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Quem fica, quem vai — e quem volta
Estratificação de risco gestacional e critérios de encaminhamento ao pré-natal de alto risco
Oito listas federais respondem "para onde vai esta gestante", e elas não concordam: duas delas divergem frontalmente sobre se a mulher que melhorou volta a ser de risco habitual, e a caderneta que ela carrega tem duas caixas para três estratos.
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção Primária à Saúde. Departamento de Ações Programáticas. Manual de gestação de alto risco. Brasília: Ministério da Saúde; 2022. 692 p. ISBN 978-65-5993-312-9
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Atenção ao pré-natal de baixo risco. 1. ed. rev. Brasília: Editora do Ministério da Saúde; 2013. 318 p. (Cadernos de Atenção Básica, n. 32). ISBN 978-85-334-2043-4
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção Primária à Saúde. Departamento de Gestão do Cuidado Integral. Caderneta brasileira da gestante. Brasília: Ministério da Saúde; 2026. 108 p. ISBN 978-85-334-2907-9
Brasil. Ministério da Saúde. Portaria GM/MS nº 5.349, de 12 de setembro de 2024. Altera a Portaria de Consolidação GM/MS nº 6, de 28 de setembro de 2017, para dispor sobre o financiamento da Rede Alyne. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 13 set. 2024, Seção 1, p. 88
Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Faculdade de Medicina, TelessaúdeRS-UFRGS; Rio Grande do Sul, Secretaria Estadual da Saúde. Protocolos de regulação ambulatorial: obstetrícia (pré-natal de alto risco). 4. ed. Porto Alegre: TelessaúdeRS-UFRGS; 2024. 49 p.
Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Faculdade de Medicina, TelessaúdeRS-UFRGS; Rio Grande do Sul, Secretaria Estadual da Saúde. Protocolos de regulação ambulatorial: obstetrícia (pré-natal de alto risco). 3. ed. Porto Alegre: TelessaúdeRS-UFRGS; 2023. 41 p.
Santa Catarina. Secretaria de Estado da Saúde. Superintendência de Atenção à Saúde. Diretoria de Atenção Primária à Saúde. Instrumento de estratificação de risco gestacional. 3. ed. Florianópolis: SES/SC; 2025. 23 p.
Minas Gerais. Secretaria de Estado de Saúde; Associação de Ginecologistas e Obstetras de Minas Gerais; Associação Mineira de Medicina de Família e Comunidade; Universidade Federal de Minas Gerais, Faculdade de Medicina. Guia de atenção à saúde da gestante: critérios para a estratificação de risco e acompanhamento da gestante. Nota técnica conjunta. Belo Horizonte: SES/MG; out. 2024. 23 p.
Brasil. Ministério da Saúde; Sociedade Beneficente Israelita Brasileira Albert Einstein. Nota técnica para organização da rede de atenção à saúde com foco na atenção primária à saúde e na atenção ambulatorial especializada: saúde da mulher na gestação, parto e puerpério. São Paulo: Hospital Israelita Albert Einstein: Ministério da Saúde; 2019. 56 p.
Paraná. Secretaria de Estado da Saúde. Diretoria de Atenção e Vigilância em Saúde. Linha guia de atenção materno infantil: volume I — gestação. 8. ed. Curitiba: SESA/PR; 2022. 82 p.
Responda antes de ler
Você atende, numa unidade básica de saúde, uma gestante de 38 anos na terceira gestação, com 13 semanas por ultrassonografia precoce. Ela é hipertensa desde antes de engravidar e usa dois anti-hipertensivos em dose plena; a pressão de hoje é 138 por 86 mmHg em duas medidas. O índice de massa corporal é 34 kg/m². Na segunda gestação teve pré-eclâmpsia grave com 35 semanas, com bom desfecho materno e neonatal. Está assintomática, sem cefaleia, alteração visual, epigastralgia, sangramento ou perda de líquido. O ambulatório de gestação de alto risco de referência fica na cidade vizinha e a última vaga liberada para a unidade demorou cerca de seis semanas. Qual é a conduta correta quanto ao local de acompanhamento e ao que se faz hoje?
O paciente que você vai ver
Quinta-feira. Faltam vinte para as oito na unidade básica de um município de cento e dez mil habitantes. É dia de pré-natal e a agenda tem dezoito nomes. A enfermeira Odaleia separou três pastas numa pilha à parte, em cima da mesa, e disse a frase que abre este capítulo: "essas três eu não sei o que fazer". O ambulatório de gestação de alto risco de referência fica na cidade vizinha, a cinquenta e dois quilômetros, atende às terças e quintas, e a última vaga que saiu para esta unidade demorou quarenta e um dias.
A primeira pasta é de uma mulher de 38 anos, na terceira gestação, com 13 semanas por ultrassonografia precoce. Hipertensa desde antes de engravidar, em uso de dois anti-hipertensivos, com pressão hoje de 138 por 86 mmHg, sem queixa nenhuma. Índice de massa corporal de 34. Na segunda gestação teve pré-eclâmpsia grave com 35 semanas e o bebê nasceu bem. Ela está ótima. Pela régua federal ela é de alto risco por três caminhos independentes, e nenhum dos três produz sintoma.
A segunda pasta é de uma mulher de 17 anos, primeira gestação, 22 semanas, saudável. Não estudou além do sexto ano, mora com uma tia, o pai da criança sumiu, e ela pesa 49 quilos com 1,58 m de altura. A enfermeira quer encaminhar. O interno da semana passada também queria. São quatro fatores de risco escritos na ficha, e nenhum deles, sozinho ou somado aos outros, tira essa gestante da unidade básica. O endereço do pré-natal não muda; muda a densidade do que se faz nele. Encaminhá-la custa a vaga de outra pessoa e custa a ela quatro horas de ônibus por consulta.
A terceira pasta é a que não tem resposta óbvia. Uma mulher de 29 anos, 31 semanas, encaminhada ao alto risco na 19ª semana por anemia com hemoglobina de 8,1 g/dL. Foi atendida lá duas vezes, tomou ferro parenteral, e a hemoglobina de anteontem voltou 11,4 g/dL. Ela trouxe um papel do ambulatório com quatro palavras escritas à mão: "anemia corrigida, seguir UBS". Não há laudo, não há plano, não há data de retorno, não há telefone. A pergunta que a enfermeira faz é literal: ela voltou a ser de risco habitual?
A resposta depende de qual documento federal você abrir, e os dois estão em vigor. Num deles, o manual federal de 2022, a estratificação é declarada absoluta: identificado o maior risco, a classificação não retrocede dentro daquela gestação. No outro, o caderno federal de 2013, a mulher referenciada retorna ao nível primário assim que a situação estiver resolvida. Nenhum dos dois revoga o outro. Nenhum dos dois cita o outro. E a caderneta que a mulher carrega na bolsa, editada em 2026, tem duas caixas para marcar: habitual e alto risco.
Enquanto isso, a agenda anda. Chega a quarta ficha, de uma mulher de 24 anos com 33 semanas que veio buscar resultado de exame e diz, de passagem, que está com dor de cabeça desde ontem e que "a vista está embaçando". A pressão é 148 por 96 mmHg. Ela não está na pilha separada, porque ninguém separou. E é a única das quatro que não pode esperar vaga nenhuma.
Esse é o assunto do capítulo, e ele não é uma lista. É uma decisão que se toma quatro vezes por manhã, com consequência de fila, de deslocamento e de vínculo, e que quase nenhum currículo ensina. O que vem a seguir: por que existem três estratos e não dois; quais fatores decidem sozinhos e quais só somam; quantas listas de critérios coexistem em documento federal vigente e em que pontos elas se contradizem, com as contas; o que se faz enquanto a vaga não chega; o que o encaminhamento precisa levar escrito e o que a contrarreferência precisa trazer de volta; quais condições saem do ambulatório e vão para a urgência; e a pergunta da terceira pasta, que é a mais difícil de todas.
Quem adoece disso
Comece pelo número que dimensiona o serviço, porque é dele que sai a fila. O parâmetro brasileiro de planejamento reserva 15% das gestações ao alto risco e deixa os outros 85% com o risco habitual e o intermediário juntos: ele está na nota técnica de organização da rede que o Ministério da Saúde publicou com o Hospital Israelita Albert Einstein em 2019, e o instrumento catarinense de 2025 o repete sem alterar um dígito. Numa unidade que acompanha cento e vinte gestantes por ano, isso são dezoito encaminhamentos ao ambulatório especializado — cerca de um a cada três semanas, e não um por manhã.
O número anterior era outro. O Caderno de Atenção Básica nº 32, de 2013, escreve que o pré-natal de alto risco abrange cerca de 10% das gestações. Entre 10% e 15% há cinco pontos percentuais, o que na mesma unidade de cento e vinte gestantes significa seis mulheres por ano — a diferença entre dimensionar doze vagas e dimensionar dezoito. Os dois documentos continuam em vigor, e nenhum dos dois explica de onde tirou o próprio número.
A nota técnica conjunta de Minas Gerais, de outubro de 2024, tenta juntar as duas coisas e produz uma conta que não fecha. Ela escreve que a prevalência estimada de gestantes de risco habitual é de aproximadamente 85% e que a de alto risco representa de dez a 15% do total. Some pelo teto: 85 mais 15 é 100, e não sobra nada para o risco intermediário, que é justamente o estrato que o documento passa as páginas seguintes descrevendo. Some pelo piso: 85 mais 10 é 95, e o intermediário fica com 5%. Ou seja, o mesmo par de números faz o estrato do meio valer entre zero e uma em cada vinte gestantes, conforme a ponta da faixa que se leia.
O documento federal que criou os três estratos não traz percentual nenhum. O manual de 2022 nomeia risco habitual, médio e alto, indica onde cada uma é acompanhada, e em nenhum momento estima quantas mulheres caem em cada faixa. A consequência é prática: o gestor que precisa contratar horas de obstetra para o ambulatório não encontra o parâmetro no documento que define o serviço — encontra-o numa nota técnica de 2019 que o próprio Manual lista na bibliografia e não reproduz no texto.
Há um dado do Manual que muda a leitura de tudo isso, e ele está escondido num item de lista. O sétimo dos dez pontos da estratificação atribui à sinergia entre fatores o aumento do risco individual quando eles se acumulam. O nono afirma outra coisa, mais desconfortável: embora a mortalidade materna seja proporcionalmente maior entre as mulheres com risco identificado, a maior parte dos óbitos maternos ocorre em mulheres sem antecedentes de risco obstétrico. As duas frases convivem e as duas são verdadeiras — a estratificação concentra o cuidado onde a probabilidade é maior, e ainda assim a maioria absoluta das mortes acontece fora do grupo concentrado, porque o grupo não concentrado é muito maior.
Traduza isso para a manhã de quinta-feira. Se 15% das gestantes são de alto risco e é aí que a mortalidade se concentra proporcionalmente, mas a maioria dos óbitos vem dos 85% restantes, então encaminhar bem não é o que salva a maioria das mulheres: o que salva a maioria é a consulta de rotina feita direito nas dezoito da agenda. Encaminhar mal, por outro lado, tem dois custos somados — a que precisava não chega a tempo, e a que não precisava perde a unidade que ficava a dez minutos de casa.
Falta o número que quase ninguém procura, que é o do dinheiro, porque ele explica a fila melhor do que qualquer queixa. A Portaria GM/MS nº 5.349, de 12 de setembro de 2024, fixou o custeio federal do Ambulatório de Gestação e Puerpério de Alto Risco em R$ 100.000,00 por mês para cada estabelecimento homologado. Se um ambulatório assim cobre uma região com três mil partos por ano e 15% delas são de alto risco, ele precisa dar conta de quatrocentas e cinquenta gestantes por ano, com um custeio federal de um milhão e duzentos mil reais no mesmo período — cerca de dois mil e seiscentos reais por gestante acompanhada, para uma gestação inteira, sem contar a contrapartida de estado e município, que a mesma portaria declara obrigatória. A vaga é escassa porque é cara, e é por isso que a decisão de quem ocupa uma é uma decisão clínica com consequência para terceiros.
Por que acontece o que acontece
O objeto deste capítulo não é uma doença: é uma decisão, e ela tem mecanismo próprio. Estratificar risco gestacional é responder a três perguntas encadeadas, sempre nesta ordem — esta mulher precisa de hospital agora? Se não, ela precisa de um serviço que a unidade básica não tem? Se não, o que muda na intensidade do cuidado que ela já recebe? Inverter a ordem é o erro mais caro do internato, porque quem começa pela lista de fatores de risco acaba agendando consulta para quem precisava de maternidade.
A primeira pergunta tem natureza diferente das outras duas. Urgência não é um estrato mais alto: é outra categoria. O estrato responde onde a gestante será acompanhada ao longo dos meses; a urgência responde o que acontece nas próximas horas. Uma mulher pode ser de risco habitual em toda a gestação e precisar de avaliação hospitalar imediata numa tarde — e voltar, depois, ao mesmo pré-natal de risco habitual, se a avaliação afastar o problema. Por isso as listas de urgência dos documentos brasileiros são listas separadas, e não a coluna mais à direita da tabela de estratificação. A consequência prática é que elas se consultam em momentos diferentes da consulta: a lista de urgência se percorre com a paciente ainda contando a história, e a de estratificação, depois do exame, com a caderneta aberta.
A segunda pergunta é a que define o encaminhamento, e o critério que a governa é a assimetria de recurso. Encaminha-se ao pré-natal de alto risco quando a condição exige algo que a atenção primária não tem — um exame que a unidade não pede, uma droga que a farmácia básica não dispensa, uma vigilância fetal que exige equipamento, um julgamento sobre o momento e a via do parto. Não se encaminha porque a condição é grave em abstrato, nem porque o interno está inseguro. Insegurança do profissional é indicação de teleconsultoria e de discussão com o preceptor, não de vaga. Existe um teste de uma frase que operacionaliza isso, e ele funciona inclusive para as condições que nenhuma lista prevê: diga em voz alta o que o outro serviço vai fazer por esta mulher que você não faz aqui. Se a resposta nomear um objeto — um Doppler, uma insulina em esquema que a unidade não titula, uma decisão sobre cerclagem, uma programação de cesariana, uma avaliação anestésica —, o encaminhamento tem critério. Se a resposta for uma qualidade — "olhar com mais cuidado", "acompanhar mais de perto", "ter mais experiência" —, o que está faltando não é um serviço, é intervalo de consulta, equipe multiprofissional e discussão de caso, e as três coisas existem na atenção primária.
A terceira pergunta é a razão de existir do estrato intermediário, e é o ponto que os documentos brasileiros descrevem pior. Há um conjunto grande de mulheres para as quais a resposta certa não é "vá para outro serviço", mas também não é "volte em um mês como todo mundo". Para elas o que muda é o intervalo entre consultas, a presença da equipe multiprofissional, a busca ativa quando faltam e a discussão do caso com quem entende mais — sem que a mulher perca o vínculo com o território. O Manual de 2022 nomeia esse estrato e o descreve em duas linhas; o Caderno de 2013 não o nomeia e resolve o mesmo problema chamando as condições de "fatores que permitem o pré-natal na atenção básica"; e a caderneta de 2026 o descreve em linguagem comum, como situações em que o cuidado precisa ser mais próximo, sem lhe dar nome. Três documentos federais, três formas de dizer a mesma coisa, e nenhum campo para registrá-la. A consequência dessa lacuna é previsível e acontece todos os dias: como não há onde escrever "intermediário", o estrato do meio some no registro e a gestante é anotada como habitual — e o que se perde não é a etiqueta, é a justificativa do intervalo mais curto, que a equipe seguinte não vai encontrar em lugar nenhum.
O quarto mecanismo é o que mais gera erro de conduta: encaminhar não transfere responsabilidade. O primeiro dos dez pontos do Manual é uma frase de uma linha — não há alta da gestante da atenção primária — e ela não é retórica administrativa. Ações que só existem no território não migram para o ambulatório: a visita domiciliar do agente comunitário, a busca ativa da faltosa, a vacinação, a consulta odontológica, o preenchimento da caderneta, o conhecimento sobre quem mora com ela e sobre quem a leva ao ônibus. O ambulatório de alto risco resolve o problema clínico específico; ele não conhece a casa. Quando a unidade dá alta ao encaminhar, essas ações simplesmente deixam de acontecer, e o dano aparece semanas depois como abandono.
O quinto mecanismo explica por que a lista não é uma soma e por que alguns estados a transformaram em soma mesmo assim. O Manual afirma que a estratificação é absoluta: predomina o critério de maior risco, e um único fator de alto risco basta, sem que a ausência dos outros compense. Ao mesmo tempo afirma que há sinergia entre fatores. As duas coisas são compatíveis se você entender o que cada uma decide — o critério predominante decide o destino, e a sinergia decide a intensidade dentro do destino. O instrumento catarinense de 2025 converteu isso em pontos justamente para operacionalizar a segunda parte: as condições de alto risco valem dez pontos e sozinhas já classificam, enquanto os fatores leves valem dois e só mudam alguma coisa quando se acumulam.
O sexto mecanismo é o da fila, e é o que separa o capítulo de um exercício de tabela. Entre a decisão de encaminhar e a primeira consulta no ambulatório existe um intervalo real, de semanas a meses, durante o qual a gestante continua sendo cuidada por quem a encaminhou — e continua gestando. A regulação não trabalha com sim ou não: trabalha com prioridade. O instrumento catarinense descreve três níveis usados pelo médico regulador e adverte, em destaque, que somar fatores não promove ninguém automaticamente ao topo da fila: a preferência vai para as histórias clínicas com maior probabilidade de descompensação em curto prazo. A consequência operacional é que a qualidade do texto do encaminhamento é parte da conduta clínica, e não burocracia: encaminhamento vago é encaminhamento devolvido, e devolução recomeça a contagem. Há um segundo efeito da fila que costuma passar despercebido e é igualmente clínico: enquanto a vaga não sai, a gestante continua sendo responsabilidade de quem a encaminhou, e tudo o que puder ser iniciado na atenção primária precisa ser iniciado — porque parte das condições que motivam encaminhamento tem janela terapêutica mais curta do que o tempo de espera. Quando isso acontece, esperar não adia o tratamento: cancela a indicação dele.
O sétimo mecanismo é a volta, e aqui o capítulo encontra seu ponto cego. Todo sistema de referência precisa de um caminho de retorno, ou entope. Se nenhuma gestante que melhorou volta ao acompanhamento simples, o ambulatório acumula, ano após ano, todas as mulheres que já entraram nele — e a fila de quem está entrando cresce por acúmulo, não por incidência. Os documentos brasileiros divergem frontalmente sobre isso, e a divergência não é acadêmica: é o que determina se o serviço satura em dois anos ou não. Vale fazer a conta grosseira, porque ela explica o que se vê na porta do ambulatório. Um serviço que recebe quinze gestantes novas por mês e não devolve nenhuma acumula cento e oitenta mulheres no primeiro ano; como cada gestação dura pouco menos de nove meses, o esvaziamento acontece por parto, e não por decisão clínica — ou seja, a única forma de sair do ambulatório passa a ser dar à luz. Isso funciona enquanto a entrada é menor que a saída obstétrica, e trava assim que deixa de ser. A discussão inteira, com as posições rotuladas e suas datas, está na seção de divergências deste capítulo.
Como se apresenta de verdade
Classificar risco é definir quem acompanha, o que precisa acontecer e como manter continuidade. Você deve reconhecer urgência antes do estrato, distinguir encaminhamento de transferência de responsabilidade e reclassificar quando surgem novos dados. A gestante de alto risco continua precisando das tarefas que a atenção primária realiza melhor.
Percurso clínico: Escolher urgência e manter vínculo
Classifique risco como informação dinâmica. Diferencie emergência, avaliação prioritária e referência programada, descrevendo o achado que determina o prazo. Encaminhar não encerra o cuidado da atenção básica: confirme acesso, resultados e responsabilidades compartilhadas.
A que tem um fator que decide sozinho, e está ótima
É a apresentação mais frequente do alto risco e a que menos parece. Hipertensão arterial crônica, diabetes prévio à gestação, cardiopatia, nefropatia, doença autoimune, doença falciforme, neoplasia, transplante, cirurgia bariátrica, epilepsia, antecedente de tromboembolismo: são condições que a mulher trouxe de casa, que ela já convive há anos, e sobre as quais ela costuma dizer, com razão, que está controlada. Nenhuma delas produz sintoma na consulta de pré-natal, e é exatamente por isso que se perde.
A regra que governa esse grupo é o critério predominante: um único fator de alto risco basta, e a ausência de todos os outros não compensa. A gestante de 22 anos, magra, primeira gestação, sem nenhuma intercorrência, que faz uso de levotiroxina por hipotireoidismo clínico, é de alto risco pelo Quadro 4 do Manual de 2022 — e a leitura instintiva do interno, que soma a juventude, a magreza e a ausência de queixas, chega ao resultado oposto.
Também pertencem a este grupo os antecedentes obstétricos que decidem sozinhos, e que só aparecem se alguém perguntar: abortamento habitual com três ou mais perdas consecutivas, aborto tardio ou morte perinatal, prematuridade anterior, acretismo placentário, isoimunização Rh em gestação anterior, e cesariana prévia com incisão clássica ou corporal — que é uma informação que a mulher não tem, porque ninguém lhe disse qual foi o corte no útero, e que se recupera pedindo o resumo de alta ou o descritivo cirúrgico. A cicatriz da pele não responde à pergunta: a incisão de pele pode ser transversa com histerotomia corporal por baixo.
O manejo específico de cada uma dessas condições na gestação pertence aos capítulos próprios desta apostila — hipertensão crônica, cardiopatia e tromboembolismo, tireoidopatias, anemia, hepatopatias, restrição de crescimento fetal, isoimunização Rh. O diabetes prévio é a exceção: a gestação da mulher com diabetes prévio não tem capítulo escrito neste nível, e o que dela tem dono está em três lugares. A insulina da gestante com diabetes tipo 1, do planejamento ao pós-parto, é do capítulo “Quem fabrica a insulina agora é ele”, na apostila de Endocrinologia; a troca do tratamento não insulínico pela insulina em quem tem diabetes tipo 2 e engravida ou planeja engravidar, do capítulo “Diabetes tipo 2 na unidade básica”, na mesma apostila; e o capítulo “Diabetes mellitus gestacional”, desta apostila, trata do diabetes que aparece ou é descoberto na gestação, não do que a mulher trouxe de casa. O que pertence aqui é uma coisa só: reconhecer que a presença da condição, e não a sua gravidade aparente hoje, é o que define o destino do pré-natal.
A que tem três fatores que só somam, e que o interno quer encaminhar
É a segunda pasta da manhã e o erro mais caro em termos de fila. Idade abaixo de 15 ou acima de 35 anos, baixa escolaridade, ocupação com esforço físico excessivo, situação conjugal insegura, insuficiência de apoio familiar, altura abaixo de 1,45 m, índice de massa corporal entre 30 e 39, tabagismo de baixo grau, uso ocasional de drogas, situação de rua, gestação resultante de estupro, gestante negra: são todos fatores reconhecidos, todos escritos nos documentos, e nenhum deles, sozinho ou somado aos demais da mesma categoria, tira a gestante da atenção primária.
O instrumento catarinense diz isso com todas as letras e é o único que o faz de forma explícita: a soma dos pontos da categoria de características individuais e condições sociodemográficas não configura encaminhamento ao ambulatório de alto risco, com uma única exceção — a obesidade grau 3, com índice de massa corporal igual ou maior que 40. Fora dela, a categoria inteira muda intensidade e não muda endereço.
O que muda, então? Intervalo de consulta mais curto, presença da equipe multiprofissional, discussão do caso, busca ativa quando falta, e as ações que dependem do território e não do ambulatório. Para a adolescente, especificamente, três coisas: perguntar quem decide as coisas da vida dela, marcar o retorno em prazo que ela consiga cumprir, e garantir a conversa a sós ao menos uma vez.
Há um erro simétrico e igualmente comum, que é tratar o inverso como equivalente. Encaminhar quem não precisa custa a vaga de quem precisa; não encaminhar quem precisa custa a gestante. Os dois erros não são simétricos em dano, e é por isso que a ordem de checagem começa pelo que é mais grave.
A que muda de estrato no meio do caminho
A terceira apresentação é a que quebra o hábito de classificar na inscrição. Um número grande de condições que definem alto risco aparece durante a gestação, não antes dela: restrição de crescimento fetal confirmada, desvios da quantidade de líquido amniótico, insuficiência istmocervical diagnosticada na gestação atual, trabalho de parto pré-termo inibido, anemia grave, diabetes gestacional com necessidade de insulina, pré-eclâmpsia grave ou precoce, isoimunização Rh, diagnóstico de HIV na gestação, infecção urinária de repetição, sífilis terciária ou resistente ao tratamento com penicilina benzatina, toxoplasmose aguda com suspeita de repercussão fetal, placenta prévia confirmada após 22 semanas.
O segundo dos dez pontos do Manual de 2022 responde à pergunta operacional: a estratificação é contínua e se faz em todos os atendimentos, desde a primeira consulta. O terceiro responde à pergunta que o interno costuma fazer em seguida: o compartilhamento do cuidado pode ser solicitado em qualquer momento do pré-natal, independentemente de estar no início ou próximo ao termo. Não existe "já está com 34 semanas, não adianta mais encaminhar" — o que adianta muda, mas a decisão sobre o local do parto é justamente uma das que o ambulatório especializado toma.
Repare no que isso exige da consulta de rotina, e é aqui que este capítulo depende do capítulo de rotina do pré-natal desta apostila: sem série de pressão, sem curva de peso com eixo, sem altura uterina anotada e sem exames lidos, a mudança de estrato não tem como ser percebida. A reclassificação não é uma pergunta que se responde de cabeça; é uma leitura da grade da caderneta contra a lista.
A que chegou tarde, e a que chegou com tudo junto
A quarta apresentação combina duas situações que se parecem na sala e diferem na conduta. A primeira é a captação tardia: a mulher que aparece com 26 ou 30 semanas, sem pré-natal nenhum, muitas vezes com um fator de alto risco que ninguém identificou. Aqui a decisão de encaminhar é imediata e sem discussão, mas ela não substitui nada: as tarefas da primeira consulta acontecem hoje, na unidade, e o encaminhamento sai junto. Esperar a vaga para começar é o erro que este capítulo mais quer impedir.
A segunda é a gestante que traz três ou quatro condições ao mesmo tempo — obesidade grau 3, hipertensão crônica, diabetes prévio e antecedente de pré-eclâmpsia. Aqui a tentação é aritmética: quanto mais fatores, mais alta a prioridade na fila. O instrumento catarinense adverte explicitamente contra isso, e a advertência é contraintuitiva o bastante para vir em destaque no próprio documento: a combinação de fatores implica maior complexidade, mas não necessariamente a prioridade mais alta na regulação. Quem sobe na fila é quem tem história clínica com maior probabilidade de descompensar em curto prazo, e não quem tem mais itens marcados.
O protocolo gaúcho de 2024 chega ao mesmo princípio por outro caminho e lista quais casos furam a fila: acretismo placentário suspeito, tromboembolismo prévio, hipertireoidismo, anemia grave, diabetes anterior à gravidez, pré-eclâmpsia na gestação atual ou na anterior, insuficiência istmocervical e comorbidade materna grave. É uma lista curta de urgência ambulatorial dentro da lista longa de encaminhamento, e conhecê-la muda o que você escreve no campo de justificativa.
A que parece ambulatorial e é hospitalar
A quinta apresentação é a que mata. São situações que chegam pela porta da consulta agendada, sem aparência de emergência, e que não admitem fila: crise hipertensiva, sinais premonitórios de eclâmpsia, eclâmpsia, hemorragia, suspeita de trombose venosa profunda, abdome agudo, pielonefrite, prurido gestacional com icterícia, anemia grave, hipertermia sem foco em vias aéreas superiores, vômitos incoercíveis refratários e gestação com 41 semanas ou mais.
Dois itens dessa lista passam despercebidos justamente porque não doem. O primeiro é a idade gestacional de 41 semanas ou mais, que é encaminhamento hospitalar e não consulta marcada — a conduta a partir daí é avaliação de vitalidade fetal e discussão de indução, e isso não espera vaga; quem trata do manejo é o capítulo desta apostila sobre assistência ao trabalho de parto. O segundo é prurido com icterícia, cuja hipótese é colestase intra-hepática da gestação, com risco fetal e sem espaço para retorno em quinze dias; o diagnóstico e a conduta estão no capítulo de hepatopatias da gestação.
O terceiro item que engana é o mais frequente de todos: os sinais premonitórios de eclâmpsia dispensam tanto a hipertensão grave quanto a proteinúria para valerem como critério. A gestante da quarta ficha da cena — cefaleia e alteração visual com pressão de 148 por 96 mmHg — não atinge o corte de crise hipertensiva de 160 por 110 mmHg, e ainda assim é a única das quatro que sai da unidade hoje para o hospital. O reconhecimento e o manejo da pré-eclâmpsia e da eclâmpsia estão nos capítulos próprios; o que este capítulo cobra é a ordem em que as duas perguntas se fazem — primeiro a emergência, depois o estrato.
A que volta — e o papel que ela traz na mão
A sexta apresentação é a menos ensinada e a que este capítulo assume por inteiro, porque não tem dono em nenhum outro lugar do nível. É a gestante que foi atendida no ambulatório de alto risco e reaparece na unidade básica, quase sempre com um dos três cenários: com um papel de contrarreferência bem escrito, com um bilhete de quatro palavras, ou sem papel nenhum.
Antes de decidir qualquer coisa, note o que a apresentação clínica dela realmente é: uma mulher assintomática cuja informação está fora da sala. O que decide a conduta não está no exame físico de hoje — está no que o serviço especializado concluiu, no que ele prescreveu, no que ele quer que seja monitorado e em quando ele quer vê-la de novo. Sem isso, o pré-natal continua acontecendo, mas às cegas.
Existem três variantes que precisam ser distinguidas, porque significam coisas diferentes. A primeira é a alta do ambulatório com a condição resolvida — a anemia corrigida, o tratamento concluído. A segunda é o cuidado compartilhado em curso, com consultas intercaladas entre os dois serviços, que é o desenho previsto pelo Manual e o mais comum na prática. A terceira é o abandono silencioso: a mulher não conseguiu ir, ou foi uma vez e não voltou, e ninguém percebeu — o serviço especializado não faz busca ativa, e a unidade achou que ela estava sendo cuidada lá.
A terceira variante é a mais perigosa e a mais fácil de detectar, porque só depende de uma pergunta feita em toda consulta: você chegou a ir? A resposta muda a conduta inteira, e é a única das três que não aparece em papel nenhum.

Como fechar o diagnóstico
Investigar, aqui, é levantar o dado que decide o destino. Quase todo ele vem da anamnese, do papel que a mulher traz na bolsa e de exames que já foram pedidos com outra finalidade — nada neste bloco exige recurso que a unidade básica não tenha.
A ordem de checagem, e por que ela não pode ser invertida
A sequência tem quatro perguntas, e a ordem é a parte útil. Primeira: há alguma situação da lista de urgência agora? Se há, a decisão está tomada e nenhuma outra pergunta importa — estabilize e transfira. Segunda: há alguma condição que sozinha define alto risco, nas quatro categorias? Se há, encaminhe, mantendo o pré-natal também na unidade. Terceira: há fatores de risco que não decidem sozinhos? Se há, o pré-natal segue na atenção primária com intervalo mais curto e apoio. Quarta: nada disso? Risco habitual, com reclassificação na próxima consulta.
A inversão da ordem produz dois erros distintos, e vale nomeá-los porque têm assinatura diferente no prontuário. Começar pela lista de fatores de risco produz o agendamento de consulta especializada para quem precisava de maternidade — o erro da quarta ficha da cena. Começar pela impressão geral produz o encaminhamento por insegurança, que é o erro da segunda pasta.
Uma advertência sobre as quatro categorias, porque elas se repetem em todos os documentos brasileiros e são o único andaime de memória que funciona: características individuais e condições sociodemográficas; história reprodutiva anterior; condições clínicas prévias à gestação; e intercorrências clínicas ou obstétricas da gestação atual. Percorrer as quatro em voz alta, na ordem, é o que impede de esquecer a terceira, que é onde mora a maioria das condições de alto risco.
A anamnese que produz o estrato
A história reprodutiva anterior encaminha mais gente do que qualquer outra categoria, e em silêncio: a gestante está bem hoje, o antecedente decide, e a anamnese que o revela é a pior colhida das quatro. "Teve pressão alta na outra gravidez" não é um dado: é o começo de uma pergunta. Pressão alta antes de engravidar ou que apareceu depois da vigésima semana? Teve convulsão, internação em unidade intensiva, plaquetas baixas? O bebê nasceu com quantas semanas, e nasceu porque entrou em trabalho de parto ou porque alguém decidiu tirar? Ele nasceu vivo? Pesou quanto? Essas seis perguntas separam um antecedente que não muda nada de um antecedente que classifica como alto risco.
O mesmo vale para "teve um aborto". Quantos, em sequência, com quantas semanas cada um? Abortos precoces, até 12 semanas, até dois consecutivos, são fator que mantém a gestante na atenção primária; três ou mais consecutivos configuram abortamento habitual e classificam como alto risco; e um único aborto tardio, acima de 12 semanas, já é critério de alto risco pelo Quadro 4 do Manual de 2022. Três respostas diferentes para a mesma frase inicial.
E vale para a cesárea. "Fiz duas cesáreas" é fator de risco intermediário; "fiz uma cesárea de urgência com trinta semanas num hospital pequeno" pede a pergunta seguinte, que é sobre o tipo de incisão uterina, porque cesariana prévia com incisão clássica, corporal ou longitudinal é critério de alto risco isolado. Peça o resumo de alta. Se não houver, registre que a informação não foi obtida — isso muda o plano de parto e precisa estar escrito.
Sobre as condições clínicas prévias, a pergunta que rende mais é a mais banal: que remédio a senhora toma, todos os dias, mesmo os que não são de médico? A resposta encontra hipotireoidismo em uso de levotiroxina, epilepsia em uso de anticonvulsivante, lúpus, asma em uso contínuo, transtorno mental grave em uso de psicotrópico — condições que a mulher não considera doença porque estão controladas há anos, e que os documentos classificam como alto risco justamente porque a gestação as descompensa ou porque o tratamento delas muda na gestação.
O que já está na pasta e ninguém leu
Três resultados da rotina mudam o estrato, e ler cada um deles contra o valor de referência do laboratório não basta: é preciso lê-los contra a lista. O hemograma: hemoglobina abaixo de 9 g/dL é critério de alto risco pelo Quadro 4; entre 9 e 11 g/dL é anemia leve a moderada, fator intermediário. A glicemia: quando a dosagem do primeiro trimestre alcança, sozinha, o patamar diagnóstico de diabetes fora da gravidez, o que ela mostra é um diabetes anterior que ninguém tinha visto — condição de alto risco, e não diabetes gestacional, que obedece a outra lógica e tem capítulo próprio nesta apostila. E o exame de urina com bacteriúria de repetição, porque três ou mais episódios de infecção urinária baixa, ou dois ou mais de pielonefrite, são critério de alto risco.
A ultrassonografia entra por dois motivos, e nenhum deles é rotina de vigilância. O primeiro é a corionicidade na gestação múltipla, que muda o estrato: dicoriônica-diamniótica é fator intermediário pelo Manual de 2022, monocoriônica e multifetal são alto risco. O segundo é a inserção placentária depois de 22 semanas, porque placenta prévia confirmada nesse prazo é critério de alto risco — antes disso o achado é frequente e migra, e o capítulo de placenta prévia desta apostila explica por quê.
A caderneta é a quarta fonte, e a mais desperdiçada. A grade de acompanhamento diz quantas consultas houve, quando começou o pré-natal, se houve série de pressão antes da vigésima semana e se alguém já classificou o risco antes — e o campo de classificação de risco da caderneta federal de 2026 tem duas caixas, habitual e alto risco, sem opção para o estrato do meio. Se a mulher é de risco intermediário, o campo não a representa; o que se faz na prática é escrever o estrato por extenso no campo de observações, e vale fazer isso desde a primeira consulta.
O que o encaminhamento precisa levar escrito
O encaminhamento é um documento clínico e é avaliado por um médico regulador que nunca viu a paciente. Os protocolos de regulação do TelessaúdeRS-UFRGS definem, condição por condição, um conteúdo descritivo mínimo, e a lista comum a todos é curta: idade gestacional, com o método usado para datar — data da última menstruação ou ultrassonografia precoce, com a data do exame; a condição materna ou fetal que motiva o encaminhamento, descrita e não nomeada; os exames já realizados, com data e resultado; o laudo da ultrassonografia obstétrica quando houver; e o número da teleconsultoria, se o caso já foi discutido.
O instrumento catarinense acrescenta itens que o regulador usa para priorizar e que costumam faltar: paridade, data provável do parto, antecedentes obstétricos e clínicos, história clínica atual com os tratamentos já instituídos, dados relevantes do exame físico — peso anterior à gestação, peso atual, índice de massa corporal, pressão arterial, altura uterina — e os exames mais recentes, sobretudo os alterados.
Por condição, o conteúdo mínimo muda conforme o que decide a prioridade. Em hipertensão: se o diagnóstico é anterior ou posterior à gestação, duas medidas de pressão arterial com data, resultado de proteinúria de 24 horas ou da relação proteinúria/creatininúria em amostra, os anti-hipertensivos em uso, e os antecedentes obstétricos relevantes. Em isoimunização Rh: tipagem sanguínea e fator Rh, Coombs indireto com data e título, e ultrassonografia. O protocolo gaúcho registra, em letra própria, que a ausência de um exame não barra o pedido de consulta especializada onde o recurso não existe; indispensável mesmo é a descrição clínica.
Escreva a justificativa como uma frase que o regulador consiga usar. "Gestante de alto risco" não prioriza ninguém. "Trinta e oito anos, 13 semanas, hipertensão crônica há seis anos em uso de metildopa e nifedipino, com antecedente de pré-eclâmpsia grave com 35 semanas na gestação anterior" prioriza — e é a mesma informação, escrita para quem vai ler.
A teleconsultoria, e o que ela resolve antes de a vaga existir
Há um recurso intermediário entre atender sozinho e encaminhar, e o internato quase nunca aprende a usá-lo. A teleconsultoria com especialista responde à dúvida que motivaria o encaminhamento sem consumir a vaga, e em muitos casos resolve o caso na própria unidade. O instrumento catarinense descreve o serviço estadual e registra que as dúvidas são respondidas em até 72 horas por especialista da área — três dias, contra os quarenta e um da cena de abertura.
Dois pontos importam. O primeiro é que a teleconsultoria não é pré-requisito para o acesso ao ambulatório: o documento catarinense afirma que se trata de serviço consultivo e que não é obrigatória para a regulação. Ou seja, ela não é mais um degrau na fila — é um atalho paralelo. O segundo é que o número da teleconsultoria, quando existe, entra no conteúdo descritivo mínimo do encaminhamento e qualifica o pedido: mostra ao regulador que o caso já foi discutido e o que já foi tentado.
Use a teleconsultoria para três perguntas específicas, que são as que mais aparecem: esta condição, com este grau, é critério de encaminhamento neste estado? Este tratamento pode ser iniciado aqui enquanto a vaga não sai? Este achado exige avaliação hoje ou pode aguardar? As três têm resposta rápida e as três mudam a conduta da manhã.
O que a contrarreferência precisa trazer de volta
Aqui a bibliografia brasileira fica rala, e vale dizer isso com essas palavras: não há, em documento federal vigente, uma lista de conteúdo mínimo da contrarreferência do pré-natal equivalente à que existe para o encaminhamento. O Caderno de 2013 exige um sistema eficiente de referência e contrarreferência e determina que a gestante encaminhada leve consigo o cartão com o motivo do encaminhamento e os dados clínicos de interesse — e diz que o mesmo deve ocorrer no sentido inverso, sem detalhar o quê. O Manual de 2022 dedica o quinto dos dez pontos à comunicação de dupla via entre as equipes, também sem lista.
A linha-guia do Paraná é o documento que chega mais perto de fechar essa lacuna, ao atribuir explicitamente à equipe do ambulatório especializado a decisão sobre a necessidade de retorno da gestante ao serviço, e ao descrever o compartilhamento do plano de cuidado como a ação que permite à equipe da atenção primária assumir o seguimento com segurança. É uma peça que os documentos federais não têm.
Na falta de lista oficial, o que segue é leitura própria, construída a partir do que o encaminhamento exige no sentido de ida — e está registrado como leitura, não como citação. Uma contrarreferência útil traz cinco coisas: o diagnóstico ao qual o serviço chegou, com o que o sustenta; o que foi tratado e com quê, incluindo o que a mulher está tomando hoje; o que precisa ser monitorado na unidade básica, com o parâmetro e o intervalo; a data do próximo retorno ao ambulatório, ou a informação explícita de que não haverá; e o nome e o contato de quem escreveu. O bilhete de quatro palavras da cena falha nas cinco.
Se a contrarreferência não veio, ela não deixa de ser necessária: passa a ser tarefa de quem recebeu a paciente. Ligue para o serviço, peça o resumo por escrito, registre a tentativa no prontuário e mantenha o estrato anterior até ter a informação — nunca desestratifique por ausência de papel.
As listas brasileiras lado a lado, e onde elas se contradizem
Existem hoje, em documento federal vigente e sem revogação, oito listas que respondem à pergunta "para onde vai esta gestante": três no Manual de Gestação de Alto Risco de 2022 (os Quadros 1, 2 e 4), três no Caderno de Atenção Básica nº 32 de 2013 (os itens 5.2.1, 5.2.2 e 5.2.3) e duas na Caderneta Brasileira da Gestante de 2026 (o campo de classificação de risco da página de identificação e a lista do item 4.1.6). Elas não concordam. As notas ao final deste bloco trazem cada discordância com a conta feita, e trazem também o que bateu certo, porque uma conferência bem-sucedida calibra a desconfiança tanto quanto uma que falha. A primeira tabela é a de uso na consulta; a segunda põe os documentos lado a lado; a terceira converte prazos e cortes.
- 1Pergunte primeiro pela urgência, não pelo estrato: há hemorragia, crise hipertensiva, sinais premonitórios de eclâmpsia, convulsão, febre sem foco em vias aéreas, suspeita de trombose venosa profunda, abdome agudo, pielonefrite, prurido com icterícia, anemia grave, vômitos incoercíveis refratários ou 41 semanas ou mais? Se sim, estabilize na unidade, contate o serviço de referência antes de mandar, e transfira — não agende consulta.
- 2Não sendo urgência, percorra as quatro categorias em busca de condição que decida sozinha — as individuais e sociodemográficas, o que houve nas gestações anteriores, as doenças que ela trouxe de casa e o que apareceu nesta gravidez.
- 3Havendo condição de alto risco, encaminhe pela regulação com o conteúdo descritivo mínimo escrito, inicie hoje tudo o que puder ser iniciado na unidade, e mantenha o pré-natal também na atenção primária — o cuidado é compartilhado, não transferido.
- 4Não havendo, verifique os fatores que não decidem sozinhos. O pré-natal segue na unidade, e o que muda é o intervalo entre consultas, a equipe multiprofissional, a discussão do caso e a busca ativa.
- 5Sem nenhum fator relevante, risco habitual na unidade — e a reclassificação se repete na consulta seguinte, porque a estratificação é contínua.
- 6Em qualquer cenário, escreva o estrato e a data no prontuário e na caderneta. Reavaliação que não diz nada não aconteceu.
- 7Se a gestante já foi encaminhada antes, acrescente uma pergunta que não aparece em fluxograma nenhum: ela chegou a ser atendida lá? O que ela responder pesa mais, na conduta de hoje, do que qualquer coisa que o exame físico revele.
A caderneta federal tem duas caixas para três estratos
A Caderneta Brasileira da Gestante de 2026 traz, na página de identificação, o campo "Classificação de risco" com duas opções: habitual e alto risco. Não há caixa para risco intermediário — o estrato que o Manual federal de 2022 criou, nomeou e descreveu em três colunas do Quadro 4. A gestante de risco intermediário, portanto, não tem onde ser registrada no documento que ela carrega: ou é marcada como habitual, e perde o registro do que justifica a vigilância maior, ou é marcada como alto risco, e passa a parecer, para qualquer serviço que abra a caderneta, alguém que ocupa vaga de ambulatório especializado. A saída prática enquanto isso não muda é escrever o estrato por extenso no campo de observações da consulta, com a data, desde a primeira. Vale notar que a mesma caderneta descreve, no item 4.1.6, seis situações em que "o cuidado precisa ser mais próximo" — que é o estrato intermediário em linguagem comum, sem o nome e sem campo.
| Fator | Estrato | Quem cuida | O que muda no cuidado | Por que este fator encaminha (ou não) |
|---|---|---|---|---|
| Hipertensão arterial crônica | Alto risco | Ambulatório especializado, compartilhado com a unidade básica | Revisão da segurança dos anti-hipertensivos, profilaxia de pré-eclâmpsia, vigilância de crescimento fetal, decisão sobre momento e via do parto | A gestação altera a farmacologia e o alvo pressórico, e a condição multiplica o risco de pré-eclâmpsia sobreposta — decisões que exigem recurso que a unidade básica não tem |
| Diabetes prévio à gestação (tipo 1 ou 2) | Alto risco | Ambulatório especializado, compartilhado | Ajuste terapêutico com meta glicêmica gestacional, rastreio de malformação, vigilância de crescimento e de líquido, programação do parto | O controle glicêmico do primeiro trimestre define risco de malformação, e o manejo exige titulação que não cabe no intervalo mensal da unidade |
| Antecedente de pré-eclâmpsia grave ou eclâmpsia | Classificação divergente dentro do próprio Quadro 4 (ver nota 2) | Encaminhar, com prioridade justificada | Profilaxia iniciada na unidade antes da vaga, vigilância pressórica em intervalo curto, avaliação de crescimento fetal | É o preditor isolado mais forte de recorrência, e a janela da profilaxia fecha antes de a vaga chegar — por isso a prescrição sai hoje e o encaminhamento vai junto |
| Idade materna isolada, sem outra condição | Intermediário | Unidade básica, com apoio | Intervalo de consulta mais curto e atenção à captação; nada mais muda de lugar | É marcador populacional de risco, não condição tratável — encaminhar consome vaga sem oferecer nada que a unidade não faça |
| Índice de massa corporal de 30 a 39 | Intermediário | Unidade básica, com apoio da equipe multiprofissional | Curva de ganho de peso na faixa correspondente, rastreio de diabetes gestacional, aferição com manguito adequado à circunferência do braço | Aumenta a probabilidade de várias condições sem, por si, exigir recurso especializado — o que muda é a densidade de vigilância |
| Índice de massa corporal igual ou maior que 40 | Alto risco | Ambulatório especializado, compartilhado | Avaliação anestésica antecipada, planejamento do parto, vigilância de crescimento fetal com limitação técnica da altura uterina | É a única condição da categoria de características individuais que, sozinha, encaminha — e o instrumento catarinense declara essa exceção de forma explícita |
| Duas ou mais cesáreas prévias, com incisão segmentar | Intermediário | Unidade básica, com apoio | Ultrassonografia atenta à inserção placentária, discussão antecipada da via de parto | O risco se concentra em acretismo e em rotura, e ambos dependem de achado de imagem — sem achado, a vigilância cabe na unidade |
| Cesariana prévia com incisão clássica, corporal ou longitudinal | Alto risco | Ambulatório especializado, compartilhado | Programação de cesariana eletiva antes do trabalho de parto, definição do local do nascimento | O risco de rotura uterina em trabalho de parto muda a via e o momento do parto — decisão que não se toma na unidade básica |
| Gestação gemelar dicoriônica-diamniótica | Intermediário pelo Manual de 2022; encaminhamento pelo Caderno de 2013 (ver nota 8) | Depende do documento adotado localmente | Ultrassonografia seriada, atenção a prematuridade e a crescimento discordante | A corionicidade é o que separa as duas leituras: monocoriônica tem complicação exclusiva e é alto risco em todos os documentos |
| Anemia com hemoglobina entre 9 e 11 g/dL | Intermediário | Unidade básica | Tratamento com ferro oral, reavaliação do hemograma, investigação da causa | É tratável com recurso da farmácia básica e responde em semanas — encaminhar antes de tratar troca a ordem das coisas |
| Anemia com hemoglobina abaixo de 9 g/dL | Alto risco | Ambulatório especializado, compartilhado | Avaliação de ferro parenteral, investigação de causa não carencial, planejamento transfusional para o parto | Abaixo desse corte a resposta ao ferro oral não chega a tempo do parto, e a decisão sobre via parenteral não é da unidade básica |
| Transtorno mental grave | Não consta do Quadro 4 em nenhuma coluna (ver nota 5) | Serviço especializado em saúde mental, somado ao acompanhamento obstétrico | Revisão do psicotrópico na gestação, plano de cuidado conjunto, atenção ao puerpério | É a porta que não é a obstétrica: encaminhar apenas ao ambulatório de alto risco deixa a condição principal sem quem a trate |
As listas federais lado a lado: mesma condição, documentos diferentes
| Condição | Caderno de Atenção Básica nº 32 (MS, 2013) | Manual de Gestação de Alto Risco (MS, 2022) | O que resulta na prática |
|---|---|---|---|
| Gestante que melhorou depois de encaminhada | Pode retornar ao nível primário quando a situação for considerada resolvida ou a intervenção já realizada (item 5.2) | A estratificação é absoluta: uma vez classificada como de maior risco, não volta a ser de risco habitual nessa gestação (Quadro 3, ponto 4) | Contradição frontal entre dois documentos federais vigentes; a caderneta de 2026 não tem campo que registre nenhuma das duas respostas |
| Suspeita de pré-eclâmpsia sem sinal de gravidade | Pressão arterial acima de 140 por 90 mmHg com proteinúria: encaminhamento à urgência/emergência obstétrica (item 5.2.3) | Hipertensão gestacional ou pré-eclâmpsia sem sinal de gravidade materno-fetal: risco intermediário, pré-natal na unidade básica com apoio (Quadro 4) | A mesma gestante vai ao hospital hoje por um documento e fica na unidade pelo outro; entre os dois cortes cabe toda a doença sem sinal de gravidade |
| Isoimunização Rh na gestação atual | Encaminhamento à urgência/emergência obstétrica (item 5.2.3) | Critério de alto risco ambulatorial (Quadro 4) e de identificação de maior risco (Quadro 1) | Emergência num documento, fila de ambulatório no outro — para um achado que se identifica por Coombs indireto de rotina |
| Anemia grave | Hemoglobina abaixo de 8 g/dL: urgência/emergência (item 5.2.3) | Hemoglobina igual ou menor que 7 g/dL: avaliação hospitalar (Quadro 2). Abaixo de 9 g/dL: alto risco ambulatorial (Quadro 4). Sem corte no Quadro 1 | Três cortes numéricos para o mesmo rótulo; a faixa de 7,1 a 7,9 g/dL é emergência por um e ambulatório pelo outro |
| Gestação gemelar | Gemelaridade, sem distinção de corionicidade: encaminhamento ao pré-natal de alto risco (item 5.2.2) | Dicoriônica-diamniótica: risco intermediário. Monocoriônica e multifetal: alto risco (Quadro 4) | A gestante com gêmeos dicoriônicos é encaminhada por um documento e mantida na unidade pelo outro |
| Restrição de crescimento intrauterino e oligoidrâmnio | Encaminhamento à urgência/emergência obstétrica (item 5.2.3) | Restrição confirmada e desvios da quantidade de líquido amniótico: alto risco ambulatorial (Quadro 4) | Mesma estrutura do caso da isoimunização: um achado de imagem que vira hospital ou fila conforme o documento |
| Três ou mais cesarianas prévias | Fator de risco que permite o pré-natal pela equipe de atenção básica (item 5.2.1) | Duas ou mais cesáreas prévias: risco intermediário, unidade básica com apoio (Quadro 4) | Os dois mantêm a gestante na unidade; muda o limiar e muda o rótulo, não o endereço — conferência que fecha no que importa |
| Idade gestacional de 41 semanas ou mais | A partir de 41 semanas confirmadas: urgência/emergência (item 5.2.3) | 41 semanas ou mais: avaliação em contexto hospitalar (Quadro 2) | Concordância integral — conferência que fechou |
| Hipertermia sem sinais de infecção de vias aéreas superiores | Temperatura axilar igual ou maior que 37,8 °C: urgência/emergência (item 5.2.3) | Temperatura axilar igual ou maior que 37,8 °C: avaliação hospitalar (Quadro 2) | Concordância integral, inclusive no décimo de grau — conferência que fechou |
Tabela de conversão do capítulo: prazos, cortes e o que cada número decide
| Número | Onde está | Conversão ou conta | O que ele decide |
|---|---|---|---|
| 180 dias de transição da Rede Cegonha | Portaria GM/MS nº 5.349/2024, artigo 840 | Publicada no Diário Oficial em 13 de setembro de 2024; 13/09/2024 mais 180 dias corridos é 12 de março de 2025 | Até essa data, os estabelecimentos já habilitados pela Rede Cegonha mantiveram o valor de custeio anterior; depois dela, a habilitação passa a ser a da Rede Alyne |
| R$ 100.000,00 por mês por ambulatório | Portaria GM/MS nº 5.349/2024, artigo 812 | Doze meses somam R$ 1.200.000,00; num ambulatório que cubra 450 gestantes de alto risco por ano, isso dá cerca de R$ 2.667 por gestante acompanhada, sem a contrapartida de estado e município | É o custeio federal do Ambulatório de Gestação e Puerpério de Alto Risco, e é o que explica por que a vaga é escassa |
| 15% de alto risco e 85% de risco habitual ou intermediário | Nota técnica MS/Einstein, 2019, reproduzida pelo instrumento catarinense de 2025 | Numa unidade com 120 gestantes por ano: 18 encaminhamentos ao ambulatório, cerca de um a cada três semanas | É o parâmetro de dimensionamento da rede — e não aparece no Manual federal de 2022, que criou os estratos |
| Cerca de 10% das gestações | Caderno de Atenção Básica nº 32, 2013, item 5.2.2 | Sobre as mesmas 120 gestantes: 12 encaminhamentos por ano, seis a menos que pelo parâmetro de 15% | É o percentual federal anterior, nunca revogado; a diferença entre os dois é de 50% no número de vagas a contratar |
| 72 horas de resposta da teleconsultoria | Instrumento de estratificação, SES/SC, 3ª ed., 2025 | Três dias corridos, contra semanas ou meses de espera pela consulta presencial | É o caminho paralelo que responde à dúvida sem consumir vaga — e o documento afirma que não é pré-requisito para a regulação |
| 4 dias de antecedência para cancelar | Instrumento de estratificação, SES/SC, 3ª ed., 2025 | Quatro dias corridos antes da data marcada | É o prazo para cancelar a solicitação no sistema de regulação quando a gestante não puder comparecer, permitindo o reaproveitamento da vaga por outra |
| Índice de massa corporal de 39 e de 40 | Manual de Gestação de Alto Risco, 2022, Quadros 1 e 4 | Numa mulher de 1,60 m, IMC 39 são 99,8 kg e IMC 40 são 102,4 kg — a faixa entre os dois cortes tem 2,6 kg | Separa risco intermediário de alto risco, e a leitura literal do Quadro 4 deixa essa faixa sem estrato (ver nota 4) |
Nota 1 — quantas listas coexistem. Contando apenas documento federal vigente e sem revogação, são oito listas que respondem "para onde vai esta gestante": Quadros 1, 2 e 4 do Manual de 2022; itens 5.2.1, 5.2.2 e 5.2.3 do Caderno de Atenção Básica nº 32 de 2013; e, na Caderneta de 2026, o campo de classificação de risco e a lista do item 4.1.6. Nenhum desses documentos revoga outro, e a conferência que mais surpreende é negativa: o Manual de 2022 não cita o Caderno de 2013 em nenhum ponto da Parte 1 — a única ocorrência de "n. 32" no texto do Manual é número de volume de periódico na bibliografia. Já o protocolo estadual mais novo consultado, do TelessaúdeRS-UFRGS de 2024, cita o Caderno de 2013 na bibliografia com acesso registrado em 15 de junho de 2024, o que sustenta a vigência dele por citação, e não apenas por ausência de substituto.
Nota 2 — o mesmo antecedente em duas colunas da mesma tabela. No Quadro 4 do Manual de 2022, a coluna de médio risco da linha "história reprodutiva anterior" traz "histórico de pré-eclâmpsia grave ou eclâmpsia em gestação anterior", e a coluna de alto risco da mesma linha traz "pré-eclâmpsia grave; síndrome HELLP". É a mesma mulher em duas classes da mesma tabela — e a coluna de médio risco é a que inclui a eclâmpsia, que é a forma mais grave. O Quadro 1 do mesmo manual dá um terceiro recorte, "pré-eclâmpsia precoce (<34 semanas), eclâmpsia ou síndrome HELLP", que introduz um corte de idade gestacional que o Quadro 4 não usa. Conta: para a gestante que teve pré-eclâmpsia grave com 36 semanas na gestação anterior, sem HELLP, o Quadro 1 não a classifica (a doença não foi precoce), o Quadro 4 a classifica como médio risco por uma linha e como alto risco por outra. Um documento, três leituras, três destinos.
Nota 3 — duas idades sem classe. Ainda no Quadro 4, a coluna de risco habitual diz "idade entre 16 e 34 anos" e a de médio risco diz "idade menor que 15 anos ou maior que 35 anos". Conta: as idades inteiras de 16 a 34 são 19 valores, cobertos pelo risco habitual; as de 14 para baixo e de 36 para cima estão no médio risco; e 15 e 35 anos exatos não pertencem a nenhuma das duas descrições. São duas idades órfãs, e uma delas — 35 anos — é a que mais aparece em consulta. Some-se a isso que o Quadro 1 do mesmo manual usa "idade <15 anos e >40 anos": a faixa de 36 a 40 anos é médio risco pelo Quadro 4 e não é critério nenhum pelo Quadro 1, cinco idades inteiras de diferença. E o conectivo do Quadro 1 é "e", não "ou" — literalmente, exigiria ter menos de 15 e mais de 40 anos ao mesmo tempo; o Caderno de 2013 repete o mesmo erro de conectivo no item 5.2.1.
Nota 4 — os cortes de índice de massa corporal não coincidem entre os dois quadros. O Quadro 1 usa "obesidade com IMC >40" e "baixo peso no início da gestação (IMC <18)". O Quadro 4 usa "IMC <18,5 ou 30 kg/m² a 39 kg/m²" no médio risco e "IMC ≥40 kg/m²" no alto risco. Contas: o valor exato de 40 é alto risco pelo Quadro 4 e não é critério pelo Quadro 1, que exige mais de 40; a faixa de 18,00 a 18,49 é médio risco pelo Quadro 4 e não existe no Quadro 1 — numa mulher de 1,60 m, isso são 46,1 kg a 47,4 kg, uma faixa de 1,3 kg. E a leitura literal do Quadro 4 deixa a faixa de 39,00 a 39,99 fora dos dois estratos, porque não é "30 a 39" nem "≥40": nos mesmos 1,60 m, são 2,6 kg de peso sem classificação. A convenção clínica de obesidade graus I e II, que vai de 30 a 39,9, fecha essa lacuna na prática — mas o documento não escreve 39,9, escreve 39.
Nota 5 — o transtorno mental grave desapareceu do quadro que define o local. O Quadro 1 lista "transtornos mentais" entre as condições clínicas prévias e "transtorno mental" entre as intercorrências da gestação atual. Conferência por busca exata no texto extraído do Quadro 4: a palavra "mental" ocorre zero vez nas três colunas, assim como "psiquiátrico", "psicose", "bipolar" e "esquizofrenia". As duas únicas menções à saúde mental no Quadro 4 são "transtorno depressivo ou de ansiedade leve" e "depressão e ansiedade leves sem necessidade de tratamento medicamentoso", ambas no médio risco. A gestante com psicose ou transtorno bipolar só entra pela cláusula genérica de fechamento da coluna de alto risco, "qualquer patologia clínica que repercuta na gestação ou necessite de acompanhamento clínico especializado". Na prática: encaminhe-a ao serviço de saúde mental além do acompanhamento obstétrico, porque a porta obstétrica não trata a condição principal.
Nota 6 — um escore que não muda destino nenhum. O Quadro 4 gradua etilismo e tabagismo em dois graus, remete a escores de dependência em nota de rodapé, e coloca os dois graus no mesmo estrato: "etilismo com indicativo de dependência" e "etilismo sem indicativo de dependência" estão ambos no médio risco, e o mesmo vale para "tabagismo com indicativo de dependência elevada" e "tabagismo com baixo grau de dependência". Para drogas ilícitas a gradação funciona: "uso ocasional" é médio risco e "dependência e/ou uso abusivo" é alto risco. Conta: são três substâncias em dois graus, seis células no total; cinco caem no médio risco e uma no alto. Aplicar o escore de dependência muda o destino em um caso entre seis. Vale registrar que o Quadro 1 do mesmo manual lista "dependência ou uso abusivo de tabaco, álcool ou outras drogas" como condição de maior risco, sem essa distinção — mais uma discordância entre os dois quadros. Método: a coluna de cada item foi atribuída pela largura de quebra de linha no texto extraído, que separa a coluna estreita do médio risco (quebra em até 36 caracteres) da coluna larga do alto risco (quebra entre 39 e 44), e não pela ordem de leitura.
Nota 7 — um item repetido dentro da mesma célula. Na coluna de alto risco da linha de história reprodutiva anterior do Quadro 4, "isoimunização Rh em gestação anterior" aparece duas vezes, separada por três outros itens. A célula lista oito entradas e descreve sete condições distintas. Não muda conduta, e vale conhecer porque quem tenta decorar a lista contando itens chega a um número errado.
Nota 8 — a pielonefrite tem três destinos no mesmo manual. O Quadro 1 lista "infecção urinária alta" como condição de identificação de maior risco. O Quadro 4 põe "1 episódio de pielonefrite" no médio risco e "≥2 episódios de pielonefrite" no alto risco. E o Quadro 2 lista "suspeita/diagnóstico de pielonefrite, infecção ovular ou outra infecção que necessite de internação hospitalar" entre as situações de avaliação hospitalar. A oração final é ambígua: se o "que necessite de internação" qualificar só "outra infecção", toda pielonefrite é hospitalar, e aí o primeiro episódio é simultaneamente médio risco e hospital. Se qualificar as três, a pielonefrite ambulatorial fica no médio risco. O documento não desfaz a ambiguidade, e a leitura clínica segura é tratar suspeita de pielonefrite na gestação como avaliação hospitalar — o capítulo de infecção urinária desta apostila desenvolve o porquê.
Nota 9 — sete situações de emergência sumiram entre 2013 e 2022. Contagem por item das duas listas: o item 5.2.3 do Caderno de 2013 tem 20 entradas e o Quadro 2 do Manual de 2022 tem 13. Sete situações que o Caderno manda para a urgência não constam do Quadro: suspeita de pré-eclâmpsia com pressão acima de 140 por 90 mmHg, amniorrexe prematura, isoimunização Rh, trabalho de parto prematuro, vômitos inexplicáveis no terceiro trimestre, restrição de crescimento intrauterino e oligoidrâmnio. Nenhuma entrada nova foi acrescentada em sentido contrário. Conta: 13 sobre 20 é 0,65 — a lista federal de emergência obstétrica encolheu 35% em nove anos, e quatro das sete que saíram reaparecem no Quadro 4 como critério de ambulatório. Amniorrexe prematura e trabalho de parto prematuro não reaparecem em lugar nenhum da Parte 1 do Manual, e isso é omissão relevante: as duas são obviamente hospitalares, e quem estudar apenas o documento de 2022 não as encontra em lista nenhuma.
Nota 10 — as hemorragias estão nas duas pontas do mesmo manual. O Quadro 2 lista "hemorragias na gestação (incluindo descolamento prematuro de placenta, placenta prévia)" como avaliação hospitalar imediata, e o Quadro 4 lista "hemorragias na gestação atual" como critério de alto risco ambulatorial, três linhas acima de "placenta prévia (diagnóstico confirmado após 22 semanas)". O mesmo termo, dois destinos, no mesmo documento. A leitura que funciona na sala é temporal e não está escrita: sangramento ativo é hospital agora; antecedente de sangramento já resolvido, e placenta prévia assintomática confirmada por imagem, são ambulatório de alto risco. Registro que essa é leitura própria, construída para tornar as duas frases compatíveis, e não citação do manual.
Nota 11 — os percentuais por estrato não fecham. O Caderno de 2013 diz que o pré-natal de alto risco abrange cerca de 10% das gestações. A nota técnica MS/Einstein de 2019 e o instrumento catarinense de 2025 usam 15% de alto risco e 85% de risco habitual ou intermediário, somando exatamente 100 com o intermediário embutido nos 85. A nota técnica conjunta de Minas Gerais de outubro de 2024 escreve 85% de risco habitual e "de dez a 15%" de alto risco: pelo teto da faixa, 85 mais 15 são 100 e não sobra nada para o risco intermediário, que o próprio documento descreve nas páginas seguintes; pelo piso, 85 mais 10 são 95 e o intermediário fica com 5%. O mesmo par de números faz o estrato do meio valer entre zero e uma em cada vinte gestantes. E o Manual federal de 2022, que criou os três estratos, não traz percentual algum — o parâmetro de dimensionamento está na nota técnica de 2019 que ele lista na própria bibliografia e não reproduz no texto.
Nota 12 — o que fechou. Vale registrar as conferências que deram certo, porque calibram a desconfiança. Os dois documentos federais concordam integralmente no corte de hipertermia (temperatura axilar igual ou maior que 37,8 °C, na ausência de sinais de infecção de vias aéreas superiores) e no de idade gestacional (41 semanas ou mais). Dentro do Manual de 2022, a cadeia do diabetes gestacional é coerente entre os quadros: sem medicação e sem repercussão fetal é médio risco, com insulina ou com repercussão fetal é alto risco no Quadro 4, e o Quadro 1 nomeia como maior risco justamente o uso de insulina. A cadeia do abortamento também fecha: até dois abortos precoces consecutivos no médio risco, três ou mais no alto risco, e o Quadro 1 repete "três ou mais em sequência". Fica uma lacuna nessa cadeia: o diabetes gestacional controlado com medicamento oral, sem repercussão fetal, não é "sem medicação" nem "com necessidade de insulina" — nenhum dos dois estratos o descreve, e ele é comum. Na dúvida, o critério que resolve é o segundo: se há repercussão fetal, é alto risco; se não há, o cuidado segue na unidade com apoio, e o capítulo de diabetes mellitus gestacional desta apostila trata do manejo.
Nota 13 — o corte de pressão que separa os dois documentos. O Caderno de 2013 manda à urgência a suspeita de pré-eclâmpsia com pressão arterial acima de 140 por 90 mmHg, medida após cinco minutos de repouso, sentada. O Manual de 2022 reserva a avaliação hospitalar para a crise hipertensiva com pressão igual ou maior que 160 por 110 mmHg, e classifica a pré-eclâmpsia sem sinal de gravidade como risco intermediário, com pré-natal na unidade básica. Conta: são 20 mmHg de diferença na sistólica e 20 na diastólica, e dentro dessa janela cabe a gestante com 150 por 95 mmHg e proteinúria — hospital hoje por um documento, consulta na unidade pelo outro. Há ainda uma diferença de sinal no valor exato: 160 por 110 é crise hipertensiva pelo Manual, que usa "igual ou maior", e não é pelo Caderno, que usa "maior que". O que decide na sala não é o corte, é o sintoma: os sinais premonitórios de eclâmpsia valem com ou sem hipertensão grave e com ou sem proteinúria, e é por eles que se manda ao hospital. Os critérios diagnósticos e os sinais de gravidade da pré-eclâmpsia estão no capítulo próprio desta apostila.
A conduta, hora a hora
Perguntar primeiro se há condição urgente. Sem urgência, aplicar critérios de encaminhamento e informar o motivo concreto, resultados e medidas já feitas. Manter o acompanhamento compartilhado e confirmar acesso à referência. Retorno sem resposta ou encaminhamento recusado exige comunicação e revisão do plano; não devolver à paciente a tarefa de conciliar regras contraditórias entre serviços.
Marco 1 — a primeira consulta: o estrato sai escrito, com data
A estratificação não é uma impressão que fica na cabeça de quem atendeu: é um produto da consulta, com registro. Percorra as quatro categorias em voz alta, na ordem, e escreva o resultado em três lugares — no prontuário, no campo de observações da caderneta e na ficha da unidade. A caderneta federal de 2026 só oferece duas caixas, habitual e alto risco, de modo que a gestante de risco intermediário precisa do estrato escrito por extenso; sem isso, o próximo profissional que abrir o documento vai ler "habitual" e tratar como habitual. Escreva também o que sustenta o estrato, em uma linha: não "alto risco", mas "alto risco por hipertensão crônica em uso de dois anti-hipertensivos". A diferença aparece quatro meses depois, quando alguém precisar decidir se o motivo ainda existe.
Prescrição- Registrar o estrato (habitual, intermediário ou alto risco) com a data e o fator que o define, no prontuário e na caderneta
- Registrar o método de datação da idade gestacional — data da última menstruação ou ultrassonografia precoce, com a data do exame — porque todo prazo posterior depende dele
- Solicitar o resumo de alta ou o descritivo cirúrgico quando houver cesárea anterior de circunstância desconhecida, e registrar se a informação não foi obtida
Marco 2 — o dia em que o critério aparece: o encaminhamento sai na mesma consulta
Identificado o critério, o encaminhamento é escrito e enviado no mesmo dia, e não no retorno. Isso vale igualmente para o critério presente desde a primeira consulta e para o que apareceu na décima — o terceiro dos dez pontos do Manual de 2022 afirma que o compartilhamento do cuidado pode ser solicitado em qualquer momento do pré-natal, no início ou próximo ao termo. Escreva a justificativa como uma frase clínica que priorize, com idade gestacional, condição, tempo de doença, medicamentos em uso e antecedentes — o regulador nunca viu a paciente e decide a fila com o que estiver no papel. Um encaminhamento com diagnóstico genérico, sem exames confirmatórios e sem os tratamentos já instituídos é devolvido, e devolução recomeça a contagem do tempo.
Prescrição- Preencher o conteúdo descritivo mínimo: paridade, data da última menstruação, idade gestacional, data provável do parto, antecedentes obstétricos e clínicos, história atual com o que já foi tratado, dados do exame físico e os exames mais recentes
- Anexar o laudo da ultrassonografia obstétrica quando houver, e o número da teleconsultoria se o caso já foi discutido
- Marcar o retorno na própria unidade antes de a gestante sair da sala, sem esperar a resposta da regulação
Marco 3 — enquanto a vaga não chega: tratar é tarefa da unidade, não do ambulatório
Este é o marco que separa o pré-natal que funciona do que apenas encaminha. Os protocolos de regulação do TelessaúdeRS-UFRGS trazem a instrução explicitamente em várias condições: a gestante com hipertireoidismo deve iniciar tratamento na atenção primária enquanto aguarda o encaminhamento; a com suspeita ou diagnóstico de toxoplasmose deve iniciar tratamento imediato enquanto aguarda a consulta especializada; e os casos com indicação de tromboprofilaxia recebem a prescrição do anticoagulante enquanto aguardam o atendimento no pré-natal de alto risco. O princípio é geral e se aplica a tudo o que cabe na unidade: a fila não suspende a medicina. A profilaxia de pré-eclâmpsia com ácido acetilsalicílico e cálcio é o exemplo mais consequente, porque a janela dela fecha por volta da vigésima semana e não espera vaga nenhuma — a indicação, a dose e as datas estão no capítulo de prevenção de pré-eclâmpsia desta apostila.
Prescrição- Iniciar hoje, na unidade, todo tratamento que a condição exija e que a farmácia básica dispense, registrando o início no prontuário e no encaminhamento
- Encurtar o intervalo de consulta enquanto a vaga não sai, com data marcada e não com "retorno se piorar"
- Acionar a teleconsultoria para as três perguntas que ela resolve: se a condição é critério de encaminhamento no estado, se o tratamento pode ser iniciado na unidade e se o achado exige avaliação hoje
- Registrar a ausência do medicamento na farmácia quando for o caso — a receita sai mesmo assim, e a falta precisa ficar escrita
Marco 4 — a piora durante a espera: atualizar o pedido, não abrir outro
A gestante que piora enquanto aguarda não precisa de um encaminhamento novo: precisa que o existente seja atualizado, porque a fila é priorizada pelo conteúdo e não pela data de entrada. O instrumento catarinense de 2025 descreve o procedimento e usa a palavra "obrigatoriamente": ocorrendo piora do quadro clínico ou resultado de novos exames alterados durante a espera, a atenção primária deve solicitar a devolução do encaminhamento para inserir as novas informações e reenviá-lo à regulação. Abrir uma segunda solicitação, além de não priorizar, duplica a paciente na fila e atrapalha o reaproveitamento das vagas. O mesmo documento pede o cancelamento com pelo menos quatro dias de antecedência quando se sabe que a gestante não vai comparecer — quatro dias é o prazo que permite chamar outra pessoa.
Prescrição- Solicitar a devolução do encaminhamento existente, inserir o dado novo com data e reenviar — nunca abrir uma segunda solicitação para a mesma gestante
- Cancelar a solicitação com pelo menos quatro dias de antecedência quando a gestante avisar que não poderá comparecer
- Reavaliar, a cada piora, se o caso deixou de ser ambulatorial: piora que atinge a lista de urgência sai da fila e vai para o hospital hoje
Marco 5 — a primeira consulta no serviço especializado: o que muda na unidade
Quando a vaga sai, o erro característico é a unidade parar. Não para: o desenho previsto é de consultas intercaladas entre os dois serviços, e as ações que só existem no território permanecem — vacinação, suplementação, consulta odontológica, visita domiciliar, preenchimento da caderneta, busca ativa. O que muda é que passa a existir uma segunda fonte de decisão, e que a unidade precisa saber o que ela decidiu. Pergunte à gestante o que foi dito, peça para ver os papéis que ela trouxe, e registre no prontuário o que veio e o que faltou. Combine com ela, em voz alta, que ela traz tudo do ambulatório para a unidade e leva a caderneta da unidade para o ambulatório: na prática, a caderneta é o único documento que circula nos dois sentidos.
Prescrição- Manter o calendário de consultas na unidade, intercalado com o do serviço especializado, e anotar as duas agendas na caderneta
- Registrar em toda consulta se a gestante compareceu ao ambulatório e o que foi dito lá
- Manter na unidade as ações que o ambulatório não faz: vacinas, suplementação, saúde bucal, visita domiciliar e busca ativa da faltosa
Marco 6 — a que não chegou a ir: o encaminhamento que virou abandono
É o desfecho mais silencioso e o mais frequente entre os que dão errado, e ele não aparece em documento nenhum porque não há quem o registre: o serviço especializado não faz busca ativa de quem nunca compareceu, e a unidade supôs que ela estivesse sendo cuidada. A detecção custa uma pergunta por consulta — a senhora chegou a ir? — e a resposta negativa exige investigar por quê, porque as causas têm soluções diferentes: a vaga não saiu, saiu e a gestante não foi avisada, saiu em data impossível, o transporte não existe, ela não tinha com quem deixar o filho, ou ela não entendeu que precisava ir. Quatro dessas seis se resolvem na própria unidade.
Prescrição- Perguntar em toda consulta, à gestante já encaminhada, se ela foi atendida no serviço especializado — e registrar a resposta
- Diante de resposta negativa, identificar a causa e agir sobre ela: reenviar o pedido, confirmar contato atualizado, acionar o transporte sanitário ou pactuar data possível
- Acionar o agente comunitário de saúde para busca ativa quando a gestante encaminhada faltar também na unidade
Marco 7 — a contrarreferência, e a decisão sobre quem volta
Aqui os documentos federais divergem, e a divergência está desenvolvida adiante com os dois lados e suas datas: o Caderno de 2013 admite o retorno ao nível primário quando a situação for considerada resolvida, e o Manual de 2022 afirma que a estratificação é absoluta e que a gestante não volta a ser de risco habitual naquela gestação. Enquanto a contradição não se resolve, três condutas são seguras porque não dependem de qual lado se escolha. A primeira: não desestratifique por ausência de papel — se a contrarreferência não veio, ligue, peça por escrito, registre a tentativa e mantenha o estrato anterior. A segunda: quem decide sobre o retorno ao ambulatório é o serviço especializado, e a linha-guia do Paraná atribui essa decisão explicitamente a ele. A terceira: mesmo mantendo o estrato, a intensidade prática do acompanhamento pode ser ajustada ao que existe hoje — o que não se faz é apagar o registro do que existiu.
Prescrição- Exigir a contrarreferência por escrito com cinco itens (leitura própria, na falta de lista federal): diagnóstico com o que o sustenta, o que foi tratado e o que ela toma hoje, o que monitorar na unidade com parâmetro e intervalo, a data do próximo retorno ao ambulatório ou a informação de que não haverá, e quem escreveu, com contato
- Manter o estrato registrado quando a informação do serviço especializado não chegar, e registrar a tentativa de obtê-la
- Ajustar intensidade — intervalo de consulta, exames, vigilância — sem apagar do prontuário o estrato e o motivo que o gerou
- Confirmar, a cada consulta do terceiro trimestre, que a maternidade vinculada continua apta à situação de risco atual da gestante
Marco 8 — a urgência, que atravessa todos os marcos anteriores
A qualquer momento da linha do tempo acima, uma situação da lista de urgência cancela tudo o que estiver em curso. Não importa se o encaminhamento está na fila, se a gestante é de risco habitual, se ela acabou de vir do ambulatório ou se a pressão está abaixo de 160 por 110 mmHg: a pergunta da emergência se faz antes da pergunta do estrato, e o destino é o hospital ou o centro obstétrico, hoje. Duas obrigações se somam a isso e são de quem manda: contatar previamente o serviço de referência, para que a chegada não seja uma surpresa, e conferir que a maternidade vinculada é apta à situação de risco daquela gestante — a lei que rege a vinculação prévia exige aptidão, e o capítulo de rotina do pré-natal desta apostila trata dela em detalhe.
Prescrição- Estabilizar na unidade o que for estabilizável, contatar o serviço de referência antes do transporte e enviar a caderneta com a gestante
- Escrever no encaminhamento o achado que motivou, os valores medidos com horário e a conduta já tomada
- Registrar o episódio no prontuário da unidade e reavaliar o estrato depois do desfecho hospitalar, porque a maioria dessas situações muda a classificação
Como saber se está funcionando
Reavaliar, neste capítulo, não é acompanhar uma doença: é auditar uma decisão que já foi tomada. Os sete parâmetros abaixo são os que dizem se a estratificação continua valendo, se o encaminhamento chegou a algum lugar e se o cuidado compartilhado está de fato compartilhado.
Esperado: Existe, no prontuário de hoje, uma frase que diz o estrato e o que o sustenta, ainda que seja idêntica à da consulta anterior. A estratificação é contínua: repeti-la não é redundância, é o registro de que alguém olhou.
Se não melhora: Consulta sem estrato registrado é consulta em que a reclassificação não aconteceu. Retome a grade da caderneta, percorra as quatro categorias e escreva o resultado hoje. Se as consultas anteriores também estiverem sem registro, isso não é falha da gestante nem da consulta de hoje: é falha do fluxo da unidade, e se resolve com combinado de equipe, não com esforço individual.
Esperado: Nenhuma condição nova das quatro categorias apareceu — pressão que subiu, altura uterina fora da faixa, exame alterado, infecção urinária repetida, relato de violência, ganho de peso que disparou ou estancou, movimentação fetal referida como diferente.
Se não melhora: Fator novo de alto risco encontrado: encaminhe hoje, com a justificativa escrita, e inicie na unidade o que for iniciável. Fator novo que não decide sozinho: encurte o intervalo, com data marcada, e registre por quê. Em qualquer dos dois casos, atualize o estrato na caderneta — a classificação da inscrição não vale mais.
Esperado: A gestante sabe se a vaga saiu, sabe a data se saiu, e compareceu se a data já passou. O prontuário registra a data do envio do pedido e a data da consulta especializada, quando houver.
Se não melhora: Vaga que não saiu depois de semanas: confira se o pedido não foi devolvido por dado faltante, complete o que faltar e reenvie. Vaga que saiu e a gestante não foi: identifique a causa antes de reagendar, porque reenviar sem resolver o transporte ou o horário produz a mesma falta. Piora clínica durante a espera: solicite a devolução do pedido, insira o dado novo e reenvie, em vez de abrir solicitação nova.
Esperado: Existe documento com o diagnóstico e o que o sustenta, o que foi tratado, o que a gestante está tomando, o que a unidade deve monitorar e quando ela retorna ao ambulatório. A caderneta traz as duas agendas.
Se não melhora: Sem papel nenhum, ou com bilhete de poucas palavras: registre no prontuário o que a gestante relata, ligue para o serviço e peça o resumo por escrito, e mantenha o estrato anterior enquanto a informação não chega. Não desestratifique por ausência de documento. Se a falta se repetir com várias gestantes do mesmo serviço, o problema é de fluxo entre os dois pontos da rede e precisa ser levado à coordenação, não resolvido paciente a paciente.
Esperado: Vacinas em dia, suplementação prescrita e em uso, consulta odontológica realizada ou agendada, caderneta preenchida na unidade, visita domiciliar acontecendo, agente comunitário sabendo quem é a gestante.
Se não melhora: Campos vazios nessas linhas em gestante de alto risco são a assinatura da alta informal — a unidade encaminhou e parou. Recupere o que for recuperável hoje e escreva o que não foi feito, com a data prevista. O primeiro dos dez pontos da estratificação existe exatamente para isso: não há alta da gestante da atenção primária, qualquer que seja o estrato.
Esperado: A maternidade escrita na caderneta é a mesma que a gestante saberia dizer se perguntada, e continua compatível com o estrato de hoje.
Se não melhora: Estrato que subiu depois da vinculação exige reconferir se aquela maternidade dá conta da situação de risco atual; quando não der, a transferência de vinculação precisa ser providenciada e escrita. Gestante que não sabe dizer o nome da maternidade tem o mesmo problema de quem não tem vinculação nenhuma, ainda que o campo esteja preenchido.
Esperado: Ela sabe dizer, com as próprias palavras, que continua sendo acompanhada na unidade, que o ambulatório é um serviço a mais e não um substituto, e o que fazer se algo acontecer fora do horário das duas agendas.
Se não melhora: A frase "agora eu faço pré-natal lá" é o sinal de que a mensagem não passou, e ela costuma preceder o abandono da unidade. Refaça a explicação com as duas agendas escritas lado a lado na caderneta, e nomeie o que só acontece na unidade. Se ela disser que parou de vir porque "lá já olha tudo", trate isso como achado clínico e não como escolha informada.
Onde o erro machuca
O dano: É a inversão que produz o dano mais grave e a que menos parece erro, porque a consulta segue organizada e educada. A gestante com cefaleia, escotomas e pressão de 148 por 96 mmHg não preenche o corte de crise hipertensiva, tem pré-natal de risco habitual e está andando pela unidade — e o raciocínio que começa pela lista de fatores de risco a classifica como intercorrência de médio risco e marca retorno. Os sinais premonitórios de eclâmpsia figuram como item próprio na lista de urgência, e o quadro os declara válidos independentemente de haver hipertensão grave ou proteinúria.
Como pegar a tempo: Faça da primeira pergunta uma pergunta fixa, dita antes de qualquer outra: há alguma situação da lista de urgência agora? Ela leva quinze segundos e tem treze itens no documento federal de 2022. Só depois de respondê-la com "não" é que a conversa sobre estrato começa. Um jeito prático de treinar: sempre que a resposta for "vou encaminhar ao ambulatório", diga em seguida, em voz alta, por que não é hospital hoje.
O dano: É a alta que ninguém dá por escrito e todo mundo dá na prática: o encaminhamento sai, a unidade marca o retorno para depois da consulta especializada, a consulta especializada demora, e a mulher passa dois meses sem ser vista por ninguém. O primeiro dos dez pontos da estratificação existe para impedir isso — não há alta da gestante da atenção primária, qualquer que seja o perfil de risco. O dano é específico e mensurável: as ações que só existem no território param. Vacina, suplementação, saúde bucal, visita domiciliar, busca ativa da faltosa e o conhecimento sobre a casa em que ela mora não migram para o ambulatório.
Como pegar a tempo: Marque o retorno na unidade antes de a gestante sair da sala, com data, e independentemente da resposta da regulação. Trate as duas agendas como intercaladas e anote as duas na caderneta. E use uma checagem simples em toda consulta de gestante encaminhada: vacinas, suplementação, odontologia, visita e caderneta — cinco campos que, vazios, denunciam a alta informal.
O dano: É o erro que transforma fila em desfecho. A gestante com critério de encaminhamento tem, quase sempre, algo que a unidade poderia ter iniciado no mesmo dia — a profilaxia de pré-eclâmpsia, o tratamento da toxoplasmose, o ajuste do anti-hipertensivo, a tromboprofilaxia, o ferro, o antibiótico. Os protocolos de regulação do Rio Grande do Sul dizem isso condição por condição, com a fórmula "iniciar tratamento na atenção primária enquanto aguarda o encaminhamento". Em algumas condições a janela terapêutica fecha antes de a vaga chegar, e aí o atraso não é administrativo: é perda de indicação.
Como pegar a tempo: Depois de escrever o encaminhamento, faça a pergunta seguinte antes de chamar o próximo nome: o que desta condição eu começo hoje? Se a resposta for "nada", confirme com teleconsultoria, que responde em até 72 horas no serviço estadual descrito pelo instrumento catarinense. E registre no próprio encaminhamento o que já foi iniciado — isso qualifica o pedido e evita que o regulador o devolva por falta de tratamento instituído.
O dano: A adolescente com baixa escolaridade, apoio familiar frágil e sobrepeso tem quatro fatores escritos na ficha e nenhum deles muda o endereço do pré-natal. Encaminhá-la custa duas coisas ao mesmo tempo: a vaga de outra gestante que tinha critério, e o vínculo dela com uma unidade que fica a dez minutos de casa, trocado por um ambulatório a cinquenta quilômetros. O instrumento catarinense é explícito ao dizer que a soma dos pontos da categoria de características individuais e condições sociodemográficas não configura encaminhamento, com a única exceção da obesidade grau 3.
Como pegar a tempo: Antes de encaminhar, responda a uma pergunta concreta: o que o ambulatório vai fazer por ela que eu não faço aqui? Se a resposta for "olhar com mais atenção", o problema não é de endereço — é de intervalo de consulta, de equipe multiprofissional e de discussão de caso, e as três coisas existem na unidade. Se a resposta nomear um exame, uma droga ou uma decisão sobre o parto, o encaminhamento tem critério.
O dano: "Gestante de alto risco, solicito avaliação" é um pedido que não prioriza ninguém e costuma voltar. O instrumento catarinense lista as características que fazem o encaminhamento ser devolvido — diagnóstico genérico ou não especificado, falta de exames confirmatórios, falta dos tratamentos já instituídos — e adverte que é nessa etapa que estão as maiores inconsistências, com atraso no agendamento como consequência. A devolução não é uma correção rápida: ela recomeça o tempo de espera de uma mulher que continua gestando.
Como pegar a tempo: Escreva a justificativa como uma frase clínica que sozinha explique a prioridade: idade, idade gestacional e método de datação, condição com tempo de doença, medicamentos em uso, exames com data e resultado, e o antecedente obstétrico relevante. Antes de enviar, releia o texto imaginando que você é quem vai decidir a fila sem nunca ter visto a paciente — se você não conseguiria priorizar com o que está escrito, ninguém conseguirá.
O dano: "Anemia corrigida, seguir UBS", escrito à mão, sem laudo, sem plano e sem data, não é uma contrarreferência: é um aviso. Tratá-lo como alta do alto risco produz dois danos. O primeiro é clínico: a causa da anemia pode não ter sido esclarecida, o tratamento pode precisar continuar, e o parto pode exigir preparo que ninguém programou. O segundo é de registro: apagado o estrato, some também o motivo que o gerou, e a próxima equipe que abrir a caderneta lê "risco habitual" sem nenhuma pista de que houve algo. Some-se a isso que os dois documentos federais divergem sobre a própria possibilidade de retorno.
Como pegar a tempo: Mantenha o estrato registrado enquanto a informação não chegar por escrito, e registre a tentativa de obtê-la — ligação, data, com quem falou. Ajuste a intensidade prática do acompanhamento ao que existe hoje, se for o caso, sem apagar do prontuário o estrato anterior e a razão dele. E se o bilhete sem conteúdo se repetir com várias gestantes do mesmo serviço, leve o padrão à coordenação: é problema de fluxo entre dois pontos da rede, e não se resolve uma paciente por vez.
O que dizer ao paciente e à família
As falas deste capítulo têm um denominador comum: quase todas explicam uma decisão administrativa que a mulher vai viver como sentença clínica. "Alto risco" é uma expressão que assusta, "encaminhamento" soa como transferência, e "a vaga vai demorar" soa como abandono. O trabalho da conversa é separar o que a palavra diz do que ela significa.
Explicando à gestante que ela vai passar a ser atendida em dois lugares
“"Vou te explicar uma coisa e quero que a senhora me interrompa se ficar confuso. A senhora tem pressão alta desde antes de engravidar, e isso faz com que a gestação precise de um olhar a mais — de um serviço que tem exames e recursos que aqui não tem. Então eu vou pedir uma vaga lá. O que eu não quero que a senhora entenda é que está saindo daqui: a senhora continua fazendo pré-natal comigo, nesta sala, com esta caderneta. Vai ser assim: uma consulta aqui, uma lá, intercaladas. Vacina, vitamina, dentista, a visita da agente de saúde na sua casa — tudo isso continua sendo aqui, porque lá eles não fazem. Eles cuidam da pressão e da decisão do parto. Eu cuido do resto e do conjunto."”
Não diga: Dizer "vou te encaminhar para o alto risco" e parar. A frase, sozinha, é ouvida como "o meu caso é grave" e como "não venho mais aqui" ao mesmo tempo. Diga a divisão de tarefas antes de dizer o nome do serviço.
A gestante que pede para ser encaminhada e não tem critério
“"Entendo o que a senhora está pedindo, e a preocupação faz sentido. Deixa eu te explicar como eu decido isso, porque não é sobre quem merece mais. Eu encaminho quando tem alguma coisa que o outro serviço faz e eu não faço — um exame, um remédio, uma decisão sobre o parto. No seu caso, tudo o que a senhora precisa hoje é feito aqui. O que eu vou mudar é o intervalo: em vez de a senhora voltar daqui a um mês, quero ver a senhora em duas semanas, e vou pedir para a nutricionista e para a enfermeira acompanharem junto. Se aparecer qualquer coisa que precise de lá, eu encaminho no mesmo dia — e a senhora vai saber, porque eu escrevo aqui na caderneta e mostro para a senhora."”
Não diga: Justificar pela fila ("não tem vaga", "tem gente pior"). Além de ser recusa de acesso disfarçada de explicação clínica, ensina a paciente a insistir. A razão verdadeira é que o encaminhamento não ofereceria nada a ela — diga isso.
Dizendo que a vaga vai demorar, sem prometer data e sem desistir
“"Vou ser honesto sobre o tempo: eu já mandei o pedido hoje, mas não sei quando a vaga sai — pode ser em semanas. Isso me incomoda e eu não vou fingir que não. Por isso a gente não vai ficar esperando parada: tudo o que dá para começar aqui, começa hoje. Esta receita é para a senhora tomar desde já; este exame eu já pedi; e a senhora volta aqui em três semanas, com data marcada, esteja a vaga saída ou não. Se piorar alguma coisa antes disso, a senhora vem — e nesse caso eu atualizo o pedido com a informação nova, o que costuma fazer a senhora subir na fila."”
Não diga: Prometer prazo que não depende de você, e a variante pior, que é dizer "quando sair a vaga a gente vê". A segunda transfere a responsabilidade do acompanhamento para um evento que você não controla.
A gestante de 17 anos que ouviu que ia ser encaminhada e não foi
“"A enfermeira te falou que talvez a senhora fosse para o hospital fazer o pré-natal, e eu quero explicar por que a gente decidiu que é melhor aqui. Não é porque a sua gravidez é menos importante — é porque tudo o que a senhora precisa a gente tem aqui, e lá fica longe, e eu não quero que a senhora deixe de vir por causa da distância e do ônibus. O que eu vou fazer é te ver mais vezes: em vez de uma vez por mês, de quinze em quinze dias. E tem uma coisa que eu peço: se a senhora não puder vir num dia, avisa a gente. A agente de saúde passa na sua casa. A senhora não some do nosso mapa."”
Não diga: Explicar a decisão com o vocabulário técnico dos estratos. A adolescente que ouve "a senhora é risco intermediário" entende que existe um risco e não entende que ele é gerenciável aqui. Fale do que muda: mais consultas, mesmo lugar.
Perguntando, em toda consulta, se ela chegou a ir
“"Antes de mais nada, uma pergunta chata: a senhora conseguiu ir naquela consulta do outro serviço? … Não conseguiu. Tudo bem, e obrigado por me dizer — muita gente não diz. Me ajuda a entender o que atrapalhou: a senhora foi avisada da data? O horário dava? Tinha como chegar lá? Com quem a senhora ia deixar o menino? … Certo. Então o problema não é a senhora: é que marcaram às sete da manhã num lugar a cinquenta quilômetros. Isso tem conserto e é comigo. Vou reenviar o pedido pedindo horário da tarde e vou ver o transporte com a coordenação."”
Não diga: Fazer a pergunta de um jeito que só admite uma resposta ("a senhora foi, né?") ou registrar apenas "faltou" no prontuário. Falta sem causa identificada é falta que vai se repetir, e o encaminhamento vira abandono sem que ninguém perceba.
A gestante que volta do ambulatório com um bilhete de quatro palavras
“"A senhora trouxe este papel, e ele diz que a anemia melhorou — o que é uma ótima notícia e bate com o exame que a senhora fez. Mas ele não diz três coisas de que eu preciso: por que a senhora ficou anêmica, se o ferro continua ou não, e se eles querem ver a senhora de novo antes do parto. Sem isso eu não consigo planejar direito o final da gestação. Então vou fazer o seguinte: hoje a senhora continua com o acompanhamento como está, e eu vou ligar lá para pedir um relatório escrito. Não é desconfiança do colega — é que a informação precisa estar no papel para servir a quem for atender a senhora na maternidade."”
Não diga: Dizer à paciente que "eles não escreveram nada" em tom de queixa do outro serviço. Isso a coloca no meio de uma disputa que não é dela e reduz a chance de ela levar a caderneta na próxima ida. Peça a informação ao serviço, não à paciente.
Ligando para o serviço especializado para pedir a contrarreferência
“"Bom dia, aqui é o interno da unidade básica do bairro, sobre uma gestante que vocês atenderam na quinta. Ela voltou aqui hoje e trouxe um bilhete dizendo que a anemia foi corrigida. Preciso de quatro informações para seguir com ela: a que diagnóstico vocês chegaram, o que ela está tomando hoje, o que vocês querem que eu monitore aqui e com que intervalo, e se vocês vão vê-la de novo antes do parto ou não. Se puderem mandar por escrito, eu anexo no prontuário e escrevo na caderneta dela. E se for mais fácil, eu mando por escrito o que a gente tem daqui — a série de pressão, a curva de peso e os exames."”
Não diga: Pedir de forma genérica ("vocês podem mandar um relatório?"). O pedido que funciona nomeia os itens e oferece reciprocidade. E não delegue essa ligação à paciente: pedir que ela "peça o laudo lá" transfere ao elo mais frágil da rede uma tarefa que é dos dois serviços.
Onde bons médicos discordam
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.
Não volta — a estratificação é absoluta e vale para a gestação inteira
O quarto dos dez pontos da estratificação do risco obstétrico afirma que predomina o critério relacionado ao maior risco e que, uma vez diagnosticada como de maior risco para complicações, a gestante não volta a ser de risco habitual naquela gestação. O argumento é de segurança e de memória institucional: a condição que classificou pode recidivar, e o registro do estrato é o que faz a equipe seguinte manter a vigilância. O instrumento catarinense de 2025 reproduz o ponto com a mesma redação, o que mostra que a regra migrou do federal para os instrumentos estaduais.
Manual de Gestação de Alto Risco, Ministério da Saúde, 2022, Quadro 3, ponto 4; Instrumento de Estratificação de Risco Gestacional, SES/SC, 3ª ed., julho de 2025, item 4 dos dez pontos.
Volta — pode retornar ao nível primário quando a situação estiver resolvida
O item 5.2 do Caderno de Atenção Básica nº 32 afirma que as situações que envolvem fatores clínicos mais relevantes e que demandam intervenções de maior densidade tecnológica devem ser necessariamente referenciadas, podendo retornar ao nível primário quando se considerar a situação resolvida ou a intervenção já realizada. O argumento é de capacidade do sistema: se ninguém retorna, o serviço especializado acumula por soma e a fila cresce por permanência, e não por incidência. O documento é federal, de 2013, e não foi revogado por nenhum ato posterior — o Manual de 2022 não o cita nem o revoga.
Atenção ao pré-natal de baixo risco, Cadernos de Atenção Básica nº 32, Ministério da Saúde, 1ª edição revista, 2013, item 5.2.
A pergunta está mal posta — quem decide o retorno é o serviço especializado, e o estrato não é o instrumento dessa decisão
A linha-guia materno-infantil do Paraná atribui explicitamente à equipe do ambulatório especializado a definição da necessidade de retorno da gestante ao serviço, e descreve o compartilhamento do plano de cuidado como o que permite à equipe da atenção primária assumir o seguimento com segurança. Nessa leitura, o que se decide não é o rótulo do estrato, e sim quem faz o quê a partir de agora — e isso se escreve num plano, não numa caixa. A Caderneta Brasileira da Gestante de 2026 reforça, por omissão, que a discussão sobre rótulo não tem onde acontecer: seu campo de classificação de risco tem duas opções, habitual e alto risco, e nenhuma para registrar retorno, alta ou compartilhamento.
Linha guia de atenção materno infantil, volume I — gestação, SESA/PR, 8ª ed., 2022; Caderneta brasileira da gestante, Ministério da Saúde, 2026, página de identificação.
Para a gestante à sua frente, três condutas independem de qual posição você adote, e é por elas que se decide. Primeira: não altere estrato sem informação escrita do serviço especializado — na falta dela, mantenha o registro anterior e registre a tentativa de obtê-la. Segunda: separe o rótulo do plano. Escreva no prontuário o que muda hoje — intervalo de consulta, exames, quem vê a paciente e quando — em vez de discutir se ela "ainda é" de alto risco; é o plano que muda conduta, e ele pode ser desintensificado sem apagar o histórico. Terceira: mantenha a vinculação da maternidade compatível com o pior estrato já atingido na gestação, e não com o de hoje, porque o parto é onde a condição que se resolveu tem mais chance de reaparecer. Na dúvida entre as duas primeiras posições, note que elas divergem sobre o rótulo e concordam sobre o essencial: nenhuma das duas autoriza a unidade básica a deixar de acompanhar a gestante.
Hospital hoje, a partir de 140 por 90 mmHg com proteinúria
O item 5.2.3 do Caderno de Atenção Básica nº 32 lista a suspeita de pré-eclâmpsia entre os fatores que indicam encaminhamento à urgência ou emergência obstétrica, com o corte de pressão arterial acima de 140 por 90 mmHg medida após um mínimo de cinco minutos de repouso, na posição sentada, associada a proteinúria. O argumento é de confirmação: quem avalia é o serviço hospitalar, que confirma ou afasta o diagnóstico e devolve a gestante à atenção básica quando for o caso — o próprio documento descreve essa devolução como uma das três saídas possíveis da avaliação.
Atenção ao pré-natal de baixo risco, Cadernos de Atenção Básica nº 32, Ministério da Saúde, 2013, item 5.2.3.
Unidade básica com apoio, reservando o hospital para 160 por 110 mmHg ou para sinal de gravidade
O Quadro 4 do Manual de Gestação de Alto Risco classifica hipertensão gestacional ou pré-eclâmpsia sem sinal de gravidade materno-fetal como risco intermediário, com pré-natal na atenção primária apoiada por equipe multiprofissional ou pelo ambulatório de alto risco; e o Quadro 2 do mesmo manual reserva a avaliação hospitalar imediata para a crise hipertensiva com pressão igual ou maior que 160 por 110 mmHg e para os sinais premonitórios de eclâmpsia. O argumento é de proporcionalidade: mandar ao hospital toda pressão acima de 140 por 90 mmHg com proteinúria satura a emergência obstétrica e desloca gestantes que poderiam ser vigiadas com intervalo curto e exame seriado.
Manual de Gestação de Alto Risco, Ministério da Saúde, 2022, Quadros 2 e 4.
A diferença entre os dois cortes é de 20 mmHg na sistólica e 20 na diastólica, e é dentro dessa janela que mora a decisão. Para a paciente à frente, o que decide não é o número: é o que existe além dele. Sinal premonitório de eclâmpsia — cefaleia occipital, escotomas, epigastralgia, dor em hipocôndrio direito — manda ao hospital hoje pelos dois documentos, com ou sem hipertensão grave e com ou sem proteinúria. Ausente qualquer sinal, com pressão entre 140 por 90 e 160 por 110 mmHg, pese três coisas concretas: a que distância fica o serviço que consegue repetir a pressão e dosar plaquetas, transaminases e creatinina em poucas horas; se a gestante tem como voltar amanhã; e se há algum achado fetal. Onde há acesso rápido a exame e retorno confiável, a vigilância intensificada na unidade cumpre o que o Manual descreve; onde não há — e é a situação mais comum no interior —, a avaliação hospitalar de hoje é a única forma de fazer em horas o que a unidade faria em dias. Registre a escolha e o motivo dela; o capítulo de pré-eclâmpsia desta apostila traz os critérios diagnósticos e os sinais de gravidade.
Encaminhar — gemelaridade, sem distinção de corionicidade
O item 5.2.2 do Caderno de Atenção Básica nº 32 lista "gemelaridade" entre os fatores relacionados à gravidez atual que podem indicar encaminhamento ao pré-natal de alto risco, sem qualquer distinção quanto à corionicidade. O argumento é de desfecho: o próprio documento registra que as taxas de nascimento prematuro em gemelares variam de 25% a 75%, que as malformações são duas vezes mais frequentes do que em gestações únicas, e que a mortalidade infantil em gêmeos é cinco vezes maior — números que não dependem de a placenta ser uma ou duas.
Atenção ao pré-natal de baixo risco, Cadernos de Atenção Básica nº 32, Ministério da Saúde, 2013, item 5.2.2 e capítulo sobre gestação gemelar.
Manter na unidade com apoio quando for dicoriônica-diamniótica, encaminhando as demais
O Quadro 4 do Manual de Gestação de Alto Risco separa as duas situações: a gestação gemelar dicoriônica-diamniótica figura entre as intercorrências de médio risco, com pré-natal na atenção primária apoiada, enquanto a gestação gemelar monocoriônica e a gestação multifetal estão na coluna de alto risco. O argumento é fisiopatológico: as complicações que exigem vigilância especializada e intervenção fetal — a transfusão feto-fetal e a sequência anemia-policitemia entre elas — dependem de anastomoses vasculares que só existem em placenta compartilhada.
Manual de Gestação de Alto Risco, Ministério da Saúde, 2022, Quadro 4.
A pergunta prática que resolve o caso não é qual documento seguir, e sim se você sabe a corionicidade — e ela só é determinável com confiança na ultrassonografia do primeiro trimestre, quando o sinal do lambda e a espessura da membrana ainda são avaliáveis. Diante de gestação gemelar com corionicidade documentada como dicoriônica-diamniótica, gestante assintomática e ultrassonografia disponível na rede, a leitura de 2022 é a mais recente e sustenta o acompanhamento na unidade com intervalo encurtado e imagem seriada. Diante de corionicidade desconhecida — porque a gestante chegou tarde, porque o exame não foi feito ou porque o laudo não a descreve —, decida pela hipótese mais restritiva e encaminhe: o custo de encaminhar uma dicoriônica é uma vaga, e o de manter uma monocoriônica sem vigilância é um desfecho fetal. E registre no encaminhamento que a corionicidade não foi determinada, porque isso é exatamente o que o serviço especializado precisa resolver primeiro.
O raciocínio, em voz alta
Terça-feira de manhã, unidade básica de saúde. Divanir Bragagnolo tem 31 anos, é a terceira gestação, dois partos vaginais anteriores, e está com 29 semanas e 4 dias por ultrassonografia de 9 semanas. Foi encaminhada ao ambulatório de gestação de alto risco na 21ª semana por hipertensão arterial detectada na gestação, com 152 por 98 mmHg em duas medidas e proteinúria de fita com uma cruz. A vaga saiu com 26 semanas; ela foi atendida uma vez, há três semanas. Voltou hoje à unidade para consulta de rotina e trouxe, dobrado dentro da caderneta, um papel timbrado com três linhas datilografadas: "Hipertensão gestacional. Iniciada metildopa. Retorno em 4 semanas". Assinatura ilegível, sem carimbo. Hoje ela está assintomática, pressão de 134 por 84 mmHg em duas medidas com quinze minutos de intervalo, peso estável desde a última consulta, altura uterina de 28 cm, batimentos fetais de 144 por minuto, movimentação presente e sem alteração referida. A caderneta tem cinco colunas preenchidas. Não há proteinúria nova, não há hemograma recente, e não há registro de qual dose de metildopa ela usa.
o que eu checo antes de qualquer outra coisa
A ordem não muda porque a gestante já foi encaminhada: a primeira pergunta continua sendo a da urgência. Ela não tem cefaleia, alteração visual, epigastralgia ou dor em hipocôndrio direito; não há sangramento, perda de líquido, febre, prurido, icterícia, dor em membro inferior nem dor abdominal; a pressão está abaixo de 160 por 110 mmHg; a movimentação fetal está mantida; e a idade gestacional é de 29 semanas e 4 dias, longe das 41. Nenhum item das listas de urgência dos dois documentos federais está presente. A decisão de hoje é ambulatorial, e só agora vale a pena falar de estrato.
o que o papel diz, e o que ele não diz
O documento traz um diagnóstico e uma conduta, e é mais do que um bilhete manuscrito — mas falta o essencial para eu conduzir. Não diz a dose nem a posologia da metildopa, o que me impede de saber se a pressão de hoje está boa com dose plena ou com dose insuficiente. Não diz o que eu devo monitorar aqui, nem com que intervalo: proteinúria a cada consulta? Plaquetas, transaminases e creatinina em que periodicidade? Não diz se houve avaliação de crescimento fetal e com que resultado. E "retorno em 4 semanas" é uma frase sem âncora: quatro semanas a partir de quando — da consulta dele, que foi há três, ou de hoje? Comparando com os cinco itens que uma contrarreferência precisa ter, este papel entrega um e meio.
por que eu não desestratifico esta gestante hoje
A tentação existe e tem argumento: a pressão está controlada, ela está assintomática, e o Caderno de 2013 admite retorno ao nível primário quando a situação estiver resolvida. Duas coisas impedem. A primeira é que a situação não está resolvida — está tratada, que é diferente: ela está normotensa em uso de anti-hipertensivo, o que significa que a condição persiste e a droga a está segurando. A segunda é que hipertensão que apareceu depois da vigésima semana com proteinúria de fita positiva não é um diagnóstico fechado: pode ser hipertensão gestacional, como o papel diz, e pode ser pré-eclâmpsia sem sinal de gravidade, e a diferença entre as duas se decide com exames que eu não tenho aqui na mesa. Mantenho o estrato de alto risco registrado, com a data e o motivo, e escrevo no prontuário que a contrarreferência é incompleta.
o que eu faço hoje, na unidade, sem depender de ninguém
Quatro coisas cabem nesta consulta. Pergunto e registro a dose que ela toma, conferindo a caixa se ela trouxe — e se ela não souber, ligo. Peço proteinúria de 24 horas ou relação proteinúria/creatininúria em amostra, mais hemograma com plaquetas, transaminases, creatinina e ácido úrico, que é o painel que separa pré-eclâmpsia sem sinal de gravidade de hipertensão gestacional. Encurto o intervalo: retorno em uma semana, com data escrita na caderneta, e não "quando sair a próxima do ambulatório". E confiro as ações do território, que costumam ser as primeiras a parar em gestante encaminhada — vacina em dia, suplementação em uso, consulta odontológica feita, e a maternidade vinculada anotada e compatível com o estrato de hoje.
o que eu faço fora da consulta
Ligo para o ambulatório e peço, nomeando os itens, o que falta: dose e posologia da metildopa, o que devo monitorar aqui e com que intervalo, se houve avaliação de crescimento fetal e qual foi o resultado, e a data exata do retorno. Ofereço, em troca, o que tenho daqui — a série de pressão das cinco consultas, a curva de peso e os exames de hoje quando saírem. Registro no prontuário a ligação, a data e com quem falei. Se o serviço não responder e o padrão se repetir com outras gestantes, isso deixa de ser um problema desta paciente e vira pauta de coordenação: dois pontos da rede que não conversam produzem sempre o mesmo tipo de dano.
como isso muda o que eu escrevo
O registro de hoje precisa dizer cinco coisas, e nenhuma delas é longa: idade gestacional com o método de datação; o estrato — alto risco, mantido, com a data e o motivo; que a contrarreferência recebida é incompleta e o que foi solicitado; a conduta de hoje, com os exames pedidos e a data do retorno; e a confirmação da maternidade vinculada. Na caderneta, além dos campos habituais, escrevo o estrato por extenso no espaço de observações — porque o campo de classificação de risco da caderneta federal só tem duas caixas, e a próxima equipe que a abrir precisa saber que existe um serviço especializado envolvido e por quê.
o desfecho, e o que ele ensina
Os exames voltam em quatro dias: proteinúria de 24 horas de 180 mg, plaquetas de 210 mil, transaminases e creatinina normais, ácido úrico de 4,1 mg/dL. É hipertensão gestacional, e não pré-eclâmpsia — o que confirma o papel do ambulatório e, ao mesmo tempo, mostra por que a confirmação precisava ser feita e não presumida. O ambulatório responde por telefone dois dias depois: metildopa 250 mg de oito em oito horas, com ultrassonografia de 28 semanas mostrando crescimento no percentil 42, e retorno agendado para 33 semanas. Com essa informação, o plano fica escrito: consultas quinzenais na unidade intercaladas com o ambulatório, proteinúria e painel laboratorial a cada quatro semanas ou antes se a pressão subir, e a maternidade vinculada confirmada como apta. O estrato continua alto risco — e agora ele significa alguma coisa, porque tem plano atrás.
Variação do caso — resposta e reavaliação
Variação do caso de Divanir: ela não foi atendida na referência porque a justificativa do pedido era genérica. Reescrever o encaminhamento com diagnóstico ou suspeita, gravidade, idade gestacional, exames e pergunta clínica; contatar a regulação quando necessário. A ausência de vaga não transforma alto risco em risco habitual.
Variação do caso — quando mudar o plano
Se uma intercorrência aparece enquanto espera, reavaliar urgência e destino naquele dia, sem aguardar a consulta agendada. Se a referência devolve para seguimento compartilhado, registrar quais tarefas cabem a cada equipe. O resultado esperado é cuidado concluído e acessível, não apenas um documento aceito pelo sistema.
Faça você
Mesma manhã, oitava ficha. Otacilia Zorzin tem 39 anos, está na quinta gestação, com quatro partos anteriores — três vaginais e uma cesárea de urgência há sete anos, num hospital de outro estado, sem resumo de alta. Está com 24 semanas e 2 dias por ultrassonografia de 12 semanas. Pesa 96 kg e tem 1,58 m. Fuma cerca de dez cigarros por dia desde os dezoito anos e diz que reduziu "pela metade" desde que soube da gravidez. Trabalha como auxiliar de limpeza em turnos de dez horas. Não estudou além do quinto ano. Na terceira gestação teve um bebê que nasceu com 33 semanas e ficou internado três semanas; ela não sabe dizer por que nasceu antes. Está assintomática hoje: pressão de 126 por 78 mmHg, altura uterina de 23 cm, batimentos fetais de 140 por minuto, movimentação presente. O hemograma da 22ª semana traz hemoglobina de 10,4 g/dL. O ambulatório de alto risco da regional está com fila de aproximadamente sete semanas.
o que já sei
Esta é uma ficha com muitos fatores escritos e é exatamente o tipo de caso em que o interno erra para os dois lados. Separe antes de decidir: idade de 39 anos, índice de massa corporal calculado a partir de 96 kg e 1,58 m, baixa escolaridade, ocupação com carga horária extensa, tabagismo em grau a determinar, multiparidade de quatro partos, uma cesárea prévia de tipo de incisão desconhecido, um parto pré-termo com 33 semanas de causa não esclarecida, e hemoglobina de 10,4 g/dL. Calcule o índice de massa corporal e diga em que faixa do Quadro 4 ele cai, e o que essa faixa decide.
quais fatores decidem sozinhos e quais só somam
Percorra a lista acima e classifique cada item em uma de duas colunas: os que, isolados, encaminham ao pré-natal de alto risco, e os que mudam a intensidade do cuidado sem mudar o endereço. Preste atenção especial a três deles, porque são os que mais confundem: o parto pré-termo anterior, a cesárea de tipo desconhecido, e a hemoglobina de 10,4 g/dL. Diga, para cada um, qual é o critério do documento e o que ele exige de você antes de classificar.
a pergunta que muda a classificação e que ninguém faz
Há uma informação ausente que, dependendo da resposta, muda o estrato desta gestante. Identifique qual é, escreva a pergunta que você faria a ela em palavras que ela entenda, e diga o que você faria para obter a informação se ela não soubesse responder. Diga também o que você escreve no prontuário caso a informação não seja obtida.
o que a fila de sete semanas muda
Se a decisão for encaminhar, a primeira consulta especializada acontecerá por volta da 31ª semana. Liste o que precisa ser iniciado ou solicitado hoje, na unidade, sem esperar essa consulta — e diga, para cada item, por que ele não pode esperar sete semanas. Inclua nessa lista pelo menos uma coisa que a unidade faz e que não é medicamento.
faça você
Escreva, em cinco linhas, a conduta desta consulta: o estrato com o motivo, o que sai hoje em papel, o que você inicia, quando ela volta aqui, e a frase de justificativa que você escreveria no encaminhamento se houver encaminhamento. Depois, escreva o que você diria a ela em voz alta sobre onde o pré-natal vai acontecer daqui para a frente.
Ver como fecharíamos
O índice de massa corporal é 96 dividido por 1,58 ao quadrado — 96 sobre 2,4964 —, ou seja, 38,5 kg/m². Isso a coloca na faixa de 30 a 39 do Quadro 4, que é risco intermediário, e não na de 40 ou mais, que seria alto risco isolado. Idade de 39 anos, baixa escolaridade, ocupação com carga horária extensa e multiparidade de cinco ou mais partos são todos fatores que mudam intensidade e não endereço — e ela tem quatro partos, não cinco, de modo que nem esse critério se aplica. A hemoglobina de 10,4 g/dL é anemia leve a moderada pela faixa de 9 a 11 g/dL, fator intermediário: trata-se na unidade com ferro, investiga-se a causa e repete-se o hemograma. O tabagismo depende do grau: com indicativo de dependência elevada, permanece no risco intermediário pelo Quadro 4, ainda que o Quadro 1 do mesmo manual liste dependência de tabaco entre as condições de maior risco — divergência registrada nas notas do bloco de critério. Dois itens decidem, e os dois exigem uma pergunta antes. O primeiro é o parto pré-termo com 33 semanas em gestação anterior: prematuridade anterior é critério de alto risco isolado no Quadro 4, e o Quadro 1 a reforça, com destaque para os partos abaixo de 34 semanas — que é exatamente o caso. Só isso já encaminha. O segundo é a cesárea de tipo de incisão desconhecido: cesariana prévia com incisão clássica, corporal ou longitudinal é critério de alto risco, e a informação que falta é justamente essa. A pergunta a fazer não é sobre a cicatriz da pele, que não responde — é sobre a circunstância: com quantas semanas foi, por que foi, o bebê era muito pequeno, foi uma emergência. Cesárea de urgência muito prematura aumenta a chance de histerotomia corporal. Não sabendo, solicite o resumo de alta ou o descritivo cirúrgico ao serviço de origem e registre no prontuário que a informação não foi obtida — isso muda o plano de parto e precisa estar escrito. A conduta, então: alto risco por prematuridade anterior abaixo de 34 semanas, encaminhamento enviado hoje pela regulação com o conteúdo descritivo mínimo, e pré-natal mantido na unidade com intervalo encurtado. Enquanto a vaga não sai — e sete semanas a levam à 31ª semana —, quatro coisas não esperam: iniciar ferro para a anemia hoje e repetir o hemograma em quatro semanas; solicitar o resumo de alta da cesárea anterior; oferecer a abordagem do tabagismo, que é ação da unidade e não do ambulatório, e que tem efeito sobre o desfecho que motivou o encaminhamento; e escrever a justificativa que prioriza — "39 anos, quinta gestação, 24 semanas por ultrassonografia de 12 semanas, parto pré-termo espontâneo com 33 semanas em gestação anterior de causa não esclarecida, cesárea prévia com tipo de incisão desconhecido, IMC 38,5, tabagista, anemia com Hb 10,4 em tratamento". Registre também que ela é multípara com quatro partos e que a vinculação da maternidade precisa ser compatível com risco de prematuridade recorrente. À gestante, diga que ela vai passar a ser vista em dois lugares, que a consulta aqui continua, que o motivo é o parto adiantado da outra vez, e que a data de lá pode demorar — motivo pelo qual ela volta aqui em duas semanas, com data marcada, independentemente da vaga.
No quadro de estratificação do manual federal de 2022, a hipertensão anterior à gravidez está entre as doenças prévias que classificam a gestante como de alto risco, e um único critério desses basta — a estratificação é absoluta e a ausência dos demais fatores não compensa. Nada aqui é urgência: a pressão está abaixo do corte de crise hipertensiva e não há sinal premonitório de eclâmpsia, o que afasta a alternativa da avaliação hospitalar imediata. Manter só na unidade ou adiar a decisão para a consulta seguinte subestima a condição prévia e adia desnecessariamente a profilaxia de pré-eclâmpsia: o AAS deve ser iniciado prontamente quando indicado, preferencialmente antes de 16 semanas. Não há limite universal de 20 semanas; ACOG/SMFM admitem início até 28 semanas, sem que isso justifique esperar a vaga. E a alternativa que transfere o acompanhamento erra no princípio que abre os dez pontos da estratificação: não há alta da gestante da atenção primária, qualquer que seja o perfil de risco — o cuidado é compartilhado, com consultas intercaladas, e as ações do território permanecem na unidade.
Teste-se
Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.
Plano de revisão
Em 7 dias
Reconstitua de memória, sem consultar, e depois confira: a ordem das quatro perguntas da decisão, e por que a de urgência vem primeiro; os nomes das quatro categorias de fatores de risco, com três exemplos de cada; cinco condições que, isoladas, encaminham ao pré-natal de alto risco, e cinco que mudam apenas a intensidade do cuidado; e cinco itens da lista de urgência obstétrica que não parecem urgentes na sala. Depois escreva, em uma frase cada, as duas posições federais sobre o retorno da gestante ao risco habitual, com a data de cada documento — e as três condutas que independem de qual delas você adote. Aplicação comentada: A gestante já está no alto risco e surge sangramento. O encaminhamento anterior resolve? Não. A intercorrência exige nova triagem de gravidade e acesso imediato quando indicado.
Em 30 dias
Pegue as cinco últimas gestantes que você encaminhou ao pré-natal de alto risco e audite cada uma com o prontuário aberto, respondendo a cinco perguntas: qual foi o critério que decidiu, e ele decidia sozinho? O que foi iniciado na unidade no mesmo dia do encaminhamento? Quanto tempo levou entre o envio e a consulta especializada, e o pedido foi devolvido em algum momento? Ela chegou a comparecer? E voltou algum documento por escrito — com quantos dos cinco itens? Some quantas das cinco tiveram consulta na unidade entre o encaminhamento e a primeira consulta no ambulatório: esse número, sozinho, diz se o serviço está compartilhando ou transferindo.
Agora atenda
Dia de pré-natal numa unidade básica. Uma gestante de segundo trimestre chega para consulta de rotina, assintomática, com a caderneta na mão, vários fatores de risco anotados na ficha e um antecedente obstétrico que ninguém detalhou. O ambulatório de alto risco da região tem fila de semanas. Conduza a consulta, decida o estrato e o destino do pré-natal, defina o que você inicia hoje sem esperar a vaga, e escreva a justificativa do encaminhamento se houver.
