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Eclâmpsia
A convulsão da gestante é a emergência em que se sabe o que fazer antes de saber o diagnóstico — e quase tudo o que decide o desfecho cabe em quinze minutos e duas ampolas.
Korkes HA, Ramos JGL, de Oliveira LG, Sass N, Peraçoli JC, Cavalli RC, Martins-Costa SH, et al. Pré-eclâmpsia — Protocolo 2025. Rede Brasileira de Estudos sobre Hipertensão na Gravidez (RBEHG); 2025. 62 p. ISBN 978-65-984927-1-7
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção Primária à Saúde. Departamento de Ações Programáticas. Manual de gestação de alto risco. Brasília: Ministério da Saúde; 2022. 692 p. ISBN 978-65-5993-312-9
Braga A, Ramos JG, Peraçoli JC, Oliveira LG, Nascimento ML, Martins-Costa SH, et al. Do atendimento pré-hospitalar ao hospitalar: resposta rápida à pré-eclâmpsia e suas complicações – Uma proposta para o Brasil. Femina. 2025;53(8):1004-12
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Protocolos de Intervenção para o SAMU 192 – Serviço de Atendimento Móvel de Urgência: Suporte Avançado de Vida. 2ª ed. Brasília: Ministério da Saúde; 2016. Protocolos AGO11 e AGO12
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação e do Complexo Econômico-Industrial da Saúde. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais: Rename 2024. Brasília: Ministério da Saúde; 2024. 252 p. ISBN 978-65-5993-710-3
Isofarma – Solução de sulfato de magnésio (sulfato de magnésio heptaidratado) 100 mg/mL e 500 mg/mL. Bula profissional de saúde BU020/06. Goiânia: Halex Istar Indústria Farmacêutica S.A.
Sulfato de magnésio (sulfato de magnésio heptaidratado) 100 mg/mL e 500 mg/mL. Bula profissional de saúde. Belo Horizonte: Vasconcelos Indústria Farmacêutica e Comércio Ltda. Registro 1.6400.0006
Gliconato de cálcio 100 mg/mL, solução injetável. Bula profissional de saúde, versão BU_09. Barueri: Fresenius Kabi Brasil Ltda. Registro M.S. 1.0041.0136
Fenitoína sódica 50 mg/mL, solução injetável. Bula profissional de saúde. Belo Horizonte: Hipolabor Farmacêutica Ltda.
NICE. Hypertension in pregnancy: diagnosis and management. NG133. https://www.nice.org.uk/guidance/ng133/chapter/recommendations
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Gestante de 33 semanas, eclâmpsia manifesta há 25 minutos. Recebeu o ataque de sulfato de magnésio, está com pressão de 152 por 98 após hidralazina, ainda sonolenta e desorientada. A cardiotocografia feita durante a crise mostrou desacelerações e o útero estava hipertônico. A obstetra propõe cesariana de emergência agora, com anestesia geral. Qual é a conduta mais adequada?
O paciente que você vai ver
São 2h40 de um sábado no pronto-socorro de um hospital geral de noventa leitos, numa cidade de sessenta mil habitantes. A maternidade fica no segundo andar, tem doze leitos e uma obstetra de plantão — a Dra. Amanda Bezerra —, que entrou em centro cirúrgico à 1h50 para uma cesariana e ainda não saiu. Você é o interno do plantão noturno da clínica. Na sala de emergência há dois leitos, um monitor, oxigênio de rede, um carro de parada e uma técnica de enfermagem, a Rosimeire, que está no serviço há onze anos.
Um carro prata para na rampa sem desligar o motor. Um homem desce gritando por ajuda e abre a porta de trás. Dentro do carro, deitada no banco com a cabeça no colo de uma senhora, há uma mulher jovem, visivelmente grávida, com o corpo enrijecido, os braços flexionados contra o tórax e a mandíbula travada. Ela treme em abalos rítmicos que sacodem o banco inteiro. Tem saliva espumosa no canto da boca e a roupa da senhora está molhada de urina.
O homem é o Reginaldo, cunhado dela. A senhora é a Zilda, mãe. A mulher se chama Nayara Pontes, tem 26 anos, está grávida de 31 semanas e 4 dias, é o segundo filho, e até quinze minutos atrás estava acordada em casa reclamando de dor de cabeça. Zilda repete três vezes a mesma frase enquanto vocês tiram a filha do carro: "ela estava bem, ela estava conversando comigo".
Nayara convulsiona há mais ou menos três minutos, contando desde a hora que a mãe diz que ela começou. Você não tem o cartão de pré-natal, não tem uma pressão anterior, não sabe se ela fez pré-natal, não tem laboratório disponível a esta hora e não tem obstetra livre. E você tem, agora, duas decisões inteiras nas mãos: o que fazer nos próximos três minutos, e qual droga aspirar.
Repare no que o parágrafo acima não tem. Não tem diagnóstico. Não tem exame. Não tem pressão medida — porque não se mede pressão em quem está convulsionando. E, ainda assim, a conduta já está inteiramente definida, e ela é a mesma que seria se você soubesse tudo. É esta a característica que faz da eclâmpsia uma emergência diferente das outras deste livro: a partir de 20 semanas de gestação, convulsão é eclâmpsia até prova em contrário, e essa prova se procura com a droga já correndo, não antes dela.
O que a cena tem de traiçoeiro é outra coisa. Tem duas drogas na parede da sala de emergência que qualquer plantonista alcança sem pensar diante de alguém convulsionando: o diazepam e a fenitoína. Nenhuma das duas é a resposta aqui, e a razão não é preferência de escola — é que a droga certa previne a próxima crise e as duas erradas não, e uma delas ainda derruba a consciência de quem você precisa avaliando. Tem, na caixa da emergência hipertensiva, duas ampolas de vidro do mesmo tamanho com rótulos parecidos e cinco vezes de diferença de conteúdo. E tem, no relógio, um cronômetro que começou a contar no carro e que ninguém anotou.
Há uma armadilha final, e ela é a que mais mata: o impulso de levar Nayara direto para o centro cirúrgico. Ela está grávida, ela convulsionou, o bebê está sofrendo — parece óbvio que a solução é tirar o bebê agora. É exatamente o que os documentos brasileiros mandam não fazer, e o capítulo vai explicar por quê com o mecanismo na mão. A eclâmpsia indica interromper a gestação; ela não indica interromper a gestação neste minuto.
O que vem a seguir é a ordem dos primeiros gestos, a aritmética completa do sulfato de magnésio nas concentrações que existem na farmácia brasileira, a vigilância da intoxicação como rotina de enfermaria, o antídoto e onde ele fica, a diferença entre parar a convulsão e baixar a pressão, o momento do parto, o que fazer quando ela convulsiona de novo apesar do sulfato — e a conversa com Zilda no corredor e com Nayara quando ela acordar sem lembrar de nada.
Quem adoece disso
A razão de mortalidade materna brasileira oscila em torno de 50 óbitos por 100 mil nascidos vivos — o país reduziu esse número pela metade nas últimas décadas e ainda assim está longe da meta de 70 por 100 mil que as Nações Unidas fixaram como piso global para 2030, meta que o Brasil já ultrapassaria se conseguisse manter a queda. Distúrbios hipertensivos, hemorragia, infecção, complicações do parto e abortamento inseguro respondem por cerca de 75% das mortes maternas no mundo, e no Brasil o primeiro item dessa lista é o que mais mata. A eclâmpsia é a ponta clínica desse primeiro item: é o evento no qual a doença hipertensiva deixa de ser um número numa ficha e vira uma mulher no chão.
A frequência mundial da eclâmpsia é medida entre 0,1% e 2,7% das gestações, com as taxas mais altas onde o desenvolvimento socioeconômico é menor. A amplitude dessa faixa — vinte e sete vezes entre o piso e o teto — não é imprecisão de método: é a própria mensagem. Eclâmpsia é uma doença cuja incidência depende menos da biologia e mais de quem chega a tempo a um serviço que tenha sulfato de magnésio na prateleira. Em todo o mundo, de 10% a 15% das mortes maternas por causa obstétrica direta se associam à pré-eclâmpsia e à eclâmpsia, e 99% dessas mortes acontecem em países de renda baixa e média.
Traduza isso para o plantão. Num pronto-socorro geral de cidade média, uma gestante convulsionando é evento raro — talvez um ou dois por ano, talvez nenhum em três anos de internato. Essa raridade é a razão pela qual o capítulo existe em vez de ser um parágrafo: o que se faz poucas vezes não se aprende repetindo, aprende-se estudando antes. E é a razão pela qual o erro dominante nesse cenário não é o erro de quem não sabe medicina; é o erro de quem, diante de uma convulsão, alcança a droga que a mão alcança em qualquer outra convulsão.
O segundo número que organiza a conduta é sobre o tempo. O modelo clássico usado pelo Ministério da Saúde para analisar morte materna evitável separa três demoras: a demora da mulher e da família em buscar atendimento, a demora em chegar a um serviço capaz de cuidar, e a demora dos profissionais em prestar o cuidado adequado no serviço de referência. As duas primeiras estão quase sempre fora do alcance do interno. A terceira é a única cronometrada dentro do prédio, e é a única que ele controla inteira — e, na eclâmpsia, ela se mede em minutos entre a chegada e a primeira grama de sulfato, não em horas.
Vale saber onde a eclâmpsia se localiza no espectro da doença hipertensiva, porque isso muda a expectativa de quem espera o aviso. A maioria das crises ocorre antes do parto, mas uma parcela relevante é puerperal, e no puerpério o risco se concentra na primeira semana. A eclâmpsia complica de 6% a 50% das pacientes com síndrome HELLP — a amplitude é grande porque depende de quando a série foi montada e de quem já vinha sulfatado. E a doença hipertensiva é, num estudo multicêntrico em vinte maternidades brasileiras, a principal causa de prematuridade terapêutica, sobretudo nas idades gestacionais mais precoces: quando o bebê de Nayara nascer antes da hora, não será um acaso, será o tratamento.
Por fim, o número que fecha o argumento deste capítulo. Convulsão não controlada, perda de consciência por doze horas ou mais, acidente vascular cerebral e a própria eclâmpsia constam, na lista brasileira de condições potencialmente ameaçadoras à vida, como marcadores de morbidade materna grave — o degrau que antecede o near miss e a morte. Nenhum deles exige tecnologia para ser prevenido. O que os previne é uma ampola de 10 mL cujo lugar na relação nacional de medicamentos essenciais é o componente básico — o mesmo elenco de uma unidade de atenção primária, e não o de um hospital de referência.
Por que acontece o que acontece
A convulsão da eclâmpsia não nasce de um foco epiléptico. Nasce de uma falha mecânica da circulação cerebral, e entender isso resolve praticamente todas as decisões do capítulo. O cérebro mantém fluxo constante numa faixa larga de pressão arterial por autorregulação: quando a pressão sobe, as arteríolas se contraem e protegem o leito capilar. Essa faixa tem um teto. Ultrapassado o teto, a arteríola se rende, dilata à força, e a pressão sistêmica passa a chegar inteira ao capilar. O capilar extravasa. O líquido vai para o interstício e produz edema vasogênico, com predomínio posterior — parieto-occipital —, que é a região com menos inervação simpática e, por isso, menos capaz de resistir. Cérebro encharcado sob pressão descarrega. Essa descarga é a crise.
Duas consequências saem daí antes de qualquer droga. A primeira: a doença não é do neurônio, é do vaso, e por isso o quadro é reversível se o vaso for aliviado a tempo — o mesmo edema que produz a convulsão produz a cegueira cortical transitória, e as duas costumam voltar ao normal. A segunda: o teto da autorregulação não é um número fixo. Uma gestante jovem, previamente normotensa, tem o teto baixo, porque nunca precisou remodelar seus vasos para pressões altas. É por isso que a eclâmpsia acontece com números que pareceriam modestos numa hipertensa crônica de sessenta anos, e é por isso que insistir em esperar 160 por 110 para levar o quadro a sério é uma leitura errada da fisiologia.
A crise costuma ser tônico-clônica generalizada e autolimitada: dura de um a poucos minutos e para sozinha. Isso é uma armadilha. A convulsão parar não significa que o cérebro parou de extravasar — significa apenas que a descarga se esgotou. O substrato continua lá, com a mesma pressão, o mesmo endotélio doente e o mesmo edema, e é por isso que a segunda crise vem. Tratar eclâmpsia é impedir a segunda convulsão, não interromper a primeira, que quase sempre já terminou quando a paciente chega. Toda a farmacologia deste capítulo se organiza em torno dessa frase.
O sulfato de magnésio funciona porque age no vaso, não no neurônio. Ele produz vasodilatação cerebral, reduz a pressão intracerebral e mantém o fluxo — em linguagem direta, desfaz o barotrauma da microcirculação e alivia a encefalopatia hipertensiva. A isso se somam efeitos de membrana: o magnésio bloqueia a transmissão neuromuscular e reduz a quantidade de acetilcolina liberada na placa motora, o que eleva o limiar da descarga. A comprovação clínica é antiga e sólida: o Collaborative Eclampsia Trial, de 1995, mostrou redução de mortalidade materna na eclâmpsia, e o Magpie Trial, de 2002, mostrou que o magnésio corta pela metade o risco de convulsão na pré-eclâmpsia. Revisões sistemáticas concluem que ele é mais seguro e mais eficaz do que fenitoína, diazepam e o antigo cocktail lítico para prevenir recorrência — de baixo custo, de administração simples e sem sedar a paciente.
É essa última propriedade que explica por que o benzodiazepínico é a escolha errada, e o argumento é mais forte do que "o sulfato é melhor". O diazepam suprime a descarga por depressão difusa do sistema nervoso central, sem tocar no vaso que a produziu: apaga o sintoma e deixa a causa. E, ao apagar o sintoma, apaga também o instrumento de monitorização — porque o parâmetro que diz se essa mulher está piorando é o nível de consciência dela. Uma paciente sonolenta por benzodiazepínico e uma paciente sonolenta por edema cerebral progressivo têm exatamente a mesma aparência, e a segunda precisa de tomografia. Somando: a droga não previne a próxima crise, aumenta o risco de depressão respiratória em quem já pode estar em apneia pós-ictal, e cega a equipe. Por isso o passo a passo nacional do atendimento pré-hospitalar traz a instrução em letras próprias — não usar diazepam.
A toxicidade do magnésio vem do mesmo mecanismo que produz o efeito. O bloqueio da transmissão neuromuscular é bom no cérebro e ruim no diafragma: em concentração alta, o mesmo magnésio que eleva o limiar da descarga paralisa a musculatura respiratória. A escala é conhecida e ordenada. A faixa terapêutica do íon vai de 4 a 7 mEq/L, o que corresponde a 4,8 a 8,4 mg/dL. O reflexo patelar se abole entre 8 e 10 mEq/L. O risco de parada respiratória começa a partir de 12 mEq/L. Essa ordem é o que dá tempo de agir: o reflexo some antes de a respiração falhar, e o único jeito de perder esse aviso é não procurá-lo.
Falta o fato que autoriza tratar sem laboratório, e ele é o mais importante do capítulo do ponto de vista prático. O bloqueio só aparece quando o magnésio se acumula, e acumular é coisa da fase de manutenção. O magnésio é excretado exclusivamente pelo rim, em razão proporcional à concentração plasmática e à filtração glomerular; uma dose única, corretamente administrada, é depurada antes de atingir níveis de bloqueio. Daí saem três consequências encadeadas: a primeira dose não fica mais perigosa porque a creatinina está alta, ela pode ser aplicada onde não existe laboratório, e a correção que a disfunção renal exige recai sobre as doses seguintes. Quem entende isso deixa de negociar com a primeira dose.
Duas últimas peças que mudam a beira do leito. Durante a crise, mãe e feto entram em acidose junto: a musculatura em contração tônica consome oxigênio, a ventilação para por alguns segundos, e o útero costuma ficar hipertônico, o que reduz o fluxo no espaço interviloso justamente quando o sangue materno está mais pobre. A cardiotocografia feita nesse momento é assustadora e enganosa — a recuperação fetal intraútero, com a mãe oxigenada, deitada de lado e sulfatada, é mais eficaz do que arrancar o feto de dentro de uma acidose para outra. E, do lado obstétrico, o magnésio relaxa a musculatura lisa em toda parte, inclusive no miométrio: a mesma droga que protege o cérebro dessa mulher aumenta o risco de atonia uterina depois que o bebê sair. Isso não é motivo para não usá-la; é motivo para prever o sangramento.

Como se apresenta de verdade
Neste capítulo, a competência principal é agir durante e depois da convulsão. Você deve proteger a paciente, reconhecer provável eclâmpsia, preparar magnésio com conferência de concentração e tratar pressão grave quando presente. A decisão obstétrica vem com a estabilização e a avaliação da equipe; persistência de alteração neurológica exige ampliar o diagnóstico diferencial.
O diagnóstico é clínico na maioria das vezes, e a régua operacional é curta o bastante para caber numa frase que o interno diz em voz alta na sala: gestante ou puérpera, mais de 20 semanas, convulsionou — é eclâmpsia até prova em contrário. Repare que a régua não pede pressão medida, não pede proteinúria, não pede laboratório e não pede história de pré-natal. Nayara, no carro, já preenchia todos os critérios que importavam.
Percurso clínico: Tratar a crise e impedir a próxima
Proteja a paciente, avalie ABC, chame ajuda e inicie magnésio conforme esquema seguro. Trate hipertensão grave concomitantemente. Reavalie consciência, ventilação, diurese e reflexos; crise persistente exige suporte avançado e diagnóstico diferencial. Depois da estabilização, a equipe define resolução e seguimento puerperal.
A crise vista de fora, e o que dela se anota
A crise clássica é tônico-clônica generalizada. Há uma fase tônica curta, com o corpo enrijecido, os membros em extensão ou flexão fixa, a mandíbula travada e a respiração interrompida — é a fase em que a paciente fica cianótica e em que a família acha que ela está morrendo. Segue-se a fase clônica, com abalos rítmicos e simétricos que vão diminuindo de frequência e aumentando de amplitude até cessar. Sialorreia espumosa, mordedura de língua e perda de urina são frequentes e não têm valor prognóstico; a mordedura de língua importa apenas porque sangra e porque quem tenta impedi-la com o dedo é mordido.
A duração típica é de um a poucos minutos, e a crise cessa espontaneamente. O que o interno precisa anotar, porque ninguém mais vai anotar e porque é o que o hospital de destino vai perguntar, são quatro coisas: a hora em que começou, quanto tempo durou, se houve mais de uma e se entre elas a paciente recuperou a consciência. Essa última é a que separa duas crises isoladas de um estado de mal, e é a diferença entre continuar o sulfato e chamar a unidade de terapia intensiva.
Não se mede pressão durante a crise, não se coleta sangue durante a crise e não se ausculta feto durante a crise. Esses três gestos são inúteis nesse momento e consomem a única coisa escassa, que são mãos. Durante a crise só há três tarefas: proteger a paciente de trauma, lateralizar e ofertar oxigênio.
O pós-ictal, e a paciente que demora a acordar
Terminada a crise, segue-se um período de sonolência, confusão e desorientação que pode durar minutos ou algumas horas. Coma que se prolonga por algumas horas é descrito e ainda cabe dentro do quadro típico — raramente ultrapassa seis horas. Nesse intervalo, a paciente pode estar agitada, pode não reconhecer os familiares, pode responder por monossílabos e pode voltar a dormir. Nada disso, isoladamente, indica lesão estrutural.
O que indica é a passagem do tempo. Coma prolongado, déficit neurológico focal que não regride, ou piora progressiva do nível de consciência obrigam a procurar outra coisa — e a outra coisa mais temida é o acidente vascular cerebral hemorrágico, complicação real dessa doença e das mais letais. É por isso que o exame neurológico repetido de hora em hora vale mais do que qualquer exame de sangue nas primeiras horas, e é por isso que sedar essa paciente sem necessidade destrói o instrumento de medida.
Uma manifestação neurológica que costuma assustar mais do que deveria é a cegueira cortical: a paciente acorda sem enxergar, com pupilas reativas e fundo de olho normal. É expressão do mesmo edema posterior, e é habitualmente transitória. Explicar isso à mulher e à família na hora evita pânico e evita transferência apressada.
A eclâmpsia que não avisou, e a que tem pressão baixa demais para convencer
Existe a apresentação didática — a gestante com cefaleia que não cede a analgésico, escotomas, epigastralgia e hiper-reflexia, que convulsiona diante de todo mundo depois de horas avisando. Ela é a minoria confortável. Uma fração das crises acontece em mulheres que não vinham se queixando de nada, e há casos em que nenhum sinal de gravidade chegou a ser registrado antes. Isso não é falha de quem examinou; é a história natural da doença.
A variante que mais confunde o interno é a paciente cuja pressão, quando finalmente medida depois da crise, não está impressionante. Números de 150 por 95 numa mulher que acabou de convulsionar não afastam eclâmpsia por dois motivos convergentes: o teto da autorregulação de uma jovem previamente normotensa é baixo, e a pressão pode cair depois da crise. Convulsão em gestante com pressão de 150 por 95 continua sendo eclâmpsia até prova em contrário — e continua sendo indicação de sulfato, ainda que não seja indicação de anti-hipertensivo.
A recíproca vale como alerta e não como critério: pressão alta não é obrigatória para o diagnóstico da crise, mas é obrigatória para o diagnóstico do quadro. Uma convulsão em gestante rigorosamente normotensa, sem proteinúria e sem qualquer disfunção de órgão, empurra a lista de diferenciais para cima — o que não impede que o sulfato entre enquanto a lista é percorrida.
A eclâmpsia do puerpério, que ninguém está esperando
A maioria dos casos ocorre antes do parto, mas a doença não termina no nascimento, e no puerpério o risco se concentra na primeira semana. A cena típica é uma mulher que teve pré-eclâmpsia, recebeu alta no segundo ou terceiro dia, está em casa amamentando, e volta ao pronto-socorro com cefaleia — ou já convulsionando. Ela chega, com frequência, na fila da clínica médica e não na maternidade, porque não está mais grávida e porque o serviço não a lê como paciente obstétrica.
Duas coisas mudam nesse cenário e as duas favorecem o erro. Entre o terceiro e o sexto dia há uma elevação previsível da pressão, porque o líquido que estava no interstício volta para dentro do vaso — e essa janela cai, quase sempre, depois da alta, com ninguém aferindo nada. E a queixa dela, cefaleia em puérpera exausta que não dorme há três dias, é a queixa mais fácil do mundo de banalizar. Puérpera com antecedente de doença hipertensiva na gestação e cefaleia é candidata a sulfato, não a analgésico.
Nada do que este capítulo prescreve muda por a paciente já ter parido: a lista de indicações do sulfato é a mesma, e a manutenção segue as 24 horas contadas a partir da última crise, ainda que o bebê tenha nascido dias antes.
Antes de 20 semanas, e as convulsões que não são eclâmpsia
Antes da 20ª semana, a régua se inverte: convulsão nessa idade gestacional é eclâmpsia só depois de excluídas outras causas, e obriga a pensar em doença trofoblástica gestacional, porque a mola pode produzir pré-eclâmpsia precoce. Fora dessa hipótese, a gestante de primeiro trimestre que convulsiona é investigada como qualquer adulto que convulsiona.
O manual federal reúne num quadro as outras causas de convulsão na gravidez, e vale memorizá-lo porque ele reaparece inteiro na investigação. Agrupando por origem: as vasculares e expansivas do sistema nervoso — hemorragia intracraniana, tromboembolia cerebral, tumor; as infecciosas — meningite e encefalite; as metabólicas — hipoglicemia, uremia e intoxicação hídrica; a hematológica — púrpura trombocitopênica trombótica; a endócrina — feocromocitoma; e, fora de todas elas, a epilepsia prévia. A ordem em que elas são percorridas depende da história e do exame, mas a posição delas no tempo é fixa: todas entram depois do sulfato, nenhuma antes.
Há uma exceção operacional que não é diferencial, é reflexo: a glicemia capilar. Custa segundos, é feita com a paciente ainda pós-ictal, e a hipoglicemia é a única causa de convulsão que se corrige na mesma velocidade em que se mede. Fazer glicemia capilar não atrasa o sulfato porque acontece enquanto outra pessoa aspira a ampola.
Quando a crise não para: estado de mal e reconvulsão
Duas situações distintas se escondem sob a expressão "convulsionou de novo". A primeira é a reconvulsão: uma nova crise, isolada, em paciente que já recebeu o ataque de sulfato e que entre as crises recupera a consciência. É evento previsto, tem conduta própria e não muda o hospital de destino. A segunda é o estado de mal convulsivo: crises subentrantes, sem recuperação de consciência entre elas. Esse é outro problema, exige terapia intensiva, outros anticonvulsivantes e avaliação de neuroimagem, e a chance de haver uma hemorragia intracraniana por trás cresce muito.
Convulsões repetidas predispõem ao coma profundo e, no extremo, à morte — e é por isso que a diferença entre as duas situações precisa estar clara na cabeça de quem está anotando os horários. A pergunta que separa uma da outra é sempre a mesma, e é gratuita: entre uma crise e outra, ela acordou?
Como fechar o diagnóstico
Este é o bloco em que a eclâmpsia se comporta ao contrário de quase tudo o mais que se aprende no internato. Em geral, investigar é o que autoriza tratar. Aqui, nenhum exame autoriza e nenhum exame impede: a decisão de sulfatar já foi tomada pela cena, e o que o laboratório faz é dizer quanto a doença avançou, ajudar a escolher a hora e a via do parto, e apontar as complicações que vêm junto.
Isso não torna a investigação secundária — torna-a sequencial. A pergunta certa não é "o que peço", é "o que peço sem que isso ocupe as mãos que estão aspirando a ampola". Tudo o que segue está ordenado por esse critério.
O único exame dos primeiros cinco minutos
Dos exames disponíveis numa sala de emergência, apenas um se justifica antes do sulfato, e ele não é de sangue venoso: a glicemia capilar. A justificativa é aritmética de tempo — leva quinze segundos, é feita por outra pessoa enquanto você prepara a droga, e a hipoglicemia é a única causa de convulsão que reverte na mesma velocidade em que é medida. Nenhum outro resultado tem essa propriedade.
Todo o resto se colhe com o tratamento já correndo. Na prática, a punção do segundo acesso venoso é o momento de tirar os tubos: a agulha já está na veia, a paciente já está sendo tratada, e o sangue vai para o laboratório sem que ninguém tenha esperado nada. Se o serviço não tem laboratório de plantão — que é a situação de boa parte das unidades onde essa mulher chega —, os tubos vão junto com ela na ambulância, identificados e com a hora da coleta anotada.
Existe uma frase que precisa ser dita com todas as letras porque ela é a origem do atraso mais comum: mandar uma paciente que convulsionou para outro setor "fazer os exames antes" é perder a única hora que importava. A dose de ataque do sulfato é segura sem creatinina, sem plaqueta e sem transaminase, porque a intoxicação vem do acúmulo na manutenção. Não há resultado que possa chegar e mudar a indicação da primeira dose.
O que cada exame responde numa mulher que já convulsionou
O conjunto mínimo é pequeno e todo ele existe em hospital de porte médio. Cada item responde a uma pergunta específica, e é assim que ele deve ser lido:
Plaquetas — responde se há síndrome HELLP em construção e se a anestesia condutiva ainda é possível. É a alteração laboratorial mais precoce do eixo hepato-hematológico, e é o número que o anestesista vai pedir antes de qualquer coisa. Abaixo de 100.000/mm³ o quadro é grave; a decisão sobre transfusão e sobre técnica anestésica pertence ao serviço que vai operar.
Transaminase oxalacética — responde se o fígado entrou. Dor em hipocôndrio direito com transaminase subindo é a dupla que antecede o hematoma subcapsular hepático, e é motivo para não perder tempo.
Desidrogenase láctica e bilirrubinas — respondem se há hemólise microangiopática. A desidrogenase láctica acima de 600 U/L e a bilirrubina acima de 1,2 mg/dL entram na definição laboratorial da síndrome HELLP no manual federal, junto com transaminase acima de 70 UI e plaquetas abaixo de 100.000/mm³.
Creatinina — responde duas coisas de uma vez: se há injúria renal, e se a dose de manutenção do sulfato precisa ser reduzida à metade. Este é o único exame do conjunto que muda a prescrição do sulfato, e mesmo ele não muda o ataque.
Hemograma completo — o hematócrito informa sobre hemoconcentração e a hemoglobina serve de base para o que vier depois, num quadro em que hemorragia pós-parto é risco somado.
Exames de coagulação — não entram de rotina. Pedem-se diante de plaquetopenia, porque é aí que a coagulopatia se instala. Pedir coagulograma para toda eclâmpsia é gastar tubo e tempo sem mudar conduta.
Uma nota que economiza exame e que costuma surpreender: a proteinúria não precisa ser dosada nem repetida nesse cenário. Ela serviria para dar nome a um diagnóstico que a convulsão já deu, e não gradua gravidade. Fita de urina negativa numa mulher que acabou de convulsionar não muda absolutamente nada.
Imagem de crânio: quando, e por que não sempre
Tomografia de crânio não é rotina na eclâmpsia. A gestante com quadro clínico típico, sem déficit neurológico persistente, não requer avaliação complementar além da que já se faz para a pré-eclâmpsia — e insistir na imagem custa transporte, custa tempo fora da sala monitorada e não muda o que se faz.
A imagem se indica quando a apresentação sai do típico, e as situações são reconhecíveis: déficit neurológico focal, coma que se prolonga, convulsões de difícil controle ou subentrantes, alterações visuais que não regridem, convulsão antes de 20 semanas sem doença trofoblástica e paciente sem diagnóstico prévio de epilepsia cujo quadro não fecha. O que se procura, sobretudo, é hemorragia intracraniana — a complicação que transforma o caso de obstétrico em neurocirúrgico.
Casos atípicos merecem avaliação de neurologista e podem exigir tomografia ou ressonância. O ponto para o interno é a ordem: a decisão de pedir imagem se toma com a paciente já sulfatada, com a pressão já tratada e com a via aérea garantida, nunca no lugar dessas três coisas.
O diferencial, e o exame que separa cada um
A lista de outras causas de convulsão na gestação percorre-se depois, mas percorre-se de verdade — sobretudo quando algo não fecha. Vale conhecer o que separa cada uma, porque é isso que faz a lista deixar de ser decorativa.
Epilepsia prévia — separa-se pela história, e a pergunta é para a família, não para a paciente pós-ictal: ela já teve isso antes, ela toma remédio para convulsão, ela parou de tomar? Gestante epiléptica costuma reduzir ou abandonar a medicação por medo de teratogenicidade, e essa é uma causa frequente de crise na gravidez. Antecedente de epilepsia não exclui eclâmpsia numa gestante hipertensa.
Hemorragia intracraniana e trombose venosa cerebral — separam-se pela imagem, e a suspeita nasce do déficit focal, da cefaleia em trovoada, do coma prolongado e da crise que não cede.
Hipoglicemia — separa-se pela glicemia capilar, e é a única que se resolve enquanto se mede.
Intoxicação hídrica e uremia — separam-se pelo sódio e pela creatinina, e a história ajuda: infusão volumosa de solução hipotônica na indução do parto, doença renal conhecida.
Púrpura trombocitopênica trombótica e síndrome hemolítico-urêmica — separam-se com dificuldade, porque compartilham plaquetopenia, hemólise e piora renal com a própria síndrome HELLP. A evolução no tempo e o perfil laboratorial resolvem a maioria; nenhuma delas muda a regra de segurança inicial.
Meningite e encefalite — separam-se pela febre, pelo quadro infeccioso e, quando indicado, pelo líquor. Rigidez de nuca em puérpera com cefaleia e febre não é pós-ictal.
Feocromocitoma e tumor cerebral — são raros e entram tarde, mas explicam a paciente cuja hipertensão é paroxística e desproporcional, ou cuja cefaleia vinha em crescendo há semanas com sinais focais.
Uma observação que amarra o bloco: durante todo esse percurso, a paciente segue sulfatada. Diferencial em aberto não é razão para suspender a droga que previne a próxima crise; é razão para investigar mais rápido.
A magnesemia: o exame que quase nunca se pede, e por quê
A dosagem sérica de magnésio existe, tem faixa terapêutica conhecida — de 4 a 7 mEq/L, ou 4,8 a 8,4 mg/dL — e não é exame de rotina. A razão não é custo: é que ela responde mais devagar do que o exame clínico. O reflexo patelar se abole entre 8 e 10 mEq/L, antes de qualquer depressão respiratória; quem examina o reflexo de quatro em quatro horas já tem a informação que a dosagem traria, com atraso zero e sem tubo.
As duas situações em que ela se justifica são precisas: alteração de função renal e inibição de reflexos tendinosos. São exatamente os dois cenários em que o clínico deixa de confiar na própria régua — no primeiro porque a depuração está comprometida e o acúmulo é esperado; no segundo porque o sinal de alarme já apareceu e é preciso saber o quanto.
Fora disso, pedir magnesemia de rotina cria um problema novo: cria a expectativa de esperar o resultado antes de dar a próxima dose. Quem espera resultado para aplicar a manutenção do sulfato subdosa a paciente por motivo administrativo.
O que existe no SUS, e o que depende de alguém ter conferido a caixa
A parte central deste capítulo é acessível. O sulfato de magnésio injetável consta da Relação Nacional de Medicamentos Essenciais nas apresentações a 10% e a 50%, dentro do componente básico — o elenco que chega a uma unidade de atenção primária, e não algo reservado a hospital de referência. Nifedipino 10 mg, metildopa 250 mg, fenitoína 50 mg/mL injetável e diazepam 5 mg/mL injetável também constam.
Duas drogas centrais deste capítulo ficaram fora dessa lista, e convém descobrir isso antes e não durante o atendimento. A hidralazina aparece na relação nacional apenas em comprimidos de 25 mg e 50 mg — a ampola de 20 mg/mL, que é a forma usada na crise e a única via segura em paciente sem consciência preservada, é compra do próprio serviço. E o gluconato de cálcio, que é o antídoto do sulfato, também não figura na relação. Isso não significa que sejam inacessíveis; significa que a presença de ambos depende de alguém do serviço ter comprado, montado e conferido a caixa de emergência.
Vale registrar uma inconsistência que o interno pode encontrar e que não deve tomar por garantia: o protocolo pré-hospitalar do SAMU 192, elaborado em 2016, afirma ao fim do protocolo de síndromes hipertensivas que as drogas ali citadas — entre elas o gluconato de cálcio — fazem parte da relação nacional. Conferida contra a Rename de 2024, a afirmação não se sustenta para o gluconato nem para a hidralazina injetável. Quem se apoia nela para supor que o antídoto está garantido na unidade pode descobrir o contrário no pior momento possível.
É por isso que o modelo brasileiro de caixa de emergência hipertensiva lacrada existe, e é por isso que ele é um assunto clínico e não administrativo. A composição recomendada na proposta nacional de resposta rápida é conhecida e curta: seis ampolas de sulfato de magnésio a 50% de 10 mL, duas ampolas de gluconato de cálcio a 10% de 10 mL, duas ampolas de hidralazina de 20 mg/mL, seis comprimidos de nifedipino de 10 mg, seringas de 5, 10 e 20 mL, agulhas de aspiração e de aplicação, água destilada, soro fisiológico em ampola e em bolsa de 100 e de 500 mL, equipo simples e equipo de bomba, máscara com reservatório e umidificador, cânulas de Guedel nos tamanhos 2 e 3, álcool e luvas. A caixa é lacrada com lacre numerado, conferida mensalmente e relacrada, e leva dentro um folder com as doses escritas — porque ninguém calcula bem com uma mulher convulsionando na sua frente.
Os primeiros dez minutos, a aritmética das três concentrações e a ordem dos sinais de intoxicação
Este bloco existe para ser consultado com uma seringa na mão. Ele traz, nesta ordem: a sequência dos primeiros dez minutos; a conversão de grama para mililitro do sulfato de magnésio nas três concentrações que o interno pode encontrar escritas num documento brasileiro; o que muda em cada momento do tratamento quando a farmácia tem uma apresentação e não a outra; a ordem em que os sinais de intoxicação aparecem, que é o que dá tempo de agir; e a escada das drogas quando a convulsão volta. Duas advertências de leitura valem para tudo o que segue. A primeira: a dose se escreve em gramas e a ampola vem em mililitros, e é nessa tradução que mora o acidente mais grave possível com essa droga. A segunda: sulfato de magnésio e anti-hipertensivo são duas prescrições diferentes, com finalidades diferentes, e a ordem entre elas é fixa — o sulfato primeiro, sempre.
- 1Enquanto a crise acontece: proteja a paciente de trauma, sem conter os movimentos à força e sem colocar nada entre os dentes. Afaste o que puder machucar, apoie a cabeça, e marque a hora no relógio.
- 2Lateralize à esquerda. O decúbito lateral esquerdo tira o útero de cima da veia cava e da aorta, melhora o retorno venoso e reduz o risco de a paciente aspirar. Se houver suspeita de trauma de coluna cervical, a lateralização é feita em bloco.
- 3Abra e proteja a via aérea: aspire secreções, coloque cânula orofaríngea quando ela couber sem forçar a mandíbula, e ofereça oxigênio sob máscara com reservatório a 8 a 10 L/min. Rebaixamento persistente do nível de consciência é indicação de considerar intubação orotraqueal.
- 4Peça a caixa de emergência hipertensiva e acione o transporte na mesma frase, se a unidade não resolve gestação grave. Nomeie o quadro em voz alta para a equipe: gestante de tantas semanas em eclâmpsia.
- 5Dois acessos venosos periféricos calibrosos com soro fisiológico a 0,9%. Puncione preferencialmente o membro superior direito, porque a paciente vai ser transportada em decúbito lateral esquerdo e o braço de baixo fica inacessível.
- 6Glicemia capilar, feita por outra pessoa, sem interromper o preparo da droga.
- 7Sulfato de magnésio, dose de ataque de 4 g por via intravenosa. Diga a concentração da ampola em voz alta antes de aspirar e confira com um segundo par de olhos. Sem bomba de infusão, ou com transporte pela frente em ambulância sem bomba, acrescente o componente intramuscular de 10 g do esquema de Pritchard.
- 8Pressão sistólica ≥160 OU diastólica ≥110 mmHg persistente exige anti-hipertensivo de ação rápida, sem aguardar o efeito do magnésio. Confirmar prontamente a medida quando cabível; tratar a emergência e prevenir ou tratar convulsões em paralelo, com monitorização e reavaliações após cada dose. Magnésio não substitui anti-hipertensivo.
- 9Sonde a bexiga com sonda de demora para medir diurese durante a manutenção. Isso não pode, em hipótese alguma, atrasar a primeira dose.
- 10Colha os exames no mesmo momento em que punciona o segundo acesso, e anote a hora da coleta.
- 11Comece a planilha de vigilância: reflexo patelar, frequência respiratória, diurese, pressão, oximetria e sintomas, a intervalos nunca maiores que 4 horas — e de hora em hora se houver função renal alterada ou diurese reduzida.
- 12Aguarde a recuperação do sensório e a estabilização antes de programar a interrupção da gestação. A eclâmpsia indica resolver; ela não indica resolver neste minuto.
- 13Escreva o relatório: quadro clínico com frequência cardíaca, frequência respiratória e pressão, diagnóstico, cada medicação com dose, via e horário, número de crises, evolução e hora da saída.
Sulfato de magnésio: de grama para mililitro nas três concentrações
| Dose prescrita | A 10% (100 mg/mL) | A 20% (200 mg/mL) | A 50% (500 mg/mL) | Onde essa dose aparece |
|---|---|---|---|---|
| 2 g | 20 mL (2 ampolas de 10 mL) | 10 mL | 4 mL | Reforço da reconvulsão; e novo ataque quando a infusão ficou mais de 2 horas suspensa |
| 4 g | 40 mL (4 ampolas de 10 mL) | 20 mL | 8 mL | Dose de ataque intravenosa — idêntica nos esquemas de Zuspan e de Pritchard |
| 5 g | 50 mL (5 ampolas de 10 mL) | 25 mL | 10 mL (1 ampola inteira) | Manutenção intramuscular de 4 em 4 horas do Pritchard; e o conteúdo diluído em 500 mL da manutenção de Zuspan |
| 10 g | 100 mL (10 ampolas) | 50 mL | 20 mL (2 ampolas) | Componente intramuscular do ataque de Pritchard, 5 g em cada nádega |
| Conteúdo de uma ampola de 10 mL | 1 g | 2 g | 5 g | A diferença de cinco vezes entre a de 10% e a de 50%, no mesmo volume e no mesmo vidro |
| Íon magnésio por mililitro | 0,81 mEq | 1,62 mEq | 4,06 mEq | Confere com o rótulo: a relação nacional registra 0,81 mEq/mL para a de 10% e 4,05 mEq/mL para a de 50% |
| Massa de magnésio elementar em 5 g do sal | — | — | 493 mg | O que a ampola contém é sulfato de magnésio heptaidratado, não magnésio: 5 g do sal carregam menos de meio grama do íon |
O mesmo esquema quando a farmácia só tem a ampola errada
| Momento | Dose | Com ampola a 50% (10 mL = 5 g) | Com ampola a 10% (10 mL = 1 g) | Dá para fazer? |
|---|---|---|---|---|
| Ataque intravenoso | 4 g | Aspirar 8 mL e diluir em 12 mL de água destilada ou soro fisiológico: 20 mL a 200 mg/mL. Infundir lentamente em 15 a 20 minutos dentro do hospital, e em 30 minutos fora da maternidade | Aspirar 40 mL — quatro ampolas — e diluir em 100 mL de soro fisiológico a 0,9%. Infundir na mesma janela de tempo | Sim nas duas. É o passo em que a apresentação não impede nada, apenas muda o número de ampolas abertas |
| Manutenção de Zuspan | 1 g/hora | Diluir 1 ampola (10 mL, 5 g) em 490 mL de soro fisiológico: 500 mL com 1 g a cada 100 mL. Correr a 100 mL/h em bomba; cada bolsa dura 5 horas | Diluir 50 mL (5 ampolas, 5 g) em 450 mL de soro fisiológico: os mesmos 500 mL a 1 g/100 mL, também a 100 mL/h | Sim nas duas, desde que haja bomba de infusão. Sem bomba, não se improvisa gotejamento |
| Componente intramuscular do ataque de Pritchard | 10 g | 20 mL: 10 mL (5 g) em cada nádega, com agulha longa, profunda. Para reduzir o risco de necrose muscular, pode-se dividir em quatro grupamentos musculares, 2,5 g (5 mL) em cada | Exigiria 100 mL por via intramuscular, 50 mL em cada nádega | Só com a de 50%. O protocolo nacional é explícito: outras apresentações não devem ser usadas neste esquema pelo volume excessivo |
| Manutenção intramuscular de Pritchard | 5 g de 4 em 4 horas | 10 mL, alternando as nádegas — ou 5 mL em cada um de dois grupamentos | Exigiria 50 mL por aplicação | Só com a de 50%, pela mesma razão |
| Reforço da reconvulsão | 2 g em bolus | 4 mL, em cerca de 20 minutos | 20 mL (2 ampolas), no mesmo tempo | Sim nas duas |
| Retomada após mais de 2 horas de suspensão | novo ataque de 2 g | 4 mL | 20 mL (2 ampolas) | Sim nas duas. Retomar a infusão como se nada tivesse acontecido subdosa a paciente |
Intoxicação pelo magnésio: a ordem em que os sinais chegam
| Faixa e ordem | O que acontece | Como se percebe à beira do leito | O que fazer |
|---|---|---|---|
| Durante a infusão do ataque | Vasodilatação periférica esperada: rubor de face, calor no corpo, sudorese, gosto metálico, náusea | A paciente reclama de calor e o rosto fica vermelho. Não é reação alérgica e não é intoxicação | Avisar antes de infundir e seguir. Quem não foi avisada acha que está tendo alergia e pede para parar |
| 4 a 7 mEq/L (4,8 a 8,4 mg/dL) | Faixa terapêutica do íon magnésio | Paciente sonolenta e calma, reflexo patelar presente, respirando bem, urinando | Manter o esquema e a planilha de vigilância |
| 1º sinal — reflexo patelar abolido (8 a 10 mEq/L) | Bloqueio neuromuscular começando. Aparece antes de qualquer depressão respiratória | Percussão do tendão patelar, feita antes de cada dose intramuscular e a cada 4 horas na infusão | Reduzir ou interromper a infusão e não aplicar a próxima dose intramuscular. Dosar magnésio sérico e reavaliar função renal |
| 2º sinal — frequência respiratória caindo | O bloqueio alcança a musculatura respiratória | Contar as incursões por um minuto inteiro, sem confiar no monitor | Interromper a infusão. A régua mais conservadora manda parar abaixo de 16 incursões por minuto; a régua federal usa 12. Anote qual você adotou |
| Sinal paralelo — diurese abaixo de 25 mL/hora | Excreção comprometida: é acúmulo em construção, mesmo com reflexo ainda presente | Sonda vesical de demora com medida horária | Interromper a infusão de sulfato e reavaliar função renal. Cuidado com o reflexo de infundir volume: essa paciente faz edema pulmonar com facilidade |
| 3º sinal — depressão respiratória franca | Paralisia da musculatura respiratória instalada | Respiração superficial, sonolência profunda, queda de saturação | Gluconato de cálcio a 10%, 1 g — uma ampola de 10 mL —, por via intravenosa lenta, mais oxigênio sob máscara e suporte ventilatório |
| A partir de 12 mEq/L | Risco de parada respiratória; abaixo disso, bloqueio cardíaco | Já não há sinal a procurar: é evento | Suporte ventilatório imediato e cálcio. É a razão de os três parâmetros anteriores serem checados |
| Antídoto | Gluconato de cálcio a 10%, ampola de 10 mL com 1 g do sal (4,65 mEq, cerca de 93 mg de cálcio elementar) | Precisa estar dentro da caixa, ao lado do sulfato: não consta da relação nacional de medicamentos essenciais | 1 g por via intravenosa lenta. A bula limita a velocidade a 5 mL por minuto, o que põe o piso em 2 minutos; os documentos brasileiros orientam entre 3 e 10 minutos. Nunca por via intramuscular ou subcutânea |
| Retomada | Restabelecidos os parâmetros, o tratamento recomeça | Contar o tempo de suspensão pelo relógio, não pela impressão | Até 2 horas sem uso, reinicia-se a infusão. Passadas 2 horas, é preciso nova dose de ataque de 2 g antes de retomar |
Quando a convulsão volta: a escada, com dose e volume
| Situação | O que fazer | Dose, volume e tempo | O que não fazer |
|---|---|---|---|
| Nova crise isolada, com recuperação de consciência entre elas, em paciente já sulfatada | Reforço intravenoso de sulfato e elevação da manutenção | 2 g por via intravenosa — 4 mL da ampola a 50% ou 20 mL da de 10% —, em cerca de 20 minutos; manutenção passa a 2 g/hora, o que corresponde a 200 mL/h da solução de 5 g em 500 mL | Trocar de droga na primeira reconvulsão. Ela é evento previsto do tratamento, não falha dele |
| Segunda reconvulsão apesar do reforço | Aí sim, segunda linha: difenil-hidantoína no esquema clássico, e investigação de complicação cerebral por imagem | Fenitoína sódica 15 a 20 mg/kg por via intravenosa (a solução é de 50 mg/mL, ou seja, 0,3 a 0,4 mL por quilo), diluída em soro fisiológico. A bula do produto limita a velocidade a 50 mg por minuto — para uma mulher de 60 kg, 15 mg/kg são 900 mg e levam 18 minutos nesse teto | Correr fenitoína depressa para ganhar tempo. Acima de 50 mg/min ela produz hipotensão e distúrbio de condução, que é exatamente o que não se quer numa paciente em acidose |
| Crises subentrantes, sem recuperação de consciência: estado de mal | Terapia intensiva, outros anticonvulsivantes e neuroimagem | O manual federal admite, quando duas doses em bolus de sulfato não controlaram as crises, recorrer a diazepam, lorazepam ou midazolam. É a única posição em que o benzodiazepínico entra, e é depois do sulfato, não no lugar dele | Manter a paciente numa sala de emergência sem via aérea definitiva enquanto se tenta mais uma droga |
| Convulsão com déficit focal, coma que se prolonga ou alteração visual que não regride | Imagem de crânio, procurando hemorragia intracraniana | Tomografia; ressonância nos casos que a exijam, com avaliação de neurologista | Atribuir ao pós-ictal um coma que já passou de algumas horas |
| Em qualquer um dos degraus | O sulfato continua | Manutenção por 24 horas após a última crise convulsiva ou após a resolução da gestação, o que vier depois; reintroduzir se houver nova indicação | Suspender o sulfato porque "não funcionou". Ele reduziu a chance da próxima crise mesmo quando não impediu esta |
A tabela de conversão foi refeita pela conta, e não copiada. A base é a massa molar do sulfato de magnésio heptaidratado, 246,47 g/mol: uma solução a 10% tem 100 mg/mL, a 20% tem 200 mg/mL e a 50% tem 500 mg/mL. Dividindo 100 mg/mL por 246,47 g/mol e multiplicando pela valência 2, chega-se a 0,8115 mEq de magnésio por mililitro na de 10% e 4,0573 na de 50% — que são exatamente os 0,81 e os 4,05 impressos na relação nacional de medicamentos essenciais. Quando o rótulo e a conta batem, o rótulo pode ser usado como conferência.
A coluna dos 20% está na tabela por um motivo específico: ela aparece escrita em documento oficial brasileiro, e não existe como ampola na prateleira. A bula profissional das apresentações de 10% e 50% traz, na posologia da eclâmpsia, a instrução de diluir a solução a 50% "para uma concentração de 10% a 20%" e injetar 40 mL da solução a 10% ou 20 mL da de 20%. Os 20% ali são uma diluição preparada na hora, não um produto: a relação nacional lista apenas 10% e 50%, e é isso que chega à farmácia. Quem procura a ampola de 20% perde tempo procurando o que não vai encontrar.
O erro mais grave possível com esta droga é confundir as duas apresentações, e a conta mostra o tamanho dele. Aspirar 8 mL achando que é a de 50% quando a ampola é a de 10% entrega 0,8 g em vez de 4 g — um quinto da dose, com a paciente sem profilaxia e sem que ninguém perceba até a próxima convulsão. O erro inverso, aspirar 40 mL de uma ampola a 50%, entrega 20 g de uma vez, com bloqueio neuromuscular e risco de parada respiratória. Guarde as duas contas de cabeça: com a de 50%, 4 g são 8 mL; com a de 10%, 4 g são 40 mL.
Há um erro de escala num documento nacional de 2025 que vale conhecer justamente porque ele é inofensivo na prática e revelador na leitura. O protocolo da rede brasileira de estudos sobre hipertensão na gravidez escreve, na página que antecede o quadro dos esquemas, que a ampola de 10 mL a 50% "contém 5 g de magnésio". O que ela contém são 5 g de sulfato de magnésio heptaidratado, e a nota do quadro logo abaixo diz isso corretamente. A diferença é de dez vezes: 5 g do sal correspondem a 493 mg do íon magnésio, porque 5 dividido por 246,47 e multiplicado por 24,305 dá 0,4931 g. Ninguém prescreve em gramas do íon no Brasil, então o esquema segue correto — mas o interno que topar com literatura internacional dosando em milimoles de magnésio precisa saber que os dois números não são o mesmo número.
Sobre o tempo de infusão do ataque, dois números oficiais convivem e a conta explica a diferença. Os 4 g diluídos em 20 mL correm a 200 mg/min quando infundidos em 20 minutos, a 267 mg/min em 15 minutos e a 800 mg/min se forem os 5 minutos que o manual federal admite. A bula do produto fixa um teto geral de 150 mg por minuto para a injeção intravenosa e abre exceção expressa para a eclâmpsia com convulsões — quer dizer, os esquemas rápidos são deliberados, não descuidados. Fora da maternidade, a padronização nacional é de 30 minutos, o que corresponde a 133 mg/min, dentro do teto da bula até para quem não invoca a exceção.
A sondagem vesical merece uma frase própria porque ela é a medida que sustenta metade da vigilância e é também a desculpa mais comum para atrasar a droga. Ela se faz depois do sulfato, sempre. A recomendação nacional é explícita ao dizer que a sondagem, em hipótese alguma, deverá retardar o início da administração.
A conduta, hora a hora
Durante a crise, proteger de trauma e manter via aérea e oxigenação sem forçar objetos entre os dentes. Iniciar magnésio conforme o esquema escolhido e tratar hipertensão grave em paralelo quando indicada. Reavaliar consciência, respiração, reflexos, diurese e pressão. Planejar nascimento com a equipe após estabilização, sem confundir controle da crise com encerramento do risco materno.
Toda dose abaixo vem com a fonte que a sustenta. Onde os documentos brasileiros divergem, a escolha está feita no texto e a divergência está discutida no bloco próprio.
Minuto 0 a 3 — enquanto ela ainda convulsiona
Reconheça a crise e acione ajuda. Proteja a cabeça, afaste objetos, não contenha os movimentos à força nem coloque objetos na boca. Avalie via aérea, respiração e circulação, posicione com segurança e inicie tratamento prontamente. Crise prolongada ou recorrente sem recuperação exige suporte avançado e tratamento de estado de mal; não se presume que toda convulsão terminará sozinha.
Prescrição- Proteção da paciente contra traumas durante a convulsão, sem contenção forçada — SAMU 192, Suporte Avançado de Vida (2016), protocolo AGO12; Femina 2025;53(8), quadro 8.
- Lateralização à esquerda, salvo suspeita de trauma de coluna cervical, em que a lateralização é feita em bloco — SAMU 192 (2016), AGO12; Manual de Gestação de Alto Risco (MS, 2022), quadro 6.
- Registro do horário de início da crise, da duração e do número de crises — Femina 2025;53(8), quadros 6 e 8.
Minuto 3 a 6 — via aérea, oxigênio, dois acessos e a glicemia
No pós-ictal, reavalie consciência, permeabilidade da via aérea, ventilação, saturação e circulação. Os reflexos protetores podem estar comprometidos, mas não estão necessariamente abolidos. Providencie monitorização, acesso venoso e glicemia, com pressão aferida em paralelo. Incapacidade de proteger a via aérea ou ventilação insuficiente exige ajuda especializada imediata.
Prescrição- Aspiração quando houver secreções e acesso seguro; oxigenação e ventilação conforme avaliação. Não inserir protetor bucal. Cânula orofaríngea somente em paciente profundamente inconsciente, sem reflexo de vômito, por profissional habilitado; nunca forçar a abertura da boca durante a crise.
- Considerar intubação orotraqueal diante de rebaixamento persistente do nível de consciência — SAMU 192 (2016), AGO12.
- Dois acessos venosos periféricos calibrosos com soro fisiológico a 0,9%, preferencialmente no membro superior direito — Femina 2025;53(8), quadro 8; SAMU 192 (2016), AGO12.
- Glicemia capilar e coleta de sangue e urina para avaliação laboratorial no mesmo momento da punção — Manual de Gestação de Alto Risco (MS, 2022), quadro 6.
- Monitorização de oximetria de pulso, frequência respiratória e pressão arterial — SAMU 192 (2016), AGO12.
Minuto 6 a 25 — o sulfato de magnésio, e a escolha do esquema pela logística
Esta é a decisão que muda o desfecho, e ela não depende de exame, de obstetra nem de ambulância. A escolha entre os dois esquemas é logística e não clínica: com bomba de infusão e paciente que fica no serviço, Zuspan; sem bomba, ou com transporte pela frente em ambulância sem bomba, Pritchard — porque o componente intramuscular de 10 g garante quatro horas de concentração terapêutica sem depender de equipamento. Antes de aspirar, diga a concentração da ampola em voz alta e confira com um segundo par de olhos: são cinco vezes de diferença no mesmo volume e no mesmo vidro. E não negocie com a primeira dose por medo de função renal, porque a intoxicação vem do acúmulo na manutenção, não do ataque.
Prescrição- Sulfato de magnésio heptaidratado, dose de ataque de 4 g por via intravenosa: aspirar 8 mL da ampola a 50% (10 mL = 5 g) e diluir em 12 mL de água destilada ou soro fisiológico, totalizando 20 mL a 200 mg/mL, infundidos lentamente em 15 a 20 minutos. Com ampola a 10% (10 mL = 1 g): 40 mL diluídos em 100 mL de soro fisiológico a 0,9% — RBEHG, Protocolo Pré-eclâmpsia 2025, quadro 11; Femina 2025;53(8), quadros 1 e 8.
- Alternativa em bomba: 8 mL da ampola a 50% em 92 mL de soro fisiológico, infundidos a 300 mL/h, o que consome os 100 mL em cerca de 20 minutos — RBEHG 2025, quadro 11.
- Fora da maternidade, a infusão da dose de ataque deve ser feita em 30 minutos — Femina 2025;53(8), quadros 3 a 5 e 8.
- Esquema de Zuspan, manutenção de 1 g por hora em bomba de infusão contínua: 1 ampola a 50% (10 mL, 5 g) em 490 mL de soro fisiológico a 0,9%, obtendo 500 mL a 1 g por 100 mL, infundidos a 100 mL/h; cada bolsa dura 5 horas. Com a apresentação a 10%: 50 mL (5 g) em 450 mL de soro fisiológico, à mesma velocidade — RBEHG 2025, quadro 11; Femina 2025;53(8), quadro 8.
- Esquema de Pritchard, ataque: os mesmos 4 g por via intravenosa mais 10 g por via intramuscular profunda — 20 mL da ampola a 50%, sendo 10 mL (5 g) em cada nádega, com agulha longa; para reduzir o risco de necrose muscular, pode-se aplicar 2,5 g (5 mL) em cada um de quatro grupamentos musculares. Manutenção: 5 g por via intramuscular profunda (10 mL da ampola a 50%) a cada 4 horas, alternando as nádegas — RBEHG 2025, quadro 11; Manual de Gestação de Alto Risco (MS, 2022), quadro 7; SAMU 192 (2016), AGO12.
- Apenas a apresentação a 50% serve para o componente intramuscular: a de 10% exigiria 100 mL — RBEHG 2025, quadro 11, nota c.
- Evitar o esquema intramuscular na síndrome HELLP com plaquetopenia, pelo risco de hematoma — Manual de Gestação de Alto Risco (MS, 2022), quadro 7.
- Não usar diazepam como anticonvulsivante de primeira linha: o sulfato de magnésio é mais seguro e mais eficaz que fenitoína, diazepam e cocktail lítico para prevenir a recorrência — RBEHG 2025; Femina 2025;53(8), quadro 8.
- Manter o sulfato por 24 horas após a resolução da gestação ou após a última crise convulsiva — RBEHG 2025.
Hipertensão grave persistente — tratamento concomitante à estabilização
Pressão sistólica ≥160 OU diastólica ≥110 mmHg persistente exige anti-hipertensivo de ação rápida, sem aguardar o efeito do magnésio. Confirmar prontamente a medida quando cabível; tratar a emergência e prevenir ou tratar convulsões em paralelo, com monitorização e reavaliações após cada dose. Magnésio não substitui anti-hipertensivo. Escolha via venosa se houver consciência reduzida ou deglutição insegura. Nifedipino sublingual não deve ser empregado.
Prescrição- Hidralazina 5 mg por via intravenosa, repetível a cada 20 minutos até o teto de 30 mg. Preparo: diluir 1 ampola (1 mL a 20 mg/mL) em 19 mL de água destilada, obtendo 20 mL a 1 mg/mL — 5 mg correspondem a 5 mL — RBEHG 2025, quadro 9; Femina 2025;53(8), quadro 2; Manual de Gestação de Alto Risco (MS, 2022), quadro 2.
- Diluição alternativa usada no pré-hospitalar: 1 ampola (1 mL, 20 mg) em 9 mL de água destilada ou salina, obtendo 10 mL a 2 mg/mL — 5 mg correspondem a 2,5 mL. Nessa referência o teto é de 20 mg — SAMU 192 (2016), AGO11 e AGO12.
- Nifedipino de liberação imediata 10 mg por via oral a cada 20 a 30 minutos, até 30 mg, apenas quando a paciente estiver lúcida e capaz de deglutir. Não mastigar; via sublingual proscrita — RBEHG 2025, quadro 9; Femina 2025;53(8), quadros 2 e 3.
- Alvo pressórico após o anti-hipertensivo: sistólica de 140 a 150 e diastólica de 90 a 100 mmHg; redução de 15% a 25% na primeira hora, evitando quedas bruscas — Femina 2025;53(8), quadro 8; Manual de Gestação de Alto Risco (MS, 2022), seção 11.4.4 e 11.7.2.
- Diante de hipotensão após a hidralazina, elevar os membros inferiores e suspender a dose seguinte — RBEHG 2025, seção de crise hipertensiva.
- Nitroprussiato de sódio 0,5 a 10 µg/kg/min em bomba, apenas em ambiente hospitalar e apenas nos casos refratários, ou no edema pulmonar com comprometimento cardíaco — RBEHG 2025, quadros 9 e 10.
Hora 1 a 4 — a vigilância da toxicidade vira rotina de enfermaria
Com o ataque feito e a pressão tratada, o trabalho muda de natureza: deixa de ser reanimação e passa a ser vigilância. Três parâmetros objetivos governam a continuidade do sulfato, e cada um deles é gatilho isolado — não se faz média, não se compensa reflexo fraco com diurese boa. A periodicidade deve ser individualizada e nunca maior que quatro horas; em quem tem função renal alterada ou diurese reduzida, o intervalo apropriado é de uma hora. Ao lado disso, o exame que mais informa nas primeiras horas continua sendo o neurológico repetido, e é por ele que se percebe a paciente que está piorando em vez de melhorando. Confirme, antes de precisar, que há gluconato de cálcio na unidade.
Prescrição- Checar antes de cada dose intramuscular e a cada 4 horas na infusão contínua: reflexo patelar presente, frequência respiratória igual ou maior que 16 incursões por minuto e diurese igual ou maior que 25 mL/hora — RBEHG 2025, seção de vigilância da intoxicação.
- Intervalos de 1 em 1 hora quando houver função renal alterada ou diurese reduzida — RBEHG 2025, quadro 12.
- Sondagem vesical de demora para medir a diurese durante a manutenção, sem que isso atrase a primeira dose — RBEHG 2025, quadro 12; Manual de Gestação de Alto Risco (MS, 2022), quadro 6.
- Reduzir a dose de manutenção à metade quando a creatinina estiver igual ou acima de 1,2 mg/dL, com dosagem sérica de magnésio — RBEHG 2025.
- Magnesemia apenas diante de alteração da função renal ou de inibição de reflexos tendinosos; faixa terapêutica de 4 a 7 mEq/L — Manual de Gestação de Alto Risco (MS, 2022), seção 11.7.2; RBEHG 2025.
- Diante de depressão respiratória: gluconato de cálcio a 10%, 1 g (uma ampola de 10 mL) por via intravenosa lenta, mais oxigênio sob máscara e suporte ventilatório — Manual de Gestação de Alto Risco (MS, 2022), quadro 8; Femina 2025;53(8), quadro 8; bula profissional de gliconato de cálcio 100 mg/mL, que limita a velocidade a 5 mL por minuto e proíbe as vias intramuscular e subcutânea.
- Suspensão por depressão respiratória, diurese insuficiente ou ausência de reflexos; até 2 horas sem uso, reinicia-se a infusão, e passadas 2 horas é preciso nova dose de ataque de 2 g — Manual de Gestação de Alto Risco (MS, 2022), quadro 8.
- Exames: hemograma com plaquetas, creatinina, transaminase oxalacética, desidrogenase láctica e bilirrubinas; coagulograma apenas diante de plaquetopenia — Manual de Gestação de Alto Risco (MS, 2022), seção 11.4.3; RBEHG 2025.
- Vigilância fetal com cardiotocografia e dopplervelocimetria assim que a mãe estiver estabilizada, sem que a avaliação fetal preceda a materna — RBEHG 2025.
Após estabilização — definir resolução conforme condição materna e fetal
O tratamento definitivo da eclâmpsia é o nascimento do feto e a retirada da placenta, e ele se faz independentemente da idade gestacional. A questão não é se, é quando — e a resposta contraria o impulso. Indicar a resolução de maneira intempestiva, durante ou logo após uma convulsão, por cesariana e com anestesia geral, é atitude frequente que deve ser evitada: nesse momento mãe e feto estão em mau estado geral, ainda hipoxêmicos e acidóticos, e uma cirurgia do porte de uma cesariana pode causar prejuízos consideráveis. A recuperação fetal intraútero é mais eficaz do que o nascimento durante a crise. O manual federal cifra a espera em quatro a seis horas, tempo para o sensório se recuperar, a hipertensão grave ser controlada e a avaliação de complicações estar completa. E, quando o parto vier, a via preferível é a vaginal: a indução pode ser praticada se a vitalidade fetal estiver preservada e a situação materna permitir. A decisão do momento e da via não é do interno — é do obstetra, compartilhada com a paciente, com o neonatologista e com o anestesiologista.
Prescrição- Aguardar a recuperação do sensório e o controle da hipertensão grave antes de programar a interrupção; em geral entre quatro e seis horas — Manual de Gestação de Alto Risco (MS, 2022), seções 11.7.1 e 11.7.3.
- Estabilização clínica materna é mandatória mesmo quando há indicação absoluta de resolução, e passa pela introdução do sulfato — RBEHG 2025.
- Via de parto por indicação obstétrica, com preferência pela via vaginal para não agregar risco cirúrgico; indução se vitalidade fetal preservada — Manual de Gestação de Alto Risco (MS, 2022), seção 11.5.4.
- Betametasona 12 mg por via intramuscular a cada 24 horas por 48 horas, ou dexametasona 6 mg por via intramuscular a cada 12 horas por 48 horas quando não houver betametasona, apenas quando existe risco de resolver a gestação nas próximas 48 horas — RBEHG 2025.
- Sulfato de magnésio para neuroproteção fetal entre 23 e 32 semanas, otimizado para o parto — RBEHG 2025; Manual de Gestação de Alto Risco (MS, 2022), quadro 4.
- Transferência apenas com o quadro materno estável, com o sulfato correndo, e com relatório escrito contendo frequência cardíaca, frequência respiratória, pressão, diagnóstico, medicações com dose, via e horário, número de crises, evolução e hora da saída — Femina 2025;53(8), quadros 6 e 8; RBEHG 2025.
As 24 horas depois do nascimento — o sulfato continua e o útero amolece
O parto não encerra o problema, e o puerpério imediato é um período crítico. Mantém-se o sulfato por 24 horas após o nascimento ou após a última crise, o que vier depois, e a vigilância dos três parâmetros continua igual. Duas coisas somam risco aqui e precisam estar previstas antes de acontecerem. A primeira: o magnésio relaxa o miométrio, e essa puérpera tem, ao mesmo tempo, útero mais mole, volume intravascular contraído e plaquetas que podem estar caindo — a hemorragia pós-parto tem capítulo próprio, mas a previsão dela é obrigação deste. A segunda: a metilergometrina, segundo uterotônico da prateleira, é contraindicada nas síndromes hipertensivas. Confira isso antes de precisar, não com o útero atônico na mão. E o controle pressórico não relaxa: a piora do terceiro ao sexto dia, por redistribuição líquida, é regra e não exceção.
Prescrição- Manter o sulfato de magnésio por 24 horas após o parto ou após a última crise convulsiva; reintroduzir se houver nova indicação — RBEHG 2025; Manual de Gestação de Alto Risco (MS, 2022), seção 11.5.6.
- Pressão arterial a cada 4 horas, mantendo-a abaixo de 150 por 100 mmHg no puerpério imediato; manter ou ajustar os hipotensores usados antes do parto — Manual de Gestação de Alto Risco (MS, 2022), seções 11.5.6 e 11.6.5.
- Controle rigoroso de diurese, mantida acima de 25 mL/hora, com atenção redobrada à hidratação endovenosa pela facilidade de edema pulmonar — Manual de Gestação de Alto Risco (MS, 2022), seções 11.5.6 e 11.6.5.
- Evitar anti-inflamatórios não esteroides no controle da dor puerperal — Manual de Gestação de Alto Risco (MS, 2022), seção 11.5.6.
- Metilergometrina contraindicada em hipertensão, pré-eclâmpsia e demais síndromes hipertensivas: havendo atonia, o segundo uterotônico será outro — Manual de Gestação de Alto Risco (MS, 2022), capítulo de síndromes hipertensivas.
- Repetir plaquetas, desidrogenase láctica, transaminase e bilirrubinas para acompanhar a remissão; considera-se remissão quando há diurese espontânea acima de 25 mL/h, creatinina normal, queda da desidrogenase láctica e melhora de plaquetas e transaminases — Manual de Gestação de Alto Risco (MS, 2022), seção 11.6.5.
Alta e retorno — a semana em que a eclâmpsia ainda acontece
A alta desta paciente é um ato clínico e não burocrático, porque o risco de eclâmpsia puerperal se concentra na primeira semana e a alta costuma acontecer no segundo ou terceiro dia. Ela precisa sair com relatório minucioso, com orientação escrita sobre os sinais de alarme, com plano de aferição de pressão e com retorno curto e marcado — não com a instrução de "procurar o pré-natal". E precisa sair sabendo que teve eclâmpsia, o que significa, e o que isso deixa para o futuro: quem teve doença hipertensiva na gestação carrega risco aumentado de eventos cardíacos, encefálicos e renais e de fenômenos tromboembólicos pelo resto da vida, e essa conversa é parte do tratamento, não um adendo.
Prescrição- Alta hospitalar com relatório minucioso e orientações escritas sobre sinais e sintomas de alarme que devem motivar consulta imediata — Manual de Gestação de Alto Risco (MS, 2022), seção 11.5.6.
- Consulta precoce entre 7 e 10 dias após o parto, além da revisão habitual de 6 a 8 semanas, com controle pressórico domiciliar entre elas — RBEHG 2025.
- Aconselhamento sobre repercussões futuras: maior chance de eventos vasculares cardíacos, encefálicos e renais e de fenômenos tromboembólicos, com atuação sobre os fatores modificáveis — Manual de Gestação de Alto Risco (MS, 2022), capítulo 11.
- Repetir na revisão os exames que estavam alterados e encaminhar ao nefrologista diante de proteinúria persistente, pressão de difícil controle ou queda da filtração glomerular estimada — RBEHG 2025.
Como saber se está funcionando
Na eclâmpsia, reavaliar tem duas finalidades que se confundem se ninguém as separar, e que exigem coisas diferentes de quem está ao lado da maca. A primeira é saber se a doença está cedendo — o cérebro desinchando, o fígado e as plaquetas parando de piorar, o feto tolerando. A segunda é saber se o tratamento está começando a intoxicar, e essa é a única situação deste livro em que a droga que salva a paciente é também a que pode matá-la na mesma enfermaria.
Duas ideias organizam o bloco. A primeira: o instrumento principal é o exame clínico, e ele é gratuito. Reflexo, respiração, diurese e nível de consciência não custam nada, não dependem de laboratório e informam antes de qualquer exame. A segunda: cada parâmetro é gatilho isolado. Não existe compensar reflexo abolido com diurese boa, nem tranquilizar-se com uma média de impressões. Se um dos três parâmetros do sulfato saiu da faixa, a conduta é a daquele parâmetro.
Esperado: Recuperação progressiva do sensório em minutos a poucas horas; a paciente vai da sonolência à confusão e da confusão à orientação. Coma pós-ictal raramente ultrapassa seis horas
Se não melhora: Coma que se prolonga, déficit neurológico focal que não regride ou piora progressiva obrigam a procurar acidente vascular cerebral hemorrágico por imagem, com avaliação de neurologista. Antes de atribuir sonolência ao pós-ictal, pergunte o que foi administrado: benzodiazepínico dado "para acalmar" produz exatamente esse quadro e destrói o parâmetro. E não confunda com hipermagnesemia — nesta, o reflexo patelar já terá sumido
Esperado: Nenhuma nova crise depois do ataque de sulfato
Se não melhora: Nova crise isolada com recuperação de consciência entre elas é reconvulsão: administram-se mais 2 g de sulfato por via intravenosa em cerca de 20 minutos e eleva-se a manutenção para 2 g por hora. Crises subentrantes sem recuperação de consciência são estado de mal: exigem terapia intensiva, outros anticonvulsivantes e neuroimagem. A pergunta que separa as duas situações é sempre a mesma e é gratuita — entre uma crise e outra, ela acordou?
Esperado: Presente
Se não melhora: A abolição do reflexo abre a escala da hipermagnesemia, entre 8 e 10 mEq/L, e chega antes de a respiração dar qualquer sinal. Diminua a velocidade ou pare de vez, deixe a próxima aplicação intramuscular de lado, peça magnesemia e refaça a função renal. Restabelecidos os parâmetros, reinicia-se: até 2 horas de suspensão, retoma-se a infusão; passadas 2 horas, é preciso nova dose de ataque de 2 g. Reflexo "meio fraco" não é critério — ou está presente, ou está abolido, e a dúvida se resolve testando o outro joelho e chamando alguém para conferir
Esperado: Igual ou maior que 16 incursões por minuto
Se não melhora: Abaixo do corte, interrompa a infusão, dose magnésio e avalie função renal. Diante de depressão respiratória franca, gluconato de cálcio a 10%, 1 g — uma ampola de 10 mL — por via intravenosa lenta, mais oxigênio sob máscara e suporte ventilatório. Conte as incursões por um minuto inteiro, olhando o tórax: o número que o monitor exibe em paciente sonolenta com máscara é o menos confiável da tela
Esperado: Igual ou maior que 25 mL por hora
Se não melhora: Abaixo de 25 mL/hora, pare a infusão: com um fármaco que sai do corpo apenas por via renal, diurese caindo significa magnésio subindo até que se demonstre o contrário. Reavalie a função renal e a volemia. Resista ao impulso de correr soro: o capilar dessa mulher está permeável e o pulmão encharca depressa — e edema pulmonar instalado é, sozinho, motivo para resolver a gestação
Esperado: Sair da faixa de crise para sistólica de 140 a 150 e diastólica de 90 a 100 mmHg na fase aguda; abaixo de 150 por 100 no puerpério imediato
Se não melhora: Persistindo 160 por 110 ou mais depois do teto de 30 mg da droga escolhida, inicie a outra antes de pensar em terceira linha. Hipertensão refratária ao tratamento com três fármacos é, por si só, indicação de resolver a gestação. Se, ao contrário, a pressão desabou, eleve as pernas dela, deixe de aplicar a dose seguinte e refaça a avaliação fetal — quem sente primeiro a queda é a placenta, e ela não reclama
Esperado: Recuperação do traçado depois da crise, com a mãe oxigenada e em decúbito lateral esquerdo
Se não melhora: Traçado feito durante ou logo após a convulsão é assustador e enganoso, porque mãe e feto estão em acidose e o útero costuma estar hipertônico: a recuperação intraútero é mais eficaz que o nascimento nesse momento. Se, passada a estabilização, a alteração persistir — diástole zero ou reversa na artéria umbilical, cardiotocografia anormal —, a vitalidade está de fato comprometida e a resolução passa a ser urgente, frequentemente por cesariana
Esperado: Estáveis ou em recuperação
Se não melhora: Queda progressiva de plaquetas com elevação de transaminase e de desidrogenase láctica é síndrome HELLP em construção, e ela fecha a janela da anestesia condutiva. Considera-se remissão quando há diurese espontânea acima de 25 mL/h, creatinina normal, queda da desidrogenase láctica e melhora de plaquetas e transaminases. Nas primeiras 24 horas de puerpério há piora transitória esperada, por consumo de plaquetas e de fatores — piora que é mais acentuada quando o nascimento foi por cesariana
Esperado: Útero contraído, sangramento em queda
Se não melhora: Essa puérpera soma três desvantagens: miométrio relaxado pelo magnésio, volume intravascular contraído e plaquetas possivelmente baixas. O manejo da hemorragia pós-parto tem capítulo próprio; o que este obriga a lembrar é que a metilergometrina está contraindicada nela, e que descobrir isso com o útero atônico na mão custa minutos que não existem
Onde o erro machuca
O dano: É o erro mais frequente, e ele não vem de ignorância: vem de reflexo motor treinado em todas as outras convulsões da vida hospitalar. O prejuízo tem três camadas. A primeira é que o benzodiazepínico suprime a descarga sem tocar no vaso que a produziu — a próxima crise continua marcada para daqui a pouco, e a paciente segue sem a droga que a preveniria. A segunda é respiratória: a paciente já está em apneia pós-ictal, com a língua caída e reflexo de tosse abolido, e recebe um depressor do sistema nervoso central. A terceira é a mais silenciosa: o nível de consciência é o principal instrumento de monitorização das horas seguintes, e uma paciente sedada e uma paciente com edema cerebral progredindo têm exatamente a mesma cara. A segunda precisa de tomografia; a primeira, de tempo. Sedada, ninguém consegue dizer qual delas está na maca.
Como pegar a tempo: Trate a instrução como regra fixa e não como preferência: na gestante ou puérpera que convulsiona, a primeira droga é o sulfato de magnésio, e o passo a passo nacional de resposta rápida traz a proibição do diazepam em linha própria. Revisões sistemáticas mostram que o sulfato é mais seguro e mais eficaz que fenitoína, diazepam e o antigo cocktail lítico para prevenir a recorrência. O benzodiazepínico tem um lugar, e ele é estreito e tardio: o manual federal o admite quando duas doses em bolus de sulfato não controlaram as crises — isto é, no estado de mal, depois do sulfato, com via aérea assegurada, e nunca no lugar dele.
O dano: As duas apresentações registradas no Brasil vêm no mesmo volume, 10 mL, e num vidro do mesmo tamanho: a de 10% contém 1 g e a de 50% contém 5 g. São cinco vezes de diferença. Puxar 8 mL de uma ampola a 10% na convicção de que ela é a de 50% coloca 0,8 g na veia no lugar de 4 g: um quinto do previsto, sem proteção nenhuma e sem qualquer sinal que denuncie a falta, até a crise seguinte cobrar. O erro inverso é imediato e visível: 40 mL da ampola a 50% entregam 20 g de uma só vez, com bloqueio neuromuscular e risco de parada respiratória. Há ainda uma terceira variante, criada pela leitura desatenta de bula: aspirar 20 mL achando que se tem uma solução a 20% quando a ampola é a de 50% entrega 10 g, duas vezes e meia a dose de ataque.
Como pegar a tempo: Leia o rótulo alto, com alguém ouvindo, e peça que essa pessoa confirme antes de a agulha entrar na ampola — é a dupla checagem de sempre, aplicada a um medicamento de alta vigilância, e leva cinco segundos. Guarde as duas contas de cabeça: com a de 50%, 4 g são 8 mL; com a de 10%, 4 g são 40 mL, quatro ampolas. Guarde também a consequência de esquema: o componente intramuscular do Pritchard, de 10 g, só é viável com a apresentação a 50% — a de 10% exigiria 100 mL, e o protocolo nacional diz expressamente que outras apresentações não devem ser usadas nesse esquema pelo volume excessivo. E não procure a ampola de 20%: ela não chega à farmácia, é uma diluição preparada.
O dano: O impulso é honesto — a paciente está grávida, convulsionou, o traçado fetal está feio, e a cirurgia parece a solução. É justamente a conduta que o manual federal descreve como atitude frequentemente adotada que deve ser evitada. Naquele momento mãe e feto estão em mau estado geral, hipoxêmicos e acidóticos; uma intervenção do porte de uma cesariana com anestesia geral soma sangramento, instabilidade hemodinâmica e um segundo insulto a um cérebro que acabou de sofrer o primeiro. Some a isso o dado da anestesia: se as plaquetas estiverem caindo, a janela da técnica condutiva pode já ter fechado, e a anestesia geral em paciente com hipertensão grave provoca picos pressóricos na indução e na extubação — no pior órgão possível.
Como pegar a tempo: Separe as duas afirmações que costumam vir grudadas. A eclâmpsia indica interromper a gestação, independentemente da idade gestacional — isso é verdade. A eclâmpsia indica interromper a gestação neste minuto — isso é falso. A sequência é estabilizar primeiro: sulfato, via aérea, oxigênio, pressão na faixa-alvo, sensório recuperado, exames colhidos. O manual federal cifra a espera em geral entre quatro e seis horas, e lembra que a recuperação fetal intraútero é mais eficaz do que o nascimento durante a crise. Quando o parto vier, a via preferível é a vaginal, e a indução é possível se a vitalidade estiver preservada.
O dano: Documento oficial brasileiro erra número, e este capítulo tem três exemplos que o interno pode encontrar impressos. O primeiro está no artigo nacional de 2025 que propõe a linha de resposta rápida à pré-eclâmpsia: nos três fluxogramas de atendimento inicial, a linha do anti-hipertensivo aparece como "hidralazina – IV 5 g", quando a dose correta, escrita corretamente no quadro de agentes do mesmo artigo e no folder do mesmo artigo, é 5 mg. A conta dá o tamanho: 5 g são 250 ampolas de 20 mg; 5 mg são 5 mL da solução diluída a 1 mg/mL, ou seja, um quarto de uma ampola. O mesmo fluxograma da eclâmpsia manda tratar "apenas se PA ≥ 130 ou PAD ≥ 100 mmHg", enquanto o restante do artigo — e todos os demais documentos — usa 160 e 110; uma sistólica de 130 está abaixo até do limiar que define hipertensão na gestação. O segundo exemplo está numa bula profissional aprovada pela Anvisa em setembro de 2024, que orienta manter ao lado do leito "uma ampola de 1 mg de gliconato de cálcio" como antídoto: a dose é 1 g, e a ampola comercial de 10 mL a 10% contém exatamente 1 g. São mil vezes de diferença, e não existe ampola de 1 mg. A mesma bula descreve a ampola de 10% como contendo 0,1 g, quando a ampola de 10 mL contém 1 g — a linha está expressa por mililitro sob um cabeçalho que diz "cada ampola". O terceiro está no protocolo pré-hospitalar de 2016: a fenitoína de resgate é prescrita em 15 a 20 mg/kg para infundir "em 10 minutos", com velocidade máxima de 50 mg por minuto na mesma linha. Para uma mulher de 60 kg, 15 mg/kg são 900 mg e levam 18 minutos nesse teto; 20 mg/kg são 1.200 mg e levam 24. Cumprir os 10 minutos exigiria de 1,8 a 2,4 vezes a velocidade que a própria linha proíbe — e fenitoína acima de 50 mg/min produz hipotensão e distúrbio de condução, que é o que menos se quer numa paciente em acidose.
Como pegar a tempo: Adote uma regra de leitura e não uma regra de memória: toda dose lida num fluxograma se confere contra a tabela de doses do mesmo documento antes de ser prescrita, e toda conversão de grama para mililitro se refaz na hora, com a concentração da ampola na mão. Quando dois números do mesmo documento discordam, o que está na tabela de agentes ou na bula do produto costuma ser o correto, e o que está na caixinha do fluxograma costuma ser o erro de composição. Desconfie especialmente de três sinais: unidade que destoa da ordem de grandeza conhecida da droga, limiar que destoa do resto do texto, e tempo de infusão que não fecha com a velocidade máxima escrita ao lado. Nenhum desses três exige conhecimento novo — exigem uma conta de dez segundos.
O dano: Dois erros simétricos, e os dois custam. Parar a droga por receio, sob o argumento de que o reflexo está fraquinho, desarma justamente quem ainda pode convulsionar, numa janela em que a probabilidade continua a mesma. Seguir infundindo sem examinar ninguém, ainda mais com creatinina fora da faixa e volume urinário em queda, deixa o magnésio somar dose sobre dose até a respiração ceder — o rim é a única saída que ele tem. Há um terceiro erro no meio, mais discreto: retomar a infusão como se nada tivesse acontecido depois de duas horas suspensa. O nível sérico já caiu nesse intervalo, e a paciente passa a receber manutenção sobre um nível subterapêutico — ela está sendo tratada no papel e desprotegida na veia.
Como pegar a tempo: Preencha a planilha e leia cada linha dela isoladamente: reflexo patelar presente, respiração em 16 incursões por minuto ou mais, urina em 25 mL/hora ou mais. A checagem antecede toda aplicação intramuscular e se repete de quatro em quatro horas com a bomba correndo — de hora em hora quando o rim está comprometido ou a diurese, curta. Reflexo é presente ou ausente, não é forte ou fraco: na dúvida, teste o outro joelho e chame alguém para conferir junto. A partir de creatinina de 1,2 mg/dL o que se faz é cortar a manutenção pela metade, e não interrompê-la. E conte o tempo de suspensão pelo relógio: até duas horas, reinicia-se a infusão; passadas duas horas, é preciso nova dose de ataque de 2 g antes de retomar.
O dano: A crise passou, ela está conversando, a pressão está controlada — e é exatamente aí que a equipe relaxa. Três fatos desmentem a sensação. O primeiro: a manutenção do sulfato vai por 24 horas depois da última crise ou do parto, o que vier depois, e nesse intervalo a paciente segue sob vigilância de intoxicação. O segundo: as primeiras 24 horas depois do parto trazem uma piora transitória prevista, e do terceiro ao sexto dia vem o pico pressórico, quando o líquido do interstício retorna ao compartimento vascular — período que ela costuma atravessar fora do hospital. O terceiro: no pós-parto, o risco de eclâmpsia se concentra na primeira semana, e a alta costuma ser no segundo ou terceiro dia. Some a hemorragia: útero relaxado pelo magnésio, volume intravascular contraído, plaquetas possivelmente baixas, e a metilergometrina contraindicada.
Como pegar a tempo: Trate a alta como ato clínico: relatório escrito, orientação sobre sinais de alarme por escrito, plano de aferição de pressão e consulta marcada entre 7 e 10 dias, além da revisão de 6 a 8 semanas — não "procure o seu pré-natal". Nomeie para ela os quatro avisos — dor de cabeça que insiste, vista alterada, dor na boca do estômago, falta de ar — e diga que qualquer um deles dispensa esperar a data marcada. E confira, antes de precisar, qual será o segundo uterotônico dessa paciente, porque o da prateleira está proibido para ela.
O que dizer ao paciente e à família
A conversa desta doença tem uma peculiaridade que nenhuma outra deste livro tem: a paciente não estava presente no pior momento dela. Quem viu a crise foi a família — e vai lembrar dela pelo resto da vida com uma nitidez que a própria mulher jamais terá. Isso divide o trabalho em duas frentes que não podem ser feitas com o mesmo texto: informar quem viu, e contar a quem não viu.
A segunda peculiaridade é o consentimento. As primeiras decisões acontecem com a paciente inconsciente, e não há tempo nem interlocutor para explicar antes. A saída não é fingir que houve consentimento; é explicar em voz alta o que se está fazendo, na frente de quem estiver, e depois voltar e contar tudo de novo para a mulher quando ela puder ouvir.
Os dez segundos com a família enquanto a crise ainda acontece
“"A senhora fica aqui comigo, do lado de fora dessa porta. Ela está tendo uma convulsão por causa da pressão da gravidez, e isso vai parar sozinho em um ou dois minutos. Eu vou virá-la de lado, dar oxigênio e um remédio que impede a próxima. É grave e a gente está no lugar certo. Assim que eu puder, eu volto aqui e conto tudo — me diga só duas coisas agora: que horas ela começou, e se ela já teve isso antes."”
Não diga: Sumir para dentro da sala sem dizer nada, que é o que a pressa produz naturalmente, e depois voltar quarenta minutos depois com um diagnóstico pronto. Também não diga "vai ficar tudo bem" — nesse minuto você não sabe, e a frase será cobrada. As duas perguntas que você faz não são cortesia: a hora e o antecedente mudam a conduta.
Explicando por que não vai dar calmante, quando alguém pede
“"Eu sei que parece que ela precisa de um calmante, e é o que a maioria das pessoas espera. Só que essa convulsão não vem do cérebro dela estar agitado — vem da pressão machucando os vasos do cérebro. Calmante faria ela dormir e não impediria a próxima convulsão, e ainda ia atrapalhar a respiração dela e me impedir de perceber se ela está piorando. O remédio certo é outro, chama sulfato de magnésio, e é ele que evita a próxima."”
Não diga: Discutir farmacologia com a família ou com o colega no corredor, no meio do atendimento. E não trate o pedido como ignorância: quem pede calmante está pedindo que a mulher pare de sofrer na frente dele, o que é razoável. Responda ao medo e depois à farmacologia.
A mulher que acorda e não lembra de nada
“"Nayara, você está no hospital, eu sou o médico que está cuidando de você e o bebê está aqui dentro, batendo. Você teve uma convulsão em casa, por causa da pressão alta da gravidez. Você não vai lembrar disso, e isso é normal — ninguém lembra. Sua mãe e seu cunhado estão aqui fora e estão bem. Você está com um soro que evita que aconteça de novo, e é por isso que você vai sentir calor no corpo e um pouco de sono. Eu vou te contar tudo com calma, e vou repetir depois, porque agora você ainda vai esquecer parte do que eu disser."”
Não diga: Começar por "você sabe onde está?" e transformar o reencontro dela com o mundo num teste. Também não diga "você teve uma crise" e mude de assunto: a lacuna de memória assusta mais do que a convulsão, e quem não recebe a explicação preenche o vazio sozinha, quase sempre com algo pior. E não conte a versão dramática que a família contou — ela vai ouvir essa versão de qualquer jeito, e precisa da sua primeiro.
Contando à família o que aconteceu, depois que a paciente estabilizou
“"Ela teve uma eclâmpsia. É uma complicação da pressão alta da gravidez em que a pressão chega com força demais nos vasos do cérebro e o cérebro descarrega — é isso que vocês viram. Ela está com um remédio na veia que reduz muito a chance de acontecer de novo, e vai ficar com ele por pelo menos vinte e quatro horas. O tratamento definitivo é o bebê nascer, e isso vai acontecer; o que a gente não vai fazer é operar agora, no meio disso, porque agora ela e o bebê estão se recuperando e a cirurgia neste momento faria mal aos dois. A senhora não fez nada de errado, e ela também não."”
Não diga: Usar "convulsão" e "eclâmpsia" como se fossem sinônimos sem explicar a diferença, e usar "derrame" para simplificar. Não prometa que não vai repetir — o remédio reduz a chance, não zera. E não deixe passar a frase de culpa sem responder: "eu deixei ela subir a escada", "eu não levei antes". Se não responder, ela fica.
Dizendo que o bebê vai nascer antes da hora
“"O tratamento dessa doença é o nascimento, então o bebê de vocês vai nascer antes do tempo — hoje ou nos próximos dias, isso quem decide é a obstetra junto com a Nayara. Ele está com trinta e uma semanas, o que quer dizer que provavelmente vai precisar de UTI neonatal por um tempo, e que a chance de ele ir bem é grande. Existe uma injeção que a gente pode fazer nela para amadurecer o pulmão dele mais rápido, e ela funciona melhor quando é feita perto do nascimento. Vou dizer o que eu sei e o que eu não sei: eu não sei quanto tempo ele vai ficar internado, e não vou inventar um número."”
Não diga: Cravar uma semana de gestação, garantir que o parto será de um jeito ou de outro, ou assegurar que a UTI neonatal não será necessária. E cuidado ao anunciar o que não cabe a você anunciar: quem define quando e como esse bebê nasce é a equipe de obstetrícia, junto com ela, com o neonatologista e com quem vai anestesiar.
O que se fala ao entregar a paciente à equipe de remoção
“"Gestante de 31 semanas e 4 dias, segunda gestação, eclâmpsia. Uma crise tônico-clônica presenciada pela família, início às 2h28, duração aproximada de quatro minutos, sem nova crise desde então; recuperou o sensório às 3h05, orientada. Sulfato de magnésio esquema de Pritchard: ataque de 4 g intravenoso às 2h52, mais 10 g intramuscular às 2h58 em quatro sítios. Próxima dose intramuscular de 5 g às 6h58. Pressão de entrada 178 por 118; hidralazina 5 mg intravenosa às 3h10 e às 3h32; pressão de controle 148 por 96 às 3h50. Reflexo patelar presente, frequência respiratória 18, diurese 45 mL na primeira hora com sonda. Glicemia capilar 96. Exames colhidos às 2h55, vão com ela. Vai em decúbito lateral esquerdo, acesso no braço direito, com o relatório escrito."”
Não diga: Passar "eclâmpsia grave" sem horários e sem doses. Quem recebe precisa do horário exato de cada aplicação, sob pena de duplicar uma dose ou deixar a seguinte vencer, e precisa do total de crises para saber se está herdando uma recorrência isolada ou um estado de mal. Nada disso sobrevive a uma passagem dita de pé no corredor — sobrevive no papel que vai junto com ela.
Na alta, dizendo o que ela leva para a semana e para a vida
“"Você vai para casa, mas a doença ainda tem uma semana de atenção pela frente, e isso não é exagero meu: do terceiro ao sexto dia a pressão costuma dar outra escalada, e é nessa primeira semana que uma nova convulsão é mais provável. Então três coisas. Esta lista aqui, escrita, com os sinais para você voltar sem esperar consulta: dor de cabeça que não passa com remédio, vista embaçada ou pontos pretos, dor na boca do estômago, falta de ar. Este papel com o plano de medir a pressão. E esta consulta, marcada, daqui a uma semana. E tem uma quarta coisa, para daqui a anos: quem teve o que você teve tem mais chance de pressão alta, problema de coração e de rim no futuro. Isso não está escrito na pedra: é a razão de você manter acompanhamento e tratar o que for tratável."”
Não diga: Dar alta dizendo "sua pressão normalizou, pode ir". E não solte o risco de longo prazo como um susto solto: o aviso só serve acompanhado de data, endereço e conduta. Se alguém vai aferir a pressão dela em casa ou no posto, veja como isso está sendo feito: número colhido de qualquer jeito engana igual, venha de quem vier.
Onde bons médicos discordam
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.
Difenil-hidantoína, no esquema clássico
Nos casos de recorrência da crise, administram-se mais 2 g de sulfato em bolus e eleva-se a manutenção para 2 g por hora; se isso não controlar as convulsões, o fármaco de escolha passa a ser a difenil-hidantoína no esquema clássico para crises convulsivas, e recomenda-se investigar complicações cerebrais, principalmente hemorragia intracraniana, por exames de imagem. O protocolo pré-hospitalar segue a mesma linha e explicita a dose por peso — 15 a 20 mg/kg diluídos em salina —, reservando-a aos casos refratários ao sulfato. O argumento é que o benzodiazepínico sedaria uma paciente cujo nível de consciência é o principal parâmetro de vigilância, e que a hidantoína controla sem apagar.
RBEHG, Protocolo Pré-eclâmpsia 2025, seção de recorrência da crise convulsiva; SAMU 192, Suporte Avançado de Vida (2016), protocolo AGO12
Benzodiazepínico, depois de dois bolus de sulfato
O manual federal admite explicitamente que, se duas doses em bolus de sulfato de magnésio não controlarem as convulsões, ainda se pode lançar mão de diazepam, lorazepam ou midazolam. O argumento é de disponibilidade e de rapidez: benzodiazepínico existe em qualquer sala de emergência do país, age em segundos e não exige cálculo por peso nem diluição em volume grande; hidantoína exige acesso pérvio, salina antes e depois pela alcalinidade da solução, monitorização de pressão e de eletrocardiograma, e uma janela de vinte minutos ou mais de infusão que a paciente em crises subentrantes pode não ter.
Manual de Gestação de Alto Risco (MS, 2022), seção 11.7.2
Repare primeiro no que os dois lados concordam, porque é o que resolve nove de cada dez casos: nenhum deles põe uma segunda droga antes do sulfato, e os dois passam pelo reforço de 2 g e pela manutenção de 2 g por hora antes de considerar qualquer troca. A divergência só se abre no degrau seguinte, e aí decida pelo que a paciente está fazendo e pelo que você tem. Se as crises são isoladas e ela acorda entre elas, você tem tempo: hidantoína, com o eletrocardiograma ligado e o relógio contando os minutos da infusão. Se ela está em crises subentrantes sem recuperar consciência, você não tem tempo e vai precisar de via aérea definitiva de qualquer modo — nesse cenário o benzodiazepínico deixa de ser um atalho e vira parte do plano de intubação, feito por quem vai assumir a via aérea, e a paciente vai para terapia intensiva com neuroimagem programada. O critério é o mesmo dos dois lados: escolha a droga que você consegue administrar com segurança no lugar onde está, e não a que o algoritmo prefere no lugar onde você não está.
Pritchard é a escolha sempre que falta bomba ou há transporte pela frente
Quando a sulfatação é indicada em local sem bomba de infusão, deve-se preferir o esquema de Pritchard, porque a manutenção do Zuspan exige o equipamento. Da mesma forma, se for necessário referenciar a gestante para outro serviço e a ambulância não tiver bomba, o esquema preferencial é o de Pritchard, que confere maior segurança ao transporte por garantir quatro horas de concentração terapêutica graças à administração intramuscular concomitante à intravenosa no ataque. O material nacional de resposta rápida repete a regra nos três fluxogramas: ambulância com bomba, mantém-se 1 g/hora intravenoso; sem bomba, realiza-se o esquema de 4 g intravenoso mais 10 g intramuscular.
RBEHG, Protocolo Pré-eclâmpsia 2025, seção de aspectos relacionados ao uso do sulfato; Braga A et al., Femina 2025;53(8), quadros 3 a 5 e 8
Intramuscular somente na impossibilidade de acesso venoso
O protocolo pré-hospitalar nacional rotula o quadro do sulfato intramuscular com a ressalva expressa de que ele é indicado somente se houver impossibilidade de instalação de acesso venoso, e reserva a manutenção intramuscular aos casos de transporte prolongado acima de quatro horas, dizendo que essa escolha considerou as peculiaridades do cenário pré-hospitalar. O argumento é de dano da via: a aplicação intramuscular tem risco de abscesso e de hematoma, é dolorosa, exige agulha longa e não deve ser usada na síndrome HELLP com plaquetopenia — e a mesma fonte lembra que doses de manutenção aumentam o risco de intoxicação pela droga.
SAMU 192, Suporte Avançado de Vida (2016), protocolos AGO11 e AGO12; Manual de Gestação de Alto Risco (MS, 2022), quadro 7
Decida pelo trajeto, não pela doutrina, e note que a divergência é menor do que parece porque as duas posições foram escritas de lugares diferentes: uma do ponto de vista de quem entrega a paciente, outra do ponto de vista de quem a transporta. Some três coisas concretas. Primeira, o tempo real até um serviço com maternidade — se a ambulância leva quarenta minutos para chegar e mais uma hora para atravessar a região, a cobertura de quatro horas do componente intramuscular é exatamente o que falta, e a alternativa honesta não é o Zuspan sem bomba, é nenhuma manutenção. Segunda, o que existe na ambulância: gotejamento improvisado de sulfato sem bomba não é uma opção intermediária, é um erro de dose com nome bonito. Terceira, a contagem de plaquetas, se você a tiver: plaquetopenia é a contraindicação que muda a resposta, porque hematoma em glúteo de paciente com 60.000 plaquetas é complicação séria. Na dúvida com a paciente já sulfatada por via venosa e transporte curto pela frente, o erro reversível é chegar ao destino sem o componente intramuscular; o irreversível é convulsionar dentro da ambulância sem nada correndo.
Um relógio: em geral de quatro a seis horas
O manual federal é explícito ao dizer que se deve aguardar um tempo, em geral entre quatro e seis horas, para que a gestante e o feto se recuperem do insulto convulsivo, a crise hipertensiva esteja controlada e a avaliação de complicações como insuficiência renal, síndrome HELLP e coagulopatias esteja completada. O argumento a favor de um número é operacional: a advertência que ele acompanha é contra a cesariana intempestiva durante ou logo após a convulsão, e uma equipe sob pressão para operar cede mais facilmente a um critério subjetivo do que a um intervalo escrito.
Manual de Gestação de Alto Risco (MS, 2022), seção 11.7.1
Critérios fisiológicos, sem número: assim que estabilizar
O protocolo da rede nacional não fixa intervalo: afirma que a estabilização clínica materna é mandatória mesmo nos casos de indicação absoluta de resolução, e que ela passa pela introdução do sulfato. O próprio manual federal, na seção sobre o momento de interromper, escreve que o nascimento deve ocorrer independentemente da idade gestacional logo que o quadro clínico estiver estabilizado, com a recuperação do sensório e o controle da hipertensão arterial grave. O argumento contra o relógio é que ele erra nos dois sentidos: uma mulher que recuperou o sensório em quarenta minutos, com pressão na faixa-alvo e exames sem surpresa, não ganha nada esperando mais três horas — e uma mulher que às seis horas continua sonolenta e hipertensa não está pronta só porque o intervalo passou.
RBEHG, Protocolo Pré-eclâmpsia 2025, seção de conduta obstétrica e momento de resolução; Manual de Gestação de Alto Risco (MS, 2022), seção 11.7.3
Use o relógio como piso de segurança e os critérios como autorização, porque é assim que os dois lados param de se contradizer. Na prática: antes de qualquer decisão de parto, três coisas precisam estar verdadeiras — sensório recuperado, hipertensão grave controlada dentro da faixa-alvo, e exames colhidos e lidos. Enquanto uma das três estiver faltando, o intervalo de quatro a seis horas é o seu argumento na conversa com quem quer levar a paciente ao centro cirúrgico agora, e é um bom argumento. Quando as três estiverem prontas antes disso, quem decide o momento é o obstetra, compartilhando com a paciente, o neonatologista e o anestesiologista — e a pergunta que abre essa conversa não é sobre o cronômetro, é sobre o que aquele hospital consegue oferecer a um recém-nascido daquela idade gestacional. Duas exceções encerram a discussão e puxam o parto para frente: sangramento por descolamento prematuro de placenta e vitalidade fetal francamente alterada depois de a mãe estar estabilizada. E uma trava vale nos dois cenários: a decisão de operar não substitui a estabilização, ela vem depois dela — inclusive porque a plaquetopenia progressiva pode fechar a janela da anestesia condutiva enquanto se discute.
O raciocínio, em voz alta
Nayara Pontes, 26 anos, segunda gestação, 31 semanas e 4 dias, chega às 2h40 de sábado ao pronto-socorro de um hospital geral de noventa leitos, trazida em carro particular pelo cunhado e pela mãe, em crise convulsiva tônico-clônica generalizada iniciada em casa há cerca de três minutos. A maternidade fica no segundo andar e a obstetra de plantão está em centro cirúrgico desde a 1h50. Você é o interno do plantão noturno, com uma técnica de enfermagem experiente ao lado. Não há cartão de pré-natal, não há pressão anterior registrada e não há laboratório de plantão.
o que penso agora
Gestante acima de 20 semanas convulsionando é eclâmpsia até prova em contrário, e não preciso de mais nada para começar. Não vou medir pressão agora, não vou puncionar agora e não vou pedir exame agora — durante a crise há três tarefas e nenhuma delas é diagnóstica. E não vou pedir diazepam, que é a droga que a minha mão alcançaria em qualquer outra convulsão desta sala.
o que faço nos três primeiros minutos
Peço em voz alta a caixa de emergência hipertensiva e mando ligar para a maternidade avisando gestante em eclâmpsia. Afasto a grade da maca, apoio a cabeça de Nayara e não seguro os membros à força. Não coloco nada na boca dela. Assim que os abalos permitem, lateralizo à esquerda. Marco a hora no relógio da parede: a mãe diz que começou por volta de 2h28.
o que faço quando a crise para
A crise cessa às 2h32, com pouco mais de quatro minutos de duração. Agora é a fase em que ela aspira: a Rosimeire aspira secreções, eu coloco a cânula orofaríngea, que entra sem forçar, e ponho máscara com reservatório a 10 L/min. Puncionamos dois acessos calibrosos no braço direito — direito porque o esquerdo vai ficar por baixo no transporte — e, na mesma punção, colho os tubos. Glicemia capilar: 96. A primeira pressão, medida com ela já lateralizada, é 178 por 118.
como decido qual esquema de sulfato usar
A decisão é logística e não clínica. A UPA tem uma bomba de infusão, mas ela está em uso na sala ao lado, e Nayara vai subir para a maternidade e possivelmente ser transferida para a referência regional se precisar de UTI neonatal — em ambulância que eu não sei se tem bomba. Então é Pritchard: o componente intramuscular me compra quatro horas de concentração terapêutica sem depender de equipamento nenhum.
o que prescrevo, e como confiro a conta
Abro a caixa. As ampolas são de 10 mL a 50%, cinco gramas cada — leio o rótulo em voz alta e a Rosimeire confirma comigo. Ataque intravenoso: 8 mL, que são 4 g, diluídos em 12 mL de água destilada, totalizando 20 mL. Infundo lentamente contando no relógio, das 2h52 às 3h10, algo em torno de vinte minutos. Em seguida o componente intramuscular: 10 g são 20 mL da mesma ampola. Aplico como 2,5 g — 5 mL — em cada um de quatro grupamentos musculares, às 2h58, para reduzir o risco de necrose. Anoto que a próxima dose intramuscular de 5 g, que são 10 mL, cai às 6h58.
o que penso enquanto o sulfato corre
Pressão sistólica ≥160 OU diastólica ≥110 mmHg persistente exige anti-hipertensivo de ação rápida, sem aguardar o efeito do magnésio. Confirmar prontamente a medida quando cabível; tratar a emergência e prevenir ou tratar convulsões em paralelo, com monitorização e reavaliações após cada dose. Magnésio não substitui anti-hipertensivo. Neuroimagem é considerada se houver sinais atípicos, déficit focal ou recuperação insatisfatória; não deve atrasar a estabilização.
o que a reavaliação mostra, e o que prescrevo depois
3h05: Nayara abre os olhos, confusa, mas responde ao nome. 3h08: pressão 172 por 114, ainda em crise. Prescrevo hidralazina — e aqui a via importa: ela acabou de convulsionar e o nível de consciência ainda oscila, então comprimido está fora de questão pelo risco de broncoaspiração. Diluo a ampola de 1 mL a 20 mg/mL em 19 mL de água destilada, o que dá 1 mg/mL, e aspiro 5 mL para os 5 mg. Faço às 3h10 e programo reavaliação em 20 minutos, com teto de 30 mg. O alvo é sistólica entre 140 e 150 e diastólica entre 90 e 100 — não é normalizar.
o que vigio nas horas seguintes
Passo sonda vesical de demora, depois do sulfato e nunca antes dele. Começo a planilha: reflexo patelar, frequência respiratória, diurese, pressão, oximetria e sintomas. Às 3h50 a pressão está 148 por 96 depois de uma segunda dose de hidralazina às 3h32; reflexo patelar presente, frequência respiratória 18, 45 mL de diurese na primeira hora. Ela reclama de calor no rosto — eu tinha avisado, é o efeito esperado da vasodilatação e não é alergia. Confirmo que há duas ampolas de gluconato de cálcio a 10% na caixa. Não há nova crise.
o que decido não fazer
Quando a obstetra sai do centro cirúrgico às 3h40, a primeira pergunta dela é se já pedimos vaga de centro cirúrgico. Respondo com a conta que fiz: Nayara convulsionou às 2h28, recuperou o sensório às 3h05, a pressão está na faixa-alvo desde as 3h50 e os exames foram colhidos às 2h55 mas ainda não voltaram. O tratamento definitivo é o nascimento e ele vai acontecer — mas operar agora, com mãe e feto saindo de uma acidose, soma um segundo insulto ao primeiro. A cardiotocografia feita às 3h15 estava feia; repetida às 4h10, com a mãe oxigenada e lateralizada, está tranquilizadora, que é exatamente o que se espera da recuperação intraútero.
o que aconteceu
Os exames voltaram às 5h20: plaquetas 118.000/mm³, transaminase oxalacética 64 UI/L, creatinina 0,9 mg/dL, desidrogenase láctica 520 U/L. Não é síndrome HELLP, mas é uma curva para acompanhar. Nayara recebeu betametasona 12 mg intramuscular às 5h30, porque a resolução estava prevista para as próximas 48 horas, e sulfato de magnésio manteve-se pelo esquema de Pritchard. O parto ocorreu por via vaginal às 15h40, com indução, e o recém-nascido de 31 semanas e 4 dias foi para a UTI neonatal. O sulfato foi mantido por 24 horas depois do nascimento. A anotação que ficou no prontuário e que resume o capítulo é a mais curta: crise às 2h28, primeira grama de sulfato às 2h52 — vinte e quatro minutos entre a convulsão que ninguém controlou e a droga que impediu a seguinte.
Variação do caso — resposta e reavaliação
Variação do caso de Nayara: a crise cessa e ela recupera consciência, mas fica muito sonolenta. Conferir tempo pós-ictal, ventilação, glicemia e parâmetros de segurança do magnésio. Recuperação progressiva com estabilidade permite continuar o plano; não reduzir a vigilância apenas porque não houve outra convulsão.
Variação do caso — quando mudar o plano
Se houver nova crise, déficit focal ou rebaixamento que não melhora, acionar suporte avançado e revisar causas alternativas ou associadas, inclusive evento cerebrovascular. Tratar a crise e investigar em paralelo. Alteração respiratória e reflexos abolidos durante magnésio também exigem avaliar toxicidade, não apenas supor recorrência de eclâmpsia.
Faça você
São 8h10 de uma terça-feira na enfermaria de obstetrícia. Ivanilde Torres, 34 anos, quarta gestação, 36 semanas, está internada há 14 horas com diagnóstico de eclâmpsia: convulsionou ontem à noite às 18h05, recebeu ataque de 4 g de sulfato de magnésio por via intravenosa e está em manutenção pelo esquema de Zuspan, 1 g por hora em bomba, desde as 18h40. A pressão vem entre 138 e 148 de sistólica desde a meia-noite. Você chega para a visita e a técnica te chama: Ivanilde acabou de ter uma nova crise tônico-clônica, presenciada, com cerca de dois minutos de duração, e agora está sonolenta mas responde ao chamado. A bomba está infundindo. A última anotação da planilha de vigilância é das 4h da manhã e diz: reflexo presente, frequência respiratória 17, diurese 30 mL/h. Os exames da admissão mostraram plaquetas de 142.000/mm³ e creatinina de 1,3 mg/dL.
o que já sei
Uma paciente com eclâmpsia convulsionou de novo apesar do sulfato correndo. Isso não significa que o sulfato falhou nem que ele deve ser trocado: reconvulsão é evento previsto do tratamento e tem conduta própria. O que preciso decidir é se estou diante de uma reconvulsão isolada ou de um estado de mal, e a pergunta que separa as duas é se ela recuperou a consciência entre as crises — recuperou, está respondendo ao chamado.
o que me incomoda nos dados
Três coisas. A creatinina de 1,3 mg/dL na admissão, que muda a dose de manutenção e que ninguém parece ter levado em conta ao programar a bomba. A diurese de 30 mL/h às 4h, que está dentro da faixa mas raspando o corte de 25. E o buraco de quatro horas na planilha, num intervalo em que a recomendação nacional é de checagem nunca maior que quatro horas — e menor ainda em quem tem função renal alterada.
onde eu ainda não decidi
Quanto sulfato dar agora e em que volume; se a manutenção sobe, e para quanto, considerando a creatinina; o que checar antes de qualquer dose adicional e o que fazer se algum parâmetro estiver alterado; se esta paciente precisa de imagem de crânio; que exames repetir; e o que muda na conversa com a obstetra sobre o momento do parto.
Ver como fecharíamos
Comece pelo exame, não pela prescrição, porque nesta paciente há um risco competindo com o outro. Cheque agora, antes de qualquer dose: reflexo patelar, frequência respiratória contada por um minuto inteiro e diurese da última hora. A creatinina de 1,3 mg/dL diz que ela depura magnésio mal, e a diurese de 30 mL/h às 4h da manhã, com quatro horas sem nova anotação, é exatamente o cenário em que o acúmulo se instala sem que ninguém veja. Se o reflexo estiver abolido ou a frequência respiratória abaixo de 16, o problema não é falta de sulfato — pare a infusão, dose o magnésio sérico e trate como intoxicação, com gluconato de cálcio a 10%, 1 g em uma ampola de 10 mL por via intravenosa lenta, se houver depressão respiratória. Com os três parâmetros preservados, trate a reconvulsão: mais 2 g de sulfato por via intravenosa em bolus, administrados em cerca de 20 minutos — 4 mL da ampola a 50%, ou 20 mL se a farmácia só tiver a de 10% —, e eleve a manutenção para 2 g por hora, o que corresponde a 200 mL/h da solução de 5 g em 500 mL de soro fisiológico. Aqui entra o ajuste que ninguém fez: com creatinina igual ou acima de 1,2 mg/dL, a dose de manutenção deve ser a metade da recomendada, e a magnesemia passa a ser exame indicado — esta é uma das duas únicas situações em que ela se justifica. Reprograme a vigilância para intervalos de uma hora, que é o que a recomendação nacional prevê para função renal alterada ou diurese reduzida. Esta reconvulsão muda a lista de exames e abre a porta da imagem. Repita plaquetas, transaminase oxalacética, desidrogenase láctica, bilirrubinas e creatinina, porque a curva é o que decide e a plaquetopenia progressiva fecharia a janela da anestesia condutiva. Peça tomografia de crânio se aparecer qualquer um destes: déficit neurológico focal, coma que se prolonga, alteração visual que não regride ou uma terceira crise. O que se procura é hemorragia intracraniana. Se a próxima crise vier apesar do reforço, o fármaco seguinte é a difenil-hidantoína no esquema clássico — 15 a 20 mg/kg por via intravenosa, respeitando o teto de 50 mg por minuto, o que para 70 kg significa entre 21 e 28 minutos de infusão, com pressão e eletrocardiograma monitorados. E avise a obstetra com o dado certo. Ivanilde tem 36 semanas, já tinha indicação de resolver por ser eclâmpsia, e a reconvulsão em vigência de sulfato reforça essa indicação — mas não a torna cirúrgica neste minuto. A sequência continua a mesma: sensório recuperado, pressão na faixa, exames lidos, e então o obstetra decide o momento e a via, com preferência pela via vaginal se a vitalidade estiver preservada. Enquanto isso, mantenha o sulfato e recomece a contagem: as 24 horas de manutenção passam a contar a partir desta crise, não da de ontem.
Duas afirmações costumam vir grudadas e precisam ser separadas. A eclâmpsia indica interromper a gestação, independentemente da idade gestacional — isso é verdade, e o tratamento definitivo é o nascimento. A eclâmpsia indica interromper a gestação neste minuto — isso é falso, e o manual federal descreve a cesariana intempestiva durante ou logo após a crise como atitude frequentemente adotada que deve ser evitada. A razão é fisiológica: mãe e feto estão em acidose e hipoxemia, e uma cirurgia de grande porte com anestesia geral soma um segundo insulto ao primeiro, com picos pressóricos na indução e na extubação num cérebro que acabou de sofrer. A recuperação fetal intraútero é mais eficaz do que o nascimento durante a crise, e o traçado feito durante a convulsão, com útero hipertônico, é assustador e enganoso — repetir a avaliação com a mãe oxigenada e lateralizada é parte da conduta, não protelação. O intervalo de quatro a seis horas citado no manual federal é referência para essa recuperação, não uma espera obrigatória que se cumpra contra a clínica: se a vitalidade permanecer alterada depois da estabilização materna, a resolução passa a ser urgente.
Teste-se
Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.
Plano de revisão
Em 7 dias
Reconstrua de memória, sem consultar: os quatro gestos dos três primeiros minutos de uma convulsão em gestante, na ordem; por que o sulfato de magnésio e não o benzodiazepínico, com o mecanismo em uma frase; a dose de ataque em gramas e quantos mililitros ela vale nas apresentações a 10% e a 50%; os três parâmetros de vigilância da intoxicação com seus cortes; e a ordem em que os sinais de hipermagnesemia aparecem. Depois confira e refaça só o que errou. Aplicação comentada: A pressão melhorou, mas a paciente segue sem proteger a via aérea. A melhora encerra a emergência? Não: suporte ventilatório e avaliação neurológica continuam prioritários.
Em 30 dias
Vá até a caixa de emergência hipertensiva do serviço em que você estiver — pergunte onde ela fica, que essa já é metade do exercício — e responda por escrito: ela existe? Está lacrada e com data de conferência? Quantas ampolas de sulfato tem, e de qual concentração? Tem gluconato de cálcio dentro? Tem cânula de Guedel e máscara com reservatório? Em seguida, escreva de cabeça a prescrição completa dos primeiros quarenta minutos de uma eclâmpsia numa unidade sem bomba de infusão — sulfato e anti-hipertensivo, com volumes, tempos e teto — e confira contra as tabelas deste capítulo.
Agora atenda
Uma gestante de terceiro trimestre é trazida ao pronto-socorro de um hospital geral em crise convulsiva, sem cartão de pré-natal e sem obstetra disponível no momento. Conduza o atendimento: faça o que tem de ser feito enquanto a crise acontece, garanta a via aérea, prescreva a droga certa com a dose e o volume da ampola que você tem, decida se e quando entra o anti-hipertensivo, estabeleça a vigilância das horas seguintes e diga à família o que está acontecendo.
