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Ele vai andar?
Paralisia cerebral e encefalopatia crônica não progressiva
Paralisia cerebral da suspeita ao cuidado de anos: reconhecer no bebê de risco o movimento que falta aos três meses, dar à família o nome de alto risco sem esperar os dois anos, classificar pelo GMFCS para responder se a criança vai andar, pedir a radiografia do quadril antes da dor, proteger a deglutição e o peso, encaminhar a toxina pelo protocolo e abrir a porta do CER e do BPC — sem nunca dizer à família o que ninguém sabe.
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Ações Programáticas Estratégicas. Diretrizes de atenção à pessoa com paralisia cerebral. Brasília: Ministério da Saúde; 2013. 80 p.
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção Especializada à Saúde; Secretaria de Ciência, Tecnologia, Inovação e Insumos Estratégicos em Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Espasticidade. Aprovado pela Portaria Conjunta nº 5, de 22 de março de 2022. Brasília: Ministério da Saúde; 2022.
Novak I, Morgan C, Adde L, Blackman J, Boyd RN, Brunstrom-Hernandez J, et al. Early, accurate diagnosis and early intervention in cerebral palsy: advances in diagnosis and treatment. JAMA Pediatr. 2017;171(9):897-907. doi:10.1001/jamapediatrics.2017.1689. Errata em: JAMA Pediatr. 2017;171(9):919. doi:10.1001/jamapediatrics.2017.3169.
Sociedade Brasileira de Pediatria. Departamento Científico de Neonatologia. Manual de seguimento do recém-nascido de alto risco. 2. ed. São Paulo: SBP; 2024.
Brasil. Ministério da Saúde. Guia de atenção à pessoa com paralisia cerebral: documento preliminar. Consulta pública de 4 a 18 de novembro de 2025. Brasília: Ministério da Saúde; 2025.
Brasil. Ministério da Saúde. Portaria de Consolidação GM/MS nº 3, de 28 de setembro de 2017. Anexo VI — Rede de Cuidados à Pessoa com Deficiência, com a redação dada pela Portaria GM/MS nº 1.526, de 11 de outubro de 2023.
Brasil. Lei nº 8.742, de 7 de dezembro de 1993. Dispõe sobre a organização da Assistência Social. Art. 20 (Benefício de Prestação Continuada), texto compilado.
Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia. Consensos brasileiros de ortopedia e traumatologia. São Paulo: SBOT; 2019. Pergunta 24: Os programas de vigilância do quadril trazem benefício em crianças com paralisia cerebral?
Brasil. Ministério da Saúde. Caderneta da criança: passaporte da cidadania. 7. ed. Brasília: Ministério da Saúde; 2024.
Brasil. Ministério da Saúde. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais: Rename 2024. Brasília: Ministério da Saúde; 2024.
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente. Nota Técnica nº 52/2026-CGICI/DPNI/SVSA/MS: vacina pneumocócica conjugada 20-valente na Rede de Imunobiológicos para Pessoas com Situações Especiais e transição dos esquemas. Brasília: Ministério da Saúde; 2026.
Sociedade Brasileira de Pediatria. Departamento Científico de Gastroenterologia. Constipação intestinal. Guia Prático de Orientação nº 144. Rio de Janeiro: SBP; 2024.
Sociedade Brasileira de Pediatria. Departamentos Científicos de Pediatria Ambulatorial e de Infectologia. Manejo da febre aguda. Documento Científico. Rio de Janeiro: SBP; 2021.
Responda antes de ler
Na consulta de seguimento, uma menina de 18 meses com paralisia cerebral espástica bilateral, que não senta sem apoio, faz fisioterapia no centro de reabilitação. Não tem dor, a família não refere choro na troca de fraldas e a abertura das coxas está discretamente limitada à esquerda. Ela nunca fez radiografia de bacia. Qual a conduta mais adequada em relação ao quadril?
O paciente que você vai ver
Quarta-feira, oito e vinte da manhã, ambulatório de seguimento dos egressos da unidade neonatal de um hospital regional. A sala de espera tem onze cadeiras e catorze famílias, porque três vieram no mesmo ônibus da prefeitura, que sai às cinco e meia de uma cidade a setenta quilômetros. Numa das cadeiras, Nilcélia Lameira, 26 anos, embala Tomás, e Ananias Balduíno, o pai, segura a sacola com a caderneta, o resumo de alta e um envelope pardo que ninguém abriu na frente deles. Tomás nasceu com 29 semanas e 1.180 g, ficou 58 dias na unidade neonatal e hoje tem cinco meses e duas semanas de vida — três meses de idade corrigida. Pesa 5.300 g. Você é o interno do ambulatório, e a neuropediatra da equipe, a Dra. Minervina Garrido, entregou a você o prontuário antes de chamar a família.
O resumo de alta tem as linhas que todo egresso de 29 semanas carrega: ventilação mecânica por quatro dias, sepse tardia tratada, retinopatia acompanhada pela oftalmologia, triagem auditiva neonatal normal. Tem também duas linhas que mudam a conversa de hoje. A ultrassonografia de crânio da quarta semana descreveu cistos periventriculares nos dois lados, e a ressonância feita com 40 semanas de idade corrigida, anexada no envelope pardo, confirmou leucomalácia periventricular cística bilateral, com mielinização escassa do ramo posterior da cápsula interna. Na semana passada, a fisioterapeuta do seguimento, Benilde Maia, filmou Tomás deitado de costas, acordado e tranquilo, pelo método de avaliação dos movimentos generalizados. A anotação dela está na última folha: aos três meses de idade corrigida, movimentos irrequietos ausentes; repertório pobre, com padrão contraído e sincronizado.
Você chama a família e examina Tomás no colchonete. Ele sorri para a mãe, fixa o rosto dela e acompanha quando ela se move. Puxado pelas mãos para sentar, a cabeça cai para trás e só alcança a linha do tronco no fim do movimento. As duas mãos ficam fechadas quase o tempo todo, com o polegar dentro do punho, e só se abrem quando você as massageia. Suspenso pelas axilas, as pernas endurecem em extensão e cruzam na altura dos tornozelos. Quando a cabeça vira para a direita, o braço desse lado se estende e o outro se dobra, e a postura se mantém enquanto a cabeça está virada. O tronco é mole no colo; os membros inferiores resistem à abertura das coxas. O perímetro cefálico segue na curva.
As consultas anteriores do seguimento, de dois e de quatro meses de vida, repetem a mesma frase: atraso compatível com a prematuridade, corrigir a idade e reavaliar. Nilcélia conta o que viu em casa e que ninguém anotou: que o filho fica duro na hora do banho, que não leva as mãos à boca como a sobrinha fazia, que as pernas se cruzam quando ela o levanta. Conta também que uma mãe do grupo da unidade neonatal, cujo filho nasceu com 27 semanas, falou em paralisia cerebral, e que ela passou duas noites lendo sobre isso no celular. Ananias não diz nada durante o exame. Quando você termina, é ele quem pergunta, já de pé, com a sacola no ombro: “Doutor, o Tomás vai andar?”
A resposta pronta está na ponta da língua e nas folhas anteriores do prontuário: cada bebê tem seu tempo, prematuro atrasa mesmo, é cedo para falar em qualquer coisa, vamos esperar. Ela parece gentil e parece prudente. A Dra. Minervina, que entrou no fim do exame, não deixa você dizê-la. Pede que você reúna em voz alta o que está na mesa: um fator de risco que se reconhece desde o nascimento, uma lesão de substância branca nos dois lados na ressonância de termo, movimentos irrequietos ausentes numa idade em que deveriam estar presentes e um exame com cabeça que não sustenta, mãos fechadas, pernas que cruzam e reflexo tônico cervical que não cede. E pergunta se, com isso tudo, esperar ainda é prudência ou já é outra coisa.
Tomás tem três meses de idade corrigida, e a sala do fundo do ambulatório está livre. Três decisões cabem nesta manhã e nenhuma delas espera a próxima consulta: que nome dar ao que Tomás tem, sabendo que o diagnóstico definitivo ainda não se fecha; o que começar hoje, antes de qualquer certeza, e por qual porta da rede; e o que responder à pergunta que Ananias fez de pé, sem prometer que o filho vai andar e sem tirar dos pais uma possibilidade que ninguém, neste momento, tem como afastar.
Quem adoece disso
Nenhuma outra condição deixa tantas crianças com deficiência física grave quanto a paralisia cerebral. A revisão sistemática de Novak e colaboradores, de 2017, dá a medida dos países de alta renda: cerca de 2,1 casos por mil nascidos vivos, ou uma criança a cada quinhentas, com tendência de queda na Austrália e na Europa. As Diretrizes de atenção à pessoa com paralisia cerebral do Ministério da Saúde, de 2013, trazem a faixa de 1,5 a 5,9 por mil nos países desenvolvidos e uma estimativa de 7 por mil nos países em desenvolvimento, e atribuem a diferença ao pré-natal e à atenção primária à gestante. O documento preliminar que o Ministério pôs em consulta pública em 2025 atualiza os números: 1,6 por mil em alta renda e de 3,3 a 3,7 por mil em países de renda média e baixa, onde já existem registros nacionais.
O Brasil não tem esse registro, e os dois documentos federais dizem isso com todas as letras: faltam dados epidemiológicos sistematizados para medir a paralisia cerebral no país. O que existe são coortes de serviços. Na coorte PartiCipa Brazil, com mais de quatrocentas crianças e jovens de 2 a 18 anos de todas as regiões até 2024, predominam a forma bilateral e o tônus espástico, quase metade está nos níveis IV e V do sistema de classificação da função motora grossa, o GMFCS, e mais de 60% têm limitação manual importante. O Registro Brasileiro de Paralisia Cerebral, com cerca de seiscentas pessoas no mesmo período, descreve complicações perinatais frequentes, diagnósticos tardios e barreiras de acesso à reabilitação e à tecnologia assistiva. O documento preliminar lê o contraste com a alta renda, onde duas em cada três crianças com paralisia cerebral andam, como efeito de fatores socioeconômicos e ambientais — com a ressalva de que coortes de serviço não medem a população inteira.
A forma espástica responde por 85% a 91% dos casos na revisão de 2017; a discinética, que reúne distonia e coreoatetose, por 4% a 7%; a atáxica, por 4% a 6%; e a hipotônica, que nem todos os países classificam, por cerca de 2%. Entre as espásticas, a unilateral, antigamente chamada hemiplegia, soma 38%; a diplegia, com pernas mais afetadas que braços, 37%; a quadriplegia, 24%. A idade gestacional muda a proporção. As Diretrizes de 2013 registram que a espasticidade predomina na paralisia cerebral do prematuro e que as formas discinética e atáxica são mais frequentes na criança nascida a termo; entre os prematuros espásticos, a forma bilateral chega a 73% contra 21% da unilateral, e no termo a diferença cai para 48,5% contra 36,5%.
A causa completa não se identifica em cerca de 80% das crianças, mas quase sempre há fatores de risco na história da concepção, da gestação, do parto ou do período pós-neonatal, e a revisão de 2017 estima que 14% dos casos tenham componente genético. Metade das crianças com paralisia cerebral tem um fator de risco reconhecível já no berçário — prematuridade, restrição de crescimento, encefalopatia, crises neonatais, alteração genética. A outra metade vem de gestação e parto que pareceram tranquilos, e é descoberta mais tarde, quando a criança não senta ou usa uma mão só. A asfixia pesa menos do que a família imagina: pelas Diretrizes de 2013, a encefalopatia hipóxico-isquêmica explica apenas de 3% a 13% das paralisias cerebrais congênitas, e a maioria das crianças com asfixia perinatal não desenvolve o quadro. Para o recém-nascido de muito baixo peso, a Sociedade Brasileira de Pediatria calcula, no manual de 2024 sobre o egresso de alto risco, que de 10% a 15% terão problema neurossensorial grave, paralisia cerebral incluída.
O que acompanha o problema motor é o que mais ocupa o interno. Na revisão de 2017, a dor crônica atinge três em cada quatro pessoas com paralisia cerebral; a deficiência intelectual, 49%; a epilepsia, 35%; o deslocamento do quadril, 28%; os transtornos de comportamento, 26%; os distúrbios do sono, 23%; a cegueira funcional, 11%; e a surdez, 4%. Uma em cada cinco tem sialorreia, uma em cada quatro tem dificuldade de controle vesical e uma em cada quinze se alimenta por sonda. As Diretrizes de 2013 acrescentam que alguma dificuldade para se alimentar aparece em 19% a 99% das pessoas com paralisia cerebral, conforme o comprometimento motor, e que 99% das crianças nos níveis IV e V do GMFCS têm algum grau de disfagia; a perda auditiva sensorioneural chega a 12%, e o refluxo gastroesofágico, a até metade.
A doença respiratória é causa importante de adoecimento e de morte na paralisia cerebral, e a pneumonia é a principal causa de morte, segundo a revisão de 2017 — por isso a segurança da deglutição se avalia sempre que há queixa ao comer ou história de pneumonia. As Diretrizes de 2013 apontam a mobilidade e a capacidade motora oral como os principais preditores de morte. Dito de outro modo: a criança que não anda e não engole com segurança é a que mais morre, e as duas coisas se medem na consulta, com a classificação motora e com uma refeição observada.
Historicamente, o diagnóstico acontecia entre 12 e 24 meses de idade; hoje, pela revisão de 2017, pode ser feito antes de 6 meses de idade corrigida. A mesma revisão registra que 86% dos pais suspeitam do diagnóstico antes que ele seja dado. No Sistema Único de Saúde, um estudo de custos citado pelo documento preliminar de 2025 contou cerca de R$ 380 milhões gastos com atendimento ambulatorial e hospitalar de pessoas com paralisia cerebral entre 2015 e 2019, mais de 4,2 milhões de atendimentos de reabilitação, 70.767 procedimentos de aplicação de toxina botulínica — a maior parte do custo na forma quadriplégica espástica — e a radiografia de quadril entre os exames de imagem mais registrados. A rede existe e é usada; o que o interno decide é quando a criança entra nela.
Por que acontece o que acontece
A definição que as Diretrizes de 2013 e a revisão de 2017 adotam descreve a paralisia cerebral como um grupo de desordens permanentes do desenvolvimento do movimento e da postura, que limitam a atividade e se atribuem a um distúrbio não progressivo ocorrido no cérebro fetal ou infantil em desenvolvimento. Cada palavra decide alguma coisa. Permanente exclui os distúrbios transitórios do primeiro ano. Não progressivo diz respeito à lesão, e não à criança: a lesão fica como estava, mas o que a criança consegue fazer muda com a maturação das áreas preservadas, e o corpo muda com o crescimento — o comprometimento musculoesquelético, lembra o consenso da Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia de 2019, é tipicamente progressivo. Cérebro em desenvolvimento põe a lesão cedo, e as Diretrizes situam nos dois ou três primeiros anos o período em que ela resulta em paralisia cerebral. O nome antigo que ainda aparece em prontuário brasileiro, encefalopatia crônica não progressiva, diz o mesmo com mais precisão do que a palavra paralisia, que sugere uma criança imóvel e não descreve quase ninguém.
A fronteira mais importante do diagnóstico sai daí: o que progride não é paralisia cerebral. A criança que perde uma habilidade que já tinha — deixa de sustentar a cabeça, deixa de pegar objetos, deixa de falar palavras que falava — ou cujo quadro motor piora mês a mês tem uma encefalopatia progressiva até prova em contrário, e as Diretrizes de 2013 reservam os exames complementares justamente para esse diagnóstico diferencial. O capítulo O marco que ela tinha e perdeu, na apostila de Puericultura e Desenvolvimento, é dono da regressão como sinal de alerta e cede a investigação dela à neurologia pediátrica do serviço de referência; este capítulo usa a mesma fronteira com as mesmas palavras. O diagnóstico de paralisia cerebral também não encerra a busca de causa: a revisão de 2017 lembra que cerca de 10% das crianças têm ressonância normal e que a identificação de uma causa genética não impede que a criança tenha, ao mesmo tempo, paralisia cerebral.
O tipo clínico segue o lugar da lesão. Lesão do sistema piramidal produz a forma espástica, com tônus aumentado, reflexos profundos vivos, clônus e sinal de Babinski. Lesão dos núcleos da base e do tálamo produz a forma discinética, que as Diretrizes dividem em distonia — tônus muito variável, desencadeado pelo próprio movimento — e coreoatetose, com tônus instável e movimentos involuntários; nas duas, a postura anormal piora justamente quando a criança tenta se mexer ou se emociona. Disfunção do cerebelo produz a forma atáxica, com incoordenação, base alargada e tremor de intenção. A separação é didática: a revisão de 2017 insiste que espasticidade e distonia muitas vezes coexistem, e o documento preliminar do Ministério de 2025 classifica como mista a criança que tem características de mais de um tipo.
No prematuro, o alvo típico é a substância branca que envolve os ventrículos laterais. Entre o fim do segundo trimestre e o início do terceiro, essa região é irrigada por vasos frágeis e tem células especialmente sensíveis à falta de oxigênio e à inflamação; hemorragia da matriz germinativa e infecção somam-se ao risco, e as Diretrizes de 2013 citam a hemorragia peri-intraventricular como a razão da vulnerabilidade do prematuro. Por essa substância branca passam as fibras que descem do córtex motor para a medula, e as que vão para as pernas correm mais perto da parede do ventrículo. A lesão periventricular pequena atinge as pernas mais que os braços — a diplegia —, e a lesão extensa alcança também as fibras dos membros superiores e do tronco. A imagem que a revisão de 2017 associa à forma bilateral é a de Tomás: leucomalácia periventricular cística bilateral com mielinização escassa do ramo posterior da cápsula interna.
No recém-nascido a termo, o mapa é outro. A hipóxia-isquemia que atinge a substância cinzenta profunda — núcleos da base e tálamo — produz a forma discinética; a lesão das zonas de fronteira entre territórios arteriais, na região parassagital, é outro padrão da mesma agressão; o acidente vascular isquêmico perinatal da artéria cerebral média produz a forma unilateral, que a revisão de 2017 liga também à hemorragia unilateral grave com porencefalia. A hiperbilirrubinemia pode deixar a forma discinética como sequela: o kernicterus, que o capítulo A hora antes da cor, na apostila de Neonatologia, descreve com a tétrade de paralisia cerebral atetoide grave, neuropatia auditiva, paresia do olhar vertical e displasia dentária. Malformações do cerebelo estão entre as causas da forma atáxica, e malformações corticais, entre as causas de qualquer forma.
A lesão está lá desde o berçário, mas os sinais demoram, porque o comportamento motor que ela vai perturbar ainda não existe. A espasticidade pode surgir só depois do primeiro ano, e a revisão de 2017 adverte que a ausência de espasticidade no lactente não afasta a forma espástica. O que denuncia a lesão antes disso é a qualidade dos movimentos espontâneos. Entre três e cinco meses após o termo, o lactente saudável faz movimentos irrequietos: pequenos e rápidos, de pescoço, tronco e membros, em direções variadas. O documento preliminar de 2025 dá à ausência deles aos três meses sensibilidade de 98% para paralisia cerebral, e descreve o padrão contraído e sincronizado — contrações e relaxamentos quase simultâneos, sem fluidez — como fortemente preditivo da forma espástica quando persiste ao longo de semanas. O manual da Sociedade Brasileira de Pediatria de 2024 lembra o outro lado: anormalidades transitórias de tônus e postura são frequentes no prematuro e desaparecem no segundo ano. É por isso que o primeiro nome a dar costuma ser alto risco, e não paralisia cerebral.
A pressa tem base biológica. A revisão de 2017 descreve o refinamento do sistema motor depois do nascimento como dirigido pela atividade do próprio córtex motor: o lactente que não usa uma área perde conexões corticais e função dedicada, e o movimento ativo comanda também o crescimento de músculos, ligamentos e ossos. O documento preliminar de 2025 põe a janela de maior plasticidade no primeiro ano, estreitando-se depois. Esperar 18 ou 24 meses para confirmar o diagnóstico antes de começar a intervenção significa perder o período em que a intervenção mais rende, para evitar um falso positivo que, no registro australiano citado pela revisão, aparece em menos de 5% dos registros — e quase sempre numa criança que acaba tendo outra deficiência do neurodesenvolvimento, e não desenvolvimento típico.
O dano que mais cresce com o tempo é o secundário. Músculo espástico e fraco cresce menos que o osso, e a contratura se instala. No quadril, os adutores e os flexores espásticos, somados à falta de carga de peso, empurram progressivamente a cabeça do fêmur para fora do acetábulo; o documento preliminar de 2025 correlaciona o risco com o nível do GMFCS, que chega a 90% no nível V, e o consenso da ortopedia de 2019 registra que, nos programas de vigilância, as luxações que ainda aconteceram vieram antes da primeira radiografia, tipicamente abaixo dos 3 anos. Na boca e na faringe, a mesma lesão desorganiza as fases oral e faríngea da deglutição; o alimento desce para a via aérea, e as Diretrizes de 2013 lembram que quem aspira há muito tempo pode deixar de tossir. Refluxo, saliva aspirada e benzodiazepínico que aumenta a secreção brônquica completam o caminho para a pneumonia. Imobilidade e desnutrição reduzem a densidade óssea, e a fratura aparece em trauma mínimo — às vezes percebida só como choro na troca de fralda.

Como se apresenta de verdade
O cuidado começa com a suspeita de disfunção motora e continua por anos. Neste capítulo, siga três etapas: reconhecer precocemente a criança que precisa de avaliação; descrever função e necessidades, sem limitar o prognóstico a um rótulo; e construir um plano de cuidado com metas e responsáveis. Além da mobilidade, examine comunicação, alimentação, respiração, dor, quadril, intestino, sono e participação. Os capítulos de desenvolvimento e neonatologia complementam marcos e idade corrigida; o de epilepsias orienta crises e tratamento. A rede de reabilitação e os apoios sociais entram para tornar o plano executável, sem substituir a avaliação clínica.
Quem nasce com risco: a vigilância começa no berçário
Metade das crianças com paralisia cerebral tem um fator de risco reconhecível já no período neonatal, e a revisão de 2017 recomenda, com força de evidência alta, que essas crianças recebam avaliação padronizada para paralisia cerebral sempre, sem esperar sinal: prematuros, recém-nascidos com encefalopatia, com malformações e todos os que passaram por unidade de terapia intensiva neonatal. A lista de história que aumenta o risco é longa e vale ser lida no resumo de alta. Antes da concepção: natimortos e abortos anteriores, reprodução assistida. Na gestação: gemelaridade, sexo masculino, doença tireoidiana materna, pré-eclâmpsia, infecção, restrição de crescimento, prematuridade, uso de substâncias. No parto e no período neonatal: hipóxia-isquemia aguda intraparto, crises, hipoglicemia, icterícia, infecção. Depois do período neonatal e antes dos 24 meses: acidente vascular, infecção do sistema nervoso, complicação cirúrgica e lesão cerebral acidental ou provocada.
As Diretrizes de 2013 dão o tamanho de alguns desses riscos numa tabela de razões de chances: restrição de crescimento abaixo do percentil 3 multiplica a chance por 38, doença tireoidiana materna por quase 10, pré-eclâmpsia grave por 6. E tiram duas consequências práticas. A criança com um desses antecedentes merece acompanhamento mensal mais detalhado pelo pediatra; e, desde o local de nascimento e em cada retorno, avaliam-se respiração, deglutição, comportamento, movimentação e posicionamento, com encaminhamento à equipe capacitada na suspeita de alteração. A Rede de Cuidados à Pessoa com Deficiência, no Anexo VI da Portaria de Consolidação nº 3, põe entre as ações da atenção primária o acompanhamento dos recém-nascidos de alto risco até os dois anos — a unidade básica não entrega o egresso ao ambulatório especializado e esquece dele.
Fator de risco não é diagnóstico, e a família precisa ouvir isso também. A maioria das crianças com asfixia perinatal não desenvolve paralisia cerebral, e a maioria dos prematuros, mesmo os muito pequenos, também não. O risco decide a vigilância, não o nome: o que transforma o bebê de risco em bebê com alto risco de paralisia cerebral é a disfunção motora, que se procura com exame e com instrumento, e não com o resumo de alta.
Os sinais dos primeiros meses: o que se vê antes do atraso
O primeiro sinal não é o marco que falta, é a qualidade do movimento. Aos três a cinco meses de idade corrigida, a ausência dos movimentos irrequietos na filmagem padronizada é o marcador mais sensível — na tabela que as Diretrizes de 2013 reproduzem, ela aparece em 99% dos lactentes que vieram a ter paralisia cerebral. No exame, a mesma tabela lista o que se vê com frequência: incapacidade de manter a cabeça na linha média, em 63%; punho cerrado, em 35%; reflexo tônico cervical assimétrico que persiste, em 33%; braços e pernas em extensão, em 25%; protrusão repetitiva da língua, em 20%; abertura e fechamento sincronizados dos dedos, em 19%; postura assimétrica e tronco largado sobre o leito, em 15% e 16%.
O documento preliminar do Ministério de 2025 traduz esses achados em sinais que a família reconhece. Até os seis meses: a cabeça não se sustenta quando o bebê é puxado para sentar ou colocado sentado; ele tem dificuldade para rolar; colocado de pé, não sustenta o peso nas pernas ou as mantém muito rígidas, às vezes cruzadas; a cabeça fica virada para um lado a maior parte do tempo. Dos seis aos dez meses: não senta e não fica sentado sozinho; não abre as mãos nem as leva à boca; não junta as mãos para brincar; alcança objetos com um lado só; não consegue passar de uma postura a outra. E acrescenta o que não é motor e se pergunta sempre: dificuldade para mamar, beber ou engolir, para se comunicar, para dormir, dor, alteração de visão e de audição.
Esses sinais têm um problema: parte deles é transitória. O manual de seguimento da Sociedade Brasileira de Pediatria de 2024 lembra que alterações passageiras de postura, reflexos e tônus — hipertonia ou hipotonia — são frequentes no prematuro e somem no segundo ano, e trata a persistência de padrões primitivos de tônus, reflexos e postura no segundo semestre como sinal de alerta, que tanto pode ser alteração transitória quanto paralisia cerebral. A saída não é esperar, é somar: um sinal isolado num prematuro pede reavaliação; um exame alterado com movimentos irrequietos ausentes e lesão na imagem pede o diagnóstico de alto risco no mesmo dia. As regras de correção da idade para cada avaliação ficam com Duas idades no mesmo berço.
A criança sem história de risco: a que não senta aos nove meses
A outra metade das crianças com paralisia cerebral chega por outra porta. A gestação e o parto foram tranquilos, a alta foi em dois dias, a triagem neonatal foi normal, e quem percebe primeiro é a família ou a agente comunitária: o bebê que não senta aos nove meses, que usa uma mão só, que não apoia o pé no chão. A revisão de 2017 transforma essas três observações em regra, com força de evidência alta: toda criança que não senta sozinha até os 9 meses, que tem assimetria da função das mãos ou que não apoia o peso na planta dos pés — calcanhar e antepé — deve receber investigação padronizada para paralisia cerebral.
A forma unilateral é a que mais engana. A criança com hemiplegia costuma cumprir no tempo os primeiros marcos — sorrir, engolir, sustentar a cabeça — e a assimetria só aparece quando ela tenta pegar. O sinal é uma preferência de mão cedo demais, com a outra mão fechada, esquecida, que não vem para a linha média; mais tarde, ela arrasta um lado do corpo, se desloca sentada, dá os primeiros passos sempre com a mesma perna à frente. A revisão de 2017 registra ainda que um terço das crianças com paralisia cerebral está no nível I do GMFCS e pode cumprir todos os marcos motores no prazo, o que dá à família e à equipe uma falsa tranquilidade.
A preocupação dos pais é motivo suficiente para investigar e para encaminhar à intervenção precoce — é uma das doze recomendações da revisão. O capítulo O marco que ela tinha e perdeu é dono da vigilância dos marcos na puericultura e da classificação do desenvolvimento pela caderneta; o que este capítulo acrescenta é o momento em que o atraso muda de nome: sentar, apoiar e usar as duas mãos são os marcos cuja falta, a partir dos 9 meses, manda investigar paralisia cerebral, e não apenas estimular e reavaliar.
Espástica, discinética, atáxica — e unilateral ou bilateral
O tipo e a topografia podem mudar nos dois primeiros anos, mas a revisão de 2017 lista os sinais que já apontam para um ou outro no lactente. Na forma espástica unilateral: preferência assimétrica de mão; a criança fica presa na postura sentada no chão, sem conseguir sair dela; anda apoiada nos móveis sempre para o mesmo lado ou dá passos sempre com a mesma perna à frente. Na diplegia espástica: boa função das mãos comparada à das pernas, aversão a ficar sentada no chão, apoio na ponta dos pés. Na quadriplegia espástica: cabeça que cai para trás, costas arredondadas quando sentada com apoio, as duas mãos fechadas, lentidão para alcançar e pegar com qualquer mão.
Na forma discinética: posturas de torção do braço ou do pescoço quando a criança tenta se mexer, que podem doer; dificuldade de brincar na linha média, com preferência por brinquedos colocados na altura dos ombros; troca de mão no meio do alcance; demora grande para iniciar o movimento; piora da postura com o esforço e com a emoção. A forma atáxica tem sinais inespecíficos no lactente e se revela com o tempo, pela incoordenação, pela base alargada e pelo tremor de intenção. As Diretrizes de 2013 agrupam a distribuição em unilateral, que engloba as antigas monoplegia e hemiplegia, e bilateral, que engloba diplegia, triplegia, quadriplegia e dupla hemiplegia.
Separar unilateral de bilateral cedo não é preciosismo de classificação. A revisão de 2017 recomenda fazê-lo sempre que possível porque as intervenções precoces são diferentes — a terapia de contensão do membro sadio, por exemplo, é da forma unilateral — e porque as necessidades de vigilância musculoesquelética também são: a criança bilateral que não anda é a que desloca o quadril. Na ressonância, a forma unilateral costuma trazer lesão vascular focal ou hemorragia unilateral grave; a bilateral, lesão de substância branca dos dois lados; a discinética, lesão de tálamo e núcleos lentiformes; a atáxica, lesão cerebelar ou, com frequência, imagem normal; no conjunto, cerca de uma em cada dez crianças com paralisia cerebral tem ressonância normal.
GMFCS e MACS: a classificação que responde se a criança vai andar
O sistema de classificação da função motora grossa, o GMFCS, distribui a criança com paralisia cerebral em cinco níveis pelo movimento que ela inicia sozinha, com ênfase em sentar, transferir-se e deslocar-se. As Diretrizes de 2013 descrevem as pontas: o nível I, com mínima ou nenhuma limitação na mobilidade na comunidade, e o nível V, com dependência total, em que a criança precisa de ajuda para se deslocar. Entre elas, cada nível acrescenta limitação e dispositivo — andador, muletas, bengalas, cadeira de rodas. A versão expandida e revisada vai de zero a 18 anos, com descrições próprias para as faixas de 0 a 2, 2 a 4, 4 a 6, 6 a 12 e 12 a 18 anos, e tem adaptação transcultural brasileira.
A força do GMFCS é a estabilidade. A revisão de 2017 afirma que, a partir dos 2 anos, a gravidade motora se classifica com confiabilidade, e que antes disso quase metade das crianças muda de nível; o documento preliminar de 2025 acrescenta que cerca de 73% permanecem no mesmo nível entre 2 e 12 anos, que nove em cada dez atingem o melhor desempenho motor até os 5 anos e que as curvas de desenvolvimento motor de cada nível entram em platô por volta dos 7. É isso que permite responder à família com honestidade. Antes dos 2 anos, a previsão se faz com cautela e com instrumento: no exame de Hammersmith, escores de 50 a 73 apontam para forma unilateral, em que de 95% a 99% das crianças andam, e escores abaixo de 40 entre 3 e 6 meses apontam para os níveis III a V; na ressonância, leucomalácia periventricular cística bilateral de grau III, hemorragias parenquimatosas bilaterais, malformação cerebral e lesão de núcleos da base tornam mais provável que a criança não ande.
O sistema de classificação da habilidade manual, o MACS, faz o mesmo com o uso das duas mãos nas atividades do dia a dia, de 4 a 18 anos: no nível I, a criança manipula objetos com facilidade; no V, não manipula objetos e tem capacidade muito limitada até para ações simples. O documento preliminar de 2025 lista cinco sistemas de classificação — mobilidade, mãos, comunicação, alimentação e visão —, todos com cinco níveis. O nível do GMFCS muda o cuidado: é nos níveis IV e V que a disfagia chega a 99%, que o quadril mais se desloca e que a vigilância radiográfica deve começar mais cedo; e, pelo mesmo documento, prescrever equipamento de mobilidade para a criança com prognóstico nesses níveis favorece o desenvolvimento, e não o atrasa.
A criança com paralisia cerebral que chega doente: o que o quadro de base esconde
A lesão da paralisia cerebral não progride. Quando a criança que sentava com apoio deixa de sentar, que dormia passa a gritar à noite, que comia em vinte minutos passa a levar uma hora, alguma coisa mudou — as Diretrizes de 2013 citam as crises epilépticas e o desgaste articular das posturas anormais entre as causas de piora —, e a frase “é da doença dela” encerra a investigação no lugar errado. A lista do que procurar é curta e deve ser percorrida sempre: dor, infecção, quadril, constipação, refluxo, dente, fratura, órtese machucando, remédio sedando. O protocolo da espasticidade lembra que infecções, lesões por pressão, órteses mal adaptadas e intercorrências clínicas aumentam o tônus e devem ser afastadas ou tratadas junto com a espasticidade; as Diretrizes de 2013 lembram que anticonvulsivantes e moduladores de tônus podem comprometer a função cognitiva, motora e socioafetiva.
A pneumonia da criança com paralisia cerebral grave quase nunca é só pneumonia. Pelas Diretrizes de 2013, pelo menos dois terços dessas crianças têm tosse ou chiado, a grande maioria tosse e fica rouca durante a alimentação e algumas têm apneias; a saliva aspirada mantém a inflamação da árvore respiratória mesmo em quem já tem gastrostomia. A criança que aspira há muito tempo pode não tossir mais — a ausência de tosse na refeição não afasta aspiração. O antibiótico e a classificação de gravidade são de Pneumonia na criança; o que é deste capítulo é perguntar, na primeira pneumonia e em todas as seguintes, como essa criança come.
A dor é o sintoma mais frequente e o menos anotado: três em cada quatro pessoas com paralisia cerebral têm dor crônica, e a criança que não fala a mostra com irritabilidade, choro ao ser manipulada, recusa alimentar, piora do sono e aumento do tônus. O choro na troca de fralda aponta para o quadril e para a fratura por osso pouco mineralizado, que as Diretrizes associam à desnutrição, à disfunção oral e à gravidade motora. Os movimentos anormais também confundem: as Diretrizes listam o reflexo de Moro que imita mioclonia ou espasmo, o clônus do tornozelo que imita crise clônica, a hiperextensão e o reflexo tônico cervical que imitam crise tônica, e dizem que muitas vezes só o eletroencefalograma durante o episódio define a natureza epiléptica. E a criança com deficiência é mais exposta a violência e a abuso — as Diretrizes o registram no adolescente —, de modo que lesão sem história compatível segue o caminho de Violência e maus-tratos infantis.
Como fechar o diagnóstico
A investigação pergunta se há disfunção motora de origem cerebral e quais problemas associados precisam de cuidado. História, exame neurológico, avaliação motora padronizada e neuroimagem se complementam; não existe exame isolado que responda por todos. O interno reconhece sinais, descreve função, colhe antecedentes e discute exames e encaminhamentos com o responsável. Instrumentos como avaliação de movimentos generalizados e Hammersmith exigem treinamento. A intervenção e o apoio à família não devem esperar anos por uma certeza que ainda está sendo construída.
O exame que o interno faz no bebê de risco
A história começa pelo resumo de alta e pela caderneta: idade gestacional, peso, restrição de crescimento, encefalopatia, crises, hipoglicemia, icterícia com necessidade de tratamento, infecção, imagem de crânio na unidade neonatal. Depois vem o que a família vê e ninguém pergunta: se o bebê fica duro no banho, se as mãos abrem, se usa as duas, se mama com tosse ou engasgo, quanto tempo leva cada mamada, como dorme, se tem episódios de olhar parado, sustos repetidos ou abalos. As Diretrizes de 2013 pedem, no bebê com fator de risco, avaliação de respiração, deglutição, comportamento, movimentação e posicionamento em cada retorno.
O exame se faz com a criança calma, sem roupa, primeiro olhando e só depois tocando. Deitada de costas, observa-se a variedade, a fluência e a simetria dos movimentos espontâneos, a posição da cabeça e das mãos. Puxada para sentar, observa-se se a cabeça acompanha o tronco. Mãos: abrem? vêm à linha média? alcançam? Vira-se a cabeça para os dois lados para ver se o reflexo tônico cervical assimétrico se impõe e persiste. Abrem-se as coxas e dorsifletem-se os tornozelos para sentir a resistência, dos dois lados. Suspensa pelas axilas, a criança apoia a planta dos pés ou endurece e cruza as pernas? Mede-se o perímetro cefálico, verifica-se se fixa e segue o rosto e se reage à voz. Tudo se registra na caderneta e no prontuário com a idade corrigida do dia.
Os instrumentos padronizados completam o exame e têm aplicador próprio. A avaliação dos movimentos generalizados se faz por filmagem do bebê acordado e tranquilo, interpretada por profissional treinado — o manual da Sociedade Brasileira de Pediatria de 2024 cita fisioterapeutas e terapeutas ocupacionais como aplicadores dessa avaliação e das escalas motoras. O exame neurológico infantil de Hammersmith, aplicável dos 2 aos 24 meses, tem tradução brasileira e pontos de corte que a revisão de 2017 usa para marcar alto risco e prever gravidade. Onde a filmagem e a ressonância não estão disponíveis, a revisão recomenda que a detecção precoce aconteça assim mesmo, com o exame de Hammersmith, e não que se espere.
A imagem: ultrassonografia na unidade neonatal, ressonância no seguimento
No prematuro, a ultrassonografia de crânio seriada da unidade neonatal é a primeira imagem e identifica hemorragia e cistos periventriculares. A revisão de 2017 recomenda a ressonância como teste de detecção precoce nas crianças com risco reconhecido no berçário, idealmente na idade de termo e antes que a sedação seja necessária, com 80% a 90% de valor preditivo quando mostra lesão nas áreas motoras. Entre 6 semanas e 2 anos, a ressonância pode exigir sedação; lesões bem definidas aparecem cedo, mas lesões sutis de substância branca podem passar despercebidas enquanto a mielinização avança, e a revisão recomenda repetir o exame aos 2 anos na criança com ressonância normal entre 12 e 18 meses e alteração motora ou neurológica que persiste.
As Diretrizes de 2013 fazem da ressonância o exame de escolha na criança com deficiência motora crônica sem sinal de doença degenerativa e sem diagnóstico causal. Duas cautelas acompanham o laudo. Imagem normal não afasta paralisia cerebral — cerca de uma criança em cada dez tem ressonância normal —, e imagem alterada não a confirma sozinha: prematuridade, acidente vascular e encefalopatia nem sempre deixam deficiência motora duradoura. O laudo entra como critério adicional ao lado da disfunção motora, nunca no lugar dela.
Pedir a ressonância exige planejamento que o interno pode adiantar: o pedido regulado precisa descrever o fator de risco e os achados de exame, a sedação precisa ser programada no serviço que a oferece, e a família precisa saber que o exame não muda a urgência da intervenção — o encaminhamento para a reabilitação sai no mesmo dia, sem esperar a data da imagem.
Alto risco hoje, paralisia cerebral depois: os critérios e a confirmação
Pela revisão de 2017, que o manual da Sociedade Brasileira de Pediatria de 2024 adota, o diagnóstico clínico provisório de alto risco de paralisia cerebral exige um critério obrigatório e ao menos um adicional. O obrigatório é a disfunção motora: qualidade de movimento reduzida, como movimentos irrequietos ausentes; exame neurológico anormal, como assimetria precoce das mãos ou escore subótimo no Hammersmith; ou atividade motora muito abaixo da esperada, como cabeça que não sustenta, criança que não senta, não pega ou não alcança o brinquedo. Os adicionais são a neuroimagem alterada e a história clínica de risco. Tomás preenche o obrigatório e os dois adicionais.
O alto risco não é um rótulo para esperar: a revisão recomenda que ele seja dado exatamente para que a criança receba intervenção precoce específica e vigilância, para que os pais recebam apoio psicológico e financeiro quando existir, e para que o acompanhamento diagnóstico continue até a resposta. A mesma revisão desenha três saídas para a confirmação, conforme a evolução: paralisia cerebral definida, definitivamente não paralisia cerebral — com investigação de diagnósticos diferenciais e deficiências associadas — ou quadro ainda incerto, que segue em monitoramento.
As Diretrizes de 2013 registram que o diagnóstico costuma se consolidar por volta dos 24 meses, sobretudo nas formas leves, por causa das distonias transitórias. Não há contradição com o diagnóstico de alto risco aos três meses: são dois momentos do mesmo percurso. O nome provisório vem quando a disfunção motora aparece com imagem ou história; a confirmação vem quando o quadro se mantém e se define, em geral até os 2 anos, idade a partir da qual o GMFCS também se estabiliza. O que muda de uma geração de documentos para a outra é o que se faz enquanto a confirmação não chega: antes se esperava; hoje se trata e se acompanha.
Visão, audição e crises: o que se investiga junto com o diagnóstico
A revisão de 2017 recomenda, com evidência forte, que todo diagnóstico de paralisia cerebral ou de alto risco venha acompanhado da investigação de deficiência visual, deficiência auditiva e epilepsia. Na visão, as Diretrizes de 2013 lembram que muitas alterações são tomadas como consequência normal do problema motor e ficam sem diagnóstico, que o encaminhamento tardio reduz a chance de desenvolvimento visual na idade adequada e que, em crianças brasileiras com paralisia cerebral, foram descritos erros de refração em 60% a 80%, estrabismo em 60%, perda de percepção visual em 47%, ambliopia em 35%, nistagmo em 17%, atrofia óptica em 15% a 20% e baixa visão cortical em 5% a 10%. Por isso a avaliação oftalmológica ampla se pede sempre que houver risco de disfunção neurológica — no prematuro, além do seguimento da retinopatia.
Na audição, as Diretrizes registram perda sensorioneural em 12% das crianças com paralisia cerebral e lembram que muitos fatores de risco para paralisia cerebral são também fatores de risco para surdez; recomendam diagnóstico audiológico precoce, com aparelho de amplificação ou implante coclear quando indicados. Há ainda a perda condutiva por secreção na orelha média, que a alimentação em posição deitada favorece: a criança com paralisia cerebral nunca deve ser alimentada deitada. O kernicterus merece atenção própria, porque a neuropatia auditiva faz parte da sua tétrade.
Nas crises, as Diretrizes descrevem epilepsia em cerca de 31% das crianças nascidas a termo com encefalopatia hipóxico-isquêmica que desenvolvem paralisia cerebral, em geral nos primeiros seis meses; risco menor nas lesões periventriculares do prematuro; e início em qualquer idade nas outras causas. O eletroencefalograma se pede diante de episódio suspeito, e muitas vezes só o registro durante o episódio distingue crise de movimento anormal. A epilepsia em si é de O que o celular gravou, nesta apostila; daqui a família sai com a descrição do que é crise, com o plano escrito do que fazer se ela durar mais de cinco minutos — as doses do resgate estão naquele capítulo — e com a orientação de filmar o episódio para a consulta.
Deglutição e crescimento: a criança come com segurança e cresce o que deve?
A dificuldade para se alimentar é regra na paralisia cerebral grave, e as Diretrizes de 2013 listam o que perguntar e observar: fase oral comprometida, engasgo, tosse, náusea, dificuldade de levar o bolo alimentar, refeições prolongadas ou interrompidas, refluxo. A melhor ferramenta do interno é assistir a uma refeição: a postura da cabeça e do tronco, a consistência oferecida, o tempo gasto, a tosse e a rouquidão durante a refeição, o cansaço. A avaliação clínica subestima a aspiração; a videofluoroscopia da deglutição, quando disponível, identifica mais alterações, sobretudo nas fases faríngea e esofágica, e a revisão de 2017 recomenda avaliação abrangente da segurança da deglutição sempre que houver preocupação ou história de pneumonia.
Crescimento se mede diferente. As Diretrizes de 2013 lembram que crianças com paralisia cerebral são menores que as outras mesmo quando bem nutridas, e que alcançar os índices de peso e estatura da população geral não deve ser a meta. Para desnutrição, indicam a prega cutânea tricipital ou subescapular, comparada às curvas de referência — abaixo do percentil 10 indica desnutrição —, e citam curvas de peso próprias para paralisia cerebral, estratificadas pelo nível do GMFCS e pelo uso de sonda. O manual da Sociedade Brasileira de Pediatria de 2024 registra o mesmo problema: o diagnóstico de paralisia cerebral interfere na avaliação nutricional porque os índices antropométricos dessa população são diferentes. A classificação e a recuperação do desnutrido grave ficam com O risco não é a fome.
A densidade óssea é o crescimento esquecido. As Diretrizes de 2013 associam a mineralização ruim à idade, à gravidade motora, à desnutrição e à disfunção oral, e listam como fatores de risco para fratura o índice elevado de gordura corporal, o uso de gastrostomia e a fratura anterior. Na prática, a criança com paralisia cerebral grave que chora ao ser manipulada e tem um membro inchado precisa de radiografia mesmo sem história de trauma — e fratura sem história compatível exige, ao mesmo tempo, pensar em osso frágil e em violência.
Quadril, coluna, dor, intestino e bexiga: os exames que não esperam a queixa
O quadril se examina em toda consulta, comparando a abertura das coxas dos dois lados e observando dor ao mobilizar, mas o exame clínico não basta: a revisão de 2017 recomenda radiografia de bacia em incidência anteroposterior a cada 6 a 12 meses a partir dos 12 meses de idade, em acordo com as diretrizes de vigilância do quadril, e as Diretrizes de 2013 pedem avaliação ortopédica e motora semestral desde o primeiro ano. No laudo, a medida mais usada é a porcentagem de migração da cabeça femoral, e o consenso da ortopedia de 2019 a cita como a mais valiosa; a decisão que sai dela — observar, operar cedo, reconstruir — é do ortopedista pediátrico. A coluna se examina junto: a cifoescoliose, lembram as Diretrizes, contribui para a doença pulmonar, e no estirão da adolescência elas pedem atenção redobrada para prevenir desvios e deformidades.
A dor se procura ativamente. Na criança que não fala, pergunta-se à família o que mudou no sono, no choro, na alimentação e na resposta ao toque, e percorre-se a lista das fontes: quadril, dentes, refluxo, constipação, lesão de pele, órtese, fratura, espasmos. A revisão de 2017 recomenda evitar dor de procedimento sempre que possível — dor não tratada aumenta o risco de dor neuropática a longo prazo — e usar analgesia antecipada em procedimentos dolorosos, como a aplicação de toxina.
O intestino e a bexiga completam a lista. A constipação é frequente na criança que se mexe pouco, bebe pouco e usa vários medicamentos, e as Diretrizes a incluem entre as condições que pedem investigação dirigida; pergunta-se a frequência e a consistência das fezes, palpa-se o abdome e, na suspeita de fecaloma, segue-se o roteiro de A cueca manchada e a dor das segundas-feiras. Na bexiga, a revisão de 2017 lembra que uma em cada quatro crianças tem dificuldade de controle e que alterações anatômicas são comuns, o que justifica investigação médica dos sintomas urinários e treino de toalete com prazo mais longo. A boca entra no mesmo exame: a higiene oral e a saúde bucal fazem parte do acompanhamento de todas as faixas etárias nas Diretrizes, e a Rede de Cuidados à Pessoa com Deficiência prevê atendimento odontológico especializado, inclusive sob sedação ou anestesia geral.
Da suspeita ao plano: alto risco, confirmação, classificação e vigilância por nível
Primeiro, reconheça o risco e procure regressão ou achados que peçam outro diagnóstico. Depois, descreva o tipo motor e a função, avalie comorbidades e combine metas com a família. As tabelas servem para consulta de detecção precoce, classificação, vigilância e tratamentos. Uma classificação funcional ajuda a planejar apoio, mas não prevê sozinha tudo o que a criança poderá realizar. Critérios de acesso na rede são consultados após a definição da necessidade clínica.
- 1Bebê com risco reconhecido no berçário — prematuro, encefalopatia neonatal, malformação, passagem por unidade de terapia intensiva neonatal: avaliação padronizada para paralisia cerebral sempre, sem esperar sinal, com filmagem dos movimentos generalizados aos 3 a 5 meses de idade corrigida, exame de Hammersmith e ressonância na idade de termo onde houver.
- 2Criança sem risco conhecido que não senta sozinha aos 9 meses, usa uma mão só ou não apoia a planta dos pés: investigação padronizada para paralisia cerebral, e não apenas estimulação com nova consulta. A preocupação dos pais basta para investigar.
- 3Perdeu uma habilidade que já tinha ou piora mês a mês: não chame de paralisia cerebral. É encefalopatia progressiva até prova em contrário, e vai para a neurologia pediátrica do serviço de referência sem demora.
- 4Disfunção motora — movimentos irrequietos ausentes, exame neurológico anormal ou atividade motora muito abaixo da idade — somada a neuroimagem alterada ou a história de risco: diagnóstico de alto risco de paralisia cerebral, registrado no prontuário e dito à família no mesmo dia.
- 5Sem filmagem nem ressonância disponíveis: a detecção não espera. Exame de Hammersmith por profissional treinado e avaliação motora padronizada sustentam o alto risco.
- 6Alto risco ou paralisia cerebral: no mesmo dia, encaminhamento regulado para intervenção precoce em Centro Especializado em Reabilitação ou serviço de reabilitação, pedido de avaliação oftalmológica e audiológica, orientação escrita sobre crises, retorno mensal e contrarreferência para a unidade básica, que acompanha o recém-nascido de alto risco até os 2 anos.
- 7Antes dos 2 anos, a gravidade se prevê com cautela e com instrumento — Hammersmith, ressonância, marcos-diamante. A partir dos 2 anos, o GMFCS classifica com confiabilidade e é ele que responde se a criança vai andar.
- 8A partir dos 12 meses: radiografia de bacia anteroposterior a cada 6 a 12 meses, sem esperar dor, com prioridade para a criança que não anda e para a forma bilateral. Migração da cabeça femoral alterada no laudo leva à ortopedia pediátrica.
- 9Tosse ou engasgo durante a refeição, refeição prolongada, perda de peso ou pneumonia: avaliação da segurança da deglutição, com videofluoroscopia onde houver, antes de insistir na via oral. Pneumonia de repetição na criança com paralisia cerebral grave é aspiração até prova em contrário.
- 10Via oral insegura ou insuficiente: sonda naso ou orogástrica por no máximo seis semanas; se a necessidade de via alternativa passar disso, conversa sobre gastrostomia com a família e a equipe.
- 11Peso: não persiga a curva da população geral. Prega cutânea tricipital ou subescapular abaixo do percentil 10 indica desnutrição; a classificação e a recuperação do desnutrido grave seguem O risco não é a fome.
- 12Espasticidade que causa dor, limita cuidado ou função pede avaliação especializada com objetivo definido. A toxina para padrão focal ou segmentar depende de indicação clínica, reabilitação e critérios do protocolo de acesso. Opções sistêmicas exigem avaliação individual; no interno, a tarefa é reconhecer necessidade e efeitos adversos, sem iniciar ou suspender por conta própria.
- 13Depois da toxina: reavaliação em 4 a 6 semanas, nova aplicação nunca antes de 3 meses, e retorno no mesmo dia se aparecer dificuldade para engolir ou para respirar.
- 14Vacinas: calendário completo, sem contraindicação pela paralisia cerebral. Doença neurológica crônica incapacitante é indicação de vacina pneumocócica conjugada 20-valente na rede de imunobiológicos para situações especiais, com o esquema definido pela idade e pelas doses anteriores.
- 15Família: Projeto Terapêutico Singular compartilhado entre o centro de reabilitação e a atenção primária; orientação sobre o BPC — renda familiar per capita de até um quarto do salário-mínimo, Cadastro Único e avaliação do INSS —, transporte sanitário adaptado, órteses pela oficina ortopédica e escola.
Detecção precoce: o caminho, a idade, o instrumento e o resultado que muda a conduta
| Situação | Idade (corrigida no prematuro) | O que se usa | Resultado que marca alto risco ou aponta gravidade | Régua |
|---|---|---|---|---|
| Risco reconhecido no berçário | Até 5 meses | Filmagem dos movimentos generalizados, ressonância na idade de termo e história | Movimentos irrequietos ausentes aos 3 a 5 meses (98% de sensibilidade); lesão em área motora na ressonância (80% a 90% preditiva) | Novak 2017; documento preliminar do Ministério, 2025 |
| Risco reconhecido no berçário, sem filmagem ou ressonância | Até 5 meses | Exame neurológico de Hammersmith | Escore abaixo de 57 aos 3 meses (96% preditivo de paralisia cerebral) | Novak 2017 |
| Qualquer lactente | A partir de 9 meses | História e observação da família e da equipe | Não senta sozinho aos 9 meses, assimetria das mãos ou não apoia a planta dos pés: investigação padronizada | Novak 2017 |
| Risco percebido no lactente | De 5 a 24 meses | Hammersmith, ressonância e avaliação motora padronizada | Hammersmith abaixo de 73 aos 6, 9 ou 12 meses: alto risco (corte corrigido pela errata); abaixo de 40: quase sempre paralisia cerebral | Novak 2017 e errata |
| Previsão de gravidade antes dos 2 anos | De 3 a 12 meses | Hammersmith e ressonância | Escore de 50 a 73: provável forma unilateral, com 95% a 99% andando; abaixo de 50: provável bilateral; abaixo de 40 aos 3 a 6 meses: provável GMFCS III a V. Leucomalácia cística bilateral de grau III, hemorragia parenquimatosa bilateral, malformação e lesão de núcleos da base tornam mais provável não andar | Novak 2017 |
| Gravidade a partir dos 2 anos | 2 a 18 anos | GMFCS versão expandida e revisada; MACS a partir de 4 anos | Nível estável: cerca de 73% permanecem no mesmo nível entre 2 e 12 anos | Diretrizes de 2013; documento preliminar de 2025 |
Marcos-diamante: o que a criança ainda não faz na idade-limite e o nível provável do GMFCS
| Marco (item do GMFM-66) | Idade-limite | Se não conseguir | O que a informação permite |
|---|---|---|---|
| A — mantém a cabeça ereta com o tronco apoiado | 1 ano | Provável nível V | Planejar posicionamento, alimentação segura e equipamento cedo |
| B — senta sem apoio por 3 segundos | 2 anos | Provável nível IV ou V | Responder à pergunta sobre andar com honestidade e indicar mobilidade assistida |
| C — dá 10 passos sem apoio | 3 anos | Provável nível III, IV ou V | Prever necessidade de dispositivo manual de mobilidade e adaptação da escola |
| D — desce 4 degraus alternando os pés, com os braços livres | 5 anos | Provável nível II, III, IV ou V | Ajustar metas de terapia ao platô esperado das curvas motoras |
Vigilância da criança com paralisia cerebral: quando procurar, o sinal que muda a conduta e o destino
| Problema | Quando e como procurar | Sinal que muda a conduta | Conduta e destino |
|---|---|---|---|
| Quadril | Exame em toda consulta; radiografia de bacia anteroposterior a cada 6 a 12 meses a partir dos 12 meses | Abertura assimétrica das coxas, dor na troca de fralda, migração da cabeça femoral no laudo | Ortopedia pediátrica; a decisão de observar ou operar é dela |
| Deglutição | Pergunta e observação de uma refeição em toda consulta; mais atenção nos níveis IV e V | Tosse, engasgo ou rouquidão durante a refeição, refeição prolongada, pneumonia | Avaliação fonoaudiológica e videofluoroscopia onde houver; sonda por até seis semanas; gastrostomia se a via alternativa for mais longa |
| Peso e osso | Peso em toda consulta; prega tricipital ou subescapular | Prega abaixo do percentil 10; fratura com trauma mínimo | Plano nutricional; desnutrição grave em O risco não é a fome; fratura sem história compatível também pede avaliação de violência |
| Crises | Pergunta sobre episódios em toda consulta | Olhar parado, abalos, espasmos, crise que dura mais de 5 minutos | Eletroencefalograma no episódio suspeito; plano escrito de resgate com as doses de O que o celular gravou; ajuste pelo neuropediatra |
| Visão e audição | No diagnóstico de alto risco e no seguimento | Não fixa, não segue, estrabismo, nistagmo; não reage à voz; otites de repetição | Oftalmologia ampla e audiologia; nunca alimentar deitado |
| Dor | Pergunta à família sobre sono, choro, toque e alimentação | Irritabilidade nova, choro ao manipular, aumento do tônus | Procurar a fonte — quadril, dente, refluxo, constipação, pele, órtese, fratura — e tratar; analgesia antecipada em procedimento |
| Constipação | Frequência e consistência das fezes, palpação do abdome | Fezes duras, esforço, fecaloma | Lactulose por quilo com teto; óleo mineral não, se há disfunção de deglutição |
| Espasticidade | Exame de tônus e amplitude, com a fisioterapia | Espasticidade focal ou segmentar que limita função, dói ou ameaça deformidade | Laudo para toxina pelo protocolo federal, aplicada por especialista; órteses pela oficina ortopédica |
| Saliva e respiração | Pergunta sobre baba, tosse, chiado e secreção | Pneumonias, secreção que piora com benzodiazepínico | Revisar medicamentos com o neuropediatra; fisioterapia respiratória; vacina pneumocócica na rede especial |
| Boca | Higiene oral e dentes em toda consulta | Cárie, dor, sangramento gengival | Centro de Especialidades Odontológicas; atendimento sob sedação quando necessário |
| Família e direitos | Na primeira consulta e sempre que a situação mudar | Renda, transporte, escola, cuidador exausto | Serviço social, Cadastro Único e BPC, transporte sanitário adaptado, educação inclusiva, apoio psicológico |
Dose na criança, teto e apresentação — a conta para Mirela, 16 kg, e Rael, 13 kg
| Fármaco e uso | Dose e teto | Apresentação na Rename 2024 | Mirela, 16 kg | Rael, 13 kg |
|---|---|---|---|---|
| Paracetamol, dor | 15 mg/kg por dose, de 6 em 6 horas; máximo de 75 mg/kg por dia (SBP, 2021) | Solução oral de 200 mg/mL, Componente Básico — prescrever em mL, com seringa, porque os gotejadores variam | 240 mg = 1,2 mL por dose; 4 doses = 960 mg/dia (60 mg/kg/dia); teto 1.200 mg/dia = 6 mL | 0,9 mL = 180 mg (13,8 mg/kg) por dose; 4 doses = 720 mg/dia (55,4 mg/kg/dia); teto 975 mg/dia = 4,9 mL |
| Lactulose, constipação | Começar com 1 mL/kg/dia, subir até 3 mL/kg/dia pela consistência das fezes; teto de 30 mL/dia, dose do adulto (régua de A cueca manchada e a dor das segundas-feiras) | Xarope de 667 mg/mL, Componente Básico | 16 mL/dia no início, em duas tomadas; o limite por quilo daria 48 mL, e o teto para em 30 mL/dia | Sem constipação no caso; se houvesse, 13 mL/dia no início e teto de 30 mL/dia |
| Toxina botulínica tipo A, espasticidade focal | Dose por sessão pela bula do produto dispensado, dividida entre os músculos; unidades de um fabricante não valem para outro; intervalo mínimo de 3 meses | Frascos de 100 U e de 500 U, Componente Especializado, pelo protocolo federal | Não é conta do interno: laudo e encaminhamento | Não é conta do interno: laudo, encaminhamento e analgesia da aplicação |
| Baclofeno, espasticidade | Sem indicação aprovada em bula para criança; evidência inconclusiva no protocolo federal | Não consta da Rename 2024 | Decisão especializada; avaliar indicação, riscos e acesso | Não iniciar neste caso apenas pelo pedido da família; discutir plano funcional |
| Diazepam | Não usar para tratar espasticidade na paralisia cerebral, exceto dor aguda grave ou ansiedade associada; o resgate de crise segue as doses de O que o celular gravou | Comprimidos de 5 e 10 mg e solução injetável de 5 mg/mL, Componente Básico; sem solução oral | Não prescrever para rigidez | Não prescrever para rigidez |
| Óleo mineral, constipação | Evitar abaixo de 2 anos e em quem tem distúrbio de deglutição, pelo risco de aspiração (SBP, 2024) | Óleo para uso oral, Componente Básico | Contraindicado: disfagia com pneumonias | Sem indicação no caso |
Plano compartilhado: transformar uma queixa em meta observável
| Problema | Meta possível, definida com a família | Como acompanhar |
|---|---|---|
| Dor na troca de fralda | Reduzir episódios de choro e facilitar a higiene sem aumentar sonolência | Registrar em quantas trocas há dor, duração e resposta às medidas; procurar quadril, pele, constipação e outras causas. |
| Refeições longas e engasgos | Alimentação segura, com tempo tolerável e ingestão suficiente | Anotar tempo da refeição, tosse/engasgo, fadiga e evolução nutricional; avaliação de deglutição e via alimentar pela equipe. |
| Dificuldade de participar na escola | Usar um meio de comunicação acessível para pedir ajuda e fazer escolhas | Combinar uma tarefa observável com criança, família e escola e rever barreiras de acesso e equipamento. |
| Espasticidade focal que atrapalha função | Melhorar uma atividade concreta, como apoiar o pé ou tolerar órtese | Registrar situação antes da intervenção, benefício percebido, exame e efeitos adversos; reavaliar no prazo definido. |
Corte do exame de Hammersmith com o sinal trocado. Na Tabela 1 da revisão de Novak e colaboradores (JAMA Pediatrics, 2017), a recomendação 6.1 manda considerar de alto risco de paralisia cerebral o lactente com escore acima de 73 aos 6, 9 ou 12 meses; a recomendação 7.1, na mesma tabela, dá abaixo de 73. A errata publicada no mesmo volume (JAMA Pediatrics 2017;171(9):919) corrige a 6.1 para abaixo de 73, mas a cópia de repositório universitário que circula em texto aberto — a versão de registro baixada em agosto de 2017 — conserva o sinal errado. A conta do dano: um lactente de 9 meses com escore 75, acima do corte, seria marcado como alto risco, e um com escore 60, abaixo dele, seria liberado. O sinal invertido troca exatamente as duas crianças. Este capítulo usa abaixo de 73.
Prognóstico permitido e proibido no mesmo documento. As Diretrizes de atenção à pessoa com paralisia cerebral (Ministério da Saúde, 2013) afirmam, no item de classificação, que as curvas de desenvolvimento motor construídas a partir do GMFCS permitem conhecer o prognóstico de cada nível e aconselhar melhor a família; no item Momentos da notícia, mandam evitar qualquer tipo de prognóstico sobre a evolução física e intelectual da criança. Aplicada ao pé da letra, a segunda frase proíbe responder com o GMFCS à pergunta que toda família faz — se a criança vai andar — justamente por volta dos 2 anos, idade em que a classificação se estabiliza e em que as mesmas Diretrizes situam a consolidação do diagnóstico. A contradição decide, pelo degrau da coerência interna, a primeira divergência deste capítulo.
Critério de renda do BPC sem o per capita. A Caderneta da Criança (7ª edição, 2024), na seção de direitos e garantias sociais, descreve o Benefício de Prestação Continuada como devido à criança com deficiência cuja família tenha renda familiar inferior a um quarto do salário-mínimo. A Lei nº 8.742, de 1993, no art. 20, § 3º, com a redação da Lei nº 14.176, de 2021, fixa renda familiar mensal per capita igual ou inferior a um quarto do salário-mínimo. A conta: uma família de quatro moradores com renda total de um salário-mínimo tem renda per capita de exatamente um quarto e cabe no critério da lei; pela frase da caderneta, a mesma renda é quatro vezes o limite, e a família concluiria que não tem direito. O erro multiplica o limite pelo número de moradores — quanto maior a família, maior o prejuízo. Oriente pela lei.
A conduta, hora a hora
A linha do tempo cobre dois anos e meio da vida de Tomás, porque paralisia cerebral se conduz em anos e não em plantões. Quase nenhuma linha de prescrição é de remédio: são registros, pedidos, encaminhamentos e orientações escritas, e é nelas que o interno faz diferença. A única dose da linha do tempo, a da lactulose, vem com a conta por quilo e o teto na própria prescrição; as de analgesia e constipação das outras crianças do capítulo estão na quarta tabela do bloco de critérios.
Cada marco diz o que se decide, com base em quê e por qual porta da rede. A atenção primária acompanha o recém-nascido de alto risco até os 2 anos, pela Rede de Cuidados à Pessoa com Deficiência; o ambulatório de seguimento e o neuropediatra conduzem o diagnóstico; o Centro Especializado em Reabilitação faz a intervenção e constrói com a família o Projeto Terapêutico Singular. O interno circula entre as três portas e tem uma obrigação que nenhuma delas cumpre sozinha: não deixar que o próximo profissional recomece do zero.
Os pesos de Tomás ao longo do caminho, para os cálculos e para a curva: 5.300 g aos 3 meses de idade corrigida, 7.100 g aos 9 meses, 8.600 g aos 18 meses, 9.400 g aos 24 meses e 10.100 g aos 30 meses.
Quarta, 8h50 — 3 meses de idade corrigida: o nome que se dá hoje
Você e a Dra. Minervina reúnem os critérios em voz alta. Critério obrigatório: disfunção motora — movimentos irrequietos ausentes na filmagem aos 3 meses de idade corrigida, cabeça que não acompanha o tronco, mãos fechadas, pernas que cruzam, reflexo tônico cervical que se impõe. Critérios adicionais: leucomalácia periventricular cística bilateral na ressonância de termo e prematuridade de 29 semanas. Tomás tem alto risco de paralisia cerebral, e o nome se escreve hoje porque é ele que abre a porta da intervenção específica e do apoio aos pais. Não há exame de sangue a pedir, nem tomografia; eletroencefalograma, só se aparecer episódio suspeito. A ressonância já feita dispensa outra agora. O que se pede é o que a revisão de 2017 manda acompanhar o diagnóstico: intervenção precoce, visão, audição e vigilância de crises.
Prescrição- Registrar no prontuário e na caderneta: alto risco de paralisia cerebral — movimentos irrequietos ausentes aos 3 meses de idade corrigida, leucomalácia periventricular cística bilateral na ressonância de termo, prematuridade de 29 semanas
- Encaminhamento regulado para intervenção precoce no Centro Especializado em Reabilitação de referência, com os achados descritos e o termo alto risco de paralisia cerebral no pedido
- Avaliação oftalmológica ampla, além do seguimento da retinopatia, e avaliação audiológica
- Retorno no seguimento em 30 dias e contrarreferência escrita para a unidade de saúde da família
- Nenhum exame laboratorial, nenhuma tomografia e nenhum eletroencefalograma sem episódio suspeito
Quarta, 9h15 — a sala do fundo: a primeira conversa
Os dois pais estão na sala, a porta fechada, o telefone da médica virado para baixo. Você começa pelo que eles já perceberam — o banho, as mãos, as pernas — e confirma que eles viram certo. Diz o nome com a palavra inteira: alto risco de paralisia cerebral. Explica o que o nome quer dizer, o que está confirmado, o que continua em aberto e por que o tratamento começa antes da certeza. Quando Ananias repete a pergunta sobre andar, você não promete e não tira: diz que aos três meses ninguém consegue responder com segurança, que há marcos que a equipe vai acompanhar e que, perto dos 2 anos, a classificação motora vai permitir uma resposta muito mais firme — e que a pergunta será respondida, não esquecida. Entrega o resumo por escrito e marca a próxima conversa. As falas estão no bloco de conversa.
Prescrição- Resumo por escrito, em linguagem simples: o que é alto risco de paralisia cerebral, o que já se sabe, o que ainda não se sabe e o que começa agora
- Posicionar para mamar e brincar como a fisioterapeuta orientou; nunca alimentar deitado
- Anotar e filmar episódios de olhar parado, sustos repetidos ou abalos
- Voltar antes do retorno se houver tosse ou engasgo nas mamadas, perda de peso, episódio suspeito de crise ou febre com dificuldade para respirar
- Contato do serviço social e do apoio psicológico do hospital entregue aos pais
Semana 3 — a unidade de saúde da família entra no plano
A contrarreferência chega à unidade de saúde da família com o diagnóstico, os pedidos e as datas. A agente comunitária visita a casa, o médico da equipe confere a caderneta e as vacinas, e a equipe multiprofissional da atenção primária começa as orientações de estimulação enquanto a vaga do centro de reabilitação é regulada — a caderneta de 2024 manda iniciar a estimulação pela equipe assim que um marco falta, independentemente de confirmação diagnóstica. A família mora a setenta quilômetros: a Rede de Cuidados à Pessoa com Deficiência prevê transporte sanitário adaptado para quem não consegue chegar pelos meios convencionais. O calendário vacinal segue sem adiamento; as Diretrizes de 2013 não veem contraindicação a nenhum procedimento do calendário básico.
Prescrição- Vacinas do calendário nacional nas datas, sem adiamento por causa do diagnóstico
- Visita domiciliar da agente comunitária e inscrição ou atualização da família no Cadastro Único
- Orientações de estimulação pela equipe multiprofissional da atenção primária até o início no centro de reabilitação
- Solicitação de transporte sanitário para as terapias
9 meses de idade corrigida — a mamadeira que leva uma hora
Tomás está no centro de reabilitação há cinco meses. Pesa 7.100 g e a curva, que subia, achatou nos últimos dois meses. Nilcélia conta que cada mamadeira leva quase uma hora, que ele tosse com o suco e fica rouco no fim. Você pede para ver uma refeição: ele come meio deitado no colo, com a cabeça jogada para trás. A pneumonia ainda não veio, e é agora que ela se previne. A fonoaudiologia avalia e a videofluoroscopia mostra aspiração silenciosa com líquido fino e deglutição segura com consistência pastosa na postura sentada. Tomás segue por boca, com consistência e postura corrigidas e peso de quinze em quinze dias; o critério para sonda fica escrito antes de ser necessário.
Prescrição- Alimentar sentado, com cabeça e tronco apoiados em linha média; nunca deitado
- Consistências conforme a fonoaudiologia: líquido fino suspenso até a reavaliação
- Peso a cada 15 dias na unidade de saúde e prega cutânea tricipital no seguimento
- Critério escrito para sonda nasogástrica, por até seis semanas: perda de peso, pneumonia ou refeição que não se completa
- Reavaliação da deglutição em 3 meses, ou antes se houver tosse nova, febre ou chiado
12 meses de idade corrigida — o diagnóstico se fecha, a bacia se radiografa, a vacina se pede
A espasticidade apareceu nas pernas, os adutores resistem à abertura das coxas, Tomás sustenta a cabeça mas não senta sem apoio, e o neuropediatra fecha o diagnóstico: paralisia cerebral espástica bilateral. Com 12 meses, começa a vigilância do quadril que a revisão de 2017 recomenda — radiografia de bacia anteroposterior agora e a cada 6 a 12 meses —, sem esperar dor. A primeira radiografia mostra os dois quadris centrados, e a ortopedia pediátrica marca o controle para seis meses. Com o diagnóstico de doença neurológica crônica incapacitante, Tomás tem indicação de vacina pneumocócica conjugada 20-valente na rede de imunobiológicos especiais, e a nota técnica de 2026 pede o registro da dose com o CID do motivo e a especialidade de quem prescreve. O serviço social abre o pedido do BPC.
Prescrição- Radiografia de bacia anteroposterior; controle a cada 6 a 12 meses no intervalo que a ortopedia definir
- Consulta na ortopedia pediátrica com a radiografia em mãos
- Pedido de vacina pneumocócica conjugada 20-valente na rede de imunobiológicos especiais: indicação doença neurológica crônica incapacitante, com o CID da paralisia cerebral e a especialidade de quem prescreve; esquema conforme idade e doses anteriores
- Serviço social: BPC com Cadastro Único atualizado, CPF da criança e agendamento da avaliação médica e social do INSS
- Retornos no seguimento pelo calendário do egresso da unidade neonatal
18 meses — as pernas que cruzam e o comprimido de diazepam
Tomás chora à noite há três semanas. Num pronto-atendimento, deram diazepam em comprimido, amassado à noite, “para relaxar a musculatura”. Desde então ele dorme mais de dia, baba mais e engasga com a própria saliva. O protocolo federal da espasticidade é explícito: diazepam não se usa para tratar espasticidade na paralisia cerebral, salvo dor aguda grave ou ansiedade; e as Diretrizes de 2013 lembram que o benzodiazepínico aumenta a secreção pulmonar em quem tem mobilidade prejudicada. O choro, porém, tem causa a procurar: a radiografia de controle da bacia sai no mesmo dia e mostra migração pequena do quadril esquerdo; as fezes são duras, a cada quatro dias; um molar está nascendo. A espasticidade de Tomás é generalizada, e o protocolo não cobre toxina só para espasticidade generalizada — mas os adutores, que atrapalham a higiene e o posicionamento, são segmento, e a avaliação para toxina fica com o especialista, com objetivo escrito.
Prescrição- Rever imediatamente o diazepam com a neuropediatria e planejar a retirada conforme dose e tempo de uso; não interromper uso continuado de forma abrupta por conta própria
- Nova consulta na ortopedia pediátrica com a radiografia de controle
- Lactulose xarope 667 mg/mL (Rename, Componente Básico): 1 mL/kg/dia para 8,6 kg = 8 mL por dia, em duas tomadas de 4 mL; subir pela consistência das fezes até 3 mL/kg/dia = 25 mL por dia, abaixo do teto de 30 mL/dia
- Sem óleo mineral: Tomás tem disfunção de deglutição, e a aspiração do óleo é o risco
- Avaliação pela fisiatria ou neuropediatria para toxina botulínica em adutores, com objetivo escrito de higiene, posicionamento e dor
- Adaptação de posicionamento para dormir e sentar pela oficina ortopédica do centro de reabilitação
24 meses — o GMFCS e a resposta que ficou pendente desde o primeiro dia
Aos 2 anos, a classificação se estabiliza. Tomás sustenta a cabeça, rola, senta só com apoio do tronco e não dá passos; pelo documento preliminar do Ministério de 2025, a criança que não senta sem apoio até os 2 anos provavelmente está nos níveis IV ou V, e pela revisão de 2017 a leucomalácia cística bilateral extensa torna mais provável não andar. O neuropediatra classifica: GMFCS nível IV. A conversa marcada vinte e um meses atrás acontece na mesma sala do fundo, com os dois pais e com a fisioterapeuta Benilde. A resposta agora é firme e não é cruel: é improvável que Tomás ande sem apoio; ele vai se deslocar e participar com equipamento, e equipamento cedo ajuda o desenvolvimento, não o atrasa. A toxina em adutores foi aplicada há dois meses, com melhora da higiene. O quadril esquerdo segue em observação.
Prescrição- Registrar paralisia cerebral espástica bilateral, GMFCS nível IV, e reclassificar a cada ano
- Cadeira adaptada de posicionamento e dispositivo de mobilidade pela oficina ortopédica
- Radiografia de bacia a cada 6 a 12 meses, no intervalo definido pela ortopedia, enquanto não andar
- Primeira consulta no Centro de Especialidades Odontológicas
- Reavaliação da deglutição e do peso na consulta; matrícula na educação infantil com apoio de inclusão
30 meses — o plano que fica escrito e quem responde por cada parte
Na última consulta do capítulo, o Projeto Terapêutico Singular vai para o papel e para a caderneta, compartilhado entre o centro de reabilitação e a unidade de saúde da família. Tomás pesa 10,1 kg, come sentado, com consistência pastosa, sem pneumonia até aqui; recebeu as doses da vacina pneumocócica da rede especial; o BPC foi concedido. O quadril esquerdo migrou um pouco mais e a ortopedia agendou reavaliação em seis meses. Nilcélia pergunta o que fazer se alguma coisa mudar, e a resposta está na última linha da prescrição, porque piora na criança com paralisia cerebral nunca é “a doença avançando”: é alguma coisa nova a procurar.
Prescrição- Centro Especializado em Reabilitação: fisioterapia, terapia ocupacional, fonoaudiologia, órteses e cadeira
- Unidade de saúde da família: puericultura, vacinas, peso, visitas e articulação com escola e assistência social
- Neuropediatria no seguimento; ortopedia pediátrica a cada 6 meses; oftalmologia e audiologia no calendário definido por elas; odontologia no centro especializado
- Serviço social: BPC, transporte sanitário e apoio aos cuidadores
- Voltar no mesmo dia se houver dificuldade para respirar, febre com tosse, engasgo que não passa, crise que dura mais de 5 minutos, choro ao mexer a perna ou perda de habilidade que já tinha
Como saber se está funcionando
A lesão cerebral de base é não progressiva, mas função, dor, crescimento e necessidades podem mudar. Reavalie a criança em sua trajetória: o que ela faz hoje, o que passou a ser difícil e o que a família deseja melhorar. Uma habilidade perdida precisa de investigação; não é explicada automaticamente pela paralisia cerebral. Combine acompanhamento clínico com a equipe de reabilitação e registre metas, medidas e datas de revisão.
Os parâmetros abaixo valem para Tomás e para a criança com paralisia cerebral em geral. A coluna do que fazer quando não melhora tem uma regra comum: antes de concluir que é da doença, procure o que mudou.
Esperado: Ganho de função compatível com a curva do nível da criança e nenhuma habilidade perdida
Se não melhora: Perda de habilidade não é paralisia cerebral progredindo: procurar dor, crise, sedação por medicamento e quadril; se a perda é real e continua, encefalopatia progressiva na neurologia pediátrica
Esperado: Refeições sem tosse, engasgo ou rouquidão, sem pneumonia e com duração tolerável para a família
Se não melhora: Nova avaliação da deglutição; sonda nasogástrica por até seis semanas se a via oral não for segura; conversa sobre gastrostomia se a via alternativa tiver de durar mais
Esperado: Curva de peso da própria criança voltando a subir; prega tricipital no percentil 10 ou acima
Se não melhora: Rever oferta, consistência, tempo de refeição e via; classificar e tratar desnutrição grave pela régua de O risco não é a fome
Esperado: Cabeças femorais centradas no laudo, abertura das coxas simétrica e mobilização sem dor
Se não melhora: Migração no laudo, assimetria nova ou dor: ortopedia pediátrica sem esperar o controle seguinte
Esperado: Sono sem despertares com choro; troca de fralda, banho e órteses tolerados
Se não melhora: Percorrer quadril, dentes, refluxo, constipação, pele, órtese e fratura; tratar a causa e prescrever analgesia por quilo, em mL, dentro do teto diário
Esperado: Objetivo escrito alcançado — higiene, posicionamento, órtese tolerada, menos dor — sem efeito à distância
Se não melhora: Não repetir antes de 3 meses; efeito que some mesmo com dose maior sugere anticorpos, que o especialista testa no músculo frontal; dificuldade para engolir ou respirar nos dias seguintes é urgência no mesmo dia
Esperado: Crises ausentes ou raras, com o plano escrito conhecido pela família; criança desperta, sem aumento de saliva ou de engasgo
Se não melhora: Sonolência, baba ou engasgo novos depois de medicamento: rever com a neuropediatria; anticonvulsivante de uso contínuo pede vigilância regular de efeitos no fígado e na medula óssea
Onde o erro machuca
O dano: Perde-se o primeiro ano, em que a plasticidade é maior e a intervenção específica mais rende; os pais, que na grande maioria já suspeitam, ficam sem nome e sem apoio — e a revisão de 2017 associa o diagnóstico prolongado a mais depressão e a raiva duradoura nos pais.
Como pegar a tempo: Disfunção motora com neuroimagem alterada ou história de risco é alto risco de paralisia cerebral: registre, diga à família e encaminhe para intervenção precoce no mesmo dia, sem esperar a confirmação.
O dano: A previsão irreversível dita cedo pode estar errada antes dos 2 anos, quando quase metade das crianças muda de nível, e fica na família para sempre; a promessa desmorona na primeira reclassificação e leva junto a confiança na equipe.
Como pegar a tempo: Antes dos 2 anos, diga o que ainda não se sabe e quais marcos a equipe está acompanhando; a partir dos 2 anos, responda com o GMFCS, com honestidade, junto com o plano de equipamento e de participação.
O dano: O deslocamento do quadril é silencioso e costuma acontecer antes dos 3 anos; quando a dor aparece, a cabeça femoral já saiu do acetábulo e as opções que restam são maiores, até a cirurgia de salvamento quando a reconstrução não é mais possível.
Como pegar a tempo: Radiografia de bacia anteroposterior a partir dos 12 meses e a cada 6 a 12 meses, com prioridade para quem não anda e para a forma bilateral; migração alterada no laudo vai para a ortopedia pediátrica.
O dano: A aspiração continua — às vezes sem tosse, porque quem aspira há muito tempo pode deixar de tossir —, a pneumonia volta e é a principal causa de morte na paralisia cerebral, e a desnutrição avança junto.
Como pegar a tempo: Avalie a segurança da deglutição antes de insistir, com videofluoroscopia onde houver; sonda por até seis semanas se a via oral não for segura e conversa sobre gastrostomia se a necessidade for mais longa.
O dano: Na criança que já engasga, sonolência e piora do controle de secreções após um medicamento podem aumentar risco respiratório e reduzir alimentação e participação. Isso exige revisão individual da prescrição. A situação regulatória ou a ausência de um produto na Rename não equivale, por si, a uma contraindicação clínica de toda uma classe. Óleo mineral deve ser evitado quando há risco de aspiração.
Como pegar a tempo: Antes de intensificar um relaxante, descreva o objetivo, procure a causa da dor e avalie deglutição, alerta e respiração. Em Tomás, o engasgo e a sonolência novos após diazepam exigem revisão imediata com a neuropediatria, com retirada planejada quando indicada. No quadro focal, discuta reabilitação, órteses e intervenção dirigida. Não generalize a decisão de uma criança a todas as formas de espasticidade.
O dano: Uma encefalopatia progressiva, às vezes tratável, fica sem investigação; e, na criança que de fato tem paralisia cerebral, dor, crise, fratura, luxação ou sedação por medicamento passam sem diagnóstico.
Como pegar a tempo: A lesão da paralisia cerebral não progride: perda de habilidade vai para a neurologia pediátrica do serviço de referência, e piora sem perda manda procurar o que mudou — quadril, dor, crise, infecção, medicamento.
O que dizer ao paciente e à família
Quatro conversas decidem o que a família faz com o diagnóstico: a do nome, a da culpa, a do futuro e a dos direitos. A técnica geral de dar a notícia é do capítulo Comunicação de más notícias, e a conversa sobre incerteza é de O que se diz quando não se sabe, os dois na apostila de Comunicação, Ética e Segurança na Prática; o que é deste capítulo é o conteúdo de cada frase. As Diretrizes de 2013 dão as regras mínimas — o diagnóstico é dado pelo médico, a mãe ouve preferencialmente com o pai ou outro familiar significativo, em local reservado, com tempo, e os pais ficam sabendo quais sinais sustentaram o diagnóstico. A revisão de 2017 acrescenta que a comunicação é uma série de conversas presenciais, honestas e sem jargão, com informação escrita, espaço para perguntas e sentimentos, indicação de apoio entre famílias e intervenção já combinada.
O documento preliminar do Ministério de 2025 conta o que as famílias brasileiras relatam: notícia dada de maneira fria, com previsões desalentadoras — “seu filho viverá em estado vegetativo” — e sem orientação sobre os próximos passos. E registra o que elas pedem desde o início: apoio psicológico, contato com outras famílias, informação clara sobre intervenção precoce e comunicação acolhedora, sem previsões irreversíveis.
Nilcélia e Ananias estão juntos em todas as conversas, com a Dra. Minervina presente. Ananias fala pouco e pergunta o que importa; Nilcélia chega com o que leu no celular. As falas são do interno.
Abrir a primeira conversa pelo que os pais já perceberam
““Antes de eu falar, quero ouvir vocês. A senhora me contou que o Tomás fica duro no banho e não abre as mãos, e o senhor me perguntou se ele vai andar. Vocês repararam certo. O que vocês já leram ou ouviram sobre isso?””
Não diga: Começar pelo laudo da ressonância, em termos técnicos, antes de saber o que a família já sabe e o que teme.
Dar o nome — alto risco de paralisia cerebral — e dizer por que ele vem hoje
““O exame de hoje, o vídeo que a Benilde fez e a ressonância mostram a mesma coisa: a parte do cérebro que comanda os movimentos foi machucada, quando ele nasceu tão cedo. O nome que a gente dá hoje é alto risco de paralisia cerebral. Alto risco quer dizer que o diagnóstico ainda não está fechado — isso vai ficar mais claro nos próximos meses —, mas os sinais são fortes o bastante para a gente não esperar. Dar esse nome agora é o que faz o tratamento certo começar já.””
Não diga: Dizer “é cedo para falar em qualquer coisa” quando os achados já sustentam o alto risco — ou afirmar paralisia cerebral como certeza fechada aos três meses.
Nilcélia pergunta se foi culpa dela
““Não foi. O Tomás nasceu muito antes do tempo, e o cérebro de um bebê de 29 semanas é frágil; essa lesão acontece mesmo com todo o cuidado da mãe e da equipe. Na maioria das crianças com paralisia cerebral, ninguém consegue apontar uma causa única. O que a senhora fez foi reparar no banho, nas mãos e nas pernas, e contar. Foi isso que trouxe a gente até aqui hoje.””
Não diga: Especular sobre o parto, o pré-natal ou a unidade neonatal na frente da família, ou deixar a pergunta sem resposta.
Ananias repete, aos três meses de idade corrigida: ele vai andar?
““Eu não vou prometer que ele vai andar e não vou dizer que ele não vai, porque hoje ninguém consegue saber isso com segurança — nem eu, nem a doutora, nem outro médico que o senhor procurar. O que eu posso dizer é que existem marcos que a equipe vai acompanhar mês a mês, como firmar a cabeça e sentar, e que perto dos 2 anos vai existir uma classificação que responde essa pergunta com muito mais firmeza. Eu anotei a sua pergunta aqui no prontuário, e ela vai ser respondida.””
Não diga: Usar “cada criança tem seu tempo” para fugir da pergunta, ou dar previsão definitiva — “nunca vai andar”, “vai andar, sim” — antes dos 2 anos.
O que começa hoje e o que os pais levam para casa
““A partir de hoje, o Tomás vai ser encaminhado para terapia num centro de reabilitação, e vocês vão aprender a fazer parte do tratamento em casa. Ele vai fazer exame dos olhos e da audição. A unidade de saúde perto de vocês vai receber uma carta nossa e vai acompanhar junto. Nesta folha está escrito o que eu falei, o dia de voltar e os sinais para voltar antes: tosse ou engasgo mamando, perda de peso, algum episódio parecido com convulsão. O que não ficou claro?””
Não diga: Encerrar com o diagnóstico e sem data, sem papel e sem dizer quem cuida de quê — a família sai com um nome e nenhum caminho.
Aos 2 anos, a resposta firme: GMFCS nível IV
““Lembram da pergunta do primeiro dia? Hoje eu consigo responder com mais segurança. O Tomás está no que a gente chama de nível IV: é muito provável que ele não ande sozinho, sem apoio. Isso não quer dizer que ele vai ficar parado. Com a cadeira certa e com o equipamento que o centro vai adaptar, ele vai se deslocar, brincar, ir para a escola e participar. E equipamento cedo não atrasa nada: ajuda o desenvolvimento dele.””
Não diga: Dar o nível sem o plano que vem com ele, ou adiar outra vez a resposta quando a classificação já é estável.
Os direitos: BPC, transporte e escola
““Tem direitos que são do Tomás e que ajudam a família. O BPC é um salário-mínimo por mês para a criança com deficiência quando a renda da casa, dividida por todas as pessoas que moram nela, fica em até um quarto do salário-mínimo. Para pedir, a família precisa estar no Cadastro Único, e o INSS faz uma avaliação médica e uma avaliação social. A assistente social vai ajudar vocês com isso, com o transporte para as terapias e com a vaga na escola.””
Não diga: Repetir a frase da caderneta que fala em renda familiar menor que um quarto do salário-mínimo sem dizer que a conta é por pessoa — a família pode desistir de um direito que tem.
Onde bons médicos discordam
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.
Evitar qualquer tipo de prognóstico — Diretrizes de atenção à pessoa com paralisia cerebral, Ministério da Saúde, 2013, item Momentos da notícia
Confirmado o diagnóstico, profissionais capacitados informam a família sobre a variabilidade dos quadros e dos níveis de comprometimento e sobre as possibilidades de tratamento, e devem evitar qualquer tipo de prognóstico sobre a evolução física e intelectual da criança. A preocupação é legítima: previsão dita cedo, com frieza, marca a família e muitas vezes erra.
Ministério da Saúde. Diretrizes de atenção à pessoa com paralisia cerebral, 2013, item 8
Cautela antes dos 2 anos e resposta pelo GMFCS depois — revisão de Novak e colaboradores, 2017; item de classificação das mesmas Diretrizes de 2013; documento preliminar do Ministério, 2025
Os pais querem e precisam conhecer a gravidade para planejar. Antes dos 2 anos, a previsão motora se faz com cautela e sempre com instrumento padronizado; a partir dos 2 anos, o GMFCS classifica com confiabilidade, e as curvas de desenvolvimento motor de cada nível permitem aconselhar a família — é o que as Diretrizes de 2013 dizem no item de classificação. O texto preliminar de 2025 usa os marcos-diamante como apoio à comunicação com a família e pede evitar as previsões irreversíveis, não o prognóstico.
Novak I et al. JAMA Pediatr. 2017;171(9):897-907, recomendação 8.0; Diretrizes de 2013, item 3.3; Guia de atenção à pessoa com paralisia cerebral, documento preliminar, 2025, itens 14 e 17
Esta apostila adota a segunda posição. Antes de desempatar, a cronologia: até os 2 anos vale a cautela nas duas leituras — não se dá previsão fechada; conta-se o que está confirmado, o que segue em aberto e o que a equipe acompanha. A disputa real começa aos 2 anos, quando a classificação se estabiliza e quando as próprias Diretrizes situam a consolidação do diagnóstico: aí as duas frases de 2013 governam o mesmo momento e se contradizem. Os degraus de escopo, data e natureza não se aplicam, porque as duas frases federais estão no mesmo documento. Decide o degrau 4, coerência interna: o documento que manda evitar qualquer prognóstico é o mesmo que recomenda as curvas do GMFCS para aconselhar a família, e a linha coerente é a que a revisão de 2017 e o texto preliminar de 2025 seguem. Com a criança de 2 anos à sua frente: classifique pelo GMFCS, responda à pergunta sobre andar com o que o nível prevê, junte o plano de equipamento e de participação — e deixe de fora a frase irreversível sobre inteligência ou expectativa de vida, que nenhuma classificação motora sustenta.
Aos 30 meses na forma bilateral, antes só por suspeita clínica — revisão de Gordon e Simkiss, 2006, relatada pelo consenso da Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia, 2019
A revisão de 2006 concluiu que toda criança com paralisia cerebral bilateral deve fazer radiografia do quadril aos 30 meses, e que a suspeita clínica antes dessa idade justifica a radiografia. O consenso brasileiro de 2019 relata essa conclusão ao recomendar os programas de vigilância, sem fixar calendário próprio. As Diretrizes federais de 2013 pedem avaliação ortopédica e motora semestral desde o primeiro ano, sem prever radiografia de rotina.
SBOT. Consensos brasileiros de ortopedia e traumatologia, 2019, pergunta 24; Ministério da Saúde. Diretrizes de 2013, item 7.1.7
A partir dos 12 meses, repetida a cada 6 a 12 meses — revisão de Novak e colaboradores, 2017; documento preliminar do Ministério, 2025, com início entre 12 e 24 meses nos níveis IV e V
A revisão de 2017 recomenda radiografia de bacia anteroposterior a cada 6 a 12 meses a partir dos 12 meses de idade, em acordo com as diretrizes de vigilância do quadril. O texto preliminar do Ministério de 2025 põe o início entre 12 e 24 meses para os níveis IV e V do GMFCS e reavaliação mais espaçada nos níveis I e II, exceto na forma unilateral com envolvimento de tornozelo, joelho e quadril.
Novak I et al. JAMA Pediatr. 2017;171(9):897-907; Guia de atenção à pessoa com paralisia cerebral, documento preliminar, 2025
Esta apostila adota a segunda posição: primeira radiografia de bacia a partir dos 12 meses, repetida a cada 6 a 12 meses, com prioridade para a criança que não anda e para a forma bilateral. Degrau 1, escopo: empate — as duas regras foram escritas para a criança com paralisia cerebral. Degrau 2, data: a regra dos 30 meses vem de uma revisão de 2006; a dos 12 meses, de uma revisão de 2017, que o texto preliminar federal de 2025 acompanha. O degrau 4 confirma o lado: o mesmo consenso de 2019 que relata os 30 meses registra que, nos programas de vigilância, as luxações que ainda aconteceram vieram antes da primeira radiografia e abaixo dos 3 anos — esperar os 30 meses deixa passar justamente essas crianças. As Diretrizes de 2013 não entram em conflito: a avaliação semestral que pedem é o exame clínico que acompanha a radiografia, e não a substitui. Com a criança à sua frente: se ela tem 18 meses, não anda e nunca radiografou a bacia, o pedido sai hoje.
Opção de tratamento da espasticidade — Diretrizes de atenção à pessoa com paralisia cerebral, Ministério da Saúde, 2013; mencionada no documento preliminar de 2025
As Diretrizes de 2013 incluem a injeção intratecal de baclofeno entre as intervenções que podem ser necessárias no tratamento da espasticidade, ao lado da toxina botulínica, da rizotomia dorsal seletiva e da cirurgia ortopédica, sempre como coadjuvantes da terapia motora. O texto preliminar de 2025 cita a bomba de baclofeno intratecal entre as formas de controle amplo da espasticidade que poderiam reduzir a velocidade de progressão da subluxação do quadril.
Ministério da Saúde. Diretrizes de 2013, item 7.1.7; Guia de atenção à pessoa com paralisia cerebral, documento preliminar, 2025, vigilância do quadril
Não recomendável no Brasil — Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Espasticidade, Portaria Conjunta SAES/SCTIE nº 5, de 2022
O protocolo federal registra que diretrizes de outros países recomendam o baclofeno intratecal, mas que, sem registro válido dessa apresentação na Agência Nacional de Vigilância Sanitária, não é possível recomendar seu uso no Brasil. O baclofeno oral não tem indicação aprovada em bula para criança, a avaliação da Conitec não contemplou essa população, e o medicamento não consta da Rename 2024. O fármaco do protocolo é a toxina botulínica tipo A.
Ministério da Saúde. PCDT da Espasticidade, Portaria Conjunta nº 5/2022, item 6.2; Rename 2024
Separe três perguntas: a intervenção pode ajudar esta criança? Há indicação e condições de segurança para ela? Como pode ser acessada na rede local? Os documentos citados divergem em finalidade e em situação regulatória. Explique com precisão o que o protocolo de acesso consultado contempla e confirme a disponibilidade com o serviço. Não prometa uma bomba nem apresente sua ausência no elenco como prova de que todo tratamento com baclofeno é clinicamente proibido. A escolha pertence à avaliação especializada, com metas funcionais e discussão de riscos.
O raciocínio, em voz alta
Enfermaria de pediatria de um hospital municipal, segunda-feira, oito da manhã. Mirela Japiassu, 7 anos, 16 kg, nasceu a termo depois de um parto com asfixia grave e tem paralisia cerebral espástica bilateral, com posturas distônicas nos braços, classificada no nível V do GMFCS. Usa um anticonvulsivante de manutenção prescrito pela neuropediatria e, há dois meses, clonazepam em gotas à noite, receitado em outro serviço para dormir. Internou no sábado com a segunda pneumonia em cinco meses, e a febre cedeu com o antibiótico. A mãe, Lídia Japiassu, conta que a filha come no colo, meio deitada, que cada refeição leva mais de uma hora, que ela tosse com o suco e com a água e que baba e engasga mais desde o remédio de dormir. Perdeu 1,5 kg em três meses. Evacua a cada cinco dias, fezes duras. Chora na troca de fralda, sobretudo quando se abre a perna esquerda. Nunca fez radiografia de bacia. Está fora do centro de reabilitação há dois anos, desde que o transporte da prefeitura parou de passar. A família — Lídia e três filhos — vive com um salário-mínimo e não pediu o BPC, porque leu na caderneta que a renda precisaria ser menor que um quarto do salário-mínimo.
A pneumonia é a porta; a deglutição é a doença
O antibiótico e a classificação de gravidade seguem Pneumonia na criança. O que o interno acrescenta é a pergunta que ninguém fez nas duas internações: como Mirela come. Criança no nível V do GMFCS tem disfagia em 99% das vezes, pelas Diretrizes de 2013; tosse com líquidos, refeição de mais de uma hora, perda de peso e duas pneumonias em cinco meses fecham o quadro de aspiração, e a saliva aspirada soma-se ao alimento. A pneumonia de repetição, nessa criança, é tratada como aspiração até prova em contrário — e a pneumonia é a principal causa de morte na paralisia cerebral.
Suspender a via insegura e escolher a via certa
Enquanto a deglutição não é avaliada, a boca fica fechada para alimento, e Mirela recebe dieta por sonda nasogástrica — sonda que as Diretrizes limitam a no máximo seis semanas, pelo risco de otite, sinusite e lesão esofágica. A técnica de passagem e a confirmação da posição estão em O que confirma, e o que só parece confirmar. A fonoaudiologia avalia no leito e, estável, Mirela faz videofluoroscopia: aspiração com líquido fino e com pastoso, sem tosse. A necessidade de via alternativa vai passar de seis semanas, e a indicação passa a ser gastrostomia, que as Diretrizes associam a ganho de peso, melhora respiratória e menos tempo gasto com a alimentação. A fórmula enteral não consta da Rename, e o acesso a ela sai com o serviço social antes da alta.
Medir o que a curva da população geral não mostra
Na curva da caderneta, Mirela está muito abaixo de qualquer linha, e isso pouco informa: as Diretrizes de 2013 lembram que crianças com paralisia cerebral são menores mesmo bem nutridas e que a meta não é o índice da população geral. A medida que decide é a prega cutânea tricipital, abaixo do percentil 10 — desnutrição. A classificação de gravidade e a recuperação nutricional seguem O risco não é a fome; o que fica aqui é a causa, que é a deglutição, e o cuidado com o osso, porque desnutrição, gravidade motora e disfunção oral reduzem a mineralização e gastrostomia é, pelas mesmas Diretrizes, fator de risco para fratura. A equipe de enfermagem é orientada a manipular as pernas com cuidado.
A secreção que o remédio aumentou
Clonazepam à noite, baba e engasgo novos: as Diretrizes de 2013 descrevem o aumento de secreção pulmonar pelos benzodiazepínicos, sobretudo o clonazepam, em crianças com mobilidade prejudicada. A interna conversa com a neuropediatria do hospital, que programa a retirada do clonazepam e mantém o anticonvulsivante de manutenção sem mudança — a escolha e o ajuste do antiepiléptico ficam com a neuropediatria e com O que o celular gravou, nesta apostila. A família sai com o plano escrito de resgate para crise que dure mais de cinco minutos, pelas doses de O que o celular gravou, e com a orientação de que sono ruim também tem causa a procurar.
O choro na troca de fralda
A abertura da coxa esquerda é menor que a da direita e dói. A radiografia de bacia anteroposterior, a primeira da vida de Mirela, mostra a cabeça femoral esquerda fora do acetábulo; o fêmur proximal não tem traço de fratura. É o deslocamento que a vigilância a partir dos 12 meses teria acompanhado e que chegou calado. A ortopedia pediátrica avalia na internação — a decisão entre reconstrução e procedimento para alívio de dor é dela. Enquanto isso, a dor se trata por quilo: paracetamol em solução oral de 200 mg/mL, 15 mg/kg por dose, 240 mg = 1,2 mL pela sonda de 6 em 6 horas, 960 mg por dia, abaixo do teto de 75 mg/kg por dia, que para 16 kg é 1.200 mg.
Intestino e boca
Fezes duras a cada cinco dias numa criança imóvel, desnutrida e com pouca água: constipação a tratar, e fonte provável de dor. Lactulose em xarope de 667 mg/mL, da Rename: 1 mL/kg/dia para 16 kg = 16 mL por dia, em duas tomadas de 8 mL pela sonda, subindo pela consistência das fezes até o teto de 30 mL/dia — o limite de 3 mL/kg/dia daria 48 mL, acima da dose do adulto. Óleo mineral fica de fora: o guia da Sociedade Brasileira de Pediatria manda evitá-lo justamente na criança com distúrbio de deglutição, porque o óleo pode ser aspirado. Na boca, duas cáries e gengiva que sangra: encaminhamento ao Centro de Especialidades Odontológicas, com atendimento sob sedação ou anestesia geral quando necessário, como prevê a Rede de Cuidados à Pessoa com Deficiência.
A alta que não recomeça do zero
A conversa sobre gastrostomia acontece com Lídia e com a avó, que mora na casa ao lado, em duas etapas: as Diretrizes lembram que a família costuma ler a sonda como fracasso em alimentar a filha, e a resposta é que a gastrostomia protege o pulmão e dá tempo à família. A interna refaz a conta do BPC: quatro moradores com um salário-mínimo dão renda per capita de exatamente um quarto, e a lei — renda per capita igual ou inferior a um quarto — alcança a família que a frase da caderneta excluía; o serviço social abre o pedido, com Cadastro Único e avaliação do INSS. Saem ainda: vacina pneumocócica conjugada 20-valente na rede especial, pela doença neurológica crônica incapacitante; retorno ao centro de reabilitação com transporte sanitário adaptado; ortopedia agendada; e contrarreferência para a unidade de saúde da família com o plano inteiro por escrito.
Faça você
Rael Chiavenato, 2 anos e 8 meses, 13 kg, nasceu a termo e teve uma crise no segundo dia de vida; a ressonância da época mostrou infarto isquêmico no território da artéria cerebral média esquerda. Anda sozinho desde os 20 meses e sobe no sofá. Desde que começou a andar, pisa com a ponta do pé direito; a mão direita fica fechada e só serve de apoio, e para pegar o brinquedo ele usa sempre a esquerda. Faz fisioterapia uma vez por semana no centro de reabilitação. No exame, a panturrilha direita tem grau 2 na escala de Ashworth modificada, o tornozelo direito chega à posição neutra com o joelho estendido, sem contratura fixa, e os reflexos são vivos à direita. Nunca radiografou a bacia. Os pais, Zenóbia Chiavenato e Próspero Sauaia, trazem duas perguntas escritas num papel: se o filho pode receber “a injeção de botox” que viram num vídeo e se pode tomar o baclofeno que o filho de uma vizinha usa “para soltar a perna”. E uma terceira, de Próspero: “Ele anda. Precisa mesmo de radiografia de quadril?”
Classifique Rael
Dê o tipo clínico, a topografia, o nível provável do GMFCS e diga quando se classifica a mão. Explique o que o padrão da ressonância prevê sobre andar.
Confira se Rael cabe no protocolo da toxina botulínica
Confira, item por item, o que o protocolo federal da espasticidade exige para incluir e o que o faria excluir, e escreva o que o laudo precisa conter. Diga quem aplica e em que apresentações a toxina chega pelo SUS.
Responda ao pedido de baclofeno
Diga à família, com a base normativa, por que o baclofeno não entra na receita de Rael e o que se oferece no lugar. Diga também o que não se prescreve para a rigidez.
Decida a vigilância do quadril
Responda à pergunta de Próspero: pede ou não a radiografia, e com que calendário daqui em diante, na criança unilateral que anda.
Prepare a família para a aplicação e para os dias seguintes
Prescreva a analgesia do dia da aplicação por quilo, com teto e volume, diga o que se espera e quando se reavalia, e liste os sinais que fazem a família voltar no mesmo dia.
Ver como fecharíamos
Classificação: paralisia cerebral espástica unilateral direita, antiga hemiplegia, por acidente vascular isquêmico perinatal da artéria cerebral média — o padrão que a revisão de 2017 associa à forma unilateral. Rael anda sozinho desde os 20 meses e, aos 2 anos e 8 meses, com classificação já estável, o nível provável é o I do GMFCS. Na revisão de 2017, o lactente cujo exame de Hammersmith aponta forma unilateral anda em 95% a 99% dos casos — e Rael já anda. A mão se classifica pelo MACS a partir dos 4 anos; até lá, a assimetria orienta a terapia — a contensão do membro sadio é intervenção própria da forma unilateral. Protocolo da toxina: Rael cabe. O CID é G80.2, que está na lista do protocolo; a espasticidade é focal, no tríceps sural direito, com grau 2 na escala de Ashworth modificada — o protocolo aceita os graus de 1 a 3; há comprometimento funcional — marcha na ponta do pé — e risco de deformidade em equino; e ele está inserido em reabilitação, com fisioterapia semanal. Não há critério de exclusão: a espasticidade não é generalizada, não existe contratura fixa com grau 4, não há doença da junção neuromuscular, infecção no local nem uso de aminoglicosídeo, e a família consegue manter o seguimento. O laudo leva o CID, o músculo, o grau na escala, o objetivo funcional escrito e a confirmação da fisioterapia em curso. A aplicação é feita por médico capacitado em fisiatria, neurologia, neuropediatria, neurocirurgia ou ortopedia, com a dose pela bula do produto dispensado — as unidades de um fabricante não valem para outro. A toxina chega pelo Componente Especializado, em frascos de 100 U e de 500 U, e os pais assinam o termo de esclarecimento e responsabilidade. Baclofeno: o protocolo federal registra que o baclofeno oral não tem indicação aprovada em bula para criança e que a evidência é inconclusiva; ele não consta da Rename 2024. A espasticidade de Rael é focal, e o que se oferece é a toxina associada à fisioterapia, à órtese e, se o especialista indicar, ao gesso seriado. Diazepam não se prescreve para tratar espasticidade na paralisia cerebral. Quadril: pede-se a radiografia de bacia anteroposterior agora, porque Rael tem 2 anos e 8 meses e nunca a fez. Esta apostila adota a vigilância a partir dos 12 meses, a cada 6 a 12 meses. O documento preliminar do Ministério de 2025 espaça a reavaliação nos níveis I e II e só mantém visitas regulares na forma unilateral que envolve tornozelo, joelho e quadril; Rael, por ora, tem envolvimento do tornozelo. Com a primeira radiografia normal e marcha independente, a ortopedia pode alongar o intervalo; migração no laudo, ou envolvimento que sobe para joelho e quadril, leva de volta ao calendário curto. Aplicação e dias seguintes: analgesia antecipada, porque a revisão de 2017 recomenda evitar dor de procedimento. Paracetamol em solução oral de 200 mg/mL: 0,9 mL, que são 180 mg, ou 13,8 mg/kg, uma hora antes e depois de 6 em 6 horas se houver dor, até 4 doses por dia — 720 mg, ou 55,4 mg/kg/dia, abaixo do teto de 75 mg/kg/dia, que para 13 kg é 975 mg. Espera-se dor e hematoma no local; o efeito na marcha aparece ao longo das semanas seguintes. Reavaliação em 4 a 6 semanas; nova aplicação nunca antes de 3 meses. Voltar no mesmo dia se aparecer dificuldade para engolir, engasgo novo, dificuldade para respirar ou fraqueza fora da perna tratada — o protocolo descreve disfagia e dificuldade respiratória como eventos graves, sobretudo em crianças com paralisia cerebral.
A revisão de Novak de 2017 recomenda radiografia de bacia anteroposterior a cada 6 a 12 meses a partir dos 12 meses de idade, e a criança bilateral que não anda é a de maior risco de deslocamento. Esperar os 30 meses, regra de uma revisão de 2006 relatada pelo consenso da Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia de 2019, deixa passar as luxações que o próprio consenso registra acontecendo antes da primeira radiografia e abaixo dos 3 anos. O deslocamento é silencioso, então a ausência de dor não tranquiliza. O documento preliminar do Ministério de 2025 registra que a evidência não permite recomendar a toxina para prevenir ou retardar a displasia do quadril. A vigilância usa a porcentagem de migração medida na radiografia, e quem decide a partir dela é a ortopedia pediátrica.
Teste-se
Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.
Plano de revisão
Em 7 dias
Compare o bebê de risco com atraso motor e a criança já diagnosticada que passou a engasgar após um medicamento. No primeiro, justifique avaliação precoce e intervenção sem esperar definição prognóstica completa. Na segunda, priorize segurança alimentar, respiração e revisão da prescrição com o responsável. Para ambos, escreva uma meta funcional observável e uma explicação à família que preserve a incerteza sem retirar esperança.
Em 30 dias
Reveja um plano de cuidado real ou simulado com a família: qual meta foi alcançada? Houve melhora de conforto, alimentação, comunicação ou participação? Compare as medidas com a linha de base, procure efeitos adversos e confirme se os encaminhamentos aconteceram. Registre o próximo objetivo, quem acompanhará e quando. Inclua necessidades de apoio e acesso, sem reduzir o seguimento a documentos ou benefícios sociais.
Agora atenda
Agora atenda: Íris Amarante, 10 meses, nascida a termo e internada na primeira semana de vida por icterícia grave tratada com exsanguineotransfusão, trazida pela mãe à unidade básica porque ainda não senta sozinha e “fica dura e se torce toda quando chora ou quando tenta pegar alguma coisa”. Descubra o que tornava o risco reconhecível desde o berçário e o que ninguém fez depois, examine procurando os sinais que apontam para a forma discinética, decida o que pedir — incluindo a avaliação que a icterícia grave torna obrigatória —, dê à mãe o nome que se pode dar hoje e diga para onde Íris vai e em que prazo.
