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O que o celular gravou
Epilepsias e síndromes epilépticas da infância
A primeira crise sem febre e o que ela pede — e não pede —, o estado de mal da criança pela dose por quilo e pela via que existe na rede, as síndromes que o interno precisa reconhecer (espasmos do lactente, ausência, pontas centrotemporais, mioclônica juvenil) e a vida com epilepsia: o remédio do protocolo federal, a escola, a água, a morte súbita e o valproato da menina que um dia pode engravidar.
Brasil. Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Epilepsia. Aprovado pela Portaria Conjunta SAS/SCTIE nº 17, de 21 de junho de 2018, com alterações pós-publicação de novembro de 2021, julho de 2025 e abril de 2026 (versão servida pelo portal do Ministério da Saúde).
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Responda antes de ler
Menina de 7 anos tem episódios de olhar parado com piscamento, de cerca de 10 segundos, várias vezes ao dia. No consultório, depois de três minutos de hiperventilação, ela para de falar e não responde por alguns segundos. O eletroencefalograma mostra ponta-onda generalizada de 3 Hz. Pelo protocolo federal, qual fármaco a rede oferece para essa indicação e idade?
O paciente que você vai ver
Terça-feira, 5h40, pronto-socorro infantil de um hospital municipal numa cidade de cento e vinte mil habitantes. A sala de observação tem quatro leitos, dois cilindros de oxigênio e um monitor que funciona direito. No leito 2, Xisto Pamplona, 9 anos, 30 quilos, está sentado com a camiseta do pijama molhada de saliva. Responde ao nome, sabe onde está, pede água e diz que a língua “formiga do lado de cá”, apontando para a direita. A mãe, Manuelina, segura o celular com as duas mãos, como quem segura uma prova.
Ela conta em ordem, porque já contou duas vezes na triagem. Às 5h10 acordou com um barulho de gargarejo vindo do quarto dele. Encontrou o filho deitado, de olhos abertos, com o canto da boca puxando para a direita, babando muito, tentando falar e sem conseguir. “Ele olhava pra mim, doutor. Ele me via.” Depois o braço direito começou a bater. Ela gritou pelo marido e, quando voltou com o telefone, o corpo inteiro estava duro e sacudindo. O vídeo tem 41 segundos: começa com a criança já em abalos nos quatro membros, respiração ruidosa, e termina com ele mole, roncando. Pelas contas dela, foram uns dois minutos. Depois ele dormiu pesado por meia hora e acordou confuso, perguntando se já era hora da escola.
Na triagem: temperatura axilar de 36,8 °C, frequência cardíaca de 96, saturação de 98% em ar ambiente, glicemia capilar de 94 mg/dL. Nenhuma queda, nenhum remédio novo em casa; a avó, que mora junto, toma um comprimido para pressão guardado no alto do armário. Xisto nunca teve crise, nem com febre. Nasceu a termo, andou com um ano, está no quarto ano e lê bem. O exame que você faz agora é normal: força igual nos dois lados, fala normal, sem rigidez de nuca, pupilas iguais, fundo de olho difícil mas sem nada que chame atenção. A mãe tem três perguntas e faz as três de uma vez: é epilepsia, vai tomar remédio para sempre, pode ir para a escola amanhã.
Antes que você responda, Nelusco, o técnico de enfermagem, abre a porta: “Chegando de carro, menina de 4 anos, convulsionando desde casa. O pai diz que começou 5h35.” São 5h52. Corina Xerem entra no colo do pai, Firmiano, com os quatro membros em abalos rítmicos, os lábios arroxeados e a saliva escorrendo pelo queixo. Tem epilepsia focal desde os dois anos e toma carbamazepina em suspensão — ou tomava: a farmácia da unidade de saúde está sem o frasco há cinco dias, e a família esperou a reposição. Ninguém lhe deu nada no caminho, e ela não tem acesso venoso.
A pediatra do plantão, Dra. Amantina Montes, está na outra ponta do corredor com um menino em crise de asma e grita duas coisas antes de você começar: “Hora de início na ficha e glicemia agora. E me diz o peso.” O pai responde que ela pesou 16 quilos no mês passado. Nelusco já liga o oxigênio e procura o midazolam no carrinho.
Na mesma sala há duas crianças que a palavra convulsão junta e que quase nada têm em comum. A crise de Xisto acabou há meia hora e deixou perguntas de consultório: o que o vídeo mostra e o que ele perdeu, se aquilo foi crise epiléptica e de que tipo, que exame pedir e quando, se o remédio começa hoje ou não começa, o que a família faz se acontecer de novo. A de Corina já dura 17 minutos, e o relógio dela não começou quando ela passou pela porta: começou na sala de casa. Para ela, as perguntas são de minutos — que dose para 16 quilos, por qual via, com o que existe na unidade, e o que vem quando a primeira dose não basta.
Este capítulo acompanha as duas nas próximas horas e nas próximas semanas. Pelo caminho aparecem as outras crianças que chegam pela mesma porta com a mesma palavra na ficha: o lactente que “se assusta em série” ao acordar, a menina que “desliga” várias vezes por dia na sala de aula, a adolescente que derruba o copo de café toda manhã e um dia amanhece no chão depois de uma festa.
Quem adoece disso
Epilepsia é doença comum, e a infância é onde muitas começam. O protocolo federal estima a prevalência mundial de epilepsia ativa entre 0,5% e 1% da população e a probabilidade de ter epilepsia ao longo da vida em cerca de 3%. Os estudos brasileiros que ele reúne encontraram 11,9 casos por mil habitantes na Grande São Paulo e 16,5 por mil em Porto Alegre; num levantamento de porta em porta no Sul, a prevalência de epilepsia ativa foi de 5,4 por mil, maior nas classes sociais menos favorecidas (7,5 por mil), e mais de um terço das pessoas com epilepsia estava em tratamento inadequado. Nos países em desenvolvimento, lembra o mesmo documento, a prevalência costuma ter picos na adolescência e na idade adulta.
A primeira bifurcação do pronto-socorro é a febre, e os números explicam por quê. A crise febril atinge de 2% a 5% das crianças; depois de uma crise febril simples, o risco de epilepsia fica em 1% a 1,5%, pouco acima dos cerca de 0,5% da população geral, e sobe para 4% a 15% depois de uma crise febril complexa. Crise com febre, entre 6 meses e 5 anos, é assunto de Crise febril na criança; a criança deste capítulo é a que convulsiona sem febre, ou que já tem o diagnóstico de epilepsia.
As síndromes que o interno precisa reconhecer não são raridades de enfermaria especializada. A epilepsia autolimitada com pontas centrotemporais responde por 6% a 7% das epilepsias da infância, com incidência de 6,1 por 100 mil menores de 16 anos por ano; começa entre 4 e 10 anos em 90% dos casos, com pico por volta dos 7, e 60% são meninos. A epilepsia ausência da infância tem incidência de 6,3 a 8 por 100 mil crianças por ano e responde por cerca de 18% das epilepsias em idade escolar; começa tipicamente entre 4 e 10 anos, e 60% a 75% são meninas. A mioclônica juvenil tem prevalência de 1 a 3 por 10 mil pessoas e responde por 9,3% de todas as epilepsias, com início típico entre 10 e 24 anos e leve predomínio feminino; de 5% a 15% dos casos vêm de uma ausência da infância.
No lactente, a síndrome dos espasmos epilépticos infantis tem incidência de 30 por 100 mil nascidos vivos, é mais frequente em meninos e responde por 10% das epilepsias que começam antes dos 36 meses; o consenso brasileiro de 2023 a descreve como a encefalopatia epiléptica e do desenvolvimento mais comum do primeiro ano. A síndrome de Dravet atinge cerca de 6,5 por 100 mil nascidos vivos, começa tipicamente entre 3 e 9 meses, e mais de 80% das crianças têm variante patogênica no gene do canal de sódio SCN1A.
O desfecho do tratamento também tem números. No estudo prospectivo citado pelo protocolo federal, 47% dos pacientes ficaram bem com o primeiro fármaco em monoterapia, 13% com o segundo e só 3% com a associação de dois; cerca de 30% são refratários aos fármacos atuais. E entre 20% e 30% dos pacientes encaminhados a centros especializados como refratários simplesmente não têm crises epilépticas. Na mioclônica juvenil, 65% a 92% respondem ao fármaco adequado, mas a recorrência depois da retirada passa de 90%, o que reforça a necessidade de manutenção prolongada e de avaliação especializada antes de qualquer retirada.
O outro lado da conta são os eventos que imitam crise. Tiques acontecem em até 20% dos escolares e começam entre 4 e 8 anos; a crise de perda de fôlego se concentra entre 6 meses e 2 anos; o terror noturno é do pré-escolar; a síncope é mais da adolescência. É com esses números na cabeça que se lê o dado de que 20% a 30% dos “refratários” encaminhados não têm epilepsia: o diagnóstico diferencial começa na primeira consulta, não no centro especializado.
Duas lacunas de dado precisam ficar ditas. Os números de síndrome acima vêm de coortes estrangeiras reunidas pela Liga Internacional Contra a Epilepsia; os números brasileiros do protocolo federal são de prevalência geral, sem recorte por idade ou por síndrome. E a morte súbita e inesperada na epilepsia, que assusta as famílias, é descrita pela Sociedade Brasileira de Pediatria como muito rara na criança, com risco real no adulto jovem, entre 20 e 40 anos, cuja epilepsia não está controlada — o que faz da adolescência, e da adesão nessa fase, o ponto em que o assunto começa a pesar.
Por que acontece o que acontece
Crise e epilepsia não são sinônimos. Crise epiléptica é a ocorrência transitória de sinais ou sintomas por atividade neuronal anormal, excessiva ou sincrônica; epilepsia é a predisposição permanente do cérebro a gerar crises. O protocolo federal adota a definição operacional de epilepsia: pelo menos duas crises não provocadas com mais de 24 horas de intervalo, ou uma crise não provocada com probabilidade de recorrência de pelo menos 60% nos dez anos seguintes, ou o diagnóstico de uma síndrome epiléptica. O terceiro item é o que surpreende a família: uma criança pode ter epilepsia depois de uma única crise, se ela e o eletroencefalograma desenharem uma síndrome. E crise provocada — pela febre, por trauma, infecção ou distúrbio metabólico agudo — não é epilepsia, por mais que se pareça com uma.
A crise nasce numa rede. Na crise focal, a descarga começa numa área de um hemisfério e a manifestação depende de onde ela começa e de por onde se espalha; quando se propaga para os dois lados, termina numa crise tônico-clônica — a crise focal que evolui para tônico-clônica bilateral. Na crise generalizada, a descarga começa num ponto de uma rede que recruta rapidamente os dois hemisférios. A consequência prática é que a parte que classifica a crise é o começo, e o começo é justamente o que a câmera costuma perder: nas crises noturnas da epilepsia com pontas centrotemporais, lembra a Liga Internacional Contra a Epilepsia, o componente focal inicial muitas vezes não é testemunhado. O vídeo de Xisto começou no minuto errado; a memória da mãe começou no certo.
A classificação de crises mudou em 2025, e o protocolo federal ainda fala a língua de 2017. A atualização da Liga manteve quatro classes — focal, generalizada, desconhecida (quando não se sabe se é focal ou generalizada) e não classificada —, tirou o “início” do nome e trocou percepção por consciência, definida pela percepção e pela responsividade juntas. A crise focal passa a ser descrita com consciência preservada ou comprometida; a crise focal que evolui para tônico-clônica bilateral continua com esse nome; e, na versão básica, a velha divisão entre motora e não motora dá lugar ao que é observável por uma testemunha. A conversão é direta — o que o protocolo chama de crise focal com comprometimento da percepção é a crise focal com comprometimento da consciência —, e no prontuário o que vale é a sequência do que se viu, na ordem em que aconteceu.
O mecanismo do estado de mal é o mesmo do adulto e não é repetido aqui. A crise que não para por falha dos mecanismos que a terminam tem dois pontos de tempo na régua adotada pelo protocolo federal: aos 5 minutos de crise tônico-clônica, o momento de tratar como atividade contínua; aos 30 minutos, o limiar a partir do qual cresce o risco de lesão neuronal duradoura. A explicação completa está em O cronômetro e a segunda dose, na apostila de Neurologia. O que muda na criança não é a fisiologia do relógio: é a dose, que se calcula por quilo e tem teto; a via, que precisa existir sem acesso venoso; e o recém-nascido, em quem o diazepam sai da primeira linha.
Na criança, a idade é critério diagnóstico. A mesma predisposição a crises se expressa em síndromes diferentes conforme a janela de maturação em que aparece, e a Liga Internacional Contra a Epilepsia escreve essas janelas nas tabelas de critério: os espasmos epilépticos infantis começam entre 1 e 24 meses; a ausência da infância não se diagnostica antes dos 2 nem depois dos 13 anos; a epilepsia com pontas centrotemporais sai da faixa abaixo de 3 e acima de 14; a mioclônica juvenil, abaixo de 8 e acima de 40. Síndrome, no protocolo federal, é exatamente esse conjunto — tipo de crise, idade de início e remissão, fatores precipitantes, horário, eletroencefalograma e prognóstico. Dar o nome certo é dar o curso: a epilepsia com pontas centrotemporais costuma remitir até a puberdade, a ausência da infância remite no começo da adolescência em 60% dos casos, e a mioclônica juvenil costuma exigir seguimento e tratamento prolongados, com risco alto de recorrência após retirada.
Algumas síndromes da infância são encefalopatias epilépticas e do desenvolvimento: nelas, o prejuízo do desenvolvimento vem tanto da causa de base quanto da própria atividade epiléptica. É o caso dos espasmos epilépticos infantis, da síndrome de Dravet e da síndrome de Lennox-Gastaut. É por isso que o tempo pesa diferente no lactente com espasmos: o consenso brasileiro reúne os ensaios em que o atraso entre o início dos espasmos e o início do tratamento se associou a pior desenvolvimento, com declínio maior quando esse atraso passou de dois meses. A causa costuma ser identificável — lesão estrutural, alteração genética, erro inato do metabolismo, esclerose tuberosa —, mas procurá-la corre em paralelo ao tratamento, e não antes dele.
Os fármacos agem por poucos mecanismos — bloqueio de canais de sódio, reforço da inibição mediada pelo ácido gama-aminobutírico, bloqueio de canais de cálcio e ligação à proteína da vesícula sináptica —, e é o mecanismo que explica por que o remédio errado piora a criança. A etossuximida bloqueia canais de cálcio e inibe o circuito tálamo-cortical que gera a ausência, e por isso serve para ausência e para quase nada mais. Os bloqueadores de canal de sódio — carbamazepina, oxcarbazepina, fenitoína — com frequência agravam as mioclonias e as ausências da mioclônica juvenil, e o protocolo federal contraindica a fenitoína em ausência e em mioclonia. A vigabatrina piora crises generalizadas primárias. Na síndrome de Dravet, causada na maioria das vezes por variante do gene de um canal de sódio, a boa resposta a esses bloqueadores entra como alerta contra o próprio diagnóstico. E, desde a alteração de julho de 2025, o protocolo registra piora com carbamazepina e vigabatrina na síndrome de Angelman.
O valproato tem um mecanismo de dano que não aparece na criança que o toma, e sim na criança que ela pode vir a gerar. O protocolo federal lista o aumento de malformações congênitas maiores — espinha bífida, defeito de septo atrial, fenda palatina, craniossinostose —, o rebaixamento do quociente de inteligência, as incapacidades motoras e de linguagem e a maior associação com transtorno do espectro autista nos filhos expostos durante a gestação, e acrescenta o dado que fecha a questão: a triagem pré-natal não identifica a criança cujo desenvolvimento neurológico será afetado. Como o dano acontece nas primeiras semanas, muitas vezes antes de a gestação ser conhecida, a decisão sobre o valproato na menina precisa ser tomada muito antes de a gravidez ser um plano — e é por isso que o mesmo protocolo manda começar a conversa sobre contracepção logo depois da menarca.
Como se apresenta de verdade
O percurso começa com a descrição do evento: o que aconteceu antes, como a crise começou e como a criança se recuperou. Depois, separa-se uma crise aguda provocada de uma possível epilepsia e reconhecem-se síndromes que mudam investigação e tratamento. Crise prolongada e espasmos do lactente exigem decisões rápidas; o seguimento pede atenção a desenvolvimento, adesão, efeitos adversos, segurança e participação na escola. O vídeo pode ajudar, mas não substitui história e exame.
Use os capítulos de crise febril, meningites e neonatologia quando a idade e o contexto apontarem para essas causas. Aqui, a primeira crise sem febre, o reconhecimento das síndromes e o cuidado longitudinal têm percursos próprios. A escolha do medicamento depende de tipo de crise, síndrome, idade, comorbidades e riscos; a disponibilidade na rede é verificada depois de definir a indicação clínica.
Na criança com paralisia cerebral, compare o episódio com seus movimentos habituais e com o estado basal descrito pela família. Um plano de resgate precisa indicar quando agir, medicamento, dose, via e acionamento da emergência. A revisão de sedação, deglutição e secreções é articulada com o cuidado da paralisia cerebral. No estado de mal refratário, a equipe de emergência estabiliza e aciona terapia intensiva para continuidade do tratamento.
A primeira crise sem febre: a história que classifica
A crise quase nunca acontece na frente do médico, e o diagnóstico é, na maioria das vezes, clínico: sai da história contada por quem viu. O protocolo federal lista o que precisa ser colhido e registrado, e cada item muda uma decisão. Como começou — o primeiro sinal, antes de o corpo inteiro endurecer, porque é ele que diz se a crise é focal. Se houve aura, isto é, uma sensação que a criança consegue relatar antes de perder o contato. O que precipitou: privação de sono, febre, trauma, remédio, luz piscando. A hora: no sono, ao adormecer, nas horas antes de acordar, na primeira hora depois de acordar. Quanto durou e como terminou: confusão, sono, paresia de um lado. E a pergunta que quase ninguém faz: se já aconteceram, antes, episódios que ninguém chamou de crise — o olhar parado na sala de aula, o tranco dos braços de manhã, a baba no travesseiro.
Depois vêm os antecedentes que o protocolo pede: gestação e parto, crises no período neonatal, crises febris, qualquer crise sem febre anterior, epilepsia na família, trauma craniano, infecção do sistema nervoso, intoxicação. E o desenvolvimento, que na criança é o sinal vital neurológico: o menino de 9 anos que lê bem no quarto ano está numa categoria diagnóstica diferente da criança que parou de ganhar habilidades.
A segunda pergunta é se a crise foi provocada. Febre, trauma, infecção do sistema nervoso e distúrbio metabólico agudo produzem crise sem que haja epilepsia, e cada um tem dono: a crise com febre em Crise febril na criança, a meningite em A ordem certa não é a ordem do raciocínio, o comprimido da avó em O acidente tem idade. A crise sem nada disso é a crise não provocada, e é dela que este capítulo trata.
A terceira é o vídeo. A Sociedade Brasileira de Pediatria registra que o vídeo feito em casa muitas vezes ajuda no diagnóstico, e a classificação de 2025 pede que a crise seja descrita pela sequência do que se observa, na ordem em que acontece. Oriente a família para depois: primeiro proteger a criança, depois filmar se houver outro adulto; filmar desde o começo, o corpo inteiro e o rosto, sem cobertor por cima; falar a hora em voz alta; chamar a criança pelo nome durante o episódio, para que o vídeo mostre se ela responde. No prontuário de Xisto, pela régua de 2025, a crise se escreve assim: crise focal com consciência preservada no início — boca puxando para a direita, sialorreia, sem conseguir falar, olhando para a mãe —, evoluindo para tônico-clônica bilateral, no sono, cerca de dois minutos, com confusão depois.
O que não é crise: os eventos que enchem o ambulatório
Os eventos paroxísticos não epilépticos imitam crise, não têm descarga neuronal anormal e acontecem do recém-nascido ao adolescente. O Departamento Científico de Neurologia da Sociedade Brasileira de Pediatria resume o que os separa: costumam se repetir no mesmo contexto, e a história detalhada é a melhor ferramenta. A crise de perda de fôlego é o exemplo mais enganoso: um estresse físico, como uma batida na cabeça, ou emocional provoca choro, depois uma pausa e mudança de cor — palidez ou cianose. Nos episódios longos pode haver perda de consciência, endurecimento, abalos e até perda de urina, e o fim é abrupto, com uma inspiração profunda. Concentra-se entre 6 meses e 2 anos. O que decide é a ordem: o gatilho e o choro vêm antes, nunca depois.
O devaneio, ou fenômeno de desligamento, é olhar parado em que a criança ignora quem fala com ela, mas é interrompido por um toque e não aparece quando ela está interessada em alguma coisa — o contrário da ausência, que interrompe a atividade de que a criança gosta. O terror noturno é do pré-escolar, no primeiro terço da noite, em sono profundo: a criança senta ou levanta de olhos abertos, grita, sua, tem o coração disparado e não lembra de nada de manhã. A síncope é mais da adolescência, vem depois de mudança de postura ou emoção, com tontura, náusea, calor, zumbido e escurecimento da visão; pode ter desvio dos olhos para cima, perda de urina e tremores. Os abalos da síncope são breves e a recuperação é rápida, e é o contexto, com essa brevidade, que a separa da crise tônico-clônica. Os tiques atingem até um quinto dos escolares, começam entre 4 e 8 anos, vêm precedidos de uma urgência e seguidos de alívio, somem durante o sono e pioram com estresse.
No lactente, as mioclonias benignas do sono aparecem em salvas enquanto ele dorme, não o acordam e somem no primeiro semestre; o estremecimento dura segundos com consciência preservada; a autogratificação, entre 3 meses e 3 anos, tem olhar fixo, balanceio com as pernas cruzadas, rubor e suor, e para com uma distração. Para os espasmos, a Liga Internacional Contra a Epilepsia lista os imitadores que o eletroencefalograma separa: mioclonia benigna do lactente, cólica com crises de choro e endurecimento, refluxo e síndrome de Sandifer, estremecimentos, quedas benignas da cabeça entre 3 e 6 meses, hiperecplexia e abalos do adormecer. No adolescente, as crises não epilépticas psicogênicas entram no diferencial da tônico-clônica: consciência preservada, movimentos fora de fase, movimento pélvico, cabeça virando de um lado para o outro e curso flutuante.
Os espasmos do lactente: o susto que vem em salva
O espasmo epiléptico é uma flexão, uma extensão ou uma mistura das duas nos músculos do tronco e da raiz dos membros, mais sustentada que um abalo mioclônico e menos mantida que uma crise tônica, às vezes com careta, queda da cabeça ou movimento sutil dos olhos — e se repete em salvas. Para a família, pode parecer susto ou cólica — os dois estão entre os imitadores que a Liga lista —, e o que chama atenção é a repetição em sequência. A Liga Internacional Contra a Epilepsia reuniu esses lactentes, desde 2022, sob o nome de síndrome dos espasmos epilépticos infantis: espasmos flexores, extensores ou mistos começando entre 1 e 24 meses, com pico entre 3 e 12, e eletroencefalograma com hipsarritmia ou com descargas focais ou multifocais. O nome engloba a síndrome de West, a tríade de espasmos, hipsarritmia e estagnação ou regressão do desenvolvimento, e também os lactentes a quem falta um dos três elementos.
Duas ausências enganam o interno. A primeira é a do atraso: o prejuízo do desenvolvimento pode não estar aparente no começo, e esperar a regressão para suspeitar é esperar o dano. A segunda é a da hipsarritmia: ela não é obrigatória para o diagnóstico, e o consenso brasileiro de 2023 é explícito em que sua falta no primeiro eletroencefalograma não justifica adiar o tratamento. O que é obrigatório é o espasmo, e um eletroencefalograma interictal normal exclui a síndrome.
No mesmo primeiro ano aparece a síndrome que se nomeia e se encaminha: a de Dravet. O quadro é o de um lactente de desenvolvimento normal que passa a ter crises prolongadas, com e sem febre, clônicas de um lado do corpo que alternam de lado de uma crise para a outra, a partir de 1 a 20 meses, com outros tipos de crise depois do primeiro ano e prejuízo cognitivo e comportamental a partir do segundo. Mais de 80% das crianças têm variante no gene SCN1A, e uma boa resposta a carbamazepina, oxcarbazepina ou fenitoína depõe contra o diagnóstico. A criança com menos de 1 ano que tem crise febril prolongada, hemiclônica ou tônico-clônica bilateral, sem outra causa, é justamente aquela em que a Liga manda considerar essa possibilidade.
A ausência da infância: a criança que desliga
A ausência típica começa de repente: a criança para o que está fazendo, fixa o olhar, perde a expressão e deixa de responder. Em 86% há automatismos da boca ou das mãos, e em cerca de três quartos há piscamento ou pequenas mioclonias das pálpebras ou em volta da boca. Dura tipicamente de 3 a 20 segundos, com mediana de 10, e raramente passa de 30; a volta é imediata, às vezes com um instante de desorientação. Acontece várias vezes por dia e passa despercebida por muito tempo — a queixa costuma chegar como desatenção, nota baixa ou “sonha acordada”. A epilepsia ausência da infância começa tipicamente entre 4 e 10 anos, é mais comum em meninas, e a criança costuma ter desenvolvimento normal, embora dificuldade específica de aprendizagem e desatenção possam coexistir e passar despercebidas. Se as ausências começaram antes dos 4 anos, a Liga lembra que 10% dessas crianças têm deficiência do transportador de glicose tipo 1, e a investigação muda.
O eletroencefalograma da síndrome tem ponta-onda generalizada de 3 hertz no início da ausência, e essa descarga é ativada pela hiperventilação — a ponto de a Liga excluir o diagnóstico na criança sem tratamento que hiperventila bem por três minutos ou mais e não mostra a descarga. É o teste de consultório que a própria régua sugere: peça à criança que sopre um cata-vento imaginário, com força e sem parar, por três minutos, com a família olhando. Se ela para, fixa o olhar e não responde ao seu chamado, você acabou de ver a crise que a professora descreve; se a hiperventilação bem feita não traz nada, a hipótese enfraquece e o eletroencefalograma decide.
Os alertas da Liga dizem quando a história não é de ausência da infância: ausências menos que diárias sem tratamento, olhar parado que dura mais de 30 segundos ou que termina em confusão ou cansaço, crise tônico-clônica antes ou durante o período de ausências frequentes, e início abaixo de 2 ou acima de 13 anos, que exclui. Olhar parado prolongado, com confusão, sonolência ou dor de cabeça depois, sugere crise focal com comprometimento da consciência, e o remédio é outro. A ausência da infância remite no começo da adolescência em 60% dos casos; nos demais, pode evoluir para outra epilepsia generalizada, inclusive a mioclônica juvenil.
Pontas centrotemporais: a boca que puxa de madrugada
A epilepsia autolimitada com pontas centrotemporais — a antiga epilepsia rolândica benigna — tem uma crise que, bem contada, se reconhece pela história. Começa com dormência ou formigamento de um lado da língua, dos lábios, da gengiva ou da bochecha; segue com contração tônica ou clônica de um lado da boca, da língua e depois da face; a criança não consegue falar, mas entende o que se diz; e baba — a sialorreia é um sintoma característico. No sono, a crise pode avançar para o braço do mesmo lado, para o hemicorpo ou para uma tônico-clônica bilateral, e pode deixar paresia transitória. De 80% a 90% das crianças têm as crises dormindo, e a régua da Liga pede que, no sono, elas aconteçam até uma hora depois de adormecer ou nas uma a duas horas antes de acordar. Xisto, às 5h10, está dentro dessa janela.
As crises são curtas, em geral de menos de dois ou três minutos, e poucas — a maioria das crianças tem menos de dez na vida —, podem vir em grupos de dias ou semanas e depois sumir por meses. O curso é bom: as crises costumam cessar até a puberdade, às vezes até os 18 anos; alterações de linguagem e de funções executivas podem aparecer durante a fase ativa e, em geral, melhoram com a idade; e as crises respondem bem ao remédio quando ele é necessário. O eletroencefalograma mostra pontas centrotemporais bifásicas de alta amplitude, ativadas pelo sono.
O que tira a criança dessa síndrome, pela Liga, merece estar na ponta da língua: crises só de dia, tônico-clônica em vigília, ausências atípicas, crises com alucinação de gosto, medo ou sinais autonômicos, déficit neurológico que não seja a paresia pós-crise, deficiência intelectual moderada a profunda, início abaixo de 3 ou acima de 14 anos, e lesão causal na ressonância. Estado de mal com mais de 30 minutos e crises mais que diárias pedem cautela com o nome. E a regressão de linguagem ou cognição com ponta-onda contínua no sono sugere evolução para a encefalopatia com ativação de ponta-onda no sono, que é outra doença e outra urgência.
A mioclônica juvenil, e as encefalopatias que só se nomeiam
Na epilepsia mioclônica juvenil, a crise obrigatória é a mioclônica: abalos rápidos, em geral dos braços, de um lado ou dos dois, que acontecem sobretudo na primeira hora depois de acordar e são facilitados pela privação de sono. O adolescente muitas vezes não os reconhece como crise — derruba a escova de dentes, a xícara, o celular, e acha que é sono ou nervoso — e eles são lembrados só depois da primeira tônico-clônica, que ocorre em mais de 90% dos casos, frequentemente precedida por uma série de mioclonias em crescendo, ao acordar ou depois de uma noite sem dormir. Um terço tem também ausências curtas, de 3 a 8 segundos, menos que diárias. As mioclonias podem ser desencadeadas por luz piscando. Desvio da cabeça antes de a consciência se alterar sugere epilepsia focal; desvio depois disso é comum na própria mioclônica juvenil.
O protocolo federal escreve que ela é relativamente fácil de controlar quando se evitam privação de sono, álcool e má adesão, e que frequentemente exige tratamento prolongado; o protocolo citado descreve recorrência acima de 90% após retirada, mas a decisão individual pertence ao seguimento especializado. Carbamazepina, oxcarbazepina e fenitoína com frequência agravam as mioclonias e as ausências, e a lamotrigina pode agravar as mioclonias de alguns pacientes — o que importa na adolescente a quem se quer poupar do valproato.
Duas encefalopatias epilépticas bastam ser nomeadas, porque o interno as encontra já diagnosticadas. A síndrome de Lennox-Gastaut tem crises tônicas obrigatórias e pelo menos mais um tipo — ausência atípica, atônica, mioclônica, focal, tônico-clônica —, eletroencefalograma com ponta-onda lenta generalizada abaixo de 2,5 hertz e atividade rápida paroxística no sono, início antes dos 18 anos, resistência aos fármacos e deficiência intelectual; o protocolo federal lembra que, nela, suprimir as crises de queda importa mais do que suprimir as ausências atípicas. A síndrome de Dravet está na seção dos espasmos. Nas duas, o que o interno faz é reconhecer o nome no prontuário, não trocar o remédio que o neuropediatra escolheu e saber que crise prolongada faz parte da história de Dravet e que o estado de mal não convulsivo está entre os tipos de crise de Lennox-Gastaut.
Como fechar o diagnóstico
A investigação da criança que convulsiona corre em dois relógios. O do pronto-socorro mede minutos e só tem três perguntas: há hipoglicemia, a crise ainda está acontecendo, há causa aguda que precise de tratamento próprio. O do consultório mede semanas e pergunta outra coisa: que crise foi, que síndrome ela desenha e o que isso significa para o remédio e para o futuro. O erro mais comum é trocar os relógios — pedir tomografia de urgência para a criança que acordou bem depois de uma crise típica e, na mesma noite, mandar para casa sem eletroencefalograma pedido e sem plano o menino que vai ter a segunda crise dormindo.

No pronto-socorro: glicemia, relógio e causa aguda
Meça a glicemia imediatamente na criança que está convulsionando ou que não recuperou a consciência, enquanto outra pessoa prepara o tratamento e avalia via aérea, ventilação e circulação. Hipoglicemia é uma causa reversível e deve ser corrigida prontamente. A obtenção da glicemia não é condição para iniciar o benzodiazepínico quando a crise já atingiu o limiar de tratamento; as ações são paralelas. O marco de emergência apresenta o protocolo de correção adotado, com distinção por idade.
O segundo dado é a hora de início, e ela vem de quem viu. Corina chegou às 5h52, mas a crise começou às 5h35: ela entra na sala com 17 minutos de crise, e é esse número que decide a sequência. O protocolo do SAMU manda medicar só a crise que passa de 5 minutos e tratar como estado de mal a crise que persiste depois das primeiras medidas ou as crises que se repetem sem recuperação da consciência entre elas. Monitor cardíaco, oximetria e oxigênio por máscara quando a saturação cai abaixo de 94% entram junto.
Os exames de sangue, pelo protocolo federal da epilepsia, seguem a história e o exame físico, e não uma bateria fixa. Na criança com epilepsia conhecida que ficou sem o remédio, o nível sérico do fármaco documenta a falta e serve de ponto de partida; na criança febril com sinal meníngeo, a pergunta é de A ordem certa não é a ordem do raciocínio; na que chegou com história de ingestão, de O acidente tem idade. Na criança que chegou em estado de mal sem explicação, sódio, cálcio e a triagem que o contexto sugerir fazem sentido; na que teve uma crise curta e acordou bem, como Xisto, raramente mudam alguma coisa.
A imagem de urgência também é pergunta de causa aguda. O que a justifica no pronto-socorro é o que sugere lesão que precisa de tratamento naquela noite: trauma craniano, déficit neurológico que não seja a paresia transitória pós-crise, sinais de hipertensão intracraniana, a criança que não volta ao seu estado habitual. A criança que teve uma crise típica e está acordada, orientada e com exame normal não precisa de tomografia de madrugada — precisa do exame certo na hora certa, que é outro.
O eletroencefalograma: o exame que dá nome à síndrome
O protocolo federal escreve que o eletroencefalograma não é obrigatório nem essencial para diagnosticar epilepsia, porque o diagnóstico se faz pela descrição da crise — e, na mesma página, que ele é o principal exame complementar: identifica o tipo e a localização da atividade epileptiforme, orienta a classificação da síndrome e a escolha do fármaco. As duas frases não se contradizem; respondem perguntas diferentes. Na criança, a segunda é a que importa, porque a síndrome decide o remédio e o prognóstico, e as quatro síndromes deste capítulo têm o eletroencefalograma entre os critérios obrigatórios: ponta-onda generalizada de 3 hertz na ausência da infância, pontas centrotemporais ativadas pelo sono na epilepsia com pontas centrotemporais, ponta-onda ou poliponta-onda de 3 a 5,5 hertz na mioclônica juvenil. Nos espasmos, o interictal com hipsarritmia ou descargas focais ou multifocais é obrigatório, e o normal exclui.
Esta apostila adota: toda criança com primeira crise sem febre e não provocada sai do pronto-socorro com eletroencefalograma ambulatorial pedido, com registro de sono quando a crise aconteceu dormindo — e sai já com a orientação de segurança e o plano de resgate, sem esperar o resultado. Nos espasmos do lactente, o exame é pedido como urgência de dias, como manda o protocolo federal. O registro precisa ter pelo menos 30 minutos e seguir o sistema internacional 10-20 de colocação de eletrodos.
O que o exame não faz também precisa ser dito à família. Um eletroencefalograma normal não exclui epilepsia: o apêndice do protocolo federal registra que, no adulto, cerca de metade dos exames é normal depois da primeira crise e que, mesmo depois de cinco exames com sono, 20% não mostram alteração; repetir e prolongar o registro aumenta o rendimento. E 2% a 3% da população têm alterações epileptiformes no traçado sem nunca ter epilepsia — laudo alterado em criança sem história compatível não é diagnóstico. Na epilepsia com pontas centrotemporais, a própria Liga admite o diagnóstico sem eletroencefalograma em regiões de poucos recursos quando nenhum alerta está presente; num serviço que tem o exame, ele é pedido.
A ressonância: quem precisa e quem não precisa
A régua federal para a imagem é a suspeita de causa estrutural, que aparece sobretudo nas epilepsias focais. A ressonância magnética de encéfalo é o exame; o protocolo diz com todas as letras que não é preciso pedir tomografia antes dela. Encontrar uma lesão muda o prognóstico — é forte preditor de refratariedade à monoterapia e pode indicar cirurgia —, e metade das pessoas com epilepsia tem alguma anormalidade estrutural à imagem, proporção que chega a três quartos nos centros de epilepsia refratária.
As síndromes pedem coisas diferentes. Na epilepsia com pontas centrotemporais, a Liga escreve que a ressonância não é necessária para o diagnóstico e deve ser fortemente considerada quando há algum alerta; nos espasmos do lactente e na suspeita de Dravet, não é obrigatória, mas é muito recomendada para procurar a causa; na síndrome de Lennox-Gastaut, costuma ser feita pela mesma razão. Para Xisto, com história típica, exame normal e nenhum alerta, a ressonância não entra agora; entra se o eletroencefalograma não mostrar as pontas centrotemporais, se aparecer déficit, crise diurna, regressão ou qualquer outro alerta da tabela. Para Corina, com epilepsia focal desde os dois anos, a pergunta a fazer ao pai é se a ressonância já foi feita — a crise de hoje, provocada pela falta do remédio, não é motivo para repeti-la.
O lactente com espasmos: investigar sem atrasar o remédio
O algoritmo do consenso brasileiro de 2023 põe a investigação e o tratamento em paralelo, não em fila: história, exame, eletroencefalograma, ressonância, exames laboratoriais, triagem metabólica com lactato e amônia, e teste genético — e, ao lado, o início do tratamento. O protocolo federal pede o eletroencefalograma em poucos dias quando há suspeita e o tratamento imediato quando o diagnóstico se confirma, com reavaliação clínica e eletroencefalográfica, em vigília e em sono, depois de 14 dias.
Antes do corticoide em dose alta, o consenso pede três conferências. A criança não pode ter sinal de infecção e precisa estar com pressão arterial normal. Os exames de base são hemograma, glicemia, sódio, potássio, cálcio, proteína C-reativa, transaminases e urina. E o antiparasitário profilático é sempre dado antes: abaixo de 2 anos, albendazol 200 mg em dose única, que na relação nacional corresponde a 5 mL da suspensão de 40 mg/mL; o mebendazol, alternativa do consenso, não está na relação nacional.
A piridoxina tem indicação estreita no consenso: não trata espasmos, serve para afastar dependência de piridoxina, e só se usa quando os espasmos vêm acompanhados de outras crises focais sem causa definida — 200 mg por dia por dois a três dias, de preferência com eletroencefalograma registrando. A criança com etiologia já definida não recebe. A apresentação venosa não existe no Brasil, segundo o consenso, e a relação nacional traz comprimido de 50 mg: 200 mg são quatro comprimidos por dia, e a forma de dar a um lactente fica com a farmácia do serviço.
Se a vigabatrina for começar, o protocolo federal manda buscar ativamente o efeito sobre o campo visual, que aparece em até 40% dos tratados, é progressivo com a dose acumulada, não dá sintoma na maioria dos pacientes e só se reverte quando o fármaco é suspenso cedo — por eletrorretinografia e potencial evocado visual, porque o lactente não diz que vê menos. E a resposta se certifica com vídeo-eletroencefalograma de 12 a 24 horas, que o consenso recomenda para confirmar a ausência de espasmos e de períodos de hipsarritmia.
Nível sérico: quando serve
Nível sérico se pede com uma pergunta. O protocolo federal lista quando ele é útil: avaliar adesão, diagnosticar intoxicação, estabelecer o nível em que aquele paciente fica controlado, ajustar dose quando a farmacocinética varia — mudança de formulação, criança, idoso, doença associada —, na gestação e na politerapia, e no fármaco de janela estreita e cinética dependente de dose, que é a fenitoína. A maioria dos laboratórios dosa carbamazepina, fenitoína, fenobarbital e ácido valproico, e as faixas terapêuticas se leem em microgramas por mililitro (o protocolo as imprime com a unidade errada; ver as notas do critério).
Dois comportamentos pedem cuidado na criança. A fenitoína tem cinética saturável: a partir de certa dose — o protocolo cita cerca de 300 mg/dia no adulto —, pequenos aumentos produzem subidas desproporcionais do nível, e o ajuste se faz em passos pequenos e com dosagem. O fenobarbital tem meia-vida longa, de dois a sete dias, e sua retirada precisa ser feita em doses muito pequenas e por muito tempo, pelo risco de crises de abstinência; o protocolo considera inadequado trocá-lo no paciente bem controlado, a menos que haja efeito adverso inaceitável. Para todos os fármacos, a monitorização anual inclui hemograma com plaquetas, transaminases, sódio e potássio, perfil lipídico, vitamina D e função tireoidiana.
O que existe na rede — e o que não existe
No Componente Básico da relação nacional estão diazepam em solução injetável de 5 mg/mL e em comprimidos; fenitoína em comprimido, suspensão oral de 20 mg/mL e solução injetável de 50 mg/mL; fenobarbital em comprimido, solução oral de 40 mg/mL e solução injetável de 100 mg/mL; ácido valproico em cápsula, comprimidos e solução ou xarope de 50 mg/mL; carbamazepina em comprimidos e suspensão de 20 mg/mL; clonazepam em solução oral de 2,5 mg/mL; prednisolona em solução oral de 1 e 3 mg/mL. No Especializado, que segue os critérios do protocolo federal, estão levetiracetam em comprimidos e solução oral de 100 mg/mL, vigabatrina em comprimido de 500 mg, etossuximida em xarope de 50 mg/mL, lamotrigina, topiramato, clobazam e primidona em comprimidos.
O que falta muda a conduta. Na relação nacional, o midazolam aparece apenas em solução oral de 2 mg/mL. O de 5 mg/mL para injeção, que o protocolo do SAMU manda usar por via intramuscular e intranasal, sai da padronização de cada hospital. Quando não houver, a via sem acesso venoso que a relação nacional sustenta é o diazepam retal, feito com a própria solução injetável. O levetiracetam não tem apresentação venosa na relação nacional; oxcarbazepina, tetracosactídeo e glicose a 25% também não constam. E a vigabatrina, registrada no país, tem disponibilidade muito variável na rede pública, como admite o consenso brasileiro: o lactente com espasmos não pode ficar esperando o comprimido para começar a prednisolona.
Da crise ao nome, e do nome ao remédio: a régua de cada decisão
Cada decisão deste capítulo tem uma régua, e nem todas são brasileiras. Diagnóstico de epilepsia, início e retirada do tratamento, indicações por idade, doses de manutenção e monitorização seguem o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Epilepsia, de 2018, na versão mantida pelo Ministério da Saúde com alterações até abril de 2026. A dose por quilo na crise prolongada e no estado de mal da criança segue o protocolo pediátrico APed22 do SAMU 192, revisado em 2016, porque o protocolo da epilepsia só traz doses de adulto. Os espasmos do lactente seguem o consenso da Sociedade Brasileira de Neurologia Infantil de 2023, escrito para essa síndrome e para o que o SUS tem. O nome das crises segue a classificação da Liga Internacional Contra a Epilepsia de 2025, que o protocolo federal ainda não incorporou — ele usa a de 2017. O nome das síndromes segue as definições da Liga de 2022; o apêndice do protocolo federal usa a lista anterior, com síndrome de West e epilepsia benigna com espículas centrotemporais. O que é e o que não é crise segue o manual de orientação do Departamento Científico de Neurologia da Sociedade Brasileira de Pediatria, de 2020. Onde duas réguas brigam, a divergência está declarada com o lado que esta apostila adota; onde um documento erra um número que muda a conduta, a conta está nas notas.
- 1Evento paroxístico: foi crise? A história e o vídeo separam primeiro os eventos que imitam crise — perda de fôlego, síncope, devaneio, terror noturno, tique, mioclonia benigna do sono.
- 2Ainda está em crise? Hora de início contada por quem viu, glicemia capilar agora, monitor e oxigênio se a saturação estiver abaixo de 94%.
- 3Glicemia abaixo de 60 mg/dL a partir de 1 mês, ou abaixo de 50 mg/dL no recém-nascido sintomático: corrigir a glicose antes de insistir no benzodiazepínico.
- 4Crise em curso por 5 minutos ou de duração desconhecida: benzodiazepínico pela via disponível. Persistência após 5 minutos permite uma repetição, contando doses pré-hospitalares. Após duas doses adequadas, iniciar segunda linha conforme protocolo e equipe; persistência exige manejo de refratariedade em terapia intensiva.
- 5Recém-nascido até 28 dias: fenobarbital na primeira linha, nunca diazepam.
- 6Crise que persiste depois dos benzodiazepínicos, ou crises repetidas sem recuperar a consciência: estado de mal — fenitoína 20 mg/kg em soro fisiológico, com monitor; em quem já usa fenitoína, 5 a 10 mg/kg ou outro fármaco.
- 7Persistiu depois da fenitoína: fenobarbital 20 mg/kg e, se preciso, mais 10 mg/kg. Persistiu: midazolam contínuo, via aérea e terapia intensiva.
- 8A crise terminou: houve febre? Crise febril na criança. Trauma, ingestão, sinal meníngeo, déficit que não é a paresia pós-crise ou criança que não volta ao habitual: a causa aguda vem primeiro.
- 9Primeira crise sem febre e não provocada, criança acordada e com exame normal: sem tomografia de madrugada; eletroencefalograma ambulatorial, com sono se a crise foi dormindo; orientação de segurança e plano de resgate escritos hoje.
- 10O remédio começa hoje? Pelo protocolo federal: risco de recorrência, consequência de nova crise e efeito adverso; a decisão se fortalece depois de duas crises não provocadas com mais de 24 horas de intervalo.
- 11A história e o eletroencefalograma desenham uma síndrome? Espasmos em salvas no lactente: tratamento em dias, sem esperar hipsarritmia. Ausência da infância: etossuximida pelo protocolo. Pontas centrotemporais sem alertas: crises raras, curtas e noturnas pesam contra o remédio. Mioclônica juvenil: tratamento contínuo, sem bloqueador de canal de sódio.
- 12Menina com potencial de engravidar: valproato evitado sempre que possível; se for o escolhido, menor dose efetiva, se possível até 500 a 600 mg/dia, com contracepção eficaz e a conversa registrada.
- 13Em tratamento: reavaliação a cada 3 meses com diário de crises; nível sérico só com pergunta — adesão, intoxicação, fenitoína, politerapia —; exames anuais.
- 14Duas monoterapias adequadas sem controle: epilepsia refratária — rever o diagnóstico e encaminhar a centro de epilepsia. Dois anos sem crise na criança: a retirada pode ser discutida, com mais cautela se a crise era focal ou o eletroencefalograma é alterado; na mioclônica juvenil, não.
Crise prolongada e estado de mal na criança: dose, via e volume, com exemplo de 16 kg
| Momento | Fármaco e via | Dose e teto | Para 16 kg | Na relação nacional | Régua |
|---|---|---|---|---|---|
| Crise com mais de 5 min, com acesso | Diazepam venoso ou intraósseo, sem diluir | 0,3 a 0,5 mg/kg; máximo 10 mg; velocidade de até 5 mg/min | 4,8 a 8 mg = 0,96 a 1,6 mL da solução de 5 mg/mL, em 1 a 2 min | Sim, 5 mg/mL, Básico | APed22 na dose; PCDT na velocidade (divergência) |
| Crise com mais de 5 min, sem acesso | Diazepam retal, com a solução injetável | 0,5 mg/kg (APed22 admite até 1 mg/kg); máximo 10 mg | 8 mg = 1,6 mL | Sim, 5 mg/mL, Básico | APed22 |
| Sem acesso, se o hospital tiver midazolam injetável | Midazolam intramuscular | 0,2 mg/kg; máximo 5 mg | 3,2 mg = 0,64 mL da solução de 5 mg/mL | Não; só solução oral de 2 mg/mL | APed22 |
| Sem acesso, se o hospital tiver midazolam injetável | Midazolam intranasal, metade em cada narina | 0,3 mg/kg; máximo 7,5 mg; usar 5 mg/mL | 4,8 mg = 0,96 mL; 0,48 mL em cada narina | Não; só solução oral de 2 mg/mL | APed22 |
| Persistiu depois dos benzodiazepínicos | Fenitoína venosa em soro fisiológico, com monitor cardíaco | 20 mg/kg; até 1 mg/kg/min e nunca acima de 50 mg/min; em quem já usa, 5 a 10 mg/kg | 320 mg = 6,4 mL da solução de 50 mg/mL, em pelo menos 20 min | Sim, 50 mg/mL, Básico | APed22; PCDT no teto de 50 mg/min |
| Persistiu depois da fenitoína | Fenobarbital venoso ou intraósseo, lento | 20 mg/kg a até 30 mg/min; se persistir, mais 10 mg/kg | 320 mg = 3,2 mL da solução de 100 mg/mL, em pelo menos 11 min; reforço de 160 mg = 1,6 mL | Sim, 100 mg/mL, Básico | APed22 |
| Persistiu depois do fenobarbital | Midazolam contínuo em bomba, com via aérea e terapia intensiva | Ataque de 0,2 mg/kg (máximo 5 mg); depois 0,1 a 0,2 mg/kg/h | 3,2 mg; depois 1,6 a 3,2 mg/h | Não; só solução oral | APed22 |
| Glicemia abaixo de 60 mg/dL, a partir de 1 mês | Glicose venosa | 0,5 a 1 g/kg; glicemia de novo em 10 min; alvo 100 mg/dL | 8 a 16 g; o APed25 escreve em glicose a 25% (32 a 64 mL); na relação nacional, 8 g são 80 mL de glicose a 10% | 10% e 50%; a 25% não consta | APed25 |
| Recém-nascido, até 28 dias | Fenobarbital venoso ou intraósseo; nunca diazepam | 20 mg/kg, repetível uma vez; depois fenitoína 20 mg/kg; depois midazolam | Para 3,5 kg: 70 mg = 0,7 mL da solução de 100 mg/mL | Sim, 100 mg/mL, Básico | APed22 |
As síndromes que o interno precisa reconhecer
| Síndrome (nome de 2022; nome no protocolo federal) | Idade de início | O que a família vê | Eletroencefalograma | O que piora ou atrasa | Primeiro passo na rede |
|---|---|---|---|---|---|
| Síndrome dos espasmos epilépticos infantis (síndrome de West) | 1 a 24 meses; pico entre 3 e 12 | Flexão ou extensão súbita do tronco e dos braços, repetida em salvas; o atraso pode não aparecer no começo | Hipsarritmia ou descargas focais ou multifocais; normal exclui | Esperar hipsarritmia, regressão ou ressonância para tratar | Eletroencefalograma em dias; prednisolona oral ou vigabatrina, ou as duas; vigabatrina primeiro na esclerose tuberosa |
| Epilepsia ausência da infância (mesmo nome) | Típico entre 4 e 10 anos; exclui abaixo de 2 e acima de 13 | Para, fixa o olhar e não responde por 3 a 20 s, várias vezes ao dia; automatismos de boca ou mãos | Ponta-onda generalizada de 3 Hz, ativada pela hiperventilação | Fenitoína, contraindicada em ausência; vigabatrina, que aumenta ausências | Etossuximida a partir de 3 anos pelo protocolo federal |
| Epilepsia autolimitada com pontas centrotemporais (epilepsia benigna com espículas centrotemporais) | Típico entre 4 e 10 anos; exclui abaixo de 3 e acima de 14 | Dormindo ou nas horas antes de acordar: boca puxando de um lado, baba, não fala mas entende; pode generalizar | Pontas centrotemporais bifásicas de alta amplitude, ativadas pelo sono | Tomar por típico o que tem alerta: crise só diurna, déficit, regressão, lesão | Eletroencefalograma com sono; remédio decidido pelo peso das crises; ressonância se houver alerta |
| Epilepsia mioclônica juvenil (mesmo nome) | Típico entre 10 e 24 anos; exclui abaixo de 8 | Abalos dos braços na primeira hora depois de acordar; tônico-clônica depois de noite sem dormir | Ponta-onda ou poliponta-onda generalizada de 3 a 5,5 Hz | Carbamazepina, oxcarbazepina e fenitoína; lamotrigina pode piorar as mioclonias; privação de sono e álcool | Tratamento contínuo; na menina, a conversa sobre valproato antes da primeira receita |
| Síndrome de Dravet (mesmo nome) — só nomear | 1 a 20 meses | Crises prolongadas, com e sem febre, de um lado do corpo, que alternam de lado | Diagnóstico clínico, apoiado pela genética (SCN1A em mais de 80%) | Boa resposta a bloqueador de canal de sódio depõe contra o diagnóstico | Encaminhar à neuropediatria |
| Síndrome de Lennox-Gastaut (mesmo nome) — só nomear | Antes dos 18 anos | Crises tônicas e pelo menos outro tipo, como quedas atônicas e ausências atípicas | Ponta-onda lenta generalizada abaixo de 2,5 Hz; atividade rápida paroxística no sono | Resistência a fármacos é a regra | Manter o esquema do neuropediatra; prioridade é suprimir as crises de queda |
O que não é crise: a pista que separa
| Evento | Idade típica | Como acontece | A pista que separa da crise |
|---|---|---|---|
| Crise de perda de fôlego | 6 meses a 2 anos | Batida ou contrariedade, choro, pausa, palidez ou cianose; nos longos, perda de consciência, endurecimento e abalos | O gatilho e o choro vêm antes; o fim é abrupto, com inspiração profunda |
| Síncope | Adolescência | Ao ficar de pé ou numa emoção; tontura, calor, zumbido, escurecimento; pode haver olhos para cima, tremores e perda de urina | Pródromo e contexto; abalos breves e recuperação rápida |
| Devaneio | Escolar | Olhar parado, sem responder a quem fala | Interrompido por toque; não acontece quando a criança está interessada |
| Terror noturno | Pré-escolar | Primeiro terço da noite; senta ou levanta de olhos abertos, grita, sua, coração disparado | Sem memória de manhã; em sono profundo |
| Tique | Começa entre 4 e 8 anos | Piscar, careta, movimento de cabeça ou de ombro, ruído vocal | Urgência antes e alívio depois; some no sono; piora com estresse |
| Mioclonias benignas do sono | Primeiras semanas até 6 meses | Abalos das extremidades em salvas, durante o sono | Não acordam o bebê; desaparecem no primeiro semestre |
| Autogratificação | 3 meses a 3 anos | Olhar fixo, balanceio com as pernas cruzadas, rubor, suor | Consciência preservada; para com uma distração |
| Refluxo com síndrome de Sandifer, cólica, estremecimento | Lactente | Endurecimento com choro, postura, tremor de segundos | Imitadores de espasmo que o eletroencefalograma separa |
Manutenção na rede: o que o protocolo federal permite e o que ele não dá à criança
| Fármaco e apresentação | Componente | Indicação e idade no protocolo | Esquema que o protocolo dá | Lacuna ou cuidado na criança |
|---|---|---|---|---|
| Etossuximida, xarope de 50 mg/mL | Especializado | Ausência, a partir de 3 anos | 250 mg/dia, mais 250 mg/dia por semana, até 1.500 mg/dia, em 2 ou 3 tomadas | Dose fixa: para 24 kg, o início de 250 mg/dia (5 mL) são 10,4 mg/kg/dia e o teto, 62,5 mg/kg/dia |
| Ácido valproico, solução ou xarope de 50 mg/mL e comprimidos | Básico | Qualquer epilepsia, acima de 10 anos; evitar sempre que possível na menina que pode engravidar | 250 mg/dia, mais 250 mg a cada 3 dias, até 3.000 mg/dia; na mulher, se possível até 500 a 600 mg/dia | Nenhuma dose por quilo, apesar da apresentação líquida; recorte de idade contradiz o próprio texto (nota) |
| Carbamazepina, suspensão de 20 mg/mL e comprimidos | Básico | Crise focal; tônico-clônica acima de 1 ano | Abaixo de 6 anos, 5 a 10 mg/kg/dia até 35 mg/kg/dia; de 6 a 12 anos, 100 mg/dia até 600 a 1.000 mg/dia | Agrava ausência e mioclonia na mioclônica juvenil; piora registrada na síndrome de Angelman |
| Levetiracetam, solução oral de 100 mg/mL e comprimidos | Especializado | Só adjuvante em refratário, inclusive nas mioclonias da mioclônica juvenil | 1 a 6 meses, 14 a 42 mg/kg/dia; até 50 kg, 20 a 60 mg/kg/dia; 50 kg ou mais, 1.000 a 3.000 mg/dia | Não é monoterapia pelo protocolo; não há apresentação venosa na relação nacional |
| Lamotrigina, comprimidos | Especializado | Monoterapia acima de 12 anos após intolerância ou falha de primeira linha; adjuvante acima de 2 anos | 25 mg/dia por 2 semanas, 50 mg/dia por 2 semanas, subindo até 500 mg/dia; com valproato, começo em dias alternados | Pode piorar mioclonias |
| Vigabatrina, comprimido de 500 mg | Especializado | Espasmos epilépticos, sobretudo na esclerose tuberosa; adjuvante em crise focal | 500 mg/dia, mais 500 mg por semana, até 3.000 mg/dia (150 a 200 mg/kg/dia) | Teto absoluto contradiz o parêntese abaixo de 15 kg (nota e divergência); campo visual |
| Prednisolona, solução oral de 3 mg/mL | Básico | Espasmos: corticoide em primeira linha | Nenhum | Dose do consenso de 2023: 10 mg quatro vezes ao dia; 20 mg três vezes ao dia se persistir depois de 1 semana; redução depois de 2 semanas |
| Fenobarbital e fenitoína orais | Básico | Fenobarbital em qualquer idade, inclusive recém-nascido; fenitoína em crianças | Fenobarbital de 50 a 300 mg/dia; fenitoína de 100 a 500 mg/dia | Nenhuma dose por quilo (nota); fenitoína contraindicada em ausência e mioclonia |
Do vídeo ao plano: o que o interno precisa apresentar
| Etapa | Pergunta clínica | Registro útil |
|---|---|---|
| Evento | Foi crise epiléptica ou outra manifestação paroxística? | Início, duração, consciência, movimentos, gatilho, recuperação e vídeo obtido sem atrasar ajuda. |
| Contexto | Há causa aguda provocadora ou sinais de urgência? | Febre, glicemia, trauma, exposição a substâncias, exame neurológico e retorno ao basal. |
| Síndrome | Idade e tipo de crise apontam para um padrão que muda o tratamento? | Espasmos, ausências, crises focais do sono ou mioclonias ao despertar; hipótese e exames dirigidos. |
| Seguimento | O plano controla crises com segurança e permite participação? | Diário, desenvolvimento, escola, adesão, efeitos adversos, plano de resgate e data de retorno. |
Ácido valproico, indicação por idade (protocolo federal da epilepsia, 2018, seção 7.1). A indicação escreve monoterapia e terapia adjuvante em pacientes com mais de 10 anos. O mesmo documento chama o valproato de primeira escolha nas crises generalizadas, cita o ensaio de 453 crianças com ausência em que ele se iguala à etossuximida, lista solução e xarope de 50 mg/mL, adverte sobre hepatotoxicidade abaixo de 2 anos e o põe entre as opções nos espasmos do lactente. O esquema da seção 7.3 é só de dose fixa — 250 mg/dia, mais 250 mg a cada 3 dias, até 3.000 mg/dia. Conta: menino de 7 anos e 24 kg com ausência fica, pela letra da indicação, fora do valproato; pelo esquema, o teto de 3.000 mg/dia equivale a 125 mg/kg/dia. Na criança abaixo de 10 anos, a escolha do valproato é do neuropediatra e a dose por quilo vem da bula do produto; o protocolo não a traz.
Fenobarbital e fenitoína orais (protocolo federal, seções 7.1 e 7.3). O fenobarbital é indicado para pacientes de qualquer idade, inclusive recém-nascidos, e a fenitoína para crianças, adolescentes e adultos, mas o esquema de administração dá só dose fixa: fenobarbital de 50 a 300 mg/dia e fenitoína de 100 a 500 mg/dia, e a frase sobre o teto do fenobarbital diz em adultos, dose máxima de 300 mg/dia, sem dizer o da criança. Conta: num lactente de 10 kg, 300 mg/dia de fenobarbital são 30 mg/kg/dia; numa criança de 15 kg, 500 mg/dia de fenitoína são 33 mg/kg/dia. Quem prescreve pela tabela não tem régua por peso para nenhum dos dois.
Vigabatrina (protocolo federal, seção 7.3). O esquema começa com 500 mg/dia, sobe 500 mg por semana e tem dose máxima de 3.000 mg/dia, com o parêntese 150 a 200 mg/kg/dia na mesma linha. Os dois tetos só coincidem entre 15 e 20 kg. Conta: lactente de 7,5 kg com espasmos — 3.000 mg/dia são 400 mg/kg/dia, de 2 a 2,7 vezes a faixa do próprio parêntese (1.125 a 1.500 mg/dia nesse peso); a dose de início, 500 mg/dia, já é 67 mg/kg/dia. O consenso brasileiro de 2023 começa com 50 mg/kg/dia e chega a 150 mg/kg/dia em cerca de seis dias, com teto de 150 mg/kg/dia — 1.125 mg/dia nesse lactente.
Níveis séricos (protocolo federal, seção 8, conferido na imagem da página). As quatro faixas terapêuticas saem com a unidade g/mL — carbamazepina, fenitoína de 10 a 20, fenobarbital de 10 a 30, ácido valproico de 50 a 100. Conta: 10 g/mL seriam dez vezes a densidade da água; a unidade em que essas faixas fazem sentido é micrograma por mililitro, um fator de um milhão. A faixa da carbamazepina sai ainda sem o limite inferior, impressa como entre e 12. Leia o laudo do laboratório na unidade dele e não transcreva a do protocolo.
Velocidade do diazepam venoso (SAMU 192, APed22, 2016). O protocolo pediátrico manda não exceder velocidade de infusão de 1 mg/kg/min, sem teto absoluto — o mesmo número que dá, logo abaixo, para a fenitoína. Conta: numa criança de 16 kg, o limite escrito é 16 mg/min; numa de 20 kg, 20 mg/min, quatro vezes os 5 mg/min que o protocolo federal da epilepsia dá para o diazepam no adulto, e a dose máxima de 10 mg correria em 30 segundos. A fenitoína a 1 mg/kg/min também sai sem teto: num adolescente de 60 kg, 60 mg/min contra os 50 mg/min do protocolo federal. Esta apostila adota a dose por quilo do APed22 com os tetos de velocidade do adulto — 5 mg/min para o diazepam e 50 mg/min para a fenitoína.
Qual cópia do protocolo federal usar. A cópia hospedada pela Conitec com o nome de 2019 é anterior às alterações pós-publicação de julho de 2025, que acrescentou a piora de crises com carbamazepina e vigabatrina na síndrome de Angelman, e de abril de 2026, que mudou o esquema do topiramato abaixo de 6 anos. A versão servida pela página de protocolos do Ministério da Saúde já traz as duas. Quem consulta a cópia antiga prescreve carbamazepina ou vigabatrina a uma criança com Angelman sem o aviso.
Segurança de leitura: neste capítulo, 50–150 mg/kg/dia é a faixa de vigabatrina para o percurso de espasmos do lactente, não uma faixa compartilhada com prednisolona. Toda proposta de prescrição deve trazer o nome completo do fármaco, unidade, dose diária ou por tomada, via, frequência, duração e plano de monitorização. Não transportar para o lactente uma dose absoluta de adulto.
A conduta, hora a hora
A sequência do estado de mal da criança é a mesma do adulto — benzodiazepínico, depois um antiepiléptico venoso, depois anestesia em terapia intensiva —, e o que muda é o que se escreve na prescrição: a dose por quilo com o teto, o volume em mililitros da apresentação que existe e a via quando não há veia. A régua de dose é o protocolo pediátrico APed22 do SAMU 192; a velocidade de infusão respeita os tetos do adulto do protocolo federal, pela razão que está nas notas do critério e nas divergências. Cada dose sai com o peso escrito ao lado, porque é o peso que o colega da troca de plantão vai conferir.
A decisão mais importante da manhã de Xisto não aparece em nenhuma prescrição de remédio: não começar o antiepiléptico, pedir o exame certo e mandar a família para casa sabendo o que fazer se acontecer de novo. Ela também tem hora, e também se escreve.
5h52 — minuto 17 da crise de Corina: via aérea, glicemia e a primeira dose sem veia
Você posiciona Corina de lado na maca, aspira a saliva, põe a máscara de oxigênio — a saturação está em 88% — e liga o monitor: frequência cardíaca de 164. A glicemia capilar é 104 mg/dL, anotada com a hora. Ela não tem acesso venoso e o braço rígido não deixa ver veia nenhuma. O relógio que conta é o de casa: 17 minutos. Há midazolam de 5 mg/mL no carrinho, padronizado pelo hospital, e Nelusco já aspirou a seringa intramuscular enquanto você faz a conta em voz alta, com o peso que o pai deu. Se o carrinho não tivesse o midazolam, a via sem veia seria o diazepam retal, com a mesma solução injetável da relação nacional, numa seringa sem agulha.
Prescrição- Oxigênio por máscara não reinalante, com saturação acima de 94%
- Glicemia capilar agora, com a hora anotada — 104 mg/dL
- Midazolam 0,2 mg/kg IM = 3,2 mg = 0,64 mL da solução de 5 mg/mL, face lateral da coxa (peso 16 kg; teto 5 mg)
- Se não houver midazolam injetável: diazepam 0,5 mg/kg via retal = 8 mg = 1,6 mL da solução de 5 mg/mL (teto 10 mg)
- Acesso venoso periférico; intraósseo se a veia não vier
6h00 — minuto 25: a crise continua, a veia chegou, a segunda dose
A veia do dorso da mão veio às 5h58. Às 6h00, cinco minutos depois do midazolam, os abalos continuam. Neste percurso, após 5 minutos de persistência, cabe uma segunda dose, contando a primeira dada antes; não se programam três doses antes da segunda linha. Agora há veia: diazepam venoso, sem diluir, empurrado devagar — a velocidade de 1 mg/kg/min escrita no protocolo pediátrico daria 16 mg/min para Corina, e o teto que se usa é o de 5 mg/min do adulto. Com duas doses de benzodiazepínico, o risco de depressão respiratória sobe, e a bolsa-valva-máscara fica ao lado da cabeça dela. Enquanto o diazepam corre, você pede a fenitoína, porque a chance de precisar dela nos próximos minutos é grande e prepará-la leva tempo.
Prescrição- Diazepam 0,3 mg/kg IV = 4,8 mg = 0,96 mL da solução de 5 mg/mL, sem diluir, em cerca de 1 minuto (no máximo 5 mg/min)
- Frequência respiratória e saturação contínuas; bolsa-valva-máscara montada ao lado do leito
- Separar fenitoína 320 mg (6,4 mL da solução de 50 mg/mL) para diluição em soro fisiológico 0,9% — nunca em soro glicosado
6h07 — minuto 32: estado de mal estabelecido, fenitoína
Sete minutos depois do diazepam, Corina ainda tem abalos no braço e na face do lado direito. São 32 minutos de crise e duas doses de benzodiazepínico: é estado de mal, e a próxima linha é a fenitoína. Ela usa carbamazepina, não fenitoína, então a dose é a de ataque inteira. O teto de velocidade da criança, 1 mg/kg/min, dá 16 mg/min — abaixo dos 50 mg/min do adulto —, e por isso a infusão leva pelo menos 20 minutos. O APed22 lembra por que não se acelera: infusão rápida causa bradiarritmia e hipotensão. Às 6h08, antes que a fenitoína termine, você pede a vaga de terapia intensiva pediátrica à regulação: se ela precisar, não vai esperar o telefone.
Prescrição- Fenitoína 20 mg/kg IV = 320 mg = 6,4 mL da solução de 50 mg/mL, em soro fisiológico 0,9%, a no máximo 16 mg/min (1 mg/kg/min), em pelo menos 20 minutos
- Monitor cardíaco contínuo e pressão arterial a cada 5 minutos durante a infusão; reduzir a velocidade se houver bradicardia ou hipotensão
- Fenitoína só por via venosa — nunca intramuscular ou subcutânea
- Regulação acionada para vaga de terapia intensiva pediátrica
6h19 — a crise para durante a infusão; o que viria se não parasse
Com cerca de 240 mg infundidos, os abalos param. A infusão termina na mesma velocidade, porque a dose de ataque é a dose inteira. Se a crise tivesse continuado depois da fenitoína, a sequência do APed22 seguiria com fenobarbital e, depois dele, com midazolam em infusão contínua, via aérea avançada e terapia intensiva — e é aqui que a titulação deixa de ser do pronto-socorro. Com a crise controlada, a pergunta passa a ser a causa: sem febre, sem trauma, sem ingestão, cinco dias sem carbamazepina. É uma crise precipitada pela falta do remédio numa criança com epilepsia, e o nível sérico que você colhe agora documenta essa falta.
Prescrição- Terminar a dose de ataque de fenitoína na mesma velocidade
- Se voltar a convulsionar: fenobarbital 20 mg/kg IV ou IO = 320 mg = 3,2 mL da solução de 100 mg/mL, a no máximo 30 mg/min, em pelo menos 11 minutos; se persistir, mais 10 mg/kg = 160 mg = 1,6 mL
- Se persistir depois do fenobarbital: midazolam 0,2 mg/kg IV = 3,2 mg e infusão contínua de 0,1 a 0,2 mg/kg/h (1,6 a 3,2 mg/h), com via aérea avançada, em terapia intensiva
- Glicemia capilar de controle, sódio, cálcio e nível sérico de carbamazepina
6h45 — Corina dorme: o que vigiar e o que não aceitar
Depois de 44 minutos de crise, dois benzodiazepínicos e uma dose de ataque de fenitoína, Corina dorme profundamente, respira bem, satura 97% com oxigênio e retira o braço à dor. O sono é esperado; o que você vigia é a respiração, a saturação e a volta do nível de consciência. O que não se aceita é a criança que não retorna ao seu estado habitual no correr das horas, ou que mostra movimentos rítmicos discretos da face, dos olhos ou dos dedos: a hipótese passa a ser crise que continua sem convulsão, e aí o caminho é terapia intensiva com eletroencefalograma — o raciocínio do estado de mal não convulsivo é o de O cronômetro e a segunda dose. A carbamazepina volta assim que ela engolir com segurança, e a dose de retomada, depois de cinco dias sem o remédio, é combinada com a neuropediatria que a acompanha.
Prescrição- Decúbito lateral, cabeceira elevada, aspiração de secreção se necessário
- Saturação contínua; nível de consciência, pupilas e frequência respiratória a cada 15 minutos
- Jejum até recuperar a deglutição; retomar a carbamazepina no esquema definido com a neuropediatria
- Transferência para terapia intensiva se não houver recuperação progressiva da consciência ou se surgirem movimentos rítmicos
7h10 — Xisto: primeira crise, nenhum remédio hoje, eletroencefalograma pedido
Com Corina estável, você volta a Xisto. Ele está acordado, orientado, sem déficit, e a mãe mostra de novo o vídeo. A história é de crise focal com consciência preservada no início, com fenômenos da boca e baba, evoluindo para tônico-clônica bilateral, no sono, perto do despertar, num menino de 9 anos com desenvolvimento normal: o desenho da epilepsia autolimitada com pontas centrotemporais. Nada sugere causa aguda, e não há motivo para tomografia de madrugada. O protocolo federal decide o remédio por três critérios — risco de recorrência, consequência de nova crise e efeito adverso —, e a decisão se fortalece depois de duas crises não provocadas. Numa primeira crise noturna e curta, sem eletroencefalograma ainda, os três pesam contra começar hoje. O exame que muda tudo é o eletroencefalograma com sono, e ele sai pedido agora.
Prescrição- Sem antiepiléptico nesta primeira crise
- Eletroencefalograma ambulatorial com registro de sono, pedido hoje
- Ressonância só se o eletroencefalograma não mostrar pontas centrotemporais ou se surgir algum alerta
- Alta com plano de resgate escrito e retorno com o exame; antes, se houver nova crise
7h30 — o plano escrito que sai com as duas famílias
Manuelina e Firmiano recebem a mesma folha, preenchida para cada filho. O que fazer durante a crise vem primeiro, porque é o que eles vão lembrar sob pânico: proteger a cabeça, afastar o que machuca, não colocar nada na boca — o protocolo do SAMU adverte que a tentativa de evitar a mordedura da língua causa lesão dentária e sangramento —, deixar de lado quando os abalos pararem, olhar a hora e, se houver outro adulto, filmar. Quando chamar o SAMU 192: se for a primeira crise, se durar a partir de 5 minutos, se houver ferimento. A orientação da água é a da Sociedade Brasileira de Pediatria: banho de imersão, banheira e piscina só com supervisão. Se a neuropediatria prescrever resgate em casa, a dose sai escrita em mililitros, para o peso da criança, e a via é ensinada com a seringa na mão; na relação nacional, o que existe para isso é o diazepam injetável usado por via retal. Para Firmiano, uma linha a mais: remédio que falta na farmácia não se espera — a equipe de saúde é avisada no mesmo dia.
Prescrição- Durante a crise: proteger a cabeça, afastar objetos, nada na boca; de lado quando os abalos pararem; marcar a hora; filmar se houver outro adulto
- Chamar o SAMU 192 na primeira crise, se durar a partir de 5 minutos ou se houver ferimento
- Banheira, piscina e banho de imersão só com um adulto ao lado
- Nunca suspender o antiepiléptico por conta própria; falta na farmácia é comunicada no mesmo dia à equipe de saúde
Três semanas depois — o eletroencefalograma de Xisto volta
O laudo descreve pontas centrotemporais de alta amplitude à direita e à esquerda, muito mais frequentes no sono, com atividade de base normal. Com a história, é a epilepsia autolimitada com pontas centrotemporais: pela definição operacional, Xisto tem epilepsia depois de uma crise, porque tem uma síndrome. Ter o diagnóstico não obriga ao remédio. As crises dessa síndrome são curtas, poucas, na maioria noturnas, respondem bem ao fármaco quando ele é necessário e costumam desaparecer até a puberdade; a decisão de tratar se revê se as crises ficarem frequentes, diurnas ou longas, ou se aparecer algum alerta — regressão de linguagem, queda escolar importante, déficit. A família sai sabendo que o nome é tranquilizador, que a ressonância não é necessária e que a escola precisa ter o mesmo plano escrito que a casa.
Prescrição- Registrar o diagnóstico sindrômico e a decisão compartilhada de não tratar por ora
- Rever a decisão se as crises ficarem frequentes, diurnas ou prolongadas, ou se surgir alerta
- Plano de resgate entregue também à escola; retorno em caso de nova crise, queda escolar ou alteração de linguagem
Como saber se está funcionando
Na emergência, registre tempo de crise, horários e resposta a cada intervenção. O relógio começa no início do evento, não na chegada. Em paralelo ao anticonvulsivante, acompanhe ventilação, perfusão, consciência e causas reversíveis. A equipe precisa saber quando reavaliará a resposta e qual medida preparará se a crise persistir.
No seguimento, compare frequência e tipo das crises, desenvolvimento, participação, adesão e efeitos adversos. Os espasmos exigem verificação clínica e eletroencefalográfica precoce no calendário do protocolo. A possibilidade de retirada depende da síndrome e do risco de recorrência; na mioclônica juvenil esse risco é alto e o tratamento frequentemente é prolongado. Essa conversa é feita com a neurologia, sem promessa de cura nem afirmação automática sobre a vida inteira.
Esperado: Fim dos abalos e início da recuperação, sem nova crise antes de recuperar a consciência
Se não melhora: Próxima linha da tabela: segunda dose de benzodiazepínico com 5 a 15 minutos de intervalo, depois fenitoína 20 mg/kg, depois fenobarbital 20 mg/kg e mais 10 mg/kg, depois midazolam contínuo em terapia intensiva
Esperado: Respiração regular e saturação acima de 94% com oxigênio por máscara
Se não melhora: Ventilar com bolsa-valva-máscara; via aérea avançada a qualquer momento em que for indicada, como manda o APed22
Esperado: 60 mg/dL ou mais a partir de 1 mês; alvo de 100 mg/dL depois da correção; no recém-nascido sintomático, entre 65 e 110 mg/dL
Se não melhora: Repetir glicose 0,5 a 1 g/kg e, quando passar de 60 mg/dL depois de bolus repetidos, iniciar infusão contínua de 2 a 5 mg/kg/min, pelo APed25
Esperado: Sem bradicardia, sem arritmia, sem hipotensão
Se não melhora: Reduzir a velocidade — a infusão rápida é a causa de bradiarritmia e hipotensão que o APed22 descreve — e interromper se houver arritmia
Esperado: Recuperação progressiva até o estado habitual da criança
Se não melhora: Terapia intensiva e eletroencefalograma pela hipótese de crise que continua sem convulsão; procurar de novo causa aguda
Esperado: Fim das salvas até o 14º dia, confirmado por vídeo-eletroencefalograma de 12 a 24 horas
Se não melhora: Não trocar antes de 14 dias; sem resposta, associar vigabatrina e prednisolona e, sem controle, discutir dieta cetogênica e avaliação cirúrgica, pelo consenso de 2023
Esperado: Controle das crises sem efeito adverso inaceitável, inclusive cognitivo e de comportamento
Se não melhora: Conferir adesão e, havendo pergunta, nível sérico; subir até a dose máxima tolerada; sem resposta em 3 meses, trocar por outro de primeira escolha; depois de duas monoterapias adequadas, rever o diagnóstico e encaminhar como refratária
Onde o erro machuca
O dano: A criança com 17 minutos de crise é tratada como se tivesse 2: a segunda dose e a fenitoína atrasam, e o estado de mal passa do ponto de 30 minutos em que cresce o risco de lesão duradoura
Como pegar a tempo: Perguntar a hora de início a quem viu, escrevê-la na ficha antes da primeira dose e contar a partir dela em voz alta
O dano: Na solução de 5 mg/mL, ler a dose em miligramas como mililitros multiplica a dose por cinco; e, pela velocidade por quilo do protocolo pediátrico, os 10 mg do teto correriam em 30 segundos numa criança de 20 kg, com risco de apneia
Como pegar a tempo: Dizer a conta em voz alta com o peso, escrever mg e mL lado a lado na prescrição, respeitar o teto por dose e empurrar a no máximo 5 mg/min
O dano: O atraso entre o início dos espasmos e o tratamento se associou a pior desenvolvimento, com declínio maior quando passou de dois meses; e a hipsarritmia não é obrigatória para o diagnóstico
Como pegar a tempo: Vídeo ao neuropediatra no mesmo dia, eletroencefalograma como urgência de dias, tratamento assim que o diagnóstico se firma e investigação da causa em paralelo
O dano: Carbamazepina, oxcarbazepina e fenitoína agravam com frequência as ausências e as mioclonias da mioclônica juvenil; a fenitoína é contraindicada em ausência e mioclonia; a vigabatrina piora crises generalizadas primárias
Como pegar a tempo: Nomear a síndrome antes da primeira receita, perguntando pelo olhar parado, pelos abalos da manhã e pela hora das crises, e conferir a indicação no protocolo federal
O dano: Malformações congênitas maiores, rebaixamento cognitivo, incapacidade motora e de linguagem e autismo no filho exposto, num dano que acontece antes de a gravidez ser conhecida e que a triagem pré-natal não identifica
Como pegar a tempo: Decisão compartilhada e registrada com a adolescente e, quando apropriado, os responsáveis; menor dose efetiva, se possível até 500 a 600 mg/dia; contracepção eficaz discutida desde a menarca
O dano: No primeiro caso, efeito adverso sem benefício numa criança que talvez nunca tenha outra crise; no segundo, segunda crise numa família que não sabe proteger, cronometrar nem quando chamar socorro
Como pegar a tempo: Decidir o remédio pelos três critérios do protocolo federal, pedir o eletroencefalograma na alta e entregar o plano escrito a quem cuida e à escola
O que dizer ao paciente e à família
A família chega com três medos — que a criança morra, que fique com sequela, que tome remédio para sempre — e uma pergunta prática: o que fazer na próxima vez. Responder à pergunta prática primeiro acalma os medos melhor que qualquer estatística, porque devolve aos pais alguma coisa para fazer. As falas abaixo são com as famílias deste capítulo; o que elas têm em comum é que cada frase se apoia num dado que você consegue sustentar.
Na adolescente, parte da conversa é com ela, a sós. Contracepção, álcool, sono e gravidez futura são assuntos dela antes de serem da mãe, e a adesão ao tratamento que dura a vida inteira começa na adolescência — que é, pela Sociedade Brasileira de Pediatria, justamente a fase que antecede a idade em que a morte súbita na epilepsia deixa de ser muito rara.
Manuelina pergunta se Xisto tem epilepsia
““Foi uma crise epiléptica, e o jeito como começou — a boca puxando, a baba, ele sem conseguir falar mas vendo a senhora — é típico de uma epilepsia comum nessa idade, que costuma sumir até a adolescência. Quem confirma é o eletroencefalograma, que já está pedido. O vídeo que a senhora fez ajuda; se acontecer de novo, tente filmar desde o começo.””
Não diga: “Foi só um susto”, ou “é epilepsia para a vida toda”, antes do exame
Ela quer saber por que ele sai sem remédio
““Depois de uma crise só, curta e dormindo, o remédio traz mais efeito colateral do que proteção. Se vierem outras, ou se o exame mostrar outra coisa, a gente revê. O que ele leva hoje é o plano escrito do que fazer — e é isso que protege mais agora.””
Não diga: Prometer que não haverá outra crise, ou dar a entender que o remédio foi negado
A mãe pergunta sobre escola, piscina e bicicleta
““Ele vai à escola e brinca como antes. Na água, banheira e piscina só com um adulto do lado, olhando. Para o resto, a pergunta é sempre a mesma: se ele perder a consciência por dois minutos ali, o que acontece? A escola recebe o mesmo papel que a senhora.””
Não diga: Proibir escola, esporte ou a vida de sempre; ou liberar a água sem supervisão
Firmiano pergunta se criança morre de convulsão
““Na criança isso é muito raro. O risco aparece mais tarde, no adulto jovem que fica sem controle das crises — por isso o que mais protege a Corina é não faltar remédio. Hoje a crise veio porque faltou.””
Não diga: Negar que o risco existe, ou despejar números sem contexto
Firmiano explica que esperou a farmácia repor a carbamazepina
““O senhor fez o que parecia certo, e agora a gente sabe que não dá para esperar. Remédio de crise não se interrompe de uma vez. Se faltar de novo, avise a equipe de saúde no mesmo dia, antes de a Corina ficar sem, para que achem o remédio ou outra apresentação.””
Não diga: Culpar o pai pela crise
Deusdedit pergunta se o remédio dos espasmos pode deixar o filho cego
““A vigabatrina pode diminuir o campo da visão, muitas vezes sem a criança dar sinal nenhum. É por isso que a visão dele vai ser examinada durante o tratamento, com exames próprios. O efeito depende do tempo e da dose e só volta atrás se o remédio for suspenso cedo — por isso a gente vigia desde o começo. E deixar os espasmos sem tratamento custa desenvolvimento.””
Não diga: Esconder o efeito para garantir a adesão
Ninfa, 15 anos, a sós, sobre o valproato
““Esse remédio funciona muito bem para o tipo de epilepsia que você tem, mas pode fazer mal a um bebê se você engravidar usando ele, e o dano acontece antes de a gravidez aparecer no teste. Por isso a gente precisa falar de método para não engravidar — e de noite sem dormir e de álcool, que disparam as suas crises.””
Não diga: Falar só com a mãe, ou tratar o assunto como sermão
Onde bons médicos discordam
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.
Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Epilepsia, Ministério da Saúde, 2018, seção 7.3
Vigabatrina em comprimidos de 500 mg: dose inicial de 500 mg/dia, escalonamento de 500 mg por semana, dose máxima de 3.000 mg/dia, com a faixa de 150 a 200 mg/kg/dia entre parênteses, em uma ou duas tomadas. É o esquema que acompanha a indicação de monoterapia dos espasmos epilépticos.
Ministério da Saúde. PCDT da Epilepsia, Portaria Conjunta SAS/SCTIE nº 17/2018, versão com alterações até abril de 2026
Consenso da Sociedade Brasileira de Neurologia Infantil, 2023
Vigabatrina de 50 mg/kg/dia em duas tomadas por um dia, 100 mg/kg/dia por 72 horas e, se os espasmos persistirem depois de cinco dias, 150 mg/kg/dia; manutenção por 6 meses em monoterapia, ou por 3 meses com retirada em 4 semanas quando associada ao tratamento hormonal. Doses mais altas associam-se a mais resposta e menos recaída.
Sampaio LPB et al. Arquivos de Neuro-Psiquiatria. 2023;81(9):844-856, tabelas 1 e 2
Degrau do escopo: o consenso foi escrito para a síndrome dos espasmos e para os medicamentos disponíveis no Brasil, e o protocolo federal é o da epilepsia em geral. O degrau da coerência reforça: o teto absoluto do protocolo contradiz o próprio parêntese em qualquer criança abaixo de 15 kg, e é abaixo de 15 kg que estão os lactentes com espasmos — num de 7,5 kg, 3.000 mg/dia são 400 mg/kg/dia, e a dose de início já passa de 60 mg/kg/dia. Esta apostila adota o consenso: 50, 100 e 150 mg/kg/dia, com teto de 150 mg/kg/dia, que para 7,5 kg são 1.125 mg/dia. A criança maior em terapia adjuvante de crise focal, que o protocolo também atende com vigabatrina, não é o paciente desta divergência.
SAMU 192, protocolo pediátrico APed22, 2016
Na crise com mais de 5 minutos, diazepam venoso ou intraósseo de 0,3 a 0,5 mg/kg (0,06 a 0,1 mL/kg), máximo de 10 mg por dose, sem exceder a velocidade de infusão de 1 mg/kg/min; sem diluir; repetir até duas vezes.
Ministério da Saúde. Protocolos de Intervenção para o SAMU 192, Suporte Avançado de Vida, APed22, elaboração janeiro de 2016
Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Epilepsia, 2018, estado de mal
Primeira linha com diazepam venoso na dose usual de 5 a 10 mg, até 20 mg, numa velocidade de infusão de 5 mg/min, para evitar depressão respiratória — doses escritas em miligramas fixos, para o adulto.
Ministério da Saúde. PCDT da Epilepsia, Portaria Conjunta SAS/SCTIE nº 17/2018, seção 6
O escopo daria o protocolo pediátrico, escrito para a criança; mas a coerência interna o derruba nesse número. A velocidade por quilo, sem teto absoluto, é a mesma que ele dá logo abaixo para a fenitoína e ultrapassa a do adulto em qualquer criança acima de 5 kg — 16 mg/min aos 16 kg, 20 mg/min aos 20 kg, com os 10 mg do teto correndo em 30 segundos —, exatamente o risco de depressão respiratória que o protocolo federal usa para justificar os 5 mg/min. Esta apostila adota a dose por quilo e o teto de 10 mg do APed22 com a velocidade máxima de 5 mg/min do protocolo federal: para 16 kg, 4,8 a 8 mg em 1 a 2 minutos. A mesma lógica vale para a fenitoína no adolescente acima de 50 kg, com teto de 50 mg/min. Quanto às repetições, este percurso adota duas doses adequadas de benzodiazepínico no total, contando as pré-hospitalares, com segunda dose após 5 minutos se necessário e preparo da segunda linha. As descrições históricas acima não são uma ordem para acrescentar uma terceira dose.
Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Epilepsia, 2018, espasmos
Se espasmos são suspeitados, eletroencefalograma dentro de poucos dias; se diagnosticados, tratamento iniciado imediatamente, com reavaliação clínica e eletroencefalográfica em vigília e sono depois de 14 dias.
Ministério da Saúde. PCDT da Epilepsia, Portaria Conjunta SAS/SCTIE nº 17/2018, seção 7.1
Liga Internacional Contra a Epilepsia, 2022, com o consenso brasileiro de 2023
Em regiões com poucos recursos, o eletroencefalograma interictal é muito recomendado; se não estiver disponível, salvas claras de espasmos típicos vistas por clínico experiente, ao vivo ou em vídeo, com os demais critérios clínicos, sustentam o diagnóstico. O consenso brasileiro acrescenta que o tratamento não deve ser atrasado e que a ausência de hipsarritmia não justifica adiá-lo.
Zuberi SM et al. Epilepsia. 2022;63:1349-1397, tabela 7; Sampaio LPB et al. Arquivos de Neuro-Psiquiatria. 2023;81(9):844-856
As duas regras só brigam quando o exame demora semanas — justamente o tempo em que o lactente perde desenvolvimento. Com eletroencefalograma disponível em dias, vale o protocolo federal, e não há conflito. Sem ele, o escopo decide: a regra escrita para a síndrome e para o serviço sem exame é a da Liga, e o consenso brasileiro, também específico da síndrome, a apoia ao proibir o atraso. Esta apostila adota: o neuropediatra confirma as salvas no vídeo, o tratamento começa, e o eletroencefalograma é feito assim que possível, antes do 14º dia, para servir de base à reavaliação. Quem decide é o neuropediatra; o interno garante o vídeo bem feito e o pedido urgente.
O raciocínio, em voz alta
Quinta-feira, 10h20, unidade básica de saúde. Bertolino Ibiraba, 7 meses, 7,5 kg, nascido a termo, sem intercorrência neonatal, é trazido pelo pai, Deusdedit, que mostra um vídeo no celular: logo depois da soneca, o bebê dobra o tronco e levanta os braços, várias vezes seguidas, com segundos de intervalo, e chora entre um episódio e outro. Começou há dez dias; a família e a vizinha acharam que fosse cólica. Ele sentava com apoio há um mês e, segundo o pai, “ficou mais molinho” e sorri menos. Está sem febre, com pressão arterial normal para a idade e exame sem sinal de infecção; no tronco há três manchas mais claras que a pele em volta. A agenda de eletroencefalograma pela rede tem fila de três semanas.
O que é
Espasmos flexores em salvas num lactente de 7 meses, com possível estagnação do desenvolvimento: síndrome dos espasmos epilépticos infantis até prova em contrário — a idade está na janela de 1 a 24 meses e o tipo de crise é o obrigatório. As manchas mais claras levantam esclerose tuberosa, e isso muda o primeiro fármaco. A cólica, na descrição da Liga, é choro prolongado com endurecimento, e não salvas de flexão; mioclonia benigna do lactente e estremecimento também entram no diferencial, e é o eletroencefalograma que os separa.
O que não esperar
Nem a regressão completa, nem a hipsarritmia, nem a ressonância. O vídeo vai ao neuropediatra de referência no mesmo dia, e o eletroencefalograma é pedido como urgência de dias, fora da fila comum. Se ele não sair em dias, as salvas típicas no vídeo, confirmadas por clínico experiente, sustentam o início do tratamento, pela régua adotada nas divergências.
Antes do fármaco
Sem sinal de infecção e com pressão normal; hemograma, glicemia, sódio, potássio, cálcio, proteína C-reativa, transaminases e urina. Antes de qualquer corticoide em dose alta, albendazol 200 mg em dose única, que abaixo de 2 anos é o esquema do consenso — 5 mL da suspensão de 40 mg/mL da relação nacional. Ressonância, triagem metabólica com lactato e amônia e teste genético correm em paralelo. Piridoxina, não: há causa provável e não há outras crises focais.
O fármaco e a dose
Com suspeita de esclerose tuberosa, vigabatrina primeiro, pelo protocolo federal e pelo consenso: 50 mg/kg/dia (375 mg/dia em duas tomadas) no primeiro dia, 100 mg/kg/dia (750 mg/dia) por 72 horas e 150 mg/kg/dia (1.125 mg/dia) se os espasmos persistirem depois de cinco dias — e não a tabela do protocolo, cujo teto de 3.000 mg/dia daria 400 mg/kg/dia nesse peso. O comprimido de 500 mg é a única apresentação na relação nacional, e a fração de cada tomada fica com a farmácia do serviço.
Se a vigabatrina não chegar
A disponibilidade da vigabatrina na rede pública varia, e o lactente não espera o comprimido. A prednisolona oral, primeira linha do consenso e disponível no Componente Básico, começa: 10 mg quatro vezes ao dia — 3,3 mL da solução de 3 mg/mL por tomada, 40 mg/dia —, subindo a 20 mg três vezes ao dia (60 mg/dia) se os espasmos persistirem depois de uma semana, com redução a partir da segunda semana. Omeprazol de 1 mg/kg/dia acompanha o corticoide; na relação nacional, só em cápsula.
O que vigiar
Com corticoide, pressão arterial diária, exames semanais e radiografia de tórax; eletroencefalograma depois da primeira semana se os espasmos cessarem e nos dias 14 e 42; vídeo-eletroencefalograma de 12 a 24 horas para certificar a resposta. Com vigabatrina, o campo visual é buscado ativamente por eletrorretinografia e potencial evocado visual. Nada se troca antes de 14 dias; sem fim das salvas até lá, associam-se os dois fármacos.
Com o pai
Deusdedit sai sabendo que não é cólica, que cada dia conta e que o objetivo das duas primeiras semanas é o fim das salvas; que a visão do filho vai ser examinada por causa do remédio; que febre ou sinal de infecção durante o corticoide é motivo para ligar no mesmo dia; e com o retorno marcado antes de 14 dias.
Faça você
Domingo, 8h, pronto-socorro de adultos e crianças de um hospital geral. Ninfa Mandacaru, 15 anos, 52 kg, chega trazida pela mãe depois de uma crise tônico-clônica ao acordar, em casa, na manhã seguinte a uma festa em que dormiu três horas e bebeu. Está acordada, com mordedura na borda da língua, exame neurológico normal e glicemia de 96 mg/dL. Perguntada, conta que há um ano derruba coisas de manhã — “a mão pula, já quebrei duas canecas” — e achava que era nervoso. Nunca teve crise antes. Namora há seis meses e não usa método contraceptivo. A mãe quer saber se “isso passa” e se a filha vai tomar remédio.
Complete: a síndrome e o exame
Abalos dos braços na primeira hora depois de acordar, tônico-clônica depois de privação de sono, 15 anos, exame normal: ________. O eletroencefalograma que confirma mostra ________.
Complete: o que não prescrever
Os fármacos que agravam com frequência mioclonias e ausências nessa síndrome são ________; a lamotrigina ________.
Complete: o valproato
Pelo protocolo federal, na menina com potencial de engravidar, o valproato deve ser ________; se for o escolhido, a dose é ________, com ________, e a decisão é ________.
Complete: as alternativas que a rede oferece
No protocolo federal, a lamotrigina em monoterapia é indicada acima de ________ anos e depois de ________; o levetiracetam é indicado como ________.
Complete: tempo de tratamento, gatilhos e resposta à mãe
Tratamento ________, porque a recorrência depois da retirada ________; os gatilhos a evitar são ________.
Ver como fecharíamos
Epilepsia mioclônica juvenil, com ponta-onda ou poliponta-onda generalizada de 3 a 5,5 Hz no eletroencefalograma: as mioclonias da primeira hora depois de acordar, facilitadas pela privação de sono, costumam ser reconhecidas só depois da primeira tônico-clônica, que acontece em mais de 90% dos casos. Carbamazepina, oxcarbazepina e fenitoína agravam com frequência as mioclonias e as ausências dessa síndrome, e a lamotrigina pode piorar as mioclonias de alguns pacientes — o que limita a alternativa mais óbvia ao valproato. Pelo protocolo federal, o valproato deve ser evitado sempre que possível na mulher em idade fértil; se for o escolhido, por ser o mais eficaz para aquela epilepsia, na menor dose efetiva, se possível até 500 a 600 mg/dia, com contracepção eficaz, e a decisão é compartilhada com a adolescente e, quando apropriado, com os responsáveis. O mesmo protocolo indica lamotrigina em monoterapia acima de 12 anos, depois de intolerância ou refratariedade a fármaco de primeira linha, e o levetiracetam só como terapia adjuvante, inclusive nas mioclonias da mioclônica juvenil refratárias: a escolha é do neuropediatra, e a conversa também é do interno. O tratamento tende a ser prolongado, pelo risco elevado de recorrência; a retirada não é decidida no plantão e precisa de avaliação individual pela neurologia; os gatilhos são privação de sono, álcool e falta de adesão. À mãe, a resposta honesta é que não passa sozinho, mas costuma ser bem controlado — de 65% a 92% respondem ao fármaco adequado. Parte da conversa é a sós com Ninfa: o dano do valproato acontece antes de a gravidez ser descoberta, e a triagem pré-natal não mostra o prejuízo do desenvolvimento. A escolha e a inserção do método contraceptivo de longa duração estão em Contracepção de longa duração, na apostila de Ginecologia; o protocolo lembra que fármacos indutores enzimáticos reduzem em até 50% o nível do contraceptivo oral.
É a epilepsia ausência da infância: ausências típicas curtas e frequentes, provocadas pela hiperventilação, com ponta-onda de 3 Hz. O protocolo federal indica a etossuximida nas crises de ausência a partir de 3 anos, em xarope de 50 mg/mL no Componente Especializado. A fenitoína é contraindicada em ausência, a vigabatrina aumenta ausências, a carbamazepina é fármaco de crise focal e o levetiracetam só entra como adjuvante em refratário. O ácido valproico, que o mesmo protocolo iguala à etossuximida no ensaio com crianças, tem na indicação um recorte acima de 10 anos que contradiz o próprio texto.
Teste-se
Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.
Plano de revisão
Em 7 dias
Uma crise em curso a partir de 5 minutos exige tratamento pelo protocolo pediátrico, com avaliação de glicemia e suporte em paralelo. Conte as doses já recebidas em casa ou no transporte, confira peso, fármaco, via, concentração e teto e prepare a segunda linha se a crise persistir. Depois de cessar, avalie recuperação e causa. Compare esse atendimento com o de uma primeira crise sem febre já resolvida: quais achados exigem investigação urgente e quais permitem seguimento organizado?
Em 30 dias
Espasmos em salvas no lactente pedem avaliação e tratamento rápidos pela neuropediatria, sem esperar todos os achados clássicos. A faixa de 50–150 mg/kg/dia discutida neste capítulo pertence exclusivamente à vigabatrina, com titulação e tomadas definidas no esquema específico; ela não é dose de prednisolona. A prednisolona tem protocolo próprio, com dose absoluta, duração, redução e monitorização descritas no caso resolvido. Compare ausência, pontas centrotemporais e mioclônica juvenil pelo evento, idade, EEG e repercussão. Na adolescente, discuta riscos reprodutivos e alternativas ao valproato; dose menor não elimina risco. A decisão de manutenção ou retirada é especializada e individualizada.
Agora atenda
Agora atenda: Ipólito Itaporanga, 7 anos, trazido pela mãe à unidade básica porque a professora escreveu na agenda que ele “desliga” na sala várias vezes por dia e não copia a lição. Em casa, a mãe notou que ele para no meio da frase, fica olhando fixo, pisca e depois continua como se nada tivesse acontecido. Nunca caiu nem teve abalos. Colha a história que classifica o evento, faça o teste que o consultório permite e diga à mãe qual exame confirma e o que a rede oferece.
