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O nervo que parou sozinho
Lesões de nervos periféricos
Paralisia facial periférica e as compressivas do dia a dia: o que separa um nervo de todos os nervos, e a córnea que ninguém olhou
Brasil. Ministério da Saúde; Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Neurologia adulto. Brasília: Ministério da Saúde, 2022. 31 p. (Protocolos de encaminhamento da atenção básica para a atenção especializada, v. 16). ISBN 978-65-5993-237-5. Disponível em: http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/protocolos_encaminhamento_atencao_basica_neurologia.pdf
Jundiaí (SP). Unidade de Gestão de Promoção da Saúde, Núcleo de Regulação da Saúde. Protocolo de manejo e acesso à otorrinolaringologia: protocolo singularizado para o município de Jundiaí. Versão I. Jundiaí: Prefeitura Municipal, 2022. 58 p. Disponível em: https://jundiai.sp.gov.br/saude/wp-content/uploads/sites/17/2023/07/otorrinolaringologia.pdf
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Protocolos de acesso ambulatorial: consultas especializadas: hospitais federais no Rio de Janeiro. Brasília: Ministério da Saúde, 2015. 188 p. ISBN 978-85-334-2208-7. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/protocolos_acesso_ambulatorial_consulta_especializada.pdf
TelessaúdeRS-UFRGS. Protocolos de encaminhamento para ortopedia adulto. Porto Alegre: TelessaúdeRS-UFRGS, 2016. 22 p. Disponível em: https://www.ufrgs.br/telessauders/documentos/protocolos_resumos/Protocolo_Encaminhamento_ortopediaTSRS.pdf
Rio de Janeiro (Município). Secretaria Municipal de Saúde. Protocolo de regulação ambulatorial: ortopedia. Rio de Janeiro: SMS-Rio, 2022. 18 p. (Série Especialidades). Disponível em: https://subpav.org/aps/uploads/publico/repositorio/Livro_SerieEspecialidades_Ortopedia.pdf
TelessaúdeRS-UFRGS. Protocolos de encaminhamento para oftalmologia adulto. Versão digital. Porto Alegre: TelessaúdeRS-UFRGS, 2023. 26 p. Disponível em: https://www.ufrgs.br/telessauders/documentos/protocolos_resumos/oftalmologia_adulto.pdf
Brasil. Ministério da Saúde. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais: Rename 2024. Brasília: Ministério da Saúde, 2024. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/composicao/sectics/daf/rename
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção Básica. Acolhimento à demanda espontânea: queixas mais comuns na atenção básica. 2. ed. Brasília: Ministério da Saúde, 2013. (Cadernos de Atenção Básica, n. 28, v. II). Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/acolhimento_demanda_espontanea_queixas_comuns_cab28v2.pdf
AAO-HNSF — diagnóstico, corticoide, antivirais e proteção ocular em Bell
Prefeitura de São Paulo — elenco local, emergência e dispensação
Ministério da Saúde — Rename 2024, financiamento, p. 17 (cópia oficial municipal)
Responda antes de ler
Mulher de 52 anos refere dormência no quinto dedo e na metade do quarto dedo da mão esquerda, com dificuldade para abrir os dedos em leque. Trabalha oito horas por dia com o antebraço apoiado na quina de uma bancada. Que achado de exame localiza a compressão do nervo ulnar no cotovelo, e não no punho?
O paciente que você vai ver
Sete e quarenta de um sábado de manhã, numa unidade de pronto atendimento que é porta aberta para um município de setenta e dois mil habitantes e para mais quatro cidades da microrregião. A sala de espera tem catorze pessoas e a classificação de risco já despachou duas para a sala amarela. Você é o interno da manhã, e a preceptora está do outro lado da parede, com um senhor de oitenta anos que chegou com dispneia.
O nome na ficha é Aristarco Itabira, 43 anos, motorista de van escolar. O campo da queixa tem quatro palavras escritas com caneta que estava falhando: boca torta desde hoje. A pulseira é amarela. Nos sinais vitais, pressão de 138 por 84, pulso de 76, saturação de 98% em ar ambiente, temperatura de 36,4 graus, glicemia capilar de 104.
Ele entra andando, sozinho, sem apoio. Senta na cadeira sem que você precise indicar qual. A primeira coisa que faz é abrir o celular e virar a tela para você: é uma selfie tirada às cinco e vinte da manhã, no banheiro de casa, com o canto direito da boca caído. A segunda coisa que faz é dizer, com a fala um pouco embolada de quem não consegue fechar os lábios do lado direito, uma frase que você vai ouvir muitas vezes na sua vida profissional: doutor, eu tive um derrame, né.
Enquanto ele fala, você repara em três coisas ao mesmo tempo, e nenhuma delas é a boca. A primeira é que ele pisca com um olho só. A segunda é que o olho direito está vermelho, com aquele vermelho difuso e sem secreção de quem passou a noite com a fenda aberta. A terceira é que ele apoia a mão direita no rosto de um jeito estranho, como quem segura alguma coisa que pode cair.
A história, contada em ordem, cabe em dois minutos. Ontem à tarde, no fim da rota da escola, sentiu um incômodo atrás da orelha direita, uma dor surda que ele descreve como um dente ruim no lugar errado. Achou que era o jeito que tinha dormido na véspera. À noite jantou normalmente, mas derramou um pouco de suco pelo canto da boca e a mulher riu. De madrugada acordou para ir ao banheiro, escovou os dentes e a espuma escorreu. Aí ele acendeu a luz e olhou no espelho.
Perguntado se sente o braço ou a perna, ele responde que não, que está tudo normal, e para provar levanta os dois braços na sua frente, sem esforço e sem queda. Perguntado se enxerga direito, diz que sim, mas que o olho direito arde e lacrimeja desde que ele acordou — e é a única coisa que ele reclama espontaneamente além da boca. Perguntado se ouve bem, para, presta atenção, e diz uma frase que você guarda: o som de dentro do carro está mais alto desse lado, doutor, tipo quando entra água no ouvido.
Você tem na sua frente um homem de meia-idade, com pressão normal, glicemia normal, força preservada nos quatro membros, sem alteração de fala além do que a boca frouxa produz, e uma hemiface parada. Não há tomógrafo nesta unidade. O hospital com tomografia fica a quarenta minutos de estrada e a vaga sai por regulação. A preceptora vai levar mais uns dez minutos com o senhor da dispneia.
A tentação, às sete e quarenta de um sábado, é a que este capítulo existe para desarmar: pedir a vaga de tomografia, escrever protocolo de acidente vascular cerebral na ficha e esperar a resposta da regulação. É uma decisão que parece prudente e que custa quatro horas de sala de espera, uma ambulância que faltará para outra pessoa, e — o que quase ninguém conta — a manhã inteira do olho direito do Aristarco, que continuará aberto e ressecando enquanto todo mundo discute o cérebro dele.
Existe um exame que decide isso, ele leva menos de trinta segundos, não precisa de aparelho nenhum e é a coisa mais barata deste capítulo. É pedir que ele levante as sobrancelhas. O exame da face inicia a localização; os demais sinais neurológicos e a evolução decidem se há suspeita de AVC ou de lesão isolada do VII. E, se for a segunda coisa, o relógio que passa a correr não é o do cérebro: é o da córnea.
Quem adoece disso
Este capítulo tem um problema de fonte que precisa ser dito na primeira linha, porque muda o modo de ler tudo o que vem depois. O Ministério da Saúde nunca publicou protocolo clínico e diretrizes terapêuticas para a paralisia facial periférica, e tampouco para qualquer das mononeuropatias compressivas. O documento federal que organiza o encaminhamento em neurologia de adulto, publicado em 2022 na coleção institucional do Ministério da Saúde, tem nove protocolos: cefaleia, demência, convulsão e epilepsia, síncope, tremores e síndromes parkinsonianas, acidente vascular cerebral, distúrbios do movimento, polineuropatia e vertigem. A palavra facial não aparece nele nenhuma vez. A expressão túnel do carpo, tampouco.
O que existe, e é com isso que o interno trabalha, são três coisas de estatura desigual. Um documento federal de 2015, que organiza a fila de consulta especializada dos hospitais federais do Rio de Janeiro e trata a paralisia facial como motivo de encaminhamento. Um protocolo municipal de otorrinolaringologia, de Jundiaí, de 2022, que é o único documento brasileiro aberto encontrado por esta apostila que chega a prescrever dose, prazo e proteção ocular. E um protocolo de encaminhamento do TelessaúdeRS-UFRGS para ortopedia, de 2016, com bibliografia que para em 2015, que é onde estão os cortes de tempo da síndrome do túnel do carpo que o Brasil usa até hoje.
A frequência relativa das causas, no único documento brasileiro que a enumera, é a seguinte. A paralisia de Bell, idiopática, responde por 60% a 70% dos casos. O trauma — fratura de base de crânio, fratura do osso temporal, ferimento penetrante de face — vem em segundo, com 19% a 40%. A síndrome de Ramsay Hunt, que é a reativação do vírus varicela-zóster no sétimo par, responde por 10% a 15%. Depois vêm, sem percentual atribuído, as infecciosas, as neoplásicas, as iatrogênicas e as metabólicas. Somadas pelos limites superiores, as três primeiras faixas já dão 125% antes de qualquer das outras quatro entrar na conta, e isso está detalhado nas notas de auditoria deste capítulo. A ordem de grandeza, no entanto, é confiável e é a que interessa à beira do leito: a maioria não tem causa identificável, o trauma é a segunda causa, e a terceira é uma doença de vesículas que muda a conduta.
O mesmo documento afirma que a paralisia do sétimo par é a neuropatia periférica mais comum e atinge todas as faixas etárias. Isso combina com o que se vê na porta: o paciente típico não é idoso, não tem fator de risco vascular chamativo e chega andando, sozinho, na primeira manhã. Chega de madrugada ou logo cedo porque o quadro se instala durante o sono e é o espelho do banheiro que dá o diagnóstico.
Do outro lado deste capítulo, as compressivas, não há levantamento brasileiro de incidência nos documentos oficiais consultados — o que há é a pegada delas na fila. O protocolo carioca de regulação ambulatorial de 2022 coloca a síndrome do túnel do carpo na faixa verde de prioridade, a penúltima das quatro, ao lado de fascite plantar e rizoartrose. O protocolo federal de 2015 a lista em duas portas diferentes do mesmo hospital. Nenhum dos dois diz quantos pacientes são. O que os dois dizem, sem querer, é que ela é volume: só entra em tabela de priorização o que enche agenda.
A mononeuropatia iatrogênica do paciente internado não tem número nenhum em documento brasileiro. Ela também quase não tem prontuário: o pé que amanhece caído no quarto dia de internação costuma ser anotado como fraqueza, atribuído ao repouso e descoberto pela fisioterapia dois dias depois. Este capítulo assume esse assunto, porque nenhum outro do nível o assume, e o trata no bloco de erros e no caso a completar.
Um último dado epidemiológico é de organização de serviço, e ele explica metade dos erros que este capítulo vai listar. Nas três réguas brasileiras abertas que tratam do assunto, a paralisia facial periférica isolada não é emergência. Em Jundiaí ela é prioridade P1 — instituir o tratamento e encaminhar para avaliação prioritária com o otorrinolaringologista —, enquanto a paralisia facial associada a sinais de otite ou de mastoidite sobe para P0, emergência. No documento federal de 2015 ela aparece como motivo de consulta ambulatorial, distribuída entre a neurologia e a fonoaudiologia. Nenhum documento brasileiro aberto a coloca na sala vermelha.
A consequência prática disso é a que o capítulo persegue do começo ao fim. Quem trata paralisia facial como urgência de imagem gasta a manhã inteira do serviço e não protege nada. Quem a trata como consulta de rotina perde as duas janelas que de fato correm: a do corticoide, que se mede em dias, e a da córnea, que se mede em horas de olho aberto.
Por que acontece o que acontece
Um nervo periférico não é um fio: é um cabo. Dentro dele correm milhares de axônios agrupados em feixes, cada feixe embrulhado numa bainha própria e o conjunto envolvido por uma capa externa. Boa parte dos axônios vem enrolada em mielina, que não conduz o sinal e sim o acelera, permitindo que o impulso salte de intervalo em intervalo em vez de percorrer a membrana inteira. Essa arquitetura explica duas coisas que o interno precisa: por que um nervo pode parar de funcionar sem estar rompido, e por que ele pode voltar.
As lesões de nervo se organizam em três graus, e a classificação que a clínica usa é a de Seddon, proposta em 1943 a partir de feridos de guerra. No primeiro grau, a neuropraxia, a mielina sofre mas o axônio continua íntegro: o sinal para de passar naquele ponto e volta a passar quando a bainha se recupera, em dias a semanas, sem que nada tenha de crescer de novo. No segundo, a axonotmese, o axônio se interrompe e degenera abaixo do ponto lesado, mas os tubos de tecido que o envolviam permanecem — o axônio regenera dentro do próprio trilho, ao ritmo lento de cerca de um milímetro por dia. No terceiro, a neurotmese, o cabo inteiro se rompe, trilho incluído, e sem cirurgia não há retorno organizado. A régua importa porque prognóstico e prazo dependem inteiramente de qual dos três aconteceu, e porque o exame do primeiro dia frequentemente não distingue os três.
Na compressão, a mielina é a primeira a falhar, e isso tem uma consequência semiológica direta. As fibras grossas e bem mielinizadas — as do tato discriminativo, da vibração e da propriocepção — são as que mais dependem da bainha, e por isso são as primeiras a apagar. As fibras finas da dor e da temperatura resistem mais. Daí a sequência que se repete em toda compressão crônica e que o aluno deve esperar: primeiro formigamento e dormência, depois perda de tato fino, depois fraqueza, e só bem no fim atrofia. Quando a atrofia aparece, o dano já não é mais só de mielina.
A compressão acontece onde acontece por geometria, não por acaso. Existem quatro lugares no corpo em que um nervo grande passa por um espaço de paredes rígidas ou fica encostado num osso sob pele fina, e são exatamente os quatro lugares deste capítulo. O nervo mediano atravessa o punho por um túnel cujo assoalho é osso e cujo teto é um ligamento inelástico. O nervo ulnar contorna o cotovelo por um sulco atrás do epicôndilo medial, onde é palpável e onde qualquer apoio prolongado o esmaga. O nervo radial espirala em torno da diáfise do úmero, encostado no osso, num ponto que o encosto de uma poltrona alcança. O nervo fibular comum dobra a esquina do joelho por cima da cabeça da fíbula, coberto apenas por pele, num relevo que o interno consegue palpar em si mesmo agora.
O nervo facial tem um problema de geometria pior que todos esses. Ele atravessa um canal ósseo dentro do osso temporal que é o mais longo trajeto intraósseo de qualquer nervo craniano — um tubo rígido, sem folga, do qual não é possível expandir as paredes. Quando o nervo inflama e edemacia dentro desse tubo, o próprio inchaço aperta o suprimento sanguíneo que o alimenta, o que produz mais isquemia, que produz mais edema. É um ciclo que se fecha sobre si mesmo dentro de uma parede de osso. Essa é a razão anatômica pela qual a paralisia se instala em horas, pela qual a dor retroauricular costuma preceder a fraqueza em um ou dois dias, e — esta parte é leitura mecanicista, não citação de documento brasileiro — a razão pela qual faz sentido dar um anti-inflamatório potente cedo, e não depois.
O sinal que separa a lesão periférica da central está na forma como o cérebro comanda a metade de cima do rosto. O núcleo do nervo facial, no tronco encefálico, tem duas porções. A porção que comanda a metade inferior da face recebe fibras vindas apenas do hemisfério cerebral do lado oposto. A porção que comanda a metade superior — testa e orbicular do olho — recebe fibras dos dois hemisférios. A consequência é aritmética: se a lesão está no hemisfério ou na cápsula, de um lado só, a metade de cima continua recebendo comando do outro hemisfério e a testa continua enrugando; se a lesão está no nervo depois que ele saiu do tronco, não há segunda via, e a testa daquele lado morre junto com a boca. Testa que enruga do lado paralisado empurra a suspeita para dentro do crânio; testa lisa a puxa para o nervo.
O olho é a parte deste capítulo que mata tecido. Fechar a pálpebra é trabalho do músculo orbicular do olho, e o orbicular é do sétimo par; abrir é trabalho do elevador da pálpebra, que é do terceiro par e continua funcionando. Um paciente com paralisia facial periférica, portanto, tem uma pálpebra que abre com força normal e não fecha — e o piscar, que espalha o filme lacrimal por toda a superfície da córnea a cada poucos segundos, deixa de acontecer daquele lado. A córnea não tem vaso sanguíneo: ela se nutre e se defende pelo filme lacrimal. Sem piscar, o filme evapora em faixas, o epitélio resseca na fenda que fica exposta, e o que começa como olho vermelho e ardido em vinte e quatro horas pode virar úlcera. Existe um mecanismo de defesa parcial, chamado sinal de Bell, em que o globo ocular roda para cima quando a pessoa tenta fechar o olho, escondendo a córnea sob a pálpebra superior — mas ele está ausente em uma parcela das pessoas, não é verificável de olho fechado e, sobretudo, não funciona durante o sono profundo em quem dorme com a fenda entreaberta.
Falta a distinção que dá nome ao capítulo: um nervo contra todos. Na mononeuropatia, existe um ponto de lesão num trajeto, e tudo o que está abaixo dele apaga, no desenho exato daquele nervo — a borda do território é anatômica, tem começo e fim, e o lado oposto está normal. Na polineuropatia, não há ponto: há uma agressão difusa que atinge primeiro os axônios mais longos do corpo, e por isso ela começa simétrica, nos pés, e sobe como uma bota, alcançando as mãos só quando já passou dos joelhos. Entre as duas existe uma terceira coisa, a mononeuropatia múltipla, em que vários nervos individuais adoecem em tempos diferentes e de forma assimétrica, geralmente porque o problema está nos pequenos vasos que os irrigam ou numa infecção com predileção por nervo. As duas últimas não são deste capítulo: a polineuropatia e a fraqueza neuromuscular aguda pertencem a Polineuropatias e síndrome de Guillain-Barré, e a mononeuropatia múltipla com espessamento de tronco nervoso pertence a Hanseníase. Este capítulo fica com a primeira, e a primeira pergunta que ele faz é sempre a mesma: o desenho do que apagou cabe no território de um nervo só?
Como se apresenta de verdade
As seis apresentações abaixo cobrem o que este capítulo atende. A primeira é a hemiface parada, que é o carro-chefe e a que decide entre dois hospitais diferentes. A segunda organiza as causas dessa hemiface, porque a conduta muda com a causa e não com o grau. As quatro últimas são as compressivas do dia a dia: mão, cotovelo, braço e joelho.
Todas elas partem da mesma pergunta, que é a pergunta deste capítulo inteiro: o que apagou cabe no território de um nervo só? Se cabe, o exame do território responde qual nervo e em que altura. Se não cabe — se é simétrico, se é dos dois lados, se sobe pelos pés — a resposta está em outro capítulo, e o texto diz em qual.
Aprender para cuidar no internato. Localizar pelo conjunto do exame, proteger o olho e acompanhar recuperação sem perder causas centrais ou compressivas graves. Ao discutir o caso com o preceptor, explicite os achados que sustentam a hipótese, uma alternativa relevante, a decisão que precisa ocorrer agora e o que fará mudar o plano. O resultado esperado é uma ação clínica justificada e acompanhada, além de reconhecer o diagnóstico.
A hemiface parada: localizar pelo conjunto do exame
O paciente chega dizendo que teve derrame, ou que a boca entortou, ou que o rosto está dormente — e esse último verbo engana, porque quase sempre ele quer dizer pesado, e não sem sensibilidade. Antes de qualquer coisa, peça três movimentos, nesta ordem, e olhe as duas metades ao mesmo tempo.
Primeiro: levante as sobrancelhas o mais alto que conseguir. Você não está olhando a sobrancelha, está olhando as rugas horizontais da testa. Se as rugas aparecem dos dois lados, a metade superior daquele rosto está recebendo comando, e uma lesão de um hemisfério cerebral não explicaria isso — a suspeita passa a ser central e o caso muda de capítulo. Fronte paralisada favorece comprometimento periférico do VII, mas também pode ocorrer por lesão pontina; procurar sinais associados.
Segundo: feche os dois olhos com força, como se estivesse entrando xampu. Olhe se algum branco do olho continua aparecendo. Depois tente abrir a pálpebra fechada com o polegar, comparando os dois lados: do lado bom você não consegue; do lado doente a pálpebra cede. Esse é o achado que decide a conduta ocular, e é o achado que o interno mais esquece de registrar.
Terceiro: mostre os dentes, e depois encha as bochechas de ar e segure. O lado paralisado não puxa o canto da boca, e o ar escapa por aquele lado quando você aperta a bochecha com o dedo. Somando os três, você tem uma hemiface inteira parada, de cima a baixo, no lado que não responde.
O que vem em seguida é tão importante quanto, e é o que separa um nervo doente de um tronco encefálico doente. Pergunte e teste, em menos de dois minutos: enxerga duplo em alguma direção do olhar; sente a face do lado paralisado quando você toca com o algodão nas três faixas — testa, bochecha e queixo; fecha a boca com força contra a sua mão; fala arrastado quando você pede uma frase difícil; consegue caminhar em linha reta; tem força e sensibilidade iguais nos quatro membros. Uma hemiface parada acompanhada de visão dupla, de perda de sensibilidade na face, de desequilíbrio ou de qualquer déficit em membro não é este capítulo: é lesão de tronco encefálico, e o endereço é Déficit neurológico focal agudo, no livro de Síndromes do Paciente na Emergência.
Faltam três perguntas que localizam a lesão dentro do canal do osso temporal, e cada uma custa dez segundos. O som deste lado está mais alto, incomodando, como se estivesse amplificado — é hiperacusia, porque o músculo que amortece a cadeia ossicular é do sétimo par. O gosto mudou nos dois terços da frente da língua — é a corda do tímpano. O olho deste lado está mais seco que o outro, além de não fechar — é o ramo que comanda a glândula lacrimal. As três não mudam a conduta do primeiro dia, mas mudam o que você escreve na ficha, e a ficha é o que o especialista vai ler.
Por fim, olhe dentro do ouvido e ao redor dele antes de encerrar o exame. Otoscopia procurando vesículas no conduto, otorreia e tecido de granulação; pavilhão auricular e a pele à frente dele procurando vesículas; região atrás da orelha procurando dor, edema e apagamento do sulco; palpação da parótida procurando nódulo. Este parágrafo é curto e é o mais rentável do capítulo: ele é o que transforma uma paralisia de Bell em outras quatro doenças.

A causa muda a conduta: as vesículas, o ouvido, o trauma, a bilateral e a que demora
Reconhecida a hemiface periférica, a pergunta seguinte não é o grau: é a causa. Quatro achados mudam o que se faz hoje, e todos os quatro são de exame físico ou de história, nenhum de imagem.
Vesículas no pavilhão, no conduto ou no palato, com dor auricular intensa, é síndrome de Ramsay Hunt — reativação do vírus varicela-zóster no sétimo par. O documento brasileiro que enumera as causas lhe atribui de 10% a 15% dos casos, registra prognóstico pior que o da paralisia de Bell e observa que ela pode atingir outros pares cranianos, com perda auditiva e vertigem associadas. É a única situação da lista em que aquele documento considera o antiviral indiscutível. As vesículas podem aparecer depois da paralisia, o que significa que um paciente com dor auricular desproporcional e ouvido aparentemente limpo merece ser reexaminado dias depois.
Otorreia, dor de ouvido, membrana timpânica alterada ou tecido de granulação no assoalho do conduto tiram o caso deste capítulo e o levam para Otites e rinossinusite, no livro de Otorrinolaringologia — que é dono das otites e da mastoidite, e que diz com todas as letras que uma paralisia facial periférica num diabético ou imunossuprimido idoso com otorreia crônica não é paralisia de Bell, e sim otite externa necrotizante até prova em contrário. A diferença de conduta entre as duas hipóteses é internação contra corticoide ambulatorial. Vale reter o desnível de prioridade: no protocolo municipal de Jundiaí, a paralisia facial isolada é P1, prioritária; a paralisia facial associada a sinais de otite ou de mastoidite é P0, emergência.
Trauma de face, de crânio ou de osso temporal muda tudo, inclusive o prognóstico. O documento brasileiro que enumera as causas coloca o trauma como a segunda mais frequente, com 19% a 40%, e registra que o prognóstico depende do mecanismo — se houve secção parcial ou total do nervo. Um detalhe da história vale a pergunta explícita: a paralisia começou imediatamente ao trauma ou apareceu horas depois? Instalação imediata sugere lesão direta do nervo; instalação tardia sugere edema, e o comportamento das duas ao longo do tempo é diferente.
Paralisia facial dos dois lados não é este capítulo, e é a fronteira mais importante que ele cede. Fraqueza facial bilateral entra na lista de Polineuropatias e síndrome de Guillain-Barré, no capítulo anterior desta mesma apostila, e a pergunta que aquele capítulo faz — como está a respiração — não pode esperar. Duas paralisias faciais periféricas simultâneas ou em sequência curta são um alerta de doença sistêmica, não a soma de dois azares.
Por fim, o tempo de instalação. A paralisia facial idiopática se completa em horas e no máximo em dois a três dias. Paralisia que progride ao longo de semanas, ou que recorre sempre do mesmo lado, ou que vem com nódulo palpável na parótida, tem outra explicação — tumor até prova em contrário — e é encaminhamento, não observação. O documento federal de 2015 traz exatamente essa lógica quando lista, entre os motivos de encaminhamento neurológico, as paresias e paralisias segmentares e focais, citando nominalmente a facial, com progressão ou refratariedade como o que autoriza a fila.
A mão que acorda dormente: mediano no punho
Marlíria Picuí tem 46 anos, é costureira de uma confecção e vem à unidade básica pela terceira vez em seis meses pela mesma queixa: acorda de madrugada com a mão direita formigando e precisa sacudi-la para fora da cama até passar. Ela diz que deixa cair as coisas, e diz também que dói o braço todo, até o cotovelo.
O território que responde é o do nervo mediano na mão: polegar, indicador, médio e a metade do anular voltada para o polegar. Três dedos e meio. Um detalhe anatômico transforma o exame: o ramo que dá sensibilidade à pele sobre a eminência tenar — a almofada da base do polegar — sai do mediano antes do túnel, e por isso não é comprimido. Se a dormência inclui a base da palma, a lesão provavelmente não está no túnel.
A queixa tem três marcas quase constantes. A piora é noturna, porque quem dorme flexiona o punho e o punho fletido estreita o túnel. O alívio vem com sacudir a mão. E a irradiação pode subir pelo antebraço, o que confunde com problema de ombro ou de coluna cervical — o que decide não é onde dói, é onde a sensibilidade caiu.
No exame, compare a polpa do indicador com a do dedo mínimo, do mesmo lado, com um toque leve: no túnel do carpo o mínimo está normal e o indicador não. Peça que ela levante o polegar em direção ao teto com a mão apoiada de palma para cima, contra a sua resistência, e compare os dois lados — é a abdução do polegar, e é a força que o mediano governa na mão. Olhe a base do polegar contra a luz, comparando os dois lados: achatamento da almofada é atrofia tenar. As manobras clássicas, que os protocolos brasileiros pedem que sejam registradas no encaminhamento, são a percussão do punho na linha média — que reproduz o formigamento nos três dedos e meio — e a manutenção dos punhos fletidos por cerca de um minuto, que faz o mesmo.
Duas coisas separam a queixa comum da queixa que anda. A primeira é o déficit sensitivo contínuo, sem períodos de melhora, em vez do formigamento que vai e volta. A segunda é a fraqueza objetiva ou a atrofia. As duas são os critérios que os protocolos brasileiros usam para tirar o paciente da fila comum, e estão detalhados no bloco de critérios.
Uma última pergunta, que a costureira quase sempre responde sozinha se você perguntar: os sintomas têm relação com o que ela faz o dia inteiro? Se a resposta é sim e o quadro dura mais de três meses, existe uma segunda porta, e ela não é a ortopedia: é a saúde do trabalhador. O que se faz nessa porta — nexo, comunicação de acidente de trabalho, afastamento — é de Acidente de trabalho, LER/DORT e vigilância em saúde do trabalhador, no livro de Medicina do Trabalho, que declara ceder a semiologia do membro e ficar com o vínculo entre a manobra positiva e o gesto repetido.
O cotovelo e o dedo mínimo: ulnar
A segunda compressão mais comum do membro superior está no cotovelo, e a queixa que a denuncia é a dormência do dedo mínimo. O nervo ulnar contorna a face de trás do epicôndilo medial por um sulco raso, coberto por pele fina — é o lugar em que se bate o cotovelo e sente o choque descer até o mínimo. Qualquer coisa que mantenha pressão ali por tempo, ou que mantenha o cotovelo dobrado por horas, comprime.
O território é o dedo mínimo e a metade do anular voltada para ele. O achado que localiza a lesão no cotovelo, e não no punho, é o dorso da mão: o ramo que dá sensibilidade à pele do dorso do lado do mínimo sai do ulnar bem antes do punho, e por isso está preservado quando a compressão é no punho e alterado quando é no cotovelo. Perguntar e testar o dorso da mão custa cinco segundos e vale um exame de imagem.
A parte motora tem sinais visíveis à distância. Peça que a pessoa abra os dedos em leque contra a sua resistência e depois os feche apertando um sobre o outro: são os músculos interósseos, e eles são do ulnar. Peça que segure uma folha de papel entre o polegar e a lateral do indicador, e puxe: se para segurar ela precisa dobrar a ponta do polegar, é porque o músculo ulnar que adduz o polegar falhou e o flexor longo, que é do mediano, entrou no lugar. Nos casos arrastados aparecem a garra dos dois últimos dedos e a atrofia do vale entre o polegar e o indicador, no dorso da mão — a mais visível de todas as atrofias da mão.
A história costuma entregar a causa sem que se pergunte: dirigir com o cotovelo apoiado na janela; trabalhar com o antebraço sobre a quina de uma bancada; dormir com o braço dobrado sob a cabeça; e, no hospital, o braço pendurado na grade da cama ou o cotovelo apoiado no colchão em quem está sedado.
A fronteira aqui é curta e precisa ser dita: lesão do ulnar associada a fratura de membro superior — a supracondiliana da criança e a do epicôndilo medial, em que a fixação com fios cruzados aumenta o risco — pertence a Fraturas do membro superior, no livro de Ortopedia, que a trata como complicação do osso e da imobilização. Este capítulo fica com a compressão sem fratura.
O punho que caiu na noite de sábado: radial
Virgulino Olivença tem 29 anos e chega na segunda-feira de manhã dizendo que acordou no domingo com a mão direita mole. Dormiu no sofá da casa de um amigo, com o braço por cima do encosto. Não bebeu nada além do de sempre, ele diz, sem que você tenha perguntado.
O que se vê é o punho caído: com o braço estendido à frente e a palma para baixo, a mão pende, e ele não consegue levantá-la. Os dedos também não estendem nas articulações da base, e o polegar não abre para o lado. A dormência, quando existe, é pequena e fica num lugar muito específico: o dorso da mão na região entre o polegar e o indicador.
O detalhe que localiza a lesão é o tríceps. O nervo radial dá o ramo para o tríceps antes de espiralar em torno do úmero; se a extensão do cotovelo está normal e apenas o punho e os dedos caíram, a compressão foi no braço, no ponto em que o nervo encosta no osso — a lesão do sono profundo com o braço sobre uma superfície dura, que a literatura de língua inglesa apelidou de paralisia do sábado à noite. Se o tríceps também está fraco, a lesão é mais alta, na axila, e a causa muda: muleta mal ajustada, compressão prolongada em pessoa inconsciente.
Há um teste de beira de leito que evita um erro grosseiro e demora dez segundos. Um punho caído faz a preensão parecer fraquíssima, porque os flexores dos dedos perdem a vantagem mecânica quando o punho está pendido. Segure o punho do paciente em extensão com a sua mão e peça que ele aperte a sua outra mão: se a preensão volta ao normal, os flexores estão íntegros e o problema é só a extensão. Sem esse teste, o quadro parece uma mão inteira paralisada, e mão inteira paralisada leva a raciocínio de acidente vascular cerebral.
A comparação com o cérebro merece um parágrafo, porque é a confusão de plantão. No déficit central da mão, o desenho não respeita nervo: costuma haver alteração da face ou da perna do mesmo lado, o tônus e os reflexos se comportam de outro jeito, e a fraqueza não obedece à borda anatômica de um território. No radial, a face está normal, a perna está normal, e o que apagou é exatamente aquilo que aquele nervo faz. O capítulo Déficit neurológico focal agudo diz isso com as palavras dele: o déficit obedece ao território de um nervo, não ao de uma artéria — punho caído isolado com face poupada, pé caído isolado com resto normal.
O pé que caiu: fibular na cabeça da fíbula, e o que não é o fibular
Pé caído é a apresentação mais visível deste capítulo e a que mais engana, porque tem duas origens frequentes que exigem condutas diferentes. A pessoa arrasta a ponta do pé, tropeça em soleira, precisa levantar muito o joelho para andar e às vezes descreve que o pé bate no chão com barulho.
Quando a causa é o nervo fibular comum na cabeça da fíbula, o desenho é este: fraqueza para levantar o pé e para levar a ponta do pé para fora, dormência no dorso do pé e na face lateral da perna abaixo do joelho, e — o achado que decide — inversão preservada. Levar a ponta do pé para dentro é trabalho de um músculo comandado pelo nervo tibial, e ele não passa pela cabeça da fíbula. Se a pessoa inverte o pé com força normal, a lesão está no fibular. Se a inversão também está fraca, o problema está mais acima, na raiz nervosa.
Some a isso três coisas que reforçam o fibular: reflexo do tendão de Aquiles normal, ausência de dor lombar irradiada e percussão dolorosa sobre a cabeça da fíbula, que é um relevo ósseo palpável logo abaixo e por fora do joelho e onde o nervo é superficial. Some, do outro lado, o que empurra para a raiz: dor lombar que irradia pela perna, piora ao tossir, elevação da perna estendida que reproduz a dor.
A distinção não é acadêmica: se for radicular, o caso é de Lombalgia e hérnia de disco, no livro de Ortopedia — capítulo que já reconhece a mononeuropatia do fibular no paciente com pé caído sem dor lombar como um diferencial que não é dele. Este capítulo assume esse diferencial.
As causas de compressão do fibular são quase todas evitáveis, e é isso que faz este parágrafo valer a leitura. Cruzar as pernas por horas seguidas. Emagrecimento rápido, que consome a gordura que protegia o nervo. Gesso ou tala com borda apoiada logo abaixo do joelho. Meia elástica de compressão com a barra enrolada na altura errada. Posição na mesa de cirurgia, sobretudo em posições que deixam a perna apoiada de lado por horas. E a mais comum no hospital: o paciente acamado, sedado ou com rebaixamento, deitado de lado com o joelho apoiado no colchão ou na grade, por um turno inteiro.
Quando isso acontece com o paciente internado, o assunto sai do consultório e entra na enfermaria — e o capítulo trata disso nos blocos de conduta e de erros, porque é a lesão deste capítulo que mais se previne e menos se registra.
Como fechar o diagnóstico
A investigação deste capítulo tem uma inversão que precisa ser aceita antes de qualquer pedido: na esmagadora maioria dos casos, o exame que decide já foi feito, com as mãos, e nenhum exame complementar vai melhorar a decisão de hoje. O que os exames fazem aqui é excluir causa tratável em quem tem sinal de alarme, documentar gravidade para quem vai receber o paciente depois, e — no caso das compressivas — preencher o papel que os protocolos brasileiros exigem para abrir a fila.
As seis seções abaixo separam o que se pede do que não se pede, e dizem por quê. A quinta é a que este capítulo mais defende, e é a única do bloco que não usa aparelho nenhum.
Testar a localização sem transformar a testa em veto ao AVC. Paralisia de toda a hemiface sugere lesão periférica do VII, mas também pode ocorrer por lesão pontina. Procurar início súbito, diplopia, ataxia, alteração de outros nervos cranianos e déficit em membros. Bell é hipótese em quadro agudo isolado compatível, após história e exame que afastem sinais de outra causa. Ausência de vesículas não exclui zóster sem erupção ou lesões ainda não visíveis. Progressão prolongada, recorrência, bilateralidade, massa ou recuperação atípica mudam a investigação.
A tomografia que não decide, e as quatro situações em que ela decide
Uma hemiface parada de cima a baixo, com testa lisa, sem nenhum outro achado neurológico, num paciente que anda sozinho, não é indicação de neuroimagem de urgência. A tomografia de crânio não enxerga o nervo facial dentro do canal do osso temporal com a resolução que resolveria a dúvida, e a dúvida que ela responderia — isto é do cérebro? — já foi respondida pela testa.
Isso não é permissão para nunca pedir. Quatro situações mudam a resposta, e todas elas vêm do exame, não do medo. Primeira: qualquer achado que não caiba no sétimo par — visão dupla, perda de sensibilidade na face, desequilíbrio, fraqueza ou dormência em membro, fala arrastada de verdade. Segunda: trauma de crânio ou de face, em que a pergunta deixa de ser qual nervo e passa a ser qual osso. Terceira: instalação progressiva ao longo de semanas, paralisia recorrente sempre do mesmo lado, ou nódulo palpável na parótida — a suspeita passa a ser tumor. Quarta: sinais de complicação de doença do ouvido, em que a imagem procura mastoidite, colesteatoma ou coleção intracraniana, e nesse caso o capítulo que manda é Otites e rinossinusite, no livro de Otorrinolaringologia.
Fora dessas quatro, pedir imagem na paralisia facial periférica isolada tem um custo que não aparece na conta: transporte, vaga de regulação, horas de espera e, sobretudo, o adiamento das duas únicas coisas que correm contra o relógio — o corticoide e a proteção da córnea. O documento federal de encaminhamento neurológico de 2022 não traz protocolo de paralisia facial, e o municipal de Jundiaí, que traz, não menciona neuroimagem nem no diagnóstico nem no tratamento: ele manda instituir o tratamento adequado e encaminhar com prioridade.
Os exames de sangue: o que existe régua para pedir e o que não existe
Aqui é preciso um cuidado de leitura que muda o que se escreve na ficha. O rol de exames que o protocolo federal de neurologia de 2022 lista — hemograma, glicemia de jejum ou hemoglobina glicada, vitamina B12, hormônio estimulante da tireoide, teste rápido ou sorologia para o vírus da imunodeficiência humana — está escrito no protocolo de polineuropatia, e é o conteúdo mínimo que aquele encaminhamento precisa levar. Não é um rol de paralisia facial, e o próprio documento não tem protocolo de paralisia facial. Atribuir aquela lista a este quadro seria emprestar autoridade de norma a uma conduta que a norma não escreveu.
O que se pode dizer com base nas fontes abertas é mais modesto e mais útil. O documento municipal de 2022 lista, entre as causas de paralisia facial, um grupo metabólico: diabetes, neuropatia alcoólica, gestação e hipotireoidismo. Isso justifica perguntar por essas quatro condições e, quando o paciente não tem seguimento, medir glicemia e função tireoidiana — não como protocolo, mas como consequência da lista de causas que o próprio documento assume.
Duas condições merecem menção explícita porque mudam a doença e são frequentes no Brasil. A primeira é a infecção pelo vírus da imunodeficiência humana, em que a paralisia facial periférica pode ser a apresentação inicial, e em que a paralisia bilateral é ainda mais sugestiva — mas a bilateral, este capítulo cede a Polineuropatias e síndrome de Guillain-Barré. A segunda é a hanseníase, que no Brasil é diagnóstico obrigatório de se pensar diante de qualquer neuropatia periférica: o capítulo Hanseníase, no livro de Dermatologia, ensina o passo que fecha essa porta, que é perguntar se a neuropatia é assimétrica, procurar espessamento de tronco nervoso à palpação e olhar a pele. Este capítulo não repete a palpação de troncos nem a poliquimioterapia: manda para lá pelo nome.
O que este capítulo não faz é transformar uma paralisia facial de instalação típica, num adulto sem outros achados, numa maratona de sorologias. Exame pedido sem hipótese não devolve resposta: devolve resultado.
Eletroneuromiografia: o exame certo na hora errada é exame errado
A eletroneuromiografia mede duas coisas: a velocidade com que o impulso corre pelo nervo e o comportamento elétrico do músculo que aquele nervo comanda. Ela responde bem a três perguntas — onde está o bloqueio, se o axônio degenerou ou só a mielina falhou, e quanto do nervo ainda funciona.
O que ela não faz é responder rápido. Quando um axônio se interrompe, o segmento abaixo da lesão só perde a capacidade de conduzir depois de alguns dias, enquanto degenera. Um exame feito nas primeiras quarenta e oito horas pode mostrar condução preservada abaixo de uma lesão grave, e essa aparência de normalidade engana quem pediu. Pedir cedo demais, além de não informar, consome uma vaga que é escassa e adia o exame útil.
Nos protocolos brasileiros, a eletroneuromiografia aparece sempre no mesmo lugar: no conteúdo descritivo mínimo do encaminhamento, com data, quando realizada. O protocolo federal de neurologia de 2022 a lista assim no protocolo de polineuropatia; o de ortopedia do TelessaúdeRS a lista assim nos problemas de mão e punho. Nenhum dos dois a exige como condição para encaminhar. Isso importa na prática: o interno que segura um encaminhamento esperando a eletroneuromiografia está atrasando o paciente por uma exigência que a norma não faz.
O documento federal de 2015 é o único que a coloca como exame sugerido junto do próprio motivo de encaminhamento, tanto na linha de neuropatias e síndrome do túnel do carpo quanto na linha cirúrgica da síndrome do túnel do carpo, onde pede eletroneuromiografia, tomografia e ressonância da área afetada. É pedido de quem vai operar, não de quem vai diagnosticar.
Graduar a paralisia facial: a escala, de onde ela veio e o que o Brasil exige
A escala que o mundo usa para graduar paralisia facial é a de House e Brackmann, publicada em 1985 e adotada pela academia americana de otorrinolaringologia e cirurgia de cabeça e pescoço como padrão de relato. Ela tem seis graus, do movimento normal à ausência completa de movimento, e serve para que dois examinadores diferentes, em dois momentos diferentes, escrevam a mesma coisa sobre o mesmo rosto. O artigo original não foi aberto por este capítulo, e por isso o texto não reproduz aqui os descritores de cada grau: nomeia a escala, diz o que ela faz e manda buscá-la no original de quem a propôs.
O que se pode afirmar com fonte brasileira aberta é a ausência: nenhum dos documentos oficiais consultados por este capítulo — o protocolo federal de neurologia de 2022, o federal de acesso ambulatorial de 2015, o municipal de otorrinolaringologia de 2022 — menciona a escala de House e Brackmann ou qualquer outra graduação de paralisia facial. Não há, nas réguas brasileiras abertas, exigência de graduar. Isso não significa que graduar seja inútil; significa que a graduação, no Brasil, é boa prática de registro e não obrigação normativa, e o interno deve saber a diferença antes de escrever qualquer uma das duas coisas numa ficha.
Na ausência de escala, existe um registro que serve tanto quanto e que qualquer plantão consegue fazer, porque descreve atos e não números. Registre, com essas palavras: se a testa enruga ou não; se o olho fecha completamente, fecha com esforço ou não fecha, e neste último caso quantos milímetros de fenda sobram; se o canto da boca se move ao sorrir; se a bochecha segura o ar; e a hora em que isso foi observado. Duas descrições dessas, feitas com dois dias de intervalo, dizem se o quadro está piorando — que é a única pergunta que a graduação de fato responde no primeiro atendimento.
Registre também a data e a hora em que o paciente percebeu o primeiro sintoma, e não a data em que chegou ao serviço. É desse marco que se conta a janela do corticoide, e é o dado que mais se perde na passagem de plantão.
O exame do olho, que não usa aparelho e é o que decide a sequela
Este é o exame que o capítulo mais defende, e ele tem quatro passos que somados levam um minuto.
Primeiro, meça a fenda. Peça que a pessoa feche os olhos suavemente, como se fosse dormir, e olhe se sobra abertura no lado paralisado. Se sobra, estime a distância entre as pálpebras em milímetros e escreva o número. Essa medida é o que vai dizer, daqui a três dias, se está melhorando.
Segundo, procure o sinal de Bell: peça que tente fechar com força enquanto você mantém a pálpebra superior aberta com o dedo, e veja se o globo ocular roda para cima escondendo a córnea. Quando presente, ele protege parcialmente. Quando ausente, a córnea fica exposta em toda a tentativa de fechar, e o risco sobe. O ponto crítico é que ele não é garantia: não protege durante o sono profundo, e não substitui nenhuma das medidas de proteção.
Terceiro, e este é o passo mais importante e o mais esquecido: teste a sensibilidade da córnea. Encoste delicadamente uma mecha fina de algodão na borda da córnea, vindo de fora do campo de visão da pessoa, e compare os dois lados. A sensibilidade da córnea é do quinto par, não do sétimo, e por isso ela deve estar preservada numa paralisia facial isolada. Se estiver reduzida, duas coisas mudam: a lesão pode não ser só do sétimo par, e — o que decide a conduta — o olho perdeu o alarme que faria a pessoa reclamar quando a córnea começasse a sofrer. Olho que não fecha e não dói é o cenário de pior desfecho deste capítulo inteiro.
Quarto, olhe a superfície do olho contra a luz, procurando vermelhidão difusa, ressecamento em faixa na parte exposta e secreção. Se houver dor intensa, embaçamento visual, mancha esbranquiçada na córnea ou piora apesar da lubrificação, o caso sai do alcance deste capítulo e entra no dos capítulos de Oftalmologia — Olho vermelho, que é dono das ceratites e da avaliação do olho vermelho agudo, e Perda visual sem olho vermelho, dono da queda de acuidade. Este capítulo assume a proteção da córnea íntegra em quem não fecha o olho; a córnea já lesada é de lá.
Onde houver fluoresceína e luz azul disponíveis, a coloração mostra a lesão epitelial antes que ela seja visível a olho nu, e é assim que se documenta o dano. Onde não houver — que é a maior parte das unidades em que este capítulo será lido —, os quatro passos acima continuam valendo inteiros, e é por isso que eles foram escritos sem aparelho nenhum.
Nas compressivas: o que abre a fila é o papel, não o exame
Nas mononeuropatias dos membros, a investigação que muda o destino do paciente é a redação do encaminhamento, e os protocolos brasileiros dizem exatamente o que ele precisa conter — o que significa que um encaminhamento incompleto volta, e voltar custa meses.
Para mão e punho, o protocolo do TelessaúdeRS pede seis itens: características da dor e tempo de evolução, com as manobras de percussão do punho e de flexão mantida registradas quando indicadas; o tratamento já feito, farmacológico e não farmacológico, com duração; a conclusão da eletroneuromiografia ou do exame de imagem com data, se indicado; se há associação com atividade laboral e qual; e o número da teleconsultoria, se o caso foi discutido. Note o que não está na lista: nenhum exame é pré-requisito.
Para o membro inferior e para os quadros neurológicos, o protocolo federal de neurologia de 2022 organiza o encaminhamento em torno da evolução dos sintomas no tempo, das características sensitivas e motoras, dos reflexos, dos exames já realizados com data, das comorbidades, dos medicamentos em uso e da história familiar de neuropatia hereditária. É um formulário de polineuropatia, mas a lógica vale: o que se pede é a descrição, e a descrição é o exame.
Imagem tem lugar restrito. Radiografia entra quando há suspeita de fratura, de calo ósseo ou de deformidade que explique a compressão — e nesse caso o caso pode ser de Fraturas do membro superior, no livro de Ortopedia. Ultrassonografia e ressonância entram quando o cirurgião pede, e o documento federal de 2015 as coloca justamente na linha da microcirurgia reconstrutiva, junto da eletroneuromiografia.
Uma última recomendação prática, que vale para os quatro nervos: fotografe, com autorização, a atrofia quando ela existir, e anote a data. Atrofia é o achado que os protocolos brasileiros usam para tirar o paciente da fila comum, e é também o que muda entre uma consulta e a seguinte sem que ninguém perceba.
Como se decide aqui, e o que apareceu ao recalcular as fontes
Vêm abaixo a sequência de decisão do primeiro atendimento, quatro quadros e o resultado de recalcular, uma a uma, as contas dos documentos oficiais. As que fecharam ficam registradas ao lado das que não fecharam, porque saber que um número foi verificado e resistiu é informação tão útil quanto saber que outro não resistiu. A advertência mais importante vem antes de tudo: não existe protocolo clínico nacional para nenhuma das duas doenças deste capítulo, e a régua mais completa que o Brasil oferece em documento aberto é municipal.
Como usar quadros e notas de fontes anteriores. Notas que transcrevem doses, prazos ou exigências de documentos antigos registram o conteúdo dessas fontes; não substituem a conduta clínica atualizada e individualizada neste capítulo. Separar indicação, dose, contraindicações, monitorização e acesso. Se houver divergência entre o documento histórico e a recomendação atual, discutir o protocolo vigente com a equipe antes de executar.
- 1Diante de uma hemiface parada, peça três movimentos antes de escrever qualquer coisa: levantar as sobrancelhas, fechar os olhos com força, mostrar os dentes.
- 2Se a testa do lado fraco enruga como a do outro, pare este capítulo: o caso é de déficit focal agudo e o relógio é outro.
- 3Se a testa do lado fraco não enruga, corra o resto do exame neurológico em dois minutos — diplopia, sensibilidade da face, mordida, marcha, força e sensibilidade nos quatro membros. Qualquer achado fora do sétimo par tira o caso daqui.
- 4Pegue o otoscópio antes de sentar: vesículas, otorreia, granulação no conduto, tímpano, região retroauricular e parótida. É este passo que transforma paralisia de Bell em outras quatro doenças.
- 5Antes do corticoide, resolva o olho: meça a fenda que sobra, teste a sensibilidade da córnea com algodão, pingue a primeira gota na unidade e ensine a oclusão noturna com o paciente fazendo na sua frente.
- 6Registre a hora do primeiro sintoma percebido pelo paciente, e não a hora da chegada — é dessa hora que se conta a janela do corticoide.
- 7Prescreva o corticoide sabendo que a única régua brasileira aberta é municipal, que ela usa 1 mg por quilo por dia durante 5 dias e que ela não declara teto nem esquema de redução.
- 8Discutir antiviral associado ao corticoide em Bell conforme gravidade e preferência; zóster pode ocorrer sem vesículas, exigindo avaliação clínica.
- 9Encaminhe com prioridade e marque um retorno com data em 48 a 72 horas, para reavaliar o olho antes de reavaliar a face.
- 10Quando o nervo que parou é de um membro, inverta a ordem: primeiro identifique e retire a compressão, depois trate a dor.
- 11Nas compressivas, use o desenho do território para localizar a altura da lesão — dorso da mão no ulnar, tríceps no radial, inversão do pé no fibular, pele da base do polegar no mediano.
- 12Encaminhe a compressão de membro quando houver déficit de força objetivo ou atrofia, déficit sensitivo contínuo por três meses, ou seis meses sem resposta ao tratamento clínico otimizado — os três cortes que os protocolos brasileiros usam.
- 13No paciente internado, procure ativamente o que comprime: gesso, tala, meia elástica, grade da cama, decúbito mantido, e a perna cruzada de quem não consegue se mexer.
Hemiface parada: o que cada achado faz com a hipótese e o que ele muda hoje
| Achado | Para onde empurra a hipótese | O que muda no atendimento de hoje | De quem é o assunto |
|---|---|---|---|
| Testa do lado fraco enruga igual à do outro lado | Para dentro do crânio: lesão acima do núcleo do sétimo par | Sai deste capítulo e entra no protocolo de déficit focal, com o relógio da janela correndo | Déficit neurológico focal agudo, em Síndromes do Paciente na Emergência |
| Testa do lado fraco não enruga, e o resto do exame neurológico está normal | Lesão do nervo facial depois que ele saiu do tronco | Corticoide precoce e proteção ocular imediata; nenhuma imagem de urgência | Este capítulo |
| Visão dupla, perda de sensibilidade na face, desequilíbrio ou déficit em membro | Tronco encefálico, não nervo isolado | Imagem e avaliação de urgência; a hemiface deixa de ser o problema principal | Déficit neurológico focal agudo, em Síndromes do Paciente na Emergência |
| Vesículas no pavilhão, no conduto ou no palato, com dor auricular intensa | Reativação do vírus varicela-zóster no sétimo par | Acrescenta antiviral, que é o único cenário em que a régua brasileira aberta o trata como firme; prognóstico pior; procurar perda auditiva e vertigem | Este capítulo, com a vertigem associada em Vertigem periférica, de Otorrinolaringologia |
| Otorreia, dor de ouvido, tímpano alterado ou granulação no conduto | Complicação de doença do ouvido, e não paralisia idiopática | Tira do ambulatório: em diabético ou imunossuprimido é otite externa necrotizante até prova em contrário | Otites e rinossinusite, em Otorrinolaringologia |
| Trauma de crânio, de face ou de osso temporal | Lesão direta ou por edema dentro do canal ósseo | Imagem entra; a pergunta passa a ser qual osso, e o prognóstico depende de haver secção | Este capítulo, com a fratura em si nos capítulos de trauma |
| Paralisia facial dos dois lados, simultânea ou em sequência curta | Doença sistêmica, não dois azares | A pergunta imediata passa a ser a respiração, e ela não espera | Polineuropatias e síndrome de Guillain-Barré, nesta mesma apostila |
| Instalação progressiva em semanas, recorrência do mesmo lado ou nódulo em parótida | Tumor até prova em contrário | Encaminhamento com prioridade e imagem; observar é o erro | Este capítulo, até o diagnóstico |
| Neuropatia assimétrica, tronco nervoso espessado à palpação, alteração de pele | Hanseníase | Muda a doença inteira: notificação, poliquimioterapia e manejo da neurite | Hanseníase, em Dermatologia |
| Sensibilidade da córnea reduzida no lado paralisado | O olho perdeu o alarme que faria o paciente reclamar | Proteção ocular deixa de ser orientação e passa a ser prioridade absoluta; reavaliação em 24 a 48 horas | Este capítulo, com a córnea já lesada em Olho vermelho, de Oftalmologia |
As quatro compressivas do dia a dia: o que apaga, o que confirma à beira do leito e o que separa da causa vizinha
| Nervo e ponto de compressão | O que apaga | O achado que confirma | O que a separa da causa vizinha |
|---|---|---|---|
| Mediano no túnel do carpo | Sensibilidade dos três dedos e meio do lado do polegar; abdução do polegar; nos casos antigos, a almofada da base do polegar | Formigamento noturno que alivia sacudindo a mão; percussão do punho e punhos mantidos fletidos reproduzem o sintoma; polpa do indicador pior que a do mínimo | A pele sobre a base do polegar está normal, porque o ramo que a inerva sai antes do túnel; se ela também estiver alterada, a lesão não é no túnel |
| Ulnar no sulco atrás do epicôndilo medial | Sensibilidade do mínimo e da metade do anular; abertura e fechamento dos dedos em leque; adução do polegar | Choque descendo até o mínimo à percussão do sulco; papel escapa entre polegar e indicador sem dobrar a ponta do polegar; atrofia do vale entre polegar e indicador no dorso | O dorso da mão do lado do mínimo também está dormente — o ramo dorsal sai antes do punho, então dorso alterado localiza no cotovelo, e não no punho |
| Radial na espiral do úmero | Extensão do punho e das articulações da base dos dedos; abertura do polegar; sensibilidade do dorso entre polegar e indicador | Punho caído com cotovelo forte; segurando o punho estendido com a sua mão, a preensão volta ao normal | O tríceps está preservado, o que coloca a lesão no braço e não na axila; e a face e a perna estão normais, o que a separa do déficit central |
| Fibular comum na cabeça da fíbula | Dorsiflexão e eversão do pé; sensibilidade do dorso do pé e da face lateral da perna | Pé caído com inversão preservada; percussão dolorosa sobre a cabeça da fíbula; reflexo aquileu normal | A inversão do pé é preservada porque depende do nervo tibial; se ela também estiver fraca, com dor lombar irradiada, o caso é radicular e vai para Lombalgia e hérnia de disco, em Ortopedia |
Tabela de conversão: um adulto de 80 kg, recalculada contra a apresentação que a Rename 2024 lista
| O que o documento prescreve | Apresentação no elenco do SUS | Conta refeita | O que isso muda na receita |
|---|---|---|---|
| Prednisona 1 mg/kg/dia por 5 dias (protocolo municipal de Jundiaí, 2022) | Prednisona comprimido de 5 mg e de 20 mg, Componente Básico e Estratégico | 80 kg × 1 mg/kg = 80 mg/dia = 4 comprimidos de 20 mg por dia; 20 comprimidos nos 5 dias | Cabe em comprimido inteiro, sem partir. Em 60 kg são 3 comprimidos; em 100 kg, 5; em 120 kg, 6 — o documento não declara teto |
| Redução gradual após o 5º dia (mesmo documento) | As mesmas duas apresentações permitem degraus de 5 em 5 mg | Não há esquema declarado: nem número de degraus, nem duração, nem dose final | O degrau é decisão de quem prescreve e precisa ficar escrito na receita com data em cada etapa |
| Aciclovir 800 mg cinco vezes ao dia por 7 dias (mesmo documento, para Ramsay Hunt) | Aciclovir comprimido de 200 mg, Componente Básico; valaciclovir não consta do elenco | 800 ÷ 200 = 4 comprimidos por tomada × 5 tomadas = 20 comprimidos/dia × 7 dias = 140 comprimidos | A quantidade precisa ir escrita por extenso; uma caixa comercial de 25 comprimidos não cobre nem dois dias |
| Aciclovir 400 mg cinco vezes ao dia por 7 dias (limite inferior da mesma faixa) | A mesma apresentação de 200 mg | 2 comprimidos por tomada × 5 × 7 dias = 70 comprimidos; 2.000 mg/dia contra 4.000 mg/dia no limite superior | A faixa do documento faz a dose diária variar em dobro sem dizer o que escolhe entre uma e outra |
| Colírio lubrificante de horário (mesmo documento) | Hipromelose solução oftálmica 0,3% e 0,5%, Componente Básico | 1 gota por hora em 16 horas acordado = 16 gotas/dia; a 20 gotas por mL, um frasco de 10 mL dura cerca de 12 dias | Um frasco por consulta não cobre o mês; a receita precisa prever a quantidade e o retorno para renovar |
| Pomada oftálmica para dormir (mesmo documento) | Nenhuma pomada lubrificante oftálmica consta da Rename 2024 | Busca exata sobre o texto normalizado: carmelose, carboximetilcelulose, lubrificante ocular, vaselina e lanolina retornam zero; as pomadas oftálmicas do elenco são de gentamicina e de dexametasona, que não são lubrificantes | A proteção noturna precisa ser feita por oclusão mecânica, e não pela pomada que a régua manda usar |
Quem recebe o paciente: quatro documentos brasileiros abertos, quatro respostas
| Documento e ano | Paralisia facial periférica | Síndrome do túnel do carpo | Prioridade que atribui |
|---|---|---|---|
| Protocolos de encaminhamento, v. 16 — Neurologia Adulto (MS/UFRGS, 2022) | Não consta: nenhum dos nove protocolos a contempla | Não consta | Não se aplica |
| Protocolo de manejo e acesso à otorrinolaringologia (Jundiaí, 2022) | Otorrinolaringologia, com tratamento instituído antes do encaminhamento | Não se aplica | P1 quando isolada; P0 quando associada a otite ou mastoidite |
| Protocolos de acesso ambulatorial — hospitais federais do Rio (MS, 2015) | Neurologia, na linha das paresias e paralisias segmentares e focais; e também fonoaudiologia, em outra linha do mesmo volume | Neurologia, na linha de neuropatias; e microcirurgia reconstrutiva, para os casos cirúrgicos | P2 na linha clínica da queixa do território do mediano, ofertada em um único dos seis hospitais |
| Protocolo de encaminhamento — Ortopedia Adulto (TelessaúdeRS-UFRGS, 2016) e Protocolo de regulação ambulatorial — Ortopedia (SMS-Rio, 2022) | Não consta | Neurocirurgia ou ortopedia ou cirurgia da mão, no gaúcho; só cirurgia da mão, via sistema de regulação, no carioca | Faixa verde, a penúltima de quatro, no carioca; sem faixa no gaúcho |
Conferência que não fechou, e é a mais aritmética deste capítulo: os percentuais das causas de paralisia facial, no protocolo municipal de 2022, não cabem em 100%. O documento atribui 60% a 70% à paralisia de Bell, 19% a 40% ao trauma e 10% a 15% à síndrome de Ramsay Hunt, e em seguida lista mais quatro grupos — infecciosas, neoplásicas, iatrogênicas e metabólicas — sem percentual. Somando os limites superiores das três faixas declaradas: 70 + 40 + 15 = 125%, ou seja, 25 pontos acima do total antes que qualquer das outras quatro categorias entre. Somando os limites inferiores: 60 + 19 + 10 = 89%, o que deixa 11 pontos para dividir entre quatro grupos. A ordem de grandeza continua utilizável — a maioria é idiopática, o trauma é o segundo, o zóster é o terceiro —, mas a faixa do trauma é larga demais para ser somada a qualquer coisa.
Conferência que não fechou, e esta muda o que o aluno consegue aprender pelo documento: a frase que define o sinal de Bell está truncada. O texto diz que o sinal é caracterizado pela rotação para cima do — e passa direto para quando o paciente tenta fechar o olho. Falta o substantivo, que é o globo ocular. A frase foi conferida sobre o texto normalizado para espaço e hifenização, para descartar artefato de extração, e a lacuna está mesmo no documento. Quem só tem essa fonte não consegue saber o que roda para cima, e o sinal, que é o mecanismo de defesa parcial da córnea, fica sem sentido.
Conferência que não fechou, e é a que mais atrapalha na porta: a janela de 24 horas não diz de quando se conta. O documento manda instituir o tratamento de preferência dentro das primeiras 24 horas do sintoma, e, três parágrafos acima, descreve que a paralisia de Bell pode ter como sintoma inicial parestesia na face, na orelha ou na língua. As duas leituras dão respostas opostas no mesmo paciente. No caso deste capítulo: dor retroauricular às 17h de sexta, paralisia percebida às 5h20 de sábado, consulta às 8h. Do primeiro sintoma até a consulta são 39 horas, o que coloca o paciente fora da janela; da paralisia até a consulta são 2 horas e 40 minutos, o que o coloca dentro dela com folga. Contar do primeiro sintoma é a leitura literal da frase e desqualificaria um paciente que chegou em menos de três horas de paralisia.
Conferência que não fechou, e é de segurança de dose: a prescrição por quilo não tem teto declarado nem esquema de redução escrito. Em 60 kg, 1 mg/kg dá 60 mg diários, que são 3 comprimidos de 20 mg. Em 80 kg, 80 mg, 4 comprimidos. Em 100 kg, 100 mg, 5 comprimidos. Em 120 kg, 120 mg, 6 comprimidos — o dobro do primeiro caso, sem que nenhuma linha do protocolo diga se a intenção era essa ou se existe um limite. A frase seguinte, que manda diminuir a dose gradualmente após os 5 dias, também não declara em quantos degraus, em quantos dias nem até que dose. Um esquema de corticoide sem teto e sem desmame escrito é exatamente o tipo de lacuna que se resolve com decisão individual — e decisão individual não fica registrada em lugar nenhum se quem prescreve não a escrever.
Conferência que fechou na aritmética e falhou na prática: a dose de antiviral do protocolo municipal é aritmeticamente coerente, mas inviável com a apresentação que o SUS entrega. A Rename 2024 traz aciclovir apenas em comprimido de 200 mg no Componente Básico, além do creme dermatológico e do pó para solução injetável de 250 mg; valaciclovir não consta do elenco. Na dose de 800 mg cinco vezes ao dia, são 4 comprimidos por tomada, 20 por dia, 140 em sete dias. Na dose de 400 mg, 70 comprimidos. Nada nisso está errado no documento — o que está é que a receita precisa nomear a quantidade, e uma caixa comercial de 25 comprimidos não cobre dois dias de tratamento.
O elenco nacional consultado inclui hipromelose em solução oftálmica; não foram identificadas as pomadas lubrificantes pesquisadas. Isso não prova ausência em todo o SUS. Confirmar padronização e acesso locais e manter proteção ocular eficaz conforme avaliação: lubrificação apropriada e fechamento seguro da pálpebra quando indicado. Pomadas antibióticas ou de corticoide não substituem lubrificante por estarem no elenco. Falta de um produto exige solução clínica e logística, não abandono da proteção corneana.
Conferência que fechou, e vale registrá-la porque é a que sustenta a receita deste capítulo: a hipromelose em solução oftálmica consta do Componente Básico da Rename 2024 nas duas concentrações, 3 mg/mL (0,3%) e 5 mg/mL (0,5%). O colírio que este capítulo prescreve na primeira hora está no elenco, é dispensável na unidade básica e é o mesmo que o capítulo Olho vermelho, em Oftalmologia, usa nas suas indicações.
Sujeitos diferentes para a mesma obrigação, e este é o achado estrutural do capítulo: quatro documentos brasileiros abertos mandam o mesmo paciente para quatro portas distintas. Uma paralisia facial periférica isolada vai para a otorrinolaringologia, com prioridade P1, no protocolo municipal de 2022; vai para a neurologia, na linha das paresias e paralisias segmentares e focais que cita nominalmente a facial, no documento federal de 2015; e aparece, no mesmo documento federal de 2015 e em outra linha, na lista de acesso à fonoaudiologia, ao lado de paralisias de pregas vocais. No protocolo federal de encaminhamento de neurologia adulto de 2022 ela não aparece em lugar nenhum. Quatro documentos, três destinos e uma ausência para a mesma doença.
O mesmo vale para a síndrome do túnel do carpo, e desta vez a divergência está dentro de um único documento. Nos Protocolos de acesso ambulatorial de 2015, ela aparece na linha da neurologia, sob o título de neuropatias e síndrome do túnel do carpo; aparece de novo na linha da microcirurgia reconstrutiva, onde os casos cirúrgicos devem ser encaminhados com eletroneuromiografia, tomografia e ressonância; e aparece uma terceira vez como queixa clínica do território do mediano, com prioridade P2 e a instrução de permanecer no nível especializado, ofertada em apenas um dos seis hospitais federais listados. O protocolo gaúcho de 2016 manda para neurocirurgia ou ortopedia ou cirurgia da mão; o carioca de 2022 manda só para a cirurgia da mão. Nenhum deles está errado isoladamente; o que não existe é uma resposta única à pergunta de para onde vai este paciente.
Conferência que fechou, e é importante porque mostra de onde vem a régua em uso: os cortes de tempo da síndrome do túnel do carpo coincidem entre os dois protocolos, com seis anos de distância. O gaúcho de 2016 encaminha quando há déficit de força objetivo ou atrofia da almofada do polegar, quando o déficit sensitivo é contínuo por três meses sem períodos de melhora, ou quando há seis meses sem resposta ao tratamento clínico otimizado. O carioca de 2022 repete os mesmos três, com a mesma aritmética de três e de seis meses, mudando apenas a redação. Os números batem; o que não bate é o destino.
Datação que precisa ser dita ao aluno: a régua brasileira de encaminhamento da compressão do mediano tem dez anos, e a bibliografia dela tem onze. O protocolo do TelessaúdeRS declara elaboração em 23 de agosto de 2016, o colofão traz o mesmo ano, e a bibliografia inteira para em 2015 — a única referência específica sobre tratamento da síndrome do túnel do carpo é de base terciária, de 2014, acessada em abril de 2015. Ele continua sendo o documento que a atenção primária brasileira usa porque não foi substituído: vigência por ausência de substituto, que é o teste mais fraco de todos.
Faixa que não pertence a nenhuma classe, no protocolo carioca de 2022: a tabela de priorização tem quatro faixas, com 11, 10, 10 e 5 condições, e a síndrome do túnel do carpo aparece uma única vez, na terceira faixa, sem qualificação — ao lado de rizoartrose, fascite plantar e tenossinovite de De Quervain. O caso grave, com atrofia da almofada do polegar ou déficit de força, está numa lista separada, de condições potencialmente cirúrgicas, que entra por outro fluxo e não recebe cor nenhuma. Resultado: o paciente com o achado que os próprios protocolos usam para dizer que a lesão já é axonal não tem posição declarada na fila de prioridade, enquanto o oligossintomático tem — e a dele é a penúltima.
Ausência que muda conduta, na régua oftalmológica: o lagoftalmo entra pela porta eletiva. O protocolo de encaminhamento em oftalmologia adulto de 2023 lista a má oclusão palpebral, nomeando o lagoftalmo, entre as condições que indicam encaminhamento ambulatorial ao oftalmologista — e não entre as que indicam encaminhamento para emergência oftalmológica, lista que contempla trauma orbitopalpebral, infecção aguda de vias lacrimais e proptose aguda. O mesmo documento não menciona paralisia facial nenhuma vez. Ou seja: nenhuma régua brasileira aberta trata o olho que deixou de fechar hoje como urgência, e é por isso que este capítulo assume a proteção da córnea e a coloca antes da primeira dose de corticoide.
Duas observações editoriais sobre o protocolo municipal de 2022, que não mudam conduta e por isso ficam separadas das conferências acima: o arquivo publicado carrega quarenta vezes, ao longo de 58 páginas, o texto de espaço reservado do editor de texto em que foi redigido, o que indica publicação sem revisão final de diagramação; e o documento chama de otite externa maligna o quadro que o capítulo Otites e rinossinusite, em Otorrinolaringologia, chama de otite externa necrotizante, que é a nomenclatura mais recente. As duas coisas importam para calibrar o peso da fonte, e nenhuma delas invalida o conteúdo clínico.
A conduta, hora a hora
O que segue é a manhã do Aristarco, com horário, numa unidade de pronto atendimento sem tomógrafo e sem especialista. Ele pesa 80 quilos — o peso importa porque a única régua brasileira aberta que prescreve nesta doença prescreve por quilo. Os sete primeiros marcos são dele; o oitavo é o que muda quando o nervo doente é de um membro, e não da face.
A ordem importa mais que a velocidade, e o marco que costuma sair do lugar é o terceiro: a proteção do olho vem antes da primeira dose de corticoide, porque custa nada, não depende de decisão nenhuma e é a única coisa desta manhã cuja falta deixa sequela permanente.
Proteger função e acompanhar recuperação. Em fechamento palpebral incompleto, lubrificar, ensinar fechamento seguro durante o sono e procurar avaliação oftalmológica se dor, hiperemia ou alteração visual. Reavaliar se surgirem sinais neurológicos, sintomas oculares ou recuperação incompleta em três meses. Em compressão de nervo, retirar pressão e documentar força específica; déficit motor progressivo ou atrofia exige referência antecipada, sem aguardar meses de tala. Evitar apoio sobre a cabeça da fíbula ao posicionar o paciente.
07h40 a 07h45 — os trinta segundos que decidem o hospital
Testar fronte, fechamento ocular e sorriso e procurar outros sinais neurológicos. Em Aristarco, o acometimento de toda a hemiface com restante do exame normal favorece VII periférico isolado. A testa sozinha não exclui AVC pontino; diplopia, ataxia, déficit em membros ou outros sinais exigem investigação urgente. Confirmar tempo e evolução antes de atribuir a Bell.
07h45 a 07h50 — o otoscópio, que é o exame que muda a doença
Pegue o otoscópio antes de sentar para escrever. Olhe o conduto auditivo direito procurando vesículas, otorreia e tecido de granulação no assoalho. Olhe a membrana timpânica. Olhe o pavilhão inteiro, a pele à frente da orelha e, com uma lanterna, o palato do mesmo lado. Passe o dedo atrás da orelha procurando dor, edema e apagamento do sulco. Palpe a parótida procurando nódulo. Em Aristarco não há vesícula, não há otorreia, a membrana está normal e a parótida é lisa; há apenas dor à palpação atrás da orelha, que é o que ele já vinha sentindo desde a véspera. Isso fecha três portas de uma vez: não é Ramsay Hunt, não é complicação de otite, não é massa de parótida. Se qualquer uma delas estivesse aberta, o marco seguinte seria outro — vesícula acrescenta antiviral e piora o prognóstico; otorreia com granulação em diabético tira o paciente do ambulatório e o manda para Otites e rinossinusite, no livro de Otorrinolaringologia, com o desnível de prioridade que aquele capítulo descreve.
07h50 a 08h00 — o olho, antes de tudo
Este marco vem antes do corticoide de propósito. Meça a fenda que sobra com o olho fechado suavemente e escreva o número em milímetros. Teste a sensibilidade da córnea com uma mecha de algodão, comparando os dois lados: em Aristarco ela está preservada, o que significa que ele vai reclamar quando o olho sofrer — e é uma notícia boa que precisa ser registrada, porque o oposto muda a conduta. Comece a lubrificação ali mesmo, com a primeira gota pingada por você, na unidade, e não em casa. Explique e demonstre a oclusão noturna: pálpebra fechada com o dedo e fita micropore na horizontal, por cima da pálpebra fechada, de modo que ela não abra durante o sono. Aqui há uma escolha que o texto expõe em vez de esconder: a régua municipal manda colírio de horário mais pomada oftálmica para dormir, e pomada lubrificante oftálmica não consta do elenco da Rename 2024 — o único lubrificante ocular do Componente Básico é a hipromelose em solução. A substituição da pomada pela oclusão mecânica noturna é leitura deste capítulo diante dessa ausência, não citação de norma brasileira. Ocluir é seguro no olho íntegro; o capítulo Olho vermelho, no livro de Oftalmologia, registra que a oclusão é contraindicada em olho infectado, em usuário de lente de contato e em queimadura química, e nenhuma dessas é a situação aqui.
Prescrição- Hipromelose 3 mg/mL (0,3%) solução oftálmica — 1 gota no olho direito a cada 1 hora enquanto acordado, e sempre que sentir ardência. Componente Básico da Rename 2024.
- Oclusão noturna do olho direito: fechar a pálpebra e fixar com fita microporosa horizontal por cima da pálpebra fechada, todas as noites e em qualquer cochilo, até o olho voltar a fechar sozinho.
- Óculos escuros ou óculos comuns durante o dia, sobretudo dirigindo, para reduzir vento e poeira sobre a córnea exposta.
- Orientação escrita de retorno imediato: dor no olho, embaçamento da visão, mancha branca na córnea ou vermelhidão que piora.
08h00 a 08h10 — o corticoide, a régua que existe e a que não existe
Em paralisia de Bell no adulto elegível, iniciar corticoide oral dentro de 72 horas, após avaliar contraindicações e riscos, inclusive glicemia. Um esquema usual é prednisona 60 mg/dia por cinco dias, seguida de redução de 10 mg/dia nos cinco dias seguintes; seguir protocolo e individualizar. Não aplicar automaticamente 80 mg a todo paciente nem deixar o desmame como degrau arbitrário. Explicar benefício e efeitos esperados sem garantir recuperação completa.
Prescrição- Prednisona 60 mg VO uma vez ao dia por 5 dias, seguida de redução de 10 mg por dia nos 5 dias seguintes, como esquema usual no adulto elegível; conferir contraindicações e protocolo.
- A partir do 6º dia, redução gradual escrita na receita, com data em cada degrau — o protocolo municipal manda reduzir gradualmente e não escreve o esquema; o degrau adotado precisa ficar registrado na ficha, seja ele qual for.
- Se houver diabetes: medir glicemia capilar antes das refeições durante os dias de corticoide e orientar o paciente sobre o que fazer com valores altos, porque a régua municipal não trata deste ponto.
- Protetor gástrico não entra por rotina: cinco dias de corticoide em paciente sem fator de risco não justificam medicamento a mais.
08h10 a 08h15 — o antiviral, que depende do que o otoscópio viu
Não prescrever antiviral isoladamente para Bell. Pode-se oferecer associação ao corticoide nas primeiras 72 horas, discutindo benefício adicional limitado/incerto; considerar especialmente paralisia grave. Otalgia intensa, vesículas ou suspeita de Ramsay Hunt justificam avaliação e tratamento antiviral específico sem esperar todos os sinais. Ausência de vesículas não encerra essa hipótese. Proteger o olho desde a primeira avaliação.
Prescrição- Antiviral não é monoterapia para Bell; associação pode ser discutida com corticoide, particularmente em paralisia grave. Suspeita de zóster/Ramsay Hunt tem avaliação própria.
- Se houvesse vesícula: aciclovir 200 mg comprimido, 4 comprimidos (800 mg) por via oral, 5 vezes ao dia, por 7 dias — total de 140 comprimidos, quantidade a ser escrita por extenso na receita para que a dispensação não fracasse.
- Reexaminar o pavilhão e o conduto no retorno: as vesículas podem aparecer depois da paralisia.
08h15 a 08h25 — o que se escreve, que é o que sobrevive ao plantão
A ficha deste caso vale mais que a receita, porque ela é o que o próximo médico vai ler e é o que a regulação vai avaliar. Escreva, nesta ordem: hora do primeiro sintoma percebido pelo paciente, e não a hora da chegada; que a testa do lado paralisado não enruga; que o restante do exame neurológico está normal, listando o que foi testado, inclusive a sensibilidade da face e a ausência de diplopia e de déficit em membros; o achado da otoscopia e do pavilhão, inclusive as ausências; a fenda palpebral residual em milímetros; que a sensibilidade da córnea está preservada; a hora da primeira dose de corticoide; e a orientação ocular dada, com as palavras usadas. Escreva também, em uma linha, a hipótese com o nome inteiro — paralisia facial periférica direita, provável paralisia de Bell — porque hipótese abreviada vira outra coisa na terceira pessoa que a lê.
08h25 a 08h35 — para onde ele vai e com que prioridade
Aristarco vai para casa hoje, com receita, com orientação ocular escrita e com dois retornos: um em 48 a 72 horas na própria unidade ou na unidade básica, para reavaliar o olho e a progressão, e um encaminhamento para avaliação especializada. Para onde é a pergunta que as réguas brasileiras respondem de forma diferente, e este capítulo mostra as duas em vez de escolher por quem lê. O protocolo municipal de 2022 manda instituir o tratamento adequado e encaminhar para avaliação prioritária com o otorrinolaringologista, classificando a paralisia facial isolada como P1. O documento federal de 2015 lista as paresias e paralisias segmentares e focais, citando nominalmente a facial, entre os motivos de encaminhamento à neurologia — e, em outra linha do mesmo volume, coloca a paralisia facial periférica e central na lista de acesso à fonoaudiologia. Na prática, o que decide é o que a sua regulação municipal oferta; o que não pode acontecer é o encaminhamento não sair porque ninguém sabia para quem. Escreva o motivo, a data de início e o exame, e deixe o destino para o regulador. E marque o retorno com data, nunca apenas com a frase de voltar se piorar.
O oitavo marco não é do Aristarco: é a compressão de membro, e o que se faz primeiro
Quando o nervo que parou é do braço ou da perna, a conduta inverte a ordem: o primeiro ato não é receita, é retirar a causa. No túnel do carpo, isso é a órtese que mantém o punho reto durante a noite, porque é o punho fletido do sono que fecha o túnel — e é a medida que os protocolos brasileiros contam como parte do tratamento clínico otimizado, ao lado de exercícios e fisioterapia. No ulnar do cotovelo, é parar de apoiar o cotovelo e evitar mantê-lo dobrado por horas, inclusive dormindo. No radial, é o tempo: a compressão do sono profundo costuma ser bloqueio de mielina e recupera sozinha, e o que se faz é uma órtese que mantenha o punho estendido para que a mão continue útil enquanto o nervo volta. No fibular, é retirar a compressão da cabeça da fíbula, revisar gesso, tala, meia elástica e posição, e — no internado — mudar de decúbito e proteger o joelho com coxim, com a mudança escrita na prescrição de enfermagem. Analgésico entra para dor, não para o nervo; a Rename 2024 tem amitriptilina e carbamazepina no Componente Básico e gabapentina no Especializado, o que significa que a gabapentina não sai na unidade básica. O prazo para reavaliar e a régua para encaminhar estão no bloco de critérios, e vêm dos protocolos de 2016 e de 2022.
Prescrição- Órtese de punho em posição neutra para uso noturno, na síndrome do túnel do carpo — a peça, e não o comprimido, é o tratamento inicial.
- Retirada da causa mecânica identificada e escrita no prontuário: apoio do cotovelo, cruzar as pernas, borda de gesso ou tala, meia elástica enrolada, posição no leito.
- No paciente internado com risco: coxim sob o joelho, mudança de decúbito a cada 2 horas e checagem diária da dorsiflexão do pé — prescritas em enfermagem, com horário.
- Analgesia conforme a dor, sabendo o elenco: amitriptilina e carbamazepina no Componente Básico; gabapentina só pelo Componente Especializado.
Como saber se está funcionando
A reavaliação deste capítulo tem uma inversão em relação ao instinto: o parâmetro que decide não é a face, é o olho. A face melhora ou não melhora ao longo de semanas, e não há muito a fazer entre uma consulta e outra; o olho pode ulcerar em dias, e tudo o que se faz por ele é feito entre uma consulta e outra.
Sete parâmetros, com o intervalo em que cada um é útil. Os quatro primeiros são da paralisia facial; os três últimos, das compressivas de membro. Todos eles são medidos por pessoa, à beira do leito ou no consultório, e nenhum depende de exame complementar.
Esperado: Redução progressiva da fenda ao longo de semanas, com o olho voltando a fechar completamente. É o primeiro sinal objetivo de que o nervo está voltando, e costuma preceder o retorno do sorriso.
Se não melhora: Fenda que não reduz depois de três a quatro semanas, ou que aumenta, é motivo de reavaliação especializada e de intensificar a proteção — não de trocar o corticoide, que já terminou.
Esperado: Olho confortável, sem dor, sem embaçamento e sem vermelhidão que piora. Alguma ardência no primeiro dia é esperada e cede com a lubrificação de horário.
Se não melhora: Dor no olho, embaçamento novo, mancha esbranquiçada na córnea, secreção ou vermelhidão que aumenta apesar da lubrificação são avaliação oftalmológica no mesmo dia. A partir daí o caso é de Olho vermelho, em Oftalmologia — este capítulo protege a córnea íntegra, não trata a lesada.
Esperado: Recuperação que começa em semanas e progride. A régua brasileira aberta registra que 80% a 90% dos casos de paralisia de Bell se recuperam em cerca de um mês — o que também significa que uma parcela não se recupera, e que dizer ao paciente que vai passar em um mês é prometer o que a própria fonte não garante.
Se não melhora: Ausência de qualquer movimento novo depois de três meses muda o horizonte: passa a existir risco de sequela, e o encaminhamento, se ainda não saiu, sai agora com essa informação escrita.
Esperado: Nenhuma vesícula nova. Ouvido limpo, sem otorreia e sem granulação.
Se não melhora: Vesícula que aparece depois muda o diagnóstico para síndrome de Ramsay Hunt e acrescenta o antiviral, que é o único cenário em que a régua brasileira aberta trata seu uso como firme. Se junto aparecerem perda auditiva ou vertigem, a avaliação passa a ser urgente.
Esperado: Quadro que se completa em até dois ou três dias e depois estaciona antes de começar a melhorar.
Se não melhora: Paralisia que continua progredindo depois da primeira semana, ou que recorre sempre do mesmo lado, sai da hipótese de paralisia de Bell. A suspeita passa a ser tumor ou doença sistêmica, e o encaminhamento muda de prioridade e de conteúdo.
Esperado: Força mantida ou em recuperação, sem atrofia. Na compressão do radial por sono profundo, retorno em semanas é o curso habitual, porque a lesão costuma ser de mielina.
Se não melhora: Déficit de força objetivo ou atrofia — da almofada do polegar no mediano, do vale entre polegar e indicador no ulnar — é o achado que os dois protocolos brasileiros usam para tirar o paciente da fila comum. Encaminhe, com a data em que a atrofia foi vista.
Esperado: Formigamento que vai e volta, com noites melhores, e uso da órtese todas as noites. Melhora com a retirada da causa mecânica é a regra quando a causa foi identificada.
Se não melhora: Déficit sensitivo contínuo, sem períodos de melhora, por três meses, ou seis meses sem resposta ao tratamento clínico otimizado, são os dois cortes de tempo que abrem o encaminhamento nos protocolos brasileiros. Antes disso, o que costuma faltar não é cirurgia: é a órtese sendo de fato usada e a causa de fato retirada.
Onde o erro machuca
O dano: É o erro mais caro deste capítulo porque gasta o que o serviço tem de mais escasso e não protege nada. Custa vaga de tomografia, transporte, horas de sala de espera e a atenção de uma equipe inteira. Custa, sobretudo, a manhã do olho: enquanto a discussão é sobre o cérebro, ninguém pinga colírio, ninguém mede a fenda e ninguém ensina a oclusão noturna. E o paciente sai com a palavra derrame escrita na ficha, que é uma palavra que não se apaga da vida de quem a lê.
Como pegar a tempo: Avaliar toda a face e o restante do exame; fronte paralisada não exclui lesão pontina. O conjunto, o tempo e os sinais associados definem a urgência.
O dano: Perde-se, de uma vez, a síndrome de Ramsay Hunt — que a régua brasileira aberta estima em 10% a 15% dos casos, tem prognóstico pior e é a única indicação firme de antiviral — e a otite externa necrotizante, cuja diferença de conduta contra a paralisia de Bell é internação contra corticoide ambulatorial. Nos dois casos o paciente vai para casa com a prescrição da doença errada.
Como pegar a tempo: Otoscópio na mão antes de sentar para escrever. Procure vesícula no conduto, no pavilhão, na pele à frente da orelha e no palato; procure otorreia e tecido de granulação no assoalho do conduto; palpe atrás da orelha e a parótida. E reexamine no retorno: a vesícula pode aparecer depois da paralisia.
O dano: A face melhora ou não melhora ao longo de semanas, e nada do que se faz na consulta muda muito isso. A córnea, sem piscar, resseca em faixa desde a primeira noite. A sequela evitável deste capítulo não é a assimetria do sorriso: é a opacidade da córnea de quem passou três noites com a fenda aberta enquanto todo mundo cuidava da face.
Como pegar a tempo: Inverta a ordem: resolva o olho antes de prescrever. Meça a fenda e escreva o número, teste a sensibilidade da córnea com algodão, pingue a primeira gota na unidade, e ensine a oclusão noturna com o paciente executando na sua frente — não descrita, executada. Orientação ocular que não foi demonstrada não é orientação, é frase.
O dano: A oclusão é a medida certa no olho íntegro que não fecha, e é a medida errada num olho já infectado ou já ulcerado: fecha a câmara sobre a infecção e esconde a piora, que é justamente o que se precisa enxergar. O capítulo Olho vermelho, em Oftalmologia, registra a oclusão ocular como contraindicada em olho infectado, em usuário de lente de contato e em queimadura química.
Como pegar a tempo: Examine antes de ocluir e reexamine em cada retorno. Se há dor intensa, secreção, embaçamento ou mancha esbranquiçada na córnea, o caso deixa de ser proteção e passa a ser tratamento de córnea doente, que é de Oftalmologia. E pergunte por lente de contato antes de entregar a fita.
O dano: Nenhum dos protocolos brasileiros abertos exige eletroneuromiografia como condição para encaminhar: os dois a pedem no conteúdo descritivo mínimo apenas quando já realizada, com data. Segurar o papel esperando um exame que não é pré-requisito adia o paciente por meses, num quadro cujos próprios critérios de encaminhamento são contados em meses. E, se o exame for pedido cedo demais, ele ainda pode vir normal por tempo insuficiente de degeneração, o que atrasa duas vezes.
Como pegar a tempo: Escreva o encaminhamento com o que os protocolos pedem: sintomas e tempo de evolução, manobras feitas e registradas, tratamento já tentado com duração, relação com o trabalho, e o exame com data se houver. Marque o retorno no seu serviço para continuar o tratamento enquanto a fila anda — encaminhar não é transferir o cuidado.
O dano: É a lesão mais evitável deste capítulo e a que menos aparece em prontuário. O paciente acamado que amanhece arrastando o pé quase sempre teve o nervo fibular esmagado contra a cabeça da fíbula por um turno inteiro — pela grade da cama, pelo colchão, por um gesso com borda alta, por uma meia elástica enrolada, ou pela perna cruzada de quem não consegue se descruzar. Chamar isso de fraqueza do repouso mantém a compressão no lugar por mais um turno, e o que era bloqueio de mielina vira lesão de axônio, que leva meses.
Como pegar a tempo: Diante de qualquer fraqueza nova em membro no paciente internado, faça duas perguntas antes de qualquer hipótese: o desenho do que apagou cabe no território de um nervo? E o que está encostado nesse nervo agora? Levante o lençol, olhe o joelho, olhe a borda do gesso, olhe onde a meia terminou e onde o cotovelo está apoiado. Prescreva a proteção em enfermagem, com horário, e cheque a dorsiflexão do pé na visita do dia seguinte.
O que dizer ao paciente e à família
Sete conversas desta doença, em ordem cronológica. As quatro primeiras acontecem na mesma consulta de sábado de manhã; a quinta e a sexta, ao entregar a receita; a sétima, três dias depois.
A dificuldade específica deste capítulo é que a doença fica no rosto, que é o lugar em que a pessoa se reconhece e é reconhecida. O paciente não está perguntando sobre um nervo: está perguntando se vai voltar a ser ele.
Ele mostra a foto do banheiro e diz que teve um derrame
“Eu entendo por que o senhor pensou isso, e era a primeira coisa que eu também tinha que descartar. Acabei de fazer um exame que responde essa pergunta: pedi que o senhor levantasse as sobrancelhas. Muitas lesões hemisféricas poupam relativamente a testa, mas isso não vale para todas as lesões cerebrais, especialmente no tronco. Na sua, o lado direito da testa não enrugou. Isso quer dizer que o problema não está dentro da cabeça: está no nervo que sai de dentro do osso atrás da sua orelha e vai para o rosto. É outra doença, com outro tratamento, e não é a que o senhor está temendo.”
Não diga: Não é derrame, fique tranquilo. A negação sem o motivo não convence ninguém que passou a madrugada olhando o próprio rosto no espelho, e a frase seguinte dele vai ser pedir a tomografia. Dizer qual exame respondeu, e o que ele mostrou, é o que troca o medo por informação.
Ele pergunta se o rosto volta ao normal
“A maior parte das pessoas com esse quadro recupera bem, e boa parte em torno de um mês. Eu não vou prometer que o senhor vai estar entre elas, porque essa doença tem uma parcela de gente que fica com alguma assimetria, e eu não tenho como saber hoje de qual lado o senhor está. O que eu sei é o que aumenta a chance: começar o remédio agora, que é o que estamos fazendo, e cuidar do olho todos os dias. E eu sei o que a gente vai olhar para responder isso daqui a três dias: se o olho estiver fechando um pouco mais que hoje, é o primeiro sinal de que está voltando.”
Não diga: Em um mês o senhor está bom. É uma promessa que a própria fonte não autoriza — ela fala em 80% a 90% dos casos, o que quer dizer que existe o resto. Quem promete cem por cento perde o paciente que ficou nos dez, e é justamente esse que mais vai precisar de acompanhamento.
Ele pergunta quando volta a dirigir a van escolar
“Duas coisas separam essa resposta. A primeira é o olho: com um olho que não fecha e não pisca, o senhor tem menos campo, lacrimeja e o vento na estrada resseca a córnea — dirigir assim é ruim para o olho e é ruim para a estrada. A segunda é que a gente ainda não sabe a velocidade da recuperação. Eu proponho o seguinte: o senhor não dirige até a reavaliação de terça, e na terça a gente decide junto com base no olho. Vou escrever isso no atestado com a data, para o senhor não ter que explicar nada para a escola.”
Não diga: O senhor pode dirigir normalmente, isso é só no rosto. É falso e é perigoso — o rosto inclui a pálpebra, e a pálpebra é o que protege a superfície do olho de quem passa horas com o vento batendo. E evite o oposto também: proibir por tempo indeterminado, sem data de reavaliação, para um homem que vive da van.
A esposa pergunta por que não vai fazer tomografia
“A necessidade de imagem é definida pelo exame neurológico completo e pela evolução; o movimento da testa sozinho não responde essa pergunta. O que a tomografia enxerga mal é justamente o nervo dentro do osso, que é onde está o problema dele. Se eu tivesse encontrado qualquer outro sinal — visão dupla, fraqueza no braço, desequilíbrio, dormência na face — a conversa seria outra e a gente estaria pedindo vaga agora. Eu vou escrever na ficha tudo o que testei, para que qualquer médico que atender ele depois saiba o que já foi feito. E se aparecer qualquer um desses sinais, vocês voltam na hora.”
Não diga: Aqui não tem tomógrafo. Mesmo quando é verdade, é a resposta que transforma uma decisão clínica correta em falta de recurso, e a família sai achando que ele foi mal atendido. A indisponibilidade pode ser dita depois; o motivo clínico vem primeiro.
Ele estranha a fita no olho e diz que vai dormir com aquilo
“Vai, todas as noites, até o olho voltar a fechar sozinho. Deixa eu explicar por quê: a parte da frente do olho não tem vaso de sangue, ela se alimenta da lágrima que o piscar espalha. Do lado direito o senhor parou de piscar. De dia dá para compensar com o colírio de hora em hora, mas durante o sono não tem colírio nenhum e o olho fica aberto por seis, sete horas seguidas. É nessas noites que a superfície do olho machuca. Vou fazer com o senhor agora, e o senhor faz de volta na minha frente, para eu ver se ficou bom.”
Não diga: Tenta tampar o olho à noite, se conseguir. A instrução vaga não sobrevive à terceira noite. Este é o item da consulta que precisa ser demonstrado, executado pelo paciente na sua frente e escrito no papel que ele leva.
Ele pergunta se pode parar o comprimido quando melhorar
“Não. São cinco dias na dose cheia e depois a redução que está escrita aqui, com a data de cada etapa. Corticoide não é remédio de sintoma: ele age no inchaço do nervo dentro do canal de osso, e esse inchaço não é uma coisa que o senhor sente. Se parar no meio porque o rosto melhorou um pouco, o senhor tira o remédio justamente quando ele ainda está trabalhando. E se não melhorar nada em cinco dias, também não é para aumentar por conta própria: é para voltar aqui.”
Não diga: Toma até acabar a caixa. A caixa não é a prescrição, e num esquema com redução escalonada a frase produz erro de dose. O que sobrevive à semana é a receita com a data de cada degrau, escrita em letra legível.
Ele volta na terça, sem nenhuma melhora, achando que o tratamento falhou
“Três dias é cedo para julgar a face, e eu vou explicar o que eu estou olhando hoje. Primeiro, o olho: sexta a fenda era de tantos milímetros, hoje é essa aqui, e é isso que a gente compara. Segundo, se apareceu alguma coisa nova no ouvido, porque às vezes a bolha aparece depois e muda o tratamento. Terceiro, se a fraqueza parou de aumentar — ela ter parado já é uma informação boa. O que preocuparia seria o contrário: piorar depois desta semana, ou aparecer qualquer sinal fora do rosto. Nada disso aconteceu. A gente segue com o plano e volta a se ver na semana que vem.”
Não diga: É normal, tenha paciência. Está certo no conteúdo e vazio na forma: não diz o que foi examinado hoje nem o que mudaria a conduta. Paciente que ouve tenha paciência duas vezes seguidas procura outro serviço, e o segundo serviço não vai ter a medida da fenda do primeiro dia.
Onde bons médicos discordam
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.
Conta do primeiro sintoma, seja ele qual for
O documento manda instituir o tratamento de preferência dentro das primeiras 24 horas do sintoma, e ele mesmo descreve, três parágrafos acima, que a paralisia de Bell pode ter como sintoma inicial parestesia na face, na orelha ou na língua. Lida ao pé da letra, a contagem começa na parestesia ou na dor retroauricular, e não na paralisia — o que faz um paciente que chega com duas horas de face parada já estar fora da janela.
Protocolo de manejo e acesso à otorrinolaringologia, Jundiaí, 2022, Versão I, seções 14.2 e 14.4.
Conta do momento em que a face parou
O sintoma que a frase quer datar é o que define a doença que se vai tratar, e essa doença é a paralisia. Contar da parestesia obrigaria a datar um sintoma inespecífico, que o paciente frequentemente não sabe precisar e que aparece em muitas outras condições — e produziria a consequência de negar o tratamento a quem chegou cedo. Nenhuma linha do documento afirma que a contagem começa na parestesia; ela apenas não afirma o contrário.
Leitura sistemática do mesmo documento; não há norma brasileira posterior que resolva a ambiguidade, e o protocolo federal de encaminhamento de neurologia adulto de 2022 não trata da paralisia facial.
Para o paciente à sua frente, registre os dois marcos com hora — quando começou o incômodo e quando a face parou — e escreva na ficha qual dos dois você usou para contar. Isso resolve o problema prático de duas maneiras: quem vier depois sabe de onde partiu a contagem, e a decisão fica auditável. Depois, decida pelo tamanho do intervalo, e não pela frase: um paciente que está a poucas horas da paralisia está dentro de qualquer leitura; um que está no quinto dia está fora de todas; a divergência só muda a conduta na faixa estreita entre uma coisa e outra, e é exatamente aí que a decisão precisa estar escrita.
Otorrinolaringologia, com prioridade
O protocolo municipal de 2022 dedica uma seção inteira à paralisia facial, manda instituir o tratamento adequado antes de encaminhar e classifica o caso isolado como P1, avaliação prioritária com o otorrinolaringologista. O raciocínio é anatômico: o nervo adoece dentro do osso temporal, e as causas que mudam a conduta — zóster, otite, colesteatoma, tumor de parótida — são todas de território otorrinolaringológico.
Protocolo de manejo e acesso à otorrinolaringologia, Jundiaí, 2022, Versão I, seções 14.5 e classificação de risco.
Neurologia
O documento federal de 2015 lista, entre os motivos de encaminhamento à neurologia, as paresias e paralisias segmentares e focais, citando nominalmente a facial, e agrupa a linha sob o título de neuropatias. O mesmo volume, em outra linha, coloca a paralisia facial periférica e central entre as condições de acesso à fonoaudiologia. Nenhuma das duas linhas é revogada pela outra, e as duas continuam publicadas.
Protocolos de acesso ambulatorial: consultas especializadas, hospitais federais no Rio de Janeiro, Ministério da Saúde, 2015, linhas de neurologia e de fonoaudiologia.
Deixe o exame decidir, e não a tabela. Se a otoscopia mostrou vesícula, otorreia, granulação ou tímpano alterado, ou se há nódulo de parótida, o caso tem endereço otorrinolaringológico por conteúdo, e é assim que ele deve ser escrito. Se apareceu qualquer achado fora do sétimo par — diplopia, alteração de sensibilidade da face, desequilíbrio, déficit em membro —, o endereço é neurológico e a prioridade sobe. Se o exame foi inteiramente normal fora da face, escreva o motivo e a data de início e deixe o destino para a regulação local, que é quem sabe o que o município oferta. O que não pode acontecer é o encaminhamento não sair porque a dúvida sobre o destino travou o papel.
Prescrever, apoiado na associação viral
O mesmo documento que registra a controvérsia dá a dose e explica a lógica: a utilização acaba sendo embasada pela associação da presença do herpes-vírus tipo 1 nesses pacientes, e a medicação de escolha é o aciclovir de 400 a 800 mg, cinco vezes ao dia, por sete dias. Quem sustenta esta posição argumenta que o custo do medicamento é baixo e que a lesão do nervo, se for viral, é irreversível depois de instalada.
Protocolo de manejo e acesso à otorrinolaringologia, Jundiaí, 2022, Versão I, seção 14.4.
Reservar para quem tem vesícula
O mesmo documento escreve que o uso do antiviral é indiscutível na paralisia secundária à síndrome de Ramsay Hunt e que segue discutido na paralisia de Bell. Quem sustenta esta posição lê a distinção como deliberada: o documento firma o uso onde há causa demonstrada e o mantém em aberto onde não há. Some-se a isso a viabilidade da dispensação, já que a apresentação do elenco do SUS é o comprimido de 200 mg, o que produz 140 comprimidos em sete dias na dose maior.
Mesmo documento, mesma seção; e Rename 2024, Componente Básico, aciclovir 200 mg comprimido, sem valaciclovir no elenco.
Reexamine o conduto, o pavilhão e o palato antes de decidir, e reexamine de novo no retorno de 48 a 72 horas — a vesícula aparece depois em parte dos casos, e achá-la resolve a dúvida em vez de argumentá-la. Se decidir prescrever sem vesícula, faça a conta da quantidade antes de escrever a receita e pergunte ao paciente, em voz alta, se ele consegue tomar quatro comprimidos cinco vezes por dia durante sete dias: um esquema que não é cumprido não é o esquema que se acredita estar prescrevendo. E registre a decisão com o motivo, porque quem reavaliar o paciente na semana seguinte precisa saber se o antiviral foi omitido por escolha ou por esquecimento.
O raciocínio, em voz alta
Sábado, 7h40, numa unidade de pronto atendimento sem tomógrafo e sem especialista na escala, que atende um município de setenta e dois mil habitantes. Aristarco Itabira, 43 anos, motorista de van escolar, 80 quilos, chega andando sozinho com pulseira amarela e a queixa de boca torta desde hoje. Pressão 138 por 84, pulso 76, saturação 98%, temperatura 36,4, glicemia capilar 104. Sentiu dor atrás da orelha direita ontem às cinco da tarde; percebeu a face parada hoje às 5h20, no espelho do banheiro. Não tem doença conhecida, não usa medicação, não fuma. A preceptora está ocupada há dez minutos com outro paciente.
o que eu faço com a pulseira amarela e com a palavra derrame, antes de qualquer coisa
Eu não discuto a pulseira: ela está correta, porque a triagem viu assimetria de face nova e assimetria de face nova merece ser vista rápido. O que eu faço é acrescentar informação a ela em minutos, não em horas. E eu registro mentalmente que a palavra derrame já circulou pela recepção, pela triagem e pelo próprio paciente — se eu não a desmentir explicitamente e em voz alta depois do exame, ela continuará circulando pelo resto do dia e vai reaparecer na ficha, no atestado e na conversa da família.
os três movimentos, e o que a testa respondeu
Ainda em pé na frente dele: levante as sobrancelhas o mais alto que conseguir. A testa esquerda enruga em três linhas; a direita fica lisa. Feche os olhos com força: o esquerdo cerra, o direito deixa uma fresta visível, e quando eu tento abrir a pálpebra direita com o polegar ela cede sem resistência. Mostre os dentes: o canto direito não sobe. Encha as bochechas: o ar escapa pelo lado direito quando eu aperto. Isso é uma hemiface direita inteira, de cima a baixo, e a testa lisa é o achado que decide. Trinta segundos, nenhum aparelho.
o resto do exame neurológico em dois minutos, que eu faço justamente porque a testa está lisa
A testa lisa localiza a lesão no nervo, mas não diz onde o nervo está sofrendo — e o sétimo par nasce ao lado de estruturas que, se estiverem doentes junto, mudam tudo. Então eu pergunto por visão dupla e testo os movimentos oculares; toco com algodão as três faixas da face dos dois lados, porque a sensibilidade da face é do quinto par e deve estar normal; peço que morda com força; peço uma frase difícil para separar disartria verdadeira de fala embolada por lábio frouxo; peço que estenda os braços e mantenha; e peço que ande até a porta e volte. Tudo normal. É essa normalidade, e não a testa sozinha, que me autoriza a não pedir imagem.
o otoscópio, e as quatro portas que ele fecha em noventa segundos
Antes de sentar para escrever, eu olho o conduto direito procurando vesícula, otorreia e tecido de granulação; olho a membrana timpânica; olho o pavilhão inteiro e a pele à frente da orelha; peço que abra a boca e olho o palato do mesmo lado com a lanterna; passo o dedo atrás da orelha; palpo a parótida. Nada. Isso fecha, de uma vez, síndrome de Ramsay Hunt, otite média complicada, otite externa necrotizante e massa de parótida. Se qualquer uma estivesse aberta, este caso teria outro destino hoje — e a que mais me preocuparia num diabético idoso com otorreia seria a otite externa necrotizante, que é de Otites e rinossinusite, em Otorrinolaringologia.
o olho, antes do remédio, e as três coisas que eu meço nele
Peço que feche os olhos suavemente e meço a fenda que sobra do lado direito, em milímetros, e escrevo o número — porque é esse número que eu vou comparar na terça-feira. Encosto uma mecha fina de algodão na borda da córnea direita, vindo de fora do campo de visão dele, e comparo com a esquerda: a sensibilidade está preservada, e isso é uma notícia boa que precisa estar escrita, porque significa que ele vai reclamar se o olho começar a sofrer. Se estivesse reduzida, a proteção deixaria de ser orientação e passaria a ser o item mais urgente da consulta. Por fim, olho a superfície contra a luz: vermelhidão difusa, sem secreção, sem mancha — é ressecamento de exposição, e não infecção.
a primeira gota, a fita, e a pomada que a régua manda usar e o SUS não entrega
A primeira gota de hipromelose é pingada aqui, por mim, e não em casa: assim eu vejo se ele sabe fazer e ele vê que alivia. Depois eu mostro a oclusão noturna — pálpebra fechada com o dedo, fita microporosa na horizontal por cima — e peço que ele faça de volta na minha frente. Aqui eu tomo uma decisão que precisa ser dita ao aluno com todas as letras: a régua municipal manda colírio de horário mais pomada oftálmica para dormir, e não existe pomada lubrificante oftálmica no elenco da Rename 2024. Trocar a pomada pela oclusão mecânica é leitura minha diante dessa ausência, e não citação de norma brasileira. Ocluir é seguro aqui porque o olho está íntegro; num olho infectado ou em usuário de lente de contato, seria contraindicado, como registra o capítulo Olho vermelho, em Oftalmologia.
o corticoide: a régua que existe, o que ela não diz, e a conta em 80 quilos
Aristarco está na janela inicial de paralisia de Bell e não há sinais associados que indiquem outra causa no exame descrito. Discutimos corticoide com a supervisão, usando prednisona 60 mg ao dia por cinco dias e redução de 10 mg ao dia nos cinco seguintes, com a receita completa. Conferimos contraindicações, interações e risco de hiperglicemia, mesmo sem diabetes conhecido. O início é contado a partir da paralisia, documentando a incerteza do horário; não esperar exame eletivo para tratar quem é elegível. A proteção ocular começa no mesmo atendimento.
por que eu não prescrevo antiviral neste paciente, e por que eu escrevo isso
O mesmo documento diz que o antiviral é indiscutível na síndrome de Ramsay Hunt e que segue discutido na paralisia de Bell. Aristarco não tem vesícula em lugar nenhum e não tem dor auricular desproporcional. Eu não prescrevo, e escrevo na ficha o motivo — porque quem o reavaliar na terça precisa saber se o antiviral foi omitido por escolha ou por esquecimento, e porque a vesícula pode aparecer depois, o que reabriria a decisão. Se eu fosse prescrever, faria antes a conta: 800 mg cinco vezes ao dia com comprimido de 200 mg são 20 comprimidos por dia e 140 em sete dias, quantidade que precisa ir escrita por extenso para a dispensação não fracassar.
o que eu escrevo na ficha, e qual hora eu escolho registrar
Escrevo a hipótese com o nome inteiro: paralisia facial periférica direita, provável paralisia de Bell. Escrevo que a testa do lado paralisado não enruga. Listo o que testei de exame neurológico, incluindo as ausências — sem diplopia, sensibilidade da face preservada, marcha normal, força e sensibilidade normais nos quatro membros. Escrevo o achado da otoscopia, inclusive as ausências. Escrevo a fenda palpebral em milímetros e a sensibilidade da córnea preservada. Escrevo a hora da primeira dose de corticoide. E escrevo os dois marcos de tempo: dor retroauricular às 17h de ontem, paralisia percebida às 5h20 de hoje, deixando explícito que eu contei a janela a partir da paralisia. A ambiguidade da contagem está na régua, e a ficha é o lugar onde ela deixa de atrapalhar.
para onde ele vai, e o retorno que tem data
Ele vai para casa hoje, com receita, com a orientação ocular por escrito, com atestado até a reavaliação e com dois retornos marcados. O primeiro é aqui ou na unidade básica, na terça, em 72 horas: nele eu vou medir a fenda de novo, reexaminar o conduto atrás de vesícula que apareceu depois, e conferir se a fita está sendo usada à noite. O segundo é o encaminhamento especializado, que eu escrevo hoje mesmo, com o motivo, a data de início e o exame — e cujo destino as réguas brasileiras respondem de formas diferentes: otorrinolaringologia com prioridade, no protocolo municipal; neurologia, no documento federal de 2015. Eu escrevo o conteúdo e deixo o destino para a regulação, porque o que não pode é o papel não sair.
a conversa com a esposa sobre a tomografia, que é a que decide se ele volta
Ela pergunta por que não vai fazer tomografia, e a resposta não começa por não temos tomógrafo aqui — começa pelo motivo clínico. A tomografia responderia se o problema está no cérebro, e essa pergunta já foi respondida pelo exame da testa; o que ela enxerga mal é justamente o nervo dentro do osso, que é onde o problema está. Em seguida eu digo o que faria a conversa mudar: visão dupla, fraqueza em braço ou perna, desequilíbrio, dormência na face, ou piora depois desta semana. E digo que está tudo escrito na ficha para quem atender depois. Uma família que entende o critério volta na hora certa; uma família que ouviu apenas que não tinha aparelho volta procurando outro serviço, e o segundo serviço não terá a medida da fenda de hoje.
Faça você
Quinta-feira, 8h10, enfermaria de clínica médica do hospital do município vizinho. Geralda Nilópolis, 71 anos, aposentada, internada há cinco dias por pneumonia comunitária, já sem oxigênio e afebril desde anteontem. Tem diabetes tipo 2 há dezoito anos, em uso de metformina, e emagreceu seis quilos nos últimos quatro meses. Está em decúbito lateral direito desde a madrugada, com meia elástica de compressão nas duas pernas. A técnica chama porque hoje, ao sentar na poltrona, ela arrastou o pé direito e quase caiu. Geralda diz que o pé está adormecido em cima e que não consegue levantar a ponta. Não tem dor lombar, não teve queda, não teve febre nova. O reflexo do tendão de Aquiles é normal e simétrico. Ela consegue levar a ponta do pé para dentro com força normal.
o que este quadro tem em comum com o do Aristarco, e por que isso decide a manhã
São dois nervos únicos que pararam de funcionar, em pessoas diferentes e em lugares diferentes do corpo, e nos dois a pergunta é a mesma: o que apagou cabe no território de um nervo só? Se cabe, o exame do território diz qual nervo e em que altura, e o passo seguinte é procurar o que está comprimindo. A diferença é que no Aristarco não havia nada a retirar, e aqui há — e é isso que faz esta manhã ter pressa que a face não tinha.
as duas perguntas antes de qualquer hipótese
A primeira é o desenho: o que exatamente apagou. Fraqueza para levantar o pé e para levá-lo para fora, dormência no dorso do pé e na face lateral da perna abaixo do joelho. A segunda é a mais esquecida em enfermaria: o que está encostado nesse nervo agora. Levante o lençol e olhe o joelho, a borda da meia elástica, a grade da cama, o colchão e o lado em que ela está deitada há horas.
os dois achados que separam o nervo da raiz nervosa
Geralda inverte o pé com força normal — levar a ponta para dentro depende de um músculo comandado por outro nervo, que não passa pela cabeça da fíbula. E o reflexo do tendão de Aquiles está normal e simétrico. Junte a isso a ausência de dor lombar irradiada e o quadro deixa de caber numa compressão de raiz. Se a inversão também estivesse fraca e houvesse dor lombar que irradia, o caminho seria outro, e o capítulo seria Lombalgia e hérnia de disco, em Ortopedia.
o diabetes, que é a armadilha desta vinheta
Uma senhora com dezoito anos de diabetes e dormência no pé parece polineuropatia diabética, e é isso que o plantão vai anotar se ninguém examinar. Só que polineuropatia é difusa e simétrica: começa nos dois pés, sobe como uma bota e apaga primeiro os reflexos aquileus dos dois lados. Aqui há um pé só, um território só, um reflexo normal e um início em um único dia. Um nervo contra todos os nervos: é essa a distinção, e ela se faz comparando o lado direito com o esquerdo, não pedindo exame.
o que se faz hoje, e em que ordem
Primeiro se retira a compressão, e só depois se escreve o resto. Depois se escreve tudo — porque uma lesão de nervo em paciente internado que não é registrada hoje vira, no relatório de alta, sequela de causa desconhecida.
Ver como fecharíamos
É mononeuropatia do nervo fibular comum à direita por compressão na cabeça da fíbula, adquirida durante a internação. Os três pilares do diagnóstico estão à beira do leito: o território exato — dorsiflexão e eversão fracas, dormência no dorso do pé e na face lateral da perna —, a inversão preservada, que exclui a raiz, e o reflexo aquileu normal e simétrico, que afasta a polineuropatia diabética como explicação para um déficit unilateral e agudo. Os fatores que a produziram estão todos escritos na vinheta e são todos removíveis: decúbito lateral mantido por horas com o joelho apoiado, meia elástica de compressão cuja borda passa exatamente sobre o relevo da cabeça da fíbula, e emagrecimento de seis quilos, que consumiu a gordura que protegia o nervo naquele ponto. A conduta de hoje é mecânica antes de ser medicamentosa: retirar ou reposicionar a meia, mudar o decúbito, colocar coxim sob o joelho, prescrever em enfermagem a alternância de decúbito com horário e a checagem diária da dorsiflexão, e proteger o pé com órtese ou apoio que impeça o equino enquanto o nervo se recupera. Como a lesão é de instalação aguda por compressão, o mais provável é bloqueio de mielina, que recupera em semanas sem que nada precise crescer de novo — desde que a compressão saia hoje. A eletroneuromiografia, se vier a ser pedida, não é para agora: nos primeiros dias ela ainda não distingue o bloqueio da degeneração. E tudo isso precisa estar escrito no prontuário com a data, incluindo a causa mecânica identificada, porque este é o achado deste capítulo que mais se previne e menos se registra.
O ramo que leva sensibilidade à pele do dorso da mão do lado do dedo mínimo se separa do nervo ulnar bem antes do punho. Se o dorso está dormente, a lesão tem de ser proximal a essa separação, o que a coloca no cotovelo; se o dorso está normal e apenas a palma e os dedos estão alterados, a compressão é distal, no punho. A atrofia da base do polegar pertence ao território do mediano. A manobra com os punhos fletidos por um minuto testa o túnel do carpo. A extensão do punho é função do nervo radial e está preservada em ambas as hipóteses ulnares, o que não ajuda a decidir.
Teste-se
Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.
Plano de revisão
Em 7 dias
Recuperação ativa em sete dias. Explique por que fronte paralisada não exclui lesão pontina. Escreva um plano de corticoide e proteção ocular para Bell elegível e diga quando reconsiderar zóster. Responda antes de reler e depois confira onde faltou justificar uma decisão.
Em 30 dias
Aplicação em trinta dias. Examine força em territórios de nervos periféricos e descreva o que exige referência precoce. Na face, use evolução, sintomas oculares e sinais associados para decidir reavaliação. Use dados observados, reconheça o que ainda não sabe e peça comparação com a avaliação do supervisor.
Agora atenda
Agora atenda: homem de 43 anos, motorista de van escolar, chega andando à unidade de pronto atendimento num sábado de manhã dizendo que acordou com a boca torta e que teve um derrame. Sinais vitais normais, glicemia normal, força preservada nos quatro membros. Ele mostra uma foto tirada de madrugada no espelho do banheiro e reclama que o olho direito arde desde que acordou. O exame que decide este caso leva trinta segundos e não usa aparelho nenhum.
