Internato·Ginecologia e Obstetrícia
Obstetrícia
A gestante que chega grave: reconhecer, medir direito, tratar antes de transferir.
31 capítulos
- 01Pré-eclâmpsiaA principal causa evitável de morte materna no Brasil começa num número que o interno mede com as próprias mãos — e quase sempre mede errado.
- 02Sífilis na gestação e sífilis congênitaO teste é rápido, a droga é barata e existe há oitenta anos — e o Brasil notificou 24.443 crianças com sífilis congênita em 2024. O que falha não é o conhecimento: é a execução, e cada etapa dela é do interno.
- 03Gravidez ectópicaOito em cada dez mulheres que morreram disso no Brasil morreram dentro de um hospital. Entre a que sai andando e a que não sai há uma pergunta feita na triagem e um teste que fica pronto em quinze minutos.
- 04AbortamentoDuzentas mil internações por ano, e em noventa e cinco de cada cem o instrumento usado é o que a Organização Mundial da Saúde manda usar só quando não há o outro. Entre uma conduta e outra existem três perguntas — o colo, o conteúdo e a febre.
- 05EclâmpsiaA convulsão da gestante é a emergência em que se sabe o que fazer antes de saber o diagnóstico — e quase tudo o que decide o desfecho cabe em quinze minutos e duas ampolas.
- 06Diabetes mellitus gestacionalUm número no papel decide se a gestação segue igual ou muda de rota — e o Brasil usa mais de uma régua para ler esse número
- 07Descolamento prematuro de placentaÉ o diagnóstico em que o exame de imagem atrapalha: o ultrassom normal não exclui, o sangue que se vê não mede o que se perdeu, e quem espera confirmação decide tarde.
- 08Síndrome HELLPO diagnóstico se faz no papel do laboratório, e quem lê esse papel primeiro, de madrugada, é o interno.
- 09Os exames do pré-natalTodo interno sabe pedir o painel inteiro. O que se perde não é a coleta — é a leitura: no Brasil sai vinte e nove vezes mais gente do pré-natal sem teste de sífilis do que sem teste de HIV, e os dois saem do mesmo braço, na mesma consulta.
- 10Placenta préviaO sangue é vivo, não dói e para sozinho — e é justamente por parar sozinho que o primeiro episódio engana. O diagnóstico não é da mão: é da imagem, e o laudo precisa vir com um número.
- 11A injeção que é para o próximo filhoSem profilaxia, 16 em cada 100 mulheres Rh negativo se sensibilizavam depois de parir um filho Rh positivo; com ela, 1,5 a 2. A injeção que faz essa diferença não protege o bebê que está na barriga — protege o próximo, e é por isso que ninguém sente falta dela no dia em que deixa de ser aplicada.
- 12O resultado com IgG e IgM na mesaDuas letras, quatro combinações e uma data de coleta decidem se esta mulher vai para casa tranquila, começa remédio hoje ou entra numa investigação de meses — e o erro acontece nos dois sentidos, tratando quem não precisava e liberando quem precisava.
- 13Anti-hipertensivos na gestaçãoDiante de uma pressão alta na gestante, três perguntas se respondem em ordem — é emergência, qual droga, até onde baixar — e a terceira é a que quase ninguém escreve no prontuário.
- 14Restrição de crescimento fetalUm feto no percentil 8 pode ser apenas pequeno; outro no percentil 15 pode estar em sofrimento. O que separa os dois não é o número — é a curva de crescimento e o Doppler, nessa ordem.
- 15Pressão alta na gestante: qual das quatro éO número é o mesmo nas quatro. O que muda é o pré-natal, o momento do parto e o que vem depois — e a resposta quase sempre está numa data, não num exame.
- 16A consulta que se repeteA caderneta federal escreve sete consultas no texto dos direitos, imprime dez colunas na grade de registro e programa um calendário que produz treze — e o que mais muda desfecho no pré-natal não é exame nenhum: é a mulher voltar, e alguém medir.
- 17A data que governa o restoA taxa brasileira de gestação que chega às 42 semanas é dada pelo próprio Ministério como algo entre 0,5% e 10% — vinte vezes de diferença que não é biologia, é datação. E a regra que o caderno federal ensina para calcular a data do parto erra o alvo de 280 dias que ele mesmo declara em 56 de cada 100 últimas menstruações do calendário.
- 18O esvaziamento é o começoUm caso a cada 200 a 400 gestações, e a cirurgia que resolve dura uma tarde. O que decide o desfecho são as dosagens dos meses seguintes: esta é uma doença rastreada por uma curva, não por um exame — e a paciente que some do ambulatório volta com um tumor que era curável quando ainda era só um número que parou de cair.
- 19Não é enjoo forteNáusea e vômito acometem 70% a 80% das grávidas; hiperêmese, de 0,3% a 3%. Entre as duas há perda de peso, desidratação, distúrbio eletrolítico e cetose — e uma ordem de prescrição que quase ninguém escreve: a tiamina antes do soro com glicose. O documento federal que manda fazer isso não diz a dose nem a via, e a tiamina injetável não consta do elenco do SUS.
- 20HIV na gestação: a profilaxia que só funciona inteiraEm 18 de dezembro de 2025 a Organização Mundial da Saúde validou o Brasil pela eliminação da transmissão vertical do HIV. No mesmo mês, o boletim do Ministério registrou 172 recém-nascidos expostos que não receberam profilaxia nenhuma em 2024. O certificado é do país; a etapa que falha é a sua.
- 21A única bactéria que se trata sem queixaBacteriúria assintomática, cistite e pielonefrite na gestação: diagnóstico, tratamento e seguimento.
- 22A mesma adaptação, os dois riscosO conjunto de mudanças que descompensa a cardiopata é o mesmo que torna a gestante trombogênica: volume que sobe, resistência que cai, coagulação que se desloca para o lado do coágulo. Aprendidos juntos, os dois lados se sustentam por uma fisiologia só — e o interno para de decorar duas listas para responder uma pergunta: o que a gravidez mudou aqui.
- 23Diluída ou anêmicaA gravidez baixa a hemoglobina de propósito: o plasma cresce quase metade e a massa de hemácias, um quinto — e o corte que separa diluição de doença muda com o trimestre. Cinco documentos brasileiros em uso discordam sobre quanto ferro dar a quem não está anêmica, e os dois mais novos fixam um prazo de resposta ao tratamento que a própria velocidade de subida que eles declaram não consegue cumprir.
- 24A janela fecha na 20ª semanaA única prevenção da pré-eclâmpsia age numa placenta que ainda está se formando: tudo se decide na primeira consulta, com uma lista, dois comprimidos que o SUS tem e quatro datas escritas na receita.
- 25O que cada ultrassom respondeO ultrassom de 8 semanas, o de 12 e o de 22 não são o mesmo exame com aparelho melhor: cada um responde a uma pergunta que a outra janela já não consegue responder. E nenhum deles fecha diagnóstico.
- 26O laboratório não sabe que ela está grávidaA gonadotrofina derruba o TSH no primeiro trimestre, o estrogênio sobe os hormônios totais e o intervalo de referência passa a valer por trimestre — quem lê o resultado da gestante pela tabela impressa erra nos dois sentidos. A régua brasileira mudou três vezes em cinco anos: 2,5 no manual federal de 2022, 4,0 nos posicionamentos conjuntos de 2022 e uma diretriz americana de 2026 que as duas sociedades anunciaram adotar em agosto, ainda sem documento publicado.
- 27Uma coça, a outra vomitaDuas doenças que compartilham o fígado e nada mais: a colestase ameaça o feto e se decide por um número que demora dias; a esteatose ameaça a mãe e se decide por uma fita de glicemia.
- 28Quem fica, quem vai — e quem voltaOito listas federais respondem "para onde vai esta gestante", e elas não concordam: duas delas divergem frontalmente sobre se a mulher que melhorou volta a ser de risco habitual, e a caderneta que ela carrega tem duas caixas para três estratos.
- 29A receita e o cartãoDuas prescrições e cinco vacinas são tudo o que a gestante sem doença nenhuma leva da consulta — e cada uma tem uma semana em que ainda funciona, uma apresentação que precisa existir na farmácia e um documento federal que discorda de outro.
- 30Gestação normal: adaptações maternas e avaliação obstétricaEntender o esperado, examinar com método e reconhecer quando a explicação fisiológica deixa de bastar
- 31Gestação múltiplaCorionicidade, vigilância individual e decisões compartilhadas do diagnóstico ao nascimento
