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O olho que ninguém deve apertar
Trauma ocular: globo aberto, corpo estranho, abrasão de córnea e queimadura química
Reconhecer o globo aberto antes de encostar nele — e por que o exame que se faz por reflexo é o que perde o olho
TelessaúdeRS-UFRGS. Protocolos de encaminhamento para Oftalmologia Adulto. Versão Digital. Porto Alegre: UFRGS, 2023. 26 p.
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AAO — Orbital compartment syndrome, 2023
Responda antes de ler
Mulher de 26 anos apresenta abrasão de córnea após trauma de baixa energia, sem uso de lente de contato e sem sinais de alarme. Ela relata dor intensa e pede "aquele colírio que corta a dor na hora". Qual conduta é correta?
O paciente que você vai ver
Terça-feira, 19h40, pronto-socorro de hospital geral no interior, município de porte médio. Quem cobre o plantão desta noite, como interno, é você — e não há oftalmologista na casa — há um de sobreaviso, na capital, a hora e quarenta de ambulância. Duas fichas caem na sua mesa com quinze minutos de diferença e a mesma queixa escrita pela classificação de risco: trauma no olho.
A primeira é a Inês Basto, 26 anos, entregadora de aplicativo. Estava na moto, viseira levantada por causa do calor, quando alguma coisa bateu no olho direito na altura do viaduto. Ela chega chorando, com a mão em concha sobre a órbita, não consegue abrir a pálpebra, não tolera a luz do corredor e diz três vezes que tem alguma coisa dentro do olho, cortando. Está inquieta na cadeira, pede alguma coisa para a dor, pergunta se vai ficar cega. Todo mundo na sala olha para ela.
O segundo é o Eusébio Urubatan, 41 anos, serralheiro. Ele chega andando, sozinho, sem pressa, e é simpático. Conta que anteontem estava rebatendo uma cantoneira com marreta, sem óculos, e sentiu um cisco no olho esquerdo. Ardeu na hora, lacrimejou, e no dia seguinte melhorou. Veio porque a mulher insistiu. O olho dele está branco, quase sem vermelhidão. Ele enxerga — diz que enxerga. Não dói. Ele responde à pergunta "em quanto tempo o senhor consegue voltar ao trabalho?", e é a única pessoa naquele corredor que não está reclamando de nada.
A Inês tem uma abrasão de córnea. Vai doer horrivelmente por doze horas, vai cicatrizar em dois ou três dias e ela vai enxergar igual ao que enxergava antes. O Eusébio tem um fragmento de metal dentro do olho havia quarenta e oito horas, e é ele quem vai perder a visão daquele lado. Nada no volume da queixa separou os dois. A dor, no olho, mede o quanto o epitélio da córnea foi arrancado — e o epitélio é a camada mais inervada e a menos importante das que existem ali. O que entra fundo, entra calado.
O que decide o desfecho do Eusébio não é um exame que falta no seu serviço. É a ordem em que você encosta a mão nele. Diante de um olho traumatizado, a sequência que sai automática de qualquer pessoa treinada em pronto-socorro é abrir as pálpebras com os dedos para ver melhor, pingar uma gota de anestésico para o paciente colaborar, everter a pálpebra à procura do corpo estranho e, se houver tonômetro, medir a pressão. Num olho fechado, essa sequência é cuidado. Num olho aberto, cada um desses quatro gestos empurra para fora o conteúdo de uma esfera que perdeu a parede — e o que sai pelo rasgo é íris, cristalino, vítreo, retina. Não volta.
Este capítulo é sobre três coisas que chegam por essa mesma porta e que se comportam de maneiras opostas: o globo aberto que se apresenta discreto, o corpo estranho, e o trauma contuso. O eixo é sempre o mesmo — decidir, antes de tocar, se aquela parede está íntegra. Tudo o que se faz depois depende dessa resposta, e essa resposta se obtém olhando, perguntando e iluminando, sem apertar nada.
Dois assuntos grandes não entram aqui, e não entram porque já pertencem a outros capítulos. A queimadura química — que é a única urgência do olho em que a irrigação vem antes de medir acuidade, antes de perguntar o que aconteceu e antes de chamar o oftalmologista — é ensinada, com técnica e com tempo, no capítulo Olho vermelho, o primeiro desta apostila. Aqui se recolhe o que vem depois que o soro foi desligado: como se estratifica a gravidade, por que o olho mais branco pode ser o pior, e o que se escreve no encaminhamento. E a sequência primária do politraumatizado, o ABCDE e o trauma de face são do capítulo Atendimento inicial ao politraumatizado e dos demais capítulos da apostila de Trauma — o olho entra na sua ordem de prioridades, mas nunca antes da via aérea.
Quem adoece disso
Comece pelo que não existe, porque isso muda o que você pode afirmar na frente de um paciente. O Brasil não tem inquérito nacional de trauma ocular. Não há registro de agravo, não há notificação compulsória, não há linha de base publicada pelo Ministério da Saúde sobre quantos olhos o país perde por ano nem por quê. O que existe são séries de um serviço só, quase sempre de hospital universitário, quase sempre de seis meses a dois anos, e tabulações de internação hospitalar extraídas do sistema de informações do SUS por grupos de pesquisa — que contam quem internou, e portanto perdem justamente o trauma que foi tratado no ambulatório e o trauma que não procurou serviço nenhum.
Isso não é detalhe de rodapé. Significa que a frase "o trauma ocular é a principal causa de cegueira monocular em adultos jovens", que você vai ouvir em toda passagem de plantão, no Brasil não tem documento nacional que a sustente. Ela pode até ser verdadeira; o que não existe é o dado brasileiro que a meça. Diga o que se sabe e diga de onde veio.
O que as séries brasileiras concordam em mostrar é um retrato estreito e repetido: homem, em idade de trabalhar, que se machucou fazendo alguma coisa. Na casuística do serviço de oftalmologia do Hospital Universitário Cassiano Antônio Moraes, em Vitória, com 60 pacientes atendidos entre 1º de abril e 1º de outubro de 2013, 80% eram homens, as idades iam de 8 a 60 anos, e o acidente de trabalho respondeu por 56,7% dos casos, seguido do acidente domiciliar com 28,3%. A maioria dos traumas foi do tipo fechado, com predomínio das contusões e, em seguida, do corpo estranho de superfície.
O número dessa série que muda conduta é outro, e é de prevenção: entre os que se traumatizaram no trabalho, 82,9% não usavam equipamento de proteção individual. Guarde a ordem de grandeza, não o decimal — e guarde-a porque ela é a resposta à única pergunta que o paciente vai fazer depois que a dor passar, que é "isso podia ter sido evitado?". Podia. Óculos de proteção custa menos que uma diária de internação e é a única tecnologia deste capítulo com eficácia comprovada.
Essa mesma série ilustra por que a auditoria de conta é parte da leitura, e não implicância: os 82,9% não fecham com os 56,7%. Se 56,7% de 60 pacientes são 34 acidentes de trabalho — e 34 dividido por 60 dá 56,67%, que arredonda certo —, então nenhuma fração de 34 produz 82,9%: 28 em 34 dão 82,35% e 29 em 34 dão 85,29%. Os dois únicos denominadores plausíveis que produzem 82,9% são 35, com 29 casos (82,857%), e 41, com 34 casos (82,927%) — e nenhum dos dois é o número de acidentes de trabalho que o próprio resumo publica. Ou o denominador da frase do EPI é um subgrupo diferente do que a frase anterior definiu, ou um dos dois percentuais está mal transcrito. Isso não invalida a série nem a mensagem; obriga você a citar a ordem de grandeza e não o decimal.
A distribuição por mecanismo tem uma consequência clínica direta, e é aqui que a epidemiologia deixa de ser enfeite. Predominar trauma fechado significa que a maioria dos olhos que chegam ao seu plantão vai embora bem — e é exatamente isso que constrói, ao longo de meses, a confiança que faz o interno tratar o próximo trauma pelo padrão dos anteriores. A doença que importa é rara dentro da amostra e catastrófica dentro do indivíduo. Estatisticamente você vai acertar quase sempre tratando trauma ocular como coisa leve. Clinicamente, o preço dos poucos por cento em que isso for errado é um olho.
Três populações desviam do retrato e merecem contagem própria. A criança, em que o trauma se concentra em brincadeira e em objeto pontiagudo de casa, e em que o exame é mais difícil justamente quando a suspeita é maior — e em que trauma ocular sem história coerente entra na conversa sobre violência, que é do capítulo Violência e maus-tratos infantis, da apostila de Emergências Pediátricas. Cirurgia ocular prévia pode criar vulnerabilidade no local da incisão; tipo, tamanho e localização variam. Trauma grave também ocorre em olho não operado. E o trabalhador informal, que não tem EPI, não tem CAT e frequentemente não tem quem o afaste.
Este último dá a fronteira mais frequente do capítulo na vida real. Trauma ocular ocupacional é, nas séries brasileiras, a maior fatia isolada — e todo trauma ocupacional gera uma obrigação de registro que não é do oftalmologista, é de quem atendeu. Como se estabelece o nexo, quem emite a Comunicação de Acidente de Trabalho, em que prazo e o que acontece com o paciente que não tem carteira assinada são assunto do capítulo A lesão que só vira acidente se alguém escrever, da apostila de Medicina do Trabalho deste nível. Aqui fica só a regra de ouro: perguntar em que a pessoa trabalha, escrever a resposta no prontuário, e não deixar o registro para depois da cirurgia.
Por fim, a epidemiologia do serviço, que é a que decide o seu plantão. A maioria dos hospitais gerais brasileiros não tem oftalmologista presencial à noite, não tem lâmpada de fenda funcionando no pronto-socorro e não tem tonômetro — e, quando tem, o tonômetro é o instrumento mais perigoso da sala diante de um globo aberto. Quer dizer que a decisão de encaminhar, e o cuidado que se dá enquanto o transporte não sai, são tomados por um médico não oftalmologista com uma lanterna. É para esse cenário que este capítulo foi escrito, e não para o consultório com biomicroscópio.
Por que acontece o que acontece
O olho é um recipiente fechado, pressurizado e de conteúdo praticamente incompressível. Cerca de seis mililitros e meio de volume, uma pressão interna de dez a vinte e um milímetros de mercúrio, e uma parede de duas camadas contínuas: a córnea, transparente, na frente, e a esclera, branca, no resto. Enquanto essa parede está inteira, o olho tolera empurrão, aperto e o piscar forçado sem que nada se mova de lugar, porque a pressão se distribui igualmente por dentro. No instante em que a parede abre, tudo isso se inverte: a pressão interna cai a zero, e qualquer força aplicada de fora — o dedo, a pálpebra apertando, o tonômetro, o esparadrapo puxando — passa a ter só um caminho de saída, que é o buraco. O que sai pelo buraco é íris, cristalino, vítreo e retina. Nenhum desses volta.
A parede não tem espessura uniforme, e é por isso que se pode prever onde ela cede. A esclera é mais fina logo atrás da inserção dos músculos retos, onde chega a cerca de três décimos de milímetro; é fina também no limbo, a circunferência onde a córnea encontra a esclera, e ao redor da entrada do nervo óptico. A essas fraquezas de fábrica somam-se as adquiridas: toda cicatriz cirúrgica é para sempre mais frágil que o tecido virgem. Um olho operado de catarata, de pterígio, de glaucoma ou transplantado tem uma linha de menor resistência que se abre com uma fração da energia que romperia uma esclera intacta — e é por isso que a pessoa idosa que caiu da própria altura e bateu o rosto merece a mesma desconfiança que o rapaz que levou uma pancada de bola.
Há duas maneiras completamente diferentes de essa parede abrir, e elas se comportam de modo oposto no seu exame. A laceração é de fora para dentro: um objeto cortante ou pontiagudo — vidro, faca, arame, estilete, fragmento — atravessa a parede no ponto em que encostou. A ruptura é de dentro para fora: um trauma contuso de alta energia comprime o globo no sentido ântero-posterior, o conteúdo incompressível força a expansão no equador, e a parede estoura no ponto mais fraco, que quase nunca é o ponto do impacto. A consequência prática é enorme: depois de trauma contuso, o rasgo costuma estar escondido — atrás da inserção de um músculo, sob a conjuntiva intacta, debaixo da pálpebra superior. Não ver ferida nenhuma não é prova de globo fechado; num trauma contuso forte, é o esperado.
O terceiro mecanismo é o que produz o Eusébio, e é o mais traiçoeiro de todos porque quase não deixa rastro. Martelar metal contra metal, esmerilhar, lixar, usar roçadeira ou cortar com disco arranca lascas minúsculas em velocidade altíssima. Energia cinética depende do quadrado da velocidade, de modo que um fragmento de poucos miligramas viajando muito rápido tem energia suficiente para atravessar córnea ou esclera — e, exatamente por ser pequeno e rápido, faz um furo limpo, de bordas que se fecham sozinhas. O resultado é um olho que não vaza, não dói proporcionalmente, não fica muito vermelho e enxerga quase bem, com um pedaço de metal parado lá dentro. A dor e a vermelhidão que faltam não são boa notícia; são a assinatura do calibre do projétil.
Entender por que o exame de rotina extrude conteúdo exige uma conta simples de forças. Quando você segura as pálpebras de alguém para abrir o olho à força, a pessoa resiste — e o músculo orbicular, contraindo contra os seus dedos, gera sobre o globo uma pressão muitas vezes maior do que a que você está aplicando. Everter a pálpebra superior é, mecanicamente, uma alavanca com o tarso fazendo de fulcro sobre a esclera superior. A tonometria de aplanação mede pressão justamente aplicando força contra a córnea, o que é seguro num olho fechado e é um êmbolo num olho aberto. E até o gesto mais inocente do repertório — apoiar uma gaze e prender com esparadrapo — vira compressão assim que o paciente aperta os olhos por causa da luz. Nenhum desses gestos é errado em si. Cada um deles é errado antes de você ter respondido se a parede está inteira.
Aberta a parede, começa um segundo relógio, que é o da infecção. O interior do olho é um espaço fechado, sem vasos no vítreo e sem linfáticos, com barreiras que servem para manter a transparência e que, uma vez rompidas, também servem para proteger a bactéria da imunidade e do antibiótico que chega pelo sangue. Endoftalmite pós-traumática é a complicação que transforma um olho reparável num olho perdido, e o risco sobe com o tempo até o fechamento cirúrgico, com a presença de corpo estranho retido e, sobretudo, com contaminação por terra e material vegetal — o ferimento rural, com enxada, foice ou galho, é o de pior prognóstico infeccioso. É essa a razão de tratar globo aberto com pressa, e não a hemorragia.
Há ainda uma razão para cuidar do olho ferido que não tem a ver com o olho ferido. A oftalmia simpática é uma inflamação autoimune do olho saudável, desencadeada pela exposição de antígenos da úvea num trauma penetrante do outro olho. É rara, pode aparecer semanas a anos depois, e é o motivo pelo qual nenhum olho traumatizado se enuclea por impulso na primeira noite e pelo qual todo trauma penetrante ganha seguimento oftalmológico prolongado, mesmo quando o olho ferido já não enxerga. Quando um paciente perguntar por que precisa continuar indo à consulta se aquele olho "já era", esta é a resposta honesta: a consulta é pelo outro.
Falta o mecanismo da queimadura química, e dele este capítulo fica com uma peça só — a que explica por que o olho de aparência mais calma é o de pior prognóstico. A técnica e o tempo da irrigação, e a diferença de penetração entre ácido e álcali, são do capítulo Olho vermelho, o primeiro desta apostila, e não se repetem aqui. O que interessa depois que o soro foi desligado é o limbo: é nele que ficam as células-tronco que reepitelizam a córnea a vida inteira, e são elas, e não o epitélio, que decidem se aquela córnea volta a ser transparente. O álcali que alcança o limbo tromba os vasos perilímbicos e mata esse reservatório. Por isso a leitura se faz ao contrário do instinto: um limbo muito vermelho significa vasos vivos, e um limbo branco, quieto e sem vasos é isquemia — o olho que parece o menos inflamado da fila é o que vai cicatrizar opaco.

Como se apresenta de verdade
Existe uma única pergunta de triagem neste capítulo, e ela não é qual é o diagnóstico. É esta: a parede deste olho está aberta? Tudo o que você pode fazer com segurança, e tudo o que precisa deixar de fazer, decorre da resposta. Por isso a apresentação está organizada como a pergunta se responde na prática — primeiro o que grita globo aberto, e só depois os quadros que se pode examinar com as mãos.
Vale fixar de saída que a resposta se obtém sem tocar no olho. História, inspeção com lanterna e comparação com o olho contralateral respondem a maioria dos casos em menos de dois minutos, e nenhum desses três recursos aplica força sobre o globo. Quando eles não bastarem para excluir, a conduta é assumir que está aberto — porque o custo de proteger um olho fechado é uma noite de desconforto, e o custo de examinar um olho aberto é o olho.
Competência ao concluir este capítulo. Proteger o globo, reconhecer pressão orbitária ameaçadora e integrar cuidado ocular ao trauma geral. Ao discutir com o supervisor, separe achados observados, hipótese, risco imediato e plano com reavaliação. A prática deve mostrar o raciocínio que sustenta a decisão, além da execução técnica.
O globo aberto que ninguém reconheceu
A imagem que todo mundo carrega de globo aberto é a do olho destruído, com sangue escorrendo e conteúdo à mostra. Esse existe, é minoria, e não é problema diagnóstico — ninguém erra. O problema é o outro: olho branco, pálpebra fechando normal, paciente lúcido, andando, respondendo, com queixa de "cisco" ou de vista embaçada. É esse que passa pela triagem como verde, espera duas horas na cadeira e é examinado com a mesma naturalidade com que se examina uma conjuntivite.
Há achados que fecham o diagnóstico sozinhos e dispensam qualquer exame adicional. Tecido escuro, marrom ou preto, aparecendo na superfície do olho onde deveria haver branco ou transparência: é úvea prolapsada, não é hematoma nem sujeira. Pupila deformada, puxada para um lado, em forma de gota ou de vírgula: a íris está sendo tracionada para dentro do rasgo, e a ponta da gota aponta para onde está a ferida. Um objeto atravessando a parede — arame, lasca, estilhaço, farpa de madeira — visível, com qualquer parte dele para fora. Câmara anterior desaparecida, com a íris encostando na córnea. E o sinal de Seidel positivo, que é o aquoso vazando e diluindo a fluoresceína, e cuja técnica é do capítulo Olho vermelho, o primeiro desta apostila.
Diante de qualquer um desses cinco, o exame acabou. Não se mede pressão, não se everte pálpebra, não se pinga mais nada, não se procura o segundo achado para confirmar. Protetor rígido e transferência.
Abaixo desses, há um conjunto de achados que não fecham o diagnóstico mas obrigam a tratar como se fechassem. Hemorragia subconjuntival muito volumosa, escura, abaulada, que envolve todo o contorno da córnea e não deixa ver esclera branca em canto nenhum — atrás dela pode estar o rasgo, e a bolha de sangue é justamente o que o esconde. Câmara anterior visivelmente mais rasa ou visivelmente mais profunda que a do outro olho na iluminação oblíqua, sendo a mais profunda o padrão da ruptura posterior. Hifema. Acuidade visual desproporcional ao que se vê por fora. Defeito pupilar aferente relativo novo. Baixa importante de visão com olho de aparência quase normal. E a sensação, ao inspecionar, de que o globo está "mole" — que você percebeu sem apalpar, porque a pálpebra afunda de um jeito diferente, e que não deve confirmar apalpando.
Por fim, os achados que não estão no olho e sim na história, e que sozinhos já reclassificam o caso. Martelo batendo em metal, esmerilhadeira, lixadeira, disco de corte, roçadeira, prego em pistola, explosão, estilhaço de vidro, mordida de animal na face, e — este é o que mais escapa — trauma contuso em olho previamente operado de catarata, de pterígio ou transplantado. A pergunta que mais rende no plantão inteiro é banal: o senhor estava fazendo o quê, exatamente? Não "o que aconteceu", que produz "caiu um cisco", mas o que a pessoa estava fazendo com as mãos no momento. É a diferença entre a história do Eusébio como ele a conta e a história dele como ela é.
Um detalhe de calibragem que evita o excesso oposto: dor intensa não é sinal de globo aberto, e sua ausência não tranquiliza. A dor mede desepitelização da córnea, que é o tecido mais inervado do corpo e o menos importante dos que estão em jogo. O olho que mais dói é, na maioria das noites, o que menos preocupa.
Corpo estranho: três lugares, três condutas
"Caiu um cisco no olho" é a mesma frase para três situações que não têm nada em comum, e separá-las é a maior parte do trabalho. O corpo estranho pode estar solto na superfície, encravado na córnea, ou dentro do olho — e o único jeito de saber qual dos três é combinar a história do mecanismo com o que se enxerga.
O de conjuntiva é o comum e o benigno. Poeira, areia, fragmento de tinta, cílio, fiapo. Fica no fundo de saco inferior, na superfície do globo ou grudado na face interna da pálpebra superior, e é móvel. A pista clássica de que ele está escondido sob a pálpebra superior são arranhões lineares verticais na córnea, todos paralelos, desenhados pelo piscar arrastando o objeto de cima para baixo — a fluoresceína os mostra e eles significam: procure debaixo da pálpebra de cima. Esse é o único corpo estranho que o interno remove.
O de córnea é o que se vê como um ponto escuro sobre a parte transparente, que não sai com irrigação e que não se move quando o paciente pisca — porque está encravado no tecido. Quando é de metal ferroso, forma em poucas horas um halo alaranjado ao redor, o anel de ferrugem, que é óxido impregnado no estroma. Esse não é do interno: retirá-lo exige agulha ou broca sob magnificação, o anel precisa ser fresado à parte, e a complicação de uma tentativa às cegas é perfurar a córnea de quem chegou andando. Encaminhamento no mesmo dia. O protocolo do TelessaúdeRS-UFRGS trata como emergência oftalmológica o corpo estranho que não foi possível remover na atenção primária.
O intraocular é o do Eusébio e é o que este capítulo existe para não deixar passar. Ele quase não tem achado próprio: o ponto de entrada pode ser uma marquinha na córnea que parece uma abrasão em cicatrização, ou nem isso, se entrou pela esclera sob a pálpebra. O olho pode estar branco, a visão quase normal, a dor ausente, e o paciente aparece dias depois porque a mulher insistiu. O que o diagnostica é a história — metal contra metal, alta velocidade, sem óculos — sustentada mesmo quando o exame é tranquilizador. Diante dessa história, a ausência de achados não exclui: pede imagem, protege e encaminha.
Corpo estranho de nariz e de ouvido é abordado em O sangue que não para e o que não pode esperar, na apostila de Otorrinolaringologia do Internato, que reúne cinco capítulos. Corpo estranho superficial em olho previamente vermelho ou em usuário de lente exige também a avaliação de ceratite descrita em Olho vermelho, nesta apostila.
Abrasão de córnea: a que mais dói e a que menos assusta
A abrasão é a perda do epitélio da córnea por atrito — unha de criança, galho, papel, maquiagem, o próprio corpo estranho que já saiu, a lente de contato removida à força. É de longe o diagnóstico mais frequente do trauma ocular ambulatorial e é o que produz o paciente mais dramático da sala.
O quadro é estereotipado e permite reconhecê-lo pela porta: dor em queimação ou em pontada, sensação persistente de que há algo dentro do olho, lacrimejamento abundante, fotofobia intensa e blefaroespasmo — o paciente literalmente não consegue manter o olho aberto, e não é falta de colaboração. A visão costuma estar normal ou pouco reduzida, e reduz mais quando a abrasão é central ou quando a lágrima abundante embaça. O olho fica vermelho de forma difusa.
A história é o que separa a abrasão simples do que não é simples. Abrasão com mecanismo de alta energia obriga a excluir globo aberto antes de qualquer coisa. Abrasão em usuário de lente de contato não é abrasão até prova em contrário — é infecção potencial, e essa régua, com o porquê, é do capítulo Olho vermelho. Abrasão por unha humana ou por material vegetal tem risco maior de evoluir mal. E dor bilateral atroz que começou horas depois de uma exposição, sem trauma mecânico, é ceratite por radiação ultravioleta — do soldador sem máscara, do sol na praia ou na neve —, também do capítulo Olho vermelho, embora seja o soldador que apareça no seu plantão de trauma.
O curso natural da abrasão simples é bom e rápido: o epitélio da córnea reepiteliza em vinte e quatro a setenta e duas horas, a dor cede junto, e não fica sequela. Duas coisas atrapalham esse curso e as duas são iatrogênicas — a oclusão do olho e o colírio anestésico levado para casa. Ambas estão na conduta, e a segunda tem consequência grave o bastante para ter item próprio nos erros.
Uma sequela merece ser conhecida porque volta ao pronto-socorro meses depois com outra queixa: a erosão recorrente. A cicatriz do epitélio pode aderir mal à membrana basal, e o paciente passa a acordar, semanas ou meses adiante, com dor súbita ao abrir os olhos de manhã — porque a pálpebra, ao subir, descola de novo a área frágil. Quem sabe disso faz a ligação com um trauma antigo que o paciente já esqueceu de contar.
Trauma contuso: o que a pancada faz sem furar
Bola, soco, cotovelada, rolha de espumante, elástico de amarrar carga, queda. O globo não abre, mas a onda de energia atravessa tudo o que está dentro e o dano se distribui de frente para trás. Este é o grupo em que a aparência externa mais engana, porque a pálpebra roxa e inchada chama toda a atenção e o que importa está por baixo dela.
Na câmara anterior, o achado que organiza o caso é o hifema — sangue dentro da câmara anterior, vindo da ruptura de vasos da íris ou do corpo ciliar. Com o paciente sentado ou com a cabeceira elevada, ele decanta e forma um nível horizontal visível a olho nu contra a íris; deitado, dispersa e some, e é por isso que se examina com a cabeceira alta. A importância do hifema é dupla: ele é um marcador de energia — quem sangrou dentro do olho pode ter rompido a parede atrás — e é uma complicação por si, porque o sangue pode entupir a drenagem e disparar a pressão intraocular, porque pode ressangrar entre o segundo e o quinto dia, com sangramento pior que o primeiro, e porque sangue prolongado impregna a córnea de forma permanente. Em paciente com doença falciforme ou traço falciforme, tudo isso é mais grave e mais rápido.
Atrás dele, o resto do estrago contuso: pupila que ficou dilatada e preguiçosa por lesão do esfíncter, borda da íris desinserida da raiz, cristalino subluxado ou tremendo aos movimentos, hemorragia vítrea que apaga o reflexo vermelho, edema esbranquiçado da retina no polo posterior por concussão, e descolamento ou diálise de retina, que pode aparecer semanas depois. Nada disso se diagnostica com lanterna, e a maior parte não precisa ser diagnosticada por você — precisa ser suspeitada e encaminhada.
Ao redor do globo, duas situações que trocam a urgência de lugar. A fratura do assoalho da órbita se anuncia por visão dupla ao olhar para cima, dormência na bochecha e no lábio superior do mesmo lado, e olho que parece afundado. Quando há aprisionamento de músculo, sobretudo em criança e adolescente, o quadro pode vir com náusea, vômito e bradicardia por reflexo oculocardíaco: isso é emergência, e o protocolo do TelessaúdeRS-UFRGS lista o estrabismo por aprisionamento muscular com reflexo oculocardíaco como encaminhamento para emergência clínica. A segunda é a hemorragia retrobulbar com síndrome compartimental da órbita — o mesmo protocolo a descreve por dor ocular, proptose e defeito pupilar aferente relativo. O olho é empurrado para fora, fica tenso, a visão cai, e a janela para salvar o nervo óptico é de horas, não de dias.
A fratura de face em si, o exame do terço médio, a via aérea e a sequência primária do politraumatizado são dos capítulos da apostila de Trauma deste nível, a começar por Atendimento inicial ao politraumatizado. O que este capítulo pede é apenas que o olho não seja esquecido dentro dessa sequência: em paciente que vai ser intubado, sedado ou levado ao centro cirúrgico por outra lesão, o exame ocular grosseiro feito antes da sedação é a única chance de registrar acuidade e pupila por semanas.
A queimadura química depois que o soro foi desligado
A irrigação é a única coisa em oftalmologia que precede tudo, inclusive a medida da acuidade visual, e ela é ensinada — com técnica, volume, tempo e o que fazer com grumos de cal — no capítulo Olho vermelho, o primeiro desta apostila. Este capítulo não a repete e cede a ela pelo nome. O que se recolhe aqui é o que aquele capítulo entrega em seguida: o manejo do olho já lavado.
Uma peça prática completa o marco de lá e cabe aqui porque é o critério de parada. A verificação do pH se faz encostando uma fita indicadora, ou a área de pH de uma fita de urina, no fundo de saco conjuntival inferior — não na córnea —, e o alvo é a faixa neutra, entre sete e sete e meio, medida depois de aguardar alguns minutos com a irrigação parada. Medir com o soro ainda correndo mede o pH do soro, não o da superfície, e é o jeito mais comum de interromper cedo achando que normalizou.
Terminada a lavagem, a pergunta muda: qual foi o estrago? E a resposta se lê em dois eixos, os dois visíveis com lanterna. O primeiro é a transparência da córnea: dá para ver o desenho da íris e a borda da pupila através dela com nitidez, com dificuldade, ou não dá? O segundo é a perfusão do limbo — a circunferência onde a parte branca encontra a transparente. Percorra-a com a luz como se fosse um mostrador de relógio e conte quantas horas do mostrador estão sem vaso nenhum, pálidas, brancas como porcelana. Não existe documento brasileiro que fixe esses cortes; os eixos são os que a literatura internacional consolidou, e aqui eles valem como leitura, não como escore.
É dessa leitura que sai a inversão que dá nome à armadilha. O olho intensamente vermelho depois de uma queimadura tem vasos perilímbicos cheios — quer dizer, vivos. O olho pálido, esbranquiçado e de aparência serena tem esses vasos trombosados, e com eles morre o reservatório de células que reepiteliza a córnea. Numa fila de espera, o instinto de qualquer pessoa é atender primeiro o mais vermelho. Na queimadura química, o mais branco é o mais grave, e essa frase precisa estar escrita no encaminhamento com todas as letras, porque quem vai regular o caso não vai ver o olho.
Três coisas mais, curtas. A queimadura por cal, cimento e massa fina é a mais frequente nas séries brasileiras e é a que continua queimando depois, porque forma grumos que ficam alojados no fundo de saco. Toda queimadura ocular química é encaminhamento para emergência oftalmológica no protocolo do TelessaúdeRS-UFRGS, sem gradação e sem exceção — inclusive a que parece leve depois de lavada. E a queimadura química da pele, o cálculo de superfície corporal e a profundidade são do capítulo Superfície queimada e profundidade, da apostila de Queimados deste nível, que também registra a queimadura química como critério de encaminhamento a centro especializado em qualquer extensão.
Pálpebra e órbita: o que muda o destino do paciente
Ferimento de pálpebra é a lesão que mais tenta o interno, porque parece uma sutura de pele como qualquer outra e o serviço tem fio e porta-agulha. Algumas são; várias não são, e a diferença é anatômica, não estética.
Quatro características tiram a laceração palpebral das suas mãos e a mandam para o oftalmologista. A primeira é envolver a margem da pálpebra, a linha onde nascem os cílios: fechá-la sem alinhar exatamente essa borda produz um degrau permanente que atrita a córnea a cada piscada. A segunda é ficar no terço medial, entre o canto interno e a pupila, porque ali correm os canalículos lacrimais e uma secção não reparada deixa o paciente com lacrimejamento para o resto da vida — o protocolo do TelessaúdeRS-UFRGS trata laceração palpebral e de vias lacrimais como emergência oftalmológica. A terceira é gordura aparecendo no fundo do ferimento: gordura ali significa que o septo orbitário foi atravessado, ou seja, a ferida comunica com a órbita. A quarta é a pálpebra superior que não levanta depois do trauma, o que sugere lesão do músculo levantador.
Antes de qualquer uma dessas discussões, porém, vem sempre a mesma: pálpebra ferida obriga a examinar o globo por baixo dela. É o erro de sequência mais comum do capítulo — suturar a pálpebra bonita sobre um olho aberto. Se a pálpebra está muito edemaciada e você não consegue ver o globo sem forçar, não force: proteja, e deixe que o globo seja examinado com o instrumental adequado.
Na órbita, o protocolo do TelessaúdeRS-UFRGS reúne numa lista só o que manda para emergência oftalmológica: trauma orbitopalpebral com suspeita de fratura óssea da órbita, sobretudo com baixa de acuidade visual; suspeita de ruptura do globo, e o exemplo que ele mesmo dá é o trauma contuso de alto impacto; evidência de síndrome compartimental, definida por dor ocular, proptose e defeito pupilar aferente relativo; aprisionamento muscular; deslocamento do globo ou olho afundado; e suspeita de corpo estranho intraorbitário.
Vale reparar em qual documento essa lista está. Ela não está num capítulo de trauma ocular, porque não existe um: ela está dentro do protocolo de doenças das pálpebras, vias lacrimais e órbita de um serviço de telessaúde estadual. Isso diz muito sobre onde o país guardou a régua do trauma do olho, e é assunto do bloco de critérios.
Como fechar o diagnóstico
A investigação do trauma ocular tem uma peculiaridade que não se repete em nenhum outro capítulo desta apostila: aqui, o exame físico pode piorar a doença. Em quase toda a medicina, examinar mais é examinar melhor, e o pior que acontece é perder tempo. No olho traumatizado, a manobra a mais tem custo próprio e irreversível.
Por isso a investigação se organiza em degraus, do que é seguro para o que só é seguro depois de uma resposta. Cada degrau só se sobe quando o anterior autorizou.
Degrau 1 — o que se faz sem encostar
Três recursos respondem a maior parte dos casos e nenhum deles aplica força: a história, a inspeção com lanterna e a comparação com o outro olho.
Da história, quatro perguntas rendem quase tudo. O que a pessoa estava fazendo com as mãos — não o que aconteceu, mas a atividade, porque é ela que revela o martelo e a esmerilhadeira que "caiu um cisco" esconde. Usava óculos de proteção. Quando foi, com hora se possível, porque tempo até o fechamento cirúrgico e tempo até a irrigação são variáveis de prognóstico. E se aquele olho já foi operado alguma vez, incluindo catarata e pterígio, que o paciente não considera cirurgia e não conta espontaneamente.
Da inspeção, olhe nesta ordem, com o paciente sentado e a cabeceira alta: a órbita e a pálpebra por fora; a posição do globo em relação ao outro, de frente e olhando de cima da cabeça do paciente, que é como a proptose aparece; a conjuntiva, procurando bolha de sangue escura e volumosa; a córnea contra o reflexo da lanterna, procurando irregularidade do reflexo e ponto escuro; a câmara anterior em luz oblíqua, comparando profundidade e procurando nível de sangue; e a pupila — forma, tamanho, simetria, e se está redonda. Pupila que não é redonda, num olho traumatizado, é globo aberto até que alguém com lâmpada de fenda diga o contrário.
Da comparação, a regra que sustenta tudo: o olho contralateral é o seu controle e é gratuito. Câmara mais rasa que a do outro, globo mais mole que o outro, pupila diferente do outro. Quem examina só o olho ferido não tem parâmetro e passa a discutir se o achado é normal para aquela pessoa.
Um cuidado de ambiente que muda o resultado: sala escurecida e lanterna forte. Fotofobia intensa faz o paciente fechar o olho contra a luz do teto e apertar — e apertar é exatamente o que não se quer. Diminuir a luz ambiente compra colaboração sem custo nenhum.
Degrau 2 — a acuidade visual, e por que ela é obrigatória
A acuidade visual de cada olho, medida e escrita, é o dado mais importante do seu atendimento e o mais frequentemente ausente. Ela vale por três motivos distintos e cada um deles bastaria.
Clinicamente, ela estratifica: visão preservada num olho de aparência feia tranquiliza mais que qualquer outro achado, e visão muito baixa num olho de aparência boa é o alarme do capítulo. Operacionalmente, ela é exigida: o protocolo do TelessaúdeRS-UFRGS pede, no conteúdo descritivo mínimo de todo encaminhamento oftalmológico, a medida de acuidade visual em cada olho, informando se foi feita com ou sem lente corretiva — encaminhamento sem esse dado é regulado com prioridade errada. E do ponto de vista de registro, ela é o único documento do que a pessoa enxergava quando chegou às suas mãos, o que importa em trauma de trabalho, em agressão e sempre que houver perda permanente.
Medir é simples e não exige tabela impressa se não houver: tabela de optotipos a cinco metros, se existir; se não, conte dedos a uma distância que você anota, ou teste percepção de movimento de mão, ou percepção luminosa com projeção — e escreva exatamente o que testou e a que distância. "Conta dedos a um metro" é uma medida; "visão diminuída" não é. Meça sempre os dois olhos, ocluindo o outro sem apertar, com a palma da mão do próprio paciente apoiada na maçã do rosto, nunca com a mão dele em concha pressionando o globo.
Há uma exceção de ordem, e ela é a única: na queimadura química, a irrigação vem antes da acuidade. Fora dela, a acuidade é o primeiro número do atendimento.
E há uma exceção de esforço: se a suspeita de globo aberto já está fechada por um sinal certo, não insista em otimizar a medida. Registre o que conseguiu obter sem manipular — inclusive "não avaliável por não ser possível abrir a pálpebra sem forçar" — e siga para a proteção.
Degrau 3 — as quatro coisas que não se fazem
Este é o degrau que define o capítulo, e ele é uma lista de omissões. Diante de globo aberto confirmado ou suspeito, quatro gestos do repertório normal saem de cena.
Tonometria, em qualquer técnica que encoste no olho. O tonômetro mede pressão aplicando força contra a córnea; num globo aberto isso é um êmbolo. Além do dano direto, a medida é inútil: um olho aberto está hipotônico por definição, e o número não acrescenta nada à decisão que os outros achados já tomaram. O mesmo vale para a palpação comparativa com os dedos, que é uma tonometria pobre e igualmente perigosa.
Eversão da pálpebra superior e qualquer manobra de abrir o olho à força. Everter é usar o tarso como alavanca sobre a esclera superior; abrir à força é uma disputa contra o orbicular, e o orbicular ganha, gerando sobre o globo uma pressão maior do que a que os seus dedos aplicam. Quando a pálpebra não abre espontaneamente, a resposta não é insistir com mais firmeza: é proteger e transferir.
Instilar qualquer coisa — anestésico, corante, antibiótico, midriático. O que se pinga num olho aberto entra na câmara anterior, e nenhum desses produtos é fabricado para ser intraocular. Vale sobretudo para pomadas: pomada oftálmica dentro do olho é matéria estranha que atrapalha a cirurgia e pode ser tóxica para a retina.
Comprimir, de qualquer jeito e com qualquer boa intenção. Curativo com gaze apoiada no olho, tampão com esparadrapo, compressa, e — o mais frequente de todos — deixar que o próprio paciente aperte a mão contra o olho para aliviar. Toda a conduta do globo aberto é organizada em torno de retirar pressão do globo, e isso inclui tratar dor, náusea e vômito, que são compressões geradas pelo próprio paciente.
Fora da suspeita de globo aberto, esses quatro gestos voltam a ser o exame normal do olho. A regra não é "nunca faça"; é "não faça antes de responder". A ordem é o conteúdo deste capítulo.
Degrau 4 — fluoresceína e Seidel, e a decisão de sequência
A técnica da fluoresceína — tira umedecida, luz azul, o que cada formato de captação significa — e a descrição do sinal de Seidel são propriedade do capítulo Olho vermelho, o primeiro desta apostila. Ao trauma cabe outra coisa: o problema de ordem que esse exame cria, e ele é real.
A fluoresceína é a única maneira de bancada de demonstrar que a córnea está perfurada e vazando, o que faria dela o exame ideal para responder a pergunta central do capítulo. Só que instilá-la é justamente um dos quatro gestos que não se faz num olho que se suspeita aberto. O paradoxo é aparente e se desfaz assim: a fluoresceína não é o teste que exclui globo aberto, é um teste que pode confirmá-lo por acaso, no olho que você já decidiu examinar.
A regra prática, então, é de sequência. Se algum sinal certo já fechou globo aberto, não pingue nada — você não precisa do corante para uma decisão que já está tomada. Se a história é de alta energia ou de fragmento metálico e o exame externo está tranquilizador, também não pingue: nesse caso, o que decide é imagem, e o corante só adiaria a decisão. Fluoresceína entra quando a história é de baixa energia — unha, galho, papel, poeira — e o exame externo não levantou nada; ou seja, quando você está investigando abrasão e corpo estranho de superfície, não quando está investigando perfuração.
Se, nesse contexto de baixa energia, aparecer Seidel positivo, o achado vale como qualquer sinal certo: o exame acabou ali, protetor rígido, transferência. Um Seidel negativo, por outro lado, não exclui nada num trauma de alta energia — uma ferida pequena e autosselante não vaza, e é exatamente esse o tipo de ferida que o fragmento de esmeril produz.
Uma nota de material que vale para todo este bloco: fluoresceína em frasco multidose é uma via clássica de contaminação, e a tira estéril de uso único é preferível sempre que existir.
Degrau 5 — imagem: qual, quando, e a que é proibida
Imagem no trauma ocular responde a uma pergunta só, e vale a pena enunciá-la antes de pedir: há corpo estranho dentro do olho ou da órbita, e há fratura? Se a resposta não muda o que você vai fazer nas próximas horas — e frequentemente não muda, porque a conduta já é proteger e transferir —, a imagem não deve atrasar o transporte.
A tomografia computadorizada é o exame. Cortes finos de órbita, nos planos axial e coronal, mostram fragmento metálico com facilidade, mostram fratura, mostram deformidade do contorno do globo e ar dentro do olho, que é sinal indireto de perfuração. Peça tomografia de órbitas com cortes finos, e não tomografia de crânio: a tomografia de crânio com cortes de rotina pode simplesmente pular um fragmento de dois milímetros.
Duas limitações que precisam estar escritas na sua cabeça e no pedido. Material orgânico — madeira, espinho, fragmento vegetal — é mal visto na tomografia, e madeira seca pode aparecer com densidade parecida com a de ar, sendo lida como bolha. Um laudo de tomografia normal, portanto, não exclui corpo estranho de madeira, e a história continua valendo mais que o laudo. E vidro comum costuma ser visível, mas nem todo vidro é.
A ressonância magnética é contraindicada enquanto houver qualquer possibilidade de fragmento ferroso intraocular, e essa é a proibição mais importante deste bloco: o campo magnético pode mover o fragmento dentro do olho e produzir, dentro do aparelho, um dano que o trauma original não tinha produzido. A ordem é sempre tomografia primeiro; a ressonância só entra depois de metal ferroso excluído, e por indicação de quem vai operar.
A ultrassonografia ocular é excelente para retina e vítreo e está contraindicada no globo aberto ou suspeito, porque o transdutor se apoia sobre o olho. Não é exame para você pedir nem para realizar nesse contexto. E, na ausência de tomografia disponível na sua cidade, a radiografia simples de órbita ainda detecta fragmento metálico razoavelmente grande e é melhor que nada — mas não substitui a tomografia e um exame normal não autoriza mandar o paciente para casa.
Sobre laboratório: não há exame de sangue que participe da decisão. A única sorologia com impacto prático é a eletroforese de hemoglobina no hifema, quando o paciente é de população com prevalência relevante de doença ou traço falciforme, porque muda o risco de elevação pressórica e a escolha de medicação — e é pedido de quem vai acompanhar, não de quem vai transferir na mesma hora.
Degrau 6 — o que existe no serviço e o que o SUS entrega
Vale terminar a investigação pelo inventário, porque conduta que depende de material inexistente não é conduta. O capítulo Olho vermelho já registra o que o Componente Básico da Rename 2024 traz de oftálmico, e essa lista não se repete aqui. O que interessa ao trauma é a leitura pelo avesso — o que não está lá —, e ela é desconfortável.
Conferido por busca exata sobre o texto da Rename 2024 normalizado em espaço e hífen, e reconferido no texto bruto: não consta nenhum anestésico tópico ocular — nem proparacaína, nem tetracaína, nem oxibuprocaína, zero ocorrências. Não consta fluoresceína, em tira ou em colírio, zero ocorrências. Não consta nenhum cicloplégico ou midriático de uso oftálmico — tropicamida, ciclopentolato e atropina em colírio, zero ocorrências, sendo que atropina consta apenas como sulfato de atropina em solução injetável. E não consta antibiótico oftálmico além de gentamicina, em pomada e em solução, e cloridrato de tetraciclina em pomada.
Traduzindo para a sua noite: os dois insumos que o exame do trauma ocular de fato exige — a gota que vence o blefaroespasmo e o corante que demonstra o defeito — não são garantidos pelo componente federal de financiamento. Isso não significa que não existam no seu serviço: hospitais e prontos-socorros compram fora do elenco básico, e a maioria tem. Significa que a disponibilidade deles depende da compra local, que numa unidade básica de município pequeno pode simplesmente não ter acontecido, e que reclamar da falta com a farmácia não vai resolver, porque a falta não é de execução.
A ironia do inventário merece ser dita porque tem consequência clínica direta: o que o Componente Básico garante em colírio e pomada oftálmica inclui dexametasona, corticoide tópico — que é exatamente o que não se pinga em olho traumatizado, em abrasão e em qualquer suspeita de infecção de córnea. Ou seja, o produto perigoso está disponível por norma e os dois produtos seguros e necessários não estão. Quem prescreve por reflexo o que a farmácia tem prescreve corticoide.
Duas presenças, por outro lado, são boas notícias e vale saber que estão garantidas, porque são as que servem ao hifema com pressão alta enquanto o transporte não sai: maleato de timolol em solução oftálmica, nas concentrações de 0,25% e 0,5%, e acetazolamida 250 mg em comprimido — ambos no Componente Básico. E, para lavar, cloreto de sódio 0,9% em solução injetável também está no Componente Básico, embora a Rename não traga uma apresentação descrita como solução para irrigação ocular.
Por fim, o que você escreve. Ao mínimo descritivo que o protocolo do TelessaúdeRS-UFRGS exige — sinais e sintomas, acuidade de cada olho com ou sem correção, tratamento já realizado e o número da teleconsultoria, se houve —, um encaminhamento de trauma precisa acrescentar quatro linhas que não estão na lista dele e sem as quais a regulação erra a prioridade: o mecanismo exato, com a ferramenta nomeada; a hora do acidente; se o olho foi ou não manipulado e o que foi instilado; e a frase, quando for o caso, de que há suspeita de globo aberto e o olho está sob protetor rígido.
Uma pergunta, e só depois as outras
O trauma ocular não tem árvore de diagnóstico, tem árvore de permissão. A primeira pergunta autoriza ou proíbe tudo o que vem depois, e ela se responde por inspeção. Só quando ela é respondida com segurança é que o atendimento vira um atendimento comum, com exame, corante e prescrição.
- 1Houve contato com produto químico? Irrigue primeiro, antes de tudo, inclusive antes da acuidade visual. A técnica, o volume e o tempo são do capítulo Olho vermelho, o primeiro desta apostila. Só depois de o pH do fundo de saco estar neutro, medido com a irrigação parada, o atendimento continua nesta lista.
- 2O paciente é um politraumatizado? A sequência primária — via aérea, respiração, circulação — é dos capítulos da apostila de Trauma e vem antes do olho. Obter acuidade e pupilas antes de intervenções quando viável; não atrasar analgesia necessária, proteção da via aérea ou reanimação para completar o exame.
- 3Pergunte o mecanismo pela atividade, não pelo evento: o que a pessoa estava fazendo com as mãos. Martelar metal, esmerilhar, lixar, cortar com disco, roçadeira, explosão, vidro, objeto pontiagudo, ou olho já operado antes — qualquer um desses reclassifica o caso para cima, mesmo com exame normal.
- 4Inspecione com lanterna, sem tocar, comparando com o outro olho: pálpebra, posição do globo, conjuntiva, córnea, câmara anterior em luz oblíqua e pupila. Sala escurecida.
- 5Achou algum destes cinco? Tecido escuro na superfície; pupila deformada ou em gota; objeto atravessando a parede; câmara anterior desaparecida; Seidel positivo. Se sim, o exame acabou: pule para a proteção.
- 6Achou algum destes seis? Hemorragia subconjuntival volumosa e escura em todo o contorno da córnea; câmara mais rasa ou mais profunda que a do outro olho; hifema; acuidade desproporcional ao aspecto externo; defeito pupilar aferente relativo novo; sensação de globo mole. Se sim, trate como aberto e pule para a proteção.
- 7Se nada disso apareceu e o mecanismo é de baixa energia, o olho pode ser examinado normalmente: fluoresceína, luz azul, eversão da pálpebra superior à procura de corpo estranho subtarsal. É aqui, e só aqui, que o exame do olho vermelho vale.
- 8Suspeita de globo aberto ou de corpo estranho intraocular: protetor rígido apoiado no rebordo ósseo, nada de pressão, jejum, cabeceira elevada, analgesia, antiemético, decisão sobre profilaxia antitetânica e antibiótico sistêmico combinado com o serviço que vai receber. Telefone antes do papel.
- 9Corpo estranho de córnea, com ou sem anel de ferrugem, e corpo estranho que não saiu com irrigação: encaminhamento oftalmológico no mesmo dia. Não tente remover com agulha.
- 10Abrasão simples, mecanismo de baixa energia, sem sinais de alarme: tratamento ambulatorial, sem oclusão, sem corticoide, sem anestésico para casa, com reavaliação marcada e lista escrita do que faz voltar antes.
- 11Toda queimadura ocular química, depois de irrigada, é emergência oftalmológica — inclusive a que ficou com aparência boa. Escreva no encaminhamento quantas horas do limbo estão sem vaso, porque quem regula não vai ver o olho.
- 12Trauma ocular no trabalho: pergunte a ocupação, escreva a resposta e não deixe o registro do acidente para depois da cirurgia. O nexo, a Comunicação de Acidente de Trabalho e o que fazer com quem não tem carteira assinada são do capítulo A lesão que só vira acidente se alguém escrever, da apostila de Medicina do Trabalho.
Antes de tocar — as cinco proibições
Enquanto a parede não estiver comprovadamente íntegra: não medir pressão intraocular por nenhuma técnica de contato, nem apalpar o globo com os dedos; não everter a pálpebra superior nem abrir o olho à força; não instilar colírio, corante nem pomada; não apoiar gaze, tampão ou compressa sobre o olho; e não deixar o paciente apertar a mão contra a órbita. Os cinco são gestos de cuidado em qualquer outro olho. Aqui, cada um é uma bomba de sucção apontada para o rasgo.
Depois de proteger — o que corre contra o relógio
Globo aberto tem dois cronômetros: o do fechamento cirúrgico, que governa o risco de endoftalmite, e o da isquemia, quando há síndrome compartimental da órbita, em que a janela do nervo óptico é de horas. Nenhum dos dois é medido em dias. Telefone para o serviço de referência antes de emitir o encaminhamento escrito, informe o mecanismo com a ferramenta nomeada e a hora do acidente, e resolva o transporte enquanto trata na maca. O que atrasa transferência aqui não é falta de vaga: é exame complementar pedido por hábito.
Com que velocidade cada achado sai da sala
| Achado no seu exame | Velocidade | O que vai junto |
|---|---|---|
| Tecido escuro na superfície, pupila em gota, objeto atravessando a parede, câmara anterior desaparecida ou Seidel positivo | Agora — telefone antes do papel | Protetor rígido apoiado no osso, jejum, cabeceira a 30 graus, analgesia, antiemético, decisão de antibiótico e de tétano combinada com quem recebe |
| História de fragmento de alta velocidade, mesmo com exame externo normal e visão preservada | Agora — tomografia de órbitas não deve atrasar o transporte | Protetor rígido, jejum e a frase escrita de que o exame externo é normal e a suspeita é pela história |
| Proptose com dor e defeito pupilar aferente relativo depois de trauma | Agora — janela de horas para o nervo óptico | Comunicação imediata com o serviço que faz descompressão de órbita; não aguardar vaga de enfermaria |
| Hifema, queimadura química já irrigada, laceração de pálpebra com margem, terço medial, gordura exposta ou ptose nova, suspeita de fratura com aprisionamento | Agora ou hoje, conforme o achado — nenhum passa da mesma jornada | Cabeceira elevada e repouso relativo no hifema; horas de limbo sem vaso escritas na queimadura; globo examinado antes de qualquer sutura de pálpebra |
| Corpo estranho de córnea, com ou sem anel de ferrugem, ou corpo estranho de superfície que a irrigação não removeu | Hoje — avaliado antes do fim do dia | Nenhuma tentativa de remoção com agulha; registro do mecanismo, porque é ele que decide se cabe também investigar penetração |
| Abrasão de córnea simples, de baixa energia, sem uso de lente de contato e sem sinais de alarme | Ambulatorial, com retorno marcado | Sem oclusão, sem corticoide, sem anestésico para casa; lista escrita do que faz voltar antes: dor que piora, visão que piora, mancha branca na córnea, secreção |
Conversão do que se usa aqui, num adulto de 70 kg, recalculada contra a apresentação da Rename 2024
| Item e apresentação | Conta | Na prática |
|---|---|---|
| Cloreto de sódio 0,9% (9 mg/mL), solução injetável, frasco de 500 mL — Componente Básico | Irrigação ocular contínua a cerca de 50 mL por minuto: 20 min = 1.000 mL; 30 min = 1.500 mL | 2 frascos de 500 mL para o piso de 20 minutos e 3 frascos para 30 minutos, por olho. Separe os frascos antes de começar: a interrupção para buscar o segundo frasco é o modo mais comum de encurtar a lavagem |
| Maleato de timolol 5 mg/mL (0,5%), solução oftálmica — Componente Básico | 1 gota ≈ 0,05 mL = 0,25 mg; frasco de 5 mL ≈ 100 gotas = 25 mg no frasco | Uma gota entrega um quarto de miligrama. É medida de contenção da pressão no hifema enquanto o transporte não sai, e não substitui a avaliação especializada |
| Acetazolamida 250 mg, comprimido — Componente Básico e Especializado | 250 mg = 1 comprimido; 500 mg = 2 comprimidos | Via oral, útil quando a pressão sobe no hifema. Evitar em doença ou traço falciforme, porque acidifica e favorece o afoiçamento na câmara anterior |
| Dipirona 500 mg/mL, solução injetável, ampola de 2 mL — Componente Básico | 1 ampola = 1.000 mg em 2 mL; 1 g = 2 mL = 1 ampola | Analgesia não é conforto neste capítulo, é conduta: dor produz aperto ocular, e aperto ocular empurra conteúdo para fora do rasgo |
| Cloridrato de metoclopramida 5 mg/mL, solução injetável, ampola de 2 mL — Componente Básico | 1 ampola = 10 mg em 2 mL; 10 mg = 2 mL = 1 ampola | Escolher antiemético conforme indicação, contraindicações e apresentação realmente disponível. RENAME não é garantia de estoque nem lista completa de opções clínicas. Vômito é a compressão mais violenta que um globo aberto sofre |
| Ceftriaxona 1 g, pó para solução injetável — Componente Básico | 1 g = 1 frasco-ampola | Cefazolina, cefalotina e vancomicina não constam da Rename 2024, e a clindamicina injetável foi excluída, restando as cápsulas de 150 e 300 mg. O esquema sistêmico do globo aberto se combina por telefone com quem vai operar, e não se escolhe pelo que sobrou na bandeja |
Achado de auditoria, e é o mais grave deste capítulo. O único manual federal em uso que descreve o que fazer diante de corpo estranho ocular na atenção primária é o Caderno de Atenção Primária n. 30, de 2011, e ele instrui, diante de corpo estranho visivelmente fixado no globo, a não tentar retirá-lo, a ocluir o olho acometido e a encaminhar imediatamente ao especialista. As duas primeiras orientações estão certas e a terceira também; o problema é o verbo do meio. Ocluir, no vocabulário do pronto-socorro, é apoiar gaze sobre a pálpebra e prender — e apoiar qualquer coisa sobre um olho com objeto cravado é aplicar sobre o globo aberto exatamente a força que se está tentando evitar, além de arriscar deslocar o objeto que serve de tampão. O que a situação pede é protetor rígido apoiado no rebordo ósseo, sem contato com a pálpebra. Não se trata de discordar do manual: trata-se de um verbo que mudou de sentido entre 2011 e a prática atual, dentro de um documento que nunca teve segunda edição para corrigi-lo. O mesmo documento acerta, na frase seguinte, ao proibir o uso de colírio anestésico.
Achado de auditoria, no mesmo tema e no mesmo documento federal. O protocolo BT7 do SAMU 192, que é o único protocolo nacional de trauma ocular que existe, se contradiz dentro da própria folha. Na linha do ferimento, manda cobrir o globo ocular com gaze umedecida em soro e proteger o local. Três linhas abaixo, na do corpo estranho, manda não exercer pressão direta sobre qualquer ferimento no globo ocular e não fazer curativo compressivo em olho com sangramento. Cobrir o globo com gaze é apoiar material sobre ele; a linha de baixo proíbe apoiar material sobre ele. As duas instruções estão na mesma página, para o mesmo olho, e a diferença entre elas não é de gravidade do caso. Quem lê de cima para baixo executa a primeira; quem lê a folha inteira fica sem saber. A leitura segura é a da linha de baixo, porque ela é a que enuncia o princípio, e a de cima é a que descreve um material.
Achado de datação, no mesmo volume do SAMU. O arquivo declara três datas diferentes para si mesmo: a capa diz Brasília/DF, 2014; a ficha catalográfica diz Brasília: Ministério da Saúde, 2016; e o texto de apresentação se anuncia como a 1ª edição. A folha do BT7, por sua vez, carrega Elaboração: Agosto/2014 e Revisão: Abril/2015 — quer dizer, a folha foi revista depois da data impressa na capa do livro que a contém. A leitura honesta é que o conteúdo operante do protocolo de trauma ocular é de abril de 2015, e que a discrepância entre capa e ficha reflete uma reimpressão. É o caso exemplar da regra de nunca datar um documento pelo nome do arquivo nem pela capa.
Achado estrutural, e é a resposta à pergunta de qual régua o Brasil usa. O documento nacional de oftalmologia mais novo que existe é o Protocolo de Encaminhamento às Ofertas de Cuidados Integrados em Oftalmologia, do Ministério da Saúde com o Conselho Brasileiro de Oftalmologia, de 2025, vinculado às portarias do Programa Nacional de Expansão e Qualificação da Atenção Ambulatorial Especializada. Ele não trata de trauma ocular: em 26 páginas, a palavra trauma aparece duas vezes, as duas dentro do item de estrabismo, e o sumário cobre avaliação inicial, retinopatia diabética, estrabismo, oncologia oftalmológica, neuroftalmologia e exames sob sedação. Some-se a isso que a lista de critérios de emergência para trauma orbitopalpebral que este capítulo usa está guardada dentro do protocolo de doenças das pálpebras, vias lacrimais e órbita de um serviço de telessaúde estadual, o TelessaúdeRS-UFRGS, de 2023. Conclusão a ser dita com todas as letras: o Brasil não tem, hoje, protocolo nacional de conduta em trauma ocular na urgência hospitalar. O que existe é um protocolo pré-hospitalar de 2015, um manual de procedimentos de atenção primária de 2011 e um protocolo estadual de encaminhamento de 2023.
Auditoria do elenco, com o método declarado: busca exata sobre o texto da Rename 2024 normalizado em espaço e hífen, e reconferência no texto bruto, porque a extração de PDF cola e quebra palavras e afirmar ausência por impressão de leitura seria falseá-la. O Componente Básico tem sete entradas oftálmicas: cloridrato de tetraciclina 5 mg/g pomada, gentamicina 5 mg/g pomada e 5 mg/mL solução, dexametasona 0,1% pomada e suspensão, hipromelose 0,3% e 0,5% solução, maleato de timolol 0,25% e 0,5% solução, cloridrato de pilocarpina 2% solução e acetazolamida 250 mg comprimido. Zero ocorrências de proparacaína, tetracaína e oxibuprocaína; zero de fluoresceína; zero de tropicamida e ciclopentolato, com atropina constando apenas como solução injetável. Ou seja: o exame que este capítulo descreve depende de dois insumos que o componente federal não garante, enquanto garante o corticoide tópico que não se deve usar em olho traumatizado. A conferência de disponibilidade, portanto, fechou — e o que ela revelou é desconfortável, não tranquilizador.
O que resistiu à checagem, e isso pesa tanto quanto os erros encontrados. Primeira: o BT7 do SAMU manda lavar do canto nasal para o canto auricular, e a direção está certa — o escoamento sai pelo lado de fora do rosto e não atravessa o olho não atingido, que é exatamente o objetivo declarado na mesma frase. Segunda: o piso de 20 minutos de irrigação do BT7 é compatível com a faixa de 20 a 30 minutos adotada pelo capítulo Olho vermelho desta apostila, sem contradição entre os dois. Terceira: o protocolo do TelessaúdeRS-UFRGS trata do trauma em dois lugares distintos — no protocolo de pálpebras, vias lacrimais e órbita e no de córnea e superfície ocular — e as duas listas não se contradizem, nem repetem critério com corte diferente. Quarta: a aritmética da série epidemiológica brasileira usada neste capítulo não fecha, e a conta está feita no bloco de epidemiologia, onde o número é usado, em vez de repetida aqui.
A conduta, hora a hora
A conduta do trauma ocular é curta e quase toda ela é subtração. Não há droga que salve o olho nas suas mãos, não há manobra que resolva, e a cirurgia é de outro. O que você faz é impedir que o olho piore entre a porta do seu serviço e a mesa de quem vai operar — e o que mais piora um globo aberto, depois do próprio acidente, é a assistência.
Por isso os marcos abaixo são de tempo, e não de gravidade. Nos primeiros dez minutos cabe tudo o que muda desfecho; do décimo minuto em diante, o que resta é executar o transporte e escrever bem.
Outra emergência: síndrome compartimental orbitária. Após trauma, proptose progressiva, órbita tensa, queda visual, defeito pupilar aferente e limitação ocular podem indicar compressão isquêmica. Acionar ajuda imediatamente. Quando o diagnóstico clínico é convincente e há ameaça visual, profissional habilitado deve descomprimir com cantotomia lateral e cantólise, sem esperar tomografia ou chegada tardia da referência. Avaliar possível lesão de globo associada; não aplicar pressão nem executar procedimento sem competência. O interno reconhece, comunica e prepara o atendimento sob supervisão.
Ações enquanto transfere. Na suspeita de globo aberto, usar escudo rígido sem contato com o olho, jejum, analgesia, antiemético e antibiótico sistêmico precoce conforme protocolo e supervisão. Rever profilaxia antitetânica. Cultura e telefonema não devem causar demora relevante no antibiótico indicado. Não remover objeto encravado, não ocluir com pressão, não medir pressão ocular nem fazer ultrassom com compressão. A equipe oftalmológica pode retirar o escudo em ambiente controlado para avaliação e tratamento. Em hifema, proteger o olho, elevar cabeceira se estável, evitar AINE e investigar fatores de risco; fratura com aprisionamento muscular, especialmente criança com vômito e bradicardia, demanda avaliação urgente mesmo com poucos sinais externos.
Minuto 0 — decidir a pergunta, e só ela
Antes de qualquer conduta, responda se a parede está aberta, usando história, lanterna e o olho contralateral, sem tocar. Se houver contato com produto químico, essa pergunta espera e a irrigação vem primeiro — técnica, volume e tempo estão no capítulo Olho vermelho, o primeiro desta apostila, que é o dono desse marco; retome esta lista quando o pH do fundo de saco estiver neutro, medido com a irrigação parada. Obter acuidade e pupilas antes de intervenções quando viável; não atrasar analgesia necessária, proteção da via aérea ou reanimação para completar o exame. Fora dessas duas exceções, nada é feito no olho antes da resposta. Na dúvida, a resposta é sim: trata-se como aberto.
Prescrição- Nenhuma prescrição neste marco. O registro é a conduta: acuidade visual de cada olho com a distância e o método usados, forma e reatividade das pupilas, e a descrição do que se viu sem manipular. Escreva a hora do acidente e o mecanismo com a ferramenta nomeada — martelo em metal, esmerilhadeira, roçadeira, vidro —, porque é essa frase que faz a regulação entender o caso.
Minuto 2 — o protetor rígido, e como fazê-lo com o que existe
Confirmada ou mantida a suspeita, o único curativo aceitável é uma casca rígida que se apoie no osso e não encoste no olho. O protetor ocular de fábrica, do tipo concha perfurada, é o ideal e quase nenhum pronto-socorro brasileiro tem. O improviso que funciona é um copo plástico rígido descartável, cortado na altura certa para que a borda pouse na sobrancelha e na maçã do rosto, fixado com esparadrapo que passa pela testa e pelo zigomático — nunca sobre a concha, para que a fita não a empurre contra o rosto. O critério de qualidade é um só e se confere com o dedo por fora: entre a pálpebra e a parte interna da casca tem que haver ar. Se o paciente sente contato, refaça. E se houver objeto cravado saindo do olho, ele não se retira e não se corta: estabiliza-se por fora e a casca é montada em volta dele, sem encostar.
Prescrição- Protetor ocular rígido sobre a órbita acometida, apoiado exclusivamente no rebordo ósseo, sem contato com pálpebra ou globo, mantido até a avaliação oftalmológica. Registrar no prontuário a hora em que foi colocado e a orientação, escrita e dita ao paciente e ao acompanhante, de que ele não deve ser removido nem levantado para "dar uma olhada" — nem por você, nem pelo transporte, nem no serviço que receber.
Minuto 5 — tirar pressão do sistema inteiro
Com a parede aberta, tudo o que aumenta pressão dentro do olho ou força a musculatura ao redor dele é dano em curso. Isso transforma três medidas banais em conduta de primeira linha. Cabeceira elevada a trinta graus, que reduz a pressão venosa da órbita e faz o hifema decantar. Analgesia de verdade e precoce, porque dor produz aperto palpebral contínuo. E antiemético antes do primeiro vômito, não depois — vômito é a manobra de Valsalva mais violenta que existe e é a causa clássica de extrusão de conteúdo no corredor do hospital. Some-se o jejum, porque o paciente vai para o centro cirúrgico. Oriente também o óbvio, que ninguém fala: não assoar o nariz, sobretudo se há suspeita de fratura de órbita, e não esfregar nem apertar o olho.
Prescrição- Jejum absoluto a partir da chegada, com a hora anotada. Cabeceira a 30 graus. Dipirona 1 g (2 mL da solução injetável de 500 mg/mL) por via endovenosa lenta a cada 6 horas, se não houver alergia; escalar para opioide se a dor não ceder, discutindo com o serviço que vai receber. Escolher antiemético conforme indicação, contraindicações e apresentação realmente disponível. RENAME não é garantia de estoque nem lista completa de opções clínicas. Nada de tosse, esforço, Valsalva ou assoar o nariz.
Minuto 10 — antibiótico e tétano, os dois decididos com quem recebe
Globo aberto é uma cavidade estéril contaminada, e a profilaxia antibiótica sistêmica precoce é a medida que reduz endoftalmite pós-traumática. Duas ressalvas mudam como você a executa. A primeira é que o esquema pertence a quem vai operar: telefone antes, porque a escolha depende do mecanismo — contaminação com terra ou material vegetal pede cobertura diferente da de um fragmento metálico limpo — e porque quem opera pode querer colher material antes. A segunda é de elenco: cefazolina, cefalotina e vancomicina não constam da Rename 2024, e a clindamicina injetável foi excluída, restando as cápsulas. Não improvise um esquema com o que sobrou na bandeja; combine. Antibiótico tópico não entra: pomada e colírio não devem ser instilados em olho aberto.
Prescrição- Iniciar antibiótico sistêmico precoce conforme protocolo de globo aberto e supervisão, articulando referência em paralelo. Não condicionar a primeira dose a um telefonema que não se completa.
O corpo estranho de superfície — o único que é seu
Fora da suspeita de globo aberto, e só fora dela, o corpo estranho móvel de conjuntiva é seu. A sequência é curta: meça a acuidade antes; instile uma gota de anestésico tópico, uma vez, no serviço, se houver — e a Rename 2024 não traz nenhum, de modo que a disponibilidade é da compra local; irrigue com soro fisiológico, que resolve a maioria; se não sair, toque de leve com haste de algodão umedecida, sem raspar; e everta a pálpebra superior se houver arranhões lineares verticais na fluoresceína, que é a assinatura do corpo estranho subtarsal. Depois de removê-lo, cheque de novo com fluoresceína, porque frequentemente há mais de um fragmento e porque a abrasão que sobra precisa ser tratada. O que não é seu: corpo estranho encravado na córnea, anel de ferrugem, qualquer fragmento que exija agulha, e todo caso com história de alta velocidade — nesses, o protocolo do TelessaúdeRS-UFRGS trata como emergência oftalmológica o corpo estranho que não foi possível remover na atenção primária.
Prescrição- Cloridrato de proparacaína 0,5% ou tetracaína 1% em solução oftálmica, 1 gota no olho afetado, dose única, exclusivamente para permitir o exame e a remoção — não é receita e o frasco não sai do serviço. Irrigação com cloreto de sódio 0,9%. Depois da remoção, tratar a abrasão residual conforme o marco seguinte. Se o corpo estranho for de material vegetal ou houver contato com terra, mencionar isso no encaminhamento, porque muda o risco infeccioso e a decisão de tétano.
A abrasão de córnea — o que se prescreve e o que se risca
Abrasão simples se trata com quatro coisas: lubrificação, analgesia sistêmica, cobertura antibiótica tópica enquanto o epitélio não fechar, e reavaliação marcada. A oclusão saiu: tapar o olho não acelera a cicatrização, atrapalha a visão binocular de quem precisa trabalhar e é contraindicada em usuário de lente de contato. E o item mais importante desta conduta é uma proibição — o colírio anestésico nunca vai para casa. Ele alivia de imediato, o paciente reaplica, e o uso repetido é tóxico para o epitélio: impede a cicatrização, anestesia o reflexo de proteção e produz uma ceratite que já custou córneas. O Caderno de Atenção Primária n. 30, de 2011, já dizia para não usar colírio anestésico, e é a única frase daquele parágrafo que envelheceu bem. Corticoide tópico também não: a dexametasona oftálmica está no Componente Básico e é exatamente o que não se pinga aqui.
Prescrição- Pomada oftálmica de gentamicina 5 mg/g ou de cloridrato de tetraciclina 5 mg/g — as duas do Componente Básico da Rename 2024 —, aplicada no fundo de saco inferior 4 vezes ao dia até 24 horas após o desaparecimento dos sintomas, tipicamente 3 a 5 dias; a pomada tem a vantagem de lubrificar, e a desvantagem de embaçar por alguns minutos. Hipromelose 0,5% em solução oftálmica, 1 gota até 4 a 6 vezes ao dia, para conforto. Analgesia por via oral: dipirona 500 mg a 1 g a cada 6 horas, ou paracetamol, associando anti-inflamatório oral se necessário. Retorno em 24 a 48 horas, ou antes se a dor piorar, a visão piorar, aparecer mancha branca na córnea ou secreção. Conferir e riscar da receita, se aparecerem: colírio anestésico para casa; corticoide tópico isolado ou combinado; e oclusão do olho.
O hifema — o que se faz enquanto o transporte não sai
O hifema tem tratamento de posição antes de ter tratamento de farmácia. Cabeceira elevada e repouso relativo fazem o sangue decantar no fundo da câmara anterior, o que desobstrui o eixo visual e ajuda a drenagem. Proteja o olho, mesmo sem sinal de globo aberto, porque o hifema é marcador de energia e porque a proteção evita novo trauma. Suspenda antiagregante e anticoagulante depois de conversar com quem os prescreveu, e não por conta própria em paciente com indicação cardiológica forte. Vigie o ressangramento, que acontece entre o segundo e o quinto dia e costuma ser pior que o primeiro. E lembre a pergunta que muda tudo em parte da população brasileira: doença ou traço falciforme, porque a hemácia afoiça na câmara anterior, entope a drenagem com pressões mais baixas e piora rápido.
Prescrição- Cabeceira a 30 graus, repouso relativo, protetor rígido sobre o olho e nada de leitura prolongada ou esforço. Se houver elevação da pressão intraocular documentada por quem tem tonômetro — e não por palpação —, maleato de timolol 0,5% em solução oftálmica, 1 gota (cerca de 0,25 mg) a cada 12 horas, respeitando as contraindicações de betabloqueador: asma, doença pulmonar obstrutiva e bradiarritmia. Acetazolamida 250 mg por via oral pode ser associada conforme orientação do oftalmologista, e deve ser evitada em doença ou traço falciforme, porque a acidose favorece o afoiçamento. Nenhum midriático e nenhum corticoide iniciados por você.
A queimadura já irrigada, e o encaminhamento que vale por todo o resto
Depois da irrigação e do pH neutro, a queimadura química vira, para você, um problema de descrição e de transporte. Todas elas são emergência oftalmológica no protocolo do TelessaúdeRS-UFRGS, sem gradação — inclusive a que ficou bonita. Descreva os dois eixos que se leem com lanterna: quanto da córnea ainda deixa ver a íris, e quantas horas do mostrador do limbo estão sem vaso. Retire lente de contato, se houver, e procure de novo grumos de cal no fundo de saco antes de fechar o caso, porque eles reaparecem depois que a conjuntiva relaxa. Não ocluir, não pingar corticoide, não pingar anestésico para casa. E vale a pena olhar a pele: queimadura química da face e das pálpebras é do capítulo Superfície queimada e profundidade, da apostila de Queimados deste nível, que registra a queimadura química como critério de encaminhamento a centro especializado em qualquer extensão.
Prescrição- Nada de novo por via tópica sem orientação do oftalmologista; hipromelose 0,5% em solução oftálmica para lubrificação é o máximo razoável no intervalo. No encaminhamento, além do mínimo descritivo que o TelessaúdeRS-UFRGS exige — sinais e sintomas, acuidade visual de cada olho com ou sem correção, tratamento realizado e o número da teleconsultoria, se houve —, escreva quatro linhas próprias: o agente, com o nome comercial se o paciente souber, e se era pó, líquido ou pasta; a hora do acidente e a hora em que a irrigação começou e terminou; o volume irrigado e o pH final medido; e as horas de limbo sem perfusão. Se houve acidente de trabalho, registre a ocupação e o vínculo — o nexo, a Comunicação de Acidente de Trabalho e o caso do trabalhador sem carteira são do capítulo A lesão que só vira acidente se alguém escrever, da apostila de Medicina do Trabalho.
Como saber se está funcionando
Reavaliar trauma ocular tem uma dificuldade estrutural: o paciente que mais precisa de seguimento é o que você transferiu e não vai ver de novo, e o que volta ao seu ambulatório é o de quadro leve. Por isso os parâmetros abaixo estão divididos entre os que você mede na sua sala, nas horas seguintes, e os que precisa escrever no encaminhamento para que outra pessoa os meça.
Vale também um alerta de calendário. Trauma ocular tem complicações que aparecem depois que todo mundo parou de olhar: o ressangramento do hifema entre o segundo e o quinto dia, o descolamento de retina em semanas, a erosão recorrente em meses e a oftalmia simpática em meses a anos. Alta sem data de retorno escrita é, nesse capítulo, quase sempre alta cedo demais.
Esperado: Melhora nítida em 24 horas e resolução em 24 a 72 horas, acompanhando a reepitelização. A dor cede antes de o olho parar de ficar vermelho
Se não melhora: Dor que não cede ou que piora depois de 48 horas não é abrasão evoluindo mal — é outro diagnóstico. Procure infiltrado esbranquiçado na córnea, corpo estranho que ficou, e reveja se houve uso de lente de contato ou de anestésico por conta própria. Encaminhamento no mesmo dia
Esperado: Estável ou em melhora. Na abrasão, volta ao basal em dias; no hifema, melhora conforme o sangue decanta
Se não melhora: Queda de acuidade em qualquer momento do seguimento reabre o caso inteiro. Num olho traumatizado que estava melhorando, piora nova sugere ressangramento, elevação de pressão, infecção ou descolamento de retina — nenhum deles se resolve com reavaliação em uma semana
Esperado: Área menor a cada dia e fechamento em até 72 horas. A abrasão fecha das bordas para o centro
Se não melhora: Defeito que não diminui, que muda de forma ou que ganha borda esbranquiçada e infiltrado é úlcera até prova em contrário e sai da sua alçada. Defeito que fechou e reabriu semanas depois, com dor ao acordar, é erosão recorrente e pede oftalmologista, não novo curso de antibiótico
Esperado: Nível que decanta e diminui progressivamente com repouso e cabeceira elevada
Se não melhora: Aumento do nível, ou hifema que preenche a câmara, indica ressangramento — que ocorre tipicamente entre o segundo e o quinto dia e costuma ser mais volumoso que o inicial. É evento que muda conduta e destino, não achado para observar mais um dia
Esperado: Dentro da faixa normal, com o sangue reabsorvendo
Se não melhora: Pressão que sobe é urgência: pode impregnar a córnea de sangue de forma permanente e comprometer o nervo óptico. Em paciente com doença ou traço falciforme isso acontece com pressões mais baixas e mais rápido, e a acetazolamida deve ser evitada nesse grupo. Contato imediato com o oftalmologista
Esperado: Dor decrescente e olho progressivamente mais calmo depois do reparo
Se não melhora: Dor que aumenta depois de ter diminuído, piora da visão, aumento da vermelhidão, secreção nova ou nível de pus na câmara anterior obrigam a retorno imediato ao serviço que operou. Risco maior quando houve corpo estranho retido, demora até o fechamento e contaminação com terra ou material vegetal
Esperado: Assintomático e com acuidade preservada
Se não melhora: Dor, fotofobia, visão embaçada ou olho vermelho no lado saudável, semanas a anos depois de um trauma penetrante do outro lado, levantam oftalmia simpática e são avaliação oftalmológica urgente. É a razão pela qual esse seguimento não se encerra quando o olho ferido deixa de importar — e a explicação que se dá ao paciente que quer parar de ir à consulta
Onde o erro machuca
O dano: É o erro que produz o caso do Eusébio e é o mais caro do capítulo. Um fragmento de alta velocidade entra por um furo autosselante, e o olho fica branco, indolor e com visão quase normal — de modo que o exame confirma a impressão tranquilizadora que a história ruim criou. O paciente vai para casa com colírio, volta dias depois com endoftalmite ou perde a visão em silêncio, e o prontuário registra corretamente um exame normal.
Como pegar a tempo: Trocar a pergunta. Não "o que aconteceu", que produz a palavra cisco, mas "o senhor estava fazendo o quê, exatamente, na hora?". Martelar metal, esmerilhar, lixar, cortar com disco e roçadeira reclassificam o caso independentemente do exame. Diante dessa história, exame normal não exclui: protege, pede tomografia de órbitas com cortes finos e encaminha
O dano: Cada um desses gestos aplica ou provoca força sobre uma esfera sem parede, e o conteúdo sai pelo rasgo: íris, cristalino, vítreo, retina. O dano é imediato, irreversível e indistinguível, no prontuário, do dano do acidente. É a única complicação deste capítulo que a assistência produz sozinha.
Como pegar a tempo: Tratar a inspeção sem contato como um degrau obrigatório antes de qualquer manipulação, e assumir globo aberto na dúvida. Quando a pálpebra não abre espontaneamente, a resposta não é insistir com mais firmeza — é proteger e transferir. O olho contralateral dá quase todos os parâmetros de comparação de graça
O dano: Curativo apoiado sobre a pálpebra transmite ao globo toda a força que o mantém no lugar, e a força aumenta assim que o paciente aperta os olhos contra a luz. Com objeto cravado, há o agravante de deslocá-lo: ele frequentemente está tamponando a própria ferida. O erro é reforçado por um documento federal — o Caderno de Atenção Primária n. 30, de 2011, manda ocluir o olho diante de corpo estranho fixado no globo, e o protocolo BT7 do SAMU manda cobrir o globo com gaze umedecida no item do ferimento, contradizendo o seu próprio item seguinte, que proíbe pressão direta.
Como pegar a tempo: Protetor rígido apoiado só no rebordo ósseo, com vão de ar conferido pelo dedo por fora. Copo plástico rígido cortado e esparadrapo na testa e no zigomático resolvem em dois minutos. Com objeto cravado, montar a casca em volta dele, sem encostar, sem cortar e sem retirar
O dano: Alivia de imediato, e é por isso que o paciente reaplica. O uso repetido é tóxico para o epitélio da córnea: impede a reepitelização, anula o reflexo de proteção que faz a pessoa evitar novo trauma e produz uma ceratite tóxica que já custou córneas transparentes. O paciente costuma ocultar o uso, porque funcionou, e o quadro chega ao oftalmologista com aparência de infecção resistente.
Como pegar a tempo: Anestésico tópico é gesto de sala: uma gota, uma vez, para permitir o exame ou a remoção, e o frasco não sai do serviço. A dor de casa se trata por via sistêmica. Vale dizer isso em voz alta ao paciente, com o motivo, porque a proibição sem explicação é a que ele contorna na farmácia
O dano: Corticoide retarda a reepitelização, favorece infecção — bacteriana, fúngica e sobretudo herpética — e pode elevar a pressão intraocular. Diante de uma úlcera infecciosa ou de um dendrito herpético não reconhecidos, transforma um quadro tratável em perda de córnea. O erro é facilitado pela logística: a dexametasona oftálmica está no Componente Básico da Rename 2024 e frequentemente é o único produto oftálmico disponível na unidade.
Como pegar a tempo: Nenhum corticoide tópico iniciado por não oftalmologista em olho traumatizado, em abrasão ou em suspeita de infecção de córnea. Se a estante só tem dexametasona, a conduta correta é não prescrever tópico nenhum, e não prescrever o que há
O dano: A pálpebra rasgada e o olho roxo capturam a atenção de todos na sala, e o globo aberto está debaixo. O resultado é um paciente com a pálpebra bem fechada sobre um olho que precisava ir para o centro cirúrgico, e o tempo perdido conta contra o risco de endoftalmite. O mesmo raciocínio vale no politraumatizado levado ao centro cirúrgico por outra lesão sem que ninguém tenha registrado acuidade e pupila.
Como pegar a tempo: Regra de ordem fixa: globo primeiro, anexos depois. Se o edema impede ver o globo sem forçar, não force — proteja e transfira, e escreva que o globo não pôde ser avaliado. E quatro características tiram a laceração palpebral das suas mãos: margem palpebral, terço medial, gordura exposta no fundo da ferida e pálpebra que não levanta
O que dizer ao paciente e à família
A conversa do trauma ocular tem um problema próprio: o paciente que você mais precisa convencer é o que se sente melhor. Quem tem globo aberto discreto chega andando, não sente dor, enxerga, e vai ouvir de você que precisa ficar em jejum, não pode ir trabalhar amanhã e vai ser transportado para outra cidade agora. Nada na experiência dele sustenta isso.
As falas abaixo assumem que a decisão já foi tomada. Elas não servem para negociar a conduta — servem para que o paciente entenda o bastante para não desfazê-la sozinho no corredor.
Explicar a um paciente sem dor, que enxerga, por que ele vai ser transferido agora
“Seu Eusébio, eu vou te falar uma coisa que não bate com o que o senhor está sentindo, e eu preciso que o senhor me escute até o fim. O olho não está doendo e o senhor está enxergando — e é justamente isso que me preocupa. Quando o senhor bateu marreta em metal, pode ter saltado uma lasca muito pequena e muito rápida. Uma coisa desse tamanho atravessa o olho e fecha o furo atrás de si; não sangra, não incha e não dói, porque a parte que dói é só a de fora. Ela pode estar parada lá dentro desde anteontem. Se estiver, o risco não é hoje o senhor enxergar mal — é uma infecção dentro do olho, que anda rápido e não tem volta. Por isso eu não vou te examinar mais aqui, vou proteger esse olho e mandar o senhor para o hospital que tem oftalmologista de plantão.”
Não diga: Não amenize para diminuir o susto — "é só por precaução", "provavelmente não é nada" — porque essa frase é o que faz o paciente desistir do transporte no meio do caminho. E não use a palavra cisco de volta: ela é a palavra que produziu dois dias de atraso
Explicar por que não vai retirar o objeto e por que ninguém vai "dar uma olhadinha"
“Eu sei que parece estranho eu não tirar isso daí. Vou te explicar por quê. O olho é uma bola cheia, e o que está espetado nela está fazendo, no momento, o papel de rolha. Se eu puxar aqui, o que estava contido sai junto — e o que sai não tem como recolocar. Quem tira isso é o cirurgião, no centro cirúrgico, com o olho aberto de propósito e com material para fechar em seguida. Por isso eu vou colocar essa proteção rígida por cima, que não encosta no olho, ela só apoia no osso da sobrancelha e da bochecha. Ela vai ficar aí até lá. Ninguém levanta, nem eu, nem o pessoal da ambulância, nem o senhor para ver como está. Cada vez que levanta, é um risco a mais, e não muda nada do que vai ser feito.”
Não diga: Não peça permissão para não fazer nada, e não deixe a proteção como sugestão. Se a frase soar como opção, alguém vai levantar a casca no corredor — normalmente com boa intenção e para mostrar o olho a um colega
Explicar jejum, náusea e esforço a quem não entende por que isso tem a ver com o olho
“Duas coisas que eu preciso te pedir e que parecem não ter nada a ver. A primeira é não comer nem beber nada a partir de agora, porque tem uma chance boa de o senhor ir para uma cirurgia hoje, e estômago cheio adia cirurgia. A segunda é a mais importante: se der enjoo, me chame antes de vomitar. Vomitar aperta tudo por dentro com muita força, e no olho aberto essa força empurra para fora justamente o que a gente está tentando manter dentro. Eu já vou te dar um remédio agora para não deixar chegar lá. Pela mesma razão: não faça força, não assoe o nariz, não esfregue o olho, e se der vontade de apertar, me chame que eu dou algo para a dor.”
Não diga: Não deixe o antiemético para quando o paciente vomitar — o primeiro vômito já é o evento que se queria evitar. E não trate o jejum como burocracia; explicado como parte do plano cirúrgico, ele é cumprido
Tranquilizar o paciente com dor atroz de abrasão, sem soar como quem não acreditou
“Dona Inês, essa dor é de verdade e é das piores que existem, então não é frescura e eu não vou te mandar para casa sem tratar. Mas eu quero que a senhora saiba o que ela significa, porque isso ajuda. A parte da frente do olho é o lugar do corpo com mais terminação nervosa — mais que a ponta do dedo. A senhora raspou a camada mais fina, que é essa cheia de nervo. É por isso que dói tanto. Essa camada refaz sozinha, e rápido: em dois, três dias no máximo, e a dor melhora bem antes disso. A senhora vai enxergar igual ao que enxergava. O que dói muito, aqui, costuma ser o que sara melhor.”
Não diga: Não diga "é só um arranhãozinho". É verdade anatomicamente e é ofensivo clinicamente — e a pessoa que se sentiu descrente é a que compra colírio anestésico na farmácia depois
Recusar o colírio anestésico que o paciente pede, ou que já usou
“Tem um colírio que tira essa dor na hora, e eu vou usá-lo agora aqui, uma vez, para conseguir examinar. Mas ele não vai com a senhora, e eu quero te dizer por quê, porque senão parece implicância. Esse colírio anestesia tão bem que a pessoa reaplica, e a cada aplicação ele atrasa a cicatrização e desliga o aviso de dor que faz a gente proteger o olho. Já vi gente que usou por uma semana e ficou com uma lesão muito pior que a original. Se a senhora já usou algum colírio desses, me conta agora — não tem bronca nenhuma, eu só preciso saber para tratar direito.”
Não diga: Não proíba sem dar o motivo, e não trate o uso prévio como falta. Quem se sente repreendido omite — e o dado omitido é justamente o que explica a úlcera que não fecha
Perguntar sobre trabalho e proteção sem soar como fiscalização
“Preciso registrar em que o senhor trabalha e se isso aconteceu no serviço. Não é para arrumar problema para o senhor nem para o patrão — é porque, se foi no trabalho, o senhor tem direitos que só existem se estiver escrito no papel desde hoje: afastamento, tratamento, e a garantia caso fique alguma sequela. Se eu não escrever agora, depois fica difícil provar. E uma pergunta que não é cobrança: tinha óculos de proteção disponível ali? Estou perguntando porque na maioria dos casos que a gente atende não tinha, e isso é informação que vale para o serviço inteiro, não só para o senhor.”
Não diga: Não faça a pergunta com tom de culpa nem transforme o momento em orientação sobre EPI — a pessoa acabou de se machucar. O nexo, a Comunicação de Acidente de Trabalho e o caso de quem não tem carteira assinada são do capítulo A lesão que só vira acidente se alguém escrever, da apostila de Medicina do Trabalho
Falar de prognóstico com a família quando você honestamente não sabe
“Vou separar para vocês o que já está definido e o que ainda ninguém tem como responder. Definido: houve um ferimento que abriu o olho, e isso precisa de cirurgia hoje. Sem resposta ainda — e não é só comigo, é com qualquer um agora — é quanto de visão vai voltar, porque isso depende de coisas que só se veem com o olho aberto na cirurgia. Eu não vou chutar um número, porque um número errado agora atrapalha vocês depois, nos dois sentidos. O que eu posso garantir é o que estamos fazendo: proteger, evitar infecção e chegar rápido em quem opera. Quando ele voltar da cirurgia, quem operou vai conseguir falar de prognóstico com base no que viu.”
Não diga: Não prometa a visão de volta e não decrete a perda. Nenhuma das duas frases se sustenta antes da cirurgia, e as duas produzem consequências — a primeira, sensação de erro médico; a segunda, abandono do seguimento, que é justamente o que protege o outro olho
Onde bons médicos discordam
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.
Cobrir os dois, para impedir o movimento ocular
O raciocínio é anatômico: os dois olhos se movem juntos, de modo que o olho ferido acompanha o que o olho bom faz, e cada movimento traciona a ferida. Cobrir os dois reduziria essa movimentação. É a posição escrita no único protocolo nacional que trata do assunto, que manda cobrir os dois olhos com curativo estéril quando for necessário impedir o movimento ocular, e que, no item da enucleação, prescreve curativo oclusivo nos dois olhos.
Protocolo BT7 — Trauma ocular, Protocolos de Intervenção para o SAMU 192, Suporte Básico de Vida (elaboração agosto de 2014, revisão abril de 2015)
Proteger só o olho ferido, e deixar o outro livre
O raciocínio é comportamental e mede o efeito líquido. Uma pessoa acordada com os dois olhos tapados fica desorientada, e desorientação produz agitação, tentativa de arrancar o curativo e Valsalva — que são justamente as forças que se queria evitar. O efeito é mais marcado em pessoa idosa, em criança e em quem tem alteração cognitiva prévia. Além disso, a redução real do movimento obtida por ocluir o olho bom é modesta, porque a pessoa continua movendo os olhos sob a pálpebra fechada, inclusive dormindo.
Prática corrente de serviços de trauma e de oftalmologia; não há documento brasileiro que a fixe por escrito, e este capítulo registra isso como ausência, não como consenso
Decida pelo paciente que está na maca, e reavalie. Pergunte-se qual das duas forças é maior naquela pessoa: a tração pelo movimento conjugado, ou a agitação por privação visual. Num adulto orientado, colaborativo, com transporte curto e que entendeu a explicação, cobrir os dois tende a ser tolerado e cumpre o protocolo nacional. Numa pessoa idosa, numa criança, em quem já está confuso ou agitado, ou num transporte longo, tapar o olho bom costuma custar mais do que rende. Em qualquer das escolhas, o olho ferido leva protetor rígido apoiado no osso, e não gaze — esse ponto não está em disputa. E se você optar por cobrir os dois e o paciente agitar, descubra o olho bom: a decisão é reversível e a agitação não é.
Não usar, na atenção primária
O manual federal de procedimentos da atenção primária é categórico ao tratar do corpo estranho ocular: não usar colírios anestésicos. A lógica implícita é de segurança de sistema — o anestésico abre a porta para a manipulação que não deveria acontecer naquele nível de atenção, mascara a dor que serviria de alarme e, se o frasco existe na unidade, ele acaba indo para casa com alguém. Numa unidade sem lâmpada de fenda, o benefício diagnóstico de conseguir abrir o olho é pequeno diante da conduta, que é encaminhar de todo jeito.
Cadernos de Atenção Primária n. 30 — Procedimentos, Ministério da Saúde, 2011
Usar uma vez, no serviço, para viabilizar o exame
A posição oposta é que blefaroespasmo intenso impede qualquer exame, e que um olho não examinado é encaminhado com informação pobre e prioridade errada — inclusive deixando de identificar o corpo estranho móvel que sairia com uma irrigação, e o defeito epitelial que caracteriza a abrasão. Uma gota, única, aplicada e registrada, com o frasco permanecendo no serviço, resolveria o impasse sem criar o risco domiciliar. É a conduta adotada pelo capítulo Olho vermelho, o primeiro desta apostila.
Capítulo Olho vermelho, desta apostila; prática corrente de pronto atendimento
Separe as duas perguntas que a divergência mistura: o anestésico é para examinar ou para tratar? Para tratar, não há divergência nenhuma — ele nunca vai para casa, e as duas posições concordam. Para examinar, decida pelo que o resultado do exame vai mudar. Se a conduta já é proteger e transferir, porque o mecanismo foi de alta energia ou porque um sinal certo apareceu, não pingue: você não precisa do exame e o gesto é um dos quatro proibidos. Se o mecanismo é de baixa energia e a decisão em jogo é remover ou não um corpo estranho móvel e caracterizar ou não uma abrasão, o exame muda conduta e uma gota única no serviço é defensável. Registre no prontuário qual foi instilado, a hora, e que o frasco permaneceu na unidade — o registro é o que separa as duas práticas.
Imagem antes, porque ela define o destino
Quem sustenta isso argumenta que a presença de corpo estranho intraocular não é um detalhe: ela muda o serviço que precisa receber o paciente, porque exige cirurgião de retina e centro cirúrgico com material de vitrectomia, que não é o mesmo recurso de quem só faz sutura de córnea. Transferir sem saber pode significar uma segunda transferência, e a segunda transferência custa mais horas do que a tomografia teria custado. O argumento é mais forte quanto mais regionalizada e escassa for a referência.
Leitura deste capítulo sobre a lógica de regulação; não há documento brasileiro que fixe essa sequência
Transferir já, e fazer a imagem onde se opera
Quem sustenta isso lembra que a conduta imediata — protetor rígido, jejum, analgesia, antiemético, antibiótico combinado — é exatamente a mesma com ou sem o laudo, de modo que a tomografia não muda nada do que você vai fazer nas próximas horas; muda o que outro vai fazer. E que o exame consome tempo real: fila, transporte interno, técnico, laudo. Some-se que o resultado normal engana, porque material orgânico é mal visto na tomografia, e que o exame só é bom se for de órbitas com cortes finos, o que nem todo serviço faz de madrugada.
Leitura deste capítulo; a limitação da tomografia para material orgânico é da literatura de imagem e não foi extraída de documento brasileiro
A pergunta operacional não é "tomografia sim ou não", é: este laudo muda o destino ou só a informação? Telefone primeiro. Se o serviço de referência é único na região e recebe de qualquer jeito, o laudo não muda destino e não deve atrasar a ambulância — faça no destino. Se existem dois serviços com capacidades diferentes e o regulador precisa do dado para escolher, e se a tomografia está disponível na sua casa em minutos, ela se paga. Em nenhum dos cenários a imagem justifica retirar o protetor, adiar o antibiótico ou romper o jejum — e um laudo normal, diante de história de fragmento de alta velocidade ou de material vegetal, não autoriza alta.
O raciocínio, em voz alta
Eusébio Urubatan, 41 anos, serralheiro, chega andando ao pronto-socorro numa terça-feira à noite. Refere que anteontem "caiu um cisco" no olho esquerdo enquanto trabalhava; ardeu, lacrimejou e melhorou no dia seguinte. Veio porque a esposa insistiu. Está confortável, sem dor, e diz que enxerga. O olho esquerdo está praticamente branco. Não há oftalmologista na casa; o de referência fica a uma hora e quarenta de ambulância.
Primeiro eu troco a pergunta
Antes de encostar nele, eu refaço a história — porque "caiu um cisco" é uma conclusão do paciente, não um mecanismo. Pergunto o que ele estava fazendo com as mãos naquele momento, exatamente. Ele responde que estava rebatendo uma cantoneira com marreta, sem óculos. Pronto: metal contra metal, alta velocidade. Essa frase, sozinha, reclassifica o caso para cima e vale mais do que qualquer coisa que eu vá encontrar no exame. Anoto a hora aproximada do acidente — cerca de quarenta e oito horas — e pergunto se aquele olho já foi operado alguma vez. Não foi.
Meço a acuidade antes de qualquer outra coisa
Não há tabela de optotipos na sala, então improviso com o que tenho e escrevo o método junto do resultado. Olho direito enxerga bem. Olho esquerdo: ele lê menos linhas, e quando eu insisto ele diz que "está meio embaçado, mas dá". Registro a medida de cada olho e a distância. Esse número é o único documento do que ele enxergava ao chegar às minhas mãos — e, num trauma de trabalho, ele vai importar por anos. Peço que ele mesmo tape o olho com a palma apoiada na maçã do rosto, sem apertar.
Inspeciono sem tocar, com a sala escura
Apago a luz do teto e uso a lanterna. Comparo os dois lados. Pálpebras sem ferimento. Globos simétricos, sem proptose vista de cima da cabeça dele. Conjuntiva com uma área de hemorragia pequena e clara na região nasal, nada de bolha escura. Córnea: contra o reflexo da lanterna, há uma irregularidade mínima no terço inferior, do tamanho de uma cabeça de alfinete, que eu poderia facilmente ler como abrasão em cicatrização. Câmara anterior de profundidade parecida com a do outro olho na luz oblíqua. E a pupila — a pupila esquerda não está perfeitamente redonda. Tem um discreto estiramento inferonasal, apontando para baixo e para dentro.
Aqui o exame acabou
Pupila que não é redonda num olho traumatizado é globo aberto até que alguém com lâmpada de fenda diga o contrário, e a ponta da deformidade aponta para onde está a ferida — que, no caso dele, coincide com a marquinha da córnea. Eu não everto pálpebra. Não apalpo o globo para "sentir a pressão". Não peço o tonômetro emprestado do consultório. Não pingo fluoresceína para procurar Seidel, porque a decisão já está tomada e o corante não a mudaria. E não repito o exame para mostrar o achado ao colega. Cada uma dessas quatro coisas é a que eu faria por reflexo, e cada uma delas é uma bomba apontada para o rasgo.
Protejo, e confiro o vão de ar
Não temos protetor de fábrica. Corto um copo plástico rígido descartável na altura em que a borda pousa na sobrancelha e na maçã do rosto, e fixo com esparadrapo passando pela testa e pelo zigomático, nunca por cima da concha. Passo o dedo por fora e confirmo o que interessa: entre a pálpebra e a parte de dentro da casca há ar, e ele confirma que não sente contato. Anoto a hora em que coloquei e digo a ele, à esposa e depois ao pessoal da ambulância, com todas as letras, que ninguém levanta isso — nem para olhar, nem para mostrar, nem no hospital de destino.
Tiro pressão do sistema inteiro
Jejum a partir de agora, com a hora anotada, porque ele tem chance real de ir para o centro cirúrgico hoje. Cabeceira a trinta graus. Analgesia endovenosa, mesmo ele dizendo que não dói — porque a dor pode chegar e porque dor produz aperto palpebral contínuo. E antiemético antes do primeiro vômito, não depois: dou metoclopramida endovenosa, já que a ondansetrona que temos é comprimido. Explico as três proibições que ninguém associa ao olho: não fazer força, não assoar o nariz e não esfregar.
Telefono antes de escrever o papel
Ligo para o serviço de oftalmologia de referência antes de emitir o encaminhamento. Digo o mecanismo com a ferramenta nomeada — marreta em cantoneira, metal contra metal, sem proteção —, a hora do acidente, a acuidade de cada olho, o achado da pupila e o fato de que o olho está sob protetor rígido e não foi manipulado. Combino com eles o antibiótico sistêmico endovenoso, que começo aqui, e registro no prontuário com quem falei e a que horas. Sobre a tomografia, pergunto a eles: como é o único serviço da região e vai receber de qualquer jeito, o laudo não mudaria o destino, e concordamos que ele faz no destino — a ambulância não espera.
Resolvo o tétano e o trabalho antes de ele sair
Ferimento ocular perfurante com corpo estranho retido é ferimento de alto risco para tétano, e essa é a porta pela qual ele entra na tabela do capítulo O ferimento e o cartão, da apostila de Infectologia — a decisão de esquema e de imunoglobulina é de lá, e eu a tomo por lá, olhando o cartão dele. Resisto à armadilha de aparência: o ferimento é minúsculo e não tem sujeira visível, e é exatamente por isso que ele seria classificado como de baixo risco por quem olha o tamanho em vez da profundidade. E registro a ocupação, o vínculo e que o acidente foi no trabalho, porque isso precisa estar escrito hoje, não depois da cirurgia.
O que eu escrevo no encaminhamento
Além do mínimo que o protocolo do TelessaúdeRS-UFRGS exige — sinais e sintomas, acuidade de cada olho informando se foi com ou sem correção, e o tratamento realizado —, escrevo quatro linhas que não estão na lista dele e sem as quais a regulação erraria a prioridade: mecanismo com a ferramenta nomeada; hora do acidente, quarenta e oito horas antes; que o olho não foi manipulado e que nada foi instilado; e a frase direta de que há suspeita de corpo estranho intraocular com globo aberto, olho sob protetor rígido, apesar do exame externo pouco alterado e da visão preservada. Essa última frase existe para impedir que alguém, do outro lado, releia meu exame e conclua que o caso pode esperar a manhã.
O que este caso ensina
Nada do que decidiu o desfecho do Eusébio dependia de equipamento. Dependeu de uma pergunta refeita, de uma lanterna, da comparação com o outro olho e de quatro coisas que eu deixei de fazer. O olho branco, indolor e que enxerga não é um olho tranquilo: é o olho em que o projétil era pequeno o bastante para não deixar rastro. E a dor, que faltava nele e sobrava na paciente da cadeira ao lado, mede a camada mais inervada e menos importante do olho — de modo que, neste capítulo, ela é o pior critério de gravidade que existe.
Faça você
Peregrina Rebello, 78 anos, é trazida pela filha à unidade de pronto atendimento às 21h. Escorregou no banheiro há duas horas e bateu o lado direito do rosto na quina da pia. Está lúcida, orientada, sem perda de consciência, sem vômitos, e a queixa principal dela é a dor no ombro, que amorteceu a queda. A filha comenta, de passagem, que a mãe "operou os dois olhos de catarata faz uns três anos". Ao exame do rosto: edema periorbitário à direita, hematoma palpebral já roxo, e a pálpebra superior direita muito inchada, difícil de abrir. Não há laceração de pele. A senhora diz que enxerga "mal desse olho, mas está tudo embaçado por causa do inchaço". Você tem lanterna, soro, fluoresceína, um frasco de proparacaína emprestado do consultório e nenhum oftalmologista na cidade.
1. Reordene as prioridades antes de examinar o olho
Há uma queda em pessoa idosa, com trauma de face e dor em ombro. O que precisa ser avaliado antes do olho, e o que a idade dela acrescenta à investigação da própria queda? Obter acuidade e pupilas antes de intervenções quando viável; não atrasar analgesia necessária, proteção da via aérea ou reanimação para completar o exame.
2. Nomeie o que a frase da filha muda
"Operou os dois olhos de catarata faz uns três anos" foi dito como informação de passagem. Trauma de baixa energia pode causar lesão ocular grave, mesmo sem cirurgia prévia. Cirurgia prévia acrescenta vulnerabilidade, que depende do tipo e da incisão; não existe mecanismo banal que exclua ruptura sozinho.
3. Decida como abrir aquela pálpebra — ou se abre
A pálpebra está muito edemaciada e não abre espontaneamente. Você tem anestésico tópico disponível. Liste o que você faria, na ordem, para tentar visualizar o globo, e diga onde exatamente está o limite — o ponto a partir do qual você para em vez de insistir. Justifique com o mecanismo, não com a regra.
4. Escolha os achados que decidem
Suponha que você consiga entrever o globo por alguns segundos, sem forçar. Escreva os cinco achados que, se presentes, encerrariam o exame ali mesmo, e os seis que, sem fechar o diagnóstico, obrigariam a tratar como globo aberto. Diga qual deles você espera que seja mais difícil de ver nessa paciente, e por quê.
5. Monte a conduta com o que a unidade tem
Decidido tratar como globo aberto: descreva a proteção que você improvisa e o critério objetivo com que confere se ela está correta. Liste as medidas que retiram pressão do sistema, com as apresentações que o Componente Básico da Rename 2024 garante — inclusive a escolha do antiemético injetável e o motivo dela. E diga o que você não prescreve, apesar de estar disponível na farmácia da unidade.
6. Escreva o encaminhamento e resolva a divergência
Redija as linhas do encaminhamento que a regulação precisa para não errar a prioridade. Em seguida, decida a divergência que este caso força: você cobre os dois olhos, como manda o protocolo nacional pré-hospitalar, ou protege só o direito? Justifique pelo que se sabe desta paciente em particular, e diga o que faria você reverter a decisão no meio do transporte.
Ver como fecharíamos
1. A queda vem primeiro. Pessoa idosa que cai não tem só a lesão da queda: tem a causa da queda, e ela precisa ser investigada — síncope, arritmia, hipoglicemia, infecção, hipotensão postural e medicação, sobretudo anti-hipertensivo, hipnótico e psicotrópico. Some-se a pergunta obrigatória sobre antiagregante e anticoagulante, que muda o risco de hematoma e o de sangramento intracraniano, e a avaliação do ombro e do risco de fratura. O trauma de face e a sequência primária são dos capítulos da apostila de Trauma deste nível. Obter acuidade e pupilas antes de intervenções quando viável; não atrasar analgesia necessária, proteção da via aérea ou reanimação para completar o exame. 2. A frase muda tudo porque cicatriz cirúrgica é permanentemente mais frágil que tecido virgem. A incisão da cirurgia de catarata fica no limbo, que já é uma das regiões finas da parede, e um olho operado pode romper com uma fração da energia que romperia uma esclera intacta. Trauma de baixa energia pode causar lesão ocular grave, mesmo sem cirurgia prévia. Cirurgia prévia acrescenta vulnerabilidade, que depende do tipo e da incisão; não existe mecanismo banal que exclua ruptura sozinho. Some-se que a ruptura é de dentro para fora e costuma acontecer longe do ponto do impacto, escondida sob a conjuntiva ou sob a pálpebra — de modo que não ver ferida não ajuda. 3. A ordem é: escurecer a sala e usar lanterna, o que reduz a fotofobia e a resistência; pedir que ela mesma tente abrir, olhando para baixo; e, se necessário, afastar as pálpebras apoiando os dedos no rebordo ósseo — na sobrancelha e na maçã do rosto —, e nunca sobre o globo, deixando que a pele deslize. O limite é preciso e não é negociável: se a pálpebra só abre com força, ou se ela contrai o orbicular contra os seus dedos, pare. O motivo é mecânico — o orbicular contraindo contra a sua mão gera sobre o globo uma pressão maior do que a que você está aplicando, e num globo aberto essa pressão empurra conteúdo pelo rasgo. O anestésico tópico não resolve isto: ele trata a dor da superfície, não o edema que trava a pálpebra, e instilar em olho possivelmente aberto é um dos gestos proibidos. Everter a pálpebra superior está fora de questão aqui. 4. Encerram o exame: tecido escuro, marrom ou preto, aparecendo na superfície onde deveria haver branco ou transparência; pupila deformada, em gota ou vírgula; objeto atravessando a parede; câmara anterior desaparecida, com íris encostando na córnea; e sinal de Seidel positivo. Obrigam a tratar como aberto sem fechar o diagnóstico: hemorragia subconjuntival volumosa, escura e abaulada em todo o contorno da córnea; câmara anterior mais rasa ou mais profunda que a do outro olho; hifema; acuidade desproporcional ao aspecto externo; defeito pupilar aferente relativo novo; e a impressão de globo mole, percebida sem apalpar. O mais difícil de avaliar nesta paciente é a pupila — porque ela é operada de catarata dos dois lados, e olho pseudofácico pode ter pupila previamente irregular pela própria cirurgia. A saída é comparar com o olho esquerdo, que passou pela mesma cirurgia, e perguntar à filha se a pupila era assim antes. 5. Proteção: copo plástico rígido descartável, cortado na altura em que a borda pousa na sobrancelha e na maçã do rosto, fixado com esparadrapo pela testa e pelo zigomático, nunca por cima da concha. O critério objetivo é o vão de ar: passando o dedo por fora, tem de haver espaço entre a pálpebra e a parte interna da casca, e a paciente não pode sentir contato. Tratar vômito com antiemético disponível e apropriado às contraindicações, como ondansetrona ou metoclopramida. A lista de financiamento não define sozinha a melhor escolha clínica. Antibiótico sistêmico endovenoso combinado por telefone com quem vai receber. Orientar não fazer força, não assoar o nariz e não esfregar. O que não se prescreve, apesar de disponível: dexametasona oftálmica, que está no Componente Básico e é justamente o corticoide tópico que não se pinga em olho traumatizado; nenhuma pomada ou colírio no olho suspeito de estar aberto; e nenhum anestésico para casa. 6. O encaminhamento precisa trazer, além do mínimo do protocolo do TelessaúdeRS-UFRGS — sinais e sintomas, acuidade de cada olho com ou sem correção, tratamento realizado —, quatro linhas próprias: mecanismo e hora da queda; a informação de que se trata de olho pseudofácico, operado há cerca de três anos, com a fragilidade da cicatriz limbar; que o globo não pôde ser adequadamente avaliado por edema palpebral e que não foi manipulado nem recebeu instilação; e a suspeita de ruptura de globo com o olho sob protetor rígido. Sobre a divergência: o protocolo BT7 do SAMU manda cobrir os dois olhos quando for necessário impedir o movimento ocular, e a posição contrária é proteger só o olho ferido, porque privação visual bilateral em pessoa idosa produz desorientação, agitação e Valsalva — que são as forças que se queria evitar. Nesta paciente, de 78 anos, em transporte para outra cidade e à noite, o argumento comportamental pesa mais, e proteger apenas o olho direito é a escolha defensável; nada disso é opção quanto ao material, porque o olho ferido leva protetor rígido e não gaze em qualquer das posições. O que faria reverter: se ela demonstrar agitação ou tentar levar a mão ao curativo, descobrir o olho bom imediatamente — e, inversamente, se estiver calma e colaborativa e o transporte for curto, cobrir os dois cumpre o protocolo nacional sem custo. A decisão é reversível; a extrusão de conteúdo não é.
O anestésico tópico é gesto de sala: uma gota, uma vez, para permitir o exame, com o frasco permanecendo no serviço. Levado para casa, ele alivia de imediato — e é justamente por isso que o paciente reaplica —, retardando a reepitelização, anulando o reflexo de proteção contra novo trauma e produzindo ceratite tóxica que já custou córneas transparentes. O manual federal de procedimentos da atenção primária já registrava a proibição de colírios anestésicos, e essa é a frase daquele parágrafo que envelheceu bem. Prescrevê-lo de horário formaliza exatamente o dano. A oclusão saiu da conduta: não acelera a cicatrização da abrasão simples, atrapalha a visão de quem precisa trabalhar e é contraindicada em usuário de lente de contato. Corticoide tópico retarda a reepitelização, favorece infecção — inclusive herpética — e pode elevar a pressão intraocular; estar disponível na farmácia é motivo de cautela, não de prescrição. E a abrasão simples de baixa energia é tratável no serviço geral, com lubrificação, cobertura antibiótica tópica, analgesia sistêmica, retorno marcado e lista escrita do que faz voltar antes.
Teste-se
Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.
Plano de revisão
Em 7 dias
Demonstre escudo sem contato e descreva exame que interromperia por suspeita de globo aberto; justifique analgesia, antiemético e antibiótico.
Em 30 dias
Compare Peregrina com paciente de proptose e perda visual progressiva: diferencie ruptura e síndrome compartimental e explique qual intervenção não espera imagem.
Agora atenda
Agora atenda: homem de 29 anos, ajudante de marcenaria, chega ao pronto-socorro às 22h dizendo que "entrou uma farpa" no olho direito no fim da tarde, enquanto lixava. Ardeu, ele lavou na torneira e voltou a trabalhar. Agora refere a vista um pouco embaçada desse lado e desconforto leve. O olho está discretamente vermelho, ele abre as pálpebras sem dificuldade e não parece sofrendo. Não há oftalmologista na casa. Refaça a história pela atividade em vez de pelo evento, meça e registre a acuidade visual de cada olho sem tabela dizendo como fez, decida se pode ou não instilar fluoresceína e justifique pelo mecanismo, monte a proteção descrevendo o critério objetivo que confirma que ela está correta, liste sua prescrição e nomeie separadamente o que deixa de prescrever de propósito, mesmo estando disponível, e redija o encaminhamento com as linhas que a regulação precisa para não errar a prioridade.
