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Abortamento
Duzentas mil internações por ano, e em noventa e cinco de cada cem o instrumento usado é o que a Organização Mundial da Saúde manda usar só quando não há o outro. Entre uma conduta e outra existem três perguntas — o colo, o conteúdo e a febre.
Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo). Abortamento espontâneo: classificação, diagnóstico e conduta. Femina. 2025;53(1):47-52. (Protocolo Febrasgo de Obstetrícia, nº 17/Comissão Nacional Especializada em Assistência Pré-natal)
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Gestante de 19 semanas com óbito fetal intrauterino confirmado, estável e afebril, internada para esvaziamento. Tem duas cesáreas anteriores. Após avaliação especializada, foi escolhido manejo medicamentoso. Qual opção se alinha ao esquema para óbito fetal do posicionamento FEBRASGO 2023, com os cuidados exigidos pelas cicatrizes uterinas?
O paciente que você vai ver
Simone tem 24 anos, dois filhos e chegou à unidade de pronto-atendimento às duas e dez da manhã de um sábado, com sangramento vaginal e cólica. Está grávida de nove semanas — sabe a data porque fez o teste de farmácia no dia do atraso e tinha a primeira consulta de pré-natal marcada para a semana seguinte. O sangramento começou na tarde anterior, era pouco, e à noite virou coágulo. Veio de aplicativo, sozinha, com um absorvente noturno já encharcado dentro da bolsa. Na triagem disse: "estou grávida e estou sangrando". Pressão 110 por 70, pulso 96, temperatura 36,8 °C. A classificação foi amarela e ela sentou.
Às três e meia foi chamada. O médico ouviu a história, palpou o abdome — indolor, sem defesa —, escreveu "sangramento de primeiro trimestre, ameaça de abortamento a esclarecer", pediu ultrassonografia transvaginal e beta-hCG e prescreveu escopolamina. Não fez exame especular. Não fez toque. A ultrassonografia da unidade só funciona de segunda a sexta; o pedido foi encaminhado para a manhã de segunda-feira. Simone voltou para a cadeira da sala de espera com uma requisição na mão e a orientação de "aguardar o resultado".
Às cinco e quarenta ela chamou a enfermeira porque tinha molhado a roupa. Foi levada para uma maca. Às seis, um segundo plantonista passou o espéculo. O que ele viu resolveu o caso em vinte segundos: sangue vivo saindo pelo orifício externo e, encostado nele, um fragmento de tecido acinzentado, saliente. Ao toque, o orifício interno estava pérvio e admitia a polpa do dedo. Não era ameaça de abortamento coisa nenhuma. Era abortamento incompleto, com colo aberto e conteúdo dentro — o diagnóstico que se faz com espéculo, luva e luz, e que nenhuma ultrassonografia de segunda-feira ia melhorar.
A partir daí o atendimento andou, e andou mal. Simone recebeu dipirona endovenosa às seis e quinze — a primeira analgesia de verdade em quatro horas de cólica. Ficou em jejum esperando o centro cirúrgico. Às nove e vinte entrou para curetagem sob anestesia geral. O kit de aspiração manual intrauterina estava na sala, lacrado, e ninguém do plantão tinha treinamento para usá-lo; a curetagem foi feita porque é o que se faz. Ela acordou bem, sem intercorrência, e recebeu alta às três da tarde com receita de dipirona e retorno em trinta dias.
Duas coisas ficaram para trás. A primeira estava no cartão do pré-natal que ela nem chegou a abrir: Simone é O negativo. Ninguém pediu tipagem, ninguém prescreveu imunoglobulina anti-D, e a janela de setenta e duas horas fechou no domingo, enquanto ela dormia em casa. A segunda estava na conversa que não houve: ninguém perguntou se ela queria engravidar de novo, quando, e com o quê. Ela saiu do hospital sem método, e voltaria a menstruar em quatro a seis semanas — com ovulação antes disso.
Nada do que aconteceu com Simone foi raro, e nada dependeu de tecnologia. O erro do primeiro atendimento não foi de conhecimento: foi de sequência. O médico pediu uma imagem antes de fazer o exame que a imagem só confirmaria, e com isso trocou vinte segundos de espéculo por trinta e seis horas de espera. O erro do segundo foi de instrumento: escolheu a cureta num caso de primeiro trimestre em que a aspiração é o método recomendado e está fisicamente no serviço. O erro do terceiro foi de checklist: deixou passar a única prescrição daquele dia que protegia a próxima gestação, não esta.
O abortamento é a complicação mais comum da gravidez e a urgência ginecológica que mais aparece no plantão. Ele quase nunca exige uma decisão difícil; exige uma decisão certa, e a certa muda inteiramente conforme a forma clínica. A mesma mulher, com o mesmo beta-hCG e a mesma idade gestacional, recebe conduta expectante, comprimido ou centro cirúrgico dependendo de três respostas que cabem numa linha de prontuário: o colo está aberto ou fechado, sobrou conteúdo dentro do útero, e existe febre. Quem não classifica trata todas igual — manda todas para a curetagem, ou manda todas para casa. As duas coisas machucam.
Quem adoece disso
O Sistema de Informações Hospitalares registrou, entre 2008 e 2015, 1.618.482 internações por aborto no Brasil — uma média de 202.310 por ano, ou 554 por dia. É uma internação a cada dois minutos e quarenta e cinco segundos, dia e noite, feriado e domingo. A série cai devagar (213.224 em 2008, 193.020 em 2015, uma redução de 9,5% em oito anos) e o custo direto fica em torno de R$ 40 milhões ao ano. A consequência clínica desse número é a mais simples de todas: nenhum interno termina o internato de ginecologia e obstetrícia sem atender abortamento, e quem estiver de plantão numa maternidade de porte médio atende mais de um por noite.
Dentro dessas internações está o dado que mais deveria incomodar. O procedimento informado foi curetagem pós-abortamento em cerca de 95% dos casos, e a aspiração manual intrauterina, em 5% — algo como 192 mil curetagens e 10 mil aspirações por ano. A Organização Mundial da Saúde e a Federação Internacional de Ginecologia e Obstetrícia recomendam exatamente o contrário: aspiração como método de primeira escolha no primeiro trimestre, e curetagem apenas quando a aspiração não estiver disponível. O Brasil, portanto, trata quase toda a sua principal urgência ginecológica com o método de segunda linha. Não é falta de insumo em toda parte: é rotina de serviço, formação de plantonista e inércia de sala cirúrgica — três coisas que um interno pode ajudar a mudar dentro do próprio hospital em que está.
A mortalidade é pequena em número absoluto e grande em significado. Entre 2006 e 2015, o Sistema de Informações sobre Mortalidade registrou 770 óbitos com aborto como causa básica (CID-10 O03 a O07), média de 77 por ano; o próprio SIH registrou cerca de 45 óbitos anuais dentro das internações por aborto, e a proporção entre os dois sistemas subiu de 47,4% em 2008 para 72,2% em 2015. São mulheres jovens, com gestação de primeiro trimestre, morrendo de hemorragia ou de infecção — dois desfechos que a medicina de plantão sabe evitar quando classifica cedo e esvazia o útero na hora certa.
Do lado do risco, os números que orientam a suspeita são estes: cerca de 10% das gestações clinicamente reconhecidas terminam em perda espontânea, e a taxa sobe para perto de 31% quando se contam também as perdas muito precoces, antes do reconhecimento clínico; as perdas de segundo trimestre, até 20 semanas, ficam abaixo de 1%. De 50% a 60% dos abortos espontâneos precoces decorrem de anomalia cromossômica do concepto — informação que não muda a conduta desta noite, mas muda tudo o que se diz à mulher no corredor, porque é a resposta honesta para a pergunta "foi alguma coisa que eu fiz?".
A infecção é rara quando o abortamento é espontâneo ou conduzido dentro do serviço — menos de 0,4% — e é o desfecho dominante quando houve manipulação uterina fora dele. É por isso que o abortamento infectado tem epidemiologia própria: ele não se distribui pela população de gestantes, concentra-se em quem teve o útero instrumentado em condição insegura, em geral por vulnerabilidade social. Duas consequências práticas saem daí. A primeira: diante de febre e útero doloroso numa mulher com sangramento de primeiro trimestre, a probabilidade pré-teste de infecção é alta o bastante para começar antibiótico antes de qualquer cultura. A segunda: a paciente pode não contar, e pode não saber que estava grávida — a ausência de relato não afasta nada.
Por que acontece o que acontece
A sequência do abortamento espontâneo é frequentemente a mesma, e explica cada sinal que aparece na porta. Morre o embrião ou o feto; a decídua basal, que é o leito vascular da implantação, sangra; o tecido em contato com esse sangue sofre necrose; a necrose e o sangue distendem a cavidade e estimulam a contração do miométrio; a contração abre o colo e expulsa o conteúdo. Cada etapa dessa cadeia tem um correspondente clínico direto: o sangramento vaginal é a decídua descolando, a cólica é o miométrio contraindo, e o colo pérvio é o resultado mecânico dessa contração empurrando conteúdo contra o orifício interno. Não existe abortamento em curso com colo fechado e útero contraindo forte — se dói muito e o colo não abriu, a primeira suspeita muda de endereço.
É por isso que o colo é o divisor de águas da classificação, e não o volume do sangramento nem o nível do beta-hCG. O orifício interno fechado significa uma de duas coisas opostas: ou o processo ainda não começou (ameaça, com embrião vivo; retido, com embrião morto e útero que não contraiu), ou ele já terminou (completo, útero vazio, colo se fechando de novo). O orifício aberto significa que o útero está trabalhando: inevitável, se ainda não expulsou; incompleto, se expulsou parte. Duas situações clinicamente incompatíveis dão o mesmo colo fechado, e o que as separa é a segunda pergunta — o que ainda está dentro. Colo e conteúdo são perguntas independentes, e nenhuma das duas responde pela outra.
O terceiro sinal que decide é a febre, e ela também tem mecanismo próprio. A cavidade uterina com restos ovulares é meio de cultura: tecido desvitalizado, sangue, temperatura de 37 °C e um colo aberto que suprimiu a barreira. A flora vaginal ascende — enterobactérias, estreptococos, estafilococos, enterococos e anaeróbios, quase sempre em associação — e invade decídua, miométrio e, se ninguém intervier, a cavidade abdominal. Daí sai a regra que é o coração do tratamento do abortamento infectado: o antibiótico não alcança tecido necrótico sem perfusão. Ele controla a bacteriemia e protege o resto do organismo, mas não esteriliza a cavidade enquanto o material estiver lá dentro. Esvaziar o útero não é um passo que se adia até a paciente "melhorar do quadro infeccioso": esvaziar É o tratamento da infecção, e a paciente melhora depois.
O abortamento incompleto sangra mais do que o completo pelo mesmo motivo que a atonia sangra: o miométrio hemostasia por compressão mecânica. As artérias espiraladas atravessam feixes musculares entrelaçados, e a contração desses feixes ocluí-las mecanicamente — não há vasoconstrição química suficiente para conter aquele fluxo. Enquanto sobrar conteúdo dentro, o útero não se retrai por completo, os feixes não se fecham em torno dos vasos e o sangramento continua, às vezes por dias, em volume que a mulher subestima porque é intermitente. Retirar os restos é, ao mesmo tempo, o tratamento da causa e o tratamento da hemorragia. A fisiologia dessa mesma "ligadura viva" e o manejo quando ela falha no útero a termo estão no capítulo de hemorragia pós-parto.

Como o misoprostol trabalha — e por que os efeitos colaterais são a própria droga funcionando
O misoprostol é um análogo sintético da prostaglandina E1. No miométrio, liga-se a receptores de prostaglandina que aumentam o cálcio intracelular e disparam contração; no colo, degrada colágeno e altera os glicosaminoglicanos da matriz, o que amolece e apaga o tecido. Uma droga só faz as duas coisas que o esvaziamento exige — abrir o colo e contrair o corpo —, e é isso que a torna insubstituível num país em que a mifepristona não está disponível na rede.
Todo efeito adverso previsível sai desse mesmo mecanismo, e vale dizer isso à mulher antes da primeira dose, porque o que assusta é o inesperado. A cólica intensa é a contração pretendida. A diarreia e a náusea vêm da ação sobre a musculatura lisa do trato digestivo e se tratam com hidratação oral e antiemético, não com suspensão da droga. Calafrio e febre baixa nas primeiras horas são efeito termorregulador da prostaglandina, e não infecção — a diferença é o tempo (aparece cedo, cede em horas) e a companhia (sem secreção purulenta, sem dor à mobilização uterina, sem taquicardia persistente). Confundir esse calafrio com abortamento infectado gera antibiótico desnecessário; confundir febre de infecção com efeito do misoprostol gera morte.
A via vaginal é preferida porque entrega concentração local alta no colo e níveis plasmáticos mais sustentados do que a via oral, com menos pico digestivo. E o mesmo efeito contrátil explica a única restrição de dose que importa: útero com cicatriz de cesárea ou de miomectomia rompe sob contração forte. O risco medido de rotura no abortamento farmacológico de segundo trimestre em mulher com cicatriz uterina é de 0,28% — pequeno, real, e suficiente para que a dose seja reduzida à metade e o intervalo, dobrado.
Por que a imunoglobulina anti-D precisa ser dada antes de a mulher ir embora
Hemácias fetais entram na circulação materna em qualquer evento que rompa a interface decidual — e o abortamento é, por definição, esse rompimento. O volume transfundido é pequeno no primeiro trimestre, mas o antígeno D é imunogênico o bastante para que microvolumes bastem. A mulher RhD negativa exposta produz primeiro IgM, que não atravessa a placenta e não faz mal a esta gestação, e depois memória imunológica com IgG, que atravessa e destrói hemácias fetais em toda gestação futura de feto RhD positivo. A doença hemolítica perinatal que se previne aqui não é a desta noite: é a do filho que ela ainda vai ter.
A imunoglobulina anti-D é anticorpo pronto, aplicado de fora. Ele se liga às hemácias fetais RhD positivas que estão circulando e as remove antes que o sistema imune materno as apresente e monte resposta própria. Por isso a prescrição tem prazo: o produto precisa alcançar essas hemácias enquanto elas ainda estão em circulação, o que na prática significa até 72 horas do evento. Depois disso, a sensibilização pode já ter começado, e a dose perde o sentido para o qual foi feita.
O que faz um útero que já esvaziou continuar sangrando
Três mecanismos, e a ordem de investigação é essa. O primeiro e mais comum é resto ovular: sobrou tecido, o útero não se retraiu, os vasos não fecharam. O segundo é atonia sem resto — miométrio que não contrai apesar de cavidade vazia, situação em que uterotônico tem lugar. O terceiro é coagulopatia, adquirida por consumo em sangramento maciço ou preexistente, e é o único em que esvaziar de novo não resolve; ao contrário, uma segunda curetagem num útero vazio de mulher coagulopática só acrescenta superfície cruenta.
A retenção prolongada de concepto morto tem, além disso, uma complicação de coagulação própria, mediada por liberação sustentada de fatores teciduais do tecido em degeneração. É rara, e cresce com o tempo de retenção — o que dá substância ao limite de quatro semanas da conduta expectante: não é um prazo simbólico, é o ponto a partir do qual o benefício de continuar esperando deixa de compensar.
Como se apresenta de verdade
Aprenda a decidir em duas etapas: primeiro, risco de hemorragia ou infecção; depois, forma clínica e viabilidade. O colo e a ultrassonografia respondem perguntas diferentes. Ao final, você deve justificar quando o esvaziamento não pode esperar, quando há escolha entre métodos e como garantir acolhimento, contracepção e retorno sem presumir a causa da perda.
São seis formas clínicas, e três perguntas as separam: o orifício interno do colo está fechado ou pérvio; sobrou conteúdo dentro do útero; existe febre. Nenhuma das três exige tecnologia — as duas primeiras se respondem com espéculo e toque, e a terceira com termômetro e mão no abdome. A ultrassonografia entra para desempatar quando o colo está fechado, porque é exatamente aí que o exame físico não distingue a mulher que ainda tem uma gestação viável da que carrega um embrião morto há três semanas.
Percurso clínico: Separar viabilidade, complicação e escolha
Procure instabilidade, infecção e gestação ectópica antes de organizar opções para perda gestacional. Na paciente estável, confirme os critérios de inviabilidade, explique manejo expectante, medicamentoso e cirúrgico quando elegíveis, e pactue analgesia e retorno. A preferência da mulher participa da decisão, com informação sobre duração e possibilidade de intervenção adicional.
Ameaça de abortamento: a única forma que ainda pode não ser abortamento
Sangramento discreto, dor ausente ou leve, colo fechado, volume uterino compatível com a idade gestacional, sem sinais de infecção. À ultrassonografia, embrião ou feto com vitalidade preservada, ou achados de gestação inicial em que o embrião ainda não é esperado; pode haver uma pequena área de descolamento ovular. É a forma em que o nome engana o aluno: ameaça de abortamento não é abortamento, é uma gestação em curso com sangramento, e a maior parte delas segue adiante. Cerca de um quarto das mulheres sangra no início da gestação.
A conduta é analgesia e observação — e a frase mais importante do atendimento não é uma prescrição, é uma orientação de retorno. Ela volta se surgir febre, dor pélvica localizada, sangramento com odor fétido ou aumento importante do volume. Não há repouso que mude o desfecho, não há progesterona que o mude na ausência de causa identificada, e não há utilidade em repetir ultrassonografia a cada dois dias. A mulher precisa ouvir as duas metades da verdade: a maioria dessas gestações continua, e nenhuma conduta médica é capaz de garantir que a dela continue.
Inevitável e incompleto: o colo já respondeu
No abortamento inevitável, o sangramento é presente e por vezes abundante, as cólicas estão sempre presentes, o colo está entreaberto e, ao espéculo, vê-se sangramento pelo orifício do colo e, muitas vezes, membranas ovulares ou o próprio conteúdo através dele. O útero ainda não expulsou, mas vai expulsar: não há como salvar essa gestação, e o nome descreve exatamente isso. Sobre o papel da imagem aqui, o protocolo da Febrasgo é direto ao afirmar que a ultrassonografia pélvica não é necessária para o diagnóstico e não pode retardar o tratamento.
No abortamento incompleto, houve expulsão parcial. O sangramento é presente e por vezes abundante, as cólicas são constantes, o colo está pérvio e o espéculo mostra saída de tecido. A ultrassonografia, quando feita, mostra conteúdo intrauterino amorfo e heterogêneo. Um detalhe de exame vale ouro e é rotineiramente perdido: material saliente no orifício externo pode ser retirado com pinça de Cheron sob visão direta ali mesmo, na sala, e essa manobra simples costuma reduzir o sangramento e a dor de imediato, porque o tecido encravado no colo mantém o orifício aberto e o útero contraindo contra ele.
Completo: forma que se confirma, não se presume
Ocorre em geral em gestações abaixo de oito semanas. A dor e o sangramento diminuem ou cessam depois da eliminação, o útero fica menor do que o esperado para a idade gestacional, o orifício interno pode ainda estar aberto e se fechando, e a ultrassonografia mostra cavidade vazia ou com coágulos. A conduta é observação — a única forma clínica em que "não fazer nada" é o tratamento correto e completo.
O erro aqui é presumir. A paciente que relata "eliminou tudo em casa" e chega com útero vazio à imagem realmente está completa; a que relata a mesma coisa e não fez imagem pode ter restos, e a que relata a mesma coisa e nunca teve gestação intrauterina documentada pode ter uma gravidez ectópica que sangrou pela decídua. "Aborto completo" sem cavidade vazia documentada é uma hipótese, não um diagnóstico de alta.
Retido: a forma que não avisa
O abortamento retido é o embrião ou feto morto que não foi expulso. Não há sangramento, ou ele é muito discreto; não há dor; o colo está fechado. O que a mulher costuma perceber é a regressão dos sintomas gestacionais — a mama que desinchou, a náusea que sumiu — e ela frequentemente interpreta isso como melhora. É a forma que só a imagem faz, e a única em que o diagnóstico é dado a uma paciente que se sente bem.
Classicamente, define-se pela não eliminação do produto conceptual por trinta dias, mas essa definição é histórica e não se usa para decidir: o que decide são os critérios ultrassonográficos de inviabilidade, discutidos adiante. Vale a advertência de que o retido pode surgir sem nenhum episódio prévio de ameaça — não existe pródromo obrigatório.
Infectado: a única forma que mata em horas
Febre, dor intensa e contínua, sangramento variável com odor fétido, secreção purulenta pelo colo, colo pérvio e muito doloroso à mobilização, útero amolecido e doloroso à palpação. O estado geral compromete-se depressa: náusea, vômito, taquipneia, rebaixamento do nível de consciência, e os sinais de choque — calafrio, cianose, desidratação, hipotensão, taquicardia e pulso filiforme. O diagnóstico é clínico. Ultrassonografia normal não exclui abortamento infectado, e esperar imagem para começar antibiótico é uma decisão que só tem custo.
A infecção grave se anuncia por resposta inflamatória sistêmica — temperatura acima de 38 °C ou abaixo de 36 °C, frequência cardíaca acima de 90, frequência respiratória acima de 20 ou PaCO2 abaixo de 32 mmHg, leucocitose ou leucopenia — e por escores de alerta precoce: qSOFA, que soma um ponto para Glasgow abaixo de 15, pressão sistólica igual ou abaixo de 100 mmHg e frequência respiratória igual ou acima de 22, com alto risco a partir de dois pontos. O manejo do choque séptico instalado, com lactato, culturas, vasopressor e alvo pressórico, está no capítulo de sepse e choque séptico; aqui interessam o reconhecimento e as primeiras horas — e, sobretudo, o que este quadro tem de diferente de toda outra sepse: existe foco removível, e ele se remove com a mão.
Segundo trimestre é outra doença, com o mesmo nome
Acima de 12 semanas, quase tudo muda. O útero é maior do que a cânula de aspiração alcança, existem ossos fetais formados, e a expulsão precisa acontecer antes de qualquer instrumentação — por isso a sequência inverte: primeiro o misoprostol, depois o esvaziamento complementar. As perdas de segundo trimestre são muito menos frequentes, abaixo de 1% até 20 semanas, e têm outra etiologia predominante: insuficiência istmocervical, malformação uterina, infecção, causas maternas.
O impacto emocional também é outro. Há movimento fetal percebido, há nome escolhido, há barriga visível para vizinhos e colegas de trabalho, e a expulsão acontece acordada, com contrações, num quarto de enfermaria. A mulher precisa ser avisada do que vai acontecer, com quanto tempo, e do que ela pode escolher ver ou não ver. Isso não é gentileza opcional: é parte do consentimento.
O que muda em quem
Na adolescente, mudam a entrevista e o consentimento, não a conduta. A conversa precisa acontecer a sós em algum momento, com a explicação explícita de que o que ela contar é sigiloso, inclusive em relação aos pais quando ela tiver discernimento para conduzir o próprio caso. A presença de acompanhante é direito dela, não obrigação — e o acompanhante que ela escolher não é necessariamente quem a trouxe.
Na mulher que refere manipulação uterina, ou em quem o quadro sugere isso sem que ela diga nada, muda apenas uma coisa: a probabilidade de infecção sobe, e o exame passa a procurar ativamente lesão de fundo de saco, perfuração e corpo estranho. Não muda o acolhimento, não muda a analgesia, não muda o direito ao tratamento e não muda a obrigação de sigilo. Se houver suspeita de violência sexual, o caminho é o serviço de referência de atenção à violência sexual do seu hospital — e o papel do interno é reconhecer e acionar, não conduzir sozinho.
E há a mulher que já perdeu antes. Ela chega sabendo o que vai acontecer, muitas vezes mais informada que o plantonista sobre a própria história, e costuma ser tratada como se estivesse exagerando. Perguntar "como foi da outra vez, e o que você não quer que se repita?" muda a experiência inteira e não custa nada.
Como fechar o diagnóstico
A investigação do abortamento é curta, barata e quase toda física — e é exatamente por isso que ela é feita errado. O reflexo do pronto-socorro é pedir imagem e laboratório antes de tocar na paciente, e no abortamento essa ordem inverte a hierarquia da informação: o exame que classifica é o espéculo, e ele está pronto em vinte segundos. Na maior parte dos casos, a ultrassonografia confirma o que a luva já disse; num grupo específico — colo fechado — ela é indispensável; e num terceiro grupo ela é apenas um atraso caro entre a paciente e o tratamento.
A sequência que funciona tem quatro degraus, nesta ordem: estabilidade, espéculo, toque, imagem. Nenhum degrau depende do anterior estar perfeito, mas pular o segundo e o terceiro é o erro que este capítulo mais insiste em desfazer.
1. Antes de classificar: a paciente está estável?
A primeira pergunta não é sobre o colo, é sobre a mulher. Palidez, sudorese, taquicardia, pressão de pulso estreitando, lipotimia ao sentar — em mulher jovem, a pressão sistólica cai por último e engana até o fim. Diante disso, a classificação fina espera: dois acessos calibrosos, cristaloide, tipagem sanguínea com fator Rh, hemograma, coagulograma e comunicação imediata com o centro cirúrgico. A regra de reposição e o limiar de transfusão estão no capítulo de choque hemorrágico. A segunda pergunta desta etapa é a temperatura, aferida e não referida: febre com dor uterina e sangramento fétido transforma o caso em emergência infecciosa e faz o antibiótico correr junto com o esvaziamento, sem esperar imagem.
2. O espéculo: o exame que classifica
O espéculo responde três coisas que nada mais responde tão rápido. De onde vem o sangue: do canal cervical, ou de uma lesão vaginal, de um pólipo, de uma ectopia sangrante, de uma laceração. Quanto sangue está saindo agora, com o olho e não com a história. E o que existe no orifício externo: nada, coágulo, ou material saliente — que, quando presente, praticamente fecha o diagnóstico de abortamento em curso e pode ser removido ali, com pinça, sob visão direta.
A presença de secreção purulenta pelo colo é o achado que, somado à febre, define abortamento infectado sem nenhum exame complementar. E a ausência completa de sangramento pelo orifício, numa mulher que refere sangramento importante, obriga a procurar a origem em outro lugar antes de assumir causa uterina.

3. O toque: o orifício interno, e só ele
O orifício que classifica é o interno, não o externo. Multípara costuma ter orifício externo entreaberto de base, e confundir isso com colo pérvio transforma ameaça em abortamento inevitável no papel — e manda para o centro cirúrgico uma gestação viável. A pergunta correta é se o dedo ultrapassa o orifício interno.
O toque bimanual acrescenta ainda duas informações que mudam conduta: o volume uterino, que estima a idade gestacional e define se o esvaziamento cabe na cânula de aspiração ou exige indução prévia; e a dor à mobilização do colo e à palpação anexial, que aponta para infecção quando somada a febre e, na ausência de febre, reabre a hipótese de gravidez ectópica.
Toque doloroso a ponto de impedir o exame, em mulher com sangramento de primeiro trimestre, é achado de peso: pede reavaliação imediata por médico assistente e não deve ser registrado como "exame prejudicado" e esquecido.
4. A ultrassonografia transvaginal: quando acrescenta e quando só atrasa
Com o colo pérvio e tecido no orifício, o diagnóstico já está feito e a imagem não muda a conduta — o tratamento é o esvaziamento, e o protocolo da Febrasgo registra explicitamente que a ultrassonografia não pode retardá-lo. Nesse cenário, o pedido de imagem serve, na melhor das hipóteses, para estimar o volume retido; e serve, na pior, para adiar por horas ou dias a única coisa que faz a mulher parar de sangrar.
Com o colo fechado, a imagem passa a ser o exame decisivo, porque só ela distingue as três possibilidades que o exame físico não separa: gestação viável (ameaça), embrião morto retido, ou útero já vazio (completo). É aqui que o pedido é obrigatório, e é aqui que ele vale a espera.
A via é a transvaginal, não a pélvica com bexiga cheia: enxerga mais cedo, com mais resolução, e poupa a paciente de encher a bexiga durante uma cólica. No abortamento incompleto, o diagnóstico ultrassonográfico é reconhecidamente difícil e não há consenso sobre o melhor critério — vários estudos usaram espessura endometrial entre 5 mm e 25 mm com aspecto hiperecogênico do material. A consequência prática é dura e precisa ser dita: não existe um número de milímetros de endométrio que autorize indicar ou contraindicar esvaziamento sozinho. Quem decide é o conjunto — sangramento, dor, colo, estabilidade — e não o laudo.
5. Os critérios de inviabilidade: milímetros e dias, não impressões
Quatro critérios têm especificidade alta o bastante para firmar o diagnóstico de gestação inviável, e os documentos brasileiros os reproduzem sem divergência entre si: saco gestacional com diâmetro médio igual ou maior que 25 mm sem vesícula vitelínica nem embrião; embrião com comprimento cabeça-nádegas igual ou maior que 7 mm sem atividade cardíaca; ausência de embrião com batimento duas semanas depois de um exame que mostrou saco gestacional vazio; ausência de embrião com batimento onze dias ou mais depois de um exame que mostrou saco gestacional com vesícula vitelínica.
Os dois primeiros dispensam repetição de exame — são medidas em que a ausência já não tem explicação inocente. Os dois últimos são critérios de intervalo, e existem justamente para os casos abaixo desses tamanhos, em que a única saída honesta é esperar e repetir. Aí, o intervalo é parte do critério: repetir em três dias não responde nada, e repetir com quatorze dias responde.
Um ponto de atenção editorial que o interno precisa conhecer para não se perder: o mesmo protocolo da Febrasgo que reproduz esses quatro critérios traz, no quadro das formas clínicas, a descrição do abortamento retido como saco gestacional com embrião sem atividade cardíaca ou gestação anembrionada "em dois exames com intervalo de quinze dias". As duas coisas não podem valer ao mesmo tempo: um embrião de 9 mm sem batimento é inviável no primeiro exame, e exigir um segundo exame quinze dias depois submete a mulher a duas semanas de espera com concepto morto por nenhuma razão clínica. A régua a seguir é a dos quatro critérios; a exigência de repetição vale apenas quando as medidas ficam abaixo dos cortes.
6. O laboratório: o que pedir de verdade
Tipagem sanguínea ABO e fator Rh em todas. É o exame mais importante deste capítulo depois do espéculo, por dois motivos independentes: define quem recebe imunoglobulina anti-D e prepara a eventual transfusão. Ele é urgente mesmo na paciente estável, porque a janela da anti-D fecha em 72 horas e o resultado costuma chegar depois da decisão de alta.
Hemograma em todas as que sangraram além do trivial, para dimensionar a perda e por causa da possibilidade de infecção. Contagem de plaquetas e provas de coagulação quando houver sangramento maciço, retenção prolongada ou suspeita de coagulopatia. Sorologia para sífilis em todas — a perda gestacional por sífilis é evitável e diagnosticada nesse mesmo teste, e a condução do caso reagente está no capítulo de sífilis na gestação. Teste rápido para HIV e para hepatites, oferecidos.
Beta-hCG quantitativo tem papel limitado depois que a gestação intrauterina está documentada: serve para acompanhar resolução, não para classificar a forma. Queda superior a 25% em dosagem seriada é altamente sugestiva de abortamento; em dosagem única, o valor de referência acima do qual o saco gestacional intrauterino já deveria ser visto à transvaginal é 3.510 mUI/mL. Esse número pertence, na prática, ao raciocínio da gravidez ectópica — e é lá que ele decide alguma coisa.
No abortamento infectado, a lista cresce: hemocultura na presença de febre ou de sinais de gravidade, creatinina, urinálise e urocultura com sonda para diferenciar de infecção urinária, rastreio de infecções sexualmente transmissíveis, e, com sinais de gravidade, gasometria arterial, tempo de protrombina, tempo de tromboplastina parcial, fibrinogênio, eletrólitos, glicemia, cálcio, bilirrubinas e transaminases. Imagem tem papel restrito e específico: procurar abscesso, coleção, ar e perfuração — não confirmar a infecção, que é diagnóstico clínico.
7. O que não pedir, e o preço de pedir
O que não se pede tem preço tão concreto quanto o que se pede. Ultrassonografia antes do espéculo na mulher com sangramento e cólica custa horas de dor e, com colo pérvio e material no orifício, não acrescenta nada à decisão. Ultrassonografia de controle de rotina dez dias depois de um esvaziamento em mulher assintomática gera laudo de “restos” em endométrio normal e produz uma segunda curetagem em quem não precisava. Beta-hCG seriado em quem já tem diagnóstico fechado de abortamento incompleto só atrasa o esvaziamento. E cultura de secreção vaginal, radiografia de abdome e tomografia não têm indicação de rotina na paciente afebril e estável — no abortamento infectado elas têm alvo, que é procurar coleção, ar, corpo estranho e perfuração.
E existe o exame que não é exame: o interrogatório. Perguntar repetidamente se a mulher "fez alguma coisa" não é propedêutica. A resposta não muda o antibiótico, não muda o esvaziamento, não muda a analgesia e não muda a anti-D. O que muda conduta é objetivo e se obtém sem interrogatório: houve manipulação instrumental recente, existe lesão vaginal ou cervical à inspeção, existe suspeita de perfuração, existe corpo estranho. Isso se pergunta uma vez, de forma neutra e informativa — "para eu cuidar direito, preciso saber se alguém mexeu ou se você usou alguma medicação, e isso fica entre nós" —, e se procura no exame.
8. O diferencial mora dentro do mesmo exame
Gravidez ectópica é o diferencial que mata, e ela se separa exatamente onde o abortamento se classifica: colo fechado, útero vazio, beta-hCG positivo. Todo caso rotulado como "aborto completo" sem gestação intrauterina previamente documentada é uma ectópica até prova em contrário — a régua está no capítulo próprio.
Gestação molar entra pelo mesmo sangramento de primeiro trimestre, com útero maior que o esperado, beta-hCG desproporcionalmente alto, hiperêmese e, às vezes, eliminação de vesículas. É a razão pela qual todo material de esvaziamento deve ir para exame histopatológico, e pela qual se pede teste de gravidez ou beta-hCG trinta dias depois quando o material não foi colhido.
Doença inflamatória pélvica compartilha febre, dor pélvica e dor à mobilização do colo, e o que a separa é a gravidez: em mulher com atraso e sangramento, o rótulo prioritário é abortamento infectado, e o manejo diverge — lá o tratamento é antimicrobiano; aqui ele é antimicrobiano mais esvaziamento. Os critérios e o esquema da doença inflamatória pélvica estão no capítulo próprio.
Fora do útero, três causas banais respondem por muito sangramento assustador na gestação inicial e se veem ao espéculo: pólipo cervical, ectopia sangrante e laceração vaginal. Nenhuma delas justifica esvaziamento, e todas são perdidas por quem não passou espéculo.
9. O que existe no SUS — e o que isso impõe à conduta
Ultrassonografia transvaginal de urgência não está disponível em todo pronto-atendimento, e em muitos serviços não existe à noite nem no fim de semana. Essa é uma razão adicional, e prática, para que a classificação não dependa dela: nos casos de colo pérvio, a conduta se define sem imagem; nos de colo fechado e paciente estável, é legítimo e seguro programar a imagem para o próximo dia útil, com orientação de retorno escrita.
O misoprostol existe na Relação Nacional de Medicamentos Essenciais, em comprimido vaginal de 25 mcg e de 200 mcg. Mas ele está na lista C1 da Portaria SVS/MS nº 344/1998, e sua venda é restrita a estabelecimentos hospitalares cadastrados e credenciados junto à autoridade sanitária — a embalagem traz a tarja "venda e uso restrito a hospital" e é proibida a distribuição de amostra grátis. Na prática isso significa três coisas: a conduta medicamentosa é conduta intra-hospitalar, com a paciente internada até a resolução; não existe receita de misoprostol para uso domiciliar; e o estoque é controlado, o que exige antecipar a solicitação em vez de descobrir a falta às três da manhã.
A mifepristona, que compõe o esquema medicamentoso mais eficaz da literatura internacional, não está disponível na rede brasileira. Tudo o que este capítulo prescreve de esquema farmacológico é misoprostol isolado — e as taxas de sucesso citadas em estudos que usaram os dois juntos não se transferem inteiras.
A aspiração intrauterina manual custa pouco, não exige centro cirúrgico em condições favoráveis e é o método recomendado — mas depende de kit disponível e de gente treinada. Onde o kit existe e ninguém opera, a barreira é de formação, e ela se resolve com o serviço, não com a paciente da noite. A imunoglobulina anti-D é dispensada pelo componente especializado das secretarias estaduais, em ampola de 300 mcg; quando não há estoque na maternidade, a paciente precisa sair com relatório médico e prescrição em mãos, porque a retirada ambulatorial exige documentação — e a janela é de 72 horas.
Três perguntas, seis formas, quatro condutas
Toda a classificação do abortamento cabe em três perguntas que se respondem com espéculo, luva e termômetro: o orifício INTERNO do colo está pérvio? Sobrou conteúdo dentro do útero? Existe febre? A primeira separa quem está expulsando de quem não está; a segunda separa quem precisa de esvaziamento de quem não precisa; a terceira transforma o caso numa emergência infecciosa. A ultrassonografia entra em um único ponto do fluxo — quando o colo está fechado —, e é lá que ela é indispensável. Fora dele, ela confirma o que já se sabe ou adia o que já se deveria estar fazendo.
- 1Mulher em idade fértil com sangramento vaginal e atraso menstrual: confirme a gestação (teste de urina, se ainda não documentada) e resolva a régua da gravidez ectópica antes de seguir.
- 2Instável — palidez, taquicardia, hipotensão, lipotimia? Dois acessos, cristaloide, tipagem com Rh, hemograma, coagulograma, reserva de sangue e centro cirúrgico. Esvaziamento mecânico; misoprostol não entra aqui.
- 3Febre aferida, dor uterina, secreção purulenta ou odor fétido? Abortamento infectado: antibiótico endovenoso de amplo espectro, reposição volêmica e esvaziamento na sequência — o diagnóstico é clínico e não espera imagem.
- 4Estável e afebril: exame ESPECULAR. Origem do sangramento, volume atual, material no orifício externo, secreção purulenta.
- 5TOQUE: o orifício INTERNO está pérvio? (Orifício externo entreaberto de multípara não conta.) Volume uterino em semanas. Dor à mobilização do colo.
- 6Orifício interno PÉRVIO com material visível ou saída de tecido → abortamento INCOMPLETO. Esvaziar. Aspiração é a primeira escolha abaixo de 12 semanas; curetagem só se não houver aspiração. A ultrassonografia não é necessária e não pode retardar o tratamento.
- 7Orifício interno PÉRVIO com sangramento e membranas visíveis, sem expulsão → abortamento INEVITÁVEL. Mesma conduta: esvaziar.
- 8Orifício interno IMPÉRVIO → ultrassonografia transvaginal. É o único ponto do fluxo em que ela decide.
- 9Impérvio + embrião com vitalidade → AMEAÇA de abortamento. Analgesia sem anti-inflamatório, orientação de retorno escrita, sem internação e sem esvaziamento.
- 10Impérvio + critérios de inviabilidade (saco gestacional ≥ 25 mm sem embrião, ou embrião com CCN ≥ 7 mm sem batimento, ou os critérios de intervalo) → abortamento RETIDO. Ofereça as três condutas: expectante por até 4 semanas, medicamentosa com internação, ou cirúrgica.
- 11Impérvio + cavidade vazia com gestação intrauterina previamente documentada → abortamento COMPLETO. Observação, sem esvaziamento.
- 12Impérvio + cavidade vazia SEM gestação intrauterina previamente documentada → não é abortamento completo até prova em contrário: siga a régua da gravidez ectópica.
- 13Acima de 12 semanas com feto intrauterino: inverta a ordem — indução com misoprostol primeiro, curetagem depois da expulsão.
- 14Antes da alta, em todas: imunoglobulina anti-D se RhD negativa não sensibilizada (72 horas), material para histopatológico, sorologia para sífilis, oferta de contracepção e orientação escrita de retorno.
Não esvaziar — observar e orientar
Ameaça de abortamento (colo fechado, embrião vivo) e abortamento completo (colo fechado, cavidade vazia documentada). A conduta correta é não intervir. Analgesia, orientação escrita de retorno e, na ameaça, retomada do pré-natal. Curetagem 'para garantir' em útero vazio não previne nada e produz sinéquia.
Esvaziar hoje — aspiração primeiro
Abortamento incompleto e inevitável, paciente estável. Colo já está pérvio. Aspiração intrauterina abaixo de 12 semanas; curetagem apenas na indisponibilidade. Material saliente no orifício sai com pinça longa ainda na sala, e isso já reduz sangramento e dor.
Escolha da mulher — três caminhos
Abortamento retido, colo fechado, paciente estável e afebril. Expectante (até 4 semanas, reavaliando a cada 1 a 2 semanas), medicamentosa (misoprostol, internada) ou cirúrgica. Infecção é igualmente rara nas três; o que muda é quantas voltam ao centro cirúrgico sem planejar — 45 em 100 na expectante, 13 na medicamentosa, 5 na cirúrgica.
Antibiótico e esvaziar juntos
Abortamento infectado. Febre, dor uterina, secreção purulenta, colo pérvio e doloroso. Cristaloide, antibiótico endovenoso de amplo espectro e esvaziamento logo depois da primeira dose e da estabilização. O material retido é o foco: adiar o esvaziamento é adiar o tratamento da infecção.
| Forma clínica | Colo (orifício interno) | Sangramento e dor | Febre | Ultrassonografia | Conduta |
|---|---|---|---|---|---|
| Ameaça de abortamento | Fechado | Sangramento discreto; dor discreta ou ausente | Ausente | Embrião/feto com vitalidade, ou gestação inicial ainda sem embrião; pode haver descolamento ovular | Analgesia (sem AINE) e conduta expectante; orientação escrita de retorno |
| Abortamento inevitável | Entreaberto | Sangramento presente e por vezes abundante; cólicas sempre presentes | Ausente | Ovo deformado, hematoma retro-ovular, ovo muito baixo — não é necessária e não pode retardar o tratamento | Reposição volêmica, analgesia e esvaziamento (aspiração; curetagem se indisponível) |
| Abortamento incompleto | Pérvio | Sangramento presente e por vezes abundante; cólicas sempre presentes; saída de tecido ao espéculo | Ausente | Conteúdo intrauterino amorfo e heterogêneo | Reposição volêmica, analgesia e esvaziamento (aspiração; curetagem se indisponível) |
| Abortamento completo | Fechado (pode estar se fechando) | Sangramento ausente ou discreto; dor ausente | Ausente | Útero vazio ou com coágulos | Expectante; sem esvaziamento |
| Abortamento retido | Fechado | Sangramento ausente ou muito discreto; dor ausente | Ausente | Critérios de inviabilidade: SG ≥ 25 mm sem embrião; CCN ≥ 7 mm sem batimento; ou critérios de intervalo | Escolha informada entre expectante (até 4 semanas), medicamentosa e cirúrgica |
| Abortamento infectado | Pérvio e doloroso à mobilização | Sangramento variável, com odor fétido; dor intensa e contínua; secreção purulenta | Presente | Pode ser normal — exame normal NÃO exclui | Cristaloide, antibiótico endovenoso de amplo espectro e esvaziamento na sequência; laparotomia se não responder |
Critérios ultrassonográficos de gestação inviável — todos com alta especificidade
| Critério | Precisa de segundo exame? |
|---|---|
| Saco gestacional com diâmetro médio ≥ 25 mm, sem vesícula vitelínica nem embrião | Não |
| Embrião com comprimento cabeça-nádegas ≥ 7 mm, sem atividade cardíaca | Não |
| Ausência de embrião com batimento 2 semanas (14 dias) após exame que mostrou saco gestacional SEM vesícula vitelínica | Sim — o intervalo é parte do critério |
| Ausência de embrião com batimento 11 ou mais dias após exame que mostrou saco gestacional COM vesícula vitelínica | Sim — o intervalo é parte do critério |
| Marcos de normalidade para não errar a leitura: saco gestacional e vesícula vitelínica visíveis à transvaginal entre 4,5 e 5 semanas; batimentos por volta de 6 semanas, com embrião de 1 a 5 mm e saco de 13 a 18 mm | — |
Misoprostol: dose, via, intervalo e número de comprimidos
| Situação | Dose e via | Comprimidos por dose | Intervalo e total |
|---|---|---|---|
| Abortamento de 1º trimestre (retido, incompleto), conduta medicamentosa | 800 mcg por via vaginal | 4 comprimidos de 200 mcg | A cada 12 horas nos tempos 0, 12 e 24 h (dentro da janela de 3 a 12 h). Até 3 doses: 2.400 mcg, 12 comprimidos |
| Preparo do colo antes de aspiração ou curetagem, com colo justo | 400 mcg por via vaginal | 2 comprimidos de 200 mcg | Dose única, 3 a 4 horas antes do procedimento (o Manual do MS descreve 4 a 6 horas) |
| Abortamento de 2º trimestre, 13 a 24 semanas | 400 mcg por via vaginal | 2 comprimidos de 200 mcg | A cada 3 horas. Em 24 h: 8 doses, 3.200 mcg, 16 comprimidos |
| 2º trimestre COM cicatriz uterina (cesárea ou miomectomia) | 200 mcg por via vaginal — não ultrapassar | 1 comprimido de 200 mcg | A cada 6 horas. Em 24 h: 4 doses, 800 mcg, 4 comprimidos |
| Óbito fetal intrauterino de 13 a 17 semanas (esquema da norma técnica) | 200 mcg por via vaginal | 1 comprimido de 200 mcg | A cada 6 horas, 4 doses; repetir após 24 h se necessário |
| Óbito fetal intrauterino de 18 a 26 semanas (esquema da norma técnica) | 100 mcg por via vaginal | meio comprimido de 200 mcg, ou 4 comprimidos de 25 mcg | A cada 6 horas, 4 doses; repetir após 24 h se necessário |
Abortamento infectado: antimicrobianos endovenosos, com a dose diária calculada para 60 kg
| Esquema | Doses | Total em 24 horas | Fonte |
|---|---|---|---|
| Tríplice (escolha deste capítulo) | Gentamicina 5 mg/kg 1×/dia + ampicilina 2 g 4/4 h + clindamicina 900 mg 8/8 h | Gentamicina 300 mg; ampicilina 12 g; clindamicina 2,7 g | Manual de Gestação de Alto Risco, MS, 2022 (esquema 2) |
| Tríplice com metronidazol | Gentamicina 5 mg/kg 1×/dia + ampicilina 2 g 4/4 h + metronidazol 500 mg 8/8 h | Gentamicina 300 mg; ampicilina 12 g; metronidazol 1,5 g | Manual de Gestação de Alto Risco, MS, 2022 (esquema 1) |
| Dupla, com escalonamento | Clindamicina 600 mg 6/6 h (ou metronidazol 500 mg 8/8 h) + gentamicina 3 a 5 mg/kg/24 h; sem resposta, acrescentar ampicilina 1 g 6/6 h ou penicilina cristalina 5.000.000 UI 6/6 h | Clindamicina 2,4 g; gentamicina 180 a 300 mg | Protocolo Febrasgo nº 17, 2025 |
| Monoterapia de amplo espectro | Piperacilina-tazobactam 4,5 g 8/8 h, ou imipenem 500 mg 6/6 h | Piperacilina-tazobactam 13,5 g; imipenem 2 g | Manual de Gestação de Alto Risco, MS, 2022 (esquemas 4 e 5) |
| Transição oral, completando 10 a 14 dias | Doxiciclina 100 mg 12/12 h + metronidazol 500 mg 12/12 h | Doxiciclina 200 mg; metronidazol 1 g | Manual de Gestação de Alto Risco, MS, 2022 |
O que a norma exige do médico, e o que ela não exige
| Situação | O que a norma determina | Onde está escrito |
|---|---|---|
| Abortamento espontâneo ou provocado chega ao serviço | Não comunicar o fato à autoridade policial, judicial nem ao Ministério Público; o sigilo é dever legal e ético | Norma Técnica Atenção Humanizada ao Abortamento (MS), item 2.2.5 |
| Autoridade requisita o prontuário | Não revelar conteúdo do prontuário sem consentimento do paciente; na investigação de crime, o médico está impedido de revelar segredo que possa expor o paciente a processo criminal | Resolução CFM nº 1.605/2000, arts. 1º e 3º |
| Médico é intimado a depor | Proibido depor quem deva guardar segredo em razão da profissão, salvo se desobrigado pela parte interessada E se quiser testemunhar | Código de Processo Penal, art. 207 |
| Revelação sem justa causa | É crime revelar segredo obtido em razão da profissão quando a revelação puder produzir dano a outrem | Código Penal, art. 154 |
| Objeção de consciência em urgência | A autonomia do médico é excetuada na ausência de outro médico, em urgência ou emergência, ou quando a recusa puder trazer danos ao paciente; não cabe objeção no atendimento de complicações de abortamento inseguro | Código de Ética Médica (Res. CFM nº 2.217/2018), Princípios Fundamentais VII; Norma Técnica (MS), item 2.2.5 |
| Omissão de atendimento | A omissão é penalmente relevante quando o omitente devia e podia agir para evitar o resultado | Código Penal, art. 13, § 2º |
| Adolescente com discernimento | É vedado revelar sigilo profissional de paciente criança ou adolescente com capacidade de discernimento, inclusive aos pais, salvo quando a não revelação puder acarretar dano | Código de Ética Médica, art. 74 |
| O que a lei NÃO exige | Não exige boletim de ocorrência, autorização judicial ou explicação da mulher sobre como o abortamento começou; não atribui ao médico papel investigativo. A obrigação de comunicar do art. 269 é de doença de notificação compulsória e, mesmo nela, é proibida a remessa do prontuário | Código Penal, arts. 128 e 269; Resolução CFM nº 1.605/2000, art. 2º |
O orifício que classifica é o INTERNO. Multípara costuma ter orifício externo entreaberto de base, e chamar isso de colo pérvio manda para o centro cirúrgico uma gestação viável.
"Aborto completo" só se escreve com duas coisas na mão: cavidade vazia documentada e gestação intrauterina previamente confirmada. Sem elas, o rótulo correto é gestação de localização a esclarecer.
No Brasil o misoprostol é de uso restrito a estabelecimento hospitalar cadastrado (lista C1 da Portaria SVS/MS nº 344/1998). Conduta medicamentosa aqui significa mulher internada até a resolução, e não existe receita para casa.
A mifepristona não está disponível na rede brasileira. Taxas de sucesso publicadas com o esquema combinado mifepristona-misoprostol não se transferem inteiras para o esquema com misoprostol isolado.
O protocolo da Febrasgo descreve o abortamento retido, no quadro das formas clínicas, exigindo dois exames com intervalo de 15 dias, e reproduz, no quadro seguinte, os critérios de inviabilidade que dispensam repetição quando o saco atinge 25 mm ou o embrião atinge 7 mm. A régua a seguir é a dos critérios: exigir segundo exame acima desses cortes impõe duas semanas de espera sem ganho clínico.
A imunoglobulina anti-D é a única prescrição desta noite cujo benefício aparece anos depois — e é, por isso, a mais esquecida. Ela entra no checklist da alta, não na memória.
Curetagem é o método de escolha no segundo trimestre e o método de segunda linha no primeiro. Trocar as duas regras de lugar é o erro técnico mais comum do capítulo.
A conduta, hora a hora
Instabilidade ou abortamento infectado exigem abordagem hospitalar, estabilização e controle do foco conforme a equipe. Estável e afebril: integrar história, especular, colo e imagem quando necessária; não declarar perda apenas por um exame precoce inconclusivo. Quando mais de uma opção é segura, apresentar as alternativas e o seguimento exigido. Antes da alta, conferir localização resolvida, sangramento, dor e sinais de retorno.
A linha do tempo abaixo é do primeiro trimestre, que é a esmagadora maioria do plantão; acima de 12 semanas a ordem dos passos inverte, e isso está marcado no seu próprio marco. Toda dose vem escrita por extenso, com o documento que a sustenta, e o número de comprimidos aparece porque é assim que a prescrição chega à enfermagem.
Antes da primeira pergunta — o que a lei exige de você, e o que ela não exige
Esta é a única urgência ginecológica em que o desconhecimento jurídico do médico produz dano por conta própria, e ele acontece. Três obrigações são inequívocas no direito brasileiro vigente. A primeira é o sigilo: o Código Penal tipifica como crime revelar, sem justa causa, segredo de que se tem ciência em razão de profissão e cuja revelação possa produzir dano a outrem (art. 154); o Código de Ética Médica veda ao médico revelar fato de que tenha conhecimento em virtude do exercício da profissão, salvo por motivo justo, dever legal ou consentimento por escrito do paciente (Resolução CFM nº 2.217/2018, art. 73); e o Código de Processo Penal proíbe de depor quem, em razão de profissão, deva guardar segredo, salvo se desobrigado pela parte interessada e se quiser testemunhar (art. 207) — as duas condições são cumulativas, e a segunda continua sendo do médico. A segunda obrigação é a que fecha a porta que muita gente ainda deixa aberta: a Resolução CFM nº 1.605/2000 determina que, na investigação da hipótese de cometimento de crime, o médico está impedido de revelar segredo que possa expor o paciente a processo criminal (art. 3º), e que o conteúdo do prontuário não é revelado sem consentimento (art. 1º). A norma técnica do Ministério da Saúde traduz isso para esta situação com todas as letras: diante de abortamento espontâneo ou provocado, o médico ou qualquer profissional de saúde não pode comunicar o fato à autoridade policial, judicial, nem ao Ministério Público. Denunciar não é dever, é infração — e pode gerar procedimento criminal, civil e ético-profissional contra quem revelou, com responsabilidade por todos os danos causados à mulher. A terceira obrigação é atender. O direito de recusar atos contrários à própria consciência existe e está no Código de Ética Médica (Capítulo II, item IX), mas ele não alcança urgência: o mesmo Código afirma que a autonomia do médico é excetuada nas situações de ausência de outro médico, em caso de urgência ou emergência, ou quando a recusa possa trazer danos à saúde do paciente (Princípios Fundamentais, VII), e a norma técnica é explícita ao dizer que não cabe objeção de consciência no atendimento de complicações derivadas de abortamento inseguro, por se tratarem de casos de urgência. Omitir-se tem endereço penal próprio: a omissão é penalmente relevante quando o omitente devia e podia agir para evitar o resultado (Código Penal, art. 13, § 2º). E o que a lei NÃO exige merece a mesma clareza, porque é aí que nasce a maior parte do dano: ela não exige boletim de ocorrência, não exige autorização judicial, não exige que a mulher explique como o abortamento começou, e não atribui ao médico o papel de investigar. A obrigação legal de comunicação que existe no Código Penal é a de doença de notificação compulsória (art. 269) — que não é o caso —, e mesmo nela o dever se restringe a comunicar o fato à autoridade competente, sendo proibida a remessa do prontuário. Na adolescente, o sigilo é a regra e não a exceção: é vedado revelar sigilo relacionado a paciente criança ou adolescente com capacidade de discernimento, inclusive aos pais ou representantes legais, salvo quando a não revelação puder acarretar dano — e a decisão, qualquer que seja, fica justificada no prontuário.
Prescrição- Não comunicar o caso à polícia, ao Ministério Público ou ao juízo — em nenhuma forma de abortamento, espontâneo ou provocado (Norma Técnica Atenção Humanizada ao Abortamento, MS, item 2.2.5; Resolução CFM nº 1.605/2000, art. 3º).
- Não entregar prontuário a autoridade requisitante sem autorização expressa da paciente (Resolução CFM nº 1.605/2000, arts. 1º e 5º).
- Não condicionar analgesia, esvaziamento, antibiótico ou alta a qualquer relato da mulher sobre a origem do abortamento (Norma Técnica, itens 2.2.5 e 3.1; WHO, Clinical practice handbook for quality abortion care, 2023: negar manejo da dor ou o manejo do abortamento incompleto como punição é violação de direitos humanos).
- Registrar no prontuário o que se examinou e o que se fez, em linguagem clínica, sem juízo de valor e sem conclusão sobre causa que não se pode provar.
- Adolescente: refazer a entrevista a sós em algum momento, informando que o que ela contar é sigiloso; registrar a decisão sobre revelar ou não aos responsáveis, com a justificativa (Código de Ética Médica, art. 74).
Minuto 0 — triagem
Toda mulher em idade fértil com sangramento vaginal e atraso menstrual entra na triagem com duas perguntas objetivas: quanto ela está sangrando agora e se tem febre. Sangramento que encharca absorvente em menos de uma hora, lipotimia, palidez ou taquicardia mudam a classificação de risco na hora. Temperatura aferida, não referida — 'sensação de febre' não vale, e febre em abortamento é a diferença entre uma internação e um óbito. A gestação é confirmada por teste rápido de urina se ainda não houver confirmação; a régua para excluir gravidez ectópica está no capítulo próprio e precisa estar resolvida antes de qualquer conduta daqui.
Prescrição- Teste rápido de gravidez em urina, na própria unidade, se a gestação ainda não estiver documentada.
- Sinais vitais completos com temperatura axilar aferida, na chegada e a cada hora enquanto a paciente estiver sangrando na sala de espera.
- Acesso venoso periférico calibroso em toda paciente com sangramento ativo, mesmo com pressão normal.
Minuto 5 — a paciente instável
Palidez, sudorese, taquicardia, pressão de pulso estreitando, lipotimia ao sentar: a classificação fina para depois. Dois acessos calibrosos, cristaloide aquecido, tipagem sanguínea com fator Rh, hemograma, coagulograma, reserva de concentrado de hemácias e comunicação imediata com o centro cirúrgico e com a anestesia. Aqui não há espaço para conduta expectante nem medicamentosa: sangramento genital intenso é indicação de esvaziamento mecânico como método de primeira escolha, e o misoprostol é evitado exatamente porque o tempo de resposta dele não cabe nesta paciente. Enquanto o centro cirúrgico não recebe, o espéculo já resolve parte do problema: material encravado no orifício retirado com pinça longa reduz o sangramento de imediato.
Prescrição- Cristaloide (soro fisiológico 0,9% ou Ringer lactato) endovenoso, guiado por resposta clínica; no abortamento infectado com sinais de hipoperfusão, 30 mL/kg na primeira a terceira hora — 1.500 mL para 50 kg, 1.800 mL para 60 kg, 2.100 mL para 70 kg (Manual de Gestação de Alto Risco, MS, 2022).
- Tipagem ABO e fator Rh, hemograma, plaquetas, coagulograma — em caráter de urgência.
- Retirada de material saliente no orifício externo do colo com pinça longa, sob visão direta, ainda na sala de exame.
- Indicação de esvaziamento mecânico imediato; o esvaziamento farmacológico não é opção nesta paciente (Norma Técnica, MS; Protocolo Febrasgo nº 17).
Minuto 10 — o exame que classifica
Espéculo e toque, nesta ordem, em toda paciente. O espéculo responde de onde vem o sangue, quanto sai agora e o que existe no orifício externo, além de mostrar secreção purulenta quando ela existe. O toque responde a única pergunta que classifica: o orifício INTERNO está pérvio? E acrescenta volume uterino e dor à mobilização. Duas linhas no prontuário resolvem: 'orifício interno pérvio/impérvio' e 'material visível/ausente no orifício externo'. Com essas duas linhas mais a temperatura, a forma clínica está definida e a conduta se escolhe sozinha.
Prescrição- Exame especular com foco de luz, seguido de toque bimanual, em toda mulher com sangramento de primeiro trimestre — antes de qualquer pedido de imagem.
- Registro explícito do estado do orifício INTERNO (pérvio ou impérvio), do achado no orifício externo e do volume uterino estimado em semanas.
Minuto 20 — a dor, que aqui é sistematicamente subestimada
A cólica do abortamento é contração uterina de expulsão, e ela dói como trabalho de parto em miniatura — só que sem ninguém tratando. O controle inadequado da dor produz sofrimento desnecessário, aumenta a ansiedade e expõe a mulher a mais complicações. Duas regras separam a prescrição. Se a gestação ainda é viável (ameaça de abortamento, embrião vivo), anti-inflamatório não esteroide está fora, porque seu uso é desaconselhado ao longo da gestação; usa-se dipirona ou paracetamol. Se a perda já está estabelecida, o anti-inflamatório passa a ser a primeira escolha e é mais eficaz para dor de origem contrátil. Para o procedimento em si, o bloqueio paracervical é recomendado de rotina e transforma a experiência: ele é barato, leva dois minutos e é a diferença entre uma AMIU tolerável e uma AMIU traumática.
Prescrição- Gestação viável (ameaça): dipirona 1 g endovenosa ou paracetamol por via oral; anti-inflamatório não esteroide contraindicado durante a gestação (Manual de Gestação de Alto Risco, MS, 2022).
- Perda já estabelecida: anti-inflamatório não esteroide — ibuprofeno 400 a 800 mg por via oral (WHO, Clinical practice handbook for quality abortion care, 2023); se contraindicado ou indisponível abaixo de 12 semanas, paracetamol.
- Ansiedade que atrapalha o procedimento: diazepam 5 a 10 mg (WHO, 2023). Sedação consciente associada ao bloqueio, onde disponível.
- Bloqueio paracervical antes de AMIU ou curetagem: lidocaína a 1% SEM vasoconstritor, injeção lenta na metade posterior do colo, na transição com a mucosa vaginal, às 5 e às 7 horas, agulha fina (calibre 23 ou de insulina), profundidade de 3 a 5 mm, 3 a 8 mL em cada ponto (Norma Técnica, MS, item 4.3). Total de 6 a 16 mL, ou 60 a 160 mg de lidocaína — bem abaixo do teto de 4,5 mg/kg, que dá 225 mg para 50 kg e 270 mg para 60 kg.
- Acima de 12 semanas, acrescentar opioide oral, intramuscular ou endovenoso, ou anestesia regional, conforme disponibilidade e monitorização (WHO, 2023; Manual de Gestação de Alto Risco, MS, 2022).
Hora 1 — colo pérvio no primeiro trimestre (inevitável e incompleto)
Esta é a paciente mais comum do plantão, e a decisão é uma só: esvaziar. O método de escolha abaixo de 12 semanas é a aspiração intrauterina, manual ou elétrica, priorizada em relação à curetagem por menor morbimortalidade materna — a Organização Mundial da Saúde e a Federação Internacional de Ginecologia e Obstetrícia recomendam que a curetagem seja usada apenas quando a aspiração não estiver disponível. Em condições favoráveis, a aspiração dispensa anestesia geral e bloqueio regional, resolvendo-se com analgesia, sedação ou bloqueio paracervical com lidocaína a 1% sem vasoconstritor, o que encurta a internação. Se o serviço não tem cânula ou não tem quem opere, faz-se a curetagem — e o problema fica registrado para a chefia, porque ele é do serviço, não da paciente. A conduta medicamentosa é alternativa legítima para a mulher estável que quer evitar instrumentação, com a mulher internada até a resolução; a conduta expectante tem pouco espaço aqui, porque já existe sangramento em curso.
Prescrição- Aspiração intrauterina (manual ou elétrica) como primeira escolha abaixo de 12 semanas de tamanho uterino (Protocolo Febrasgo nº 17, 2025; Norma Técnica, MS; WHO).
- Curetagem uterina apenas quando a aspiração não estiver disponível (WHO/FIGO, reproduzido pelo Protocolo Febrasgo nº 17).
- Se o colo estiver justo para a cânula: misoprostol 400 mcg por via vaginal — 2 comprimidos de 200 mcg — 3 a 4 horas antes do esvaziamento mecânico (Protocolo Febrasgo nº 17; Norma Técnica, MS). O Manual de Gestação de Alto Risco descreve a mesma dose única com antecedência de 4 a 6 horas; qualquer ponto entre 3 e 6 horas está dentro do que os dois documentos sustentam.
- Alternativa medicamentosa, com internação: misoprostol 800 mcg por via vaginal — 4 comprimidos de 200 mcg — repetidos a cada 12 horas nos tempos 0, 12 e 24 horas, até três doses, totalizando 2.400 mcg ou 12 comprimidos (Norma Técnica, MS, item 4.2.2, 1ª opção, dentro do intervalo de 3 a 12 horas do Protocolo Febrasgo nº 17).
- Enviar todo material obtido para exame histopatológico (Protocolo Febrasgo nº 17).
Hora 1 — colo fechado com embrião vivo (ameaça de abortamento)
Não há internação, não há esvaziamento, não há medicação que mude o desfecho. A conduta é analgesia, orientação e retorno. Evitar relações sexuais durante a perda sanguínea e retomar o pré-natal. O que precisa ser dito em voz alta, porque é o que ela vai lembrar: a maior parte dessas gestações continua, e nada do que ela fez causou o sangramento. O que precisa estar escrito, porque é o que a protege: os sinais de retorno imediato.
Prescrição- Analgesia com dipirona ou paracetamol; anti-inflamatório não esteroide contraindicado enquanto a gestação for viável (Manual de Gestação de Alto Risco, MS, 2022).
- Orientação escrita de retorno imediato se surgir febre, dor pélvica localizada, sangramento com odor fétido ou aumento importante do sangramento (Norma Técnica, MS, item 4.1.1).
- Retomar o acompanhamento de pré-natal; sem indicação de repouso obrigatório nem de ultrassonografia seriada de curto intervalo.
Hora 1 — colo fechado com gestação inviável (abortamento retido)
Aqui existem três caminhos, todos aceitáveis, e a escolha é da mulher depois de informada. A conduta expectante consiste em aguardar a eliminação espontânea, com reavaliação a cada uma ou duas semanas e limite operacional de quatro semanas — depois disso, o risco de alteração da coagulação deixa de ser desprezível e a espera perde a vantagem. A conduta medicamentosa usa misoprostol e resolve a maioria dos casos em até 72 horas, com a mulher internada, porque no Brasil o misoprostol é de uso hospitalar por força da Portaria SVS/MS nº 344/1998. A conduta cirúrgica é a escolha de quem quer resolver rápido, de quem tem comorbidade cardiovascular ou hematológica, e de quem falhou nas outras duas. A informação honesta que sustenta a escolha vem do ensaio que comparou as três em 1.200 mulheres de primeiro trimestre: infecção confirmada em 12 de 402 no braço cirúrgico (3,0%), 11 de 398 no expectante (2,8%) e 9 de 398 no medicamentoso (2,3%) — sem diferença; mas curetagem não planejada em 22 de 402 no cirúrgico (5,5%), 52 de 398 no medicamentoso (13,1%) e 177 de 398 no expectante (44,5%). Traduzindo para a conversa: as três são igualmente seguras quanto a infecção, e a diferença está em quantas mulheres acabam voltando para o centro cirúrgico sem ter planejado — 5 em cada 100 no cirúrgico, 13 no medicamentoso e 45 no expectante.
Prescrição- Conduta expectante: reavaliação clínica e ultrassonográfica a cada uma a duas semanas; mudar de conduta se surgirem sinais de infecção, hemorragia, ou se não houver eliminação espontânea em até quatro semanas (Manual de Gestação de Alto Risco, MS, 2022).
- Conduta medicamentosa, com internação: misoprostol 800 mcg por via vaginal — 4 comprimidos de 200 mcg — nos tempos 0, 12 e 24 horas, até três doses (2.400 mcg, 12 comprimidos). Aguardar até 72 horas, ou 24 horas depois da última dose; após esse período, repetir o esquema ou passar ao esvaziamento mecânico, conforme a decisão da mulher (Norma Técnica, MS, item 4.2.2; dose e intervalo compatíveis com o Protocolo Febrasgo nº 17, que recomenda 800 mcg vaginais a cada 3 a 12 horas).
- Conduta cirúrgica: aspiração intrauterina abaixo de 12 semanas de tamanho uterino; curetagem apenas se a aspiração não estiver disponível.
- Em qualquer das três: manejo ativo da dor, e a mulher pode mudar de ideia a qualquer momento e solicitar o esvaziamento — o que deve ser aceito pela equipe (Norma Técnica, MS, item 4.2.2).
Hora 1 — colo fechado e cavidade vazia (abortamento completo)
Conduta expectante e observação, com atenção ao sangramento e à infecção. Nenhum esvaziamento, nenhuma curetagem 'para garantir'. Se o sangramento persistir com cavidade documentadamente vazia, cabe uterotônico e, se necessário, aspiração com cânula fina — nunca uma segunda curetagem em útero vazio. A regra que impede o erro é anterior: 'completo' exige cavidade vazia documentada e gestação intrauterina previamente confirmada. Sem essas duas coisas, o rótulo correto ainda é gestação de localização a esclarecer, e o caminho é o do capítulo de gravidez ectópica.
Prescrição- Observação clínica, sem esvaziamento (Protocolo Febrasgo nº 17; Norma Técnica, MS, item 4.1.2).
- Sangramento persistente com cavidade vazia: uterotônico; se necessário, aspiração manual com cânula fina.
- Sem material para histopatológico: teste de gravidez em urina ou beta-hCG sérico 30 dias após a eliminação, para documentar a resolução e não deixar passar doença trofoblástica (Manual de Gestação de Alto Risco, MS, 2022).
Hora 1 — febre: abortamento infectado
Três pilares, e eles são simultâneos: restaurar a perfusão, iniciar antibiótico endovenoso de amplo espectro e esvaziar o útero. A evacuação cirúrgica é urgente e deve ser realizada logo após o início da antibioticoterapia e a estabilização — não se espera 'melhorar do quadro infeccioso' para esvaziar, porque o material retido É o foco e o antibiótico não o alcança. Abaixo de 12 semanas de tamanho uterino, a técnica de eleição é a aspiração manual intrauterina, que tem menos complicações, exige menos dilatação e aspira o material infectado; perda súbita do vácuo durante o procedimento sugere perfuração uterina prévia. O esvaziamento é feito sob infusão de ocitocina. Piora, ausência de resposta, mionecrose, perfuração, abscesso, hemorragia por lesão vascular ou gás em imagem indicam laparotomia — e, se necessário, retirada de órgãos pélvicos. A partir do momento em que houver disfunção orgânica, o manejo é o do capítulo de sepse e choque séptico.
Prescrição- Cristaloide 30 mL/kg endovenoso na primeira a terceira hora, na ausência de edema pulmonar (Manual de Gestação de Alto Risco, MS, 2022).
- Esquema antimicrobiano de escolha deste capítulo: gentamicina 5 mg/kg endovenosa uma vez ao dia — 300 mg para 60 kg — associada a ampicilina 2 g endovenosa a cada 4 horas (12 g/dia) e clindamicina 900 mg endovenosa a cada 8 horas (2,7 g/dia) (Manual de Gestação de Alto Risco, MS, 2022, esquema 2).
- Alternativa igualmente sustentada, para quem não vai começar tríplice: clindamicina 600 mg endovenosa a cada 6 horas — ou metronidazol 500 mg endovenoso a cada 8 horas — associada a gentamicina 3 a 5 mg/kg a cada 24 horas; sem resposta, acrescentar ampicilina 1 g endovenosa a cada 6 horas ou penicilina cristalina 5.000.000 UI endovenosa a cada 6 horas (Protocolo Febrasgo nº 17, 2025).
- Manter a via endovenosa até 48 horas afebril com redução da dor pélvica (Manual de Gestação de Alto Risco, MS, 2022) — o Protocolo Febrasgo nº 17 escreve o mesmo prazo como 48 horas após o último pico febril e melhora clínica.
- Transição para via oral completando 10 a 14 dias de tratamento: doxiciclina 100 mg a cada 12 horas associada a metronidazol 500 mg a cada 12 horas (Manual de Gestação de Alto Risco, MS, 2022).
- Esvaziamento uterino logo após o início do antibiótico e a estabilização, preferencialmente por aspiração manual intrauterina, sob infusão de ocitocina (Norma Técnica, MS, item 4.1.5).
- Hemocultura antes do antibiótico quando isso não atrasar a primeira dose; nunca esperar cultura para iniciar.
Acima de 12 semanas — a ordem inverte
Com feto intrauterino acima da 12ª semana e condições maternas estáveis, promove-se primeiro a indução farmacológica com misoprostol e só depois da expulsão fetal se faz a curetagem. A razão é mecânica: existem ossos fetais formados, e instrumentar antes da expulsão aumenta perfuração e laceração cervical. A curetagem é o método de escolha nos abortamentos de segundo trimestre justamente por isso — é o oposto do que vale no primeiro trimestre, e trocar as duas regras de lugar é um erro clássico. Nas gestações entre 13 e 24 semanas, o esquema é 400 mcg de misoprostol por via vaginal a cada 3 horas; com cicatriz uterina prévia, cesárea ou miomectomia, a dose cai para 200 mcg vaginais a cada 6 horas, por causa de um risco de rotura de 0,28%.
Prescrição- 13 a 24 semanas: misoprostol 400 mcg por via vaginal — 2 comprimidos de 200 mcg — a cada 3 horas; em 24 horas isso equivale a 8 doses, 3.200 mcg, 16 comprimidos (Protocolo Febrasgo nº 17, 2025, reproduzindo FIGO/OMS).
- Com cicatriz uterina prévia: misoprostol 200 mcg por via vaginal — 1 comprimido — a cada 6 horas, sem ultrapassar essa dose; em 24 horas, 4 doses, 800 mcg, 4 comprimidos (Protocolo Febrasgo nº 17, 2025).
- Após a expulsão fetal: curetagem uterina; aspiração se o volume uterino já for compatível com menos de 12 semanas (Protocolo Febrasgo nº 17; Norma Técnica, MS, item 4.2.4).
- Óbito fetal intrauterino de 13 a 17 semanas pelo esquema alternativo da norma técnica: misoprostol 200 mcg vaginais a cada 6 horas, 4 doses; de 18 a 26 semanas, 100 mcg vaginais a cada 6 horas, 4 doses, repetindo após 24 horas se necessário (Norma Técnica, MS, item 4.2.2).
Imediatamente antes de instrumentar
Quatro coisas se conferem com a mulher já na sala, e nenhuma delas leva mais de um minuto. O consentimento, com explicação do procedimento e do que ela vai sentir — efetuar procedimento sem esclarecimento e consentimento prévios é vedado, salvo iminente perigo de vida. A analgesia, que precisa estar feita e não prescrita. O preparo do colo, se ele estiver justo. E a antissepsia do colo antes de qualquer procedimento cirúrgico. Sobre antibiótico profilático, a Organização Mundial da Saúde recomenda profilaxia pré ou perioperatória no esvaziamento cirúrgico, independentemente do risco individual de infecção pélvica — em dose única de nitroimidazol, tetraciclina ou penicilina —, e recomenda CONTRA a profilaxia no esvaziamento medicamentoso; os documentos brasileiros de abortamento não estabelecem profilaxia de rotina. A posição deste capítulo é seguir a padronização do serviço quando ela existir, e nunca deixar a ausência do antibiótico atrasar o esvaziamento, ressalva que a própria recomendação da OMS faz.
Prescrição- Consentimento esclarecido registrado, com explicação do procedimento, da dor esperada e das alternativas (Código de Ética Médica, art. 22; Norma Técnica, MS, item 4.2).
- Analgesia administrada e bloqueio paracervical realizado antes do início do procedimento.
- Antissepsia do colo antes do procedimento cirúrgico (WHO, 2023).
- Profilaxia antimicrobiana em dose única antes do esvaziamento cirúrgico, conforme padronização do serviço; a falta do antibiótico não adia o procedimento (WHO, Abortion care guideline, 2022, Recomendação 9).
- Esvaziamento no abortamento infectado sob infusão de ocitocina (Norma Técnica, MS, item 4.1.5).
Nas primeiras horas depois do esvaziamento
É aqui que se perdem as duas prescrições mais esquecidas do plantão, e nenhuma das duas alivia sintoma nenhum. A primeira é a imunoglobulina anti-D, que protege a próxima gestação e tem janela de 72 horas. A segunda é a contracepção: a ovulação pode retornar já em 8 a 10 dias e, em geral, dentro do primeiro mês, e a mulher que sai sem método sai exposta. A norma técnica é direta ao dizer que o atendimento da mulher com complicações de abortamento só será completo se acompanhado de orientação sobre anticoncepção e oferta de métodos no pós-abortamento imediato — e que o dispositivo intrauterino pode ser inserido ao fim do esvaziamento nas mulheres sem nenhum sinal ou suspeita de infecção. Oferta não é imposição: a mulher tem liberdade absoluta de aceitar ou não. Os critérios de elegibilidade dos métodos hormonais combinados estão no capítulo próprio.
Prescrição- Imunoglobulina anti-D 300 mcg por via intramuscular, ampola única, em toda mulher RhD negativa não sensibilizada, independentemente da idade gestacional, até 72 horas do evento (Manual de Gestação de Alto Risco, MS, 2022, item 4.1.7; apresentação de 300 mcg injetável em ampola, Protocolos e Normas Técnicas Estaduais, SES-SP, 2024). Trezentos microgramas equivalem a 1.500 UI.
- Material do esvaziamento para exame histopatológico, sempre que houver material (Protocolo Febrasgo nº 17; Manual de Gestação de Alto Risco, MS, 2022).
- Oferta de método contraceptivo antes da alta, com informação sobre todos os métodos disponíveis; DIU pode ser inserido ao fim do esvaziamento na ausência de sinal ou suspeita de infecção (Norma Técnica, MS, itens 5.1 e 5.2).
- Sorologia para sífilis em todas; teste rápido para HIV e hepatites oferecidos (Protocolo Febrasgo nº 17; Norma Técnica, MS, item 4.1).
Alta — o que sai escrito
A alta do abortamento tem cinco itens e cabe em meia folha. Analgesia para casa, porque a cólica continua por dias. Sinais de retorno imediato, escritos e lidos em voz alta com a mulher: febre, sangramento que encharca mais de um absorvente por hora, odor fétido, dor que piora. Data e local do retorno — e, quando não houve material para histopatológico, o pedido de teste de gravidez ou beta-hCG em 30 dias. O método contraceptivo iniciado ou a receita dele. E, se a imunoglobulina anti-D não foi aplicada na maternidade por falta de estoque, um relatório médico e a prescrição em mãos, porque a retirada ambulatorial exige documentação e o relógio das 72 horas não para. A informação sobre o retorno da fertilidade fecha a conversa: é seguro retomar a atividade sexual quando o sangramento parar, e a menstruação volta em um a dois meses — mas a ovulação vem antes dela.
Prescrição- Analgésico por via oral para uso domiciliar, com dose e intervalo escritos.
- Orientação escrita de retorno imediato: febre, sangramento encharcando mais de um absorvente por hora, odor fétido, dor progressiva.
- Retorno programado; se não houve material para histopatológico, teste de gravidez em urina ou beta-hCG sérico em 30 dias (Manual de Gestação de Alto Risco, MS, 2022).
- Método contraceptivo iniciado antes da alta ou receita entregue, com data de início (Norma Técnica, MS, item 5.2).
- Anti-D não aplicada na internação: relatório médico e prescrição entregues à paciente, com a informação do prazo de 72 horas e do local de retirada (Protocolos e Normas Técnicas Estaduais, SES-SP, 2024).
- Encaminhamento ambulatorial para investigação de abortamento de repetição quando houver duas ou mais perdas (Protocolo Febrasgo nº 17, 2025).
Como saber se está funcionando
O abortamento tem uma vantagem rara: quase todos os desfechos que importam são visíveis à beira do leito, e nenhum deles depende de exame caro. Sangramento, dor, temperatura, frequência cardíaca e a mão no fundo do útero respondem, em minutos, se a conduta está funcionando. A dificuldade não é medir — é combinar de antemão quando se mede e qual número muda a decisão, porque sem isso a reavaliação vira "paciente estável" escrito de hora em hora até alguém entrar em choque.
Duas quantificações precisam entrar no vocabulário do plantão, porque "sangramento moderado" não é informação. A primeira é absorvente por hora: encharcar mais de um absorvente por hora, de forma sustentada, é sangramento que exige reavaliação médica imediata. A segunda é a comparação com a própria menstruação da paciente — "está mais ou menos do que a sua menstruação mais forte?" —, que funciona melhor do que qualquer escala e que a mulher responde com precisão.
Esperado: Redução progressiva depois do esvaziamento. Após aspiração ou curetagem, sangramento menor que o de uma menstruação, com queda ao longo do primeiro dia. Na conduta medicamentosa, um pico de sangramento intenso nas horas da expulsão, seguido de queda — mediana de duração de 11 a 12 dias com misoprostol ou conduta expectante, contra 8 dias no braço cirúrgico.
Se não melhora: Mais de um absorvente encharcado por hora, de forma sustentada: reexaminar. Espéculo primeiro (material encravado no orifício sai com pinça e resolve na hora), depois ultrassonografia para responder se a cavidade está vazia. Cavidade com restos: reesvaziar. Cavidade vazia com útero amolecido: uterotônico. Cavidade vazia com útero contraído e sangramento persistente: pensar em coagulopatia e em laceração cervical, e não indicar uma segunda curetagem, que só acrescenta superfície cruenta.
Esperado: Frequência cardíaca abaixo de 100 e estável, pressão de pulso preservada. Em mulher jovem a sistólica cai por último — a taquicardia é o primeiro sinal e a queda de pressão é o último.
Se não melhora: Taquicardia que não cede com analgesia e volume é hipovolemia até prova em contrário: reposição, reserva de sangue e centro cirúrgico. A decisão de transfundir e a estratégia de reposição estão no capítulo de choque hemorrágico.
Esperado: Afebril. Calafrio e febre baixa nas primeiras horas após misoprostol são efeito termorregulador da prostaglandina, cedem em horas e não vêm acompanhados de secreção purulenta, dor à mobilização do colo ou taquicardia persistente.
Se não melhora: Febre que persiste por mais de 24 horas após a última dose de misoprostol exige avaliação e não pode ser atribuída à droga. Febre com dor uterina e secreção purulenta é abortamento infectado: antibiótico endovenoso e esvaziamento na sequência, sem esperar imagem.
Esperado: Cólica em melhora progressiva depois do esvaziamento. Durante a conduta medicamentosa, cólica intensa no período da expulsão, controlável com anti-inflamatório e, acima de 12 semanas, com opioide.
Se não melhora: Dor intensa que persiste tem três endereços obrigatórios: gravidez ectópica não excluída, abaixo de 12 semanas; rotura uterina, acima de 12 semanas e sobretudo com cicatriz uterina prévia; e perfuração uterina, depois de instrumentação. Dor desproporcional depois de uma AMIU ou curetagem, com abdome em defesa, é perfuração até prova em contrário. Aumentar analgésico sem reexaminar é o erro.
Esperado: Vácuo mantido, aspirado com material e espuma sanguinolenta, e o sinal tátil de útero contraindo em torno da cânula.
Se não melhora: Perda súbita do vácuo pode significar perfuração uterina prévia. Interromper, reavaliar, e conduzir como perfuração: na maioria das vezes a conduta é expectante com vigilância de sangramento abdominal e infecção, mas a decisão de laparotomia é do assistente e precisa ser acionada, não adiada.
Esperado: Expulsão do conteúdo dentro das primeiras 24 horas na maioria dos casos, podendo levar 48 ou 72 horas em alguns, sem aumento dos efeitos colaterais.
Se não melhora: Após 72 horas, duas saídas legítimas: repetir o esquema ou passar ao esvaziamento mecânico — e a escolha é da mulher, informada. Se ela pedir o esvaziamento a qualquer momento antes disso, a norma técnica determina que a equipe aceite. O colo, depois do misoprostol, costuma estar favorável, o que facilita a aspiração.
Esperado: Atividade uterina progressiva e expulsão fetal; a resolução costuma ser mais lenta e o ciclo pode precisar ser repetido.
Se não melhora: Não administrar nova dose se já houver atividade uterina estabelecida. Propor novo ciclo em 48 horas com 3 a 5 dias de intervalo, ou associação com ocitocina em decisão conjunta. Com cicatriz uterina, dor persistente entre as contrações, taquicardia materna e sangramento fazem pensar em rotura — e isso é sala cirúrgica.
Esperado: Queda da febre e redução da dor pélvica depois do esvaziamento; a via endovenosa se mantém até 48 horas afebril com melhora clínica.
Se não melhora: Persistência de febre depois dos cuidados iniciais aponta abscesso pélvico ou tromboflebite pélvica séptica. Reavaliar imagem procurando coleção, ar e perfuração; considerar que o útero pode não ter sido completamente esvaziado. Piora, mionecrose, perfuração, abscesso ou hemorragia por lesão vascular indicam laparotomia e, se necessário, retirada de órgãos pélvicos. Com disfunção orgânica instalada, o manejo passa a ser o do capítulo de sepse e choque séptico.
Esperado: Estabilização depois do esvaziamento. A queda pode se manifestar depois da reposição volêmica, e não na primeira coleta.
Se não melhora: Queda progressiva com paciente sintomática obriga a reavaliar a cavidade e a reconsiderar transfusão. No abortamento infectado, hemoglobina abaixo de 8 g/dL é limiar historicamente usado pela norma técnica para restabelecer condições vitais com sangue. A regra geral de indicação transfusional está no capítulo de choque hemorrágico.
Esperado: Cavidade vazia ou com pequena quantidade de material heterogêneo, que involui.
Se não melhora: Antes de indicar segundo esvaziamento por um laudo de "restos", conferir se existe sintoma. Coágulo e endométrio em regeneração têm o mesmo aspecto, e não há espessura endometrial que sozinha indique reintervenção — os estudos usaram cortes entre 5 mm e 25 mm, sem consenso. Reintervir em mulher assintomática por causa de milímetros é a receita da sinéquia uterina.
Esperado: Teste negativo ou beta-hCG em queda franca, documentando a resolução.
Se não melhora: Teste ainda positivo em 30 dias exige investigação de doença trofoblástica gestacional e de gestação persistente — e é exatamente para não perder esse diagnóstico que a conferência existe. Encaminhar, não repetir indefinidamente.
Esperado: Registro de aplicação de 300 mcg por via intramuscular em toda RhD negativa não sensibilizada, dentro de 72 horas.
Se não melhora: Sem estoque na unidade: relatório médico, prescrição e orientação escrita sobre onde retirar e em que prazo. Alta sem tipagem resultada é alta sem essa decisão tomada — e o erro só aparece na próxima gestação.
Onde o erro machuca
O dano: Transforma um diagnóstico de vinte segundos numa espera de horas ou dias, com a mulher sangrando e com cólica na sala de espera. Quando o colo está pérvio e há material no orifício, a imagem não acrescenta nada à decisão — e, em serviço sem ultrassonografia noturna, o pedido vira alta com retorno na segunda-feira. Foi essa inversão que manteve a paciente do começo do capítulo quatro horas sem diagnóstico e sem analgesia.
Como pegar a tempo: Ordem fixa: estabilidade, febre, espéculo, toque, imagem. O protocolo da Febrasgo é explícito ao afirmar que a ultrassonografia pélvica não é necessária para o diagnóstico do abortamento inevitável e não pode retardar o tratamento. Escreva as duas linhas que classificam — orifício interno pérvio ou impérvio, material presente ou ausente no orifício externo — antes de escrever qualquer pedido.
O dano: Reclassifica uma ameaça de abortamento como abortamento inevitável e leva ao centro cirúrgico uma gestação viável. O dano é a perda de uma gravidez que ia continuar — e ele é irreversível.
Como pegar a tempo: O orifício que classifica é o INTERNO. A pergunta do toque é se o dedo ultrapassa o orifício interno, não se o externo admite a polpa. Na dúvida em paciente estável e afebril, a ultrassonografia responde, e vale a espera.
O dano: Cureta é instrumento rígido: perfura mais, sangra mais, dói mais, exige mais dilatação cervical e deixa sinéquia. A Organização Mundial da Saúde e a FIGO recomendam a curetagem apenas na indisponibilidade da aspiração, e o Brasil faz o contrário em cerca de 95% das internações por aborto — 192 mil curetagens por ano sobre a média da série, contra 10 mil aspirações.
Como pegar a tempo: Pergunte, antes de marcar o centro cirúrgico, se existe kit de AMIU no serviço e quem sabe usar. Onde existe kit e não existe gente treinada, o problema é de formação e se resolve com a chefia — e o interno que levanta a pergunta muda a estatística do serviço mais do que imagina.
O dano: O material retido é o foco, e o antibiótico não alcança tecido necrótico sem perfusão. Enquanto o útero não esvazia, a paciente não melhora — ela progride para peritonite, mionecrose, choque séptico e histerectomia. Cada hora de espera é hora de bacteriemia sustentada com foco intacto.
Como pegar a tempo: Antibiótico endovenoso e reposição começam agora; o esvaziamento vem logo depois da primeira dose e da estabilização inicial, não depois da defervescência. Abaixo de 12 semanas, aspiração manual é a técnica de eleição, sob infusão de ocitocina.
O dano: A dor do abortamento é contração uterina, e antiespasmódico isolado não a controla. O controle inadequado provoca sofrimento desnecessário, aumenta a ansiedade e expõe a mais complicações. Negar manejo adequado da dor a quem está em abortamento é, na formulação da Organização Mundial da Saúde, violação de direitos humanos quando funciona como punição.
Como pegar a tempo: Prescrever analgesia de verdade e reavaliar: anti-inflamatório quando a perda já está estabelecida, dipirona ou paracetamol enquanto a gestação for viável, opioide acima de 12 semanas, e bloqueio paracervical de rotina antes de AMIU ou curetagem.
O dano: O uso de anti-inflamatórios não esteroides é desaconselhado ao longo da gestação, e prescrevê-los à mulher cuja gestação segue viável expõe o feto sem necessidade — inclusive porque existe alternativa igualmente eficaz.
Como pegar a tempo: Regra de dois estados: gestação viável, dipirona ou paracetamol; perda já estabelecida, anti-inflamatório como primeira escolha por ser mais eficaz na dor de origem contrátil.
O dano: Perde-se a única prescrição do plantão que protege a próxima gestação. A imunoglobulina anti-D tem janela de 72 horas e, passada a janela, a sensibilização pode já ter ocorrido — e a doença hemolítica aparece anos depois, no filho seguinte, sem que ninguém relacione as duas coisas.
Como pegar a tempo: Tipagem ABO e Rh é exame de urgência em todo abortamento, mesmo na paciente estável. Anti-D 300 mcg por via intramuscular em toda RhD negativa não sensibilizada, independentemente da idade gestacional. Sem estoque, a paciente sai com relatório e prescrição, e com o prazo escrito.
O dano: Coágulo e endométrio em regeneração têm o mesmo aspecto ultrassonográfico do resto ovular, e não existe espessura endometrial que indique reintervenção sozinha. A segunda raspagem em cavidade já esvaziada acrescenta superfície cruenta e é a via mais direta para sinéquia uterina e para infertilidade secundária.
Como pegar a tempo: Reintervir por sintoma — sangramento persistente, dor, febre —, nunca por milímetros. Diante de laudo positivo e paciente bem, reavaliar clinicamente e acompanhar.
O dano: Cavidade vazia com beta-hCG positivo e sem gestação tópica prévia documentada é gravidez ectópica até prova em contrário. A alta com esse rótulo é a alta que traz a paciente de volta com hemoperitônio.
Como pegar a tempo: Duas condições, ambas obrigatórias: cavidade vazia documentada e gestação intrauterina previamente confirmada. Faltando qualquer uma, o caminho é a régua do capítulo de gravidez ectópica.
O dano: Existem ossos fetais formados; a instrumentação precoce aumenta perfuração uterina, laceração cervical e sangramento, e frequentemente falha em esvaziar. A regra do segundo trimestre é o inverso da do primeiro.
Como pegar a tempo: Acima de 12 semanas com feto intrauterino e paciente estável: indução com misoprostol primeiro, curetagem depois da expulsão. Aspiração só quando o volume uterino já corresponder a menos de 12 semanas.
O dano: Rotura uterina durante o abortamento farmacológico de segundo trimestre em mulher com cicatriz tem risco medido de 0,28% — baixo em proporção e catastrófico em consequência, porque acontece longe do centro cirúrgico, com a paciente em enfermaria.
Como pegar a tempo: Com cesárea ou miomectomia prévia, a dose não deve ultrapassar 200 mcg vaginais a cada 6 horas. Perguntar sobre cirurgia uterina prévia faz parte da prescrição, não da anamnese geral.
O dano: Não é dever legal: é infração ética e crime em tese. A norma técnica do Ministério da Saúde determina que, diante de abortamento espontâneo ou provocado, nenhum profissional de saúde pode comunicar o fato à autoridade policial, judicial ou ao Ministério Público, e o descumprimento pode gerar procedimento criminal, civil e ético-profissional, com responsabilidade por todos os danos causados à mulher. O dano à paciente é duplo: a exposição a processo criminal e o efeito de afastamento — mulheres que temem denúncia chegam mais tarde e mais graves, e é esse atraso que mata.
Como pegar a tempo: Guardar o sigilo, que é dever legal e ético (Código Penal, art. 154; Código de Ética Médica, art. 73; Código de Processo Penal, art. 207). Diante de requisição de prontuário, aplicar a Resolução CFM nº 1.605/2000: sem consentimento do paciente não se revela, e na investigação de crime o médico está impedido de revelar segredo que possa expor o paciente a processo criminal. Em caso de dúvida, consultar o Conselho Regional em que se tem inscrição, como a própria resolução prevê.
O dano: A resposta não muda antibiótico, esvaziamento, analgesia nem anti-D — e o interrogatório produz três danos reais: adia o tratamento, destrói a relação de confiança e faz a paciente omitir a informação que realmente importa, que é se houve instrumentação recente. Condicionar analgesia ou esvaziamento a qualquer relato configura punição travestida de conduta.
Como pegar a tempo: Perguntar uma vez, com finalidade clínica declarada e garantia de sigilo — "para eu cuidar direito, preciso saber se alguém mexeu ou se você usou alguma medicação; isso fica entre nós" — e procurar no exame o que muda conduta: lesão vaginal ou cervical, suspeita de perfuração, corpo estranho. Registrar achados, não suposições.
O dano: A ovulação retorna já em 8 a 10 dias e, em geral, dentro do primeiro mês. A mulher que sai sem método está exposta antes de a menstruação voltar, e o risco de nova perda é maior justamente entre as que se julgam fora de risco e por isso não se protegem.
Como pegar a tempo: Orientação e oferta de método antes da alta são parte do atendimento, e o dispositivo intrauterino pode ser inserido ao fim do esvaziamento na ausência de sinal ou suspeita de infecção. Oferta, não imposição: a decisão é dela, e a recusa se registra sem insistência.
O dano: Perde-se o diagnóstico de doença trofoblástica gestacional, que se apresenta exatamente como um abortamento e cujo atraso diagnóstico custa quimioterapia mais longa e seguimento mais difícil.
Como pegar a tempo: Todo material obtido no esvaziamento vai para histopatológico. Quando não houve material — conduta expectante ou medicamentosa sem coleta —, solicitar teste de gravidez em urina ou beta-hCG sérico 30 dias após a eliminação.
O que dizer ao paciente e à família
Esta conversa tem uma característica que a separa de quase todas as outras do plantão: a mulher costuma chegar já sabendo o desfecho e esperando julgamento. O que ela quer saber, quase sempre na mesma ordem, é se vai doer, se vai poder ter filhos depois, se a culpa é dela, e — com uma frequência que surpreende quem nunca perguntou — se alguém vai contar para alguém. A técnica geral de comunicação de más notícias, com o ritmo, o silêncio e a checagem do que foi entendido, está no capítulo próprio; o que segue são as falas específicas desta perda.
Duas coisas valem antes das falas. A primeira: acolher os acompanhantes sem impor valores pessoais e crenças, informando apropriadamente, é componente essencial de qualquer atendimento relacionado ao abortamento — e quem ela quer na sala é escolha dela, inclusive quando a escolha é ninguém. A segunda: a correta orientação reduz a ansiedade e ajuda a lidar com o luto, e isso não é retórica — é o que muda a experiência de uma noite que ela vai lembrar a vida inteira.
Dar a notícia de que a gestação não é mais viável
“"Eu tenho uma notícia difícil. O exame mostra que essa gravidez não está evoluindo — não há batimento cardíaco. Sinto muito. Vou te explicar o que isso significa e quais são as opções, e você não precisa decidir nada agora."”
Não diga: "Deu ruim, não tem mais nada aí." "É só um aborto, você é jovem." Minimizar a perda para consolar produz o efeito oposto: ela para de falar.
Ela pergunta se a culpa é dela — se foi o peso que carregou, a briga, a relação sexual, o remédio de dor de cabeça
“"Não foi nada que você fez. Na maior parte das perdas do início da gravidez, de 50% a 60%, existe uma alteração nos cromossomos do embrião que aconteceu na formação, antes mesmo de você saber que estava grávida. Trabalhar, ter relação, carregar peso, discutir — nada disso causa aborto."”
Não diga: "Provavelmente foi estresse." Atribuir causa que não se conhece, mesmo com boa intenção, entrega a ela uma culpa que vai durar anos.
Ela pergunta se vai poder engravidar de novo
“"Sim. Uma perda isolada não reduz a sua chance de ter filhos. A menstruação costuma voltar em um a dois meses, e a fertilidade volta antes disso. Quando você quiser tentar de novo, a gente conversa sobre o momento; se não quiser agora, hoje mesmo eu te ofereço um método para você decidir a hora."”
Não diga: Prometer que a próxima vai dar certo. Não se pode garantir isso, e a promessa quebrada custa a confiança inteira.
Oferecer as três condutas no abortamento retido, sem induzir
“"Existem três caminhos e nenhum é errado. Esperar que saia sozinho, usar um comprimido que ajuda o útero a esvaziar, ou fazer um procedimento para esvaziar hoje. O risco de infecção é parecido nos três, em torno de dois a três em cada cem. O que muda é a chance de você acabar precisando do procedimento sem ter planejado: cerca de 45 em cada 100 na espera, 13 com o comprimido e 5 com o procedimento. Qual desses te parece mais possível para a sua vida?"”
Não diga: "O melhor é curetar logo e resolver." Decidir por ela, quando as três condutas são legítimas, é retirar a única escolha que ela ainda tem nesta noite.
Explicar o que ela vai sentir com o misoprostol
“"O comprimido faz o útero contrair, então você vai ter cólica forte, parecida com a de uma menstruação muito intensa, e sangramento com coágulos. Pode dar enjoo, diarreia e um calafrio com febre baixa nas primeiras horas — isso é a própria medicação, e passa. Eu já vou deixar analgésico prescrito, e você me chama a qualquer momento se a dor não estiver controlada. Se a febre continuar depois de vinte e quatro horas da última dose, me chame também, porque aí é outra coisa."”
Não diga: "Vai sentir um desconforto." Prometer pouca dor destrói a confiança na hora em que a dor vem — e ela vem.
Ela pergunta, baixinho, se alguém vai ficar sabendo — ou se ela pode ser presa
“"O que a gente conversa aqui é sigiloso. Eu não comunico isso a polícia, a juiz nem a promotor — a lei me proíbe de fazer isso, e eu não faria. O meu trabalho é cuidar de você. Se alguém pedir o seu prontuário, ele não é entregue sem a sua autorização."”
Não diga: "Isso não é comigo", "depende do caso", ou qualquer resposta evasiva. A dúvida sobre sigilo é o que faz mulher chegar tarde e grave, e uma resposta clara aqui é intervenção clínica.
Ela conta que usou alguma medicação por conta própria
“"Obrigado por me contar, isso me ajuda a cuidar melhor de você e não muda nada no seu atendimento. Preciso saber só de uma coisa por segurança: alguém introduziu algum instrumento ou objeto? É que isso muda o que eu tenho que examinar."”
Não diga: Qualquer reação de rosto, qualquer 'por que você fez isso', qualquer chamada de outro profissional para 'ouvir de novo'. Reagir com julgamento é garantir que a próxima informação — a que pode salvar a vida dela — não venha.
Explicar por que é preciso esvaziar o útero mesmo com infecção em curso
“"O antibiótico está correndo, mas ele sozinho não resolve: enquanto sobrar material dentro do útero, a infecção continua alimentada, porque o remédio não chega bem nesse tecido. Esvaziar não é um risco a mais — é a parte principal do tratamento, e é o que vai fazer a febre ceder."”
Não diga: "Vamos esperar melhorar para operar." Além de errado, ensina a família a cobrar a espera.
Explicar a imunoglobulina anti-D a quem se sente bem e não entende por que levar uma injeção
“"Seu sangue é Rh negativo e o do bebê pode ter sido positivo. Se o seu corpo tiver contato com esse sangue, ele pode criar uma defesa que atacaria uma próxima gravidez. Essa injeção evita isso. Ela não é para hoje — é para o filho que você tiver depois. E ela precisa ser aplicada em até três dias."”
Não diga: "É de rotina." Chamar de rotina o que tem prazo é o que faz a paciente recusar e o que faz a equipe esquecer.
Oferecer contracepção sem que soe como cobrança
“"Uma informação que quase ninguém recebe: a ovulação pode voltar em oito a dez dias, antes da menstruação. Então, se você não quiser engravidar agora, o método precisa começar já. Eu posso te explicar as opções e a gente escolhe junto — e se você preferir não usar nada, tudo bem, é sua decisão."”
Não diga: "Agora você vai ter que se cuidar." Transformar oferta em advertência é a forma mais rápida de a mulher recusar tudo, inclusive o que ela queria.
A adolescente que veio com a mãe e não fala
“Para a mãe: "Preciso examinar e conversar um pouco a sós com ela, é assim que a gente faz sempre. Já te chamo em seguida." Para a adolescente, a sós: "O que você me contar fica entre nós. Eu só preciso contar alguma coisa para alguém se for para te proteger de um risco — e, se isso acontecer, eu te aviso antes."”
Não diga: Fazer a entrevista inteira com o acompanhante ao lado e registrar 'nega' como se fosse dado confiável.
A alta, e o que ela precisa levar na cabeça
“"Vou te dar isto por escrito, mas quero que você repita para mim: volta imediatamente se tiver febre, se encharcar mais de um absorvente por hora, se o sangramento ficar com cheiro forte ou se a dor aumentar. Cólica que vai diminuindo por alguns dias é esperado. Pode voltar a ter relação quando o sangramento parar."”
Não diga: Entregar o papel sem ler junto. Orientação que não foi repetida de volta pela paciente não foi dada.
Ela chora e não pergunta nada
“Ficar. Não preencher o silêncio com informação. Depois de algum tempo: "Eu vou ficar aqui um pouco. Se você quiser, eu explico tudo agora; se preferir, eu volto daqui a pouco e a gente conversa."”
Não diga: Sair da sala para 'dar espaço' e não voltar. Sair é o que ela vai lembrar.
Onde bons médicos discordam
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.
300 mcg em todas, qualquer idade gestacional
Recomenda-se a prescrição da imunoglobulina anti-D na dose de 300 mcg, independentemente da idade gestacional, nos casos de abortamento. Uma dose, uma ampola, sem estratificar por semanas.
Brasil. Ministério da Saúde. Manual de gestação de alto risco, 2022, item 4.1.7
50 mcg bastam antes de 12 semanas
No primeiro trimestre, a dose de 50 mcg de imunoglobulina hiperimune anti-RhD é efetiva, embora não haja contraindicação ao uso da dose padrão de 300 mcg, que é mais amplamente disponível. Após 12 semanas, recomenda-se 300 mcg.
Protocolo Febrasgo de Obstetrícia nº 17. Abortamento espontâneo: classificação, diagnóstico e conduta. Femina. 2025;53(1):47-52
A divergência é sobre eficiência, não sobre segurança: ninguém sustenta que 300 mcg façam mal, e os dois documentos concordam que essa é a apresentação disponível. No Brasil a decisão é resolvida pela logística: a ampola dispensada pelas secretarias estaduais é de 300 mcg, e não existe apresentação de 50 mcg em circulação — fracionar ampola de hemoderivado no plantão não é opção. Prescreva 300 mcg por via intramuscular, dose única, e gaste a energia da discussão no que realmente falha, que é lembrar de prescrever e conseguir a ampola dentro de 72 horas. Se algum dia o serviço tiver a apresentação menor e um volume de pacientes que justifique economizá-la, a posição da Febrasgo autoriza a dose reduzida abaixo de 12 semanas.
Reavaliar em 15 dias e propor conduta ativa
O fluxograma de conduta do abortamento de primeiro trimestre orienta, no abortamento retido, conduta expectante com reavaliação em 15 dias; se não houver expulsão nesse prazo, passa-se à conduta ativa com misoprostol 800 mcg e, na sequência, aspiração ou curetagem.
Protocolo Febrasgo de Obstetrícia nº 17, 2025 (fluxograma de conduta, aborto de 1º trimestre)
Até quatro semanas, reavaliando a cada uma ou duas
As mulheres são geralmente orientadas a esperar duas semanas, mas a conduta pode ser mantida por mais tempo se não houver sinais de infecção, com observação a cada uma ou duas semanas; a mudança de conduta é considerada especialmente diante de infecção, hemorragia ou ausência de eliminação espontânea em até quatro semanas. O mesmo prazo de quatro semanas aparece no quadro de formas clínicas do próprio protocolo da Febrasgo.
Brasil. Ministério da Saúde. Manual de gestação de alto risco, 2022, item 4.1.6.1; Protocolo Febrasgo de Obstetrícia nº 17, 2025 (Quadro 1)
Repare que a divergência é interna ao mesmo documento: o quadro do protocolo diz quatro semanas e o fluxograma do protocolo diz quinze dias. Isso ajuda, porque mostra que o intervalo entre duas e quatro semanas é uma zona de conforto, e não uma fronteira. Decida pela paciente que está na sua frente. Quem tem transporte, telefone e retorno garantido pode esperar mais, e a espera tem valor real para quem quer evitar instrumentação. Quem mora longe, depende de transporte sanitário, não consegue retornar ou está ansiosa a ponto de a espera ser o pior sintoma, não deve esperar quatro semanas por uma regra de livro — proponha conduta ativa mais cedo e diga por quê. O limite de quatro semanas é teto, não meta: o motivo dele é o risco crescente de alteração da coagulação, e não uma virtude da espera.
Cesárea anterior é contraindicação
A lista de contraindicações do uso de misoprostol inclui cesárea anterior, cirurgia uterina prévia, paciente asmática, uso concomitante com ocitocina e placenta prévia.
Brasil. Ministério da Saúde. Atenção humanizada ao abortamento: norma técnica, 2. ed., 2. reimp., 2014, item 4.2.2
Cicatriz uterina reduz a dose, não proíbe a droga
Mulheres com cicatriz uterina têm risco de 0,28% de rotura uterina durante o abortamento farmacológico no segundo trimestre; por isso, em caso de cicatriz uterina anterior (cesárea ou miomectomia), a dose de misoprostol não deve ser maior que 200 mcg vaginais a cada 6 horas.
Protocolo Febrasgo de Obstetrícia nº 17, 2025, reproduzindo as recomendações atualizadas da FIGO
As duas posições estão separadas por mais de dez anos e por um dado que não existia quando a primeira foi escrita: a quantificação do risco. Uma proibição absoluta parece prudente e não é, porque a alternativa a não usar misoprostol num útero de segundo trimestre é instrumentar antes da expulsão — que é justamente o que mais perfura. Decida pelo tamanho do útero e pelo lugar onde a paciente está. No primeiro trimestre, com útero pequeno, a cicatriz não governa a prescrição. No segundo trimestre com cicatriz, use a dose reduzida, mantenha a paciente em local com centro cirúrgico e banco de sangue acessíveis, e vigie dor persistente entre contrações, taquicardia materna e sangramento — que é como a rotura se anuncia. Onde não houver centro cirúrgico imediato, transfira antes de induzir.
800 mcg por via vaginal, o mesmo esquema do primeiro trimestre
Para o abortamento de primeiro trimestre, recomenda-se a administração de 800 mcg por via vaginal — quatro comprimidos de 200 mcg —, com intervalo de 3 a 12 horas, sem distinguir a forma clínica.
Protocolo Febrasgo de Obstetrícia nº 17, 2025, reproduzindo FIGO e OMS
600 mcg por via oral ou 400 mcg sublinguais, dose única
Para o manejo do abortamento incompleto com tamanho uterino abaixo de 14 semanas, o regime recomendado é 600 mcg por via oral ou 400 mcg por via sublingual; acima de 14 semanas, 400 mcg sublinguais, vaginais ou bucais a cada 3 horas.
World Health Organization. Clinical practice handbook for quality abortion care. Geneva: WHO; 2023, Tabela 3.1
A diferença tem lógica fisiológica: no abortamento incompleto o colo já está aberto e boa parte do conteúdo já saiu, e por isso uma dose menor resolve; no retido, com colo fechado e conteúdo íntegro, é preciso abrir o colo antes de expulsar. Decida pela forma clínica que você acabou de classificar, não pelo trimestre. Se o colo está pérvio e há material saindo, a dose menor é suficiente e produz menos cólica e menos diarreia — e a via vaginal pode ser desconfortável exatamente por causa do sangramento em curso, o que torna a via oral ou sublingual mais prática. Se o colo está fechado, use 800 mcg vaginais. E lembre que, no incompleto, a primeira escolha em serviço com kit disponível continua sendo a aspiração, que resolve em minutos o que o comprimido resolve em horas.
Profilaxia de rotina, independentemente do risco
Para o esvaziamento cirúrgico, recomendam-se antibióticos profiláticos apropriados no pré ou perioperatório, independentemente do risco individual de infecção pélvica; a administração em dose única de nitroimidazol, tetraciclina ou penicilina mostrou-se eficaz. Para o esvaziamento medicamentoso, recomenda-se contra o uso de profilático. A falta do antibiótico não deve limitar o acesso ao procedimento.
World Health Organization. Abortion care guideline. Geneva: WHO; 2022, Recomendação 9
Antibiótico é tratamento, não rotina
Os documentos brasileiros de referência sobre abortamento descrevem antibioticoterapia apenas no contexto do abortamento infectado, com esquemas terapêuticos de amplo espectro por via endovenosa, e não estabelecem profilaxia antimicrobiana de rotina para o esvaziamento uterino em paciente sem sinais de infecção.
Brasil. Ministério da Saúde. Manual de gestação de alto risco, 2022, item 4.3.3.2; Atenção humanizada ao abortamento: norma técnica, 2014, itens 4.1.5 e 4.2
O tamanho do efeito é pequeno porque o desfecho é raro: no ensaio que comparou as três condutas, a infecção confirmada em quatorze dias ficou entre 2,3% e 3,0% nos três braços, sem diferença entre eles. Decida pela padronização do seu serviço, e não caso a caso — profilaxia funciona quando é protocolo escrito, com droga, dose e momento definidos, e vira ruído quando cada plantonista escolhe a sua. Onde houver padronização, siga-a. Onde não houver, a decisão prática é não improvisar antibiótico e, sobretudo, não deixar a ausência dele adiar o esvaziamento — ressalva que a própria recomendação da Organização Mundial da Saúde faz. O paciente em que ninguém discorda é o que já tem sinal de infecção: aí não é profilaxia, é tratamento, e começa antes do procedimento.
Tríplice desde a primeira dose
Esquemas sugeridos por via endovenosa incluem gentamicina 5 mg/kg/dia associada a ampicilina 2 g de 4 em 4 horas e a metronidazol 500 mg de 8 em 8 horas, ou a mesma associação com clindamicina 900 mg de 8 em 8 horas; alternativamente, levofloxacino com metronidazol, imipenem ou piperacilina-tazobactam em monoterapia.
Brasil. Ministério da Saúde. Manual de gestação de alto risco, 2022, item 4.3.3.2
Dupla, escalonando se não responder
Clindamicina 600 mg por via endovenosa a cada 6 horas, ou metronidazol 500 mg por via endovenosa a cada 8 horas, associados a gentamicina 3 a 5 mg/kg a cada 24 horas; na ausência de resposta, inclui-se no esquema ampicilina 1 g a cada 6 horas ou penicilina 5.000.000 UI a cada 6 horas.
Protocolo Febrasgo de Obstetrícia nº 17, 2025 (Quadro 1)
Os dois esquemas cobrem anaeróbios e gram-negativos; a diferença está em cobrir enterococo desde o início ou depois. Decida pela gravidade e pelo tempo que você tem para reavaliar. Paciente com resposta inflamatória sistêmica, qSOFA de dois ou mais pontos, hipotensão ou sinais de peritonite: comece tríplice, porque não haverá uma segunda chance de escalonar. Paciente febril, mas estável, com abortamento infectado incipiente e equipe capaz de reavaliá-la de seis em seis horas: a dupla é suficiente e poupa espectro. Em ambos, o que muda o desfecho não é a escolha do esquema — é a hora em que o útero é esvaziado. E, seja qual for o esquema, mantenha a via endovenosa até 48 horas afebril com melhora clínica, e complete 10 a 14 dias com transição oral.
O raciocínio, em voz alta
Sábado, 4h20. Chega à maternidade Rosângela, 31 anos, G3P2A0, com atraso menstrual de dez semanas confirmado por teste de farmácia, sangramento vaginal há doze horas e cólica forte. Está pálida, sudoreica, falando frases curtas. Pressão 96 por 58, pulso 118, temperatura 37,1 °C, saturação 97%. Refere que trocou de absorvente quatro vezes desde a meia-noite e que teve tontura ao levantar. Duas cesáreas anteriores. Não sabe o tipo sanguíneo. Está acompanhada da irmã.
O que penso agora
Antes de qualquer classificação de forma clínica, uma pergunta: ela está estável? Pulso 118 com sistólica 96 e lipotimia ao levantar, em mulher de 31 anos, é hipovolemia — e em mulher jovem a sistólica cai por último, o que significa que a perda já é significativa. Quatro absorventes em quatro horas confirma. A febre de 37,1 °C não é febre. Então: instabilidade, não infecção.
O que faço antes de examinar
Dois acessos venosos calibrosos, cristaloide, monitorização. Coleta imediata de tipagem ABO e fator Rh, hemograma, plaquetas e coagulograma, com reserva de concentrado de hemácias. Aviso ao centro cirúrgico e à anestesia — não peço vaga, aviso que vou precisar. Nada disso depende de saber ainda qual forma de abortamento é.
O exame que classifica
Espéculo: sangue vivo em jato pelo orifício externo, com um fragmento de tecido saliente encravado no orifício. Sem secreção purulenta. Toque: orifício interno amplamente pérvio, útero amolecido, compatível com dez semanas, sem dor à mobilização do colo. Colo pérvio + material visível + afebril = abortamento incompleto, com repercussão hemodinâmica.
A manobra que já ajuda na sala
O tecido encravado no orifício mantém o colo aberto e o útero contraindo contra ele. Retiro com pinça longa, sob visão direta, e reservo o material. O sangramento diminui visivelmente em poucos minutos. Isso não substitui o esvaziamento — apenas compra tempo e reduz a perda enquanto o centro cirúrgico se organiza.
O exame que NÃO peço
Ultrassonografia. O diagnóstico está feito, e o protocolo da Febrasgo registra que a imagem não é necessária e não pode retardar o tratamento. Pedir agora significaria transportar uma paciente instável para a sala de exame e adiar o esvaziamento — que é o tratamento da hemorragia dela.
A conduta que também NÃO escolho
Misoprostol. Em sangramento genital intenso, o esvaziamento mecânico é o método de primeira escolha, e o farmacológico é evitado exatamente porque o tempo de resposta dele não cabe nesta paciente. As duas cesáreas anteriores reforçam a decisão, mas não são o motivo principal — o motivo é o sangramento.
Analgesia, antes e não depois
A perda já está estabelecida, então o anti-inflamatório está liberado. Prescrevo analgesia endovenosa agora, sem esperar o centro cirúrgico, e programo bloqueio paracervical com lidocaína a 1% sem vasoconstritor, 3 a 8 mL às 5 e às 7 horas, para o procedimento. A dor dela vem de contração uterina, e antiespasmódico isolado não resolve.
Qual instrumento
Útero de dez semanas, abaixo de doze: aspiração intrauterina é a primeira escolha, manual ou elétrica. Curetagem só se não houver aspiração no serviço. Pergunto isso explicitamente à enfermagem antes de subir, porque a resposta muda o material que vai para a sala — e porque descobrir na mesa que o kit não existe custa tempo.
A resposta do laboratório muda uma coisa
Hemoglobina 8,4 g/dL; tipagem A negativo. A hemoglobina, com paciente já respondendo ao volume e com o foco do sangramento prestes a ser removido, não indica transfusão por si só — a decisão é clínica, e a régua está no capítulo de choque hemorrágico. A tipagem, sim, muda: A negativo entra imunoglobulina anti-D no plano, com prazo de 72 horas.
O procedimento
Consentimento explicado e registrado, antissepsia do colo, bloqueio paracervical, aspiração manual intrauterina. O colo já estava pérvio, então não houve necessidade de preparo com misoprostol. Vácuo mantido durante todo o procedimento — sem sinal de perfuração. Material enviado para exame histopatológico, para não deixar passar doença trofoblástica.
Como sei se funcionou
Nas quatro horas seguintes: sangramento em queda, menos de um absorvente por hora; pulso caindo de 118 para 88; pressão 112 por 70; dor controlada. Útero contraído à palpação. Não peço ultrassonografia de controle — ela é para quem tem sintoma, e sintoma é o que ela não tem mais.
O que quase escapa na alta
Imunoglobulina anti-D 300 mcg por via intramuscular, dose única, ainda na internação. Sorologia para sífilis e oferta de teste rápido para HIV e hepatites. Oferta de contracepção com a informação de que a ovulação pode voltar em 8 a 10 dias — ela escolhe o injetável trimestral, iniciado antes da alta. Orientação escrita de retorno: febre, mais de um absorvente por hora, odor fétido, dor progressiva.
A conversa que fecha o caso
Ela pergunta se foi por ter carregado a filha no colo. "Não foi nada que você fez. Na maior parte das perdas do começo da gravidez existe uma alteração nos cromossomos que aconteceu na formação, antes de você saber que estava grávida." E pergunta se poderá engravidar de novo: sim, uma perda isolada não reduz a chance — e o método que ela acabou de iniciar é para ela escolher o momento, não para impedir.
Variação do caso — resposta e reavaliação
Variação após o esvaziamento de Rosângela: o sangramento diminui, a perfusão melhora e a dor cede. Confirmar resposta sustentada, documentação do procedimento e plano de seguimento; não usar a melhora imediata como único critério de alta. A conversa sobre culpa e planejamento reprodutivo continua depois da estabilização.
Variação do caso — quando mudar o plano
Se a taquicardia persiste ou a dor piora, reexaminar antes de atribuir tudo à ansiedade: considerar sangramento persistente, material retido, infecção, lesão do procedimento e localização gestacional não esclarecida. A próxima decisão depende da hipótese perigosa e da estabilidade, não apenas da espessura endometrial.
Faça você
Terça-feira, 9h. Chega ao pronto-atendimento Vitória, 22 anos, G1P0, com atraso menstrual de nove semanas e sangramento vaginal escasso e escuro há dois dias, sem cólica. Refere que os enjoos e a dor nas mamas, que eram intensos, sumiram na semana passada. Pressão 114 por 72, pulso 80, temperatura 36,5 °C, corada, hidratada. Abdome indolor. Ao espéculo: pequena quantidade de sangue escuro no fundo de saco, orifício externo sem material, sem secreção purulenta. Ao toque: orifício interno IMPÉRVIO, útero compatível com oito semanas, indolor, sem dor à mobilização do colo. Ultrassonografia transvaginal, feita na unidade: saco gestacional intrauterino com diâmetro médio de 28 mm, sem embrião e sem vesícula vitelínica; ausência de líquido livre; anexos sem alterações. Tipagem: O negativo. Ela está sozinha, chorando, e a primeira coisa que pergunta é se ainda tem chance.
1. Classifique a forma clínica e diga qual achado fecha o diagnóstico
Use as três perguntas — colo, conteúdo, febre — e depois aplique o critério ultrassonográfico correspondente. Diga também se este caso exige um segundo exame de imagem, e por quê.
2. Escreva as opções de conduta que você vai oferecer, com os números que sustentam a escolha dela
Para cada opção, escreva por extenso o que ela envolve, onde a paciente ficará, e qual é a chance de acabar precisando de um procedimento não planejado.
3. Escreva a prescrição completa desta consulta, incluindo o que não pode ser esquecido antes de ela sair
Dose, via, frequência e prazo. Inclua o que muda por causa da tipagem sanguínea dela, e o que você vai dizer nas duas primeiras frases da conversa.
Ver como fecharíamos
1. Classificação. Colo com orifício interno IMPÉRVIO, afebril, sem sangramento significativo, com regressão dos sintomas gestacionais: o quadro é de abortamento RETIDO. O achado que fecha o diagnóstico é o critério ultrassonográfico de inviabilidade — saco gestacional com diâmetro médio igual ou maior que 25 mm sem vesícula vitelínica nem embrião; aqui, 28 mm. Este é um dos dois critérios que NÃO exigem segundo exame: acima de 25 mm, a ausência de embrião não tem explicação inocente, e exigir uma repetição em quinze dias imporia duas semanas de espera com concepto morto sem ganho nenhum. Os critérios de intervalo — 14 dias após saco vazio, ou 11 dias após saco com vesícula vitelínica — existem para os casos ABAIXO desses cortes, e não é o caso dela. 2. Condutas a oferecer, e os números. As três são legítimas e a escolha é dela. (a) Expectante: aguardar a eliminação espontânea, com reavaliação clínica e ultrassonográfica a cada uma a duas semanas, mudando de conduta diante de infecção, hemorragia ou ausência de eliminação em até quatro semanas. (b) Medicamentosa: misoprostol com internação, porque no Brasil o misoprostol é de uso restrito a estabelecimento hospitalar cadastrado — não existe receita para casa. (c) Cirúrgica: aspiração intrauterina, que resolve no mesmo dia; útero de oito semanas está abaixo do limite de doze, então é aspiração, e não curetagem. Os números que sustentam a conversa, recalculados do ensaio que comparou as três condutas em 1.200 mulheres de primeiro trimestre: infecção confirmada em quatorze dias foi 3,0% (12/402) no braço cirúrgico, 2,8% (11/398) no expectante e 2,3% (9/398) no medicamentoso — sem diferença; já a curetagem NÃO planejada ocorreu em 5,5% (22/402) do braço cirúrgico, 13,1% (52/398) do medicamentoso e 44,5% (177/398) do expectante. Em linguagem de consulta: as três são igualmente seguras quanto a infecção, e a diferença é a chance de acabar no centro cirúrgico sem ter planejado — cerca de 5 em 100 na cirúrgica, 13 na medicamentosa e 45 na expectante. 3. Prescrição. Se ela escolher a conduta medicamentosa: internação; misoprostol 800 mcg por via vaginal — 4 comprimidos de 200 mcg — nos tempos 0, 12 e 24 horas, até três doses, totalizando 2.400 mcg ou 12 comprimidos; aguardar até 72 horas ou 24 horas após a última dose, e então repetir o esquema ou passar ao esvaziamento mecânico conforme a decisão dela. Analgesia: como a perda já está estabelecida, anti-inflamatório não esteroide é a primeira escolha — ibuprofeno 400 a 800 mg por via oral —, com reavaliação da dor 30 a 60 minutos depois; diazepam 5 a 10 mg se a ansiedade atrapalhar. Avisar antes da primeira dose o que vai acontecer: cólica forte, sangramento com coágulos, possibilidade de náusea, diarreia e calafrio com febre baixa nas primeiras horas, que é efeito da própria medicação — e que febre persistindo mais de 24 horas depois da última dose precisa ser reavaliada. Se ela escolher a conduta cirúrgica: aspiração intrauterina com bloqueio paracervical (lidocaína a 1% sem vasoconstritor, 3 a 8 mL às 5 e às 7 horas, agulha 23, profundidade de 3 a 5 mm) e, como o colo está fechado, preparo com misoprostol 400 mcg por via vaginal — 2 comprimidos de 200 mcg — 3 a 4 horas antes; material para exame histopatológico. O que muda pela tipagem: ela é O NEGATIVO. Imunoglobulina anti-D 300 mcg por via intramuscular, ampola única, independentemente da idade gestacional, dentro de 72 horas do evento. Se ela escolher a conduta expectante, isso exige atenção redobrada — a janela conta a partir da eliminação, e ela precisa sair com a orientação escrita e, se não houver estoque, com relatório e prescrição em mãos para retirada. Complementar com sorologia para sífilis, oferta de teste rápido para HIV e hepatites, oferta de contracepção antes da alta com a informação de que a ovulação pode retornar em 8 a 10 dias, e — se não houver material para histopatológico — teste de gravidez em urina ou beta-hCG sérico em 30 dias. As duas primeiras frases da conversa: "Eu tenho uma notícia difícil. O exame mostra que essa gravidez não está evoluindo — o saco gestacional cresceu, mas o embrião não se formou. Sinto muito." E, imediatamente depois, antes que ela pergunte: "Não foi nada que você fez."
O posicionamento FEBRASGO 2023 descreve, no óbito fetal entre 13 e 26 semanas, misoprostol vaginal 200 mcg a cada 4–6 horas. A opção de200 mcg a cada 6 horas é compatível com essa referência, mas duas cesáreas exigem avaliação individual, consentimento, vigilância e capacidade de tratar ruptura uterina. Não aplicar um risco único de 0,28%: ele depende do número e tipo de cicatrizes, esquema e população. A dose não representa teto universal para todos os protocolos; a OMS usa outro esquema para óbito fetal de 14–28 semanas e ressalva cautela nas incisões uterinas prévias. Após expulsão, avaliar placenta, sangramento e necessidade de intervenção; curetagem automática não é regra. Dilatação e evacuação por equipe treinada também é opção no segundo trimestre, distinta de curetagem cortante imediata e sem preparo. A presença de ossos fetais não torna toda abordagem cirúrgica previamente planejada inadequada.
Teste-se
Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.
Plano de revisão
Em 7 dias
Três perguntas classificam o abortamento inteiro: o orifício INTERNO do colo está pérvio? Sobrou conteúdo? Existe febre? Pérvio com material → incompleto: esvaziar, e a aspiração vem antes da curetagem abaixo de 12 semanas. Pérvio sem expulsão → inevitável: esvaziar. Fechado → é aqui, e só aqui, que a ultrassonografia decide: embrião vivo é ameaça (não intervir); critérios de inviabilidade (saco ≥ 25 mm sem embrião, ou embrião com CCN ≥ 7 mm sem batimento) é retido (três condutas à escolha dela); cavidade vazia com gestação tópica previamente documentada é completo (não intervir). Febre com dor uterina e secreção purulenta é abortamento infectado: cristaloide, antibiótico endovenoso e esvaziamento na sequência — porque o material retido é o foco e o antibiótico não o alcança. Antes da alta, em todas: anti-D 300 mcg intramuscular se RhD negativa não sensibilizada, dentro de 72 horas; material para histopatológico; oferta de contracepção; orientação escrita de retorno. Aplicação comentada: Ultrassom inconclusivo em gestação muito precoce significa perda confirmada? Não. Respeite critérios e intervalo de reavaliação; a urgência muda se houver sangramento importante, infecção ou instabilidade.
Em 30 dias
O que sobra depois de um mês. Ordem: estabilidade → febre → espéculo → toque → imagem; inverter isso foi o erro do caso do começo do capítulo. O orifício que classifica é o INTERNO — externo entreaberto de multípara não conta. Misoprostol: 800 mcg vaginais (4 comprimidos de 200 mcg) a cada 12 horas nos tempos 0, 12 e 24 h no primeiro trimestre; 400 mcg (2 comprimidos) 3 a 4 horas antes do esvaziamento mecânico com colo justo; 400 mcg a cada 3 horas entre 13 e 24 semanas, caindo para 200 mcg a cada 6 horas com cicatriz uterina, por causa de um risco de rotura de 0,28%. No Brasil o misoprostol é de uso hospitalar (lista C1 da Portaria SVS/MS nº 344/1998) e a mifepristona não está disponível na rede. Acima de 12 semanas a ordem inverte: induz primeiro, cureta depois da expulsão — curetagem é o método de escolha no segundo trimestre e o de segunda linha no primeiro. Abortamento infectado: gentamicina 5 mg/kg/dia + ampicilina 2 g 4/4 h + clindamicina 900 mg 8/8 h, endovenoso até 48 horas afebril, completando 10 a 14 dias com doxiciclina 100 mg 12/12 h + metronidazol 500 mg 12/12 h. E a parte que não é clínica e produz dano igual: o abortamento, espontâneo ou provocado, não se comunica à polícia, ao Ministério Público nem ao juízo — o sigilo é dever legal e ético (Código Penal, art. 154; Código de Ética Médica, art. 73; Código de Processo Penal, art. 207; Resolução CFM nº 1.605/2000, art. 3º) —, não se condiciona atendimento a relato nenhum, e não cabe objeção de consciência no atendimento de complicações de abortamento inseguro, porque é urgência.
Agora atenda
Agora atenda. Você está no plantão da maternidade às quatro da manhã e entra uma mulher em idade fértil com sangramento e cólica. Antes de pedir qualquer exame, faça as três perguntas que classificam — e faça na ordem: ela está estável, ela tem febre, e o orifício interno está pérvio. Peça o espéculo antes da imagem. Quantifique o sangramento em absorventes por hora, não em adjetivos. Trate a dor de verdade. Se o colo estiver fechado, é a ultrassonografia que decide — e aí ofereça as três condutas com os números na mão, sem escolher por ela. E, antes de escrever a alta, confira as duas prescrições que ninguém sente falta na hora e todo mundo sente falta depois: a imunoglobulina anti-D e o método contraceptivo. Se em algum momento a paciente perguntar, com medo, se alguém vai ficar sabendo — responda com clareza, na primeira tentativa.
