Outras Especialidades › Ortopedia
A dor está no joelho, a doença está no quadril
Quadril na infância (epifisiólise e sinovite transitória)
A criança que manca: epifisiólise, sinovite transitória e doença de Perthes — a idade que organiza a lista, a incidência que revela o escorregamento, e o que a radiografia normal não exclui
Santili C, Lino Júnior W, Goiano EO, Lins RAB, Waisberg G, Braga SR, Akkari M. Claudicação na criança. Rev Bras Ortop. 2009;44(4):290-8.
Rosa JRP, Kojima CM, Fernandes LFL, Hehn BJ, Santili C. Fluxograma diferencial entre a artrite séptica e sinovite transitória do quadril em crianças. Acta Ortop Bras. 2011;19(4):202-5.
Santili C, Akkari M, Waisberg G, Braga SR, Kasahara A, Perez MC. Evolução do escorregamento epifisário proximal do fêmur após tratamento não cirúrgico. Rev Bras Ortop. 2010;45(5):397-402.
Volpon JB, Bortolin PH, Leal DM, Maranho DAC. Rotinas básicas dos ambulatórios de ortopedia pediátrica e do adolescente e de afecções do pé e tornozelo. Ribeirão Preto: Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, Universidade de São Paulo; fevereiro de 2010. 44 p.
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Protocolos de acesso ambulatorial: consultas especializadas: Hospitais Federais no Rio de Janeiro. Brasília: Ministério da Saúde; 2015. 188 p. ISBN 978-85-334-2208-7. CDU 614.39.
Rio de Janeiro (RJ). Secretaria Municipal de Saúde. Subsecretaria Geral. Protocolo de Regulação Ambulatorial — Ortopedia. Rio de Janeiro: Secretaria Municipal de Saúde; 2022. 16 p. (Série Especialidades).
Brasil. Ministério da Saúde. Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Ortopedia adulto [recurso eletrônico]. Volume 4. Brasília: Ministério da Saúde; 2022. 37 p. ISBN 978-65-5993-223-8. CDU 614. (Protocolos de encaminhamento da atenção básica para a atenção especializada).
Brasil. Ministério da Saúde. Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Reumatologia e ortopedia [recurso eletrônico]. Volume III, versão preliminar. Brasília: Ministério da Saúde; 2016. 46 p. CDU 614. (Protocolos de encaminhamento da atenção básica para a atenção especializada).
Brasil. Ministério da Saúde. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais: Rename 2024. Brasília: Ministério da Saúde; 2024.
Brasil. Ministério da Saúde. Gabinete do Ministro. Portaria GM/MS nº 8.041, de 25 de setembro de 2025. Republicada no Diário Oficial da União de 21 de janeiro de 2026, edição 14, seção 1, página 78.
Royal Children’s Hospital — criança com claudicação ou incapacidade de apoio
PIDS/IDSA 2023 — artrite bacteriana aguda na criança
Royal Children’s Hospital — epifisiólise na emergência
Responda antes de ler
No escorregamento epifisário proximal do fêmur, o que define a forma instável — a que carrega risco de necrose avascular da cabeça femoral?
O paciente que você vai ver
Sábado, 9h20, unidade de pronto atendimento de uma cidade de sessenta e cinco mil habitantes. Há um pediatra na escala da manhã, um clínico, dois enfermeiros e uma sala de observação com quatro macas. O aparelho de radiografia funciona e o técnico está na casa até as 13h. Ultrassonografia, só em dia útil. O ortopedista mais próximo é de sobreaviso no hospital regional, a uma hora e vinte de estrada, e atende criança. Você é o interno da manhã e o pediatra está na sala de estabilização com um lactente em crise de broncoespasmo desde as oito e meia.
A técnica de enfermagem apoia duas fichas no balcão e diz que as duas são "perna". Não é uma triagem ruim: é literalmente o que as duas famílias falaram.
A primeira ficha é da Leonarda Pombal, 5 anos, 19 quilos. Está no colo da mãe, acordada, interessada em tudo, com a bochecha vermelha de quem chorou há pouco e parou. A mãe conta que ontem ela brincou o dia inteiro e hoje, ao acordar, não quis pisar. Andou até o carro mancando, com o pé direito tocando o chão de leve e o passo apressado do outro lado. Teve coriza e tosse na semana passada, sem febre medida em casa. Não caiu, ninguém viu ela cair, e ela nega. Está com 37,4 °C de temperatura axilar aqui.
A segunda é do Vasco Caratinga, 13 anos, 71 quilos. Veio andando, sozinho, com o pai atrás. Ele senta na cadeira e estica a perna esquerda. A queixa, dita por ele mesmo, é dor no joelho esquerdo há uns dois meses. Começou depois de um treino, melhorou, voltou. Já foi visto duas vezes: em maio, no posto, saiu com anti-inflamatório e repouso; em junho, num pronto-socorro de bairro, fez radiografia do joelho, que "deu nada", e saiu com a mesma orientação. Hoje veio porque a mãe reparou que ele está andando torto, e ele diz que anda torto porque o joelho dói.
As duas crianças têm o mesmo problema de fundo: alguma coisa entre a bacia e o pé está impedindo a marcha normal, e ninguém sabe o quê. E as duas vão sair daqui hoje com um destino decidido por você — porque o pediatra continua ocupado, porque não vai chegar ortopedista neste sábado e porque a família vai perguntar, antes de ir embora, se pode andar.
Este capítulo é sobre essas duas crianças e sobre uma terceira que você ainda não viu. A da Leonarda é a pergunta mais frequente da porta pediátrica: a criança pequena que mancou de um dia para o outro, quase sempre uma sinovite transitória do quadril que vai passar sozinha, e às vezes uma artrite séptica que perde a cartilagem em dias. A do Vasco é a pergunta mais traiçoeira da ortopedia do adolescente: a dor que ele localiza no joelho e a doença que está no quadril, com a fise escorregando enquanto ele continua jogando bola. A terceira é a criança de sete ou oito anos que manca há semanas sem febre e sem trauma, e cujo quadril está morrendo devagar.
As três chegam pela mesma queixa e se separam por uma coisa antes de qualquer exame: a idade. Não porque a idade feche diagnóstico, mas porque ela reordena a lista do que é provável, e porque a lista errada leva ao exame errado. A radiografia do joelho do Vasco foi feita, foi lida, e estava normal — e estava normal porque o joelho dele não tem nada.
Duas advertências antes de começar, porque as duas mudam o que você faz nos próximos vinte minutos e não os próximos vinte dias. A primeira: a criança febril que não apoia o pé é uma urgência e não é assunto deste capítulo. O que se faz com a articulação quente (puncionar, drenar, escolher o antimicrobiano) pertence ao capítulo Monoartrite aguda e artrite séptica, na apostila de Reumatologia, e para lá se vai no minuto em que a febre entra na conta. A segunda: se a história não fecha com a lesão, se a criança ainda não andava quando isso apareceu, se a versão muda entre quem conta, pare a linha de raciocínio ortopédica e vá para o capítulo Violência e maus-tratos infantis, na apostila de Emergências Pediátricas. Nenhuma das duas é uma formalidade de rodapé: são as duas portas pelas quais a criança sai deste capítulo, e as duas se abrem antes de você pedir qualquer imagem.
O que fica aqui é o resto, que é a maior parte: a criança que manca e cuja causa é mecânica, e a decisão de quem pode ir para casa hoje, quem tem de parar de apoiar o pé agora e quem precisa de um telefonema para o ortopedista antes do meio-dia.
Quem adoece disso
Comece pelo que o Brasil não mede. Não há incidência brasileira publicada de escorregamento epifisário proximal do fêmur, de sinovite transitória do quadril ou de doença de Perthes. Nenhuma das três é de notificação compulsória, para nenhuma delas o Ministério da Saúde publicou protocolo clínico e diretriz terapêutica, e nenhuma aparece nos dois volumes federais de protocolos de encaminhamento da atenção básica para a atenção especializada que cobrem ortopedia — o Volume III de 2016, ainda em versão preliminar, e o Volume 4 de 2022, cujo título é literalmente "Ortopedia adulto". Os números que se usam no Brasil para ensinar essas doenças são, quase todos, importados. Isso não os invalida; obriga a citá-los pelo que são.
O número mais robusto que este capítulo tem é brasileiro, mas é de denominador de serviço e não de população. Entre dezembro de 1996 e agosto de 2006, um único serviço de ortopedia pediátrica em São Paulo admitiu 401 pacientes com epifisiólise de diversos graus. São nove anos e nove meses, o que dá cerca de 41 casos novos por ano num serviço só — a divisão é nossa, o artigo não a faz. Não é incidência populacional e não permite estimar quantos adolescentes escorregam a epífise no Brasil; permite dizer outra coisa, que é o que interessa ao interno: em qualquer hospital de referência de porte médio, isto não é doença rara e não é doença que se vê uma vez na vida.
Do mesmo trabalho vem o dado que sustenta este capítulo inteiro. Dos 401, trinta e cinco pacientes — 8,7% — chegaram àquele serviço depois de terem passado por uma tentativa de tratamento não cirúrgico em outro lugar, com diagnóstico de escorregamento já feito e já documentado em radiografia. Não foram casos perdidos por falta de exame: foram casos com o exame na mão. Dezoito deles preencheram os critérios do estudo, com 26 quadris acometidos. E o intervalo entre a radiografia inicial, feita fora, e a radiografia pré-operatória, feita no serviço de referência, variou de 26 a 402 dias. Quatrocentos e dois dias entre a imagem que já mostrava o escorregamento e a cirurgia que o estabiliza.
Nesses 26 quadris, o escorregamento agravou em 19 — 73% — quando se compara o ângulo epifisiodiafisário de Southwick das duas radiografias. Pela mudança de grau da mesma classificação, a conta é outra e mais conservadora: dos 24 quadris que chegaram leves ou moderados, nove pioraram de grau, o que dá 37,5%. As duas frações são verdadeiras e medem coisas diferentes; a primeira é progressão angular, a segunda é progressão de categoria. Qualquer que seja a que você prefira, ela responde à pergunta que o pai do Vasco vai fazer: esperar tem custo, e o custo é medido em graus de deformidade numa articulação de carga que ele vai usar por mais sessenta anos.
Do outro lado da faixa etária, a assimetria é de outra natureza. O risco de uma criança ter ao menos um episódio de sinovite transitória do quadril ao longo da infância é estimado em 3%. A artrite séptica, na série norte-americana citada pelo fluxograma brasileiro, atinge quatro em cada dez mil crianças com menos de 13 anos, e o quadril responde por 40% dos casos — ou seja, 1,6 quadril séptico para cada dez mil crianças. Os dois números não são comensuráveis, e é honesto dizer por quê: 3% é risco acumulado ao longo de anos de vida, e 4 em 10.000 é incidência de um período. A razão de 75 para 1 que sai da divisão é ilustração de ordem de grandeza, não razão de taxas.
Mesmo assim a ilustração ensina o essencial. Para cada quadril infectado que entra pela porta pediátrica, entram dezenas de quadris apenas irritados. É por isso que o erro tem direção: quem trabalha em pronto-socorro pediátrico vê sinovite transitória toda semana e artrite séptica raramente, e o cérebro aprende a probabilidade antes de aprender a consequência. O desenho da decisão precisa compensar essa assimetria de exposição, porque a assimetria de dano é a inversa — a sinovite errada como artrite custa uma internação; a artrite errada como sinovite custa a cabeça do fêmur.
A sinovite transitória é a causa mais comum de claudicação dolorosa em toda a infância, com pico entre três e oito anos, e a duração média dos sintomas é de dez dias. Guarde os dez dias: eles são o que transforma "melhorou?" numa pergunta com resposta. Criança que ainda manca no décimo quarto dia saiu da história natural da doença que você presumiu, e isso é informação, não impaciência.
A doença de Perthes ocupa a faixa do meio: 80% dos casos aparecem entre quatro e oito anos, e ela é quatro vezes mais comum em meninos. A queixa dominante não é dor, é claudicação — o que explica por que ela chega tarde, já que criança que não se queixa de dor não é levada ao médico com pressa. O escorregamento epifisário fica na faixa de cima e obedece à mesma lógica de sexo, sendo mais prevalente em meninos, com idade média de diagnóstico de doze anos e sete meses na série brasileira e um espalhamento que ia de nove anos e dez meses a quinze anos e oito meses.
Um último número, que muda a alta. Na série brasileira, oito dos dezoito pacientes tinham os dois quadris acometidos — 44,4%. A literatura citada pelo artigo de atualização da mesma escola fala em bilateralidade de até 60%. Seja qual for a fração, ela tem consequência prática imediata: quando você identificar um escorregamento, a radiografia é da bacia inteira e não do quadril doente, e o quadril que não dói hoje é um quadril que precisa ser olhado hoje e reolhado depois. É a única doença deste capítulo em que o lado assintomático é parte do problema.
E há a que não é ortopédica. A leucemia linfoblástica aguda tem pico de incidência entre dois e cinco anos e queixas musculoesqueléticas em cerca de 20% dos casos, e a criança pode chegar mancando, com radiografia normal e exames iniciais ambíguos. Reconhecer isso é obrigação de quem atende criança que manca; conduzir a suspeita não é deste capítulo, e sim do capítulo Leucemia linfoblástica aguda: sinais de alerta e diagnóstico precoce, na apostila de Oncologia Pediátrica, que traz a régua federal do encaminhamento e a advertência sobre corticoide antes do mielograma.
Por que acontece o que acontece
A fise é a peça que falta no seu modelo mental do osso adulto. Entre a epífise e a metáfise de um osso em crescimento existe uma placa de cartilagem organizada em zonas: as células de reserva ficam do lado da epífise, proliferam, hipertrofiam e por fim calcificam do lado da metáfise. A zona hipertrófica é a mais frágil da placa porque é onde as células estão maiores e a matriz entre elas é menor. Ela resiste bem à compressão, que é a força para a qual foi feita, e resiste mal ao cisalhamento, que é a força que a atravessa de lado. A palavra escorregamento descreve exatamente isso: a epífise não se rompe, ela desliza sobre a metáfise ao longo de um plano que já era o plano mais fraco.
Duas coisas acontecem ao mesmo tempo no estirão puberal e o resultado é a doença. A primeira é geométrica: com o crescimento, a fise proximal do fêmur muda de orientação e passa a ficar mais vertical e mais oblíqua, o que aumenta a componente de cisalhamento do peso corporal sobre ela. A segunda é biológica: sob o ambiente hormonal do estirão, a placa alarga e a matriz afrouxa, e o mesmo cisalhamento passa a encontrar menos resistência. Some a isso o peso — a doença incide preferencialmente sobre adolescentes com sobrepeso e obesidade — e o quadro está montado. É por essa via que endocrinopatias entram na história: hipotireoidismo, hipogonadismo e uso de hormônio de crescimento aparecem associados ao escorregamento porque interferem na maturação da placa, e por isso um escorregamento em idade atípica ou bilateral simultâneo justifica pensar em causa endócrina em vez de tratá-lo como acidente mecânico isolado.
A distinção que decide o prognóstico não é de grau, é de estabilidade — e ela não se lê na radiografia, se lê no chão. Chama-se instável o escorregamento em que a criança não consegue apoiar o peso no membro, com ou sem muleta. A definição é comportamental de propósito, porque o que ela mede é se o anel de tecido mole que ainda segurava a epífise no lugar continua íntegro. Enquanto o periósteo e o pericôndrio seguram, o deslocamento é lento, doloroso e vascularmente compensado; quando cedem, o deslocamento passa a ser um evento agudo, com a epífise móvel sobre o colo.
O que o deslocamento agudo ameaça é a irrigação. Depois dos primeiros anos de vida, o suprimento arterial da cabeça femoral vem quase todo por vasos retinaculares que sobem pela superfície do colo, por baixo de uma prega de sinóvia, e entram na epífise pela borda. A contribuição do vaso do ligamento redondo, que existe na criança pequena, torna-se desprezível. Esses vasos correm colados ao osso e são curtos: um deslizamento súbito da epífise sobre o colo os estira e os rasga, e não há circulação colateral que compense. É por isso que a necrose avascular é a complicação temida do escorregamento instável e é rara no estável — e é por isso que a frase operacional deste capítulo é que o apoio precisa parar no minuto em que a suspeita nasce, e não no dia em que o ortopedista atende.
A dor no joelho não é erro do paciente nem manha: é anatomia. A cápsula do quadril e a face medial do joelho recebem ramos sensitivos que vêm dos mesmos níveis medulares, sobretudo por meio do nervo obturatório e de ramos do femoral, e o córtex não distingue a origem quando o estímulo é profundo e mal localizado. A dor referida do quadril se projeta na virilha, na face anteromedial da coxa e na face medial do joelho, e em uma parte dos adolescentes o joelho é o único lugar onde ela é sentida. Daí a regra que dá título a este capítulo, e que vale como reflexo e não como raciocínio: adolescente com dor no joelho tem o quadril examinado no mesmo atendimento, sempre, mesmo que o joelho doa à palpação e mesmo que a radiografia do joelho já esteja pronta.
No outro extremo da faixa etária, o mecanismo é de pressão dentro de uma caixa. A cápsula do quadril é espessa e pouco complacente, e o volume que ela comporta com menos pressão é obtido em flexão, abdução e rotação externa — que é exatamente a posição em que a criança com derrame se coloca sozinha, sem que ninguém a ensine. Qualquer coisa que aumente o líquido dentro dela — uma sinovite pós-viral, uma artrite séptica, o derrame reativo da fase inicial de uma Perthes — produz o mesmo conjunto: dor ao movimento passivo, perda primeiro da rotação interna e da abdução, e postura antálgica. É por isso que o exame do quadril não separa as três: ele diz que a cápsula está distendida, e só. Quem separa é a história, a temperatura, a idade e, quando preciso, a agulha.
Há uma particularidade anatômica do quadril e do ombro que precisa ser dita aqui mesmo que a conduta seja de outro capítulo: nessas duas articulações a metáfise é intracapsular. Um foco de osteomielite metafisária pode romper para dentro da articulação sem atravessar nenhuma barreira nova, e por isso quadril e ombro são os sítios em que infecção óssea e infecção articular andam juntas com mais frequência. Isso não muda o seu exame, muda a sua desconfiança: diante de dor de quadril com febre e sem apoio, trate como articulação infectada enquanto a agulha não disser o contrário — e só a agulha diz. O manejo do osso é do capítulo Osteomielite: hematogênica aguda na criança, crônica no adulto e a do pé diabético, desta apostila; o manejo da articulação é do capítulo Monoartrite aguda e artrite séptica, na apostila de Reumatologia.
A doença de Perthes é uma necrose avascular idiopática da epífise femoral proximal, e o que a torna deformante não é a morte do osso: é a sequência. O núcleo epifisário necrosa, e a partir daí o corpo o reabsorve e o substitui em fases sucessivas — sinovite, necrose, fragmentação, remodelação e sequela. Durante a fragmentação e boa parte da remodelação, a cabeça femoral está mecanicamente mole, e é nesse intervalo que ela assume a forma que vai ter para sempre: se ficar contida dentro do acetábulo, remodela esférica; se subluxar lateralmente, remodela achatada e larga, e a incongruência que sobra vira artrose de quadril no adulto jovem. É esse mecanismo que dá sentido à conduta inicial, que é tirar carga e devolver amplitude, e é ele também que explica por que a rotina brasileira de ortopedia pediátrica manda repetir a radiografia um a dois meses depois de a criança melhorar de uma sinovite transitória: a fase de sinovite de uma Perthes inicial é indistinguível de uma sinovite transitória, e a única coisa que as separa é o tempo.
Como se apresenta de verdade
A queixa que chega é sempre a mesma frase — está mancando, não quer andar, dói a perna — e ela não organiza nada. O que organiza é a idade, e a razão é mecânica antes de ser epidemiológica: as doenças deste capítulo acontecem em estruturas que existem em janelas específicas do crescimento. A fise proximal do fêmur só escorrega enquanto está aberta e frouxa; a cabeça femoral só remodela deformada enquanto é cartilaginosa; a sinóvia do pré-escolar responde a virose de um jeito que a do adolescente não responde.
As faixas usadas aqui são as do artigo brasileiro que estrutura este capítulo: infantil, de um a três anos; escolar, de quatro a dez; adolescente, de onze a quinze. Elas não são fronteiras rígidas e há sobreposição real — a sinovite transitória, por exemplo, é listada na faixa infantil e tem pico entre três e oito anos, cruzando a divisa. Use-as como ordem de leitura da lista, não como corte.
Aprender para cuidar no internato. Examinar o quadril na dor referida ao joelho e diferenciar causas que exigem descarga e intervenção urgentes. Ao discutir o caso com o preceptor, explicite os achados que sustentam a hipótese, uma alternativa relevante, a decisão que precisa ocorrer agora e o que fará mudar o plano. O resultado esperado é uma ação clínica justificada e acompanhada, além de reconhecer o diagnóstico.
Antes da lista: isto é mesmo claudicação?
A marcha da criança não é a do adulto em miniatura. Ela começa com apoio por volta dos doze meses e fica independente por volta dos dezoito, mas o padrão continua imaturo até cerca dos cinco anos e só chega ao padrão adulto por volta dos sete. O andar imaturo tem base alargada, mais flexão de quadris e joelhos, braços afastados do corpo com o cotovelo estendido, e cadência aumentada — a criança pequena não alonga o passo, ela acelera a frequência. Boa parte do que a família chama de "anda torto" nessa idade é isso, e some quando você observa a criança correndo pelo corredor em vez de atravessar a sala sob comando.
Observe descalço, com a perna à mostra até a virilha, num corredor com espaço para pelo menos oito ou dez passos, e observe indo e voltando. Peça para correr, se a criança conseguir. Depois, olhe de trás. O que você quer saber é qual das três marchas está ali.
A antálgica é a mais comum: passos rápidos, fase de apoio encurtada do lado que dói, carga mínima sobre a extremidade dolorosa. Ela responde a dor em qualquer ponto entre a bacia e o hálux, e por isso a marcha antálgica localiza tempo, não lugar — quem localiza o lugar é a mão.
A de Trendelenburg é outra coisa: o tronco pende para o lado do apoio a cada passo, porque o glúteo médio daquele lado não consegue manter a pelve nivelada. Ela aparece quando a alavanca do quadril está alterada — displasia que passou despercebida, coxa vara, sequela de Perthes — e é tipicamente indolor. Confirme pedindo à criança que fique num pé só: se a hemipelve do lado sem apoio cai, o sinal é positivo daquele lado que está apoiando.
A terceira é a marcha em ponta de pé, e ela tem duas leituras. De um lado, encurtamento real do membro, e a criança pisa na ponta para nivelar a bacia; de outro, doença neurológica, e aí ela é bilateral, persistente e vem com hiper-reflexia, clônus ou limitação de amplitude no joelho e no tornozelo. Marcha alterada desde os primeiros passos, ou início de marcha depois dos dezoito meses, muda o problema de categoria: é neurológico até prova em contrário, e a paralisia cerebral branda é a causa que mais passa despercebida porque o desbalanço muscular é pequeno — o reconhecimento dela está em Paralisia cerebral e encefalopatia crônica não progressiva, na apostila de Neurologia Pediátrica.
Uma pergunta encerra a etapa e vale mais que a inspeção: o que a criança deixou de fazer? Parou de subir escada, parou de correr no recreio, voltou a pedir colo, deixou de pedalar. Essa é a medida funcional que a mãe tem e você não tem, e é ela que você vai repetir na reavaliação.
De um a três anos: a criança que não conta
É a faixa mais difícil, e o motivo é simples: a anamnese é toda de terceiros e o exame depende da colaboração de quem não colabora. Some-se a isso o padrão de marcha imaturo, e a chance de discutir se há ou não claudicação antes de discutir a causa é alta.
O que está nesta lista: sinovite transitória, artrite séptica, distúrbios neurológicos — paralisia cerebral branda e distrofia muscular —, displasia do desenvolvimento do quadril que passou despercebida, coxa vara, artrite idiopática juvenil na forma oligoarticular e neoplasia, incluindo osteoma osteoide e leucemia. Trauma não entra aqui porque, nesta faixa, o trauma que produz claudicação sem história é um problema de outra ordem — ver a seção das bandeiras.
Dois pontos práticos. O primeiro: a criança pequena com artrite séptica pode não ter febre alta nem toxemia evidente, e no lactente o quadro se apresenta como irritabilidade, recusa alimentar, letargia e pseudoparalisia do membro — ela simplesmente para de usar a perna. O segundo: a displasia do desenvolvimento do quadril que chegou até aqui sem diagnóstico dá claudicação indolor, com o membro afetado encurtado quando é unilateral, marcha em ponta de pé daquele lado, abdução limitada e adutores tensos; quando é bilateral, dá hiperlordose e marcha anserina. Displasia e escoliose são do capítulo Ortopedia pediátrica: displasia do desenvolvimento do quadril, escoliose e variações fisiológicas do crescimento, desta apostila, e é para lá que vai a criança em que a suspeita se confirma.
De quatro a dez anos: a que passa em dez dias e a que não passa
Aqui a criança colabora, a marcha já é madura o bastante para ser lida, e as duas doenças que dominam a faixa se apresentam de forma quase idêntica na primeira consulta e de forma completamente diferente na terceira semana.
A sinovite transitória do quadril é a causa mais comum de claudicação dolorosa em toda a infância. O quadro é de claudicação leve a moderada, tipicamente depois de um quadro viral respiratório inespecífico de dias antes, com a criança em bom estado geral, febre baixa ou ausente, e — este é o detalhe que discrimina — sem abrir mão das atividades habituais. Ela manca e continua brincando. A dor se arrasta por cerca de sete a dez dias e resolve espontânea e gradualmente; a duração média dos sintomas descrita na literatura brasileira é de dez dias.
A artrite séptica é o contraponto termo a termo: a criança está irritada, pouco colaborativa, com estado geral comprometido, muitas vezes se nega a caminhar, e a mobilização passiva do quadril está francamente mais limitada. Ela adota espontaneamente a posição de Bonnet — flexão, abdução e rotação externa — porque é onde a cápsula distendida dói menos. Febre acima de 38,5 °C medida na boca, ou 37,8 °C na axila pela adaptação brasileira, é preditor positivo importante. A separação à beira do leito e a decisão sobre a agulha estão no bloco de fluxos e tabelas; o manejo, a partir da punção, é do capítulo Monoartrite aguda e artrite séptica, na apostila de Reumatologia.
A doença de Legg-Calvé-Perthes ocupa a mesma faixa e se apresenta devagar. Oitenta por cento dos casos surgem entre quatro e oito anos, e a proporção é de quatro meninos para cada menina. A queixa dominante é a claudicação, não a dor — e, quando há dor, ela aparece na virilha, na coxa ou irradiada para a face medial do joelho, com a mesma anatomia de dor referida do escorregamento. Ao exame pode haver ou não encurtamento, mas o sinal principal é a limitação da rotação interna do quadril. Compare sempre com o lado oposto e meça em graus, porque "limitado" não permite comparar amanhã.
A separação clínica entre sinovite transitória e Perthes inicial não existe: as duas fazem quadril irritável no escolar, e a fase inicial da Perthes é literalmente uma fase de sinovite. Quem separa é o tempo, e por isso a rotina brasileira de ortopedia pediátrica prescreve repetir a radiografia um a dois meses depois de os sintomas desaparecerem. É a única maneira barata de não perder uma Perthes que se apresentou como sinovite.
Nesta faixa aparece também a chamada dor do crescimento, e ela é diagnóstico de exclusão com perfil rígido: dor bilateral nas pernas, só à noite, sem queixa nem claudicação durante o dia, que melhora com massagem e não precisa de medicação. Um item fora desse perfil — dor de um lado só, claudicação diurna, ponto fixo, sintoma matinal, exame alterado — tira o caso do rótulo. E a criança que manca de dia não tem dor do crescimento, por definição.
De onze a dezesseis anos: o joelho que mente
O escorregamento epifisário proximal do fêmur é a doença que mais acomete o quadril do adolescente, e é a única deste capítulo em que o principal obstáculo ao diagnóstico não é o exame — é a topografia da queixa. A duração dos sintomas costuma ser de muitos meses, e a dor é descrita como leve, mas constante, na virilha, na coxa ou no joelho, com claudicação. Em parte dos adolescentes ela é referida exclusivamente ao joelho, e é aí que o percurso do Vasco se repete: o médico examina o joelho, pede radiografia do joelho, recebe um laudo normal, prescreve anti-inflamatório e repouso, e devolve o adolescente à quadra com a epífise escorregando.
Dois biótipos estão mais expostos: o baixo com sobrepeso e o alto e magro. O primeiro é o retrato clássico; o segundo existe e é o que mais escapa. E a associação com hipotireoidismo, hipogonadismo e uso de hormônio de crescimento é o que faz um escorregamento em idade atípica merecer uma pergunta endócrina.
O exame do quadril leva noventa segundos e é onde a doença aparece. Com o adolescente em decúbito dorsal, compare os dois lados: a abdução e, sobretudo, a rotação interna estão limitadas do lado acometido. Depois flexione o quadril lentamente. Se, à medida que o quadril flexiona, a coxa gira espontaneamente para fora e se afasta da linha média sem que você a conduza, o sinal de Drehmann é positivo — e ele é positivo porque a metáfise deslocada colide com a borda do acetábulo e obriga a rotação externa para que a flexão possa continuar. É um sinal que você provoca de graça, sem material, e que aponta para o quadril num adolescente que veio falar de joelho.

A dor pode se apresentar de forma aguda e intensa nas formas instáveis, e nesses casos o prognóstico é pior. Estável e instável separam-se por uma pergunta que você faz de pé, e não por um ângulo que você mede na tela: consegue apoiar o peso, com ou sem muleta? Quem não consegue tem escorregamento instável, e o instável é o que carrega risco de necrose da cabeça femoral.
Duas outras doenças aparecem nesta faixa e cabem no mesmo exame. A condrólise é a necrose da cartilagem articular do quadril, ligada com mais frequência ao próprio escorregamento e ao trauma, mas com casos de causa desconhecida; acomete meninas cinco vezes mais que meninos, entre doze e catorze anos, e a diferença semiológica é que a amplitude está limitada em todas as direções, e não só na rotação interna. E a displasia do desenvolvimento do quadril pode se manifestar só agora, na forma de subluxação, com desconforto após atividade prolongada e exame físico quase normal — nesse caso o diagnóstico é radiográfico e o capítulo é o da ortopedia pediátrica desta apostila. Lesões traumáticas de joelho e as síndromes de sobrecarga do esporte, como Osgood-Schlatter e tendinite patelar, são do capítulo Lesões de ombro e joelho: manguito rotador, lesões ligamentares e meniscais, desta apostila — mas vão para lá depois de o quadril ter sido examinado, não antes.
As quatro bandeiras que suspendem a lista da idade
Quatro achados tiram a criança da fila do raciocínio ortopédico por idade e a colocam numa via própria. Eles se procuram em todas as faixas, antes de qualquer imagem, e é bom que estejam no seu roteiro na mesma ordem sempre.
Febre com recusa de apoio e estado geral comprometido. A criança febril que não anda é urgência, e a hipótese que manda é artrite séptica, com osteomielite atrás dela — lembrando que a metáfise fica dentro da cápsula no quadril e no ombro, e por isso as duas andam juntas. Puncionar, drenar e prescrever o antimicrobiano pertencem ao capítulo Monoartrite aguda e artrite séptica, na apostila de Reumatologia; a infecção do osso pertence ao capítulo de osteomielite desta apostila. O que cabe aqui é reconhecer e acionar hoje.
História que não combina com a lesão. Criança que ainda não andava quando a queixa apareceu, versão que muda entre quem conta, atraso inexplicado em procurar atendimento, lesões em estágios diferentes de cicatrização, equimoses fora de anteparo ósseo. Aqui a linha ortopédica para, e o caminho é o capítulo Violência e maus-tratos infantis: identificação e notificação compulsória (ECA), na apostila de Emergências Pediátricas, que tem a régua da notificação e a condução da rede de proteção. Não é assunto deste capítulo, e a decisão de suspeitar não depende de você ter certeza.
Dor noturna persistente com sinal sistêmico. Palidez, perda de peso, sudorese, febre arrastada, linfonodomegalia, hepatoesplenomegalia, sangramento fácil, massa palpável. A leucemia linfoblástica aguda tem pico entre dois e cinco anos, se apresenta com queixa musculoesquelética em cerca de 20% dos casos, e pode cursar com radiografia normal, cintilografia sem alteração e hemograma pouco alterado na fase inicial. O capítulo Leucemia linfoblástica aguda: sinais de alerta e diagnóstico precoce, na apostila de Oncologia Pediátrica, tem a régua e a advertência sobre não introduzir corticoide antes do mielograma. A suspeita de tumor ósseo primário tem dono — Sinais de alerta para câncer infantil na atenção primária e tumores sólidos (neuroblastoma, tumor de Wilms e retinoblastoma), na apostila de Oncologia Pediátrica, com o sinal, a radiografia e o destino —, e este capítulo guarda o mínimo da porta: dor óssea localizada, fixa, de piora progressiva, que acorda a criança à noite e não cede com analgesia comum, com ou sem massa palpável e com ou sem alteração na radiografia, é encaminhamento prioritário à ortopedia com a radiografia em duas incidências em mãos, e não é caso de "observar por mais um mês".
Recusa completa de apoiar o peso, sem febre e sem trauma. Este é o achado mais subestimado dos quatro, porque a criança não parece doente. Em criança pequena, entra na conta de artrite séptica mesmo sem febre. E, no adolescente, ela tem nome e é a razão de este capítulo existir: escorregamento instável até prova em contrário, com apoio suspenso na hora e telefonema ao ortopedista no mesmo turno.
Os dois extremos que a régua da idade não cobre
As faixas do artigo brasileiro começam em um ano e terminam em quinze, e as duas pontas ficam de fora. Vale dizer isso com todas as letras, porque a criança de fora da faixa chega assim mesmo.
Abaixo da idade da marcha não há claudicação, há pseudoparalisia: o lactente para de usar o membro, chora à manipulação, e a mãe descreve como "não mexe o bracinho" ou "não firma a perna". Nesse cenário, infecção osteoarticular e maus-tratos ocupam o topo da lista, e as duas portas de saída deste capítulo se abrem imediatamente. Investigação de febre sem sinais localizatórios no lactente é do capítulo Febre sem sinais localizatórios no lactente e abordagem da criança febril, na apostila de Emergências Pediátricas.
Acima dos quinze ou dezesseis anos, a fise proximal do fêmur se fecha e o escorregamento deixa de ser possível — mas a sequela dele não, e a dor de quadril do adolescente mais velho passa a ser problema de deformidade residual, de lesão labral e de impacto femoroacetabular. Nenhum desses tem capítulo próprio neste nível, e este capítulo não os assume: o que ele assume é a régua de encaminhamento, que é a mesma — quadril doloroso com limitação de rotação interna vai para o ortopedista com radiografia da bacia em duas incidências.
Uma nota sobre a fise que fecha, porque ela produz uma armadilha real. Na série brasileira de tratamento não cirúrgico, uma das pacientes chegou ao serviço de referência já com a fise fechada — mas a revisão das radiografias iniciais mostrava a fise ainda aberta no momento do diagnóstico original, e o escorregamento tinha progredido no intervalo. Fise fechada hoje não significa que a doença estava fechada quando alguém decidiu esperar.
Como fechar o diagnóstico
A investigação da criança que manca tem um número pequeno de exames e um número grande de maneiras de pedi-los errado. Os três erros que este bloco existe para impedir são pedir a região errada, pedir uma incidência só e ler o exame normal como exame tranquilizador.
A regra de ouro é anterior a tudo: em criança e adolescente com dor no joelho ou na coxa, e sem achado de exame que localize no joelho, o exame de imagem que se pede é da bacia. A radiografia do joelho do adolescente com escorregamento vem normal porque o joelho dele está normal, e o laudo normal é o que devolve o adolescente à quadra.
A radiografia: bacia inteira, duas incidências, escrita assim no pedido
Radiografia de bacia incluindo ambos os quadris: AP e perfil de Lauenstein apenas na apresentação crônica estável, sem piora aguda. Na suspeita de escorregamento agudo ou instável, AP e perfil com raio horizontal (cross-table), sem forçar a posição de rã, em articulação com radiologia e ortopedia. A comparação bilateral e as duas incidências ajudam a reconhecer alterações sutis.
Bacia inteira, e não quadril isolado, porque o lado assintomático é o comparador. Praticamente tudo que este capítulo diagnostica se lê por assimetria: a altura da epífise femoral proximal, a esfericidade e a densidade do núcleo, a largura do espaço articular, a posição da cabeça dentro do acetábulo. Sem o outro lado na mesma imagem, você está comparando com uma memória. E, no escorregamento, o lado assintomático não é só comparador: a bilateralidade descrita chega a 44% numa série brasileira e a até 60% na literatura citada, e o quadril silencioso pode já estar escorregando.
Duas incidências, porque a anteroposterior sozinha perde o escorregamento inicial. O deslizamento da epífise é predominantemente posterior, e uma epífise que deslizou para trás sem deslizar para dentro pode produzir uma anteroposterior de leitura sutil ou ambígua. Na anteroposterior o achado é a assimetria da altura da epífise entre os lados. No perfil de rã, o deslocamento aparece como translação franca e mudança na relação entre o colo e a cabeça femoral — e é a incidência em perfil que a rotina brasileira de ortopedia pediátrica usa para classificar o grau do desvio. Pedir uma só é uma economia que custa o diagnóstico.
Uma leitura auxiliar que vale registrar como leitura nossa, e não como citação de fonte: na anteroposterior, prolongue mentalmente uma linha ao longo da borda superior do colo femoral de cada lado e veja quanto de epífise fica acima dela. Se do lado doente sobra menos epífise acima da linha que do lado são, a epífise escorregou. É um truque de comparação, não um critério publicado, e não substitui o perfil de rã.
Duas ressalvas de execução. A primeira: no escorregamento instável — a criança que não apoia o peso —, a posição de rã exige manipular o quadril, e há preocupação real de que a manipulação agrave o deslocamento. Na suspeita de forma aguda ou instável, obtenha AP e perfil com raio horizontal, sem forçar posição de rã; discuta a execução com radiologia e ortopedia. A segunda: na doença de Perthes inicial, a lise subcondral — o sinal de Caffey, uma linha translúcida abaixo da superfície articular — aparece sobretudo na posição de rã, e é justamente nessa fase que a anteroposterior ainda parece normal. As duas ressalvas apontam para a mesma conclusão: a incidência em rã é a que mais informa e é a que exige mais critério para ser pedida.
Nas fases mais tardias de Perthes, a radiografia deixa de ser sutil: colapso e fragmentação da epífise femoral proximal, com zonas densas entremeadas por zonas radiolúcidas, e redução da altura do núcleo ósseo. Nesse ponto o diagnóstico não é o problema; o problema é o tempo que se levou até fazê-lo.
O que a radiografia normal não exclui
Esta é a seção que muda mais condutas, porque a maioria dos erros deste capítulo não é de exame não pedido: é de exame normal lido como negativo.
Não exclui doença de Perthes inicial. A necrose precede a alteração radiográfica, e nas primeiras semanas a radiografia pode ser normal ou mostrar apenas a lise subcondral na posição de rã. É por isso que a rotina brasileira de ortopedia pediátrica manda repetir a radiografia um a dois meses depois do desaparecimento dos sintomas de uma sinovite transitória: o objetivo declarado é descartar Perthes, e ele só é atingível com a segunda imagem.
Não exclui artrite séptica. A radiografia simples do quadril pode mostrar aumento do espaço articular e borramento da gordura periarticular, mas essas alterações traduzem distensão capsular e são comuns à artrite séptica e à sinovite transitória — não separam uma da outra. O papel da radiografia aqui não é confirmar infecção, é excluir fratura, tumor e lesão óssea evidente.
Não exclui osteomielite. O osso só denuncia a infecção depois de perder entre um terço e metade da densidade local, e isso leva de dez a vinte e um dias. Este número e o manejo que decorre dele são do capítulo Osteomielite: hematogênica aguda na criança, crônica no adulto e a do pé diabético, desta apostila; o que importa aqui é a consequência para a leitura: numa criança febril que não apoia o pé, radiografia normal na primeira semana é o resultado esperado, e não uma boa notícia.
Não exclui leucemia nem osteoma osteoide. Na leucemia, radiografia, cintilografia e exames laboratoriais iniciais podem todos ser inconclusivos, com elevação inespecífica da velocidade de hemossedimentação e da contagem de leucócitos. No osteoma osteoide, o exame clínico é pobre, a dor à palpação não é usual, a dor é predominantemente noturna e a lesão pode passar despercebida na radiografia — a melhora importante com salicilato é o dado que aumenta a suspeita, e a cintilografia é o exame sensível para localizar.
Não exclui o escorregamento pré-deslizamento. Antes de a epífise deslizar, existe uma fase em que a fise está alargada e irregular sem translação mensurável, e o adolescente já tem dor. Se a clínica é convincente — dor de quadril, coxa ou joelho, rotação interna limitada, sinal de Drehmann presente — e a radiografia não fecha, o caminho não é liberar: é discutir com o ortopedista e manter a restrição de carga até a discussão acontecer.
A ultrassonografia: responde uma pergunta, e só uma
A ultrassonografia do quadril responde se há derrame articular. É bom nisso, é rápido, não irradia e não exige sedação. O que ela não faz é dizer de que é o derrame: ela detecta líquido em quase toda criança com quadril irritável, seja a causa uma sinovite transitória, uma artrite séptica ou a fase de sinovite de uma Perthes. O achado é sensível e inespecífico, e essa combinação define exatamente para que ele serve.
O uso que faz sentido é o de porta de saída, não de porta de entrada. No fluxograma brasileiro, a ultrassonografia entra na criança com pontuação baixa: se não há derrame, a artrite séptica de quadril fica muito improvável e a criança segue como sinovite transitória, em observação domiciliar; se há derrame, a criança vai para punção. Esse desenho aproveita a sensibilidade do exame e ignora a especificidade que ele não tem, o que é o uso correto de um exame sensível.
Onde ela também presta é como guia da agulha. O quadril é profundo e a punção à beira do leito é pouco confiável nele — punção seca não significa ausência de líquido, significa com frequência agulha no lugar errado, coleção loculada ou derrame pequeno em cavidade tensa. Punção de quadril na criança se faz com orientação por imagem, e quem a executa não é o interno.
E há o serviço em que ela simplesmente não existe no sábado. Nesse caso a ultrassonografia não pode virar a razão para adiar a decisão: a criança com pontuação alta vai para punção de qualquer maneira, e a criança com pontuação baixa e exame tranquilizador vai para casa com retorno marcado e com a família sabendo o que faz voltar antes. O exame que falta muda o intervalo do retorno, não o destino.
O sangue: quatro exames, nenhum decisivo sozinho
Hemograma com contagem diferencial, velocidade de hemossedimentação e proteína C reativa são os três que entram na decisão, e a hemocultura é o quarto, que não decide hoje mas define o tratamento de amanhã se a criança for internada. Nenhum deles isoladamente é conclusivo para artrite séptica — a exceção que a literatura brasileira registra é a bacterioscopia e a cultura do líquido articular, que são de outra natureza.
Na sinovite transitória, os três costumam estar normais ou minimamente alterados. Na artrite séptica, o padrão descrito é leucocitose acima de 12.000 células por milímetro cúbico, velocidade de hemossedimentação acima de 50 mm/h e proteína C reativa acima de 1 mg/dL, com hemocultura positiva em 30% a 50% dos casos.
A proteína C reativa é o melhor preditor independente entre os três, e o dado prático que vale decorar é o valor negativo: proteína C reativa abaixo de 1 mg/dL corresponde a uma probabilidade de cerca de 87% de a criança não ter artrite séptica. Oitenta e sete por cento não é exclusão. Numa criança que não apoia o pé e tem febre, treze por cento de chance residual é motivo para punção, não para alta — o exame desloca probabilidade e não fecha porta.
Uma advertência sobre o hemograma que vale para as duas pontas. A leucometria normal não afasta nada: na leucemia dominada por dor óssea, o hemograma costuma vir dentro da normalidade ou quase, sem que apareçam blastos na periferia. E a leucocitose isolada não confirma nada: ela sobe em virose banal, que é justamente o antecedente da sinovite transitória.
Sobre a interpretação do líquido articular, quando ele existir: os limiares publicados no Brasil divergem entre si, e a divergência está medida com a conta no bloco de fluxos e tabelas. A conduta a partir do líquido — quando drenar, com que esquema empírico, por quanto tempo — é do capítulo Monoartrite aguda e artrite séptica, na apostila de Reumatologia, que traz também a leitura da celularidade como deslocamento de probabilidade e a variação do escore de Kocher entre estudos.
Quem punciona, e por que o interno não punciona quadril
A punção do quadril na criança é o exame que decide entre observar e operar, e é também o único deste capítulo que não se improvisa. Ela se faz sob orientação por imagem e, na suspeita alta, em centro cirúrgico — não porque a agulha exija sala, mas porque a criança que pontua alto vai precisar de drenagem na mesma anestesia se o líquido vier purulento.
O papel do interno é anterior e é decisivo: reconhecer que a punção está indicada, acionar quem a faz, e garantir que a coleta anteceda a primeira dose de antimicrobiano. Cultura colhida antes do antimicrobiano cresce; colhida depois, costuma não crescer nada — e sem crescimento não há nome de bactéria, não há antibiograma e ninguém terá coragem de estreitar o esquema depois.
O que se pede no material, quando ele sair: contagem de células com diferencial, bacterioscopia pelo método de Gram e cultura. Glicose e proteína do líquido comparadas às séricas e lactato entram como apoio. Peça também hemocultura, na mesma punção venosa, antes da primeira dose.
E registre a decisão por escrito, com o que a sustenta: pontuação obtida, temperatura axilar medida, se apoia ou não o peso, resultado dos três exames de sangue, presença ou ausência de derrame na ultrassonografia. É esse registro que permite ao plantão seguinte saber se a criança melhorou ou se apenas mudou de médico.
O que não se pede na porta, e o que não se deixa de pedir
A ressonância magnética detecta mais — inclusive redução de perfusão da cabeça femoral — e não é exame de porta na criança pequena: exige sedação ou anestesia e frequentemente não está disponível, ainda mais no fim de semana. Ela entra depois, por indicação do especialista, e não deve ser o motivo de a decisão de hoje ficar para segunda-feira.
A cintilografia óssea tem uso restrito e leitura em duas fases na infecção — captação baixa no início, por redução de fluxo, e padrão quente depois. Leucócitos marcados com gálio ou índio resolvem casos atípicos, mas dão resultado só em 48 a 72 horas, o que os coloca fora da janela de uma decisão que precisa ser tomada hoje. A cintilografia tem lugar real na suspeita de osteoma osteoide e na criança pequena em que não se consegue localizar o lado.
A tomografia computadorizada não entra na avaliação inicial do quadril irritável e não deve ser pedida como "radiografia melhor": ela irradia muito mais, não responde a pergunta da infecção e não acrescenta ao escorregamento o que o perfil de rã já mostra.
E o exame que não se deixa de pedir é a radiografia de bacia do adolescente que veio falar de joelho. Se você fizer uma única mudança de comportamento a partir deste capítulo, que seja essa: o pedido de radiografia de joelho num adolescente com dor no joelho e exame de joelho pobre sai acompanhado do pedido de bacia em anteroposterior e perfil de rã, na mesma requisição, no mesmo dia.
Fluxos, tabelas e a conferência das contas
Quatro tabelas e uma sequência de decisão. A primeira tabela é a lista por idade, que é o esqueleto do raciocínio. A segunda reproduz o fluxograma brasileiro de diferenciação entre artrite séptica e sinovite transitória exatamente como ele foi publicado, porque é a régua que existe — e as notas de auditoria dizem, com a conta, onde ele não fecha. A terceira converte as doses deste capítulo em mililitros e comprimidos reais da Rename 2024. A quarta põe lado a lado o que cada documento brasileiro decide sobre a epifisiólise, e é a que mais surpreende.
Como usar quadros e notas de fontes anteriores. Notas que transcrevem doses, prazos ou exigências de documentos antigos registram o conteúdo dessas fontes; não substituem a conduta clínica atualizada e individualizada neste capítulo. Separar indicação, dose, contraindicações, monitorização e acesso. Se houver divergência entre o documento histórico e a recomendação atual, discutir o protocolo vigente com a equipe antes de executar.
- 11. A criança apoia o peso? Se não apoia, o problema é de hoje, qualquer que seja a idade. Não mande para casa antes de excluir infecção (com febre) e escorregamento instável (no adolescente).
- 22. Tem febre? Meça na axila, aqui, e escreva o número. Febre com recusa de apoio é artrite séptica até prova em contrário e sai deste capítulo para o de monoartrite aguda e artrite séptica.
- 33. A história combina com a lesão, e a criança já andava quando isso começou? Se não, pare a linha ortopédica e vá para o capítulo de violência e maus-tratos infantis.
- 44. Tem dor noturna persistente com palidez, perda de peso, massa, linfonodomegalia ou sangramento? Hemograma com diferencial hoje e caminho oncológico; nada de corticoide antes do mielograma.
- 55. Passadas as quatro perguntas, use a idade para ordenar a lista e faça o exame do quadril nos dois lados: rotação interna, abdução, flexão com atenção à rotação externa espontânea.
- 66. Radiografia de bacia incluindo ambos os quadris: AP e perfil de Lauenstein apenas na apresentação crônica estável, sem piora aguda. Na suspeita de escorregamento agudo ou instável, AP e perfil com raio horizontal (cross-table), sem forçar a posição de rã, em articulação com radiologia e ortopedia. A dor pode ser referida ao joelho; suspender carga desde a suspeita e acionar ortopedia urgentemente.
- 77. Quadril irritável febril no pré-escolar: pontue os seis critérios do fluxograma brasileiro. Quatro ou mais vai para punção guiada em centro cirúrgico; menos de quatro vai para ultrassonografia.
- 88. Escorregamento confirmado ou fortemente suspeito: suspenda o apoio agora, não libere para casa andando, e telefone ao ortopedista no mesmo turno.
- 99. Sinovite transitória presumida com alta para casa: anti-inflamatório, repouso relativo, retorno marcado, critérios de retorno imediato por escrito — e radiografia de controle um a dois meses depois de os sintomas sumirem, para descartar Perthes.
- 1010. Nenhum diagnóstico fechado e criança que segue mancando: o prazo é o da doença que você presumiu. Sinovite transitória dura em média dez dias; passou disso, a presunção caiu.
A idade ordena a lista — e as bandeiras a suspendem
| Faixa | O que domina | O que não pode passar | A pergunta que mais rende |
|---|---|---|---|
| Antes de andar (até ~12-18 meses) | Não há claudicação: há pseudoparalisia — a criança para de usar o membro | Infecção osteoarticular e maus-tratos; no lactente, artrite séptica pode vir sem febre alta, com irritabilidade, recusa alimentar e letargia | Ela já usava esse membro do mesmo jeito na semana passada? |
| 1 a 3 anos (infantil) | Sinovite transitória; padrão de marcha imaturo confundido com claudicação | Artrite séptica; displasia do quadril que passou; leucemia (pico entre 2 e 5 anos); paralisia cerebral branda | O que ela deixou de fazer nos últimos dias? |
| 4 a 10 anos (escolar) | Sinovite transitória (pico entre 3 e 8 anos, causa mais comum de claudicação dolorosa da infância) e doença de Perthes (80% entre 4 e 8 anos, 4 meninos para 1 menina) | Artrite séptica; Perthes que se apresenta como sinovite e só se revela na radiografia de controle; tumor ósseo com dor noturna fixa | Ela deixou de brincar, ou manca brincando? Quem manca brincando quase sempre tem sinovite |
| 11 a 16 anos (adolescente) | Escorregamento epifisário proximal do fêmur — a doença que mais acomete o quadril nessa idade | Perder o escorregamento porque a dor está no joelho; e perder a forma instável, que é a que necrosa a cabeça femoral | Consegue apoiar o peso? E: a rotação interna deste quadril é igual à do outro? |
O fluxograma brasileiro de artrite séptica × sinovite transitória, como foi publicado (Acta Ortop Bras, 2011)
| Critério | Corte publicado | Onde o documento o classifica | Pontos |
|---|---|---|---|
| Não apoia o membro | Presente ou ausente | Clínico | +1 |
| Febre | Temperatura axilar acima de 37,8 °C | Clínico | +1 |
| Proteína C reativa | Acima de 2 mg/dL | Laboratorial | +1 |
| Velocidade de hemossedimentação | Acima de 40 mm/h | Laboratorial | +1 |
| Leucocitose | Acima de 12.000 células por mm³ | Imagem — é assim que a tabela publicada o classifica; ver nota 1 | +1 |
| Espaço articular na radiografia | Aumentado em pelo menos 2 mm em relação ao lado oposto | Imagem | +1 |
| Destino conforme a soma | 4 ou mais: punção em centro cirúrgico. Menos de 4: ultrassonografia — com derrame, punção; sem derrame, sinovite transitória em observação domiciliar | Fluxograma (Figura 1) | — |
Conversão mg ↔ mL ↔ comprimido nas apresentações reais da Rename 2024
| Fármaco e apresentação (Rename 2024) | Dose por peso | Criança de 20 kg (escolar de ~6 anos) | Adolescente de 60 kg |
|---|---|---|---|
| Ibuprofeno suspensão oral 50 mg/mL — Componente Básico | 5 a 10 mg/kg por dose, de 6/6 h ou 8/8 h | 100 a 200 mg por dose = 2,0 a 4,0 mL. A 10 mg/kg de 8/8 h, 600 mg/dia = 30 mg/kg/dia | Volume inviável em suspensão (12 mL por dose): usar comprimido |
| Ibuprofeno comprimido 200, 300 e 600 mg; cápsula 600 mg — Componente Básico | Mesma faixa por peso, arredondando para a apresentação | Comprimido de 200 mg = exatamente 10 mg/kg nesta criança | 600 mg por dose de 8/8 h = 10 mg/kg por dose |
| Dipirona solução oral 500 mg/mL — Componente Básico (20 gotas = 1 mL = 500 mg; 1 gota = 25 mg) | 10 a 25 mg/kg por dose, de 6/6 h | 200 a 500 mg = 8 a 20 gotas (0,40 a 1,00 mL) | 25 mg/kg dariam 1.500 mg por dose — acima do teto usual de 1 g por dose no adulto; ver nota 10 |
| Paracetamol solução oral 200 mg/mL — Componente Básico | 10 a 15 mg/kg por dose, de 6/6 h, teto pediátrico usual de 75 mg/kg/dia | 200 a 300 mg = 1,0 a 1,5 mL; teto diário de 1.500 mg | 900 mg por dose; o teto por peso daria 4.500 mg/dia, acima do teto adulto de 4 g — ver nota 10 |
O que cada documento brasileiro decide sobre a epifisiólise e sobre o quadril da criança
| Documento | O que diz | Destino que a regra produz |
|---|---|---|
| Protocolos de encaminhamento da atenção básica para a atenção especializada, Volume III — Reumatologia e ortopedia (MS/UFRGS, 2016, versão preliminar) | Não menciona epifisiólise, sinovite transitória nem Perthes. As duas seções são rotuladas 'adulto' no próprio sumário | Nenhum: a criança que manca não tem entrada |
| Protocolos de encaminhamento — Volume 4, Ortopedia adulto (MS/UFRGS, 2022) | Mesma ausência, agora com o recorte no título: dez protocolos, todos de adulto | Nenhum: a edição definitiva estreitou o escopo em vez de acrescentar a criança |
| Protocolos de acesso ambulatorial: consultas especializadas — Hospitais Federais no Rio de Janeiro (MS, 2015) | Epifisiólise aparece só na tabela de Ortopedia (adulto), com o critério 'encaminhar os pacientes com queixas frequentes e persistentes que não melhoram após tratamento inicial' e a restrição, numa das unidades, a maiores de 16 anos. A tabela de Ortopedia pediátrica tem cinco linhas e nenhuma delas é epifisiólise | Consulta ambulatorial condicionada à falha de tratamento prévio, numa doença cuja falha se mede em graus de deformidade |
| Protocolo de Regulação Ambulatorial — Ortopedia (SMS do Rio de Janeiro, 2022) | 'Epifisiólise dolorosa com exame de imagem sem resposta ao tratamento inicial na APS — avaliar Vaga Zero'; e, na priorização, epifisiólise dolorosa está na faixa vermelha. Mas a lista de encaminhamento imediato por Vaga Zero tem nove itens e nenhum deles é a epifisiólise | Faixa vermelha de uma fila ambulatorial — que não é o mesmo que emergência hoje |
| Portaria GM/MS nº 8.041/2025, republicada em 21/01/2026 | Não menciona epifisiólise. Menciona a doença de Legg-Calvé-Perthes uma única vez, entre as indicações de osteotomia da pelve no rol de procedimentos que autorizam uso de tecido musculoesquelético | A única aparição federal de Perthes em norma vigente trata da sequela, não da doença |
1. O contador de leucócitos está classificado como exame de imagem. Na Figura 1 do fluxograma brasileiro, a tabela de pontuação é organizada em três grupos — Clínico, Laboratorial e Imagem —, com dois critérios em cada. No grupo Imagem estão 'Leucocitose acima de 12.000 células por mm³' e 'espaço articular aumentado em pelo menos 2 mm'. Leucometria é hemograma. O erro é de diagramação e não muda a pontuação de ninguém, mas muda o que o leitor apressado conclui sobre quais exames precisa ter à mão: quem lê a coluna e não a linha entende que precisa de dois exames de imagem e de dois laboratoriais, quando precisa de três laboratoriais e de um de imagem.
2. São seis critérios e o corte é 4 — mas o '>90%' que justifica o corte veio de estudos com quatro ou cinco critérios. O texto do artigo diz, com essas palavras, que a exigência de quatro fatores preditivos foi escolhida por ser 'uma espécie de denominador comum na maioria dos estudos' e por apresentar 'resultados superiores a 90% de probabilidade de ser artrite séptica'. Confira nos números da Tabela 1 do próprio artigo: em Kocher (1999) os 4 critérios são de um total de 4, e 4 de 4 dá 99,6%; na revalidação de 2004, 4 de 4 dá 93%; em Caird (2006) há 5 critérios, e 4 de 5 dá 93,1%, com 5 de 5 em 97,5%; em Jung (2003) há 5 critérios, e 4 de 5 dá de 84,8% a 97,3%. Em nenhum deles 'quatro' significa quatro entre seis. Marcar 4 pontos num escore de 6 é um estado de evidência estritamente mais fraco do que marcar 4 num escore de 4, porque sobram dois critérios negativos. A probabilidade de 90% não é transferível, e o fluxograma não a recalcula.
3. A tabela do fluxograma contradiz o texto corrido do mesmo artigo quanto à proteína C reativa. Na Figura 1, o critério pontua com PCR acima de 2 mg/dL. No corpo do artigo, três parágrafos antes, o padrão laboratorial da artrite séptica é descrito como 'proteína C reativa elevada acima de 1 mg/dL', e a Tabela 1 registra que Levine (2003) achou que PCR abaixo de 1 mg/dL corresponde a 87% de probabilidade de não ter artrite séptica. A consequência é mensurável: uma criança com PCR de 1,5 mg/dL soma zero ponto pela régua da figura, enquanto o texto do mesmo artigo classifica esse valor como elevado e compatível com artrite séptica. Num escore de seis pontos com corte em quatro, um ponto pode ser a diferença entre punção e ultrassonografia.
4. A conversão de temperatura oral para axilar confere, com uma folga de 0,2 °C para o lado seguro. Os estudos de origem mediram febre pela boca, com corte em 38,5 °C, e os autores brasileiros trocaram por temperatura axilar porque a oral não é aferida na maioria dos serviços ortopédicos do país — decisão declarada e correta. Medida na axila, a temperatura fica tipicamente meio grau abaixo da medida na boca, o que põe o equivalente em 38,0 °C. O corte adotado foi 37,8 °C, isto é, 0,2 °C mais baixo. A direção do erro é a segura: um corte mais baixo classifica mais crianças como febris, aumenta a sensibilidade e reduz a especificidade — e, num escore cujo objetivo é não perder artrite séptica, é para esse lado que se erra de propósito. Esta é uma conferência que deu certo, e vale registrá-la junto com as que não deram.
5. A fração de polimorfonucleares atribuída à artrite séptica no sangue não discrimina nada. O artigo descreve como achado laboratorial frequente da artrite séptica a 'leucocitose sérica superior a 12.000 células por mm³ (40-60% de polimorfonucleares)'. Uma proporção de 40% a 60% de polimorfonucleares é a faixa habitual de um hemograma de criança saudável: o número descreve o normal e é apresentado como característica da doença. Quem usar essa fração como confirmação vai confirmar em toda criança. Os outros dois parâmetros do mesmo parágrafo — velocidade de hemossedimentação acima de 50 mm/h e proteína C reativa elevada — fazem o trabalho que a fração de polimorfonucleares não faz.
6. Os limiares de celularidade do líquido articular divergem entre dois artigos do mesmo grupo, e a faixa entre eles não pertence a classe nenhuma. O artigo de atualização de 2009 descreve, no aspirado, 5.000 a 15.000 células com menos de 25% de polimorfonucleares na sinovite transitória e 80.000 a 200.000 com mais de 75% na artrite séptica. O fluxograma de 2011, do mesmo serviço e com autor sênior comum, usa como critério de positividade da punção a contagem acima de 50.000 células. Duas consequências, e as duas são de beira de leito. Primeira: a faixa de 15.001 a 79.999 células não é descrita por nenhuma das duas classes do artigo de 2009 — e é exatamente a faixa em que a dúvida clínica é maior. Segunda: uma criança com 60.000 células é artrite séptica pelo fluxograma de 2011 e não pertence a nenhuma das duas categorias do artigo de 2009. O mesmo vale para a fração de polimorfonucleares: menos de 25% é sinovite, mais de 75% é artrite, e os cinquenta pontos percentuais entre os dois não estão descritos.
7. As duas frequências que o fluxograma cita não são comensuráveis, e a divisão entre elas é ilustração e não taxa. O artigo registra que o risco de uma criança ter ao menos um episódio de sinovite transitória do quadril é de 3%, e que a artrite séptica atinge quatro em cada dez mil crianças com menos de treze anos nos Estados Unidos, com o quadril respondendo por 40% dos casos — ou seja, 1,6 quadril séptico por dez mil crianças. Dividir 3% por 0,04% dá 75, mas 3% é risco acumulado ao longo de anos e 4 em 10.000 é incidência de um período: a razão serve para dizer que a sinovite é ordens de grandeza mais comum, e não serve para dizer 'setenta e cinco vezes'. Registramos a conta e a sua limitação porque a ordem de grandeza é o que explica a direção do erro clínico.
8. O nível de significância declarado na série brasileira de tratamento não cirúrgico está errado por um fator de dez. O artigo escreve: 'Adotou-se o nível de 5% (0,005) para aplicação dos testes de significância'. Cinco por cento é 0,05, não 0,005. O texto é internamente contraditório numa única frase e o leitor não sabe qual dos dois valores foi usado no programa estatístico. Nenhum dos valores de p reportados no artigo está entre 0,005 e 0,05, de modo que a conclusão não muda — mas a frase, como está, não permite reproduzir a análise.
9. Três percentuais da mesma frase desse artigo estão calculados sobre um denominador que a própria frase não usa. O texto diz: 'Dos 24 quadris inicialmente enquadrados como leves ou moderados na radiografia inicial, houve piora do escorregamento em nove (37,5%) [...] sendo que entre os 18 casos leves, quatro (16,6%) progrediram para moderado e um (4,15%), para grave. Dos inicialmente moderados, quatro (16,6%) evoluíram para grave.' Confira: 9 de 24 é 37,5% e está certo. Mas 4 de 18 é 22,2%, e não 16,6%; 1 de 18 é 5,6%, e não 4,15%; 4 de 6 é 66,7%, e não 16,6%. Os três números publicados são 4/24 (16,67%), 1/24 (4,17%) e 4/24 de novo: os percentuais ficaram no denominador 24 enquanto a frase mudou para 18 e para 6. O efeito prático é grande — a progressão real dos escorregamentos moderados é de dois terços, e o artigo a publica como um sexto.
10. O resumo do mesmo artigo conta 21 quadris num estudo de 26. O resumo diz que, dos quadris com escorregamento leve, 'oito permaneceram leves, quatro progrediram para moderados e um tornou-se grave', o que soma 13 quadris leves. O corpo do artigo diz que 18 dos 26 quadris (69,2%) foram classificados como leves na radiografia inicial — e 18 menos 4 menos 1 é 13, de modo que o número que deveria estar no resumo é treze, e não oito. Somando o resumo como publicado: 13 leves mais 6 moderados mais 2 graves dá 21, e faltam 5 dos 26 quadris. Somando com a correção: 18 mais 6 mais 2 dá 26, e fecha. Quem para no resumo, como faz a maior parte dos leitores, recebe um estudo cinco quadris menor do que ele é.
11. Duas leituras do mesmo desfecho aparecem em parágrafos vizinhos e medem coisas diferentes. A progressão de 19 quadris em 26 (73,08%, e o artigo escreve 73%) é progressão angular, obtida comparando o ângulo epifisiodiafisário de Southwick entre as duas radiografias. A progressão de 9 quadris em 24 (37,5%) é mudança de categoria da mesma classificação. As duas estão corretas e não são substituíveis. Se você citar o trabalho, diga qual das duas está citando. Conferências que fecharam, e que vale registrar: 18 mais 6 mais 2 dá 26; 18/26 é 69,23% (publicado 69,2%); 6/26 é 23,08% (publicado 23%); 19/26 é 73,08% (publicado 73%); 35/401 é 8,73% (publicado 8,7%); 18/401 é 4,49% (publicado 4,5%). O único arredondamento fora do padrão é 2/26, que é 7,69% e foi publicado como 7,8% — provavelmente para que a soma fechasse 100,0%.
12. Uma frase do mesmo artigo troca a palavra 'quadris' por 'pacientes', e a conta só fecha depois da troca. O texto diz: 'Entre os 18 pacientes, três quadris (16,7%) eram acometidos do lado esquerdo, sete (38,9%) à direita e oito (44,4%) bilateralmente, perfazendo um total de 26 quadris.' Se os três, sete e oito fossem quadris, os percentuais seriam sobre 26 e dariam 11,5%, 26,9% e 30,8%. Os percentuais publicados são 3/18, 7/18 e 8/18 — pacientes. E a conta de quadris fecha com pacientes: 3 mais 7 mais duas vezes 8 dá 26. É erro de palavra, não de número, e vale citar porque, mal lido, ele muda a bilateralidade de 44,4% dos pacientes para 30,8% dos quadris.
13. A rotina brasileira de ortopedia pediátrica define 'agudo' de duas maneiras incompatíveis na mesma página. A seção do escorregamento manda 'estabelecer se o desvio é agudo ou crônico (mais que 2 semanas)', o que fixa o agudo em até quatorze dias. Duas observações abaixo, o mesmo texto registra que 'atualmente existe tendência de considerar agudos apenas os escorregamentos em fase bastante inicial (poucos dias ou até mesmo menos de 24 h)'. Entre quatorze dias e vinte e quatro horas há um fator de quatorze, e a classificação em agudo, crônico e agudo sobre crônico é o que orienta a escolha da técnica cirúrgica. Para o interno a consequência é indireta e mesmo assim útil: ao telefonar para o ortopedista, informe há quantos dias os sintomas mudaram de padrão, e não se o caso 'é agudo'.
14. A tabela de Ortopedia pediátrica do Ministério da Saúde tem cinco linhas e um único critério, copiado igual em todas. No documento federal de 2015, as cinco linhas são deformidades de membros inferiores, pé torto congênito, artrogripose, fratura (exceto de coluna) e sequela de fratura. As cinco trazem, palavra por palavra, o mesmo critério de encaminhamento: 'Encaminhar os pacientes com queixas frequentes e persistentes que não melhoram após tratamento inicial'. Duas linhas ficam sem sentido com esse critério. Pé torto congênito é tratado por gessos seriados iniciados nas primeiras semanas de vida, e esperar que a queixa persista é perder a janela; e 'Fratura, exceto de coluna' recebe prioridade P0 — a mais alta da tabela — ao lado de um critério que manda esperar a falha do tratamento inicial. Prioridade e critério puxam para lados opostos dentro da mesma linha. Nenhuma das cinco linhas é epifisiólise, sinovite transitória, artrite séptica, Perthes ou displasia do quadril: a criança que manca não tem entrada na tabela pediátrica.
15. No mesmo documento federal, a epifisiólise só existe na tabela de adulto — e com uma restrição etária que exclui quem tem a doença. Ela aparece na seção Quadril da Ortopedia (adulto), com a observação 'HFI: somente pacientes acima de 16 anos' e com o mesmo critério da linha de artrose de quadril logo acima: 'encaminhar os pacientes com queixas frequentes e persistentes que não melhoram após tratamento inicial'. O escorregamento acontece com a fise aberta, na série brasileira entre nove anos e dez meses e quinze anos e oito meses, com média de doze anos e sete meses — inteiramente abaixo do corte de 16 anos daquela unidade. E não há tratamento inicial na atenção básica cuja falha se deva esperar: o tratamento do escorregamento é a fixação cirúrgica, e a série brasileira mostra o que acontece quando se espera — 73% dos quadris progrediram angularmente, com 26 a 402 dias entre a radiografia que já mostrava o escorregamento e a cirurgia.
16. O protocolo municipal do Rio de Janeiro de 2022 diz duas coisas sobre a epifisiólise, e elas apontam para destinos diferentes. Na lista de indicações de Quadril, o item 4 é 'Epifisiólise dolorosa com exame de imagem sem resposta ao tratamento inicial na APS — avaliar Vaga Zero'. Na priorização por cores, 'epifisiólise dolorosa' está na faixa VERMELHA. Mas a faixa vermelha é a prioridade mais alta de uma fila ambulatorial regulada, e não é a via de emergência. A via de emergência do próprio documento é a lista de encaminhamento imediato por Vaga Zero, que tem nove itens: traumas recentes com suspeita de lesão grave; perda de força rápida e progressiva documentada; fenômeno de Lhermitte; suspeita de dor de origem vascular aguda; dor aguda e intensa refratária ao tratamento na atenção primária; osteomielites, artrite séptica e outras infecções não manejáveis ambulatorialmente; prejuízo rápido e progressivo na marcha; suspeita de compressão de cone medular ou cauda equina; e rupturas tendíneas agudas. A epifisiólise não está entre os nove. E o mesmo documento determina, na lista do que não necessita de encaminhamento, que 'pacientes com quadros agudos, sem indicação de Vaga Zero, devem ser conduzidos na APS'. Lidas juntas, as três passagens conduzem um escorregamento agudo à atenção primária. O item 7 da lista de emergência — prejuízo rápido e progressivo na marcha — é defensável como porta de entrada para o escorregamento instável, e é honesto dizer isso; mas ele exige que o médico da porta faça a tradução que o documento não faz.
17. A régua da conversão de dose tem dois pontos em que a dose por peso passa por cima do teto do adulto, e o adolescente obeso deste capítulo é justamente quem chega lá primeiro. Paracetamol: o teto pediátrico usual de 75 mg/kg/dia dá 4.500 mg num adolescente de 60 kg, acima do teto adulto de 4 g/dia — a conta mostra que, a partir de aproximadamente 53,3 kg, quem manda é o teto do adulto e não o teto por peso. Dipirona: 25 mg/kg por dose dá 1.500 mg num adolescente de 60 kg, acima do 1 g por dose que se usa no adulto; 1 g nesse adolescente corresponde a 16,7 mg/kg. Regra prática, e ela vale para toda prescrição pediátrica por quilo: calcule por peso, calcule o teto do adulto, e prescreva o menor dos dois.
18. O elenco do SUS: o que existe para prescrever aqui, e o que ficou de fora. Conferido por busca exata sobre o texto normalizado, apresentação por apresentação: ibuprofeno consta com cinco apresentações, incluindo a suspensão oral de 50 mg/mL, todas no Componente Básico; dipirona consta com comprimido de 500 mg, solução oral e solução injetável de 500 mg/mL, Componente Básico; paracetamol consta com solução oral de 200 mg/mL e comprimido de 500 mg, Componente Básico; naproxeno consta, mas no Componente Especializado. Fora do elenco: oxacilina e cefalotina não constam da Rename 2024 — e as duas são exatamente o que a rotina brasileira de ortopedia pediátrica de 2010 prescreve como esquema empírico da artrite séptica da criança. Clindamicina consta em cápsula de 150 e 300 mg pelo Componente Básico, e o índice não devolve apresentação injetável. A conduta antimicrobiana da artrite séptica é do capítulo Monoartrite aguda e artrite séptica, na apostila de Reumatologia, e é lá que essa checagem tem consequência; aqui ela serve para uma coisa só: não copiar dose de rotina de serviço sem conferir o que o seu serviço tem.
A conduta, hora a hora
A conduta deste capítulo tem pouca farmacologia e três decisões que valem mais que qualquer prescrição: se a criança pode apoiar o pé, quem precisa ser chamado hoje e quando ela volta. As três se tomam com o que existe numa unidade de pronto atendimento de sábado.
Uma advertência de escopo antes da linha do tempo. A partir do momento em que a decisão é puncionar, drenar ou prescrever antimicrobiano, a condução é do capítulo Monoartrite aguda e artrite séptica, na apostila de Reumatologia — inclusive o esquema empírico por quilo, a duração e a decisão sobre lavagem articular. O que segue abaixo é o que acontece antes disso e ao lado disso.
Não provocar a incapacidade para classificá-la. Se há suspeita de escorregamento epifisário, suspender carga imediatamente e usar história da capacidade prévia, sem pedir marcha de teste. Na suspeita de forma instável, não forçar posição de rã; discutir perfil apropriado com radiologia/ortopedia. Mesmo forma estável exige contato ortopédico urgente, sem aguardar falha de tratamento conservador. Sinovite transitória é hipótese acompanhada: febre, piora, recusa de apoio ou ausência de melhora em poucos dias antecipam retorno. Persistência/recorrência exige investigar Perthes e outras causas; radiografia de controle universal em criança totalmente recuperada não é consenso entre diretrizes, devendo seguir contexto e protocolo.
Minuto 0 — antes de qualquer exame
Meça e escreva a temperatura axilar, com o número, e não com a palavra. Pergunte se a criança apoia o peso e verifique você mesmo, de pé, e não pelo relato. Pergunte quando ela deixou de fazer o que fazia. E faça, em voz alta e na ordem, as quatro perguntas que suspendem o raciocínio ortopédico: tem febre com recusa de apoio? A história combina com a lesão e a criança já andava? Tem dor noturna persistente com sinal sistêmico? Recusa apoiar o peso mesmo sem febre e sem trauma? Uma resposta positiva às três primeiras tira a criança deste capítulo hoje mesmo. Se a suspeita de escorregamento já nasceu aqui — adolescente, dor de quadril, coxa ou joelho, marcha alterada —, o apoio para agora, antes da radiografia, e não depois dela.
Prescrição- Temperatura axilar aferida e registrada em graus, com hora da aferição
- Restrição de carga imediata no membro afetado se houver suspeita de escorregamento epifisário: cadeira de rodas ou muletas dentro da unidade, e proibição explícita de andar até a sala de raio-X pelo próprio pé
- Se febre com recusa de apoio: acionar o pediatra ou o plantonista responsável agora e abrir a rota de artrite séptica
Minuto 5 — a marcha e os dois quadris
Observe a marcha descalço, num corredor com espaço para ir e voltar, com a perna à mostra até a virilha, e depois olhe de trás. Classifique: antálgica, de Trendelenburg ou em ponta de pé. Em seguida, deite a criança e examine os dois quadris comparando lado a lado — rotação interna, rotação externa, abdução, flexão. Meça em graus, e não em adjetivos: 'rotação interna de 10° à esquerda e 40° à direita' permite ao plantão de amanhã dizer se melhorou; 'limitada' não permite. No adolescente, flexione o quadril devagar e observe se a coxa gira para fora sozinha — o sinal de Drehmann. Palpe todo o membro, do ilíaco ao hálux, procurando o ponto fixo que a marcha antálgica não localiza.
Prescrição- Registro no prontuário do arco de movimento dos dois quadris em graus, com o lado oposto como comparador
- Registro de se apoia ou não o peso, com ou sem auxílio
- Registro do que a criança deixou de fazer, com o prazo ("parou de subir escada há quatro dias")
Minuto 15 — o pedido de imagem, escrito por extenso
Radiografia de bacia incluindo ambos os quadris: AP e perfil de Lauenstein apenas na apresentação crônica estável, sem piora aguda. Na suspeita de escorregamento agudo ou instável, AP e perfil com raio horizontal (cross-table), sem forçar a posição de rã, em articulação com radiologia e ortopedia. Não pedir apenas imagem do joelho quando o exame sugere doença do quadril. Manter o paciente sem apoio do membro e organizar avaliação ortopédica urgente; a obtenção da imagem não autoriza novas manobras dolorosas.
Prescrição- Radiografia de bacia incluindo ambos os quadris: AP e perfil de Lauenstein apenas na apresentação crônica estável, sem piora aguda. Na suspeita de escorregamento agudo ou instável, AP e perfil com raio horizontal (cross-table), sem forçar a posição de rã, em articulação com radiologia e ortopedia.
- No adolescente com dor referida ao joelho: acrescentar a bacia ao pedido de joelho, nunca substituí-la por ele
- Se houver febre e recusa de apoio: hemograma com diferencial, velocidade de hemossedimentação, proteína C reativa e hemocultura — a hemocultura antes da primeira dose de antimicrobiano
Hora 1 — quadril irritável febril no pré-escolar: pontuar e decidir a agulha
Quadril muito doloroso com recusa de apoio exige avaliar artrite séptica urgentemente. Febre e marcadores inflamatórios aumentam suspeita, mas ausência de febre ou pontuação baixa não exclui infecção, sobretudo em criança pequena. Critérios de Kocher e suas modificações são auxiliares e não equivalem automaticamente ao fluxograma de seis itens citado. US detecta derrame, não distingue sozinho infecção de sinovite. Discutir aspiração e drenagem com ortopedia; colher hemocultura prontamente e iniciar antibiótico sem esperar líquido em sepse ou progressão rápida.
Prescrição- Avaliar gravidade e suspeita de infecção sem usar escore isolado para excluir.
- Hemocultura antes do antibiótico quando isso não atrasa terapia necessária.
- US quando indicado e avaliação ortopédica urgente para aspiração/drenagem.
- Em mau estado geral ou sepse: antibiótico imediato após culturas viáveis, sem esperar punção.
Hora 1 — escorregamento suspeito ou confirmado: apoio zero e telefone
Esta é a conduta que este capítulo existe para instalar, e ela cabe em duas frases: o adolescente não anda mais e o ortopedista sabe disso hoje. Não é 'repouso relativo' e não é 'evitar esforço'. É descarga zero no membro, com cadeira de rodas ou muletas fornecidas antes de ele sair da sala, e proibição explícita de apoiar o pé até a avaliação do especialista — inclusive dentro de casa, inclusive para ir ao banheiro. Se o escorregamento é instável, isto é, se ele já não conseguia apoiar quando chegou, o quadro é de urgência e a transferência se organiza hoje, não amanhã. Se é estável e o serviço não tem ortopedista, a alta é para o pronto-socorro de referência com a radiografia em mãos e com contato telefônico feito, não para casa com encaminhamento ambulatorial na mão.
Prescrição- Descarga zero no membro afetado: cadeira de rodas ou muletas entregues na unidade, com treino de uso antes da saída
- Analgesia: dipirona 10 a 25 mg/kg por dose de 6/6 h se dor, sem ultrapassar 1 g por dose (Rename 2024, solução oral 500 mg/mL, 20 gotas = 1 mL = 500 mg); ou paracetamol 10 a 15 mg/kg por dose de 6/6 h, respeitando o menor entre 75 mg/kg/dia e 4 g/dia
- Contato telefônico com o ortopedista no mesmo turno, com o roteiro do bloco 'O que dizer'
- Radiografia entregue em mãos à família, em papel ou em mídia, com o laudo se houver
- Transferência hoje se o adolescente não apoiava o peso na chegada
Hora 2 — a criança que vai para casa como sinovite transitória
É a maioria, e é onde a alta bem-feita vale mais que o diagnóstico. O tratamento descrito na literatura brasileira é modesto de propósito: observação clínica com curva térmica, repouso relativo do membro, anti-inflamatório não esteroide por curto período e retirada de carga sobre o membro enquanto houver dor. A rotina de ortopedia pediátrica acrescenta uma proibição específica e pouco conhecida: não instalar tração, porque a tração força a extensão do quadril e a extensão é justamente a posição que aumenta a pressão intra-articular. O que transforma essa alta em conduta segura é o que vai escrito no papel: o prazo esperado, os sinais que fazem voltar antes e a data do retorno.
Prescrição- Ibuprofeno 5 a 10 mg/kg por dose, de 8/8 h, por 3 a 5 dias, com alimento (Rename 2024, suspensão oral 50 mg/mL, Componente Básico) — numa criança de 20 kg, 2,0 a 4,0 mL por dose
- Repouso relativo: suspender educação física, corrida e bicicleta; carga conforme a dor permitir, sem forçar
- Não instalar tração e não imobilizar o quadril
- Escrever no papel da alta: 'volte antes se aparecer febre, se ela parar de apoiar o pé, se a dor piorar ou se não estiver melhor em 5 dias'
- Retorno marcado com data, entre o 5º e o 7º dia
Dia 5 a 10 — o retorno, e o prazo que a doença tem
A sinovite transitória dura em média dez dias e é gradual e espontaneamente resolutiva. Isso dá ao retorno uma pergunta objetiva: a criança está melhor do que estava? Melhor significa mais amplitude de rotação interna que na primeira consulta, mais carga, e volta ao que ela tinha deixado de fazer. Se está melhor, encerre o episódio e agende a radiografia de controle. Se está igual ou pior no quinto dia, ou se ainda manca no décimo quarto, a presunção caiu — e o próximo passo não é trocar o anti-inflamatório: é radiografar de novo e encaminhar ao ortopedista, com Perthes no topo da lista e infecção arrastada e leucemia atrás dela.
Prescrição- Reavaliar a rotação interna dos dois quadris em graus e comparar com o registro da primeira consulta
- Se sem melhora em 5 dias ou claudicação persistente aos 14 dias: nova radiografia de bacia em AP e perfil de rã, hemograma com diferencial, velocidade de hemossedimentação e proteína C reativa, e encaminhamento à ortopedia
- Suspender o anti-inflamatório assim que a dor permitir; não prolongar por semanas
Semana 6 a 8 — a radiografia que fecha o episódio
Este é o marco que quase ninguém executa e que a rotina brasileira de ortopedia pediátrica prescreve por escrito: repetir a radiografia um a dois meses depois do desaparecimento dos sintomas, para descartar doença de Perthes. A razão é a do bloco de mecanismo — a fase inicial de uma Perthes é uma sinovite, clinicamente idêntica à transitória, e a alteração radiográfica aparece depois. Marque a data na alta da primeira consulta, e não no retorno; quem marca depois não marca. Se a segunda radiografia mostrar redução de altura do núcleo, aumento de densidade, fragmentação ou a linha translúcida subcondral na posição de rã, o encaminhamento é à ortopedia pediátrica, com restrição de carga orientada até a consulta.
Prescrição- Radiografia de bacia em AP + perfil de Lauenstein, 1 a 2 meses após o desaparecimento dos sintomas, com data agendada já na primeira alta
- Se houver alteração: encaminhamento à ortopedia pediátrica com restrição de descarga de peso no membro afetado até a consulta, com muletas ou cadeira de rodas
- Se normal e criança assintomática: episódio encerrado, com orientação à família de que nova claudicação em qualquer momento pede nova avaliação
Como saber se está funcionando
A reavaliação deste capítulo tem uma característica incomum: em duas das três doenças, quem reavalia não é você. O escorregamento vai para o ortopedista e a artrite séptica vai para o capítulo de monoartrite; o que fica com você é a sinovite transitória presumida, que é a maioria, e que só se confirma retrospectivamente — pela resolução no prazo.
Por isso, aqui, o parâmetro mais importante não é laboratorial: é a comparação com o número que você mesmo escreveu na primeira consulta. Rotação interna medida em graus, carga que suporta, e o que a criança voltou a fazer. Se não houver registro da primeira consulta, a reavaliação vira uma segunda primeira consulta.
Esperado: Ganho progressivo até igualar o lado oposto; na sinovite transitória, melhora perceptível já no terceiro ao quinto dia
Se não melhora: Rotação interna que não recupera em 5 dias tira o caso da história natural presumida. Repita a radiografia em AP e perfil de rã procurando Perthes, e encaminhe à ortopedia. Perda de rotação interna que piora ao longo dos dias, com estado geral bom, é a apresentação da Perthes em fase de fragmentação.
Esperado: Retomada progressiva da carga, com abandono das muletas conforme a dor permita, na sinovite transitória
Se não melhora: Criança que perde a capacidade de apoiar o peso depois de já ter apoiado é reavaliação hoje, não no retorno marcado. No adolescente, essa mudança define o escorregamento instável e é urgência ortopédica. Na criança pequena, obriga a repensar infecção mesmo que a febre não tenha voltado.
Esperado: Ausência de febre, ou febre baixa que cede nas primeiras 48 horas
Se não melhora: Febre nova ou febre que não cede muda a hipótese de sinovite transitória para artrite séptica e retorno imediato. É por isso que a curva térmica é prescrita por escrito e não sugerida: sem ela, a família reporta 'ficou quentinha', que não é dado.
Esperado: Resolução gradual e espontânea, com média de 10 dias e faixa habitual de 7 a 10
Se não melhora: Claudicação que persiste aos 14 dias saiu da doença que você presumiu. A conduta é nova imagem e encaminhamento, e não repetir a mesma prescrição por mais uma semana. O prazo é o parâmetro mais barato deste capítulo e o mais ignorado.
Esperado: Volta ao recreio, à escada, à bicicleta, ao futebol — nomeando a atividade e não usando 'está melhor'
Se não melhora: Criança que anda mas não corre, ou que anda em casa e não na escola, não voltou. Esse é o desfecho intermediário que a família aceita como cura e que esconde Perthes inicial e escorregamento estável em evolução lenta.
Esperado: Queda da proteína C reativa, que é o marcador que se move mais rápido dos dois
Se não melhora: Marcadores que sobem em criança em observação, com quadril doloroso, obrigam a reconsiderar punção mesmo que a pontuação inicial tenha sido baixa. Proteína C reativa abaixo de 1 mg/dL corresponde a cerca de 87% de probabilidade de não haver artrite séptica — o que deixa 13%, e 13% não é alta em quem não apoia o pé.
Esperado: Bacia normal e simétrica, com núcleos epifisários de mesma altura e densidade dos dois lados
Se não melhora: Qualquer assimetria de altura ou densidade do núcleo, fragmentação, ou linha translúcida subcondral na posição de rã, é doença de Perthes até prova em contrário: encaminhamento à ortopedia pediátrica e restrição de carga até a consulta. Este é o único parâmetro deste capítulo que se mede numa criança que já está bem — e é por isso que ele depende de estar agendado, e não de alguém se lembrar.
Onde o erro machuca
O dano: É o erro que dá nome a este capítulo, e ele tem preço medido. Na série brasileira de escorregamentos tratados sem cirurgia, o intervalo entre a radiografia inicial — que já mostrava o escorregamento — e a radiografia pré-operatória foi de 26 a 402 dias, e 73% dos quadris agravaram angularmente no intervalo. Quando o adolescente é devolvido à quadra com um laudo de joelho normal, a fise continua escorregando e a deformidade que se instala é a que ele vai levar para o quadril adulto, com artrose precoce numa articulação de carga.
Como pegar a tempo: Regra de comportamento, não de raciocínio: em adolescente com dor no joelho, na coxa ou na virilha, e sem achado que localize no joelho, o pedido de radiografia de bacia em anteroposterior e perfil de rã sai na mesma requisição. E o exame do quadril — rotação interna comparada e flexão observando a rotação externa espontânea — se faz antes de tocar no joelho.
O dano: Enquanto o periósteo e o pericôndrio seguram a epífise, o escorregamento é estável e a irrigação da cabeça femoral está preservada. Quando eles cedem, a epífise se torna móvel sobre o colo e os vasos retinaculares, que são curtos e sem colateral, se estiram e se rasgam. A conversão de estável para instável pode acontecer com um passo em falso, e o desfecho da forma instável é a necrose avascular da cabeça femoral num adolescente de treze anos.
Como pegar a tempo: O apoio para no minuto da suspeita, e não no minuto do diagnóstico. Cadeira de rodas ou muletas fornecidas dentro da unidade, treino de uso antes da saída e proibição explícita e escrita de apoiar o pé — inclusive em casa e inclusive para ir ao banheiro. Radiografar deitado. Na suspeita de forma aguda ou instável, não forçar posição de rã: utilizar AP e perfil com raio horizontal e discutir prontamente com ortopedia.
O dano: Radiografia normal não exclui Perthes inicial, cuja alteração aparece semanas depois da necrose; não exclui artrite séptica, em que ela mostra apenas distensão capsular comum às duas hipóteses; não exclui osteomielite, que leva de 10 a 21 dias para aparecer; não exclui leucemia nem osteoma osteoide. Cada uma dessas quatro tem um relógio próprio, e o exame de hoje mede o relógio de hoje. A criança liberada com 'exame normal' volta semanas depois com a doença estabelecida e com a família convencida de que já tinha sido investigada.
Como pegar a tempo: Escreva no prontuário e diga à família a frase completa: 'a radiografia de hoje está normal, o que não afasta as doenças que aparecem depois'. E converta isso em conduta: retorno marcado com data, critérios escritos de retorno imediato, e a radiografia de controle de 1 a 2 meses agendada já na primeira alta.
O dano: Duas perdas. Sem o lado oposto na mesma chapa, você perde o comparador de que praticamente todos os achados dependem — altura da epífise, densidade e esfericidade do núcleo, largura do espaço articular. E, sem o perfil de rã, perde-se o escorregamento inicial, porque o deslizamento é predominantemente posterior e pode ser sutil ou ambíguo na anteroposterior. No escorregamento há ainda uma terceira perda, específica: a bilateralidade chega a 44% numa série brasileira, e o quadril silencioso pode já estar escorregando.
Como pegar a tempo: Radiografia de bacia incluindo ambos os quadris: AP e perfil de Lauenstein apenas na apresentação crônica estável, sem piora aguda. Na suspeita de escorregamento agudo ou instável, AP e perfil com raio horizontal (cross-table), sem forçar a posição de rã, em articulação com radiologia e ortopedia. Se uma incidência apropriada não estiver disponível, registre a limitação e discuta com a referência; uma AP normal isolada não exclui escorregamento.
O dano: O escore brasileiro tem seis critérios e corte em quatro, mas a probabilidade acima de 90% que justifica o corte veio de estudos com quatro ou cinco critérios, em que 'quatro' significava quatro entre quatro ou quatro entre cinco. Quatro pontos entre seis é um estado de evidência mais fraco, e o número não foi recalculado. Nas duas direções o dano é real: a criança convincente que pontua três é liberada por um número, e a criança que pontua quatro por acaso pode ir a centro cirúrgico sem quadro clínico que sustente. A própria conclusão do artigo diz que o fluxograma nunca substitui o bom exame físico e o julgamento clínico.
Como pegar a tempo: Pontue, registre os seis itens por extenso e some — e depois pergunte se o número bate com a criança à sua frente. Criança com quadril irritável e suspeita clínica se punciona qualquer que seja a soma: o número organiza a pressa, e não substitui a agulha. Se você discordar do número, escreva por que, e chame quem punciona assim mesmo.
O dano: A fase inicial da doença de Perthes é uma sinovite, clinicamente indistinguível da sinovite transitória, e a criança melhora dos sintomas enquanto a epífise segue necrosando. É durante a fragmentação e a remodelação que a cabeça femoral, mecanicamente mole, assume a forma definitiva: contida no acetábulo, remodela esférica; subluxada, remodela achatada, e a incongruência vira artrose de quadril no adulto jovem. Quem encerra o caso na melhora clínica perde exatamente a janela em que a conduta ainda muda o formato do quadril.
Como pegar a tempo: Agende a radiografia de controle na alta da primeira consulta, com data, e não no retorno — quem marca depois não marca. A rotina brasileira de ortopedia pediátrica prescreve repeti-la 1 a 2 meses após o desaparecimento dos sintomas, com a finalidade declarada de descartar Perthes. E ensine à família uma frase: 'ela vai melhorar em uns dez dias, e mesmo assim precisa fazer esta radiografia depois'.
O que dizer ao paciente e à família
Neste capítulo, quase toda conversa difícil é sobre um pedido que parece pequeno: não deixar a criança andar. A família não vê osso escorregando, vê um adolescente que veio andando e vai sair de muletas por causa de uma dor no joelho. Se a explicação não for dada, a muleta fica no carro.
O que segue são frases prontas, para sair da boca assim como estão escritas. Duas delas são para o telefone, e o telefone é o instrumento clínico mais subestimado deste capítulo.
Explicar ao adolescente e ao pai por que a dor é no joelho e o problema é no quadril
“A dor que você sente no joelho está sendo produzida no quadril. Isso acontece porque os nervos que trazem a sensação do quadril e da parte de dentro do joelho vêm do mesmo lugar, e o cérebro não consegue separar as duas coisas quando a dor é profunda. É por isso que a radiografia do joelho veio normal nas duas outras vezes: o joelho dele está normal mesmo. O que eu preciso ver é a bacia.”
Não diga: "O joelho não é nada, é psicológico" e "ele deve estar forçando". As duas fazem o adolescente parar de relatar a dor, que é o único sintoma que a doença dá.
Pedir que o adolescente pare de apoiar o pé, agora, antes do resultado
“Vou te pedir uma coisa que parece exagero e não é: a partir de agora, você não pisa com essa perna. Nem para ir ao banheiro, nem para ir até o carro. A placa de crescimento do seu quadril pode estar deslizando, e enquanto ela desliza devagar o osso continua recebendo sangue. Se ela solta de uma vez, o sangue para de chegar na cabeça do fêmur, e isso não tem volta. Não dá para saber de qual lado da linha você está, e o preço de errar é muito diferente nos dois lados.”
Não diga: "Evite esforço", "repouso relativo" e "não force". Nenhuma das três é executável, e todas as três são ouvidas como "pode andar devagar".
Telefonar para o ortopedista de sobreaviso, à noite ou no fim de semana
“É um adolescente de treze anos, setenta e um quilos, com dor no joelho esquerdo há dois meses e claudicação. No exame, a rotação interna do quadril esquerdo está em 10 graus contra 40 do direito, e a coxa gira para fora sozinha quando eu flexiono o quadril. A radiografia de bacia em AP e perfil de rã mostra assimetria da altura da epífise à esquerda. Ele apoia o peso, então é estável até agora. Já está de muletas e sem carga desde que chegou. Preciso saber se você quer ele aí hoje ou se a transferência pode ser amanhã de manhã.”
Não diga: "Tem um menino com dor no quadril, o que eu faço?" Ligue com os cinco dados que decidem: idade, se apoia o peso, rotação interna comparada, o que a radiografia mostra e há quanto tempo os sintomas mudaram de padrão.
Explicar à mãe da criança pequena por que você vai mandar para casa sem diagnóstico fechado
“O mais provável é uma inflamação passageira da articulação do quadril, que costuma vir depois de uma virose e passa sozinha em cerca de dez dias. Eu não tenho como provar isso hoje, e por isso vou te dar por escrito o que faz vocês voltarem antes: se ela tiver febre, se parar de pisar no pé, se a dor piorar, ou se não estiver melhor em cinco dias. E vou marcar o retorno mesmo que ela melhore, porque existe uma doença do quadril que começa parecendo exatamente isso e só aparece na radiografia depois.”
Não diga: "Não é nada, é só uma virose" e "é dor de crescimento". A primeira apaga os critérios de retorno; a segunda dá nome a um quadro que, com claudicação de dia e um lado só, não é dor de crescimento por definição.
Convencer a família a fazer a radiografia de controle numa criança que já está bem
“Ela vai melhorar, e provavelmente já vai estar correndo antes do fim do mês. Mesmo assim eu quero uma radiografia daqui a mais ou menos seis semanas. Existe uma doença chamada Perthes, em que a cabeça do fêmur perde circulação e amolece por um tempo, e no começo ela é idêntica ao que sua filha teve. A diferença é que ela aparece na radiografia só depois. Se estiver tudo normal nessa segunda radiografia, o assunto está encerrado. Se não estiver, a gente ainda está no tempo de mudar o resultado.”
Não diga: "Só por garantia" e "é rotina". Exame apresentado como formalidade é exame que não se faz, ainda mais em criança curada.
Responder à pergunta que a família sempre faz: "vai precisar operar?"
“Se for o escorregamento da placa de crescimento, sim, o tratamento é cirúrgico, e a cirurgia serve para travar a placa no lugar onde ela está agora. Ela não desfaz o que já escorregou. Por isso a pressa: quanto menos escorregar até a cirurgia, menos deformidade fica. Quem decide a cirurgia e explica como é feita é o ortopedista; o que eu posso garantir hoje é que a gente não vai perder tempo.”
Não diga: Prometer técnica, tempo de internação ou prazo de retorno ao esporte. Nada disso é seu, e o que se promete na porta vira cobrança na enfermaria.
Quando a história não combina com a lesão e você precisa continuar atendendo
“Vou pedir alguns exames e chamar mais um colega para ver junto comigo, porque é assim que a gente faz quando uma criança dessa idade chega sem conseguir usar a perna. Enquanto isso ela fica aqui, e vocês podem ficar com ela.”
Não diga: Acusar, confrontar a versão ou anunciar a notificação na frente do acompanhante. A suspeita não precisa de certeza para ser conduzida, e a condução é do capítulo Violência e maus-tratos infantis, na apostila de Emergências Pediátricas — que também ensina o que dizer e o que não dizer aqui.
Onde bons médicos discordam
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.
Acima de 2 mg/dL — a régua da figura do fluxograma brasileiro
O fluxograma de diferenciação publicado por um serviço de ortopedia pediátrica brasileiro em 2011 pontua a proteína C reativa apenas acima de 2 mg/dL. É o corte que aparece na tabela de pontuação da Figura 1, e é o que o leitor usa quando soma os pontos à beira do leito. O valor coincide com o adotado por Caird e colaboradores em 2006, um dos estudos de validação prospectiva resumidos na Tabela 1 do próprio artigo brasileiro.
Rosa JRP, Kojima CM, Fernandes LFL, Hehn BJ, Santili C. Fluxograma diferencial entre a artrite séptica e sinovite transitória do quadril em crianças. Acta Ortop Bras. 2011;19(4):202-5, Figura 1.
Acima de 1 mg/dL — a régua do texto corrido do mesmo artigo
Três parágrafos antes da figura, o mesmo artigo de 2011 descreve os achados laboratoriais mais frequentes da artrite séptica como leucocitose acima de 12.000 células por mm³, velocidade de hemossedimentação acima de 50 mm/h e proteína C reativa elevada acima de 1 mg/dL. E a Tabela 1 do mesmo artigo registra que Levine e colaboradores, em 2003, encontraram na proteína C reativa o melhor preditor independente, com valores abaixo de 1 mg/dL correspondendo a cerca de 87% de probabilidade de não haver artrite séptica.
Rosa JRP e cols. Acta Ortop Bras. 2011;19(4):202-5, texto corrido e Tabela 1, esta última resumindo Levine MJ, McGuire KJ, McGowan KL, Flynn JM. J Pediatr Orthop. 2003;23:373-7.
A criança que decide isso é a que tem proteína C reativa entre 1 e 2 mg/dL: ela soma um ponto pela régua do texto e zero pela régua da figura, e num escore de seis pontos com corte em quatro esse ponto pode ser a diferença entre punção e ultrassonografia. Decida assim: use o corte de 2 mg/dL para somar, porque é a régua declarada do fluxograma, e trate um valor entre 1 e 2 mg/dL como argumento clínico a favor de puncionar quando ele vier acompanhado de recusa de apoio ou de febre — registrando por escrito que o valor está na faixa em que as duas réguas do mesmo documento discordam. E lembre da assimetria de dano: errar para o lado de puncionar custa um procedimento; errar para o outro custa a cartilagem de um quadril de cinco anos.
Fila ambulatorial, condicionada à falha do tratamento inicial — o que dizem os dois documentos brasileiros de regulação de acesso
O documento federal de 2015 arrola a epifisiólise na tabela de Ortopedia adulto, com o critério de encaminhar os pacientes com queixas frequentes e persistentes que não melhoram após tratamento inicial, e numa das unidades restringe a consulta a maiores de 16 anos; a tabela de Ortopedia pediátrica do mesmo documento não a menciona em nenhuma das cinco linhas. O protocolo municipal de 2022 a lista entre as indicações de Quadril como epifisiólise dolorosa com exame de imagem sem resposta ao tratamento inicial na atenção primária, põe-na na faixa vermelha da priorização ambulatorial e não a inclui entre os nove itens da lista de encaminhamento imediato por Vaga Zero.
Brasil. Ministério da Saúde. Protocolos de acesso ambulatorial: consultas especializadas: Hospitais Federais no Rio de Janeiro. Brasília: MS, 2015, seções Ortopedia e Ortopedia pediátrica. E Rio de Janeiro (RJ). Secretaria Municipal de Saúde. Protocolo de Regulação Ambulatorial — Ortopedia. 2022, seções Quadril, Encaminhamento imediato para unidade de emergência e Priorização para atendimento.
Não há tratamento inicial cuja falha se espere — a posição da literatura clínica brasileira
A série do serviço de ortopedia pediátrica da Santa Casa de São Paulo, publicada em 2010, avaliou dezoito adolescentes com diagnóstico de escorregamento já feito em outro serviço e tratados de forma não cirúrgica com anti-inflamatórios, fisioterapia, repouso, muletas ou gesso. Dezenove dos 26 quadris agravaram, e o intervalo entre a radiografia que já mostrava o escorregamento e a radiografia pré-operatória foi de 26 a 402 dias. A conclusão dos autores é textual: apesar de a indicação cirúrgica ser hoje consenso, ainda há pacientes com diagnóstico confirmado tratados de forma conservadora, e isso representa um grande erro, porque aumenta a morbidade da doença.
Santili C, Akkari M, Waisberg G, Braga SR, Kasahara A, Perez MC. Evolução do escorregamento epifisário proximal do fêmur após tratamento não cirúrgico. Rev Bras Ortop. 2010;45(5):397-402.
Separe a via administrativa da conduta clínica, porque as duas convivem. Inscreva o adolescente na fila regulada do jeito que o seu município exige — é assim que a consulta acontece — e, ao mesmo tempo, conduza como urgência: apoio zero desde a suspeita, contato telefônico com o ortopedista no mesmo turno e transferência hoje se ele não apoiava o peso na chegada. Se o regulador do seu serviço exigir a menção a falha de tratamento inicial para aceitar o caso, não invente uma tentativa que não houve: escreva que o tratamento indicado é cirúrgico, que a restrição de carga já foi instituída e que o encaminhamento é por risco de necrose da cabeça femoral. E use o único gancho de emergência que o texto municipal oferece quando ele couber — prejuízo rápido e progressivo na marcha —, que é a tradução que o documento não faz e que o médico da porta precisa fazer.
Acima de 50.000 células — o critério operacional do fluxograma de 2011
No fluxograma brasileiro de diferenciação, o material aspirado é lido como artrite séptica quando é purulento, quando a bacterioscopia é positiva ou quando a contagem de leucócitos passa de 50.000 células por mm³ — e esses três gatilhos aparecem tanto no braço de pontuação alta quanto no braço da punção feita após a ultrassonografia. O mesmo artigo descreve, na discussão, que o aspirado da artrite séptica costuma ter contagem maior que 50.000 células com 75% de polimorfonucleares.
Rosa JRP, Kojima CM, Fernandes LFL, Hehn BJ, Santili C. Acta Ortop Bras. 2011;19(4):202-5, Figura 1 e seção de discussão.
De 80.000 a 200.000 células com mais de 75% de polimorfonucleares — a descrição do artigo de atualização de 2009
O artigo de atualização sobre claudicação na criança, publicado dois anos antes pelo mesmo grupo e com autor sênior comum, descreve o aspirado da artrite séptica como contendo entre 80.000 e 200.000 células com mais de 75% de polimorfonucleares, e o da sinovite transitória como contendo de 5.000 a 15.000 com menos de 25% de polimorfonucleares. Entre as duas descrições fica uma faixa de 15.001 a 79.999 células que o texto não atribui a nenhuma das duas condições.
Santili C, Lino Júnior W, Goiano EO, Lins RAB, Waisberg G, Braga SR, Akkari M. Claudicação na criança. Rev Bras Ortop. 2009;44(4):290-8.
A criança que expõe a divergência é a que volta com 60.000 células: artrite séptica pela régua de 2011 e fora das duas categorias descritas em 2009. Não decida por número isolado. Leia a contagem junto com o aspecto do líquido, a bacterioscopia, a temperatura, se a criança apoia o peso e a proteína C reativa — e trate a celularidade como deslocamento de probabilidade, do jeito que o capítulo Monoartrite aguda e artrite séptica, na apostila de Reumatologia, ensina a fazer com a contagem do adulto. Colher culturas quando viável sem atrasar tratamento de paciente grave, manter avaliação hospitalar e discutir controle do foco. E escreva no prontuário o número, a régua que você usou para lê-lo e por quê — porque quem receber a criança amanhã vai precisar saber se ela melhorou ou se apenas trocou de leitor.
O raciocínio, em voz alta
Vasco Caratinga, 13 anos, 71 quilos, 1,62 m, trazido pelo pai numa manhã de sábado à unidade de pronto atendimento. Queixa dita por ele: dor no joelho esquerdo há cerca de dois meses, que começou depois de um treino de futebol, melhorou com o anti-inflamatório e voltou. Já foi atendido duas vezes: no posto, em maio, saiu com ibuprofeno e orientação de repouso; num pronto-socorro de bairro, em junho, fez radiografia do joelho esquerdo — laudo normal — e saiu com a mesma orientação. Veio hoje porque a mãe reparou que ele anda torto. Ele veio andando da recepção até a sala, com passo assimétrico e o pé esquerdo rodado para fora. Nega febre. Nega trauma recente. Não usa medicação contínua. Temperatura axilar 36,6 °C.
1. Primeiro as quatro perguntas, e só depois a idade
Antes de qualquer hipótese ortopédica: não há febre com recusa de apoio, então a rota da artrite séptica não se abre. A história é coerente, ele já andava, a versão dele e a do pai batem, e não há sinal de lesão em estágios diferentes — a rota dos maus-tratos não se abre. Não há dor noturna com palidez, perda de peso ou massa — a rota oncológica não se abre. E ele apoia o peso: essa é a quarta pergunta, e a resposta positiva importa tanto quanto as três negativas, porque é ela que vai definir estável ou instável daqui a pouco.
2. A idade reordena a lista, e a lista dele começa no quadril
Treze anos, estirão em curso, sobrepeso. Nessa faixa, a doença que mais acomete o quadril é o escorregamento epifisário proximal do fêmur, e a queixa clássica é dor leve mas constante na virilha, na coxa ou no joelho, arrastada por meses, com claudicação. Ele tem os quatro elementos. O joelho, aqui, é o lugar onde a dor é sentida — não é o lugar onde ela é produzida. Note que os dois atendimentos anteriores fizeram a coisa certa para a queixa errada.
3. O exame do quadril, dos dois lados, antes de tocar o joelho
Deitado, com as duas pernas descobertas. Rotação interna do quadril esquerdo de 10°, contra 40° à direita. Abdução esquerda reduzida. Ao flexionar o quadril esquerdo devagar, a coxa gira para fora sozinha e se afasta da linha média — sinal de Drehmann positivo. O joelho esquerdo tem amplitude completa, sem derrame, sem dor na interlinha, sem instabilidade ligamentar, sem dor na tuberosidade anterior da tíbia. O achado está inteiramente no quadril, e o joelho está normal — que é exatamente o que a radiografia de junho já tinha dito.
4. O apoio para agora, e não depois do resultado
A suspeita já nasceu com força suficiente. Muletas fornecidas na unidade, com treino de uso, e descarga zero no membro esquerdo. Ele vai à sala de raio-X de cadeira de rodas. A justificativa dita a ele e ao pai, em voz alta: enquanto a placa desliza devagar, o sangue continua chegando à cabeça do fêmur; se ela solta de uma vez, o sangue para, e isso não tem volta. Não dá para saber de que lado da linha ele está hoje, e o preço de errar é muito diferente nos dois lados.
5. O pedido de imagem, escrito por extenso
Radiografia de bacia em anteroposterior e perfil de Lauenstein, com os dois quadris na mesma chapa. Não é radiografia de quadril esquerdo: é bacia, porque o lado direito é o comparador e porque a bilateralidade descrita chega a 44% numa série brasileira. Como ele apoia o peso — escorregamento estável até agora —, a posição de rã pode ser feita, com o técnico avisado de que a manipulação deve ser suave. Na incapacidade de apoio ou piora aguda, o pedido seria AP e perfil com raio horizontal, sem posição de rã e com avaliação ortopédica urgente.
6. O que a radiografia mostra, e como se lê
Na anteroposterior, a altura da epífise femoral proximal esquerda é menor que a direita — a assimetria é o achado. Prolongando mentalmente a linha da borda superior do colo em cada lado, sobra menos epífise acima dela à esquerda; essa é uma leitura de comparação, não um critério publicado, e ela reforça sem decidir. No perfil de rã, o deslocamento aparece franco: a epífise está translada em relação ao colo, e a relação entre cabeça e colo mudou. O quadril direito está normal na chapa de hoje — o que não o exclui do seguimento.
7. Estável ou instável: a pergunta que se responde de pé
Ele chegou andando e continua conseguindo apoiar o peso quando você pede. Isso o classifica como escorregamento estável, e o estável tem risco de necrose avascular muito menor que o instável. Mas 'estável agora' não é 'estável amanhã': é justamente essa conversão que a descarga zero existe para evitar, e é por isso que ele não vai sair daqui andando mesmo tendo entrado andando.
8. O telefonema, com cinco dados e uma pergunta
Ligação para o ortopedista de sobreaviso do hospital regional: adolescente de 13 anos, 71 kg, dor no joelho esquerdo há dois meses com claudicação; rotação interna de 10° à esquerda contra 40° à direita, Drehmann positivo; radiografia de bacia em AP e rã com escorregamento epifisário proximal do fêmur à esquerda; apoia o peso, portanto estável; já está sem carga e de muletas desde a chegada. A pergunta é uma: você quer ele aí hoje ou a transferência pode ser amanhã de manhã? Perceba que a pergunta não é 'o que eu faço'.
9. O que fica escrito, e o que a família leva
No prontuário: os arcos de movimento em graus dos dois lados, o sinal de Drehmann, a capacidade de apoiar o peso na chegada, o achado das duas incidências, a hora do telefonema e a decisão combinada. Na mão da família: a radiografia, o relatório de encaminhamento e uma folha com três frases — não apoiar o pé em nenhuma circunstância até a consulta, procurar emergência imediatamente se a dor piorar muito ou se ele não conseguir mais mexer a perna, e o endereço e horário do serviço de destino. E a analgesia: dipirona 10 a 25 mg/kg por dose de 6/6 h se dor, sem passar de 1 g por dose — nos 71 kg dele, 1 g já está abaixo dos 25 mg/kg, e é o teto do adulto que manda.
10. O que teria mudado o caso, três meses antes
Nada de sofisticado: um pedido de radiografia de bacia junto com o de joelho, em maio. O exame custa o mesmo, leva o mesmo tempo e estava disponível nas duas unidades por onde ele passou. O que faltou não foi recurso, foi a regra de comportamento — adolescente com dor no joelho tem o quadril examinado e a bacia radiografada no mesmo atendimento. Na série brasileira, adolescentes exatamente como ele levaram de 26 a 402 dias entre a radiografia que já mostrava o escorregamento e a cirurgia, e 73% dos quadris agravaram nesse intervalo. O Vasco chegou aos dois meses. Ainda dá para ele ser dos melhores.
Faça você
Diógenes Saubara, 7 anos, 24 quilos, chega ao ambulatório de uma unidade básica numa terça-feira de manhã, trazido pela avó. Há sete semanas ele foi atendido num pronto atendimento por claudicação à direita que apareceu depois de um resfriado; recebeu o diagnóstico de sinovite transitória do quadril, saiu com ibuprofeno por cinco dias e melhorou muito em uma semana. Nunca voltou, e ninguém marcou retorno. A avó veio hoje porque ele nunca voltou a correr: anda normalmente pela casa, mas manca no fim do dia, evita a escada e desistiu do futebol na escola. Não teve febre em nenhum momento. Não perdeu peso, come bem, brinca, está corado. Ao exame: sem sinais flogísticos, sem massa palpável, temperatura axilar 36,4 °C, marcha discretamente antálgica à direita ao caminhar de ida e volta pelo corredor. Rotação interna do quadril direito de 15°, contra 45° à esquerda. Abdução direita levemente reduzida. Joelhos e tornozelos normais. Não há registro de radiografia em nenhum momento nesses sete semanas.
1. Qual das quatro bandeiras está aberta e quais estão fechadas, e por que a ausência de febre não tranquiliza aqui
Escreva a sua resposta antes de ler a próxima linha: das quatro perguntas que suspendem o raciocínio por idade, qual delas você marca como positiva neste caso, e o que a ausência das outras três permite excluir e não permite excluir?
2. O prazo
A sinovite transitória tem duração média de dez dias e resolução gradual e espontânea. Já se passaram sete semanas. Escreva, em uma frase, o que essa aritmética faz com o diagnóstico que foi dado no pronto atendimento — e diga se ela o refuta ou apenas o suspende.
3. A idade reordena a lista
Sete anos, sem febre, claudicação arrastada, rotação interna do quadril reduzida de um lado. Liste as três hipóteses que ocupam o topo nessa faixa etária com esse conjunto de achados, em ordem, e diga qual achado do exame físico é o que mais pesa para a primeira delas.
4. O pedido de imagem, escrito como você escreveria na requisição
Transcreva o pedido palavra por palavra, incluindo a região, as incidências e o que precisa estar na mesma chapa. Depois diga que achado radiográfico específico, e em qual das duas incidências, você espera encontrar se a sua primeira hipótese estiver certa nesta fase da doença.
5. A conduta enquanto a imagem não sai, e a conduta se ela vier alterada
Diga o que o Diógenes pode e não pode fazer hoje à tarde, com que fundamento, e para onde ele vai se a radiografia mostrar redução de altura e fragmentação do núcleo epifisário direito. Inclua na resposta o que você diz à avó sobre por que uma criança que 'melhorou' está indo para o ortopedista.
6. O que falhou há sete semanas
Aponte, em uma frase, a conduta que não foi executada no primeiro atendimento e que, se tivesse sido, teria trazido este menino de volta com quatro semanas de antecedência. Diga também em que momento essa conduta deveria ter sido agendada.
Ver como fecharíamos
1. A bandeira aberta é a quarta em espírito, embora não na letra: ele apoia o peso, mas não recuperou função — desistiu do futebol e evita a escada, e essa é a medida funcional que substitui a recusa de apoio numa criança que anda. As outras três estão fechadas: não há febre, a história é coerente e ele já andava, e não há dor noturna com sinal sistêmico. A ausência de febre não exclui artrite séptica, embora o curso arrastado deste caso favoreça outros diagnósticos — mas não exclui doença de Perthes, que é afebril por definição, nem osteoma osteoide, nem uma infecção arrastada, nem tumor ósseo, que dá dor sem febre. Ausência de febre não deve ser usada como critério de exclusão de artrite séptica. 2. A aritmética não refuta o diagnóstico original: ela o esgota. Sinovite transitória é diagnóstico retrospectivo, confirmado pela resolução no prazo, e o prazo é de cerca de dez dias. Sete semanas de claudicação persistente colocam o caso fora da história natural da doença presumida, e a partir daí a presunção deixa de ser sustentável — não porque estivesse errada em julho, mas porque ela deixou de explicar setembro. 3. Em ordem: doença de Legg-Calvé-Perthes em primeiro lugar, por faixa etária (80% dos casos entre quatro e oito anos), pela queixa dominante ser claudicação e não dor, e sobretudo pelo achado que mais pesa — a limitação da rotação interna do quadril, que é o principal sinal da doença. Em segundo, infecção arrastada ou osteomielite subaguda, que exige hemograma, velocidade de hemossedimentação e proteína C reativa e que é do capítulo Osteomielite desta apostila. Em terceiro, causa neoplásica: osteoma osteoide, que dá dor predominantemente noturna e melhora importante com salicilato, e leucemia, que pode cursar com radiografia e hemograma iniciais normais e é do capítulo Leucemia linfoblástica aguda: sinais de alerta e diagnóstico precoce, na apostila de Oncologia Pediátrica. Artrite idiopática juvenil também entra na lista: o encaminhamento é reumatológico e sai junto com o pedido de lâmpada de fenda para rastreio de uveíte, como está em Artrite idiopática juvenil: formas clínicas e diagnóstico, na apostila de Imunologia Pediátrica. 4. O pedido: radiografia de bacia em anteroposterior e perfil de Lauenstein (posição de rã), com os dois quadris na mesma chapa. Bacia, e não quadril direito, porque o lado esquerdo é o comparador de altura, densidade e esfericidade do núcleo. Duas incidências, porque na fase inicial da Perthes o achado é a linha translúcida subcondral — o sinal de Caffey — e ela aparece sobretudo na posição de rã, quando a anteroposterior ainda pode parecer normal. Numa doença com sete semanas de evolução, já é possível encontrar também redução de altura do núcleo, aumento de densidade e zonas de rarefação entremeadas, que são achados de fase mais tardia. Peça também hemograma com diferencial, velocidade de hemossedimentação e proteína C reativa: eles não confirmam Perthes, mas afastam o segundo grupo de hipóteses. 5. Hoje à tarde: restrição de descarga de peso no membro direito e suspensão de educação física, corrida e bicicleta, até a avaliação com a imagem. O fundamento é mecânico e está no bloco de mecanismo — durante a fragmentação e a remodelação a cabeça femoral está mole, e é nesse intervalo que ela assume a forma definitiva; contida no acetábulo remodela esférica, subluxada remodela achatada. Se a radiografia vier alterada, o destino é a ortopedia pediátrica, com restrição de carga mantida até a consulta, com muletas ou cadeira de rodas. À avó, com essas palavras: ele melhorou da dor, mas não voltou a fazer o que fazia, e é isso que estamos investigando; existe uma doença do quadril em que a cabeça do osso perde circulação e amolece por um tempo, e nesse período dá para influenciar o formato com que ela vai endurecer — depois, não dá mais. 6. O que faltou: agendar, já na alta do pronto atendimento, o retorno em cinco a sete dias e a radiografia de controle de um a dois meses depois do desaparecimento dos sintomas, com a finalidade declarada de descartar Perthes, como prescreve a rotina brasileira de ortopedia pediátrica. Esse agendamento se faz na primeira alta, e não no retorno — quem marca depois não marca, e foi exatamente o que aconteceu. Com ele, Diógenes teria voltado por volta da terceira ou quarta semana, e a doença teria sido flagrada quatro semanas antes.
A definição é comportamental de propósito, e se responde de pé, não na tela. Enquanto o periósteo e o pericôndrio seguram a epífise no colo, o deslizamento é lento e a irrigação está preservada; quando esse anel de tecido mole cede, a epífise fica móvel e os vasos retinaculares, que sobem colados ao colo, são curtos e sem circulação colateral, se estiram e se rasgam. É essa perda de suporte que a incapacidade de apoiar o peso mede, e é ela que separa o risco alto do risco baixo de necrose. O ângulo de deslocamento classifica a gravidade pela classificação de Southwick — leve até 30 graus, moderado entre 30 e 60, grave acima de 60 — e isso é grau, não estabilidade: existe escorregamento grave estável e leve instável. A dor súbita e intensa acompanha com frequência as formas instáveis e não as define, porque é sintoma e não teste. E o prazo de evolução separa agudo de crônico, com a ressalva de que a rotina brasileira de ortopedia pediátrica define crônico como mais de duas semanas e, na observação seguinte da mesma página, registra a tendência a chamar de agudo apenas o que tem poucos dias ou menos de 24 horas.
Teste-se
Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.
Plano de revisão
Em 7 dias
Recuperação ativa em sete dias. Explique por que não testar marcha ou forçar posição de rã em suspeita de escorregamento instável. Interprete escore baixo sem excluir artrite séptica. Responda antes de reler e depois confira onde faltou justificar uma decisão.
Em 30 dias
Aplicação em trinta dias. Reavalie a criança que não recuperou função após hipótese de sinovite transitória. Defina investigação e destino pela evolução, sem esperar febre ou um prazo arbitrário. Use dados observados, reconheça o que ainda não sabe e peça comparação com a avaliação do supervisor.
Agora atenda
Um adolescente de treze anos que veio falar de dor no joelho, com duas radiografias de joelho normais na pasta — e a decisão de examinar o quadril, suspender o apoio e telefonar cabe a você, antes de qualquer imagem nova ficar pronta.
