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Síndrome HELLP
O diagnóstico se faz no papel do laboratório, e quem lê esse papel primeiro, de madrugada, é o interno.
Ramos JGL, Korkes HA, de Oliveira LG, Sass N, Peraçoli JC, Cavalli RC, et al. Síndrome Hellp – Protocolo 2025. Rede Brasileira de Estudos sobre Hipertensão na Gravidez (RBEHG); 2025. ISBN 978-65-984927-0-0
Korkes HA, Ramos JGL, de Oliveira LG, Sass N, Peraçoli JC, Cavalli RC, et al. Pré-eclâmpsia – Protocolo 2025. Rede Brasileira de Estudos sobre Hipertensão na Gravidez (RBEHG); 2025. ISBN 978-65-984927-1-7
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção Primária à Saúde. Departamento de Ações Programáticas. Manual de gestação de alto risco. Brasília: Ministério da Saúde; 2022. 692 p. ISBN 978-65-5993-312-9
Sass N, Korkes HA, Katz L. Síndrome HELLP. São Paulo: Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo); 2018 (Protocolo Febrasgo-Obstetrícia, nº 9 / Comissão Nacional Especializada em Hipertensão na Gestação)
Katz L, Amorim MMR, Miranda GV, Pinto e Silva JL. Perfil clínico, laboratorial e complicações de pacientes com síndrome HELLP admitidas em uma unidade de terapia intensiva obstétrica. Rev Bras Ginecol Obstet. 2008;30(2):80-6
Carvalho ARMR, Amorim MMR, Katz L, Souza ASR, Santos ARVD, Lima ALMV. Ressonância magnética hepática em puérperas estáveis com síndrome HELLP. Rev Assoc Med Bras. 2008;54(5):436-41
Hospital de Clínicas da Universidade Federal do Triângulo Mineiro, Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares. Protocolo: manejo das síndromes hipertensivas na gestação. PRT.HC-UFTM-UMUL.003, versão 2. Uberaba: HC-UFTM/Ebserh; 2025
Brasil. Ministério da Saúde. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais: Rename 2024. Brasília: Ministério da Saúde; 2024
Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia. Síndrome HELLP. São Paulo: Febrasgo; 2021 (Protocolo Febrasgo-Obstetrícia, nº 74 / Comissão Nacional Especializada em Gestação de Alto Risco)
OMS/FIGO/ICM. Consolidated guidelines for postpartum haemorrhage. 2025.
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Três da manhã, pronto-socorro geral com maternidade no prédio. Gestante de 31 anos, terceira gestação, 33 semanas e 4 dias, chegou há três horas com dor "na boca do estômago" há dois dias e vômitos desde ontem. Recebeu metoclopramida e omeprazol por via intravenosa, refere melhora parcial e a equipe anterior escreveu gastrite na ficha, com alta orientada. Ela nunca foi hipertensa; o cartão traz sete consultas com pressões entre 110 por 70 e 124 por 78 mmHg. Agora: 132 por 84 mmHg, temperatura 36,4 graus, fita reagente de urina sem proteína, batimentos cardiofetais presentes. Ao exame, a dor localiza-se abaixo do rebordo costal direito e ela relata prurido noturno há quatro dias. Qual é a conduta agora?
O paciente que você vai ver
Três e vinte da manhã de uma quinta-feira, pronto-socorro geral de um hospital de cento e vinte leitos numa cidade de setenta mil habitantes. A maternidade fica no segundo andar e tem uma obstetra de sobreaviso, a Dra. Zenaide Portela, que mora a quinze minutos. Você é o interno de plantão do pronto-socorro clínico, e o que chega até você não é uma emergência obstétrica: é um pedido burocrático. A enfermeira aparece na sala com uma prancheta e diz que a paciente do consultório 2 já foi medicada, melhorou, e só falta alguém liberar.
Marinês Duarte tem 31 anos, é auxiliar de cozinha, está na terceira gestação, com 33 semanas e 4 dias. Chegou às 23h50 com dor "na boca do estômago" havia dois dias e vômitos desde ontem. Foi classificada como verde. Recebeu metoclopramida e omeprazol por via intravenosa às 0h40. Na ficha, a hipótese está escrita com todas as letras: gastrite. Abaixo, a conduta: alta com orientação alimentar e retorno se piorar.
Os dados que estão na ficha, todos eles: pressão arterial 138 por 88 mmHg na admissão e 132 por 84 mmHg às duas da manhã. Temperatura 36,4 graus. Frequência cardíaca 96. Fita reagente de urina sem proteína. Ausculta fetal presente, com batimentos em 148 por minuto. Não há exame de sangue pedido, porque não havia motivo aparente para pedir. Ela não é hipertensa, nunca foi, e o cartão de pré-natal traz sete consultas com pressões entre 110 por 70 e 124 por 78 mmHg.
Você vai até o consultório 2 porque o pedido é para assinar a alta e a alta é sua responsabilidade. Marinês está sentada na maca, com a mão espalmada abaixo das costelas do lado direito — não com o dedo, com a mão inteira. Diz que a dor melhorou "um pouquinho" com a medicação e volta em seguida. Diz que vomitou mais duas vezes desde que chegou, e que não vomita comida há um dia, vomita água. Diz, sem que ninguém pergunte, que tem coçado o corpo inteiro há uns quatro dias, principalmente à noite, e que achou que fosse do sabão em pó novo.
Quando você pede para ela deitar e palpa, a dor não está no epigástrio: está três dedos abaixo do rebordo costal direito, e ela para de falar quando você pressiona. O útero está normotônico. Não há sangramento. A esclera, sob a luz fria do consultório, tem um tom que você não conseguiria descrever numa evolução e que também não conseguiria desconsiderar.
Nada nessa cena preenche a definição que o aluno decorou. Não há hipertensão: os dois números estão abaixo de 140 por 90 mmHg. Não há proteinúria: a fita veio limpa. Não há cefaleia, não há escotoma, não há convulsão. Pela régua clássica da pré-eclâmpsia, Marinês não tem nada. E é exatamente por isso que ela está prestes a ir embora às três e vinte da manhã com um diagnóstico de gastrite.
O que este capítulo faz com essa cena é uma coisa só: mostrar que a pergunta certa não é "ela tem pré-eclâmpsia?", e sim "o que o sangue dela diria se alguém pedisse?". A síndrome HELLP é um diagnóstico que mora no papel do laboratório. Não há sinal físico que a feche, não há sintoma que a confirme, e o que a denuncia — dor no andar superior do abdome depois das 20 semanas — é a queixa mais banal do terceiro trimestre. O hemograma com plaquetas, a transaminase e a desidrogenase láctica de Marinês custam menos que a diária do leito que ela vai ocupar de qualquer jeito. A diferença é que, pedidos agora, eles ainda dão tempo.
Quem adoece disso
A síndrome HELLP não é uma doença separada: é o comprometimento hepático e hematológico da pré-eclâmpsia, e aparece em 10% a 20% das gestantes com pré-eclâmpsia com sinais de gravidade ou eclâmpsia, segundo o manual federal — e a mesma faixa de 10% a 20% consta do protocolo da rede brasileira, ali referida ao conjunto das pacientes com pré-eclâmpsia. A amplitude dessa faixa não é imprecisão de medida — é consequência direta de quais critérios laboratoriais o serviço adota, e essa observação vai reaparecer no capítulo inteiro. Trocar a régua muda a incidência sem mudar uma única paciente.
Para dimensionar o que isso significa num plantão brasileiro: numa unidade de terapia intensiva obstétrica do Recife, entre as pacientes internadas por distúrbio hipertensivo, a frequência de síndrome HELLP registrada foi de 46%. Ou seja, num serviço que interna pré-eclâmpsia grave, praticamente uma em cada duas dessas internações vai carregar alguma alteração do eixo hepático e hematológico. Isso não é doença rara que se pensa por último — é o desfecho esperado da doença que já está internada no andar de cima.
A série brasileira que descreve essas pacientes é de 105 puérperas dessa mesma unidade, e vale ler os números como retrato de quem entra pela porta. A idade variou de 14 a 49 anos, com média de 26,7; 53,8% eram primigestas; o diagnóstico foi feito ainda no período pré-parto em 45,2% delas, com idade gestacional média de 32,4 semanas. A prematuridade global foi de 71,9% — porque o tratamento é o parto, e nessa idade gestacional o parto é prematuro por definição. Um quinto das pacientes (19%) chegou já com eclâmpsia.
As complicações dessa mesma série desenham o que a doença cobra: oligúria em cerca de 47%, manifestações hemorrágicas em cerca de 34% — com hematoma de ferida operatória sendo a mais comum delas, em um quarto do total —, necessidade de hemotransfusão em cerca de 33%, insuficiência renal aguda em 20% e edema agudo de pulmão em quase 7%. O tempo médio entre o diagnóstico e a saída da paciente, viva ou morta, foi de 10,3 dias, com variação de um a 33 dias. A letalidade registrada foi de 3,8%. E, na literatura que essa série revisa, a mortalidade materna na síndrome HELLP varia entre 1% e 24%, com quatro em cada cinco óbitos decorrendo de complicações do sistema nervoso central.
O número que muda o comportamento do interno, porém, é outro, e é o motivo de este capítulo existir. O protocolo brasileiro de 2025 registra que hipertensão ou proteinúria estão presentes em aproximadamente 85% das pacientes com síndrome HELLP. Vire a conta: em torno de uma em cada seis não tem nem uma coisa nem outra no momento em que procura atendimento. Na série do Recife, a pressão sistólica na admissão variou de 110 a 260 mmHg — o extremo inferior dessa faixa é uma mulher com síndrome HELLP e pressão de gente saudável. Quem espera a pré-eclâmpsia clássica para pedir o hemograma vai perder essa paciente, e ela é a que menos margem tem para esperar.
Por que acontece o que acontece
Uma frase organiza o capítulo inteiro e evita decorar três listas: a síndrome HELLP é uma microangiopatia trombótica, e as três letras do acrônimo são três consequências do mesmo evento. O endotélio de pequeno calibre é lesado de forma difusa, deposita fibrina, e o sangue passa a circular por uma rede estreitada e áspera. Tudo o que se mede no laboratório sai daí. Quem entende isso não precisa da lista: deduz quais exames pedir e sabe por que eles se alteram em ordens diferentes.
A hemácia é a primeira vítima mecânica. Ao atravessar vasos revestidos por fibrina e segmentarmente contraídos, ela se rompe. A célula fragmentada aparece no esfregaço de sangue periférico com formas que têm nome — esquizócito, o fragmento de contorno anguloso, e equinócito, a hemácia de superfície espiculada. A ruptura despeja para o plasma o conteúdo da hemácia: desidrogenase láctica, uma enzima intracelular abundante que sobe porque escapou de dentro da célula, e hemoglobina livre, que se liga à haptoglobina até esgotá-la. O que sobra de hemoglobina livre é convertido em bilirrubina não conjugada. Essa é a explicação de por que os quatro marcadores de hemólise não têm o mesmo tempo de resposta.
Vale fixar a ordem cronológica, porque ela decide o que pedir na madrugada. A haptoglobina consumida e a desidrogenase láctica elevada se alteram cedo, ainda com a paciente parecendo bem. A queda da hemoglobina abaixo de 8 g/dL e a subida da bilirrubina indireta são tardias e, quando aparecem, sinalizam quadro já muito grave, com risco materno e fetal alto. O protocolo brasileiro de pré-eclâmpsia diz isso com todas as letras — e a consequência prática é dura: hemoglobina normal não afasta hemólise, e o médico que espera a paciente ficar amarela para acreditar em hemólise está esperando a fase em que ela morre.
No fígado, a mesma deposição de fibrina obstrui os sinusoides e o espaço de Disse, o vão entre o endotélio sinusoidal e o hepatócito. O resultado é isquemia e necrose periportal, com focos hemorrágicos que podem confluir. O órgão incha dentro de uma cápsula fibrosa que não estica — a cápsula de Glisson —, e a distensão dessa cápsula é a dor. Aqui está a explicação do sintoma que mais engana: a dor da síndrome HELLP é dor de cápsula, não dor de mucosa. Ela é surda, contínua, localizada no hipocôndrio direito ou no epigástrio, não tem relação com a alimentação e não melhora de verdade com antiácido nem com bloqueador de bomba de prótons. Melhorar "um pouquinho" com analgesia não afasta nada.
A mesma sequência explica a catástrofe rara. Se os focos hemorrágicos crescem sob a cápsula sem rompê-la, forma-se o hematoma subcapsular hepático; se a cápsula cede, o sangramento vai para a cavidade peritoneal. A cadeia é contínua: quanto mais grave a microangiopatia, mais necrose, mais hemorragia, maior o hematoma. Por isso o hematoma hepático não é um acidente à parte, é o extremo do mesmo eixo — e por isso ele se concentra nas pacientes com plaquetopenia profunda.
As plaquetas caem por consumo, não por falência da medula. O endotélio lesado as ativa, elas aderem e agregam, e a vida média plaquetária despenca. Duas consequências práticas saem daí. A primeira: a contagem é um saldo entre consumo e produção, de modo que a curva importa mais que o número — uma queda rápida em paciente que ainda está acima do corte já é a doença em movimento. A segunda: como o mecanismo é periférico e não medular, a medula responde depois do parto, e é por isso que a recuperação se anuncia como inversão de curva, e não como normalização súbita.
O coagulograma engana justamente porque mede outra coisa. Tempo de protrombina, tempo de tromboplastina parcial e fibrinogênio traduzem a via dos fatores plasmáticos, e a rede brasileira registra que eles só se alteram em fase avançada, quando as plaquetas caem além de 30.000/mm³ — ali já se instalou coagulação intravascular disseminada, com sangramento em petéquias, gengivorragia, hematúria e sangramento nos locais de punção. A leitura correta é esta: coagulograma normal não descarta síndrome HELLP; ele apenas informa que a coagulopatia de consumo ainda não se instalou. Quem usa o coagulograma como exame de rastreio vai liberar a paciente errada.
Falta a pergunta que o interno faz e quase ninguém responde: por que o parto cura, e por que a paciente piora logo depois dele. O estímulo que mantém a lesão endotelial é placentário, de modo que retirar a placenta interrompe a produção do agressor — daí não existir tratamento que rivalize com o nascimento. Mas o dano já instalado leva dias para se resolver, e o parto acrescenta consumo agudo de plaquetas e de fatores de coagulação, sobretudo quando houve cesárea. O resultado é uma piora esperada nas primeiras 24 a 72 horas do puerpério, com nadir de plaquetas depois do nascimento. A curva que sobe é a que autoriza relaxar; o parto, sozinho, não autoriza.

Como se apresenta de verdade
O interno precisa suspeitar de HELLP mesmo quando a pressão não parece alarmante. Dor abdominal alta, hemólise, enzimas hepáticas e plaquetas devem ser lidas como um conjunto e como uma curva. Ao final, você deve apresentar a gravidade materna, o que precisa ser estabilizado e por que melhorar um exame isolado não decide sozinho o momento do parto.
Por isso a regra de elegibilidade que os documentos brasileiros escrevem é deliberadamente larga, e vale decorá-la como está: toda gestante com mais de 20 semanas que procura assistência com dor epigástrica ou em hipocôndrio direito, associada ou não a vômitos, é candidata ao diagnóstico de síndrome HELLP e precisa ser investigada, independentemente de estar hipertensa. Não é uma frase de efeito: é o critério que decide se o hemograma será pedido às três da manhã ou às onze da manhã seguinte.
Percurso clínico: Ler a tendência da microangiopatia
Relacione hemólise, enzimas hepáticas e plaquetas aos sintomas e à evolução. Compare pré-eclâmpsia, HELLP e outras microangiopatias, sobretudo se apresentação ou resposta forem atípicas. Avalie função renal, neurologia e coagulação. O parto não encerra a vigilância: a trajetória puerperal pode exigir revisão do diagnóstico.
O que a paciente diz, e por que ninguém escuta
A queixa mais frequente e mais desprezada é a dor no andar superior do abdome — epigástrio, hipocôndrio direito, ou a faixa entre os dois. Ela costuma ser descrita como peso, aperto ou queimação, e a paciente a localiza com a mão espalmada, não com a ponta do dedo, porque é dor visceral de distensão capsular. Não tem relação com a alimentação, não alivia de forma convincente com antiácido, não vem com pirose típica e não respeita jejum. Quando alguém pergunta se melhorou, a resposta honesta quase sempre é "um pouco", e esse "um pouco" já bastou para muita alta indevida.
O segundo sintoma é o vômito, e ele tem uma característica que o distingue da êmese comum da gestação: aparece ou piora no terceiro trimestre. Náusea e vômito que começam depois de 20 semanas, em quem passou bem no primeiro trimestre, não são "enjoo de grávida" — são queixa nova em fase errada, e merecem sangue, não sintomático. O protocolo de 2025 acrescenta um terceiro item que raramente entra no roteiro do plantão: o prurido intenso, difuso, muitas vezes noturno, que a paciente atribui a sabão, roupa ou calor.
Somam-se, com menor frequência, o mal-estar sem forma definida, a cefaleia e as manifestações que já indicam quadro avançado. Icterícia, colúria e sangramento espontâneo existem, mas são raras e se associam a situações extremamente graves — não servem para levantar a suspeita, servem para dizer que já é tarde. É por isso que a lista útil na triagem é curta e banal: dor alta no abdome, vômito no terceiro trimestre, prurido. As três queixas que qualquer serviço trata com sintomático.
A forma que não tem pressão alta nem proteinúria
Este é o parágrafo do capítulo que mais salva vida. É possível uma paciente ter síndrome HELLP com pressão arterial normal, sem proteinúria, ou sem as duas coisas. O protocolo brasileiro de 2025 registra que hipertensão ou proteinúria estão presentes em cerca de 85% dos casos, e o restante — em torno de uma em cada seis — não as tem no momento da avaliação. A literatura que a série brasileira revisa é ainda mais detalhada: cerca de 30% das pacientes apresentam níveis pressóricos que pareceriam apenas uma pré-eclâmpsia sem gravidade, e cerca de 10% podem não estar hipertensas de forma alguma.
Isso não é uma curiosidade estatística; é a razão de a doença ter fama de fulminante. O que é fulminante não é a evolução, é a percepção: a paciente vinha construindo o quadro laboratorialmente havia dias, e a régua que se usou para procurá-la — pressão e fita de urina — não tinha como enxergá-lo. O fenótipo normotenso atrasa o diagnóstico porque o próprio serviço se convence de que não há motivo para pedir exame.
Duas consequências práticas fecham a seção. Primeira: a fita reagente de urina negativa não vale como argumento para nada aqui, e é bom lembrar que ela sequer é bom método para excluir proteinúria. Segunda: quando a suspeita nasce dos sintomas e não do número da pressão, a única coisa que resolve é o sangue. Não existe manobra de exame físico, não existe sinal semiológico e não existe medida de pressão que substitua a contagem de plaquetas.
A forma parcial, que é a mais comum
Chama-se síndrome HELLP parcial, ou incompleta, o quadro em que apenas um ou dois dos três eixos laboratoriais estão alterados. Não é uma categoria acadêmica: na série brasileira de 105 puérperas de terapia intensiva obstétrica, apenas 41,9% preenchiam todos os critérios, e 58,1% preenchiam um ou mais sem completá-los. A maioria das pacientes reais está na forma parcial, e nenhuma delas cabe na definição que o aluno decorou.
O que fazer com esse achado é justamente onde os documentos brasileiros escolhem cautela nos dois sentidos. Por um lado, o quadro parcial é outro subtipo de pré-eclâmpsia e também tem potencial para desfecho adverso; ignorá-lo é perder a janela. Por outro, alguns autores advertem que chamar de síndrome HELLP toda alteração isolada em paciente com pré-eclâmpsia leva a conduta exagerada — antecipação de parto em qualquer idade gestacional e prematuridade iatrogênica. O protocolo de 2018 é direto: não há razão aceitável para antecipar o parto apoiado exclusivamente nesse parâmetro.
A saída que os dois textos dão é a mesma, e ela é temporal em vez de categórica: manter acompanhamento adequado e reavaliar de maneira seriada antes de decidir, desde que as condições clínicas estejam controladas. Ou seja, a forma parcial não obriga a resolver a gestação hoje; obriga a repetir o exame amanhã e a olhar a direção da curva. Traduzindo para o plantão do interno: parcial não é sinônimo de leve, é sinônimo de não terminado.
A forma puerperal, que chega quando a vigilância já baixou
Uma parte relevante dos casos se manifesta depois do parto, principalmente nas primeiras 24 a 48 horas, e a rede brasileira registra isso como advertência explícita. É a apresentação mais perigosa do ponto de vista organizacional: a paciente saiu da sala de parto, o time de obstetrícia considerou o caso resolvido, e a puérpera está numa enfermaria de alojamento conjunto onde ninguém está pedindo exame.
Os sinais que denunciam a forma puerperal são os mesmos, com um agravante: dor em hipocôndrio direito no pós-parto tende a ser atribuída à cicatriz da cesárea, a gases ou à posição de amamentar. Some-se que a piora laboratorial das primeiras 24 a 72 horas é esperada mesmo em quem já tinha o diagnóstico, o que gera dois erros simétricos — atribuir à evolução normal o que é doença nova, e alarmar-se com a queda fisiológica de quem já estava em tratamento. O que separa os dois é a mesma coisa de sempre: a curva, e não o ponto.
Vale dizer também o que não muda: a puérpera com síndrome HELLP continua sob risco de convulsão, e esse risco permanece de pé ao longo de toda a primeira semana depois do parto. O manejo da crise instalada e a aritmética do sulfato de magnésio pertencem ao capítulo de eclâmpsia; o que este capítulo acrescenta é o gatilho de pedir o exame antes de a crise existir.
A mesma doença em corpos e histórias diferentes
Na hipertensa crônica e na pré-eclâmptica já internada. Aqui o diagnóstico não é surpresa, é vigilância: o rastreio da síndrome HELLP faz parte do seguimento de toda pré-eclâmpsia. O sinal de alerta é laboratorial, e a plaquetopenia é a alteração mais precoce. A armadilha específica é a oposta da anterior: como a paciente já tem um diagnóstico grave, uma queda de plaquetas pode ser lida como "mais do mesmo" em vez de mudança de patamar.
Na paciente com lúpus eritematoso sistêmico. A distinção é genuinamente difícil, porque nefrite e hepatite lúpicas produzem proteinúria, plaquetopenia e piora de creatinina. Os documentos brasileiros oferecem duas pistas: na crise lúpica, a queda de complemento e a elevação dos títulos de anticorpos anti-DNA são mais pronunciadas, e a elevação de creatinina costuma ser mais expressiva; já a hipertensão acelerada, de início agudo, é mais provavelmente pré-eclâmpsia com síndrome HELLP do que exacerbação do lúpus.
Na paciente com arbovirose. Este é o diferencial mais brasileiro de todos e o mais fácil de errar em período epidêmico: dengue com sinais de alarme e febre amarela produzem plaquetopenia, elevação de transaminases e dor abdominal em gestante, e os dois protocolos nacionais as listam entre os diferenciais. O que orienta é a febre, o padrão epidemiológico local e a evolução da curva térmica — nada disso está no hemograma.
Na gestante de menos de 20 semanas. Síndrome HELLP não ocorre antes das 20 semanas. Plaquetopenia com hemólise nessa fase empurra o raciocínio para púrpura trombocitopênica trombótica, cujo início tende a ser mais precoce — cerca de 12% no primeiro trimestre e 56% no segundo, contra a síndrome HELLP, que se concentra no terceiro.
Na multípara mais velha. A série brasileira registra que, enquanto a pré-eclâmpsia e a eclâmpsia atingem tipicamente nulíparas jovens, a síndrome HELLP costuma aparecer em multíparas de idade mais avançada e com passado obstétrico ruim. Vale como correção de expectativa: o perfil que a memória do aluno associa à doença hipertensiva não é o perfil desta complicação dela.
E há o que não muda em ninguém: quem já teve síndrome HELLP carrega risco de recorrência de até 20% em gestação subsequente. Esse número não pertence ao plantão, pertence à alta — e está no bloco de conversa, porque é uma informação que a paciente tem direito de levar embora escrita.
Os sinais que anunciam catástrofe
Existe um pequeno grupo de achados que muda o caráter do atendimento de "investigar" para "agora". O primeiro é a mudança de qualidade da dor: dor em hipocôndrio direito que se intensifica, que passa a irradiar para o ombro direito ou para o dorso, ou que vem acompanhada de queda de pressão e taquicardia, levanta hematoma subcapsular hepático com ou sem rotura. É raro e é o que mais mata rápido.
O segundo é o sangramento que aparece sem trauma: petéquias, gengivorragia, hematúria, sangue que continua a escorrer dos locais de punção. Esses achados marcam a fase em que a coagulação de consumo já se instalou, o que a rede brasileira associa a plaquetas abaixo de 30.000/mm³, e frequentemente andam junto com descolamento prematuro de placenta ou insuficiência hepática.
O terceiro é neurológico, e tem peso especial porque a maior parte dos óbitos por síndrome HELLP decorre de complicação do sistema nervoso central. Cefaleia intensa nova, alteração visual persistente, confusão, sonolência ou déficit focal em paciente com esse diagnóstico não são "sintomas de pré-eclâmpsia": são a possibilidade de hemorragia ou edema cerebral. O quarto é respiratório — dispneia, ortopneia, queda de saturação —, correspondendo ao edema pulmonar por lesão do capilar perialveolar. Cada um destes quatro achados, isolado, já justifica chamar a obstetra e reavaliar o plano do parto.
Como fechar o diagnóstico
Este é o bloco que decide o desfecho, porque a síndrome HELLP não se diagnostica olhando para a paciente. O erro do interno não é desconhecer a doença: é pedir o exame errado, ou pedir o certo tarde, ou pedir o certo e não saber contra que régua lê-lo. As seções seguintes respondem, nesta ordem, o que pedir primeiro, o que cada exame responde, contra que corte lê-lo, o que a lâmina mostra, o que fazer quando o laboratório não existe, e o que separa esta doença das que se parecem com ela.
Antes de tudo, a regra de ouro do bloco: nenhum resultado precede a decisão de internar e chamar. Uma gestante de mais de 20 semanas com dor no andar superior do abdome fica no serviço enquanto o sangue roda. Se o hospital não tem laboratório de plantão, ela continua ficando — e a coleta viaja, não a paciente.
O que pedir primeiro, e o que fazer quando o laboratório é lento
O conjunto mínimo tem cinco itens e é o mesmo que os documentos brasileiros pedem na pré-eclâmpsia: hemograma completo com contagem de plaquetas, transaminase oxalacética, desidrogenase láctica, bilirrubinas e creatinina. O manual federal acrescenta, no quadro de conduta da própria síndrome HELLP, a ultrassonografia hepática. E o protocolo de 2025 é explícito: uma vez feito o diagnóstico, solicita-se coagulograma — o que é diferente de pedir coagulograma para fazer o diagnóstico.
A ordem importa quando o laboratório é lento, e a hierarquia é esta. Primeiro o hemograma com plaquetas: é o exame mais rápido, mais barato e mais disponível de todos, e a plaquetopenia é a alteração mais precoce e a principal da síndrome. Segundo a transaminase, porque responde ao eixo hepático e porque a dor abdominal alta já colocou o fígado na mesa. Terceiro a desidrogenase láctica, que fecha o eixo da hemólise e é o marcador que se altera cedo. Bilirrubinas e creatinina completam o quadro, mas raramente mudam a conduta das primeiras horas.
Se o serviço rodar um exame por vez, peça o hemograma e não espere o resto para agir. Uma contagem de plaquetas isolada abaixo de 100.000/mm³ numa gestante com dor em hipocôndrio direito já é motivo suficiente para internar, chamar a obstetra e programar transferência — os outros exames vão dizer quanto, não vão dizer se.
Três exames que costumam entrar por hábito e podem ficar de fora nesta madrugada. A ureia só faz sentido quando já há repercussão renal evidente, ou quando a hipótese em jogo é síndrome hemolítico-urêmica; fora disso, a creatinina resolve. Para o fígado, uma transaminase basta, e pedir o painel hepático inteiro não acrescenta nada à decisão desta noite. E o ácido úrico, embora acompanhe pior prognóstico, não é número que decida sozinho — pedi-lo e depois olhar para ele é o caminho mais rápido de tratar um dado em vez de uma paciente.
Uma nota de logística que muda o resultado: colha antes de infundir volume e antes de qualquer hemocomponente. Diluição e transfusão modificam hematócrito e contagem plaquetária, e a primeira coleta é a única que ainda descreve a paciente e não o tratamento dela.
Os três eixos, e o que cada número responde
Hemólise. Os documentos brasileiros aceitam um ou mais de cinco marcadores: desidrogenase láctica acima de 600 U/L ou acima do dobro do valor de referência do laboratório; haptoglobina abaixo de 25 mg/dL; anemia grave, com hemoglobina igual ou abaixo de 8 g/dL; bilirrubina indireta igual ou acima de 1,2 mg/dL; e presença de esquizócitos ou equinócitos no sangue periférico. É um critério por disjunção: basta um. E há hierarquia temporal dentro dele — haptoglobina e desidrogenase láctica avisam cedo, hemoglobina e bilirrubina avisam tarde.
Comprometimento hepático. Transaminase oxalacética ou pirúvica acima de 70 U/L, ou igual ou acima do dobro do maior valor de referência do laboratório. Este eixo é o que costuma ter a maior amplitude: na série brasileira, a transaminase oxalacética no diagnóstico variou de valores normais até quase 2.000, com média em torno de 190. A dor em hipocôndrio direito acompanha a alteração enzimática, mas não é obrigatória — nem a alteração enzimática é obrigatória para haver dor.
Plaquetopenia. Contagem abaixo de 100.000/mm³ define classicamente o eixo, e é aqui que mora a advertência mais útil do protocolo de 2025: é preciso atentar para quedas rápidas mesmo quando o valor ainda não atingiu o corte, e quedas maiores que 20% devem ser interpretadas com cautela. Traduzindo: 210.000 na terça e 155.000 na quinta é uma paciente que perdeu 26% da contagem e continua "com plaquetas normais" para quem olha só o número de hoje.
A pergunta seguinte é onde o interno mais tropeça, e ela tem resposta objetiva: quantos eixos são necessários? Para o diagnóstico completo, os três. Para agir, um só, desde que a curva e a clínica acompanhem — é a forma parcial da seção anterior, e ela obriga a repetir o exame em horas, não em dias.
Vale ainda entender por que a desidrogenase láctica pesa tanto na régua. Ela é o único parâmetro que aparece nos dois eixos ao mesmo tempo, hemólise e lesão hepatocelular, no critério clássico. Isso a torna o número mais sobrecarregado da tabela inteira e explica por que dois serviços podem discordar sobre a mesma paciente só por dosá-la em métodos diferentes — assunto da seção seguinte.
As réguas brasileiras, e por que a unidade do laboratório muda o diagnóstico
Existem, em circulação simultânea no Brasil, pelo menos quatro versões da mesma régua, e elas não são idênticas. O manual federal reproduz os critérios clássicos atribuídos a Sibai; o protocolo da federação de ginecologia e obstetrícia, na edição aberta de 2018, reproduz os mesmos; a rede brasileira de hipertensão na gravidez, em 2025, amplia a lista de marcadores de hemólise e acrescenta o critério de queda percentual; e o protocolo de serviço universitário de 2025 adota uma combinação das duas. A tabela comparativa está no bloco de fluxos e tabelas; o que importa entender aqui é onde as diferenças mudam decisão.
A primeira diferença é de sinal de comparação, e ela é interna a um único documento. O protocolo de 2025 escreve, no texto corrido, desidrogenase láctica acima de 600, transaminases acima de 70 e plaquetas abaixo de 100.000; no quadro de critérios da mesma seção, escreve maior ou igual a 600, maior ou igual a 70 e menor ou igual a 100.000. Em três parâmetros, o valor exato do corte fecha o critério pelo quadro e não fecha pelo texto. Isso só importa na fronteira — mas a fronteira é onde se decide a paciente que não é óbvia.
A segunda diferença é de definição de bilirrubina. O critério clássico usa bilirrubina total acima de 1,2 mg/dL; o protocolo de 2025 usa bilirrubina indireta igual ou acima de 1,2 mg/dL. Não é a mesma coisa: a total inclui a fração direta, e por isso é sempre igual ou maior que a indireta na mesma amostra. Uma paciente com bilirrubina total de 1,4 e indireta de 0,9 preenche o critério clássico e não preenche o de 2025.
A terceira, e a maior, é a unidade da desidrogenase láctica. Ela é medida como atividade enzimática, e o valor de referência varia muito conforme o método do laboratório — por isso os documentos brasileiros oferecem duas alternativas na mesma frase: acima de 600 U/L, ou acima do dobro do valor de referência. Como as duas alternativas estão unidas por "ou", vale a que disparar primeiro, e o limiar efetivo é o menor dos dois. A conta que resolve isso é de uma linha: o dobro do valor de referência é igual a 600 quando o limite superior do laboratório é 300 U/L. Abaixo desse ponto de cruzamento, a regra do dobro é mais sensível e fecha antes; acima dele, o corte fixo de 600 é o que fecha.
O mesmo raciocínio se aplica à transaminase, com outro número: o dobro do valor de referência é igual a 70 quando o limite superior do laboratório é 35 U/L. Num laboratório cujo limite superior é 31, uma transaminase de 65 já preenche o critério pelo dobro, embora não alcance os 70 do corte fixo. Num laboratório cujo limite superior é 40, uma transaminase de 75 preenche pelo corte fixo, mas não pelo dobro. A lição prática é simples e cabe no bolso: olhe o valor de referência impresso no seu próprio laudo antes de decidir que o exame está normal.
Fecha a seção uma observação que os documentos não fazem e que muda a leitura de tudo: a régua da pré-eclâmpsia e a régua da síndrome HELLP não são a mesma. A rede brasileira chama atenção para isso de forma explícita — o diagnóstico de pré-eclâmpsia é fechado hoje com plaquetas abaixo de 150.000/mm³, enquanto o de síndrome HELLP exige valores abaixo de 100.000/mm³, e a recomendação de manter o corte mais rígido existe para evitar prematuridade iatrogênica. Uma gestante com 130.000 plaquetas tem, portanto, critério de pré-eclâmpsia por comprometimento hematológico e não tem síndrome HELLP. As duas frases são verdadeiras ao mesmo tempo.
A lâmina: o que o esfregaço mostra e como pedir
O esfregaço de sangue periférico é o exame mais barato do capítulo e o mais esquecido. Ele responde uma pergunta que nenhum número responde: as hemácias estão sendo destruídas mecanicamente? A resposta aparece como formas anômalas — esquizócitos, que são fragmentos de contorno anguloso e tamanho reduzido, e equinócitos, hemácias de superfície espiculada regular. O manual federal descreve ainda anisocitose e poiquilocitose no mesmo item.
Como pedir importa, porque a lâmina não sai sozinha do hemograma automatizado em muitos serviços. O pedido precisa dizer, por escrito, que se quer análise morfológica de hemácias em sangue periférico com pesquisa de esquizócitos, e a suspeita clínica precisa estar no pedido. Sem isso, o que volta é a contagem, não a leitura.
Duas advertências de interpretação. A primeira: a ausência de esquizócitos não exclui o diagnóstico, porque hemólise é um dos cinco marcadores possíveis do eixo e porque a sensibilidade da leitura depende de quem está no microscópio. A segunda: a presença de esquizócitos também não é exclusiva da síndrome HELLP — púrpura trombocitopênica trombótica e síndrome hemolítico-urêmica produzem exatamente o mesmo achado, e a distinção entre elas se faz por outros eixos, não pela lâmina.
O valor real do esfregaço, então, não é confirmar: é abrir a porta rápido. Numa paciente com dor abdominal alta e plaquetas caindo, uma lâmina com esquizócitos transforma uma suspeita em conduta enquanto a desidrogenase láctica ainda está na fila do laboratório.
Quando não há coagulograma: o teste de beira de leito e o que ele não responde
Em serviço sem laboratório de plantão, existe uma prova de coagulação que se faz com uma seringa e um tubo, e ela é a mesma que a obstetrícia usa no descolamento prematuro de placenta — o capítulo daquele tema é o dono do procedimento e da fonte que o sustenta. Colhe-se sangue venoso num tubo de ensaio seco, mantido em temperatura ambiente, e observa-se a formação do coágulo; a ausência de coágulo firme dentro do intervalo previsto indica coagulopatia instalada.
O que o teste responde, na síndrome HELLP, é uma pergunta estreita e valiosa: já há consumo de fibrinogênio e de fatores a ponto de o sangue não coagular? Isso corresponde ao estágio avançado que a rede brasileira associa a plaquetas abaixo de 30.000/mm³ e a coagulação intravascular disseminada instalada, e é a informação que decide se a paciente pode ser transportada, se pode receber punção e se o serviço precisa acionar hemoterapia antes de qualquer coisa.
O que ele não responde é ainda mais importante, e este é o ponto que este capítulo acrescenta. O teste do coágulo mede a via dos fatores plasmáticos e do fibrinogênio; ele não conta plaquetas. Uma paciente com 40.000 plaquetas e fibrinogênio preservado forma um coágulo firme no tempo esperado — e continua sendo uma paciente com plaquetopenia grave, com risco hemorrágico cirúrgico, com contraindicação a bloqueio e com necessidade de reserva de hemocomponentes. Coágulo formado não é sinônimo de coagulação normal; é apenas ausência de coagulopatia de consumo.
A regra de uso, portanto, é esta: o teste de beira de leito serve para decidir agora, no lugar onde não há laboratório, se já existe coagulopatia. Ele nunca substitui o hemograma, e um resultado tranquilizador jamais autoriza abandonar a coleta ou adiar a transferência.
Separar dos que se parecem, poupar exame e contar com o que a rede tem
Quatro quadros competem seriamente com a síndrome HELLP, e cada um se separa por um eixo diferente. A esteatose hepática aguda da gravidez é o mais difícil, e o que a denuncia é a glicemia: hipoglicemia importante e frequentemente refratária acompanha esses casos, junto com icterícia e colúria mais comuns do que na síndrome HELLP, evolução rápida para falência hepática e encefalopatia, e alta frequência de óbito fetal. Diante de gestante com dor abdominal alta e transaminases altas, medir glicemia capilar é gesto de dez segundos que muda o diagnóstico.
A púrpura trombocitopênica trombótica se separa pelo tempo e pelo predomínio neurológico. Ela tende a começar mais cedo na gestação — cerca de 12% no primeiro trimestre e 56% no segundo —, enquanto a síndrome HELLP não ocorre antes das 20 semanas e concentra-se no terceiro trimestre. Plaquetas baixas antes de 20 semanas apontam para ela. A atividade de uma enzima que cliva o fator de von Willebrand, quando disponível, sela o diagnóstico: atividade igual ou abaixo de 5% indica púrpura trombocitopênica trombótica.
A síndrome hemolítico-urêmica atípica se separa pelo rim e pelo tempo em relação ao parto: a lesão renal é muito mais proeminente e continua progredindo depois do nascimento, enquanto o fígado costuma ser pouco afetado, com transaminases normais ou levemente elevadas. O protocolo de 2025 registra limiares úteis de um estudo recente: creatinina igual ou acima de 1,9 mg/dL, ou desidrogenase láctica igual ou acima de 1.832 U/L, discriminam bem; a combinação de creatinina igual ou acima de 1,9 mg/dL com desidrogenase láctica igual ou acima de 600 U/L apareceu em 91% dos casos de síndrome hemolítico-urêmica e em nenhum dos de síndrome HELLP.
A trombocitopenia gestacional é o oposto: condição comum, autolimitada, com plaquetas usualmente entre 100.000 e 150.000/mm³, no fim da gestação ou no periparto, exame físico sem alterações e sem outras alterações laboratoriais significativas. É diagnóstico de exclusão, e serve para lembrar que nem toda plaqueta baixa em gestante é catástrofe. Completam a lista hepatites virais agudas, colecistite, pancreatite, lúpus em atividade, choque séptico ou hemorrágico e arboviroses.
O que não pedir, e o custo de pedir. Tomografia ou ressonância de abdome não são exames de rastreio nesta doença: numa série brasileira de 40 puérperas estáveis submetidas a ressonância magnética entre oito e 96 horas do diagnóstico, os achados foram inespecíficos — ascite em 20%, derrame pleural em 17,5%, esteatose em 7,5% — e não houve um único caso de infarto, hematoma parenquimatoso ou subcapsular. Os próprios autores concluem que o exame não se justifica como rotina de seguimento. A imagem hepática tem duas indicações concretas: suspeita clínica de hematoma hepático, e plaquetopenia profunda — num estudo que a mesma série cita, entre 13 pacientes com plaquetas abaixo de 20.000/mm³, dez tinham alteração hepática à imagem. Pedir ressonância na paciente estável custa o transporte de uma paciente grave para fora da unidade, e devolve um laudo que não muda nada.
O que existe na rede pública. O núcleo diagnóstico deste capítulo é integralmente do menor nível de complexidade: hemograma, transaminase, bilirrubinas, creatinina e desidrogenase láctica são exames de rotina, e o esfregaço depende apenas de um pedido escrito e de um microscópio. Haptoglobina é menos disponível e não é indispensável, já que o eixo da hemólise se fecha por qualquer um dos marcadores. Do lado do que falta, dois itens são de logística e não de laboratório: a ultrassonografia hepática que o manual federal inclui no roteiro depende de plantonista de imagem, e a reserva de concentrado de plaquetas depende de banco de sangue — que é justamente o insumo que o serviço pequeno não tem, e a razão de a transferência precisar começar antes de o resultado sair.
Os primeiros sessenta minutos, as réguas lado a lado e os números que decidem a anestesia
Este bloco se consulta com o resultado do hemograma já impresso. A ordem é esta: primeiro a sequência dos sessenta minutos iniciais, do reconhecimento à chamada; as quatro réguas brasileiras de diagnóstico postas lado a lado, porque elas não coincidem e a diferença muda quem recebe o diagnóstico; a classificação por contagem de plaquetas, com o problema aritmético que ela carrega no documento federal; os cortes de plaquetas que governam transfusão e anestesia, que é onde as fontes mais divergem; e a separação dos quadros que se parecem com este. Duas advertências antes de ler. A primeira: nenhuma tabela daqui autoriza esperar resultado para chamar ajuda — a decisão de internar e acionar a obstetra é clínica e vem antes. A segunda: onde duas fontes brasileiras discordam, este bloco mostra as duas e diz o que cada escolha muda, porque o serviço em que o interno vai trabalhar segue uma delas e ele precisa saber qual está seguindo.
- 1Reconheça a candidata: gestante ou puérpera com mais de 20 semanas e dor epigástrica ou em hipocôndrio direito, com ou sem vômitos, esteja ela hipertensa ou não. Prurido intenso e vômito de início no terceiro trimestre entram na mesma porta.
- 2Meça a pressão com técnica adequada e registre, mas não use o resultado para decidir se investiga. Pressão normal não retira a paciente da fila do hemograma; pressão de 160 por 110 ou mais acrescenta uma emergência hipertensiva a tratar em paralelo.
- 3Colha o sangue antes de infundir volume e antes de qualquer hemocomponente: hemograma com plaquetas, transaminase oxalacética, desidrogenase láctica, bilirrubinas e creatinina. Escreva no pedido a suspeita e peça análise morfológica de hemácias com pesquisa de esquizócitos.
- 4Meça a glicemia capilar na mesma punção. É o gesto que separa esteatose hepática aguda da gravidez de síndrome HELLP, e custa dez segundos.
- 5Internar não depende de resultado. A paciente fica no serviço enquanto o exame roda; se o hospital não tem laboratório de plantão, a amostra viaja e a paciente permanece monitorizada.
- 6Acione a obstetra e nomeie a suspeita em voz alta para a equipe. Se o serviço não tem maternidade nem banco de sangue, comece a articular a transferência agora, antes do resultado — o tempo de vaga corre em paralelo ao tempo do laboratório.
- 7Instale dois acessos venosos calibrosos e monitorize diurese. A meta de fluidos é conservadora e tem número: volume suficiente para manter diurese de pelo menos 30 mL/h, para preservar a perfusão renal sem encharcar um pulmão de permeabilidade aumentada.
- 8Se houver crise hipertensiva, trate com hipotensor de ação rápida, com alvo de pressão diastólica abaixo de 100 e sistólica abaixo de 150 mmHg. As doses e a escolha do agente pertencem ao capítulo de pré-eclâmpsia.
- 9Confirmado o diagnóstico, o sulfato de magnésio entra pela indicação de síndrome HELLP, e não pela presença de sintoma neurológico. Esquemas, diluições, vigilância de toxicidade e antídoto estão no capítulo de eclâmpsia — inclusive a ressalva de evitar a via intramuscular quando há plaquetopenia, pelo risco de hematoma.
- 10Peça o coagulograma depois de fechado o diagnóstico, não para fechá-lo. Onde não há laboratório de plantão, o teste de coagulação à beira do leito responde se já existe coagulopatia — e não responde quantas plaquetas há.
- 11Solicite reserva de hemocomponentes de forma antecipada, com a contagem de plaquetas em mãos e o peso da paciente anotado. Reserva pedida depois da indicação cirúrgica costuma chegar depois da incisão.
- 12Registre por escrito o horário de cada coleta, cada resultado e cada dose. A decisão do parto vai ser tomada sobre a curva, e a curva só existe se alguém anotou a hora.
| Parâmetro | Régua clássica — Manual do MS (2022) e Febrasgo nº 9 (2018) | Rede Brasileira de Hipertensão na Gravidez (2025) | Protocolo de serviço universitário (2025) | O que muda na fronteira |
|---|---|---|---|---|
| Hemólise — esfregaço | Esfregaço anormal: esquistocitose, anisocitose, equinocitose, poiquilocitose | Presença de esquizócitos ou equinócitos em sangue periférico | Esfregaço periférico anormal, com esquizócitos e equinócitos | As três aceitam a lâmina como marcador isolado de hemólise; ausência de esquizócitos não exclui |
| Hemólise — desidrogenase láctica | Acima de 600 U/L | Acima de 600 U/L ou acima do dobro do valor de referência (o quadro do mesmo documento escreve igual ou acima de 600) | Igual ou acima do dobro do maior valor de referência, considerando-se usualmente acima de 600 U/L | O limiar efetivo é o menor dos dois. O dobro do valor de referência iguala 600 quando o limite superior do laboratório é 300 U/L |
| Hemólise — bilirrubina | Bilirrubina total acima de 1,2 mg/dL | Bilirrubina indireta igual ou acima de 1,2 mg/dL | Bilirrubina sérica igual ou acima de 1,2 mg/dL | Total inclui a fração direta: total 1,4 com indireta 0,9 preenche a régua clássica e não preenche a de 2025 |
| Hemólise — haptoglobina | Não consta da régua clássica | Abaixo de 25 mg/dL | Abaixo de 25 mg/dL | Marcador precoce; sua ausência da régua clássica é o que mais aumenta a diferença de sensibilidade entre as duas |
| Hemólise — hemoglobina | Não consta da régua clássica | Anemia grave, com hemoglobina igual ou abaixo de 8 g/dL | Não consta | Marcador tardio: quando aparece, o quadro já é muito grave. Hemoglobina normal não afasta hemólise |
| Enzimas hepáticas | Transaminase oxalacética ou pirúvica acima de 70 U/L, ou o dobro do valor normal do método | Oxalacética e/ou pirúvica acima de 70 U/L, ou igual ou acima do dobro do maior valor de referência (o quadro escreve igual ou acima de 70) | Oxalacética e/ou pirúvica acima de 70 U/L | O dobro do valor de referência iguala 70 quando o limite superior do laboratório é 35 U/L |
| Plaquetas | Abaixo de 100.000/mm³ | Abaixo de 100.000/mm³ no texto; menor ou igual a 100.000/mm³ no quadro | Abaixo de 100.000/mm³ | Consenso no valor. No corte exato de 100.000, o quadro de 2025 fecha o critério e o texto do mesmo documento não fecha |
| Velocidade de queda das plaquetas | Não consta | Quedas maiores que 20% na contagem devem ser interpretadas com cautela, mesmo acima de 100.000/mm³ | Não consta | É o único critério dinâmico das quatro réguas, e o único que enxerga a paciente antes de ela cruzar o corte |
| Régua da pré-eclâmpsia, para contraste | Plaquetopenia entre as alterações laboratoriais progressivas que indicam gravidade na pré-eclâmpsia, sem valor numérico fixado no texto do manual | Diagnóstico de pré-eclâmpsia fecha com plaquetas abaixo de 150.000/mm³; síndrome HELLP exige abaixo de 100.000/mm³; e o protocolo de pré-eclâmpsia manda repetir exames em 24 a 48 horas diante de plaquetas abaixo de 100.000/mm³ | Trombocitopenia como sinal de deterioração da pré-eclâmpsia: abaixo de 150.000/mm³ | 130.000 plaquetas é critério de pré-eclâmpsia por comprometimento hematológico e não é síndrome HELLP. As duas frases são verdadeiras juntas |
| Creatinina (gravidade, não diagnóstico) | Acima de 1,1 mg/dL já deve ser interpretada como insuficiência renal grave (Febrasgo, 2018) | Igual ou acima de 1,2 mg/dL, com oligúria, caracteriza insuficiência renal aguda | Acima de 1,2 mg/dL na ausência de nefropatia; injúria renal aguda acima de 2 mg/dL | Nenhum destes valores entra no acrônimo: a creatinina gradua gravidade e pesa na decisão do parto, não fecha o diagnóstico |
Classificação por contagem de plaquetas, como está impressa no manual federal
| Classe | Faixa impressa | O que a faixa efetivamente cobre | O que a classe muda na prática |
|---|---|---|---|
| Classe I | Abaixo de 50.000/mm³ | Qualquer valor menor que 50.000 | É a faixa de maior gravidade; abaixo de 50.000 associa-se a coagulação intravascular disseminada e é forte indicador de complicação hemorrágica |
| Classe II | Acima de 50.000 e abaixo de 100.000/mm³ | Valores entre 50.001 e 99.999 | Faixa em que o diagnóstico está fechado pelo eixo plaquetário e a anestesia já entra em discussão |
| Classe III | Acima de 100.000 e abaixo de 150.000/mm³ | Valores entre 100.001 e 149.999 | Faixa que não preenche o critério de plaquetopenia da tabela diagnóstica do mesmo manual, que exige abaixo de 100.000 |
| Valores exatos de 50.000, 100.000 e 150.000 | Não cobertos por nenhuma das três faixas | Como as três classes usam desigualdades estritas nos dois lados, esses três valores não recebem classe | Na prática, decide-se pela clínica e pela curva; a lacuna é do texto impresso, não da paciente |
Plaquetas, transfusão e anestesia: onde as fontes brasileiras divergem
| Documento (ano) | Bloqueio regional | Transfundir antes de cesárea | Transfundir qualquer que seja a via | Observação do próprio documento |
|---|---|---|---|---|
| Febrasgo nº 9 (2018) | Contraindicado abaixo de 100.000/mm³; nessa circunstância, anestesia geral | Abaixo de 50.000/mm³ | Abaixo de 20.000/mm³, mesmo sem sangramento | Dose de uma unidade para cada 10 kg de peso |
| Manual do MS (2022) | Não fixa valor; indica dexametasona antes da cesárea quando as plaquetas estão abaixo de 50.000, para otimizar o uso de anestesia condutiva | Manter acima de 50.000/mm³ para cesárea e acima de 20.000/mm³ para parto vaginal | Abaixo de 20.000/mm³, mesmo sem sangramento | Cada unidade de concentrado eleva a contagem em cerca de 5.000 a 10.000/mm³ num adulto de 70 kg |
| Rede brasileira, protocolo de síndrome HELLP (2025) | Acima de 80.000/mm³ é considerado bastante seguro; a maioria dos anestesistas concorda em realizar acima de 70.000/mm³ | Abaixo de 70.000/mm³ | Abaixo de 20.000/mm³, mesmo sem sangramento | Dose de uma unidade para cada 10 kg, ou obtenção de níveis em torno de 100.000/mm³; uma aférese corresponde a 6 a 8 unidades |
| Rede brasileira, protocolo de pré-eclâmpsia (2025) | Considerar anestesia geral quando não se conseguir alcançar contagem superior a 70.000/mm³ | Remete ao protocolo específico | Remete ao protocolo específico | Aplica-se à cesárea indicada na vigência de síndrome HELLP |
| Protocolo de serviço universitário (2025) | Peridural ou raquianestesia se plaquetas acima de 70.000/mm³; abaixo disso, anestesia geral com reposição no ato cirúrgico | Faixa de 20.000 a 49.000/mm³ antes da cesárea; o mesmo documento reproduz em outra página a orientação de manter acima de 50.000 | Abaixo de 20.000/mm³ | Corrigir tempos alargados com plasma fresco congelado a 10 mL/kg e fibrinogênio em meta pactuada para o cenário, com alvo ≥200 mg/dL na hemorragia ativa com crioprecipitado Distinguir coagulopatia sem sangramento de hemorragia obstétrica ativa. O alvo >100 mg/dL do protocolo institucional não deve ser usado como meta suficiente para hemorragia ativa; nesse cenário, repor fibrinogênio com alvo ≥200 mg/dL (2 g/L), reavaliando perdas, exames e resposta. Na preparação do parto sem hemorragia ativa, pactuar a meta com obstetrícia, anestesia e hemoterapia segundo procedimento e evolução; não transfundir apenas por um número isolado. Referência: protocolo institucional citado e diretriz consolidada OMS/FIGO/ICM de HPP, 2025. |
Separar o que se parece: um eixo por quadro
| Quadro | O eixo que decide | O achado que aponta para ele | O que resolve |
|---|---|---|---|
| Síndrome HELLP | Fígado e plaquetas, depois de 20 semanas | Dor em hipocôndrio direito com plaquetopenia e transaminase alta, com ou sem hipertensão | Hemograma seriado, transaminase e desidrogenase láctica, lidos como curva |
| Esteatose hepática aguda da gravidez | Metabólico | Hipoglicemia importante e muitas vezes refratária, icterícia e colúria mais marcadas, evolução rápida para encefalopatia, óbito fetal frequente | Glicemia capilar à beira do leito, repetida |
| Púrpura trombocitopênica trombótica | Tempo de início e sistema nervoso | Plaquetopenia grave antes de 20 semanas; febre, púrpura e alterações neurológicas com fígado pouco afetado | Atividade da enzima que cliva o fator de von Willebrand igual ou abaixo de 5%; avaliação da hematologia |
| Síndrome hemolítico-urêmica atípica | Rim, e o que acontece depois do parto | Lesão renal proeminente que progride após o nascimento, com transaminases normais ou pouco elevadas | Creatinina igual ou acima de 1,9 mg/dL somada a desidrogenase láctica igual ou acima de 600 U/L favorece fortemente este quadro |
| Trombocitopenia gestacional | Ausência de todo o resto | Plaquetas usualmente entre 100.000 e 150.000/mm³ no fim da gestação, exame físico normal, sem outra alteração laboratorial | Diagnóstico de exclusão, confirmado pela estabilidade da curva |
| Dengue com sinais de alarme e outras arboviroses | Febre e epidemiologia | Febre, mialgia, exantema e plaquetopenia em período epidêmico, com transaminases elevadas | Curva térmica, sorologia ou antígeno viral conforme o dia de doença, hematócrito seriado |
| Lúpus eritematoso sistêmico em atividade | Imunológico e renal | Queda de complemento e elevação de anticorpos anti-DNA mais pronunciadas; creatinina mais elevada; hipertensão menos abrupta | Complemento, anti-DNA e a velocidade de instalação da hipertensão |
As faixas da classificação por contagem de plaquetas estão transcritas do manual federal exatamente como ele as imprime, com desigualdades estritas nos dois lados. A consequência aritmética é que os valores exatos de 50.000, 100.000 e 150.000/mm³ não pertencem a classe nenhuma, e é por isso que a quarta linha da tabela existe. Na beira do leito isso nunca deve travar a decisão: a classe serve para descrever gravidade, e a conduta se decide pela clínica, pela curva e pelos cortes de transfusão e anestesia.
A mesma classificação estende a Classe III até 150.000/mm³, enquanto a tabela diagnóstica do mesmo manual exige plaquetas abaixo de 100.000/mm³ para caracterizar plaquetopenia. As duas tabelas estão a duas páginas de distância uma da outra. O efeito prático é que uma paciente com 120.000 plaquetas pode ser descrita como Classe III sem preencher o critério diagnóstico do eixo plaquetário. Onde o serviço precisar de um número só, o critério diagnóstico é o que vale.
Trocar a régua muda quem entra na estatística. Na série brasileira de 105 puérperas, a plaquetopenia foi encontrada em 74,2% das pacientes pelo corte abaixo de 100.000/mm³ e em 85,7% pelo corte estendido a 150.000 — uma diferença de 11,5 pontos percentuais, cerca de 12 pacientes da mesma coorte, sem que nenhuma delas tenha mudado de estado clínico. Sempre que duas séries discordarem sobre incidência, a primeira pergunta é qual corte usaram.
A dose de plaquetas mais usada nos documentos brasileiros é de uma unidade de concentrado para cada 10 kg de peso, o que corresponde a sete unidades numa mulher de 70 kg. O manual federal registra que cada unidade eleva a contagem em cerca de 5.000 a 10.000/mm³ nesse adulto — o que produz um incremento previsto de 35.000 a 70.000/mm³ com as sete unidades, compatível com a meta de alcançar cerca de 100.000/mm³ partindo de uma contagem de 30.000 a 60.000. É esse par de números, dose e rendimento por unidade, que se checa antes de pedir o hemocomponente.
O corte de plaquetas para anestesia não é regra decorável, e a tabela mostra por quê: quatro documentos brasileiros em circulação apontam 50.000, 70.000, 80.000 e 100.000/mm³. Nenhum deles é errado, e a rede brasileira registra expressamente que não há consenso mundial. O que o interno faz com isso é uma coisa só: comunicar a contagem e o horário da coleta ao anestesista, dizer se a curva está caindo, e deixar a decisão de técnica com quem vai executá-la.
Nenhuma dose de sulfato de magnésio aparece neste bloco de propósito. A indicação na síndrome HELLP está no bloco de conduta; os esquemas, as diluições, os parâmetros de vigilância, o antídoto e a ressalva sobre a via intramuscular na plaquetopenia pertencem ao capítulo de eclâmpsia, e repeti-los aqui criaria duas versões da mesma aritmética.
O teste de coagulação à beira do leito citado no fluxo é o mesmo procedimento descrito no capítulo de descolamento prematuro de placenta, que é o dono do tema e traz a técnica e a fonte. O que este capítulo acrescenta é o limite dele: coágulo firme formado no tempo esperado afasta coagulopatia de consumo e não diz nada sobre a contagem de plaquetas.
A conduta, hora a hora
Suspeita clínica: colher hemograma e marcadores pertinentes, avaliar órgãos-alvo e condição fetal e chamar a equipe obstétrica. Magnésio, controle pressórico e hemoterapia entram pelas respectivas indicações. O planejamento do parto depende da evolução e não deve aguardar normalização completa de exames. Na coagulação, distinguir limiar laboratorial de meta transfusional e hemorragia ativa de paciente sem sangramento.
Isso muda a natureza do trabalho do interno. Não se trata de tratar a doença e observar a resposta, e sim de estabilizar, encurtar o intervalo e não deixar que ele se estenda por razão administrativa. A conduta expectante abaixo de 34 semanas é excepcional, e o protocolo brasileiro de 2025 fixa um teto para ela: não exceder 48 horas, e apenas com condições maternas e fetais estáveis, para permitir a remoção a centro especializado ou completar a corticoterapia.
As doses abaixo saem por extenso, com a fonte que as sustenta, e uma delas está deliberadamente ausente: o sulfato de magnésio. A indicação está aqui; o esquema, a diluição, a vigilância, o antídoto e a ressalva sobre a via intramuscular na plaquetopenia estão no capítulo de eclâmpsia, e é lá que se confere a aritmética antes de aspirar a ampola.
Minuto 0 — reconhecer, reter e colher
A decisão que muda o desfecho não custa nada e não depende de exame: a paciente não vai embora. Gestante ou puérpera com mais de 20 semanas e dor no andar superior do abdome fica internada enquanto o sangue roda, independentemente da pressão arterial e da fita de urina. Nomeie a suspeita em voz alta para a equipe, porque a frase "pode ser síndrome HELLP" reorganiza a prioridade da coleta e do leito. Acione a obstetra de plantão ou de sobreaviso agora, não depois do resultado, e — se o serviço não tem maternidade nem banco de sangue — comece a articular a transferência em paralelo, porque o tempo de vaga e o tempo do laboratório correm juntos. Colha antes de infundir qualquer coisa: infundir volume e transfundir mudam hematócrito e contagem, e a primeira amostra é a única que ainda descreve a doença em vez do tratamento.
Prescrição- Hemograma completo com contagem de plaquetas, transaminase oxalacética, desidrogenase láctica, bilirrubinas totais e frações, creatinina — conjunto mínimo do Manual de Gestação de Alto Risco (MS, 2022), seção de síndrome HELLP, e do Protocolo Síndrome HELLP (RBEHG, 2025), seção de parâmetros laboratoriais.
- Análise morfológica de hemácias em sangue periférico com pesquisa de esquizócitos e equinócitos, solicitada por escrito com a hipótese no pedido — critério de hemólise em ambos os documentos acima.
- Glicemia capilar na mesma punção, e repetida se houver icterícia ou sonolência — separa esteatose hepática aguda da gravidez, cuja hipoglicemia refratária é o sinal de alerta descrito no Protocolo Síndrome HELLP (RBEHG, 2025), seção de diagnósticos diferenciais.
- Dois acessos venosos periféricos calibrosos e sonda vesical para medida horária de diurese, iniciada sem que a sondagem atrase a coleta ou qualquer droga.
Primeira hora — estabilizar a mãe antes de decidir o parto
Estabilização materna é mandatória mesmo quando a indicação de resolver a gestação já está clara — a rede brasileira faz questão de dizer isso, porque a pressa de operar diante de um resultado ruim é justamente o reflexo que piora o desfecho. São três frentes simultâneas. A primeira é a prevenção da convulsão: confirmado o diagnóstico, o sulfato de magnésio é mandatório, pela própria condição, e não pela presença de sintoma neurológico, porque pelo menos 15% dessas pacientes evoluem com eclâmpsia. A segunda é a pressão, com alvo definido e modesto. A terceira é o volume, e ela é contraintuitiva: a meta não é encher, é garantir perfusão renal sem afogar um pulmão de permeabilidade aumentada.
Prescrição- Sulfato de magnésio, indicação por diagnóstico de síndrome HELLP, independentemente de iminência de eclâmpsia, mantido por cerca de 24 horas após o parto — Protocolo Síndrome HELLP (RBEHG, 2025), seções de aspectos terapêuticos e de recomendações finais; Manual de Gestação de Alto Risco (MS, 2022), quadro de conduta na síndrome HELLP. Esquema, diluição, parâmetros de vigilância e antídoto: capítulo de eclâmpsia.
- Controle pressórico com hipotensor de ação rápida, alvo de pressão diastólica abaixo de 100 mmHg e sistólica abaixo de 150 mmHg — Manual de Gestação de Alto Risco (MS, 2022), quadro de conduta na síndrome HELLP. Escolha do agente, doses, repetição e teto: capítulo de pré-eclâmpsia.
- Soro fisiológico a 0,9% em volume suficiente para manter diurese de pelo menos 30 mL/h, para preservar a perfusão renal diante do risco de insuficiência renal — Manual de Gestação de Alto Risco (MS, 2022), quadro de conduta na síndrome HELLP.
- Sulfato de magnésio adicional para neuroproteção fetal entre 24 e 32 semanas, com a administração otimizada em relação ao parto — Manual de Gestação de Alto Risco (MS, 2022), quadro de conduta na síndrome HELLP, que fixa essa faixa; o Protocolo Síndrome HELLP (RBEHG, 2025) indica a mesma finalidade pelo menos até 32 semanas.
Primeiras duas horas — coagulação, hemocomponentes e a decisão sobre imagem
Com o diagnóstico fechado, três providências se somam e nenhuma delas é reflexa. O coagulograma se pede agora — depois do diagnóstico, não para fazê-lo —, porque ele informa o estágio, e não a existência da doença. A reserva de hemocomponentes se pede antecipadamente, com a contagem de plaquetas e o peso da paciente em mãos, porque reserva solicitada depois da indicação cirúrgica chega depois da incisão; e o serviço precisa saber desde já se tem plaquetas disponíveis, porque a resposta muda o plano inteiro. A imagem hepática tem indicação estreita: dor típica que muda de caráter, suspeita de hematoma, ou plaquetopenia profunda. Fora disso, transportar uma paciente grave para o setor de imagem custa vigilância e devolve um laudo que não muda conduta.
Prescrição- Coagulograma com tempo de protrombina, tempo de tromboplastina parcial ativada e fibrinogênio, solicitado após o diagnóstico — Protocolo Síndrome HELLP (RBEHG, 2025), seção de parâmetros laboratoriais, que registra alteração desses tempos apenas em fase avançada, com plaquetas abaixo de 30.000/mm³.
- Reserva antecipada de concentrado de plaquetas e de concentrado de hemácias, com peso e contagem informados ao serviço de hemoterapia — Manual de Gestação de Alto Risco (MS, 2022) e Protocolo Síndrome HELLP (RBEHG, 2025), seção de conduta obstétrica.
- Transfusão de concentrado de plaquetas em toda paciente com contagem abaixo de 20.000/mm³, mesmo sem sangramento e qualquer que seja a via de parto planejada, na dose de uma unidade para cada 10 kg de peso — Protocolo Síndrome HELLP (RBEHG, 2025), seção de conduta obstétrica; Febrasgo nº 9 (2018), seção de parto, anestesia e planejamento cirúrgico. Numa mulher de 70 kg, sete unidades.
- Ultrassonografia hepática diante de dor típica, suspeita clínica de hematoma ou plaquetopenia profunda — Manual de Gestação de Alto Risco (MS, 2022), quadro de conduta na síndrome HELLP, que inclui a ultrassonografia hepática entre os exames essenciais; ressonância magnética de rotina na paciente estável não se justifica, conforme a série de 40 puérperas publicada na Rev Assoc Med Bras (2008).
Da sexta à vigésima quarta hora — a curva, e não o ponto
A partir daqui a conduta é feita de reavaliações programadas, e o intervalo é a decisão clínica mais importante do dia. A rede brasileira orienta avaliações com frequência individualizada, a cada seis a 24 horas, do ponto de vista clínico e laboratorial materno, revendo a cada passo se ainda há vantagem em esperar pelo feto. O fluxograma do mesmo protocolo é mais específico na paciente estável entre 23 e 34 semanas: repetir os exames em seis horas depois da primeira dose de corticoide e, mantida a estabilidade, repetir no dia seguinte. Qualquer piora clínica ou laboratorial nesse intervalo encerra a espera e indica o parto. O que se acompanha é a direção da curva: plaquetas, transaminase, desidrogenase láctica, creatinina e diurese, sempre com a hora da coleta anotada ao lado do valor.
Prescrição- Reavaliação clínica e laboratorial em intervalos individualizados de 6 a 24 horas conforme a evolução — Protocolo Síndrome HELLP (RBEHG, 2025), seção de aspectos terapêuticos e roteiro assistencial.
- Na paciente estável entre 23 e 34 semanas em corticoterapia: repetir exames em 6 horas e, mantida a estabilidade clínica e laboratorial, repetir no dia seguinte — Protocolo Síndrome HELLP (RBEHG, 2025), fluxograma de conduta.
- Painel de acompanhamento: hemograma com plaquetas, transaminase, desidrogenase láctica, bilirrubinas e creatinina, com registro da hora de cada coleta — Manual de Gestação de Alto Risco (MS, 2022), seção de conduta no pós-parto, que usa os mesmos parâmetros do diagnóstico para acompanhar a remissão.
- Diurese horária mantida acima de 25 mL/h como parâmetro de perfusão renal — Manual de Gestação de Alto Risco (MS, 2022), seção de conduta no pós-parto; Protocolo Síndrome HELLP (RBEHG, 2025), assistência ao puerpério.
A decisão do parto — o único tratamento
A decisão se organiza por idade gestacional, e ela é mais simples do que parece. Acima de 34 semanas não há razão aceitável para postergar: resolve-se a gestação. Abaixo de 34 semanas, a conduta expectante é excepcional, exige estabilidade materna e fetal e não deve exceder 48 horas — o tempo comprado serve para duas coisas concretas, remover a paciente para um centro com terapia intensiva materna e neonatal, e completar a corticoterapia antenatal. Há uma regra que não admite exceção e que a rede brasileira repete em duas seções: o parto nunca será postergado diante de situação materna grave, e a corticoterapia jamais é razão para aguardar. E há o que sobrepõe tudo: síndrome HELLP figura, no manual federal, entre as condições que indicam o término da gravidez independentemente da idade gestacional. Quem decide a via e a hora é o obstetra; o que o interno entrega é a informação com que essa decisão é tomada em minutos, e não em horas.
Prescrição- Acima de 34 semanas: resolução da gestação, sem postergar — Protocolo Síndrome HELLP (RBEHG, 2025), fluxograma de conduta; Febrasgo nº 9 (2018), seção de conduta obstétrica; Manual de Gestação de Alto Risco (MS, 2022), quadro de conduta na síndrome HELLP.
- Abaixo de 34 semanas: conduta expectante apenas em paciente estável, por no máximo 48 horas, com o objetivo de remoção para centro especializado ou de completar a corticoterapia — Protocolo Síndrome HELLP (RBEHG, 2025), seção de aspectos terapêuticos.
- Piora clínica ou laboratorial em qualquer momento da espera: indicar o parto — Protocolo Síndrome HELLP (RBEHG, 2025), fluxograma de conduta.
- O parto deve ocorrer em centro terciário com assistência materna e neonatal, e o tempo de espera pela remoção inter-hospitalar precisa ser o mais curto possível — Protocolo Síndrome HELLP (RBEHG, 2025), seção de aspectos terapêuticos.
Corticoide — o que é para o feto e o que não é para a mãe
Há duas conversas diferentes sobre corticoide neste capítulo, e confundi-las é erro comum. A primeira é maturação pulmonar fetal, e é uma indicação sólida entre 24 e 34 semanas, com esquema idêntico ao de qualquer prematuridade prevista. A segunda é corticoide em dose alta para a mãe, com a finalidade de recuperar a contagem de plaquetas antes da cesárea — e esta é genuinamente incerta. Uma revisão sistemática não encontrou evidência suficiente para recomendá-la de rotina; uma metanálise mais recente encontrou aumento da contagem de plaquetas, melhora das enzimas hepáticas, redução do tempo de internação e da necessidade de transfusão, sem redução de morbidade geral nem de mortalidade materna. E o dado brasileiro é negativo: um ensaio com 105 puérperas, usando 10 mg de dexametasona a cada 12 horas por quatro dias, não encontrou diferença significativa na recuperação da contagem de plaquetas. O manual federal, ainda assim, indica dexametasona antes da cesárea quando as plaquetas estão abaixo de 50.000, para otimizar o uso de anestesia condutiva. As duas posições estão no bloco de divergências, com quem as sustenta.
Prescrição- Betametasona (acetato + fosfato dissódico, 3 mg/mL + 3 mg/mL, componente básico da Rename 2024): 12 mg por via intramuscular a cada 24 horas, duas doses — 2 mL da apresentação por dose, total de 24 mg. Fármaco de escolha para maturação pulmonar fetal — Protocolo Pré-eclâmpsia (RBEHG, 2025), seção de conduta por idade gestacional.
- Dexametasona (4 mg/mL, componente básico da Rename 2024), quando não houver betametasona: 6 mg por via intramuscular a cada 12 horas, quatro doses — 1,5 mL por dose, total de 24 mg, a mesma dose acumulada do esquema anterior — Protocolo Pré-eclâmpsia (RBEHG, 2025), mesma seção.
- Corticoterapia antenatal indicada entre 24 e 34 semanas na síndrome HELLP — Manual de Gestação de Alto Risco (MS, 2022), quadro de conduta; Protocolo Síndrome HELLP (RBEHG, 2025), roteiro assistencial, que fala em considerar corticoide abaixo de 34 semanas.
- Corticoide em dose alta para a mãe, com o objetivo de recuperar plaquetas antes da cesárea: conduta divergente. O manual federal a indica quando as plaquetas estão abaixo de 50.000, e registra que a evidência serve para melhorar as condições anestésicas, mas não altera mortalidade materna nem perinatal. A dose estudada no ensaio brasileiro citado pelo protocolo de 2025 foi de 10 mg de dexametasona a cada 12 horas por quatro dias — 2,5 mL por dose na apresentação de 4 mg/mL — e não melhorou a contagem plaquetária.
O parto — via, anestesia e o que muda dentro da sala
A via preferencial é a vaginal, por apresentar menor risco cirúrgico e menor sangramento; a cesárea é plenamente justificável quando o tempo de preparo do colo comprometeria a segurança materna, quando há indicação obstétrica, ou quando as condições fetais a impõem. Há uma exceção que inverte a preferência: na vigência de hematoma hepático, o parto vaginal apresenta maior risco de rotura, e a cesárea é a indicada. No parto vaginal, evita-se episiotomia pelo risco de hemorragia e hematoma, e o parto instrumental fica restrito. Na cesárea, a plaquetopenia muda a técnica: incisão mediana infraumbilical em lugar de Pfannenstiel reduz descolamento e risco de hematoma de parede, a hemostasia é redobrada, e drenos de aspiração ajudam a monitorar sangramento, retirados em 24 a 72 horas. O manual federal acrescenta uma regra absoluta e fácil de lembrar: em nenhuma hipótese se faz exploração manual do fígado. E a anestesia é conversa, não regra — o interno leva o número, a hora da coleta e a direção da curva ao anestesista, e a técnica é decidida por quem vai executá-la.
Prescrição- Via de parto por indicação obstétrica, com preferência pela vaginal; cesárea quando houver hematoma hepático, indicação obstétrica ou comprometimento fetal — Protocolo Síndrome HELLP (RBEHG, 2025), seção de conduta obstétrica e nota do fluxograma.
- Transfusão de concentrado de plaquetas precedendo a cesárea quando a contagem estiver abaixo de 70.000/mm³, na dose de uma unidade para cada 10 kg de peso — Protocolo Síndrome HELLP (RBEHG, 2025), seção de conduta obstétrica. O manual federal e o protocolo Febrasgo nº 9 (2018) usam o corte de 50.000/mm³ para a mesma indicação: divergência registrada no bloco próprio.
- Ocitocina 10 UI por via intramuscular ou intravenosa imediatamente após a extração fetal, pela tendência à atonia uterina nessas pacientes; persistindo, considerar misoprostol 600 microgramas por via retal e, se necessário, sutura hemostática — Febrasgo nº 9 (2018), seção de parto, anestesia e planejamento cirúrgico. O manejo completo da hemorragia pós-parto tem capítulo próprio.
- Correção de distúrbios de coagulação quando presentes: plasma fresco congelado 10 mL/kg para tempos alargados e crioprecipitado para fibrinogênio em meta pactuada para o cenário, com alvo ≥200 mg/dL na hemorragia ativa — protocolo do serviço universitário (HC-UFTM/Ebserh, 2025), seção de síndrome HELLP. Distinguir coagulopatia sem sangramento de hemorragia obstétrica ativa. O alvo >100 mg/dL do protocolo institucional não deve ser usado como meta suficiente para hemorragia ativa; nesse cenário, repor fibrinogênio com alvo ≥200 mg/dL (2 g/L), reavaliando perdas, exames e resposta. Na preparação do parto sem hemorragia ativa, pactuar a meta com obstetrícia, anestesia e hemoterapia segundo procedimento e evolução; não transfundir apenas por um número isolado. Referência: protocolo institucional citado e diretriz consolidada OMS/FIGO/ICM de HPP, 2025.
- Nenhuma exploração manual do fígado, em nenhuma circunstância — Manual de Gestação de Alto Risco (MS, 2022), quadro de conduta na síndrome HELLP.
Puerpério — as 72 horas em que muitas pioram
O parto encerra a causa e inaugura a fase mais perigosa. As primeiras 72 horas são críticas porque o consumo de plaquetas e de fatores de coagulação continua, e a piora é mais acentuada depois de cesárea; o manual federal descreve piora transitória do quadro clínico já nas primeiras 24 horas e observa que muitas mortes maternas ocorrem justamente nesse período, por complicações hemorrágicas somadas à pouca importância dada aos cuidados nessa fase. Recomenda-se vigilância em unidade de terapia intensiva, com alta apenas diante de melhora evidente. Some-se que a pressão arterial tende a subir a partir do terceiro dia, por redistribuição do volume circulante, e que a crise convulsiva puerperal ainda é possível durante a primeira semana depois do nascimento. Existe um conjunto objetivo de parâmetros de remissão, e ele está no bloco seguinte — a regra é não dar alta pelo tempo decorrido, e sim pela curva que virou.
Prescrição- Vigilância em unidade de terapia intensiva materna nas primeiras 72 horas, com alta da unidade apenas diante de melhora evidente — Protocolo Síndrome HELLP (RBEHG, 2025), assistência ao puerpério; Manual de Gestação de Alto Risco (MS, 2022), seção de conduta no pós-parto.
- Manter sulfato de magnésio por 24 horas após o parto — Protocolo Síndrome HELLP (RBEHG, 2025), aspectos terapêuticos e assistência ao puerpério. Esquema no capítulo de eclâmpsia.
- Controle laboratorial pelos mesmos parâmetros do diagnóstico — plaquetas, desidrogenase láctica, transaminase e bilirrubinas —, diurese mantida acima de 25 mL/h e pressão arterial mantida abaixo de 150 por 100 mmHg — Manual de Gestação de Alto Risco (MS, 2022), seção de conduta no pós-parto.
- Manter anti-hipertensivo se estiver em uso e antecipar a elevação pressórica do terceiro dia; evitar anti-inflamatórios não esteroides para dor — Manual de Gestação de Alto Risco (MS, 2022), seção do puerpério na pré-eclâmpsia grave; Protocolo Síndrome HELLP (RBEHG, 2025), assistência ao puerpério, que sugere pressão diastólica em torno de 85 mmHg e evita inibidores da enzima conversora diante de insuficiência renal aguda.
- Antes da alta: relatório detalhado por escrito, orientação sobre risco de recorrência de até 20% em gestação subsequente, indicação de ácido acetilsalicílico 100 mg ao dia iniciado até 16 semanas e reposição de cálcio de 500 a 1.000 mg ao dia na próxima gestação, com pré-natal em centro de referência, e oferta de contracepção de longa duração — Protocolo Síndrome HELLP (RBEHG, 2025), prevenção e aconselhamento futuro.
Como saber se está funcionando
A pergunta deste bloco é a que o interno mais erra em obstetrícia grave: como sei se está funcionando? Na síndrome HELLP a resposta tem uma peculiaridade que precisa ser dita antes de qualquer parâmetro — depois do parto, piorar por algum tempo é o esperado. O consumo de plaquetas e de fatores continua, e a piora é mais acentuada quando o nascimento foi por cesárea. Portanto, um exame pior nas primeiras 24 horas não significa que a conduta falhou; significa que a curva ainda não virou.
O que define remissão é objetivo e está escrito no manual federal: a paciente volta a urinar sozinha acima de 25 mL/h, a creatinina se normaliza, a desidrogenase láctica cai, e plaquetas e transaminases melhoram. São quatro leituras que precisam se mover juntas e na direção certa. Enquanto isso não acontece, a paciente permanece sob vigilância intensiva, e o protocolo de 2025 é explícito ao condicionar a alta da unidade de terapia intensiva à melhora evidente, não ao número de dias.
Uma advertência sobre a leitura: cada valor precisa da hora ao lado. Sem horário, dois exames viram dois pontos soltos e não uma curva, e é a inclinação da curva que decide antecipar o parto, transfundir ou observar. Esta é uma tarefa que o interno costuma ser o único a fazer bem, porque é ele quem colhe, quem recebe o resultado e quem escreve a evolução.
Esperado: Estabilidade ou elevação. Depois do parto, espera-se um nadir nas primeiras 24 a 72 horas, com inversão da curva em seguida; a normalização completa costuma levar dias.
Se não melhora: Queda continuada é doença em progressão e fecha a janela da anestesia condutiva. Abaixo de 70.000/mm³ antes de cesárea, transfundir segundo o protocolo de 2025; abaixo de 20.000/mm³, transfundir mesmo sem sangramento e qualquer que seja a via. Queda além de 30.000/mm³ coloca coagulação intravascular disseminada na mesa e obriga a rever coagulograma e fibrinogênio. E queda superior a 20% em paciente ainda acima do corte já é motivo para encurtar o intervalo do próximo exame, não para tranquilizar.
Esperado: Estabilização e depois queda progressiva. As anormalidades laboratoriais melhoram, em média, em torno de quatro dias de pós-parto, segundo o protocolo do serviço universitário.
Se não melhora: Elevação continuada, sobretudo somada a dor em hipocôndrio direito que muda de caráter, aponta para lesão hepática em progressão e obriga a considerar hematoma subcapsular — indicação de imagem hepática e de conversa imediata com a obstetra. Elevação acompanhada de icterícia, hipoglicemia e sonolência muda a hipótese para esteatose hepática aguda da gravidez, que tem outra urgência e outro suporte.
Esperado: Queda. É o marcador que o manual federal usa explicitamente como sinal de que a doença entrou em remissão.
Se não melhora: Elevação persistente indica hemólise ativa. Valores muito altos somados a creatinina igual ou acima de 1,9 mg/dL levantam síndrome hemolítico-urêmica atípica, e essa distinção importa porque nela a lesão renal progride depois do parto e o manejo passa pela nefrologia.
Esperado: Acima de 25 mL/h como piso de segurança; a meta de reposição durante a fase aguda é manter pelo menos 30 mL/h para preservar a perfusão renal.
Se não melhora: Oligúria persistente apesar de reposição criteriosa é o achado mais frequente da série brasileira, presente em cerca de metade das pacientes, e antecede a insuficiência renal aguda que ocorreu em um quinto delas. Não corrija com volume indiscriminado: a paciente tem permeabilidade capilar aumentada e o preço do excesso é edema pulmonar. Reavalie função renal, considere o diagnóstico diferencial renal e acione a equipe. Lembre ainda que diurese abaixo de 25 mL/h é também critério de suspensão do sulfato de magnésio, cuja vigilância está no capítulo de eclâmpsia.
Esperado: Diastólica abaixo de 100 e sistólica abaixo de 150 mmHg na fase aguda; no puerpério, meta abaixo de 140 por 90 mmHg, com o protocolo de 2025 sugerindo diastólica em torno de 85 mmHg.
Se não melhora: Hipertensão refratária a três fármacos é, por si, indicação de resolver a gestação no manual federal. No puerpério, espere elevação a partir do terceiro dia por redistribuição de volume — é fenômeno esperado, não recaída, e se maneja ajustando o anti-hipertensivo. Crise hipertensiva acompanhada de cefaleia ou alteração visual em puérpera com este diagnóstico é iminência de eclâmpsia e exige sulfato, não analgésico.
Esperado: Redução progressiva junto com a queda das transaminases.
Se não melhora: Dor que se intensifica, que passa a irradiar para o ombro direito ou para o dorso, ou que vem com queda de pressão, taquicardia e queda de hematócrito, é hematoma subcapsular hepático até prova em contrário — o quadro raro que mata rápido. Indicação de imagem, de reserva de hemocomponentes e de cirurgia com equipe experiente. Não se palpa o fígado com força e não se explora o fígado manualmente na cesárea, em nenhuma hipótese.
Esperado: Ausência de sangramento espontâneo; tempos e fibrinogênio preservados, já que sua alteração só ocorre em fase avançada.
Se não melhora: Petéquias, gengivorragia, hematúria ou sangramento nos locais de punção levantam suspeita de coagulopatia, inclusive coagulação intravascular disseminada, a ser avaliada com o conjunto clínico e laboratorial e mudam o plano: correção com plasma fresco congelado a 10 mL/kg para tempos alargados, crioprecipitado para fibrinogênio em meta pactuada para o cenário, com alvo ≥200 mg/dL na hemorragia ativa, e reavaliação urgente da via e do momento do parto. Na série brasileira, manifestação hemorrágica ocorreu em cerca de um terço das pacientes, e a mais frequente foi hematoma de ferida operatória — o que significa vigiar a incisão e o dreno tanto quanto se vigia o exame. Distinguir coagulopatia sem sangramento de hemorragia obstétrica ativa. O alvo >100 mg/dL do protocolo institucional não deve ser usado como meta suficiente para hemorragia ativa; nesse cenário, repor fibrinogênio com alvo ≥200 mg/dL (2 g/L), reavaliando perdas, exames e resposta. Na preparação do parto sem hemorragia ativa, pactuar a meta com obstetrícia, anestesia e hemoterapia segundo procedimento e evolução; não transfundir apenas por um número isolado. Referência: protocolo institucional citado e diretriz consolidada OMS/FIGO/ICM de HPP, 2025.
Onde o erro machuca
O dano: É o erro que produz a alta indevida, e ele tem uma mecânica reconhecível: a dor é visceral, difusa e melhora um pouco com qualquer analgesia, o que confirma a hipótese errada. A paciente sai com sintomático, volta horas ou dias depois com plaquetas mais baixas, e o intervalo perdido é justamente aquele em que a conduta ainda poderia ser feita com calma, com transferência programada e com corticoide completo. Quando ela retorna, já não há tempo para nenhuma das três coisas.
Como pegar a tempo: Adote a regra larga como está escrita nos documentos brasileiros: gestante com mais de 20 semanas e dor epigástrica ou em hipocôndrio direito, com ou sem vômitos, é candidata ao diagnóstico e precisa ser investigada, independentemente da pressão. Na prática, isso significa que dor abdominal alta em gestante nunca sai do serviço sem um hemograma com plaquetas e uma transaminase. Se a hipótese de gastrite persistir depois disso, ela terá sido testada, e não presumida.
O dano: Cerca de uma em cada seis pacientes não tem hipertensão nem proteinúria no momento da avaliação, e a série brasileira registra pressão sistólica de 110 mmHg na admissão de pacientes com o diagnóstico. Usar a fita de urina ou o esfigmomanômetro como porteiro do hemograma exclui exatamente as pacientes que os documentos nacionais identificam como as que mais perdem oportunidade de diagnóstico precoce. E a fita reagente é, além disso, método ruim para excluir proteinúria: fita negativa não é notícia, é ausência de informação.
Como pegar a tempo: Separe o gatilho da confirmação. O gatilho é sintoma mais idade gestacional; a pressão e a fita entram como dados adicionais, e nenhum deles tem poder de retirar a paciente da fila do exame. Uma frase que funciona na passagem de plantão: nesta doença, a pressão informa a gravidade da pré-eclâmpsia, não a existência da síndrome HELLP.
O dano: Duas versões do mesmo erro. Na primeira, plaquetas de 140.000 tranquilizam quem não viu que há três dias eram 230.000 — uma queda de 39%, muito acima dos 20% que o protocolo de 2025 manda interpretar com cautela. Na segunda, uma queda esperada nas primeiras 24 horas de puerpério é lida como falha de conduta e dispara intervenções desnecessárias. Nos dois casos o dado existia e a interpretação faltou.
Como pegar a tempo: Escreva a hora ao lado de cada valor e monte a série na evolução, não no prontuário eletrônico apenas. Compare sempre com o exame anterior e com o do pré-natal, quando houver. Diante de queda superior a 20%, encurte o intervalo do próximo exame em vez de agendar para o dia seguinte.
O dano: Os tempos de coagulação e o fibrinogênio só se alteram em fase avançada, quando as plaquetas já caíram além de 30.000/mm³. Um coagulograma normal, portanto, é o resultado esperado na maioria das pacientes com síndrome HELLP — e liberar alguém com base nele é liberar quase todo mundo. O mesmo vale para o teste de beira de leito: um coágulo firme formado no tempo esperado afasta coagulopatia de consumo e não conta uma única plaqueta.
Como pegar a tempo: Fixe a ordem: hemograma primeiro, coagulograma depois do diagnóstico. O teste de coagulação à beira do leito responde uma pergunta específica — já há coagulopatia? — em serviço sem laboratório, e serve para decidir transporte, punção e acionamento de hemoterapia. Nunca substitui a contagem e nunca autoriza adiar a transferência.
O dano: É o erro de quem aprendeu bem a indicação de maturação pulmonar e a aplicou fora do contexto. A rede brasileira escreve a regra na forma negativa exatamente porque a tentação é grande: o parto nunca deverá ser postergado diante de situação materna grave, e a corticoterapia jamais será razão para aguardar. A espera abaixo de 34 semanas é excepcional, exige estabilidade e tem teto de 48 horas. Ultrapassá-lo em paciente que piora troca prematuridade evitada por morbidade materna acrescentada — e, com frequência, por nenhuma das duas coisas, porque o feto de uma mãe descompensada também piora.
Como pegar a tempo: Trate o corticoide como algo que se ganha se houver tempo, e não como uma etapa a cumprir. Reavalie de seis em seis horas e defina antecipadamente, com a obstetra, quais achados encerram a espera: queda de plaquetas, elevação de transaminase, piora de creatinina ou de diurese, dor que muda de caráter, sangramento, alteração neurológica, alteração da vitalidade fetal.
O dano: O período pós-parto é descrito no manual federal como extremamente crítico, com muitas mortes maternas ocorrendo justamente aí, por complicações hemorrágicas somadas à pouca importância dada aos cuidados nessa fase. A puérpera some do radar obstétrico no alojamento conjunto, a dor em hipocôndrio direito é atribuída à cesárea, a pressão que sobe no terceiro dia é atribuída à dor, e o hemograma não é repetido porque o bebê já nasceu. Some-se que a possibilidade de convulsão permanece durante toda a primeira semana depois do parto.
Como pegar a tempo: Use os quatro parâmetros de remissão do manual federal como critério explícito de alta da vigilância intensiva: diurese própria acima de 25 mL/h, creatinina de volta ao normal, desidrogenase láctica caindo e melhora simultânea de plaquetas e de transaminases. Mantenha sulfato por 24 horas após o parto e reavalie pressão a cada quatro horas, antecipando a elevação do terceiro dia. E entregue a alta com relatório escrito, sinais de alarme e retorno marcado em dias, não em semanas.
O que dizer ao paciente e à família
Há uma dificuldade específica de comunicação nesta doença, e ela vem da distância entre o que a paciente sente e o que o exame diz. Ela chegou com dor de estômago; vai ouvir que precisa internar, que talvez o bebê nasça hoje, que talvez precise de transfusão. Nada no corpo dela justifica esse salto, e é natural que a primeira reação seja desconfiança ou barganha — "mas eu só tenho azia", "posso voltar amanhã?", "o bebê está bem, o médico ouviu".
Por isso a regra deste bloco não é dar mais informação, é dar a informação na ordem certa: o que está acontecendo, o que vai acontecer agora, e o que ainda não se sabe. Nomear a incerteza reduz a ansiedade em vez de aumentá-la, porque a paciente que não recebe o nome do que é incerto preenche o vazio com a pior hipótese.
Duas coisas que não se prometem, nunca: que o bebê vai ficar bem, e que ela vai poder esperar. A primeira porque não depende de nós; a segunda porque a espera pode terminar em qualquer reavaliação, e a promessa quebrada custa a confiança que sustenta tudo o que vem depois.
Explicar por que a dor de estômago virou internação
“"Dona Marinês, essa dor não é do estômago. Ela vem do fígado — o fígado incha e o envoltório dele estica, e é isso que dói aí embaixo das costelas. Isso acontece numa complicação da gravidez que mexe com o sangue e com o fígado ao mesmo tempo. Ela não dá pressão alta em todo mundo, e por isso a senhora chegou aqui com a pressão normal e ninguém pensou nisso antes. O exame de sangue vai dizer o quanto já mexeu. Enquanto ele não volta, a senhora fica aqui comigo."”
Não diga: Não diga "não é nada de mais, mas vamos investigar". Não use "pré-eclâmpsia" como sinônimo, porque ela vai conferir a própria pressão e concluir que o médico se enganou. E não descreva a doença como rara: rara é a palavra que faz a paciente pedir alta.
Dizer que o parto pode ser hoje, e que é o tratamento
“"Preciso ser direto com a senhora sobre uma coisa. O único tratamento que existe para isso é o bebê nascer. Não é que a gente esteja desistindo da gravidez — é que a doença vem da placenta, e enquanto ela estiver aí dentro, a senhora continua piorando. A obstetra vai decidir com a senhora a hora e o jeito. Pode ser hoje. Se der para esperar um pouco, a gente espera por um motivo específico, que é dar um remédio para o pulmão do bebê amadurecer — e a gente só espera enquanto a senhora estiver bem."”
Não diga: Não diga "vamos ter que tirar o bebê" nem "a gravidez vai ser interrompida": as duas frases soam a decisão tomada contra ela. E não ofereça a espera como se fosse escolha dela quando não é.
Explicar a prematuridade sem prometer o desfecho
“"O bebê vai nascer antes da hora, e isso significa que ele vai precisar de cuidados na unidade neonatal. Quanto tempo ele fica lá depende de quantas semanas ele tiver no nascimento e de como ele responder. O remédio que a senhora vai tomar agora, no músculo, ajuda o pulmão dele a amadurecer mais rápido — é a coisa mais útil que a gente consegue fazer por ele hoje. Eu não tenho como prometer à senhora que vai correr tudo bem. O que eu posso prometer é que a gente vai avisar a senhora de cada passo."”
Não diga: Não estime peso, tempo de internação ou prognóstico neonatal de improviso. Não diga "hoje eles sobrevivem quase todos". E não use a idade gestacional como se fosse garantia.
Pedir consentimento para transfusão de plaquetas
“"As plaquetas são as células que fazem o sangue coagular, e as suas estão baixas. Isso aumenta o risco de sangramento durante o parto e depois dele. A gente reservou plaquetas do banco de sangue para transfundir antes de qualquer procedimento. É uma bolsa pequena, entra na veia, e leva pouco tempo. Como toda transfusão, tem riscos, que são pequenos e conhecidos, e eu explico cada um se a senhora quiser. Se a senhora tiver alguma restrição a receber sangue, é agora que eu preciso saber."”
Não diga: Não peça consentimento com a agulha na mão nem no corredor a caminho do centro cirúrgico. Não trate a recusa como desobediência: pergunte o motivo, registre e chame quem precisa participar dessa conversa.
Explicar por que o tipo de anestesia ainda não está decidido
“"A senhora vai me perguntar se vai dormir ou se vai ficar acordada, e a resposta honesta é que ainda não sei. Isso depende do número de plaquetas na hora, e esse número muda. Se estiver alto o suficiente, dá para fazer a anestesia nas costas e a senhora fica acordada. Se estiver baixo, o risco de sangrar dentro do canal da coluna é grande demais, e aí a anestesia é a que faz dormir. Quem decide isso é o anestesista, com o exame na mão, e eu vou levar o resultado para ele assim que sair."”
Não diga: Não afirme a técnica antes de o anestesista decidir, e não deixe a paciente descobrir a mudança já na sala. Não explique com número solto — o valor sem contexto vira motivo de barganha.
Falar com o acompanhante quando ele diz que a paciente estava bem
“"O senhor tem razão, ela estava andando e conversando, e isso é o mais difícil de entender aqui. Esta doença não aparece no jeito da pessoa; ela aparece no exame de sangue. É por isso que a gente pediu o exame mesmo com ela parecendo bem, e é por isso que a gente não vai mandar ela para casa. O senhor está ajudando ficando aqui e avisando a gente se ela sentir a dor piorar, se ficar sonolenta ou se aparecer sangramento em qualquer lugar."”
Não diga: Não trate a discordância dele como obstáculo. Não repita que "é grave" sem dizer o que ele pode fazer — o acompanhante que recebe uma tarefa concreta deixa de disputar a decisão.
Orientar na alta, sobre a próxima gestação e sobre o resto da vida
“"Duas coisas para a senhora levar por escrito. A primeira: isso pode acontecer de novo numa próxima gravidez, e o risco chega a um em cada cinco. Não quer dizer que vai acontecer, quer dizer que a próxima gestação precisa de pré-natal em serviço de referência, começando cedo, e de um comprimido de aspirina infantil por dia iniciado antes das 16 semanas, mais o cálcio. A segunda: quem teve isso tem mais risco de pressão alta e de problema no rim e no coração ao longo da vida. Então a senhora vai medir a pressão de vez em quando mesmo se estiver se sentindo bem, e vai levar este relatório em toda consulta."”
Não diga: Não entregue essa conversa apenas na voz: o relatório detalhado por escrito é parte da recomendação, e é o que sobrevive ao esquecimento das primeiras semanas com um recém-nascido. E não deixe de oferecer contracepção antes da saída da maternidade.
Onde bons médicos discordam
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.
Posição 1 — sulfato pela condição, em todas
A rede brasileira de hipertensão na gravidez, em 2025, coloca isto entre as recomendações finais do protocolo: administrar sulfato de magnésio a todas as pacientes com síndrome HELLP, independentemente da clínica de iminência de eclâmpsia, mantendo por cerca de 24 horas após o parto. O argumento é de risco de base — a síndrome HELLP é uma forma de pré-eclâmpsia com sinais de gravidade, e pelo menos 15% dessas pacientes evoluem com eclâmpsia. Somam-se dois ganhos: o efeito de neuroproteção fetal entre 24 e 32 semanas, e a simplicidade operacional de uma indicação que não depende de julgamento sintomático em serviço com equipe reduzida. O manual federal segue a mesma linha ao escrever, no quadro de conduta, que se deve sempre utilizar o sulfato quando há diagnóstico de síndrome HELLP.
Protocolo Síndrome HELLP (RBEHG, 2025), aspectos terapêuticos e recomendações finais; Manual de Gestação de Alto Risco (MS, 2022), quadro de conduta na síndrome HELLP.
Posição 2 — sulfato pela clínica, não pelo rótulo
O protocolo da federação de ginecologia e obstetrícia, na edição de 2018, é explícito na direção contrária: nem todas as pacientes com síndrome HELLP se apresentam hipertensas ou com comprometimento cerebral sugestivo de eclâmpsia, e nessas pacientes não há evidências que apoiem o uso rotineiro de hipotensores ou de sulfato de magnésio. Para as que exibem quadro clássico de emergência hipertensiva e sinais cerebrais, o mesmo documento indica formalmente o hipotensor de ação rápida e o sulfato. O argumento é de proporcionalidade da exposição: o sulfato exige vigilância de reflexo, frequência respiratória e diurese, tem antídoto que precisa estar disponível, e a paciente normotensa e assintomática pode não ter o mesmo risco de convulsão da paciente com emergência hipertensiva.
Sass N, Korkes HA, Katz L. Síndrome HELLP. Protocolo Febrasgo-Obstetrícia nº 9 (2018), seção de aspectos terapêuticos.
Repare primeiro no que não está em disputa: ninguém discute o sulfato na paciente com crise hipertensiva, com sintoma neurológico ou com eclâmpsia. A divergência cobre um subgrupo estreito — a paciente com síndrome HELLP normotensa e sem sintoma cerebral. Três coisas decidem para o lado de administrar. A primeira é a assimetria do erro: a consequência de não sulfatar quem convulsionaria é uma crise convulsiva com hipóxia materna e fetal; a de sulfatar quem não convulsionaria é uma infusão vigiada por 24 horas, cujo risco de bloqueio neuromuscular se concentra na manutenção prolongada e na disfunção renal. A segunda é a estrutura do serviço: onde o interno está sozinho, uma indicação por diagnóstico erra menos que uma indicação por julgamento sintomático repetido a cada turno. A terceira é a cronologia das fontes — a posição restritiva é de 2018 e a posição ampla é de 2025, dos mesmos autores e da mesma linhagem de documentos, o que sugere movimento e não empate. Contra isso pesa um único fator concreto: se o serviço não tem gluconato de cálcio conferido e à mão, e não tem quem faça a vigilância horária, a decisão de sulfatar precisa vir acompanhada da decisão de resolver essas duas ausências primeiro — e isso é conversa com a chefia do plantão, não com a paciente.
Posição 1 — a faixa de 70.000 a 80.000/mm³
O protocolo brasileiro de 2025 dedicado à síndrome HELLP registra que não há consenso mundial sobre o valor seguro, e em seguida oferece dois números: contagem acima de 80.000/mm³ é considerada bastante segura para anestesia locorregional, e a maioria dos anestesistas concorda em realizá-la acima de 70.000/mm³. O mesmo grupo, no protocolo de pré-eclâmpsia do mesmo ano, escreve a regra pelo avesso — considerar anestesia geral nos casos em que não se conseguiu alcançar contagem superior a 70.000/mm³. O protocolo de serviço universitário de 2025 adota a mesma linha, liberando bloqueio acima de 70.000/mm³. O argumento é o benefício da técnica regional: evita as dificuldades de intubação e a resposta pressórica à intubação traqueal, reduz a exposição fetal e diminui o risco de tromboembolismo no pós-operatório.
Protocolo Síndrome HELLP (RBEHG, 2025), aspectos anestésicos; Protocolo Pré-eclâmpsia (RBEHG, 2025), conduta obstétrica; protocolo do serviço universitário (HC-UFTM/Ebserh, 2025), seção de síndrome HELLP.
Posição 2 — abaixo de 100.000/mm³ é contraindicação
O protocolo da federação, na edição de 2018, é o mais restritivo dos documentos brasileiros: a raquidiana e a peridural estão contraindicadas nos casos com menos de 100.000 plaquetas por milímetro cúbico, em vista do risco de hemorragia ou hematoma nesses espaços, que podem resultar em problemas neurológicos, e nessas circunstâncias está indicada a anestesia geral. O argumento é a gravidade do dano temido: hematoma peridural em paciente com plaquetopenia de consumo e possibilidade de coagulopatia é evento raro, mas com sequela neurológica potencialmente permanente, e a curva plaquetária da síndrome HELLP está caindo, não estável — o número da coleta pode não ser o número do momento da punção.
Sass N, Korkes HA, Katz L. Síndrome HELLP. Protocolo Febrasgo-Obstetrícia nº 9 (2018), seção de parto, anestesia e planejamento cirúrgico.
Posição 3 — não fixar valor de bloqueio, e sim meta de transfusão
O manual federal não fixa contagem para a técnica anestésica. Em vez disso, define uma meta de hemoterapia — manter plaquetas acima de 50.000/mm³ para cesárea e acima de 20.000/mm³ para parto normal — e acrescenta que se indica dexametasona sempre antes da cesárea quando as plaquetas estão abaixo de 50.000, para otimizar o uso de anestesia condutiva. O argumento é de realidade da rede: em serviço onde nem sempre há plaqueta disponível, um número de corte para a técnica anestésica sem um plano de como alcançá-lo trava a decisão; deslocar o alvo para a hemoterapia mantém a via regional como possibilidade a ser construída, e não como porta fechada por um resultado.
Manual de Gestação de Alto Risco (MS, 2022), quadro de conduta na síndrome HELLP e seção de transfusão de sangue e plaquetas.
Comece por reconhecer que esta decisão não é sua e nunca será: a escolha da técnica anestésica pertence a quem vai executá-la, e nenhum dos três documentos pretende substituir o anestesista. O que muda com o interno é a qualidade da informação que chega até ele, e são quatro dados, não um. O primeiro é a contagem. O segundo é a hora da coleta, porque numa doença de consumo um valor de seis horas atrás pode já não existir. O terceiro é a direção da curva — 90.000 subindo e 90.000 caindo são pacientes diferentes na mesma sala. O quarto é a disponibilidade concreta de concentrado de plaquetas no serviço, porque ela transforma um número inaceitável em número alcançável. Diante da divergência em si, dois critérios ajudam a ler o serviço em que você está. Se o hospital tem hemoterapia ágil e a curva está estável, a faixa de 70.000 a 80.000 é a régua contemporânea e a mais usada. Se a curva cai rápido, se não há plaqueta disponível, ou se a paciente já tem coagulopatia, a posição restritiva de 2018 é a que descreve melhor o risco real, e a anestesia geral deixa de ser a alternativa pior para ser a alternativa segura. Em qualquer cenário, o que não se faz é decidir sozinho pelo número mais favorável e comunicar depois.
Posição 1 — indicar o resgate para viabilizar a anestesia condutiva
O manual federal, no quadro de conduta da síndrome HELLP, escreve que para resgatar plaquetopenia é indicada a dexametasona, e que ela se indica sempre antes da cesárea quando as plaquetas estão abaixo de 50.000, para otimizar o uso de anestesia condutiva. O mesmo documento é honesto sobre o alcance da medida na nota que a acompanha: as evidências para recomendar corticoide para melhorar a contagem plaquetária servem para melhorar as condições anestésicas, mas não alteram mortalidade materna nem perinatal. O argumento, portanto, não é de sobrevida, é de acesso a uma técnica anestésica melhor — e é especialmente relevante onde a disponibilidade de sangue e de plaquetas não é adequada, situação que o protocolo de 2018 nomeia expressamente como aquela em que o uso parece razoável em pacientes graves com contagem inferior a 50.000/mm³.
Manual de Gestação de Alto Risco (MS, 2022), quadro de conduta na síndrome HELLP e nota de rodapé; Protocolo Febrasgo-Obstetrícia nº 9 (2018), aspectos terapêuticos.
Posição 2 — não recomendar de rotina, porque o dado brasileiro é negativo
O protocolo de 2025 dedica um parágrafo a desmontar a expectativa. Registra que uma revisão sistemática não identificou evidências suficientes para recomendação rotineira; que uma metanálise mais recente encontrou aumento da contagem de plaquetas, melhora das enzimas hepáticas, redução do tempo de internação e da necessidade de transfusão, mas sem redução de morbidade geral ou de mortalidade materna; e que esses benefícios não se confirmaram numa pesquisa brasileira com 105 puérperas de gravidade heterogênea, tratadas com 10 mg de dexametasona a cada 12 horas por quatro dias, na qual também não houve diferença significativa na melhora da contagem de plaquetas. Conclui mantendo a pergunta em aberto quanto aos riscos eventuais e aos proveitos que eventualmente possam existir.
Protocolo Síndrome HELLP (RBEHG, 2025), aspectos terapêuticos, com as três referências que ele discute.
Separe as duas perguntas que a palavra corticoide junta. Maturação pulmonar fetal entre 24 e 34 semanas não está em disputa em lugar nenhum: prescreve-se. O que está em disputa é a dose alta materna com finalidade hematológica, e aqui a decisão depende de uma pergunta única e concreta — o que muda no plano desta paciente se as plaquetas subirem? Se o serviço tem concentrado de plaquetas disponível e o parto está indicado para as próximas horas, a transfusão resolve o problema de forma direta e previsível, e o corticoide acrescenta pouco: um ensaio brasileiro não encontrou o efeito, e nenhuma fonte lhe atribui redução de mortalidade. Se o serviço não tem plaquetas, a transferência vai demorar e a alternativa realista é anestesia geral em paciente com via aérea de gestante, então a tentativa de resgate passa a ter um alvo prático, e é exatamente esse o cenário que os dois documentos que a indicam descrevem. O que não se faz, em nenhuma das duas leituras, é usar o corticoide como razão para adiar o parto de uma paciente que está piorando — a regra de não postergar diante de situação materna grave vale contra qualquer medicação, inclusive esta.
O raciocínio, em voz alta
Segunda-feira, 5h10, pronto-socorro de um hospital de médio porte com maternidade no mesmo prédio e banco de sangue que atende sob demanda. Edilene Farias tem 28 anos, segunda gestação, 30 semanas e 5 dias, e chegou de madrugada com dor "embaixo da costela direita" há um dia e meio e dois episódios de vômito. Pressão de 142 por 92 mmHg na admissão, repetida em 15 minutos: 138 por 90. Fita de urina com uma cruz de proteína. Refere que coça o corpo à noite há uns três dias. Você é o interno de plantão e o residente está no centro cirúrgico. O que segue é o raciocínio em voz alta, passo a passo.
O que penso agora
Gestante de 30 semanas com dor em hipocôndrio direito e vômitos. Isso, sozinho, já a torna candidata ao diagnóstico de síndrome HELLP pelos documentos brasileiros, independentemente da pressão. A pressão dela está na faixa limítrofe — a primeira medida cruza o limiar de 140 por 90 e a segunda não —, e a fita traz uma cruz. Nada disso fecha nada, e nada disso me autoriza a mandá-la embora. Minha hipótese principal é comprometimento hepático da doença hipertensiva; a hipótese que não posso esquecer é esteatose hepática aguda da gravidez.
O que peço
Hemograma com plaquetas, transaminase oxalacética, desidrogenase láctica, bilirrubinas totais e frações, creatinina. No mesmo pedido, análise morfológica de hemácias com pesquisa de esquizócitos, com a suspeita escrita. Glicemia capilar na mesma punção — dez segundos que separam as duas hipóteses. Dois acessos venosos. Aviso a obstetra de plantão agora, antes do resultado, e digo o nome da suspeita.
O que volta primeiro
Glicemia capilar 96 mg/dL. Isso não exclui esteatose hepática aguda, mas retira dela o principal argumento a favor, e nesse momento a balança pende para a doença hipertensiva. Anoto o valor e o horário. Aos 40 minutos vem o hemograma: hemoglobina 11,2 g/dL, plaquetas 118.000/mm³.
Como a resposta muda o que penso
118.000 não fecha plaquetopenia pela régua da síndrome HELLP, que exige abaixo de 100.000. Mas fecha o critério de comprometimento hematológico da pré-eclâmpsia, que hoje usa 150.000 — de modo que Edilene tem pré-eclâmpsia por disfunção de órgão-alvo, com hipertensão limítrofe e proteinúria na fita. Duas coisas mudam: ela vai internar de qualquer jeito, e eu preciso do exame do pré-natal para saber de onde essas plaquetas vieram.
O dado que faltava
O cartão de pré-natal traz hemograma de 26 semanas: plaquetas 197.000/mm³. Faço a conta na hora: de 197.000 para 118.000 são 79.000 a menos, uma queda de 40% em pouco mais de quatro semanas. O protocolo de 2025 manda interpretar com cautela quedas maiores que 20%. Isso não é uma paciente com plaquetas normais; é uma paciente com plaquetas em movimento rápido na direção errada.
O resto do laboratório
Uma hora e dez da coleta: transaminase oxalacética 96 U/L, desidrogenase láctica 712 U/L, bilirrubina total 1,1 mg/dL com indireta 0,7 mg/dL, creatinina 0,8 mg/dL. Confiro o valor de referência impresso no laudo: transaminase até 34 U/L, desidrogenase láctica até 480 U/L. Pelo corte fixo, os dois estão alterados; pelo dobro do valor de referência, a transaminase também estaria — 96 é mais que 68 —, e a desidrogenase não, porque o dobro seria 960. Como as regras se unem por "ou", basta uma.
O que isso soma
Eixo hepático alterado, com transaminase acima de 70 e acima do dobro do valor do laboratório. Eixo de hemólise alterado, com desidrogenase láctica acima de 600. Eixo plaquetário ainda acima do corte, mas em queda de 40%. Bilirrubina não ajuda: total de 1,1 não alcança o critério clássico, e indireta de 0,7 não alcança o de 2025. É uma síndrome HELLP parcial, que é a forma mais comum — na série brasileira, 58,1% das pacientes não preenchiam todos os critérios.
O que faço com um quadro parcial
Parcial não é leve; é não terminado. O que os documentos brasileiros orientam aqui é acompanhamento seriado antes de decisão pontual, com condições clínicas controladas — e não antecipar o parto apoiado apenas nesse achado, para não produzir prematuridade iatrogênica numa gestação de 30 semanas. Então: interna em unidade com vigilância, repete o painel em 6 horas, e a obstetra assume a decisão da gestação.
O que ainda peço
Peço o esfregaço, que ainda não voltou, e solicito reserva antecipada de concentrado de plaquetas e de hemácias, informando o peso — 68 quilos — e a contagem. Peço avaliação da vitalidade fetal. Não peço coagulograma agora, porque o diagnóstico não está fechado e ele só se altera em fase avançada; não peço ressonância, porque ela não muda conduta em paciente estável.
Seis horas depois
11h20: plaquetas 84.000/mm³, transaminase 154 U/L, desidrogenase láctica 890 U/L, creatinina 0,9 mg/dL. Diurese acumulada de 42 mL/h. O esfregaço voltou com esquizócitos presentes. Agora os três eixos estão alterados e a curva das seis horas é íngreme: a contagem caiu mais 29% e a transaminase subiu 60%. Deixou de ser parcial e deixou de ser observável.
A decisão que se toma agora
Com 30 semanas e 5 dias, a espera seria excepcional, exigiria estabilidade e teria teto de 48 horas. Edilene não está estável: piorou nos três eixos em seis horas. A regra que se aplica é a que a rede brasileira escreve na forma negativa — o parto não se posterga diante de piora, e a corticoterapia não é razão para aguardar. A obstetra indica a resolução. A primeira dose de betametasona, 12 mg por via intramuscular, equivalente a 2 mL da apresentação de 3 mg/mL mais 3 mg/mL, é aplicada às 11h40, sem que isso adie nada.
Antes da sala
Sulfato de magnésio pela indicação de síndrome HELLP, no esquema do serviço, com os parâmetros de vigilância que estão no capítulo de eclâmpsia. Controle pressórico com alvo de diastólica abaixo de 100 e sistólica abaixo de 150 mmHg. Volume para manter diurese acima de 30 mL/h. E a informação que o anestesista precisa, entregue como três dados e não como um: 84.000 plaquetas, colhidas às 11h20, em queda de 29% em seis horas. Ele decide a técnica; eu levo o número, a hora e a direção.
O que ficou anotado
A evolução que resume o caso não tem nenhuma frase de efeito, tem quatro horários: dor há 36 horas, primeira coleta às 5h35, primeira reavaliação às 11h20, indicação de parto às 11h30. O intervalo entre a chegada e o diagnóstico foi de 25 minutos, e o que o produziu não foi um exame difícil — foi ter pedido hemograma numa gestante com dor abdominal alta e pressão de 138 por 90.
Variação do caso — resposta e reavaliação
Variação do caso de Edilene: na coleta seguinte as plaquetas caem, embora a pressão esteja melhor e a dor tenha diminuído com analgesia. A queda muda a avaliação de risco; não é anulada pela melhora sintomática. Conferir amostra e horários e apresentar a trajetória à obstetrícia e à anestesia.
Variação do caso — quando mudar o plano
Se surgirem dor súbita intensa no hipocôndrio direito, hipotensão ou sinais de sangramento, considerar complicação hepática e hemorragia além de progressão da síndrome. Acionar suporte, hemoterapia e equipe cirúrgica conforme o quadro. A investigação da complicação deve acompanhar a estabilização, sem esperar a próxima coleta de rotina.
Faça você
Sábado, 6h40, alojamento conjunto de uma maternidade de porte médio. Lucineide Barbosa tem 34 anos, terceira gestação, e pariu por cesárea há 31 horas, com 37 semanas, por pré-eclâmpsia com sinais de gravidade. Recebeu sulfato de magnésio no pré-operatório e ficou nele por 24 horas, suspenso ontem às 22h. Está com o bebê no quarto. A técnica de enfermagem te chama porque ela vomitou duas vezes desde as cinco da manhã e reclama de dor "do corte que subiu" — ela aponta acima da incisão, abaixo do rebordo costal direito. Pressão 148 por 96 mmHg. Frequência cardíaca 104. Diurese das últimas 12 horas anotada em 380 mL. O curativo está limpo. O hemograma de ontem, pré-operatório, trazia plaquetas 142.000/mm³ e transaminase oxalacética 48 U/L.
Passo 1
Nomeie o que essa apresentação pode ser e diga por que a fase do puerpério importa. Considere que a rede brasileira registra manifestação puerperal da síndrome HELLP principalmente nas primeiras 24 a 48 horas, e que as primeiras 72 horas são as mais críticas por consumo de plaquetas e de fatores.
Passo 2
Liste o que você pede agora, na ordem, e diga o que cada exame responde. Some o cálculo que os dois hemogramas permitem fazer e diga por que ele muda a leitura mesmo que o número de hoje ainda pareça aceitável.
Passo 3
Diga o que você faz com a diurese de 380 mL em 12 horas e com a pressão de 148 por 96 mmHg — o que cada um desses dois números indica, qual é a meta de cada um, e o que você não deve fazer com volume nesta paciente.
Passo 4 — em branco
O sulfato de magnésio foi suspenso há oito horas. Decida se ele volta, com que justificativa, por quanto tempo, e diga o que você precisa checar antes de reiniciá-lo. Diga também qual achado, se aparecer no exame dela nas próximas horas, muda o caso de vigilância para emergência cirúrgica.
Ver como fecharíamos
Passo 1. Isto é síndrome HELLP de manifestação puerperal até prova em contrário, e a janela de 31 horas é exatamente a que a rede brasileira sinaliza como de maior risco — principalmente as primeiras 24 a 48 horas do pós-parto. O que engana aqui é o contexto: dor acima da incisão em quem operou ontem parece dor cirúrgica, vômito parece efeito residual de anestesia ou de opioide, e a paciente já teve o seu diagnóstico grave resolvido pelo parto. Só que o parto encerra a causa e não encerra a doença: as primeiras 72 horas são as mais críticas, por consumo continuado de plaquetas e de fatores de coagulação, e a piora é mais acentuada depois de cesárea. Some-se que a possibilidade de convulsão permanece durante toda a primeira semana depois do parto. A localização da dor é o dado que decide a suspeita — ela aponta abaixo do rebordo costal direito, não sobre a incisão suprapúbica, e dor de cápsula hepática não se explica por Pfannenstiel. Passo 2. Peça hemograma completo com plaquetas, transaminase oxalacética, desidrogenase láctica, bilirrubinas totais e frações e creatinina — o mesmo painel do diagnóstico, que é também o painel de acompanhamento da remissão no manual federal. Cada um responde uma coisa: plaquetas dizem se há consumo em curso e se a curva virou; transaminase diz se há lesão hepatocelular; desidrogenase láctica diz se há hemólise; bilirrubinas completam o eixo da hemólise, com a ressalva de serem marcadores tardios; creatinina e diurese medem o rim. Peça também esfregaço com pesquisa de esquizócitos, escrevendo a suspeita no pedido, e glicemia capilar. Coagulograma só depois de fechado o diagnóstico, ou de imediato se houver sangramento. O cálculo que os dois hemogramas permitem é o mais importante do caso. Se as plaquetas de hoje voltarem, por exemplo, em 108.000/mm³, a leitura ingênua diz "acima de 100.000, não é síndrome HELLP". A leitura correta compara com as 142.000 de ontem: são 34.000 a menos, uma queda de 24% em pouco mais de um dia, acima dos 20% que o protocolo de 2025 manda interpretar com cautela. O número de hoje não fecha o critério; a curva já está dizendo o que vai acontecer amanhã. É por isso que o valor precisa vir com a hora ao lado, e é por isso que o hemograma do pré-operatório vale ouro nesta manhã. Passo 3. Diurese de 380 mL em 12 horas dá 31,7 mL/h — está acima do piso de 25 mL/h que o manual federal usa como parâmetro de segurança e de remissão, mas abaixo da meta de reposição de 30 mL/h com folga nenhuma, e ela precisa ser recontada de hora em hora a partir de agora, não a cada 12. Oligúria foi a complicação mais frequente da série brasileira, presente em cerca de metade das pacientes, e antecede a insuficiência renal aguda que ocorreu em um quinto delas. O que não fazer é corrigir com volume generoso: a permeabilidade capilar aumentada faz o excesso ir para o interstício e para o pulmão, e edema agudo de pulmão apareceu em quase 7% dessas pacientes. Ofereça soro fisiológico em volume suficiente para sustentar a diurese acima de 30 mL/h e reavalie, em vez de estipular um volume total. A pressão de 148 por 96 mmHg não é crise hipertensiva — não alcança 160 por 110 —, mas está acima da meta puerperal de 140 por 90 mmHg e no dia em que a elevação por redistribuição de volume começa a aparecer. Ajuste ou reintroduza o anti-hipertensivo de manutenção, mantenha aferição a cada quatro horas e evite anti-inflamatórios não esteroides para a dor. Se subir para 160 por 110, o quadro muda de categoria e passa a exigir hipotensor de ação rápida com alvo de sistólica abaixo de 150 e diastólica abaixo de 100 mmHg. Passo 4. O sulfato volta. A indicação não é a pressão de hoje nem a presença de sintoma neurológico: é o diagnóstico. Confirmada a síndrome HELLP puerperal, o protocolo brasileiro de 2025 recomenda sulfato de magnésio a todas as pacientes com a síndrome, independentemente da clínica de iminência de eclâmpsia, e o manual federal escreve o mesmo no quadro de conduta. O período de manutenção é de cerca de 24 horas a partir da reintrodução, reavaliado pelo quadro clínico. O esquema, a diluição e os intervalos estão no capítulo de eclâmpsia — inclusive a orientação de que, após intervalo maior de suspensão, se administre nova dose de ataque antes de retomar a manutenção, e a ressalva de evitar a via intramuscular quando há plaquetopenia, pelo risco de hematoma. Antes de reiniciar, cheque três parâmetros de segurança e a existência de um quarto item. Os três parâmetros: reflexo patelar presente, frequência respiratória adequada e diurese acima de 25 mL/h — e a diurese dela está no limite, o que obriga a recontá-la na hora, não a assumi-la. O quarto item é o gluconato de cálcio a 10% conferido e disponível na unidade, antes de precisar dele. Confira também a creatinina, porque disfunção renal muda a dose e obriga a dosagem sérica de magnésio, conforme o capítulo próprio. O achado que muda o caso de vigilância para emergência cirúrgica é a mudança de caráter da dor: dor em hipocôndrio direito que se intensifica, que passa a irradiar para o ombro direito ou para o dorso, ou que vem acompanhada de queda de pressão, taquicardia progressiva e queda de hematócrito. Isso é hematoma subcapsular hepático, com ou sem rotura, e obriga a imagem hepática urgente, reserva imediata de hemocomponentes e cirurgia com equipe experiente. Vale registrar os dois achados que acompanham essa suspeita e não devem ser desprezados: sangramento espontâneo em mucosas ou sítios de punção, que marca coagulopatia de consumo instalada, e qualquer alteração neurológica nova — porque quatro em cada cinco óbitos por esta síndrome decorrem de complicação do sistema nervoso central.
Dor epigástrica ou em hipocôndrio direito com vômitos no terceiro trimestre exige investigar causas obstétricas e hepáticas potencialmente graves, incluindo HELLP, mesmo sem hipertensão ou proteinúria demonstrada. Manter a paciente sob avaliação, solicitar exames de hemólise, lesão hepática, plaquetas, função renal, coagulação e glicemia e acionar a obstetrícia. Prurido também orienta investigação de colestase, com ácidos biliares e avaliação conforme o contexto. Hipoglicemia, coagulopatia e outros sinais de insuficiência hepática podem sugerir esteatose hepática aguda da gestação. TP e TTPa não dependem de atingir uma contagem plaquetária específica: podem alterar-se por consumo de fatores ou disfunção hepática. Coagulograma normal não exclui HELLP. Imagem pode complementar a investigação de dor biliar ou complicações hepáticas, sem substituir a avaliação clínica e laboratorial.
Teste-se
Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.
Plano de revisão
Em 7 dias
Três coisas para lembrar em uma semana. Primeira: gestante ou puérpera com mais de 20 semanas e dor epigástrica ou em hipocôndrio direito é candidata ao diagnóstico de síndrome HELLP e sai do serviço com hemograma e transaminase, esteja hipertensa ou não — cerca de uma em cada seis não tem hipertensão nem proteinúria. Segunda: os três eixos são hemólise, enzimas hepáticas e plaquetas, e a plaquetopenia é a alteração mais precoce; abaixo de 100.000/mm³ fecha o eixo, e queda maior que 20% já pede reavaliação mais curta mesmo acima do corte. Terceira: o único tratamento é o parto, e acima de 34 semanas não há razão aceitável para postergá-lo. Aplicação comentada: Plaquetas continuam caindo após o nascimento. É suficiente repetir o rótulo de HELLP? Não: reavalie gravidade, tendência, complicações e diferenciais com obstetrícia e especialidades pertinentes.
Em 30 dias
Cinco coisas para lembrar em um mês. Primeira: a forma parcial, com um ou dois eixos alterados, é a mais comum — na série brasileira, 58,1% das pacientes não preenchiam todos os critérios; parcial significa não terminado, e obriga a repetir o exame em horas. Segunda: coagulograma normal não afasta o diagnóstico, porque os tempos só se alteram em fase avançada, com plaquetas abaixo de 30.000/mm³; e coágulo firme no teste de beira de leito não conta plaquetas. Terceira: o corte de plaquetas que libera anestesia regional varia entre documentos brasileiros de 50.000 a 100.000/mm³, de modo que o trabalho do interno é entregar contagem, horário e direção da curva ao anestesista, e não decorar um número. Quarta: abaixo de 34 semanas a espera é excepcional, exige estabilidade e tem teto de 48 horas, e a corticoterapia jamais é razão para adiar o parto de quem está piorando. Quinta: as primeiras 72 horas de puerpério são as mais críticas, com piora esperada da curva; a alta se decide pelo conjunto que indica remissão — diurese própria acima de 25 mL/h, creatinina normalizada, desidrogenase láctica caindo, plaquetas e transaminases melhorando — e nunca pelo número de dias.
Agora atenda
Uma gestante de terceiro trimestre chega de madrugada a um pronto-socorro geral com dor no andar superior do abdome há dois dias e vômitos, já medicada com sintomático por outra equipe, com pressão arterial dentro da faixa normal e fita de urina sem proteína. Conduza o atendimento: faça as perguntas que qualificam a dor e o vômito, decida se ela fica ou vai embora, peça os exames que decidem e na ordem certa, some o gesto de dez segundos que separa a principal hipótese alternativa, interprete o resultado contra a régua correta e contra o exame anterior, defina o que precisa acontecer nas próximas seis horas e explique à paciente e ao acompanhante por que uma dor de estômago virou internação.
