Ginecologia e Obstetrícia › Obstetrícia
Uma coça, a outra vomita
Hepatopatias da gestação: colestase intra-hepática e esteatose aguda
Duas doenças que compartilham o fígado e nada mais: a colestase ameaça o feto e se decide por um número que demora dias; a esteatose ameaça a mãe e se decide por uma fita de glicemia.
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção Primária à Saúde. Departamento de Ações Programáticas. Manual de gestação de alto risco. Brasília: Ministério da Saúde; 2022. 692 p. ISBN 978-65-5993-312-9. Capítulos 15 (Esteatose hepática aguda da gravidez) e 16 (Colestase gravídica)
da Silva AC. Colestase obstétrica [flowchart]. São Paulo: Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo); 2023. Comissão Nacional Especializada em Gestação de Alto Risco
Ramos JGL, Korkes HA, de Oliveira LG, Sass N, Peraçoli JC, Cavalli RC, et al. Síndrome Hellp – Protocolo 2025. Rede Brasileira de Estudos sobre Hipertensão na Gravidez (RBEHG); 2025
European Association for the Study of the Liver. EASL Clinical Practice Guidelines on the management of liver diseases in pregnancy. J Hepatol. 2023;79(3):768-828. doi:10.1016/j.jhep.2023.03.006
Ovadia C, Seed PT, Sklavounos A, Geenes V, Di Ilio C, Chambers J, et al. Association of adverse perinatal outcomes of intrahepatic cholestasis of pregnancy with biochemical markers: results of aggregate and individual patient data meta-analyses. Lancet. 2019;393(10174):899-909
Chappell LC, Bell JL, Smith A, Linsell L, Juszczak E, Dixon PH, et al. Ursodeoxycholic acid versus placebo in women with intrahepatic cholestasis of pregnancy (PITCHES): a randomised controlled trial. Lancet. 2019;394(10201):849-860
Society for Maternal-Fetal Medicine; Lee RH, Greenberg M, Metz TD, Pettker CM. Society for Maternal-Fetal Medicine Consult Series #53: Intrahepatic cholestasis of pregnancy. Am J Obstet Gynecol. 2021;224(2):B2-B9
Knight M, Nelson-Piercy C, Kurinczuk JJ, Spark P, Brocklehurst P; UK Obstetric Surveillance System. A prospective national study of acute fatty liver of pregnancy in the UK. Gut. 2008;57(7):951-956
Ch'ng CL, Morgan M, Hainsworth I, Kingham JG. Prospective study of liver dysfunction in pregnancy in Southwest Wales. Gut. 2002;51(6):876-880
Souza E, Guerzet EA, Fava JL, Musiello RB. Colestase intra-hepática da gravidez: evidências científicas para escolha do tratamento. Femina. 2014;42(1):39-42
Brasil. Ministério da Saúde. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais: Rename 2024. Brasília: Ministério da Saúde; 2024
Zambon Laboratórios Farmacêuticos. Ursacol (ácido ursodesoxicólico) comprimidos 50 mg, 150 mg e 300 mg: bula para o profissional de saúde. Registro MS 1.0084.0067. Aprovada pela Anvisa em 12/12/2023
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Protocolos de Suporte Avançado de Vida do SAMU 192. Brasília: Ministério da Saúde; 2014. Protocolo AC29 – Hipoglicemia
Hospital de Clínicas da Universidade Federal do Triângulo Mineiro, Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares. Protocolo: manejo das síndromes hipertensivas na gestação. PRT.HC-UFTM-UMUL.003, versão 2. Uberaba: HC-UFTM/Ebserh; 2025
Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia. Manual de anticoncepção. São Paulo: Febrasgo; 2015. ISBN 978-85-64319-24-0
Girling J, Knight CL, Chappell L; Royal College of Obstetricians and Gynaecologists. Intrahepatic cholestasis of pregnancy: Green-top Guideline No. 43, June 2022. BJOG. 2022;129(13):e95-e114
Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia. Síndrome HELLP. São Paulo: Febrasgo; 2024 (Protocolo Febrasgo-Obstetrícia, nº 20, coleção 2024-2025)
OMS/FIGO/ICM. Consolidated guidelines for postpartum haemorrhage. 2025.
Responda antes de ler
Gestante de 30 anos, 32 semanas, colestase intra-hepática com ácidos biliares de 28 µmol/L, prurido moderado. Pergunta se deve tomar o ácido ursodesoxicólico "para proteger o bebê". Qual resposta reflete corretamente o que o maior ensaio controlado por placebo (2019) e a diretriz europeia (2023) dizem?
O paciente que você vai ver
Quinta-feira, 19h40, pronto-atendimento de um município de noventa mil habitantes. A maternidade de referência fica a trinta quilômetros e tem uma obstetra de sobreaviso, a Dra. Hermínia Távora. Você é o interno da noite. A ficha que a enfermeira Mirtes te entrega diz "alergia — 3ª vez", e a paciente já vem com a frase pronta: quer uma injeção mais forte, porque as duas anteriores não resolveram.
Soraia Fialho tem 31 anos, é operadora de caixa, está na segunda gestação, com 34 semanas e 3 dias. Há doze dias coça. Começou pelas palmas das mãos e pelas plantas dos pés, à noite, e hoje coça o corpo inteiro; dorme duas horas seguidas e acorda coçando. Passou aqui há nove dias e há quatro: saiu com dexclorfeniramina na primeira vez e loratadina na segunda, com a orientação de trocar o sabão em pó e o amaciante. Trocou os dois. Não tem febre, não tem dor, não vomita. O bebê mexe.
Os dados da ficha: pressão arterial 118 por 76 mmHg, frequência cardíaca 88, temperatura 36,5 graus, batimentos cardiofetais em 144 por minuto. Nenhum exame de sangue pedido nas duas passagens anteriores — não havia motivo aparente, porque a hipótese estava escrita na primeira linha e era de pele. O cartão de pré-natal traz sete consultas sem intercorrência e uma anotação de que a irmã "ficou amarela" na gravidez do segundo filho.
Você examina. Não há placa, não há pápula, não há urtica. Há escoriações lineares nas pernas, nos antebraços e no abdome, algumas com crosta, uma com halo avermelhado de infecção secundária. As palmas e as plantas, onde ela diz que mais coça, estão íntegras. A esclera está branca. O fígado não é palpável sob um útero de 34 semanas, e isso não muda nada. Ela pergunta se pode tomar o antialérgico do marido, que é "mais forte".
O que separa esta consulta das duas anteriores não é um sinal físico: é uma pergunta que ninguém fez. Coceira de terceiro trimestre, sem lesão de pele, começando por palmas e plantas e piorando à noite, é do fígado até que se prove o contrário — e a prova é um exame que este pronto-atendimento não faz à noite e que, no laboratório de referência, leva dias para voltar. Soraia não vai sair daqui com uma injeção. Vai sair com uma coleta de ácidos biliares, transaminases e bilirrubinas em curso, com um telefonema à Dra. Hermínia registrado no prontuário e com uma data de retorno em 48 horas, e não em "se piorar".
Duas semanas depois, na mesma cadeira, outra gestante de terceiro trimestre vai chegar com uma "virose" de cinco dias, vomitando, com sede que não passa e sonolenta. As duas doenças deste capítulo compartilham o órgão e nada mais: uma coça e mata o feto; a outra vomita e mata a mãe. A primeira se decide com um número que demora dias; a segunda, com um número que a fita de glicemia dá em dez segundos — e essa segunda paciente é o caso resolvido deste capítulo.
Quem adoece disso
A colestase intra-hepática da gravidez é a doença hepática mais comum da gestação, e a segunda causa de icterícia na gestante, atrás apenas das hepatites virais — as duas afirmações estão no manual federal de gestação de alto risco, de 2022. A frequência varia mais do que qualquer outro número deste capítulo: o manual federal registra de 0,3% a 5,6% das gestantes; a revisão brasileira de 2014 situa a incidência global entre 0,5% e 2%; a diretriz europeia de 2023 estima cerca de 0,7% nas mulheres de ascendência europeia, o dobro nas de origem asiática e cerca de 4% nas populações indígenas dos Andes. Não existe série brasileira que diga qual desses números vale aqui, e este capítulo não vai inventar um.
O que a frequência não mostra, a distribuição mostra. A doença concentra-se no terceiro trimestre — 80% dos casos começam depois da 30ª semana, segundo o manual federal — e recorre em 45% a 90% das gestações seguintes na forma clínica mais grave; a revisão brasileira cita 45% a 70%. É mais comum na gestação múltipla, acima dos 35 anos, em quem usou progesterona oral em dose alta após fertilização in vitro e em quem tem hepatite C, cujo risco de colestase o mesmo manual estima em até vinte vezes o habitual.
O número que organiza a conduta é o de óbito fetal, e ele foi medido com precisão numa metanálise de dados individuais publicada em 2019, com 5.269 gestações. No conjunto, o óbito fetal ocorreu em 0,83% das gestações com colestase contra 0,32% dos controles. Mas o risco não é homogêneo: nas gestações únicas com pico de ácidos biliares abaixo de 40 µmol/L, houve 3 óbitos em 2.310 (0,13%); entre 40 e 99 µmol/L, 4 em 1.412 (0,28%); a partir de 100 µmol/L, 18 em 524 (3,44%). A diretriz europeia acrescenta que esse último grupo corresponde a cerca de 10% das mulheres com o diagnóstico, e que o risco sobe de forma marcada a partir de 35 a 36 semanas. Toda a discussão sobre a semana do parto, adiante, é a tradução desses três números.
A esteatose hepática aguda da gravidez está na outra ponta da escala. A série populacional britânica de 2008, que acompanhou todas as maternidades do Reino Unido por dezoito meses, encontrou 57 casos em 1.132.964 partos — 5 por 100.000 —, e é dela que o manual federal tira a estimativa de 1 em 20.000; a diretriz europeia amplia para 1 em 10.000 a 20.000. Três quartos dos casos aparecem no terceiro trimestre; a idade gestacional média ao diagnóstico é de 35 semanas; entre 5% e 25% manifestam-se depois do parto. Na série britânica, 18% das mulheres tinham gestação gemelar e 20% eram magras, com índice de massa corporal abaixo de 20.
É rara e é grave, e as duas coisas precisam ser ditas com o número certo. A letalidade materna foi de 1,8% na série britânica — uma morte entre 57 —, e a diretriz europeia registra de 2% a 18% nas séries hospitalares; 60% das mulheres foram para terapia intensiva e 15% para unidade especializada de fígado. Do lado do feto, a mesma série britânica registrou 7 óbitos entre 67 recém-nascidos, o que dá 104 por 1.000 nascimentos — um em cada dez. O manual federal imprime esse número como 104 por 100.000, cem vezes menor, e a conta que mostra o erro está no bloco de critérios. Não há série brasileira de esteatose hepática aguda que permita corrigir ou confirmar qualquer desses números para o nosso serviço.
Por que acontece o que acontece
Uma frase organiza o capítulo: as duas doenças compartilham o órgão e nada mais. A colestase é um problema de transporte — o hepatócito continua vivo e funcionando, mas não consegue excretar os sais biliares para o canalículo, e eles refluem para o sangue. A esteatose é um problema de combustível — o hepatócito se enche de gordura em gotículas minúsculas, a mitocôndria para, e o órgão deixa de fazer o que faz: glicose, fatores de coagulação, colesterol, depuração de amônia. Quem guarda essa diferença deduz o resto: uma sobe um número e preserva a função; a outra derruba a função inteira.
Na colestase, o que trava o transporte é o ambiente hormonal do terceiro trimestre. Os metabólitos sulfatados de estrogênio e de progesterona inibem os transportadores da membrana canalicular do hepatócito, e a diretriz europeia registra que cerca de um quarto das mulheres afetadas carrega mutação em heterozigose num desses transportadores — o que explica a recorrência alta, a agregação familiar e o fato de o quadro reaparecer, fora da gravidez, com contraceptivo hormonal combinado. Os ácidos biliares acumulam-se no soro; o prurido acompanha esse acúmulo, embora a revisão brasileira de 2014 registre que o mecanismo exato da coceira não é conhecido e que a melhora com o tratamento se associou à queda de metabólitos da progesterona na urina. É por isso que o prurido pode preceder a elevação dos ácidos biliares em até três semanas, segundo o manual federal: o sintoma anda na frente do exame.
O feto morre por outro caminho, e entender isso muda a vigilância inteira. Os ácidos biliares atravessam a placenta. A revisão brasileira cita o experimento em que o taurocolato prejudicou a função do cardiomiócito de rato, proposto como mecanismo do óbito intrauterino; a diretriz europeia registra que o ácido cólico induz arritmia em culturas de cardiomiócitos fetais humanos e murinos. Somam-se estresse oxidativo na placenta, maior expressão de receptores de ocitocina no miométrio — daí o trabalho de parto prematuro espontâneo — e a presença de mecônio. O que não há é insuficiência placentária: a metanálise de 2019 não encontrou diferença de peso ao nascer entre gestações com colestase e controles. Um feto de tamanho normal, com Doppler normal, que morre de arritmia sem aviso — esse é o feto da colestase, e é a razão de a semana do parto valer mais do que qualquer exame de bem-estar.
O laboratório da colestase se explica pelo mesmo mecanismo. A fosfatase alcalina sobe sete a dez vezes em toda gestação, por produção placentária, e por isso não serve; a gama-glutamiltransferase costuma ficar normal ou pouco elevada; as transaminases podem dobrar uma a duas semanas antes de os ácidos biliares subirem; a bilirrubina, sobretudo a direta, sobe pouco e tarde — icterícia leve em 10% a 15% dos casos, uma a quatro semanas depois do início do prurido. Tudo isso está no manual federal. O tempo de protrombina merece atenção própria: o manual manda controlá-lo, e a leitura deste capítulo — não uma afirmação das fontes — é que a colestase prolongada reduz a absorção intestinal das vitaminas lipossolúveis, entre elas a K.
Na esteatose, o defeito nasce na unidade feto-placentária. O manual federal descreve a cadeia: a placenta quebra triglicerídeos em ácidos graxos livres para o feto; quando há defeito hereditário na oxidação desses ácidos graxos — a deficiência da desidrogenase de cadeia longa 3-hidroxiacil-CoA é a mais associada —, os produtos intermediários voltam à circulação materna e são captados pelo fígado da mãe, que, sendo heterozigota para o mesmo defeito, não os depura. O resultado é a infiltração gordurosa microvesicular, com inflamação e necrose por excesso de espécies reativas de oxigênio. A diretriz europeia acrescenta que defeitos de cadeia curta e média também podem fazê-lo, e que isso ocorre numa fração pequena dos casos; o resto permanece sem explicação molecular.
Daí sai cada número do laboratório da esteatose, e vale deduzi-los em vez de decorá-los. A mitocôndria parada não sustenta a gliconeogênese: hipoglicemia, muitas vezes refratária. O hepatócito doente não sintetiza: fibrinogênio baixo, colesterol baixo, tempo de protrombina longo — e o manual federal avisa que, na gestante, fibrinogênio e colesterol em valores "normais de não gestante" já são profundamente baixos, porque ambos sobem na gravidez. O fígado não depura: amônia alta e encefalopatia. O rim sofre junto — lesão renal aguda em quatro de cada cinco casos, segundo a diretriz europeia — e o ácido úrico sobe muito. A mesma diretriz explica o diabetes insípido que acompanha alguns casos pela falha do fígado em degradar a vasopressinase placentária: a paciente urina litros e bebe litros, e a polidipsia com poliúria virou critério diagnóstico.
Aqui mora o contraste com a síndrome HELLP, que é o diferencial que este capítulo fecha dos dois lados. Na síndrome HELLP o fígado vaza: o endotélio lesado deposita fibrina, há necrose periportal, a transaminase sobe porque a célula se rompe, e o que se consome são plaquetas — a função de síntese permanece razoável até muito tarde. Na esteatose o fígado para: a transaminase também sobe, mas o que denuncia a doença é o que o órgão deixou de produzir. Duas gestantes com transaminase de 300 e dor abdominal podem ter doenças diferentes, e o que as separa não é a enzima: é a glicemia, o fibrinogênio, a creatinina e a bilirrubina, como o bloco de investigação detalha.
Falta o que o interno precisa saber para não se assustar na hora errada. Nas duas doenças o parto é o tratamento, porque a placenta é a fonte — dos hormônios que travam o transporte, na colestase; dos metabólitos que intoxicam o fígado, na esteatose. Mas o tempo de recuperação é muito diferente. A colestase resolve no pós-parto imediato ou em duas a três semanas, e o laboratório se normaliza em até três meses. Na esteatose, o manual federal descreve que a necrose e a disfunção hepáticas só começam a melhorar um a dois dias depois do parto, que colesterol e bilirrubinas melhoram em três a quatro dias, que a coagulopatia de consumo regride em quatro a seis dias, e que a creatinina de uma lesão renal intrínseca pode ficar elevada por semanas. A mãe da esteatose piora antes de melhorar, e o parto não autoriza ninguém a relaxar: autoriza a começar a contar os dias.

Como se apresenta de verdade
O contraste entre prurido e vômitos tardios organiza duas doenças com riscos diferentes. Você deve reconhecer colestase e graduar o risco fetal, mas também identificar esteatose com hipoglicemia, alteração de consciência e coagulopatia. A pergunta prática é o que pode aguardar um resultado e o que exige estabilização e resolução obstétrica.
A regra de elegibilidade deste capítulo é tão larga quanto a do capítulo de síndrome HELLP, e pelo mesmo motivo: prurido sem lesão de pele na segunda metade da gestação, ou náusea e vômito que começam no terceiro trimestre, saem do serviço com sangue colhido, não com receita. O que este bloco descreve é como cada uma das duas doenças se apresenta, para que o interno reconheça a candidata antes de o laboratório existir.
Percurso clínico: Distinguir prurido de falência hepática
No prurido, procure padrão, lesões primárias e dados de colestase. Diante de mal-estar importante, icterícia, hipoglicemia, coagulopatia ou disfunção orgânica, priorize emergência e diferenciais, incluindo fígado gorduroso agudo e HELLP. Não use transaminases isoladas para escolher entre os percursos.
O prurido que não tem lesão
O manual federal fundamenta o diagnóstico da colestase na queixa de prurido de intensidade variável em palmas e plantas — todo o corpo pode ser afetado —, iniciado no segundo ou terceiro trimestre, sem associação com erupção cutânea, e mais intenso à noite. O fluxograma da Febrasgo de 2023 resume em quatro linhas o que caracteriza o quadro: sem rash, mais típico em palmas e plantas, piora à noite, piora com a evolução da gestação. Cada uma dessas quatro linhas é uma pergunta de anamnese, e as quatro cabem em um minuto.
A pele mostra apenas o que a paciente fez com as mãos. Escoriações lineares, crostas, às vezes infecção bacteriana secundária — o manual federal descreve tudo isso como consequência do prurido, não como parte da doença. O interno que encontra escoriações e nenhuma lesão primária tem diante de si o achado mais específico do capítulo: a ausência. Uma urtica, uma pápula, uma placa tiram a paciente deste capítulo e a levam para as dermatoses da gestação, que não têm capítulo próprio neste nível — este assume apenas o prurido sem lesão, e declara que assume.
O que a coceira faz com a vida da paciente entra no diagnóstico. O manual federal lista insônia, irritabilidade e até transtornos emocionais e depressão como consequências do quadro agudo. A mulher que dorme duas horas por noite há duas semanas e que já foi mandada embora com dois anti-histamínicos diferentes não está "ansiosa com a gravidez": está com ácidos biliares altos e ninguém dosou.
O que acompanha o prurido, e o que quase nunca acompanha
Icterícia é a exceção, não a regra. O manual federal registra icterícia leve em 10% a 15% dos casos, surgindo uma a quatro semanas depois do início do prurido, com elevação principalmente da bilirrubina direta. A esclera branca de uma gestante que coça há dez dias não afasta nada — afasta apenas a forma tardia. E a icterícia que aparece antes do prurido, ou sem prurido, empurra o raciocínio para as hepatites virais, que são a primeira causa de icterícia na gestação.
O manual federal descreve como incomuns a perda de peso e de apetite, a colúria, a dor abdominal crônica, a ascite e os tremores. Isso tem uma consequência prática: dor no andar superior do abdome numa gestante que coça não é colestase até prova em contrário — é a soma de prurido com dor que o protocolo brasileiro de síndrome HELLP de 2025 manda investigar como síndrome HELLP ou como esteatose. As três doenças podem coçar; só uma delas coça sem doer.
O curso natural também é dado de anamnese. A colestase resolve no pós-parto imediato ou em até duas a três semanas, segundo o manual federal, e a persistência do quadro depois disso indica outra doença. A paciente que conta que "coçou a gravidez inteira do primeiro filho e parou no dia seguinte ao parto" está descrevendo o diagnóstico com precisão — e está anunciando a recorrência, que fica entre 45% e 90%.
As gestantes em que a colestase já tem dono
Há um grupo em que o prurido do terceiro trimestre é colestase até que o exame diga o contrário. A gestação múltipla e a idade acima de 35 anos aparecem no manual federal e na revisão brasileira; a progesterona oral acima de 600 mg por dia depois de fertilização in vitro e na manutenção de gestação com risco de parto prematuro, no manual; a história pessoal e a familiar, nos dois. A pergunta "alguém na família ficou amarela ou coçou muito na gravidez?" vale mais do que qualquer sinal de exame físico.
A hepatite C merece linha própria. O manual federal, no capítulo de hepatites virais, registra que as portadoras do vírus C têm risco até vinte vezes maior de colestase intra-hepática, e manda o clínico ficar atento ao surgimento de icterícia e prurido nessa população — o que o capítulo de hepatites desta coleção detalha do lado do vírus. A diretriz europeia inverte a frase: a colestase da gravidez pode ser a primeira manifestação de uma doença hepática que ninguém havia diagnosticado, inclusive hepatite C e doença autoimune, e é por isso que o fluxograma da Febrasgo pede sorologias no momento do diagnóstico.
E há o antecedente que a paciente não relaciona com a gravidez. A revisão brasileira registra que, fora do período gestacional, o contraceptivo hormonal combinado pode determinar quadro semelhante nas mulheres predispostas. Uma mulher que "não se deu bem com a pílula" porque ficou coçando ou amarelou já mostrou o transportador defeituoso que a colestase da gravidez vai desmascarar.
A esteatose antes de parecer grave: a virose de terceiro trimestre
A esteatose hepática aguda começa como uma doença sem nome. A diretriz europeia descreve os sintomas mais comuns como inespecíficos — náusea e vômito, dor abdominal, anorexia e fadiga —, e acrescenta que poliúria e polidipsia são frequentes. O manual federal soma alteração do sensório, pulso materno em repouso acima de 100 batimentos por minuto, queixas gastrointestinais, dor muscular e comprometimento fetal. Nenhum desses itens, isolado, tira a paciente da fila da "virose". O conjunto tira.
O dado que separa essa paciente da hiperêmese é o calendário, e ele precisa ser dito com todas as letras porque os dois capítulos desta apostila se encontram aqui. A hiperêmese gravídica começa na primeira metade da gestação e tem capítulo próprio; vômito que estreia após a vigésima semana, numa gestante que atravessou bem o começo, não é hiperêmese até prova em contrário, e o capítulo de hiperêmese diz o mesmo, do lado dele. A transaminase leve da hiperêmese é daquele capítulo; o vômito de terceiro trimestre com transaminase alta é deste.
A sede é a pista que quase ninguém pergunta. Uma gestante de terceiro trimestre que bebe litros de água, urina litros e mesmo assim tem a boca seca está descrevendo o diabetes insípido que a diretriz europeia atribui à falha hepática em degradar a vasopressinase placentária. Polidipsia e poliúria estão nos critérios de Swansea com frequência de 12%, segundo a série britânica que o manual federal reproduz — raros, mas quando presentes valem um ponto e uma suspeita.
A esteatose quando já está grave
A doença que chega tarde chega com o fígado parado. Icterícia, encefalopatia e distensão abdominal por ascite são os sinais de descompensação que a diretriz europeia lista; a sonolência, a confusão e a lentificação são a encefalopatia que a amônia produz; o sangramento gengival, o hematoma no local da punção e o sangramento vaginal fora de hora são a coagulopatia de um fígado que parou de sintetizar. A mesma diretriz registra hemorragia por coagulopatia em 52% dos casos, ascite em 48%, insuficiência hepática aguda em 47%, lesão renal aguda em 80%, encefalopatia em 18% e pancreatite em 16%.
A hipoglicemia é o sinal que este capítulo mais quer que o interno procure, porque é o que o protocolo brasileiro de síndrome HELLP de 2025 escolhe como marca: hipoglicemia importante e muitas vezes refratária costuma acompanhar esses quadros, e é o dado que separa a esteatose da síndrome HELLP. Ela pode se apresentar como sonolência, como sudorese, como tremor, ou como nada — e é por isso que a glicemia capilar entra em toda gestante de terceiro trimestre com vômito e transaminase alta, sintomática ou não.
O feto costuma avisar antes da mãe. O manual federal inclui o comprometimento fetal — condição não tranquilizadora ou morte intrauterina — entre os sinais presentes na maioria dos casos, e a diretriz europeia registra sofrimento fetal em 46%, líquido amniótico meconial em 40% e descolamento de placenta em 13%. Uma cardiotocografia alterada numa gestante "com virose" não é coincidência; é a doença sendo lida do lado de dentro.
Quem é a paciente da esteatose, e as duas doenças depois do parto
O perfil ajuda, sem decidir. A diretriz europeia lista como fatores de risco os extremos de idade materna, o baixo índice de massa corporal, a hipertensão induzida pela gestação, a gestação múltipla, a restrição de crescimento fetal e o feto masculino; o quadro comparativo do manual federal registra primiparidade e feto masculino em 70% dos casos, contra 50% na síndrome HELLP. Na série britânica, 18% das mulheres tinham gêmeos e 20% eram magras. Nada disso é critério: é o que faz o interno pedir a glicemia capilar um minuto antes.
A hipertensão confunde nas duas direções. O manual federal registra que 70% das mulheres com esteatose estavam hipertensas, e a diretriz europeia estima pré-eclâmpsia em 25% a 50% dos casos. Portanto, a esteatose pode chegar com pressão de 150 por 100 e proteinúria, e receber o rótulo de pré-eclâmpsia grave — que ela também tem —, enquanto a hipoglicemia e o fibrinogênio baixo passam sem serem dosados. O rótulo certo não substitui o errado: soma-se a ele.
As duas doenças têm uma forma que chega quando a vigilância já baixou. Entre 5% e 25% dos casos de esteatose manifestam-se depois do parto, segundo a diretriz europeia, na puérpera que "não se recupera" da cesárea, sonolenta, com icterícia e sangramento de ferida. E a colestase que deveria ter resolvido em duas a três semanas e persiste depois de seis a oito é, pelo manual federal e pelo fluxograma da Febrasgo, sinal de outra doença hepática — hepatite C, doença autoimune, doença biliar — e motivo de encaminhamento à hepatologia, com exames que este capítulo nomeia no bloco de investigação.
Como fechar o diagnóstico
Este bloco responde a duas perguntas que têm tempos diferentes. Na colestase, o exame que confirma demora dias, e a pergunta é como conduzir enquanto ele não volta — e o que fazer quando ele não existe. Na esteatose, o diagnóstico é clínico, o laboratório conta pontos, e a pergunta é quais exames pedir na primeira hora para que a decisão do parto não espere nenhum deles. Há uma regra comum: nenhuma das duas se confirma por biópsia à beira do leito, e nenhuma das duas admite que a paciente vá embora enquanto o resultado roda.
As seções seguintes respondem, nesta ordem: qual exame confirma a colestase e por que ele demora; o que os outros exames respondem; o que excluir antes de fechar; como a esteatose se diagnostica; o eixo que separa esteatose de síndrome HELLP; e o que existe na rede pública para cada um desses passos.
O exame que confirma a colestase, e por que ele demora
O exame é a dosagem de ácidos biliares totais no soro — o fluxograma da Febrasgo os chama de sais biliares e lhes atribui a maior sensibilidade e a maior especificidade entre todos os exames do quadro. O manual federal descreve o método enzimático e reconhece que nem sempre está disponível. Na prática brasileira, ele não se faz no laboratório de urgência: a amostra viaja a um laboratório de referência e o resultado volta em dias, o que transforma a colestase na única doença desta apostila em que se decide internar, tratar e agendar um retorno antes de o diagnóstico existir no papel.
Há quatro cortes de confirmação em circulação, e o interno precisa saber qual o serviço dele usa. O manual federal admite confirmação diagnóstica acima de 15 µmol/L. O fluxograma da Febrasgo usa acima de 10 µmol/L, e classifica como leve o intervalo de 10 a 39 e como grave o valor igual ou maior que 40. O colégio britânico define, na apresentação de sua diretriz de 2022, a doença leve de 19 a 39, moderada de 40 a 99 e grave a partir de 100 µmol/L — o 19 é o limite superior de referência específico da gestação. A diretriz europeia registra que dois estudos recentes propuseram um limite de 20 µmol/L para a dosagem sem jejum. A tabela do bloco de critérios põe os quatro lado a lado; o que importa aqui é que os cortes que decidem o feto — 40 e 100 — são os mesmos em todos.
Jejum ou sem jejum é uma pergunta que muda o resultado. A diretriz europeia registra que os ácidos biliares sobem duas a três vezes depois da refeição, na gestante como fora da gestação, e que, num estudo que comparou as duas coletas, nove em cada dez mulheres cujo valor pós-prandial atingia 40 ou 100 µmol/L não seriam identificadas se apenas o valor em jejum fosse medido. Como os cortes de risco fetal foram construídos com valores de pico, a recomendação europeia é dosar sem jejum. O laudo brasileiro raramente diz em que condição a amostra foi colhida; anote no pedido e no prontuário.
A unidade importa, porque os laboratórios brasileiros não usam todos a mesma. O corte internacional está em micromol por litro. Convertido em equivalentes de ácido cólico, 10 µmol/L correspondem a cerca de 0,41 mg/dL, 40 µmol/L a 1,6 mg/dL e 100 µmol/L a 4,1 mg/dL — a conta está no bloco de critérios, com a ressalva de que ácidos biliares são uma mistura de espécies de massas diferentes, o que torna a conversão aproximada. E, na mulher já em uso de ácido ursodesoxicólico, o método enzimático dosa a própria droga junto com os ácidos biliares endógenos — a diretriz europeia registra que ela pode responder por 50% a 70% do total medido —, de modo que o valor sob tratamento não se compara ao valor de entrada sem essa ressalva.
Onde não há dosagem de ácidos biliares, o fluxograma da Febrasgo oferece um ramo próprio: quadro clínico típico, sem lesão cutânea, com alanina aminotransferase acima de duas vezes o valor de referência, autoriza tratar e programar o parto sem o exame. O mesmo documento avisa que a transaminase normal não exclui o diagnóstico — o manual federal registra que a transaminase pode dobrar uma a duas semanas antes de os ácidos biliares subirem, mas o contrário também acontece. A consequência prática: no serviço sem o exame, a transaminase alta confirma e a normal não descarta; nos dois casos a amostra para ácidos biliares viaja.
O que os outros exames respondem
Transaminases. Sobem na maioria dos casos e podem chegar a valores altos; o manual federal associa transaminases acima de 200 a repercussão fetal, na mesma frase em que cita os ácidos biliares acima de 40 — e a metanálise de 2019 discorda: a alanina aminotransferase não discriminou as gestações com óbito fetal, com área sob a curva de 0,46, contra 0,83 dos ácidos biliares. A leitura que concilia as duas fontes é que a transaminase confirma que o fígado está envolvido e não gradua o risco do feto.
Fosfatase alcalina e gama-glutamiltransferase. A primeira sobe sete a dez vezes em qualquer gestação por produção placentária e não contribui, segundo o manual federal e o fluxograma da Febrasgo; a segunda costuma ficar normal ou pouco elevada. Uma fosfatase alcalina de 400 numa gestante de 34 semanas é a placenta, não o fígado.
Bilirrubinas. Sobem pouco e tarde, com predomínio da fração direta; o fluxograma da Febrasgo lista as bilirrubinas entre os exames que não contribuem para o diagnóstico. Bilirrubina alta com prurido recente, ou bilirrubina muito alta em qualquer momento, muda a pergunta para hepatite viral ou para esteatose.
Tempo de protrombina. O manual federal recomenda controle periódico dos fatores de coagulação, principalmente do tempo de protrombina, de acordo com a gravidade. É o único exame da colestase que muda uma prescrição — a vitamina K, quando prolongado —, e é o que separa a colestase que só coça da colestase que já compromete a absorção de gordura.
Hemograma, creatinina, ácido úrico e glicemia. Na colestase, todos normais. Esse conjunto não se pede para confirmar a colestase; pede-se para afastar as duas doenças com que ela se confunde no terceiro trimestre — plaquetas para a síndrome HELLP, glicemia e creatinina para a esteatose. Uma gestante que coça e tem plaquetas de 90.000 não tem colestase: tem uma síndrome HELLP que coça, e o capítulo dela é outro.
Excluir o que se parece, antes de fechar
O fluxograma da Febrasgo, no ramo em que o exame confirma, pede três coisas antes de rotular: ultrassonografia de abdome total, sorologias para hepatites B e C e para citomegalovírus. A ultrassonografia procura obstrução biliar e colelitíase — a colestase da gravidez não dilata via biliar. As sorologias procuram o vírus que a colestase pode estar desmascarando; a diretriz europeia acrescenta a doença autoimune, com anticorpo antimitocôndria, antinúcleo e antimúsculo liso. Alteração em qualquer desses exames tira a paciente deste capítulo e a leva ao tratamento específico da doença encontrada.
Hepatites virais agudas são a primeira causa de icterícia na gestação e não têm capítulo neste nível fora da hepatite B, que tem o seu na gastroenterologia e cobre sorologia, profilaxia e tratamento. Este capítulo assume o mínimo e declara que assume: a icterícia que precede o prurido, a transaminase acima de dez vezes o limite e o contexto epidemiológico pedem sorologias; e o manual federal registra que a hepatite E, semelhante à A na transmissão, evolui com mais frequência para forma fulminante na gestante — o que faz de uma icterícia aguda com encefalopatia um diferencial da esteatose, não só da colestase.
Pré-eclâmpsia com sinais de gravidade e síndrome HELLP entram no diferencial pelo prurido — o protocolo brasileiro de 2025 lista o prurido intenso entre os sintomas que devem chamar atenção para a síndrome HELLP — e saem dele pela pressão, pelas plaquetas e pela desidrogenase láctica. As réguas são dos capítulos deles; o que este acrescenta é que a colestase não tem plaquetopenia nem hemólise, e que uma gestante com as três coisas está em outro capítulo.
As dermatoses específicas da gestação saem pela lesão primária. O manual federal cita a dermatite atópica como principal diferencial dermatológico. Este capítulo não descreve as dermatoses porque nenhum capítulo deste nível é dono delas; assume apenas o que lhe cabe — a coceira que não deixa marca — e manda para avaliação dermatológica a que deixa.
A esteatose: o diagnóstico é clínico, e o laboratório conta pontos
Não há critério universalmente aceito, e o manual federal diz isso antes de adotar o conjunto que todos usam: os critérios de Swansea, propostos por um serviço galês em 2002 e validados na série populacional britânica de 2008. São catorze itens; seis ou mais, na ausência de outra explicação, sugerem o diagnóstico. O manual federal, a diretriz europeia e a série britânica concordam no número seis. A lista em português, com as unidades conferidas, está no bloco de critérios.
Os catorze itens dividem-se em quatro grupos, e vale pedir pensando nos grupos. Quatro são clínicos: vômito, dor abdominal, polidipsia com poliúria, encefalopatia. Sete são de sangue: bilirrubina acima de 0,8 mg/dL, glicemia abaixo de 72 mg/dL, ácido úrico acima de 5,7 mg/dL, leucócitos acima de 11.000 por microlitro, transaminase acima de 42 U/L, amônia acima de 47 µmol/L, creatinina acima de 1,7 mg/dL. Um é de coagulação: tempo de protrombina acima de 14 segundos ou tempo de tromboplastina parcial ativada acima de 34 segundos. Um é de imagem: ascite ou fígado brilhante à ultrassonografia. E um é histológico: esteatose microvesicular na biópsia — o único que não se obtém, e o único de que não se precisa.
O primeiro passo, segundo o manual federal, é detectar a disfunção hepática que é a marca da doença: transaminases e bilirrubinas muito elevadas e níveis anormalmente baixos de colesterol e de fibrinogênio, lembrando que valores normais de não gestante são profundamente baixos numa gestante. A esse conjunto somam-se, na primeira hora, glicemia capilar — repetida —, creatinina, ácido úrico, hemograma, tempo de protrombina, tempo de tromboplastina parcial ativada e fibrinogênio, e amônia onde houver. A ultrassonografia de abdome entra pelo critério de imagem e pelo diferencial com o hematoma hepático da síndrome HELLP; a diretriz europeia recomenda a imagem na pré-eclâmpsia grave e na síndrome HELLP quando há dor sugestiva de hematoma.
A biópsia é patognomônica — hepatócitos edemaciados com núcleo central e infiltração gordurosa microvesicular, segundo o manual federal — e não se faz para decidir, porque a coagulopatia a proíbe e porque o parto não pode esperar por ela. A série britânica mostrou que os critérios propostos concordam com o diagnóstico clínico em 97% dos casos; é essa concordância que autoriza o interno a contar seis pontos e chamar a obstetra, em vez de pedir um exame que não vai mudar nada.
Um detalhe de leitura evita dois erros de sinal. A diretriz europeia registra, numa série de 52 mulheres, que quem pontuou mais de sete critérios teve mais óbito fetal, mais necessidade de terapia de substituição e mais hemorragia pós-parto, e por isso recomenda terapia intensiva para quem tem mais de sete pontos, encefalopatia, lactato elevado ou escore de doença hepática terminal de 30 ou mais. O número de critérios, portanto, faz duas coisas: seis abre o diagnóstico, oito indica a unidade em que a paciente vai ficar.
Síndrome HELLP ou esteatose: o eixo que decide
Este é o diferencial que o interno mais erra, e ele erra porque as duas doenças começam iguais: gestante de terceiro trimestre, dor no andar superior do abdome, vômito, transaminase alta, plaquetas que podem estar baixas nas duas. O protocolo brasileiro de síndrome HELLP de 2025 chama a esteatose de diagnóstico diferencial mais difícil e registra que o manejo inicial é semelhante — suporte, parto e puerpério —, mas que a distinção é necessária porque a esteatose evolui rapidamente para insuficiência hepática, encefalopatia e hipoglicemia grave.
O eixo que decide é a função de síntese, e ele se lê em quatro números. Glicemia: hipoglicemia importante e muitas vezes refratária na esteatose, segundo o protocolo brasileiro; normal na síndrome HELLP. Fibrinogênio: profundamente baixo na esteatose desde a admissão, segundo o manual federal, e preservado na síndrome HELLP até a fase de coagulação intravascular disseminada, que o protocolo de 2025 situa abaixo de 30.000 plaquetas. Colesterol: baixo na esteatose. Creatinina: lesão renal aguda em quatro de cada cinco esteatoses, segundo a diretriz europeia, e em uma de cada cinco síndromes HELLP, segundo a série brasileira que o capítulo vizinho usa.
Os números que apontam para o outro lado. Plaquetas muito baixas, com esquizócitos e desidrogenase láctica alta, são a síndrome HELLP — o manual federal marca plaquetas com dois sinais negativos na coluna da síndrome HELLP e com sinal indiferente na da esteatose. Hipertensão e proteinúria pesam para a síndrome HELLP, mas não decidem: o manual registra 70% de hipertensas entre as esteatoses, e o protocolo de 2025 registra que cerca de 15% das síndromes HELLP não têm hipertensão nem proteinúria. Icterícia e colúria pesam para a esteatose, segundo o protocolo de 2025 — e a bilirrubina da esteatose sobe mais, com hiperbilirrubinemia à admissão citada pelo manual como mais frequente nela.
A imagem separa as complicações, não as doenças. O manual federal registra ultrassonografia ou tomografia normal ou com hematoma subcapsular na síndrome HELLP, e ascite ou fígado brilhante na esteatose. O que isso muda na prática: dor em hipocôndrio direito que muda de caráter, com queda de pressão, pede imagem urgente nas duas, porque o hematoma é do capítulo vizinho e a ascite é deste, e o tratamento de cada um é diferente.
A tabela do bloco de critérios organiza o eixo por linha. Mas a regra cabe numa frase, e ela serve para a madrugada em que só há fita de glicemia: transaminase alta com glicemia baixa é esteatose até que se prove o contrário; transaminase alta com plaquetas em queda e glicemia normal é síndrome HELLP até que se prove o contrário; e as duas podem coexistir com pré-eclâmpsia, que não afasta nenhuma das duas.
O que existe na rede, e o que não existe
Do lado do diagnóstico. Glicemia capilar, hemograma, transaminases, bilirrubinas, creatinina, ácido úrico e coagulograma são exames do menor nível de complexidade e existem em qualquer hospital com laboratório de plantão; fibrinogênio e amônia dependem do serviço. Ácidos biliares totais não se fazem na urgência: a amostra viaja ao laboratório de referência e o resultado volta em dias — o que faz da colestase uma doença que se conduz com o exame em trânsito e obriga o serviço a ter um caminho definido para a amostra. A ultrassonografia depende de plantonista de imagem.
Do lado do tratamento, a Rename 2024 diz três coisas que mudam a conduta. O ácido ursodesoxicólico consta, em comprimidos de 50, 150 e 300 mg, apenas no componente especializado da assistência farmacêutica, no grupo 1B, vinculado ao protocolo clínico de colangite biliar primária — a gestante com colestase não é a população desse protocolo, e o acesso pelo componente depende de como cada estado o dispensa; a leitura deste capítulo é que, na prática, a paciente compra o remédio ou o serviço o fornece por via própria. Os anti-histamínicos que o manual federal cita — difenidramina e hidroxizina — não constam; constam loratadina, maleato de dexclorfeniramina e prometazina, no componente básico. E a fitomenadiona, a vitamina K, não consta em nenhum componente: quem precisar dela na colestase com tempo de protrombina prolongado vai encontrá-la no estoque hospitalar, não na farmácia da atenção básica.
Do lado da esteatose, a rede tem o que a primeira hora precisa — glicose a 50%, a 10% e a 5% no componente básico, plasma fresco congelado e crioprecipitado no banco de sangue — e não tem o que a segunda semana pode precisar: plasmaférese, unidade de fígado e transplante são de centro terciário, e a transferência começa a ser articulada no momento em que se contam seis critérios, não depois do parto.
Os cortes que decidem o feto, os catorze critérios que decidem a mãe, e o que não fecha nas fontes
Este bloco se consulta em dois momentos. Na colestase, com o laudo de ácidos biliares na mão — ou sem ele, no serviço em que ele não existe —, para responder três perguntas: a paciente tem o diagnóstico pela régua que o serviço usa; em que estrato de risco ela está; e em que semana o parto acontece. Na esteatose, com o painel de sangue impresso, para contar os critérios e decidir a unidade em que ela vai ficar. A ordem: primeiro o fluxo, colestase e depois esteatose; a tabela que põe as réguas brasileiras e internacionais em colunas vizinhas, já que divergem entre si, e essa divergência altera quem sai com diagnóstico e a semana do nascimento; os critérios de Swansea em português, com as unidades conferidas contra o original; o eixo que separa esteatose de síndrome HELLP; a tabela de dose do ácido ursodesoxicólico contra os comprimidos que existem; e as notas, que registram cada conta que fechou e cada uma que não fechou. Duas advertências. Nenhuma tabela deste bloco autoriza esperar um resultado para reter a paciente ou chamar ajuda. E onde dois documentos brasileiros discordam, o bloco mostra os dois e diz o que cada escolha muda — o serviço em que o interno trabalha segue um deles, e ele precisa saber qual.
- 1Colestase, passo 1 — reconheça a candidata: prurido sem lesão primária de pele na segunda metade da gestação, mais forte em palmas e plantas e à noite, com escoriações e sem urtica, pápula ou placa. Pergunte pela gestação anterior, pela família, pela pílula e pela hepatite C.
- 2Colestase, passo 2 — colha antes de prescrever: ácidos biliares totais (sem exigir jejum; anote a condição da coleta), alanina aminotransferase, bilirrubinas, tempo de protrombina, hemograma com plaquetas, glicemia e creatinina. No mesmo pedido, sorologias para hepatites B e C e ultrassonografia de abdome, que o fluxograma da Febrasgo exige antes de fechar.
- 3Colestase, passo 3 — a paciente não sai com anti-histamínico e "volte se piorar": sai com a amostra em trânsito, a obstetra avisada, sintomático prescrito e retorno em 48 horas, que é o prazo do fluxograma da Febrasgo para reavaliar.
- 4Colestase, passo 4 — enquanto o exame viaja: se o quadro é típico, sem lesão de pele, e a alanina aminotransferase está acima de duas vezes o valor de referência, o fluxograma da Febrasgo autoriza começar o ácido ursodesoxicólico sem esperar o resultado; se a transaminase é normal, trate o sintoma e aguarde — normal não exclui.
- 5Colestase, passo 5 — com o laudo: classifique pelo corte do seu serviço (10 µmol/L na Febrasgo, 15 no manual federal) e pelo estrato que decide o feto — abaixo de 40, de 40 a 99, 100 ou mais. Defina o calendário: ácidos biliares pelo menos semanais a partir de 32 semanas, que é a recomendação europeia; semanais ou quinzenais, na Febrasgo.
- 6Colestase, passo 6 — a semana do parto, escrita no prontuário no dia do diagnóstico: abaixo de 100 µmol/L, entre 37 e 39 semanas pela Febrasgo, até 37 ou 38 pelo manual federal; 100 ou mais, com 36 semanas pela Febrasgo e pela sociedade norte-americana, a partir de 35 pela diretriz europeia. Fator de risco sem exame disponível — mau passado obstétrico com perda fetal antes de 36 semanas, ou ausência de resposta ao tratamento — leva a 36 semanas pela Febrasgo.
- 7Colestase, passo 7 — um único valor igual ou acima de 100 µmol/L em qualquer momento fixa a semana e dispensa novas dosagens, segundo a diretriz europeia. Cardiotocografia normal não desfaz essa decisão: o óbito da colestase não avisa.
- 8Colestase, passo 8 — depois do parto, suspenda o ácido ursodesoxicólico, repita o laboratório em seis a oito semanas e, se persistir alterado, encaminhe à hepatologia com as sorologias e a ultrassonografia já feitas. Antes da alta: recorrência de 45% a 90% e a categoria do contraceptivo combinado.
- 9Esteatose, passo 9 — reconheça a candidata: náusea e vômito que começam no terceiro trimestre, dor abdominal, sede e poliúria, sonolência, mal-estar de "virose" que dura dias, cardiotocografia alterada em quem chegou por outro motivo. Hipertensão presente ou ausente não decide.
- 10Esteatose, passo 10 — glicemia capilar agora, antes de qualquer outro exame, e repetida a cada hora enquanto durar a suspeita. Abaixo de 72 mg/dL já pontua; abaixo de 60 com sintomas trata-se pelo protocolo AC29 enquanto o restante do painel roda.
- 11Esteatose, passo 11 — colha o painel que conta pontos: hemograma, transaminases, bilirrubinas, creatinina, ácido úrico, glicemia sérica, tempo de protrombina, tempo de tromboplastina parcial ativada, fibrinogênio, amônia onde houver, e peça ultrassonografia de abdome. Colha antes de infundir qualquer coisa.
- 12Esteatose, passo 12 — conte os critérios de Swansea. Seis ou mais, sem outra explicação, fecham a suspeita: chame a obstetra e a terapia intensiva, avise o banco de sangue e comece a articular a transferência para centro com unidade intensiva materna e neonatal. Mais de sete critérios, encefalopatia ou lactato elevado indicam, pela diretriz europeia, a unidade intensiva desde já.
- 13Esteatose, passo 13 — estabilize o que se corrige em horas e resolva a gestação: glicose, coagulopatia com plasma fresco e crioprecipitado, via aérea se houver alteração de consciência, sulfato de magnésio e anti-hipertensivo se houver pré-eclâmpsia. Não espere biópsia; não espere confirmação de nada.
- 14Esteatose, passo 14 — depois do parto, a mãe piora antes de melhorar: unidade intensiva, exames hematológicos, hepáticos e renais a cada 6 a 12 horas nos primeiros dias, vigilância de hemorragia, e — antes da alta — o rastreio de defeito de oxidação de ácidos graxos na mãe e no recém-nascido.
| Decisão | Manual do MS (2022) | Febrasgo — fluxograma (2023) | SMFM (2021) e EASL (2023) | O que muda na fronteira |
|---|---|---|---|---|
| Corte que confirma a colestase | Ácidos biliares totais acima de 15 µmol/L | Sais biliares acima de 10 µmol/L; leve de 10 a 39 | SMFM: dosar ácidos biliares e transaminases (grau 1B), sem corte no resumo; EASL: registra propostas de 20 µmol/L sem jejum; o colégio britânico define leve a partir de 19 | Entre 10 e 15 µmol/L a paciente tem o diagnóstico por um documento brasileiro e não pelo outro; nenhum corte de risco fetal muda com isso |
| Jejum | Não especifica | Não especifica | EASL: dosar sem jejum, porque o valor de pico é o que prediz o desfecho e nove em cada dez picos de 40 ou 100 se perdem se só o jejum é medido | Anote a condição da coleta no pedido; um valor em jejum pode subestimar o estrato |
| O que é grave | Repercussão fetal associada a ácidos biliares acima de 40 e transaminases acima de 200 (sem unidade impressa) | Grave: igual ou acima de 40 µmol/L (15% a 20% dos casos) | EASL e a metanálise de 2019: acima de 40, mais prematuridade espontânea, mecônio e anóxia; a partir de 100, óbito fetal; colégio britânico: moderada 40 a 99, grave a partir de 100 | O "grave" da Febrasgo começa em 40, mas a semana do parto só muda em 100 — a classe não decide a conduta que ela parece decidir |
| Óbito fetal por estrato (metanálise de 2019, gestação única) | Não cita números | Não cita números | Abaixo de 40: 3 em 2.310 (0,13%); de 40 a 99: 4 em 1.412 (0,28%); 100 ou mais: 18 em 524 (3,44%); risco sobe a partir de 35 a 36 semanas | É a origem de toda semana de parto das réguas; abaixo de 100 o risco se aproxima do basal |
| Semana do parto abaixo de 100 µmol/L | Casos leves: postergar até 37 ou 38 semanas | Entre 37 e 39 semanas, ou antes se houver indicação obstétrica | SMFM: entre 36 0/7 e 39 0/7 (grau 1C); EASL: considerar indução até 39 semanas | O manual encerra em 38 e a Febrasgo em 39: uma gestante de 38 semanas e 3 dias é "para resolver" por um e "pode esperar" pelo outro |
| Semana do parto a partir de 100 µmol/L | Antecipar nos casos de maior acometimento ou de má resposta, sem semana fixada | Com 36 semanas, ou antes se houver indicação obstétrica | SMFM: oferecer parto com 36 0/7 (grau 1B); EASL: planejar a partir de 35 semanas | Entre 35 e 36 semanas, um documento manda resolver e dois mandam esperar; o manual não dá número nenhum |
| Serviço sem dosagem de ácidos biliares | Não prevê o cenário | Quadro típico sem lesão de pele e alanina aminotransferase acima de duas vezes a referência: tratar; com fator de risco, parto com 36 semanas; sem, entre 37 e 39 | SMFM: recomenda contra parto antes de 37 semanas sem confirmação laboratorial de ácidos biliares elevados (grau 1B) | A Febrasgo autoriza 36 semanas por clínica e transaminase; a sociedade norte-americana proíbe — o serviço sem exame precisa escolher, e a amostra deve viajar antes |
| Ácido ursodesoxicólico | Droga de escolha: 10 a 15 mg/kg/dia em três tomadas, de 750 mg a 1,5 g, não ultrapassando 25 mg/kg/dia | 300 mg três vezes ao dia, no caso leve e no grave | SMFM: primeira linha para os sintomas maternos (grau 1A); EASL: considerar para o prurido, com efeito pequeno, e oferecer a partir de 40 µmol/L para reduzir prematuridade espontânea | O ensaio controlado de 2019 não encontrou redução do desfecho perinatal; a divergência tem bloco próprio |
| Vigilância | Mobilograma, cardiotocografia, ultrassonografia com Doppler e perfil biofísico | Sais biliares semanais ou quinzenais; reavaliar em 48 horas e em 2 semanas | SMFM: iniciar vigilância fetal na idade gestacional em que se resolveria a gestação por exame alterado (grau 2C); EASL: ácidos biliares pelo menos semanais a partir de 32 semanas; a partir de 100, não é preciso repetir | Nenhum dos quatro afirma que o exame de bem-estar prevê o óbito da colestase; o que protege é a semana |
| Depois do parto | Controle laboratorial em seis a oito semanas; alteração persistente pede avaliação gastroenterológica | Avaliar em seis semanas; sem melhora, ou sais biliares ainda alterados, encaminhar à hepatologia | EASL: garantir normalização em três meses; investigar doença hepática se persistir; genética se início precoce, doença grave ou história familiar | Os prazos são coerentes entre si; o que muda é para quem se encaminha |
Critérios de Swansea em português, com as unidades conferidas contra o original
| Critério | Corte | Frequência na série britânica (2008), como o manual imprime | Conferência de unidade |
|---|---|---|---|
| Vômito | Presente | 60% | Clínico |
| Dor abdominal | Presente | 56% | Clínico |
| Polidipsia com poliúria | Presente | 12% (o manual grafa "podipsia") | Clínico |
| Encefalopatia | Presente | 9% | Clínico |
| Bilirrubina | Acima de 0,8 mg/dL | 100% | 14 µmol/L × 0,0585 = 0,82 mg/dL — fecha |
| Glicemia | Abaixo de 72 mg/dL | 78% | 4 mmol/L × 18,02 = 72 mg/dL — fecha no manual; a diretriz europeia imprime "menor que 2 mg/dl", que é impossível |
| Ácido úrico | Acima de 5,7 mg/dL | 88% | 340 µmol/L × 0,0168 = 5,72 mg/dL — fecha |
| Leucócitos | Acima de 11.000 por microlitro | 98% | 11 × 10⁹/L = 11.000/µL — fecha no manual; a diretriz europeia imprime 10⁶/L, mil vezes menor |
| Transaminases | Aspartato ou alanina aminotransferase acima de 42 U/L | 100% | Mesma unidade no original |
| Amônia | Acima de 47 µmol/L | 50% | 47 µmol/L × 17,03 = 0,08 mg/dL; a diretriz europeia imprime "27,5 mg/dl", 344 vezes maior |
| Creatinina | Acima de 1,7 mg/dL | 58% | 150 µmol/L × 0,0113 = 1,70 mg/dL — fecha |
| Coagulopatia | Tempo de protrombina acima de 14 s ou tempo de tromboplastina parcial ativada acima de 34 s | Acima de 50% | O manual acrescenta "e plaquetas acima de 100.000/mm³" nesta linha; a lista original e a diretriz europeia não têm critério de plaquetas |
| Ultrassonografia | Ascite ou fígado brilhante | 25% | Imagem |
| Histologia | Esteatose microvesicular | Não se obtém antes do parto | Único critério dispensável |
Síndrome HELLP ou esteatose hepática aguda: um eixo por linha
| Eixo | Síndrome HELLP | Esteatose hepática aguda | O gesto que decide |
|---|---|---|---|
| Glicemia | Normal | Hipoglicemia importante e muitas vezes refratária (protocolo brasileiro de 2025) | Fita de glicemia na admissão e a cada hora |
| Fibrinogênio e tempos de coagulação | Preservados até a fase avançada, abaixo de 30.000 plaquetas | Baixos desde a admissão; "normal de não gestante" já é profundamente baixo (manual federal) | Fibrinogênio, tempo de protrombina e tempo de tromboplastina no primeiro painel |
| Colesterol | Pouco alterado | Muito baixo | Dosar quando disponível; não atrasa nada |
| Creatinina e ácido úrico | Lesão renal em cerca de um quinto (série brasileira); ácido úrico elevado | Lesão renal aguda em quatro de cada cinco (diretriz europeia); ácido úrico muito alto | Creatinina e ácido úrico no primeiro painel; diurese horária |
| Plaquetas e hemólise | Plaquetopenia progressiva, esquizócitos, desidrogenase láctica alta | Plaquetas normais ou pouco reduzidas; hemólise não é o eixo | Hemograma com plaquetas e esfregaço |
| Bilirrubina, icterícia e colúria | Raras, tardias, marcam gravidade extrema | Mais frequentes e mais precoces; hiperbilirrubinemia à admissão (manual e protocolo de 2025) | Bilirrubinas totais e frações; olhar a esclera |
| Hipertensão e proteinúria | Presentes em cerca de 85% (protocolo de 2025) | Hipertensas em cerca de 70% (manual federal); pré-eclâmpsia em 25% a 50% (diretriz europeia) | Não decidem; medem e tratam-se em paralelo |
| Leucócitos | Elevados | Muito elevados — acima de 11.000 em 98% dos casos | Hemograma |
| Imagem | Normal ou hematoma subcapsular | Ascite ou fígado brilhante | Ultrassonografia de abdome quando a dor muda de caráter ou há distensão |
| Feto | Comprometido conforme a gravidade materna | Sofrimento fetal em 46%, mecônio em 40%, óbito fetal frequente (diretriz europeia e protocolo de 2025) | Cardiotocografia na admissão |
| Depois do parto | Piora por 24 a 72 horas, com nadir de plaquetas | Piora por dias; coagulopatia regride em 4 a 6 dias, creatinina em 7 a 10 ou mais (manual federal) | Unidade intensiva e painel a cada 6 a 12 horas nas duas |
Ácido ursodesoxicólico: dose por peso, comprimidos reais e onde as doses fixas do manual brigam com a faixa por quilo
| Peso | 10 mg/kg/dia | 15 mg/kg/dia | Comprimidos de 300 e 150 mg em três tomadas (dose arredondada) | Teto de 25 mg/kg/dia | As doses fixas do manual contra a faixa por peso |
|---|---|---|---|---|---|
| 45 kg | 450 mg | 675 mg | 600 mg: 1 comprimido de 150 mg mais 1 de 50 mg por tomada | 1.125 mg | 1,5 g = 33 mg/kg, acima do teto de 25 |
| 50 kg | 500 mg | 750 mg | 750 mg: 1 comprimido de 150 mg mais 2 de 50 mg por tomada | 1.250 mg | 1,5 g = 30 mg/kg, acima do teto |
| 55 kg | 550 mg | 825 mg | 750 mg, como acima | 1.375 mg | 1,5 g = 27 mg/kg, acima do teto |
| 60 kg | 600 mg | 900 mg | 900 mg: 1 comprimido de 300 mg por tomada | 1.500 mg | 1,5 g = exatamente o teto; 750 mg = 12,5 mg/kg, dentro da faixa |
| 70 kg | 700 mg | 1.050 mg | 900 a 1.050 mg: 1 de 300 mg por tomada, mais 1 de 150 mg numa delas | 1.750 mg | 750 mg = 10,7 mg/kg, no piso da faixa |
| 80 kg | 800 mg | 1.200 mg | 1.200 mg: 1 de 300 mg mais 1 de 150 mg em cada uma de duas tomadas e 1 de 300 na terceira | 2.000 mg | 750 mg = 9,4 mg/kg, abaixo do piso de 10 |
| 90 kg | 900 mg | 1.350 mg | 1.350 mg: 1 de 300 mg mais 1 de 150 mg por tomada | 2.250 mg | 750 mg = 8,3 mg/kg, abaixo do piso |
| 100 kg | 1.000 mg | 1.500 mg | 1.500 mg: 1 de 300 mg mais 1 de 150 mg por tomada, mais 1 de 150 numa delas | 2.500 mg | 750 mg = 7,5 mg/kg, abaixo do piso; 1,5 g = 15 mg/kg, no teto da faixa |
| Dose fixa da Febrasgo (300 mg, três vezes ao dia) | 900 mg/dia | — | 1 comprimido de 300 mg por tomada | — | Corresponde a 10 a 15 mg/kg só entre 60 e 90 kg |
| Dose do ensaio britânico de 2019 (500 mg, duas vezes ao dia) | 1.000 mg/dia | — | 1 de 300 mg mais 1 de 150 mg mais 1 de 50 mg por tomada, em duas tomadas | — | 14,3 mg/kg em 70 kg; a bula manda dividir em 2 ou 3 tomadas após as refeições |
Mortalidade perinatal da esteatose — a conta que não fecha no manual federal. O capítulo 15 imprime "mortalidade perinatal de 104/100.000 nascimentos". A série britânica de 2008, que é a fonte, registra 7 óbitos entre 67 recém-nascidos: 7 ÷ 67 = 0,1045, ou 104 por 1.000 — um em cada dez. O manual dividiu por cem mil onde a fonte divide por mil, e o número impresso, 0,10%, ficaria abaixo da mortalidade perinatal basal de qualquer população, o que é incompatível com o próprio capítulo, que descreve morte intrauterina entre os sinais frequentes da doença. A incidência da mesma frase fecha: 57 casos em 1.132.964 partos = 5,03 por 100.000, que o manual arredonda para 1 em 20.000.
A unidade deve ser conferida antes da decisão: 1 g/L equivale a 100 mg/dL e 2 g/L a 200 mg/dL. Não misturar limiar diagnóstico de coagulopatia com meta transfusional. Distinguir coagulopatia sem sangramento de hemorragia obstétrica ativa. O alvo >100 mg/dL do protocolo institucional não deve ser usado como meta suficiente para hemorragia ativa; nesse cenário, repor fibrinogênio com alvo ≥200 mg/dL (2 g/L), reavaliando perdas, exames e resposta. Na preparação do parto sem hemorragia ativa, pactuar a meta com obstetrícia, anestesia e hemoterapia segundo procedimento e evolução; não transfundir apenas por um número isolado. Referência: protocolo institucional citado e diretriz consolidada OMS/FIGO/ICM de HPP, 2025.
Uma linha de plaquetas dentro dos critérios de Swansea, e um quadro que não existe. O Quadro 1 do manual federal escreve, na linha de coagulopatia, "tempo de protrombina >14 segundos ou TTPa >34 segundos e plaquetas >100.000/mm³". A lista original de catorze critérios, como a diretriz europeia de 2023 a reproduz citando o estudo galês de 2002, não tem critério de plaquetas — a contagem plaquetária é dado de diferencial com a síndrome HELLP, não critério da esteatose. Lida como está impressa, a linha exigiria plaquetas altas para pontuar coagulopatia, o que retiraria o ponto justamente da paciente com coagulação intravascular disseminada, que o mesmo capítulo descreve como complicação. Este capítulo conta a coagulopatia pelos tempos, sem a condição de plaquetas. No mesmo capítulo, o texto manda consultar um "Quadro 3" para a suspeição de coagulopatia; o capítulo tem os Quadros 1 e 2 e a Tabela 1, e o Quadro 3 não existe.
A dose do ácido ursodesoxicólico no manual federal briga consigo mesma. O capítulo 16 prescreve 10 a 15 mg/kg/dia em três tomadas, "variando-se de 750 mg, na doença moderada, a 1,5 g, na doença severa, não ultrapassando a dose máxima até 25 mg/kg/dia". As três regras só coexistem entre 60 e 90 kg: em 50 kg, 1,5 g são 30 mg/kg e estouram o teto de 25; em 45 kg, 33 mg/kg; em 100 kg, 750 mg são 7,5 mg/kg e ficam abaixo do piso de 10. A tabela acima mostra a conta por peso. Este capítulo prescreve por quilo — 10 a 15 mg/kg/dia — e trata os 750 mg e 1,5 g como exemplos que valem para a gestante de 60 a 75 kg, não como faixa.
O manual federal afirma, na mesma página, que o ácido ursodesoxicólico "não reduz os ácidos biliares circulantes e das transaminases" e que "apresenta melhora laboratorial em três a quatro semanas". As duas frases não convivem. O ensaio britânico de 2019 mediu o que cada uma afirma: a concentração de ácidos biliares não caiu no grupo tratado em comparação com o placebo — média geométrica de 22,4 contra 18,5 µmol/L, razão de 1,18 —, em parte porque o método enzimático dosa a própria droga; a alanina aminotransferase caiu nos dois grupos ao longo do tempo. A leitura que concilia: sob tratamento, a transaminase pode melhorar e os ácidos biliares totais não servem para medir resposta sem a ressalva do método.
Os cortes do fluxograma da Febrasgo, lidos no valor exato. O losango pergunta se os sais biliares estão "acima de 10 µmol/L", e a classe leve é definida "entre 10 e 39": o valor exato de 10 não está acima de 10 e, ao mesmo tempo, está entre 10 e 39 — pertence à classe e não entra no fluxo. Entre 39 e 40 não há classe nenhuma: um laudo de 39,5 µmol/L, comum em método que devolve decimais, não é leve (até 39) nem grave (a partir de 40). E a classe grave, que começa em 40, não muda a semana do parto, que o mesmo fluxograma divide em 100: a paciente com 55 µmol/L é "grave" e nasce entre 37 e 39 semanas, como a leve. Na beira do leito, a classe descreve o risco de prematuridade espontânea e de mecônio; a semana se decide pelo 100.
Grafia e aritmética do fluxograma da Febrasgo. O documento escreve "Ácido Ursodexicólico" nas duas caixas de tratamento — o nome do fármaco é ácido ursodesoxicólico — e "indicação obtétrica" numa das caixas de parto. A dose fixa de 300 mg três vezes ao dia, 900 mg por dia, corresponde a 10 a 15 mg/kg apenas entre 60 e 90 kg: em 50 kg são 18 mg/kg, dentro do teto do manual; em 100 kg são 9 mg/kg, abaixo do piso. Nenhum desses achados muda a conduta; mudam a leitura de quem vai copiar o nome do remédio de um fluxograma para uma receita.
Unidades que o manual federal não imprime, e a conversão que o laboratório brasileiro exige. A frase "repercussões fetais estão associadas aos níveis de ácidos biliares acima de 40 e transaminases acima de 200" vem sem unidade nas duas grandezas; pelo contexto, µmol/L e U/L. Como parte dos laboratórios devolve ácidos biliares em miligramas por decilitro, a conversão feita com a massa molar do ácido cólico (408,6 g/mol) dá 0,0409 mg/dL por µmol/L: 10 µmol/L = 0,41 mg/dL; 15 = 0,61; 19 = 0,78; 40 = 1,63; 100 = 4,09 mg/dL. Como o soro contém uma mistura — glicocólico (465,6) e taurocólico (515,7) pesam mais —, a conversão varia até 26% conforme a espécie predominante; o laudo em mg/dL precisa vir com a referência do próprio laboratório, e os cortes de 40 e 100 valem em µmol/L.
A tabela do escore de coagulação intravascular disseminada modificado para a gestação, como está impressa no capítulo 15 da versão eletrônica do manual federal, tem três problemas de leitura. As faixas de plaquetas da coluna modificada aparecem como "maior que 185.000" (zero ponto) e "maior que 100.000" (um ponto), que se sobrepõem — 200.000 satisfaz as duas linhas; a leitura coerente com a coluna vizinha é 100.000 a 185.000 para o ponto. O cabeçalho anuncia plaquetas em "×10⁹/L" e as linhas trazem valores por milímetro cúbico. E uma faixa de fibrinogênio aparece como "40 a 4,5" g/L, onde só cabe 4 a 4,5. O escore em si — 26 ou mais compatível com coagulação intravascular disseminada — está coerente com a soma máxima das três variáveis; o que não fecha é a tipografia das faixas, e ela basta para pontuar errado uma paciente com 200.000 plaquetas.
A diretriz europeia de 2023 erra três conversões no seu próprio quadro de Swansea, e o manual federal acerta as quatro que imprime. A diretriz escreve hipoglicemia "<2 mg/dl (<4 mmol/L)" — 4 mmol/L × 18,02 = 72 mg/dL, como o manual imprime; amônia ">27,5 mg/dl (>47 µmol/L)" — 47 µmol/L × 17,03 g/mol = 800 µg/L = 0,08 mg/dL, e 27,5 mg/dL são 344 vezes isso; e leucocitose ">11×10⁶/L", mil vezes abaixo de 11 × 10⁹/L. Na mesma seção, o lactato que indica terapia intensiva vem como ">2,8 mg/dl": 2,8 mg/dL equivalem a 0,31 mmol/L, abaixo do normal, e a leitura provável é 2,8 mmol/L, ou 25 mg/dL. As conversões do manual federal — bilirrubina 14 µmol/L = 0,82 mg/dL, glicose 72 mg/dL, urato 340 µmol/L = 5,72 mg/dL, creatinina 150 µmol/L = 1,70 mg/dL — fecham todas.
Dois documentos brasileiros dão números diferentes para a mesma pergunta. O manual federal, ao comparar as duas doenças, escreve que "quase a totalidade das mulheres com síndrome HELLP apresentava hipertensão", contra 70% das esteatoses; o protocolo brasileiro de síndrome HELLP de 2025 registra que hipertensão ou proteinúria estão presentes em aproximadamente 85% das pacientes, o que deixa cerca de uma em seis sem nenhuma das duas. A frase do manual vem de uma comparação britânica de 2020 e a do protocolo, da série que o capítulo de síndrome HELLP desta apostila usa. Para o diferencial isso tem uma consequência só: pressão normal não exclui nenhuma das duas doenças, e o eixo que separa continua sendo a glicemia e o fibrinogênio.
Conferências que fecharam, e uma que não fechou numa fonte internacional. Na metanálise de 2019 os três estratos fecham exatamente: 3 ÷ 2.310 = 0,13%, 4 ÷ 1.412 = 0,28%, 18 ÷ 524 = 3,44%. O total do mesmo resumo não fecha: "45 (0,83%) de 4.936" — 45 ÷ 4.936 = 0,91%, e 0,83% de 4.936 seriam 41 óbitos; a soma dos estratos (4.246) é menor que o total porque os estratos são gestações únicas com valor de pico disponível, mas isso não explica a fração impressa. Como os cortes de conduta saem dos estratos, e não do total, o erro não muda nenhuma decisão. No ensaio de 2019: 74 ÷ 322 = 23,0% e 85 ÷ 318 = 26,7%, como impresso, e a razão de risco ajustada de 0,85 com intervalo de 0,62 a 1,15 cruza 1. Na série britânica: 57 ÷ 1.132.964 = 5,03 por 100.000. Na Febrasgo: 80% a 85% de leves mais 15% a 20% de graves somam 100 nos dois extremos. No manual federal: os 70% de hipertensas na esteatose reaparecem como "em torno de 70%" na indicação de sulfato, coerentes entre si.
O que a Rename 2024 diz, por grep exato sobre o texto normalizado. "Ácido ursodesoxicólico" aparece em dois lugares: na lista por grupo anatômico, em comprimidos de 50, 150 e 300 mg, componente especializado, código A05AA02; e na relação do componente especializado, grupo 1B, sob "PCDT Colangite Biliar Primária". O grupo 1B é financiado pelo Ministério da Saúde e dispensado pelos estados para as doenças contempladas nos protocolos clínicos do componente — a colestase da gravidez não é uma delas. "Fitomenadiona" e "vitamina K" não aparecem, e não há nenhum código B02BA na lista, embora existam B02AA02 (ácido tranexâmico) e B02BB01 (fibrinogênio). "Hidroxizina", "difenidramina" e "colestiramina" não aparecem; "loratadina", "dexclorfeniramina" e "prometazina" aparecem no componente básico. Glicose a 5%, 10% e 50% constam do componente básico.
A bula do ácido ursodesoxicólico aprovada pela Anvisa em dezembro de 2023 contém duas frases que o interno precisa conhecer antes de prescrever a droga a uma gestante. A primeira lista, entre as contraindicações, "condições do intestino delgado, cólon e fígado que possam interferir com a circulação êntero-hepática de sais biliares (ressecção ileal e estoma, colestase intra e extra hepática, doença hepática severa)" — enquanto a seção de indicações do mesmo documento inclui "alterações qualitativas e quantitativas da bile (colestases)". A segunda diz que, por motivos de segurança, mulheres grávidas não devem ser tratadas a não ser que seja claramente necessário, que há toxicidade reprodutiva em animais no início da gestação, e que "uma gravidez em curso deve ser descartada antes de iniciar o tratamento". O uso na colestase da gravidez é, portanto, fora da bula, sustentado pelo manual federal, pela Febrasgo e pelas sociedades internacionais; o termo de ciência da paciente e o registro da indicação no prontuário são leitura deste capítulo, não exigência das fontes.
A semana do parto na esteatose e na colestase não tem o mesmo tipo de régua. Na esteatose, o manual federal e a diretriz europeia mandam resolver a gestação em qualquer idade gestacional, assim que a coagulopatia e o que se corrige em horas estiverem corrigidos — não há semana, há horas. Na colestase há três semanas diferentes para o estrato de 100 µmol/L: 35 (diretriz europeia), 36 (Febrasgo e sociedade norte-americana) e nenhuma (manual federal). A gestante de 35 semanas e 3 dias com 110 µmol/L está, hoje, para resolver por um documento e para esperar por dois; o que decide, na prática, é o que o serviço pactuou e a disponibilidade de unidade neonatal — e o bloco de divergências não fecha essa conta porque nenhuma fonte a fecha.
Entre o fluxograma da Febrasgo e a sociedade norte-americana há uma divergência que só aparece no serviço sem dosagem de ácidos biliares. A Febrasgo autoriza o parto com 36 semanas por quadro clínico típico, transaminase acima de duas vezes a referência e fator de risco, sem laudo de ácidos biliares; a sociedade norte-americana recomenda contra o parto antes de 37 semanas em quem tem diagnóstico clínico sem confirmação laboratorial de ácidos biliares elevados, com grau 1B. A consequência é operacional: onde o exame não existe, ou a amostra viaja a tempo de o resultado chegar antes de 36 semanas, ou o serviço adota, por escrito, uma das duas posições.
A conduta, hora a hora
Prurido sem lesão primária: investigar ácidos biliares, acompanhar evolução e planejar nascimento pelo risco. Vômitos tardios com repercussão sistêmica: medir glicemia e avaliar falência orgânica imediatamente, sem esperar confirmação completa. Tratar os distúrbios reversíveis enquanto a equipe organiza o parto. A via e as metas de coagulação dependem do cenário; não transformar um valor isolado em regra para todas as pacientes.
O que este bloco cede aos vizinhos, pelo nome. A régua e a conduta da síndrome HELLP são do capítulo de síndrome HELLP; a hepatopatia da pré-eclâmpsia grave, do capítulo de pré-eclâmpsia; os esquemas de sulfato de magnésio, do capítulo de eclâmpsia; os anti-hipertensivos, do capítulo deles; a técnica da cardiotocografia, do Doppler e do perfil biofísico, do capítulo de restrição de crescimento fetal; a hemorragia pós-parto e a reanimação neonatal, dos capítulos de parto. O que este bloco assume: a decisão de quando interromper as duas doenças, o remédio da colestase, a primeira hora da esteatose e o puerpério das duas. Para preparo cervical, indução e vigilância correspondente, consulte A indução começa na data. A colestase isolada não impõe cesárea; a via depende das condições obstétricas.
As doses saem por extenso, com a fonte que as sustenta, e duas estão deliberadamente ausentes: o sulfato de magnésio, que a esteatose com pré-eclâmpsia exige e cujo esquema é do capítulo de eclâmpsia, e o corticoide antenatal entre 34 e 37 semanas, que a sociedade norte-americana recomenda antes do parto por colestase e que nenhum documento brasileiro sobre colestase menciona — a decisão fica registrada como do serviço, com os dois lados no bloco de divergências.
Consulta 0 — o prurido sem lesão: o que sai do serviço com ela
O que decide o desfecho aqui é gratuito e independe de laboratório: a gestante de segunda metade da gravidez que coça sem lesão de pele não sai com uma receita de anti-histamínico e a frase "volte se piorar". Sai com a amostra colhida e em trânsito, porque o exame que confirma leva dias; com a obstetra avisada, porque a semana do parto pode ter de ser decidida antes de o resultado chegar; e com uma data de retorno em 48 horas, que é o prazo do fluxograma da Febrasgo. Nomeie a suspeita no prontuário — "colestase intra-hepática da gravidez, a confirmar" — porque é essa linha que faz a próxima equipe procurar o laudo em vez de repetir o antialérgico. E pergunte, antes de ela sair, se há dor no andar superior do abdome, vômito novo, sonolência ou sede fora do comum: cada um deles muda o capítulo.
Prescrição- Ácidos biliares totais no soro, sem exigir jejum, com a condição da coleta anotada no pedido — dosagem por método enzimático, admitida como confirmação acima de 15 µmol/L pelo Manual de Gestação de Alto Risco (MS, 2022), capítulo 16, e acima de 10 µmol/L pelo fluxograma Colestase Obstétrica (Febrasgo, 2023); coleta sem jejum conforme a diretriz europeia (EASL, 2023), seção de colestase intra-hepática.
- Alanina aminotransferase, aspartato aminotransferase, bilirrubinas totais e frações, tempo de protrombina, hemograma com contagem de plaquetas, glicemia e creatinina — o primeiro para o ramo sem dosagem de ácidos biliares do fluxograma (Febrasgo, 2023), o tempo de protrombina pelo controle dos fatores de coagulação do Manual (MS, 2022), capítulo 16, e os demais para afastar síndrome HELLP e esteatose.
- Sorologias para hepatites B e C e para citomegalovírus, e ultrassonografia de abdome total — exigidas antes de confirmar o diagnóstico pelo fluxograma (Febrasgo, 2023); o Manual (MS, 2022) pede o rastreamento por ultrassonografia do abdome superior.
- Retorno em 48 horas e em 2 semanas, com a obstetra de referência informada no mesmo dia — fluxograma (Febrasgo, 2023), caixa de reavaliação.
Enquanto a amostra viaja — o sintomático, e o remédio que pode começar antes do laudo
Há dois caminhos enquanto o resultado não volta, e o fluxograma da Febrasgo os separa por um exame que existe em qualquer laboratório de plantão: a alanina aminotransferase. Se ela está acima de duas vezes o valor de referência e o quadro é típico, o ácido ursodesoxicólico pode começar agora, com a semana do parto já provisoriamente marcada. Se está normal, o quadro não está excluído — a transaminase normal não exclui, e o manual federal registra que ela pode subir só depois dos ácidos biliares —, e o que se faz é tratar o sintoma, reavaliar em 48 horas e esperar o laudo. Nos dois caminhos, a paciente sabe que o remédio da coceira é para ela, e que o que protege o bebê é o calendário, não o comprimido.
Prescrição- Ácido ursodesoxicólico 10 a 15 mg/kg/dia por via oral, em três tomadas após as refeições — Manual de Gestação de Alto Risco (MS, 2022), capítulo 16, que fixa a faixa, as três tomadas e o teto de 25 mg/kg/dia; apresentações de 50, 150 e 300 mg e administração após as refeições pela bula aprovada pela Anvisa (12/12/2023). Numa gestante de 70 kg: 700 a 1.050 mg por dia, o que se escreve como 1 comprimido de 300 mg a cada 8 horas, acrescentando 1 de 150 mg a uma das tomadas para chegar ao alto da faixa. A dose fixa da Febrasgo (2023) é 300 mg três vezes ao dia. Reduzir a dose diante de diarreia persistente e reajustar após a remissão — Manual (MS, 2022), capítulo 16.
- Início do ácido ursodesoxicólico antes do laudo de ácidos biliares apenas no quadro típico, sem lesão de pele, com alanina aminotransferase acima de duas vezes o valor de referência — fluxograma Colestase Obstétrica (Febrasgo, 2023), ramo sem dosagem disponível.
- Registro em prontuário de que o uso na gestação é fora da bula, com a paciente ciente: a bula aprovada pela Anvisa (12/12/2023) lista colestase intra e extra-hepática entre as contraindicações e manda descartar gravidez em curso antes de iniciar; a indicação se sustenta no Manual (MS, 2022), no fluxograma (Febrasgo, 2023) e nas recomendações da SMFM (2021) e da EASL (2023). O registro é leitura deste capítulo, não exigência das fontes.
- Anti-histamínico como terapia complementar do prurido — Manual (MS, 2022), capítulo 16, que cita difenidramina e hidroxizina; como nenhuma das duas consta da Rename 2024, a prescrição pela rede usa maleato de dexclorfeniramina 2 mg comprimido ou loratadina 10 mg comprimido, do componente básico, na posologia da bula de cada produto. Hidratantes mentolados e loção de calamina como adjuvantes — Manual (MS, 2022), capítulo 16.
- Orientação sobre a benignidade materna do quadro, escrita — fluxograma (Febrasgo, 2023) —, junto com os sinais que trazem a paciente de volta antes do retorno: icterícia, dor no andar superior do abdome, vômito, sangramento, redução de movimentos fetais.
Com o laudo na mão — classificar e escrever a semana
O laudo responde três perguntas, e as três se escrevem no prontuário no mesmo dia. Primeira: há diagnóstico pela régua do serviço — acima de 10 µmol/L na Febrasgo, acima de 15 no manual federal. Segunda: em que estrato o feto está — abaixo de 40, entre 40 e 99, ou 100 e mais —, que é o que a metanálise de 2019 mediu e todos os documentos posteriores adotam. Terceira: em que semana nasce o bebê. Há um detalhe que decide a terceira: o estrato é o do pico. Um único valor igual ou acima de 100, em qualquer momento, fixa a semana e, pela diretriz europeia, dispensa novas dosagens; um valor de 60 hoje não impede um de 120 em duas semanas, e é por isso que o calendário de coletas faz parte da prescrição. Se ela está abaixo de 34 semanas e a decisão for parto antes de 37, o corticoide antenatal segue a regra dos capítulos de prematuridade; entre 34 e 37, a indicação não tem régua brasileira, e a posição da sociedade norte-americana está no bloco de divergências.
Prescrição- Semana do parto, escrita no prontuário no dia do laudo: ácidos biliares abaixo de 100 µmol/L, entre 37 e 39 semanas — fluxograma (Febrasgo, 2023) —, ou até 37 a 38 semanas nos casos leves — Manual (MS, 2022), capítulo 16; 100 µmol/L ou mais, com 36 semanas — fluxograma (Febrasgo, 2023) e SMFM (2021), recomendação 4, grau 1B — ou a partir de 35 semanas — EASL (2023), recomendação sobre parto eletivo precoce.
- Fator de risco no ramo sem dosagem — mau passado obstétrico com desfecho fetal desfavorável antes de 36 semanas, ou ausência de melhora com a terapêutica: parto com 36 semanas — fluxograma (Febrasgo, 2023).
- Calendário de ácidos biliares: pelo menos semanal a partir de 32 semanas — EASL (2023), recomendação sobre monitoramento —; semanal ou quinzenal — fluxograma (Febrasgo, 2023). Dispensável depois de um valor igual ou acima de 100 µmol/L — EASL (2023), seção de colestase.
- Sob tratamento, comparar os valores sabendo que o método enzimático dosa o ácido ursodesoxicólico junto com os ácidos biliares endógenos, podendo responder por 50% a 70% do total medido — EASL (2023), seção de colestase; os cortes de 40 e 100 continuam valendo em mulheres tratadas, segundo a mesma diretriz.
- Ácido ursodesoxicólico oferecido a toda gestante com ácidos biliares iguais ou acima de 40 µmol/L, com o objetivo declarado de reduzir prematuridade espontânea — EASL (2023), recomendação com nível de evidência 2; a divergência com o ensaio de 2019 está no bloco próprio.
Até o parto — a vigilância que existe e a que não existe
O que se vigia na colestase é o número, o sintoma e o feto, nesta ordem de rendimento. O número é o ácido biliar, no calendário do marco anterior, porque é ele que muda a semana. O sintoma é o prurido, que responde ao ácido ursodesoxicólico em uma a duas semanas segundo o manual federal, e cuja ausência de resposta é, pela Febrasgo, um fator de risco que antecipa o parto para 36 semanas. O feto é o item em que o interno mais precisa de honestidade: o manual federal manda empregar mobilograma, cardiotocografia, ultrassonografia com Doppler e perfil biofísico; a sociedade norte-americana sugere iniciar a vigilância na idade gestacional em que se resolveria a gestação por um exame alterado, com grau 2C; a diretriz europeia não fixa exame nenhum. Nenhum dos três afirma que esses exames preveem o óbito da colestase — que é súbito, arrítmico, num feto de crescimento normal — e é por isso que uma cardiotocografia normal não autoriza esperar além da semana escrita. Ela autoriza, apenas, chegar até ela.
Prescrição- Vigilância do bem-estar fetal por mobilograma diário e, a partir da idade gestacional em que o serviço resolveria a gestação por exame alterado, cardiotocografia na periodicidade do serviço — Manual (MS, 2022), capítulo 16; SMFM (2021), recomendação 3, grau 2C. Técnica e leitura: capítulo de restrição de crescimento fetal.
- Tempo de protrombina repetido conforme a gravidade, com fitomenadiona quando prolongado — controle dos fatores de coagulação pelo Manual (MS, 2022), capítulo 16; a fitomenadiona não consta da Rename 2024 e vem do estoque hospitalar, e este capítulo não fixa dose porque nenhuma fonte lida a fixa.
- Retorno antecipado diante de icterícia, dor no andar superior do abdome, vômito, sangramento, redução de movimentos ou prurido que piora apesar do tratamento — sinais de alarme reunidos das seções de diagnóstico do Manual (MS, 2022), capítulo 16, e do fluxograma (Febrasgo, 2023).
- Exclusão de outra doença hepática se algum exame de base veio alterado — sorologias, ultrassonografia, autoanticorpos — com tratamento específico da doença encontrada: fluxograma (Febrasgo, 2023); EASL (2023), algoritmo de manejo.
O dia do parto — colestase
A colestase não é indicação de cesárea, e nenhum documento lido diz o contrário: é indicação de parto na semana escrita, o que significa indução numa gestante de 36 a 39 semanas com colo que pode estar desfavorável. O preparo cervical e os métodos de indução estão no capítulo A indução começa na data; a cesárea fica para as indicações obstétricas habituais. O que a colestase acrescenta ao trabalho de parto é o risco que a metanálise de 2019 mediu: mais líquido meconial, mais sofrimento fetal, mais internação neonatal — o que pede monitorização contínua e a equipe neonatal avisada. E acrescenta a coagulação: a gestante com tempo de protrombina prolongado recebe vitamina K antes, e o banco de sangue sabe dela. A prematuridade que o calendário produz é terapêutica — o manual federal usa a expressão — e a paciente foi avisada disso semanas antes.
Prescrição- Interrupção da gestação na semana escrita no marco anterior, por indução, com cesárea apenas por indicação obstétrica — leitura deste capítulo a partir do Manual (MS, 2022), capítulo 16, que fala em resolução do parto, e do fluxograma (Febrasgo, 2023), que prevê antecipação por indicação obstétrica; nenhuma fonte lida indica cesárea pela colestase.
- Monitorização fetal contínua durante o trabalho de parto e equipe neonatal avisada — risco aumentado de líquido meconial, sofrimento fetal e admissão em unidade neonatal na metanálise de 2019 (Ovadia et al., Lancet).
- Suspensão do ácido ursodesoxicólico no parto; redução gradual em 2 a 4 semanas se os sintomas persistirem — EASL (2023), algoritmo de manejo.
- Corticoide antenatal para maturidade pulmonar em quem vai nascer antes de 37 semanas, se ainda não recebeu — SMFM (2021), recomendação 6, grau 1A; dose e apresentação no capítulo de síndrome HELLP; a indicação entre 34 e 37 semanas não tem régua brasileira e fica registrada como decisão do serviço.
Esteatose — a primeira hora, que não espera resultado
A primeira hora da esteatose tem quatro frentes simultâneas e uma regra: nenhuma delas espera confirmação. A primeira é a glicose, porque a hipoglicemia é refratária, mata neurônio e é o dado que separou a doença da síndrome HELLP. A segunda é o sangue, colhido antes de infundir qualquer coisa, porque é a única amostra que ainda descreve a doença e não o tratamento. A terceira é a coagulação, corrigida com plasma fresco e crioprecipitado nos alvos que o protocolo universitário fixa, porque o parto vai acontecer em horas e uma cesárea sem preparo para hemorragia é, nas palavras do manual federal, uma má decisão. A quarta é a estrutura: terapia intensiva, banco de sangue, obstetra, neonatologia e a transferência para o centro que tem tudo isso, articulada agora. Se a pressão está alta, a pré-eclâmpsia que acompanha sete em cada dez esteatoses se trata em paralelo, pelos capítulos dela.
Prescrição- Glicemia capilar imediata e repetida a cada hora; abaixo de 60 mg/dL com sintomas, glicose a 50% (500 mg/mL, componente básico da Rename 2024) 30 a 50 mL por via intravenosa, repetindo a glicemia e a dose se persistirem — Protocolo AC29 (SAMU 192, MS, 2014). A manutenção com infusão contínua de glicose a 10% (100 mg/mL, Rename 2024) depois do bolus, pela refratariedade descrita no Protocolo Síndrome HELLP (RBEHG, 2025), é leitura deste capítulo, não prescrição das fontes.
- Painel colhido antes de qualquer infusão: hemograma com plaquetas, transaminases, bilirrubinas totais e frações, creatinina, ácido úrico, glicemia sérica, tempo de protrombina, tempo de tromboplastina parcial ativada, fibrinogênio, amônia onde houver, e ultrassonografia de abdome — critérios de Swansea conforme o Manual (MS, 2022), capítulo 15, Quadro 1, e a EASL (2023), Box 1.
- Correção da coagulopatia antes do parto: plasma fresco congelado 10 mL/kg se tempo de protrombina ou tempo de tromboplastina prolongados; crioprecipitado 10 unidades para fibrinogênio em meta pactuada para o cenário, com alvo ≥200 mg/dL na hemorragia ativa; concentrado de plaquetas abaixo de 20.000/mm³, ou entre 20.000 e 49.000/mm³ antes de cesárea, na dose de uma unidade para cada 10 kg — protocolo HC-UFTM/Ebserh (2025), seção de correção dos distúrbios de coagulação, o mesmo que o capítulo de síndrome HELLP adota. O alvo de fibrinogênio do Manual (MS, 2022) está impresso com unidade impossível e não se usa (nota do bloco de critérios). Distinguir coagulopatia sem sangramento de hemorragia obstétrica ativa. O alvo >100 mg/dL do protocolo institucional não deve ser usado como meta suficiente para hemorragia ativa; nesse cenário, repor fibrinogênio com alvo ≥200 mg/dL (2 g/L), reavaliando perdas, exames e resposta. Na preparação do parto sem hemorragia ativa, pactuar a meta com obstetrícia, anestesia e hemoterapia segundo procedimento e evolução; não transfundir apenas por um número isolado. Referência: protocolo institucional citado e diretriz consolidada OMS/FIGO/ICM de HPP, 2025.
- Dois acessos venosos calibrosos, sonda vesical com diurese horária, monitorização, e proteção da via aérea diante de qualquer alteração do nível de consciência durante a preparação para o parto — Manual (MS, 2022), capítulo 15, alertas importantes.
- Sulfato de magnésio e anti-hipertensivo nas mulheres com suspeita de pré-eclâmpsia grave ou síndrome HELLP associada, que são em torno de 70% dos casos — Manual (MS, 2022), capítulo 15. Esquema, diluição, vigilância e antídoto: capítulo de eclâmpsia; escolha e dose do anti-hipertensivo: capítulo de anti-hipertensivos na gestação.
- Acionamento de terapia intensiva, banco de sangue com reserva de hemocomponentes, obstetra e neonatologia, e transferência para centro com unidade intensiva materna e neonatal, articulada antes do parto — Manual (MS, 2022), capítulo 15, pontos essenciais; EASL (2023): mais de sete critérios de Swansea, encefalopatia ou lactato elevado indicam admissão em terapia intensiva.
Esteatose — o parto: quando, por onde e com o que na sala
O quando é a única pergunta em que as fontes usam palavras diferentes para dizer quase a mesma coisa. O manual federal fala em preparação tão rápida quanto possível para o parto, com previsão de reanimação neonatal, porque a falência hepática progride enquanto o feto permanecer no útero. A diretriz europeia manda acelerar o parto assim que a coagulopatia e os distúrbios metabólicos remediáveis estiverem tratados, com a via decidida em conjunto por obstetras, hepatologistas e a equipe multidisciplinar. As duas cabem numa frase: corrige-se em horas o que se corrige em horas, e nasce. O por onde tem uma regra que surpreende o interno: a esteatose não é indicação isolada de cesárea, e na presença de reatividade fetal o parto vaginal é o de escolha, justamente pela coagulopatia — mas, como o feto costuma estar comprometido, a cesárea acaba sendo a via mais frequente. E o com o que: banco de sangue preparado, protocolo de hemorragia pós-parto instalado, incisão vertical se houver coagulopatia, drenos, e nenhuma manobra que não seja necessária num fígado que não coagula.
Prescrição- Resolução da gestação assim que a coagulopatia e os distúrbios metabólicos remediáveis estiverem tratados, sem aguardar biópsia nem confirmação adicional — EASL (2023), recomendação sobre o parto; preparação tão rápida quanto possível para o parto — Manual (MS, 2022), capítulo 15.
- Via de parto: vaginal como escolha na presença de reatividade fetal, pela coagulopatia; cesárea pela condição fetal não tranquilizadora ou por indicação obstétrica — Manual (MS, 2022), capítulo 15; decisão conjunta da equipe — EASL (2023).
- Na cesárea com coagulopatia: incisão vertical, para reduzir hematomas subaponeuróticos, e drenos — Manual (MS, 2022), capítulo 15; preparação do banco de sangue e instalação do protocolo institucional de hemorragia pós-parto antes da incisão — Manual (MS, 2022), capítulo 15, alertas; manejo da hemorragia no capítulo próprio.
- Reanimação neonatal prevista e equipe presente na sala — Manual (MS, 2022), capítulo 15; técnica no capítulo de reanimação neonatal.
Depois do parto — as duas doenças, com relógios diferentes
A colestase termina com o parto e deixa três tarefas. A primeira é conferir que terminou: laboratório em seis a oito semanas pelo manual federal, avaliação em seis semanas pela Febrasgo, normalização em até três meses pela diretriz europeia — e, se não normalizou, hepatologia, com as sorologias e a ultrassonografia já feitas. A segunda é a contracepção, porque a mesma mulher que coçou na gravidez tende a coçar com estrogênio. A terceira é a próxima gestação: recorrência de 45% a 90%, o que significa pré-natal de alto risco desde o início e ácidos biliares ao primeiro sinal de prurido. A esteatose não termina com o parto. A mãe piora nas primeiras 24 a 72 horas, fica em terapia intensiva com exames a cada 6 a 12 horas, e recupera na ordem que o manual federal descreve — necrose hepática em um a dois dias, colesterol e bilirrubinas em três a quatro, coagulopatia em quatro a seis, creatinina em sete a dez ou em semanas. Quem não recupera é candidata a plasmaférese e, raramente, a transplante, em centro que tenha os dois. E antes da alta há uma tarefa que ninguém lembra: rastrear o defeito de oxidação de ácidos graxos na mãe e no recém-nascido, porque a doença nasceu de um gene que os dois podem carregar.
Prescrição- Colestase: laboratório hepático e ácidos biliares em seis a oito semanas; alteração persistente pede avaliação especializada — Manual (MS, 2022), capítulo 16; reavaliação em seis semanas e encaminhamento à hepatologia se não houver melhora ou se os ácidos biliares persistirem alterados — fluxograma (Febrasgo, 2023); normalização esperada em três meses e investigação de doença hepática de base se persistir — EASL (2023).
- Colestase: contracepção orientada antes da alta, sabendo que a colestase relacionada ao anticoncepcional combinado é categoria 3 para o método combinado — Manual de Anticoncepção (Febrasgo, 2015), tabela de elegibilidade —; a categoria da colestase da gravidez em si e a escolha do método são do capítulo de contracepção hormonal combinada.
- Colestase: relatório escrito com o diagnóstico, o pico de ácidos biliares e a semana do parto, e orientação de recorrência de 45% a 90% em gestação subsequente, com pré-natal de alto risco desde o início — Manual (MS, 2022), capítulo 16, e critérios de encaminhamento do mesmo manual, que listam hepatopatias entre as condições de pré-natal de alto risco.
- Esteatose: vigilância em unidade intensiva com medidas hematológicas, hepáticas e renais a cada 6 a 12 horas nos primeiros dias — Manual (MS, 2022), capítulo 15; alta da unidade pela curva de recuperação, não pelo calendário.
- Esteatose: plasmaférese considerada depois do parto para acelerar a recuperação hepática em centro com experiência, sem evidência de redução de mortalidade; encaminhamento precoce a centro de transplante diante de insuficiência hepática profunda, hipotensão e acidose — Manual (MS, 2022), capítulo 15; EASL (2023), recomendações sobre plasmaférese e transplante.
- Esteatose: rastreamento de distúrbios da oxidação de ácidos graxos na mulher — Manual (MS, 2022), capítulo 15, prognóstico —; o rastreio do recém-nascido é leitura deste capítulo a partir do mecanismo descrito no mesmo capítulo do manual, e se faz com a neonatologia.
Como saber se está funcionando
A pergunta deste bloco — como sei se está funcionando? — tem respostas de velocidades diferentes nas duas doenças, e o interno precisa saber qual relógio está lendo. Na colestase, o relógio anda em semanas: o prurido responde em uma a duas, o laboratório em três a quatro, e o que se vigia entre uma coleta e outra é se o feto mudou de estrato. Na esteatose, o relógio anda em horas antes do parto e em dias depois dele: a glicemia se mede de hora em hora, o painel de coagulação a cada seis a doze, e a melhora só começa um a dois dias depois do nascimento.
Uma advertência vale para as duas: o número precisa da hora ao lado, e o ácido biliar precisa da condição da coleta e do remédio em uso ao lado. Um valor de 38 µmol/L em jejum, sem tratamento, e um de 38 pós-prandial, sob ácido ursodesoxicólico — que o método dosa junto —, são duas pacientes diferentes com o mesmo número no laudo.
Esperado: Estabilidade dentro do estrato em que a semana do parto foi escrita. Sob tratamento, o valor pode não cair, porque o método enzimático mede a própria droga; a queda não é critério de resposta.
Se não melhora: Mudança de estrato muda a semana: um valor que cruza 100 µmol/L, em qualquer coleta, fixa o parto em 35 a 36 semanas conforme a régua do serviço, e dispensa novas dosagens. Um valor que cruza 40 acrescenta risco de prematuridade espontânea e de mecônio e, pela diretriz europeia, é a indicação de oferecer o ácido ursodesoxicólico a quem ainda não usa.
Esperado: Resposta ao ácido ursodesoxicólico em uma a duas semanas (manual federal). O efeito médio é pequeno: no ensaio de 2019, 5,7 mm a menos numa escala de 100, contra 30 mm que pacientes e médicos consideraram clinicamente importantes.
Se não melhora: Suba a dose até 15 mg/kg/dia, respeitando o teto de 25 mg/kg/dia do manual federal, e confira a adesão e a diarreia. A ausência de melhora com a terapêutica é fator de risco no fluxograma da Febrasgo e antecipa o parto para 36 semanas. Rifampicina, colestiramina, goma guar e carvão ativado são alternativas de evidência fraca na diretriz europeia; colestiramina não consta da Rename 2024 e a rifampicina consta apenas no componente estratégico, para tuberculose e hanseníase.
Esperado: Melhora laboratorial em três a quatro semanas de tratamento (manual federal); bilirrubina baixa ou levemente elevada, com predomínio da fração direta.
Se não melhora: Transaminase acima de dez vezes o limite, ou bilirrubina em ascensão franca, muda a hipótese: hepatite viral aguda, esteatose ou síndrome HELLP — o que pede sorologias, glicemia, plaquetas e desidrogenase láctica, e não aumento da dose.
Esperado: Na colestase, normais. Na esteatose, tempos alargados e fibrinogênio baixo que respondem ao plasma fresco e ao crioprecipitado, com regressão da coagulopatia em quatro a seis dias depois do parto (manual federal).
Se não melhora: Na colestase, tempo de protrombina prolongado pede fitomenadiona e conversa com o anestesista antes do parto. Na esteatose, coagulopatia que não corrige com os alvos do protocolo universitário — tempos normalizados e fibrinogênio em meta pactuada para o cenário, com alvo ≥200 mg/dL na hemorragia ativa — indica coagulação intravascular disseminada em curso, pontuada pelo escore modificado para a gestação, e obriga a rever a via, o momento do parto e a reserva de hemocomponentes. Distinguir coagulopatia sem sangramento de hemorragia obstétrica ativa. O alvo >100 mg/dL do protocolo institucional não deve ser usado como meta suficiente para hemorragia ativa; nesse cenário, repor fibrinogênio com alvo ≥200 mg/dL (2 g/L), reavaliando perdas, exames e resposta. Na preparação do parto sem hemorragia ativa, pactuar a meta com obstetrícia, anestesia e hemoterapia segundo procedimento e evolução; não transfundir apenas por um número isolado. Referência: protocolo institucional citado e diretriz consolidada OMS/FIGO/ICM de HPP, 2025.
Esperado: Acima de 72 mg/dL sem bolus repetidos; a necessidade de glicose diminui um a dois dias depois do parto, quando a função hepática começa a voltar (manual federal).
Se não melhora: Hipoglicemia que volta apesar do bolus é a refratariedade que o protocolo brasileiro de 2025 descreve como marca da doença: mantenha a infusão contínua de glicose a 10%, aumente a concentração se necessário, e trate como sinal de que o fígado ainda não voltou — não como problema de dieta. Sonolência com glicemia normal é encefalopatia, e pede amônia e proteção de via aérea.
Esperado: Diurese preservada e creatinina que, na lesão pré-renal, volta ao normal em sete a dez dias (manual federal). Lactato em queda depois do parto.
Se não melhora: Lesão renal aguda ocorre em quatro de cada cinco esteatoses (diretriz europeia), e a creatinina do dano intrínseco pode ficar elevada por semanas; oligúria persistente com creatinina em ascensão pede nefrologia e a discussão de terapia de substituição, que é uma das razões de a paciente estar num centro terciário. Lactato elevado e encefalopatia foram, numa série citada pela diretriz europeia, os melhores preditores de morte ou transplante.
Esperado: Colestase: exames normais, que não mudam a semana escrita. Esteatose: comprometimento fetal é frequente — sofrimento em 46% e mecônio em 40% (diretriz europeia) — e não surpreende.
Se não melhora: Colestase: qualquer alteração antecipa o parto para agora, mas a cardiotocografia normal não adia a semana — o óbito da colestase é súbito, num feto de crescimento normal, e nenhuma das fontes afirma que o exame o preveja. Esteatose: padrão não tranquilizador confirma a urgência e costuma decidir a via; não se espera melhora fetal com o feto dentro.
Onde o erro machuca
O dano: É o erro que produz a colestase diagnosticada na 38ª semana, quando a semana do parto já passou para o estrato de 100 µmol/L. Ele tem uma mecânica reconhecível: a coceira melhora um pouco com qualquer sedativo, o que confirma a hipótese errada; a paciente volta em uma semana, recebe outro anti-histamínico, e cada retorno custa sete dias de um exame que leva dias para voltar. Numa gestante cujo pico de ácidos biliares vai chegar a 100, o intervalo perdido é exatamente a janela entre 35 e 36 semanas em que o risco de óbito sobe — e o feto que morre nesse intervalo tem crescimento normal e Doppler normal.
Como pegar a tempo: Adote a regra larga: prurido sem lesão primária de pele na segunda metade da gestação sai do serviço com ácidos biliares, transaminases, bilirrubinas e tempo de protrombina colhidos, com a obstetra avisada e com retorno em 48 horas. A receita de anti-histamínico pode sair junto — nunca em lugar da coleta. Escreva a suspeita no prontuário com o nome da doença, para que a próxima equipe procure o laudo em vez de repetir a receita.
O dano: O exame que confirma a colestase não se faz na urgência, e o resultado volta em dias — às vezes em mais de uma semana. A gestante de 35 semanas com quadro típico que fica "aguardando o resultado para definir conduta" chega a 37 sem remédio, sem semana escrita e sem a obstetra saber que ela existe. Se o pico dela era 100, ela passou a janela esperando um papel.
Como pegar a tempo: Use o ramo do fluxograma da Febrasgo para o serviço sem exame: quadro típico, sem lesão de pele, com alanina aminotransferase acima de duas vezes a referência autoriza começar o ácido ursodesoxicólico e marcar provisoriamente a semana — 36 se houver fator de risco, 37 a 39 se não. Escreva a decisão como provisória, com a data em que o laudo é esperado, e mande a amostra viajar no mesmo dia. A sociedade norte-americana recomenda contra parto antes de 37 semanas sem confirmação laboratorial; o serviço que segue essa posição precisa garantir que o laudo chegue antes de 36.
O dano: O óbito da colestase é arrítmico, súbito e acontece num feto de crescimento normal com Doppler normal — o mecanismo é o ácido biliar no cardiomiócito, não a placenta. Nenhuma das fontes lidas afirma que a cardiotocografia, o perfil biofísico ou o Doppler prevejam esse óbito; a sociedade norte-americana sugere vigilância com grau 2C e a diretriz europeia não fixa exame nenhum. A paciente que "está com o monitoramento bom" e por isso vai para 38 semanas com 120 µmol/L trocou a única medida com evidência — a semana — por um exame que não mede o risco dela.
Como pegar a tempo: Escreva a semana do parto no dia do laudo e trate a cardiotocografia como o que ela é: um exame que pode antecipar o parto, nunca adiá-lo. Explique isso à paciente com as palavras do bloco de conversa, porque é ela quem vai pedir para esperar.
O dano: As duas doenças começam iguais e o manejo inicial é parecido, mas o que a esteatose exige e a síndrome HELLP não é glicose, fibrinogênio e proteção de via aérea. A gestante rotulada como síndrome HELLP recebe sulfato, anti-hipertensivo e reserva de plaquetas, e fica com hipoglicemia refratária e fibrinogênio de 80 mg/dL sem que ninguém os dose; a rotulada como gastroenterite recebe antiemético e soro e vai para casa com o fígado parando. O protocolo brasileiro de 2025 chama a esteatose de diagnóstico diferencial mais difícil justamente porque o rótulo errado não parece errado.
Como pegar a tempo: Glicemia capilar em toda gestante de terceiro trimestre com vômito e transaminase alta, sintomática ou não, e repetida de hora em hora enquanto a suspeita durar. Fibrinogênio, tempo de protrombina, creatinina e ácido úrico no primeiro painel, não no segundo. Conte os critérios de Swansea em voz alta para a equipe: seis fecham a suspeita, e a frase "pode ser esteatose" reorganiza a prioridade da glicose, do banco de sangue e da terapia intensiva.
O dano: A falência hepática progride enquanto o feto permanecer no útero, nas palavras do manual federal; não há tratamento que substitua o parto, e não há exame que o autorize além dos que já foram colhidos. A biópsia é patognomônica e é contraindicada pela coagulopatia — pedi-la é pedir um exame que não vai ser feito para adiar o que precisa ser feito. Do outro lado, a cesárea sem preparo para hemorragia é, no manual federal, uma má decisão: a hemorragia por coagulopatia ocorre em metade dos casos, e a hemorragia pós-parto em mais da metade.
Como pegar a tempo: Seis critérios acionam, no mesmo minuto, obstetra, terapia intensiva e banco de sangue. Corrija em horas o que se corrige em horas — glicose, plasma fresco 10 mL/kg, crioprecipitado para fibrinogênio em meta pactuada para o cenário, com alvo ≥200 mg/dL na hemorragia ativa, plaquetas conforme o corte — e resolva a gestação com o protocolo de hemorragia instalado, incisão vertical se houver coagulopatia e reanimação neonatal na sala. Nenhuma dessas etapas espera a outra terminar para começar. Distinguir coagulopatia sem sangramento de hemorragia obstétrica ativa. O alvo >100 mg/dL do protocolo institucional não deve ser usado como meta suficiente para hemorragia ativa; nesse cenário, repor fibrinogênio com alvo ≥200 mg/dL (2 g/L), reavaliando perdas, exames e resposta. Na preparação do parto sem hemorragia ativa, pactuar a meta com obstetrícia, anestesia e hemoterapia segundo procedimento e evolução; não transfundir apenas por um número isolado. Referência: protocolo institucional citado e diretriz consolidada OMS/FIGO/ICM de HPP, 2025.
O dano: A colestase que não normaliza em seis a oito semanas é outra doença — hepatite C, doença autoimune, doença biliar — que vai ser descoberta anos depois, com fibrose. A mulher que não foi avisada do risco com estrogênio vai receber um contraceptivo combinado na primeira consulta de puericultura e voltar coçando. A gestação seguinte, com recorrência de até 90%, começa num pré-natal de baixo risco sem que ninguém peça ácidos biliares no primeiro prurido. E, na esteatose, a mãe e o recém-nascido que carregam o defeito de oxidação de ácidos graxos saem sem o rastreio que o manual federal manda fazer.
Como pegar a tempo: Escreva o relatório de alta com as quatro tarefas nomeadas: laboratório em seis a oito semanas com o critério de encaminhamento à hepatologia; contracepção definida antes da saída, com a categoria do combinado registrada; orientação escrita de recorrência e de pré-natal de alto risco desde o início da próxima gestação; e, na esteatose, o rastreio metabólico da mãe e do bebê agendado com a neonatologia. O relatório sobrevive ao esquecimento das primeiras semanas com um recém-nascido; a conversa, não.
O que dizer ao paciente e à família
Há duas conversas difíceis neste capítulo, e elas são difíceis por razões opostas. Na colestase, a paciente se sente bem — coça, e só — e vai ouvir que o bebê corre risco e que vai nascer antes da hora, por causa de um número num exame que ela não viu. A distância entre o que ela sente e o que se diz é a mesma da síndrome HELLP, e produz a mesma barganha: "o monitoramento não está bom?", "não dá para esperar mais uma semana?". Na esteatose, a paciente está sonolenta e quem ouve é a família, que chegou com uma "virose" e vai ouvir que a mãe pode morrer.
A regra é a mesma nas duas: entregar os fatos numa sequência — o que há, o que vem a seguir, o que segue em aberto — e nomear a incerteza em vez de escondê-la. Na colestase, a incerteza mais honesta é a do remédio: ele melhora a coceira um pouco, e para o bebê não se sabe. Na esteatose, a incerteza é o tempo: a mãe vai piorar antes de melhorar, e ninguém sabe por quantos dias.
Duas coisas que não se prometem: que o bebê vai ficar bem, e que dá para esperar. A primeira está fora do alcance de quem cuida; a segunda porque a espera, na colestase, termina numa data que já está escrita, e, na esteatose, termina em horas.
Explicar por que a coceira virou exame de sangue
“"Dona Soraia, essa coceira não é da pele — a senhora reparou que não tem mancha nenhuma, só a marca da unha. Ela vem do fígado. Na gravidez, os hormônios fazem o fígado segurar uma substância que devia sair pela bile, e essa substância no sangue é o que coça, principalmente à noite e nas mãos e nos pés. Isso tem nome, é comum, e para a senhora não é perigoso. O motivo de eu não deixar a senhora ir embora só com o remédio da coceira é que essa mesma substância passa para o bebê, e o exame que mede quanto dela tem no sangue demora alguns dias para voltar. A gente colhe hoje, eu aviso a doutora Hermínia, e a senhora volta em dois dias, com ou sem melhora."”
Não diga: Não diga "é só uma alergia da gravidez" nem "isso é normal na gestação". Não use "colestase" sem traduzir — ela vai procurar na internet e encontrar a palavra "natimorto" antes de encontrar a explicação. E não prometa que o exame volta em dois dias: diga quantos dias o laboratório do serviço leva.
Explicar o que o número do exame significa para o bebê
“"O exame mede uma substância chamada ácido biliar. A maioria das mulheres com essa doença tem o número baixo, abaixo de 40, e para elas o risco para o bebê é praticamente o mesmo de qualquer gravidez. Entre 40 e 100, o risco de o bebê nascer antes da hora sozinho aumenta, e o de morrer dentro da barriga continua muito baixo. Acima de 100 — e isso acontece com uma em cada dez — o risco de morte do bebê sobe de verdade, sobretudo depois de 35 semanas. O seu número é o que vai decidir a data em que o bebê nasce, e é por isso que a gente vai repetir o exame toda semana até lá."”
Não diga: Não dê a porcentagem de 3,44% solta; ela vira "três por cento" ou vira "um terço" conforme o medo de quem ouve. Diga "uma em cada trinta" se ela pedir número, e diga junto que a data do parto existe para tirar o bebê desse risco. Não diga "o remédio vai baixar o número": pode não baixar, e o exame sob remédio mede o próprio remédio.
Explicar a data do parto, e por que o monitoramento bom não muda a data
“"O seu bebê vai nascer com 36 semanas, no dia tal. Não é porque ele esteja mal — o exame de hoje mostra que ele está bem, e é isso que a gente esperava ver. É porque o risco dessa doença não avisa: o coração do bebê pode parar de repente, sem nada nos exames antes. O único jeito conhecido de tirar o bebê desse risco é ele nascer antes de a janela de risco abrir. O exame de monitoramento serve para eu adiantar o parto se ele piorar; ele não serve para adiar. A senhora vai ser induzida, não operada, a não ser que apareça outro motivo."”
Não diga: Não diga "a gente vai tirar o bebê". Não deixe a paciente sair achando que a cardiotocografia normal reabre a negociação da data — é a frase que ela vai repetir na próxima consulta. E não estime o tempo de unidade neonatal de improviso: diga que o bebê de 36 semanas pode precisar de alguns dias de observação e que a equipe do bebê estará na sala.
Explicar o remédio com honestidade, inclusive o que ele não faz
“"O remédio é o ácido ursodesoxicólico. Ele ajuda a coceira — nos estudos, ajuda um pouco, e algumas mulheres melhoram bastante. Para o bebê, eu preciso ser direta: o maior estudo que existe não mostrou que ele evita parto prematuro nem morte do bebê, e os médicos discordam se vale a pena por isso. O que protege o bebê, com certeza, é a data do parto e o exame semanal. Uma coisa a mais: a bula desse remédio diz para não usar na gravidez, porque ele foi feito para outra doença; na sua doença, os manuais brasileiros e os de fora usam há muitos anos, e eu vou registrar que a senhora sabe disso. Se tiver diarreia, me avise antes de parar."”
Não diga: Não venda o remédio como proteção do bebê, e não o desvalorize a ponto de ela não tomar — para a mulher que dorme duas horas por noite, a coceira que melhora "um pouco" é muito. Não deixe a frase da bula solta: ela vai lê-la em casa, e precisa ter ouvido a explicação primeiro.
Dizer à família que a mãe está muito doente e que o bebê precisa nascer agora
“"Dona Renilda, a Jacira não está com virose. O fígado dela parou de funcionar por causa da gravidez — é uma doença rara, e é grave: o açúcar do sangue dela está caindo, o sangue não está coagulando direito, e o rim está sofrendo. O único tratamento que existe é o bebê nascer, e vai ser hoje. Antes disso a gente vai corrigir o açúcar e a coagulação, o que leva algumas horas, e ela vai para a terapia intensiva depois do parto — não porque algo tenha dado errado, mas porque é lá que essa doença se trata. Ela vai piorar um pouco nos primeiros dias antes de melhorar, e eu vou avisar a senhora a cada passo."”
Não diga: Não diga "ela vai ficar bem", e não diga "é raríssimo" como consolo — raro é a palavra que faz a família pedir uma segunda opinião em vez de assinar o consentimento. Não use "HELLP" nem "pré-eclâmpsia" se não for o diagnóstico: a família vai conferir a pressão e concluir que o médico se enganou.
Pedir consentimento para hemocomponentes e para a terapia intensiva, e dar uma tarefa ao acompanhante
“"O sangue dela não está coagulando porque o fígado deixou de fabricar as proteínas que coagulam. Antes do parto a gente vai repor essas proteínas com plasma e com um concentrado de fator de coagulação, e pode precisar de mais durante e depois. Isso vem do banco de sangue, entra na veia, e tem riscos pequenos e conhecidos, que eu explico se o senhor quiser. Se houver alguma restrição a receber sangue, eu preciso saber agora. O senhor ajuda ficando aqui e avisando se ela ficar mais sonolenta, se sangrar pela gengiva ou pelo curativo, ou se a barriga ficar mais estufada."”
Não diga: Não peça o consentimento no corredor no corredor. Não leia a recusa como teimosia: pergunte a razão dela, anote, registre e chame quem precisa participar dessa conversa. E não dê ao acompanhante apenas a notícia — dê a tarefa; quem recebe uma tarefa concreta deixa de disputar a decisão.
Orientar na alta: a próxima gravidez, o anticoncepcional e o teste que falta
“"Três coisas por escrito. A primeira: isso pode voltar numa próxima gravidez — na doença da coceira, volta em mais da metade das vezes; na doença do fígado que parou, é raro, mas a senhora e o bebê vão fazer um exame para saber se carregam a alteração que causou isso. A segunda: o anticoncepcional com estrogênio pode provocar a mesma coceira fora da gravidez, então o método vai ser escolhido com isso em mente, antes de a senhora sair daqui. A terceira: em seis a oito semanas a senhora repete o exame do fígado; se ele não tiver voltado ao normal, é porque tem outra coisa, e aí a senhora vai para o especialista do fígado com esse relatório na mão."”
Não diga: Não entregue essa conversa só na voz: o relatório escrito é parte da recomendação. Não deixe a contracepção para "a consulta de revisão" — a paciente que sai sem método volta grávida ou volta coçando com a pílula que alguém prescreveu.
Onde bons médicos discordam
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.
Posição 1 — droga de escolha, para a mãe e para o feto (manual federal, 2022; Febrasgo, 2023; SMFM, 2021)
O manual federal chama o ácido ursodesoxicólico de droga de escolha, fixa a dose por quilo e atribui à terapia medicamentosa o objetivo de melhorar a sintomatologia materna, prolongar a gestação e obter resultados perinatais mais satisfatórios. O fluxograma da Febrasgo o prescreve em dose fixa no caso leve e no grave, sem ressalva. A sociedade norte-americana o recomenda como agente de primeira linha para o tratamento dos sintomas maternos, com o grau mais alto de sua escala. A revisão brasileira de 2014, que o manual cita, resume a posição: entre as opções medicamentosas, é a que recebe melhor amparo da literatura, com melhora clínica, laboratorial e de prognóstico perinatal nas metanálises anteriores a 2019. O argumento é a soma de mecanismo — a droga protege o cardiomiócito fetal do ácido cólico em cultura — com os ensaios pequenos que mostravam menos prematuridade.
Manual de Gestação de Alto Risco (MS, 2022), capítulo 16; fluxograma Colestase Obstétrica (Febrasgo, 2023); SMFM Consult Series #53 (2021), recomendação 2; Souza et al., Femina (2014).
Posição 2 — o uso rotineiro deve ser reconsiderado (ensaio controlado por placebo, 2019)
O maior ensaio controlado por placebo já feito, com 605 mulheres em 33 maternidades britânicas, não encontrou redução do desfecho perinatal composto — morte perinatal, parto antes de 37 semanas ou internação neonatal: 23% no grupo tratado contra 27% no placebo, razão de risco de 0,85 com intervalo de 0,62 a 1,15. O prurido melhorou 5,7 mm numa escala de 100, contra os 30 mm que pacientes e profissionais haviam definido como diferença clinicamente importante. A concentração de ácidos biliares não caiu no grupo tratado. Os autores concluem que o uso rotineiro na colestase da gravidez deve ser reconsiderado, e a metanálise atualizada que publicam junto não encontra redução de óbito fetal nem de prematuridade espontânea. O argumento é o mais simples de todos: a maior evidência disponível não mostrou o efeito que se prescrevia.
Chappell et al., PITCHES, Lancet (2019), resultados e interpretação.
Posição 3 — para o prurido, com efeito pequeno; e para o feto, só a partir de 40 µmol/L (EASL, 2023)
A diretriz europeia lê o mesmo ensaio e observa que três quartos das participantes tinham ácidos biliares abaixo de 40 µmol/L na randomização — o grupo em que a doença quase não produz desfecho adverso e em que, portanto, nenhum remédio teria o que reduzir. Cita uma metanálise de dados individuais de 2021, com 6.974 mulheres, na qual, restrita aos ensaios randomizados, a droga protegeu contra um desfecho composto de óbito fetal e prematuridade com número necessário para tratar de 15, e reduziu a prematuridade espontânea nas gestações com ácidos biliares de 40 µmol/L ou mais, sem efeito abaixo disso. Conclui com duas recomendações fortes: considerar a droga para o prurido, apesar do efeito pequeno; e oferecê-la a quem tem 40 µmol/L ou mais, para reduzir prematuridade espontânea, com possível proteção contra o óbito fetal.
EASL Clinical Practice Guidelines (2023), seção de colestase intra-hepática e recomendações com nível de evidência 2.
Comece pelo que não está em disputa: a droga é segura para a mãe, o efeito sobre a coceira é real e pequeno, e a semana do parto é o que protege o feto — nenhuma das três posições diz o contrário. O que está em disputa é se prescrever a droga com a finalidade de proteger o feto, e a resposta depende do número da paciente à sua frente. Abaixo de 40 µmol/L, as três posições convergem na prática: a mulher que coça pode usar o remédio pela coceira, sabendo que é por isso, e a que não coça muito pode não usar; nenhum documento promete benefício fetal nesse estrato, e o ensaio de 2019 foi feito majoritariamente nele. A partir de 40, a diretriz europeia oferece a droga pelo feto e o ensaio de 2019 não a sustenta — e aqui o interno decide com uma pergunta e um registro: a pergunta é se a paciente prefere tomar um remédio que pode reduzir o parto prematuro espontâneo, com evidência de metanálise e não de ensaio, ou não tomar; o registro é que a decisão foi dela, informada. O que não se faz, em nenhuma das três leituras, é deixar a semana do parto depender do remédio, nem dizer à paciente que ele "protege o bebê" como se fosse certo. E há uma quarta coisa que só o Brasil acrescenta: a droga está na Rename apenas no componente especializado, para outra doença, e a bula manda descartar gravidez antes de iniciar — o serviço que a prescreve precisa saber de onde ela vem e registrar por que a usa.
Posição 1 — planejar o parto a partir de 35 semanas (EASL, 2023)
A diretriz europeia parte da curva de óbito por semana da metanálise de 2019: nas gestações com ácidos biliares de 100 µmol/L ou mais, o risco sobe de forma marcada entre 35 e 36 semanas, e, portanto, considerar o parto nesse ponto é uma opção razoável para evitar o óbito nesse subgrupo. A recomendação, com nível de evidência 1 e consenso forte, é que o parto eletivo precoce seja planejado a partir de 35 semanas; o algoritmo do mesmo documento escreve "parto a partir de 35 semanas" para o estrato de 100 ou para quem já passou de 34. O argumento é a assimetria: uma semana a menos de gestação, num feto que já tem 35, contra um risco de óbito de um em trinta que começa a se materializar justamente nessa semana.
EASL Clinical Practice Guidelines (2023), recomendação sobre parto eletivo precoce e Figura 7.
Posição 2 — parto com 36 semanas (Febrasgo, 2023; SMFM, 2021)
O fluxograma da Febrasgo leva o estrato de 100 µmol/L ou mais à caixa "parto com 36 semanas ou antes se houver indicação obstétrica". A sociedade norte-americana recomenda oferecer o parto com 36 semanas e 0 dias, com grau 1B, "dado que o risco de óbito fetal aumenta substancialmente em torno dessa idade gestacional". A metanálise de 2019, na discussão, cita dois estudos que identificaram 36 semanas como a idade ótima para prevenir óbito fetal ou neonatal — um deles com registros de 5.545 californianas. O argumento é o balanço entre o risco fetal que começa a subir e a morbidade neonatal de nascer com 35, que existe e se mede em dias de unidade neonatal.
Fluxograma Colestase Obstétrica (Febrasgo, 2023); SMFM Consult Series #53 (2021), recomendação 4; Ovadia et al., Lancet (2019), discussão.
Posição 3 — antecipar "nos casos de maior acometimento", sem semana fixa (manual federal, 2022)
O manual federal escreve que a antecipação do parto deve ser proposta nos casos de maior acometimento e naqueles com resposta terapêutica inadequada, e que essa decisão pode elevar a incidência de prematuridade terapêutica. Fixa semana apenas para os casos leves — até 37 ou 38 — e associa repercussão fetal a ácidos biliares acima de 40, sem mencionar o corte de 100 nem uma semana para ele. O argumento, implícito, é o da individualização: o documento antecede a consolidação do corte de 100 nos protocolos internacionais e deixa a decisão com o serviço e com o obstetra.
Manual de Gestação de Alto Risco (MS, 2022), capítulo 16, seção de conduta.
A paciente à sua frente tem um número e uma idade gestacional, e a decisão é a distância entre os dois. Com 100 µmol/L ou mais e menos de 35 semanas, as três posições concordam: espera-se, com ácidos biliares que não precisam mais ser repetidos e com a semana já escrita. Com 36 ou mais, as três concordam: nasce. A divergência real é a semana entre 35 e 36, e ela se decide por três coisas que não estão nos documentos: se a maternidade tem unidade neonatal para um bebê de 35 semanas — sem ela, a posição 2 é a que protege os dois; se o número veio de um pico isolado ou de valores repetidamente acima de 100 — a curva que sobe pesa para a posição 1; e se há fator de risco adicional, como perda fetal anterior ou prurido que não responde, que a Febrasgo já trata como razão de antecipar. A posição 3 não decide nada sozinha, mas é a que o serviço público brasileiro tem por escrito, e serve para lembrar que o corte de 100 é internacional e recente. Onde o exame não existe, a decisão muda de natureza: a Febrasgo autoriza 36 semanas por clínica, transaminase e fator de risco; a sociedade norte-americana recomenda contra qualquer parto antes de 37 sem confirmação laboratorial. O serviço escolhe uma das duas por escrito — e a escolha mais barata é a terceira: mandar a amostra viajar no dia da primeira consulta, para que o laudo chegue antes da semana em que ele decide.
Posição 1 — preparação tão rápida quanto possível para o parto, com a via vaginal como escolha se o feto estiver reativo (manual federal, 2022)
O manual federal lista, entre os pontos essenciais, a preparação tão rápida quanto possível para o parto, com previsão de reanimação neonatal, e justifica: a falência hepática progride enquanto o feto permanecer no útero. Sobre a via, é explícito em duas direções — a esteatose não é indicação isolada de cesariana, e, na presença de reatividade fetal, o parto vaginal é o de escolha, considerando a coagulopatia profunda; mas a cesárea acaba sendo a via mais frequente pela associação com condição fetal não tranquilizadora. Acrescenta que a cesárea sem preparação para hemorragia severa é uma má decisão, e que a incisão vertical e os drenos reduzem o risco de hematoma. O argumento é a velocidade da doença: cada hora com a placenta dentro é uma hora de fígado parando.
Manual de Gestação de Alto Risco (MS, 2022), capítulo 15, seção de conduta e alertas importantes.
Posição 2 — acelerar o parto depois de tratar a coagulopatia e os distúrbios metabólicos remediáveis, com a via decidida em conjunto (EASL, 2023)
A diretriz europeia recomenda, com força e consenso, que o parto seja acelerado uma vez tratadas a coagulopatia e as alterações metabólicas remediáveis, e que a decisão sobre a via seja tomada conjuntamente por obstetras, hepatologistas e a equipe multidisciplinar. Não fixa a via. O argumento é o da sala de cirurgia: a hemorragia por coagulopatia ocorre em metade dos casos e a hemorragia pós-parto em mais da metade, e operar — ou induzir — uma paciente com fibrinogênio de 80 mg/dL e tempo de protrombina de 20 segundos troca uma morte por outra; as horas gastas em plasma e crioprecipitado são horas ganhas, não perdidas.
EASL Clinical Practice Guidelines (2023), recomendações sobre esteatose hepática aguda.
As duas posições cabem numa frase, e ela decide a maior parte dos casos: corrige-se em horas o que se corrige em horas, e nasce. O que separa as duas na beira do leito é o que fazer quando a correção não termina — a coagulopatia que não responde ao plasma, a glicemia que cai a cada bolus — ou quando o feto não pode esperar. Se a cardiotocografia está não tranquilizadora e a coagulopatia é parcialmente corrigida, a posição 1 é a que descreve o risco real: a demora mata o feto e não salva a mãe, porque o fígado não vai voltar com a placenta dentro; opera-se com o banco de sangue na sala, incisão vertical e drenos. Se o feto está reativo e a coagulopatia é grave, a posição 2 ganha tempo com propósito: duas a quatro horas de hemocomponentes tornam o parto — de preferência vaginal, pelo manual — uma cirurgia possível em vez de uma hemorragia anunciada. Em qualquer cenário, a decisão da via é do obstetra com o anestesista e a hemoterapia, e o que o interno entrega é o painel com a hora ao lado: glicemia, fibrinogênio, tempos, plaquetas, creatinina e a cardiotocografia. Nenhuma das duas leituras admite aguardar biópsia, confirmação ou melhora clínica — e é isso que os dois documentos, cada um a seu modo, estão dizendo.
O raciocínio, em voz alta
Terça-feira, 20h05, pronto-socorro de um hospital regional de cento e trinta leitos, com maternidade, unidade de terapia intensiva de adultos e neonatal e banco de sangue no prédio. Jacira Palhares tem 24 anos, 62 quilos, está na primeira gestação, com 36 semanas e 2 dias, e chegou trazida pela mãe, dona Renilda, com "virose" há cinco dias: náusea, vômitos, dor "no estômago", e uma sede que ela descreve como nunca ter sentido — bebe e urina o tempo inteiro. Hoje ficou sonolenta. Passou numa unidade de pronto atendimento há dois dias, recebeu metoclopramida e soro, e voltou para casa. Pressão arterial 138 por 88 mmHg, frequência cardíaca 108, temperatura 36,7 graus, esclera com um tom amarelado que a mãe atribui à luz. Batimentos cardiofetais em 152 por minuto. Você é o interno de plantão; o residente está no centro cirúrgico. O raciocínio abaixo é o que passa pela sua cabeça, dito em voz alta.
O que penso agora
Vômito que começa no terceiro trimestre em quem passou bem o primeiro não é hiperêmese — o capítulo de hiperêmese e este concordam nisso. Gestante de 36 semanas com vômito, dor no andar superior do abdome e pressão limítrofe é candidata a síndrome HELLP pela regra larga do capítulo vizinho. Mas há três coisas nessa história que a síndrome HELLP não explica: a sede com poliúria, a sonolência e a esclera. A hipótese que não posso perder é esteatose hepática aguda, e a diferença entre as duas se decide num gesto de dez segundos.
O que faço em dez segundos
Glicemia capilar: 46 mg/dL. Anoto o valor e a hora — 20h12. Ela está sonolenta, então trata-se pelo protocolo AC29: glicose a 50%, 40 mL por via intravenosa, no acesso que a técnica acabou de pegar. Repito a glicemia em quinze minutos. Antes do bolus, a técnica já colheu o sangue — a primeira amostra é a única que descreve a doença e não o tratamento.
O que peço
O painel que conta pontos: hemograma com plaquetas, transaminases, bilirrubinas totais e frações, creatinina, ácido úrico, glicemia sérica, tempo de protrombina, tempo de tromboplastina parcial ativada, fibrinogênio, desidrogenase láctica, e amônia — o laboratório diz que não faz amônia à noite. Peço ultrassonografia de abdome para a manhã e cardiotocografia agora. Escrevo a suspeita no pedido, com o nome: esteatose hepática aguda da gravidez, diferencial com síndrome HELLP. E aviso a obstetra e a terapia intensiva antes de qualquer resultado.
O que volta primeiro
20h27, glicemia capilar repetida: 58 mg/dL depois de 20 g de glicose. Subiu pouco e vai cair de novo — isso é a refratariedade que o protocolo brasileiro de 2025 descreve como marca da doença. Prescrevo infusão contínua de glicose a 10% e glicemia de hora em hora. Aos 35 minutos chega o hemograma: hemoglobina 12,1 g/dL, leucócitos 16.800, plaquetas 131.000/mm³. A cardiotocografia mostra variabilidade reduzida e duas desacelerações tardias.
Como a resposta muda o que penso
Plaquetas de 131.000 não fecham o eixo plaquetário da síndrome HELLP, que exige abaixo de 100.000; leucocitose de 16.800 pontua no Swansea, onde 98% das esteatoses têm leucócitos acima de 11.000. A balança já pende para a esteatose antes de a bioquímica chegar, e a cardiotocografia diz que o feto sabe disso há mais tempo do que nós. O que muda agora: o banco de sangue é avisado da suspeita de coagulopatia, com o peso dela — 62 kg — e a possibilidade de cesárea em horas.
O resto do laboratório
21h10: aspartato aminotransferase 240 U/L, alanina aminotransferase 310, bilirrubina total 4,8 mg/dL com direta de 3,2, creatinina 1,6 mg/dL, ácido úrico 8,9 mg/dL, glicemia sérica 52 mg/dL na amostra colhida antes do bolus, tempo de protrombina 19 segundos com controle de 12,5, tempo de tromboplastina parcial ativada 41 segundos, fibrinogênio 110 mg/dL, desidrogenase láctica 480 U/L. Não há esquizócitos na lâmina, que o hematologista de plantão olhou por telefone.
Conto os critérios
Vômito, dor abdominal, polidipsia com poliúria, encefalopatia — quatro clínicos. Bilirrubina acima de 0,8, glicemia abaixo de 72, ácido úrico acima de 5,7, leucócitos acima de 11.000, transaminases acima de 42 — cinco de sangue. Tempo de protrombina acima de 14 segundos — coagulopatia. São dez de catorze. A creatinina de 1,6 não pontua, porque o corte é 1,7; a amônia não foi dosada; a ultrassonografia é de manhã; a biópsia não existe. Seis bastariam. Dez, pela diretriz europeia, é o grupo que vai para a terapia intensiva.
O que isso soma
Esteatose hepática aguda da gravidez, por critérios clínicos e laboratoriais, sem outra explicação. Síndrome HELLP não fechada: plaquetas acima do corte, desidrogenase láctica abaixo de 600, sem esquizócitos — e, sobretudo, hipoglicemia refratária e fibrinogênio de 110 mg/dL, que são da esteatose e não dela. Pré-eclâmpsia: pressão de 138 por 88 em duas medidas e fita de urina sem proteína — não há critério, e por isso não há sulfato de magnésio agora; se a pressão cruzar 140 por 90 com proteinúria ou disfunção, o capítulo de eclâmpsia entra. Hepatite viral aguda entra no diferencial pela icterícia e sai pela hipoglicemia, pelo ácido úrico e pela poliúria; as sorologias vão junto, sem atrasar nada.
A decisão que se toma agora
A obstetra indica a resolução da gestação, e a cardiotocografia decide a via: cesárea. Antes da sala, o que se corrige em horas: plasma fresco congelado 10 mL/kg — 620 mL, três unidades — pelos tempos alargados, e crioprecipitado 10 unidades para fibrinogênio em meta pactuada para o cenário, com alvo ≥200 mg/dL na hemorragia ativa, pelo protocolo universitário; plaquetas de 131.000 não pedem transfusão. Glicose a 10% correndo, glicemia de hora em hora. A anestesista recebe o coagulograma com a hora da coleta e decide a técnica. A neonatologia está na sala. O protocolo de hemorragia pós-parto fica instalado antes da incisão, que é vertical, com drenos. Distinguir coagulopatia sem sangramento de hemorragia obstétrica ativa. O alvo >100 mg/dL do protocolo institucional não deve ser usado como meta suficiente para hemorragia ativa; nesse cenário, repor fibrinogênio com alvo ≥200 mg/dL (2 g/L), reavaliando perdas, exames e resposta. Na preparação do parto sem hemorragia ativa, pactuar a meta com obstetrícia, anestesia e hemoterapia segundo procedimento e evolução; não transfundir apenas por um número isolado. Referência: protocolo institucional citado e diretriz consolidada OMS/FIGO/ICM de HPP, 2025.
O que ficou fora, de propósito
Não pedi biópsia, porque ela é patognomônica e contraindicada, e não mudaria nada. Não esperei a ultrassonografia, porque ascite ou fígado brilhante somariam um ponto a dez. Não esperei a amônia. Não esperei a paciente melhorar, porque ela não melhora com o feto dentro — a frase é do manual federal. E não chamei de síndrome HELLP para simplificar a passagem de plantão: o rótulo errado teria trocado glicose e fibrinogênio por sulfato e plaquetas.
Depois do parto
Recém-nascido masculino, 2.480 g, reanimado com ventilação com pressão positiva por um minuto, encaminhado à unidade neonatal. Jacira vai para a terapia intensiva com o painel a cada seis horas. Nas primeiras 36 horas piora: creatinina 1,9, bilirrubina 6,1, três bolus de glicose de madrugada. No terceiro dia a glicemia se sustenta sem bolus e o tempo de protrombina está em 15 segundos; no quarto, a bilirrubina começa a cair; no sexto, fibrinogênio 220 mg/dL e coagulograma normal; no décimo, creatinina 1,2 e alta da unidade. É a ordem que o manual federal descreve — fígado em um a dois dias, colesterol e bilirrubina em três a quatro, coagulação em quatro a seis, rim em sete a dez —, e é por isso que ninguém relaxou no segundo dia.
O que ficou anotado
A evolução que resume o caso tem quatro horários: vômito há cinco dias, glicemia de 46 às 20h12, contagem de dez critérios às 21h20, nascimento às 0h40. O diagnóstico levou uma hora e oito minutos, e quem o entregou não foi nenhum exame sofisticado: foi ter passado a fita de glicemia numa gestante com "virose". Antes da alta, o rastreio de defeito de oxidação de ácidos graxos foi pedido para ela e para o bebê, com a neonatologia; a recorrência é rara, e ela sai sabendo por que vai fazer o teste.
Variação do caso — resposta e reavaliação
Variação do caso de Jacira: a glicemia sobe após a primeira reposição e a sonolência melhora parcialmente. Isso não significa que a doença hepática resolveu. Manter controle seriado, procurar recorrência da hipoglicemia e reavaliar coagulação e função orgânica enquanto o plano obstétrico prossegue.
Variação do caso — quando mudar o plano
Se a coagulação se deteriora ou aparece sangramento, atualizar a estratégia com hemoterapia e anestesia, usando as metas do cenário hemorrágico. Na colestase, a coceira melhorar não apaga um pico anterior de ácidos biliares relevante para o risco; separar alívio do sintoma de decisão sobre vigilância e nascimento.
Faça você
Quinta-feira, 9h30, ambulatório de pré-natal de alto risco de uma maternidade com unidade neonatal. Leandra Galdino tem 33 anos, 68 quilos, terceira gestação, dois partos normais, e está com 35 semanas e 4 dias. Coça há três semanas — palmas, plantas e depois o corpo inteiro, à noite —, sem lesão de pele além das escoriações. Há doze dias, a médica da unidade básica encontrou alanina aminotransferase de 118 U/L (referência até 41), não conseguiu dosar ácidos biliares na rede e iniciou ácido ursodesoxicólico 300 mg três vezes ao dia, com melhora parcial da coceira. A amostra enviada ao laboratório de referência há seis dias voltou hoje: ácidos biliares totais 118 µmol/L, colhidos sem jejum. Exames de hoje: alanina aminotransferase 210 U/L, bilirrubina total 1,6 mg/dL, tempo de protrombina 13 segundos com controle de 12,5, plaquetas 210.000/mm³, glicemia 88 mg/dL, creatinina 0,7 mg/dL. Cardiotocografia de hoje reativa; mobilograma normal. Na primeira gestação, coçou no fim e "passou no dia seguinte ao parto", que foi com 39 semanas. Ela pergunta se pode esperar a 38ª semana, porque "o exame do bebê está bom".
Passo 1
Classifique o laudo de 118 µmol/L pelas três réguas — manual federal, Febrasgo e a internacional que a metanálise de 2019 fundamenta — e diga o que ele muda e o que ele não muda. Considere que ela está sob ácido ursodesoxicólico há doze dias e que a coleta foi sem jejum.
Passo 2
Decida a semana e a via do parto, com as três posições que existem para esse estrato, e responda à pergunta dela sobre a cardiotocografia reativa: o que esse exame autoriza, e o que não autoriza.
Passo 3
Diga o que faz com o remédio — a dose por quilo está certa? o que ele faz e o que não faz pelo feto? como se lê o ácido biliar sob tratamento? — e o que o serviço precisa decidir sobre corticoide antenatal numa gestante de 35 semanas que vai nascer antes de 37.
Passo 4 — em branco
Liste o que precisa estar pronto no dia do parto e o que vai escrito no relatório de alta, com os prazos e os critérios de encaminhamento. Inclua a contracepção.
Ver como fecharíamos
Passo 1. Pelo manual federal, 118 está acima do corte de confirmação de 15 e acima do 40 que o mesmo manual associa a repercussão fetal; pela Febrasgo, está acima de 10, é "grave" por ser maior que 40, e cai no ramo "sais biliares maiores ou iguais a 100"; pela régua internacional, está no estrato em que a metanálise de 2019 mediu 18 óbitos em 524 gestações únicas — 3,44%, ou cerca de um em trinta —, que o colégio britânico chama de grave e que a diretriz europeia situa em 10% das mulheres com o diagnóstico. O que o número muda: fixa a semana do parto e, pela diretriz europeia, dispensa novas dosagens, porque o risco já está estabelecido. O que ele não muda: nada no laboratório materno — tempo de protrombina normal, plaquetas normais, glicemia normal, bilirrubina levemente elevada como se espera — e nada na sensação de bem-estar dela. Duas ressalvas de leitura. A coleta sem jejum é a condição em que os cortes foram construídos, e o valor é válido; sob ácido ursodesoxicólico, o método enzimático dosa também a droga, que pode responder por 50% a 70% do total, mas a diretriz europeia registra que os cortes de 40 e 100 valem em mulheres tratadas, porque a metanálise incluiu tratadas e não tratadas — não se desconta nada do 118. Passo 2. Para o estrato de 100 ou mais há três posições: a diretriz europeia planeja o parto a partir de 35 semanas; a Febrasgo e a sociedade norte-americana, com 36 semanas; o manual federal manda antecipar nos casos de maior acometimento, sem semana. Leandra tem 35 semanas e 4 dias, numa maternidade com unidade neonatal: por uma posição, nasce hoje; por duas, em três dias. O que decide entre as duas é o que o serviço pactuou e a estrutura neonatal, que aqui existe; a leitura mais conservadora que respeita as três é agendar a indução para 36 semanas e 0 dias, com a orientação de que qualquer alteração — redução de movimentos, sangramento, cardiotocografia alterada — antecipa para agora. A via é indução: nenhum documento lido indica cesárea pela colestase, e ela tem dois partos normais. A resposta à pergunta dela é a frase do bloco de conversa: a cardiotocografia reativa mostra que o bebê está bem hoje, que é exatamente o que se espera nessa doença, porque o óbito é súbito e arrítmico num feto de crescimento normal; o exame serve para adiantar o parto se piorar, e não para adiá-lo. Esperar 38 semanas com 118 µmol/L é entrar na janela em que o risco sobe, por decisão. Passo 3. A dose: 900 mg por dia em 68 kg são 13,2 mg/kg/dia, dentro dos 10 a 15 mg/kg do manual federal e abaixo do teto de 25; a dose fixa da Febrasgo coincide com a dose por quilo dela, o que não aconteceria em 50 nem em 100 kg. Mantém-se até o parto e suspende-se no parto, com redução gradual em duas a quatro semanas se os sintomas persistirem, pela diretriz europeia. O que ele faz: melhora a coceira — pouco, em média; a dela melhorou parcialmente, e isso conta. O que não se pode prometer: no ensaio de 2019 a droga não reduziu morte perinatal, prematuridade nem internação neonatal, e não reduziu os ácidos biliares; a diretriz europeia, lendo a metanálise de 2021, a oferece a partir de 40 µmol/L para reduzir prematuridade espontânea, com possível proteção contra o óbito — o que Leandra recebeu, portanto, é um remédio que os documentos divergem em recomendar pelo feto e concordam em recomendar pela coceira, e ela merece ouvir isso. A leitura sob tratamento está no passo 1: o número vale. O corticoide: a sociedade norte-americana recomenda, com grau 1A, corticoide antenatal para maturidade pulmonar em quem vai nascer antes de 37 semanas se ainda não recebeu; nem o manual federal nem a Febrasgo mencionam corticoide na colestase, e a régua brasileira de corticoide antenatal, que o capítulo de síndrome HELLP usa, vai até 34 semanas. A decisão entre 34 e 37 é do serviço e fica registrada com os dois lados — este capítulo não a toma. Passo 4. No dia do parto: banco de sangue avisado — o tempo de protrombina dela é normal, então não há vitamina K a repor, mas o aviso custa nada; monitorização fetal contínua desde o início da indução, pelo risco maior de mecônio e de sofrimento fetal que a metanálise de 2019 mediu; equipe neonatal na sala, para um bebê de 36 semanas; suspensão do ácido ursodesoxicólico. No relatório de alta, quatro linhas com prazo. Primeira: laboratório hepático e ácidos biliares em seis a oito semanas; se não normalizaram — a diretriz europeia dá três meses —, encaminhamento à hepatologia com as sorologias para hepatites B e C, a ultrassonografia de abdome e, pela diretriz europeia, os autoanticorpos. Segunda: contracepção definida antes da alta, sabendo que a colestase relacionada ao anticoncepcional combinado é categoria 3 para o método combinado no manual de anticoncepção da Febrasgo, e que a escolha do método é do capítulo de contracepção. Terceira: recorrência de 45% a 90% em gestação subsequente, com pré-natal de alto risco desde o início e ácidos biliares ao primeiro prurido. Quarta: o pico de 118 µmol/L e a semana do parto, escritos, porque é o número que a próxima equipe vai precisar antes de ela conseguir contar a história.
No ensaio de 2019, com 605 mulheres, o desfecho composto de morte perinatal, parto antes de 37 semanas e internação neonatal ocorreu em 23% dos recém-nascidos do grupo tratado contra 27% do placebo, com razão de risco de 0,85 e intervalo de 0,62 a 1,15 — sem diferença; o prurido melhorou 5,7 mm numa escala de 100, abaixo dos 30 mm considerados clinicamente importantes; e a concentração de ácidos biliares não caiu no grupo tratado, em parte porque o método enzimático dosa a própria droga. Não houve sinal de dano: dois eventos adversos graves no grupo tratado contra seis no placebo, nenhum atribuído ao tratamento. A diretriz europeia lê o mesmo ensaio observando que três quartos das participantes tinham menos de 40 µmol/L e, com base numa metanálise de dados individuais de 2021, oferece a droga a partir de 40 para reduzir prematuridade espontânea — sem efeito abaixo disso. Com 28 µmol/L, a paciente pode usar o remédio pela coceira, sabendo que é por isso; e a semana do parto nunca depende do remédio.
Teste-se
Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.
Plano de revisão
Em 7 dias
Três coisas para lembrar em uma semana. Primeira: prurido sem lesão de pele na segunda metade da gestação, pior à noite e em palmas e plantas, é colestase até prova em contrário — e a prova é a dosagem de ácidos biliares, que demora dias e por isso se colhe antes de prescrever qualquer anti-histamínico. Segunda: o número que decide o feto é o pico de ácidos biliares, em três estratos — abaixo de 40, de 40 a 99, e 100 ou mais, onde o óbito fetal chega a 3,44% e o parto se planeja entre 35 e 36 semanas; a cardiotocografia normal antecipa o parto se piorar e nunca o adia. Terceira: vômito de terceiro trimestre com transaminase alta pede glicemia capilar em dez segundos; hipoglicemia é esteatose até prova em contrário, o diagnóstico se fecha com seis critérios de Swansea, e o tratamento é o parto em horas, sem esperar biópsia. Aplicação comentada: Gestante com vômitos, icterícia e alteração de coagulação pode seguir apenas o roteiro ambulatorial do prurido? Não: há possível falência e necessidade de avaliação hospitalar urgente.
Em 30 dias
Cinco coisas para lembrar em um mês. Primeira: há dois documentos brasileiros para a colestase e eles não coincidem — o manual federal confirma acima de 15 µmol/L e manda resolver os casos leves até 37 ou 38 semanas, sem semana para os graves; a Febrasgo confirma acima de 10, chama de grave a partir de 40, e divide a semana do parto em 100: 37 a 39 abaixo, 36 a partir dele. Segunda: o ácido ursodesoxicólico melhora o prurido pouco e não reduziu o desfecho perinatal no maior ensaio controlado; a diretriz europeia o oferece a partir de 40 µmol/L para reduzir prematuridade espontânea; a droga está na Rename só no componente especializado, para outra doença, e a bula manda descartar gravidez antes de iniciar — o uso é fora da bula e se registra. Terceira: a esteatose e a síndrome HELLP começam iguais e se separam pela função de síntese — glicemia, fibrinogênio, colesterol, creatinina —, não pela transaminase; a esteatose tem hipoglicemia refratária e fibrinogênio baixo desde a admissão, e a síndrome HELLP tem plaquetas em queda com hemólise. Quarta: na esteatose corrige-se em horas o que se corrige em horas — glicose, plasma fresco 10 mL/kg, crioprecipitado para fibrinogênio em meta pactuada para o cenário, com alvo ≥200 mg/dL na hemorragia ativa — e nasce; a via é vaginal se o feto estiver reativo e cesárea se não estiver, sempre com o banco de sangue preparado, incisão vertical e drenos se houver coagulopatia; a mãe piora por dias antes de melhorar, na ordem fígado, bilirrubina, coagulação, rim. Quinta: as duas doenças têm alta com tarefas — laboratório em seis a oito semanas e hepatologia se não normalizar, contracepção sem surpresa com estrogênio, recorrência de 45% a 90% na colestase, e rastreio do defeito de oxidação de ácidos graxos na mãe e no bebê da esteatose. Distinguir coagulopatia sem sangramento de hemorragia obstétrica ativa. O alvo >100 mg/dL do protocolo institucional não deve ser usado como meta suficiente para hemorragia ativa; nesse cenário, repor fibrinogênio com alvo ≥200 mg/dL (2 g/L), reavaliando perdas, exames e resposta. Na preparação do parto sem hemorragia ativa, pactuar a meta com obstetrícia, anestesia e hemoterapia segundo procedimento e evolução; não transfundir apenas por um número isolado. Referência: protocolo institucional citado e diretriz consolidada OMS/FIGO/ICM de HPP, 2025.
Agora atenda
Uma gestante de terceiro trimestre chega pela terceira vez em duas semanas a um pronto-atendimento sem maternidade, com coceira noturna que começou pelas palmas e plantas, sem lesão de pele, já medicada com dois anti-histamínicos por outras equipes e pedindo uma injeção mais forte. Conduza o atendimento: faça as perguntas que separam a coceira do fígado da coceira da pele, decida o que ela leva para casa e o que fica colhido, peça os exames que decidem e diga o que fazer enquanto o que confirma não volta, classifique um laudo hipotético nos três estratos e escreva a semana do parto, explique à paciente o que o número significa e por que um monitoramento normal não muda a data — e, quando ela contar que a vizinha "está com virose e dormindo o dia inteiro" com 36 semanas, diga qual é o gesto de dez segundos que separa a outra doença deste capítulo.
