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Sífilis na gestação e sífilis congênita
O teste é rápido, a droga é barata e existe há oitenta anos — e o Brasil notificou 24.443 crianças com sífilis congênita em 2024. O que falha não é o conhecimento: é a execução, e cada etapa dela é do interno.
Brasil. Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para Atenção Integral às Pessoas com Infecções Sexualmente Transmissíveis (IST). Anexo da Portaria SCTIE/MS nº 12, de 19 de abril de 2021, com anexo alterado em 4 de julho de 2024. Brasília: Ministério da Saúde
Brasil. Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para Prevenção da Transmissão Vertical do HIV, Sífilis e Hepatites Virais. Anexo da Portaria SCTIE/MS nº 55, de 11 de novembro de 2020, com anexo alterado em 4 de julho de 2024. Brasília: Ministério da Saúde
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente. Departamento de HIV/Aids, Tuberculose, Hepatites Virais e Infecções Sexualmente Transmissíveis. Nota Técnica nº 14/2023-.DATHI/SVSA/MS: atualização da recomendação do intervalo entre doses de benzilpenicilina benzatina no tratamento de sífilis em gestantes. Brasília; 26 de junho de 2023
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente. Boletim Epidemiológico de Sífilis 2025. Número Especial, outubro de 2025. Brasília: Ministério da Saúde; 2025. ISSN 2358-9450
Brasil. Ministério da Saúde. Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS. Penicilina benzatina para prevenção da Sífilis Congênita durante a gravidez. Relatório de Recomendação nº 150. Brasília: Conitec; janeiro de 2015
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação e do Complexo Econômico-Industrial da Saúde. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais: Rename 2024. Brasília: Ministério da Saúde; 2024. ISBN 978-65-5993-710-3
Domingues CSB, Duarte G, Passos MRL, Sztajnbok DCN, Menezes MLB. Protocolo Brasileiro para Infecções Sexualmente Transmissíveis 2020: sífilis congênita e criança exposta à sífilis. Epidemiol Serv Saude. 2021;30(Esp.1):e2020597
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Departamento de Imunizações e Doenças Transmissíveis. Manual de vigilância epidemiológica de eventos adversos pós-vacinação. 4ª ed. atualizada. Brasília: Ministério da Saúde; 2021. ISBN 978-65-5993-045-6
Brasil. Ministério da Saúde. Portaria GM/MS nº 3.161, de 27 de dezembro de 2011, que dispõe sobre a administração da penicilina nas Unidades de Atenção Básica à Saúde no âmbito do Sistema Único de Saúde
Benzilpenicilina benzatina, suspensão injetável 1.200.000 U (300.000 U/mL). Bula profissional, atualizada conforme Bula Padrão aprovada pela Anvisa em 15 de abril de 2024. Medicamento genérico, Lei nº 9.787/1999. Registrado por Eurofarma Laboratórios S.A.
Resuscitation Council UK. Refractory anaphylaxis algorithm. 2021.
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Gestante de 28 anos tratada às 16 semanas com três doses de benzilpenicilina benzatina 2,4 milhões UI, com intervalos de sete dias, por sífilis latente de duração ignorada. O VDRL de base, colhido no dia da primeira dose, era 1:32. O monitoramento mensal mostrou: 1:16 no primeiro mês, 1:16 no segundo, 1:8 no terceiro e, agora, com 30 semanas, 1:32. Ela está assintomática. A parceria nunca compareceu para testagem. Qual é a interpretação e a conduta?
O paciente que você vai ver
É terça-feira de manhã numa unidade básica de saúde de bairro. Railane tem 24 anos, está na segunda gestação, com 30 semanas e 2 dias, e veio buscar o resultado dos exames que colheu na primeira consulta de pré-natal. A primeira consulta foi tarde: 26 semanas. Ela conta, sem que ninguém pergunte, que demorou porque no primeiro filho ninguém falou nada e deu tudo certo, e porque o teste de farmácia só deu positivo quando a barriga já aparecia.
O papel está na mão dela. Teste treponêmico reagente. VDRL reagente, título 1:32. Railane não sabe o que isso significa e ninguém explicou; ela pergunta se é o do açúcar. Não tem lesão nenhuma, não teve ferida, não teve mancha, não sente nada. Está bem.
A técnica de enfermagem olha o resultado e diz três frases que decidem tudo o que vem depois. A primeira: "o médico só vem quinta-feira". A segunda: "tem que esperar o confirmatório do laboratório". A terceira, dita com o cuidado de quem acha que está protegendo alguém: "e aqui a gente não aplica benzetacil, tem que ir na UPA, por causa do choque".
Cada uma dessas três frases está errada, e cada uma delas custa dias. A consulta médica de quinta é dois dias; a espera pelo segundo teste é uma a três semanas; a viagem até a unidade de urgência é uma manhã de ônibus que muita gente não faz. Somadas, são três semanas. Três semanas numa gestante de 30 semanas não são um atraso administrativo — são o que separa um recém-nascido que sai da maternidade com uma consulta marcada de um recém-nascido que fica dez dias internado com penicilina na veia.
Faça a conta com o calendário na mão, que é o que o interno precisa aprender a fazer. Railane está com 30 semanas e 2 dias, isto é, 212 dias de gestação. Não há registro de tratamento anterior, não há lesão e não se sabe quando ela se infectou: pela régua brasileira isso é sífilis latente de duração ignorada, que se trata com três doses de benzilpenicilina benzatina, uma por semana. O esquema completo leva de 14 a 18 dias. E o rótulo que a maternidade vai ler no cartão dela depende de um critério com data: para o tratamento ser considerado adequado, a primeira dose precisa ter sido aplicada até 30 dias antes do parto, e o esquema precisa estar concluído antes do nascimento.
Se a primeira dose for hoje, no dia 212, o critério dos 30 dias está garantido para qualquer parto a partir do dia 242 — isto é, de 34 semanas e 4 dias em diante. Se a primeira dose for daqui a três semanas, no dia 233, o critério só se sustenta se o parto acontecer depois do dia 263, ou seja, depois de 37 semanas e 4 dias. Um parto de 36 semanas, que acontece o tempo todo e que ninguém agenda, transforma o mesmo tratamento, com as mesmas três doses e a mesma droga, em tratamento não adequado — e transforma o filho de Railane em caso de sífilis congênita a ser notificado, investigado com punção lombar e radiografia de ossos longos, e tratado.
Há ainda o que não está no papel. Ninguém perguntou pelo parceiro, que trabalha e "não vem". Ninguém preencheu a ficha de notificação. Ninguém escreveu no cartão da gestante qual é o estágio clínico presumido, que é o que define quantas doses ela precisa. E ninguém colheu um VDRL no dia em que o tratamento começar, que é a linha de base contra a qual todo o seguimento vai ser lido.
O que vem a seguir é o que se faz com uma folha de resultado na mão, numa unidade básica, num dia em que o médico não está: qual é a primeira dose e onde ela é aplicada, por que ela não espera exame nenhum, quem pode aplicá-la, o que se faz com a parceria, o que se escreve no cartão para que a maternidade consiga ler, e como se acompanha o título de um teste que confunde quase todo mundo que o pede.
Quem adoece disso
A sífilis congênita é a doença mais fácil de prevenir do calendário de pré-natal, e é a que o Brasil menos consegue prevenir. Em 2024 o país diagnosticou e notificou 24.443 casos em menores de um ano — cerca de 67 crianças por dia —, com taxa de incidência de 9,6 casos por 1.000 nascidos vivos e 183 óbitos infantis atribuídos à doença. O padrão de referência internacional para dizer que a transmissão vertical foi eliminada é de 0,5 caso por 1.000 nascidos vivos. O país está dezenove vezes acima dele.
A curva tem duas leituras, e as duas importam. A primeira: em dez anos a taxa de detecção de sífilis em gestantes quadruplicou, de 8,9 para 35,4 casos por 1.000 nascidos vivos, e a de sífilis congênita quase dobrou, de 5,5 para 9,6 por 1.000. A segunda: desde o pico de 2022, quando a taxa foi de 10,4, houve queda em três anos seguidos, com 2.677 casos a menos no acumulado. A doença recuou um pouco depois de subir muito. Nenhuma dessas duas frases sozinha descreve o quadro, e usar só a primeira transforma um problema resolvível em fatalidade, enquanto usar só a segunda dá licença para não fazer nada.
O número que muda a forma de olhar para o próprio serviço é outro. Em 2024, para cada 100 gestantes notificadas com sífilis no Brasil, 27 tiveram filhos notificados com sífilis congênita. Esse indicador varia de 5,4% em Rondônia a 53,9% no Rio Grande do Norte e a 60,8% em Fortaleza. A bactéria é a mesma em todo o território, a droga é a mesma e o teste é o mesmo: o que varia dez vezes entre uma unidade da federação e outra é o que acontece entre o resultado reagente e a agulha.
E aqui está o dado que dá o eixo do capítulo. Em 2024, 82,8% das mães de crianças com sífilis congênita fizeram pré-natal, e em 58,1% dos casos o diagnóstico da sífilis materna foi feito durante esse pré-natal. Ou seja: na maioria dos casos o sistema encontrou a doença, a tempo, com a mulher dentro da unidade de saúde — e mesmo assim a criança nasceu infectada. O complemento desse número é brutal: 85,7% das mães de crianças com sífilis congênita tiveram tratamento inadequado ou não realizado. Não é uma epidemia de diagnóstico perdido. É uma epidemia de tratamento perdido depois do diagnóstico feito.
As duas falhas mais mensuráveis são a data e a parceria. Do lado da data, a Região Nordeste teve 40,8% das gestantes diagnosticadas apenas no terceiro trimestre, que é justamente a faixa em que a janela dos 30 dias antes do parto começa a se fechar sozinha. Do lado da parceria, apenas 34,6% dos parceiros sexuais de gestantes com sífilis foram tratados em 2024 — dois terços das gestantes tratadas continuam dormindo com uma fonte de reinfecção, e a reinfecção durante a gestação anula o tratamento que já foi feito.
Quem adoece disso tem endereço social. Em 2024, 66,6% das gestantes notificadas com sífilis se declararam pretas ou pardas, e entre as mães de crianças com sífilis congênita esse número sobe para 70,7%. Adolescentes de 10 a 19 anos foram 19,9% das gestantes notificadas e 18,6% das mães de crianças com sífilis congênita. Escolaridade baixa predomina em ambos os grupos. Isso não é um adendo social ao final do capítulo: é a informação que diz quem tem menos chance de conseguir voltar à unidade em sete dias, quem tem mais dificuldade de faltar ao trabalho para tomar a segunda dose, e de quem se cobra menos explicação quando o tratamento não é concluído.
Falta dizer o que a doença faz quando não é tratada, porque é isso que dá peso a cada dia de atraso. A transmissão vertical do Treponema pallidum ocorre em 70% a 100% das gestações quando a mãe está em fase recente, com lesões primárias ou secundárias, e cai para cerca de 30% na fase latente. Entre as gestações de mulheres com sífilis recente não tratada, cerca de 40% terminam em perda gestacional precoce, 11% em morte fetal a termo e 12% a 13% em prematuridade ou baixo peso; pelo menos 20% dos recém-nascidos vivos apresentam sinais sugestivos de sífilis congênita. Em 2024 o Brasil registrou 2.010 abortos e natimortos notificados como sífilis congênita — 8,3% de todos os casos. Esses não aparecem no berçário, e por isso somem da percepção de quem trabalha na unidade básica.
Por que acontece o que acontece
O Treponema pallidum é uma espiroqueta com membranas e uma camada de peptidoglicano na parede celular. A penicilina atua na síntese dessa parede; a explicação não é ausência de parede. Disseminação e resposta inflamatória ajudam a entender manifestações em diferentes órgãos e transmissão transplacentária. Estágio clínico e tempo de infecção orientam o esquema; ausência de sintomas não exclui infecção nem risco fetal.
Circular no sangue é o que permite a transmissão vertical. Não existe barreira placentária eficaz contra o treponema: ele atravessa por via hematogênica e infecta o concepto, e isso pode acontecer em qualquer idade gestacional e em qualquer estágio clínico da sífilis materna. A ideia, ainda repetida em enfermaria, de que só há transmissão depois do quarto mês de gestação não sustenta a conduta brasileira — o protocolo nacional afirma que a passagem transplacentária ocorre em qualquer fase da gravidez. A consequência prática é direta: não existe idade gestacional em que a gestante com sífilis possa esperar.
Multiplicar-se devagar é o que explica o tratamento. O tempo de duplicação do treponema é da ordem de trinta horas, e a penicilina só mata bactéria que está construindo parede — ela inibe a síntese do peptidoglicano. Uma bactéria de multiplicação lenta exige, portanto, concentração sustentada de antibiótico por dias, não um pico e uma queda. É por isso que a droga da sífilis não é uma penicilina de meia-vida curta em muitas tomadas, e sim uma formulação de depósito: a benzilpenicilina benzatina é praticamente insolúvel, forma um reservatório no músculo e libera penicilina lentamente por cerca de uma semana. Todo o desenho do esquema — dose única na sífilis recente, três doses semanais na tardia — é uma consequência dessa farmacologia, e não uma convenção.
Daí sai a regra que mais confunde e mais decide: o intervalo entre as doses. Se o reservatório muscular se esgota antes da dose seguinte, a concentração cai abaixo do limiar treponemicida e a bactéria retoma a multiplicação; o que era um tratamento contínuo de três semanas vira três tratamentos incompletos. É por essa razão que um atraso grande entre as doses obriga a reiniciar o esquema, e não apenas a completá-lo. A tolerância exata a esse atraso foi ampliada de sete para até nove dias por nota técnica federal de 2023, com base em evidência internacional — e ampliada, é bom dizer, também porque a regra rígida anterior estava fazendo unidades reiniciarem esquemas inteiros por causa de um feriado.
Falta explicar por que o feto melhora quando se trata a mãe. A penicilina atravessa a placenta e atinge o compartimento fetal em concentrações treponemicidas; tratar a gestante é tratar dois pacientes com a mesma injeção. Nenhum outro antibiótico disponível tem essa eficácia documentada para o concepto: a doxiciclina, alternativa aceita fora da gestação, é contraindicada na gravidez, e a ceftriaxona e os macrolídeos não têm evidência que sustente a prevenção da sífilis congênita. É por isso que a norma brasileira faz uma afirmação que parece administrativa e é clínica: qualquer tratamento da gestante que não seja com benzilpenicilina benzatina é considerado tratamento não adequado, e o recém-nascido será notificado, investigado e tratado como caso de sífilis congênita.
Por fim, o mecanismo que explica a maior fonte de erro na maternidade: o anticorpo da mãe atravessa a placenta e o do bebê não é distinguível dele. Os anticorpos da classe IgG — que são os que os testes de sífilis medem — passam livremente pela placenta no terceiro trimestre. Um recém-nascido de mãe com sífilis, infectado ou não, nasce com anticorpos maternos no sangue e com sorologia reagente. Toda a lógica de interpretação da sorologia neonatal existe para contornar esse fato: comparar o título do bebê com o da mãe no mesmo momento e com o mesmo método, e acompanhar a queda ao longo dos meses. Anticorpo emprestado desaparece; anticorpo próprio, não.

Por que o estágio da mãe muda o risco do bebê
A quantidade de treponemas circulando no sangue materno não é constante ao longo da doença. Ela é máxima nas fases recentes — sífilis primária, secundária e latente recente, isto é, o primeiro ano de infecção — e diminui com o tempo, sem nunca desaparecer enquanto não houver tratamento. Como a transmissão vertical é hematogênica, ela acompanha essa curva: fica entre 70% e 100% quando a mãe tem lesões primárias ou secundárias, e cai para cerca de 30% na latência recente ou tardia.
Três consequências práticas saem daí. A primeira: a gestante com uma úlcera genital ou com um exantema palmoplantar não é um caso mais interessante, é um caso mais urgente — a chance de o feto já estar infectado é quase certa. A segunda: a gestante assintomática com título baixo e doença antiga não está segura; 30% ainda é uma em cada três gestações. A terceira, que é a que aparece na prova de realidade do serviço, é que o estágio clínico define quantas doses ela vai precisar, e é a informação que mais falta no cartão de pré-natal quando a mulher chega à maternidade.
Além do estágio, pesa o tempo de exposição do feto. Uma infecção materna adquirida no primeiro trimestre e não tratada expõe o concepto durante toda a gestação; uma infecção adquirida no oitavo mês expõe por semanas. É por isso que a testagem se repete: a gestante que testou não reagente em março pode ter se infectado em junho, e o exame de março não diz nada sobre isso.
Por que a sífilis congênita machuca vários órgãos ao mesmo tempo
Uma vez na circulação fetal, o treponema se dissemina por praticamente todos os órgãos e sistemas. A lesão não é causada por toxina, e sim pela resposta inflamatória do hospedeiro em torno das espiroquetas, com endarterite obliterante nos pequenos vasos e infiltrado inflamatório perivascular. Isso explica por que o quadro é sempre multissistêmico e por que os achados são inespecíficos — cada órgão manifesta a mesma lesão vascular do seu jeito.
No fígado, o infiltrado produz hepatomegalia, que ocorre em praticamente todos os casos sintomáticos, com colestase, icterícia e elevação de transaminases. No baço, esplenomegalia, que quase nunca aparece isolada. No osso, a inflamação do periósteo e da metáfise gera periostite e osteocondrite — que doem, e a dor faz o bebê parar de mexer o braço, o que se chamou de pseudoparalisia de Parrot. Na pele e nas mucosas, o exantema maculopapular de predomínio palmoplantar, o pênfigo sifilítico e a rinite serossanguinolenta, todos ricos em espiroquetas e, por isso, infectantes ao toque. No sangue, anemia hemolítica com Coombs não reagente e plaquetopenia. Na placenta, um órgão desproporcionalmente grande, grosso e pálido, e às vezes uma funisite necrotizante, que é rara e é o único achado patognomônico da lista.
No sistema nervoso central, a infecção ocorre em cerca de 60% das crianças com sífilis congênita, com ou sem sintomas. É essa frequência que justifica a punção lombar fazer parte da investigação, e é o comprometimento do sistema nervoso que decide qual penicilina será usada e se a criança fica internada — porque a benzilpenicilina procaína atinge concentrações liquóricas menores que a potássica.
As manifestações tardias, que surgem depois dos dois anos, têm outro mecanismo: são cicatriz de inflamação, não infecção ativa. Fronte olímpica, nariz em sela, palato em ogiva, dentes de Hutchinson, molares em amora, tíbia em sabre, ceratite intersticial, surdez neurossensorial e articulações de Clutton aparecem em cerca de 40% das crianças infectadas e não tratadas nos primeiros meses. Algumas dessas manifestações são preveníveis pelo tratamento materno na gestação ou pelo tratamento da criança nos três primeiros meses de vida; outras — a ceratite intersticial, a surdez e as articulações de Clutton — podem surgir e progredir apesar da terapia apropriada. É a razão de o seguimento oftalmológico, audiológico e neurológico ir até os dois anos mesmo em criança tratada.
A reação de Jarisch-Herxheimer, e por que ela não é alergia
Nas 24 horas seguintes à primeira dose de penicilina, sobretudo nas fases primária e secundária, pode ocorrer um quadro de mal-estar, febre, cefaleia, artralgia e exacerbação das lesões cutâneas, que regride sozinho em 12 a 24 horas. É a reação de Jarisch-Herxheimer, e ela é consequência da destruição maciça de treponemas: o material liberado pela lise desencadeia uma resposta inflamatória sistêmica. Ela é sinal de que a droga funcionou, não de que a droga foi rejeitada.
A distinção com alergia é a informação mais útil que se pode dar antes de aplicar. A reação alérgica à benzilpenicilina benzatina é muito rara e se apresenta tipicamente como urticária e exantema pruriginoso, geralmente com início em minutos; a reação de Jarisch-Herxheimer é febre com piora das lesões que já existiam, em geral horas depois, e não recomenda descontinuar o tratamento — controla-se com analgésico simples. Confundir as duas é o mecanismo pelo qual gestantes ganham um rótulo de alérgica à penicilina que as acompanha pelo resto da vida e pelas gestações seguintes.
Na gestante há um detalhe que precisa ser dito antes e não depois: a reação pode desencadear contrações, pela liberação de prostaglandinas, e há risco de trabalho de parto prematuro. Isso não é motivo para não tratar — o risco de abortamento e de morte fetal na gestante não tratada é maior que o risco da reação —, mas é motivo para avisar a gestante, para orientá-la a procurar o serviço se tiver contrações, e para não aplicar a primeira dose e mandá-la embora sem essa conversa.
Como se apresenta de verdade
O objetivo é transformar um teste reagente em tratamento realizado e documentado. Você deve distinguir estágio clínico, esquema adequado e possível reinfecção, explicar por que a parceria importa e entregar à maternidade um registro que permita decidir o cuidado do recém-nascido. Ausência de lesão ou de sintomas não reduz a urgência de tratar a gestante elegível.
A definição de caso brasileira acompanha esse fato e é deliberadamente larga. É caso de sífilis em gestante a mulher assintomática que, durante o pré-natal, o parto ou o puerpério, apresente pelo menos um teste reagente — treponêmico ou não treponêmico, com qualquer titulação — e que não tenha registro de tratamento prévio; a mulher sintomática com pelo menos um teste reagente, com qualquer titulação; e a mulher que apresente teste não treponêmico reagente com qualquer titulação e teste treponêmico reagente, independentemente de sintomas e sem registro de tratamento prévio. Repare no que aparece três vezes: qualquer titulação. Um VDRL 1:1 numa gestante sem tratamento documentado é caso de sífilis em gestante, e é notificação compulsória.
A régua clínica se organiza pelo tempo de evolução, e só existem duas categorias que mudam a prescrição. Sífilis recente é a que tem até um ano de evolução e reúne as formas primária, secundária e latente recente; sífilis tardia é a que tem mais de um ano de evolução ou duração ignorada, e reúne a latente tardia e a terciária. Recente se trata com dose única; tardia, com três doses semanais. Essa é a única decisão de estadiamento que o interno precisa tomar bem, e é a que mais se erra.
Vale dizer com todas as letras qual é o erro: na dúvida sobre o tempo de evolução, o estágio é tardio. Duração ignorada é sífilis tardia por definição, e sífilis tardia leva três doses. Chamar de primária uma sífilis de tempo desconhecido reduz o esquema a uma dose, e um esquema reduzido para a fase clínica é um dos fatores associados a falha terapêutica materna. O tamanho do problema é conhecido: em 2024, cerca de 19.595 gestantes notificadas — 21,8% do total — foram provavelmente classificadas de forma incorreta como sífilis primária.
Percurso clínico: Do diagnóstico materno à informação neonatal
Organize duas linhas de cuidado. Na gestante: testes, estágio, esquema adequado, registro das doses e seguimento quantitativo. No nascimento: documentação materna, exame do recém-nascido e avaliação neonatal própria. Tratar a parceria e prevenir reinfecção complementam o tratamento materno, sem substituir nenhuma dose.
Quando há o que ver: as formas clínicas na gestante
Sífilis primária. Depois de dez a noventa dias de incubação, com média de três semanas, surge o cancro duro: úlcera única, indolor, de bordas endurecidas e fundo limpo, que costuma vir com adenopatia regional. Nas mulheres, ele com frequência aparece na parede vaginal, no colo ou na região perianal — onde ela não vê e não sente —, e desaparece sozinho em algumas semanas, tratado ou não. Uma gestante pode ter tido cancro e não saber; o desaparecimento espontâneo é o que faz a doença parecer curada e o que a leva à fase seguinte.
Sífilis secundária. Em média de seis semanas a seis meses depois, com a disseminação hematogênica já estabelecida, aparecem as manifestações que se veem sem instrumento: exantema maculopapular não pruriginoso com acometimento característico das regiões palmar e plantar, roséola, condiloma plano em áreas úmidas, placas mucosas, madarose, alopecia em clareira, e sintomas gerais como febre baixa, mal-estar e linfadenopatia generalizada. É a fase de maior treponemia e de maior transmissibilidade, sexual e vertical. Também regride sozinha.
Sífilis latente. É o período sem sinal nem sintoma, definido apenas pela sorologia. Latente recente é a de até um ano de evolução; latente tardia, a de mais de um ano ou de duração desconhecida. É a apresentação da maioria das gestantes diagnosticadas no pré-natal, e é onde mora a decisão de três doses.
Sífilis terciária. Ocorre em 15% a 25% das infecções não tratadas, depois de anos de latência, com gomas, acometimento cardiovascular e neurológico. É rara na gestante jovem e não muda o esquema — trata-se como tardia. O que muda a conduta, sim, é a suspeita de neurossífilis, que pode ocorrer em qualquer estágio: sintoma neurológico ou oftalmológico numa gestante com sífilis obriga a punção lombar e, se confirmada, a esquema com benzilpenicilina potássica intravenosa por 14 dias, em internação — não a benzatina intramuscular.
O recém-nascido: a maioria não tem nada para se ver
Entre 60% e 90% dos recém-nascidos com sífilis congênita são assintomáticos ao nascimento. Essa é a frase que sustenta toda a estrutura de triagem na maternidade: se fosse possível reconhecer a doença olhando, o cartão de pré-natal e o teste sorológico pareado não precisariam existir. Um exame físico normal em recém-nascido de mãe com sífilis não exclui sífilis congênita — exclui apenas a categoria de sintomático.
Quando há sinais, os mais frequentes ao nascimento são hepatomegalia, esplenomegalia, icterícia, rinite serossanguinolenta, exantema maculopapular com predomínio palmoplantar, pênfigo sifilítico, linfadenopatia generalizada e alterações esqueléticas. Prematuridade e baixo peso são complicações perinatais frequentes, e podem ser a única pista. Nenhum desses achados é específico: todos aparecem em outras infecções congênitas, em sepse neonatal, em hepatite neonatal e na hidropisia de qualquer causa — o diagnóstico diferencial com as demais infecções congênitas tem capítulo próprio, e a sífilis é apenas a primeira letra dele.
O tempo importa. Dois terços das crianças que vão manifestar sinais o fazem entre três e oito semanas de vida, e é raro o aparecimento depois de três a quatro meses. Isso significa que a criança que sai da maternidade sem nada pode manifestar a doença em casa, na janela em que ninguém está olhando — e é a razão de o seguimento na atenção primária, com consulta na primeira semana e testes não treponêmicos em 1, 3, 6, 12 e 18 meses, não ser uma formalidade.
Há ainda os casos que nunca chegam ao berçário. Aborto, natimortalidade e óbito neonatal são desfechos da mesma doença, e em 2024 responderam por 2.010 registros de aborto e natimorto notificados como sífilis congênita. Uma gestante com perda gestacional ou natimorto deve ser testada para sífilis na mesma internação — é um dos momentos de testagem previstos —, e a placenta e o cordão devem ser encaminhados para análise anatomopatológica.

O que muda em quem não é a gestante típica
Na gestante sem pré-natal, que chega no parto. É a situação de maior densidade de decisão do capítulo. A testagem na admissão para o parto é obrigatória e independe de exames anteriores; um teste rápido reagente na sala de admissão indica tratamento imediato da mãe, notificação, coleta de teste não treponêmico pareado dela e do recém-nascido, e avaliação completa da criança. Aqui não existe tratamento adequado possível: qualquer esquema iniciado depois de 30 dias antes do parto já nasce classificado como não adequado, e o recém-nascido será caso de sífilis congênita. Tratar a mãe continua sendo obrigatório — pela saúde dela, pela interrupção da cadeia e pela redução da carga treponêmica —, mas o rótulo do bebê já está definido, e negar isso à equipe do berçário só atrasa a investigação dele.
Na gestante com tratamento anterior documentado. É preciso separar duas coisas que se parecem. Cicatriz sorológica é o teste não treponêmico que permanece reagente, em títulos geralmente baixos, depois de um tratamento adequado documentado e com queda prévia de pelo menos duas diluições — não é doença ativa, não se notifica e não se retrata. Reinfecção ou reativação é o aumento de duas diluições ou mais, ou a persistência de título sem a queda esperada, ou o reaparecimento de sinais — e obriga a retratar. A diferença entre as duas mora inteiramente na documentação: título antes do tratamento, título depois, datas. Sem esse registro, a gestante com teste reagente é tratada.
Na gestante vivendo com HIV. Os critérios diagnósticos e o tratamento são os mesmos. O que muda é a vigilância: as complicações oculares e neurológicas são mais frequentes, todas as pessoas vivendo com HIV diagnosticadas com sífilis devem passar por exame neurológico minucioso, e a punção lombar está indicada em todos os casos de retratamento, independentemente de ter havido nova exposição sexual. A conduta de prevenção da transmissão vertical do HIV é assunto do capítulo dele.
Na gestante que se diz alérgica à penicilina. A maioria dessas alergias não resiste a uma anamnese. Dor e reação local, exantema maculopapular, náusea, prurido, mal-estar, cefaleia, história familiar e evento suspeito há mais de dez anos, isoladamente, não configuram alergia à penicilina. O que justifica encaminhar para investigação é reação anafilática prévia ou lesão cutânea grave, como síndrome de Stevens-Johnson. Perguntas que resolvem quase todos os casos: você lembra o que aconteceu? há quantos anos? o que fizeram? por que você recebeu penicilina? você tomou antibiótico depois disso — amoxicilina, ampicilina, cefalosporina? Gestante comprovadamente alérgica deve ser dessensibilizada em ambiente hospitalar, porque não há substituto: a benzilpenicilina benzatina é a única opção segura e eficaz para o tratamento adequado da gestante.
Na adolescente e na gestante em situação de violência sexual. A adolescente concentra três desvantagens: inicia o pré-natal mais tarde, tem menos autonomia para voltar à unidade em sete dias e é a paciente de quem menos se cobra explicação quando o esquema não é concluído. Em 2024, uma em cada cinco gestantes notificadas com sífilis tinha de 10 a 19 anos. Diante de violência sexual, a testagem se faz no momento e o tratamento presuntivo entra na abordagem — e a sífilis congênita tardia em criança maior obriga a afastar sífilis adquirida por abuso sexual, que é outra investigação inteira.
Na parceria sexual. Um terço das parcerias sexuais de pessoas com sífilis recente desenvolve a doença dentro de 30 dias da exposição. Havendo exposição nos últimos 90 dias, recomenda-se tratamento presuntivo com dose única de benzilpenicilina benzatina 2,4 milhões UI por via intramuscular, independentemente do estágio clínico e de sinais e sintomas, e todas as parcerias devem ser testadas — quando o teste é reagente, trata-se conforme o estágio. Existe uma sutileza que precisa ser dita porque muda o que se escreve na ficha: o tratamento da parceria não entra na definição de caso de sífilis congênita. Ele não torna o tratamento materno adequado nem inadequado. O que ele faz é impedir a reinfecção da gestante já tratada — e reinfecção durante a gestação apaga o tratamento que foi feito.
Como fechar o diagnóstico
Investigar sífilis na gestação custa quase nada e depende de três decisões: quando testar, o que fazer com um único teste reagente, e como ler o título ao longo do tempo. Nenhuma delas exige tecnologia, e as três são tomadas por quem está na sala.
A ordem importa por um motivo que atravessa o capítulo inteiro: o tratamento não espera exame. Diante de um teste reagente numa gestante sem tratamento adequado documentado, a benzilpenicilina benzatina entra no mesmo atendimento. Os exames que vêm depois servem para completar o diagnóstico laboratorial, para dar a linha de base do seguimento e para orientar a maternidade — nunca para autorizar o início do tratamento. O protocolo nacional é explícito ao dizer que o retardo do tratamento à espera de resultado de teste complementar faz o profissional perder tempo e perder a oportunidade de evitar a transmissão vertical.
Quando testar: três momentos obrigatórios e um quarto que se esquece
A testagem para sífilis na gestação acontece em três momentos fixos: na primeira consulta de pré-natal, idealmente no primeiro trimestre; no início do terceiro trimestre, na 28ª semana; e no momento do parto ou do aborto, independentemente de exames anteriores. O quarto momento é o que sai da rotina e por isso é o que se perde: qualquer situação de exposição sexual de risco ou de violência sexual, em qualquer idade gestacional, indica nova testagem. O painel completo de sorologias do pré-natal, com hepatites, HIV, toxoplasmose e o restante, é assunto do capítulo de exames laboratoriais do pré-natal; aqui interessa apenas a sífilis e o porquê de cada uma dessas datas.
A primeira consulta é a que decide o desfecho, porque é a única em que ainda há tempo de sobra. A recomendação federal é iniciar o tratamento da gestante o mais precocemente possível, preferencialmente até a 28ª semana. Traduzindo para o calendário: um tratamento iniciado às 28 semanas deixa doze semanas de margem até um parto de termo, e completa o esquema mais longo de três doses em 18 dias, muito antes de a janela dos 30 dias antes do parto sequer se aproximar.
A testagem da 28ª semana existe porque a sorologia do primeiro trimestre não informa nada sobre uma infecção adquirida depois dela. É a rede de segurança da gestante que se infectou no meio da gravidez — inclusive daquela cujo parceiro não foi tratado. Um resultado não reagente em março não protege ninguém em julho.
A testagem na admissão para o parto existe por dois motivos diferentes, e os dois valem mesmo quando a gestante trouxe exames. O primeiro é a mulher que se infectou nas últimas semanas. O segundo é operacional: o teste da admissão é o que produz a amostra materna que será comparada, pareada, com a do recém-nascido. Sem ele, a maternidade fica com um título de bebê e nenhum denominador — e a comparação é o exame que decide se aquela criança é exposta ou é caso.
Diante de aborto ou natimorto, a testagem é obrigatória na mesma internação. É onde se identificam retrospectivamente as gestações perdidas por sífilis, e é o momento em que se pode evitar que a próxima gestação da mesma mulher termine igual.
Qual teste primeiro, e o que fazer com um resultado só
Existem dois tipos de teste, e eles respondem a perguntas diferentes. Os testes treponêmicos detectam anticorpos específicos contra o Treponema pallidum: o teste rápido, o FTA-Abs, o TPHA, o TPPA, o ELISA e a quimiluminescência. São os primeiros a se tornar reagentes e, na maioria das pessoas, permanecem reagentes pelo resto da vida, mesmo depois do tratamento — por isso não servem para controle de cura. Os testes não treponêmicos — VDRL, RPR, USR — detectam anticorpos anticardiolipina não específicos, podem ser expressos em título e é a queda desse título que demonstra sucesso terapêutico.
A investigação começa preferencialmente pelo teste treponêmico, e o preferido é o teste rápido: alta sensibilidade e especificidade, feito no próprio serviço, com resultado em cerca de trinta minutos, sem encaminhamento e sem agendamento. Reagente o teste rápido, solicita-se o teste não treponêmico ao laboratório, que já não precisa refazer a etapa treponêmica. Quando o primeiro teste feito foi o não treponêmico — o VDRL da rotina do pré-natal —, o fluxograma continua com um treponêmico. O conjunto dos dois resultados, junto com o quadro clínico e o histórico, define a conduta.
E aqui está a decisão que separa uma unidade que previne sífilis congênita de uma que só a documenta. Na gestante, um único teste reagente — treponêmico ou não treponêmico, com qualquer titulação — indica tratamento imediato, no mesmo atendimento, sem esperar o segundo teste. A norma nomeia as situações em que essa antecipação vale: gestantes; pessoas em situação de violência sexual; pessoas com chance de perda de seguimento; pessoas com sinais de sífilis primária ou secundária; e pessoas sem diagnóstico prévio de sífilis. A gestante encabeça a lista, e a razão é aritmética: cada semana que ela passa sem tratamento é mais uma semana de exposição do concepto.
Tratar com um teste só não dispensa nada do que vem depois — nem o segundo teste, que completa o diagnóstico laboratorial, nem o monitoramento, nem o tratamento das parcerias. Dispensa apenas a espera.
Três combinações confundem e vale escrevê-las. Treponêmico reagente e não treponêmico não reagente: pode ser sífilis muito recente, sífilis tratada previamente ou cicatriz sorológica; na gestante sem registro de tratamento, trata-se. Não treponêmico reagente e treponêmico não reagente: faz-se um terceiro teste treponêmico com metodologia diferente do primeiro, e é ele que define; se não houver terceiro teste, decide-se pela exposição de risco, sinais e histórico. Título baixo, inferior a 1:4, em pessoa sem registro de tratamento e sem data conhecida de infecção: é considerada sífilis latente tardia e deve ser tratada — três doses, não uma.
Um detalhe de laboratório que muda resultado: o fenômeno de prozona. Quando há excesso de anticorpos em relação ao antígeno, a amostra pura pode dar não reagente por formação de imunocomplexos solúveis, e só revela reatividade quando diluída. É por isso que o teste qualitativo se inicia com a amostra pura e diluída a 1:8 ou 1:16. Na prática do interno, isso significa que um VDRL não reagente numa gestante com lesão sugestiva ou com teste treponêmico reagente não encerra a investigação.
O título: o que ele mede, e a conta das duas diluições
O resultado do teste não treponêmico é expresso em diluições, e cada passo da série dobra: 1:1, 1:2, 1:4, 1:8, 1:16, 1:32, 1:64, 1:128, e assim por diante. O título é a última diluição em que a amostra ainda é reagente. Como o fator é dois, cair duas diluições significa que o título caiu quatro vezes, e cair quatro diluições significa que caiu dezesseis vezes. Um VDRL que vai de 1:32 para 1:8 caiu duas diluições. De 1:64 para 1:4, caiu quatro. De 1:16 para 1:8, caiu apenas uma — e variação de uma diluição não se interpreta, porque os testes não treponêmicos não são automatizados e a leitura varia entre observadores e entre laboratórios.
Duas consequências operacionais nascem dessa frase. A primeira: colha o teste não treponêmico no dia em que o tratamento começar, idealmente antes da primeira dose, porque o título pode subir se o tratamento demorar alguns dias e porque é esse valor que servirá de base para todo o seguimento. A segunda: faça o seguimento sempre com o mesmo método e, se possível, no mesmo laboratório. Diagnóstico feito com VDRL, seguimento com VDRL; diagnóstico com RPR, seguimento com RPR. Comparar um VDRL com um RPR é comparar duas réguas.
Na gestante, o monitoramento é mensal até o termo, e não trimestral como no restante da população. Depois do parto, o seguimento passa a ser trimestral até o 12º mês. A razão de a gestante ser mensal não é medir a queda mais rápido — a resposta imunológica leva meses. É detectar aumento de duas diluições, que significa reinfecção ou reativação e obriga a retratar ela e as parcerias antes que o feto pague por isso.
A régua da resposta adequada, para leitura fora da gestação e para o encerramento do caso: teste não treponêmico não reagente, ou queda de duas diluições em até seis meses na sífilis recente e em até 12 meses na sífilis tardia. São critérios de retratamento: ausência dessa queda no prazo; aumento de duas diluições ou mais em qualquer momento; ou persistência e recorrência de sinais e sintomas.
Um aviso sobre expectativa. Na gestante, é comum que a queda esperada não apareça antes do parto, e isso não significa falha: a resposta depende do momento em que se tratou, é mais rápida em quem tinha título alto e doença recente, e é lenta em quem tinha título baixo e doença antiga. A documentação de queda em duas diluições em três meses, ou quatro diluições em seis meses, entra entre os fatores que a equipe da maternidade considera para julgar o tratamento — mas a sua ausência, isolada, não desfaz um esquema completo e feito no prazo.
E a armadilha inversa: a cicatriz sorológica. Título que permanece reagente, geralmente baixo, depois de tratamento adequado documentado e com queda prévia de pelo menos duas diluições, sem nova exposição, não é falha terapêutica, não se retrata e não se notifica. Sem o registro dessa queda prévia, porém, não existe cicatriz sorológica — existe uma gestante com teste reagente, que se trata.
O que não pedir, e o que custa pedir
Não peça o segundo teste antes de tratar. É o erro mais caro do capítulo, e é o que produz a maior parte dos 85,7% de mães com tratamento inadequado ou não realizado. A espera pelo confirmatório é de uma a três semanas na maior parte da rede, e não muda nada do que se vai fazer com uma gestante sem tratamento documentado.
Não use teste treponêmico para controle de cura. Ele continua reagente para sempre na maioria das pessoas. Repeti-lo produz um resultado que assusta o paciente, gera retratamento indevido e não responde à pergunta que se está fazendo.
Não colha sangue de cordão umbilical do recém-nascido. A amostra de cordão contém mistura de sangue materno e fetal e produz resultados falso-reagentes. O sangue tem de ser periférico do recém-nascido.
Não peça teste treponêmico no bebê antes dos 18 meses. Não há correlação entre a titulação do teste treponêmico do recém-nascido e a da mãe que sugira sífilis congênita, e o anticorpo materno transferido só desaparece por volta dos 18 meses. Depois dessa idade, um teste treponêmico reagente confirma o diagnóstico.
Não peça testes de IgM para diagnosticar sífilis congênita. Os anticorpos IgM não atravessam a placenta e, quando presentes, indicam resposta do próprio bebê — mas não são detectados em todos os casos, e um resultado negativo não exclui a doença. Por isso o FTA-Abs IgM e os imunoensaios IgM não são recomendados.
Não repita a proteinúria da rotina obstétrica esperando que ela diga algo sobre sífilis, e não peça sorologia de sífilis da placenta no lugar do sangue da criança. A placenta e o cordão vão para a análise anatomopatológica, que é outro exame e responde outra pergunta.
O custo de pedir errado, aqui, não é financeiro: é tempo. Cada exame desnecessário na gestante empurra a primeira dose para a semana seguinte, e cada exame que falta no recém-nascido o mantém internado ou o manda para casa sem investigação.
Na maternidade: o exame que decide o destino do recém-nascido
Todo recém-nascido de mãe com diagnóstico de sífilis na gestação — independentemente do histórico de tratamento materno — deve realizar teste não treponêmico em sangue periférico. A testagem simultânea da mãe e da criança no pós-parto imediato, com o mesmo tipo de teste, é o melhor cenário possível para interpretar o resultado do bebê, e é o que se deve organizar.
A regra de leitura é uma só: título do recém-nascido maior que o materno em pelo menos duas diluições indica infecção congênita. Se a mãe está 1:2, o corte do bebê é 1:8; se a mãe está 1:4, é 1:16; se está 1:8, é 1:32. Título igual, menor, ou até uma diluição acima do materno indica baixo risco.
E a contrapartida que precisa ser dita na mesma frase, porque é onde mora o erro de excesso de confiança: a ausência desse achado não exclui sífilis congênita. Menos de 30% das crianças com sífilis congênita têm o resultado pareado maior que o materno. O título é um critério de entrada, não um teste de exclusão. A decisão de investigar e tratar não se apoia apenas na definição de caso de notificação, e sim na combinação de avaliação clínica, epidemiológica e laboratorial.
Na criança classificada como caso de sífilis congênita, a investigação é completa e inclui punção lombar para análise do líquor, radiografia de ossos longos, radiografia de tórax, hemograma com contagem de plaquetas e exames de função hepática, renal, pancreática e eletrólitos; a neuroimagem entra a critério clínico, e a ultrassonografia transfontanela é a opção não invasiva. Os números do país dizem o quanto disso acontece: em 2024, apenas 53,0% das crianças com sífilis congênita tiveram líquor coletado, com 23,2% na Região Norte, e apenas metade fez radiografia de ossos longos.
Os valores liquóricos que caracterizam neurossífilis mudam com a idade e precisam ser sabidos de cor, porque decidem internação. No recém-nascido: VDRL reagente no líquor, ou leucócitos acima de 25 células/mm³, ou proteína acima de 150 mg/dL. Na criança com mais de 28 dias: VDRL reagente no líquor, ou leucócitos acima de 5 células/mm³, ou proteína acima de 40 mg/dL. Basta um dos três. E há uma condição de validade: o líquor precisa estar livre de contaminação por sangue, porque acidente de punção transporta anticorpo do sangue periférico e produz VDRL falso-reagente no líquor.
Na radiografia de ossos longos, o achado mais comum na sífilis congênita precoce não tratada — presente em 70% a 100% dos casos — é típico, múltiplo e simétrico, acometendo rádio, ulna, úmero, tíbia, fêmur e fíbula: periostite diafisária com neoformação óssea, serrilhado metafisário (sinal de Wegner) e a desmineralização com destruição da porção medial da metáfise proximal da tíbia (sinal de Wimberger).

O diferencial, e o que existe no SUS
Do lado da mãe, o diferencial é laboratorial antes de ser clínico. Resultados falso-reagentes em testes não treponêmicos são raros, mas existem: os anticorpos anticardiolipina podem estar presentes em outras doenças, e é justamente por isso que o diagnóstico laboratorial exige a combinação de um teste treponêmico com um não treponêmico. Um VDRL reagente isolado, com treponêmico não reagente confirmado por terceiro teste de metodologia diferente, é resultado falso-reagente e exclui sífilis. Na gestante sem essa confirmação em mãos, porém, a conduta é tratar — o erro de tratar uma falso-reagente é uma injeção; o erro contrário é uma criança.
Do lado clínico, a úlcera genital da sífilis primária compete com herpes genital, cancroide, linfogranuloma venéreo e donovanose, que são assunto do capítulo de sífilis e outras infecções sexualmente transmissíveis; o exantema do secundarismo compete com farmacodermia, pitiríase rósea e viroses exantemáticas.
Do lado do recém-nascido, todos os sinais são compartilhados com as outras infecções congênitas — toxoplasmose, rubéola, citomegalovírus e herpes —, com sepse neonatal, com hepatite neonatal e com hidropisia de outras causas. A investigação dessas outras congênitas é assunto do capítulo próprio; o que não se pode fazer é o inverso, isto é, adiar a conduta da sífilis enquanto se investiga o resto. O rastreio neonatal universal, com os cinco testes da triagem, é outro capítulo e não substitui nem inclui a sorologia de sífilis da criança exposta.
Sobre disponibilidade, o essencial está na rede e é preciso saber os nomes. A benzilpenicilina benzatina consta da Relação Nacional de Medicamentos Essenciais nas apresentações de 600.000 UI, no componente básico, e de 1.200.000 UI, nos componentes básico e estratégico — com aquisição centralizada pelo Ministério da Saúde desde 2017 e base de cálculo da compra nos casos notificados de sífilis adquirida e de sífilis em gestantes. Ou seja: notificar não é burocracia, é o que faz chegar a penicilina do ano seguinte. A benzilpenicilina potássica (cristalina) 5.000.000 UI também consta, nos componentes básico e estratégico. O teste rápido treponêmico é insumo da atenção primária, e VDRL e RPR estão na rede laboratorial.
Duas coisas dessa lista precisam ser conferidas no serviço antes de a criança nascer. A primeira: a Rename traz a benzilpenicilina procaína apenas na associação com a potássica, na apresentação de 300.000 UI + 100.000 UI — não há apresentação isolada de procaína na lista nacional, e é a procaína isolada que o protocolo prevê para o esquema de dez dias por via intramuscular fora do hospital. Confira o que existe na farmácia da sua maternidade antes de prometer tratamento ambulatorial a alguém. A segunda: a apresentação de benzilpenicilina benzatina que se recebe muda o volume aspirado. A suspensão injetável genérica distribuída ao SUS traz 1.200.000 U em 4 mL, isto é, 300.000 U/mL; apresentações em pó para suspensão de outros fabricantes resultam em volume final e concentração diferentes depois da reconstituição. Para a dose da gestante isso não importa, porque se usa o frasco inteiro; para a dose do recém-nascido, calculada por quilo, importa muito — e o número que vale é o do rótulo que está na sua mão.
A régua do tratamento adequado, os esquemas por extenso e o que cada quebra provoca no recém-nascido
Três réguas diferentes operam neste capítulo e são confundidas o tempo todo. A primeira diz quem tem sífilis e é larga de propósito: um teste reagente, com qualquer titulação, numa gestante sem tratamento documentado. A segunda diz qual esquema — e depende só do estágio: dose única na sífilis recente, três doses semanais na tardia ou de duração ignorada. A terceira diz se o tratamento foi adequado, e é ela que decide o que acontece com o recém-nascido: esquema completo para o estágio clínico, feito com benzilpenicilina benzatina, iniciado até 30 dias antes do parto, concluído antes do nascimento e com o intervalo entre as doses respeitado. Quebrar qualquer item da terceira régua não muda o tratamento da mãe — muda o destino do bebê, que passa de criança exposta, com seguimento ambulatorial, a caso de sífilis congênita, com notificação, punção lombar, radiografias e penicilina parenteral. O que segue são as três réguas escritas por extenso, com as doses, os volumes, os prazos e os cenários do recém-nascido.
- 1Ofereça o teste rápido treponêmico na primeira consulta de pré-natal, dentro da própria unidade, e leia o resultado em cerca de trinta minutos. Não agende, não encaminhe, não deixe para a próxima.
- 2Reagente: colha o teste não treponêmico no mesmo dia — é a linha de base do seguimento — e não espere por ele para nada além disso.
- 3Defina o estágio antes de prescrever. Sífilis recente é a de até um ano de evolução, com lesão atual ou sorologia anterior não reagente documentada. Tudo o mais, inclusive título baixo sem história, é sífilis tardia ou de duração ignorada. Na dúvida, é tardia.
- 4Aplique a primeira dose hoje, nesta unidade: benzilpenicilina benzatina 2,4 milhões UI por via intramuscular, 1,2 milhão UI em cada lado, preferencialmente na região ventroglútea. A ausência do médico na unidade não adia a aplicação.
- 5Observe a gestante por alguns minutos após a aplicação, com a caixa de emergência aberta e a adrenalina conferida — e avise-a, antes de aplicar, sobre a reação de Jarisch-Herxheimer e sobre o que fazer se tiver contrações.
- 6Agende as doses seguintes com data escrita no papel, evitando que caiam em fim de semana ou feriado, e marque o receituário como prioridade de gestante. Anote telefones para busca ativa.
- 7Notifique. Sífilis em gestante é agravo de notificação compulsória, e é a notificação que alimenta o cálculo da compra centralizada de penicilina.
- 8Aborde a parceria sexual no mesmo dia: teste todas, e ofereça tratamento presuntivo com dose única de 2,4 milhões UI a quem teve exposição nos últimos 90 dias, independentemente de sintomas e do resultado.
- 9Escreva no cartão da gestante, com letra legível: o estágio clínico presumido, a data e a dose de cada aplicação, o título e a data do teste não treponêmico de base. É esse papel que a maternidade vai ler.
- 10Repita as doses seguintes com sete dias de intervalo, admitindo até nove. Se alguma dose for perdida ou o intervalo ultrapassar nove dias, reinicie o esquema do começo.
- 11Monitore mensalmente com teste não treponêmico, sempre pelo mesmo método, até o termo. Aumento de duas diluições é reinfecção ou reativação: retrate a gestante e as parcerias.
- 12Reteste na 28ª semana e na admissão para o parto ou aborto, independentemente de exames anteriores — e colha a amostra materna pareada com a do recém-nascido.
- 13Na maternidade, classifique: leia o cartão, aplique a régua do tratamento adequado, colha o teste não treponêmico periférico do bebê e compare com o da mãe.
- 14Investigue e trate o recém-nascido conforme a classificação, e garanta o encaminhamento à atenção primária com consulta na primeira semana e testes não treponêmicos em 1, 3, 6, 12 e 18 meses de idade.
Grau 0 — nenhuma dose de benzatina registrada
Mãe não tratada, tratada com outra droga que não a benzilpenicilina benzatina, ou com tratamento apenas verbal, sem registro em prontuário ou na caderneta. O recém-nascido é caso de sífilis congênita independentemente do exame físico e dos exames complementares: notifica-se, investiga-se por completo — líquor, radiografia de ossos longos, radiografia de tórax, hemograma com plaquetas e função hepática — e trata-se por dez dias com benzilpenicilina potássica (cristalina) intravenosa, ou com procaína intramuscular quando não houver alteração liquórica.
Grau 1 — dose de benzatina dentro dos últimos 30 dias antes do parto
Droga certa, tarde demais. O tratamento iniciado a menos de 30 dias do parto não satisfaz o critério, ainda que a dose esteja correta para o estágio, e o recém-nascido continua sendo caso de sífilis congênita, com a mesma investigação e o mesmo tratamento do grau anterior. Isso não dispensa tratar a mãe: trata-se pela saúde dela, para reduzir a carga treponêmica e para interromper a cadeia — mas a equipe do berçário precisa saber a data, e não só a droga.
Grau 2 — esquema começado no prazo, mas incompleto ou com intervalo quebrado
Duas doses de um esquema de três, ou três doses com mais de nove dias entre duas delas, ou esquema de sífilis recente aplicado a uma sífilis de duração ignorada. Em qualquer dessas hipóteses o tratamento é não adequado, e o recém-nascido é caso de sífilis congênita. É o grau que mais se perde por falta de registro: quem escreveu apenas "fez benzetacil" no cartão produziu, na prática, o mesmo efeito de não ter tratado.
Grau 3 — esquema completo para o estágio, no prazo e com o intervalo respeitado
Benzilpenicilina benzatina, esquema completo para o estágio clínico, primeira dose até 30 dias antes do parto, esquema concluído antes do nascimento e intervalo de sete a nove dias entre as doses. O tratamento é adequado. Se o recém-nascido tem exame físico normal e teste não treponêmico não reagente, ou reagente com título menor, igual ou até uma diluição acima do materno, ele é criança exposta à sífilis: não é notificado na maternidade, não recebe tratamento e vai para a atenção primária com seguimento clínico e laboratorial marcado.
| Parâmetro | O que define o caso ou a conduta | O que caracteriza inadequação ou falha | O que muda na prática |
|---|---|---|---|
| Teste na gestante | Um teste reagente — treponêmico OU não treponêmico — com qualquer titulação, sem registro de tratamento prévio | — | Fecha caso de sífilis em gestante, obriga notificação e indica tratamento no mesmo atendimento, sem esperar o segundo teste |
| Estágio clínico | Recente (primária, secundária, latente recente): até 1 ano. Tardia: mais de 1 ano OU duração ignorada | Esquema reduzido para a fase clínica — tratar como recente uma sífilis de duração ignorada | Define 1 dose ou 3 doses. É a informação que mais falta no cartão, e o esquema reduzido é fator de falha terapêutica materna |
| Droga | Benzilpenicilina benzatina, exclusivamente | Qualquer outro antibiótico, inclusive ceftriaxona, azitromicina ou doxiciclina | Outro tratamento na gestação é considerado não adequado por norma: o recém-nascido será notificado, investigado e tratado |
| Momento de início | Primeira dose até 30 dias antes do parto; preferencialmente até a 28ª semana | Primeira dose nos 30 dias que antecedem o parto | É o critério com data. Sozinho, transforma um esquema correto em tratamento não adequado |
| Conclusão do esquema | Esquema completo para o estágio, terminado antes do nascimento | Parto antes da última dose; esquema interrompido | Duas doses de três é tratamento não adequado, mesmo que a primeira tenha sido cedo |
| Intervalo entre doses | Idealmente 7 dias; no máximo 9 dias entre a 1ª e a 2ª e entre a 2ª e a 3ª | Dose perdida, ou intervalo maior que 9 dias | Obriga a reiniciar o esquema do começo — não a completá-lo — e recoloca a contagem dos 30 dias em zero |
| Monitoramento sorológico | Teste não treponêmico mensal na gestação, mesmo método e, se possível, mesmo laboratório | Aumento de 2 diluições ou mais; ausência de queda de 2 diluições em 6 meses (recente) ou 12 meses (tardia); recorrência de sinais | Aumento de título em gestante tratada é reinfecção ou reativação: retratar ela e as parcerias, e a criança volta a ser caso |
| Parceria sexual | Testar todas; tratamento presuntivo com dose única de 2,4 milhões UI se exposição nos últimos 90 dias | Parceria não tratada — que NÃO entra na definição de caso de sífilis congênita | Não muda o rótulo do tratamento materno, mas é a principal via de reinfecção, e reinfecção apaga o tratamento já feito |
| Notificação | Sífilis em gestante e sífilis congênita são de notificação compulsória; sífilis adquirida também | Caso confirmado de cicatriz sorológica não deve ser notificado | A notificação é a base de cálculo da compra centralizada de penicilina — e é o que aciona a busca ativa |
| Teste do recém-nascido | Teste não treponêmico em sangue periférico, pareado com o materno, em TODO recém-nascido de mãe com sífilis, qualquer que seja o tratamento | Título do bebê ≥ 2 diluições acima do materno (mãe 1:4, bebê ≥ 1:16) | Título maior em 2 diluições é sífilis congênita por si só; título igual ou menor NÃO exclui — menos de 30% dos infectados têm título mais alto |
| Exame físico do recém-nascido | Precisa ser completamente normal para excluir a possibilidade de sífilis congênita | Qualquer sinal ou sintoma | Criança sintomática é notificada e tratada imediatamente, com investigação completa, qualquer que seja o histórico materno |
| Líquor do recém-nascido | Recém-nascido: VDRL reagente OU leucócitos > 25/mm³ OU proteína > 150 mg/dL. Após 28 dias: VDRL reagente OU leucócitos > 5/mm³ OU proteína > 40 mg/dL | Punção com acidente hemorrágico invalida a leitura | Define neurossífilis, e neurossífilis define a droga: cristalina intravenosa por 10 dias, com internação obrigatória |
Tratamento da gestante, por estágio, escrito por extenso
| Estágio | Esquema | O que se aplica | Intervalo e limite | Seguimento |
|---|---|---|---|---|
| Sífilis recente — primária, secundária e latente recente (até 1 ano de evolução) | Benzilpenicilina benzatina 2,4 milhões UI, via intramuscular, dose única | Dois frascos de 1.200.000 UI: 1,2 milhão UI em cada lado, região ventroglútea de preferência. Com a apresentação de 600.000 UI, são quatro frascos, dois de cada lado | Dose única — não há intervalo a respeitar | Teste não treponêmico mensal até o termo; trimestral após o parto, até 12 meses |
| Sífilis tardia — latente tardia (mais de 1 ano), latente de duração ignorada e terciária | Benzilpenicilina benzatina 2,4 milhões UI, via intramuscular, 1 vez por semana, por 3 semanas. Dose total: 7,2 milhões UI | Seis frascos de 1.200.000 UI ao todo — dois por aplicação, 1,2 milhão UI em cada lado. Com a apresentação de 600.000 UI, doze frascos ao todo | Idealmente 7 dias entre as doses, no máximo 9. Dose perdida ou intervalo acima de 9 dias obriga a REINICIAR o esquema | Teste não treponêmico mensal até o termo; trimestral após o parto, até 12 meses |
| Neurossífilis (em qualquer estágio, com sintoma neurológico ou oftalmológico e líquor alterado) | Benzilpenicilina potássica (cristalina) 18 a 24 milhões UI ao dia, por via intravenosa, administradas em doses de 3 a 4 milhões UI a cada 4 horas ou em infusão contínua, por 14 dias | Exige internação. A benzatina intramuscular NÃO trata neurossífilis | 14 dias, sem interrupção | Punção lombar de controle 6 meses após o término, repetida a cada 6 meses até normalização |
| Parceria sexual, com exposição nos últimos 90 dias | Benzilpenicilina benzatina 2,4 milhões UI, via intramuscular, dose única, presuntiva — independentemente do estágio e de sinais e sintomas | Dois frascos de 1.200.000 UI, 1,2 milhão UI em cada lado | Dose única | Testar sempre; se o teste for reagente, tratar conforme o estágio clínico, como adulto |
| Gestante comprovadamente alérgica à penicilina | Dessensibilização em ambiente hospitalar e, em seguida, benzilpenicilina benzatina no esquema do estágio | Não há alternativa: a doxiciclina é contraindicada na gestação, e nenhum outro antibiótico previne a sífilis congênita | Conforme o estágio, depois da dessensibilização | Idêntico. Antes de encaminhar, refaça a anamnese de alergia: a maior parte dos rótulos não se sustenta |
O recém-nascido: quatro cenários, quatro condutas
| Cenário | Investigação | Tratamento | Onde e por quanto tempo |
|---|---|---|---|
| Mãe NÃO tratada ou tratada de forma NÃO adequada — criança com qualquer sinal, ou com exames alterados, ou com teste não treponêmico reagente | Completa: líquor, radiografia de ossos longos, radiografia de tórax, hemograma com plaquetas, função hepática, renal e eletrólitos; neuroimagem a critério clínico | Com alteração liquórica (neurossífilis): benzilpenicilina potássica (cristalina) 50.000 UI/kg/dose, por via intravenosa, a cada 12 horas na 1ª semana de vida e a cada 8 horas depois dela, por 10 dias. Sem alteração liquórica: a mesma cristalina, ou benzilpenicilina procaína 50.000 UI/kg, intramuscular, 1 vez ao dia, por 10 dias | Cristalina exige internação. Procaína pode ser feita fora do hospital. Em ambos, atraso maior que 24 horas em uma dose obriga a reiniciar o tratamento |
| Mãe NÃO tratada ou tratada de forma NÃO adequada — criança com exame físico normal, exames complementares normais E teste não treponêmico NÃO reagente | Completa, igual à de cima — é ela que autoriza esta linha | Benzilpenicilina benzatina 50.000 UI/kg, por via intramuscular, em dose única | Pode ser feita na maternidade, sem internação prolongada. Seguimento obrigatório na atenção primária |
| Mãe tratada de forma ADEQUADA — criança com teste não treponêmico reagente em título ≥ 2 diluições acima do materno | Completa. Este achado, isoladamente, é critério de sífilis congênita, independentemente do tratamento materno | Como no primeiro cenário, conforme haja ou não alteração liquórica | Notificar como sífilis congênita |
| Mãe tratada de forma ADEQUADA — criança assintomática, com teste não treponêmico não reagente, ou reagente com título menor, igual ou até 1 diluição acima do materno | Exame físico completo e teste não treponêmico pareado. Não requer líquor nem radiografias | Nenhum. É a única situação em que não se trata | Criança exposta à sífilis: não se notifica na maternidade, encaminha-se à atenção primária com seguimento clínico e sorológico marcado |
| Criança diagnosticada após 1 mês de idade, ou com falha do tratamento no seguimento | Nova investigação completa, com punção lombar, mesmo que já tenha sido tratada antes | Benzilpenicilina potássica (cristalina) 50.000 UI/kg/dose, por via intravenosa, a cada 4 a 6 horas, por 10 dias | Internação. Notificar e reiniciar o seguimento |
As doses da criança em unidades internacionais, por peso
| Peso | Dose de 50.000 UI/kg | Cristalina — 1ª semana de vida (12/12h) | Cristalina — após a 1ª semana (8/8h) | Procaína — 1 vez ao dia | Benzatina — dose única |
|---|---|---|---|---|---|
| 2,5 kg | 125.000 UI | 125.000 UI a cada 12 h = 250.000 UI/dia | 125.000 UI a cada 8 h = 375.000 UI/dia | 125.000 UI/dia por 10 dias | 125.000 UI, aplicação única |
| 3,0 kg | 150.000 UI | 150.000 UI a cada 12 h = 300.000 UI/dia | 150.000 UI a cada 8 h = 450.000 UI/dia | 150.000 UI/dia por 10 dias | 150.000 UI, aplicação única |
| 3,2 kg | 160.000 UI | 160.000 UI a cada 12 h = 320.000 UI/dia | 160.000 UI a cada 8 h = 480.000 UI/dia | 160.000 UI/dia por 10 dias | 160.000 UI, aplicação única |
| 4,0 kg | 200.000 UI | 200.000 UI a cada 12 h = 400.000 UI/dia | 200.000 UI a cada 8 h = 600.000 UI/dia | 200.000 UI/dia por 10 dias | 200.000 UI, aplicação única |
| Como converter em mililitros | A conversão depende da apresentação que está na sua mão, e não da tabela | Frasco de cristalina de 5.000.000 UI: se a reconstituição resultar em 10 mL, a solução fica a 500.000 UI/mL, e 160.000 UI correspondem a 0,32 mL | Confira sempre o volume final declarado na bula do produto antes de aspirar | A Rename traz a procaína apenas associada à potássica (300.000 UI + 100.000 UI) — confira o que existe na sua farmácia | Suspensão de 1.200.000 U em 4 mL (300.000 U/mL): 160.000 UI correspondem a 0,53 mL. Em apresentações em pó com outro volume final, o mililitro muda |
Seguimento sorológico: mãe e criança, quando e o que esperar
| Quem | Quando | O que se espera | O que obriga a agir |
|---|---|---|---|
| Gestante em tratamento | Teste não treponêmico mensal até o termo | Estabilidade ou queda. A queda pode não aparecer antes do parto, sobretudo em doença antiga e título baixo | Aumento de 2 diluições: reinfecção ou reativação. Retratar a gestante e as parcerias, e reavaliar o risco de exposição |
| Puérpera | Teste não treponêmico trimestral até o 12º mês (3, 6, 9 e 12 meses) | Queda de 2 diluições em até 6 meses na sífilis recente e em até 12 meses na tardia; evolução até a sororreversão | Ausência dessa queda no prazo, aumento de 2 diluições, ou retorno de sinais: critérios de retratamento |
| Criança exposta à sífilis (mãe tratada adequadamente, criança sem critérios) | Teste não treponêmico com 1, 3, 6, 12 e 18 meses; consultas de puericultura na 1ª semana e nos meses 1, 2, 4, 6, 9, 12 e 18 | Queda dos títulos aos 3 meses e testes não reagentes aos 6 meses — é a passagem passiva do anticorpo materno desaparecendo | Persistência de título aos 6 meses OU elevação de 2 diluições: investigar, puncionar líquor, tratar 10 dias com cristalina e notificar |
| Criança com sífilis congênita tratada | Teste não treponêmico com 1, 3, 6, 12 e 18 meses; consultas oftalmológica, audiológica e neurológica semestrais por 2 anos | Queda aos 3 meses e não reagente aos 6 meses quando o tratamento foi adequado. A resposta é mais lenta em quem foi tratado depois de 1 mês de vida | Elevação de 2 diluições, não negativação até 18 meses ou persistência de títulos baixos: reavaliar e retratar. Tratamento feito com dose ou tempo errado exige busca ativa e reinício |
| Criança com neurossífilis | Punção lombar de controle a cada 6 meses até normalização bioquímica, citológica e sorológica | Normalização progressiva de células, proteína e VDRL liquórico | VDRL liquórico persistentemente reagente, ou celularidade e proteína ainda alteradas: nova investigação clínico-laboratorial e retratamento; considerar exame de imagem |
| Encerramento | Interromper o seguimento laboratorial após dois testes não treponêmicos não reagentes consecutivos | A partir dos 18 meses, sem achado clínico e laboratorial, exclui-se sífilis congênita | Teste treponêmico reagente após os 18 meses, sem histórico de tratamento: avaliação completa, tratamento e notificação como sífilis congênita |
Duração ignorada é sífilis tardia. Essa única frase resolve a maior parte das prescrições erradas do país: em 2024, cerca de 19.595 gestantes — 21,8% das notificadas — foram provavelmente classificadas de forma incorreta como sífilis primária, e classificação de estágio errada gera esquema reduzido, que é fator conhecido de falha terapêutica materna.
O critério dos 30 dias tem uma consequência de calendário que precisa ser feita com o dedo na tabela de idade gestacional. Uma gestante de 30 semanas e 2 dias está com 212 dias; se a primeira dose for hoje, o critério se sustenta para qualquer parto a partir do dia 242, ou seja, de 34 semanas e 4 dias em diante. Se a mesma dose for adiada três semanas, o critério só se sustenta se o parto ocorrer depois de 37 semanas e 4 dias — e um parto de 36 semanas passa a produzir um caso de sífilis congênita com o mesmo tratamento e a mesma droga.
Reiniciar o esquema por intervalo perdido não é apenas repetir três injeções: é zerar a contagem dos 30 dias. Um esquema reiniciado às 36 semanas quase nunca termina a tempo de ser considerado adequado. É por isso que a nota técnica federal dedica um anexo inteiro a agendar as doses fora de fins de semana e feriados, a carimbar o receituário como prioridade de gestante e a recolher vários telefones para busca ativa: o problema não é farmacológico, é de agenda.
O tratamento da parceria sexual não entra na definição de caso de sífilis congênita, e isso mudou na régua brasileira — o documento nacional afirma expressamente que a parceria não compõe a definição, em relação ao tratamento materno ser adequado ou não. Continuar dizendo à equipe que o bebê será notificado porque o pai não tratou é repetir critério antigo. O que a parceria não tratada faz é outra coisa, e é grave: mantém a gestante exposta à reinfecção, e reinfecção documentada por aumento de duas diluições apaga o tratamento que já havia sido feito.
Erro de apresentação é o acidente mais previsível com essas drogas. A benzilpenicilina benzatina existe em frascos de 600.000 UI e de 1.200.000 UI; a suspensão pronta para uso de 1.200.000 U vem em 4 mL, a 300.000 U/mL, mas apresentações em pó de outros fabricantes resultam em volume final e concentração diferentes. Para a gestante isso não muda nada, porque se usa o frasco inteiro. Para o recém-nascido, cuja dose é calculada por quilo, muda tudo — leia a concentração em voz alta antes de aspirar e confira com um segundo par de olhos.
A notificação não é papelada. A compra centralizada de benzilpenicilina benzatina pelo Ministério da Saúde tem como base de cálculo os casos notificados de sífilis adquirida e de sífilis em gestantes. A unidade que não notifica reduz a própria cota do ano seguinte, e o desabastecimento que ela vai enfrentar terá sido, em parte, obra dela.
A única situação em que não se trata o recém-nascido é a criança exposta: mãe adequadamente tratada, criança assintomática, com teste não treponêmico não reagente ou com título menor, igual ou até uma diluição acima do materno. Identificar corretamente essas crianças é tão importante quanto detectar as infectadas — poupá-las de punção lombar, de dez dias de acesso venoso e de internação prolongada é parte do trabalho, e não uma concessão.
A conduta, hora a hora
Na gestante com teste reagente e sem tratamento adequado documentado, não adiar a penicilina esperando outra consulta. Definir estágio, colher título de base e aplicar o esquema correspondente, com datas e busca ativa. Para doses subsequentes, usar o intervalo e a regra de reinício do protocolo brasileiro apresentados abaixo. A queda do título é interpretada com o tempo, não como requisito para considerar válida a primeira aplicação.
Toda dose abaixo vem com a fonte que a sustenta. Onde os documentos brasileiros divergem entre si, a escolha está feita no texto e a divergência está discutida no bloco próprio.
Antes de a gestante chegar — a unidade que consegue tratar no mesmo dia
A maior parte do trabalho de prevenir sífilis congênita acontece antes de qualquer paciente entrar na sala, e é organizacional. Uma unidade básica preparada tem quatro coisas: teste rápido de sífilis disponível e alguém habilitado a fazê-lo em todos os turnos; benzilpenicilina benzatina em estoque conferido; a caixa de emergência com adrenalina dentro da validade; e a certeza compartilhada por toda a equipe de que a aplicação não depende de o médico estar na unidade. Essa última é norma, e vale a pena saber o número dela: a portaria federal de 2011 determina que a penicilina seja administrada em todas as unidades de Atenção Básica nas situações em que seu uso é indicado, e que a administração seja realizada pela equipe de enfermagem — auxiliar, técnico ou enfermeiro —, pelo médico ou pelo farmacêutico. A recomendação de incorporação da Conitec, de 2015, foi unânime e explicitou o uso nas Unidades de Atenção Primária.
Prescrição- Manter benzilpenicilina benzatina em estoque na unidade básica: apresentações de 600.000 UI e de 1.200.000 UI, componente básico da assistência farmacêutica, com aquisição centralizada pelo Ministério da Saúde e base de cálculo nos casos notificados — Rename 2024; PCDT de IST (MS, 2021, anexo alterado em 2024), seção 5.6.1.
- Garantir que a administração intramuscular seja realizada pela equipe de enfermagem, pelo médico ou pelo farmacêutico, em todas as unidades de Atenção Básica, nas situações em que a penicilina é indicada — Portaria GM/MS nº 3.161, de 27 de dezembro de 2011, arts. 1º e 3º, transcrita no Relatório de Recomendação nº 150 da Conitec (2015).
- Manter na sala, conferida e dentro da validade, a caixa de emergência para anafilaxia: adrenalina 1 mg/mL (solução 1:1.000) para uso intramuscular, material para oxigênio, acesso venoso e soro fisiológico a 0,9% — Conitec, Relatório de Recomendação nº 150 (2015); Manual de vigilância epidemiológica de eventos adversos pós-vacinação (MS, 2021), Quadro 46.
- Disponibilizar teste rápido treponêmico para uso no primeiro atendimento, sem necessidade de encaminhamento ou agendamento — PCDT de IST (MS, 2021, anexo alterado em 2024), seção 5.11.
Primeira consulta de pré-natal — testar hoje, com resultado em trinta minutos
A primeira consulta é a única em que ainda existe margem de sobra, e é onde o desfecho é ganho ou perdido. Ofereça o teste rápido no próprio atendimento. Se ele não estiver disponível, colha o teste não treponêmico e trate a demora do laboratório como um problema a resolver, não como uma etapa natural do processo. Aproveite a mesma consulta para registrar a data provável do parto — porque é a partir dela que se conta a janela dos 30 dias — e para perguntar sobre parcerias sexuais e sobre tratamento anterior para sífilis, com data e documento, não de memória.
Prescrição- Testagem para sífilis na primeira consulta de pré-natal, idealmente no primeiro trimestre, no início do terceiro trimestre (28ª semana) e no momento do parto ou aborto, independentemente de exames anteriores; e a qualquer momento diante de exposição sexual de risco ou violência sexual — PCDT de Transmissão Vertical (MS, 2020, anexo alterado em 2024), seção 2.1; PCDT de IST (MS, 2021, anexo alterado em 2024), seção 5.9.1.
- Iniciar o tratamento da gestante com sífilis o mais precocemente possível, preferencialmente até a 28ª semana de gestação — Nota Técnica nº 14/2023-.DATHI/SVSA/MS, item 3.4.
- Colher teste não treponêmico no início do tratamento, idealmente no primeiro dia, para servir de linha de base do monitoramento — PCDT de IST (MS, 2021, anexo alterado em 2024), seção 5.7.1.
Trinta minutos depois — a primeira dose sai desta unidade
Teste reagente numa gestante sem tratamento adequado documentado: trate agora, neste atendimento, sem esperar o segundo teste. Antes de aplicar, decida o estágio — recente ou tardia — porque isso define quantas doses ela vai precisar, e na dúvida a resposta é tardia. Explique a reação de Jarisch-Herxheimer antes da injeção, e não depois; explique que o que ela pode sentir nas próximas horas é a droga funcionando, e diga o que fazer se houver contrações. Aplique na região ventroglútea, que é a via preferencial por ser livre de vasos e nervos importantes, ter tecido subcutâneo mais fino e produzir menos dor; o vasto lateral da coxa e o dorso glúteo são alternativas. Observe a paciente por alguns minutos com a caixa aberta ao lado, e siga o dia.
Prescrição- Sífilis recente — primária, secundária ou latente recente, até um ano de evolução: benzilpenicilina benzatina 2,4 milhões UI, por via intramuscular, em dose única, aplicando 1,2 milhão UI em cada lado, o que corresponde a um frasco de 1.200.000 UI de cada lado — PCDT de IST (MS, 2021, anexo alterado em 2024), Quadro 15; PCDT de Transmissão Vertical (MS, 2020, anexo alterado em 2024), Quadro 25.
- Sífilis tardia — latente tardia, latente de duração ignorada ou terciária: benzilpenicilina benzatina 2,4 milhões UI, por via intramuscular, uma vez por semana, por três semanas, aplicando 1,2 milhão UI em cada lado a cada aplicação. Dose total do esquema: 7,2 milhões UI — PCDT de IST (MS, 2021, anexo alterado em 2024), Quadro 15; Nota Técnica nº 14/2023-.DATHI/SVSA/MS, Quadro 1.
- Aplicar exclusivamente por via intramuscular, tendo a região ventroglútea como via preferencial; alternativas são o vasto lateral da coxa e o dorso glúteo. Prótese ou silicone líquido industrial nesses locais pode impossibilitar a aplicação — PCDT de IST (MS, 2021, anexo alterado em 2024), seção 5.6.1.
- Tratar imediatamente, após um único teste reagente — treponêmico ou não treponêmico —, sem aguardar o teste complementar, em gestantes, em pessoas em situação de violência sexual, em pessoas com risco de perda de seguimento, em pessoas com sinais de sífilis primária ou secundária e em pessoas sem diagnóstico prévio de sífilis — PCDT de IST (MS, 2021, anexo alterado em 2024), seção 5.6; PCDT de Transmissão Vertical (MS, 2020, anexo alterado em 2024), seção 4.6.
- Não descontinuar o tratamento diante de reação de Jarisch-Herxheimer — exacerbação das lesões, mal-estar, febre, cefaleia e artralgia nas 24 horas seguintes à primeira dose, com regressão espontânea em 12 a 24 horas. Controlar com analgésico simples conforme a necessidade — PCDT de IST (MS, 2021, anexo alterado em 2024), seção 5.6.3.
- Suspeita de anafilaxia após a aplicação: acionar ajuda e suporte avançado imediatamente. Adrenalina 1 mg/mL, 0,5 mL (0,5 mg) IM no vasto lateral da coxa para a adulta, repetida após 5 minutos se persistirem alterações de via aérea, respiração ou circulação. Não usar três doses como teto absoluto para suspender tratamento. Persistência após duas doses adequadas indica anafilaxia refratária: preparar infusão intravenosa titulada por equipe habilitada, em ambiente monitorizado, mantendo adrenalina IM a cada 5 minutos enquanto a infusão não estiver estabelecida. Não fazer bolus IV como substituto rotineiro da via IM. Posicionar a gestante em lateral esquerdo, ajustando à respiração; não permitir que fique em pé. Oferecer oxigênio, obter acesso venoso e administrar cristaloide com reavaliação, organizando transferência segura. Referência: Resuscitation Council UK, algoritmo de anafilaxia refratária, 2021.
Ainda na mesma consulta — parceria, notificação, agenda e cartão
A dose aplicada resolve um quinto do problema. O que se faz nos vinte minutos seguintes decide se ela vai valer. Quatro tarefas, e nenhuma delas pode ser adiada para a próxima consulta: convocar e tratar a parceria, notificar, agendar as doses seguintes com data escrita, e registrar no cartão o que a maternidade vai precisar ler daqui a alguns meses. O cartão é o documento clínico mais importante deste capítulo — é ele que, no dia do parto, define se o recém-nascido vai para casa com uma consulta marcada ou fica dez dias no hospital.
Prescrição- Parceria sexual com exposição nos últimos 90 dias: benzilpenicilina benzatina 2,4 milhões UI, por via intramuscular, em dose única, presuntiva, independentemente do estágio clínico e da presença de sinais e sintomas. Testar todas as parcerias; quando o teste for reagente, tratar conforme o estágio clínico — PCDT de IST (MS, 2021, anexo alterado em 2024), seção 5.10.
- Notificar o caso de sífilis em gestante — agravo de notificação compulsória, com definição de caso no Quadro 55 do protocolo. Casos confirmados de cicatriz sorológica não devem ser notificados — PCDT de IST (MS, 2021, anexo alterado em 2024), Quadro 55.
- Agendar todas as doses subsequentes antes de a gestante sair do serviço, evitando que as datas de sete a nove dias caiam em fins de semana ou feriados; assinalar no receituário a prioridade de gestante, por exemplo com carimbo GESTANTE/PRIORIDADE; e obter vários telefones de contato para busca ativa, respeitando o sigilo sobre o agravo — Nota Técnica nº 14/2023-.DATHI/SVSA/MS, Anexo 2.
- Registrar em prontuário e na caderneta da gestante: estágio clínico presumido, data e dose de cada aplicação, e título e data do teste não treponêmico de base. Não se recomenda considerar apenas a informação verbal de tratamento — PCDT de IST (MS, 2021, anexo alterado em 2024), seção 6.1.
- Orientar sobre prevenção durante toda a gestação e envolver a parceria no Pré-Natal do Parceiro, informando que resultados de testes de infecções sexualmente transmissíveis são individuais e sigilosos e que sua revelação à parceria exige autorização prévia — Nota Técnica nº 14/2023-.DATHI/SVSA/MS, Anexo 2; PCDT de IST (MS, 2021, anexo alterado em 2024), seção 5.9.1.
Dias 7 a 18 — as doses seguintes, contadas no calendário
No esquema de três doses, o intervalo é parte da prescrição, e ele se conta como se conta uma data, não como se conta uma impressão. O dia da aplicação é o dia zero; a próxima dose é sete dias depois. Aplicada numa terça, a seguinte é na terça da semana seguinte. Se houver atraso e a segunda dose sair no oitavo ou no nono dia, a terceira se conta a partir dela — sete dias depois da segunda, sem ultrapassar nove. Passou de nove, ou perdeu-se uma dose: reinicia-se o esquema inteiro. E reiniciar não é só repetir injeções: é zerar a contagem dos 30 dias antes do parto, o que numa gestante de terceiro trimestre costuma significar que o rótulo do recém-nascido já está decidido.
Prescrição- Intervalo entre as doses de benzilpenicilina benzatina na gestante: idealmente sete dias, não podendo ultrapassar nove dias, tanto entre a primeira e a segunda dose quanto entre a segunda e a terceira. Caso alguma dose seja perdida ou o intervalo ultrapasse nove dias, o esquema deve ser reiniciado — Nota Técnica nº 14/2023-.DATHI/SVSA/MS, itens 2.4, 3.5 e 4.1.
- Contar o dia da aplicação como dia zero, iniciando a contagem no dia seguinte, e reprogramar a terceira dose a partir da data real da segunda — Nota Técnica nº 14/2023-.DATHI/SVSA/MS, Anexo 1.
- Verificar junto à gestante a necessidade de declaração ou atestado que justifique a ausência ao trabalho para receber as doses, reduzindo o risco de o esquema se perder por medo de prejuízo no emprego — Nota Técnica nº 14/2023-.DATHI/SVSA/MS, Anexo 2.
- Articular, quando as datas caírem em fim de semana ou feriado, a aplicação em serviço de saúde com funcionamento 24 horas próximo à moradia da gestante, para assegurar o intervalo de até nove dias — Nota Técnica nº 14/2023-.DATHI/SVSA/MS, Anexo 2.
Mês a mês, e na 28ª semana — o seguimento sorológico
A gestante tratada não sai do radar. O monitoramento é mensal até o termo, sempre com o mesmo tipo de teste e, se possível, no mesmo laboratório. A finalidade do mês a mês não é comemorar a queda — que pode não vir antes do parto e nem por isso significa falha —, e sim flagrar o aumento de duas diluições, que é reinfecção ou reativação e que devolve a gestante e o feto ao ponto de partida. A testagem da 28ª semana é obrigatória mesmo em quem testou não reagente no primeiro trimestre, e é a rede que pega a infecção adquirida no meio da gestação.
Prescrição- Teste não treponêmico mensal na gestante até o termo, com o mesmo método diagnóstico do diagnóstico inicial — PCDT de IST (MS, 2021, anexo alterado em 2024), seção 5.7 e Quadro 15; PCDT de Transmissão Vertical (MS, 2020, anexo alterado em 2024), Quadro 25.
- Considerar critérios de retratamento: ausência de redução de duas diluições em seis meses na sífilis recente ou em 12 meses na tardia; aumento de duas diluições ou mais; persistência ou recorrência de sinais e sintomas. Diante deles, retratar a gestante e as parcerias sexuais — PCDT de IST (MS, 2021, anexo alterado em 2024), seção 5.7.2.
- Nova testagem para sífilis no início do terceiro trimestre (28ª semana), independentemente de exames anteriores — PCDT de Transmissão Vertical (MS, 2020, anexo alterado em 2024), seção 2.1.
- Diante de sintomas neurológicos ou oftalmológicos, ou de falha ao tratamento sem reexposição sexual: punção lombar para pesquisa de neurossífilis; confirmada, tratar com benzilpenicilina potássica (cristalina) 18 a 24 milhões UI/dia, por via intravenosa, em doses de 3 a 4 milhões UI a cada 4 horas ou em infusão contínua, por 14 dias, com internação — PCDT de IST (MS, 2021, anexo alterado em 2024), Quadros 17 e 19.
Admissão para o parto — a última testagem e o relatório que a maternidade lê
Na admissão, testa-se de novo, sempre, mesmo com exames trazidos de casa. E colhe-se, no pós-parto imediato, a amostra materna que será comparada com a do recém-nascido, com o mesmo tipo de teste. Este é também o momento em que se produz o documento que decide a conduta do berçário: não basta escrever "tratada". A equipe da criança precisa de quatro informações — qual droga, qual estágio, as datas de cada dose, e o título de base com a data. Se a gestante chega sem pré-natal e com teste reagente na admissão, trate-a ali mesmo e diga à equipe do berçário, com clareza, que aquele recém-nascido é caso de sífilis congênita: nenhum tratamento iniciado nesse momento consegue satisfazer o critério dos 30 dias.
Prescrição- Testagem para sífilis na admissão para o parto ou diante de aborto e natimorto, independentemente de exames anteriores — PCDT de Transmissão Vertical (MS, 2020, anexo alterado em 2024), seção 2.1; PCDT de IST (MS, 2021, anexo alterado em 2024), seção 5.9.1.
- Coleta simultânea de teste não treponêmico da mãe e do recém-nascido no pós-parto imediato, com o mesmo tipo de teste, em sangue periférico — nunca em sangue de cordão umbilical — PCDT de IST (MS, 2021, anexo alterado em 2024), seção 6.2.2.
- Gestante com teste reagente na admissão, sem tratamento adequado documentado: benzilpenicilina benzatina conforme o estágio clínico, iniciada na própria internação, e notificação do caso — PCDT de IST (MS, 2021, anexo alterado em 2024), seções 5.6 e 5.9.1.
- Encaminhar placenta e cordão umbilical para análise anatomopatológica diante de achados sugestivos, como placenta desproporcionalmente grande, grossa e pálida, ou funisite necrotizante — PCDT de IST (MS, 2021, anexo alterado em 2024), Quadro 23.
- Registrar no relatório de alta da mãe e no encaminhamento da criança: droga utilizada, estágio clínico, data de cada dose, título e data do teste não treponêmico materno e situação do tratamento das parcerias — PCDT de IST (MS, 2021, anexo alterado em 2024), seção 6.1.
Primeiras horas de vida — classificar o recém-nascido
Toda criança nascida de mãe diagnosticada com sífilis na gestação é avaliada ao nascimento, com anamnese, exame físico completo e teste não treponêmico periférico, qualquer que tenha sido o tratamento materno. A classificação tem três entradas e uma consequência: histórico materno de tratamento e seguimento; sinais e sintomas da criança, quase sempre ausentes ou inespecíficos; e o teste não treponêmico do bebê comparado com o da mãe. A avaliação do profissional pode acrescentar dados e concluir por tratamento materno não adequado mesmo quando os critérios epidemiológicos, à primeira leitura, pareciam satisfeitos — e essa conclusão é dele, não da ficha.
Prescrição- Teste não treponêmico em sangue periférico de todos os recém-nascidos de mãe com teste reagente no momento do parto, independentemente do tratamento prévio realizado — PCDT de IST (MS, 2021, anexo alterado em 2024), Figura 9.
- Investigação completa em toda criança classificada como sífilis congênita: punção lombar com VDRL, celularidade e proteína; radiografia de ossos longos; radiografia de tórax; hemograma com contagem de plaquetas; e avaliação de função hepática, renal, pancreática e eletrólitos. Neuroimagem a critério clínico, sendo a ultrassonografia transfontanela a opção não invasiva — PCDT de IST (MS, 2021, anexo alterado em 2024), Quadro 25.
- Não realizar teste treponêmico no recém-nascido; ele pode ser feito a partir dos 18 meses de idade — PCDT de IST (MS, 2021, anexo alterado em 2024), Quadro 21.
- Não utilizar testes que detectam IgM, como o FTA-Abs IgM e os imunoensaios IgM, para o diagnóstico de sífilis congênita — PCDT de IST (MS, 2021, anexo alterado em 2024), seção 6.2.2.
- Notificação imediata do caso de sífilis congênita à vigilância epidemiológica, conforme os critérios do Quadro 54 — PCDT de IST (MS, 2021, anexo alterado em 2024).
- Precaução de contato diante de rinite sifilítica, exantema maculopapular, pênfigo sifilítico e condiloma plano: as lesões e a secreção nasal contêm espiroquetas e são infectantes — PCDT de IST (MS, 2021, anexo alterado em 2024), Quadro 23.
Dez dias — o tratamento do recém-nascido
A droga da criança é sempre uma benzilpenicilina, e qual delas depende de três coisas: se há neurossífilis, se a mãe foi adequadamente tratada, e o que os exames complementares mostraram. Com alteração liquórica, a escolha é a potássica (cristalina) por via intravenosa, com internação obrigatória, porque a procaína atinge concentrações liquóricas menores. Sem alteração liquórica, a criança com sífilis congênita pode ser tratada com procaína intramuscular fora do hospital. E há uma única faixa estreita para a benzatina em dose única: filho de mãe não tratada ou inadequadamente tratada, com exame físico normal, exames complementares normais e teste não treponêmico não reagente. Uma regra atravessa os três esquemas e é a mais esquecida: atraso maior que 24 horas em qualquer dose obriga a reiniciar o tratamento.
Prescrição- Benzilpenicilina potássica (cristalina) 50.000 UI/kg/dose, por via intravenosa, a cada 12 horas em crianças com menos de uma semana de vida e a cada 8 horas a partir da segunda semana, por 10 dias. É o esquema de escolha na neurossífilis, com internação hospitalar — PCDT de IST (MS, 2021, anexo alterado em 2024), seção 6.4.2 e Figura 9.
- Benzilpenicilina procaína 50.000 UI/kg, por via intramuscular, uma vez ao dia, por 10 dias, como alternativa fora da unidade hospitalar na ausência de neurossífilis — PCDT de IST (MS, 2021, anexo alterado em 2024), seção 6.4.2.
- Benzilpenicilina benzatina 50.000 UI/kg, por via intramuscular, em dose única, exclusivamente para crianças nascidas de mães não tratadas ou tratadas de forma não adequada que tenham exame físico normal, exames complementares normais e teste não treponêmico não reagente ao nascimento — PCDT de IST (MS, 2021, anexo alterado em 2024), seção 6.4.1 e Figura 8.
- Sífilis congênita diagnosticada após um mês de idade: benzilpenicilina potássica (cristalina) 50.000 UI/kg/dose, por via intravenosa, a cada 4 a 6 horas, por 10 dias — PCDT de IST (MS, 2021, anexo alterado em 2024), seção 6.4.3.
- Reiniciar o tratamento se houver atraso maior que 24 horas em qualquer dose, tanto no esquema com procaína quanto no esquema com cristalina — PCDT de IST (MS, 2021, anexo alterado em 2024), seção 6.4.2 e Figura 9.
- Administrar o esquema completo de dez dias com benzilpenicilina mesmo nos casos em que a criança tenha recebido ampicilina por outra causa — PCDT de IST (MS, 2021, anexo alterado em 2024), seção 6.4.2.
- Reservar a ceftriaxona a situações de indisponibilidade das benzilpenicilinas potássica e procaína: não há evidência científica de sua eficácia no tratamento da sífilis congênita — PCDT de IST (MS, 2021, anexo alterado em 2024), seção 6.4.
Da alta aos 18 meses — o seguimento que fecha ou reabre o caso
O referenciamento da criança no momento da alta é responsabilidade da maternidade, e o destino é a atenção primária da área de residência, que coordena o cuidado. Isso vale tanto para a criança tratada quanto para a criança exposta que não recebeu nada — e a segunda é a que mais se perde, porque não tem prontuário de internação e porque a família saiu com a impressão de que estava tudo resolvido. O calendário é conhecido e não admite improviso: consulta na primeira semana de vida e nos meses 1, 2, 4, 6, 9, 12 e 18, com teste não treponêmico em 1, 3, 6, 12 e 18 meses. A cada retorno, busca ativa de sinais e avaliação do desenvolvimento neuropsicomotor. E aproveite as consultas para o que a criança não trouxe sozinha: oferecer testagem para a mãe e as parcerias enquanto ela amamenta, porque quem teve uma infecção sexualmente transmissível tem risco aumentado de outra, inclusive HIV, que pode ser transmitido pelo aleitamento. As triagens neonatais universais são outro assunto e têm capítulo próprio; nenhuma delas rastreia sífilis.
Prescrição- Seguimento com teste não treponêmico aos 1, 3, 6, 12 e 18 meses de idade, interrompendo o seguimento laboratorial após dois testes não reagentes consecutivos; consultas de puericultura na primeira semana de vida e nos meses 1, 2, 4, 6, 9, 12 e 18 — PCDT de IST (MS, 2021, anexo alterado em 2024), Quadros 21, 22 e 27.
- Diante de elevação de títulos em duas diluições ou de persistência da titulação aos 6 meses de idade: investigar, coletar líquor, tratar por dez dias com benzilpenicilina potássica (cristalina) e notificar como sífilis congênita, mesmo com histórico de tratamento prévio — PCDT de IST (MS, 2021, anexo alterado em 2024), seções 6.2.3 e 6.3.4.
- Na criança com sífilis congênita: consultas oftalmológica, audiológica e neurológica semestrais por dois anos — PCDT de IST (MS, 2021, anexo alterado em 2024), Quadro 27.
- Na criança com neurossífilis: repetir a punção lombar a cada seis meses até normalização bioquímica, citológica e sorológica; persistindo alterações, nova investigação clínico-laboratorial e retratamento — PCDT de IST (MS, 2021, anexo alterado em 2024), Quadro 27.
- Oferecer testagem de rotina para a mãe e suas parcerias sexuais enquanto ela amamenta, com testagem para HIV pelo menos a cada seis meses, e oferecer teste rápido e vacina para hepatite B quando não houver histórico de vacinação — PCDT de IST (MS, 2021, anexo alterado em 2024), Quadros 22 e 27.
- Teste treponêmico reagente após os 18 meses de idade, sem diagnóstico prévio de sífilis congênita: avaliação completa, tratamento e notificação — e, em criança maior, afastar sífilis adquirida em situação de violência sexual — PCDT de IST (MS, 2021, anexo alterado em 2024), Quadros 21 e 54.
Como saber se está funcionando
Nesta doença o parâmetro de resposta não é um sintoma, porque quase ninguém tem sintoma, e não é um exame de imagem. É um número que sobe e desce em potências de dois, lido ao longo de meses, e é uma agenda de datas. Quem não sabe interpretar uma titulação não sabe dizer se o tratamento funcionou — e vai retratar quem não precisa e liberar quem precisa.
Duas ideias organizam este bloco. A primeira: o que decide é a variação, não o valor. Um VDRL 1:8 não significa nada sozinho; 1:8 vindo de 1:32 é resposta adequada, e 1:8 vindo de 1:2 é reinfecção. A segunda: na gestação, o objetivo do seguimento mensal não é medir a melhora, é flagrar a piora. A queda pode legitimamente não aparecer antes do parto; o aumento nunca é normal.
Esperado: Estabilidade ou queda. Fora da gestação, resposta adequada é teste não reagente ou queda de duas diluições em até seis meses na sífilis recente e em até 12 meses na tardia. Na gestação, é comum que essa queda ainda não tenha ocorrido no momento do parto, sobretudo em doença antiga e título baixo — e isso, isoladamente, não desfaz um esquema completo e feito no prazo
Se não melhora: Aumento de duas diluições ou mais (por exemplo, de 1:4 para 1:16) é reinfecção ou reativação: retrate a gestante conforme o estágio, retrate as parcerias e reavalie a exposição — e reconheça que a criança volta a ser caso de sífilis congênita. Ausência de queda de duas diluições no prazo, ou recorrência de sinais e sintomas, também são critérios de retratamento. Variação de uma única diluição não se interpreta: os testes não treponêmicos não são automatizados e a leitura varia entre observadores
Esperado: Doses no dia agendado, com intervalo de sete dias; até nove dias ainda é aceitável
Se não melhora: Intervalo acima de nove dias ou dose perdida obriga a reiniciar o esquema do começo. Se a gestante não comparecer, faça busca ativa no mesmo dia — telefone, aplicativo de mensagem, visita do agente comunitário —, porque a partir do décimo dia o esquema já não é aproveitável e cada dia adicional consome a janela dos 30 dias antes do parto
Esperado: Estágio clínico presumido, droga, data e dose de cada aplicação, título e data do teste não treponêmico de base
Se não melhora: Registro incompleto tem, na prática, o mesmo efeito de tratamento não realizado: a equipe do berçário não pode presumir o que não está escrito, e a informação apenas verbal não é aceita. Se o cartão diz somente "tratada", reconstrua o histórico com o prontuário da unidade antes do parto — depois do nascimento, não há tempo
Esperado: Regressão das lesões, quando havia lesões. Ausência de novas lesões
Se não melhora: Persistência ou recorrência de sinais e sintomas é critério de retratamento por si só. Sintoma neurológico ou oftalmológico — alteração visual, cefaleia persistente, alteração auditiva, paralisia de nervo craniano — obriga a punção lombar e, se confirmada neurossífilis, muda a droga para benzilpenicilina potássica intravenosa por 14 dias, com internação: a benzatina intramuscular não trata neurossífilis
Esperado: Parceria testada e tratada. Em 2024, apenas 34,6% das parcerias de gestantes com sífilis no Brasil receberam tratamento
Se não melhora: Parceria não tratada não muda a classificação do tratamento materno nem a definição de caso do recém-nascido — mas é a principal via de reinfecção, e reinfecção documentada apaga o tratamento já feito. Insista pela via mais provável de dar certo: horário estendido, aplicação em outra unidade, envolvimento no pré-natal do parceiro. E respeite o sigilo: o resultado da gestante é dela, e sua revelação à parceria depende de autorização
Esperado: Não reagente, ou reagente com título menor, igual ou até uma diluição acima do materno — o que caracteriza baixo risco
Se não melhora: Título maior que o materno em pelo menos duas diluições é sífilis congênita, independentemente do tratamento materno: notificar, investigar por completo e tratar. E a leitura contrária não vale: título igual ou menor não exclui a doença, porque menos de 30% das crianças infectadas têm o resultado pareado maior que o da mãe. Nunca use sangue de cordão umbilical — a mistura com sangue materno produz falso-reagentes
Esperado: Declínio dos títulos aos 3 meses e testes não reagentes aos 6 meses, tanto na criança não infectada — em que só havia anticorpo materno emprestado — quanto na criança adequadamente tratada. A resposta é mais lenta em quem foi tratado depois de um mês de vida
Se não melhora: Persistência de titulação reagente aos 6 meses, ou aumento de duas diluições em qualquer momento do seguimento, caracterizam falha: notifique como sífilis congênita, colha líquor e trate por dez dias com benzilpenicilina parenteral, mesmo que já tenha havido tratamento prévio. Interrompa o seguimento laboratorial apenas após dois testes não reagentes consecutivos
Esperado: Normalização bioquímica, citológica e sorológica — celularidade, proteína e VDRL liquórico
Se não melhora: VDRL liquórico ainda reagente, ou celularidade e proteína persistentemente alteradas, obrigam a nova investigação clínico-laboratorial e a retratamento; exame de imagem pode ser considerado. Lembre-se de que a leitura só vale em líquor sem contaminação por sangue
Esperado: Desenvolvimento neuropsicomotor adequado, sem alteração oftalmológica ou auditiva
Se não melhora: Ceratite intersticial, coriorretinite, glaucoma secundário, cicatriz de córnea e atrofia óptica são as alterações oculares mais comuns, e a ceratite intersticial costuma aparecer dos 2 aos 20 anos. A perda auditiva sensorial pode surgir tardiamente, entre 10 e 40 anos, por acometimento do oitavo par craniano. Algumas dessas manifestações progridem apesar de terapia apropriada — o que reforça o seguimento e não o invalida
Esperado: Que ao menos 95% das gestantes com sífilis recebam tratamento adequado conforme a classificação clínica — que é a meta do indicador de processo para a eliminação da sífilis congênita. Em 2024, o Brasil registrou 91,3% de prescrição de penicilina G benzatina e 84,4% de prescrição conforme a classificação clínica
Se não melhora: Se o seu serviço tem gestantes notificadas sem tratamento prescrito, ou com esquema de outra droga, o problema não é do conhecimento e sim do fluxo — teste indisponível, penicilina em falta, aplicação recusada, agenda que não fecha, ou notificação que não sai. Cada um desses tem dono e conserto. O indicador que resume o resultado é a razão entre casos de sífilis congênita e casos de sífilis em gestantes: 27,2% no Brasil em 2024, variando de 5,4% a 53,9% entre as unidades da federação
Onde o erro machuca
O dano: É o erro de maior impacto do capítulo e o mais bem-intencionado. O confirmatório demora de uma a três semanas na maior parte da rede, e nesse intervalo o feto continua exposto. Numa gestante de terceiro trimestre, três semanas de espera podem transformar um tratamento adequado num tratamento fora do prazo dos 30 dias e, portanto, num recém-nascido notificado, puncionado e internado. Não é hipótese: 58,1% das mães de crianças com sífilis congênita tiveram o diagnóstico feito durante o pré-natal.
Como pegar a tempo: Na gestante, um único teste reagente — treponêmico ou não treponêmico, com qualquer titulação — indica tratamento no mesmo atendimento. O segundo teste continua sendo pedido, e o monitoramento continua sendo feito; o que se elimina é apenas a espera. Colha o teste não treponêmico de base antes da primeira dose e aplique em seguida, na mesma consulta.
O dano: A viagem até a unidade de urgência é uma manhã de ônibus, um dia de trabalho perdido e uma criança em casa sem quem fique. Muitas gestantes simplesmente não vão, e a dose que estava a dois metros de distância deixa de existir. O receio de anafilaxia por profissionais de saúde é reconhecido nos documentos federais como uma das causas do aumento da sífilis congênita no Brasil, ao lado do desabastecimento e da redução do uso de preservativo.
Como pegar a tempo: Saiba o número da norma e cite-o: a portaria federal de 2011 determina que a penicilina seja administrada em todas as unidades de Atenção Básica nas situações em que seu uso é indicado, e que a aplicação seja feita pela equipe de enfermagem, pelo médico ou pelo farmacêutico. Saiba também o dado: o risco combinado de anafilaxia por penicilina é de 0,002%, ou seja, zero a três casos por 100 mil tratados, e nos estudos com 1.244 gestantes não houve nenhum caso. Tenha a caixa de emergência conferida, com adrenalina 1 mg/mL, e observe a paciente por alguns minutos. Isso é o que a norma pede — e é o que basta.
O dano: Dois dias de espera parecem inofensivos e não são: eles se somam à demora do laboratório, à falta na semana seguinte e ao feriado do mês. O somatório dessas esperas educadas é a diferença entre um esquema iniciado às 30 semanas e um iniciado às 34.
Como pegar a tempo: A ausência do médico na unidade não é motivo para a não administração do medicamento pela equipe de enfermagem, e isso está na norma que regula a administração da penicilina na Atenção Básica. Estabeleça na unidade um fluxo escrito para o teste rápido reagente em gestante que não dependa da agenda médica, e trate esse fluxo como se trata um protocolo de dor torácica: com gatilho, responsável e tempo-alvo.
O dano: Reduz o esquema de três doses para uma. O esquema terapêutico reduzido para a fase clínica é um dos fatores conhecidos de falha terapêutica materna, e transforma o tratamento em não adequado para a definição de caso — o recém-nascido será notificado, investigado e tratado. Em 2024, cerca de 19.595 gestantes notificadas, 21,8% do total, foram provavelmente classificadas de forma incorreta como sífilis primária.
Como pegar a tempo: Só chame de recente o que você consegue documentar: lesão atual compatível, ou sorologia anterior não reagente com data. Título baixo, sem história e sem registro de tratamento, é sífilis latente tardia e leva três doses. Escreva o estágio presumido no cartão, com a justificativa em uma linha — é o que permite a outro profissional discordar a tempo.
O dano: Na maternidade, esse cartão não permite classificar nada. Sem estágio, não se sabe se o esquema estava completo; sem datas, não se sabe se o intervalo foi respeitado nem se a primeira dose caiu dentro dos 30 dias antes do parto; sem título de base, não se pode julgar a resposta. Diante da dúvida, a equipe classifica como tratamento não adequado — que é a conduta segura para a criança e a mais cara para todo mundo.
Como pegar a tempo: Quatro informações, sempre: droga, estágio clínico presumido, data e dose de cada aplicação, título e data do teste não treponêmico de base. A norma é explícita ao dizer que o histórico de tratamento deve estar documentado em prontuário ou na caderneta da gestante e que não se recomenda considerar apenas a informação verbal.
O dano: Errar para menos custa um esquema inteiro: reiniciar três injeções por causa de um atraso de um dia, quando a régua atual admite até nove dias, gasta seis frascos, expõe a gestante a mais aplicações e, pior, recoloca a contagem dos 30 dias em zero sem necessidade. Errar para mais é pior: completar um esquema em que houve doze dias entre a segunda e a terceira dose produz um tratamento que o serviço registra como completo e que a régua considera não adequado — e a família descobre isso no berçário.
Como pegar a tempo: O dia da aplicação é o dia zero; a próxima dose é sete dias depois, e o limite é nove. Ultrapassou nove dias, ou perdeu-se uma dose: reinicia. Não ultrapassou: continua, contando os sete dias a partir da data real da dose anterior. Anote a data-alvo e a data-limite de cada dose no cartão, no dia em que a anterior for aplicada.
O dano: Produz um rótulo de alérgica que acompanha a mulher por todas as gestações seguintes e que, no limite, a leva a receber um tratamento que não previne sífilis congênita. Suspender o esquema no meio, além disso, é criar exatamente o intervalo que obriga a reiniciar. E há o dano de omissão: a gestante que não foi avisada e sente febre com piora das lesões acha que está tendo uma reação grave e não volta para a segunda dose.
Como pegar a tempo: Avise antes de aplicar: nas 24 horas seguintes pode haver febre, mal-estar, cefaleia, artralgia e piora das lesões, que passam sozinhos em 12 a 24 horas e se controlam com analgésico simples, sem interromper o tratamento; se houver contrações, procurar o serviço. Alergia à penicilina se apresenta como urticária e exantema pruriginoso, é raríssima, e um evento antigo mal lembrado não é alergia. Refaça a anamnese antes de aceitar o rótulo — na maior parte das vezes ele não sobrevive a cinco perguntas.
O dano: Dois terços das parcerias de gestantes com sífilis no Brasil não são tratadas. A gestante tratada continua exposta, e a reinfecção documentada por aumento de duas diluições apaga o tratamento que já havia sido feito — o esquema volta ao começo, agora com menos semanas até o parto. O dano espelhado também existe: equipes que acreditam que o bebê será notificado porque o pai não tratou estão aplicando um critério que a régua brasileira não usa mais, e às vezes culpando a família por uma classificação que veio de outra coisa.
Como pegar a tempo: Aborde a parceria no mesmo dia, ofereça tratamento presuntivo com dose única de 2,4 milhões UI se houve exposição nos últimos 90 dias, e teste todas. Diga à equipe o que a norma diz: o tratamento da parceria não entra na definição de caso de sífilis congênita, e o motivo de tratá-la é impedir a reinfecção e interromper a cadeia. E cuide do sigilo — o resultado é da gestante, e comunicar à parceria depende de autorização dela.
O dano: O teste treponêmico permanece reagente pelo resto da vida na maioria das pessoas tratadas. Repeti-lo produz um resultado que assusta a paciente, gera retratamento sem indicação, consome consulta e desloca a atenção do exame que responderia à pergunta.
Como pegar a tempo: Controle de cura é com teste não treponêmico, sempre com o mesmo método e, se possível, no mesmo laboratório. E lembre o que se está procurando na gestante: não a queda, que pode demorar, e sim o aumento de duas diluições.
O dano: O sangue de cordão contém mistura de sangue materno e fetal e produz resultados falso-reagentes, o que pode transformar uma criança exposta em caso investigado e internado. E o título do bebê sem o título materno do mesmo momento é um número sem denominador: não se pode aplicar a regra das duas diluições sem os dois lados.
Como pegar a tempo: Sangue periférico do recém-nascido, colhido em paralelo com o sangue da mãe no pós-parto imediato, com o mesmo tipo de teste. Se a mãe já teve alta ou se não há amostra dela, registre isso explicitamente: a ausência do pareamento muda a força da conclusão e precisa aparecer no prontuário.
O dano: Menos de 30% das crianças com sífilis congênita têm resultado pareado maior que o materno. Usar a regra das duas diluições como teste de exclusão libera do berçário crianças infectadas que voltarão sintomáticas entre a terceira e a oitava semana de vida, quando ninguém está mais olhando.
Como pegar a tempo: A regra das duas diluições é critério de entrada, não de saída. Decida com os três elementos juntos: histórico materno de tratamento, exame físico completo e sorologia pareada. E garanta o seguimento — é ele, e não o exame do primeiro dia, que fecha ou abre o caso.
O dano: A criança exposta não tem internação, não tem prontuário volumoso e sai com a família convencida de que estava tudo resolvido. É justamente ela que pode manifestar a doença em casa, e é a persistência do título aos seis meses ou a elevação de duas diluições que vai revelá-la — se alguém colher. Do lado da notificação, o efeito é coletivo e material: a compra centralizada de benzilpenicilina benzatina tem como base de cálculo os casos notificados, de modo que não notificar reduz a penicilina do ano seguinte.
Como pegar a tempo: O referenciamento no momento da alta é responsabilidade da maternidade, e o destino é a atenção primária da área de residência. Saia com consulta marcada para a primeira semana e com os exames de 1, 3, 6, 12 e 18 meses já solicitados, para que os resultados estejam prontos na consulta de retorno. Notifique sífilis em gestante e sífilis congênita — são agravos de notificação compulsória, e a segunda é de notificação imediata.
O que dizer ao paciente e à família
Quase toda conversa difícil deste capítulo acontece com alguém que se sente bem e que carrega um diagnóstico com carga moral. A palavra sífilis vem com vergonha, com suspeita sobre a parceria e com medo de julgamento — e o julgamento existe, inclusive dentro da equipe. Uma consulta que não cuida disso perde a paciente antes da segunda dose.
Há uma segunda dificuldade, específica: aqui não se pode prometer que o bebê nascerá sem sequela. O que se pode prometer é o tratamento completo, no prazo, e o acompanhamento. Prometer isso e cumprir sustenta mais adesão do que otimismo que depois se desfaz na maternidade.
Dando o diagnóstico a uma gestante que não sente nada
“"Seu exame mostrou sífilis. É uma infecção que se pega no contato sexual, é comum, tem tratamento que funciona e a gente vai começar hoje, agora. Ela costuma não dar sintoma nenhum na mulher — por isso a gente testa todo mundo, e por isso você não tinha como desconfiar. O motivo de tratar rápido é que ela pode passar para o bebê pela placenta, e o tratamento na gravidez protege os dois com a mesma injeção."”
Não diga: Perguntar "você sabe como pegou isso?" antes de tratar, e usar a palavra doença venérea. Também não diga "é só uma injeção" — não é só, são três em muitos casos, e minimizar agora torna a segunda falta mais provável.
Explicando por que a injeção é hoje, e não depois do outro exame
“"Eu vou pedir o segundo exame, sim, e ele é importante para completar o diagnóstico. Mas eu não vou esperar por ele para te tratar, porque ele demora e cada semana sem tratamento é mais uma semana em que o bebê fica exposto. Se no fim o segundo exame mostrar que não era, o que você terá recebido foi uma injeção de penicilina a mais — e isso é muito menos grave do que o contrário."”
Não diga: "É protocolo" como única explicação. E não anuncie o tratamento como se fosse uma decisão pessoal sua contra a rotina do serviço: é a recomendação nacional, e apresentá-la assim tira da paciente a sensação de estar sendo tratada por exceção.
Avisando sobre a reação de Jarisch-Herxheimer antes de aplicar
“"Nas próximas horas você pode sentir febre, dor no corpo, dor de cabeça e mal-estar, e se você tem alguma lesão ela pode piorar um pouco. Isso passa sozinho em até um dia e não é alergia: é o corpo reagindo à morte da bactéria, o que quer dizer que o remédio está funcionando. Pode tomar dipirona ou paracetamol. Uma coisa eu preciso que você faça: se sentir a barriga endurecer, contração seguida, procure a maternidade — pode acontecer, é raro, e é melhor você estar lá."”
Não diga: Aplicar e liberar sem esse aviso. Quem não foi avisada interpreta a febre da noite como reação grave e não volta para a segunda dose — e ainda leva consigo, para o resto da vida, o rótulo de alérgica à penicilina.
Respondendo à frase "eu sou alérgica a penicilina"
“"Deixa eu entender direito, porque isso muda bastante o que eu posso te oferecer. Você lembra o que aconteceu? Há quantos anos foi? Você chegou a ser internada, ou fizeram alguma coisa? Por que você tinha recebido penicilina naquela vez? E depois disso, você tomou amoxicilina, ampicilina ou alguma cefalosporina — sabe se passou bem? Pergunto porque, na gravidez, a penicilina é o único remédio que trata o bebê junto com você, e vale a pena a gente ter certeza antes de descartar."”
Não diga: Aceitar o rótulo e prescrever outro antibiótico — nenhum outro previne sífilis congênita, e o tratamento passa a contar como não adequado. Também não descarte a alergia sem perguntar: reação anafilática prévia e lesão cutânea grave, como síndrome de Stevens-Johnson, existem, e nesses casos o caminho é dessensibilização em ambiente hospitalar.
Falando sobre a parceria sem acusar ninguém e sem quebrar sigilo
“"Para o tratamento valer até o fim da gravidez, a gente precisa tratar quem tem contato sexual com você também. Não é para descobrir quem passou para quem — isso não muda nada do que eu vou fazer e sinceramente não interessa. É porque, se ele não tratar, você pode pegar de novo, e aí a gente volta à estaca zero com menos tempo pela frente. Ele pode vir aqui, fazer o teste e tomar a injeção no mesmo dia. Se preferir, eu escrevo um bilhete sem dizer o que é, só pedindo que ele procure a unidade. O seu resultado é seu — quem conta é você, se quiser."”
Não diga: Comunicar o diagnóstico à parceria por iniciativa própria: resultados de infecções sexualmente transmissíveis são individuais e sigilosos, e a revelação depende de autorização prévia da paciente. E evite a pergunta "quantos parceiros você teve?" no lugar da pergunta útil, que é "quem teve contato sexual com você nos últimos três meses?".
Combinando as próximas doses com quem trabalha e não pode faltar
“"São mais duas injeções, uma por semana. A data certa é dia tal, e o mais tarde que ela pode ser é dia tal — depois disso a gente perde tudo o que fez e começa de novo. Vamos escolher juntas um dia e um horário que você consiga: se der para vir antes do trabalho, eu deixo anotado que você tem prioridade. Se você precisar de declaração para o serviço, eu faço agora. E me dá dois telefones, o seu e de alguém que sempre te encontra — se você não vier, eu vou te procurar, e não é cobrança, é porque a conta do tempo aqui é apertada."”
Não diga: "Volte semana que vem" sem data escrita, e marcar a dose para um sábado ou véspera de feriado sem checar o funcionamento da unidade. E não trate a falta como descuido da paciente antes de olhar para a agenda que você ofereceu a ela.
Quando a gestante perdeu uma dose e o esquema precisa recomeçar
“"Você conseguiu vir, e isso já é o principal. Passaram doze dias desde a última, e a regra é que acima de nove dias o remédio já não segurou a bactéria no meio do caminho — então a gente precisa começar de novo, do zero, com três doses. Eu sei que é chato e eu sei que dói. Vou te explicar por que eu não posso só completar: se eu completar, no papel vai constar tratamento incompleto, e aí o seu bebê vai precisar ficar internado quando nascer, para fazer exames e tomar antibiótico na veia por dez dias. Recomeçar agora é o caminho para ele ir para casa com você."”
Não diga: Registrar como esquema completo o que não foi, para poupar a paciente de três injeções. O berçário vai descobrir de qualquer forma, e a criança pagará por isso com investigação tardia.
Na maternidade, dizendo que o bebê precisa de punção lombar e dez dias de antibiótico
“"Pelo que está registrado no seu cartão, o tratamento não pôde ser contado como completo — pelo prazo, não pela sua vontade. Isso não quer dizer que o bebê está doente; quer dizer que a gente não pode assumir que ele não está, e a maioria dos bebês com sífilis não mostra nada nos primeiros dias. Por isso a gente vai examinar tudo: sangue, radiografia e um exame do líquido da coluna, que é o que diz se a bactéria chegou ao sistema nervoso. E vai tomar antibiótico por dez dias. Você fica com ele o tempo todo, e amamentar está liberado."”
Não diga: Dizer "seu filho tem sífilis congênita" como quem anuncia um diagnóstico fechado, quando a classificação é epidemiológica e a maioria dessas crianças não está infectada. E não atribua a decisão à mãe ou à parceria: a classificação decorre do que está registrado, e culpar agora não muda nada e destrói a aliança que o seguimento de dezoito meses vai exigir.
Dizendo à mãe adequadamente tratada que o bebê não vai receber nada
“"Você tratou certo e no tempo certo, e o exame do bebê está compatível com o seu — ele não precisa de antibiótico nem de exames agora. Mas existe uma parte que é sua e é importante: ele vai fazer exames de sangue com um mês, três, seis, doze e dezoito meses, e consultas nesse meio-tempo. Não é desconfiança do seu tratamento; é que o exame do nascimento mede ainda os seus anticorpos, não os dele, e a gente só tem certeza vendo esse número cair. Já vou deixar a primeira consulta marcada."”
Não diga: "Está tudo bem, pode ir" sem consulta marcada e sem explicar por que existem exames se está tudo bem. A criança exposta é a que mais se perde no seguimento, justamente porque não teve internação e ninguém sentiu peso na conversa.
Com a colega da equipe que não quer aplicar a penicilina
“"Eu entendo o receio, e eu prefiro que você me diga isso a que a gente mande a paciente embora. Vamos fazer o seguinte: a caixa de emergência está aqui, conferida, com adrenalina; a gente aplica e observa junto por uns minutos. A norma federal diz que a penicilina deve ser administrada em todas as unidades básicas, pela enfermagem, pelo médico ou pelo farmacêutico, e a chance de anafilaxia é de dois casos em cem mil. Se acontecer alguma coisa, a gente atende juntos e transfere."”
Não diga: Impor pela hierarquia e sair da sala. Se a recusa persiste, o problema é de organização do serviço e precisa subir para a coordenação com a norma na mão — não vira uma queda de braço na frente da paciente, que já está constrangida o bastante.
Onde bons médicos discordam
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.
Sete dias, e um dia a mais obriga a reiniciar
Os dois protocolos clínicos federais mantêm, em nota de rodapé dos quadros de tratamento, a regra de que em gestantes o intervalo entre as doses não deve ultrapassar sete dias e que, caso isso ocorra, o esquema deve ser reiniciado. É a régua mais conservadora, e a que aparece nos documentos que a maioria dos serviços tem impressos na parede.
PCDT para Atenção Integral às Pessoas com IST (MS, Portaria SCTIE/MS nº 12/2021, anexo alterado em 04/07/2024), Quadro 15, nota c; PCDT para Prevenção da Transmissão Vertical (MS, Portaria SCTIE/MS nº 55/2020, anexo alterado em 04/07/2024), Quadro 25, nota c
Idealmente sete, no máximo nove dias
Nota técnica federal de 2023 atualiza expressamente essa recomendação: as doses devem ser aplicadas idealmente a cada sete dias, não ultrapassando nove; caso alguma dose seja perdida ou o intervalo entre elas ultrapasse nove dias, o esquema deve ser reiniciado. Os argumentos declarados são dois: evidência internacional publicada depois do protocolo, e a constatação de que a aplicação rígida dos sete dias exatos se mostrou inviável em cenários da atenção primária brasileira, com aumento de custo e desconforto para pacientes e profissionais.
Nota Técnica nº 14/2023-.DATHI/SVSA/MS, Ministério da Saúde, itens 2.4, 2.5, 3.5 e 4.1
Este capítulo adota os sete a nove dias, e a razão é de hierarquia e de data: a nota técnica é posterior aos protocolos, é do departamento que os escreve, e diz explicitamente que veio para atualizar a recomendação. A divergência sobrevive porque o anexo do protocolo, ao ser alterado em 2024, não incorporou o texto da nota — de modo que quem lê apenas o protocolo continua encontrando sete dias. Na prática, decida assim: planeje sempre para sete dias, porque a margem existe para absorver imprevisto e não para ser gasta; aceite oito e nove dias sem reiniciar, porque reiniciar sem necessidade consome três semanas que a gestante talvez não tenha; e reinicie a partir do décimo dia, sem negociar. E registre no cartão qual régua você usou, com a data de cada dose — porque quem vai classificar o recém-nascido é outra pessoa, em outro serviço, com o papel na mão.
Dose única, e é ela que define tratamento adequado
O esquema terapêutico da sífilis recente — primária, secundária e latente recente — é de benzilpenicilina benzatina 2,4 milhões UI por via intramuscular em dose única, e é esse o esquema completo para o estágio clínico que a definição de tratamento adequado exige. Uma gestante que recebeu essa dose única, dentro do prazo, está adequadamente tratada, e o recém-nascido é criança exposta se preencher os demais critérios.
PCDT para Atenção Integral às Pessoas com IST (MS, 2021, anexo alterado em 2024), Quadro 15 e capítulo 6; Nota Técnica nº 14/2023-.DATHI/SVSA/MS, Quadro 1
Alguns especialistas recomendam uma segunda dose uma semana depois
Os próprios quadros de tratamento dos protocolos federais registram, em nota de rodapé, que no caso de sífilis recente em gestantes alguns especialistas recomendam uma dose adicional de 2,4 milhões UI de penicilina G benzatina, por via intramuscular, uma semana após a primeira dose. A recomendação vem da literatura internacional citada nesses documentos, e o argumento é a maior treponemia e a maior gravidade da doença fetal nas fases recentes, com relatos de falha após dose única.
PCDT para Atenção Integral às Pessoas com IST (MS, 2021, anexo alterado em 2024), Quadro 15, nota b; PCDT para Prevenção da Transmissão Vertical (MS, 2020, anexo alterado em 2024), Quadro 25, nota b
Separe duas perguntas que costumam vir grudadas. A primeira é administrativa e tem resposta clara: a dose única basta para o tratamento ser considerado adequado, e a ausência da dose extra não torna o recém-nascido caso de sífilis congênita. A segunda é clínica e é onde há espaço: numa gestante com sífilis recente, título alto, diagnóstico tardio no terceiro trimestre ou sinais de acometimento fetal, a dose adicional é uma decisão defensável e de baixo risco — é uma injeção a mais numa droga cujo risco de reação grave é de 0,002%. Decida pelo que está em jogo: em gestante de primeiro ou segundo trimestre, com título baixo e seguimento garantido, a dose única e o monitoramento mensal resolvem; em gestante que você acha que pode não voltar, ou com doença recente e florida perto do termo, a segunda dose compra margem. O que não se pode fazer é o inverso — usar a dose adicional como substituto do esquema de três doses numa sífilis de duração ignorada.
Sim, a investigação completa inclui punção lombar em todos os casos
O protocolo federal afirma que todas as crianças com sífilis congênita devem ser submetidas a uma investigação completa, incluindo punção lombar para análise do líquor e radiografia de ossos longos. A justificativa é a frequência do acometimento: acredita-se que a neurossífilis ocorra em cerca de 60% das crianças com sífilis congênita, e o resultado do líquor decide a droga e o regime — cristalina intravenosa com internação, se houver alteração.
PCDT para Atenção Integral às Pessoas com IST (MS, 2021, anexo alterado em 2024), seção 6.3 e Quadro 25
O benefício do exame precisa ser ponderado nas crianças assintomáticas
O mesmo protocolo, na seção que trata da neurossífilis congênita, pondera que a neurossífilis é de ocorrência mais provável nas crianças que nascem sintomáticas do que nas assintomáticas e que, portanto, o benefício do teste deve ser considerado, especialmente em razão da necessidade de internação para administrar a benzilpenicilina potássica. Acrescenta que nenhum dos achados liquóricos tem sensibilidade e especificidade suficientes, que o VDRL no líquor do recém-nascido pode ser falso-reagente por anticorpo materno ou por acidente de punção, e que existem falso-negativos que depois desenvolvem sinais de neurossífilis.
PCDT para Atenção Integral às Pessoas com IST (MS, 2021, anexo alterado em 2024), seção 6.3.3; Domingues CSB et al., Epidemiol Serv Saude. 2021;30(Esp.1):e2020597
Reconheça primeiro que a divergência tem consequência concreta: o líquor não muda o fato de tratar, muda a droga, o regime e dez dias da vida daquela família. Depois, olhe para o que o país realmente faz — em 2024, apenas 53,0% das crianças com sífilis congênita tiveram líquor coletado, com 23,2% na Região Norte. Ou seja: na prática, a discussão não está entre puncionar sempre e ponderar, e sim entre puncionar e não investigar. Diante disso, decida por três coisas. Se a criança é sintomática, punção sempre — é onde a neurossífilis é provável e onde o erro custa mais. Se é assintomática e o esquema disponível já será a cristalina intravenosa por outro motivo, a punção não adia nada e deve ser feita. E se a alternativa concreta ao exame for tratar com procaína ambulatorial uma criança que talvez tenha neurossífilis, faça a punção: a procaína atinge concentração liquórica menor, e é exatamente essa a decisão que o exame existe para informar. Anote no prontuário qual raciocínio você usou, porque o médico que vai seguir essa criança por dezoito meses precisa saber se o líquor foi normal ou se não foi feito.
Na dúvida, trata-se — gestante com teste reagente é portadora até prova em contrário
A régua nacional determina que as gestantes com testes rápidos reagentes sejam consideradas portadoras de sífilis até prova em contrário e que, na ausência de tratamento adequado, recente e documentado, sejam tratadas no momento da consulta. E é explícita ao dizer que o retardo do tratamento à espera de resultados de teste complementar faz perder a oportunidade de evitar a transmissão vertical.
PCDT para Atenção Integral às Pessoas com IST (MS, 2021, anexo alterado em 2024), seções 5.6 e 5.9.1
Cicatriz sorológica não é doença ativa, não se notifica e não se retrata
O mesmo conjunto de documentos define cicatriz sorológica como a persistência de resultados reagentes em testes não treponêmicos após tratamento adequado, com registro de queda prévia da titulação em pelo menos duas diluições e afastada nova exposição de risco — e determina que casos confirmados de cicatriz sorológica não sejam notificados. Vai além: as crianças nascidas de mãe com cicatriz sorológica anterior à gestação devem realizar teste não treponêmico na maternidade e, na ausência de sinais e sintomas, não necessitam de avaliação nem de tratamento.
PCDT para Atenção Integral às Pessoas com IST (MS, 2021, anexo alterado em 2024), seção 5.7.1, Quadro 55 e nota da Figura 9
As duas posições convivem, e o que decide entre elas não é julgamento clínico: é documento. Cicatriz sorológica exige três provas objetivas — registro do tratamento adequado anterior, título de antes e título de depois mostrando queda de pelo menos duas diluições, e ausência de nova exposição de risco. Com as três em mãos, não trate e não notifique: você poupa a paciente de seis injeções e o filho dela de uma investigação inteira. Faltando qualquer uma delas — e na prática costuma faltar o par de títulos —, trate. O custo do erro é assimétrico e óbvio: tratar quem não precisava significa injeções desnecessárias numa droga muito segura; não tratar quem precisava significa uma criança infectada. Uma coisa a fazer hoje, para a gestante que você está atendendo agora: escreva no cartão dela o título de base e a data, porque é isso que vai permitir que alguém, na próxima gestação, reconheça a cicatriz sorológica e não a trate por engano.
O raciocínio, em voz alta
Terça-feira, 3 de março, numa unidade básica de saúde. Railane, 24 anos, segunda gestação, 30 semanas e 2 dias, veio buscar o resultado dos exames colhidos na primeira consulta de pré-natal, que aconteceu às 26 semanas. O papel traz teste treponêmico reagente e VDRL reagente, título 1:32, colhidos há três semanas. Ela não tem lesão, não teve ferida nem mancha, não sente nada e não sabe o que o resultado significa. A técnica de enfermagem já disse a ela que o médico só vem quinta, que é preciso esperar o confirmatório e que ali não se aplica penicilina. A unidade tem benzilpenicilina benzatina em estoque. Você é o interno de plantão no pré-natal.
o que penso agora
Gestante com teste reagente e sem tratamento documentado é caso de sífilis em gestante e se trata hoje, no mesmo atendimento — um teste reagente basta, com qualquer titulação. As três frases que ela ouviu na recepção são, cada uma, uma norma invertida: o confirmatório não precede o tratamento, a ausência do médico não impede a aplicação pela enfermagem, e a unidade básica é justamente onde a penicilina deve ser administrada. Antes de prescrever, porém, tenho uma decisão a tomar, e é a única que muda o número de injeções: qual o estágio.
o que pergunto
Quatro perguntas, todas para estadiar e uma para segurança. Você já teve alguma ferida na região genital, na boca, mesmo que tenha sumido sozinha? Já teve manchas no corpo, principalmente nas palmas das mãos e nas plantas dos pés? Você fez exame de sangue em alguma gestação anterior ou em algum outro momento, e sabe se deu alguma coisa? Você já tomou benzetacil alguma vez — e tem papel disso? E, por fim: você já teve alguma reação a antibiótico, penicilina, amoxicilina?
como a resposta muda o que penso
Nenhuma lesão, nunca. Na primeira gestação, há três anos, fez pré-natal na mesma unidade, mas não sabe dizer nada dos exames e não tem os papéis. Nunca tomou benzetacil. Nunca teve reação a antibiótico. Sem lesão atual, sem sorologia anterior não reagente documentada e sem tratamento registrado, o tempo de evolução é desconhecido — e duração ignorada é sífilis latente tardia. São três doses, uma por semana, e não uma. Se eu tratasse como sífilis recente, estaria produzindo um esquema reduzido para a fase clínica, que é fator conhecido de falha terapêutica materna e que a maternidade lerá como tratamento não adequado.
o que peço, e o que não peço
Peço um teste não treponêmico hoje, antes da primeira dose, porque o 1:32 do papel é de três semanas atrás e a linha de base do seguimento é o título do dia em que o tratamento começa. Não peço mais nada e não espero por nada: o teste treponêmico já está reagente e o não treponêmico também, o diagnóstico laboratorial está completo, e mesmo que não estivesse eu trataria.
o que prescrevo, e o que digo antes de aplicar
Benzilpenicilina benzatina 2,4 milhões UI por via intramuscular hoje: um frasco de 1.200.000 UI de cada lado, região ventroglútea. Antes de aplicar, aviso: nas próximas 24 horas pode dar febre, dor no corpo e mal-estar, que passam sozinhos e se resolvem com dipirona; não é alergia, é a bactéria morrendo; e se a barriga endurecer com contrações seguidas, procurar a maternidade. Peço à técnica que aplique — e digo, sem plateia, que a norma federal determina a administração da penicilina em todas as unidades de Atenção Básica, pela equipe de enfermagem, pelo médico ou pelo farmacêutico, e que a chance de anafilaxia é de cerca de dois casos em cem mil. A caixa de emergência fica aberta ao lado, com a adrenalina conferida. Ela fica sentada uns minutos e conversamos.
o calendário, escrito no cartão
Hoje é terça, 3 de março: dia zero. Segunda dose na terça, 10 de março, com limite na quinta, 12 de março. Terceira dose sete dias depois da segunda: 17 de março, com limite em 19 de março. Escrevo as duas datas-alvo e as duas datas-limite no cartão, junto com o estágio presumido — sífilis latente de duração ignorada, três doses — e com o título de base e a data. Carimbo o receituário com prioridade de gestante. Anoto o telefone dela e o da irmã.
por que essa data importa mais do que parece
A primeira dose de hoje faz a contagem dos 30 dias antes do parto valer para qualquer nascimento a partir de 2 de abril, o que corresponde a 34 semanas e 4 dias. Se eu tivesse aceitado a consulta de quinta e a espera do confirmatório, a primeira dose sairia por volta de 24 de março, e o critério só se sustentaria para partos depois de 37 semanas e 4 dias — um parto de 36 semanas, que ninguém agenda, transformaria o mesmo tratamento, com a mesma droga, num recém-nascido notificado, puncionado e internado por dez dias.
o que faço na mesma consulta, depois da injeção
Três coisas. Notifico o caso de sífilis em gestante — é compulsório, e é a notificação que alimenta o cálculo da compra centralizada da penicilina do ano que vem. Abordo a parceria: pergunto quem teve contato sexual com ela nos últimos três meses, ofereço que ele venha fazer o teste e receber dose única de 2,4 milhões UI no mesmo dia, mesmo que o teste dê não reagente, e escrevo um bilhete sem dizer o diagnóstico, porque o resultado é dela e a revelação depende de autorização dela. E explico o diagnóstico com as palavras que ela vai repetir em casa: é uma infecção que se pega no contato sexual, tem cura, o tratamento é hoje, e o motivo da pressa é o bebê.
o que vigio nos meses seguintes
Teste não treponêmico mensal até o termo, sempre VDRL e sempre no mesmo laboratório. O que eu procuro todo mês não é a queda — é o aumento. Em 3 de abril, com 34 semanas e 4 dias, o VDRL vem 1:16: caiu uma diluição em relação ao 1:32 de base. Uma diluição não se interpreta, e a queda de duas pode legitimamente não aparecer antes do parto, sobretudo em doença antiga. Não é falha, não retrato, não mudo nada. Em 3 de maio, com 39 semanas, o VDRL vem 1:8: duas diluições abaixo do basal, o que é resposta adequada — e, mais importante para o meu propósito, em nenhum momento subiu.
o que a maternidade lê
Railane pariu em 5 de maio, com 39 semanas e 2 dias. O cartão diz: sífilis latente de duração ignorada; benzilpenicilina benzatina 2,4 milhões UI intramuscular em 3, 10 e 17 de março; intervalos de sete dias; VDRL de base 1:32 em 3 de março, 1:16 em 3 de abril, 1:8 em 3 de maio; parceria testada e tratada em 5 de março. A régua se aplica em quatro checagens: droga certa, esquema completo para o estágio, primeira dose 63 dias antes do parto, e intervalos dentro do limite. Tratamento adequado.
o que acontece com o recém-nascido
Ele é avaliado ao nascer, como todo filho de mãe com sífilis na gestação, independentemente do tratamento: exame físico completo, que vem normal, e teste não treponêmico em sangue periférico — nunca de cordão —, colhido em paralelo com o da mãe. VDRL do bebê 1:4; VDRL da mãe no mesmo momento, 1:8. O título dele é menor que o materno, e o corte de infecção congênita seria duas diluições acima, ou seja, 1:32. Ele é criança exposta à sífilis: não se notifica na maternidade, não se puncionam, não se irradiam ossos longos e não se trata. É a única situação em que não se trata — e identificá-la corretamente é tão importante quanto detectar as infectadas.
o que ainda não terminou
Ele sai com consulta marcada para a primeira semana na unidade de origem e com os exames de 1, 3, 6, 12 e 18 meses já solicitados. O que se espera é que o título caia aos 3 meses e esteja não reagente aos 6 — porque o que o exame do nascimento mediu foi anticorpo emprestado da mãe. Se aos 6 meses ainda estiver reagente, ou se subir duas diluições em qualquer momento, ele vira caso de sífilis congênita, com punção lombar e dez dias de penicilina parenteral, mesmo sem nunca ter tido sintoma. Railane segue com VDRL trimestral até o 12º mês.
o que decidiu o caso
Nada do que foi feito aqui é caro, difícil ou de alta complexidade. Foi uma injeção que já estava na geladeira da unidade, aplicada por quem já estava na sala, no dia em que o resultado chegou, com três datas escritas num cartão. O que separa esse desfecho do desfecho contrário não é conhecimento médico — é ter recusado três frases educadas.
Variação do caso — resposta e reavaliação
Variação do seguimento de Railane: ela completa as doses nas datas previstas, mas o VDRL ainda não caiu quando chega ao parto. Conferir estágio, datas, intervalos e exposições; um título que não caiu rapidamente não apaga um esquema adequado. Entregar o histórico completo à neonatologia para a avaliação do bebê.
Variação do caso — quando mudar o plano
Se faltar à dose seguinte e ultrapassar o intervalo permitido na gestação, reorganizar e reiniciar conforme a régua do capítulo, investigando a barreira de acesso. Se o título subir de forma significativa, procurar reinfecção ou falha e reavaliar a parceria; não atribuir a mudança apenas à variação do laboratório sem conferir método e contexto.
Faça você
Sexta-feira, 20 de fevereiro, alojamento conjunto de uma maternidade. Marinalva, 31 anos, terceira gestação, pariu há seis horas um recém-nascido a termo, 3,2 kg, Apgar 9/10, exame físico sem alterações. Ela fez oito consultas de pré-natal. O cartão registra: teste rápido reagente e VDRL 1:16 em 9 de janeiro, com anotação de sífilis latente de duração ignorada; benzilpenicilina benzatina 2,4 milhões UI por via intramuscular em 12 de janeiro, 19 de janeiro e 31 de janeiro. Na admissão, o teste rápido foi reagente e o VDRL materno veio 1:8. O VDRL do recém-nascido, colhido em sangue periférico ao mesmo tempo, veio 1:4. O campo do cartão sobre a parceria está em branco. A enfermeira do alojamento pergunta se pode liberar a alta com a consulta de puericultura marcada.
o que já sei
A mãe tem sífilis diagnosticada no pré-natal, estadiada como latente de duração ignorada, o que exige três doses de benzilpenicilina benzatina — e três doses foram registradas. A droga está certa e o estágio bate com o esquema. O recém-nascido é assintomático e o título dele é menor que o materno. À primeira leitura, tudo parece se encaixar na hipótese mais confortável.
o que a régua me obriga a conferir, item por item
Tratamento adequado tem cinco requisitos, e conferir quatro não basta. Droga: benzilpenicilina benzatina — cumprido. Esquema completo para o estágio clínico: três doses para sífilis de duração ignorada — cumprido. Primeira dose até 30 dias antes do parto: de 12 de janeiro a 20 de fevereiro vão 39 dias — cumprido. Esquema concluído antes do nascimento: a última dose foi em 31 de janeiro — cumprido. Falta o quinto, e é onde as datas param de ser detalhe.
onde eu ainda não decidi
Se este recém-nascido é criança exposta ou caso de sífilis congênita; o que fazer com o título de 1:4 dele contra o 1:8 da mãe; que exames pedir, se algum; qual droga, qual dose por quilo e por quantos dias, se for o caso; o que fazer com a parceria e com a notificação; e o que precisa estar marcado antes de qualquer alta.
Ver como fecharíamos
Conte o intervalo entre as doses, que é o quinto requisito. De 12 para 19 de janeiro vão sete dias — dentro da regra. De 19 para 31 de janeiro vão doze dias, acima do limite de nove. O esquema deveria ter sido reiniciado a partir daí e não foi. Logo, apesar da droga certa, do número certo de doses e da primeira dose 39 dias antes do parto, o tratamento materno é não adequado — e a consequência é imediata: este recém-nascido é caso de sífilis congênita, por ser filho de mãe tratada de forma não adequada, independentemente de estar assintomático e de qualquer resultado de exame. Não se deixe convencer pelo título. O VDRL do bebê em 1:4 contra 1:8 materno significa apenas que ele não preenche aquele critério específico — o de título duas diluições acima do materno, que aqui seria 1:32. Título igual, menor ou até uma diluição acima indica baixo risco, e não exclusão: menos de 30% das crianças com sífilis congênita têm o resultado pareado maior que o da mãe. O título é critério de entrada, nunca de saída. Investigue por completo, ainda na maternidade: punção lombar com VDRL, celularidade e proteína; radiografia de ossos longos; radiografia de tórax; hemograma com contagem de plaquetas; e avaliação de função hepática, renal, pancreática e eletrólitos. Neuroimagem apenas a critério clínico, com a ultrassonografia transfontanela como opção não invasiva. Não peça teste treponêmico no bebê — ele só tem valor a partir dos 18 meses — e não peça IgM, que não é recomendado porque um resultado negativo não exclui a doença. Os valores que definem neurossífilis no recém-nascido: VDRL reagente no líquor, ou leucócitos acima de 25 células/mm³, ou proteína acima de 150 mg/dL; e a leitura só vale em líquor sem contaminação por sangue. Trate por dez dias. Com alteração liquórica, benzilpenicilina potássica (cristalina) 50.000 UI/kg/dose por via intravenosa — neste bebê de 3,2 kg, 160.000 UI por dose —, a cada 12 horas na primeira semana de vida, o que dá 320.000 UI ao dia, e a cada 8 horas a partir da segunda semana, o que dá 480.000 UI ao dia, com internação obrigatória. Sem alteração liquórica, cabe a mesma cristalina ou benzilpenicilina procaína 50.000 UI/kg por via intramuscular uma vez ao dia — 160.000 UI ao dia neste peso — por dez dias, que pode ser feita fora do hospital. A benzatina em dose única não serve aqui: ela é restrita à criança de mãe não tratada ou inadequadamente tratada que tenha exame físico normal, exames complementares normais e teste não treponêmico não reagente, e este bebê tem VDRL 1:4. E guarde a regra que mais se perde na enfermaria: atraso maior que 24 horas em qualquer dose obriga a reiniciar o tratamento do começo. Notifique o caso de sífilis congênita — é notificação compulsória e imediata. Trate a mãe? Ela já recebeu as três doses; o que se faz agora é colher o seguimento e reavaliar, porque um esquema com intervalo quebrado não protege como um esquema completo. E resolva a parceria, que está em branco no cartão: teste, e ofereça dose única presuntiva de 2,4 milhões UI se houve exposição nos últimos 90 dias. Diga à equipe, com todas as letras, que a parceria não tratada não é o motivo desta classificação — o motivo foram doze dias entre a segunda e a terceira dose — porque atribuir a classificação ao pai é aplicar um critério que a régua brasileira não usa mais e culpar uma família por outra coisa. Não libere a alta como puericultura de rotina. A criança sai com o caso notificado, com o tratamento completo ou com internação em curso, e com o seguimento montado: consultas na primeira semana e nos meses 1, 2, 4, 6, 9, 12 e 18; teste não treponêmico em 1, 3, 6, 12 e 18 meses, com interrupção apenas após dois testes não reagentes consecutivos; e consultas oftalmológica, audiológica e neurológica semestrais por dois anos. Espera-se que o título caia aos 3 meses e esteja não reagente aos 6. Se aos 6 meses ainda estiver reagente, ou se subir duas diluições em qualquer momento, ela precisa de nova investigação com punção lombar e de dez dias de penicilina parenteral, mesmo já tendo sido tratada — e essa possibilidade tem de estar dita à mãe antes de ela sair, porque quem vai trazer a criança de volta é ela. Uma última linha, para o cartão da próxima gestação de Marinalva: registre o título de base de 9 de janeiro, os títulos do seguimento e as datas reais das três doses. É esse registro que vai permitir, daqui a alguns anos, reconhecer uma cicatriz sorológica e não retratá-la por engano — ou reconhecer uma reinfecção e tratá-la a tempo.
O título subiu de 1:8 para 1:32, o que são duas diluições — e como o fator de diluição é dois, isso significa que o título quadruplicou. Aumento de duas diluições ou mais é critério de retratamento e significa reinfecção ou reativação, o que obriga a retratar a gestante conforme o estágio e a tratar as parcerias sexuais. É exatamente para flagrar esse aumento que o monitoramento na gestação é mensal, e não trimestral: a finalidade não é medir a queda, que pode legitimamente não aparecer antes do parto, e sim detectar a piora antes que o feto pague por ela. A parceria não tratada é a via mais provável dessa reinfecção, embora não entre na definição de caso de sífilis congênita. Cicatriz sorológica é outra coisa: exige tratamento adequado documentado, queda prévia de pelo menos duas diluições e ausência de nova exposição — e, por definição, não cursa com elevação. A ressalva de que variação de uma diluição não se interpreta é verdadeira, mas aqui a variação é de duas. E não há evidência de resistência do Treponema pallidum à penicilina no Brasil nem no mundo.
Teste-se
Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.
Plano de revisão
Em 7 dias
Reconstrua de memória, sem consultar, e depois confira: os cinco requisitos que fazem um tratamento materno ser adequado; os três momentos obrigatórios de testagem na gestação e o quarto que sai da rotina; o esquema completo da sífilis tardia com a dose, a via, o intervalo, o limite e a dose total em unidades internacionais; e a conta das duas diluições — se a mãe está 1:4, a partir de que título do recém-nascido se fecha sífilis congênita, e o que significa um VDRL que vai de 1:32 para 1:8. Refaça só o que errou. Aplicação comentada: O teste treponêmico continua positivo após tratamento. Isso prova falha? Não. Compare evolução clínica e teste não treponêmico quantitativo, com datas, títulos e possibilidade de reinfecção.
Em 30 dias
Pegue o cartão de pré-natal da última gestante com sífilis que passou pelo seu serviço — ou, se não houver, o cartão de qualquer gestante — e responda por escrito: está escrito o estágio clínico presumido? Estão escritas a data e a dose de cada aplicação? Está escrito o título do teste não treponêmico de base, com a data? Dá para calcular, só com esse papel, se a primeira dose caiu dentro dos 30 dias antes do parto e se o intervalo entre as doses ficou dentro de nove dias? Em seguida, escreva de cabeça a prescrição completa de um recém-nascido de 3,2 kg com sífilis congênita e líquor alterado, com dose por quilo, intervalo, via e duração — e confira contra a tabela do capítulo. Por fim, descubra no seu serviço três coisas: se há teste rápido de sífilis disponível em todos os turnos, se há benzilpenicilina benzatina em estoque hoje, e quem aplica quando o médico não está.
Agora atenda
Uma gestante de terceiro trimestre chega à unidade básica para buscar o resultado dos exames do pré-natal, colhidos há três semanas: teste treponêmico reagente e VDRL 1:32. Ela não tem queixa nenhuma. Conduza o atendimento: estadie a doença com as perguntas que decidem o número de doses, prescreva o que tem de ser aplicado hoje e nesta unidade, explique à paciente o que ela vai sentir nas próximas horas, resolva a parceria e a notificação, e escreva no cartão o que a maternidade vai precisar ler daqui a dois meses.
