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O bilhete na mochila
Transtorno de déficit de atenção e hiperatividade
Transtorno de déficit de atenção e hiperatividade na criança e no adolescente, da queixa da escola ao seguimento: firmar o diagnóstico em dois ambientes e com prejuízo, afastar o que imita, começar pelo que não é remédio, saber o que o SUS entrega e vigiar apetite, sono, crescimento, pressão e frequência de quem usa estimulante.
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção Especializada à Saúde; Secretaria de Ciência, Tecnologia, Inovação e Insumos Estratégicos em Saúde. Portaria Conjunta nº 14, de 29 de julho de 2022. Aprova o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade. Diário Oficial da União, 3 ago. 2022. Texto integral com apêndices disponível na página de protocolos da Conitec.
Novartis Biociências S.A. Ritalina® (cloridrato de metilfenidato) comprimidos de 10 mg e Ritalina® LA cápsulas duras de liberação prolongada de 10, 20, 30 e 40 mg: bula para o profissional de saúde. Registro MS 1.0068.0080. Bula aprovada pela Anvisa em 14 abr. 2026.
Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Faculdade de Medicina. TelessaúdeRS-UFRGS; Rio Grande do Sul. Secretaria Estadual da Saúde. Protocolos de Regulação Ambulatorial: Neurologia Pediátrica. 2. ed. Porto Alegre: UFRGS; 2024. Protocolo 6 (Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade), Protocolo 7 (Transtorno Específico da Aprendizagem), Quadros 12 e 13. Última revisão em 18 abr. 2024.
Sociedade Brasileira de Pediatria. Departamento Científico de Medicina do Adolescente e Grupo de Trabalho Saúde Mental. Transtorno de déficit de atenção e hiperatividade na adolescência. Documento Científico nº 203. Rio de Janeiro: SBP; 6 maio 2025.
Brasil. Lei nº 14.254, de 30 de novembro de 2021. Dispõe sobre o acompanhamento integral para educandos com dislexia ou Transtorno do Deficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) ou outro transtorno de aprendizagem. Diário Oficial da União, 1º dez. 2021.
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância Sanitária. Portaria SVS/MS nº 344, de 12 de maio de 1998. Aprova o Regulamento Técnico sobre substâncias e medicamentos sujeitos a controle especial (arts. 41 e 43); com o Anexo I atualizado pela Resolução da Diretoria Colegiada Anvisa nº 1.036, de 9 de julho de 2026. Diário Oficial da União, 13 jul. 2026.
Brasil. Ministério da Saúde. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais: Rename 2024. Brasília: Ministério da Saúde; 2024. Portaria GM/MS nº 6.324/2024.
American Psychiatric Association. Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders, Fifth Edition, Text Revision (DSM-5-TR). Washington, DC: American Psychiatric Association Publishing; 2022.
Brasil. Ministério da Saúde. Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS. Metilfenidato e lisdexanfetamina para indivíduos com Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade. Relatório de Recomendação nº 601. Brasília: Conitec; mar. 2021.
Artigo temático sobre a incorporação de psicotrópicos à Rename e as solicitações enviadas à Conitec entre 2012 e 2024. Ciência & Saúde Coletiva. 2026;31(1):e14222025. doi:10.1590/1413-81232026311.14222025.
Responda antes de ler
Menino de 10 anos, 32 kg, com TDAH e prejuízo persistente, vai iniciar metilfenidato na unidade básica. Nega desmaio, palpitação e dor no peito; pressão, frequência cardíaca e ausculta são normais, e não há tiques. O pai conta que um irmão dele morreu subitamente aos 29 anos, jogando futebol. Qual é a conduta antes de iniciar o fármaco?
O paciente que você vai ver
Terça-feira, dez para as oito da manhã, unidade básica de saúde de um bairro da periferia, a vinte minutos de ônibus da escola municipal. Você é o interno da equipe verde e a Dra. Adelaide Camocim, médica de família, divide com você o consultório 3. O primeiro nome da agenda é Caíque Pindorama, 8 anos, marcado na semana passada como “consulta a pedido da escola”. Ele entra antes da mãe, dá a volta na maca, aperta o pedal da lixeira duas vezes, pergunta para que serve o otoscópio e já está com o dedo no botão do negatoscópio quando a mãe, Ingrácia, diz o nome dele pela terceira vez.
Ingrácia tira da bolsa um papel dobrado em quatro. É um bilhete da professora do 3º ano, Dalva Trindade, com o carimbo da escola: “Senhora mãe, o aluno Caíque não consegue permanecer sentado, não termina as atividades, perde o material, interrompe os colegas e atrapalha o andamento da turma. Já conversamos várias vezes. Solicitamos avaliação com neurologista para ver a possibilidade de medicação.” Embaixo, a coordenadora pedagógica, Edite Leite, acrescentou à mão: “Trazer laudo.”
A mãe está sem graça e na defensiva ao mesmo tempo. Conta que é a terceira escola que reclama desde a pré-escola, que a avó paterna, Brígida, que mora com eles, acha que é falta de pulso, e que o pai, Adelquis, vigia noturno, dorme de dia e “foi igualzinho, repetiu duas vezes e largou na oitava série”. Diz que não quer dar “remédio de tarja preta” para o filho, mas que também não quer que ele seja o menino que ninguém chama para as festas. No fim, pergunta baixinho se o posto tem o remédio ou se ela vai ter de comprar, porque ouviu dizer que é caro.
Enquanto ela fala, Caíque desmonta a caneta que pegou da mesa, remonta, derruba a mola, se enfia debaixo da cadeira para achar e, lá de baixo, responde a uma pergunta que a mãe ainda não tinha terminado de fazer. Quando a Dra. Adelaide pede que ele sente e desenhe a família, ele desenha três pessoas e um cachorro em quarenta segundos, vira a folha e pergunta se pode ir ao banheiro. Ainda são oito e cinco.
A tentação tem três formas, e as três estão na sala. A primeira é resolver o bilhete: escrever “TDAH” no prontuário, porque a professora descreveu o quadro e o menino confirmou na sua frente. A segunda é empurrar o bilhete: encaminhar ao neurologista, como a escola pediu, e deixar a família na fila de meses com o “trazer laudo” sem resposta. A terceira é desconfiar do bilhete e dizer que é criação, que menino é assim, e mandar voltar em seis meses. As três custam caro. A primeira pode rotular uma criança que dorme cinco horas por noite, que não enxerga a lousa ou que apanha em casa. A segunda gasta a vaga do especialista com a parte da avaliação que cabe na unidade básica. A terceira devolve para a escola um menino que talvez esteja há três anos acumulando reprovação, acidente e isolamento.
O que decide esta manhã é outra coisa: se o que a escola descreve acontece também em casa, desde quando, com que prejuízo, e se alguma outra condição explica melhor o que se vê. É uma consulta de história, de exame físico e de dois questionários, e termina com uma carta para a professora, não com uma receita. A Dra. Adelaide olha para você e diz: “Começa pela idade em que isso apareceu. E pergunta como ele dorme.”
Quem adoece disso
O transtorno de déficit de atenção e hiperatividade é o transtorno do neurodesenvolvimento que mais chega ao consultório de quem atende criança em idade escolar. O Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do Ministério da Saúde, de 2022, estima a prevalência mundial em crianças e adolescentes entre 3% e 8%, conforme o sistema de classificação usado, e registra para o Brasil 7,6% de crianças e adolescentes de 6 a 17 anos com sintomas do transtorno. O Documento Científico nº 203 da Sociedade Brasileira de Pediatria, de 2025, dá uma faixa parecida, de 3% a 10% da população infantil, e resume o número na imagem que interessa a quem conversa com a escola: deve haver pelo menos uma criança com o problema em cada sala de aula. Numa unidade básica que cuida de três mil crianças em idade escolar, isso são duas centenas de famílias.
O número exige leitura cuidadosa em dois sentidos. O dado brasileiro do PCDT fala em crianças “com sintomas”, e sintoma de desatenção não é diagnóstico: o próprio protocolo lembra que as queixas centrais se confundem com outras condições clínicas e com o comportamento normal para a idade, e que tanto o diagnóstico equivocado quanto, principalmente, a ausência de diagnóstico trazem consequências sérias. A prevalência justifica levar a queixa a sério; não autoriza fechar o diagnóstico pelo bilhete.
O transtorno não acaba na adolescência. O PCDT estima a prevalência em adultos entre 2,5% e 3% no mundo e registra, no Brasil, 5,2% entre 18 e 44 anos e 6,1% acima dos 44 anos com sintomas; a SBP fala em cerca de 4% dos adultos. O que muda com a idade é a forma: a hiperatividade tende a diminuir ou desaparecer, e a desatenção costuma permanecer. Por isso o adolescente que “melhorou porque parou de subir nos móveis” pode estar tão prejudicado quanto aos 7 anos, só que agora na prova, no trânsito e no trabalho.
A distribuição por apresentação, pelos números que o PCDT reproduz, é de 55% combinada, 27% predominantemente desatenta e 18% predominantemente hiperativa-impulsiva. A apresentação desatenta é a que menos chega: a criança não atrapalha a aula, é lida pela escola e pela família como preguiçosa, tímida ou pouco inteligente, e só aparece quando as notas já caíram. A diferença entre sexos pesa no mesmo sentido. A CID-10, citada no protocolo, registra o transtorno como mais frequente em meninos, e a SBP anota que a proporção de três meninos para uma menina, antes aceita, é hoje considerada menor. Somada à apresentação desatenta que passa despercebida, a leitura desta apostila é que parte da diferença antiga era menina desatenta que ninguém mandava avaliar.
Há grupos em que a prevalência é maior, e o PCDT pede atenção a eles durante a avaliação: pessoas nascidas prematuras; crianças e jovens com transtorno desafiador de oposição ou transtorno de conduta; com transtornos de humor e de ansiedade; com familiar próximo com diagnóstico de TDAH; com epilepsia; com outros transtornos do neurodesenvolvimento, como o transtorno do espectro autista; e com uso indevido de substâncias. A história familiar é a pergunta de maior rendimento: quando o pai conta que “foi igualzinho”, ele está dando uma informação diagnóstica, e muitas vezes contando a própria história pela primeira vez.
Comorbidade é regra. O PCDT registra que 50% a 90% das crianças com TDAH têm pelo menos uma condição associada e cerca de metade tem pelo menos duas; a SBP estima até 70% entre crianças e adolescentes e anota que, entre os 7 e os 12 anos, 30% a 50% das crianças com o transtorno já desenvolveram sintomas de conduta, como mentir, praticar pequenos furtos e resistir à autoridade. As comorbidades mudam com a idade: na primeira infância predominam o transtorno desafiador de oposição, os transtornos de linguagem e a enurese; no meio da idade escolar surgem ansiedade e tiques; no início da adolescência, os transtornos do humor. Muitas crianças com TDAH têm um transtorno específico de aprendizagem.
O custo do transtorno sem cuidado aparece em todos os lugares por onde a criança passa. O PCDT lista pior desempenho acadêmico, abandono escolar precoce, dificuldade nas relações e baixa autoestima; mais obesidade; problemas de conduta no fim da pré-adolescência; comportamento sexual de risco e gravidez precoce; mais acidentes; abuso de álcool e outras drogas; e, na vida adulta, dificuldade no trabalho, maior risco de transtornos do humor e de personalidade e maior envolvimento com a criminalidade. A SBP acrescenta que o adolescente com TDAH inicia a vida sexual até um ano antes dos pares, usa menos contracepção e se envolve em mais acidentes de trânsito, e chama o transtorno de principal causa médica de fracasso escolar.
Do lado do sistema, a epidemiologia é de oferta. O PCDT descreve demanda crescente por serviços de saúde mental e organiza o cuidado pela atenção primária, pelos Centros de Atenção Psicossocial e, para crianças e adolescentes gravemente comprometidos, pelo CAPS infantojuvenil. Nenhum fármaco para o transtorno integra a Rename 2024: metilfenidato, lisdexanfetamina, atomoxetina e clonidina não constam do elenco. Um artigo de 2026 que revisou todas as solicitações de psicotrópicos enviadas à Conitec entre 2012 e 2024 mostra o tamanho da exceção: das demandas internas do próprio Ministério, a de metilfenidato e lisdexanfetamina para crianças e adolescentes de 6 a 17 anos foi a única não incorporada. A família que ouve “procure o remédio no posto” sai da consulta com uma promessa que a rede federal não cumpre.
Por que acontece o que acontece
O TDAH é uma condição do neurodesenvolvimento. O PCDT de 2022 o define pela tríade de desatenção, hiperatividade e impulsividade em nível exacerbado e disfuncional para a idade, com início na infância e possibilidade de persistir por toda a vida. A SBP o descreve como transtorno neurobiológico com grande participação genética e diz que o fator mais importante é o hereditário: quando se identifica uma pessoa com TDAH, costuma-se encontrar outras na família, com frequência um dos pais ou um irmão. Daí sai uma consequência prática, mais útil que a teoria: o transtorno não é produzido pela forma como a criança foi educada, e a primeira coisa que a família precisa ouvir, nas palavras da SBP, é que não é culpa de ninguém — nem da criança, nem dos pais. O que a criação faz é outra coisa: um ambiente de gritos e castigos piora o que já existe, e um ambiente organizado ajuda a criança a funcionar.
O que falha não é a capacidade de prestar atenção, e sim a de regular a atenção e o comportamento. O PCDT lista as funções cognitivas comprometidas: resolução de problemas, planejamento, orientação, flexibilidade, atenção prolongada, inibição de resposta e memória de trabalho. Na sala de aula, cada uma tem uma cara. A inibição de resposta é o freio: é ela que segura a mão antes de pegar o lápis do colega e a resposta antes de a pergunta terminar. A memória de trabalho é a bancada onde a criança mantém a instrução enquanto executa — “abra o livro na página 32, faça os exercícios 3 e 4 e depois copie o enunciado” —, e a SBP a descreve pelo exemplo do recado: a pessoa não perdeu a memória, porque lembra se alguém perguntar; ela não consegue lembrar no momento em que precisaria. O planejamento é a capacidade de dividir a tarefa em partes e de começar pela primeira. Por isso a criança com TDAH não termina o que começa: ela sabe fazer, mas a tarefa se desmancha no caminho.
Daí vem a pergunta que toda família faz e que costuma derrubar a hipótese na cabeça do avaliador desavisado: “Mas se ele não presta atenção, como passa três horas no videogame?” A dificuldade aparece nas tarefas monótonas, sem retorno imediato e que exigem esforço mental prolongado — o PCDT fala em resistência a rotinas e atividades monótonas —, e some nas atividades que devolvem estímulo e recompensa a cada segundo. O mesmo protocolo, ao descrever as intervenções escolares, explica por que os programas de reforço funcionam: alunos com TDAH geralmente exigem retorno e recompensa imediatos para mudar o comportamento. Atenção preservada no jogo não afasta o diagnóstico; é justamente o contraste que ele prevê.
A impulsividade, pela definição da SBP, é agir antes de pensar: a resposta automática e imediata a um estímulo, que a reflexão só alcança depois. A marca registrada é a dificuldade de esperar — a vez no jogo, o fim da pergunta, a fila. É aqui que o TDAH se separa do comportamento opositor, e a diferença muda a conversa com a família e com a escola. A descrição da CID-10 que o PCDT reproduz diz que as crianças hipercinéticas entram em problemas disciplinares por infração não premeditada de regras, em vez de desafio deliberado. A SBP acrescenta o outro lado: a reação explosiva do adolescente com TDAH é súbita e passa logo, seguida de arrependimento, enquanto a raiva e o ressentimento que duram horas ou dias apontam para outro transtorno. A criança que quebra a regra porque não conseguiu parar é diferente da que quebra porque decidiu enfrentar — e as duas coisas podem coexistir na mesma criança.
A hiperatividade é o componente que mais muda com a idade. Na criança pequena é motora e visível; no adolescente, a SBP descreve uma sensação interna de inquietação, ou a pessoa sempre ocupada, que parece atarefada e na verdade não consegue baixar o nível de atividade. A desatenção, pelo PCDT, tende a ser mais constante ao longo do desenvolvimento. E o momento em que o transtorno se revela depende menos da criança do que da exigência: por ser do neurodesenvolvimento, as dificuldades muitas vezes só ficam evidentes quando as responsabilidades crescem, como na entrada na escola ou quando a criança precisa se organizar sem a supervisão dos pais. O PCDT chega a dizer que seria difícil desenhar ambiente mais problemático para quem tem TDAH do que uma sala comum dos primeiros anos do fundamental: ficar quieto, ouvir, seguir instruções em várias etapas, trabalhar sozinho, esperar a vez e pensar antes de agir. Cada transição de etapa escolar pede mais função executiva, e é nela que a nota cai.
O dano secundário se constrói em cima do primário. O PCDT descreve componentes afetivos do transtorno — atraso na motivação e dificuldade de regular o humor — e o ciclo que se instala: prejuízo acadêmico, problema de socialização, cobrança e punição, baixa autoestima, e daí o risco de depressão, ansiedade, transtorno de conduta, uso de substâncias e abandono escolar. A SBP dá voz ao ciclo com as frases que a criança e o adolescente ouvem a vida inteira: “só lembra o que interessa”, “não leva nada a sério”, “é vagabundo”. A criança de 8 anos que ouviu isso por três anos chega à consulta convencida de que é burra ou má. Por isso a informação sobre o transtorno, que a SBP chama de primeiro passo do tratamento, age também sobre o dano secundário: explicar à criança o que acontece com ela desfaz parte da culpa que ela carrega.

O metilfenidato age num ponto desse circuito. A bula brasileira, aprovada pela Anvisa em abril de 2026, o descreve como estimulante fraco do sistema nervoso central, com efeito mais evidente sobre as atividades mentais do que sobre as motoras, e atribui o efeito, sem mecanismo completamente elucidado, à inibição da recaptação de dopamina no estriado, sem disparar a liberação de dopamina; o próprio texto admite que não se sabe com clareza como isso se traduz no comportamento da criança. A farmacocinética explica a rotina: o comprimido de liberação imediata atinge o pico em uma a duas horas e tem meia-vida de eliminação de cerca de duas horas, o que dá o efeito de três a quatro horas descrito pela SBP e obriga a dividir a dose ao longo do dia; a cápsula de liberação prolongada da Ritalina LA solta o fármaco em dois picos separados por cerca de quatro horas e dura de seis a oito horas; a formulação OROS libera 22% de imediato e 78% por bomba osmótica, com ação de dez a doze horas. Os efeitos adversos vêm do mesmo efeito simpaticomimético: menos apetite durante o período de ação, sono que demora a vir quando a dose cai tarde, aumento da frequência cardíaca e da pressão sistólica e diastólica e, com o uso prolongado, redução moderada do ganho de peso e leve retardo do crescimento. A atomoxetina, primeiro não estimulante indicado para o transtorno no mercado brasileiro, comercializada desde o fim de 2023, inibe a recaptação de noradrenalina e pode levar até seis semanas para agir.
Como se apresenta de verdade
Uma queixa de desatenção ou agitação inicia uma avaliação, não confirma TDAH. Reconstrua início, duração, situações em que ocorre e prejuízo para a criança. Ouça família, escola e a própria criança ou adolescente. Sono, audição, visão, aprendizagem, sofrimento emocional e outros eventos neurológicos entram no diferencial e podem coexistir com o transtorno. Depois de estabelecer a formulação clínica, combine intervenções e metas, considere tratamento medicamentoso quando indicado e acompanhe benefício e efeitos adversos. Os percursos de epilepsias, desenvolvimento e saúde mental complementam a avaliação quando há pistas específicas.
A criança que a escola manda: como a queixa chega e o que ela ainda não é
A queixa quase sempre chega por escrito e quase sempre da escola. A SBP registra que os educadores não raro são os primeiros a perceber as características e os prejuízos do transtorno, e o PCDT autoriza a equipe pedagógica a aplicar a SNAP-IV em caráter auxiliar e comunicar aos pais. O bilhete, portanto, é informação valiosa — e é informação de um ambiente só. O critério pede sintomas em dois ou mais ambientes, e a professora não vê a criança no almoço de domingo, na fila do mercado ou na hora do dever de casa. A primeira consulta existe para buscar o segundo ambiente e o prejuízo, não para confirmar o primeiro.
Os sintomas têm uma cara concreta, e vale conhecê-la pela boca de quem convive com a criança. Na desatenção: erros por descuido em tarefas que ela sabe fazer, dificuldade de manter a atenção na atividade e até na brincadeira, ar de quem não está ouvindo quando se fala diretamente com ela, instrução que não segue até o fim, tarefa que não termina, desorganização do material e do tempo, fuga das tarefas que exigem esforço mental prolongado, perda de lápis, cadernos e casacos, distração com qualquer estímulo e esquecimento das obrigações do dia. Na hiperatividade e impulsividade: mexer mãos e pés, levantar da carteira quando deveria ficar sentada, correr e subir onde não é adequado, dificuldade de brincar em silêncio, a criança “a mil” ou “ligada no motor”, fala excessiva, resposta dada antes de a pergunta terminar, dificuldade de esperar a vez e intromissão nas conversas e brincadeiras dos outros. São dezoito comportamentos, nove de cada grupo, e são os mesmos da SNAP-IV e do DSM-5-TR.
A idade pesa em dois pontos. O primeiro é o piso: o protocolo de regulação do TelessaúdeRS, de 2024, só inicia a avaliação a partir dos 4 anos, porque até essa idade há aumento exponencial do comportamento fisicamente agressivo — morder, bater, explosões por frustração, cansaço ou fome —, que diminui por volta dos 4 ou 5 anos, quando a criança ganha vocabulário para as emoções e capacidade de autorregulação. A birra do pré-escolar é desenvolvimento, não sintoma. O segundo é o início: pelo DSM-5-TR, vários sintomas precisam estar presentes antes dos 12 anos, e a SBP é direta — ninguém adquire o transtorno na adolescência ou na idade adulta. A criança que ia bem até os 10 anos e desandou em seis meses pede outra explicação antes de qualquer escala: tristeza, violência, separação dos pais, crise de ausência, droga, sono.
O acidente é um sintoma que a família não costuma associar. A descrição da CID-10 reproduzida no PCDT fala em crianças imprudentes, impulsivas e propensas a acidentes, e o próprio protocolo lista a maior probabilidade de acidentes entre as consequências do transtorno. Fratura por queda do muro, corte na porta de vidro, atropelamento de bicicleta: vale perguntar pela lista inteira, porque ela é, ao mesmo tempo, dado de prejuízo para o diagnóstico e motivo para orientar prevenção — a orientação por idade está em «O acidente tem idade».
A apresentação desatenta: a criança quieta que ninguém manda avaliar
A apresentação predominantemente desatenta tem a pior sorte diagnóstica. A SBP descreve a criança que não incomoda em sala, não é encaminhada como a hiperativa e é considerada pelos professores e até pelos pais pouco inteligente, sem aptidão para os estudos, preguiçosa ou muito tímida, com desempenho que fica aquém do potencial. É a menina que copia devagar, que “vive no mundo da lua”, que tira nota baixa na prova da matéria que sabia na véspera, que esquece a mochila e o recado. Como não atrapalha, só chega à consulta quando repetiu o ano ou quando alguém da família já tem o diagnóstico.
O DSM-5 trocou “subtipos” por “apresentações”, e a SBP explica o motivo com um dado clínico: quem tem predomínio de desatenção hoje pode ter sintomas combinados alguns anos depois, e o contrário também acontece. A apresentação é o retrato dos últimos seis meses, não uma categoria fixa, e é por isso que ela deve ser registrada de novo a cada reavaliação.
A criança desatenta abre o diagnóstico diferencial mais importante do capítulo. O “desligar” do TDAH é um estado: aparece nas tarefas longas e monótonas, some quando a atividade interessa e se interrompe quando alguém chama ou toca. A crise de ausência é um evento: começa e termina de repente, dura segundos, repete-se várias vezes ao dia, interrompe a fala ou a mastigação no meio e não se desfaz com o chamado, e a criança retoma o que fazia sem saber que parou. A professora que escreve “para no meio da frase” está descrevendo um evento. Nessa criança não se fecha TDAH antes do eletroencefalograma, e o manejo da epilepsia é do capítulo Epilepsias e síndromes epilépticas da infância.
Desatenção também é sintoma de outras coisas. O PCDT observa que os sintomas de desatenção podem ser mascarados por ansiedade e que o paciente pode compensá-los com estratégias obsessivas; a SBP lembra que a desatenção está presente em vários transtornos, como ansiedade e depressão. A criança que não se concentra porque está preocupada com a briga dos pais ou com o que acontece no recreio tem desatenção — e o que precisa ser tratado é outra coisa.
O adolescente: a inquietação vira pressa, e o risco muda de lugar
No adolescente, a SBP descreve a hiperatividade como sensação interna de inquietação ou como a pessoa sempre ocupada com alguma coisa, que parece atarefada e na verdade não consegue diminuir o nível de atividade. A impulsividade continua e muda de cenário: comer, comprar e decidir por impulso — romper um namoro, assumir um compromisso —, reações explosivas súbitas que passam em minutos e são seguidas de arrependimento, e, ao volante, mais imprudência e mais infração, porque quem não consegue esperar ultrapassa perigosamente, avança o sinal e corre. A desatenção aparece como erro tolo na prova de matéria dominada, leitura que se perde na metade da página e objetos perdidos — caneta, óculos, chave, celular — que reaparecem nos lugares mais estranhos.
O risco que a SBP descreve nessa idade é o que traz o adolescente ao pronto-socorro e não ao ambulatório: uso de substâncias lícitas e ilícitas, que podem atenuar momentaneamente os sintomas, início da vida sexual até um ano antes dos pares com menos uso de contracepção, e acidentes, em particular de trânsito. O PCDT pede que a orientação após o diagnóstico inclua, explicitamente, o aumento do risco de uso indevido de substâncias e de automedicação. Para o adolescente que usa estimulante, a mesma pergunta tem um segundo sentido: o comprimido pode ser dado, vendido ou tomado em dose extra na véspera da prova, e o protocolo do TelessaúdeRS manda monitorar sinais de uso inadequado ou abusivo.
A conversa com o adolescente é feita também a sós, com sigilo e com os limites do sigilo ditos antes de ele começar a contar — a regra e suas exceções estão em «Quatro princípios e nenhum árbitro». O que muda por causa do TDAH é o conteúdo: escola e planos, sono e telas, álcool, maconha, energético e o próprio remédio, sexualidade e contracepção, humor e ideias de morte, e a carteira de motorista que vem aos 18 anos.
O adolescente que chega sem diagnóstico prévio precisa de história retrospectiva, porque os sintomas têm de ter começado antes dos 12 anos: os pais contam a infância, e boletins e bilhetes antigos valem como relato da escola de outra época. A partir dos 17 anos, o DSM-5-TR, na tradução da SBP, exige cinco sintomas em vez de seis em cada grupo. E o PCDT pede que o jovem acompanhado em serviço pediátrico seja reavaliado ao fim da escola para decidir se o tratamento continua, com transição organizada para o serviço de adultos, em geral concluída até os 18 anos.
O que parece TDAH e não é
O sono é a primeira pergunta, porque é o diferencial mais comum e o mais fácil de corrigir. A criança que dorme perto da meia-noite com o celular e acorda às seis e meia para ir à escola vai estar desatenta, irritada e agitada à tarde. O ronco habitual com pausas, a respiração pela boca e o sono agitado apontam para apneia obstrutiva, e o PCDT, na apneia, manda tratar primeiro o distúrbio primário — o reconhecimento e o encaminhamento estão em «A noite que ninguém examina». A SBP inclui no estilo de vida de melhor evolução, para o adolescente, sono noturno de 8 a 9 horas e uso de telas de até 2 a 3 horas por dia.
Audição e visão vêm em seguida. A SBP adverte que dificuldades sensoriais ainda não detectadas, como diminuição da audição ou da visão, deixam a criança desinteressada, desatenta e até inquieta. A criança que não enxerga a lousa copia errado e conversa com o vizinho para saber o que está escrito; a que ouve mal “não obedece” e “vive no mundo da lua”. O protocolo do TelessaúdeRS, para a criança com dificuldade de aprendizagem, manda pedir audiometria quando há suspeita de problema de audição ou de fala e encaminhar à oftalmologia pediátrica quando há suspeita de problema de visão, com a acuidade medida em cada olho a partir dos 3 anos. A triagem neonatal normal não responde pela criança de 8 anos.
O PCDT lista, no Quadro 2, as condições que imitam o transtorno e o que as denuncia: no transtorno de ansiedade generalizada, a preocupação incontrolável por seis meses ou mais, a falta de energia e os sintomas somáticos; no transtorno obsessivo-compulsivo, obsessões ou compulsões; no transtorno bipolar, sintomas psicóticos e discurso acelerado de grandiosidade; no transtorno do espectro autista, o comprometimento qualitativo da interação social e da comunicação; no transtorno opositivo-desafiador, a perda de paciência e a irritabilidade; nos tiques, os tiques motores ou vocais. Na mesma lista entram os medicamentos — os que entorpecem, como estabilizadores de humor, e os que ativam, como descongestionantes e beta-agonistas, o que inclui a criança asmática que usa broncodilatador várias vezes ao dia — e as condições clínicas: disfunção tireoidiana, confirmada pelo TSH; hipoglicemia, pela glicemia; distúrbios do sono, pela avaliação em laboratório do sono.
A dificuldade de aprendizagem e a deficiência intelectual confundem nos dois sentidos. O PCDT adverte que a dificuldade de atenção do TDAH não deve ser confundida com dificuldades intelectuais, e registra que o transtorno é duas a três vezes mais comum em crianças com deficiência intelectual limítrofe. A criança com transtorno específico de leitura se desliga na aula de português e presta atenção no futebol e na matemática oral; a criança com deficiência intelectual se desliga porque a tarefa está acima do que ela alcança. E há a dificuldade que não é da criança: o protocolo de aprendizagem do TelessaúdeRS exclui de saída as dificuldades de origem pedagógica — escola sem professor, turma sem material, método inadequado.
A casa entra no diferencial com o mesmo peso. A SBP lista situações familiares desfavoráveis — casal em conflito ou em separação, um dos responsáveis com alcoolismo — como capazes de produzir sintomas parecidos com os do TDAH, e a bula do metilfenidato diz que, quando os sintomas estão associados a reação de estresse agudo, o tratamento em geral não é indicado. A criança que sofre violência ou negligência pode estar agitada, desatenta, agressiva ou excessivamente quieta, e a pergunta sobre castigo, gritos e medo faz parte da história de todo caso. Suspeita de violência muda o caminho da consulta, e a conduta é a de «Violência e maus-tratos infantis».
Nada disso é exclusão por lista, pedida de uma vez. O diferencial se faz pela história e pelo exame, e cada exame complementar precisa de uma pista que o justifique — o capítulo de investigação diz qual. O que a lista ensina é a pergunta certa: o que eu vejo começou cedo, é persistente e aparece em mais de um lugar, ou começou há pouco, aparece num lugar só e tem outro motivo à vista?
Compare dois escolares com a mesma pontuação de desatenção. Um ronca, dorme pouco e piorou recentemente; o outro tem dificuldades persistentes desde a infância, em casa e na escola, mesmo quando dorme bem. A escala organiza a intensidade, mas a trajetória muda a hipótese e o plano. Do mesmo modo, dificuldade restrita à leitura não equivale a desatenção generalizada, e episódios breves de interrupção súbita da atividade pedem descrição própria antes de serem chamados de distração.
Quando é TDAH e mais alguma coisa: a comorbidade que decide a ordem
Encontrar outra condição não afasta o TDAH; muitas vezes soma. O PCDT, com base na diretriz canadense, organiza a ordem do tratamento no Quadro 3, e a regra geral é tratar primeiro o que mais prejudica. Na depressão moderada a grave, trata-se a depressão primeiro, e a tendência ao suicídio deve ser avaliada em todos os casos; distimia e depressão leve podem se beneficiar primeiro do tratamento do TDAH. No transtorno bipolar e nos transtornos psicóticos, trata-se primeiro essa condição, e o tratamento do TDAH só entra com o quadro estável. Na epilepsia, trata-se a epilepsia e depois o TDAH. Na apneia do sono, o distúrbio primário primeiro. No transtorno de oposição e no de conduta, tratam-se as duas condições, com intervenção psicossocial obrigatória.
Algumas comorbidades mudam o remédio, e não só a ordem. A bula do metilfenidato, aprovada pela Anvisa em 2026, contraindica o fármaco em ansiedade e tensão, em agitação, no diagnóstico ou na história familiar de síndrome de Tourette e em outras situações, e desaconselha o uso junto com antidepressivos serotoninérgicos e com antipsicóticos; o Quadro 3 do PCDT, escrito sobre a diretriz canadense, trata as mesmas situações como manejáveis: na ansiedade, tratar primeiro o que mais prejudica, sabendo que alguns pacientes pioram; nos tiques graves, somar antipsicótico; e combinar estimulante com a maioria dos antidepressivos, sob monitoramento. O lado que esta apostila adota para a atenção primária, e o porquê, estão no bloco de divergências. Na epilepsia, a bula pede cautela, porque o metilfenidato pode aumentar levemente a frequência das crises em alguns pacientes, e manda suspendê-lo se isso acontecer.
O transtorno de aprendizagem pede adaptação escolar, e não só atenção melhor: o PCDT diz que o tratamento do TDAH pode melhorar a aprendizagem, mas que adaptações escolares, estudo e habilidades organizacionais devem ser oferecidos quando necessários. Os transtornos da fala pedem fonoaudiologia; a dispraxia, terapia ocupacional ou fisioterapia. No transtorno do espectro autista, o PCDT registra que os tratamentos do TDAH podem ser menos tolerados, mas muito úteis, e manda consultar especialista; o TelessaúdeRS encaminha a criança em que sinais de autismo e de TDAH se misturam a ponto de impedir a definição diagnóstica. Na obesidade, mais frequente nas crianças com TDAH, o protocolo pede hábitos de alimentação e sono e exercício, e observa que tratar o TDAH pode melhorar a capacidade de mudar o estilo de vida.
Sinais que mudam a pressa
A maior parte das crianças com queixa de atenção pode esperar duas semanas pelos questionários. Algumas não podem, e a consulta muda de natureza quando aparecem. No mesmo dia: ideia de morte, plano ou autoagressão, na criança ou no adolescente, com a avaliação de «Risco de suicídio na emergência»; sinal ou relato de violência, com a conduta de «Violência e maus-tratos infantis»; agitação com risco à integridade da criança ou de outras pessoas, que o TelessaúdeRS inclui entre os critérios de encaminhamento; e, na criança que já usa estimulante, dor no peito ao esforço, desmaio ou palpitação, que a bula e o protocolo gaúcho mandam avaliar do ponto de vista cardíaco sem demora, sintomas psicóticos ou de mania, ereção prolongada e dolorosa, que a bula manda levar a atendimento imediato, e aumento das crises numa criança com epilepsia.
Em dias, e não em meses: a perda de uma habilidade que a criança já tinha — fala, controle esfincteriano, escrita, marcha —, que não é TDAH e aponta para doença neurológica ou para sofrimento grave, pelo raciocínio de «O marco que ela tinha e perdeu»; sinais neurológicos focais, ataxia, alteração de equilíbrio, dismorfismos ou neurofibromas, que o protocolo de aprendizagem do TelessaúdeRS manda encaminhar à neurologia pediátrica; episódios de olhar parado com início e fim abruptos, que pedem eletroencefalograma; ronco com pausas; e a desatenção de começo recente numa criança que funcionava bem.
Como fechar o diagnóstico
A investigação verifica critérios e pergunta o que explica o prejuízo. Sintomas persistentes, início na infância e presença em mais de um ambiente precisam ser contextualizados no desenvolvimento e nas oportunidades da criança. Escalas ajudam a organizar relatos e acompanhar mudanças; não confirmam o diagnóstico sozinhas. Procure condições alternativas ou associadas antes de interpretar uma pontuação alta. Exames são dirigidos por achados, e o número de consultas depende do tempo necessário para obter informações confiáveis, não de um roteiro rígido.
A história que firma ou afasta o diagnóstico
A história começa pelo tempo. Com que idade apareceu a primeira queixa — na pré-escola, no primeiro ano, no ano passado? Desde então é igual, piorou em alguma fase, melhorou nas férias? O critério pede sintomas antes dos 12 anos e duração de pelo menos seis meses, e a pergunta sobre a primeira escola costuma resolver as duas coisas. Depois vêm os lugares: em casa, na escola, na casa da avó, na igreja, no futebol, na festa de aniversário. E o prejuízo, que é o que separa o traço do transtorno: notas, reprovação, troca de escola, suspensão, amigos, convites, castigos, brigas com irmãos, acidentes. Caíque, com três escolas, uma fratura e nenhum convite de aniversário no ano, respondeu às três perguntas em cinco minutos.
O desenvolvimento e a saúde vêm a seguir. Gestação, idade gestacional e intercorrências no nascimento, porque a prematuridade aumenta o risco; os marcos da fala e do motor, cuja leitura por faixa etária está em «O marco que ela tinha e perdeu»; doenças crônicas e medicamentos em uso, com atenção ao broncodilatador, ao descongestionante e ao anticonvulsivante; como vão leitura, escrita e matemática em relação à turma. O sono entra por inteiro: hora de deitar e de acordar, celular e televisão no quarto, ronco, pausas, respiração pela boca, sonolência de dia. E as crises: episódios de olhar parado, de segundos, que interrompem a fala?
A família e a casa são parte da história clínica, e não curiosidade. Quem mora com a criança, horários de trabalho dos pais, mudança, separação ou luto recentes, álcool, brigas, gritos, castigo físico, medo. Na história familiar, TDAH e dificuldade escolar nos pais e irmãos — a pergunta mais produtiva do capítulo —, epilepsia, tiques e síndrome de Tourette, transtornos psiquiátricos e, pensando já num eventual estimulante, morte súbita antes dos 40 anos e arritmias, que a bula manda investigar antes de começar. O humor e a ansiedade da criança também: tristeza, choro fácil, irritabilidade, medos, preocupação, dor de barriga antes da escola, tiques.
Uma parte da consulta é com a criança. Na linguagem da idade, pergunte o que é difícil na escola, quem são os amigos, do que tem medo, se anda triste, se alguém a machuca. A criança de 8 anos que diz “eu sou burro” está contando o dano secundário; a que diz “lá em casa todo mundo grita” está contando outra coisa. No adolescente, a conversa a sós é regra, com o sigilo e seus limites ditos antes.
A SNAP-IV: quem responde, como se conta e o que ela não faz
A escala que a rede usa é a SNAP-IV, que o PCDT traz no Apêndice 2 e o TelessaúdeRS no Quadro 12. São os dezoito comportamentos dos critérios, com quatro colunas de resposta — nem um pouco, só um pouco, bastante, demais. Os itens de 1 a 9 são de desatenção; os de 10 a 18, de hiperatividade e impulsividade. Duas pessoas respondem, separadamente: a família, sobre a casa, e a escola, sobre a sala de aula. A resposta dos dois ambientes é justamente o que o critério pede.
A contagem é simples e precisa ser feita do jeito certo. Pela regra impressa no instrumento do PCDT, seis ou mais itens marcados como “bastante” ou “demais” entre os itens 1 e 9 indicam mais sintomas de desatenção do que o esperado para a idade; seis ou mais entre os itens 10 e 18, mais sintomas de hiperatividade e impulsividade. As duas colunas de cima contam. O texto do protocolo gaúcho fala só em itens marcados como “bastante”, e lido ao pé da letra deixaria de fora justamente a criança mais grave, cujos itens foram marcados “demais” — a conta está nas notas do critério. Conte as duas colunas, em cada informante, e anote o número de cada grupo.
A escala tem idade e tem limite. O TelessaúdeRS a considera apropriada dos 5 aos 18 anos incompletos. Ela é auxiliar, como diz o PCDT: não mede a idade de início, a duração nem o prejuízo, não sabe se a criança dorme cinco horas nem se enxerga a lousa, e mantém o corte de seis sintomas no adolescente de 17 anos, idade em que o DSM-5-TR já aceita cinco. SNAP positiva numa criança com sono destruído não é TDAH; SNAP negativa respondida por uma professora que acha a menina “só quieta” não afasta a apresentação desatenta. O número abre ou fecha uma pergunta, e quem responde é a história.
A mesma escala serve para acompanhar. O PCDT recomenda escalas como medida de seguimento para saber se as intervenções — comportamentais, escolares ou medicamentosas — estão funcionando ou precisam ser repensadas, e pede questionários baseados em evidência para avaliar a resposta. Na prática, a SNAP da professora repetida quatro semanas depois de cada mudança é o termômetro do tratamento.
O relato da escola: o que pedir à professora
A escola devolve mais do que o questionário quando se pergunta o que interessa. A carta à professora pede a SNAP e um relato livre: como é o comportamento em sala e no recreio; se a criança termina as tarefas e copia da lousa; como estão leitura, escrita e matemática em comparação com a turma; como se relaciona com os colegas; se há episódios de olhar parado, sonolência ou choro; se algo mudou recentemente; o que já foi tentado e o que funcionou. O protocolo gaúcho pede, no encaminhamento, que se diga se os sintomas aparecem em mais de um ambiente e que se anexe, se disponível, o relatório da escola — a carta produz esse documento.
A escola é parceira por obrigação legal, e não só a origem da queixa. A Lei nº 14.254/2021 manda o poder público manter programa de acompanhamento integral para educandos com dislexia, TDAH ou outro transtorno de aprendizagem, com identificação precoce, encaminhamento para diagnóstico, apoio educacional na rede de ensino e apoio terapêutico na rede de saúde. As escolas de educação básica, públicas e privadas, devem garantir cuidado e proteção ao aluno; o aluno cuja instabilidade na atenção repercute na aprendizagem tem direito a acompanhamento específico, da forma mais precoce possível, pelos educadores da escola em que está matriculado; e os sistemas de ensino devem formar os professores para identificar os sinais cedo. O texto da lei não condiciona esse acompanhamento a laudo — é a leitura desta apostila do que ele diz e do que não diz.
O “trazer laudo” do bilhete se responde com um relatório, entregue à família, que descreve o que a avaliação encontrou e o que a criança precisa na sala — sentar perto da professora, instrução curta e uma de cada vez, conferência da tarefa no meio, pausas combinadas, elogio imediato. O diagnóstico e o código só vão para o papel quando a avaliação terminou, e o papel vai pelas mãos da família, que decide o que entregar à escola.
O exame que o interno faz
O exame físico tem duas funções: procurar o que imita o transtorno e registrar a linha de base de quem talvez venha a usar estimulante. A curva da caderneta recebe peso e estatura — a bula do metilfenidato pede que sejam medidos e documentados num gráfico de crescimento antes de iniciar, e a leitura da curva está em «A linha, não o ponto». Pressão arterial com manguito do tamanho do braço e frequência cardíaca em repouso são anotadas como valores de referência da própria criança, com ausculta cardíaca atenta a sopro e ritmo.
A acuidade visual é medida em cada olho, com a tabela da unidade, e o protocolo gaúcho a considera possível a partir dos 3 anos; a otoscopia vem junto, e a suspeita de perda auditiva leva à audiometria. O exame neurológico procura sinais focais, ataxia, alteração de equilíbrio e de coordenação; a pele, manchas e neurofibromas; o rosto e o corpo, dismorfismos; o pescoço, bócio; a boca, amígdalas grandes e respiração oral. Os tiques são observados durante a própria consulta, que é longa o bastante para que apareçam. Na criança com episódios de olhar parado, a hiperventilação por alguns minutos no consultório costuma provocar a crise de ausência, e o achado encaminha ao eletroencefalograma.
Lesão de pele em lugar pouco comum para queda, marca com forma de objeto, medo desproporcional do exame ou relato incoerente com a lesão mudam o rumo da consulta para a conduta de «Violência e maus-tratos infantis».
O comportamento no consultório é amostra curta e não decide. A criança pode estar quieta porque o ambiente é novo, a conversa é breve e há um adulto só olhando para ela; pode estar agitada porque esperou duas horas na recepção. O que se observa na sala entra na descrição, mas quem responde ao critério são a casa e a escola.
Exames: o que pedir, com qual pista, e o que não pedir
Sem pista, nada. O Quadro 4 do PCDT escreve, na linha de exames complementares, “nenhum específico”, e o protocolo do TelessaúdeRS diz que eletroencefalograma e neuroimagem não estão indicados na avaliação rotineira de casos suspeitos ou confirmados de TDAH. Tomografia de crânio, ressonância e eletroencefalograma “para ver se tem alguma coisa” não confirmam nem afastam o transtorno, atrasam a decisão e ocupam a fila de quem precisa deles.
Com pista, o exame certo. Episódios de olhar parado com início e fim abruptos pedem eletroencefalograma, e o PCDT reconhece que o exame pode ser relevante em casos selecionados. Ronco habitual com pausas pede o caminho da polissonografia descrito em «A noite que ninguém examina». Sinais de disfunção tireoidiana pedem TSH; sintomas sugestivos de hipoglicemia, glicemia — as duas condições constam do Quadro 2 do PCDT. Suspeita auditiva pede audiometria; acuidade reduzida, oftalmologia pediátrica.
A avaliação psicológica e a neuropsicológica não fazem o diagnóstico, mas o PCDT as considera frequentemente úteis quando há problema de aprendizagem, porque identificam o componente específico do funcionamento cognitivo que falha, como memória de trabalho e velocidade de processamento. A dificuldade de leitura que persiste depois de tratada a atenção, e o transtorno de aprendizagem que dura mais de seis meses sem fator psicológico ou social identificado, são do protocolo de aprendizagem do TelessaúdeRS, que encaminha à neurologia pediátrica.
O eletrocardiograma não é exame de rotina antes do estimulante. O TelessaúdeRS manda fazer, antes de iniciar o metilfenidato, avaliação cardíaca por história clínica, exame físico com pressão, frequência e ausculta e história familiar de eventos cardíacos, com morte súbita antes dos 40 anos, e reserva o eletrocardiograma para quando história ou exame sugerem cardiopatia. A criança com desmaio ao esforço, dor torácica ao esforço, palpitação, sopro patológico ou história familiar de morte súbita precoce faz eletrocardiograma e só começa o estimulante depois que a avaliação cardíaca terminar; se ela encontrar cardiopatia estrutural grave, cardiomiopatia ou arritmia grave, o protocolo tira a decisão da atenção primária.
Onde a criança é cuidada: a rede e o encaminhamento
O PCDT põe a porta de entrada do cuidado em saúde mental na atenção primária, nos CAPS e na urgência, e reserva ao CAPS infantojuvenil as crianças e adolescentes gravemente comprometidos. A equipe que ele descreve no Quadro 4 inclui psiquiatra, médico de família, psicólogo, fonoaudiólogo, psicopedagogo e assistente social, e o tratamento não medicamentoso — atendimento psicológico, orientação aos pais, apoio escolar — deve começar cedo, com frequência semanal. Como a rede se organiza no território, e quais pontos existem conforme o tamanho do município, está em «Para onde ele vai depois».
O protocolo federal organiza a rede e não fixa critério de encaminhamento para o transtorno. A régua que este capítulo usa é a do TelessaúdeRS, de 2024, válida como regra de regulação no Rio Grande do Sul e útil como referência técnica fora dele. Encaminha-se a serviço de saúde mental infantil, preferencialmente, ou à neurologia pediátrica: a criança de 4 a 6 anos incompletos com SNAP positiva; e, a partir dos 6 anos completos, a criança com SNAP positiva e sintomas que persistem depois de pelo menos quatro semanas de tratamento inicial em doses otimizadas, causando dificuldade de aprendizagem, agitação com dificuldade de manejo e prejuízo às aulas ou risco à integridade física, ou dúvida diagnóstica por sinais de autismo associados.
O encaminhamento que anda leva o que o especialista precisaria perguntar. O TelessaúdeRS lista o conteúdo mínimo: quadro atual, com idade de início, evolução, duração, frequência e oscilações; a SNAP preenchida pela família e pela escola, anexada; as repercussões no funcionamento social e acadêmico; se os sintomas aparecem em mais de um ambiente, e quais, com o relatório da escola; outros transtornos psiquiátricos, atuais ou passados, e internações; o tratamento já feito, não farmacológico — tipo, duração, acompanhamento em CAPS e resposta — e farmacológico — posologia, tempo de uso, tolerância e resposta; história familiar de transtornos psiquiátricos e estressores familiares; e o número da teleconsultoria, se houve. Encaminhamento escrito “TDAH? Avaliar” volta para a unidade ou fica na fila sem prioridade.
Do bilhete ao seguimento: diagnosticar, afastar, tratar, encaminhar
Comece pela história e pelo prejuízo, compare os ambientes e investigue explicações alternativas. Só então estabeleça o plano com metas funcionais, intervenções e prazo de revisão. As tabelas seguintes permitem consultar critérios, diferenciais, indicação de encaminhamento e medicamentos. A decisão de tratar depende da avaliação clínica; disponibilidade na rede e exigências de prescrição são verificadas para executar essa decisão.
- 11. Criança de 4 anos ou mais com queixa de desatenção, agitação ou impulsividade, vinda da família ou da escola: abra a investigação. Abaixo dos 4 anos, agressividade e explosões fazem parte do desenvolvimento — oriente a família e acompanhe pelos marcos.
- 22. Primeira consulta: idade da primeira queixa, duração, ambientes e prejuízo; gestação e desenvolvimento; sono e telas; ronco; episódios de olhar parado; humor, ansiedade e tiques; leitura e escrita; remédios em uso; casa, conflitos e castigos; história familiar de TDAH, epilepsia, tiques, morte súbita antes dos 40 anos e arritmia. Converse com a criança a sós.
- 33. Exame: peso e estatura na curva, pressão e frequência cardíaca de base, ausculta, acuidade visual em cada olho, otoscopia, exame neurológico, pele, amígdalas e respiração. Na criança com olhar parado, hiperventilação no consultório.
- 44. Entregue a SNAP-IV à família e, por carta, à escola, pedindo também relato livre de comportamento, tarefas, leitura, escrita, convivência e episódios de olhar parado.
- 55. Há pista de outra causa? Resolva antes de fechar o diagnóstico: ideação suicida ou violência, no mesmo dia; ausência, eletroencefalograma; ronco com pausas, caminho da apneia; suspeita auditiva, audiometria; acuidade baixa, oftalmologia; perda de habilidade ou sinal focal, neurologia pediátrica; sono curto, rotina de sono.
- 66. Retorno em duas a quatro semanas: conte, em cada informante, os itens marcados “bastante” ou “demais” — seis ou mais de 1 a 9 é desatenção acima do esperado; seis ou mais de 10 a 18, hiperatividade e impulsividade.
- 77. Aplique os critérios do DSM-5-TR: seis sintomas por grupo (cinco a partir dos 17 anos), por seis meses, vários antes dos 12 anos, em dois ambientes, com prejuízo claro e sem explicação melhor.
- 88. Critérios completos: TDAH, com apresentação e gravidade registradas; no prontuário do SUS, CID-10 F90.0 na criança sem transtorno de conduta. Critérios incompletos: não rotule, trate o que apareceu e repita a SNAP em três meses.
- 99. Diagnóstico firmado: psicoeducação da família e da criança, orientação de pais, relatório à escola com base na Lei nº 14.254/2021, rotina de sono e telas, atividade física; retorno em até 30 dias.
- 1010. De 4 a 6 anos incompletos com SNAP positiva: encaminhe à saúde mental infantil ou à neurologia pediátrica. Metilfenidato é evitado antes dos 6 anos completos.
- 1111. Seis anos ou mais com prejuízo que persiste depois das medidas: discuta o metilfenidato com a família, dizendo que a rede federal não o fornece. Contraindicação ou complicador — cardiopatia, transtorno de ansiedade, tiques ou Tourette na família, glaucoma, hipertireoidismo, IMAO, antidepressivo serotoninérgico, antipsicótico, psicose ou mania — encaminha ao especialista sem iniciar.
- 1212. Sem contraindicação: confirme a avaliação cardíaca por história, exame e história familiar; eletrocardiograma só se algo sugerir cardiopatia; peso e estatura já na curva.
- 1313. Inicie 5 mg uma ou duas vezes ao dia nos períodos de maior dificuldade e suba 5 a 10 mg por semana, com teto de 60 mg por dia e, na criança pequena, o limite de 2 mg/kg/dia; Notificação de Receita A para até 30 dias.
- 1414. Em quatro semanas, SNAP da escola e da família, apetite, sono, peso, pressão, frequência, tiques e humor. Sem benefício em dose otimizada: suspenda e encaminhe. Com benefício, mas prejuízo escolar ou agitação com risco persistentes, ou dúvida com autismo: encaminhe.
- 1515. Com resposta: consultas a cada três ou quatro meses, reavaliação da necessidade a cada seis meses, com períodos sem remédio, velocidade de crescimento na curva, e transição para o serviço de adultos organizada até os 18 anos.
Os critérios do DSM-5-TR em linguagem de consultório
| Critério | O que exige | Como se verifica na unidade básica |
|---|---|---|
| Desatenção | Seis ou mais dos nove sintomas por pelo menos 6 meses, em grau incompatível com o desenvolvimento e com impacto direto nas atividades sociais e escolares; cinco a partir dos 17 anos | Itens 1 a 9 da SNAP-IV marcados “bastante” ou “demais” pela família e pela escola, confirmados na história com exemplos concretos |
| Hiperatividade e impulsividade | Seis ou mais dos nove sintomas pelo mesmo tempo e no mesmo grau; cinco a partir dos 17 anos | Itens 10 a 18 da SNAP-IV, com exemplos da casa e da sala |
| Ressalva dos dois grupos | O sintoma não pode ser só oposição, desafio, hostilidade ou falta de compreensão da tarefa | Perguntar se a criança não consegue ou não quer, e se entende a instrução quando está calma |
| Início | Vários sintomas presentes antes dos 12 anos | Idade da primeira queixa, boletins e bilhetes antigos, relato dos pais |
| Ambientes | Vários sintomas em dois ou mais ambientes: casa, escola ou trabalho; amigos ou parentes; outras atividades | SNAP da família e da escola e relato de outro lugar, como a casa da avó ou o esporte |
| Prejuízo | Evidência clara de que os sintomas interferem no funcionamento social, escolar ou ocupacional ou reduzem sua qualidade | Notas, reprovação, amizades, convites, castigos, acidentes |
| Exclusão | Não ocorrem só durante esquizofrenia ou outro transtorno psicótico e não são mais bem explicados por transtorno de humor, de ansiedade, dissociativo, de personalidade, intoxicação ou abstinência | Diagnóstico diferencial pela história e pelo exame, com a pista que justifica cada exame |
| Apresentação nos últimos 6 meses | Combinada: os dois grupos; predominantemente desatenta: só desatenção; predominantemente hiperativa-impulsiva: só hiperatividade e impulsividade | Registrar e refazer a cada reavaliação, porque a apresentação muda com o tempo |
| Gravidade | Leve: poucos sintomas além do necessário e prejuízo pequeno; moderada: entre leve e grave; grave: muitos sintomas além do necessário, sintomas particularmente graves ou prejuízo acentuado | Descrever no prontuário e no encaminhamento; pesa na pressa |
| Registro no SUS | CID-10: F90.0 distúrbios da atividade e da atenção; F90.1 transtorno hipercinético de conduta; F90.8 outros transtornos hipercinéticos; F90.9 não especificado | Na criança sem transtorno de conduta, F90.0, qualquer que seja a apresentação — nunca o F90.1 que o especificador americano usa para a apresentação hiperativa-impulsiva |
O que imita o TDAH: a pista, o que se faz e onde está a conduta
| Condição | Pista | O que se faz | Onde está a conduta |
|---|---|---|---|
| Sono curto ou irregular | Deita tarde com tela, acorda cedo, fica sonolenta e irritada à tarde | Rotina de sono e de telas enquanto os questionários voltam; reavaliar com o sono corrigido | Este capítulo |
| Apneia obstrutiva do sono | Ronco habitual, pausas, respiração oral, amígdalas grandes | Tratar primeiro o distúrbio do sono, como manda o PCDT | «A noite que ninguém examina», de Pneumologia |
| Perda auditiva ou visual | Não atende quando chamada, copia errado da lousa, aproxima o caderno do rosto | Otoscopia e audiometria; acuidade em cada olho e oftalmologia pediátrica | Este capítulo; a triagem do recém-nascido, em «As cinco triagens neonatais» |
| Crise de ausência | Olhar parado de segundos, com início e fim abruptos, várias vezes ao dia, que não se desfaz com o chamado | Eletroencefalograma antes de qualquer rótulo | Epilepsias e síndromes epilépticas da infância, desta apostila |
| Ansiedade, depressão, TOC, transtorno bipolar | Preocupação incontrolável, tristeza, obsessões ou compulsões, grandiosidade, sintomas psicóticos | Ideação suicida avaliada no mesmo dia; tratar primeiro o que mais prejudica; encaminhar | Este capítulo; o risco de suicídio, em «Risco de suicídio na emergência» |
| Transtorno de aprendizagem, deficiência intelectual, dificuldade pedagógica | Desliga só na leitura ou na escrita; tarefa acima do que alcança; turma sem professor ou sem material | Relato da escola; avaliação psicológica ou neuropsicológica quando há problema de aprendizagem; protocolo de aprendizagem | Este capítulo |
| Violência, negligência, conflito familiar, estresse agudo | Mudança recente, medo, lesões, castigo físico, álcool em casa, separação dos pais | Conduta de violência; em reação a estresse agudo, o estimulante em geral não é indicado, pela bula | «Violência e maus-tratos infantis», de Emergências Pediátricas |
| Medicamento ou doença clínica | Broncodilatador ou descongestionante frequentes, estabilizador de humor, sinais de disfunção tireoidiana, sintomas de hipoglicemia | Rever o medicamento; TSH ou glicemia só com a pista | Este capítulo |
| Autismo, transtorno opositivo-desafiador, tiques | Interação social e comunicação qualitativamente alteradas; perda de paciência e irritabilidade; tiques motores ou vocais | Encaminhar se sinais de autismo impedem a definição; tiques pesam na escolha do remédio | O rastreio de autismo, em «O marco que ela tinha e perdeu» |
Encaminhar: quem, para onde e com que pressa
| Situação | Destino | Pressa |
|---|---|---|
| Ideação suicida, plano ou autoagressão | Avaliação de risco no mesmo atendimento | Hoje |
| Suspeita de violência | Conduta de «Violência e maus-tratos infantis», com notificação | Hoje |
| Criança em uso de estimulante com dor torácica ao esforço, síncope, palpitação, sintomas psicóticos ou de mania, ereção prolongada e dolorosa | Suspender e avaliar sem demora — cardiologia, psiquiatria ou urgência, conforme o sintoma | Hoje |
| Agitação com risco à integridade da criança ou de outras pessoas | Saúde mental infantil — CAPS infantojuvenil onde houver — ou neurologia pediátrica | Prioridade |
| De 4 a 6 anos incompletos com SNAP positiva | Saúde mental infantil, preferencialmente, ou neurologia pediátrica | Eletiva, com o conteúdo mínimo |
| Seis anos ou mais com sintomas que persistem depois de 4 semanas de dose otimizada, com dificuldade de aprendizagem ou prejuízo às aulas | Saúde mental infantil ou neurologia pediátrica | Eletiva, com o conteúdo mínimo |
| Sinais de autismo que impedem a definição diagnóstica | Saúde mental infantil ou neurologia pediátrica | Eletiva |
| Olhar parado com início e fim abruptos | Eletroencefalograma e neurologia pediátrica | Em dias |
| Perda de habilidade adquirida, sinal focal, ataxia, dismorfismo, neurofibromas | Neurologia pediátrica | Em dias |
| Contraindicação ou complicador do metilfenidato: cardiopatia, transtorno de ansiedade, tiques ou Tourette na família, antidepressivo serotoninérgico, antipsicótico | Especialista, antes de qualquer estimulante | Eletiva, sem iniciar na unidade |
Os fármacos do TDAH no Brasil: apresentação, dose, receita e o que o SUS fornece
| Fármaco | Apresentação | Dose na criança | Receita | Rename 2024 |
|---|---|---|---|---|
| Metilfenidato de liberação imediata | Comprimido de 10 mg (Ritalina), em caixas de 30 ou 60 | A partir de 6 anos: 5 mg uma ou duas vezes ao dia, com aumentos semanais de 5 a 10 mg; teto de 60 mg/dia pela bula. Aos 26 kg: início com meio comprimido; faixa média do protocolo gaúcho, 0,4 a 1,3 mg/kg/dia, dá 10,4 a 33,8 mg, de 1 a 3 comprimidos por dia; o limite de 2 mg/kg/dia, 52 mg, chega antes do teto | Notificação de Receita A (lista A3), válida por 30 dias, com até 30 dias de tratamento | Não consta |
| Metilfenidato de liberação prolongada em dois pulsos | Cápsulas de 10, 20, 30 e 40 mg (Ritalina LA) | Uma vez ao dia, pela manhã: 20 mg de início, ou 10 mg a critério médico; ajustes semanais de 10 mg; a dose diária é a mesma do comprimido — 5 mg duas vezes ao dia equivalem a 10 mg da cápsula; teto de 60 mg/dia | Notificação de Receita A | Não consta |
| Metilfenidato OROS | Comprimidos de 18, 36 e 54 mg (Concerta) | Uma vez ao dia, com ação de 10 a 12 horas; dose e troca de formulação pelo especialista | Notificação de Receita A | Não consta |
| Lisdexanfetamina | Cápsulas de 30, 50 e 70 mg (Venvanse) | Preconizada para crianças acima de 20 kg, com ação de 10 a 14 horas; dose pelo especialista | Notificação de Receita A (lista A3) | Não consta |
| Atomoxetina | Cápsulas de 10, 18, 25, 40, 60, 80 e 100 mg (Atentah) | Acima de 6 anos: 0,5 mg/kg/dia por pelo menos 3 dias e alvo de 1,2 mg/kg/dia, em uso contínuo, pela SBP. Aos 26 kg, 13 mg e 31,2 mg por dia, que as cápsulas existentes não dão exatos | Receita de controle especial em duas vias (lista C1) | Não consta |
| Clonidina | Comprimidos de 0,100 e 0,200 mg (Atensina) | Citada pela SBP entre as opções; uso no TDAH decidido pelo especialista | Receita comum: fora das listas da Portaria SVS/MS nº 344 | Não consta |
Ficha de seguimento: usar os mesmos campos em cada retorno
| Campo | Linha de base | Pergunta no retorno |
|---|---|---|
| Meta da criança e da família | Uma ou duas atividades observáveis e relevantes | O que ficou mais fácil? Quem percebeu a mudança? A meta continua fazendo sentido? |
| Escola e aprendizagem | Relato de contexto, apoio disponível e dificuldades específicas | Houve melhora nas tarefas e participação? Persistem dificuldades que exigem apoio pedagógico ou investigação própria? |
| Sintomas em mais de um ambiente | Relatos e escala, quando usada | A mudança aparece em casa e na escola? Em quais horários? |
| Adesão e execução | Plano, horários, quem administra e barreiras | Foi possível seguir? Faltou medicamento, orientação ou apoio? Há uso indevido? |
| Tolerabilidade e saúde | Sono, apetite, peso/estatura, pressão/frequência quando indicadas, humor | O benefício compensa os efeitos adversos? Alguma mudança pede avaliação imediata? |
| Decisão compartilhada | Intervenções e data de revisão | Manter, ajustar ou reavaliar hipótese? Quem fará cada ação e quando retorna? |
O protocolo contra o próprio painel. A seção 7.2 do PCDT de 2022 diz que o uso de metilfenidato e lisdexanfetamina “não é preconizado neste Protocolo”, citando a não incorporação pela Conitec. O Apêndice 3 do mesmo documento, na tabela da evidência à decisão para crianças e adolescentes de 6 a 17 anos, marca recomendação fraca a favor da intervenção e conclui que o painel recomendou fracamente o metilfenidato de liberação imediata; o Quadro 3 ainda propõe combinar psicoestimulante e agonista alfa-2 no transtorno de oposição moderado e grave. Quem lê só a seção de tratamento conclui que a norma contraindica o remédio que o painel dela recomendou. Esta apostila lê a 7.2 como decisão de fornecimento pelo SUS, não como contraindicação clínica, e toma posição no bloco de divergências.
Lei em vigor listada como projeto. O Apêndice 1 do PCDT, que reúne a legislação federal sobre o TDAH, lista o Projeto de Lei nº 7.081/2010, do acompanhamento integral de educandos com dislexia ou TDAH. O projeto virou a Lei nº 14.254, de 30 de novembro de 2021, publicada em 1º de dezembro de 2021. Conta: a portaria que aprova o PCDT é de 29 de julho de 2022, 240 dias depois da publicação da lei. Quem consulta o apêndice diz à família que o direito da criança na escola ainda está em tramitação, quando está em vigor.
Seis sintomas em qualquer idade. A seção de diagnóstico do PCDT descreve as apresentações do DSM-5 sempre com “seis ou mais” sintomas por grupo e diz que a confirmação vale tanto em crianças como em adultos. O DSM-5-TR, na tradução da SBP, exige cinco sintomas a partir dos 17 anos. Conta: o adolescente de 17 anos com cinco sintomas de desatenção, desde antes dos 12, em casa e na escola e com prejuízo, preenche o critério pelo DSM-5-TR e fica sem diagnóstico pelo texto do protocolo. Esta apostila usa cinco a partir dos 17 anos.
A SNAP que conta só a coluna do meio. O Protocolo 6 e a nota do Quadro 12 do TelessaúdeRS (2024) exigem seis sintomas “marcadas como Bastante”. A regra do instrumento, impressa no Apêndice 2 do PCDT, conta os itens marcados “bastante” ou “demais”. Conta: a criança com os nove itens de desatenção marcados “demais” pela família e pela escola soma 9 pela regra do instrumento e 0 pela letra do protocolo gaúcho — a mais grave sai com pontuação negativa, e é pela pontuação positiva que o protocolo encaminha. Esta apostila conta as duas colunas.
A escala antes da idade. A nota do Quadro 12 do TelessaúdeRS diz que a SNAP é apropriada de 5 a 18 anos incompletos; o primeiro critério de encaminhamento do mesmo protocolo usa a pontuação positiva da SNAP de 4 a 6 anos incompletos. Conta: dos 24 meses dessa janela, os 12 primeiros — de 4 anos a 4 anos e 11 meses — dependem de um escore que o próprio documento considera fora da idade apropriada. Na criança de 4 anos, esta apostila encaminha pela história e pelo prejuízo em dois ambientes descritos, usando a escala só como descrição.
Dose média acima da máxima. O Quadro 13 do TelessaúdeRS dá, para o metilfenidato, doses médias de 0,4 a 1,3 mg/kg/dia, limite de 2 mg/kg/dia e dose máxima recomendada de 60 mg/dia, na mesma linha. Conta: 2 mg/kg chega a 60 mg aos 30 kg, e 1,3 mg/kg chega a 60 mg aos 46,2 kg; num adolescente de 50 kg, a “dose média” vai a 65 mg e o limite por quilo a 100 mg, ambos acima do teto. Quem prescreve pelo quilo no adolescente passa do máximo que a bula brasileira fixa para crianças e adolescentes, 60 mg/dia. Esta apostila usa o menor dos dois limites: 2 mg/kg/dia na criança pequena e 60 mg/dia a partir dos 30 kg.
O mesmo código para duas doenças. O Quadro 1 do Documento Científico nº 203 da SBP (2025) reproduz os especificadores do DSM-5-TR com códigos do sistema americano: F90.2 para a apresentação combinada, F90.0 para a predominantemente desatenta e F90.1 para a predominantemente hiperativa-impulsiva. Logo abaixo, o mesmo documento lista a CID-10 da OMS, a usada no SUS e no PCDT, em que F90.1 é transtorno hipercinético de conduta e F90.2 não existe. Quem copia o código do quadro escreve transtorno de conduta no prontuário e no relatório escolar da criança hiperativa-impulsiva que não tem transtorno de conduta. Esta apostila registra F90.0 na criança sem transtorno de conduta, qualquer que seja a apresentação.
Abrir ou não abrir a cápsula. A bula da Ritalina LA aprovada pela Anvisa em 14 de abril de 2026 diz, na posologia, que a cápsula pode ser cuidadosamente aberta e o conteúdo espalhado sobre alimento leve e frio, consumido de imediato, e diz na mesma seção que a Ritalina LA “não deve ser aberta ou mastigada”. A família da criança que não engole cápsula lê uma frase e dá a dose; lê a outra e deixa de dar. Esta apostila segue a instrução detalhada, que descreve o modo de fazer — conteúdo inteiro sobre pouca comida fria, sem mastigar e sem guardar para depois —, e lê a proibição como regra contra mastigar e fracionar a cápsula.
A conduta, hora a hora
A linha do tempo cobre seis meses da vida de Caíque Pindorama, 8 anos, 26 kg e 128 cm, aluno do 3º ano de uma escola municipal no turno da manhã, das 7h às 11h30. Mora com a mãe, Ingrácia, manicure, com o pai, Adelquis, vigia noturno que dorme de dia, com a avó paterna, Brígida, e com uma irmã de 3 anos. As decisões são tomadas pela Dra. Adelaide com você; a Notificação de Receita A, quem assina é ela.
Três regras atravessam todos os marcos. O diagnóstico só se fecha com a casa e a escola respondendo. O plano começa pelo que não é remédio, e o remédio, quando entra, não substitui nada do que veio antes. E toda decisão sobre o metilfenidato é escrita junto com o que a rede fornece e o que a família vai ter de comprar.
Terça, 8h15 — primeira consulta: a história que ainda não fecha nem afasta
Você pergunta pela idade. A primeira reclamação veio aos 5 anos, na pré-escola, quando Caíque não conseguia ficar sentado na roda de história; no 1º ano, a segunda escola chamou a mãe quatro vezes; aos 6 anos ele fraturou o antebraço pulando o muro do vizinho atrás de uma bola. Neste ano não recebeu nenhum convite de aniversário. Em casa, o dever leva duas horas e termina em choro; ele perde casaco e material toda semana, interrompe todo mundo e sobe no guarda-roupa. Nasceu com 35 semanas, sem internação, e falou e andou na idade esperada. Não usa remédio e nunca teve convulsão; a mãe não viu episódios de olhar parado. O sono muda a consulta: Caíque dorme perto da meia-noite jogando no celular do pai, que sai para o trabalho às 22h, e acorda às 6h para a escola. Não ronca, não para de respirar à noite. A mãe conta que a avó “dá bronca” e ela mesma já perdeu a paciência e gritou; nega castigo físico, e Caíque, a sós, diz que ninguém bate nele, que a professora “só briga com ele” e que ele é “o mais burro da sala”. O pai teve a mesma história na escola. A história tem começo cedo, dois ambientes e prejuízo, e tem também um sono de seis horas que por si só piora atenção e humor.
Prescrição- Registrar a idade da primeira queixa (5 anos), os ambientes (casa e escola) e o prejuízo (três escolas, fratura, isolamento)
- Registrar sono de cerca de 6 horas com tela até a meia-noite, sem ronco
- Registrar história familiar: pai com a mesma história escolar; sem epilepsia, tiques ou morte súbita conhecidos
Terça, 8h40 — o exame, as duas cartas e o que se leva para casa
O exame é o de linha de base e o de diferencial ao mesmo tempo. Peso e estatura vão para a caderneta, no mesmo canal desde os 5 anos; pressão e frequência são anotadas; a ausculta é normal; a acuidade visual é normal em cada olho na tabela da unidade; a otoscopia é normal; o exame neurológico não mostra sinal focal, ataxia ou dismorfismo; não há manchas nem neurofibromas, bócio ou amígdalas grandes. Durante os quarenta minutos não aparece nenhum tique. Nada no exame explica o quadro. A Dra. Adelaide explica à mãe que o diagnóstico não se faz hoje, que a escola descreveu uma parte e ela descreveu outra, e que as duas vão responder às mesmas perguntas. Para a coordenadora que pediu laudo, vai uma carta que pede o questionário e o relato da professora.
Prescrição- Peso 26 kg e estatura 128 cm na curva da caderneta; PA 98/60 mmHg e FC 90 bpm anotadas como linha de base
- SNAP-IV para a mãe responder sobre a casa, com a regra de marcar pensando nos últimos seis meses
- Carta à professora Dalva: SNAP-IV e relato livre sobre tarefas, cópia da lousa, leitura, escrita, matemática, colegas, recreio e episódios de olhar parado
- Sono: celular fora do quarto a partir de hoje, deitar às 21h e acordar no mesmo horário, inclusive no fim de semana
- Retorno em 3 semanas com os dois questionários e o relato da escola
Dia 21 — os questionários voltam e o diagnóstico se fecha
A professora marcou 7 itens de desatenção como “bastante” ou “demais” — 4 e 3 — e 8 de hiperatividade e impulsividade; a mãe marcou 6 e 7. Os dois informantes passam do limiar nos dois grupos. O relato da escola descreve o aluno mais agitado de uma turma de 28, que não termina a cópia, lê devagar mas decodifica, erra o ditado por pular palavras, é deixado de fora dos trabalhos em grupo e não tem episódios de olhar parado. Com o sono corrigido há duas semanas — dorme às 21h30 e acorda às 6h —, a casa melhorou pouco e a escola, nada. Vocês conferem o DSM-5-TR item por item: seis ou mais sintomas nos dois grupos, vários desde os 5 anos, por muito mais de seis meses, em casa e na escola, com prejuízo claro no aprendizado, nas amizades e na segurança, e sem outra condição que explique melhor. Diagnóstico: TDAH, apresentação combinada, gravidade moderada. A leitura lenta com decodificação preservada fica anotada para ser reavaliada com a atenção tratada, porque transtorno de aprendizagem pode estar junto.
Prescrição- Registrar no prontuário: TDAH, apresentação combinada, gravidade moderada — CID-10 F90.0
- Anotar a SNAP de cada informante (escola 7 e 8; família 6 e 7) como medida de partida
- Reavaliar a leitura depois do tratamento da atenção; se a dificuldade persistir, protocolo de aprendizagem
Dia 21, segunda metade da consulta — o plano sem remédio
O PCDT preconiza tratamento multimodal, com psicoeducação, treinamento de pais na infância e intervenções escolares, iniciado cedo e com frequência semanal. A Dra. Adelaide explica o diagnóstico à mãe e ao pai, que veio dessa vez, e a Caíque, com palavras da idade: não é preguiça, não é maldade, não é culpa de ninguém. Adelquis ouve calado e diz, no fim, que “parece que estão falando de mim”; o PCDT pede atenção ao pai ou à mãe com TDAH que tem um filho com o transtorno, inclusive com apoio nas rotinas, e ele aceita marcar uma consulta para si. A escola recebe, pela mãe, um relatório com o que ajuda na sala. Remédio não entra hoje: primeiro as medidas, depois a medida do efeito delas.
Prescrição- Psicoeducação da família e de Caíque; avó Brígida convidada para o retorno
- Grupo de orientação de pais da eMulti, quinzenal, e consulta de acompanhamento com a psicóloga da equipe
- Relatório à escola, entregue à mãe: sentar perto da professora e longe da janela; instrução curta e uma de cada vez; conferir a tarefa no meio; elogio imediato e específico; reforço por fichas; pausas combinadas; advertência breve, calma e logo depois do comportamento
- Em casa: rotina fixa de sono e de dever, com tarefas curtas e intervalo; regras poucas e claras; tela com horário
- Futebol no projeto do bairro duas vezes por semana
- Consulta para Adelquis na agenda da equipe
- Retorno em 30 dias com nova SNAP da professora
Dia 60 — o prejuízo persiste e a indicação do remédio é discutida
A casa melhorou com o grupo de pais: menos grito, dever em blocos de vinte minutos. A escola, não. A nova SNAP da professora voltou com 7 e 7, e o boletim do bimestre traz notas abaixo da média em português e matemática. Caíque tem mais de 6 anos, diagnóstico firmado e prejuízo que persiste depois das medidas: a indicação do metilfenidato é discutida com a mãe, o pai e a avó. A Dra. Adelaide diz as duas coisas que a família precisa ouvir juntas: que o remédio pode ajudar e é a opção que os documentos mais recentes indicam, e que a rede federal não o fornece — a família compra, com receita especial, todo mês. Antes de prescrever, vocês repassam o que a bula e o protocolo gaúcho exigem: sem desmaio, dor no peito ao esforço ou palpitação; nenhuma morte súbita antes dos 40 anos nem arritmia na família; sem tiques e sem Tourette na família; sem transtorno de ansiedade; sem glaucoma; sem sinais de hipertireoidismo; nenhum outro remédio em uso; ausculta normal, pressão e frequência iguais às de base. Nada sugere cardiopatia, e o eletrocardiograma não é necessário. A família decide começar.
Prescrição- Registrar a indicação: diagnóstico firmado, mais de 6 anos, prejuízo persistente após medidas não medicamentosas
- Registrar a triagem de contraindicações e a avaliação cardiovascular sem alteração
- Registrar que a família foi informada sobre efeitos esperados, sinais de alerta, custo e ausência do fármaco na Rename
Dia 60, a receita — a dose segue o turno da escola
Caíque estuda de manhã e faz o dever depois do almoço. A bula manda começar com 5 mg uma ou duas vezes ao dia, por exemplo no café da manhã e no almoço, e subir de 5 a 10 mg por semana, com teto de 60 mg por dia; para uma criança de 26 kg, o limite de 2 mg/kg/dia do protocolo gaúcho chega antes, em 52 mg. A dose da manhã cobre a maior parte da aula — o efeito do comprimido dura de três a quatro horas —, e a do almoço, o dever. O comprimido de 10 mg é partido ao meio para as doses de 5 mg. O plano é subir até 15 mg por dia e medir o efeito com a professora antes de qualquer novo aumento. O fim de semana começa sem remédio, com a família anotando como foi.
Prescrição- Metilfenidato 10 mg comprimido, nos dias de aula. Semana 1: meio comprimido (5 mg) às 6h45, com o café da manhã
- Semana 2: meio comprimido às 6h45 e meio comprimido no almoço, às 12h (10 mg/dia, 0,38 mg/kg/dia)
- A partir da semana 3: 1 comprimido às 6h45 e meio comprimido às 12h (15 mg/dia, 0,58 mg/kg/dia)
- Notificação de Receita A: 30 comprimidos — as quatro semanas de aula usam 22 e meio; a notificação vale 30 dias
- Fim de semana sem remédio, com diário da família
- Voltar antes se houver dor no peito, desmaio, palpitação, tique novo, tristeza intensa, agressividade nova ou ideia de morte
- Retorno em 4 semanas com a SNAP da professora, o diário de sono e o peso
Dia 90 — quatro semanas depois: o que melhorou, o que se paga e a dose das 16h
A SNAP da professora caiu para 3 e 4 e a cópia da lousa termina; a da mãe, para 4 e 3. O almoço ficou menor e Caíque perdeu 400 g; na semana 2 o sono demorou meia hora a mais e voltou ao horário. PA 102/64 mmHg, FC 98 bpm, nenhum tique, humor bom, e ele conta que a professora o elogiou na frente da turma. A mãe pede um terceiro comprimido às 16h, para o reforço escolar que começa às 16h30. Hoje a resposta é não, e a razão vai para o prontuário: a dose acabou de estabilizar, o sono acabou de voltar, e o reforço pode mudar para as 13h, dentro do efeito da dose do almoço. Se, com a rotina ajustada, a volta dos sintomas no fim da tarde continuar atrapalhando, uma dose pequena no fim da tarde se discute com duas semanas de diário de sono — o critério e as três réguas estão no bloco de divergências.
Prescrição- Manter 15 mg/dia nos dias de aula
- Café da manhã reforçado antes da dose e lanche à noite, quando o apetite volta
- Reforço escolar e dever às 13h
- Nova Notificação de Receita A a cada 30 dias
- Retorno em 3 meses com peso, estatura, PA, FC, diário de sono e SNAP da escola
Seis meses — a curva, as férias sem remédio e a pergunta sobre continuar
Caíque recuperou o peso: 26,5 kg e 131 cm, no mesmo canal de antes do remédio. PA e FC estáveis, sono bom, sem tiques, e a nota do bimestre passou da média. O protocolo gaúcho pede reavaliar a necessidade do tratamento a cada seis meses, e a bula, que ele seja reavaliado em períodos sem medicação para ver como a criança funciona sem ela. As férias de julho são o período: duas semanas sem metilfenidato, com a família anotando o que muda. O grupo de pais continua, a psicóloga segue com Caíque e a professora do próximo ano recebe o relatório. A decisão de continuar se toma no retorno, com os relatos em mãos, e é refeita a cada seis meses até a adolescência, quando o PCDT pede reavaliar de novo ao fim da escola e organizar a passagem para o serviço de adultos.
Prescrição- Peso e estatura na curva a cada consulta; velocidade de crescimento a cada 6 meses
- PA e FC em toda consulta
- Duas semanas sem remédio nas férias, com diário da família
- Relatório para a professora do ano seguinte, pela família
- Retorno ao fim das férias para decidir a continuidade
Como saber se está funcionando
Acompanhe benefício em atividades concretas, usando os mesmos informantes e comparando com a linha de base. Uma escala menor é útil, mas precisa corresponder a melhora percebida pela criança e pela família. Registre também adesão, sono, apetite, crescimento, humor e efeitos adversos. Consultas próximas ao início e às mudanças do tratamento permitem ajustar o plano; depois, mantenha seguimento regular conforme evolução e protocolo.
Sono, alimentação e crescimento fazem parte do cuidado de toda criança com TDAH, inclusive sem medicamento. Pressão e frequência entram na avaliação clínica e ganham atenção específica antes e durante uso de estimulantes. Registre valores de base para interpretar mudanças; o acompanhamento não começa apenas quando surge um efeito adverso.
Esperado: Queda clara dos itens marcados “bastante” ou “demais” pela professora e pela família
Se não melhora: Rever adesão, horário e cobertura do tratamento, sono, diagnóstico e condições associadas. Compare relatos de casa e escola e a meta funcional antes de aumentar dose. Ajuste farmacológico depende do responsável e do protocolo; ausência de benefício em tentativa adequada pede reavaliação do plano e eventual encaminhamento.
Esperado: Melhora nas metas escolhidas com a criança: iniciar uma tarefa com menos ajuda, organizar material, participar de atividades e reduzir conflitos ou acidentes, sem exigir obediência como único desfecho
Se não melhora: Sintoma melhor com função igual pede olhar para aprendizagem, humor e escola; a dificuldade de leitura que persiste vai ao protocolo de aprendizagem
Esperado: Menos apetite no período de ação, em geral transitório, com peso mantido na curva
Se não melhora: Refeição antes da dose e lanche à noite; perda que continua pede reduzir a dose, pausas ou encaminhamento
Esperado: Criança no mesmo canal
Se não melhora: Confirmar medidas e trajetória, avaliar alimentação, doença associada e relação temporal com o medicamento. Discutir ajuste, eventual pausa planejada ou outra opção com o responsável; pausas não são automáticas para toda desaceleração.
Esperado: Adormecer no horário de antes do remédio
Se não melhora: Insônia do início: reduzir a dose ou omitir a da tarde. Dificuldade para dormir por volta dos sintomas no fim do dia é outra situação e pede diário de sono antes de qualquer dose tardia
Esperado: Aumento pequeno em relação à linha de base da própria criança
Se não melhora: Aumento persistente pede repetir a medida, rever cafeína e energético, reduzir a dose e reavaliar; dor torácica ao esforço, síncope ou palpitação suspendem o remédio e pedem avaliação cardíaca no mesmo dia
Esperado: Sem tique novo, sem tristeza, agressividade nova ou ideia de morte, com os comprimidos contados
Se não melhora: Tique novo ou pior: reduzir ou suspender e encaminhar. Ideia de morte, sintomas psicóticos ou de mania: suspender e avaliar no mesmo dia. Sinal de desvio do comprimido: conversa a sós e revisão do plano
Onde o erro machuca
O dano: Um ambiente só, sem SNAP, sem idade de início e sem diagnóstico diferencial: a criança que dorme cinco horas, que não enxerga a lousa ou que tem crise de ausência sai com estimulante e com rótulo, e a família conclui que o problema era de remédio.
Como pegar a tempo: A primeira consulta termina com questionários para a casa e para a escola, carta à professora e rotina de sono. O remédio só entra depois do diagnóstico firmado e das medidas sem remédio.
O dano: Nenhum deles confirma ou afasta o transtorno; atrasam a decisão, ocupam a fila de quem precisa deles e produzem achado sem significado que assusta a família.
Como pegar a tempo: Exame só com pista: olhar parado com início e fim abruptos pede eletroencefalograma; ronco com pausas, o caminho da apneia; sinais de tireoide, TSH.
O dano: A criança com itens marcados “demais” — a mais grave — sai com pontuação negativa e deixa de ser encaminhada, justamente pelo protocolo que usa a pontuação positiva como critério.
Como pegar a tempo: Contar as duas colunas de cima, em cada informante, como manda a regra impressa no instrumento do PCDT.
O dano: Criança com cardiopatia não reconhecida, tiques ou Tourette na família, transtorno de ansiedade ou antidepressivo serotoninérgico recebe um fármaco que a bula contraindica ou desaconselha, e ninguém tem a linha de base para ver o efeito na pressão, na frequência e na curva.
Como pegar a tempo: Antes da receita: síncope, dor no peito e palpitação, morte súbita antes dos 40 anos e arritmia na família, tiques, ansiedade e remédios em uso; peso e estatura na curva, PA e FC anotadas; eletrocardiograma se algo sugerir cardiopatia.
O dano: A primeira frase afasta a família da psicoeducação, do grupo de pais e do acompanhamento que a rede oferece; a segunda manda a mãe à farmácia atrás de um fármaco que não consta da Rename, e ela volta sem ele e sem confiança.
Como pegar a tempo: Dizer as duas coisas na mesma consulta: o cuidado, a orientação e o acompanhamento na escola são direito; o metilfenidato, quando indicado, a família compra com Notificação de Receita A.
O dano: A criança espera meses de fila sem nenhuma adaptação na sala, enquanto acumula nota baixa, castigo e a certeza de que é burra.
Como pegar a tempo: Relatório à escola, pela família, com o que a criança precisa, lembrando que a Lei nº 14.254/2021 manda a escola acompanhar o aluno da forma mais precoce possível.
O que dizer ao paciente e à família
As conversas que decidem o tratamento do TDAH são com mais gente do que a consulta de costume: a mãe que chega na defensiva, a avó que discorda, o pai que se reconhece no filho, a criança que se acha burra e a escola que pediu laudo. O PCDT pede uma discussão estruturada depois do diagnóstico — os ganhos de ter um nome para o que acontece, os pontos fortes da criança, o risco de estigma e rótulo, os ajustes na escola e, mais tarde, o risco de uso indevido de substâncias.
A regra que atravessa todas as falas é a da SBP: o primeiro passo do tratamento é o conhecimento, e o que ele precisa desfazer primeiro é a culpa — da criança e dos pais.
Ingrácia diz que a escola quer “remédio de tarja preta” e que ela não aceita
““Hoje ninguém vai sair daqui com receita. A escola viu uma parte do Caíque, a senhora vê outra, e eu preciso das duas para entender o que está acontecendo. Vou pedir para a senhora e para a professora responderem as mesmas perguntas, em casa e na sala, e daqui a três semanas a gente olha junto. Se for TDAH, o tratamento começa por coisas que não são remédio. Remédio só entra se for preciso, e só se vocês concordarem.””
Não diga: Confirmar o diagnóstico pelo bilhete ou desqualificar a escola na frente da mãe.
A avó, Brígida, diz que é falta de pulso e que antigamente se resolvia com chinelo
““Dona Brígida, a senhora criou filho e sabe que cada criança é de um jeito. O Caíque não faz de propósito: o freio dele demora mais para funcionar do que o dos outros meninos. Bater não conserta esse freio e deixa ele achando que é ruim, e isso piora a escola e piora a casa. O que funciona é regra clara, uma ordem de cada vez e elogio na hora em que ele acerta. A senhora passa muito tempo com ele e pode me ajudar muito.””
Não diga: Discutir de quem é a culpa ou tratar a avó como adversária; se houver castigo físico, a conduta é a de «Violência e maus-tratos infantis».
Adelquis, o pai, diz que “parece que estão falando de mim” e que ele sobreviveu sem remédio
““O senhor tem razão em reconhecer: é comum que um dos pais tenha passado pela mesma coisa, e muita gente chega à vida adulta sem saber o nome. O senhor sobreviveu, mas me contou que repetiu dois anos e largou a escola. A gente quer que o Caíque tenha outra chance. E se o senhor quiser, marco uma consulta para o senhor também: muita coisa que é difícil em casa — rotina, horário, paciência — fica mais fácil quando o adulto também recebe ajuda.””
Não diga: Transformar a consulta do filho em diagnóstico do pai na frente da família, ou deixar a fala dele sem resposta.
Dar o diagnóstico ao próprio Caíque
““Caíque, sabe quando você quer prestar atenção e a cabeça vai para outro lugar, ou quando você responde antes de pensar? Isso tem nome, acontece com muitas crianças — em quase toda sala tem uma —, e não quer dizer que você é burro nem que é mau. Seu pai também teve. A gente vai combinar umas coisas com a sua mãe e com a professora para ficar mais fácil terminar as tarefas, e você vai me contar o que está funcionando e o que não está.””
Não diga: Falar do diagnóstico só com os adultos, com a criança na sala ouvindo sem entender e concluindo que tem uma doença grave.
A mãe teme que o remédio deixe o filho dopado, viciado ou pequeno
““Ele não é calmante e não serve para deixar criança parada: quando funciona, o Caíque continua ele mesmo e consegue terminar o que começou. Pode tirar a fome no almoço, atrasar o sono e subir um pouco a pressão e o coração, e por isso a gente pesa, mede e afere em toda consulta. A caixa tem o aviso de que pode causar dependência, e é por isso que a receita é especial e a gente conta os comprimidos: o risco que se vigia é o uso fora da receita. E se em quatro semanas não ajudar, a gente para.””
Não diga: Prometer que não há efeito nenhum, esconder o aviso da bula ou minimizar o medo da família.
Ingrácia pergunta se o posto tem o remédio
““Não tem, e eu prefiro que a senhora saiba agora. O remédio não está na lista do SUS, então a senhora compra na farmácia, com uma receita especial que eu faço todo mês e que vale 30 dias. O que o SUS dá é tudo o resto, e o resto é metade do tratamento: as consultas, o grupo de pais, a psicóloga, e a escola, que por lei tem de acompanhar o Caíque. Se a compra ficar pesada, a senhora me avisa antes de parar, para a gente decidir junto.””
Não diga: Mandar a mãe à farmácia da unidade ou dizer que “o SUS não trata TDAH”.
Telefonema da coordenadora Edite, que insiste no laudo
““Edite, o relatório vai pela mãe e diz o que o Caíque precisa em sala. A lei de 2021 manda a escola acompanhar o aluno com instabilidade na atenção o mais cedo possível e não fala em laudo para isso. O que mais ajuda agora é a professora responder o questionário de novo daqui a um mês: é por ele que a gente sabe se o tratamento está funcionando.””
Não diga: Passar diagnóstico e código por telefone sem autorização da família, ou prometer laudo para liberar a adaptação.
Onde bons médicos discordam
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.
Uso não preconizado — PCDT do TDAH, seção 7.2 (Portaria Conjunta nº 14, de 29/07/2022)
A Conitec considerou frágil a evidência de eficácia e segurança do metilfenidato e da lisdexanfetamina para crianças e adolescentes, pela qualidade baixa ou muito baixa, e elevado o impacto orçamentário, e recomendou não incorporá-los; o protocolo conclui que o uso desses medicamentos não é preconizado e descreve tratamento multimodal não medicamentoso — terapia cognitivo-comportamental, treinamento de pais, psicoeducação e intervenções escolares.
Ministério da Saúde. PCDT do Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade, 2022, seções 7.1 e 7.2
Metilfenidato indicado quando o prejuízo persiste — Apêndice 3 do mesmo PCDT (2022), TelessaúdeRS (2024) e SBP (2025)
Na tabela da evidência à decisão, o painel do PCDT marcou recomendação fraca a favor e recomendou fracamente o metilfenidato de liberação imediata para crianças e adolescentes de 6 a 17 anos; o protocolo gaúcho inicia metilfenidato na atenção primária a partir dos 6 anos, com dose e limites definidos, e encaminha quem não responde; a SBP diz que os estimulantes são a primeira opção nos consensos de especialistas e que a necessidade do remédio é decidida pelo médico, caso a caso.
PCDT do TDAH, 2022, Apêndice 3; TelessaúdeRS-UFRGS, Protocolos de Regulação Ambulatorial: Neurologia Pediátrica, 2024, Quadro 13; SBP, Documento Científico nº 203, 2025
Esta apostila adota a segunda posição para a criança de 6 anos ou mais com diagnóstico firmado e prejuízo que persiste depois da psicoeducação, da orientação de pais e das adaptações escolares. Antes de desempatar, a pergunta da cronologia: as duas posições não são só momentos diferentes, porque a primeira não põe o remédio em momento nenhum. Decidiu o degrau da coerência interna: a norma que não preconiza o remédio traz, no próprio apêndice, a recomendação a favor do metilfenidato de liberação imediata e, no Quadro 3, combinações com estimulante; a seção 7.2 se lê, então, como decisão de fornecimento pelo SUS, e não como contraindicação clínica. Os documentos mais novos, de 2024 e 2025, confirmam a indicação. O lado da norma continua valendo para o que a rede entrega e para a ordem: diga à família que o SUS federal não fornece o fármaco, comece sempre pelo que não é remédio e não o retire quando o remédio entrar. Abaixo dos 6 anos, nenhuma das posições põe metilfenidato: encaminha-se.
Antes das 18 horas — TelessaúdeRS (2024)
O quadro de tratamento clínico otimizado manda administrar a última dose antes das 18 horas.
TelessaúdeRS-UFRGS, Protocolos de Regulação Ambulatorial: Neurologia Pediátrica, 2024, Quadro 13
No máximo no início da tarde — SBP (2025)
Como a insônia é efeito dos psicoestimulantes, sobretudo quando a medicação é dada no fim do dia, a última dose deve ir até, no máximo, o início do período da tarde.
SBP, Documento Científico nº 203, 2025
Conforme os períodos de maior dificuldade, com dose pequena ao anoitecer se o efeito acaba cedo — bula da Ritalina (Anvisa, 14/04/2026)
No TDAH, a administração se adapta aos períodos de maiores dificuldades escolares, comportamentais ou sociais; se o efeito se dissipa cedo ao cair da noite, com volta dos distúrbios de comportamento ou dificuldade para dormir, uma pequena dose do comprimido ao anoitecer pode ajudar; a insônia do início do tratamento se controla reduzindo a dose ou omitindo a dose da tarde ou da noite. A frase das 18 horas aparece na bula só na posologia da narcolepsia do adulto.
Novartis. Ritalina e Ritalina LA, bula para o profissional, aprovada pela Anvisa em 14/04/2026, seções 8 e 9
Esta apostila adota a bula. Decidiu o degrau do escopo: dos três textos, é o único escrito para a criança com TDAH que usa este fármaco, e a hora fixa do protocolo gaúcho coincide com a regra que a bula escreve para a narcolepsia do adulto, outra população. As outras duas réguas ficam como avisos que a bula também faz: a insônia existe e se resolve tirando ou reduzindo a dose da tarde. Na prática: o horário segue o turno escolar e o dever; a última dose fica longe da hora de dormir; se a insônia aparece, a dose da tarde sai ou diminui; e a dose pequena no fim da tarde só entra quando a volta dos sintomas atrapalha de fato, com a rotina já ajustada e duas semanas de diário de sono mostrando que não é o remédio que tira o sono.
Manejável sob monitoramento — PCDT do TDAH, Quadro 3 (2022, elaborado a partir da diretriz canadense)
Na ansiedade, tratar primeiro o transtorno mais prejudicial, sabendo que alguns pacientes pioram e que o tratamento pode ser menos tolerado; nos tiques graves, pode ser necessário somar antipsicótico; no transtorno de conduta, o antipsicótico pode ajudar; os estimulantes podem ser combinados com a maioria dos antidepressivos, quando monitorados.
Ministério da Saúde. PCDT do TDAH, 2022, Quadro 3
Contraindicado ou não recomendado — bula da Ritalina (Anvisa, 14/04/2026)
Contraindica o metilfenidato em ansiedade e tensão, em agitação e no diagnóstico ou na história familiar de síndrome de Tourette; não recomenda o uso junto com antidepressivos serotoninérgicos, pelo risco de síndrome serotoninérgica, nem com antipsicóticos, pelo mecanismo contrário, e, se a combinação for considerada necessária depois de avaliação médica, manda vigiar sintomas extrapiramidais.
Novartis. Ritalina e Ritalina LA, bula para o profissional, aprovada pela Anvisa em 14/04/2026, seções 4, 5 e 6
Esta apostila adota a bula para a atenção primária. Decidiu o degrau da data, somado ao da coerência interna: a bula é de 2026, e o quadro do PCDT propõe combinar um estimulante que a seção de tratamento do mesmo documento diz não preconizar. Na unidade básica, criança com transtorno de ansiedade, com tiques ou com Tourette na família, ou em uso de antidepressivo serotoninérgico ou de antipsicótico, não começa metilfenidato: vai ao especialista, que pondera o risco com a família e registra a decisão. O Quadro 3 continua sendo o raciocínio de ordem do tratamento — tratar primeiro o que mais prejudica — e é nele que o especialista se apoia quando decide combinar. Criança que chega já em uso da combinação, prescrita pelo especialista, não tem o remédio suspenso na unidade: tem os sinais de síndrome serotoninérgica e de sintomas extrapiramidais explicados à família e vigiados.
O raciocínio, em voz alta
Quinta-feira, oito da manhã, ambulatório de pediatria da mesma unidade. Lorena Macaúbas, 7 anos, aluna do 2º ano, chega com o pai, Claudino, e um bilhete da escola: “A aluna vive no mundo da lua, para no meio da frase e não termina as atividades. Suspeitamos de TDAH e pedimos avaliação.” O pai conta que Lorena sempre foi uma menina calma e boa aluna, que aprendeu a ler no 1º ano sem dificuldade e que isso começou há uns cinco meses. Em casa, às vezes, ela para com o garfo no ar, fica olhando para a frente e volta a comer como se nada tivesse acontecido; quando ele pergunta, ela diz que não aconteceu nada. A professora conta que a menina “apaga” várias vezes por dia.
O que o bilhete descreve
“Para no meio da frase” é um evento, e não um estado. As perguntas que separam as duas coisas são quantas vezes, quanto dura, como começa e como termina, e se o chamado desfaz. O pai e a professora descrevem episódios de segundos, várias vezes ao dia, que começam e terminam de repente, interrompem a fala e a mastigação, não se desfazem quando alguém chama e são seguidos da retomada da atividade, sem lembrança. É o retrato da crise de ausência. O desligar do TDAH aparece na tarefa longa e monótona, some quando a atividade interessa e se desfaz quando alguém chama ou toca.
Por que não é TDAH agora
O critério pede sintomas persistentes desde antes dos 12 anos, e ninguém adquire o transtorno de uma hora para outra: Lorena funcionava bem até os 6 anos e meio, e o quadro tem cinco meses. Entre os episódios, a atenção é normal. A SNAP pedida à escola na mesma consulta volta com 3 itens de desatenção marcados “bastante” e nenhum de hiperatividade; a do pai, com 2 e 0. Falta o padrão persistente desde cedo e sobra uma explicação melhor — que é exatamente o que o critério de exclusão pergunta.
O resto da história e o exame
Sono de dez horas, sem ronco; audição e visão normais na triagem da escola, com acuidade normal em cada olho na tabela da unidade; nenhum remédio em uso; nenhum evento novo em casa, sem sinal de violência. Exame neurológico normal. Com três minutos de hiperventilação no consultório, Lorena para de soprar, fixa o olhar e pisca rápido por cerca de dez segundos, não responde ao chamado e depois retoma o sopro sem saber que parou. O episódio provocado é igual ao que o pai descreveu.
O que se pede e para onde ela vai
Eletroencefalograma e encaminhamento à neurologia pediátrica, com a descrição dos episódios, a frequência e o achado da hiperventilação. O diagnóstico e o tratamento da epilepsia são do capítulo Epilepsias e síndromes epilépticas da infância, desta apostila. O que cabe à consulta de hoje é o que não se faz: nenhum TDAH no prontuário nem no relatório à escola, nenhum estimulante — a bula do metilfenidato pede cautela na epilepsia, porque o fármaco pode aumentar a frequência das crises — e nenhuma SNAP usada como diagnóstico.
O que se diz à família e à escola
Ao pai: os episódios parecem crises de um tipo de epilepsia comum na idade escolar, o exame vai confirmar, e a neuropediatria decide o tratamento. À escola, pelo pai, um relatório curto: a desatenção descrita está em investigação médica, não é TDAH até segunda ordem, e ajuda muito se a professora anotar hora, duração e o que Lorena fazia em cada episódio. As orientações de segurança e o tratamento seguem o capítulo de epilepsias.
E se fossem as duas coisas
O PCDT registra que pessoas com epilepsia têm prevalência maior de TDAH e manda tratar primeiro a epilepsia e depois o TDAH. Se, com as crises controladas, a desatenção persistisse em casa e na escola, com prejuízo e SNAP positiva nos dois informantes, a avaliação do TDAH seria refeita do começo; e um eventual metilfenidato entraria com a vigilância que a bula pede, suspenso se as crises aumentassem.
Desfecho
O eletroencefalograma confirmou crises de ausência, e o tratamento seguiu com a neuropediatria. Três meses depois, a professora escreveu que Lorena termina as atividades, não para mais no meio da frase e voltou a ler em voz alta para a turma.
Faça você
Bento Alecrim, 17 anos, 60 kg, diagnóstico de TDAH aos 9 anos, usa Ritalina LA 30 mg às 7h, prescrita pela neuropediatria, que deu alta para a unidade básica há um ano, e vem renovar a receita. Sem a mãe na sala, conta que dorme cinco horas por noite, toma dois energéticos por dia para estudar para o Enem, fuma maconha nos fins de semana e quer tomar uma cápsula a mais na véspera da prova. Um colega de sala pediu “uma cápsula para testar”. Nega dor no peito, desmaio e palpitação; está mais irritado e diz que “não aguenta mais estudar”, sem ideia de morte. PA 134/86 mmHg em duas medidas, contra 118/72 há seis meses; FC 108 bpm; perdeu 3 kg no semestre. Quer tirar a carteira de motorista no ano que vem.
Abra a conversa
Diga a Bento como funciona o sigilo e quais são os limites dele, antes que ele conte mais, e o que você precisa perguntar a sós.
Decida sobre pressão, frequência, sono e peso
Diga o que explica os números, o que muda hoje, quando você mede de novo e o que faz o remédio ser suspenso.
Responda ao pedido e escreva a receita
Diga o que responde sobre a cápsula extra e sobre o colega, e como sai a receita: tipo, quantidade e validade.
Olhe para o próximo ano
Diga o que orienta sobre maconha, energético e direção, e o que o PCDT pede para o jovem que está saindo da escola.
Ver como fecharíamos
Sigilo: o que Bento contar fica entre vocês, com a exceção dita de saída — risco sério à vida dele ou de outras pessoas leva a chamar a família, avisando-o antes —, pela regra de «Quatro princípios e nenhum árbitro». A sós, pergunte por sono, energético e cafeína, álcool, maconha e outras drogas, uso do remédio fora da receita, humor e ideia de morte, sexualidade e contracepção. Pressão, frequência, sono e peso: estimulante, dois energéticos e sono de cinco horas somam efeito simpaticomimético; a bula manda usar com cautela cafeína e bebida energética, monitorar a pressão em todos e lembra a redução do ganho de peso. Hoje: suspender os energéticos, organizar o sono, manter a dose sem aumento e repetir PA, FC e peso em duas semanas; se a pressão continuar acima da linha de base dele, reduzir a dose e reavaliar; dor torácica ao esforço, síncope ou palpitação suspendem o remédio no mesmo dia; irritação crescente e desânimo pedem acompanhar o humor a cada consulta. Cápsula extra: não — a dose foi ajustada para o dia dele, e uma cápsula a mais aumenta pressão, frequência e insônia na véspera da prova. O remédio dado ou vendido ao colega é desvio, que o protocolo gaúcho manda vigiar; converse sobre isso sem acusar e combine que as cápsulas ficam contadas. Receita: Notificação de Receita A (lista A3), 30 cápsulas de 30 mg para 30 dias, válida por 30 dias; a dose equivale a 15 mg do comprimido duas vezes ao dia, 0,5 mg/kg/dia, abaixo do teto de 60 mg da bula. Maconha: avaliação do uso e redução de danos pelo capítulo de uso de outras substâncias, com a informação de que o TDAH aumenta o risco de uso e de automedicação, como o PCDT manda orientar. Direção: a SBP descreve no motorista impulsivo mais imprudência, mais infração e mais acidente, e a carteira do ano que vem é conversa desta consulta. Transição: o PCDT pede reavaliar a necessidade do tratamento ao fim da escola e organizar a passagem para o serviço de adultos, em geral até os 18 anos, com o plano escrito.
O protocolo do TelessaúdeRS manda avaliar, antes do metilfenidato, história clínica, pressão, frequência, ausculta e história familiar de eventos cardíacos, com morte súbita antes dos 40 anos, e indica eletrocardiograma quando a história ou o exame sugerem cardiopatia; a bula pede avaliação de doença cardiovascular e da história familiar de morte súbita e de arritmia ventricular antes de iniciar. Morte súbita de um tio aos 29 anos é o achado de história que pede o exame e a conclusão da avaliação antes da receita; se ela encontrar cardiopatia estrutural grave, cardiomiopatia ou arritmia grave, a decisão sai da atenção primária. Nada disso suspende o tratamento sem remédio.
Teste-se
Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.
Plano de revisão
Em 7 dias
Compare duas crianças com pontuação semelhante na escala, mas histórias diferentes de sono, aprendizagem e início dos sintomas. Quais dados sustentam TDAH e quais pedem outra investigação? Explique a contribuição e o limite de cada informante. Escreva duas metas funcionais combinadas com a criança, família e escola e descreva como saberá se melhoraram no retorno.
Em 30 dias
Preencha a ficha longitudinal de uma criança em acompanhamento. Compare benefício, adesão e efeitos adversos com a linha de base. Se os sintomas melhoraram e o prejuízo escolar persiste, investigue aprendizagem e contexto antes de simplesmente aumentar a dose. Se houve perda de peso, insônia ou alteração de humor, proponha avaliação dirigida com o responsável. Termine com uma decisão compartilhada e data de retorno.
Agora atenda
Agora atenda: Anelise Justiniano, 9 anos, trazida pela mãe, Agripina, com um relatório da escola que diz que ela “não presta atenção e está ficando para trás na leitura”. A mãe acha que a filha é só quieta e conta que ela passou a dormir tarde desde que ganhou um celular. Conduza a consulta: descubra desde quando, onde e com que prejuízo, procure o que imita o transtorno, examine, entregue os questionários e diga à mãe o que acontece a seguir.
