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Ginecologia e ObstetríciaObstetrícia

Pré-eclâmpsia

A principal causa evitável de morte materna no Brasil começa num número que o interno mede com as próprias mãos — e quase sempre mede errado.

Fontes deste capítulo

Korkes HA, Ramos JG, Oliveira LG, Sass N, Peraçoli JC, Cavalli RC, et al. Pré-eclâmpsia. Protocolo da Rede Brasileira de Estudos sobre Hipertensão na Gravidez (RBEHG). São Paulo: RBEHG; 2025

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção Primária à Saúde. Departamento de Ações Programáticas. Manual de gestação de alto risco. Brasília: Ministério da Saúde; 2022. 1ª edição, versão preliminar

Braga A, Ramos JG, Peraçoli JC, Oliveira LG, Nascimento ML, Martins-Costa SH, et al. Do atendimento pré-hospitalar ao hospitalar: resposta rápida à pré-eclâmpsia e suas complicações – Uma proposta para o Brasil. Femina. 2025;53(8):1004-12

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção Primária à Saúde. Nota Técnica Conjunta nº 251/2024-COEMM/CGESMU/DGCI/SAPS/MS e CGAN/DEPPROS/SAPS/MS, que recomenda a suplementação de cálcio na gestação para prevenção de distúrbios hipertensivos

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação e do Complexo Econômico-Industrial da Saúde. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais: Rename 2024. Brasília: Ministério da Saúde; 2024. ISBN 978-65-5993-710-3

01

Responda antes de ler

Você vai iniciar a dose de ataque de 4 g de sulfato de magnésio numa gestante com iminência de eclâmpsia. Ao abrir a caixa de emergência, encontra apenas ampolas de sulfato de magnésio a 10%, com 10 mL cada. Qual volume dessa apresentação corresponde à dose de ataque?

02

O paciente que você vai ver

São 14h40 de uma quarta-feira numa UPA que não tem maternidade. Vanuza tem 19 anos, está na primeira gestação, 34 semanas e 2 dias, e chegou andando — desceu do ônibus a três quadras e veio a pé porque a fila do estacionamento estava grande. Ela conta que os pés incharam, que os anéis não entram há uma semana e que está com dor de cabeça "faz uns dois dias". Tomou dipirona ontem e hoje de manhã; melhorou um pouco e voltou.

A classificação de risco mediu a pressão assim que ela sentou, com o braço solto no colo e o aparelho no braço esquerdo: 150 por 96. A técnica anotou, olhou para ela — jovem, primeira gestação, falante, um pouco afobada — e escreveu na ficha: "PA levemente elevada, refere ansiedade". Classificou como verde. Vanuza ficou na sala de espera por mais quarenta minutos.

Quando você a chama, ela está com o celular na mão e diz que está bem, só com a cabeça doendo. O braço dela é grosso; a fita métrica marca 38 centímetros de circunferência no ponto médio. O manguito que está pendurado na parede é o único da sala, e é o convencional. Você a senta na cadeira com encosto, apoia os pés dela no chão, descruza as pernas, apoia o braço na mesa na altura do coração, pede que ela não fale, espera cinco minutos e mede: 172 por 116. Repete no outro braço: 168 por 114.

Essa é a cena que o capítulo vai desmontar, porque cada elemento dela é uma decisão que já foi tomada errado. A pressão de 150 por 96 medida em quem acabou de andar três quadras não é um dado sobre a doença — é um dado sobre a caminhada, e mesmo assim já estava acima do limiar. A palavra "ansiedade" na ficha não é diagnóstico: é o nome que se dá a um número quando não se quer acreditar nele. Os quarenta minutos de espera não são administrativos: são a única parte do atraso que estava dentro do prédio, e portanto a única sobre a qual alguém ali tinha poder.

E há o detalhe técnico que decide tudo: com braço de 38 centímetros, o manguito convencional aperta menos massa do que deveria e o número sai mais alto do que o real. A tabela de correção publicada nos documentos brasileiros manda subtrair 8 mmHg da sistólica e 6 da diastólica nessa circunferência. Faça a conta: 172 menos 8 é 164; 116 menos 6 é 110. Depois de corrigir para baixo, Vanuza continua em crise hipertensiva. Corrigir a medida não desfez o problema — só tirou a desculpa.

Falta a pergunta que ninguém fez. "Essa dor de cabeça melhora com remédio?" — não melhora, volta em duas horas. "Você está enxergando bem? Vê pontinhos, luzes, borrado?" — vê umas moscas pretas desde ontem. "Dói alguma coisa na boca do estômago, embaixo das costelas do lado direito?" — dói, ela achou que era azia da gravidez. Três perguntas, três respostas positivas, quinze segundos. Nenhuma delas é exame; todas mudam a conduta na mesma frase.

O que vem a seguir é o que se faz com esses achados numa unidade sem obstetra, sem laboratório de plantão e sem leito para internar: o que se mede, o que se pergunta, o que se prescreve antes de a ambulância chegar, e por que a droga que salva Vanuza não é a que baixa a pressão dela.

03

Quem adoece disso

Os distúrbios hipertensivos são a principal causa de morte materna no Brasil, e a pré-eclâmpsia é o que dentro deles mais mata. O protocolo nacional de referência é direto: no país, a pré-eclâmpsia contribui com cerca de um quarto de todos os óbitos maternos registrados. E o adjetivo que acompanha esse número em todos os documentos oficiais é o mesmo — evitável. Quando se olha a série do estado do Rio de Janeiro entre 2006 e 2018, as síndromes hipertensivas aparecem como a principal causa direta de morte materna, e as mortes por causas obstétricas diretas evitáveis correspondem a 77,7% do total. A doença não mata porque é desconhecida; mata porque o tratamento chega tarde.

A frequência sustenta a suspeita. A incidência mundial de pré-eclâmpsia varia de 1,2% a 4,2%, com taxas maiores onde o desenvolvimento socioeconômico é menor; um estudo nacional com mais de mil nulíparas em cinco maternidades brasileiras encontrou incidência de 7,5%. Traduzindo para o plantão: em um ambulatório de pré-natal com catorze gestantes na agenda do dia, a estatística prevê aproximadamente uma que vai desenvolver a doença. Não é achado raro que se pensa depois de excluir tudo — é a primeira hipótese diante de hipertensão que aparece na segunda metade da gestação.

A eclâmpsia, que é o desfecho que a conduta deste capítulo existe para impedir, tem no Brasil uma prevalência medida: em 82.388 gestantes atendidas em 27 maternidades de referência, foram 5,2 casos por 1.000 nascidos vivos — variando de 2,2 por 1.000 nas áreas de maior renda a 8,3 por 1.000 nas de menor renda. Quase quatro vezes mais crises convulsivas onde há menos dinheiro, para uma doença cuja profilaxia custa o preço de duas ampolas. E a eclâmpsia respondeu por 20% dos 910 casos classificados como desfechos maternos graves nessa mesma casuística.

A desigualdade não é só de renda. Os dados de 2023 usados pelo Ministério da Saúde mostram que a maioria das mortes maternas por hipertensão como causa obstétrica direta ocorre em mulheres negras: 58,5% em mulheres pardas e 10,57% em mulheres pretas — 69% do total. A morte materna por pré-eclâmpsia também incide mais sobre indígenas, adolescentes e mulheres com baixa escolaridade. Isso tem consequência clínica direta e desconfortável: a probabilidade de o número da pressão ser levado a sério varia com quem está sentada na cadeira. Reconhecer isso é parte da técnica, não um adendo político — a gestante de 19 anos que chegou de ônibus é justamente o perfil em que "ansiedade" é escrito na ficha com mais facilidade.

Dois números fecham o quadro e explicam o desenho da conduta. O primeiro: quando a gestante com pré-eclâmpsia e sinais de gravidade não recebe sulfato de magnésio, 2% a 3% convulsionam — e 0,6% das classificadas inicialmente sem sinais de gravidade também evoluem para eclâmpsia. O segundo: a meta pactuada na Rede Alyne, que atualizou a Rede Cegonha, é reduzir a razão de mortalidade materna brasileira para menos de 30 por 100 mil nascidos vivos até 2030, com ênfase explícita na população negra e indígena. Entre os dois números mora o trabalho do interno: a maior parte da distância até a meta é feita de doses que não foram dadas na hora certa.

04

Por que acontece o que acontece

A pré-eclâmpsia é uma doença da placenta que se manifesta na mãe. Isso não é uma frase de efeito: é a explicação de por que o único tratamento curativo é retirar a placenta, e de por que nenhuma droga do capítulo trata a doença — todas tratam consequências.

Na gestação normal, o trofoblasto invade as artérias espiraladas do endométrio e destrói a camada muscular delas. O resultado é um vaso que perde a capacidade de se contrair: vira um cano largo, de baixa resistência e alto fluxo, que entrega sangue ao espaço interviloso independentemente do tônus vascular materno. Quando essa remodelação é incompleta, as artérias mantêm musculatura, mantêm resposta vasoconstritora e entregam sangue em jatos intermitentes. A placenta passa a viver ciclos de hipóxia e reoxigenação, e é essa oscilação — mais do que a falta de oxigênio em si — que gera estresse oxidativo no sinciciotrofoblasto.

O sinciciotrofoblasto estressado despeja na circulação materna fatores inflamatórios e antiangiogênicos. O mais estudado é o sFlt-1, uma forma solúvel do receptor do fator de crescimento endotelial vascular que funciona como isca: circula, captura o fator de crescimento placentário e o fator de crescimento endotelial vascular, e impede que eles cheguem ao endotélio. O endotélio materno, privado desses sinais de manutenção, fica disfuncional em todo o corpo ao mesmo tempo. Daí decorre o resto: vasoconstrição sistêmica (hipertensão), aumento de permeabilidade capilar (edema e hemoconcentração), ativação plaquetária e de coagulação (plaquetopenia, coagulação intravascular disseminada), e lesão de órgão em cada território onde o endotélio importa.

Essa é a razão de a doença ser multissistêmica e de o diagnóstico não depender do rim. A proteinúria é apenas a assinatura renal de uma lesão que é do endotélio inteiro: no glomérulo, a disfunção produz a glomeruloendoteliose característica, que deixa proteína passar. Mas o cérebro, o fígado, o pulmão, as plaquetas e a própria placenta sofrem pelo mesmo mecanismo, e podem sofrer primeiro. Esperar a proteinúria para dar o nome à doença é escolher um órgão entre sete e ignorar os outros seis.

Há uma consequência hemodinâmica que muda a beira do leito e costuma escapar: a gestante com pré-eclâmpsia tem o volume intravascular contraído, não expandido. A permeabilidade capilar aumentada joga líquido para o interstício — daí o edema visível, o ganho rápido de peso e, no extremo, o edema pulmonar. Dentro do vaso sobra menos volume, com mais vasoconstrição. Por isso ela responde mal a perdas sanguíneas, por isso o diurético é evitado fora do edema agudo de pulmão e da disfunção renal, e por isso a restrição de sal não faz parte do tratamento: reduzir sódio reduz volume circulante, que é exatamente o que essa paciente não tem sobrando.

E há a explicação do medo de baixar a pressão depressa. A perfusão da placenta depende da pressão materna, porque as artérias espiraladas mal remodeladas não têm autorregulação — elas não compensam uma queda de pressão dilatando. Numa gestante saudável, derrubar a pressão redistribui fluxo; nesta, derrubar a pressão desliga o fluxo placentário. É por isso que o objetivo na crise não é normalizar, e sim tirar a mãe da faixa de risco de acidente vascular cerebral sem tirar o feto da faixa de perfusão.

Remodelamento das artérias espiraladas e sua deficiência, em esquema do leito placentário
Remodelamento das artérias espiraladas e sua deficiência, em esquema do leito placentário. A alteração de perfusão participa da fisiopatologia da pré-eclâmpsia.

Por que a doença tem duas caras: precoce e tardia

A pré-eclâmpsia que aparece antes das 34 semanas e a que aparece depois têm o mesmo nome e mecanismos diferentes. Na forma precoce, o problema é a placentação: a invasão trofoblástica falhou lá atrás, no primeiro e no segundo trimestre, e a isquemia placentária é o motor. É a forma que se associa a restrição de crescimento fetal, a alterações da dopplervelocimetria das artérias uterinas e umbilicais, e a quadros maternos mais graves e mais precoces.

Na forma tardia, o desenvolvimento placentário inicial foi normal. O estresse do trofoblasto se instala no fim da gestação, por compressão das vilosidades numa placenta madura sem espaço ou por senescência precoce do tecido. É a forma que anda junto com obesidade, síndrome metabólica, inflamação crônica e doença endotelial materna prévia — o terreno já estava ruim e uma placenta apenas normal bastou para descompensá-lo. A avaliação uteroplacentária costuma estar normal ou pouco alterada.

Isso tem duas consequências práticas. A primeira: doppler de artérias uterinas normal não afasta pré-eclâmpsia, porque a forma tardia não passa por aí — e, isoladamente, o doppler de uterinas não deve ser lido como método de rastreio. A segunda: o desfecho perinatal da forma tardia costuma ser melhor apenas porque a idade gestacional é maior, e não porque a doença seja mais branda. A mãe com pré-eclâmpsia de 37 semanas corre os mesmos riscos maternos que a de 28; o que muda é quanto custa resolver.

Onde o endotélio quebra: o mapa dos órgãos-alvo

Cérebro. A hipertensão grave ultrapassa o limite superior da autorregulação cerebral e produz hiperperfusão, extravasamento e edema vasogênico, sobretudo posterior. Clinicamente isso é cefaleia que não cede a analgésico comum, escotomas, fotofobia, visão borrada, hiper-reflexia e clônus. No extremo, é convulsão — a eclâmpsia — e a cegueira cortical transitória. O sulfato de magnésio age aqui: reduz a pressão intracerebral, mantém o fluxo e previne o barotrauma da microcirculação cerebral, além de agir como anticonvulsivante.

Fígado. O vasoespasmo hepático e a deposição de fibrina nos sinusoides produzem isquemia e necrose periportal, que distendem a cápsula de Glisson. É daí que vem a dor epigástrica ou em hipocôndrio direito — dor de cápsula, não de estômago —, e é por isso que ela vem acompanhada de elevação de transaminases. A mesma lesão explica o hematoma subcapsular hepático e, no extremo, a rotura hepática. Toda gestante que se queixa de "azia que não passa" no terceiro trimestre merece uma transaminase, não um antiácido.

Sangue. O endotélio lesado ativa plaquetas, que são consumidas; e as hemácias que passam por essa rede lesada se fragmentam, produzindo anemia hemolítica microangiopática. Plaquetopenia é o marcador mais precoce e mais sensível desse eixo, e a combinação de hemólise, enzimas hepáticas elevadas e plaquetas baixas define a síndrome HELLP, que é o comprometimento hepato-hematológico da própria pré-eclâmpsia e tem capítulo próprio.

Rim. A glomeruloendoteliose reduz a filtração e deixa passar proteína. Clinicamente, a creatinina sobe e a diurese cai. Uma creatinina de 1,0 mg/dL, que passaria despercebida em qualquer outro adulto, é anormal na gestante — porque a gravidez normal aumenta a filtração glomerular e derruba a creatinina basal. Ler a creatinina da gestante com a régua do adulto não gestante é uma das formas mais silenciosas de perder o diagnóstico. A lesão renal instalada e o seu manejo são assunto do capítulo de injúria renal aguda.

Pulmão. A permeabilidade aumentada, somada à hipoalbuminemia e à pressão elevada, produz edema pulmonar — dispneia, ortopneia, crepitações, queda de saturação, e no extremo secreção rosada. É uma das poucas situações em que o diurético entra na pré-eclâmpsia, e é indicação de resolução da gestação por si só.

Placenta. A mesma disfunção que adoece a mãe reduz o fluxo para o feto: restrição de crescimento, alteração do doppler da artéria umbilical, oligoâmnio, descolamento prematuro de placenta e óbito fetal. A disfunção placentária é, ela própria, critério diagnóstico — a gestante hipertensa cujo feto parou de crescer tem pré-eclâmpsia mesmo com toda a bateria laboratorial materna normal.

05

Como se apresenta de verdade

Neste atendimento, três decisões vêm antes da classificação completa: confirmar a pressão com técnica adequada, reconhecer deterioração materna e avaliar se o serviço pode oferecer o cuidado necessário. Proteinúria negativa não encerra a investigação. Ao terminar, você deve conseguir explicar por que magnésio e anti-hipertensivo têm indicações diferentes, iniciar as medidas sob supervisão e apresentar uma transferência com doses, horários e resposta.

Hipertensão, nessa definição, é pressão arterial sistólica igual ou maior que 140 mmHg ou diastólica igual ou maior que 90 mmHg, aferida em duas ocasiões com intervalo de pelo menos 4 horas, depois de 20 semanas. Guarde as duas metades da frase: o valor e a repetição. Uma medida isolada de 142 por 92 não fecha diagnóstico — e também não autoriza mandar para casa sem a segunda medida marcada.

Uma advertência sobre a régua: os valores de 130 por 80 que passaram a definir hipertensão arterial na população geral em 2018 não se aplicam à gestação. Na gravidez, o corte continua sendo 140 por 90. Levar a régua do adulto não gestante para o pré-natal transforma metade das gestantes em hipertensas e dilui a atenção de quem realmente está doente.

E a mudança de vocabulário que já aconteceu e ainda não chegou a todo mundo: as expressões "pré-eclâmpsia leve" e "pré-eclâmpsia grave" saíram de uso. O que se descreve agora é pré-eclâmpsia com ou sem sinais e sintomas de deterioração clínica e/ou laboratorial. A troca não é cosmética: "leve" fazia relaxar numa doença em que qualquer paciente pode piorar de forma inesperada, e "grave" fazia antecipar o parto por reflexo, às vezes de maneira iatrogênica. A gestante sem sinais de deterioração hoje pode tê-los amanhã; a régua é dinâmica e se reaplica a cada avaliação.

Percurso clínico: Reconhecer a doença e agir em paralelo

Comece pela medida correta da pressão e pela pesquisa de sintomas e disfunção orgânica. Separe diagnóstico, gravidade e decisão sobre o nascimento. Na apresentação grave, distribua avaliação materna, prevenção de convulsões, tratamento pressórico e organização da referência entre a equipe; depois acompanhe resposta e condição fetal.

A forma que entra pela porta: hipertensão e mais nada de óbvio

A apresentação mais comum não é dramática. É uma gestante de terceiro trimestre que vem à consulta de rotina, ou ao pronto-atendimento por outra queixa, e cuja pressão está acima do limiar. Ela não se sente doente. Pode ter edema — que sozinho não é critério de nada, porque a maioria das gestantes tem edema — e ganho de peso rápido, acima de um quilo por semana, que ninguém pesa e ninguém compara.

O que separa essa gestante de uma hipertensa gestacional simples são exames e perguntas, não a aparência dela. Por isso a conduta correta diante de hipertensão nova depois de 20 semanas não é "reavaliar em uma semana": é investigar naquele dia. E, quando o diagnóstico é feito ou fortemente suspeitado, o protocolo nacional recomenda internação — para avaliar em profundidade as condições materno-fetais, introduzir ou ajustar anti-hipertensivo e orientar a gestante e a família sobre a doença.

A hipertensão gestacional é o diagnóstico temporário de quem tem hipertensão nova na segunda metade da gestação sem proteinúria e sem qualquer sinal de lesão de órgão. Não é um diagnóstico tranquilizador: até 25% dessas gestantes vão apresentar sinais ou sintomas de pré-eclâmpsia e mudar de diagnóstico, e o risco é maior em quem manifestou a hipertensão antes das 34 semanas. Ela deve desaparecer até 12 semanas após o parto; se persistir, o rótulo correto é hipertensão arterial crônica que a queda fisiológica de pressão da primeira metade da gestação havia escondido.

Os sinais de gravidade são perguntas, não exames

Esta é a parte do capítulo que mais depende de você e menos depende do hospital. Os sinais de deterioração da pré-eclâmpsia aparecem como sintomas, e a gestante não os associa à pressão — ela associa dor de cabeça a estresse, escotoma a cansaço, e dor epigástrica a azia da gravidez. Se você não perguntar item por item, ela não conta.

A lista é curta e cabe em vinte segundos de anamnese: cefaleia forte ou persistente, que não cede a analgésico comum ou que volta em poucas horas; sintomas visuais — escotomas, fosfenas, moscas volantes, fotofobia, visão borrada, perda visual; dor epigástrica ou em hipocôndrio direito, com ou sem náusea e vômito; dispneia ou ortopneia; confusão mental ou qualquer alteração de comportamento; e redução dos movimentos fetais. Ao exame, acrescente hiper-reflexia e clônus.

Cada um desses itens tem um órgão atrás. Cefaleia e alterações visuais são cérebro; dor epigástrica é cápsula hepática distendida; dispneia é pulmão encharcando; confusão é hipoperfusão ou edema cerebral; menos movimento fetal é placenta falhando. Não são queixas inespecíficas de gestante — são a doença falando pelo órgão que está sofrendo.

A pergunta tem de ser feita de um jeito que produza resposta. "Está sentindo alguma coisa?" produz "não". "A dor de cabeça melhora quando você toma o remédio, ou volta?", "Você está vendo pontinhos pretos, luzinhas ou embaçado?", "Dói na boca do estômago ou embaixo das costelas do lado direito?", "Você está sentindo o bebê mexer como sempre?" produzem informação. E a resposta positiva a qualquer uma delas, numa gestante hipertensa, é indicação de sulfato de magnésio — sem esperar exame, sem esperar transferência, sem esperar a pressão chegar a 160.

Vale explicitar a hierarquia, porque ela costuma sair invertida na cabeça do aluno: sintoma neurológico em gestante hipertensa vale mais que qualquer número de laboratório. O laboratório demora, pode vir normal em quem está iminente e não muda a conduta imediata. A pergunta é grátis, é imediata e muda a prescrição.

Territórios avaliados na suspeita de pré-eclâmpsia
Territórios avaliados na suspeita de pré-eclâmpsia. Os achados devem ser interpretados com pressão arterial, idade gestacional e critérios de disfunção orgânica.

A crise hipertensiva e a iminência de eclâmpsia

Crise hipertensiva na gestação é pressão sistólica igual ou maior que 160 mmHg ou diastólica igual ou maior que 110 mmHg. Em paciente assintomática, esses valores devem ser confirmados após repouso de 15 minutos — repouso, não uma semana. Quando os mesmos valores vêm acompanhados de sintomas, o quadro é emergência hipertensiva e não se confirma nada: trata-se.

Iminência de eclâmpsia é o nome que se dá ao conjunto hipertensão mais sintomas neurológicos ou hepáticos: cefaleia, alterações visuais, dor abdominal alta, vômitos, hiper-reflexia. É o aviso que a doença dá antes de convulsionar — e é aviso que muitas vezes não vem, porque parte das eclâmpsias acontece em pacientes que estavam assintomáticas. Daí a regra que organiza a conduta: crise hipertensiva, mesmo sem sintoma nenhum, é indicação de sulfato de magnésio. A janela de oportunidade para prevenir a convulsão é justamente essa, e ela é estreita.

As indicações do sulfato, reunidas: eclâmpsia manifesta; iminência de eclâmpsia; crise hipertensiva, ainda que assintomática; síndrome HELLP; e deterioração clínica ou laboratorial da pré-eclâmpsia — transaminases acima de 70 UI/L ou mais que o dobro do limite superior da normalidade, plaquetas abaixo de 100.000/mm³, ou creatinina acima de 1,1 mg/dL ou o dobro do valor basal na ausência de outra doença renal. Fora do ambiente hospitalar, as duas situações que mais aparecem são a crise hipertensiva e a gestante com sintomas de iminência.

A eclâmpsia propriamente dita — a crise convulsiva tônico-clônica generalizada ou o coma, chamado de sineclâmpsia — é o desfecho que este capítulo existe para impedir, e o manejo da crise instalada tem capítulo próprio. O que fica aqui é o gatilho: a partir de 20 semanas, convulsão em gestante é eclâmpsia até prova em contrário, e a prova em contrário se busca depois, com a paciente já sulfatada.

O que muda em quem não é a gestante típica

Na hipertensa crônica. Ela já tem pressão alta antes de 20 semanas, e por isso o número deixa de ser o sinal. O diagnóstico de pré-eclâmpsia sobreposta se faz por três caminhos: aparecimento de proteinúria, ou aumento superior a três vezes do valor detectado na primeira metade da gestação; ocorrência de disfunção de órgão-alvo; ou disfunção útero-placentária, incluindo restrição de crescimento, alterações relevantes do doppler, descolamento prematuro e óbito fetal. Um sinal prático e barato: hipertensa crônica que passa a precisar de mais anti-hipertensivo, ou de dose maior, merece a investigação completa. A hipertensão crônica complica 6% a 8% das gestações e é agravada por pré-eclâmpsia sobreposta em 13% a 40% dos casos — ou seja, é fator de risco alto, não fator de confusão. O manejo da hipertensão crônica em si é assunto do capítulo dela, na clínica médica.

Na obesa. É a paciente em que a medida erra mais. Braço grosso com manguito convencional superestima a pressão; braço fino com manguito grande subestima. Existe tabela de correção publicada por circunferência braquial, e ela é a solução de emergência quando não há o manguito do tamanho certo — mas a solução de verdade é ter o manguito. Obesidade com índice de massa corporal acima de 30 kg/m² também é, por si só, fator de risco alto para desenvolver a doença.

Na adolescente e na primigesta. Nuliparidade é fator de risco moderado, e a adolescente concentra três desvantagens: costuma iniciar o pré-natal mais tarde, tem menos autonomia para voltar ao serviço e é a paciente cujo sintoma mais facilmente vira "ansiedade" na ficha. Idade igual ou maior que 35 anos também é fator moderado, pelo outro extremo.

Na gestante com gestação múltipla ou por reprodução assistida. Ambas são fatores de risco alto. A gemelar soma superdistensão, maior massa placentária e maior chance de forma precoce; a gestação por fertilização in vitro entra na lista de risco alto por si mesma.

Na diabética, na nefropata e na portadora de doença autoimune. Diabetes tipo 1 ou 2, doença renal crônica e doenças autoimunes como lúpus e síndrome dos anticorpos antifosfolípides são fatores de risco alto. O lúpus em atividade é também o principal problema de diagnóstico diferencial: pode cursar com hipertensão, proteinúria, plaquetopenia e piora renal, e diferenciá-lo de pré-eclâmpsia sobreposta é situação em que os biomarcadores angiogênicos têm papel.

Antes de 20 semanas. Pré-eclâmpsia ou eclâmpsia antes da 20ª semana é rara e obriga a pensar em duas coisas: gestação molar e síndrome dos anticorpos antifosfolípides. Hipertensão com proteinúria no primeiro trimestre não é pré-eclâmpsia até que a ultrassonografia mostre uma gestação normal.

No puerpério. Pré-eclâmpsia pode surgir ou piorar após o parto. Cefaleia nova, intensa ou persistente exige avaliação imediata de pressão, exame neurológico e sintomas associados. Magnésio é indicado quando há eclâmpsia ou critérios de gravidade pertinentes; cefaleia isolada não dispensa diagnóstico diferencial.

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Como fechar o diagnóstico

Fechar o diagnóstico de pré-eclâmpsia exige três coisas, nesta ordem de importância: uma medida de pressão feita direito, uma anamnese de sintomas de gravidade feita item por item, e um punhado de exames baratos. Nenhuma das três depende de tecnologia, e as duas primeiras não dependem nem de laboratório.

A ordem importa porque o tratamento não espera. Diante de crise hipertensiva ou de sintomas de iminência, o sulfato de magnésio entra antes de qualquer resultado — o laboratório serve para dizer o quanto a doença avançou e para ajudar a decidir o momento do parto, nunca para autorizar o início do tratamento.

Medir a pressão é procedimento, e o procedimento tem passos

A técnica publicada nos documentos brasileiros tem sete exigências, e cada uma existe porque erra em uma direção conhecida. A gestante deve estar sentada, com as costas apoiadas na cadeira, os pés apoiados no chão, as pernas descruzadas, o braço apoiado em superfície plana na altura do coração, em silêncio, e após um período de repouso. Pernas cruzadas elevam a pressão de 2 a 8 mmHg em cerca de 15% dos casos; conversar durante a aferição também eleva.

A posição é a fonte de erro mais subestimada, e ela erra para baixo. A leitura é mais baixa em decúbito lateral esquerdo, sobe um pouco em decúbito dorsal, sobe mais em semi-Fowler e é mais alta — isto é, real — na posição sentada. Aferir a gestante deitada de lado, que é o hábito de muitas enfermarias e de muitas salas de pré-natal, produz sistematicamente números tranquilizadores em pacientes que não estão tranquilas. Se a evolução diz "PA 130 por 84 em DLE", o dado ainda não foi coletado.

O manguito é a segunda fonte. Manguito pequeno demais para o braço superestima; grande demais subestima. Quando o manguito adequado não está disponível, os protocolos brasileiros publicam uma tabela de correção pela circunferência do braço, medida no ponto médio: braço de 20 cm soma 11 mmHg à sistólica e 7 à diastólica; 30 cm não corrige nada; 38 cm subtrai 8 e 6; 46 cm subtrai 16 e 11; 50 cm subtrai 21 e 14. A tabela é muleta honesta, não substituto do equipamento.

Dois detalhes de leitura fecham a técnica. A sistólica é o primeiro som de Korotkoff e a diastólica é o quinto — o desaparecimento das bulhas; quando as bulhas persistem até o fim da desinsuflação, usa-se o abafamento. E mede-se nos dois braços, porque a diferença entre eles muda qual braço será o de referência dali em diante e porque uma assimetria grande tem significado próprio.

Por fim, quantas vezes. Para diagnosticar hipertensão na gestação são necessárias duas medidas iguais ou acima de 140 por 90 com intervalo de pelo menos 4 horas. Para confirmar uma crise em paciente assintomática, o intervalo é de 15 minutos de repouso. Para tratar uma emergência — os mesmos valores com sintomas —, não há intervalo nenhum.

Medida da pressão arterial: repouso, costas e braço apoiados, pés no chão, pernas descruzadas e manguito adequado à circunferência do braço.
Medida da pressão arterial: repouso, costas e braço apoiados, pés no chão, pernas descruzadas e manguito adequado à circunferência do braço.

Proteinúria: como se mede, e por que já não se espera por ela

Proteinúria significativa tem três métodos. A relação proteína/creatinina em amostra isolada de urina, considerada alterada a partir de 0,3 com as unidades em mg/dL, é a de melhor sensibilidade, a mais fácil de executar e a de menor custo — é a primeira escolha. A proteinúria de 24 horas, com pelo menos 300 mg, continua válida, mas depende de coleta correta, sem perdas, e incomoda a paciente. A fita reagente é a última opção: detecta apenas albumina, não detecta proteínas de cadeias leves, tem alta taxa de falso-negativo, e fita negativa não exclui proteinúria. Ela deve ser usada só quando os outros métodos não estão disponíveis.

Repare no que isso significa na prática de um pronto-atendimento. A fita é justamente o método que está à mão, e é justamente o que menos serve para excluir. Uma fita negativa numa gestante hipertensa com cefaleia não é notícia boa; é ausência de informação.

E aí entra a mudança que ainda não chegou a muita gente: a proteinúria deixou de ser necessária para o diagnóstico. Hipertensão depois de 20 semanas mais qualquer disfunção de órgão-alvo é pré-eclâmpsia, com urina limpa. A razão de essa mudança existir é mecanística e já foi dita: a proteinúria é a assinatura de um órgão, e a doença é do endotélio inteiro. Mas a razão de ela importar é epidemiológica: as pacientes que estavam sendo mandadas para casa por "não ter proteinúria" eram as mesmas que voltavam convulsionando.

Duas notas que economizam exame. Uma vez confirmada, a proteinúria não precisa ser repetida — ela faz o diagnóstico, não o prognóstico. A exceção é o quadro de edema generalizado ou edema pulmonar. E a quantidade de proteína não gradua gravidade: proteinúria maciça não indica parto, e proteinúria discreta não tranquiliza.

O laboratório que decide, e a régua dupla que ele usa

Os exames mínimos diante de suspeita ou confirmação de pré-eclâmpsia são poucos e todos disponíveis: hemograma com hematócrito, hemoglobina e contagem de plaquetas; creatinina; transaminase oxalacética (TGO/AST); desidrogenase láctica (DHL); e bilirrubinas totais ou haptoglobina. Some a esses a relação proteína/creatinina urinária, se ainda não houver o diagnóstico fechado. Em avaliação inicial, esse é o conjunto que responde a pergunta que interessa: quantos órgãos já foram atingidos.

Aqui está o ponto que mais confunde o interno, e ele merece ser dito com todas as letras: o valor que faz o diagnóstico não é o valor que define gravidade. São duas réguas, aplicadas em sequência. Plaquetas abaixo de 150.000/mm³ entram como critério diagnóstico de comprometimento hematológico; abaixo de 100.000/mm³ é critério de gravidade. Transaminases iguais ou acima de 40 UI/L entram como diagnóstico; duas vezes o limite superior da normalidade do laboratório — na prática, acima de 70 UI/L nos métodos correntes — é gravidade. Creatinina a partir de 1,0 mg/dL faz diagnóstico; a partir de 1,2 mg/dL é gravidade. Pressão de 140 por 90 faz diagnóstico; 160 por 110 é crise.

Quem lê só a segunda régua perde o diagnóstico: a gestante com plaquetas de 130.000 e TGO de 52 "tem exames normais" para quem usa os cortes de gravidade, e tem pré-eclâmpsia para quem usa os de diagnóstico. Quem lê só a primeira trata todo mundo como emergência. As duas se usam juntas: a primeira dá o nome, a segunda dá a pressa.

Alguns refinamentos que evitam exame inútil. A ureia não deve ser dosada de rotina, apenas diante de comprometimento renal nítido ou suspeita de síndrome hemolítico-urêmica. Para o fígado, a TGO isolada é suficiente — não é preciso pedir o painel hepático inteiro. O ácido úrico se correlaciona com desfechos adversos, mas não é marcador para decisões isoladas. E entre os critérios de hemólise, a haptoglobina abaixo de 25 mg/dL e a DHL acima de 600 UI/L se alteram cedo, enquanto a queda de hemoglobina abaixo de 8 g/dL e a alteração de bilirrubina indireta são tardias e aparecem em quadros já muito graves.

A frequência do seguimento depende da gravidade, e a régua é simples: quanto mais alterado o exame, mais curto o intervalo até repeti-lo. Exame de coagulação só se pede diante de plaquetopenia.

O diferencial: o que mais faz uma gestante ficar hipertensa e doente

Hipertensão arterial crônica. Pressão alta antes de 20 semanas, ou que persiste além de 12 semanas do parto. O exame que separa é a data: a pressão do início do pré-natal, na caderneta. Se a gestante chegou ao serviço sem pré-natal, o diagnóstico fica em aberto — e, em aberto, trata-se como pré-eclâmpsia.

Hipertensão gestacional. Hipertensão nova depois de 20 semanas, sem proteinúria e sem qualquer disfunção de órgão. O que separa é o laboratório mais a anamnese de sintomas. E o diagnóstico é provisório por definição: um quarto delas vai virar pré-eclâmpsia.

Hipertensão do jaleco branco e hipertensão mascarada. Na primeira, a pressão sobe na consulta e é inferior a 135 por 85 fora dela; na segunda, o consultório mostra menos de 140 por 90 e as medidas externas passam de 135 por 85. As duas se comportam como hipertensão crônica e representam maior risco de evoluir para pré-eclâmpsia — não são achados benignos.

Síndrome HELLP. Não é diferencial, é evolução: hemólise, enzimas hepáticas elevadas e plaquetas baixas, num espectro da própria pré-eclâmpsia. Desenvolve-se em 10% a 20% das pacientes com pré-eclâmpsia grave ou eclâmpsia, e a plaquetopenia é a alteração mais precoce. O que o interno precisa saber aqui é o gatilho — plaquetopenia em gestante com pré-eclâmpsia obriga a pensar em HELLP — e que o manejo dela tem capítulo próprio.

Fígado gorduroso agudo da gestação, púrpura trombocitopênica trombótica, síndrome hemolítico-urêmica, lúpus em atividade, sepse e hepatites. Todos podem produzir alguma combinação de hipertensão, plaquetopenia, alteração hepática e piora renal. A anamnese evolutiva e o perfil laboratorial separam a maioria; os biomarcadores angiogênicos ajudam nos casos genuinamente complexos. Nenhum deles muda a regra de segurança: enquanto o diagnóstico não está resolvido, a gestante hipertensa com sintomas recebe sulfato.

Diante de convulsão, a lista muda de forma. Depois de 20 semanas, a primeira hipótese é eclâmpsia. As alternativas — epilepsia, hemorragia intracraniana, tromboembolia cerebral, feocromocitoma, púrpura trombocitopênica trombótica, intoxicação hídrica, uremia, hipoglicemia, tumor cerebral, meningite e encefalite — entram na investigação, mas depois do sulfato, não antes dele. A imagem de crânio não é rotina na eclâmpsia: ela se indica diante de déficit neurológico, coma, convulsões de difícil controle, alterações visuais persistentes, convulsão antes de 20 semanas sem doença trofoblástica, ou ausência de diagnóstico prévio de epilepsia.

O que não pedir, o que os biomarcadores fazem, e o que existe no SUS

Não se espera exame para tratar. Nenhum passo do tratamento inicial depende de um número que venha do laboratório, e mandar uma gestante em crise hipertensiva para outro andar do prédio a fim de "fazer os exames antes" é a forma mais comum de perder a primeira hora.

Os biomarcadores angiogênicos — a razão sFlt-1/PLGF e o PLGF isolado — têm papel estreito e bem definido, e o principal deles é afastar o diagnóstico. Razão abaixo de 38 exclui pré-eclâmpsia por pelo menos uma semana; acima de 85 antes de 34 semanas, ou acima de 110 depois, reforça fortemente o diagnóstico em cenário de suspeita clínica. Só devem ser feitos em gestante com suspeita clínica entre 24 e 36 semanas e 6 dias, não substituem os exames habituais, não se repetem de rotina depois do diagnóstico confirmado, e não servem como rastreio em quem não tem suspeita. Na prática do SUS, são pouco acessíveis, e nada do que este capítulo manda fazer depende deles.

A calculadora fullPiers é gratuita, online, e usa parâmetros que já se coletam para estimar risco de desfecho materno adverso — inclusive a saturação de oxigênio, que quase ninguém anota e que pesa no cálculo. Ela não tem um valor de corte que mande interromper a gestação; o que vale é comparar valores sucessivos da mesma paciente ao longo dos dias. É ferramenta de conduta expectante em pré-eclâmpsia precoce, para mostrar piora antes que ela vire evento.

Do lado do que existe: o essencial está na rede. O sulfato de magnésio injetável, nas apresentações a 10% e a 50%, consta da Relação Nacional de Medicamentos Essenciais, no componente básico da assistência farmacêutica — a mesma lista que abastece uma unidade básica de saúde. Nifedipino de 10 mg, metildopa de 250 mg, ácido acetilsalicílico de 100 mg, carbonato de cálcio, betametasona injetável e fenitoína injetável também constam.

Duas ausências dessa lista precisam ser sabidas antes de a paciente estar na maca. A hidralazina injetável e o gluconato de cálcio não constam da Rename — a lista traz a hidralazina apenas em comprimidos de 25 e 50 mg, para uso oral de manutenção. Isso não significa que não existam: significa que são compra e responsabilidade do próprio serviço, e que a sua presença depende de alguém ter montado e conferido a caixa de emergência. É por isso que o modelo brasileiro de caixa lacrada existe, e é por isso que abrir a caixa e não encontrar o antídoto do sulfato é um evento administrativo com consequência clínica direta.

07

A escada da gravidade, as duas réguas do laboratório e as doses por extenso

A pré-eclâmpsia é conduzida em degraus, e o degrau se define por dois eixos que andam juntos: quanto a pressão subiu e quantos órgãos já foram atingidos. O que segue é a escada — do diagnóstico novo até a convulsão —, a sequência da primeira hora quando a gestante chega em crise, e as tabelas que se consultam dentro dela. Duas advertências de leitura valem para tudo o que vem abaixo. A primeira: o valor que faz o diagnóstico não é o valor que define gravidade, e as duas colunas da tabela principal existem exatamente para separar isso. A segunda: o sulfato de magnésio e o anti-hipertensivo são duas prescrições diferentes, com finalidades diferentes — um previne a convulsão, o outro baixa a pressão —, e nenhum dos dois substitui o outro.

  1. 1Meça a pressão com a técnica completa antes de decidir qualquer coisa — sentada, apoiada, em silêncio, após repouso, com o manguito do tamanho do braço — e nos dois braços. O número que você vai usar é esse, não o da triagem.
  2. 2Diante de 160 por 110 ou mais em paciente assintomática, confirme após 15 minutos de repouso. Diante dos mesmos valores com qualquer sintoma, não confirme nada: é emergência hipertensiva e o tratamento começa agora.
  3. 3Pergunte os sinais de gravidade um a um, em voz alta: cefaleia que não passa, pontos ou luzes na visão, dor na boca do estômago ou embaixo das costelas à direita, falta de ar, e se o bebê está mexendo como sempre.
  4. 4Nomeie o quadro para a equipe e para a paciente, e acione ajuda: obstetra de plantão se houver, transporte seguro se não houver. A caixa de emergência hipertensiva vem junto com a chamada, não depois dela.
  5. 5Dois acessos venosos calibrosos e a gestante em decúbito lateral esquerdo. Se houver convulsão, some proteção da paciente, cânula orofaríngea, aspiração de secreções e oxigênio sob máscara a 8 a 10 L/min.
  6. 6Sulfato de magnésio prontamente quando indicado, sem esperar laboratório ou transporte; com pressão grave persistente, iniciar também o anti-hipertensivo de ação rápida em paralelo. Dose de ataque de 4 g por via intravenosa; sem bomba de infusão ou com transporte pela frente, o esquema de escolha é o de Pritchard, que soma 10 g por via intramuscular.
  7. 7Pressão sistólica ≥160 OU diastólica ≥110 mmHg persistente exige anti-hipertensivo de ação rápida, sem aguardar o efeito do magnésio. Confirmar prontamente a medida quando cabível; tratar a emergência e prevenir ou tratar convulsões em paralelo, com monitorização e reavaliações após cada dose. Magnésio não substitui anti-hipertensivo.
  8. 8Persistindo 160 por 110 ou mais, anti-hipertensivo de ação rápida: nifedipino 10 mg por via oral ou hidralazina 5 mg por via intravenosa, repetíveis a cada 20 minutos até o teto de 30 mg. O alvo é sistólica de 140 a 150 e diastólica de 90 a 100 mmHg — não é normalizar.
  9. 9Colha o que decide, sem que isso atrase nada: hemograma com plaquetas, creatinina, TGO, DHL, bilirrubinas e relação proteína/creatinina urinária. Nos quadros graves, some gasometria e saturação de oxigênio anotada.
  10. 10Sonde a bexiga para medir diurese durante a manutenção do sulfato — e não deixe a sondagem atrasar a primeira dose em hipótese alguma.
  11. 11Registre por escrito o horário de cada dose, a via, o volume, as pressões antes e depois, os sintomas e as intercorrências. Esse papel é o que o hospital de destino vai usar para decidir a próxima dose sem repetir a anterior.
  12. 12Transfira para serviço com maternidade e capacidade de resolver a gestação, com o sulfato já correndo. A decisão do momento e da via do parto pertence ao obstetra do destino; o relógio que ela vai usar é o que começou aqui.

Degrau 1 — hipertensão gestacional: 140 por 90, sem lesão de órgão

Hipertensão nova depois de 20 semanas, proteinúria ausente, laboratório sem disfunção de órgão-alvo e sem sintomas. Diagnóstico provisório: até 25% dessas gestantes vão desenvolver pré-eclâmpsia, com risco maior quando a hipertensão aparece antes de 34 semanas. Conduta: vigilância materno-fetal, controle pressórico e reavaliação programada — nunca alta sem retorno marcado.

Degrau 2 — pré-eclâmpsia sem sinais de deterioração

Hipertensão mais proteinúria significativa, ou hipertensão mais qualquer disfunção de órgão-alvo. Sem crise hipertensiva, sem sintomas, sem alteração laboratorial progressiva. Conduta: internação para avaliação, exames de base, controle pressórico e vigilância fetal; conduta expectante somente até 37 semanas, e a partir daí resolução da gestação.

Degrau 3 — sinais de deterioração clínica ou laboratorial

Crise hipertensiva (160 por 110 ou mais), sintomas de iminência de eclâmpsia, síndrome HELLP, plaquetas abaixo de 100.000/mm³, TGO acima de 70 UI/L, creatinina acima de 1,2 mg/dL, oligúria, dor torácica ou edema pulmonar. Conduta: sulfato de magnésio imediato, anti-hipertensivo com alvo, vigilância intensiva e reavaliação da indicação de parto.

Degrau 4 — eclâmpsia e sineclâmpsia

Crise convulsiva tônico-clônica generalizada, ou coma, em gestante ou puérpera com distúrbio hipertensivo, sem outra causa neurológica. É o degrau que a conduta dos anteriores existe para impedir; ocorre em 2% a 3% das pré-eclâmpsias com sinais de gravidade não sulfatadas. O manejo da crise instalada tem capítulo próprio; o que não muda é que ela também indica resolver a gestação.

ParâmetroValor que FAZ o diagnóstico (somado a hipertensão após 20 semanas)Valor que marca DETERIORAÇÃOO que muda
Pressão arterialPAS ≥ 140 ou PAD ≥ 90 mmHg, em duas ocasiões com intervalo ≥ 4 horasPAS ≥ 160 ou PAD ≥ 110 mmHg (crise); com sintomas, emergênciaDiagnóstico obriga a investigar e internar; crise obriga a sulfato e anti-hipertensivo de ação rápida
ProteinúriaRelação proteína/creatinina ≥ 0,3 (mg/dL), ou ≥ 300 mg em 24 h, ou ≥ 2+ em fitaNão gradua gravidade e não se repete depois de confirmadaConfirma o diagnóstico clássico; a ausência dela não afasta nada
Plaquetas< 150.000/mm³< 100.000/mm³Abaixo de 100.000 indica sulfato, levanta HELLP e pesa na decisão do parto e da anestesia
TGO ou TGP≥ 40 UI/L≥ 2 vezes o limite superior do laboratório (na prática, > 70 UI/L)Alterada com dor epigástrica é sinal de gravidade e indica sulfato; repetir em 24 a 48 h
Creatinina≥ 1,0 mg/dL≥ 1,2 mg/dL, ou o dobro do basal sem outra doença renalAcima de 1,2 obriga a metade da dose de manutenção do sulfato e reavaliação renal
Hemólise (DHL, bilirrubinas, haptoglobina)DHL ≥ 2 vezes o limite do laboratório; bilirrubina indireta ≥ 1,2 mg/dLDHL > 600 UI/L e haptoglobina < 25 mg/dL alteram cedo; hemoglobina < 8 g/dL é tardiaCompõe o diagnóstico de síndrome HELLP, que tem capítulo próprio
Sintomas neurológicosCefaleia intensa ou persistente, escotomas, fotofobia, visão borrada, clônusRebaixamento de consciência, cegueira, acidente vascular cerebral, convulsãoQualquer um deles, em gestante hipertensa, indica sulfato imediatamente
Sintomas hepáticosEpigastralgia ou dor em quadrante superior direito, náusea, vômitoDor persistente com transaminases em elevação; hematoma subcapsularIndica sulfato e obriga a dosar transaminases e plaquetas na hora
PulmãoEdema pulmonar presenteEdema pulmonar presenteIndica resolução da gestação por si só; é a exceção em que entra furosemida
PlacentaRestrição de crescimento fetal, alteração relevante do doppler, descolamento prematuro, óbito fetalAlteração da vitalidade fetalFecha o diagnóstico mesmo com todo o laboratório materno normal; alteração de vitalidade indica resolver

Sulfato de magnésio: os dois esquemas, escritos por extenso

EsquemaDose de ataque — o que se aspiraManutençãoQuando escolherCuidado
Zuspan (intravenoso exclusivo)4 g. Com ampola a 50% (10 mL = 5 g): aspirar 8 mL (4 g) e diluir em 12 mL de água destilada ou soro fisiológico — 20 mL a 200 mg/mL, infundidos lentamente em 15 a 20 minutos. Alternativa em bomba: 8 mL em 92 mL de SF 0,9% (100 mL), a 300 mL/h, o que consome os 100 mL em 20 minutos. Com ampola a 10% (10 mL = 1 g): 40 mL (4 g) em 100 mL de SF 0,9%1 g por hora em bomba de infusão contínua. Preparo: 1 ampola a 50% (10 mL, 5 g) em 490 mL de SF 0,9% — 500 mL a 1 g/100 mL, infundidos a 100 mL/h. Cada bolsa dura 5 horas. Com ampola a 10%: 50 mL (5 g) em 450 mL de SF 0,9%, também a 100 mL/hQuando há bomba de infusão e a paciente permanece no serviçoSem bomba, não se improvisa gotejamento: a manutenção do Zuspan depende dela
Pritchard (intravenoso + intramuscular)4 g por via intravenosa, preparados como no Zuspan, mais 10 g por via intramuscular profunda: 20 mL da ampola a 50%, sendo 10 mL (5 g) em cada nádega. Para reduzir o risco de necrose muscular, pode-se dividir em quatro grupamentos musculares distintos, 2,5 g (5 mL) em cada5 g por via intramuscular profunda a cada 4 horas — 10 mL da ampola a 50%, ou 5 mL em cada um de dois grupamentosQuando não há bomba de infusão, e sempre que a gestante vai ser transportada em ambulância sem bomba: o componente intramuscular garante 4 horas de concentração terapêuticaUsar apenas a apresentação a 50%; a 10% exigiria 100 mL por via intramuscular. Evitar na síndrome HELLP com plaquetopenia, pelo risco de hematoma
Recorrência de convulsãoMais 2 g por via intravenosa (4 mL da ampola a 50%) em bolus, administrados em cerca de 20 minutosPassar a manutenção para 2 g por hora — 200 mL/h da solução de 5 g em 500 mLNova crise convulsiva já em uso de sulfatoSe as convulsões persistirem, o próximo fármaco é a difenil-hidantoína no esquema clássico, e investiga-se hemorragia intracraniana por imagem. O manejo da crise é assunto do capítulo de eclâmpsia
Insuficiência renalA dose de ataque não muda: ela é segura mesmo com creatinina alterada, porque a intoxicação vem do acúmulo na manutençãoMetade da dose de manutenção quando a creatinina está igual ou acima de 1,2 mg/dL, com dosagem sérica de magnésioCreatinina alterada, oligúriaSuspender a infusão apenas se a diurese cair abaixo de 25 mL/hora
DuraçãoManter por 24 horas após a resolução da gestação ou após a última crise convulsiva; reintroduzir se houver nova indicaçãoSempreO uso ou a reutilização do sulfato não indica, por si, realizar o parto

Crise hipertensiva na gestação: droga, dose, intervalo, teto e alvo

DrogaApresentaçãoDose e viaRepetição e tetoObservações
Nifedipino de liberação imediataComprimido de 10 mg10 mg por via oral10 mg a cada 20 a 30 minutos; teto de 30 mgAção máxima entre 30 e 40 minutos. O comprimido não deve ser mastigado, e a via sublingual é proscrita: produz queda rápida e errática da pressão, com risco para a mãe e para a perfusão placentária
HidralazinaAmpola de 1 mL a 20 mg/mL5 mg por via intravenosa. Preparo: diluir 1 ampola (1 mL) em 19 mL de água destilada, obtendo 20 mL a 1 mg/mL — 5 mg correspondem a 5 mL5 mg a cada 20 minutos; teto de 30 mg, ou seja, 30 mL da solução diluídaAção máxima em 20 minutos. Monitoração rigorosa pelo risco de hipotensão, corrigida com elevação dos membros inferiores. É a via de escolha quando a paciente não está lúcida, para não arriscar broncoaspiração
Nitroprussiato de sódioAmpola de 2 mL a 50 mg/2 mL0,5 a 10 µg/kg/min em infusão intravenosa contínua. Preparo: diluir 1 ampola (2 mL) em 248 mL de soro glicosado a 5%, obtendo 250 mL a 200 µg/mLIniciar na dose mínima e aumentar 1 mL/h a cada 10 minutos; a dose máxima não deve ser mantida por mais de 10 minutos, reduzindo-se então pela metadeReservado aos casos refratários a nifedipino e hidralazina, e ao edema pulmonar com comprometimento cardíaco. Só em ambiente hospitalar, com bomba. Deixa de agir 3 minutos após a interrupção
Alvo pressóricoReduzir a pressão em 15% a 25%, atingindo sistólica de 140 a 150 e diastólica de 90 a 100 mmHgNão se normaliza a pressão nesse primeiro momento. Quedas bruscas expõem a mãe a acidente vascular cerebral e infarto e reduzem a perfusão uteroplacentária, que na pré-eclâmpsia já não tem autorregulação
Manutenção por via oral, depois da criseMetildopa 250 mg; nifedipino de liberação prolongada 10 e 20 mg; anlodipino 5 e 10 mg; hidralazina drágeas de 25 e 50 mg; metoprolol 25, 50 e 100 mg; carvedilol 6,25, 12,5 e 25 mgIntroduzir ou otimizar assim que a crise estiver controlada — a posologia de cada uma está no marco correspondente da condutaAlvo de manutenção: manter a maioria das aferições abaixo de 140 por 90 mmHgInibidores da enzima conversora, bloqueadores do receptor de angiotensina II e inibidores diretos da renina são contraindicados na gestação: são fetotóxicos a partir do segundo trimestre, não teratogênicos — quem usou no primeiro trimestre deve ser tranquilizada e ter a droga trocada

Vigilância do sulfato: o que se checa, quando parar e o antídoto

ParâmetroValor que autoriza manterO que fazer se alterado
Reflexo patelarPresenteÉ o sinal precoce: o reflexo se abole antes de qualquer depressão respiratória, com magnesemia de 8 a 10 mEq/L. Reflexo ausente manda reduzir ou interromper a infusão e não aplicar a próxima dose intramuscular
Frequência respiratóriaIgual ou maior que 16 incursões por minutoAbaixo disso, interromper a infusão, dosar magnésio e avaliar função renal. Diante de depressão respiratória franca, gluconato de cálcio e suporte ventilatório
DiureseIgual ou maior que 25 mL/horaAbaixo disso, interromper a infusão. Sondagem vesical de demora facilita a medida — e jamais deve atrasar a primeira dose
Magnesemia (quando disponível)Faixa terapêutica de 4 a 7 mEq/L (4,8 a 8,4 mg/dL)Não é exame de rotina: reserva-se a alteração de função renal ou inibição de reflexos. Reflexo patelar abolido com 8 a 10 mEq/L; risco de parada respiratória a partir de 12 mEq/L
AntídotoGluconato de cálcio a 10%, 1 g — uma ampola de 10 mL — por via intravenosa lenta. Precisa estar dentro da caixa de emergência, ao lado do sulfato, porque não consta da Relação Nacional de Medicamentos Essenciais e depende de compra do serviço
Reinício após suspensãoAté 2 horas sem uso, reinicia-se a infusão intravenosa. Passadas 2 horas de suspensão, é preciso nova dose de ataque de 2 g

Predição e prevenção: quem recebe o quê, e desde quando

ItemQuem entraPrescrição
Fatores de risco ALTO — um bastaHistória de pré-eclâmpsia; gestação múltipla; obesidade com IMC acima de 30 kg/m²; hipertensão arterial crônica; diabetes tipo 1 ou 2; doença renal crônica; doenças autoimunes (lúpus, síndrome dos anticorpos antifosfolípides); gestação por reprodução assistidaPrevenção indicada
Fatores de risco MODERADO — dois ou maisNuliparidade; história familiar de pré-eclâmpsia em mãe ou irmãs; idade igual ou maior que 35 anos; intervalo maior que 10 anos desde a última gestação; condição socioeconômica desfavorável; raça/cor preta ou parda; gestação prévia com desfecho adverso por disfunção placentária (descolamento prematuro, restrição de crescimento, trabalho de parto prematuro, óbito fetal)Prevenção indicada quando há dois ou mais
Ácido acetilsalicílicoGestantes com um fator alto ou dois moderados100 mg por via oral, à noite, da 12ª à 36ª semana. Suspender se a gestante desenvolver pré-eclâmpsia. Não há substituto em caso de alergia; enoxaparina não serve para essa finalidade
CálcioTodas as gestantes, por recomendação federal — a ingestão média de cálcio da mulher brasileira adulta é de cerca de 400 mg/dia, contra a recomendação de 1.000 a 1.300 mgDois comprimidos de carbonato de cálcio de 1.250 mg ao dia — 1.000 mg de cálcio elementar —, da 12ª semana até o parto, junto às refeições e com intervalo mínimo de 2 horas em relação ao sulfato ferroso
Atividade físicaTodas as gestantes sem contraindicação obstétricaPelo menos 140 a 150 minutos por semana de exercício de intensidade moderada — caminhada rápida, hidroginástica, ciclismo estacionário, treino de resistência
O que NÃO previneVitamina C, vitamina E, vitamina D, ômega-3 e ácido fólico não são efetivos para prevenir pré-eclâmpsia e não devem ser prescritos com essa finalidade. Repouso absoluto não tem benefício e é contraindicado, pelo risco de tromboembolismo. Restrição de sal não melhora desfecho e reduz um volume intravascular que já está contraído

O que indica resolver a gravidez, independentemente da idade gestacional

SituaçãoPor que não se espera
Síndrome HELLPÉ a expressão hepato-hematológica da doença e piora enquanto a placenta estiver dentro; a plaquetopenia progressiva fecha a janela da anestesia condutiva
Eclâmpsia ou sineclâmpsiaA crise convulsiva marca lesão cerebral em curso; o tratamento definitivo é o nascimento, depois de estabilizada a mãe
Descolamento prematuro de placentaEmergência hemorrágica materno-fetal, com risco de coagulopatia
Hipertensão refratária ao tratamento com três fármacosSem controle pressórico não há proteção contra acidente vascular cerebral, e o risco cresce a cada hora
Edema pulmonar ou comprometimento cardíacoSinaliza falência de um segundo sistema; não regride com a placenta no lugar
Alterações laboratoriais progressivas — plaquetopenia, transaminases e DHL em elevaçãoO que decide não é o valor isolado, é a curva: piora sucessiva indica doença avançando
Insuficiência renal progressiva — elevação de ureia e creatinina, anasarca, oligúriaMarca falência de órgão instalada; o manejo da lesão renal em si é assunto do capítulo de injúria renal aguda
Alterações na vitalidade fetalDoppler de artéria umbilical com diástole zero ou reversa, ducto venoso alterado ou cardiotocografia anormal indicam que a placenta parou de sustentar o feto

As duas colunas da tabela principal não são estilo de redação: são duas réguas oficiais aplicadas em sequência. Plaquetas de 130.000/mm³ e TGO de 52 UI/L numa gestante com 146 por 94 mmHg fecham diagnóstico de pré-eclâmpsia e não caracterizam deterioração — o que significa internar e investigar, não correr para o centro cirúrgico.

Pressão sistólica ≥160 OU diastólica ≥110 mmHg persistente exige anti-hipertensivo de ação rápida, sem aguardar o efeito do magnésio. Confirmar prontamente a medida quando cabível; tratar a emergência e prevenir ou tratar convulsões em paralelo, com monitorização e reavaliações após cada dose. Magnésio não substitui anti-hipertensivo.

Confundir as duas apresentações do sulfato é o acidente mais grave possível com essa droga. Ampola de 10 mL a 50% contém 5 g; ampola de 10 mL a 10% contém 1 g. São cinco vezes de diferença no mesmo volume. Diga a concentração em voz alta ao aspirar, e confira o rótulo com um segundo par de olhos.

A tabela de infusão de nitroprussiato publicada nos protocolos brasileiros tem as três últimas colunas desalinhadas do cabeçalho: as velocidades listadas sob 3,0, 4,0 e 5,0 µg/kg/min correspondem, em todas as faixas de peso, a 4,0, 6,0 e 8,0 µg/kg/min. Para 50 kg, a coluna rotulada 5,0 manda 120 mL/h, e 120 mL/h de uma solução a 200 µg/mL entregam 8 µg/kg/min. Confira sempre pela conta: velocidade em mL/h igual à dose em µg/kg/min multiplicada pelo peso em quilos e por 0,3.

O critério de gravidade é sempre o pior parâmetro isolado. Uma gestante com pressão controlada, sem sintomas, com plaquetas de 92.000/mm³ está no degrau 3 pela plaqueta, e nenhuma média de parâmetros a tira de lá.

A dose de ataque do sulfato é segura mesmo em disfunção renal: a intoxicação depende de acúmulo, e o acúmulo acontece na manutenção. É esse fato que autoriza começar o sulfato numa unidade básica ou num pronto-atendimento sem laboratório — e é a razão de o esquema de Pritchard existir.

08

A conduta, hora a hora

Na pressão grave persistente, tratar prontamente com agente de ação rápida e iniciar magnésio quando indicado, em paralelo. Colher exames e organizar transferência durante a estabilização. Com a pressão fora da faixa grave, seguir investigando sintomas, órgãos-alvo e condição fetal; a normalização de um número não autoriza alta. Os esquemas e alvos abaixo são os adotados neste capítulo; as alternativas de protocolo aparecem depois para comparação.

Toda dose abaixo vem com a fonte que a sustenta. Onde os documentos brasileiros divergem, a escolha está feita no texto e a divergência está discutida no bloco próprio.

  1. Antes de a pressão subir — o pré-natal que evita a doença

    A prevenção é a parte da conduta com melhor razão entre custo e vidas, e é feita na atenção primária com três itens baratos. Na primeira consulta, estratifique o risco pela lista de fatores altos e moderados: um fator alto, ou dois moderados, indicam prevenção farmacológica. Registre a circunferência do braço da gestante no prontuário — é o dado que decide qual manguito será usado durante toda a gestação. Ensine a gestante a reconhecer os sinais de alarme e a saber para onde ir, com folder escrito quando o serviço tiver: a paciente que sabe nomear cefaleia persistente e escotoma chega mais cedo. E, se ela mede a pressão em casa ou na unidade, ensine também a técnica, porque a medida errada dela vale tanto quanto a medida errada sua.

    Prescrição
    • Ácido acetilsalicílico 100 mg por via oral, à noite, iniciando na 12ª semana de gestação — idealmente entre 12 e 16 semanas, com benefício ainda se iniciado até a 20ª — e mantido até a 36ª semana, para gestantes com um fator de risco alto ou dois moderados. Suspender se a gestante desenvolver pré-eclâmpsia — RBEHG 2025, capítulo de prevenção; Febrasgo, Protocolo de Obstetrícia nº 19 (2025).
    • Carbonato de cálcio 1.250 mg, 2 comprimidos por via oral ao dia (equivalentes a 1.000 mg de cálcio elementar), da 12ª semana até o parto, para todas as gestantes; ingerir junto às refeições, nunca em jejum, e com intervalo mínimo de 2 horas em relação ao sulfato ferroso — Nota Técnica Conjunta MS nº 251/2024.
    • Atividade física de intensidade moderada, 140 a 150 minutos por semana, na ausência de contraindicação obstétrica — RBEHG 2025; Febrasgo nº 19 (2025).
    • Não prescrever, com a finalidade de prevenir pré-eclâmpsia: vitaminas C, D e E, ômega-3, ácido fólico, dipiridamol, enoxaparina, repouso absoluto ou dieta hipossódica — RBEHG 2025.
  2. Minuto 0 a 5 — medir direito, perguntar e nomear

    A gestante hipertensa chegou. Antes de qualquer prescrição, refaça a medida com a técnica completa e nos dois braços; se o manguito adequado não existe na sala, aplique a correção pela circunferência braquial e registre que a aplicou. Em seguida, faça as perguntas de gravidade em voz alta, uma a uma, e anote as respostas com as palavras da paciente. Nomeie o quadro para a equipe — crise hipertensiva na gestação, iminência de eclâmpsia, o que for — porque nomear é o que faz duas pessoas pararem de fazer outra coisa. Peça a caixa de emergência hipertensiva e acione o transporte na mesma frase, se a unidade não tem maternidade. E marque a hora: todo o resto vai ser contado a partir dela.

    Prescrição
    • Reaferição da pressão arterial com técnica padronizada, nos dois braços; em paciente assintomática com PAS ≥ 160 ou PAD ≥ 110 mmHg, confirmar após 15 minutos de repouso; com sintomas, tratar sem confirmar — RBEHG 2025; Febrasgo nº 19 (2025); Manual de Gestação de Alto Risco (MS, 2022).
    • Decúbito lateral esquerdo para a paciente aguardar, para evitar compressão aortocava — Manual de Gestação de Alto Risco (MS, 2022); Femina 2025;53(8), quadro 8.
    • Dois acessos venosos periféricos calibrosos com soro fisiológico a 0,9% — Femina 2025;53(8), quadro 8; Febrasgo nº 19 (2025).
    • Acionamento do transporte seguro conforme a pactuação municipal, comunicando gestante grave com indicação de sulfato de magnésio — Femina 2025;53(8).
  3. Minutos iniciais — magnésio quando indicado, em paralelo ao tratamento da pressão grave

    Esta é a decisão que muda o desfecho, e ela não depende de exame, de obstetra nem de ambulância. Indicações: eclâmpsia, iminência de eclâmpsia, crise hipertensiva mesmo em paciente assintomática, síndrome HELLP e deterioração clínica ou laboratorial da pré-eclâmpsia. A escolha entre os dois esquemas é logística, não clínica: com bomba de infusão e paciente que fica, Zuspan; sem bomba, ou com transporte pela frente em ambulância sem bomba, Pritchard — porque o componente intramuscular garante quatro horas de concentração terapêutica sem depender de equipamento. Se houver indicação simultânea, iniciar magnésio e anti-hipertensivo de ação rápida em paralelo; não esperar terminar o ataque ou observar o efeito do magnésio para tratar a pressão grave persistente. Antes de infundir, diga em voz alta a concentração da ampola que está na sua mão.

    Prescrição
    • Sulfato de magnésio heptaidratado, dose de ataque de 4 g por via intravenosa: aspirar 8 mL da ampola a 50% (10 mL = 5 g) e diluir em 12 mL de água destilada ou soro fisiológico, totalizando 20 mL a 200 mg/mL, e infundir lentamente em 15 a 20 minutos. Alternativa em bomba: 8 mL da ampola a 50% em 92 mL de SF 0,9%, infundidos a 300 mL/h, o que consome os 100 mL em cerca de 20 minutos. Com ampola a 10% (10 mL = 1 g): 40 mL (4 g) diluídos em 100 mL de SF 0,9% — RBEHG 2025, quadro 11; Femina 2025;53(8), quadros 1 e 8.
    • Fora da maternidade, a infusão da dose de ataque deve ser feita em 30 minutos — Femina 2025;53(8), quadros 3 a 5 e 8.
    • Esquema de Zuspan, manutenção: 1 g por hora em bomba de infusão contínua. Diluir 1 ampola a 50% (10 mL, 5 g) em 490 mL de SF 0,9%, obtendo 500 mL a 1 g/100 mL, e infundir a 100 mL/h; cada bolsa dura 5 horas — RBEHG 2025, quadro 11.
    • Esquema de Pritchard, ataque: 4 g por via intravenosa como acima, mais 10 g por via intramuscular profunda — 20 mL da ampola a 50%, sendo 10 mL (5 g) em cada nádega; para reduzir o risco de necrose muscular, pode-se aplicar 2,5 g (5 mL) em cada um de quatro grupamentos musculares distintos. Manutenção: 5 g por via intramuscular profunda (10 mL da ampola a 50%) a cada 4 horas — RBEHG 2025, quadro 11; Manual de Gestação de Alto Risco (MS, 2022), quadro 7.
    • Manter o sulfato por 24 horas após a resolução da gestação ou após a última crise convulsiva, e reintroduzir se houver nova indicação — RBEHG 2025.
    • Diante de nova crise convulsiva já em uso de sulfato: mais 2 g por via intravenosa (4 mL da ampola a 50%) em cerca de 20 minutos, e manutenção elevada para 2 g por hora — RBEHG 2025; Femina 2025;53(8), quadro 8.
    • Não usar diazepam como anticonvulsivante de primeira linha na eclâmpsia: o sulfato de magnésio é mais seguro e mais eficaz que fenitoína, diazepam e cocktail lítico para prevenir recorrência — RBEHG 2025; Femina 2025;53(8), quadro 8.
  4. Minuto 20 a 40 — o anti-hipertensivo, com alvo e com teto

    Pressão sistólica ≥160 OU diastólica ≥110 mmHg persistente exige anti-hipertensivo de ação rápida, sem aguardar o efeito do magnésio. Confirmar prontamente a medida quando cabível; tratar a emergência e prevenir ou tratar convulsões em paralelo, com monitorização e reavaliações após cada dose. Magnésio não substitui anti-hipertensivo. Nifedipino oral exige deglutição segura; hidralazina intravenosa é opção quando a via oral não é adequada. Evite queda excessiva e registre pressão, dose, horário e resposta. Organize a transferência durante a estabilização.

    Prescrição
    • Nifedipino de liberação imediata 10 mg por via oral, repetível a cada 20 a 30 minutos, até o teto de 30 mg. Não mastigar o comprimido; a via sublingual é proscrita — RBEHG 2025, quadro 9; Febrasgo nº 19 (2025), quadro 4; Femina 2025;53(8), quadro 2.
    • Hidralazina 5 mg por via intravenosa, repetível a cada 20 minutos, até o teto de 30 mg. Preparo: diluir 1 ampola (1 mL a 20 mg/mL) em 19 mL de água destilada, obtendo 1 mg/mL — 5 mg correspondem a 5 mL da solução — RBEHG 2025, quadro 9; Febrasgo nº 19 (2025), quadro 4.
    • Alvo: reduzir a pressão arterial em 15% a 25%, atingindo PAS de 140 a 150 mmHg e PAD de 90 a 100 mmHg. Evitar quedas bruscas — RBEHG 2025; Febrasgo nº 19 (2025); Femina 2025;53(8).
    • Não havendo resposta após a dose máxima da droga escolhida, iniciar a outra antes de considerar terceira linha — Febrasgo nº 19 (2025), figura 1.
    • Nitroprussiato de sódio 0,5 a 10 µg/kg/min em bomba de infusão, apenas em ambiente hospitalar e apenas nos casos refratários a nifedipino e hidralazina, ou no edema pulmonar com comprometimento cardíaco. Preparo: 1 ampola (2 mL a 50 mg/2 mL) em 248 mL de soro glicosado a 5%, obtendo 200 µg/mL; velocidade em mL/h igual à dose desejada em µg/kg/min multiplicada pelo peso em quilos e por 0,3 — RBEHG 2025, quadros 9 e 10.
    • Iniciada a estabilização, introduzir ou otimizar o anti-hipertensivo oral de manutenção, com metildopa 750 mg a 2 g/dia divididos em 2 a 4 tomadas, nifedipino de liberação prolongada 20 a 120 mg/dia ou anlodipino 5 mg uma vez ao dia, com máximo usual de 10 mg/dia, buscando manter a maioria das aferições abaixo de 140 por 90 mmHg — RBEHG 2025, quadro 8.
  5. Hora 1 a 6 — o laboratório que decide, o corticoide e a transferência

    Com o tratamento correndo, colha o que decide e organize o destino. Nenhum resultado autoriza suspender o sulfato já indicado; eles dizem o quanto a doença avançou e ajudam a decidir o momento do parto. Se a gestação está entre 23 e 34 semanas e existe a possibilidade real de resolver nas próximas 48 horas, o corticoide antenatal entra — e a regra que evita desperdício é não fazê-lo cedo demais, porque o benefício diminui se o nascimento acontecer mais de sete dias depois da primeira dose. Entre 23 e 32 semanas, o próprio sulfato tem indicação adicional de neuroproteção fetal. A transferência se faz com a paciente estabilizada, com o sulfato correndo e com um relatório escrito: horário e dose de cada medicação, pressões de entrada e de controle, sintomas e intercorrências. O que acontece com o recém-nascido depois — a reanimação em sala de parto e os cuidados da prematuridade — é assunto dos capítulos próprios; aqui, o corticoide antenatal é a única decisão neonatal que passa pelas mãos do interno.

    Prescrição
    • Exames mínimos: hemograma com plaquetas, creatinina, TGO, desidrogenase láctica e bilirrubinas totais ou haptoglobina; relação proteína/creatinina urinária se o diagnóstico ainda não estiver fechado. Anotar a saturação de oxigênio — Manual de Gestação de Alto Risco (MS, 2022); RBEHG 2025.
    • Não dosar ureia de rotina; não repetir proteinúria já confirmada; para o fígado, a TGO isolada é suficiente; exames de coagulação apenas diante de plaquetopenia — RBEHG 2025; Manual de Gestação de Alto Risco (MS, 2022).
    • Betametasona 12 mg por via intramuscular a cada 24 horas, em duas doses (48 horas), para maturação pulmonar fetal, apenas quando existe risco de resolver a gestação nas próximas 48 horas. A apresentação disponível na Rename é a suspensão injetável de acetato mais fosfato dissódico de betametasona 3 mg/mL + 3 mg/mL, isto é, 6 mg/mL — 12 mg correspondem a 2 mL — RBEHG 2025; Rename 2024.
    • Dexametasona 6 mg por via intramuscular a cada 12 horas, em quatro doses (48 horas), apenas quando não houver betametasona disponível. A apresentação da Rename é a solução injetável de 4 mg/mL — 6 mg correspondem a 1,5 mL — RBEHG 2025; Rename 2024.
    • Sulfato de magnésio para neuroproteção fetal entre 23 e 32 semanas de gestação — RBEHG 2025.
    • Sondagem vesical de demora para medir diurese durante a manutenção do sulfato, sem que isso atrase a primeira dose — RBEHG 2025, quadro 12.
    • Relatório de transferência com quadro clínico (frequência cardíaca, frequência respiratória, pressão arterial), diagnóstico, medicações administradas com dose, via e horário, evolução e horário de saída — Femina 2025;53(8), quadros 6 e 8.
  6. Dia 1 a 2 — internação, vigilância intensiva e quem decide o parto

    Diante de suspeita ou confirmação de pré-eclâmpsia, o protocolo nacional recomenda internação. A conduta ambulatorial é exceção, e depende de a gestante morar perto do hospital, ter alguém em casa o tempo todo, conseguir aferir a pressão diariamente, entender os sinais de alarme e ter consulta semanal garantida. Internada, a rotina é conhecida: pressão a cada 4 horas na vigília — sem acordá-la de madrugada só para medir —, balanço hídrico com controle de diurese, pesquisa diária dos sinais de gravidade e laboratório uma a duas vezes por semana conforme a evolução, com repetição em 24 a 48 horas sempre que houver alteração. A dieta é normal, sem restrição de sal; o repouso é relativo, e o repouso absoluto é contraindicado. E aqui está o limite do interno: a decisão do momento do parto é do obstetra, compartilhada com a gestante, os neonatologistas e os anestesiologistas, e depende do que o hospital consegue oferecer ao recém-nascido. Ao interno cabe alimentar essa decisão com dados corretos e reconhecer quando ela ficou urgente.

    Prescrição
    • Aferição de pressão arterial a cada 4 horas durante a vigília; balanço hídrico com débito urinário; reavaliação renal se a diurese for inferior a 500 mL em 24 horas — RBEHG 2025.
    • Laboratório semanal na paciente estável; uma a duas vezes por semana entre 23 e 34 semanas com vigilância intensiva; repetição em 24 a 48 horas se TGO acima de 70 UI/L, plaquetas abaixo de 100.000/mm³ ou creatinina acima de 1,1 mg/dL — RBEHG 2025.
    • Vigilância fetal combinando avaliação biofísica (sobretudo cardiotocografia) e hemodinâmica (dopplervelocimetria), na periodicidade do protocolo do serviço — RBEHG 2025.
    • Cálculo seriado do índice fullPiers para acompanhar a tendência da mesma paciente ao longo dos dias, sem usar um valor isolado como gatilho de parto — RBEHG 2025; Manual de Gestação de Alto Risco (MS, 2022).
    • Resolução da gestação a partir de 37 semanas em toda pré-eclâmpsia, mesmo sem sinais de deterioração; e imediatamente, em qualquer idade gestacional, diante das situações da tabela de indicação — RBEHG 2025; Manual de Gestação de Alto Risco (MS, 2022).
    • Via de parto por indicação obstétrica, com o parto vaginal como preferência, inclusive na prematuridade; a cesariana se justifica no colo desfavorável com deterioração materna e diante de vitalidade fetal alterada. O preparo de colo e a condução do trabalho de parto são assunto do capítulo de mecanismo e fases do trabalho de parto — RBEHG 2025; Manual de Gestação de Alto Risco (MS, 2022).
    • Se houver indicação de cesariana com plaquetas abaixo de 70.000/mm³, considerar anestesia geral; transfundir concentrado de plaquetas se a contagem for inferior a 50.000/mm³ antes de cesariana, ou inferior a 20.000/mm³ mesmo sem sangramento — RBEHG 2025; Manual de Gestação de Alto Risco (MS, 2022).
  7. O parto e as 24 horas seguintes — o período que ainda mata

    Retirar a placenta é o único tratamento curativo, e ainda assim o dia do parto não encerra o risco. Nas primeiras 24 horas de puerpério é comum haver piora transitória, e uma parte relevante das mortes maternas acontece exatamente aí, por complicações hemorrágicas e por menos atenção do que o período merece. O sulfato continua por 24 horas depois do parto — e continuar o sulfato tem uma consequência obstétrica que precisa estar dita: o magnésio relaxa o miométrio e favorece a atonia uterina, de modo que essa puérpera soma risco de hemorragia pós-parto a um volume intravascular que já era contraído e a plaquetas que podem estar baixas. O manejo da hemorragia é assunto do capítulo dela; o que este capítulo obriga a lembrar é que a metilergometrina, segundo uterotônico da prateleira, é contraindicada em síndromes hipertensivas. Verifique isso antes de precisar.

    Prescrição
    • Manter o sulfato de magnésio por 24 horas após o parto, se estava em uso no momento do nascimento; reintroduzir se houver nova indicação — RBEHG 2025; Manual de Gestação de Alto Risco (MS, 2022).
    • Pressão arterial a cada 4 horas, podendo suprimir as medidas da madrugada se estiver controlada; alvo abaixo de 140 por 90 mmHg — RBEHG 2025.
    • Manter os anti-hipertensivos, sobretudo nos casos com gravidade; reduzir a dose ou retirar se a pressão ficar abaixo de 110 e/ou 70 mmHg. No puerpério, os inibidores da enzima conversora de angiotensina estão liberados — RBEHG 2025, quadro 14.
    • Evitar bloqueadores do receptor de angiotensina e clonidina durante a amamentação, pela incerteza de segurança, especialmente na prematuridade — RBEHG 2025.
    • Evitar anti-inflamatórios não esteroides no controle da dor puerperal — Manual de Gestação de Alto Risco (MS, 2022).
    • Em pré-eclâmpsia com sinais de gravidade, furosemida 20 mg por via oral ao dia, iniciada no dia do nascimento e mantida por 3 a 5 dias, reduz a prevalência de hipertensão persistente e a necessidade de hipotensores — RBEHG 2025.
    • Tromboprofilaxia mecânica e/ou medicamentosa conforme o protocolo do serviço; atenção redobrada à hidratação endovenosa e à oligúria — RBEHG 2025; Manual de Gestação de Alto Risco (MS, 2022).
    • Metilergometrina contraindicada em hipertensão, pré-eclâmpsia e demais síndromes hipertensivas: se houver atonia uterina, o segundo uterotônico será outro — Manual de Gestação de Alto Risco (MS, 2022).
  8. Alta e os próximos anos — a doença não termina no puerpério

    A vigilância rigorosa vai até o décimo dia, e o pico de piora pressórica costuma cair entre o terceiro e o sexto — quando a puérpera já está em casa. A alta precisa levar relatório minucioso, orientação escrita sobre sinais de alarme, plano de aferição da pressão e uma consulta precoce, entre 7 e 10 dias, além da revisão habitual de 6 a 8 semanas. E existe uma conversa que quase nunca acontece e deveria: pré-eclâmpsia não é doença que acaba com a gestação. Quem a teve carrega risco aumentado de doença cardiovascular, renal e metabólica pelo resto da vida, e a consulta de revisão é o momento de dizer isso e de começar a agir sobre o que é modificável.

    Prescrição
    • Consulta precoce entre 7 e 10 dias após o parto, além da revisão de 6 a 8 semanas — RBEHG 2025.
    • Suspender a medicação anti-hipertensiva quando os valores se mantiverem abaixo de 140 por 90 mmHg; controle pressórico diário ou a cada 2 a 3 dias após a alta — RBEHG 2025.
    • Repetir os exames alterados na revisão; encaminhar ao nefrologista diante de pressão de difícil controle, proteinúria ou albuminúria persistente, sedimento urinário ativo ou queda da taxa de filtração glomerular estimada — RBEHG 2025.
    • Orientar contracepção eficaz e segura para hipertensas, evitando estrogênio em quem permanece hipertensa — RBEHG 2025.
    • Acolher a saúde mental da puérpera, com atenção a ansiedade e a estresse pós-traumático, especialmente quando houve prematuridade — RBEHG 2025.
    • Estimular a amamentação, que se associa a redução do risco cardiovascular futuro da mãe, e trabalhar os fatores modificáveis: peso, dieta, atividade física, perfil lipídico, glicemia, função renal e cessação do tabagismo — RBEHG 2025.
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Como saber se está funcionando

Na pré-eclâmpsia, reavaliar não é uma etapa depois do tratamento: é o tratamento acontecendo. A doença é imprevisível por definição — parte das eclâmpsias ocorre em pacientes que estavam assintomáticas e com exames aceitáveis —, e por isso a régua se reaplica inteira a cada avaliação, e não uma vez na admissão.

Duas ideias organizam este bloco. A primeira: o que decide não é o valor isolado, é a curva. Uma plaqueta de 118.000 hoje que era 165.000 anteontem diz mais que uma plaqueta de 105.000 estável há três dias. A segunda: melhora de sintoma não é melhora de doença. Os sinais de gravidade podem ser transitórios, a pressão pode estabilizar depois de controlada, e nada disso significa que a placenta parou de adoecer a mãe.

Pressão arterialDurante o tratamento agudo, reavaliar a pressão após cada dose no intervalo do protocolo (20 minutos neste esquema), com monitorização clínica contínua; não vincular a primeira dose ao término do magnésio. Após estabilização, ajustar a frequência à gravidade; a cada 4 horas apenas na paciente internada e estável, inclusive no puerpério.

Esperado: Sair da faixa de crise para sistólica de 140 a 150 e diastólica de 90 a 100 mmHg na fase aguda; e, na manutenção, a maioria das aferições abaixo de 140 por 90 mmHg

Se não melhora: Persistindo 160 por 110 ou mais após o teto de 30 mg da droga escolhida, inicie a outra (nifedipino se começou com hidralazina, e vice-versa). Refratariedade ao tratamento com três fármacos é, ela própria, indicação de resolver a gestação. E se a pressão caiu demais — abaixo de 140 por 90 na fase aguda, ou hipotensão franca —, eleve os membros inferiores, suspenda a próxima dose e reavalie a vitalidade fetal: a placenta perde perfusão antes de a mãe se queixar

Sinais e sintomas de gravidadeA cada avaliação na fase aguda; pelo menos uma vez ao dia na paciente internada; e sempre que a paciente chamar

Esperado: Cefaleia, escotomas, epigastralgia, dispneia e confusão devem regredir. Movimentos fetais mantidos

Se não melhora: Sintoma que persiste ou reaparece com a pressão já controlada é deterioração, não ansiedade. Cefaleia refratária, alteração visual persistente ou rebaixamento de consciência obrigam a repetir o laboratório na hora e a reavaliar a indicação de parto; convulsão de difícil controle, déficit neurológico ou coma indicam investigar acidente vascular cerebral por imagem

Reflexo patelarAntes de cada dose intramuscular do esquema de Pritchard e a cada 4 horas durante a manutenção intravenosa

Esperado: Presente

Se não melhora: Reflexo abolido é o sinal precoce de hipermagnesemia — aparece com 8 a 10 mEq/L, antes de qualquer depressão respiratória. Reduza ou interrompa a infusão, não aplique a próxima dose intramuscular, dose magnésio e função renal e reavalie. Restabelecidos os parâmetros, reinicia-se: até 2 horas de suspensão, retoma-se a infusão; passadas 2 horas, é preciso nova dose de ataque de 2 g

Frequência respiratóriaA cada 4 horas em uso de sulfato, e antes de cada dose intramuscular

Esperado: Igual ou maior que 16 incursões por minuto

Se não melhora: Abaixo disso, interrompa a infusão e reavalie. Diante de depressão respiratória, gluconato de cálcio a 10%, 1 g (uma ampola de 10 mL) por via intravenosa lenta, mais oxigênio sob máscara e suporte ventilatório. O risco de parada respiratória começa em torno de 12 mEq/L, e a antecipação disso é justamente o reflexo patelar

DiureseHorária durante a manutenção do sulfato, com sonda vesical de demora; balanço hídrico diário na internação

Esperado: Igual ou maior que 25 mL por hora; volume de 24 horas acima de 500 mL

Se não melhora: Abaixo de 25 mL/h, interrompa a infusão de sulfato — é acúmulo até prova em contrário. Oligúria abaixo de 500 mL em 24 horas obriga a reavaliar a função renal. Cuidado com a resposta reflexa de infundir volume: essa paciente tem permeabilidade capilar aumentada e faz edema pulmonar com facilidade

PlaquetasSemanalmente na paciente estável; uma a duas vezes por semana na vigilância intensiva; em 24 a 48 horas sempre que abaixo de 100.000/mm³

Esperado: Estáveis ou em elevação

Se não melhora: Queda progressiva é síndrome HELLP em construção e fecha a janela da anestesia condutiva. Não há razão aceitável para manter a gestação quando as plaquetas atingem valores inferiores a 100.000/mm³. Abaixo de 70.000/mm³, considerar anestesia geral se houver cesariana; abaixo de 50.000/mm³ antes de cesariana, e abaixo de 20.000/mm³ mesmo sem sangramento, transfundir plaquetas

Transaminase oxalacética (TGO) e desidrogenase lácticaJunto com o hemograma; repetição em 24 a 48 horas se TGO acima de 70 UI/L

Esperado: Estáveis

Se não melhora: Elevação progressiva, sobretudo com dor epigástrica, indica comprometimento hepático avançando e entra na lista de indicações de resolução. DHL acima de 600 UI/L e haptoglobina abaixo de 25 mg/dL marcam hemólise precoce; a queda de hemoglobina abaixo de 8 g/dL e a bilirrubina indireta alterada são achados tardios e de alto risco

CreatininaJunto com o hemograma; repetição em 24 a 48 horas se acima de 1,1 mg/dL

Esperado: Estável e abaixo de 1,0 mg/dL

Se não melhora: Elevação progressiva com oligúria e anasarca é insuficiência renal instalada e indica resolver a gestação. Creatinina igual ou acima de 1,2 mg/dL obriga a reduzir pela metade a dose de manutenção do sulfato e a dosar magnésio sérico

Vitalidade e crescimento fetaisConforme o protocolo do serviço, combinando cardiotocografia e dopplervelocimetria; sempre após episódio de hipotensão materna

Esperado: Cardiotocografia tranquilizadora, doppler de artéria umbilical com diástole presente, crescimento dentro da curva

Se não melhora: Diástole zero ou reversa na artéria umbilical, ducto venoso com índice de pulsatilidade acima do percentil 95 para a idade gestacional, ou cardiotocografia anormal caracterizam vitalidade alterada — indicação de resolver, e frequentemente por cesariana. Restrição de crescimento e oligoâmnio novos numa gestante hipertensa fecham o diagnóstico de pré-eclâmpsia mesmo com laboratório materno normal

Índice fullPiers e saturação de oxigênioA cada rodada de exames, na conduta expectante de pré-eclâmpsia precoce

Esperado: Estável ou em queda ao longo dos dias

Se não melhora: Não existe valor de corte que mande interromper: o que vale é a comparação sucessiva na mesma paciente. Saturação de oxigênio é um dos parâmetros de maior peso no cálculo, e é o que menos se anota — quando não medida, o modelo assume 97%, o que subestima o risco de quem está pior

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Onde o erro machuca

Aceitar como verdadeira a pressão medida de qualquer jeito

O dano: Medida em decúbito lateral esquerdo sai sistematicamente mais baixa que a real; manguito grande demais para o braço também subestima. É assim que uma gestante com 158 por 104 é registrada com 138 por 88 e vai para casa com diagnóstico de nada. No sentido oposto, manguito pequeno num braço grosso superestima e leva a tratar quem não precisa, o que destrói a credibilidade do número na próxima vez que ele subir de verdade.

Como pegar a tempo: Trate a aferição como procedimento com passos, e execute todos eles — inclusive medir a circunferência braquial no ponto médio e registrá-la no prontuário, porque é ela que decide o manguito de toda a gestação. Sem o manguito adequado, aplique a tabela de correção e anote que a aplicou. Se a evolução diz "PA aferida em DLE", o dado ainda não existe.

Explicar o número pela paciente em vez de pela doença

O dano: 'Ansiedade', 'ela subiu a escada', 'é a primeira gestação, está nervosa' são frases que transformam um achado em não-achado. O custo é medido em horas de atraso, e o atraso é a variável que separa pré-eclâmpsia tratada de eclâmpsia. A distribuição desse erro não é aleatória: a maioria das mortes maternas por hipertensão como causa obstétrica direta ocorre em mulheres negras, e a facilidade com que um sintoma vira 'nervosismo' varia com quem está na cadeira.

Como pegar a tempo: Nenhuma explicação alternativa dispensa a reaferição correta e as cinco perguntas de gravidade. Se depois disso a pressão continua alta, o diagnóstico é hipertensão na gestação até prova em contrário — e a prova em contrário é uma segunda medida correta, não uma hipótese sobre o estado emocional da paciente.

Esperar a proteinúria para fechar o diagnóstico

O dano: É o erro que mais manda gente doente para casa. A fita reagente, que é o método disponível no pronto-atendimento, detecta apenas albumina, tem alta taxa de falso-negativo e não exclui proteinúria. E o diagnóstico já não depende dela: hipertensão depois de 20 semanas mais qualquer disfunção de órgão-alvo é pré-eclâmpsia, com urina limpa.

Como pegar a tempo: Diante de hipertensão nova na segunda metade da gestação, peça no mesmo dia hemograma com plaquetas, creatinina, TGO, DHL e bilirrubinas, e faça as perguntas de gravidade. Fita negativa não encerra a investigação; encerra apenas a via clássica do diagnóstico. E, uma vez confirmada, a proteinúria não precisa ser repetida: ela dá o diagnóstico, não o prognóstico.

Não perguntar os sinais de gravidade, porque a paciente 'não se queixou'

O dano: A gestante não relaciona cefaleia, escotoma e dor epigástrica com pressão alta. Ela chama a dor epigástrica de azia, o escotoma de vista cansada e a cefaleia de estresse. Perguntar 'está sentindo alguma coisa?' produz 'não'. O resultado é uma iminência de eclâmpsia registrada como paciente assintomática, e uma indicação de sulfato que deixa de ser feita.

Como pegar a tempo: Pergunte item por item, com as palavras dela, cobrindo cefaleia, visão, dor abdominal alta, falta de ar e movimentos fetais — e anote cada resposta. Qualquer positiva, em gestante hipertensa, é indicação de sulfato de magnésio.

Confundir o que o sulfato faz — e prescrever um no lugar do outro

O dano: O sulfato de magnésio previne convulsão; ele não trata hipertensão. Quem acredita que sulfato baixa pressão deixa uma gestante com 180 por 120 sem anti-hipertensivo por meia hora, exposta a acidente vascular cerebral. E quem acredita que baixar a pressão previne eclâmpsia deixa de dar sulfato a uma paciente que convulsiona com a pressão já controlada — o que acontece, porque a convulsão não depende só do número.

Como pegar a tempo: Pressão sistólica ≥160 OU diastólica ≥110 mmHg persistente exige anti-hipertensivo de ação rápida, sem aguardar o efeito do magnésio. Confirmar prontamente a medida quando cabível; tratar a emergência e prevenir ou tratar convulsões em paralelo, com monitorização e reavaliações após cada dose. Magnésio não substitui anti-hipertensivo.

Errar a concentração da ampola de sulfato

O dano: A ampola de 10 mL a 50% contém 5 g; a ampola de 10 mL a 10% contém 1 g. São cinco vezes de diferença no mesmo volume e no mesmo formato de vidro. Aspirar 8 mL achando que é 50% quando é 10% entrega 0,8 g em vez de 4 g — a paciente fica sem profilaxia e ninguém percebe até a convulsão. O erro inverso, 40 mL da ampola a 50%, entrega 20 g de uma vez, com risco de bloqueio neuromuscular e parada respiratória.

Como pegar a tempo: Leia a concentração em voz alta ao aspirar e confira com um segundo par de olhos. Guarde as duas contas: com 50%, 4 g são 8 mL; com 10%, 4 g são 40 mL. Para o esquema de Pritchard, apenas a apresentação a 50% serve — 10 g a 10% dariam 100 mL por via intramuscular. E tenha o gluconato de cálcio dentro da mesma caixa, antes de precisar dele.

Normalizar a pressão depressa

O dano: As artérias espiraladas mal remodeladas não têm autorregulação: elas não compensam uma queda de pressão dilatando. Derrubar a pressão materna para 110 por 70 numa gestante em crise desliga a perfusão placentária e produz sofrimento fetal agudo, além de expor a mãe a hipoperfusão cerebral e coronariana. Nifedipino por via sublingual é o jeito mais rápido de causar isso, e por essa razão é proscrito.

Como pegar a tempo: O alvo é reduzir 15% a 25%, para sistólica de 140 a 150 e diastólica de 90 a 100 mmHg — e não abaixo disso na fase aguda. Respeite o intervalo entre as doses (20 minutos para hidralazina, 20 a 30 para nifedipino) em vez de repetir por impaciência, e não use a via sublingual. Se a pressão despencar, eleve os membros inferiores, suspenda a próxima dose e reavalie o feto.

Esperar a transferência para iniciar o sulfato

O dano: É o erro estrutural do sistema, e o que a política nacional de resposta rápida existe para corrigir. A gestante fica com a indicação registrada e sem a droga, atravessa a cidade numa ambulância sem profilaxia, e convulsiona no caminho ou na chegada. O argumento de que 'lá eles têm laboratório' não se sustenta: nenhum exame muda a decisão de sulfatar quem tem crise hipertensiva ou sintomas de iminência.

Como pegar a tempo: Comece o sulfato na unidade onde a paciente está — unidade básica, pronto-atendimento ou hospital sem maternidade — e só então transfira, com a droga correndo e o relatório escrito. Sem bomba de infusão, ou com transporte em ambulância sem bomba, use o esquema de Pritchard, cujo componente intramuscular garante quatro horas de cobertura. A dose de ataque é segura mesmo com função renal alterada, porque a intoxicação depende de acúmulo na manutenção.

Suspender ou manter o sulfato pelo parâmetro errado

O dano: Dois erros simétricos. Suspender por medo — 'o reflexo está meio fraco' — deixa sem proteção uma paciente que continua sob risco de convulsão, num período em que o risco não caiu. E manter sem checar, sobretudo em quem tem creatinina alterada e diurese baixa, permite o acúmulo que leva à depressão respiratória. Passadas 2 horas de suspensão, retomar a infusão como se nada tivesse acontecido subdosa a paciente, porque o nível sérico já caiu.

Como pegar a tempo: Cheque os três parâmetros objetivos — reflexo patelar, frequência respiratória e diurese — antes de cada dose intramuscular e a cada 4 horas na infusão, e trate cada um deles como gatilho isolado, sem média nem impressão geral. Creatinina igual ou acima de 1,2 mg/dL manda usar metade da dose de manutenção, não suspender. E, após 2 horas de suspensão, é preciso nova dose de ataque de 2 g antes de retomar.

Achar que o parto encerra o problema

O dano: Uma parte relevante das mortes maternas por pré-eclâmpsia acontece depois do nascimento. Nas primeiras 24 horas há piora transitória; entre o terceiro e o sexto dia a pressão costuma subir de novo, por redistribuição do líquido do interstício de volta ao vaso — e nessa altura a puérpera já foi para casa. A eclâmpsia puerperal se concentra na primeira semana. Somando: o sulfato relaxa o miométrio, o volume intravascular está contraído e as plaquetas podem estar baixas, o que faz dessa puérpera uma candidata a hemorragia pós-parto grave.

Como pegar a tempo: Mantenha o sulfato por 24 horas após o parto, meça a pressão a cada 4 horas, mantenha os anti-hipertensivos e dê alta com relatório, plano de aferição, sinais de alarme por escrito e consulta entre 7 e 10 dias. Cheque antes de precisar que a metilergometrina está contraindicada nessa paciente, para não descobrir isso com o útero atônico na sua mão.

Tratar hipertensão gestacional como diagnóstico tranquilizador

O dano: Até 25% das gestantes com hipertensão gestacional evoluem para pré-eclâmpsia. Dar alta com "sua pressão subiu um pouco, volte no seu pré-natal" entrega o seguimento à sorte, e a gestante volta quando o quadro já é outro.

Como pegar a tempo: Hipertensão gestacional é diagnóstico provisório com data de reavaliação marcada, controle pressórico definido, exames de base colhidos e vigilância materno-fetal programada. Explique à paciente, com essas palavras, que o quadro pode mudar de nome e o que ela deve observar. E se a pressão persistir além de 12 semanas do parto, o rótulo correto passa a ser hipertensão arterial crônica.

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O que dizer ao paciente e à família

Nesta doença, quase toda conversa difícil acontece com uma paciente que se sente bem. Ela chegou andando, está lúcida, não tem dor forte, e você vai dizer que ela precisa ficar internada, que talvez o bebê nasça antes da hora e que a única cura é o parto. A distância entre o que ela sente e o que você sabe é o obstáculo principal — e é por isso que a explicação tem de vir com o mecanismo, não só com a ordem.

Há uma segunda dificuldade, que é a da promessa. Existe muita coisa que não se pode garantir aqui: que a pressão vai controlar, que a gestação vai chegar às 37 semanas, que o bebê não vai precisar de UTI neonatal. O que se pode prometer é vigilância, presença e informação — e prometer só isso, com clareza, sustenta mais confiança do que otimismo que depois se desfaz.

Explicando por que vai medir a pressão de novo, do jeito certo

"Vou medir sua pressão outra vez, com você sentada e o braço apoiado, e a gente vai esperar uns minutos em silêncio antes. Não é desconfiança da medida de agora há pouco: é que a pressão da gestante muda bastante com a posição e com o tamanho do aparelho, e eu preciso do número certo porque é ele que decide o que eu vou fazer. Vou medir nos dois braços também."

Não diga: Corrigir a técnica em voz alta na frente da paciente de um jeito que exponha a colega que mediu antes. E não diga 'sua pressão estava boa, deixa eu só conferir' — isso já entrega um resultado que você ainda não tem.

Fazendo as perguntas de gravidade sem induzir a resposta

"Preciso te fazer umas perguntas específicas, e quero que você pense antes de responder. Essa dor de cabeça melhora de verdade quando você toma o remédio, ou ela volta? Você está enxergando bem — vê pontinhos pretos, luzinhas, alguma coisa embaçada? Dói alguma coisa aqui na boca do estômago, ou embaixo das costelas desse lado? Está faltando ar quando você deita? E o bebê, está mexendo do mesmo jeito de sempre?"

Não diga: "Está tudo bem?" e "nada de diferente, né?", que produzem 'não' automático. Também não descarte a resposta dela porque parece inespecífica: azia da gravidez e dor de cápsula hepática são a mesma queixa dita com as mesmas palavras.

Dando o diagnóstico a uma gestante que se sente bem

"Vanuza, o que você tem tem nome: pré-eclâmpsia. É uma doença da placenta que faz sua pressão subir e pode afetar outros órgãos seus — cérebro, fígado, rim. Ela é séria mesmo quando a pessoa se sente bem, e é justamente por isso que a gente precisa te acompanhar de perto agora. Não é exagero nosso, e não é culpa de nada que você fez."

Não diga: "É pressão alta da gravidez, é comum" — que é verdade e é enganoso ao mesmo tempo. E não use 'toxemia' nem 'DHEG', termos antigos que ela pode buscar na internet e encontrar informação desatualizada.

Explicando o sulfato de magnésio antes de infundir

"Vou passar na sua veia um remédio chamado sulfato de magnésio. Ele não é para a pressão — é para evitar que você tenha uma convulsão, que é a complicação mais grave dessa doença. Enquanto ele entra você vai sentir calor no corpo, o rosto pode ficar quente e vermelho, e é normal dar um pouco de sono. Se sentir muita falta de ar, ou a respiração ficar pesada, me chame na hora. Vou verificar seu reflexo no joelho e sua urina de tempos em tempos: é assim que eu sei que a dose está certa."

Não diga: Chamar de 'soro para a pressão'. E não minimize o calor da infusão — quem não é avisada acha que está tendo uma reação alérgica e pede para parar.

Explicando a internação a quem tem a vida do lado de fora

"Eu preciso que você fique internada, e sei que isso desorganiza tudo. O motivo é que essa doença pode piorar em horas, sem aviso, e a piora precisa ser vista por alguém que esteja olhando. Vamos resolver junto o que der: quem busca o seu filho, quem avisa o seu trabalho, quem traz suas coisas. Me diga o que é mais urgente que a gente tenta encaminhar agora."

Não diga: "É melhor pra você" sem dizer por quê, e negociar alta contra indicação. Se a paciente insiste em ir embora, registre a orientação, ofereça a alternativa mais segura possível e marque retorno curto — mas não finja que a conduta ambulatorial é equivalente.

Falando com o acompanhante que discorda

"O senhor tem razão que ela sempre foi saudável, e é bom que o senhor esteja aqui. O que mudou é que na gravidez a placenta pode fazer a pressão subir e machucar outros órgãos, e isso acontece em mulheres jovens e saudáveis — é até mais comum na primeira gestação. Não é uma coisa que ela fez de errado, e não passa com repouso em casa. O que eu preciso do senhor é que fique atento junto comigo: se ela reclamar de dor de cabeça forte, enxergar embaçado ou dor na boca do estômago, chame a gente na hora."

Não diga: Discutir autoridade e usar jargão para encerrar a conversa. Transformar o acompanhante em aliado de vigilância é mais útil que vencê-lo pelo argumento.

Conversando sobre o corticoide e a possibilidade de o bebê nascer antes

"Se a gente precisar tirar o bebê antes da hora, ele pode ter dificuldade para respirar porque o pulmão ainda está amadurecendo. Existe uma injeção que acelera esse amadurecimento, e ela funciona melhor se for feita perto do nascimento — por isso eu só faço quando acho que pode ser mesmo nos próximos dois dias. Ainda não está decidido que ele vai nascer agora; a decisão é da equipe de obstetrícia junto com você, olhando o seu quadro e o dele todos os dias."

Não diga: Prometer idade gestacional ('vamos segurar até 37 semanas'), prometer via de parto e prometer que não vai precisar de UTI neonatal. Também não anuncie decisão que não é sua: o momento e a via do parto são decisão do obstetra, compartilhada com ela.

Passando o caso para o transporte ou para o hospital de destino

"Gestante de 34 semanas e 2 dias, primeira gestação, com pré-eclâmpsia e crise hipertensiva. Pressão de entrada 172 por 116, aferida sentada com correção pela circunferência braquial, chegando a 164 por 110. Cefaleia persistente, escotomas e epigastralgia. Sulfato de magnésio esquema de Pritchard, ataque de 4 g intravenoso às 15h10 e 10 g intramuscular às 15h35; próxima dose intramuscular de 5 g às 19h35, condicionada aos parâmetros de segurança. Hidralazina 5 mg intravenosa às 15h10, pressão de controle 152 por 98 às 15h30. Reflexo patelar presente, frequência respiratória 18, diurese 40 mL na última hora. Está lúcida, sem novos sintomas. Vai com o relatório escrito."

Não diga: Passar 'gestante hipertensa grave' sem horários e sem doses. O hospital de destino precisa saber a hora exata da última dose para não repetir a anterior nem atrasar a próxima — e o relatório escrito é o que garante isso quando a passagem verbal se perde no corredor.

Na alta, dizendo o que ela leva para o resto da vida

"Você teve pré-eclâmpsia, e isso significa duas coisas para o futuro. A primeira é que nas próximas semanas a pressão ainda pode subir, principalmente entre o terceiro e o sexto dia depois do parto — por isso essa consulta em uma semana e essa lista de sinais para você guardar. A segunda é mais longa: quem teve pré-eclâmpsia tem mais chance de ter pressão alta, problema de coração e de rim daqui a alguns anos. Isso não é sentença, é motivo para você fazer acompanhamento e cuidar do que dá para cuidar. Amamentar, inclusive, ajuda."

Não diga: Dar alta dizendo apenas 'sua pressão normalizou'. E não transforme a informação de risco futuro em susto sem plano: ela precisa sair com consulta marcada e com o que fazer, não só com o aviso.

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Onde bons médicos discordam

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.

Qual esquema de sulfato de magnésio usar — e se a dose de ataque sozinha já basta

Zuspan e Pritchard têm eficácia igual; a escolha é do serviço

Os dois esquemas mais difundidos têm igual eficácia comprovada, e devem ser empregados de acordo com a experiência de cada serviço. O que decide na prática é logística: o Zuspan exige bomba de infusão contínua para a manutenção de 1 g por hora, e o Pritchard não. Por isso, onde não há bomba — e sempre que a gestante vai ser transportada em ambulância sem bomba —, o esquema preferencial é o de Pritchard, cujo componente intramuscular de 10 g no ataque garante quatro horas de concentração terapêutica.

RBEHG, Protocolo Pré-eclâmpsia 2025, quadro 11 e seção de aspectos relacionados ao uso do MgSO4; Manual de Gestação de Alto Risco (MS, 2022), quadro 7

Nenhum esquema é superior, e a dose de ataque isolada provavelmente já protege

Revisão sistemática recente não encontrou diferença de eficácia entre os diversos esquemas conhecidos de infusão de sulfato, e apontou que a dose inicial isolada, nas pacientes com indicação, tem efeito protetor provavelmente semelhante ao do esquema completo de ataque mais manutenção. A leitura prática que os autores brasileiros extraem daí é operacional: como o ataque isolado já protege, não há justificativa para adiar a primeira dose enquanto se organiza a manutenção — nem para deixar de dar a droga em uma unidade que não tem como manter a infusão.

Revisão Cochrane de 2023 sobre esquemas alternativos de sulfato de magnésio, citada e adotada em Braga A et al., Femina 2025;53(8):1004-12

Como decidir

Explicite os critérios que justificam magnésio e trate a emergência enquanto investiga. A prescrição exige checagem de concentração, função renal e vigilância respiratória, reflexos e diurese; risco de toxicidade impede uso indiscriminado.

Em quanto tempo infundir a dose de ataque de 4 g

5 a 10 minutos

O quadro de uso do sulfato do manual federal orienta diluir 8 mL de sulfato em 12 mL de água destilada e aplicar por via intravenosa em 5 a 10 minutos, tanto no esquema intravenoso exclusivo quanto no componente venoso do esquema intramuscular. É o tempo mais curto entre os documentos brasileiros e privilegia atingir depressa o nível terapêutico em quem já está convulsionando ou iminente.

Manual de Gestação de Alto Risco (MS, 2022), quadro 7

15 a 20 minutos dentro do hospital; 30 minutos fora dele

O protocolo da rede nacional de estudos orienta infundir os mesmos 20 mL lentamente, em 15 a 20 minutos, ou diluir os 8 mL em 92 mL de soro fisiológico e infundir em bomba a 300 mL/h, o que consome os 100 mL em cerca de 20 minutos. Para o atendimento fora da maternidade, o documento da iniciativa nacional de resposta rápida padroniza 30 minutos. O argumento é de segurança de execução: infusão mais lenta reduz o risco de rubor intenso, náusea e hipotensão, e é mais fácil de controlar sem bomba.

RBEHG, Protocolo Pré-eclâmpsia 2025, quadro 11; Braga A et al., Femina 2025;53(8):1004-12, quadros 3 a 5 e 8

Como decidir

Os dois lados concordam no essencial — a dose de ataque, corretamente administrada, não causa intoxicação, porque o bloqueio neuromuscular vem do acúmulo na manutenção. O que muda é conforto e controle. Decida pelo cenário: com bomba de infusão e paciente monitorada, use os 15 a 20 minutos, que é o que o protocolo mais recente recomenda e o que este capítulo adota. Sem bomba, injetando com a seringa na mão, conte os minutos no relógio e fique na faixa mais lenta — 20 minutos —, porque a infusão manual acelera sem que se perceba. E fora da maternidade, use os 30 minutos padronizados, que é o tempo pensado para quem está preparando a remoção ao mesmo tempo.

Quais parâmetros suspendem o sulfato, e em quanto tempo se aplica o antídoto

Frequência respiratória de 16, creatinina de 1,2 e gluconato em 10 minutos

O protocolo da rede nacional fixa como parâmetros de manutenção reflexo patelar presente, frequência respiratória igual ou maior que 16 incursões por minuto e diurese igual ou maior que 25 mL/h; manda usar metade da dose de manutenção quando a creatinina está igual ou acima de 1,2 mg/dL; e prescreve o gluconato de cálcio a 10%, 1 g em 10 mL, por via intravenosa lenta em 10 minutos.

RBEHG, Protocolo Pré-eclâmpsia 2025, seção de vigilância da intoxicação e quadro 12; Braga A et al., Femina 2025;53(8), quadro 8

Frequência respiratória acima de 12, creatinina acima de 1,3 e gluconato em 3 minutos

O manual federal fixa a frequência respiratória em mais de 12 incursões por minuto, mantém reflexos presentes e diurese acima de 25 mL/h, manda aplicar metade da dose com creatinina acima de 1,3 mg/dL, e orienta o gluconato de cálcio a 10%, 1 g em 10 mL, por via intravenosa lenta em 3 minutos diante de depressão respiratória.

Manual de Gestação de Alto Risco (MS, 2022), quadro 8

Como decidir

Adote a régua mais conservadora para suspender e a mais lenta para o antídoto — é o que este capítulo faz. Suspender a infusão com frequência respiratória de 14 numa paciente que ainda tem reflexo patelar custa uma dose e é reversível; deixar correr até 12 numa paciente com creatinina de 1,25 e diurese caindo é a via para a depressão respiratória. No sentido inverso, empurrar 1 g de cálcio em 3 minutos numa paciente instável tem risco cardíaco próprio, e o ganho de sete minutos não muda desfecho em quem já está sendo ventilada. Na dúvida entre dois números oficiais, escolha o que erra para o lado reversível — e anote qual você usou, para que a equipe seguinte leia o mesmo parâmetro.

Quando interromper a gestação na hipertensão gestacional bem controlada

Oferecer a partir de 37 semanas

Reconhecendo que não há consenso na literatura, o protocolo da rede nacional recomenda que a interrupção da gestação seja oferecida a partir da 37ª semana, após explicação clara sobre riscos e benefícios da manutenção. O argumento é o risco materno de uma condição que evolui para pré-eclâmpsia em cerca de um quarto dos casos, muitas vezes sem aviso.

RBEHG, Protocolo Pré-eclâmpsia 2025, seção de hipertensão gestacional

Postergar até 39 semanas e 6 dias

O manual federal orienta, para a hipertensão gestacional, manter os valores de pressão entre 110 e 140 por 85 mmHg com hipotensores se necessário, monitorar o desenvolvimento de pré-eclâmpsia e postergar a resolução da gestação até 39 semanas e 6 dias — desde que a pressão esteja controlada, não haja comprometimento do bem-estar fetal e não haja evolução para pré-eclâmpsia. O argumento é evitar prematuridade tardia iatrogênica em quem não tem doença de órgão-alvo.

Manual de Gestação de Alto Risco (MS, 2022), seção 11.3

Como decidir

Repare que a divergência é apenas sobre hipertensão gestacional sem qualquer sinal de pré-eclâmpsia: para a pré-eclâmpsia confirmada, os dois documentos convergem em 37 semanas. Decida por três coisas concretas. Primeiro, o quanto essa gestante consegue ser vigiada: quem mora longe, não tem como aferir a pressão e não consegue retornar semanalmente perde o benefício de esperar, porque a vigilância é o que torna a espera segura. Segundo, o que já apareceu: qualquer sintoma, qualquer alteração laboratorial ou qualquer sinal de disfunção placentária muda o diagnóstico e encerra a discussão em 37 semanas. Terceiro, a preferência dela, informada de verdade — a conversa é sobre trocar duas ou três semanas de maturidade fetal por menos tempo de exposição materna a uma doença que pode piorar sem avisar.

Nifedipino e hidralazina são equivalentes na crise, ou o nifedipino vem primeiro

As duas são de primeira linha; escolha pelo cenário

O protocolo da rede nacional e o manual federal apresentam nifedipino por via oral e hidralazina por via intravenosa como medicamentos de primeira linha para o tratamento da crise hipertensiva em gestantes, sem hierarquia entre eles, deixando a escolha para o cenário clínico e a disponibilidade. A ressalva prática é de via: paciente sem nível de consciência preservado precisa de droga venosa, para não arriscar broncoaspiração.

RBEHG, Protocolo Pré-eclâmpsia 2025, seção de crise hipertensiva; Manual de Gestação de Alto Risco (MS, 2022), quadro 2; Braga A et al., Femina 2025;53(8), quadro 3

O nifedipino oral é a primeira escolha e a hidralazina é a segunda

O protocolo de hipertensão arterial crônica e gravidez afirma que o nifedipino por via oral é a droga de primeira escolha para tratamento da crise hipertensiva na gestação e que a hidralazina de uso endovenoso é uma alternativa como segunda opção, reservando o nitroprussiato aos casos refratários às duas. O fluxograma do mesmo documento, contudo, admite iniciar por qualquer uma delas e trocar para a outra quando a primeira atinge o teto.

Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia, Hipertensão arterial crônica e gravidez, Femina 2025;53(2):117-23 (Protocolo Febrasgo de Obstetrícia, nº 19)

Como decidir

Decida pela via e pelo tempo, não pela hierarquia. Se a paciente está lúcida, aceita via oral e não está vomitando, comece pelo nifedipino: é comprimido, não precisa de acesso pronto nem de diluição, e consta da relação nacional de medicamentos. Se ela convulsionou, está sonolenta, está vomitando ou já tem acesso instalado, comece pela hidralazina, que age em 20 minutos e não depende de deglutição. E lembre-se de que a divergência tem pouca consequência prática porque o algoritmo é o mesmo dos dois lados: atingido o teto de 30 mg de uma delas sem resposta, passa-se para a outra antes de pensar em nitroprussiato.

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O raciocínio, em voz alta

Vanuza, 19 anos, primeira gestação, 34 semanas e 2 dias, chega à UPA às 14h40 queixando-se de inchaço nos pés e cefaleia há dois dias. Veio andando do ponto de ônibus. A classificação de risco mediu 150 por 96 assim que ela sentou, anotou "refere ansiedade" e classificou como verde. Você a atende às 15h. Braço de 38 cm de circunferência, manguito convencional. A unidade não tem maternidade, não tem obstetra e não tem laboratório de plantão.

  1. o que penso agora

    Hipertensão nova numa gestante de 34 semanas é pré-eclâmpsia até prova em contrário, e 150 por 96 já está acima do limiar de 140 por 90. Mas esse número não serve para decidir nada: foi medido logo depois de ela caminhar, com o braço solto no colo. A primeira coisa a fazer não é prescrever — é refazer a medida do jeito certo, porque tudo o que vem depois depende dela.

  2. o que faço

    Sento Vanuza na cadeira com encosto, apoio os pés no chão, descruzo as pernas, apoio o braço na mesa na altura do coração, peço silêncio e espero cinco minutos. Meço nos dois braços: 172 por 116 à direita, 168 por 114 à esquerda. Meço a circunferência braquial: 38 cm. Como só existe o manguito convencional, aplico a correção publicada para essa circunferência — menos 8 na sistólica e menos 6 na diastólica.

  3. como a resposta muda o que penso

    164 por 110. Corrigi para baixo e continua sendo crise hipertensiva, que é sistólica igual ou maior que 160 ou diastólica igual ou maior que 110. A correção não me deu uma saída; me deu certeza. E note o que acabou de acontecer com o número da triagem: 150 por 96 e 164 por 110 são a mesma paciente com pouco mais de vinte minutos de diferença e duas técnicas diferentes.

  4. o que peço

    Não peço exame nenhum ainda. Peço as respostas dela, item por item: a dor de cabeça melhora com o remédio ou volta? Volta em duas horas. Está enxergando bem? Vê moscas pretas desde ontem. Dói na boca do estômago ou embaixo das costelas do lado direito? Dói, achou que era azia. Falta ar? Não. O bebê mexe como sempre? Mexe.

  5. o que penso agora

    Três respostas positivas: cefaleia persistente, escotomas e epigastralgia. Isso não é mais só crise hipertensiva — é iminência de eclâmpsia. Duas indicações independentes de sulfato de magnésio se somaram na mesma paciente, e nenhuma delas precisa de laboratório para valer. A pergunta não é mais 'será que é grave'; é 'quanto tempo eu vou levar para começar'.

  6. o que faço

    Nomeio o quadro em voz alta para a equipe — gestante de 34 semanas com pré-eclâmpsia e iminência de eclâmpsia —, peço a caixa de emergência hipertensiva e mando acionar o transporte na mesma frase. Coloco Vanuza em decúbito lateral esquerdo, dois acessos venosos calibrosos com soro fisiológico. Marco a hora: 15h08.

  7. o que inicio em paralelo, e por quê

    Inicio o sulfato de magnésio enquanto outro profissional prepara e administra o anti-hipertensivo de ação rápida; uma intervenção não espera a outra. A ambulância que vem não tem bomba de infusão, e a UPA também não tem — então o esquema é o de Pritchard. Confiro a ampola em voz alta: 10 mL a 50%, 5 g. Aspiro 8 mL (4 g), diluo em 12 mL de soro fisiológico, e infundo os 20 mL lentamente, contando 20 minutos no relógio, das 15h10 às 15h30. Em seguida, 10 g por via intramuscular profunda: 20 mL da ampola a 50%, aplicados como 2,5 g (5 mL) em cada um de quatro grupamentos musculares, para reduzir o risco de necrose.

  8. o que penso enquanto infunde

    Às 15h10, em paralelo ao ataque do magnésio, administro hidralazina 5 mg intravenosa: diluo a ampola de 1 mL a 20 mg/mL em 19 mL de água para injetáveis, obtendo 1 mg/mL, e aplico 5 mL conforme a técnica do serviço. A pressão grave persistente já foi reconhecida e não espera o efeito anticonvulsivante. Programo aferição em 20 minutos, com vigilância clínica contínua. Registro dose, via, horário e resposta; o alvo agudo é PAS 140–150 e PAD 90–100 mmHg, evitando queda excessiva.

  9. o que a reavaliação mostra

    Às 15h30, na reavaliação após a primeira dose de hidralazina, a pressão está 152 por 98. Saiu da faixa grave; não repito automaticamente a dose. Mantenho monitorização e reavalio a necessidade de nova dose conforme a trajetória pressórica e os sintomas. O ataque intravenoso do magnésio termina às 15h30 e o componente intramuscular é registrado às 15h35; a próxima dose intramuscular, se os parâmetros de segurança permitirem, será às 19h35.

  10. o que vigio até a ambulância chegar

    Reflexo patelar, frequência respiratória e diurese. Às 16h05 a pressão está 152 por 98, o reflexo está presente, a frequência respiratória é 18 e ela urinou 40 mL na última hora. Ela reclama de calor no rosto — avisado antes, esperado. Escrevo o relatório enquanto espero: horário e dose de cada medicação, pressões de entrada e de controle, sintomas, e a hora da próxima dose intramuscular de 5 g, às 19h35.

  11. o que não é decisão minha

    Se Vanuza vai parir hoje, com que idade gestacional e por qual via. Isso é do obstetra do hospital de destino, compartilhado com ela, com o neonatologista e com o anestesista, e depende do laboratório que eu não tenho aqui e do que aquele hospital consegue oferecer a um recém-nascido de 34 semanas. O que é meu: ela sair daqui sulfatada, com a pressão fora da faixa de crise, com os horários no papel, e com o cronômetro tendo começado às 15h08 — e não às 17h, quando a ambulância chegasse.

  12. o que aconteceu

    Vanuza chegou ao hospital de referência às 17h20, lúcida, com 148 por 94 e sem novos sintomas. O laboratório mostrou plaquetas de 96.000/mm³, TGO de 88 UI/L e creatinina de 1,1 mg/dL — deterioração laboratorial que, somada à iminência, indicou resolver a gestação. Recebeu betametasona 12 mg por via intramuscular na chegada, manteve o sulfato, e o parto ocorreu no dia seguinte. O sulfato foi mantido por 24 horas depois do nascimento. A anotação da triagem das 14h40 continua no prontuário, e é o melhor resumo do que este capítulo trata: a pressão já exigia avaliação, mas atribuí-la à ansiedade atrasou o reconhecimento da gravidade.

  13. Variação do caso — resposta e reavaliação

    Variação do caso de Vanuza: após a primeira dose, a pressão sai da faixa grave, mas a cefaleia persiste. Não repetir automaticamente o anti-hipertensivo nem declarar resolução: reavaliar o sintoma, exame neurológico, efeitos dos medicamentos e exames disponíveis, mantendo vigilância e transferência. A melhora pressórica é uma parte da resposta.

  14. Variação do caso — quando mudar o plano

    Se surgirem convulsão, dispneia ou queda de consciência, o plano muda imediatamente: acionar suporte, proteger via aérea e circulação e tratar a complicação enquanto se organiza cuidado obstétrico definitivo. Na passagem de caso, dizer o que piorou, quando piorou e o que já foi administrado; não resumir como pressão alta controlada.

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Faça você

Marlene, 33 anos, terceira gestação, teve parto vaginal há 4 dias em maternidade de referência, com diagnóstico de pré-eclâmpsia sem sinais de deterioração feito às 38 semanas. Recebeu alta no segundo dia, com metildopa 500 mg de 8 em 8 horas e orientação de retorno em uma semana. Volta hoje ao pronto-socorro trazida pela irmã, queixando-se de dor de cabeça desde ontem à noite que não melhorou com paracetamol, e de "vista embaçada". Está lúcida, orientada, amamentando. A pressão, medida por você com a técnica completa e o manguito adequado, é 176 por 114, confirmada em 15 minutos: 172 por 112. Reflexos vivos, sem clônus. Sem dor epigástrica. O hospital tem maternidade, laboratório e bomba de infusão.

  1. o que já sei

    Puérpera de 4 dias com pré-eclâmpsia diagnosticada na gestação, em crise hipertensiva confirmada, com cefaleia persistente e alteração visual. O quarto dia é exatamente a janela em que a pressão volta a subir, pela redistribuição do líquido do interstício de volta ao intravascular, e a primeira semana concentra o risco de eclâmpsia puerperal. A doença não acabou com o parto.

  2. o que isso me obriga a considerar

    Crise hipertensiva mais sintomas neurológicos configura iminência de eclâmpsia, e as indicações do sulfato de magnésio valem integralmente no puerpério. Também preciso do laboratório: síndrome HELLP pode se instalar ou piorar depois do parto, e o pico de piora clínica costuma ser nas primeiras 24 a 72 horas. E preciso conferir a técnica da medida domiciliar e a adesão à metildopa, porque o motivo da recaída muda o seguimento.

  3. onde eu ainda não decidi

    Qual esquema de sulfato, em que diluição e em quanto tempo; como iniciar o anti-hipertensivo em paralelo e qual deles escolher; qual o alvo pressórico; que exames colher e o que vigiar nas próximas horas; e o que ajustar na alta para que ela não volte no sétimo dia.

Ver como fecharíamos

Há duas indicações simultâneas: magnésio pela iminência de eclâmpsia e anti-hipertensivo de ação rápida pela pressão grave persistente de 176 por 114. Inicie ambos em paralelo, sem esperar o ataque de magnésio terminar. Como o hospital tem bomba de infusão e ela vai ficar internada, o esquema é o de Zuspan. Ataque: aspire 8 mL da ampola a 50% (10 mL = 5 g), o que corresponde a 4 g, dilua em 12 mL de água destilada ou soro fisiológico e infunda os 20 mL lentamente em 15 a 20 minutos. Manutenção: 1 ampola a 50% (10 mL, 5 g) em 490 mL de soro fisiológico a 0,9%, obtendo 500 mL a 1 g por 100 mL, infundidos a 100 mL/h — cada bolsa dura 5 horas. Mantenha por 24 horas. Desde o atendimento inicial, confirmada prontamente a pressão grave persistente (PAS ≥160 OU PAD ≥110 mmHg), prescreva hidralazina 5 mg por via intravenosa — a ampola de 1 mL a 20 mg/mL diluída em 19 mL de água destilada dá 1 mg/mL, e 5 mg são 5 mL —, repetindo a cada 20 minutos até o teto de 30 mg; ou nifedipino 10 mg por via oral a cada 20 a 30 minutos até 30 mg, já que ela está lúcida e aceita via oral. O alvo é sistólica de 140 a 150 e diastólica de 90 a 100 mmHg: não normalize. Atingido o teto de uma droga sem resposta, passe para a outra antes de pensar em nitroprussiato. Colha hemograma com plaquetas, creatinina, TGO, desidrogenase láctica e bilirrubinas — a pergunta é se há síndrome HELLP se instalando. Não repita proteinúria: o diagnóstico já está feito. Passe sonda vesical para medir diurese durante a manutenção, sem deixar isso atrasar a primeira dose, e cheque a cada 4 horas os três parâmetros de segurança: reflexo patelar presente, frequência respiratória igual ou maior que 16 e diurese igual ou maior que 25 mL/h. Confirme que há gluconato de cálcio a 10% na unidade — 1 g em 10 mL, por via intravenosa lenta — antes de precisar dele. Interne. Pressão a cada 4 horas, com alvo de manutenção abaixo de 140 por 90 mmHg. Ajuste o anti-hipertensivo oral: no puerpério os inibidores da enzima conversora de angiotensina estão liberados, e a metildopa pode ser trocada ou associada a outro fármaco; evite bloqueadores do receptor de angiotensina e clonidina durante a amamentação. Considere furosemida 20 mg por via oral ao dia por 3 a 5 dias, que nesta situação reduz a hipertensão persistente e a necessidade de hipotensores. Evite anti-inflamatórios não esteroides para a dor. Reforce a tromboprofilaxia conforme o protocolo do serviço. Antes da alta, três coisas que não são medicação. Confira como a pressão dela vem sendo medida em casa e corrija a técnica, com quem quer que faça a medida. Entregue por escrito os sinais de alarme — cefaleia que não passa, alteração visual, dor na boca do estômago, falta de ar — e diga para voltar sem esperar consulta. E marque o retorno para 2 a 3 dias, não para a semana que vem, com a explicação de que quem teve pré-eclâmpsia carrega risco cardiovascular e renal aumentado pelo resto da vida e vai precisar de acompanhamento além do puerpério.

Gabarito da questão de abertura
Comentário

A apresentação a 10% contém 100 mg de sulfato de magnésio por mililitro, ou seja, 1 g na ampola de 10 mL. Para 4 g são necessários 40 mL — quatro ampolas —, que se diluem em cerca de 100 mL de soro fisiológico a 0,9%. A alternativa de 8 mL é a armadilha que mais mata: 8 mL é o volume correto da apresentação a 50%, que contém 500 mg/mL e 5 g na ampola de 10 mL. Aspirar 8 mL de uma ampola a 10% acreditando que é 50% entrega 0,8 g, um quinto da dose, e deixa a paciente sem profilaxia sem que ninguém perceba até a convulsão. O erro inverso é igualmente grave: 40 mL da apresentação a 50% seriam 20 g de uma vez. Guarde as duas contas e diga a concentração em voz alta ao aspirar. Vale ainda uma consequência prática: o esquema de Pritchard, que exige 10 g por via intramuscular, só pode ser feito com a apresentação a 50% — a 10% exigiria 100 mL de volume intramuscular.

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Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
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Plano de revisão

Em 7 dias

Reconstrua de memória, sem consultar: os dois caminhos que fecham o diagnóstico de pré-eclâmpsia e por que a proteinúria deixou de ser obrigatória; os cinco sintomas de gravidade que se pergunta um a um; as cinco indicações do sulfato de magnésio; e a diluição do ataque de 4 g nas duas apresentações da ampola — quantos mililitros com a de 50% e quantos com a de 10%. Depois confira, e refaça só o que errou. Aplicação comentada: Uma gestante tem pressão grave persistente e proteinúria negativa. A fita permite aguardar? Não: confirme a medida prontamente quando pertinente e trate a emergência; ausência de proteinúria não exclui pré-eclâmpsia com disfunção orgânica.

Em 30 dias

Pegue a última gestante ou puérpera que você atendeu, em qualquer cenário, e responda por escrito: a pressão dela foi medida sentada, com as costas apoiadas, os pés no chão e o manguito do tamanho do braço? A circunferência braquial está anotada em algum lugar do prontuário? Alguém perguntou os cinco sintomas de gravidade, ou a evolução diz 'assintomática'? Em seguida, escreva de cabeça a prescrição completa dos primeiros 40 minutos de uma crise hipertensiva com iminência de eclâmpsia numa unidade sem bomba de infusão — sulfato e anti-hipertensivo, com volumes, tempos e teto — e confira contra a tabela do capítulo.

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Agora atenda

Gestante de 34 semanas chega a uma unidade de pronto-atendimento sem maternidade, queixando-se de inchaço e dor de cabeça há dois dias, com pressão registrada pela triagem como "levemente elevada". Conduza o atendimento: refaça a medida do jeito certo, colha o que falta, pergunte o que ela não vai contar sozinha, prescreva o que tem de ser prescrito antes de a ambulância chegar e diga em que momento você aciona a transferência.

Pré-eclâmpsia — Internato | OsceLabs