todas as letras, a classificação da crise (simples ou complexa), os cinco critérios que a sustentam, o foco da febre e o plano combinado com a família. Esse registro é o que protege a criança da próxima cascata de exames no próximo serviço.
    • Se a crise ocorreu nas primeiras 72 horas após uma vacinação: notificar como evento adverso pós-vacinação, registrando nome da vacina, lote, fabricante, temperatura aferida, duração da crise, estado de sonolência posterior e evolução.
  9. A alta — a prescrição por extenso, e o que não vai nela

    A receita de alta de uma crise febril simples é curta, e a maior parte do seu valor está no que ela não contém. O que vai é o tratamento do foco da febre, se houver, e um antitérmico para desconforto, com dose escrita em miligramas e em mililitros para o peso daquela criança — não em faixas, não em 'conforme necessário' sem número. O que não vai é anticonvulsivante de manutenção.

    Prescrição
    • Antitérmico de escolha única, com a dose calculada para o peso e escrita nas duas unidades. Exemplo para uma criança de 12 kg: paracetamol solução oral 200 mg/mL, 0,75 mL (150 mg) por via oral, a cada 6 horas, se desconforto ou dor, por até 5 dias — máximo de 4 doses em 24 horas.
    • Alternativa para a mesma criança de 12 kg: dipirona solução oral 500 mg/mL, 6 gotas (150 mg) por via oral, a cada 6 horas, se desconforto ou dor. Ou ibuprofeno suspensão oral 50 mg/mL, 2 mL (100 mg) por via oral, a cada 8 horas, se desconforto.
    • Tratamento do foco infeccioso identificado, quando existir, com dose, via, frequência e duração escritas.
    • Hidratação oral livre e orientada; retorno da alimentação habitual.
    • NÃO prescrever fenobarbital, ácido valproico ou qualquer anticonvulsivante de manutenção após crise febril simples. O protocolo federal é explícito: dado o prognóstico benigno, que não causa danos permanentes e tende a remitir espontaneamente com a idade, e os efeitos adversos potenciais dos fármacos antiepilépticos, a profilaxia para recorrências de crise febril simples não é recomendada. O fenobarbital contínuo associa-se a distúrbio de sono, hiperatividade, irritabilidade e letargia; o valproato tem toxicidade relevante abaixo dos 2 anos.
    • NÃO prescrever antitérmico de horário com o objetivo de prevenir nova crise. A metanálise que sustenta essa recusa reuniu três estudos e 540 crianças de 6 a 72 meses que já haviam tido crise febril e não encontrou diferença entre antitérmico profilático e placebo (razão de chances 0,9; intervalo de confiança de 95% de 0,57 a 1,43) — nível de evidência I, força de recomendação E.
    • NÃO prescrever antibiótico sem foco identificado e sem indicação pela régua de febre.
    • NÃO entregar receita de diazepam para uso domiciliar de rotina. A profilaxia intermitente é decisão de seguimento, não de plantão, e está discutida no bloco de divergências.
  10. A alta — o plano escrito para a próxima vez

    Este é o item da prescrição que muda desfecho populacional, e o que o interno mais esquece. A família vai voltar para casa com uma criança febril e com a memória do pior momento da vida dela. O que evita a próxima corrida ao pronto-socorro não é o antitérmico: é um papel com instruções concretas, entregue na mão, lido em voz alta e com a chance de a família repetir de volta. Ele custa cinco minutos e é o que a Sociedade Brasileira de Pediatria orienta que escolas e famílias saibam fazer.

    Prescrição
    • Escreva no papel, com estas palavras: se acontecer de novo, deite a criança de lado, no chão ou na cama, com a cabeça apoiada e virada para o lado.
    • Afaste objetos duros de perto. Não segure o corpo dela e não tente parar os movimentos.
    • Não coloque nada na boca — nem o dedo, nem colher, nem pano. Não dê remédio, água nem comida pela boca durante a crise.
    • Olhe o relógio e marque a hora em que começou. Se puder, filme com o celular: o vídeo vale mais que qualquer descrição.
    • Chame o serviço de emergência (192) se: a crise passar de 5 minutos; se ela se repetir; se a criança não voltar a respirar normalmente depois; se ela se machucar; ou se for a primeira vez que acontece.
    • Depois da crise, é normal que ela durma. Deixe dormir, deitada de lado, e observe a respiração.
    • Traga a criança para reavaliação se a febre passar de 3 dias, se ela ficar muito sonolenta ou irritada, se recusar líquidos, se vomitar tudo, se aparecerem manchinhas vermelhas na pele que não somem quando a pele é esticada, ou se o pescoço ficar duro.
    • Anote o nome do médico e do serviço, e leve este papel na próxima vez.
  11. Dias 7 a 30 — o seguimento, e quem cuida daqui para frente

    A criança com crise febril simples não precisa de neurologista, não precisa de eletroencefalograma e não precisa de retorno hospitalar programado. Precisa de atenção básica: consulta na unidade de saúde de referência, revisão da caderneta de vacinação, confirmação de que o foco da febre foi resolvido e uma segunda conversa com a família, agora sem o susto da noite. É na segunda conversa que a orientação gruda.

    Prescrição
    • Referência à unidade básica de saúde para consulta em até 7 dias, com o registro da classificação da crise em mãos.
    • Revisão e atualização da caderneta de vacinação. A ocorrência de crise febril não contraindica a continuidade do calendário; quando a crise se associou à vacina penta ou DTP, o encaminhamento é ao Centro de Referência para Imunobiológicos Especiais para completar o esquema com a tríplice acelular.
    • Encaminhar à neurologia pediátrica apenas se: crise febril complexa; crises que persistem além dos 5 anos ou começam depois deles; crises afebris associadas; atraso do desenvolvimento neuropsicomotor ou déficit neurológico; ou recorrência muito frequente que motive discutir profilaxia intermitente.
    • Reforçar, no retorno, os mesmos pontos da alta: a crise é benigna, não deixa sequela, não é epilepsia, e o antitérmico serve para conforto e não para prevenção.
09

Como saber se está funcionando

Na crise febril, a reavaliação não serve para conferir se um tratamento funcionou — não houve tratamento. Ela serve para uma coisa mais sutil e mais importante: confirmar que o diagnóstico benigno estava certo. O rótulo de crise febril simples é sempre uma hipótese no momento da chegada, porque depende de a criança voltar ao normal, e isso só se sabe olhando. A observação é o teste diagnóstico deste capítulo, e o parâmetro é a trajetória.

A pergunta que organiza todas as reavaliações é uma só: esta criança está melhor do que estava na avaliação anterior? Melhora contínua confirma crise febril. Estabilidade em nível ruim, ou piora, desconfirma — e desconfirmação aqui significa punção lombar, exames e internação, não uma segunda hora de espera.

Nível de consciência depois da criseNa chegada, e depois a cada 30 a 60 minutos, durante as 4 horas de observação

Esperado: Sonolência que diminui a cada checagem: desperta ao estímulo, depois abre os olhos espontaneamente, depois reconhece os pais, depois interage e aceita líquidos. Em uma a duas horas a criança deve estar acordada e ela mesma.

Se não melhora: Se a consciência não melhorar progressivamente, permanecer alterada por mais de uma hora ou piorar, chamar o responsável e reavaliar via aérea, ventilação, glicemia e causas de alteração persistente. Investigar infecção do SNC quando suspeita e avaliar a segurança da punção antes de realizá-la. Tratamento urgente não deve aguardar imagem ou líquor.

Simetria do exame neurológicoNa primeira reavaliação com a criança acordada, tipicamente 1 a 2 horas depois

Esperado: Movimentação espontânea igual dos quatro membros, força e tônus simétricos, pupilas simétricas, sem desvio do olhar e sem preferência de um lado ao pegar objetos.

Se não melhora: Déficit focal novo ou persistente pede avaliação pediátrica e neurológica urgente. Considerar paralisia de Todd, mas também causas estruturais, vasculares ou infecciosas. Definir imagem e demais exames pelos achados; avaliar contraindicações antes de considerar punção. Documentar a evolução da força e da simetria.

Sinais de alerta de meningiteNa chegada e em cada reavaliação, sem exceção, mesmo quando a criança parece bem

Esperado: Ausência de aspecto toxêmico, prostração acentuada, petéquias, rigidez de nuca, irritabilidade que não cede ao colo e fontanela abaulada. Criança que se consola no colo da mãe e volta a brincar é criança que está indo bem.

Se não melhora: Novo sinal de infecção grave exige avaliação imediata e mudança do nível de cuidado. Púrpura com má perfusão pede estabilização e tratamento da suspeita de doença invasiva, incluindo meningocócica. Punção é decidida após avaliação de segurança; não antecede ressuscitação nem impõe atraso do antimicrobiano.

Recorrência da crise durante a observaçãoContinuamente, com a criança visível para a equipe

Esperado: Nenhuma nova crise nas 4 horas de observação.

Se não melhora: Uma nova crise em 24 horas caracteriza recorrência e pede reavaliação completa pela equipe, com exames e destino individualizados. Se não houver recuperação entre as crises, tratar como estado de mal e seguir o fluxo de emergência, contabilizando os medicamentos já administrados.

Respiração e saturação depois do benzodiazepínicoContinuamente durante a infusão e nos 30 a 60 minutos seguintes a cada dose

Esperado: Frequência respiratória adequada para a idade, saturação acima de 94%, sem apneia e sem necessidade de estímulo para respirar.

Se não melhora: Depressão respiratória é o efeito adverso que se teme, e o risco cresce com dose alta, administração rápida e doses repetidas — parada respiratória é descrita em cerca de 6% dos pacientes com estado de mal epiléptico febril tratados por via intravenosa. Conduta: ventilação com bolsa-válvula-máscara, oxigênio, e via aérea avançada se não houver recuperação. Rever a conta da dose antes de repetir.

Curva térmica e resposta ao antitérmicoA cada 2 a 4 horas na observação, e em casa a critério do desconforto

Esperado: Redução do desconforto: a criança volta a brincar, aceita líquido e dorme melhor. A temperatura pode não normalizar, e isso não é falha terapêutica — o alvo é conforto, não número.

Se não melhora: Se o antitérmico não alivia o desconforto, reconferir a dose em mg/kg e a apresentação usada antes de trocar de droga: subdose é muito mais comum que falha real. Não alternar antitérmicos. Se a criança fica progressivamente mais prostrada apesar de a temperatura cair, o problema não é a febre — é a doença por trás dela.

Aceitação de líquidos, diurese e estado de hidrataçãoDurante a observação e nas 24 a 48 horas seguintes, em casa

Esperado: Volta a mamar ou a beber, mantém pelo menos três a quatro fraldas molhadas por dia, mucosas úmidas, enchimento capilar abaixo de 2 segundos.

Se não melhora: Recusa persistente de líquidos, vômitos repetidos ou redução da diurese exigem reavaliação presencial e mudam a régua: a criança desidratada tem outra investigação e outro plano. A conduta da desidratação por diarreia aguda é tema próprio e sai remetida.

Duração da febre e resolução do focoReavaliação presencial se a febre passar de 3 dias, ou antes disso se houver piora

Esperado: Defervescência progressiva conforme a doença de base evolui, com melhora do estado geral, e resolução do foco tratado.

Se não melhora: Febre que persiste além de 3 dias sem foco, ou que retorna depois de ter cedido, é indicação de reavaliação presencial com reexame completo — não de troca de antitérmico por telefone. A régua de febre sem sinais localizatórios e de febre prolongada é tema próprio e sai remetida.

A compreensão da família, aferida antes da altaNos últimos 15 minutos do atendimento, antes de entregar a receita

Esperado: A família consegue repetir de volta, com as próprias palavras, o que fazer se a crise acontecer de novo, quando chamar o 192, e que o antitérmico serve para conforto e não para prevenir a crise.

Se não melhora: Se a família não consegue repetir, a orientação não foi dada — foi falada. Reduza a três frases, entregue por escrito, peça que a pessoa leia em voz alta e confirme quem ficará com o papel.

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Onde o erro machuca

Aplicar benzodiazepínico na criança cuja crise já tinha terminado

O dano: A criança recebe sedação de que não precisava, com risco de depressão respiratória, e o médico perde o único parâmetro que confirma o diagnóstico: a recuperação neurológica espontânea. A sonolência induzida pela droga é indistinguível de um pós-ictal prolongado, e a partir daí ninguém sabe mais se a criança está mal por causa da crise, por causa da meningite ou por causa da injeção. O resultado prático é uma cascata: punção lombar, internação e antibiótico empírico numa criança que iria para casa.

Como pegar a tempo: Confirme se os abalos cessaram e avalie respiração e recuperação. Não administrar benzodiazepínico apenas por sonolência pós-ictal. Rebaixamento persistente não prova término da atividade epiléptica: exige avaliação urgente, incluindo hipótese de estado de mal não convulsivo, e suporte conforme a condição.

Prescrever fenobarbital ou ácido valproico de manutenção na alta de uma crise febril simples

O dano: Uma criança saudável passa meses ou anos tomando droga com efeito adverso relevante — distúrbio de sono, hiperatividade, irritabilidade e letargia no caso do fenobarbital, toxicidade hepática e pancreática no caso do valproato, com risco maior abaixo dos 2 anos — para prevenir um evento que é benigno e que remite sozinho com a idade. O tratamento contínuo reduz recorrência, mas não previne epilepsia; ou seja, trata o desfecho que não importa e não muda o que a família teme.

Como pegar a tempo: Guarde a frase do protocolo federal: dado o prognóstico benigno, que não causa danos permanentes e tende a remitir espontaneamente com a idade, e os efeitos adversos potenciais dos fármacos antiepilépticos, a profilaxia para recorrências de crise febril simples não é recomendada. Se a pressão para prescrever vier da família, a resposta é a conversa, não a receita.

Orientar antitérmico de horário para impedir a próxima crise

O dano: É a orientação mais dada e mais errada do país, e o dano é triplo. Primeiro, não funciona: a crise depende da velocidade de subida térmica e da sinalização inflamatória, não do valor no termômetro. Segundo, ela cria uma família que acorda de duas em duas horas para medir temperatura e medicar, com risco real de superdosagem — e a maior parte dos erros de dose em casa vem daí. Terceiro, e pior, ela ensina à família que a crise era evitável, o que transforma a próxima crise em culpa: alguém dormiu, alguém atrasou a dose, alguém falhou.

Como pegar a tempo: Diga o número. Uma metanálise de três estudos, com 540 crianças de 6 a 72 meses que já tinham tido crise febril, não achou diferença entre antitérmico profilático e placebo — razão de chances 0,9, com intervalo de confiança de 95% de 0,57 a 1,43. A recomendação contra tem nível de evidência I e força E. O antitérmico serve para o desconforto da criança; esse é o objetivo dele e é um objetivo legítimo.

Aceitar o tempo relatado pela família sem ancorá-lo em um evento externo

O dano: Estimar mal a duração pode distorcer a classificação e a avaliação do risco. Uma crise longa exige atenção à estabilização e à causa; uma crise breve não deve provocar investigação automática apenas porque a duração foi superestimada. Em ambos os casos, combine o relato com recuperação, exame e observação.

Como pegar a tempo: Não pergunte quantos minutos. Pergunte o que aconteceu enquanto durava: já tinha acabado quando o pai voltou do quarto? Ainda estava acontecendo quando a ambulância chegou? Deu tempo de chamar o vizinho? E oriente, para a próxima vez, que a família filme com o celular — o vídeo pode ajudar a reconstruir o evento, mas não substitui a avaliação nem deve atrasar proteção e pedido de ajuda.

Não perguntar por uma segunda crise no mesmo dia, e por antibiótico nos dias anteriores

O dano: A repetição em 24 horas muda a classificação e pede nova avaliação, mas não impõe por si todos os exames. O uso prévio de antibiótico pode modificar a apresentação de meningite e deve ser considerado com idade, vacinação, estado geral e sinais neurológicos. Ele aumenta a atenção à hipótese, sem constituir uma ordem automática de punção em toda criança recuperada.

Como pegar a tempo: Padronize as perguntas e faça sempre as duas, com estas palavras: desde que essa febre começou, isso aconteceu mais de uma vez? E: ele está tomando ou tomou algum antibiótico nos últimos dias, inclusive xarope que sobrou de outra vez?

Interpretar crises subentrantes como uma sequência de crises curtas

O dano: É como se perde um estado de mal epiléptico. Cada abalo isolado dura dois minutos e parece benigno; entre um e outro a criança nunca recupera de verdade a consciência. O plantão medica pouco, espera, e o relógio nunca para. O estado de mal epiléptico febril é a forma mais comum de estado de mal na infância e o único subgrupo em que se descreve dano neuronal agudo — e o benzodiazepínico perde eficácia à medida que a crise se prolonga, porque os receptores GABA-A vão sendo internalizados.

Como pegar a tempo: Entre um abalo e outro, faça a pergunta que define o caso: ela chegou a acordar, a olhar para vocês, a chorar direito? Se a resposta for não, o cronômetro nunca zerou. Trate como estado de mal desde a primeira dose, prepare a segunda linha e chame ajuda enquanto ainda dá tempo.

Pedir tomografia de crânio ou eletroencefalograma para tranquilizar a família

O dano: A tomografia entrega radiação ionizante a um crânio de criança pequena, frequentemente exige sedação, tira a criança da área de observação e produz achados incidentais que geram nova cascata. O eletroencefalograma feito nos primeiros dias mostra com frequência alentecimento ou atividade epileptiforme sem valor preditivo nenhum para recorrência ou epilepsia — e esse achado sem significado gera ansiedade nos pais e aumenta a probabilidade de a criança receber medicação antiepiléptica que não precisava. O exame pedido para acalmar termina medicando.

Como pegar a tempo: Troque o exame pela conversa, e dê números à conversa: depois de uma crise simples, 98 a 99 de cada 100 crianças não terão epilepsia. Reserve a neuroimagem para anormalidade neurológica focal, estado de mal, sinais de hipertensão intracraniana, trauma de crânio ou suspeita de malformação; e o eletroencefalograma para suspeita de doença cerebral de base, atraso do desenvolvimento e déficit neurológico.

Não puncionar o lactente pequeno que não está voltando ao normal

O dano: É o erro que mata. Abaixo de 18 meses, os sinais clínicos de meningite não são confiáveis: a criança pode ter meningite bacteriana com nuca livre e sem sinais meníngeos clássicos. Nas séries que sustentam a régua, as culturas de líquor positivas apareceram justamente nesse grupo — cinco entre as 260 crianças puncionadas por indicação, todas em menores de 12 meses.

Como pegar a tempo: Considere idade, vacinação, antibiótico prévio, recuperação e exame em conjunto. Criança que deteriora ou não recupera o estado basal precisa de avaliação urgente para infecção do SNC e outras causas. A equipe decide a punção após verificar segurança; se o procedimento precisar ser adiado e a suspeita de infecção for relevante, o tratamento não espera.

Errar o volume por fazer a conta de cabeça com a criança convulsionando

O dano: É o erro de dose mais comum da pediatria de urgência e o de consequência mais imediata: benzodiazepínico em excesso provoca depressão respiratória. A confusão típica é entre miligramas e mililitros — uma criança de 12 kg precisa de 0,72 a 1,2 mL de diazepam a 5 mg/mL, e quem aspira 6 mL por ter lido '6 mg' entrega cinco vezes a dose. A mesma armadilha existe fora da urgência: a regra de uma gota de dipirona por quilo entrega 25 mg/kg por dose, mais de uma vez e meia o teto de 16 mg/kg.

Como pegar a tempo: Escreva a conta antes de aspirar, em duas linhas: peso vezes dose igual a miligramas; miligramas divididos pela concentração igual a mililitros. Diga o resultado em voz alta para a enfermagem e confirme a concentração do frasco na mão, não a de memória. Respeite o teto absoluto por dose — 10 mg para o diazepam, 5 mg para o midazolam intramuscular, 7,5 mg para o intranasal.

Dar alta com o diagnóstico certo e a família errada

O dano: É o erro de maior impacto populacional do capítulo, e o mais invisível, porque o prontuário fica perfeito. A família que sai sem entender o que aconteceu volta ao pronto-socorro no próximo pico febril, muitas vezes a outro serviço, sem o registro do episódio anterior — e é nessa segunda ou terceira ida, com outro médico, sem história e sem tempo, que aparecem a tomografia, o líquor e o fenobarbital. O dano é infligido semanas depois, por outra pessoa, e ninguém o atribui à alta mal explicada.

Como pegar a tempo: Reserve os últimos quinze minutos e entregue três coisas: o nome do que aconteceu, o número do prognóstico e um papel com o que fazer da próxima vez. Depois peça que a família repita de volta com as próprias palavras. E registre no prontuário a classificação da crise e os critérios que a sustentam — esse registro é o que protege a criança do serviço seguinte.

Atribuir todo rebaixamento ao pós-ictal ou decidir a via aérea apenas por um número

O dano: Sedação e intubação sem indicação trazem riscos, mas atrasar suporte em quem perdeu proteção da via aérea ou ventila mal também causa dano. A explicação “está apenas dormindo” não é segura quando a criança permanece profundamente rebaixada ou deteriora.

Como pegar a tempo: Rebaixamento importante exige avaliação imediata pelo responsável. Verifique proteção da via aérea, padrão respiratório, oxigenação, ventilação e tendência da consciência. Posicione e forneça suporte, com ventilação assistida quando necessária. A equipe decide via aérea avançada conforme a condição clínica e o tratamento do estado de mal; não espere a recuperação suposta do pós-ictal diante de falha respiratória.

Chamar de crise febril o que está fora da janela de idade

O dano: Abaixo de 6 meses e acima de 5 anos, o rótulo benigno encobre o que precisava ser procurado: infecção do sistema nervoso central e distúrbio metabólico no lactente muito pequeno; síndrome epiléptica, incluindo as ligadas a canal de sódio, na criança maior cujas crises febris não param na idade esperada. Nos dois casos, o rótulo errado adia a investigação por semanas ou meses.

Como pegar a tempo: Trate a idade como o primeiro filtro, antes de duração e lateralidade. Fora de 6 meses a 5 anos, a criança com febre e crise é investigada — e crise febril que persiste depois dos 5 anos, que se repete de forma complexa ou que vem acompanhada de crise sem febre é encaminhamento para neurologia pediátrica, não alta com orientação.

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O que dizer ao paciente e à família

A conversa com a família não é o fecho educado do atendimento: é a intervenção terapêutica de maior efeito deste capítulo. A crise em si é benigna e se resolve sozinha; o que produz dano nas semanas seguintes é o comportamento que nasce do susto. Nada disso é tratado com receita — é tratado com quinze minutos de conversa bem-feita.

Existe um nome para o pano de fundo dessa conversa: febrefobia. A associação entre febre e convulsão está implícita para as famílias e, com frequência, para os próprios profissionais, e transforma um sintoma comum em objeto de pânico. Um estudo brasileiro com 692 crianças do Sul do país mostrou o tamanho do problema: cerca de 73% dos cuidadores medicaram no último episódio febril, a temperatura média considerada febre foi 37,4 °C, cerca de 70% das doses usadas estavam abaixo da dose mínima recomendada, e 26,7% praticavam alternância de antitérmicos — a maioria por orientação médica.

Três princípios organizam a fala. Primeiro: nomeie o evento antes de explicar qualquer coisa, porque a família precisa saber que aquilo tem nome e que você já viu antes. Segundo: dê os números, e dê-os em pessoas, não em porcentagens — 'nove em cada dez' funciona onde '10%' não funciona. Terceiro: desfaça a culpa explicitamente, sem esperar que ela apareça na forma de pergunta; ela quase sempre está lá e quase nunca é dita.

E há o que não se promete. Não se promete que não vai acontecer de novo, porque pode acontecer. Não se promete que nunca será epilepsia, porque existe um risco pequeno e ele é real. Não se promete que a criança está definitivamente bem antes de as reavaliações terminarem. A confiança que sustenta a alta vem de a família ter recebido o número verdadeiro, não a garantia falsa.

Os primeiros trinta segundos, com a mãe convencida de que o filho estava morrendo

"Ele está respirando, o coração está bom e ele já está reagindo. O que aconteceu tem nome, é uma convulsão por causa da febre, e é uma coisa que eu vejo aqui toda semana. Eu sei que pareceu que ele ia morrer — todas as mães me dizem isso, e faz sentido, é assustador de assistir. Agora eu vou examinar ele com calma e daqui a pouco eu sento com vocês e explico tudo."

Não diga: "Calma, mãe, não foi nada." Ela acabou de assistir ao que acredita ter sido a morte do filho; dizer que não foi nada invalida o que ela sentiu e faz com que nada do que você disser depois seja levado a sério.

Explicar o que é crise febril, depois que a criança já está estável

"O cérebro de criança pequena, entre seis meses e cinco anos, é mais sensível a mudanças rápidas de temperatura. Quando a febre sobe depressa, ele pode dar uma descarga elétrica e o corpo inteiro treme — é isso que vocês viram. Não é o cérebro sendo danificado; é o cérebro reagindo, do jeito que o cérebro dessa idade reage. Isso acontece com duas a cinco de cada cem crianças, e depois dos cinco anos para de acontecer sozinho, sem tratamento nenhum."

Não diga: Começar pelo mecanismo detalhado, com citocinas e receptores. A família não precisa da fisiopatologia; precisa saber que o cérebro reagiu, não quebrou.

Responder à pergunta que a família não faz em voz alta: ficou sequela?

"Vocês devem estar se perguntando se ficou alguma sequela. Não ficou, e isso não é para consolar — é o que os estudos mostram. A crise febril simples não causa dano no cérebro, não muda a inteligência, não muda o comportamento e não atrapalha na escola. Isso já foi acompanhado ao longo de anos em milhares de crianças. Ele vai ser exatamente a mesma criança que era ontem."

Não diga: Esperar a família perguntar. A pergunta sobre sequela quase sempre está lá e quase nunca é feita, porque a família tem medo da resposta. Antecipe-a.

Responder se isso é epilepsia

"Não é epilepsia. Epilepsia é quando o cérebro tem crises sem nenhum motivo externo, repetidas vezes. Aqui teve motivo: a febre. E o que a gente sabe é que, depois de uma crise febril simples como a dele, entre noventa e oito e noventa e nove crianças de cada cem não terão epilepsia. O risco existe, é pequeno, e é um pouco maior que o de qualquer criança — sai de meio por cento para cerca de um por cento. Se em algum momento ele tiver uma crise sem febre nenhuma, aí sim a gente reavalia."

Não diga: "Não tem nada a ver com epilepsia." Não é verdade, e a família descobrirá isso na primeira busca na internet. Perder a credibilidade nesse ponto contamina tudo o mais que você disse.

Explicar por que não vai pedir exame nenhum

"Eu entendo que não pedir exame pareça pouco. Mas nesse quadro, com essa idade, com a crise que durou pouco e com ele já normal no exame, os exames não acrescentam nada — e cada um deles tem um custo para ele. A tomografia é radiação no crânio de uma criança de dois anos. O exame do líquido da espinha é uma agulha nas costas. O eletroencefalograma frequentemente mostra alterações que não querem dizer nada e que acabam levando criança saudável a tomar remédio à toa. O que eu vou fazer, que é mais seguro que qualquer exame, é examinar ele de novo daqui a uma hora e mais uma vez depois. Se ele não estiver melhorando como esperado, aí eu mudo de plano e explico para vocês."

Não diga: "Não precisa de exame." A frase soa como economia ou descaso. Diga o que você vai fazer no lugar do exame — e o "no lugar" é a reavaliação programada, que é conduta ativa.

Desfazer a culpa, que quase sempre está lá

"Eu quero dizer uma coisa importante: não teve nada que vocês pudessem ter feito. Não foi por ter demorado a dar o remédio, não foi por ter agasalhado demais, não foi por ter deixado ele no sol. Isso já foi estudado justamente em crianças que já tinham tido crise antes: dar remédio de febre de horário não muda em nada a chance de acontecer de novo. Essa sensibilidade é de família, vem no gene — inclusive, o senhor ou alguém da família teve isso quando criança?"

Não diga: "Vocês fizeram tudo certo." Se a família não fez tudo certo — deu banho gelado, colocou o dedo na boca —, a frase é falsa e ela sabe. Diga que não havia como evitar, que é verdade, e corrija o resto depois, sem repreender.

Responder ao pedido por um remédio que previna

"Eu queria poder dar. O problema é que o remédio que preveniria a crise é um anticonvulsivante de uso contínuo, e ele tem efeito colateral de verdade em criança pequena: mexe no sono, deixa agitada, deixa irritada. Trocar um evento assustador mas inofensivo por um remédio que atrapalha o dia a dia dela não compensa — e ele não impede que ela venha a ter epilepsia, que é o que vocês estão realmente temendo. O que protege de verdade é vocês saberem o que fazer se acontecer de novo. É isso que eu vou ensinar agora, e vai escrito neste papel."

Não diga: "Não é indicado." A frase encerra a conversa sem responder ao medo que a motivou. A família não quer o remédio: quer não passar por aquilo de novo. Responda ao medo.

Responder se foi a vacina

"Ele tomou vacina há poucos dias, então essa pergunta faz todo sentido e eu vou registrar isso. A vacina pode dar febre, e a febre pode dar a crise — mas o efeito é pequeno: em cada duas mil e quinhentas crianças vacinadas, a vacina acrescenta uma crise febril, enquanto setenta e cinco a cem delas teriam crise febril de qualquer jeito, com ou sem vacina. E isso não contraindica as próximas doses. Eu vou anotar o nome, o lote e o fabricante da vacina e notificar, porque é assim que se acompanha a segurança dela."

Não diga: "Não tem nada a ver com a vacina." Além de poder ser falso, é a frase que produz recusa vacinal — a família sente que a preocupação dela foi descartada e leva a dúvida para casa, sem resposta.

Ensinar o que fazer na próxima vez, com o papel na mão

"Se acontecer de novo, faça exatamente isto: deite ele de lado, no chão mesmo, com a cabeça apoiada. Tire o que estiver perto e não segure ele. Não coloque nada na boca — nem o dedo, nem colher, nem pano; ele não vai engolir a língua, e o que acontece de verdade quando se põe a mão na boca é machucar ele e machucar vocês. Olhe o relógio e marque a hora que começou. Se puder, filme com o celular: o vídeo vale mais do que qualquer coisa que vocês consigam me contar depois. E chame o 192 se passar de cinco minutos, se repetir, se ele não voltar a respirar direito ou se ele se machucar."

Não diga: Dar a orientação só falada, no corredor, com a criança chorando. Se a família não consegue repetir de volta, a orientação não foi dada. Entregue por escrito, leia em voz alta e peça que alguém repita.

Combinar quando voltar, e a incerteza que sobra

"Eu vou te dizer com honestidade o que eu sei e o que eu não sei. Eu sei que o exame dele está normal agora e que essa crise foi do tipo que não deixa sequela. O que eu não sei é se vai acontecer de novo — pode acontecer, e a chance é maior nos próximos seis a doze meses. Isso não vai fazer mal a ele, e não significa que a gente errou hoje. Vocês voltam se a febre passar de três dias, se ele ficar muito molinho ou muito irritado, se recusar líquido, se vomitar tudo, se aparecerem manchinhas vermelhas na pele que não somem quando a gente estica, ou se o pescoço ficar duro. E em uma semana ele passa na unidade de saúde para revisar tudo."

Não diga: "Qualquer coisa, volta." É a orientação mais dada e a menos útil: transfere a decisão para uma família que acabou de levar um susto e que, na dúvida, vai voltar por qualquer coisa mesmo — ou não vai voltar quando deveria.

Falar com a creche ou com a escola, quando a família pede

"A creche pode receber ele normalmente assim que a febre passar, e não precisa de atestado dizendo que ele está liberado de nada. O que ajuda é você entregar uma cópia deste papel para a professora, com o que fazer se acontecer lá. E vale dizer a elas: não dá para evitar isso com remédio, e nem toda criança com febre alta convulsiona — é uma sensibilidade dele."

Não diga: Deixar a família descobrir sozinha o que dizer na creche. A pressão da escola por um laudo é uma das razões pelas quais famílias voltam ao pronto-socorro pedindo exames.

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Onde bons médicos discordam

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.

A partir de que idade a criança com crise febril deixa de ter indicação de punção lombar só pela idade?

Abaixo de 12 meses, a punção deve ser fortemente considerada

O corte de 12 meses vem dos parâmetros práticos da pediatria norte-americana e é o que os dados de rendimento sustentam: nas séries de crianças com crise febril complexa, todas as culturas de líquor positivas ocorreram em menores de 12 meses. Abaixo de um ano, a punção é considerada de forma ampla.

Machado MR, Carmo ALS, Antoniuk SA. Crise febril na infância: uma revisão dos principais conceitos. Residência Pediátrica. 2018;8(supl 1):11-16.

Abaixo de 18 meses, porque o exame clínico não é confiável

O corte de 18 meses é o operacional no Brasil e nasce de outra lógica: os sinais clínicos de meningite não são confiáveis abaixo dessa idade, de modo que o exame normal não tranquiliza. O protocolo federal usa 18 meses, combinado a sinais de deterioração clínica; fluxos municipais brasileiros usam 18 meses como condição especial que muda toda a conduta.

Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Epilepsia, Portaria Conjunta nº 17/2018, tópico Crises febris; e Curitiba, Secretaria Municipal da Saúde, Crises convulsivas em pediatria, v. 2, 2024.

Como decidir

Não use uma idade isolada como autorização ou dispensa de punção. Idade pequena, vacinação incompleta e antibiótico prévio reduzem a segurança de uma impressão clínica superficial; considere-os junto da recuperação e dos sinais de infecção do SNC. Criança deteriorando requer atendimento urgente e avaliação de segurança antes do procedimento. Criança recuperada requer julgamento individual, não punção por ansiedade nem garantia de ausência de doença apenas pela idade.

Prescrever ou não profilaxia intermitente com benzodiazepínico para a criança que repete crises febris?

Pode ser oferecida em cenários definidos, no início da febre

O protocolo federal descreve dois cenários em que a terapia intermitente pode ser considerada como medida de emergência: criança com um ou mais episódios de crise febril simples e pais confiáveis; e criança com crises frequentes em curto espaço de tempo — três ou mais em seis meses, quatro ou mais em um ano. A administração é retal, como primeira escolha, ou oral, de diazepam 0,4 a 0,5 mg/kg no início da febre, com repetição uma segunda vez se a febre persistir após 8 horas, tipicamente limitada a duas doses. O clobazam oral aparece como alternativa. A revisão brasileira acrescenta que crianças de alto risco tratadas com diazepam profilático têm redução do risco de recorrência de 75%-100% para 10%-15%.

Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Epilepsia, Portaria Conjunta nº 17/2018, tópico Crises febris; e Residência Pediátrica. 2018;8(supl 1):11-16.

Não se prescreve profilaxia para recorrência de crise febril simples

O mesmo protocolo federal afirma, no parágrafo anterior, que dado o prognóstico benigno das crises febris simples, que não causam danos permanentes e tendem a remitir espontaneamente com a idade, e os efeitos adversos potenciais dos fármacos antiepilépticos, a profilaxia para recorrências não é recomendada. A profilaxia intermitente também tem efeitos adversos — sonolência e letargia — e o desfecho que a família teme, a epilepsia, não é alterado por tratamento nenhum: o risco de epilepsia não difere entre grupo tratado e não tratado.

Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Epilepsia, Portaria Conjunta nº 17/2018, tópico Crises febris; e Residência Pediátrica. 2018;8(supl 1):11-16.

Como decidir

A divergência mora dentro do mesmo documento, o que já diz alguma coisa: a profilaxia intermitente é uma decisão de balanço fino, não uma indicação padronizada. Para o paciente à sua frente, três critérios resolvem. Primeiro, o momento: essa decisão não é de plantão. Não se inicia profilaxia na noite da primeira crise, com a família em pânico e sem seguimento marcado — inicia-se, se for o caso, em consulta de seguimento com neurologia ou pediatria, com a frequência das crises documentada. Segundo, a frequência real: os cenários do protocolo exigem crises repetidas em curto intervalo, o que exclui a esmagadora maioria das crianças. Terceiro, a sonolência: quem toma benzodiazepínico ao primeiro sinal de febre fica sonolento justamente quando os sinais de meningite precisariam ser percebidos — o que só é aceitável com uma família muito bem orientada e com acesso fácil ao serviço. Diante de dúvida, o caminho seguro é não prescrever no plantão e encaminhar a decisão para o seguimento.

Qual é a dose retal de diazepam quando não há acesso venoso?

0,5 a 1 mg/kg, com teto de 10 mg

O protocolo de suporte avançado do SAMU 192 prescreve 0,5 a 1 mg/kg por dose por via retal quando não se obtém acesso vascular, com máximo de 10 mg por dose e volume de 0,1 a 0,2 mL/kg da solução injetável de 5 mg/mL, com início de ação de 2 a 6 minutos. A dose mais alta reconhece que a absorção retal é menor e mais variável que a intravenosa.

Ministério da Saúde. Protocolos de intervenção para o SAMU 192: Suporte Avançado de Vida, 2. ed., 2016, protocolo APed22.

0,3 mg/kg

O fluxo de crises convulsivas em pediatria das UPAs de Curitiba prescreve diazepam retal a 0,3 mg/kg quando não há acesso venoso, no mesmo bloco em que indica midazolam intramuscular ou intranasal a 0,2 mg/kg — uma dose mais conservadora, coerente com um serviço que tem monitorização limitada e transporte à frente.

Curitiba, Secretaria Municipal da Saúde. Crises convulsivas em pediatria: fluxo de atendimento nas UPAs, v. 2, 25 jun. 2024.

Como decidir

Escolha a via e o esquema pediátrico padronizado pelo serviço, com dose, teto e intervalo definidos. Não deduza uma dose nova pela comparação entre documentos nem compense falta de suporte com subdose. Verifique o que já foi administrado antes da chegada, prepare ventilação e acione retaguarda. O esquema retal apresentado no capítulo é 0,5 mg/kg por dose, teto de 10 mg; não deve ser misturado com outra faixa durante a mesma prescrição.

Qual é a dose intravenosa de diazepam na criança que convulsiona?

0,3 a 0,5 mg/kg, máximo de 10 mg por dose

Os documentos brasileiros voltados à emergência trabalham nessa faixa. O protocolo do SAMU 192 prescreve 0,3 a 0,5 mg/kg por via intravenosa ou intraóssea, com máximo de 10 mg por dose; o material da atenção integrada às doenças prevalentes na infância indica 0,3 a 0,5 mg/kg por via intravenosa ou retal como tratamento urgente prévio à referência; e o fluxo municipal usa 0,2 a 0,5 mg/kg administrados em 2 minutos.

Ministério da Saúde. Protocolos de intervenção para o SAMU 192, 2. ed., 2016, APed22; Aidpi Criança 2 meses a 5 anos, 2017; Curitiba, Crises convulsivas em pediatria, v. 2, 2024.

0,05 a 0,2 mg/kg, máximo de 10 mg por dose

O manual de vigilância epidemiológica de eventos adversos pós-vacinação indica diazepam intravenoso lento na dose de 0,05 a 0,2 mg/kg para a crise febril, com midazolam intravenoso ou intranasal a 0,05 a 0,15 mg/kg como alternativa e teto de 6 mg por dose, permitindo repetir até três vezes. A dose menor é coerente com o cenário para o qual o manual foi escrito: sala de vacinação e serviços de rotina de imunização, com recursos habituais e sem retaguarda de terapia intensiva.

Ministério da Saúde. Manual de vigilância epidemiológica de eventos adversos pós-vacinação, 4. ed. atual., 2021, item 26.4.1.

Como decidir

As faixas de documentos com finalidades diferentes não devem ser combinadas em uma regra improvisada de titulação. Use o protocolo pediátrico adotado para crise em curso, confirme dose, concentração, velocidade e doses prévias com o responsável, e mantenha suporte ventilatório disponível. Falta de estrutura indica necessidade de retaguarda e transferência; não transforma uma dose menor em conduta universalmente segura. Quanto às repetições, este percurso adota duas doses adequadas de benzodiazepínico no total, contando as pré-hospitalares, com segunda dose após 5 minutos se necessário e preparo da segunda linha. As descrições históricas acima não são uma ordem para acrescentar uma terceira dose.

Toda criança com crise febril complexa precisa ser internada?

Sim, pela variabilidade das condições subjacentes

O protocolo federal é direto: crianças com crise febril complexa devem ser internadas, devido à ampla variabilidade das condições que podem estar por trás desse evento, e nelas estão recomendados exames laboratoriais, exames de imagem, eletroencefalograma e punção lombar na busca de uma causa.

Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Epilepsia, Portaria Conjunta nº 17/2018, tópico Crises febris.

Nem sempre: observação estruturada com discussão da regulação

Fluxos de pronto-atendimento brasileiros posicionam a crise febril complexa como uma das condições especiais que exigem observação de quatro horas e investigação da febre com hemograma, proteína C reativa, urina e radiografia de tórax, com discussão obrigatória com a regulação médica quando a crise foi prolongada ou recorrente, ou quando o exame neurológico pós-ictal está alterado — reservando a internação para quem não evolui bem.

Curitiba, Secretaria Municipal da Saúde. Crises convulsivas em pediatria: fluxo de atendimento nas UPAs, v. 2, 25 jun. 2024.

Como decidir

A recomendação ampla do documento anterior deve ser confrontada com a apresentação e com a avaliação pediátrica atual. O RCH 2026 propõe investigação dirigida, discussão dos casos complexos e transferência diante de comprometimento respiratório/hemodinâmico, crise prolongada ou alteração persistente da consciência. A criança totalmente recuperada pode ter outro percurso, desde que a equipe avalie a doença febril e a segurança do seguimento. Documente o motivo da decisão de observar, internar ou dar alta.

O eletroencefalograma tem algum papel depois de uma crise febril complexa?

Sim, junto com exames, imagem e punção, na busca da causa

O protocolo federal recomenda, nos pacientes com crise febril complexa, exames laboratoriais, exames de imagem, eletroencefalograma e punção lombar na busca de uma causa para a condição, com tratamento voltado à causa encontrada.

Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Epilepsia, Portaria Conjunta nº 17/2018, tópico Crises febris.

Sem EEG de rotina para prever recorrência; investigar quando houver uma hipótese específica

Parâmetros práticos consolidados afirmam que não há evidência de que eletroencefalograma anormal após uma primeira crise febril prediga risco de recorrência ou desenvolvimento de epilepsia, mesmo no subgrupo com crise complexa. Realizado até sete dias após a crise, pode mostrar sofrimento cerebral ou atividade epileptiforme sem que isso implique maior risco — e a anormalidade sem valor preditivo gera ansiedade nos pais e aumenta a chance de a criança receber medicação. As indicações ficam restritas a suspeita de doença cerebral subjacente, atraso do desenvolvimento e déficit neurológico.

Machado MR, Carmo ALS, Antoniuk SA. Crise febril na infância: uma revisão dos principais conceitos. Residência Pediátrica. 2018;8(supl 1):11-16.

Como decidir

Separe a pergunta prognóstica da investigação de doença neurológica. EEG não é rotina após crise febril simples nem se torna obrigatório por uma característica complexa isolada. Suspeita de epilepsia, crises focais recorrentes, alteração do desenvolvimento ou recuperação incompleta podem justificar investigação com neurologia. O momento e a finalidade do exame devem estar escritos; alterações transitórias após crise exigem interpretação contextual, sem iniciar manutenção apenas por um traçado.

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O raciocínio, em voz alta

Miguel, 1 ano e 7 meses, 12 kg, trazido no colo a uma UPA às 21h40. A mãe conta que ele estava quente desde a tarde, ficou duro, virou os olhos, ficou roxo em volta da boca e tremeu o corpo inteiro; que durou uns dez ou quinze minutos e que ela achou que ele estava morrendo. Na chegada: sonolento, desperta ao estímulo com movimento de retirada, respirando bem, saturação de 96% em ar ambiente, frequência cardíaca de 168, temperatura axilar de 39,3 °C, sem crise em curso. A técnica pergunta se pode puncionar o acesso; o balcão avisa que a tomografia está funcionando hoje.

  1. o que penso agora, antes de tocar nele

    Três coisas já estão decididas antes de qualquer exame. A primeira: não há crise acontecendo, portanto não há indicação de benzodiazepínico — dar sedativo agora só acrescentaria depressão respiratória e apagaria o único parâmetro que vai confirmar o diagnóstico, que é a recuperação espontânea. A segunda: ele respira, satura acima de 94% e desperta ao estímulo, então não preciso de via aérea avançada nem de oxigênio; o rebaixamento pós-ictal, mesmo profundo, não indica intubação por si. A terceira: a idade dele, um ano e sete meses, cai bem no meio da janela típica, com pico por volta dos dezoito meses. Nada disso é diagnóstico ainda — é o que me dá permissão para não fazer nada apressado e ir buscar a informação que decide o caso.

  2. o que peço primeiro, e é gratuito

    Peço a glicemia capilar, que é o único exame que se faz em toda criança que convulsionou, porque hipoglicemia é causa tratável e leva segundos para afastar. Vem 92 mg/dL. E peço a coisa mais valiosa da noite: a testemunha. Descubro que quem estava na sala era a mãe, e que ela viu o começo. O acesso venoso eu adio — ele não está convulsionando e não vou usar veia para nada agora.

  3. ancoro o tempo, em vez de aceitar o número

    Não pergunto quantos minutos durou, porque sei que a resposta virá inflada. Pergunto o que aconteceu enquanto durava. A mãe conta que gritou pelo marido, que ele veio do banheiro, que os dois ficaram olhando e que aí acabou; que só depois pegaram o carro. O marido confirma que, quando chegou na sala, ainda tremia, mas parou logo. Traduzo: alguns minutos, provavelmente entre dois e quatro — bem abaixo dos quinze. O que penso muda: a duração deixa de ser um problema.

  4. as outras três perguntas que classificam

    Foi o corpo inteiro ou começou de um lado? A mãe diz que os dois braços e as duas pernas, ao mesmo tempo, e que os olhos estavam virados para cima, não para o lado. Aconteceu mais de uma vez desde que essa febre começou? Não, foi a primeira. Quanto tempo levou até ele reconhecer vocês? Ela diz que ele ficou molinho e dormiu no carro, mas que resmungou quando ela falou o nome dele. Somo: generalizada, episódio único, com sonolência esperada. Faltam duas confirmações — a idade, que já tenho, e a recuperação completa, que só o tempo vai me dar.

  5. os antecedentes que quase ninguém pergunta

    Antibiótico nos últimos dias, inclusive xarope que sobrou de outra vez? Nenhum. Isso é importante: uso recente de antibiótico modificaria a avaliação do risco por poder mascarar meningite; sua presença exigiria julgamento com os demais achados, sem punção automática. Caderneta? Em dia, com a tríplice viral aplicada aos doze meses e nenhuma vacina nos últimos trinta dias — o que afasta evento adverso pós-vacinação. Alguém da família teve isso na infância? O pai teve, duas vezes, e o irmão dele também. História familiar de primeiro grau positiva aparece em cerca de um terço dos casos e me dá, além do reforço diagnóstico, a frase que vou usar depois para desfazer a culpa.

  6. o exame físico tem dois alvos, não um

    O primeiro alvo é neurológico e é feito com os sinais de alerta na cabeça: aspecto toxêmico, prostração acentuada, petéquias, rigidez de nuca, irritabilidade que não cede ao colo, fontanela abaulada. Nenhum presente. O segundo alvo é o foco da febre, e é ele que fecha o caso. Otoscopia: membrana timpânica direita abaulada, hiperemiada, sem mobilidade. Otite média aguda. Oroscopia sem alteração, ausculta pulmonar limpa, sem esforço, abdome normal, pele sem exantema, mucosas úmidas, enchimento capilar de 2 segundos. A frequência de 168 está acima do parâmetro de alerta para a idade, mas ele está febril e a taquicardia acompanha a febre; vou reavaliar depois que a temperatura cair.

  7. o que decido não pedir, e por quê

    Não peço tomografia: ele não tem anormalidade neurológica focal, não está em estado de mal, não tem sinal de hipertensão intracraniana e não houve trauma. Não peço eletroencefalograma: ele não prediz recorrência nem epilepsia nem no subgrupo complexo, e um traçado alterado sem valor preditivo tende a terminar em anticonvulsivante desnecessário. Não peço hemograma nem proteína C reativa: o foco da febre está identificado, e esses exames pertencem à investigação de febre sem foco, não à investigação da crise. Não punciono: ele tem mais de dezoito meses, não usou antibiótico, não tem sinal meníngeo e a crise foi generalizada e breve. E não peço a tomografia que está funcionando hoje — disponibilidade não é indicação.

  8. o que faço na primeira hora

    Prescrevo o antitérmico pelo desconforto, não pela meta de temperatura: dipirona solução oral 500 mg/mL, 6 gotas, que são 150 mg — 12 kg vezes 12,5 mg/kg, dentro da faixa de 10 a 16 mg/kg. Trato a otite conforme o protocolo do serviço. Deixo Miguel em decúbito lateral, monitorizado, à vista da equipe, e escrevo no prontuário a hora da reavaliação. E aviso a família do que vou fazer: examinar de novo em uma hora, e mais uma vez depois — porque, aqui, o tempo é o exame.

  9. a reavaliação, que é o teste diagnóstico

    Uma hora depois, temperatura de 37,8 °C, frequência cardíaca de 132, Miguel acordado, sentado no colo, olhando para mim, chorando quando encosto e se acalmando com a mãe. Move os quatro membros do mesmo jeito, pega o brinquedo com as duas mãos, sem desvio do olhar, pupilas simétricas, nuca livre, fontanela já fechada para a idade, pele sem petéquias. Aceitou água. É esta reavaliação, e não nenhum exame, que converte a hipótese em diagnóstico: crise febril simples, com foco em otite média aguda. Registro no prontuário os cinco critérios, com todas as letras.

  10. o que digo à família, que é o tratamento de verdade

    Sento com os dois. Nomeio o evento e digo que é comum. Dou o número em pessoas: entre noventa e oito e noventa e nove de cada cem crianças que tiveram uma crise assim não terão epilepsia; a crise simples não causa dano cerebral, não muda a inteligência e não atrapalha na escola. Antecipo a pergunta sobre sequela sem esperar que ela seja feita. Desfaço a culpa com a evidência: dar antitérmico de horário não muda a chance de acontecer de novo, e por isso não havia como impedir — e uso a história do pai para mostrar que isso é de família. Digo o que não sei: pode acontecer de novo, com mais chance nos próximos seis a doze meses, e isso não fará mal a ele.

  11. o que vai escrito, e o que não vai

    Vai a receita do antitérmico com a dose em miligramas e em gotas para os 12 kg dele, e o tratamento da otite. Vai o papel com o plano da próxima vez: deitar de lado, não segurar, não colocar nada na boca, olhar o relógio, filmar se der, chamar o 192 se passar de cinco minutos ou repetir. Vão os sinais de retorno imediato: febre além de três dias, sonolência excessiva, recusa de líquidos, vômitos, manchas que não somem ao esticar a pele, pescoço duro. Vai a referência para a unidade básica em sete dias. Não vai fenobarbital, não vai valproato, não vai antitérmico de horário para prevenir e não vai antibiótico além do da otite. Antes de entregar, peço que a mãe me repita o que ela vai fazer se acontecer de novo — e ela repete, com as próprias palavras.

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Faça você

Três semanas depois, mesma UPA, mesmo plantão. Helena, 10 meses, 8 kg, trazida pela avó às 3h da manhã. Há dois dias em uso de amoxicilina, prescrita numa unidade básica por otite. Hoje voltou a ter febre e, há cerca de quarenta minutos, teve um episódio em que ficou dura e tremeu — segundo a avó, o braço direito mexia mais, e a boca puxou para a direita. Depois ficou molinha. Na chegada: temperatura de 38,9 °C, frequência cardíaca de 172, frequência respiratória de 44, saturação de 97%, sem crise em curso. Ela desperta ao estímulo doloroso, mas não abre os olhos espontaneamente e não olha para a avó. Fontanela anterior ainda palpável, discretamente tensa. Glicemia capilar de 88 mg/dL. Duas horas depois, na reavaliação, Helena continua tão sonolenta quanto na chegada, chora de forma aguda quando é manipulada e não se acalma no colo; recusou líquidos. O braço direito se move menos que o esquerdo.

  1. o que os dados da crise dizem

    A descrição da avó tem lateralidade — o braço direito mexia mais e a boca puxou para um lado. Isso é crise focal, e crise focal, sozinha, já basta para classificar como crise febril complexa. Não é preciso que a duração tenha passado de quinze minutos nem que tenha havido repetição.

  2. o que a idade acrescenta

    Dez meses está dentro da janela de 6 meses a 5 anos, mas abaixo dos 18 meses em que os sinais clínicos de meningite deixam de ser confiáveis — e abaixo dos 12 meses em que as culturas de líquor positivas se concentraram nas séries que sustentam a régua. A idade, aqui, não tranquiliza: ela pesa contra.

  3. o antecedente que ninguém oferece espontaneamente

    Helena recebeu amoxicilina nos dias anteriores. Explique como isso pode modificar a apresentação de uma infecção e por que, neste caso, deve ser interpretado junto de idade, focalidade e recuperação incompleta. A seguir, avalie quais achados tornam a punção insegura antes de decidir realizá-la.

  4. o que a trajetória mostra na reavaliação

    A curva não é a da crise febril simples. Duas horas depois, ela não está melhor: mantém rebaixamento, tem irritabilidade que não cede ao colo, recusa líquidos e apresenta assimetria de movimentação do braço direito. Pós-ictal prolongado e assimetria persistente são achados de reclassificação, e a fontanela discretamente tensa entra na lista de sinais de alerta.

Ver como fecharíamos

Helena precisa de atendimento hospitalar urgente: duas horas depois segue muito sonolenta, recusa líquidos e mantém déficit motor, além de febre e fontanela tensa. O uso de antibiótico prévio pode modificar a apresentação de meningite. Esses achados, em conjunto, sustentam investigação de infecção do SNC e de outras causas; a classificação complexa, sozinha, não é o motivo. Chame o responsável, monitore, obtenha acesso e amostras pertinentes sem atrasar tratamento. A focalidade persistente e a alteração importante da consciência exigem avaliar contraindicações e necessidade de imagem antes da punção; não presuma paralisia de Todd e não faça “punção agora” sem essa avaliação. Se a suspeita de infecção do SNC for mantida, o antimicrobiano começa prontamente, mesmo com líquor adiado. Internação, reavaliação neurológica e investigação dirigida são necessárias neste caso. A evolução não pode ser atribuída apenas à otite. O capítulo de meningites orienta o esquema, adjuvante, isolamento, vigilância e seguimento.

Gabarito da questão de abertura
Comentário

As orientações de segurança durante a crise são consensuais no material brasileiro dirigido a famílias e escolas: manter a calma, posicionar e proteger a cabeça de forma lateralizada, afastar objetos próximos, não imobilizar o corpo, nunca oferecer nada por via oral e nunca colocar o dedo ou objeto na boca. Colocar objeto na boca não impede nada — a criança não engole a língua — e produz trauma de mucosa, quebra dentária e mordedura de quem tenta. Nada por via oral vale também para o antitérmico: dar medicação durante a crise é risco de aspiração. Marcar o horário é o que permite classificar a crise depois, e o serviço de emergência é chamado se a crise passar de 5 minutos, se repetir, se a respiração não voltar ao normal, se houver traumatismo ou se for o primeiro episódio.

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Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
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Plano de revisão

Em 7 dias

Descreva uma crise pela focalidade, duração, recorrência e recuperação. Explique por que “complexa” exige avaliação dirigida, mas não determina automaticamente líquor, tomografia, EEG e internação. Compare uma criança recuperada após duas crises breves com Helena, que permanece sonolenta e com déficit focal. Justifique cada exame e o destino pelo quadro clínico, incluindo segurança da punção.

Em 30 dias

Na próxima simulação, comece pelo tempo de crise e pelo suporte: crise em curso a partir de 5 minutos requer tratamento pelo protocolo, enquanto glicemia, via aérea e ventilação são avaliadas em paralelo. Conte as doses já recebidas e prepare a escalada. Após cessar, acompanhe a recuperação e procure a causa da febre. Na alta, a família deve demonstrar primeiros socorros, reconhecer quando chamar ajuda e compreender que antitérmicos tratam desconforto, sem garantir prevenção de outra crise.

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Agora atenda

Você é o interno de plantão numa UPA, sozinho na sala de observação pediátrica. Entra no colo uma criança pequena que acabou de convulsionar em casa, com febre, trazida por uma família convencida de que ela quase morreu. Descubra quem viu a crise, ancore a duração num evento externo em vez de aceitar o número, classifique com as cinco perguntas, procure o foco da febre e os sinais de alerta, decida sobre punção lombar com critério — e, no fim, sente com a família e faça a conversa que evita a próxima corrida ao hospital.

Crise febril simples e complexa – Crise febril na criança — Internato | OsceLabs