100 min de leitura

Ginecologia e ObstetríciaObstetrícia

Descolamento prematuro de placenta

É o diagnóstico em que o exame de imagem atrapalha: o ultrassom normal não exclui, o sangue que se vê não mede o que se perdeu, e quem espera confirmação decide tarde.

Fontes deste capítulo

Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASGO). Descolamento prematuro de placenta. São Paulo: FEBRASGO; 2021. 20 p. (Protocolo FEBRASGO-Obstetrícia, n. 37 / Comissão Nacional Especializada em Urgências Obstétricas)

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção Primária à Saúde. Departamento de Ações Programáticas. Manual de gestação de alto risco. Brasília: Ministério da Saúde; 2022. 692 p. ISBN 978-65-5993-312-9

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Protocolos de Intervenção para o SAMU 192 — Serviço de Atendimento Móvel de Urgência: Suporte Avançado de Vida. 2ª ed. Brasília: Ministério da Saúde; 2016. Protocolos AGO8, AGO9 e AGO10

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação e do Complexo Econômico-Industrial da Saúde. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais: Rename 2024. Brasília: Ministério da Saúde; 2024. 252 p. ISBN 978-65-5993-710-3

Korkes HA, Ramos JGL, de Oliveira LG, Sass N, Peraçoli JC, Cavalli RC, Martins-Costa SH, et al. Pré-eclâmpsia — Protocolo 2025. Rede Brasileira de Estudos sobre Hipertensão na Gravidez (RBEHG); 2025. 62 p. ISBN 978-65-984927-1-7

01

Responda antes de ler

Mulher de 31 anos, 32 semanas, com descolamento prematuro de placenta e óbito fetal confirmado. Pressão 104 por 62 depois de 1.000 mL de cristaloide, frequência cardíaca 118, diurese de 20 mL na última hora. O tubo de vidro colhido há doze minutos não formou coágulo, e há sangramento em babação no sítio de punção. Colo com 3 cm de dilatação. O hospital tem centro cirúrgico e agência transfusional com plasma disponível. Qual é a decisão mais defensável?

02

O paciente que você vai ver

São 21h10 de uma segunda-feira. Hospital geral de cento e dez leitos numa cidade de oitenta mil habitantes, com maternidade no terceiro andar e uma obstetra de plantão à distância, a Dra. Iara Sampaio, que mora a vinte minutos e já foi chamada. O aparelho de ultrassom existe e está trancado na sala do ambulatório: o profissional que o opera atende de manhã, por agenda. Você é o interno do plantão noturno, e quem te chama é a Célia, técnica de enfermagem da triagem, com a frase que ela usa quando não quer alarmar a fila: "vem ver essa moça aqui comigo".

Sueli Damasceno tem 28 anos, é auxiliar de cozinha, está na terceira gestação e conta 33 semanas e 2 dias. Chegou de carro com o marido, o Valdomiro, há quatro minutos. Está sentada na cadeira da triagem, inclinada para a frente, com as duas mãos abertas sobre a barriga, e responde às perguntas em frases curtas porque a dor não deixa terminar. A dor começou de uma vez, há uns quarenta minutos, enquanto ela lavava louça: não veio e foi, não apertou e afrouxou — instalou-se e ficou.

No absorvente há uma mancha de uns cinco centímetros, escura, quase marrom; em casa, diz Valdomiro, também foi pouco. Sueli está pálida do jeito discreto que só se percebe olhando a conjuntiva, e a pele das mãos está fria. Pressão 138 por 90, frequência cardíaca 104, saturação 98%. No cartão de pré-natal, na última consulta, há quatro dias: pressão 146 por 94, proteinúria de fita duas cruzes, e a anotação de que ela foi orientada a retornar em uma semana com os exames. Então você põe a mão no abdome dela e encontra a informação que muda tudo. O útero está duro — duro entre uma contração e outra, porque não há entre uma contração e outra: é uma dureza contínua, lenhosa, que não relaxa enquanto a sua mão espera. Sueli reclama quando você palpa. O foco fetal, com o sonar, sai em 92 batimentos por minuto, e você repete a contagem três vezes porque não quer acreditar no número.

Repare no que esta cena tem e no que ela não tem. Tem uma mulher com dor de início súbito, um útero hipertônico e um feto em bradicardia. Não tem sangramento que impressione, não tem pressão de choque, não tem exame de imagem, não tem laboratório de plantão e não tem obstetra na sala. E, ainda assim, a conduta já está definida, porque o descolamento prematuro de placenta é diagnóstico clínico — e nenhum exame que você conseguir pedir nos próximos vinte minutos vai confirmá-lo ou afastá-lo com segurança suficiente para justificar a espera.

O que a cena tem de traiçoeiro é a aritmética do sangue. Os cinco centímetros no absorvente não medem o que Sueli perdeu: o hematoma que descola a placenta fica atrás dela, dentro do útero, e só chega ao absorvente o que consegue dissecar até o colo. Numa parte relevante dos casos ele não chega. Quem estima a gravidade pelo que vê no forro está lendo o termômetro errado, e a frequência cardíaca de 104 numa mulher de 28 anos é um número muito mais informativo do que a mancha.

Há duas tentações na porta desta sala, e as duas custam tempo. A primeira é chamar o ultrassonografista e esperar: com hematoma retroplacentário na tela o diagnóstico fica bonito, mas o exame normal não exclui coisa nenhuma, e o tempo entre o telefonema e a imagem é tempo com o útero contraído sobre uma placenta que não troca gás. A segunda é fazer o toque vaginal para "ver de onde vem o sangue". Enquanto ninguém souber onde essa placenta está implantada, o toque é o único gesto do capítulo capaz de transformar um sangramento pequeno em um sangramento grande.

O que vem a seguir é por que o útero endurece, por que o sangue que não sai é pior do que o que sai, como se separa isto de placenta prévia sem ultrassom, o que fazer quando o feto está vivo e quando não está, o teste de coagulação que se faz com um tubo de vidro e um relógio, o útero de Couvelaire e o que ele não autoriza — e a conversa com Valdomiro no corredor, que é a mais difícil da obstetrícia quando o foco fetal para de sair.

03

Quem adoece disso

O descolamento prematuro de placenta complica cerca de 1% das gestações, e as séries de serviço variam de 4 a 35 casos por 1.000 gestações conforme a população atendida. Na casuística brasileira que este capítulo usa como espelho — 16.336 partos da clínica obstétrica do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, em dois períodos —, a incidência foi de 0,78% no primeiro e 0,59% no segundo, sem diferença entre eles. Traduzindo para o plantão: numa maternidade que faz mil partos por ano, isso são seis a oito casos, ou um a cada dois meses. Raro o bastante para o interno não ter treinado, frequente o bastante para acontecer no seu ano de internato.

O número que organiza a urgência não é a incidência, é a mortalidade perinatal. Ela é cerca de vinte vezes maior nas gestações com descolamento do que nas demais, e até 77% dessas mortes acontecem dentro do útero — isto é, antes de qualquer coisa que a equipe possa fazer depois do nascimento. Na série brasileira, o natimorto ocorreu em 31,7% e 23,5% dos casos nos dois períodos; nas séries do Japão e do Peru, 16% e 26%. Nenhuma unidade de terapia intensiva neonatal do mundo alcança um feto que morreu antes de chegar. O que muda esse número é o intervalo entre a dor e a decisão.

Do lado materno, a doença hipertensiva é o fator dominante e é isso que a coloca no topo da lista de perguntas. Síndromes hipertensivas respondem por até metade dos casos não traumáticos, e a mulher hipertensa tem cinco vezes o risco de apresentar descolamento grave em relação à normotensa. A pré-eclâmpsia, que responde por um quarto de todos os óbitos maternos registrados no país e é a principal causa isolada de morte materna, tem no descolamento uma de suas portas de saída — a ponto de a disfunção útero-placentária, com o descolamento dentro dela, contar como critério diagnóstico de pré-eclâmpsia mesmo sem proteinúria. Na casuística brasileira, 28,3% e 33,3% das mulheres com descolamento tinham hipertensão arterial na gestação.

A morbidade materna do quadro é medida e é a razão de o banco de sangue entrar na conversa cedo. Naquela série, a coagulação intravascular disseminada ocorreu em 10,0% e 7,8% dos casos, a atonia uterina em 6,7% e 9,8%, a insuficiência renal aguda em 3,3% e 2,0%, a histerectomia em 3,3% e nenhum, e houve um óbito materno em 111 casos. A hemoglobina média na admissão foi de 9,5 e 10,4 g/dL — em mulheres cujo sangramento visível, quando havia, era descrito como leve a moderado. Uma em cada dez desenvolve coagulopatia de consumo: é a complicação que transforma um problema obstétrico em um problema hematológico e cirúrgico ao mesmo tempo.

Por fim, o número que explica por que o capítulo existe num livro de internato e não num manual de subespecialidade. O descolamento prematuro de placenta encabeça a lista brasileira de complicações hemorrágicas potencialmente ameaçadoras à vida, ao lado da placenta prévia, da rotura uterina e da hemorragia pós-parto — a faixa imediatamente anterior ao near miss e ao óbito materno. E ele quase nunca é diagnosticado por quem tem subespecialidade: é diagnosticado por quem põe a mão no abdome de uma gestante com dor, num pronto-socorro, às nove da noite.

04

Por que acontece o que acontece

A causa imediata do descolamento é a ruptura de vasos maternos na decídua basal — a camada de endométrio transformado sobre a qual a placenta se assenta. O sangue extravasado atinge a zona de clivagem entre a decídua e a placenta e começa a separá-las. A partir daí o processo tem uma propriedade que define tudo o que vem depois: ele se alimenta. O hematoma que se forma disseca mais interface, a interface dissecada expõe mais vasos, e os vasos expostos alimentam o hematoma. Não existe estado estacionário. A porção descolada da placenta deixa de trocar gases e nutrientes, e o feto adoece quando a porção que restou não consegue compensar.

Duas hemodinâmicas diferentes moram dentro do mesmo diagnóstico e produzem duas doenças distintas. A hemorragia arterial de alta pressão, na área central da placenta, disseca depressa e produz o quadro dramático que este capítulo trata: sangramento grave, coagulopatia materna e alteração aguda da frequência cardíaca fetal, em minutos a horas. A hemorragia venosa de baixa pressão, tipicamente na periferia — o descolamento marginal —, produz manifestações que se acumulam ao longo de semanas: sangramento leve e intermitente, oligoâmnio e restrição de crescimento com redistribuição de fluxo. A primeira leva a paciente ao pronto-socorro; a segunda chega ao ambulatório de alto risco com um doppler alterado.

Agora a peça que explica por que o sangue pode não aparecer. O hematoma nasce atrás da placenta e, para chegar ao absorvente, precisa dissecar a interface entre as membranas e a parede uterina até o colo. Quando o descolamento é central, ou quando a borda placentária e as membranas permanecem aderidas, esse caminho não se abre e o sangue fica dentro. É o sangramento oculto, e ele não é uma forma mais branda: é a forma que perde tempo, porque não produz o sinal que faz a equipe correr. A consequência prática atravessa o capítulo inteiro — o volume externado não guarda relação com a extensão do descolamento nem com o comprometimento fetal.

A trombina é a peça central e vale entender uma vez para nunca mais decorar três coisas separadas. O sangramento decidual libera fator tecidual — tromboplastina — das células da decídua, e a hipóxia local induz fator de crescimento endotelial vascular, que faz células endoteliais deciduais expressarem fator tecidual também. Os dois caminhos convergem na geração de trombina, e a trombina produz, ao mesmo tempo, três coisas que o interno vê à beira do leito: hipertonia uterina, distúrbio de coagulação e fatores inflamatórios capazes de romper as membranas. O útero lenhoso, o coágulo que não se forma e a bolsa que rompeu não são três achados — são um mecanismo com três saídas.

A hipertonia merece um parágrafo próprio porque ela é, ela mesma, um segundo mecanismo de asfixia. A perfusão do espaço interviloso depende do relaxamento do miométrio: é entre as contrações que o sangue materno entra. Um útero que não relaxa não deixa entrar. Some-se isso à área já descolada e o feto perde nas duas contas ao mesmo tempo — perde superfície de troca e perde fluxo na superfície que sobrou. É por isso que a bradicardia pode aparecer antes de a mãe ter qualquer sinal hemodinâmico, e é por isso que o sofrimento fetal é, com frequência, o primeiro sinal do quadro.

A coagulopatia do descolamento é de consumo somada a fibrinólise, e ela tem um marcador melhor do que o coagulograma inteiro: o fibrinogênio. Ele é o fator que mais se correlaciona com a gravidade do sangramento, com a instalação da coagulação intravascular disseminada e com a necessidade de transfusão de múltiplos componentes; valores iniciais iguais ou menores que 200 mg/dL têm valor preditivo positivo de 100% para hemorragia pós-parto grave, e valores iguais ou maiores que 400 mg/dL têm valor preditivo negativo de 79%. Há um cuidado de leitura: na gestação normal quase todos os fatores de coagulação sobem e as plaquetas caem um pouco, de modo que um perfil sugestivo de coagulopatia leve precisa ser interpretado contra essa linha de base, e não contra a de uma mulher não grávida.

Por fim, os dois caminhos de entrada. O agudo e mecânico é minoria: trauma abdominal, com a aceleração e a desaceleração alongando o útero sem alongar a placenta, que é inelástica; e a descompressão uterina rápida, como na rotura de membranas com polidrâmnio. Trauma materno grave multiplica por seis o risco. O caminho crônico é a maioria e explica a companhia da pré-eclâmpsia: anormalidades no desenvolvimento precoce das artérias espiraladas levam a necrose decidual, inflamação placentária, infarto e, no fim da fila, disrupção vascular e sangramento. Quer dizer que, na maior parte dos casos, a placenta vinha doente há meses e o descolamento é o desfecho de um processo, não um acidente — o que também explica por que o antecedente de descolamento é o fator de risco mais forte de todos.

Descolamento placentário com sangramento exteriorizado ou oculto
Descolamento placentário com sangramento exteriorizado ou oculto. O volume observado vaginalmente não mede com segurança a gravidade da hemorragia.
05

Como se apresenta de verdade

O descolamento é uma hipótese clínica que pode ser grave com pouco sangue exteriorizado. Aprenda a somar dor, tônus uterino, perfusão materna e condição fetal, sem esperar imagem confirmatória. A passagem de caso deve dizer quem está deteriorando, quais recursos foram mobilizados e por que a demora para controlar o foco pode ser perigosa.

O quadro clássico cabe numa linha: dor abdominal de início súbito, sangramento vaginal escurecido, útero hipersensível e hipertônico, e alteração da vitalidade fetal. O problema pedagógico deste bloco é que essa linha descreve a minoria confortável dos casos. O que segue é o espectro real, com as proporções medidas em pacientes brasileiras — e a leitura que interessa não é "qual é a apresentação típica", é "quantas peças da apresentação típica eu posso não ter e ainda assim estar diante da doença".

Percurso clínico: Reconhecer hemorragia mesmo sem exteriorização

Dor, hipertonia e alterações maternas ou fetais podem representar descolamento com sangue oculto. Ressuscitação, avaliação fetal e preparação do controle da causa caminham juntas. A ultrassonografia ajuda no contexto, mas um exame negativo não cancela suspeita clínica forte. Registre evolução da perfusão e comunique mudanças imediatamente.

A tríade que raramente vem inteira

A dor é o achado mais constante e o mais mal descrito. Ela é de início súbito — a paciente costuma dizer a hora, ou o que estava fazendo — e é contínua, não em cólica. Essa é a primeira separação clínica importante: contração de trabalho de parto tem começo, pico e fim, e entre elas o útero amolece e a mulher conversa. A dor do descolamento se instala e permanece, e quando há contrações elas se somam a um tônus de base que nunca volta ao normal. Dor lombar entra no lugar da dor abdominal quando a placenta é de inserção posterior, e é a variante que faz o quadro ser confundido com cólica renal.

O sangramento é o achado em que a intuição erra mais. Ele é caracteristicamente escurecido, porque é sangue que ficou retido antes de sair, e é frequentemente pequeno. As séries internacionais relatam sangramento em cerca de 78% dos casos; na casuística brasileira do Hospital das Clínicas de São Paulo, o sangramento genital esteve presente em 66,7% e 58,8% dos casos nos dois períodos — quer dizer, entre um terço e dois quintos das mulheres com descolamento comprovado não sangravam pela vagina quando foram examinadas. O manual federal diz a mesma coisa por outro caminho: um em cada cinco casos simplesmente não manifesta sangramento vaginal, e não há correlação entre o volume externado e o acometimento fetal.

A hipertonia uterina é o achado que o interno mais confia e que também falta com frequência. Na mesma série brasileira, o tônus uterino estava normal em 43,3% e 47,1% dos casos — quase metade. Havia hipertonia franca em 43,3% e 39,2%, e um tônus apenas aumentado em outros 13%. Some as três frases anteriores e chegue à conclusão que organiza este capítulo: exigir os três achados para levantar a hipótese é exigir uma combinação que a maioria das pacientes não tem. Um só deles, numa gestante de segunda metade, já obriga a pensar em descolamento e a agir como se fosse.

Há um quarto achado que só aparece quando a bolsa rompe ou é rompida, e que fecha o diagnóstico sozinho: o hemoâmnio, líquido amniótico de aspecto sanguinolento, achocolatado. Na série brasileira ele apareceu em 28,3% e 11,8% dos casos, e a queda entre os períodos foi atribuída a diagnóstico mais precoce — quer dizer, é um sinal de doença que já vinha acontecendo há algum tempo.

Quando o primeiro sinal é o feto

Em uma parte dos casos nada do quadro materno chama atenção e o que denuncia a doença é a cardiotocografia, o sonar ou a queixa de que o bebê parou de mexer. Isso é coerente com o mecanismo: o feto perde superfície de troca e perde perfusão da superfície restante antes de a mãe ter perdido volume suficiente para mudar a pressão dela. Uma gestante jovem sustenta a pressão arterial por muito tempo à custa da circulação uteroplacentária — quando o número do manguito cai, o feto já vinha sofrendo há um tempo que ninguém cronometrou.

A associação entre o que se vê na mãe e o que acontece com o feto foi medida na série brasileira e ela é contraintuitiva. No grupo que evoluiu para óbito fetal, a ausência de sangramento genital foi significativamente mais frequente do que no grupo cujo recém-nascido nasceu vivo — 57,9% contra 22,0% no primeiro período estudado. No período seguinte, o achado que se associou ao óbito fetal foi a hipertonia uterina, presente em 66,7% dos casos com óbito contra 29,3% dos casos com nativivo. Junte as duas: o quadro mais grave é o que sangra menos por fora e endurece mais por dentro. A área de descolamento, medida depois no exame da placenta, foi significativamente maior nos casos que perderam o feto.

Isso tem uma consequência de triagem que vale mais do que qualquer escore. A gestante de segunda metade que chega com dor abdominal e útero duro, sem sangramento, não é uma paciente de menor prioridade do que a que chega ensopada — é, se alguma coisa, de maior. A classificação de risco que usa a quantidade de sangue como critério vai colocá-la na fila errada, e é por isso que o tônus uterino faz parte da avaliação secundária mesmo no protocolo nacional de atendimento pré-hospitalar.

Os graus, e o que cada um muda

A classificação clínica brasileira tem três graus e é útil porque cada degrau muda uma decisão diferente, não porque dê um nome bonito ao caso.

O grau I é o descolamento assintomático ou com sangramento genital discreto, sem hipertonia significativa, com vitalidade fetal preservada, sem repercussão hemodinâmica e sem coagulopatia. Ele quase sempre é diagnóstico retrospectivo: o coágulo retroplacentário aparece no exame da placenta depois do parto. A lição que ele ensina é sobre o denominador — casos leves existem e não chegam ao pronto-socorro, o que significa que a doença que você vai ver é a metade grave do espectro.

O grau II é sangramento genital moderado com hipertonia uterina, com repercussão materna já mensurável — taquicardia, alterações posturais da pressão arterial e queda do fibrinogênio — e feto vivo, mas com vitalidade alterada. É o caso da Sueli, e é o caso em que a decisão de tirar o feto se toma em minutos.

O grau III é definido pelo óbito fetal, com hipotensão materna e hipertonia mais acentuadas, e se divide pelo eixo que decide a próxima hora: IIIA sem coagulopatia instalada, IIIB com coagulopatia instalada. Essa subdivisão não é acadêmica. O IIIB é a paciente para quem uma laparotomia é um problema a mais e não uma solução, é a paciente que precisa do banco de sangue antes de precisar do centro cirúrgico, e é a paciente em que o teste de beira de leito descrito no bloco seguinte muda a conduta em sete minutos.

Uma advertência sobre o eixo da coagulopatia: a tabela clínica clássica coloca a coagulopatia apenas no IIIB, enquanto o protocolo nacional já descreve queda de fibrinogênio no grau II. Não são regras concorrentes — a primeira fala de coagulopatia clinicamente instalada, a segunda de um número que já se moveu. A leitura útil é que o fibrinogênio começa a cair antes de a paciente sangrar em babação.

Quem chega assim, e por que a anamnese tem duas perguntas obrigatórias

A lista de fatores de risco é longa, e decorá-la inteira não ajuda. O que ajuda é conhecê-la pela ordem de força, porque é essa ordem que decide o que se pergunta primeiro quando há uma paciente com dor na frente.

Em primeiro lugar, o antecedente de descolamento em gestação anterior: é o fator isolado mais forte, com risco de recorrência de 10 a 15 vezes, e estimativas que chegam a muito mais em séries selecionadas. Em segundo, as síndromes hipertensivas, que respondem por até metade dos casos não traumáticos e multiplicam por cinco o risco de descolamento grave — hipertensão crônica, hipertensão gestacional e pré-eclâmpsia entram todas, e a terapia anti-hipertensiva não parece reduzir esse risco na hipertensa crônica. Em terceiro, o trauma, com o trauma materno grave multiplicando o risco por seis. Depois vêm o tabagismo, que é dos poucos fatores modificáveis e aumenta o risco em cerca de 40% por maço-dia, com efeito sinérgico quando somado à hipertensão; a cocaína, com cerca de 10% das usuárias no terceiro trimestre desenvolvendo descolamento; a rotura prematura de membranas e a corioamnionite; os distúrbios do volume de líquido amniótico; a placenta prévia; a gestação múltipla; as trombofilias; e, no plano sociodemográfico, idade materna abaixo de 20 ou igual e acima de 35 anos, paridade igual ou maior que 3, e cesárea anterior.

Duas perguntas viram conduta e não cortesia. A primeira é sobre trauma, e ela precisa ser feita com a palavra certa: "a senhora bateu a barriga, caiu, sofreu algum acidente nos últimos dias?". Trauma aparentemente pequeno importa, e o mecanismo de aceleração e desaceleração do acidente automobilístico produz descolamento sem qualquer lesão externa. A segunda é sobre violência, e ela é a mesma pergunta com outro nome: a maior parte do trauma abdominal fechado que acontece com gestante não vem de rodovia. Perguntar sozinha, com o acompanhante fora da sala, é parte do exame — e violência contra a mulher atendida em serviço de saúde é de notificação compulsória no país desde a Lei nº 10.778, de 2003.

06

Como fechar o diagnóstico

Este é o bloco em que o descolamento se comporta ao contrário do resto do internato. Em quase toda doença, investigar é o que autoriza tratar. Aqui a ordem se inverte: o diagnóstico é clínico, e o papel dos exames é dizer o quanto a doença avançou, apontar as complicações que vêm junto e afastar o que não é ela — nunca autorizar o que a mão já autorizou. O documento federal escreve a regra em uma frase que vale copiar para a parede: na presença de achados clínicos compatíveis, a solicitação de exames não deve retardar a abordagem terapêutica.

A pergunta correta, portanto, não é "o que eu peço", é "o que eu peço sem que isso ocupe as mãos que estão puncionando a veia e sem que isso mude o horário da decisão". Tudo o que segue está ordenado por esse critério, e há um gesto que aparece invertido: um exame que quase todo mundo faz e que aqui é o único formalmente contraindicado antes de saber onde a placenta está.

Os primeiros cinco minutos: a mão, o sonar e o toque que não se faz

A primeira ferramenta é a palpação abdominal, e ela responde a três perguntas de uma vez: o útero está duro e mantém a dureza entre contrações; ele é doloroso à palpação; e a altura uterina cresce ao longo do atendimento, o que denuncia hematoma em expansão. Nada disso precisa de aparelho. A segunda ferramenta é a ausculta fetal, com sonar ou estetoscópio de Pinard, e ela também responde a três: o feto está vivo, a frequência está dentro ou fora da faixa, e — repetida em intervalos — a tendência está subindo ou caindo. Esses dois exames, feitos em menos de dois minutos, produzem quase todas as informações que a decisão exige.

O gesto que não se faz é o toque vaginal, e a razão é específica: se a placenta for prévia, o dedo do examinador atravessa e desloca tecido placentário sobre o orifício interno do colo e converte um sangramento moderado em uma hemorragia. O protocolo nacional de atendimento pré-hospitalar traz a instrução em linha própria — não realizar toque vaginal, pelo risco de agravamento do quadro se houver placenta prévia. Como o descolamento e a placenta prévia se apresentam ambos com sangramento na segunda metade, e como a mulher que chega sem cartão de pré-natal não traz a localização placentária escrita em lugar nenhum, a regra operacional é simples: enquanto não se souber onde a placenta está, não se toca.

O exame especular é outra coisa e tem lugar, desde que feito por quem sabe e sem manipular o colo: ele mostra se o sangue vem de dentro do canal ou de uma lesão do trajeto — laceração, ectrópio sangrante, pólipo, tumor —, quantifica melhor do que o absorvente e permite ver saída de líquido amniótico. Não é prioridade nos primeiros minutos de uma paciente instável, e não substitui o ultrassom para responder onde está a placenta.

Duas coisas mais entram nessa janela e não custam nada. A primeira é a hora: anote o horário em que a dor começou, porque ele é o denominador de todas as decisões seguintes e ninguém mais vai anotá-lo. A segunda é a medida objetiva da perda — trocar o absorvente por um dispositivo coletor ou uma compressa pesada, para que a hora seguinte tenha um número em vez de uma impressão. O manejo da hemorragia pós-parto tem capítulo próprio e é lá que os métodos de estimativa estão detalhados; aqui interessa apenas que o número visível é sempre um piso, nunca uma medida.

O ultrassom: por que ele não decide, e para que serve mesmo assim

O achado clássico é o hematoma retroplacentário, e quando ele aparece na tela o diagnóstico está praticamente feito: o valor preditivo positivo é alto, entre 80% e 88% conforme a série. O problema é o outro lado da tabela. A sensibilidade do método oscila entre 25% e 60%, o que significa que um ultrassom normal não exclui descolamento — e não exclui nem os graves, porque o hematoma recente ainda não se organizou e pode ser isoecoico com a placenta, isto é, invisível por não ter contraste com o tecido ao lado.

A conta que fecha o argumento é a seguinte. Se o exame erra em metade dos casos e demora, então o único cenário em que ele muda alguma coisa é aquele em que o resultado é positivo e chega rápido. Um resultado negativo não retira nada da suspeita clínica, e um resultado que chega em quarenta minutos chegou depois da hora da decisão. Por isso a regra é: se houver aparelho e alguém que o opere na sala, faça — mas com a paciente já monitorada, o acesso já puncionado e a obstetra já chamada, e sem que o exame determine o horário de nada.

Feita essa ressalva, o ultrassom responde bem a três perguntas que a clínica não responde. A primeira é onde está a placenta, o que libera ou proíbe o toque e separa o quadro da placenta prévia; em toda mulher grávida com hemorragia vaginal, o exame deve ser realizado para determinar se a placenta prévia é a fonte do sangramento. A segunda é se o feto está vivo, quando o sonar não encontra foco e a dúvida entre bradicardia extrema e óbito muda inteiramente a conduta. A terceira, na forma crônica, é a série de exames que revela oligoâmnio, restrição de crescimento e hematomas marginais.

Um dado que fecha o assunto e desarma a expectativa de confirmação retrospectiva: nem o exame da placenta depois do parto confirma o diagnóstico. Num estudo multicêntrico, a avaliação macroscópica e histopatológica da placenta confirmou o diagnóstico clínico em apenas 30% dos casos — 49 de 162. Se nem a placenta na mão do patologista fecha o caso, esperar que a tela feche é um pedido que a tecnologia não pode atender.

O tubo seco: sete minutos e um exame de coagulação onde não há laboratório

Existe um teste do tubo seco que se faz com uma seringa, um tubo de ensaio de vidro sem anticoagulante e um relógio, e ele resolve a pergunta mais urgente do quadro num hospital sem laboratório de plantão. Colhem-se cerca de 10 mL de sangue periférico materno, o tubo é mantido em temperatura ambiente, em repouso, e observa-se. Em condições normais deve haver formação de um coágulo firme; se isso não acontecer, considera-se a coagulopatia instalada. O manual federal fixa o corte em sete minutos; o protocolo da federação de ginecologia e obstetrícia escreve sete a dez minutos. A diferença é pequena e a leitura prática é a mesma: passados dez minutos sem coágulo firme, não há mais dúvida.

Há um refinamento que vale conhecer e que o interno costuma perder: além de não se formar, o coágulo pode se formar e depois se desfazer. Coágulo que aparece e some em poucos minutos é fibrinólise em curso, e informa a mesma coisa que a ausência dele — só que mais tarde. Por isso o tubo se olha duas vezes, aos dez minutos e outra vez depois, e não se joga fora até a paciente sair da sala.

O que esse teste muda, concretamente: aciona a agência transfusional antes de qualquer resultado de laboratório; pesa contra a anestesia condutiva; pesa contra abrir o abdome de uma paciente com feto morto, quando a via vaginal ainda é possível; e transforma um pedido genérico de "reserva de sangue" em um pedido nomeado, que inclui os componentes que repõem hemostasia e não só os que carregam oxigênio. O protocolo de transfusão maciça, com as proporções entre componentes e as metas que autorizam desativá-lo, tem capítulo próprio neste livro e não se repete aqui.

O painel de laboratório, quando existe, é curto e cada item responde a uma pergunta. O fibrinogênio é o mais importante e é o que se pede primeiro: é o fator que melhor se correlaciona com a gravidade do sangramento, com a instalação da coagulação intravascular disseminada e com a necessidade de múltiplos componentes. Hemograma com plaquetas dá a linha de base da hemoglobina — que na admissão dessas pacientes já vem em torno de 9,5 a 10,4 g/dL — e mostra a queda de plaquetas do consumo. Coagulograma com tempo de protrombina e tempo de tromboplastina parcial ativada, mais produtos de degradação da fibrina ou dímero-D, confirmam a geração aumentada de trombina e a fibrinólise. Tipagem sanguínea e prova cruzada saem na mesma punção — e a tipagem tem uma segunda função, que é dizer se a paciente é Rh negativo. Ureia, creatinina e eletrólitos respondem pelo rim, que é o órgão que sofre depois: a necrose tubular e a necrose cortical estão dentro da fisiopatologia do quadro. Transaminases e ácido úrico entram quando a suspeita de pré-eclâmpsia associada é forte.

Uma nota sobre o que não pedir. Não se espera coagulograma para decidir se a paciente vai para o centro cirúrgico, não se pede tomografia de abdome numa gestante com dor e útero duro, e não se repete o ultrassom para "ver se apareceu o hematoma". Nenhum desses três resultados chega a tempo de mudar o que já está decidido, e os dois primeiros tiram a paciente da sala monitorada.

O diferencial: cada hipótese com o exame que a separa

A lista de causas de sangramento com dor na segunda metade é curta e todas elas são obstétricas até prova em contrário. O que a torna útil é saber, para cada uma, qual é o achado ou o exame que a separa.

Placenta prévia — separa-se pelo ultrassom, e é o único diferencial que muda um gesto antes de qualquer decisão terapêutica, porque é ele que proíbe o toque. A apresentação clássica é oposta à do descolamento: sangramento vermelho vivo, de início e cessar súbitos, indolor, imotivado, reincidente e progressivo, em útero de tônus normal, frequentemente sem trabalho de parto e com vitalidade fetal preservada. A oposição, porém, não é confiável nas pontas: 10% a 20% das mulheres com placenta prévia têm contrações associadas ao sangramento, e o descolamento pode cursar sem dor significativa. Diante da dúvida, comporte-se como se as duas estivessem presentes — não toque, e trate a instabilidade.

Trabalho de parto, pré-termo ou de termo — separa-se pela cronologia e pelo tônus entre as contrações. Ele começa devagar, com contrações leves, infrequentes e irregulares, que se tornam regulares e mais dolorosas ao longo de horas, acompanhadas de dilatação e apagamento do colo; entre elas o útero relaxa. O tampão mucoso pode sair como secreção clara, rosada ou levemente sanguinolenta, às vezes dias antes. Descolamento não faz nada disso devagar.

Rotura uterina — separa-se pelo antecedente e pela cessação das contrações. É mais comum em mulher com histerotomia prévia, e os sinais incluem anormalidade da frequência cardíaca fetal, sangramento vaginal, dor abdominal constante, parada das contrações, hipotensão e taquicardia maternas. Muitos desses sinais são comuns aos dois quadros — e há uma razão de mecanismo para isso: a rotura uterina geralmente leva a descolamento. Quer dizer que não são hipóteses concorrentes tanto quanto encadeadas, e a conduta inicial é a mesma.

Vasa prévia — separa-se pelo desfecho fetal desproporcional ao sangue perdido. É rara, mas merece uma linha porque a lógica dela inverte a deste capítulo: o sangue que sai é fetal, e a volemia do feto de termo é de 80 a 100 mL/kg, de modo que um volume pequeno no forro pode significar choque hemorrágico fetal em minutos. A cena típica é desaceleração grave e sustentada logo após a rotura das membranas.

O que a rede pública garante, e o que fica por conta do serviço

A parte barata deste capítulo é a que mais decide, e ela está disponível em qualquer unidade: mãos, sonar, dois cateteres calibrosos, soro e um tubo de vidro. A solução de Ringer com lactato e o cloreto de sódio a 0,9% constam da relação nacional de medicamentos essenciais, no componente básico — o elenco que chega à atenção primária. A betametasona injetável e a dexametasona injetável, usadas para maturação pulmonar fetal, também estão no componente básico. O misoprostol consta, com a ressalva de uso restrito a estabelecimento hospitalar cadastrado e credenciado junto à autoridade sanitária.

Duas ausências mudam o planejamento e convém descobri-las antes e não durante. A primeira: o ácido tranexâmico figura na relação nacional apenas em comprimido de 250 mg, no componente estratégico — a ampola, que é a forma usada na hemorragia obstétrica, é compra do próprio serviço. A segunda: o fibrinogênio em pó para solução injetável está na relação, mas também no componente estratégico, o que significa fluxo de aquisição diferente do da farmácia de rotina. Nenhuma das duas é inacessível; as duas dependem de alguém ter previsto.

A imunoglobulina anti-D merece parágrafo próprio porque é o item mais esquecido do capítulo. Em mulher Rh negativo não sensibilizada, aplicam-se 300 µg em até 72 horas após evento que aumente o risco de sensibilização — e a lista de eventos inclui, nominalmente, sangramento vaginal materno, óbito fetal e trauma abdominal, isto é, três descrições do mesmo caso. No Brasil existem apresentações de 250 µg e de 300 µg. A falha da profilaxia é de apenas 1,5%, e não há evidência consistente de qual seja a dose ótima: a cobertura pós-parto não foi substancialmente diferente com 100 µg, 200 µg ou 300 µg. Perder a janela de 72 horas custa a próxima gestação dessa mulher, e ninguém lembra disso no meio de uma hemorragia.

07

Os primeiros trinta minutos, os quatro sangramentos da segunda metade e a via de parto pelos dois pacientes

Este bloco existe para ser consultado com a mão ainda no abdome da paciente. Ele traz, nesta ordem: a sequência dos primeiros trinta minutos, do reconhecimento à decisão; a separação à beira do leito dos quatro quadros que sangram na segunda metade da gestação, com o achado que distingue cada um; os graus clínicos e o que cada degrau muda na conduta agora; e a escolha da via de parto pelo cruzamento dos dois pacientes — o estado da mãe e o estado do feto. Vale avisar duas coisas antes. Uma: nenhuma linha depende de imagem, e nenhuma espera laboratório. Outra: a única decisão que o interno toma sozinho é a de reconhecer e chamar; a via e o momento do parto pertencem ao obstetra, e o que este bloco entrega é a informação com que essa conversa acontece em dois minutos em vez de vinte.

  1. 1Reconheça em voz alta. Gestante de segunda metade com dor abdominal de início súbito, ou útero que não relaxa, ou sangramento, ou alteração do foco fetal — qualquer um desses, isoladamente — é suspeita de descolamento prematuro de placenta. Diga o nome do quadro para a equipe, porque é o nome que move as pessoas.
  2. 2Chame antes de examinar mais. Obstetra, anestesista e centro cirúrgico avisados; agência transfusional avisada de que pode haver pedido; neonatologia avisada da idade gestacional. Se a unidade não resolve gestação grave, acione a regulação no mesmo minuto.
  3. 3Não faça toque vaginal. Enquanto não se souber onde a placenta está implantada, o toque fica proibido pelo risco de agravar uma placenta prévia.
  4. 4Monitorize e posicione. Decúbito lateral esquerdo, oxigênio sob máscara não reinalante se a saturação estiver abaixo de 94%, monitor de pressão, frequência cardíaca e oximetria.
  5. 5Dois acessos venosos periféricos calibrosos. Puncione preferencialmente o membro superior direito, porque o esquerdo fica por baixo no decúbito lateral esquerdo e no transporte.
  6. 6Colha na mesma punção: tipagem sanguínea e prova cruzada, hemograma com plaquetas, coagulograma, fibrinograma, ureia, creatinina, eletrólitos e provas de função hepática. Anote a hora da coleta.
  7. 7Encha o tubo seco. Cerca de 10 mL de sangue num tubo de vidro sem anticoagulante, em temperatura ambiente e em repouso, com a hora anotada no esparadrapo. Sem coágulo firme em sete a dez minutos, a coagulopatia está instalada.
  8. 8Diante de qualquer sinal de hipotensão ou instabilidade: 1.000 mL de cristaloide, sendo 500 mL nos primeiros dez minutos e o restante a 250 mL/hora. O alvo hemodinâmico do choque hemorrágico está no capítulo próprio; o alvo desta paciente é sistólica acima de 80 mmHg até o controle do foco.
  9. 9Sonde a bexiga com sonda de demora e meça a diurese hora a hora. O alvo é acima de 30 mL por hora.
  10. 10Reserve sangue nomeando o quadro. Nos casos clinicamente mais exuberantes, quatro unidades de concentrado de hemácias — e, se o tubo não coagulou, peça também o que repõe hemostasia, sem esperar o fibrinogênio voltar.
  11. 11Estabeleça o estado dos dois pacientes. Da mãe: pressão, pulso, diurese, nível de consciência e o tubo seco. Do feto: vivo ou morto, e com que padrão de frequência cardíaca. É esse cruzamento que decide a via.
  12. 12Decida a via com o obstetra e execute. Feto vivo com sofrimento e parto vaginal não iminente é cesárea agora; feto morto com mãe estável é via vaginal com amniotomia, prevista para quatro a seis horas; mãe instável decide sozinha, e para a frente.

Os quatro sangramentos da segunda metade: o que distingue cada um sem aparelho

QuadroComo a dor começaO sangueO útero entre as contraçõesO fetoO achado que separa
Descolamento prematuro de placentaDe uma vez, contínua, a paciente sabe a hora; lombar se a placenta é posteriorEscurecido, frequentemente pequeno — e ausente em um a dois quintos dos casosNão relaxa: tônus mantido, doloroso à palpação. Mas normal em quase metade das sériesAlteração da vitalidade é frequente e pode ser o primeiro sinalDor súbita e contínua com útero que não relaxa; o volume externado não mede a gravidade
Placenta préviaSem dor — indolor é a regraVermelho vivo, de início e cessar súbitos, imotivado, reincidente e progressivoTônus normal, indolorVitalidade em geral preservadaUltrassom mostrando a placenta sobre ou junto ao orifício interno. É o diferencial que proíbe o toque
Rotura uterinaConstante, e as contrações que havia cessamVaginal, variável; parte da perda é intra-abdominalPerda do contorno uterino; partes fetais podem ficar superficiais à palpaçãoAnormalidade da frequência cardíaca, frequentemente graveAntecedente de histerotomia mais parada das contrações. Geralmente leva a descolamento junto
Trabalho de partoDevagar, em cólica, com começo, pico e fimTampão mucoso: secreção clara, rosada ou levemente sanguinolentaRelaxa completamente entre as contraçõesPadrão tranquilizador na maioriaO útero mole entre as contrações, com dilatação e apagamento progressivos

Os graus clínicos e o que cada degrau muda agora

GrauFetoÚtero e sangramentoCoagulaçãoO que muda na decisão
IVivo, vitalidade preservadaSangramento discreto ou ausente, sem hipertonia significativaSem coagulopatia; sem repercussão hemodinâmicaQuase sempre é diagnóstico retrospectivo, feito pelo coágulo retroplacentário no exame da placenta. Explica por que o denominador da doença é maior do que o que chega à emergência
IIVivo, com vitalidade alteradaSangramento moderado com hipertoniaRepercussão materna mensurável: taquicardia, alteração postural da pressão e queda de fibrinogênioÉ o caso que decide em minutos. Feto vivo com sofrimento e parto vaginal não iminente é cesárea agora
III AÓbito fetalHipertonia acentuada, hipotensão maternaSem coagulopatia instaladaA régua vira materna. Com a mãe estável, a via vaginal é preferível e o prazo é de quatro a seis horas, com amniotomia
III BÓbito fetalHipertonia acentuada, hipotensão maternaCoagulopatia instalada — o tubo seco não coagulaBanco de sangue antes do centro cirúrgico. É a paciente em que uma laparotomia soma uma ferida grande a quem não fecha ferida nenhuma

A via de parto pelo cruzamento dos dois pacientes

Estado da mãeEstado do fetoViaPrazoO que sustenta a escolha
EstávelVivo, com sofrimento, e parto vaginal iminente — nos próximos 20 minutosVaginal, espontânea ou instrumentadaAgora, com o expulsivo abreviadoNesse intervalo o parto pela via baixa entrega o feto antes do que a preparação de uma cesárea entregaria
EstávelVivo, com sofrimento, e parto vaginal não iminenteCesárea de emergênciaAgoraÉ a regra dos 20 minutos lida ao contrário: se a expectativa de tempo para o parto vaginal supera esse intervalo, a via abdominal é a preferida
EstávelVivo, sem sofrimento, longe do termoDepende da idade gestacional, da dilatação e da estabilidade dos doisDecisão do obstetra, com reavaliação horáriaÉ a única linha da tabela em que existe tempo, e por isso a única em que corticoide e neuroproteção fetal entram na conversa
EstávelMorto, ou de viabilidade incerta abaixo de 24 semanasVaginal, com amniotomia e ocitocina se houver necessidade de induçãoNascimento previsto entre 4 e 6 horas, com reavaliação a cada horaSem feto a salvar, a via se escolhe pelo risco materno — e uma laparotomia numa paciente que pode estar coagulopática é risco somado
InstávelQualquerCesárea de urgência, pelo fluxograma federal; a via mais rápida para controlar o foco, na leitura de quem prioriza a mãeAgoraÉ a única linha em que os documentos brasileiros não falam com uma voz só, e a divergência está discutida no bloco próprio

A tabela dos quatro sangramentos foi montada com eixos próprios, e não copiada: as colunas são as perguntas que o interno realmente faz com a mão no abdome — como a dor começou, como é o sangue, o que o útero faz entre as contrações, o que o feto está fazendo, e qual é o achado que decide. As informações vêm do protocolo de urgências obstétricas da federação de ginecologia e obstetrícia e do capítulo de síndromes hemorrágicas do manual federal, cruzadas com as proporções medidas na casuística brasileira.

Sobre a reposição inicial, dois documentos escrevem a mesma coisa de dois jeitos e vale conferir a conta para não achar que divergem. O manual federal manda infundir 1.000 mL de cristaloide com os primeiros 500 mL em dez minutos e o restante ao longo de duas horas; o protocolo da federação manda 500 mL nos primeiros dez minutos e manutenção com 250 mL por hora. Quinhentos mililitros em duas horas são exatamente 250 mL por hora — as duas frases descrevem a mesma prescrição. O que muda entre elas é o que acontece depois da segunda hora: uma fecha o volume em 1.000 mL, a outra deixa a manutenção correndo. Numa paciente que pode estar diluindo os próprios fatores de coagulação, a diferença não é de redação.

Sobre a regra dos 20 minutos, que é o número mais citado e o mais mal lido do capítulo: ela não é um prazo para operar, é um critério de comparação. A pergunta que ela responde é "o parto vaginal acontece nos próximos 20 minutos?". Se a resposta é sim, a via baixa entrega o feto mais rápido do que a preparação de uma sala; se é não, a cesárea passa a ser o caminho mais curto. Ninguém precisa cronometrar nada — precisa estimar dilatação e progressão e responder a uma pergunta de sim ou não.

Sobre a janela de quatro a seis horas do parto vaginal com feto morto: ela não é um período de espera, é um teto. O que ela diz é que a indução se justifica enquanto houver previsão razoável de nascimento nesse intervalo e enquanto o quadro materno, reavaliado a cada hora, permitir. Quadro materno que se deteriora dentro da janela encerra a janela.

08

A conduta, hora a hora

Suspeita acompanhada de instabilidade ou alteração fetal exige mobilização imediata da equipe, acessos, exames e reserva de sangue, com suporte materno. Não fazer toque antes de excluir placenta prévia. A via e o momento do parto dependem da condição materna, vitalidade fetal e possibilidade de nascimento vaginal iminente; a imagem não deve atrasar a resposta à emergência.

Cada prescrição sai identificada pelo documento que a autoriza. Quando duas fontes nacionais não coincidem, o texto assume um lado e o desacordo reaparece inteiro mais adiante, no bloco que existe para isso. Sulfato de magnésio — indicação, esquemas, vigilância da intoxicação e antídoto — é assunto do capítulo de eclâmpsia, e a paciente com pré-eclâmpsia grave associada é atendida por lá.

  1. Minuto 0 a 5 — reconhecer, nomear e mobilizar

    O primeiro gesto é a mão no abdome e o segundo é o sonar; juntos levam menos de dois minutos e produzem o diagnóstico. Encontrado um útero que não relaxa, ou dor de início súbito, ou sangramento, ou foco fetal alterado — qualquer um deles, isoladamente, numa gestante de segunda metade —, nomeie o quadro em voz alta e mobilize antes de continuar examinando: obstetra, anestesista, centro cirúrgico, agência transfusional e neonatologia, com a idade gestacional dita no telefonema. Se a unidade não tem maternidade, o contato com a regulação acontece nesta mesma frase, e não depois dos exames. E há um gesto que não se faz: enquanto ninguém souber onde está implantada essa placenta, não há toque vaginal, porque o dedo do examinador é capaz de converter uma placenta prévia sangrando pouco numa hemorragia. Anote a hora em que a dor começou.

    Prescrição
    • Diagnóstico clínico, sem esperar exame: na presença de achados compatíveis, a solicitação de exames complementares não deve retardar a abordagem terapêutica — Manual de Gestação de Alto Risco (MS, 2022), seção 5.2.2; Protocolo FEBRASGO nº 37 (2021), seção de diagnóstico.
    • Não realizar toque vaginal pelo risco de agravamento se houver placenta prévia — SAMU 192, Suporte Avançado de Vida (2016), protocolo AGO9.
  2. Minuto 5 a 15 — dois acessos, os tubos e o vidro que fica em cima da mesa

    Decúbito lateral esquerdo, oxigênio sob máscara não reinalante se a saturação estiver abaixo de 94%, e dois acessos venosos periféricos calibrosos — de preferência no braço direito, porque o esquerdo fica por baixo no decúbito e no transporte. Na mesma punção saem todos os tubos, e um deles não vai para lugar nenhum: cerca de 10 mL de sangue num tubo de vidro seco, sem anticoagulante, em temperatura ambiente e em repouso, com a hora escrita no esparadrapo. Passados sete a dez minutos sem coágulo firme, a coagulopatia está instalada, e essa informação chega antes de qualquer resultado de laboratório num hospital que não tem laboratório de plantão. Nos quadros clinicamente mais exuberantes, a reserva de sangue se pede agora, e não quando a pressão cair.

    Prescrição
    • Dois acessos venosos periféricos calibrosos, com punção preferencial no membro superior direito em razão do decúbito lateral esquerdo — Manual de Gestação de Alto Risco (MS, 2022), seção 5.2.3; SAMU 192 (2016), AGO9.
    • Oxigênio suplementar sob máscara não reinalante se saturação de oxigênio abaixo de 94% — SAMU 192 (2016), AGO9.
    • Exames laboratoriais: tipagem sanguínea, hemograma completo, coagulograma, provas de função hepática, função renal e eletrólitos — Manual de Gestação de Alto Risco (MS, 2022), seção 5.2.3; Protocolo FEBRASGO nº 37 (2021), seção de conduta.
    • Teste de coagulação à beira do leito: 10 mL de sangue periférico em tubo de ensaio seco, mantido em temperatura ambiente; ausência de coágulo firme após sete a dez minutos significa coagulopatia instalada — Protocolo FEBRASGO nº 37 (2021), seção de conduta; Manual de Gestação de Alto Risco (MS, 2022), seção 5.2.3, que fixa o corte em sete minutos.
    • Reserva de quatro unidades de concentrado de hemácias nos quadros clinicamente mais exuberantes — Manual de Gestação de Alto Risco (MS, 2022), seção 5.2.3.
  3. Minuto 10 a 30 — a reposição, e o alvo que não é normalizar a pressão

    Ao primeiro sinal de hipotensão ou instabilidade hemodinâmica, começa a reposição, e ela tem número. Mil mililitros de cristaloide, com os primeiros 500 mL em dez minutos — o que exige cateter calibroso e soro em pressão, não gotejamento por gravidade — e o restante a 250 mL por hora. A sonda vesical de demora entra junto, porque a diurese horária é o parâmetro que vai dizer se a perfusão está voltando, e o alvo é acima de 30 mL por hora. O alvo pressórico não é normalizar: numa hemorragia ainda não controlada, subir demais desaloja coágulo, e a régua nacional que o interno tem à mão é sistólica acima de 80 mmHg até o foco ser controlado. As proporções entre hemocomponentes, os gatilhos de ativação e as metas que autorizam desativar o protocolo de transfusão maciça estão no capítulo de choque hemorrágico e não se repetem aqui — o que este capítulo obriga a lembrar é que o fibrinogênio cai primeiro e que a meta dele na hemorragia obstétrica é mais alta que a do trauma.

    Prescrição
    • Diante de hipotensão ou instabilidade hemodinâmica: 1.000 mL de solução cristaloide, sendo 500 mL nos primeiros dez minutos e manutenção a 250 mL/hora — Protocolo FEBRASGO nº 37 (2021), seção de conduta; Manual de Gestação de Alto Risco (MS, 2022), seção 5.2.3, que escreve o mesmo esquema como "o restante ao longo de duas horas".
    • Sondagem vesical de demora com medida horária, mantendo débito urinário acima de 30 mL/hora — Manual de Gestação de Alto Risco (MS, 2022), seção 5.2.3; Protocolo FEBRASGO nº 37 (2021).
    • Alvo hemodinâmico permissivo no choque, com pressão sistólica acima de 80 mmHg até o controle do foco — SAMU 192 (2016), protocolos AGO9 e AC16.
    • Ácido tranexâmico: a relação nacional registra apenas o comprimido de 250 mg, no componente estratégico; a apresentação injetável usada na hemorragia obstétrica depende de aquisição pelo próprio serviço — Rename 2024.
  4. Minuto 20 a 40 — a decisão da via, pelos dois pacientes

    Duas perguntas balizam a decisão, e nenhuma delas é sobre exame de imagem: a mãe está hemodinamicamente estável, e o feto está vivo. Com feto vivo em sofrimento, a partir da faixa de viabilidade, o parto é imediato — e a via se decide por uma comparação de tempos, não por um cronômetro: se o parto vaginal acontece nos próximos 20 minutos, faz-se o parto vaginal, espontâneo ou instrumentado, abreviando o expulsivo; se não acontece, a cesárea de emergência é o caminho mais curto até o feto. Com feto vivo e traçado tranquilizador, longe do termo, existe tempo, e é a única situação do capítulo em que corticoide e neuroproteção fetal entram na conversa — sem que isso adie nada, porque a reavaliação horária pode encerrar a janela a qualquer momento. A decisão é do obstetra; o que o interno entrega é o estado dos dois pacientes, medido e com horário.

    Prescrição
    • Gestante com idade gestacional a partir de 24 a 26 semanas e evidências de sofrimento fetal: abordagem de parto imediata, se as condições locais permitirem suporte perinatal ou transferência — Manual de Gestação de Alto Risco (MS, 2022), seção 5.2.3.
    • Se a expectativa de tempo para o parto vaginal superar 20 minutos, o parto cesáreo deve ser preferido; com parto vaginal iminente nos próximos 20 minutos, pode-se optar pela via vaginal espontânea ou instrumental, considerando abreviar o expulsivo — Manual de Gestação de Alto Risco (MS, 2022), seção 5.2.3 e nota do Fluxograma 1; Protocolo FEBRASGO nº 37 (2021), seção de conduta.
    • Feto vivo, sem sofrimento e longe do termo: a via depende da idade gestacional, da dilatação cervical e da existência de instabilidade materna ou fetal — Protocolo FEBRASGO nº 37 (2021), seção de conduta.
    • Corticoterapia para maturação pulmonar quando houver risco de resolver a gestação nas próximas 48 horas: betametasona 12 mg por via intramuscular, duas doses separadas por 24 horas; na falta dela, dexametasona 6 mg por via intramuscular a cada 12 horas, quatro doses — RBEHG, Protocolo Pré-eclâmpsia 2025. Ambas constam do componente básico da relação nacional — Rename 2024.
    • Neuroproteção fetal com sulfato de magnésio entre 23 e 32 semanas, otimizada para o momento do parto, com os esquemas e a vigilância descritos no capítulo de eclâmpsia — RBEHG 2025; Manual de Gestação de Alto Risco (MS, 2022).
    • Reavaliação do quadro materno a cada hora — pressão arterial, pulso, diurese, hemograma e coagulograma; havendo alterações, a decisão é refeita — Manual de Gestação de Alto Risco (MS, 2022), nota do Fluxograma 1.
  5. Quando o feto já morreu e a mãe está estável — a indução, a amniotomia e o relógio

    Aqui a régua muda inteira, porque só há um paciente. Sem feto a salvar, a via de parto se escolhe pelo risco materno, e a via vaginal é a preferível: ela evita somar uma laparotomia a uma mulher que pode estar consumindo os próprios fatores de coagulação. A amniotomia é o gesto que define este marco e não é opcional — ao esvaziar a cavidade, ela reduz a hemorragia materna e diminui a passagem de tromboplastina para a circulação materna, o que é a mesma coisa que dizer que ela reduz o risco de coagulação intravascular disseminada e de embolia amniótica. A ocitocina entra se houver necessidade de induzir. O relógio é de quatro a seis horas para o nascimento, e ele é teto, não espera: o quadro materno se reavalia a cada hora, e deterioração dentro da janela encerra a janela e leva ao centro cirúrgico.

    Prescrição
    • Presença de feto morto com mãe hemodinamicamente estável: optar pela via vaginal — Protocolo FEBRASGO nº 37 (2021), seção de conduta; Manual de Gestação de Alto Risco (MS, 2022), seção 5.2.3, que estende a mesma preferência ao feto de viabilidade incerta abaixo de 24 semanas.
    • Amniotomia, para reduzir a hemorragia materna e a passagem de tromboplastina para a corrente sanguínea materna, com redução do risco de coagulação intravascular disseminada e de embolia amniótica — Manual de Gestação de Alto Risco (MS, 2022), seção 5.2.3, que a descreve como mandatória; Protocolo FEBRASGO nº 37 (2021), que a descreve como necessária na condução do parto vaginal.
    • Ocitocina para indução, em esquema de baixa dose por bomba de infusão em acesso periférico: 5 UI diluídas em 500 mL de soro glicosado a 5% ou fisiológico a 0,9%, com início a 2 mU/minuto, o que corresponde a 12 mL/hora ou 4 gotas por minuto; incrementos de 1 a 2 mU/min a intervalos de 30 a 40 minutos, com reavaliação de frequência cardíaca fetal e dinâmica uterina a cada 30 minutos, e volume total infundido que não deve exceder 3 litros em 12 horas — Manual de Gestação de Alto Risco (MS, 2022), seção sobre uso seguro da ocitocina.
    • Previsão de nascimento entre quatro e seis horas, com o quadro clínico reavaliado a cada hora — Protocolo FEBRASGO nº 37 (2021); Manual de Gestação de Alto Risco (MS, 2022), seção 5.2.3.
    • Considerar abreviar o período expulsivo por parto instrumentalizado — Manual de Gestação de Alto Risco (MS, 2022), nota do Fluxograma 1.
  6. No centro cirúrgico e nos minutos seguintes — o útero de Couvelaire

    Se a paciente for operada, existe um achado que assusta quem o vê pela primeira vez e que precisa estar nomeado antes de aparecer. O sangue do descolamento pode dissecar para dentro do miométrio e infiltrar a parede uterina, que se apresenta arroxeada, edemaciada, com áreas equimóticas que às vezes alcançam as trompas e os ligamentos: é a apoplexia uteroplacentária, o útero de Couvelaire. A aparência sugere um órgão destruído, e é aí que mora o erro. O músculo infiltrado ainda contrai. A conduta é tratar a atonia como se trata qualquer atonia — massagem, uterotônicos, sutura — e reservar a histerectomia subtotal ao útero que, depois disso, continua sem responder. Na casuística brasileira, a histerectomia foi necessária em 3,3% dos casos de um período e em nenhum do outro, porque a maioria das atonias foi controlada por manobras clínicas e ocitócicos. A outra metade da regra é igualmente firme: diante de um útero de Couvelaire que não recupera o tônus, não se adia a histerectomia por causa da idade da paciente.

    Prescrição
    • Monitorização materna rigorosa no pós-parto, principalmente quando se identifica útero de Couvelaire como achado intraoperatório — Protocolo FEBRASGO nº 37 (2021), seção de conduta.
    • Diante de útero de Couvelaire, realizar histerectomia subtotal apenas se não houver resposta contrátil após a sutura uterina e a administração de ocitócicos; havendo ausência de resposta contrátil, não adiar a decisão, mesmo em paciente jovem — Rotinas Assistenciais da Maternidade-Escola da UFRJ, descolamento prematuro da placenta.
    • As alterações uterinas do quadro caracterizam-se por hipertonia uterina e apoplexia uteroplacentária — Manual de Gestação de Alto Risco (MS, 2022), seção 5.2.1.
    • Manejo da atonia uterina, com a sequência de uterotônicos, balão de tamponamento e suturas compressivas: ver o capítulo de hemorragia pós-parto.
  7. As horas seguintes ao nascimento, a alta e o retorno

    O parto não encerra o problema, e três coisas precisam estar previstas antes de acontecerem. A primeira é a hemorragia pós-parto: esta puérpera soma útero que trabalhou em hipertonia, volume intravascular reduzido e fatores de coagulação consumidos, e na casuística brasileira a atonia ocorreu em 6,7% e 9,8% dos casos. A segunda é o rim: necrose tubular aguda e necrose cortical aguda fazem parte da fisiopatologia do quadro, e a insuficiência renal aguda apareceu em 3,3% e 2,0% dos casos — de modo que a diurese continua sendo medida depois do parto. A terceira é a imunoglobulina anti-D, que é o item mais esquecido do capítulo e tem prazo. E a alta é um ato clínico: essa mulher precisa sair sabendo o nome do que teve, porque isso muda o pré-natal seguinte dela.

    Prescrição
    • Imunoglobulina anti-D 300 µg em mulher Rh negativo não sensibilizada, em até 72 horas após o evento — sangramento vaginal materno, óbito fetal e trauma abdominal constam nominalmente entre as condições que aumentam o risco de sensibilização. No Brasil há apresentações de 250 µg e de 300 µg — Manual de Gestação de Alto Risco (MS, 2022), seção 14.5.
    • Vigilância do tônus uterino e do sangramento nas primeiras duas horas após a saída da placenta, e manejo da hemorragia pós-parto conforme o capítulo próprio.
    • Controle de diurese e de função renal no puerpério, pela necrose tubular e cortical que integram a fisiopatologia do quadro — Manual de Gestação de Alto Risco (MS, 2022), seção 5.2.1.
    • Registro do diagnóstico no cartão e no relatório de alta, com a informação de que o antecedente de descolamento é o fator de risco isolado mais forte para recorrência: 3% a 15% das mulheres apresentam novo descolamento, contra incidência basal de 0,4% a 1,3%; após dois descolamentos consecutivos, o risco de um terceiro sobe para 20% a 25% — Protocolo FEBRASGO nº 37 (2021), seção de recorrência.
    • Encaminhamento da próxima gestação ao pré-natal de alto risco: hemorragias na gestação, incluindo descolamento prematuro de placenta, constam entre os critérios de encaminhamento — Manual de Gestação de Alto Risco (MS, 2022), capítulo 1.
09

Como saber se está funcionando

Reavaliar aqui tem uma peculiaridade que nenhum outro capítulo de emergência tem: o processo continua enquanto a placenta estiver dentro. Não existe tratamento que interrompa o descolamento — o único tratamento é o esvaziamento uterino. Tudo o que se faz antes disso é sustentar dois pacientes enquanto o dano avança, e é por isso que a reavaliação não serve para decidir se o tratamento funcionou: serve para dizer quanto tempo ainda existe.

Duas ideias organizam o bloco. A primeira: o que decide não é o valor, é a série. Uma pressão de 118 por 74 numa mulher que chegou com 138 por 90 não é uma pressão normal, é uma queda. A segunda: a recomendação nacional fixa a periodicidade em uma hora — pressão arterial, pulso, diurese, hemograma e coagulograma —, e é explícita ao dizer que, havendo alteração, a decisão já tomada volta para cima da mesa.

Tônus e altura uterinaA cada 15 a 30 minutos enquanto a paciente aguarda decisão, com a mesma mão e, se possível, a mesma pessoa

Esperado: Estabilidade. Tônus que não aumenta e altura uterina que não sobe

Se não melhora: Útero que endurece mais, dói mais ou cresce entre duas medidas é hematoma em expansão, e expansão é a única evolução natural do quadro sem esvaziamento. Isso antecipa a decisão de parto mesmo que a pressão ainda esteja boa e o traçado ainda esteja aceitável. Marque a altura com caneta na pele para que a próxima medida não dependa de memória, e desconfie da obesidade: nela a hipertonia é de identificação difícil e a mão engana

Vitalidade fetalAusculta a cada 15 minutos com a paciente ainda em avaliação; cardiotocografia contínua a partir do momento em que o feto estiver em risco de hipoxemia ou desenvolver acidose

Esperado: Frequência cardíaca dentro da faixa, com variabilidade preservada e sem desacelerações tardias

Se não melhora: Deterioração do padrão é o gatilho que muda a via de parto, e ela pode acontecer com a mãe aparentemente bem — a gestante jovem sustenta a pressão dela à custa da circulação uteroplacentária, de modo que o feto avisa antes. Bradicardia sustentada em gestante com útero hipertônico não é situação para repetir o exame daqui a pouco: é situação para a sala. E se o foco deixar de ser encontrado, o ultrassom deixa de ser dispensável, porque a diferença entre bradicardia extrema e óbito muda a via, o prazo e a conversa

Pressão arterial, pulso e perfusão periféricaA cada 15 minutos na fase aguda; a cada hora depois de estabilizada, junto com o restante da planilha

Esperado: Sistólica acima de 80 mmHg até o controle do foco, com pulso e perfusão melhorando após a reposição inicial

Se não melhora: A armadilha desta paciente é a base hipertensiva. Uma mulher que vinha com 146 por 94 no pré-natal e chega com 118 por 74 já perdeu volume, e o número isolado não denuncia. Olhe a série, a frequência cardíaca e a pele. Quem responde à reposição e volta a cair é a paciente que ainda sangra, e sangramento que não para é indicação de esvaziar o útero, não de repor mais. Cuidado com o efeito contrário: subir a pressão além do necessário desaloja coágulo e aumenta a perda

Diurese horáriaDe hora em hora, com sonda vesical de demora, desde a admissão

Esperado: Acima de 30 mL por hora — e não os 25 mL/hora do capítulo de eclâmpsia, que medem outra coisa: lá o corte diz se a paciente consegue excretar magnésio, aqui diz se o rim está sendo perfundido

Se não melhora: Abaixo do corte, a primeira leitura é hipoperfusão renal por hipovolemia e a resposta é volume e controle do foco. A segunda leitura, que aparece mais tarde, é lesão já instalada: necrose tubular aguda e necrose cortical aguda integram a fisiopatologia do quadro, e a insuficiência renal aguda ocorreu em 2% a 3% dos casos da casuística brasileira. Oligúria que persiste depois de a paciente estar reposta e o foco controlado deixa de ser um problema de volume e passa a ser um problema de rim

Coagulação: o tubo, o fibrinogênio e as plaquetasTubo seco na admissão e repetido a cada uma a duas horas enquanto a placenta estiver dentro; fibrinogênio, plaquetas e coagulograma na admissão e a cada hora conforme a recomendação nacional

Esperado: Coágulo firme em até sete a dez minutos; fibrinogênio estável e acima de 200 mg/dL

Se não melhora: Fibrinogênio inicial igual ou abaixo de 200 mg/dL tem valor preditivo positivo de 100% para hemorragia pós-parto grave; igual ou acima de 400 mg/dL, valor preditivo negativo de 79%. É o número que decide chamar o hemoterapeuta, e a curva vale mais que o ponto — um fibrinogênio de 260 mg/dL que era 380 mg/dL há uma hora é consumo em andamento. Tubo que deixa de coagular, ou coágulo que se forma e se desfaz, muda três coisas ao mesmo tempo: fecha a janela da anestesia condutiva, pesa contra abrir o abdome quando o feto já morreu, e antecipa o pedido dos componentes que repõem hemostasia. Leia os resultados contra a linha de base da gestação, em que quase todos os fatores estão elevados e as plaquetas, discretamente baixas

Hemoglobina e hematócrito seriadosNa admissão e a cada hora enquanto houver sangramento ativo

Esperado: Queda proporcional ao que se estimou perder

Se não melhora: Este é o parâmetro que mais engana e por dois motivos opostos. Na primeira hora ele subestima, porque a hemodiluição ainda não aconteceu — a hemoglobina de entrada de uma paciente que está sangrando agora é a hemoglobina de ontem. Depois da reposição ele superestima a perda, porque parte da queda é diluição. Na casuística brasileira a hemoglobina média na admissão foi de 9,5 e 10,4 g/dL, em mulheres cujo sangramento visível era descrito como leve a moderado — o que é a mesma frase do capítulo dita de outro jeito. Trate a série como tendência e não como medida, e nunca use um hematócrito de admissão para tranquilizar ninguém

10

Onde o erro machuca

Segurar a decisão até sair o ultrassom

O dano: É o erro que define o capítulo, e ele não vem de ignorância: vem do hábito, treinado em todo o resto da medicina, de confirmar antes de agir. O prejuízo tem duas camadas. A primeira é o tempo — o telefonema para quem opera o aparelho, a espera, o transporte da paciente para fora da sala monitorada, e o exame em si, tudo isso com um útero contraído sobre uma placenta que já não troca gás e com um hematoma que só cresce. A segunda é pior e é silenciosa: o exame normal tranquiliza. A sensibilidade do método fica entre 25% e 60%, o que significa que entre dois quintos e três quartos dos descolamentos têm ultrassom sem hematoma visível — o coágulo recente é isoecoico com a placenta e não aparece porque não contrasta. Um laudo que diz "placenta tópica, sem sinais de descolamento" numa paciente com útero lenhoso e bradicardia fetal é um documento correto que descreve um erro.

Como pegar a tempo: Trate a ordem como fixa e não como preferência: a decisão é clínica e o exame, quando existe, acontece com a paciente já monitorada, já com dois acessos e com a obstetra já chamada. O manual federal escreve a regra sem rodeios — na presença de achados clínicos compatíveis, a solicitação de exames não deve retardar a abordagem terapêutica. Guarde a assimetria de cabeça: ultrassom com hematoma retroplacentário confirma, com valor preditivo positivo de 80% a 88%; ultrassom sem hematoma não afasta nada. E guarde o dado que encerra a discussão: nem o exame da placenta depois do parto fecha o diagnóstico — num estudo multicêntrico, a avaliação macroscópica e histopatológica confirmou o quadro clínico em apenas 30% dos casos, 49 de 162.

Estimar a gravidade pelo sangue que se vê

O dano: Este erro acontece na triagem, antes de qualquer médico ver a paciente, e é por isso que ele é tão eficaz. A mulher que chega ensopada vira prioridade; a que chega com uma mancha de cinco centímetros e dor vai para a fila. O mecanismo desmente a intuição: o hematoma nasce atrás da placenta e só chega ao absorvente se conseguir dissecar entre as membranas e a parede uterina até o colo — quando o descolamento é central, ou quando a borda permanece aderida, nada sai. E a medida do dano é que a forma que não sangra é a forma pior. Na casuística brasileira, no grupo que evoluiu para óbito fetal a ausência de sangramento genital foi significativamente mais frequente do que no grupo cujo bebê nasceu vivo — 57,9% contra 22,0% —, e no outro período o achado associado ao óbito foi a hipertonia uterina, 66,7% contra 29,3%. Some as duas: o caso mais grave é o que sangra menos por fora e endurece mais por dentro.

Como pegar a tempo: Substitua a pergunta. Em vez de "quanto ela sangrou", pergunte "o útero relaxa?" e "o feto está bem?", porque essas duas respondem à gravidade e a primeira não. Trate o volume externado como piso, nunca como medida: o manual federal registra que não há correlação entre o volume de sangue externado e o acometimento fetal, e que um em cada cinco casos simplesmente não sangra por fora. Na prática de plantão, isso significa que gestante de segunda metade com dor abdominal súbita e útero duro entra na sala mesmo sem sangue no forro — e que a classificação de risco que usa a quantidade de sangue como critério vai errar exatamente nas pacientes que não podem esperar.

Fazer o toque vaginal para "ver de onde vem o sangue"

O dano: O toque é o exame mais automático da obstetrícia e é o único gesto deste capítulo capaz de transformar um sangramento moderado em uma hemorragia com a paciente na maca. Se a placenta for prévia, o dedo do examinador atravessa o orifício interno do colo e desloca tecido placentário, abrindo seio venoso. E a razão de o erro ser frequente é que as duas doenças moram no mesmo cenário: descolamento e placenta prévia se apresentam ambos com sangramento na segunda metade, e a oposição clínica clássica — indolor e vermelho vivo na prévia, doloroso e escurecido no descolamento — falha nas duas pontas: 10% a 20% das mulheres com placenta prévia têm contrações associadas ao sangramento, e o descolamento pode cursar sem dor significativa. A mulher que chega sem cartão de pré-natal não traz a resposta escrita em lugar nenhum.

Como pegar a tempo: Adote a regra do protocolo pré-hospitalar nacional como regra de hospital também, porque ela não depende de ambulância: enquanto não se souber onde a placenta está implantada, não se toca. Quem precisa da informação de trajeto tem o exame especular, que mostra a origem do sangue e a saída de líquido amniótico sem manipular o colo — e que também não é prioridade nos primeiros minutos de uma paciente instável. Onde houver ultrassom disponível na sala, a localização placentária é a primeira pergunta que ele responde, e é a única que muda um gesto imediatamente.

Copiar a conduta do fluxograma sem ler o texto ao lado

O dano: Documento oficial brasileiro também erra, e há dois exemplos aqui que o interno pode topar impressos. Um deles está no fluxograma de conduta do protocolo nacional de urgências obstétricas: a legenda o chama de classificação, quando o que ele desenha é decisão de via de parto; e os dois ramos do topo estão rotulados "feto vivo, gestante estável" e "feto morto, gestante estável", enquanto uma das saídas do ramo esquerdo é justamente "instabilidade materna". Um ramo definido pela estabilidade não pode ter a instabilidade como subcondição — e a consequência para quem lê só o desenho é que a gestante instável fica sem caminho nenhum. O erro atravessou a revisão: está idêntico na edição de 2018 e na edição revista e atualizada de 2021. O fluxograma federal, que cobre o mesmo assunto, não tem o defeito — nele a mãe instável tem ramo próprio, que desemboca direto em cesárea de urgência. O segundo exemplo está num artigo nacional de 2008 sobre óbito fetal no descolamento: ele afirma que a queda da incidência de óbito fetal entre dois períodos, de 31,7% para 23,5%, foi estatisticamente significativa. Refazendo a conta com os números publicados — 19 óbitos em 60 casos contra 12 em 51 —, o qui-quadrado com correção de continuidade dá 0,55, com p de 0,46; sem a correção, p de 0,34; e o teste exato de Fisher bilateral, 0,40. Por qualquer dos três, a diferença não é significativa — e o artigo companheiro do mesmo grupo, sobre os mesmos casos, publica p de 0,46 e classifica o achado como não significativo.

Como pegar a tempo: O que protege não é decorar mais, é ler de outro jeito: fluxograma se confere contra o texto do mesmo documento antes de virar conduta, e a legenda da figura não é a figura. Quando o desenho e o parágrafo discordam, o parágrafo costuma estar certo, porque ele passou por mais revisões do que a caixinha. Desconfie de três sinais específicos: rótulo de ramo que contradiz uma das saídas daquele ramo; caminho ausente para um cenário que o texto discute; e legenda que nomeia uma coisa diferente do que a figura mostra.

Ler o útero de Couvelaire como um útero perdido — ou, do outro lado, insistir num útero que já não responde

O dano: São dois erros simétricos e os dois custam. O primeiro: o cirurgião abre o abdome e encontra um útero arroxeado, edemaciado, com áreas equimóticas que podem alcançar trompas e ligamentos — a apoplexia uteroplacentária — e conclui, pela aparência, que aquele órgão não vai contrair. Retira o útero de uma mulher de 28 anos que não precisava perdê-lo. A aparência engana porque o sangue infiltra o miométrio sem destruir a fibra muscular: o músculo infiltrado ainda contrai. Na casuística brasileira, a histerectomia foi necessária em 3,3% dos casos de um período e em nenhum do outro, justamente porque a maioria das atonias foi controlada por manobras clínicas e ocitócicos. O segundo erro é o inverso e mata: diante de um útero que já recebeu sutura e ocitócicos e continua sem responder, adiar a histerectomia porque a paciente é jovem, ou porque "vamos tentar mais um", numa mulher que pode estar sem fibrinogênio.

Como pegar a tempo: Separe a aparência da função, porque só a segunda decide. A conduta descrita na rotina de uma maternidade-escola brasileira é a régua: diante do útero de Couvelaire, realizar histerectomia subtotal apenas se não houver resposta contrátil após a sutura uterina e a administração de ocitócicos — e, havendo ausência de resposta contrátil, não adiar a decisão, mesmo em paciente jovem. Entre os dois extremos existe a escada de manejo da atonia, que tem capítulo próprio neste livro e se percorre inteira antes da decisão. E o achado impõe uma consequência que não é cirúrgica: útero de Couvelaire identificado no intraoperatório é motivo para monitorização materna rigorosa no pós-parto, porque essa é a puérpera que volta a sangrar.

11

O que dizer ao paciente e à família

Este capítulo tem uma conversa que nenhum outro da obstetrícia tem, e é a razão de o bloco existir: comunicar a morte de um bebê e conduzir o parto dele ao mesmo tempo, com a mesma mulher, na mesma sala, nas mesmas horas. Não há como separar as duas tarefas em dois dias, e não há como delegar a segunda para depois da primeira. O que segue são as palavras, na ordem em que elas costumam ser necessárias.

Os quarenta segundos na triagem, com a decisão ainda sendo tomada

"Sueli, o que a senhora está sentindo pode ser um descolamento da placenta, e isso é grave. Eu já chamei a obstetra e o centro cirúrgico. Vou pedir que a senhora deite virada para a esquerda, vou colocar dois soros e vou tirar sangue, tudo agora — e o seu marido pode ficar aqui do lado. Enquanto isso eu preciso de três respostas curtas: a que horas exatamente essa dor começou, se a senhora bateu a barriga ou caiu nos últimos dias, e se o bebê tem mexido hoje."

Não diga: Dizer "vamos fazer um ultrassom para ver o que é", que é o que a pressa produz naturalmente e que instala na cabeça dela — e na sua — a ideia de que a decisão está esperando um exame. Também não diga "deve ser contração" antes de ter posto a mão no abdome. E não faça as três perguntas como conversa de anamnese: elas são conduta, e a primeira delas é o horário que vai aparecer em todos os documentos das próximas seis horas.

Quando alguém pergunta por que não se espera o ultrassom

"Eu entendo a pergunta, e ela é razoável. Só que nesse problema o exame de imagem não decide. Quando ele mostra o coágulo, ele confirma o que a gente já viu; quando ele vem normal, ele não afasta nada — mais da metade dos casos tem exame normal no começo, porque o sangue coagulado ainda parece a própria placenta na tela. O que decide aqui é o exame da barriga e o coração do bebê, e os dois eu já fiz. Esperar o aparelho só ia gastar um tempo que a gente não tem sobrando."

Não diga: Explicar sensibilidade e valor preditivo para a família no meio do atendimento, e discutir o assunto com o colega no corredor na frente dela. Também não diga "aqui não tem ultrassom a esta hora" como se a limitação do serviço fosse o motivo — porque não é: mesmo com o aparelho ligado ao lado, a ordem seria a mesma, e transformar uma decisão clínica em falta de recurso destrói a confiança na decisão.

Perguntando sobre trauma e violência, com o acompanhante fora da sala

"Vou pedir licença ao seu marido um minuto, porque tem perguntas que eu faço para todas as mulheres, sozinha com elas. Alguém bateu na senhora, empurrou, chutou a barriga? A senhora se sente segura em casa? Não é acusação de ninguém e não vai para o seu prontuário como fofoca — é que trauma na barriga é uma das causas do que a senhora tem, e eu preciso saber para cuidar direito. Se a resposta for sim, agora ou depois, eu continuo aqui."

Não diga: Fazer a pergunta com o acompanhante ao lado, o que garante a resposta errada. Não use "violência doméstica" como termo de abertura — pergunte o gesto, não a categoria. E não faça a pergunta e siga adiante como quem cumpriu um item: se a resposta for afirmativa, ela abre uma conduta que inclui notificação compulsória e acionamento da rede, e não uma anotação.

Contando que o bebê morreu

"Sueli, eu tenho uma notícia muito ruim. [pausa] O coração do seu bebê parou de bater. Eu procurei com o aparelho e com o ultrassom, e a doutora Iara conferiu comigo. Ele morreu por causa do descolamento da placenta, que é o que está causando a sua dor. [pausa] Eu sinto muito. Eu vou ficar aqui com a senhora agora, e daqui a pouco a gente conversa sobre o que vem pela frente — a senhora não precisa decidir nada neste minuto."

Não diga: Adiar a frase para o meio de uma explicação técnica, ou embrulhá-la em "o quadro é muito ruim" e esperar que ela pergunte. Diga a palavra, faça a pausa e fique. Não diga "pelo menos a senhora é jovem e vai ter outros", não diga que foi melhor assim, e não ofereça uma explicação de culpa disfarçada de informação — "talvez o esforço", "talvez a pressão que a senhora não tratou". E não conte enquanto ela está sendo puncionada: se der para esperar dois minutos até as mãos estarem livres, espere.

Explicando por que o parto vai ser normal, e não cesárea

"A senhora vai ter esse bebê de parto normal, e eu quero explicar por quê, porque eu sei que parece o contrário do que faria sentido. A cirurgia serve para tirar um bebê depressa quando ele ainda pode ser salvo. Agora não é mais esse o objetivo — agora o objetivo é a senhora, e uma cirurgia grande numa pessoa que está sangrando e com o sangue difícil de coagular acrescenta um risco que a senhora não precisa correr. Vamos romper a bolsa, que também ajuda a diminuir o sangramento, e usar medicação para as contrações. A previsão é que aconteça nas próximas quatro a seis horas, e eu vou reavaliar a senhora de hora em hora — se em algum momento isso deixar de ser o mais seguro, a gente muda e eu te aviso antes."

Não diga: Deixar a decisão sem explicação, porque o silêncio aqui vira, meses depois, a convicção de que não operaram porque o bebê já tinha morrido e ninguém se importou. Não prometa o horário do nascimento. E não use "parto normal" como se fosse boa notícia: para essa mulher não é notícia nenhuma, é uma travessia — nomeie que vai ser difícil, ofereça analgesia e ofereça acompanhante.

Na alta, dizendo o que ela leva para a próxima gestação

"Antes de a senhora ir, tem uma coisa que precisa ficar escrita e que a senhora precisa levar de cabeça: o que aconteceu chama-se descolamento prematuro de placenta. Está aqui no relatório e eu quero que a senhora leve esse papel para o posto. Isso importa porque, numa próxima gravidez, a senhora tem chance maior de ter de novo — não é certeza, é chance —, e por causa disso o pré-natal precisa ser de alto risco desde a primeira consulta, com a pressão controlada desde o começo. Duas coisas ajudam de verdade e dependem da senhora: não fumar e tratar a pressão. E se em qualquer gravidez futura vier dor de barriga que começa de uma vez e não passa, a senhora vai ao hospital no mesmo dia, sem esperar sangramento."

Não diga: Dar alta com "a senhora está bem, pode ir", e deixar o diagnóstico só no prontuário do hospital, que ela não carrega. Não solte o risco de recorrência como um número solto e assustador: ele só serve acompanhado do encaminhamento e da data. E não termine sem perguntar como ela está — luto tem seguimento, e a consulta de revisão de uma mulher que perdeu o bebê não é a mesma consulta de revisão de todo mundo.

12

Onde bons médicos discordam

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.

A mãe instável com feto morto: cesárea de urgência ou a via mais segura para ela?

Instabilidade materna manda para a cesárea, qualquer que seja o estado do feto

O fluxograma do manual federal abre três ramos a partir do diagnóstico, e o terceiro deles é a mãe instável — que não passa por nenhuma pergunta sobre o feto e desemboca diretamente em cesárea de urgência. Os outros dois ramos, que discutem via de parto, são explicitamente os da mãe estável. O argumento é de fisiologia do sangramento: a hemorragia do descolamento só para quando o útero se esvazia, de modo que, numa mulher que já não sustenta a própria pressão, a via mais curta até o esvaziamento é a que interrompe a perda mais cedo. Uma indução que leva quatro horas numa paciente instável é quatro horas de perda continuada, e a instabilidade tende a piorar dentro delas.

Manual de Gestação de Alto Risco (MS, 2022), Fluxograma 1 do capítulo 5 e seção 5.2.3

Com feto morto, a via se escolhe pelo risco materno — e ela é a vaginal

O protocolo nacional de urgências obstétricas prescreve, na presença de feto morto e mãe hemodinamicamente estável, optar pelo parto vaginal, com amniotomia e ocitocina se houver necessidade de induzir — e não descreve o que fazer com a mãe instável, deixando o critério em aberto. A rotina de uma maternidade-escola brasileira é mais direta e não condiciona à estabilidade: estando o concepto morto, usar a via mais segura para a mãe, preferencialmente o parto vaginal. O argumento é o custo da laparotomia na paciente errada: boa parte da instabilidade do descolamento com óbito fetal é coagulopática, e abrir o abdome de quem não forma coágulo cria uma superfície cruenta grande num organismo que não tem como fechá-la. A amniotomia, que é o gesto de abertura da via vaginal, reduz a hemorragia materna e a passagem de tromboplastina para a circulação da mãe — quer dizer, o próprio caminho vaginal contém uma medida contra a coagulopatia.

Protocolo FEBRASGO nº 37 (2021), seção de conduta; Rotinas Assistenciais da Maternidade-Escola da UFRJ, descolamento prematuro da placenta

Como decidir

Comece pelo terreno comum, que já cobre a maior parte dos casos: com a mãe estável e o feto morto, ninguém opera; com o feto vivo em sofrimento e parto vaginal não iminente, todo mundo opera. A divergência mora só na caixa da mãe instável com feto morto, e ali a pergunta útil não é qual documento seguir, é qual instabilidade está na sua frente. Separe as duas. A instabilidade hipovolêmica — a que responde à reposição, com tubo seco coagulando e fibrinogênio preservado — é uma paciente que ganha com o esvaziamento rápido, e a cesárea é o caminho. A instabilidade coagulopática — tubo que não coagula, sangramento em babação nos sítios de punção, fibrinogênio despencando — é a paciente para quem a incisão é o problema, e nela o parto vaginal com amniotomia, se a dilatação e a apresentação prometerem nascimento em prazo curto, é o caminho menos agressivo enquanto a agência transfusional trabalha. Some três dados concretos antes de decidir: o resultado do tubo, a dilatação ao exame feito já com a localização placentária conhecida, e o que o seu serviço tem — plasma, crioprecipitado e um anestesista disponível mudam a resposta mais do que qualquer algoritmo.

A amniotomia é gesto de todo descolamento ou só de quem vai parir por via vaginal?

Mandatória, em todo descolamento, junto da abordagem inicial

O manual federal coloca a amniotomia dentro da conduta geral, no mesmo parágrafo dos acessos venosos, dos exames e da reposição — isto é, antes de qualquer bifurcação por estado fetal ou materno — e usa a palavra mandatória. A justificativa é dupla e mecanicista: ao esvaziar a cavidade, a rotura das membranas reduz a pressão intrauterina e a hemorragia materna, e diminui a passagem de tromboplastina da decídua para a corrente sanguínea da mãe, o que se traduz em menos coagulação intravascular disseminada e menos embolia amniótica. Nessa leitura, romper a bolsa é uma medida hemostática e não um passo de condução do parto, e por isso não depende do desfecho escolhido.

Manual de Gestação de Alto Risco (MS, 2022), seção 5.2.3

Necessária quando se conduz o parto vaginal, e só aí

O protocolo nacional de urgências obstétricas menciona a amniotomia num único lugar: no parágrafo do feto morto com mãe estável, entre a escolha da via vaginal e a possibilidade de usar ocitocina para induzir. Nessa leitura, ela é um passo de condução, e não uma medida independente. O argumento a favor é que a bolsa rota tem custo — o próprio manual federal, no capítulo de assistência ao parto, registra que a amniotomia aumenta o risco de infecção amniótica e de acidente de cordão e que não há evidência de que a amniotomia precoce seja, de fato, benéfica. Romper a bolsa de uma paciente que entra no centro cirúrgico em quinze minutos não muda o desfecho materno e acrescenta um procedimento numa hora em que cada gesto disputa mãos.

Protocolo FEBRASGO nº 37 (2021), seção de conduta; Manual de Gestação de Alto Risco (MS, 2022), seção sobre amniotomia no capítulo de assistência ao parto

Como decidir

Deixe a doutrina de lado e olhe para o plano dos próximos trinta minutos. As duas recomendações nasceram em situações distintas: uma pensa na mulher que vai parir; a outra, na que vai para a mesa cirúrgica. Se o plano é parto vaginal — feto morto com mãe estável, ou feto vivo com parto iminente —, a amniotomia entra cedo e ninguém discorda dela. Se o plano é cesárea imediata, a bolsa vai ser rota na sala em poucos minutos de qualquer jeito, e antecipá-la no corredor não compra hemostasia nenhuma. A caixa que sobra, e é onde a divergência tem consequência real, é a da paciente que ainda está sendo estabilizada sem decisão tomada: aí o argumento hemostático pesa, e a amniotomia é razoável desde que feita por quem conduz o caso, com a localização placentária já conhecida — porque romper membranas às cegas numa placenta prévia é o mesmo erro do toque, com um instrumento pior.

Feto viável: um número de semanas ou o feto que está na sua frente?

Um limiar escrito — 24 a 26 semanas, com as condições locais como ressalva

O manual federal fixa uma faixa: gestantes com idade gestacional maior ou igual a 24 a 26 semanas e evidências de sofrimento fetal demandam abordagem de parto imediata, caso as condições locais permitam suporte perinatal ou transferência para serviço de maior complexidade; e o feto de viabilidade incerta, abaixo de 24 semanas, segue a mesma régua do óbito fetal, com preferência pela via vaginal. O argumento a favor de um número é de proteção materna: abaixo dele, a cesárea de emergência entrega um recém-nascido com chance muito pequena de sobreviver e cobra da mãe uma cirurgia de grande porte, frequentemente com incisão corporal, que hipoteca as gestações seguintes. Um limiar escrito também é um argumento defensável às três da manhã, diante de uma equipe que quer operar.

Manual de Gestação de Alto Risco (MS, 2022), seção 5.2.3

O traçado e o que o serviço consegue oferecer, não o calendário

O protocolo nacional de urgências obstétricas não fixa idade gestacional nenhuma: decide pela categoria da cardiotocografia, pela iminência do parto, pela dilatação cervical e pela existência de instabilidade materna ou fetal. O argumento contra o número é que ele erra nos dois sentidos. Um feto de 25 semanas num hospital com terapia intensiva neonatal e neonatologista na sala tem prognóstico incomparável ao de um feto de 25 semanas num hospital que não intuba recém-nascido — e a mesma faixa de semanas cobre os dois. E o próprio manual federal reconhece isso ao pendurar o limiar numa condicional sobre as condições locais, o que transforma a regra numérica numa regra de serviço. Há ainda um sinal de que o número não é firme nem para quem o escreveu: ele aparece como "24/26 semanas", uma faixa de duas semanas sem critério declarado para escolher entre as pontas.

Protocolo FEBRASGO nº 37 (2021), seção de conduta e figura de conduta; Manual de Gestação de Alto Risco (MS, 2022), seção 5.2.3, na ressalva sobre condições locais

Como decidir

Trate o número como piso da conversa e a capacidade instalada como o que autoriza avançar; combinadas assim, as duas recomendações deixam de brigar. Na prática, a pergunta que abre a conversa com o obstetra e o neonatologista não é "quantas semanas ela tem", é "o que este hospital consegue oferecer a um recém-nascido desta idade gestacional, hoje, com a equipe que está aqui". Abaixo de 24 semanas, com feto vivo, a resposta quase sempre empurra para a via vaginal e para o cuidado materno, e a decisão precisa ser conversada com a mulher e registrada. Entre 24 e 26 semanas, a resposta depende inteiramente do lugar: onde há terapia intensiva neonatal, o feto entra na conta; onde não há, e a transferência leva mais tempo do que o descolamento permite, a cesárea de emergência custa muito à mãe e entrega pouco. Acima disso a divergência desaparece.

13

O raciocínio, em voz alta

Sueli Damasceno, 28 anos, terceira gestação, 33 semanas e 2 dias, chega às 21h10 de segunda-feira à triagem de um hospital geral de 110 leitos, trazida de carro pelo marido. Dor abdominal contínua iniciada há cerca de quarenta minutos, mancha escura de uns cinco centímetros no absorvente. Pressão 138 por 90, frequência cardíaca 104, saturação 98%, extremidades frias. No cartão de pré-natal, quatro dias antes: 146 por 94 com proteinúria de duas cruzes. A maternidade fica no terceiro andar, a obstetra de plantão mora a vinte minutos e já foi chamada. O aparelho de ultrassom está trancado na sala do ambulatório.

  1. o que penso antes de examinar

    Gestante de segunda metade com dor abdominal de início súbito e sangramento. A lista é curta: descolamento, placenta prévia, rotura uterina, trabalho de parto. A dor contínua e a pressão do cartão empurram a primeira para a frente, e a proteinúria de quatro dias atrás diz que essa mulher pode estar com pré-eclâmpsia — que é o principal fator de risco do quadro que estou suspeitando. Não vou tocar.

  2. o que faço nos dois primeiros minutos

    Mão no abdome: útero duro, que não relaxa enquanto minha mão espera, doloroso à palpação. Sonar: 92 batimentos por minuto, contados três vezes. São os dois exames de que eu preciso, e eles levaram noventa segundos. Digo o nome em voz alta para a Célia: gestante de 33 semanas com suspeita de descolamento prematuro de placenta, ligue para a obstetra dizendo que é agora, e avise o centro cirúrgico e a agência transfusional.

  3. o que decido não fazer

    Não peço o ultrassom antes de decidir. Se ele mostrasse o hematoma, confirmaria o que eu já sei; se viesse normal, não afastaria nada, porque o exame erra em quarenta a setenta e cinco por cento dos casos e o coágulo recente é isoecoico com a placenta. E não faço toque vaginal: enquanto ninguém souber onde essa placenta está implantada, o meu dedo é capaz de transformar cinco centímetros no absorvente numa hemorragia.

  4. o que instalo enquanto a obstetra vem

    Decúbito lateral esquerdo, máscara com reservatório, monitor. Dois acessos calibrosos, ambos à direita, já que o outro lado ficará comprimido pelo decúbito. Na mesma punção: tipagem e prova cruzada, hemograma, coagulograma, fibrinogênio, ureia, creatinina, eletrólitos, transaminases. E 10 mL num tubo de vidro seco, que a Célia coloca em pé na bancada com a hora escrita no esparadrapo: 21h19. Sonda vesical de demora. Reservo quatro unidades de concentrado de hemácias.

  5. o que penso sobre a mancha de cinco centímetros

    Ela não mede nada. O hematoma cresce atrás da placenta e só chega ao absorvente se conseguir dissecar até o colo — quando não consegue, o sangue fica dentro. A informação de verdade está em três outros lugares: no útero que não relaxa, na frequência cardíaca de 104 numa mulher de 28 anos, e nas extremidades frias. E na série brasileira, o grupo que perdeu o feto foi justamente o que sangrava menos por fora.

  6. o que muda com o primeiro resultado

    21h27: o tubo tem um coágulo firme, formado dentro de oito minutos. Isso não me tranquiliza quanto ao desfecho, mas responde uma pergunta operacional grande: neste momento ela não tem coagulopatia instalada, a janela da anestesia condutiva provavelmente ainda está aberta, e o pedido ao banco de sangue continua sendo de hemácias, sem urgência de plasma. Vou repetir o tubo em uma hora. Pressão 132 por 84, pulso 110 — a sistólica caiu catorze pontos em quinze minutos numa mulher que vinha com 146.

  7. como a decisão da via é tomada

    21h35, a Dra. Iara chega. Passo o caso em três frases: 33 semanas e 2 dias, dor às 20h30, útero hipertônico, foco em 92 há vinte e cinco minutos, tubo coagulou às 21h27, dois acessos, tipagem colhida, quatro unidades reservadas, sala avisada. Ela examina, confirma, e a decisão sai em segundos: feto vivo com bradicardia sustentada, dilatação de 1 cm, parto vaginal não iminente — cesárea de emergência agora. A regra dos 20 minutos, lida como comparação de tempos, dá a resposta sozinha.

  8. o que acontece na sala

    Cesárea às 21h58, sob raquianestesia. Recém-nascido de 1.980 g, Apgar 3 e 7, entubado pela neonatologia e levado à unidade neonatal. Atrás da placenta, um coágulo aderido cobrindo cerca de um terço da superfície materna. E o útero: arroxeado, edemaciado, com equimoses que sobem em direção aos ligamentos. A obstetra nomeia — apoplexia uteroplacentária, útero de Couvelaire — e diz a frase que eu levo do plantão: "parece perdido, mas ele contrai". Massagem, ocitócicos, e o útero firma. Nenhuma histerectomia.

  9. o que aconteceu, e o que fica anotado

    Sueli sangrou 900 mL, saiu da sala com hemoglobina de 8,4 g/dL e fibrinogênio de 290 mg/dL, e não precisou de transfusão. Recebeu imunoglobulina anti-D no dia seguinte, porque é Rh negativo e teve sangramento — e essa foi a única prescrição do caso que quase se perdeu no meio do resto. O relatório de alta traz o diagnóstico escrito, o encaminhamento ao pré-natal de alto risco na próxima gestação e a orientação de procurar o hospital no mesmo dia diante de dor que comece de uma vez, com ou sem sangramento. A anotação que resume o capítulo é a mais curta: dor às 20h30, mão no abdome às 21h12, incisão às 21h58 — e nenhum exame de imagem entre uma coisa e outra.

  10. Variação do caso — resposta e reavaliação

    Variação do caso de Sueli: a mancha no absorvente não aumenta, mas surgem maior dor contínua, extremidades frias e taquicardia. Isso não é melhora do sangramento: pode haver hemorragia oculta. Reavaliar perfusão, útero, feto e coagulação e comunicar a tendência imediatamente.

  11. Variação do caso — quando mudar o plano

    Se a ultrassonografia não mostrar hematoma, manter a suspeita quando a clínica for compatível. Se mãe e feto estiverem estáveis, a equipe pode individualizar vigilância; se houver deterioração, o próximo passo é controle obstétrico do foco e suporte, não repetir imagem para conseguir um laudo positivo.

14

Faça você

São 23h40 de um sábado, sala de trauma de um hospital regional de 90 leitos. Joelma Prata tem 22 anos e estava na garupa de uma moto que derrapou numa curva a uns 40 km/h; caiu de lado sobre o asfalto e o companheiro caiu por cima dela. Chegou andando, trazida por vizinhos, com escoriações no antebraço e no quadril esquerdos. Está grávida — não sabe de quantos meses, não fez pré-natal, e o fundo uterino está a três dedos acima da cicatriz umbilical. Queixa-se de dor no quadril e de "uma dor de barriga que não passa", que ela atribui ao susto. Glasgow 15, pressão 118 por 72, frequência cardíaca 112, frequência respiratória 20, saturação 97%. Sem sangramento vaginal ao exame da roupa íntima. O abdome é doloroso à palpação difusa e você tem dificuldade de dizer se o útero está duro, porque nunca sentiu um útero de 30 semanas com calma. O aparelho de ultrassom está na sala e o plantonista de cirurgia sabe fazer a avaliação abdominal dirigida ao trauma. Não há obstetra no hospital; a maternidade de referência fica a 70 quilômetros.

  1. o que já sei

    Uma gestante traumatizada tem dois pacientes e uma prioridade: a melhor coisa que se faz pelo feto é ressuscitar a mãe, e a sequência do trauma não muda por ela estar grávida. O que muda é que existe uma lesão específica que o abdome dela pode não denunciar, e que o mecanismo deste acidente — queda de lado com peso por cima, com aceleração e desaceleração — é exatamente o que a produz. Trauma consta entre os fatores de risco de descolamento na gestação atual, e trauma materno grave multiplica o risco por seis; trauma aparentemente pequeno também conta.

  2. o que me incomoda nos dados

    Quatro coisas. A frequência cardíaca de 112 numa mulher de 22 anos que "chegou andando", e que pode estar sendo lida como dor ou susto. A dor abdominal contínua, que ela própria explicou para mim antes que eu perguntasse — e explicação pronta trazida pela paciente é um jeito comum de um sintoma novo ser descartado. A ausência de sangramento vaginal, que em outra doença tranquilizaria e nesta não tranquiliza nada. E o fato de eu não saber avaliar o tônus uterino, que é justamente o achado que mais decide aqui.

  3. onde eu ainda não decidi

    O que peço e em que ordem, considerando que há um aparelho de ultrassom na sala e um cirurgião que sabe usá-lo; se o exame abdominal do trauma responde alguma coisa sobre a placenta; que exame de coagulação eu consigo fazer aqui e agora; se faço ou não o toque vaginal; por quanto tempo essa mulher precisa ficar monitorada mesmo se tudo vier normal; e o que prescrevo antes de ela sair daqui, sabendo que ela não fez pré-natal.

Ver como fecharíamos

Comece pela sequência do trauma, sem exceção e sem atalho: via aérea, ventilação, circulação com dois acessos calibrosos e reposição, exposição e exame secundário. Ressuscitar Joelma é o tratamento do feto dela, e essa frase resolve a maior parte das dúvidas de prioridade. Posicione-a em decúbito lateral esquerdo assim que a coluna estiver liberada, porque o útero de 30 semanas comprime a veia cava e derruba o retorno venoso justamente na paciente que você está tentando repor. O exame abdominal dirigido ao trauma responde uma pergunta e não responde outra: ele procura líquido livre na cavidade peritoneal, e o hematoma retroplacentário não fica na cavidade — fica dentro do útero, atrás da placenta. Um exame negativo, portanto, não diz nada sobre descolamento. O que o ultrassom precisa responder aqui é outra coisa, e vale a pena pedir ao cirurgião ou a quem estiver disponível: onde está a placenta, se há batimento cardíaco fetal e qual é a idade gestacional estimada. A localização placentária é a informação que libera ou proíbe o toque, e a regra vale igual na sala de trauma: enquanto ninguém souber onde a placenta está, não se toca. Lembre da assimetria que atravessa o capítulo — ultrassom com hematoma retroplacentário confirma; ultrassom normal não exclui, porque a sensibilidade fica entre 25% e 60%. O exame que você consegue fazer aqui e agora é o tubo seco: 10 mL de sangue periférico num tubo de vidro sem anticoagulante, em pé na bancada, com a hora anotada. Sem coágulo firme em sete a dez minutos, há coagulopatia instalada e o caso mudou de patamar. Colha junto tipagem sanguínea e prova cruzada, hemograma, coagulograma e fibrinogênio — este último é o que melhor se correlaciona com a gravidade —, além de função renal e eletrólitos. E ponha uma pessoa com a mão no fundo uterino, a intervalos regulares, reavaliando tônus, altura e dor: se você não confia na sua palpação, marque a altura na pele com caneta e compare com a de vinte minutos atrás, porque a comparação você consegue fazer mesmo sem experiência. Monitorização fetal contínua é a conduta central e é o que costuma faltar. O que se procura são os quatro achados que a fronteira do trauma manda procurar na gestante mesmo com exame materno tranquilizador: sangramento vaginal, contração, hipertonia uterina e alteração da vitalidade fetal. Nenhum deles precisa estar presente na chegada, e a ausência deles na primeira hora não encerra a vigilância — o descolamento pós-traumático pode se manifestar horas depois do impacto. Numa unidade sem obstetra, isso significa que a decisão correta não é liberar Joelma e sim mantê-la monitorada e acionar a regulação para a maternidade de referência, com transporte em decúbito lateral esquerdo. Duas prescrições não podem ser esquecidas nesta paciente. A primeira é a tipagem com o objetivo específico do fator Rh: sendo ela Rh negativo e não sensibilizada, aplicam-se 300 µg de imunoglobulina anti-D em até 72 horas, e trauma abdominal consta nominalmente entre as condições que aumentam o risco de sensibilização — assim como sangramento vaginal e óbito fetal. Sem pré-natal, ninguém sabe o tipo dela, e essa é a única razão pela qual a tipagem precisa sair na primeira punção. A segunda é a pergunta que se faz sozinha com ela, sem o companheiro na sala: o mecanismo de trauma contado pelo acompanhante é o mecanismo real? Violência contra a mulher atendida em serviço de saúde é de notificação compulsória, e a queda de moto é uma das histórias que mais a encobrem.

Gabarito da questão de abertura
Comentário

Há hemorragia obstétrica com sinais de coagulopatia e hipoperfusão: taquicardia e oligúria persistem apesar do cristaloide. Reposição de volume e hemocomponentes, monitorização e interrupção da gestação devem ser organizadas simultaneamente. Com óbito fetal, o parto vaginal é preferível quando as condições maternas permitem e há previsão de resolução oportuna. Dilatação de 3 cm não garante esse desfecho; instabilidade persistente ou impossibilidade de parto rápido pode exigir cesárea, mesmo com coagulopatia. Não se aguarda correção laboratorial completa para controlar a causa, nem se adia a decisão até nova piora. Coagulopatia não diagnostica útero de Couvelaire nem determina histerectomia automática.

15

Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
16

Plano de revisão

Em 7 dias

Reconstrua de memória, sem consultar: os quatro achados do quadro clássico e a proporção, medida em pacientes brasileiras, em que cada um deles falta; a frase de uma linha que explica por que o ultrassom normal não exclui, com o número da sensibilidade; o que se faz e o que não se faz com a mão nos primeiros cinco minutos, incluindo o exame proibido e o porquê; o teste do tubo seco com o volume, o tempo e o que cada resultado muda; e a via de parto nos quatro cruzamentos possíveis entre mãe estável ou instável e feto vivo ou morto. Depois confira e refaça só o que errou. Aplicação comentada: Pouco sangue vaginal com taquicardia e útero doloroso permite classificar como sangramento pequeno? Não: perda externa não mede toda a hemorragia.

Em 30 dias

Vá até a sala de emergência do serviço em que você estiver e responda por escrito: existe tubo de ensaio de vidro seco disponível no carrinho, ou só tubos com anticoagulante? Onde está a agência transfusional mais próxima, quanto tempo leva a primeira bolsa e existe protocolo escrito de transfusão maciça neste hospital? Há imunoglobulina anti-D, em qual apresentação, e quem a libera à noite? Depois, redija de memória tudo o que se prescreve nos trinta minutos iniciais de um descolamento com mãe instável — posição, oxigênio, acessos, volumes com tempo, sonda, alvos de diurese e de pressão, e a lista de tubos —, e confira contra as tabelas deste capítulo. Por fim, procure no serviço uma mulher internada com hemorragia da segunda metade e leia o prontuário dela procurando uma coisa só: a hora em que a dor começou está anotada?

17

Agora atenda

Uma gestante de terceiro trimestre chega ao pronto-socorro de um hospital geral com dor abdominal de início súbito e um sangramento vaginal pequeno e escurecido, sem obstetra disponível no momento e sem ultrassonografista de plantão. Conduza o atendimento: faça o exame que decide, evite o que não se faz antes de saber onde está a placenta, monte os acessos e os exames sem parar a decisão, avalie os dois pacientes, estabeleça a coagulação à beira do leito, defina o que precisa acontecer nos próximos trinta minutos e diga ao acompanhante o que está acontecendo.

Descolamento prematuro de placenta — Internato | OsceLabs