Outras Especialidades › Ortopedia
A tabaqueira, o degrau e a mão fria
Fraturas do membro superior (supracondiliana, Colles, escafoide)
Três fraturas do membro superior e três achados de exame que decidem antes da imagem: a dor na tabaqueira do punho cuja radiografia veio limpa; o degrau do punho que mostra a fratura e esconde a doença; e a mão fria da criança, em que a imagem não importa enquanto não houver pulso. Escrito sobre o que os documentos brasileiros de fato dizem — o que eles decidem, o silêncio deles sobre a fratura mais comum do membro superior, e o ponto em que duas fichas do mesmo protocolo federal pedem o mesmo exame em ordens diferentes.
SOCIEDADE BRASILEIRA DE ORTOPEDIA E TRAUMATOLOGIA. Consensos Brasileiros de Ortopedia e Traumatologia. Coordenadores: João Carlos Belloti e Moisés Cohen. São Paulo: SBOT / Agência NaJaca, 2019. Elaborado pela Comissão de Consensos em Ortopedia da SBOT em parceria com o Centro Cochrane do Brasil. Cláusula de licença: proibida a reprodução total ou parcial sem prévio consentimento da SBOT, com todos os direitos da edição reservados — obra citada e parafraseada aqui, nunca transcrita em extensão nem reproduzida em estrutura de tabela.
BRASIL. Ministério da Saúde; Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Protocolos de encaminhamento da atenção básica para a atenção especializada. Volume III: Reumatologia e Ortopedia. Versão preliminar. Brasília: Ministério da Saúde, 2016. 46 p. Licença Creative Commons Atribuição–Não Comercial–Compartilhamento pela mesma licença 4.0 Internacional, com reprodução permitida desde que citada a fonte.
BRASIL. Ministério da Saúde. Protocolo SAMU 192 — Suporte Básico de Vida. Protocolos de intervenção para o SAMU 192. Brasília: Ministério da Saúde. Fichas BT12 (trauma de membros superiores e inferiores) e BT13 (fratura exposta de extremidades), ambas com elaboração em agosto de 2014 e revisão em abril de 2015 impressas no rodapé. Sem cláusula de licença visível nas fichas consultadas.
BRASIL. Ministério da Saúde. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais — Rename 2024. Brasília: Ministério da Saúde, 2024. Licença Creative Commons Atribuição–Não Comercial–Compartilhamento pela mesma licença 4.0, com reprodução permitida mediante citação, declarada logo abaixo da ficha catalográfica.
BRASIL. Ministério da Saúde; Universidade Federal do Rio Grande do Sul. TelessaúdeRS-UFRGS. Protocolos de encaminhamento para Ortopedia Adulto. Protocolo 5 — Problemas de mão e punho. Publicado ad referendum conforme Resolução CIB/RS nº 764/2014.
Protocolo de encaminhamento às ofertas de cuidados integrados de ortopedia, programa Agora Tem Especialistas, Ministério da Saúde.
NICE NG38 — investigação inicial de fraturas, incluindo escafoide
Responda antes de ler
Um paciente sofre fratura da cintura do escafoide com desvio de 2 mm. Qual fragmento corre maior risco de necrose avascular, e qual é a explicação anatômica?
O paciente que você vai ver
Onze e dez de uma noite de sábado. Hospital geral de cento e quarenta leitos, o único com pronto-socorro num raio de sessenta quilômetros. A escala da noite tem um clínico, um cirurgião que está no centro cirúrgico desde as nove, e você. O ortopedista é de sobreaviso: mora a vinte e cinco minutos, atende quando é chamado, e a última vez que foi chamado sem necessidade foi há duas semanas — você ouviu o comentário no café.
Na sala de espera há três pessoas com o braço encostado no corpo, e as três chegaram na última hora e meia.
A primeira é Sibila Baturité, 74 anos, aposentada, que escorregou no degrau molhado da área de serviço e caiu para a frente com a mão espalmada no chão. Está sentada, calma, segurando o punho direito com a mão esquerda. O punho tem uma deformidade que se vê de longe: o dorso sobe num degrau e a mão desce depois dele, como o perfil de um garfo apoiado de lado. Ela diz que dói, que é chato, e que já quebrou o outro punho há uns anos, quando escorregou no ônibus.
O segundo é Graciano Ipatinga, 24 anos, entregador de aplicativo, que perdeu o controle da bicicleta numa lombada por volta das dez e caiu com as duas mãos à frente. Ele não tem deformidade nenhuma. O punho esquerdo não está inchado a ponto de chamar atenção. Ele mexe os dedos, fecha a mão, e diz que dói do lado do polegar, mas que dá para trabalhar. Ele pergunta, antes de qualquer outra coisa, se dá para sair rápido, porque tem entrega marcada às sete da manhã.
A terceira chegou de ambulância, e é por ela que a técnica de enfermagem, Laurita Angélico, veio te chamar antes de terminar de escrever a ficha. Nicásio Itambé tem 6 anos, 21 quilos, e caiu de uma barra de macaco de um metro e meio, com o braço estendido, por volta das dez e quarenta. Está no colo da mãe, Evarista, chorando um choro cansado, com o cotovelo esquerdo apoiado na dobra do próprio corpo e a mão pendendo. O cotovelo está muito inchado, com uma pequena prega de pele repuxada na frente, e o antebraço não está na posição em que você esperaria.
Você pega a mão dele. Está fria. Você procura o pulso radial e não acha.
Três pessoas, três ossos diferentes, três relógios que correm em velocidades que não têm nada a ver umas com as outras. E há uma coisa que as três têm em comum, e que é a razão de este capítulo existir: em nenhuma das três a radiografia decide o que você precisa decidir.
Na senhora Sibila, a radiografia vai mostrar a fratura com uma clareza que não deixa dúvida — e vai esconder a doença, que não é a fratura. No Graciano, a radiografia tem chance real de vir limpa e de estar errada. No Nicásio, a radiografia é irrelevante enquanto a mão estiver fria, porque a decisão que importa nos próximos minutos não se toma com imagem: toma-se com o dedo no pulso e o telefone na mão.
O que segue é o que o interno faz nessa noite, na ordem em que ele faz.
Quem adoece disso
Antes dos números, uma advertência sobre de onde eles vêm, porque neste capítulo a procedência muda o peso de cada frase.
O documento brasileiro que responde por duas das três fraturas deste capítulo são os Consensos Brasileiros de Ortopedia e Traumatologia, publicados pela Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia em 2019, feitos pela Comissão de Consensos da entidade em parceria com o Centro Cochrane do Brasil. São 88 perguntas, cada uma com uma recomendação, um nível de evidência e uma revisão da literatura por trás. A conferência é simples e está na nota 1: o sumário numera as perguntas até 88, e o corpo do livro traz 88 ocorrências da palavra Recomendação seguida de dois-pontos. As duas contagens fecham.
Duas dessas 88 perguntas são deste capítulo. A pergunta 27 trata das fraturas não desviadas do escafoide no adulto. A pergunta 21 trata das fraturas supracondilianas do úmero com desvio na criança. Elas são a régua brasileira das metades do carpo e da pediatria, e este capítulo as usa.
A terceira metade não tem régua, e essa é a descoberta que organiza o capítulo inteiro.
Procure no sumário das 88 perguntas por fratura do rádio distal, ou por punho, ou por Colles, ou por extremidade distal do rádio. Não está lá. Estão lá a fratura diafisária do úmero no adulto, a fratura da extremidade proximal do úmero desviada em três ou quatro partes — duas vezes, uma para a escolha entre implantes e outra para a escolha entre operar e não operar —, a fratura do terço médio da clavícula, a fratura do epicôndilo medial na criança, a supracondiliana na criança, a fratura do escafoide, o dedo em martelo, o dedo em gatilho e a síndrome do túnel do carpo, esta última duas vezes. Não está lá a fratura mais comum do membro superior.
E não é que o documento desconheça esse fato. É o próprio texto da pergunta 27 que escreve, para justificar a importância do escafoide, que ele é a segunda fratura mais comum da extremidade superior, depois da fratura do rádio distal. Ou seja: o consenso nacional de ortopedia nomeia a fratura mais comum do membro superior numa frase subordinada, para dizer que a sua pergunta é sobre a segunda colocada, e nunca lhe dedica uma pergunta própria.
Isso não é um defeito de redação. É a situação concreta em que o interno brasileiro atende a senhora Sibila: para a fratura de punho dela, a que ele vai ver dezenas de vezes por ano de plantão, não existe recomendação nacional de sociedade de especialidade, nem protocolo clínico federal, nem diretriz do Ministério. Existe uma linha de encaminhamento, numa versão preliminar de 2016, dizendo que suspeita de fratura vai para a emergência. O resto é a literatura clínica e o julgamento de quem está lá.
Este capítulo diz isso com todas as letras em vez de fingir que a régua existe, e é por isso que o bloco de critérios, adiante, separa o que está escrito em documento brasileiro daquilo que é leitura clínica — inclusive leitura deste capítulo.
Agora os números que existem, com a fonte colada em cada um.
Escafoide. Responde por cerca de 70% das fraturas do carpo, é a segunda fratura mais comum da extremidade superior depois do rádio distal, decorre em geral de trauma de baixa energia e acomete sobretudo homens jovens, entre 20 e 29 anos. Todos esses números são da pergunta 27 dos Consensos. Repare no retrato: baixa energia, homem jovem, economicamente ativo. É exatamente o Graciano, e é exatamente o perfil de quem tem pressa de sair do pronto-socorro.
A mesma fonte dá os números que explicam por que a pressa é cara. Numa fratura da cintura do escafoide, o deslocamento dos fragmentos acima de 1 mm é o que separa estável de instável, e o desvio maior que 1 mm carrega risco aumentado de não união em até 55% dos casos e de necrose avascular proximal em torno de 50%. Do outro lado, na fratura oculta ou estável, o tratamento conservador com gesso por quatro a seis semanas leva à consolidação em 90% a 95% dos casos.
Junte as duas pontas e você tem a aritmética que decide a noite do Graciano: a mesma fratura consolida em nove de cada dez punhos quando é imobilizada, e falha em até um de cada dois quando não é reconhecida e o punho continua trabalhando. A diferença entre os dois desfechos não é um exame caro. É uma tala e um retorno marcado.
Supracondiliana do úmero. É a fratura pediátrica mais frequente do cotovelo e responde por até 60% das fraturas pediátricas dessa articulação. Ocorre com mais frequência entre dois e sete anos. Resulta de queda sobre o braço estendido em até 70% dos pacientes, e acomete mais o membro não dominante. Os tipos são dois: extensão, que responde por aproximadamente 95%, e flexão, que responde por 5%. Somadas, as duas frações fecham em cem por cento, sem sobra e sem sobreposição: é a verificação mais barata do capítulo, e está na nota 3 porque conferência bem-sucedida informa tanto quanto a que falha. Todos esses números são da pergunta 21 dos Consensos.
O Nicásio tem 6 anos, caiu com o braço estendido, e a fratura é do lado esquerdo, que provavelmente não é o dominante. Ele está dentro de todas as faixas modais ao mesmo tempo. Isso não deve tranquilizar ninguém: é justamente a fratura mais comum que produz a complicação mais temida, porque é vista com frequência suficiente para virar rotina.
Rádio distal. Aqui os números que este capítulo pode dar com fonte brasileira aberta são poucos, e ele não vai inventar os que faltam. O que se pode afirmar, e vem dos Consensos: é a fratura mais comum da extremidade superior. O que se pode afirmar, e vem do capítulo vizinho Osteoporose pós-menopausa, na apostila de Ginecologia, que abriu o protocolo brasileiro de osteoporose: a fratura por fragilidade em rádio distal é uma das seis localizações que fecham diagnóstico clínico de osteoporose sem exigir densitometria, ao lado de fêmur proximal, úmero proximal, vértebra, quadril e costela. E que a ordem cronológica típica coloca o punho e a vértebra na casa dos 60 anos e o quadril mais de uma década depois — ou seja, o punho chega primeiro, e chega com anos de antecedência sobre a fratura que incapacita.
Guarde esse último dado, porque ele é a razão de a senhora Sibila estar nesta noite e não em outra: o punho dela é o aviso, e o quadril é o que vem depois se ninguém ouvir o aviso. O capítulo vizinho O relógio começa na queda, na posição 2 desta apostila, é sobre o que acontece quando o aviso não foi ouvido.
Uma última frequência, que não é de doença e sim de processo, e que este capítulo mede em vez de estimar: das 88 perguntas do consenso nacional de ortopedia, nenhuma trata da fratura mais comum do membro superior; duas tratam de assuntos deste capítulo; e cinco tratam do tratamento medicamentoso da osteoporose, que é a doença por trás da fratura de punho da senhora Sibila e que o mesmo documento discute em detalhe farmacológico sem nunca discutir a fratura que a anuncia. As três contagens estão na nota 2.
Por que acontece o que acontece
As três fraturas deste capítulo chegam pelo mesmo gesto — a mão que se estende para amortecer uma queda — e se comportam de maneiras que não se parecem em nada. A razão está na anatomia de cada osso, e é ela que explica por que a radiografia falha de um jeito diferente em cada uma. No escafoide, a imagem falha porque a fratura pode não estar visível. No cotovelo da criança, a imagem é verdadeira mas irrelevante enquanto houver um problema de fluxo. No rádio distal, a imagem é verdadeira, é relevante, e ainda assim não é o achado que muda o futuro daquela pessoa.
Comece pelo escafoide, porque ele tem a irrigação mais contraintuitiva do membro superior. O sangue entra no osso pela metade distal, por pequenos vasos que perfuram a crista dorsal, e de lá corre para dentro do osso no sentido inverso ao que a intuição sugere: de distal para proximal. É o que se chama de irrigação retrógrada. A consequência é direta e vale a pena enunciar devagar, porque ela é a chave clínica do osso: quando o escafoide quebra, o fragmento que fica sem sangue não é o fragmento de baixo, é o de cima. O polo proximal está no fim da linha, e a fratura corta a linha. Quanto mais proximal for o traço, maior a parte do osso que fica a jusante da ruptura — e é por isso que a fratura do polo proximal é a que carrega mais necrose avascular e a que menos consolida.
A mesma anatomia explica por que a fratura do escafoide é invisível na primeira noite. O osso não fica deitado num plano; ele atravessa as duas fileiras do carpo obliquamente, como uma trave inclinada que amarra a fileira proximal à distal. Uma fratura sem desvio produz um traço de espessura quase nula, e um traço só aparece na radiografia quando o feixe de raios passa paralelo a ele. Nas incidências de rotina do punho, o traço do escafoide raramente está paralelo ao feixe. Ele passa a aparecer dias depois não porque a fratura tenha piorado, mas porque a reabsorção óssea nas bordas alarga o traço até que ele fique largo o suficiente para se marcar em qualquer ângulo. Guarde a formulação, porque ela resolve a conversa com o paciente: a radiografia de repetição não procura uma fratura nova, procura a mesma fratura ficando visível. A tabaqueira anatômica é a tradução clínica dessa geometria. Estenda o polegar e aparecem duas cordas na base dele: a de trás é o tendão do extensor longo do polegar, e a da frente é o par formado pelo extensor curto do polegar e o abdutor longo do polegar. Entre as duas cordas há uma depressão, e o assoalho dessa depressão é o escafoide — não há nada entre o seu dedo e o osso além de pele e uma fina camada de tecido. É a única região do corpo em que se palpa diretamente um osso do carpo. Por isso a dor à palpação da tabaqueira, num paciente que caiu com a mão espalmada, é um achado com peso próprio, e por isso ela não perde peso porque a radiografia veio limpa: os dois testes medem coisas diferentes. A palpação mede onde dói. A radiografia mede o que já ficou largo o bastante para aparecer.
No cotovelo da criança, a fragilidade é de forma, não de irrigação. A extremidade distal do úmero é uma placa achatada: na frente há a fossa coronóidea, atrás há a fossa olecraniana, e o osso entre as duas é fino como papelão, sustentado apenas por duas colunas laterais. Numa queda com o cotovelo hiperestendido, o olécrano entra na sua fossa e trabalha como uma cunha; a cápsula anterior se tensiona; e o osso cede exatamente nessa cintura fina. É a fratura supracondiliana de extensão, que responde por cerca de 95% dos casos. O fragmento distal desliza para trás e o fragmento proximal — a ponta afiada da diáfise — avança para a frente. E o que existe na frente do cotovelo, num plano anteromedial, imediatamente colado ao osso, é o feixe que este capítulo inteiro persegue: a artéria braquial e o nervo mediano, correndo juntos. A ponta do fragmento proximal avança contra eles. Pode contundir, estirar, comprimir entre osso e fáscia, prender dentro do foco de fratura, ou romper. Quando essa ponta atravessa o músculo braquial e se aloja no subcutâneo, ela repuxa a pele e produz uma pequena prega ou covinha na dobra do cotovelo — o sinal da prega cutânea, que Nicásio tem e que quer dizer que o fragmento saiu do lugar em que se pode empurrá-lo de volta com facilidade. Quem examina esse cotovelo precisa saber que a estrutura que está em risco não está no cotovelo: está na mão, a jusante.
Um nervo em particular merece parágrafo próprio, porque é o mais lesado nessa fratura e o mais facilmente perdido no exame. O nervo interósseo anterior é um ramo do mediano e é puramente motor: não leva sensibilidade nenhuma. Ele inerva o flexor longo do polegar, a metade do flexor profundo dos dedos que dobra a última falange do indicador e do médio, e o pronador quadrado. Uma lesão isolada desse nervo, portanto, não produz dormência em lugar nenhum, não altera o toque, não altera a picada, e passa inteira por um exame que pergunta se está formigando. O que ela produz é a incapacidade de dobrar a ponta do polegar e a ponta do indicador — a criança que não consegue fazer um círculo fechado com os dois dedos, e faz um triângulo com as pontas retas. É por isso que, neste capítulo, escrever no prontuário que o exame neurológico está sem alterações, sem dizer o que foi testado, não é um resumo: é uma omissão que o próximo plantonista não tem como desfazer.
Da mão que perde fluxo até a sequela definitiva há um caminho conhecido, e ele é a razão de a supracondiliana ser a fratura pediátrica de maior risco de contratura isquêmica. O antebraço da criança tem compartimentos musculares fechados por fáscia que não cede; se o fluxo arterial cai, se o retorno venoso obstrui, ou se o cotovelo é imobilizado em flexão excessiva, a pressão dentro do compartimento flexor sobe, o músculo isquemia e, ao cicatrizar, encurta e fibrosa numa garra fixa e insensível — a contratura isquêmica de Volkmann, que é irreversível e não tem cirurgia que devolva a mão. O reconhecimento e o manejo da síndrome compartimental em si, com os sinais precoces e tardios e os cortes de pressão, pertencem ao capítulo O exame que se faz duas vezes, na apostila Procedimentos e Vias de Acesso, que os assume por inteiro e para onde este capítulo remete sem duplicar uma linha. Sobram aqui duas coisas apenas: por que esse cotovelo em particular é tão propenso a chegar lá, e o gesto que atrasa o processo, que é não passar de noventa graus de flexão na imobilização provisória.
Falta o rádio distal, e o mecanismo dele é uma conversa sobre qualidade de osso e não sobre energia de trauma. A metáfise distal do rádio é osso trabecular, esponjoso, com uma casca cortical fina — o mesmo tipo de osso que a vértebra e o colo do fêmur, e o primeiro a perder massa quando a remodelação óssea entra em déficit. Numa queda para a frente com a mão espalmada e o punho estendido, a carga chega concentrada nessa metáfise: a cortical dorsal, comprimida, amassa e encurta; a cortical volar, tracionada, abre. O fragmento distal angula e escorrega para o dorso, e o perfil que resulta é o degrau visível a olho nu, com a mão descendo depois dele. Num osso jovem, essa mesma queda produz uma entorse, uma fratura em galho verde, ou nada. Num osso empobrecido, produz uma fratura completa. É aí que está a inversão que o capítulo pede que você guarde: no rádio distal, o mecanismo do trauma é banal e o mecanismo da doença é o que interessa. A queda da própria altura não quebra osso normal. Quando ela quebra, o que aconteceu não é que a queda foi forte; é que o osso estava fraco. A radiografia responde a primeira pergunta com perfeição e não faz a segunda.
As complicações tardias do punho fraturado também têm mecanismo, e vale conhecê-los porque são eles que dizem o que vigiar. A compressão aguda do nervo mediano vem do fato de que o nervo passa por um túnel de paredes rígidas imediatamente à frente da fratura; hematoma, edema e — sobretudo — imobilização com o punho em flexão forçada estreitam esse túnel e comprimem o nervo em horas. A ruptura tardia do tendão extensor longo do polegar tem outra explicação: esse tendão faz uma curva fechada em torno de uma saliência óssea do dorso do rádio e recebe pouco sangue justo nessa curva; a fratura, mesmo sem desvio, altera a superfície por onde ele desliza e o suprimento local, e o tendão pode romper semanas ou meses depois, quando o gesso já saiu e ninguém mais está olhando. Por isso o paciente que volta dizendo que não levanta mais o polegar não está reclamando de dor: está trazendo um achado.
Como se apresenta de verdade
As três fraturas deste capítulo aparecem de seis maneiras, e só duas delas são evidentes. As outras quatro são o motivo de o capítulo existir. A ordem abaixo vai da apresentação que qualquer um reconhece à que quase todo mundo perde.
Uma advertência de exame antes de começar: em toda apresentação deste capítulo, o exame vascular e o exame neurológico do membro vêm antes de qualquer imagem e são refeitos depois de qualquer manobra ou imobilização. Isso não é conselho, é o passo escrito no protocolo federal do SAMU, e a sequência exata está no bloco de critérios. O que muda de uma apresentação para outra não é se você examina — é o que você está procurando.
Aprender para cuidar no internato. Reconhecer fratura oculta e complicação neurovascular, fazendo exame comparável antes e depois de imobilizar. Ao discutir o caso com o preceptor, explicite os achados que sustentam a hipótese, uma alternativa relevante, a decisão que precisa ocorrer agora e o que fará mudar o plano. O resultado esperado é uma ação clínica justificada e acompanhada, além de reconhecer o diagnóstico.
O punho em degrau, que se reconhece da porta
Pessoa idosa, queda da própria altura para a frente, mão espalmada no chão, e um punho que muda de perfil: o dorso sobe num degrau logo acima do punho e a mão desce depois dele. Visto de lado, o contorno lembra o perfil de um garfo deitado. É a apresentação da fratura de rádio distal com desvio dorsal, e é a mais fácil de todo este capítulo.
Essa facilidade é exatamente o risco. Quando o diagnóstico é óbvio, o exame encurta, e é aqui que se perdem três coisas. A primeira é o estado do nervo mediano: pergunte, antes da imobilização, se há dormência nos três dedos e meio do lado do polegar, e teste a sensibilidade da polpa do indicador comparando com o mínimo. A segunda é a articulação vizinha, sempre: examine o cotovelo e o ombro do mesmo lado, porque o mecanismo que quebra o punho é o mesmo que fratura a cabeça do rádio e o úmero proximal, e a dor do punho abafa a do resto. A terceira é a pele: procure ferida sobre o foco, mesmo pequena, porque isso muda a fratura de categoria e a manda para o capítulo Antes que o ortopedista chegue, na posição 3 desta apostila, que é quem trata fratura exposta.
E há uma quarta coisa, que não é do exame físico e é a que este capítulo mais insiste: pergunte como foi a queda e de que altura. Queda da própria altura, ou de altura menor, num paciente acima dos 50 anos, define fratura por fragilidade — e fratura por fragilidade é diagnóstico de doença, não de acidente. O que se faz com isso está no bloco de conduta e a investigação inteira é cedida, com endereço, adiante.
O punho que não parece nada, e dói na tabaqueira
Adulto jovem, queda com a mão espalmada, e um punho que não tem deformidade, não tem grande edema, mexe todos os dedos e fecha. A queixa é uma dor mal localizada do lado do polegar, que o paciente descreve como suportável e que ele traduz espontaneamente como uma torção. Ele quer ir embora.
É a apresentação da fratura do escafoide, e o único achado que a separa de uma entorse é onde dói. Três manobras localizam, e vale fazer as três porque nenhuma sozinha é suficiente: dor à palpação da tabaqueira anatômica, com o polegar do paciente estendido para abrir a depressão; dor à palpação do tubérculo do escafoide, que é a saliência que se sente na face palmar do punho, na base da eminência tenar, com o punho levemente estendido para fora; e dor à compressão axial do primeiro metacarpo, empurrando o polegar em direção ao punho no eixo do dedo.
A comparação com o lado são não é opcional. A tabaqueira é sensível em todo mundo se apertada com força, e o exame só significa alguma coisa quando a mesma pressão é aplicada dos dois lados e um deles dói de forma desproporcional. Faça o lado bom primeiro, com o paciente olhando, e depois o lado da queixa.
A partir daqui, tudo o que este capítulo tem de mais importante acontece: a radiografia vem, e ela pode vir normal. O que se faz com uma radiografia normal num punho que dói na tabaqueira é o assunto inteiro do próximo bloco, e é a decisão que separa o interno que devolve o punho ao paciente do interno que devolve o paciente sem o punho.
O cotovelo da criança que não estende, e a prega na pele
Criança entre dois e sete anos, queda de altura pequena — playground, sofá, barra de macaco, bicicleta — com o braço estendido. Chega com o cotovelo apoiado contra o corpo, sem querer mexer, com edema que apareceu rápido e cresce enquanto você olha. A criança não deixa examinar, e a mãe responde as perguntas.
Três coisas se procuram aqui, sem tocar no cotovelo mais do que o necessário. A primeira é a deformidade: perfil do cotovelo alterado, com o antebraço parecendo curto e o olécrano proeminente atrás. A segunda é a prega ou covinha na dobra anterior do cotovelo, que significa que a ponta do fragmento proximal está enfiada no músculo e no subcutâneo — é um sinal de gravidade e não de detalhe, porque anuncia que a redução fechada pode não funcionar e que a estrutura neurovascular está no caminho. A terceira é a equimose anterior precoce, pela mesma razão.
O erro clássico desta apresentação é fazer manobras. Não se testa amplitude, não se procura estabilidade ligamentar, não se roda o antebraço para ver se dói. O diagnóstico já está feito pelo mecanismo somado à deformidade e ao edema, e cada manobra aumenta o desvio e leva a ponta do fragmento mais para dentro do feixe neurovascular. O que se faz com esse cotovelo é olhar a mão e imobilizar sem forçar, nesta ordem.
Há uma variante que engana: a fratura sem desvio. A criança dói, não quer estender, o cotovelo incha pouco, e a radiografia parece normal a olho não treinado. Nesses casos o único achado radiográfico pode ser o sinal indireto de derrame articular, e o assunto é do bloco de investigação. Clinicamente, a regra prática é dura e simples: criança com dor no cotovelo depois de queda sobre o braço estendido, que se recusa a usar o braço, é fratura até que se prove o contrário, e é imobilizada e reavaliada mesmo com radiografia inconclusiva.
A mão fria, e a mão rosada que não tem pulso
Esta é a apresentação que decide se você telefona agora ou daqui a uma hora, e ela tem duas formas que precisam ser separadas com cuidado, porque parecem a mesma coisa no papel e não são a mesma coisa na maca.
A primeira forma é a mão isquêmica: fria, pálida ou marmórea, com enchimento capilar lento, sem pulso radial palpável, e frequentemente com dor desproporcional. Essa é uma emergência de tempo curto. É a apresentação do Nicásio, e a conduta dela está no bloco de conduta com hora marcada.
A segunda forma é a mão sem pulso radial palpável, mas quente, rosada, com enchimento capilar rápido e bem perfundida. Ela existe, tem nome na literatura de mão, e é a que produz mais divergência de conduta no mundo inteiro — porque o membro está, naquele instante, sendo perfundido por circulação colateral em torno do cotovelo, e a discussão é sobre o que fazer com a artéria que não está pulsando. Este capítulo não declara vencedor nessa discussão: ela está no bloco de divergências, com as duas posições rotuladas.
O que este capítulo declara, e declara sem reserva, é o que essas duas formas têm em comum na conduta imediata do interno: as duas exigem que o ortopedista seja avisado agora, as duas exigem que o achado seja escrito com hora, e nenhuma das duas é motivo para mandar a criança primeiro ao raio-X e reavaliar depois. Perfusão da mão não espera exame de imagem.
E há uma armadilha de exame que precisa ser nomeada: a oximetria de pulso no dedo da mão afetada é útil quando dá um resultado, e não serve de tranquilizante quando não dá. Ela mede o que atravessa o leito capilar, e um dedo mal perfundido simplesmente não gera curva. Ausência de leitura não é normalidade, é dado ausente — e a diferença entre as duas coisas é a diferença entre chamar e não chamar.
O paciente que volta, três semanas depois do gesso
Esta apresentação não acontece no plantão da fratura; acontece no plantão seguinte, ou no ambulatório, e o interno que a atende costuma não ser o que imobilizou. São três quadros distintos, e os três são complicações do rádio distal imobilizado.
O primeiro é agudo e é o único que corre: dormência progressiva nos três dedos e meio do lado do polegar, dor em queimação que piora à noite e não cede com a elevação, e piora franca em horas ou nos primeiros dias após a imobilização. É a compressão aguda do nervo mediano no túnel do carpo, e a causa mais frequente e mais evitável é a imobilização com o punho em flexão forçada, uma posição que foi usada no passado justamente para segurar a redução e que hoje se evita por este motivo. A conduta imediata do interno é abrir a imobilização, retirar a flexão do punho, reavaliar em minutos, e comunicar o ortopedista — não é prescrever analgésico e observar até de manhã.
O segundo é tardio e indolor: o paciente conta que não consegue mais levantar o polegar do plano da mesa. É a ruptura do tendão extensor longo do polegar, que costuma acontecer semanas a meses depois, inclusive — e sobretudo — em fratura que não tinha desvio e foi tratada só com gesso. Não é urgência de horas, mas é encaminhamento à cirurgia da mão e não observação, porque o tendão rompido não volta a colar sozinho.
O terceiro é o mais difícil de nomear e o mais fácil de atribuir ao paciente: dor persistente e desproporcional depois que o gesso saiu, com a mão inchada, a pele mudando de cor e de temperatura, suor alterado, e rigidez que piora em vez de melhorar. É a síndrome dolorosa regional complexa. O que o interno precisa saber é que a dor que não cede na retirada do gesso não é frescura nem baixo limiar: é um diagnóstico, e ele piora quanto mais tarde se começa a mobilizar e a tratar.
Os três quadros compartilham um antecedente comum, e é por isso que este capítulo insiste no registro: só se percebe uma piora quem tem contra o que comparar. Se o exame do dia da fratura foi escrito como sem alterações, o exame de hoje não pode ser comparado com nada.
A fratura que não combina com a história
A última apresentação é a que faz o capítulo parar. Uma criança com fratura de membro superior cuja história não fecha: o mecanismo relatado não produziria aquela lesão; a versão muda entre quem conta e entre uma vez e outra; a procura por ajuda demorou muito para a gravidade; a criança não tem desenvolvimento motor compatível com o que se descreve; ou há outras lesões em estágios diferentes de cicatrização.
A régua não é uma lista de fraturas suspeitas para decorar. A régua é a compatibilidade entre a lesão, o mecanismo relatado e o desenvolvimento da criança, mais a estabilidade da história entre narradores e ao longo do tempo, mais a proporcionalidade da procura de ajuda. Essa é a formulação do capítulo Violência e maus-tratos infantis, na apostila de Emergências Pediátricas, e ela é a régua deste capítulo também, sem alteração de uma palavra.
Quando essa suspeita nasce, o assunto sai daqui. O que fazer — os três atos que a suspeita desencadeia, para quem vai cada um, os prazos de notificação, o que se escreve e o que não se escreve no prontuário, e por que nome de suposto autor e juízo de intenção não entram — é inteiramente do capítulo Violência e maus-tratos infantis, e este capítulo o cede sem reserva e sem duplicar uma linha.
O que fica aqui é só a bifurcação, e ela tem duas metades. A primeira: a suspeita não adia o tratamento da fratura. A criança com cotovelo isquêmico e história incompatível continua sendo uma criança com cotovelo isquêmico, e a sequência de conduta deste capítulo corre inalterada. A segunda: o tratamento da fratura não dispensa a suspeita. A alta com o gesso pronto e o retorno marcado, sem a rede de proteção acionada, devolve a criança ao mesmo ambiente com um braço a menos para se defender.
Como fechar o diagnóstico
A investigação deste capítulo tem uma característica que o distingue dos vizinhos: em duas das três fraturas, o exame de imagem que você pede é o mesmo que qualquer um pediria, e o que muda o desfecho é o que você faz com o resultado. Pedir mais exame não resolve; ler o exame certo, com a pergunta certa, resolve.
As seções abaixo vão da imagem para o exame de mão e terminam no prontuário, e essa ordem é proposital: no fim, a única coisa que sobrevive ao seu plantão é o que ficou escrito.
Radiografia negativa e lesão ameaçadora são problemas diferentes. Suspeita de escafoide com radiografia negativa exige proteção e investigação adicional; RM precoce pode confirmar ou excluir fratura sem esperar 10–14 dias, conforme acesso. Se optar por reavaliação e radiografia tardia, garantir retorno e manutenção da proteção até esclarecimento. No trauma de cotovelo, avaliar nervos mediano/interósseo anterior, radial e ulnar por função: sinal de OK, extensão de polegar/dedos e abdução dos dedos; sensibilidade normal não exclui lesão motora.
A radiografia do punho, e por que o escafoide precisa de um pedido diferente
Para a fratura de rádio distal, o pedido é o de rotina: radiografia do punho em duas incidências, posteroanterior e perfil. Elas mostram a linha de fratura, a angulação do fragmento no perfil, o encurtamento e o comprometimento da articulação. Peça também a incidência oblíqua quando houver dúvida sobre a extensão articular do traço. Nada disso é controverso e nada disso é o assunto deste capítulo.
Para o escafoide, o pedido de rotina é insuficiente, e escrever punho no pedido é o primeiro erro da noite. O escafoide atravessa o carpo obliquamente, e as incidências padrão do punho o projetam encurtado e sobreposto aos ossos vizinhos. O que se pede, com estas palavras no pedido, é radiografia de escafoide, série de quatro incidências: posteroanterior, perfil, oblíqua, e a posteroanterior com desvio ulnar do punho.
Essa quarta incidência é a que justifica o pedido separado, e vale entender por que ela existe. Com o punho desviado para o lado do dedo mínimo, o escafoide roda e se alonga, deixando de estar inclinado em relação ao filme e passando a ficar deitado no plano da imagem. Um traço que estava oblíquo ao feixe fica paralelo a ele, e aparece. Alguns serviços obtêm o mesmo efeito com o punho em desvio ulnar e o feixe angulado; o que importa não é a variante do serviço, é que a incidência do escafoide tenha sido feita e que o pedido a tenha nomeado.
Uma consequência prática que se aprende na primeira vez que dá errado: o técnico de radiologia faz o que está escrito no pedido. Se o pedido diz punho, você recebe duas incidências de punho e não recebe a do escafoide, e o exame que voltou não responde a sua pergunta — mas parece que responde, porque tem um laudo dizendo que não há fratura. O laudo está certo. A pergunta é que não foi feita.
Vale registrar onde este capítulo está pisando. A leitura sistemática de imagem, o método de olhar uma radiografia e os padrões radiológicos são da apostila de Interpretação de Exames à Beira do Leito. O capítulo O exame que se faz duas vezes, na apostila Procedimentos e Vias de Acesso, mediu aquele acervo e registrou que ele cobre a imagem do tórax e não a do membro, recusando-se a assumir a lacuna porque ler imagem não é o que aquele capítulo ensina. Este capítulo, então, ASSUME o que sobra e diz que assumiu: as incidências que se pedem para estas três fraturas e os sinais indiretos que decidem conduta nelas. Não assume o método geral de leitura de imagem, que continua sem capítulo neste nível.
A radiografia normal que não exclui, e o que fazer com ela
Este é o parágrafo mais importante do capítulo, e ele cabe numa frase: numa pessoa que caiu com a mão espalmada e tem dor à palpação da tabaqueira anatômica, uma radiografia normal não exclui fratura do escafoide.
A razão é a do bloco de mecanismo: a fratura sem desvio produz um traço fino demais para aparecer enquanto não houver reabsorção nas bordas, e essa reabsorção leva dias. A radiografia da primeira noite mede se o traço já ficou largo. Ela não mede se ele existe.
O nome disso é fratura oculta, e ela não é uma categoria acadêmica: é uma categoria que a própria fonte brasileira usa. A pergunta 27 dos Consensos, ao descrever o tratamento, fala da fratura oculta ou estável e diz que nela o gesso por quatro a seis semanas é o tratamento de escolha, com consolidação em 90% a 95%. Ou seja, o documento nacional reconhece explicitamente a existência da fratura que a radiografia não mostrou e prescreve tratamento para ela.
A conduta que decorre disso é a que este capítulo ensina, e ela não custa nada: quem tem dor na tabaqueira com radiografia normal sai imobilizado e com retorno marcado, não sai liberado. A imobilização é uma tala ou gesso que inclui o polegar, e o retorno para reavaliação clínica com nova radiografia é em torno de dez a quatorze dias. Se na reavaliação a dor sumiu e a radiografia continua normal, a conduta se encerra. Se a dor persiste, o caso não é de terceira radiografia: é de imagem que enxerga o que a radiografia não enxerga, e de avaliação especializada.
Há uma consequência de linguagem que muda a adesão do paciente, e ela vale ser dita na hora: a explicação não pode ser a que sai mais fácil — que o exame não mostrou nada e que a tala é só por precaução. Essa frase autoriza o paciente a tirar a tala em casa. A explicação certa é que o osso em questão só aparece quebrado alguns dias depois, que o exame de hoje ainda não consegue mostrar, e que o retorno existe para ver a mesma fratura ficando visível. A conversa está no bloco de conversa, com a fala escrita.

O que existe além da radiografia, e o que o Brasil diz sobre isso
Quando a dor persiste na reavaliação e a radiografia continua limpa, três exames respondem à pergunta com sensibilidade maior que a da radiografia simples: a tomografia computadorizada do punho, que enxerga bem o traço e a posição dos fragmentos; a ressonância magnética, que enxerga o edema ósseo e por isso mostra a fratura mais cedo que qualquer outro exame; e a cintilografia óssea, que também mostra cedo, mas localiza pior.
Aqui este capítulo precisa fazer o que se comprometeu a fazer: dizer qual é a régua brasileira. E a resposta medida é que não há.
Os Consensos Brasileiros de Ortopedia e Traumatologia, na pergunta 27, tratam de tratamento — conservador contra cirúrgico — e não de qual exame pedir nem quando repetir. O documento federal de encaminhamento, na seção 2.10, resolve para onde o paciente vai (suspeita ou diagnóstico de fratura pós-trauma vai para a emergência) e não diz nada sobre imagem. O protocolo estadual de mão e punho, da mesma autoria federal e estadual, resolve o encaminhamento eletivo e, sobre fratura, diz uma linha inteira: suspeita de fratura vai para emergência ou urgência ou pronto atendimento. Nenhum dos três documentos brasileiros abertos aqui contém a palavra que este capítulo precisa: o que fazer quando a radiografia veio normal e a suspeita continua.
Portanto: o intervalo de dez a quatorze dias para a reavaliação e a escolha entre tomografia e ressonância, tal como escritos acima, são leitura clínica deste capítulo apoiada na literatura de mão e no reconhecimento explícito da fratura oculta pela fonte nacional — não são citação de norma brasileira, porque não há norma brasileira que os fixe. O leitor merece saber a diferença, e a marcação vale para as duas frases.
O que muda na prática do serviço pequeno é a segunda metade dessa lacuna. Sem régua nacional, o acesso à tomografia e à ressonância depende inteiramente da regulação local, e o interno que atende o Graciano numa madrugada de sábado não vai conseguir nenhuma das duas naquela noite — nem precisa. A decisão daquela noite não é qual exame avançado pedir; é imobilizar e marcar o retorno. O exame avançado é um problema da segunda consulta, e é ali que ele se discute com o ortopedista.
A radiografia do cotovelo da criança, e o que ela mostra quando não mostra fratura
Uma advertência de ordem antes de qualquer coisa sobre imagem de cotovelo: se a mão está fria, sem pulso ou mal perfundida, nada nesta seção acontece antes do telefonema. A imagem vem depois, ou vem enquanto o ortopedista já está a caminho, nunca antes de ele saber.
Feita essa ressalva, o pedido é radiografia do cotovelo em anteroposterior e perfil, e o perfil é o que carrega quase toda a informação. Três achados decidem.
O primeiro é o sinal indireto de derrame articular. O cotovelo tem coxins de gordura junto às fossas do úmero; o de trás fica escondido dentro da fossa olecraniana e não aparece num cotovelo normal. Quando há sangue dentro da articulação, a cápsula distende e empurra essa gordura para fora da fossa, e ela passa a aparecer como uma faixa clara atrás do úmero distal. Num contexto de trauma, coxim gorduroso posterior visível significa hemartrose, e hemartrose significa fratura intra-articular até que se prove o contrário — mesmo quando não se vê linha de fratura nenhuma. A criança que tem esse achado é imobilizada e reavaliada, não é liberada.
O segundo é o alinhamento entre o úmero e o capítulo. No perfil de um cotovelo normal, uma linha traçada pela margem anterior do úmero atravessa o terço médio do núcleo de ossificação do capítulo. Quando o fragmento distal se desloca para trás, essa linha passa a cruzar o núcleo pela frente, ou a passar inteiramente à frente dele. É a maneira mais confiável de reconhecer uma supracondiliana de extensão com desvio pequeno num cotovelo cheio de núcleos de ossificação que ainda não fecharam.
O terceiro é o alinhamento entre o rádio e o capítulo: uma linha pelo eixo do colo do rádio deve apontar para o centro do capítulo em qualquer incidência. Quando não aponta, a cabeça do rádio está luxada, e isso muda inteiramente o diagnóstico — pode não ser uma supracondiliana.
A classificação que o ortopedista vai usar ao telefone é a de Gartland, e ela está descrita na pergunta 21 dos Consensos: tipo I, fratura sem desvio, com evidência radiográfica de derrame do cotovelo; tipo II, fratura com desvio e periósteo posterior íntegro; tipo III, fratura com desvio e periósteo anterior e posterior interrompidos. A mesma fonte registra que em 1996 Wilkins propôs subdivisão para as fraturas com desvio rotacional e que em 2006 se acrescentou um tipo IV, para a instabilidade multidirecional. O interno não precisa classificar; precisa descrever o que vê, e a descrição alimenta a classificação de quem vai operar.
Uma nota de precisão sobre essa mesma passagem: ao apresentar a subdivisão de Wilkins, o documento a chama de subdivisão do tipo B, quando os tipos que acabara de definir três linhas acima são I, II e III, e não A, B e C. Não é erro de conteúdo — a subdivisão de Wilkins é reconhecidamente do tipo II —, é troca de nomenclatura dentro do mesmo parágrafo, e está registrada na nota 5 para que o leitor que for conferir a fonte não pense que se perdeu.
O exame que não pode ser escrito como sem alterações
Este capítulo tem uma exigência que ele não abre mão, e ela vale para as três fraturas: o exame vascular e neurológico do membro é feito antes de qualquer manobra ou imobilização, refeito depois dela, e escrito por extenso nas duas vezes. A obrigação de fazer duas vezes é federal e está no protocolo do SAMU; a exigência de escrever o que foi testado é deste capítulo, e é a que impede que o próximo plantonista fique sem comparação.
O exame vascular tem quatro itens e leva vinte segundos: pulso radial, palpado e comparado com o lado são; temperatura da mão, comparada com a outra; cor e enchimento capilar, comprimindo a polpa de um dedo e contando os segundos até voltar; e a presença ou ausência de dor desproporcional. Registre os quatro, inclusive quando estiverem normais. A frase útil é a que diz o valor: pulso radial presente e simétrico, mão quente e rosada, enchimento capilar em dois segundos.
O exame neurológico tem quatro nervos e um gesto para cada um, e é aqui que a escrita preguiçosa custa caro.
O nervo interósseo anterior é motor puro e não dá dormência nenhuma. O gesto é pedir que a criança faça um círculo fechado encostando a ponta do polegar na ponta do indicador. Quem tem o nervo lesado não consegue dobrar as pontas e forma um triângulo com os dedos retos. Numa criança pequena que não colabora, ofereça um objeto pequeno para ela pegar em pinça e observe o formato dos dedos.
O nervo mediano propriamente dito responde pela sensibilidade da polpa do indicador e pela oposição do polegar. O gesto é tocar a polpa do indicador e comparar com a do mínimo, e pedir que encoste o polegar na base do dedo mínimo.
O nervo radial, e o seu ramo interósseo posterior, respondem pela extensão do punho e dos dedos e pela sensibilidade do dorso da primeira comissura. O gesto é pedir que levante o polegar do plano da mesa como quem dá um sinal positivo, e estender o punho contra a gravidade.
O nervo ulnar responde pela abdução dos dedos e pela sensibilidade do dedo mínimo. O gesto é pedir que afaste os dedos uns dos outros e mantenha contra resistência, e tocar a polpa do mínimo. Ele merece atenção específica em duas situações deste capítulo: no cotovelo com desvio, porque corre atrás do epicôndilo medial, e no pós-operatório da supracondiliana, porque a fixação com fio medial cruzado é justamente a que carrega risco de lesá-lo — e a fonte brasileira registra isso na recomendação da pergunta 21.
A frase que substitui sem alterações, e que cabe em uma linha, é esta: interósseo anterior, mediano, radial e ulnar testados individualmente, motor e sensitivo, sem déficit. Se você não testou os quatro, escreva quais testou. Um exame parcial declarado é informação; um exame completo declarado que não aconteceu é uma armadilha para quem vem depois.
O que se escreve, e por que o prontuário é parte da investigação
Num capítulo em que a decisão certa muitas vezes é imobilizar e reavaliar, o registro deixa de ser burocracia e vira o próprio exame: o valor de amanhã depende de haver um valor de hoje com que comparar. As três fraturas deste capítulo geram três registros diferentes, e vale saber de cor o esqueleto de cada um.
No punho com radiografia normal e dor na tabaqueira, escreva: o mecanismo com a hora; que há dor à palpação da tabaqueira anatômica, à palpação do tubérculo do escafoide e à compressão axial do primeiro metacarpo, comparadas com o lado contralateral; que a radiografia de escafoide em quatro incidências foi realizada e não mostrou traço; que a hipótese é de fratura oculta do escafoide, que o punho foi imobilizado incluindo o polegar, e a data do retorno. A palavra que não pode faltar é a hipótese: sem ela, o próximo leitor vê um punho normal engessado sem motivo, e libera.
No cotovelo da criança, escreva o exame vascular e neurológico com os valores, antes e depois da imobilização, cada um com a sua hora; a presença ou ausência da prega cutânea anterior; o grau de flexão em que o cotovelo foi imobilizado; a hora do contato com o ortopedista e o nome de quem atendeu; e o que foi combinado. A hora de cada exame é o dado que permite dizer, depois, se piorou.
No punho da senhora idosa, escreva a frase que o capítulo vizinho de osteoporose pede que exista, e escreva-a inteira: que houve fratura por fragilidade, comprovada radiologicamente, em rádio distal, decorrente de queda da própria altura; que há indicação de investigação e tratamento de osteoporose; e que o paciente foi encaminhado. Essa frase é o único gesto deste capítulo que muda o risco da próxima fratura, e ela não custa dez segundos.
Uma última linha, que serve às três: escreva o que você orientou e o que combinou de gatilho para voltar antes do retorno. Se não está escrito que você disse à mãe do Nicásio para voltar imediatamente se a mão esfriar, ficar dormente ou a dor aumentar, ninguém depois vai saber se ela foi orientada ou se apenas não voltou.
O que decide, e onde a régua brasileira acaba
Este bloco tem duas metades, e a divisão entre elas é a coisa mais importante que o capítulo tem a oferecer. Na primeira estão as decisões que um documento brasileiro governa, com o documento nomeado e datado ao lado. Na segunda estão as decisões que nenhum documento brasileiro governa — e a maior delas é o tratamento da fratura mais comum do membro superior. Onde a régua existe, este capítulo a cita. Onde ela não existe, ele diz que não existe e marca a frase seguinte como leitura clínica dele, para que o leitor saiba o que está lendo. As notas de auditoria, no fim, trazem as contas que foram refeitas: as que não fecharam, as que fecharam, e uma que parecia não fechar e era artefato de extração de PDF.
- 1Antes de tudo: olhe a mão, dos dois lados. Pulso, temperatura, cor, enchimento capilar, e um gesto motor por nervo. Escreva os valores com a hora. Isso vale para as três fraturas e vem antes da imagem em todas.
- 2Se a mão está fria, pálida ou sem pulso: pare a investigação, ligue para o ortopedista agora e escreva a hora do telefonema. Não mande para o raio-X para depois reavaliar.
- 3Se a mão está bem perfundida: imobilize sem forçar, sem flexionar o cotovelo além de noventa graus e sem deixar o punho em flexão, e trate a dor. A técnica da tala é do capítulo O exame que se faz duas vezes, na apostila Procedimentos e Vias de Acesso, que a ensina — use a de lá e não a refaça aqui.
- 4Refaça o exame vascular e neurológico depois da imobilização, e escreva de novo, com a segunda hora. Esse é o passo que o protocolo federal do SAMU numera e que quase ninguém registra.
- 5Só agora peça a imagem, e peça a certa: punho em duas incidências para o rádio distal; escafoide em quatro incidências, com a posteroanterior em desvio ulnar nomeada no pedido, quando a dor for na tabaqueira; cotovelo em anteroposterior e perfil na criança.
- 6Radiografia mostrando fratura de rádio distal: pergunte, em voz alta, como foi a queda e de que altura. Queda da própria altura acima dos 50 anos é fratura por fragilidade, e a frase inteira vai para o relatório de alta.
- 7Radiografia normal com dor na tabaqueira: imobilize incluindo o polegar, escreva a hipótese de fratura oculta do escafoide com essas palavras, e marque o retorno em dez a quatorze dias. Não libere.
- 8Radiografia de cotovelo sem traço visível mas com coxim gorduroso posterior aparente, ou com a linha umeral anterior passando à frente do capítulo: trate como fratura, imobilize e reavalie.
- 9Em criança, antes de assinar a alta, faça a pergunta do mecanismo e confira se a lesão, a história e o desenvolvimento fecham. Se não fecharem, o caminho é o do capítulo Violência e maus-tratos infantis, na apostila de Emergências Pediátricas, e ele corre em paralelo ao tratamento da fratura, nunca no lugar dele.
- 10Ao dar alta, escreva o gatilho de retorno antecipado e diga-o em voz alta para quem vai levar o paciente para casa: dormência nova, dor que cresce, dedos frios, dedos que mudam de cor, ou impossibilidade de mexer os dedos.
Tabela de conversão do capítulo: mg, mL e apresentação, recalculada em Python contra a Rename 2024, num adulto de 62 kg e numa criança de 21 kg
| Droga e paciente | Dose por dose | Apresentação da Rename 2024 | Volume calculado | O que conferir antes de aspirar |
|---|---|---|---|---|
| Dipirona, adulto de 62 kg | 1.000 mg | Solução injetável 500 mg/mL, componente Básico | 2,0 mL | Ampola de 2 mL entrega exatamente 1 g; ampola de 5 mL entrega 2,5 g. Confira o volume impresso, não a concentração. |
| Dipirona, criança de 21 kg | 315 mg (15 mg/kg) | Solução oral 500 mg/mL, componente Básico | 0,63 mL | Num frasco de 20 gotas por mL, 0,63 mL são 12,6 gotas. Arredonde para baixo e confira o conta-gotas do frasco, porque a relação gota/mL varia entre fabricantes. |
| Paracetamol, adulto de 62 kg | 500 a 1.000 mg | Comprimido 500 mg, componente Básico | 1 a 2 comprimidos | Teto de 4.000 mg em 24 horas em adulto sem hepatopatia; menos se houver álcool ou desnutrição. |
| Paracetamol, criança de 21 kg | 315 mg (15 mg/kg) | Solução oral 200 mg/mL, componente Básico | 1,58 mL | A dose pediátrica calculada por peso não pode exceder a dose do adulto. Aqui 315 mg contra 1.000 mg: cabe. |
| Ibuprofeno, adulto de 62 kg | 600 mg | Comprimido ou cápsula 600 mg, componente Básico | 1 comprimido | Ou dois comprimidos de 300 mg. Evite em desidratação, doença renal e sangramento. |
| Ibuprofeno, criança de 21 kg | 210 mg (10 mg/kg) | Suspensão oral 50 mg/mL, componente Básico | 4,2 mL | Confira a concentração no rótulo: existem suspensões de 20 mg/mL e de 100 mg/mL fora do elenco, e o mesmo volume vira outra dose. |
| Morfina, adulto de 62 kg | 3,1 a 6,2 mg (0,05 a 0,1 mg/kg) | Solução injetável 10 mg/mL, componente ESPECIALIZADO | 0,31 a 0,62 mL da ampola pura | Não se aspira esse volume com segurança. Dilua 1 mL (10 mg) em 9 mL de soro fisiológico, obtendo 1 mg/mL, e aspire 3,1 a 6,2 mL. |
| Morfina, criança de 21 kg | até 2,1 mg (0,1 mg/kg) | Solução injetável 10 mg/mL, componente ESPECIALIZADO | 0,21 mL da ampola pura | Duas casas decimais numa seringa de 3 mL é a definição de erro de dose. Dilua 1 mL em 9 mL de soro fisiológico e aspire 2,1 mL. |
As três fraturas do capítulo: o que a imagem decide e o que ela não decide
| Fratura | O que a radiografia responde bem | O que ela NÃO responde | O que decide no lugar dela |
|---|---|---|---|
| Escafoide, no adulto jovem | Se já existe traço largo o bastante para aparecer, e se há desvio maior que 1 mm | Se existe fratura sem desvio nas primeiras horas: o traço ainda é fino demais e o osso está oblíquo ao feixe | A dor à palpação da tabaqueira anatômica, do tubérculo do escafoide e à compressão axial do polegar, comparada com o lado são. Radiografia normal com esses achados manda imobilizar e reavaliar, não liberar. |
| Rádio distal, na pessoa idosa | A linha de fratura, a angulação no perfil, o encurtamento e o acometimento articular | Por que aquele osso quebrou com uma queda da própria altura, que é a única pergunta que muda o risco dos próximos anos | O mecanismo perguntado em voz alta: queda da própria altura ou de altura menor, acima dos 50 anos, define fratura por fragilidade e obriga a investigação de osteoporose, que este capítulo cede com endereço. |
| Supracondiliana, na criança | O tipo e o desvio, e sinais indiretos quando não há traço visível: coxim gorduroso posterior, linha umeral anterior e linha radiocapitelar | Se a mão está sendo perfundida agora, e se o nervo interósseo anterior está íntegro | O dedo no pulso radial, a temperatura e a cor da mão, o enchimento capilar, e o círculo fechado entre polegar e indicador. Nenhum desses achados vem no laudo. |
Decisão por decisão: que documento brasileiro manda, e de que ano ele é
| Decisão | Documento brasileiro que a governa | Data e força do que ele diz |
|---|---|---|
| Tratar cirurgicamente ou conservadoramente a fratura não desviada do escafoide no adulto | Consensos Brasileiros de Ortopedia e Traumatologia, pergunta 27 | 2019. Recomenda o tratamento cirúrgico, com nível de evidência I, justificando pela população jovem e economicamente ativa e pelo retorno precoce às atividades. A mesma pergunta, na introdução, escreve que na fratura oculta ou estável o gesso por 4 a 6 semanas é o tratamento de escolha. As duas frases estão no bloco de divergências. |
| Configuração dos fios na supracondiliana com desvio na criança | Consensos Brasileiros de Ortopedia e Traumatologia, pergunta 21 | 2019. Nível de evidência I. Fios cruzados dão mais estabilidade e mais risco de lesão do nervo ulnar; a técnica de mini-abertura medial reduz esse risco; e alguns casos se beneficiam de três fios laterais. É decisão do ortopedista, não do interno, e está aqui para você entender o que ele vai dizer ao telefone. |
| Tratamento da fratura de rádio distal, a mais comum do membro superior | NENHUM documento brasileiro localizado | Não há pergunta sobre ela nas 88 dos Consensos, não há protocolo clínico federal, não há diretriz do Ministério. É o achado central deste capítulo e está medido na nota 2. |
| Quando repetir a radiografia do escafoide, e qual exame pedir se a dor persistir | NENHUM documento brasileiro localizado | Os três documentos brasileiros abertos aqui tratam de tratamento ou de encaminhamento e nenhum trata de imagem. O intervalo de 10 a 14 dias que este capítulo usa é leitura clínica dele, apoiada no reconhecimento explícito da fratura oculta pela fonte nacional, e está declarado como leitura no bloco de investigação. |
| Examinar pulso, perfusão, sensibilidade e mobilidade antes e depois da imobilização | Protocolo SAMU 192, fichas BT12 e BT13 | Elaboração em agosto de 2014, revisão em abril de 2015. É obrigação escrita e numerada, e é o único gesto federal e obrigatório deste capítulo. As duas fichas divergem quanto à posição da reavaliação na sequência: ver nota 6. |
| Para onde vai o paciente com suspeita de fratura | Protocolos de encaminhamento da atenção básica para a atenção especializada, volume III, seção 2.10 | 2016, e em VERSÃO PRELIMINAR que nunca teve edição definitiva localizada. Toda suspeita ou diagnóstico de fratura ou luxação pós-trauma vai para a emergência; fratura já manejada que fica com deformidade ou prejuízo funcional vai para a ortopedia; fratura tratada com suspeita de síndrome compartimental volta para a urgência. |
| O que o SUS entrega para a dor destas fraturas | Rename 2024 | Dipirona, paracetamol e ibuprofeno no componente Básico. Morfina e codeína no componente Especializado. Tramadol e cetoprofeno NÃO constam do elenco: ver nota 8. |
| O que fazer quando a história da fratura da criança não fecha | Capítulo Violência e maus-tratos infantis, na apostila de Emergências Pediátricas | Cedido inteiro por este capítulo, sem duplicar uma linha. Aqui fica só a bifurcação: a suspeita não adia o tratamento da fratura, e o tratamento da fratura não dispensa a suspeita. |
Quando o ortopedista é chamado agora, e o que se diz ao telefone
| Achado | Quando se liga | O que se diz, nesta ordem |
|---|---|---|
| Mão fria, pálida ou marmórea, sem pulso radial, com enchimento capilar lento | Imediatamente, antes de qualquer exame de imagem | Idade e peso da criança, hora do trauma, mecanismo, que a mão está fria e sem pulso, há quanto tempo, o que já foi feito, e que você não realizou manobra nenhuma. |
| Mão sem pulso radial mas quente, rosada e bem perfundida | Imediatamente, com a mesma urgência de telefonema e com a descrição diferente | Que o pulso não é palpável mas o enchimento capilar é rápido e a mão está quente e rosada — e diga esses três achados separadamente, porque é essa combinação que muda a conduta dele. |
| Déficit motor novo em qualquer dos quatro nervos, sobretudo a incapacidade de fazer o círculo com polegar e indicador | Imediatamente | Qual nervo, qual gesto falhou, e a hora em que você testou. Diga também se o déficit existia antes da imobilização ou apareceu depois. |
| Prega ou covinha cutânea na dobra anterior do cotovelo, ou equimose anterior precoce | No mesmo telefonema da avaliação inicial | Que há sinal de prega cutânea, porque isso antecipa que a redução fechada pode não bastar. |
| Fratura exposta, ou qualquer ferida sobre o foco | Imediatamente, e o caso muda de capítulo | O caso passa a ser regido por Antes que o ortopedista chegue, na posição 3 desta apostila, onde estão a classificação de Gustilo e Anderson, o antibiótico por grau e a decisão cirúrgica. |
| Dor que cresce sob a imobilização e não cede com analgesia, com ou sem parestesia | Imediatamente, e antes disso abra a imobilização e olhe | O gesto é do capítulo O exame que se faz duas vezes, na apostila Procedimentos e Vias de Acesso, que é dono da síndrome compartimental: abrir e olhar vem antes de subir a dose do opioide. |
| Dormência progressiva nos três dedos e meio do lado do polegar depois do gesso do punho | No mesmo plantão, depois de retirar a flexão do punho e reavaliar | Que há suspeita de compressão aguda do nervo mediano, que a imobilização foi aberta e o punho tirado da flexão, e o que mudou depois disso. |
Nota 1 — Conferência que FECHA, e vale registrar porque valida a contagem de que depende a nota 2. Os Consensos Brasileiros de Ortopedia e Traumatologia numeram as perguntas no sumário até 88, e o corpo do livro traz 88 ocorrências da palavra Recomendação seguida de dois-pontos, uma por pergunta. Contagem por índice e contagem por corpo batem: 88 e 88.
Nota 2 — O achado central do capítulo, e é uma ausência. Nas 88 perguntas dos Consensos não há nenhuma sobre a fratura do rádio distal. A busca foi feita sobre o sumário normalizado, sem acento e sem hífen, por rádio distal, punho, Colles, fratura do rádio e extremidade distal do rádio: zero ocorrências nas cinco. A palavra carpo aparece no sumário apenas em síndrome do túnel do carpo. A conta é esta: 88 perguntas, das quais 0 sobre a fratura mais comum do membro superior, 2 sobre assuntos deste capítulo (as perguntas 21 e 27), e 6 sobre a farmacologia da osteoporose — as perguntas 43 a 48, que tratam, na ordem, de qual bisfosfonato mais associa fratura atípica do fêmur, do que fazer após dois anos de teriparatida, de qual droga usar na vigência de fratura vertebral por fragilidade, de qual é a melhor terapêutica, de qual terapia combinada rende mais e de quando se considera falha de tratamento. Ou seja: o consenso nacional de ortopedia dedica seis perguntas a escolher o remédio da osteoporose e nenhuma à fratura de punho que costuma ser o primeiro aviso dela.
Nota 3 — Conferência que FECHA. A pergunta 21 dos Consensos afirma que as fraturas supracondilianas de extensão respondem por aproximadamente 95% e as de flexão por 5%. As duas frações somam 100% e não há terceira categoria declarada: a partição é exaustiva e não há sobreposição. Conferência barata, mas dita porque conferência que dá certo informa tanto quanto a que falha.
Nota 4 — Dois documentos de autoria comum que não dizem a mesma coisa sobre fratura. O volume III federal, de 2016, tem uma seção inteira, a 2.10, dedicada a Fraturas e luxações, com três condições de encaminhamento e quatro itens de conteúdo mínimo. O protocolo estadual de Ortopedia Adulto do TelessaúdeRS-UFRGS, publicado ad referendum pela Resolução CIB/RS nº 764/2014, resolve a fratura em uma única linha dentro do Protocolo 5, de mão e punho: suspeita de fratura vai para emergência, urgência ou pronto atendimento. Não há contradição entre os dois — o estadual é mais pobre, não é oposto —, mas há uma consequência prática: quem procurar a regra da fratura no protocolo estadual não encontra o conteúdo mínimo do encaminhamento, que só existe no federal. Registre-se ainda que o federal, aquele que tem a regra completa, é uma versão preliminar de 2016 sem edição definitiva.
Nota 5 — Troca de nomenclatura dentro do mesmo parágrafo. A pergunta 21 dos Consensos define a classificação de Gartland com os tipos I, II e III, e três linhas abaixo escreve que em 1996 Wilkins propôs a subdivisão do tipo B para as fraturas com desvio rotacional. O documento não definiu nenhum tipo B. A subdivisão de Wilkins é reconhecidamente aplicada ao tipo II, e o conteúdo está correto; o defeito é de rótulo, e ele importa porque o leitor que for procurar um tipo B na tabela que acabou de ler não vai achar.
Nota 6 — Duas fichas vizinhas do mesmo protocolo federal mandam refazer o mesmo exame em posições diferentes da sequência, e é o achado de auditoria mais relevante para a conduta deste capítulo. A ficha BT12, de trauma de membros superiores e inferiores, tem 11 passos numerados e ordena assim: passo 6, avaliar pulso periférico e perfusão, sensibilidade e mobilidade; passo 7, realizar a imobilização da parte afetada; passo 8, mobilizar e imobilizar coluna cervical e tronco em prancha longa; passo 9, reavaliar pulso, perfusão, sensibilidade e mobilidade após a imobilização. A ficha BT13, de fratura exposta de extremidades, tem também 11 passos e ordena assim: passo 6, avaliar; passo 7, imobilizar o segmento; passo 8, REAVALIAR; passo 9, prancha longa. Ou seja: no membro fraturado fechado, a reavaliação vem depois do pranchamento; no membro fraturado exposto, ela vem imediatamente após a tala e antes do pranchamento. As duas versões estão no mesmo documento, com as mesmas datas de elaboração e revisão, e a diferença foi confirmada em duas renderizações independentes do mesmo PDF, comparadas depois de normalizar espaço e hífen — não é artefato de extração. Segue-se uma opinião, marcada como tal para que ninguém a confunda com o texto da norma: a ordem de BT13 protege melhor nas duas situações, porque deixar a reavaliação para depois do pranchamento adia a checagem do segmento que acabou de ser apertado.
Nota 7 — Por que este capítulo e o vizinho numeram os mesmos passos de forma diferente, e por que os dois estão certos. O capítulo O exame que se faz duas vezes, na apostila Procedimentos e Vias de Acesso, descreve o protocolo de trauma de membros com doze passos numerados e atribui o avaliar ao passo 7, o imobilizar ao 8 e o reavaliar ao 9. Este capítulo numera onze passos e atribui o avaliar ao 6, o imobilizar ao 7, a prancha longa ao 8 e o reavaliar ao 9. A divergência não é erro de nenhum dos dois: são documentos diferentes. Aquele capítulo cita as fichas AT19 e AT20, do protocolo de suporte AVANÇADO de vida, que de fato têm doze passos com o avaliar no 7, o imobilizar no 8 e o reavaliar no 9; este cita as fichas BT12 e BT13, do protocolo de suporte BÁSICO, que têm onze. Conferido nas duas fontes. Quem for conferir precisa saber qual dos dois protocolos está abrindo, porque a sequência clínica é a mesma nos dois e só os rótulos numéricos mudam.
Nota 8 — Duas ausências na Rename 2024 que mudam a prescrição deste capítulo. Consulta por índice de apresentações, com busca exata sobre o texto normalizado e reconferência no texto bruto: tramadol NÃO CONSTA do elenco, com zero ocorrências no índice e zero no texto; cetoprofeno NÃO CONSTA, com zero e zero. A primeira ausência é a que pesa, porque o tramadol é o reflexo do segundo degrau analgésico na fratura de punho do adulto e simplesmente não existe no elenco que o SUS entrega. O degrau seguinte ao anti-inflamatório, na lista nacional, é a codeína ou a morfina — e as duas estão no componente Especializado, não no Básico.
Nota 9 — Uma classificação que surpreende e que vale conhecer para não procurar no lugar errado. O fosfato de codeína aparece na Rename 2024 em quatro apresentações — solução oral 3 mg/mL, comprimidos de 30 e de 60 mg e solução injetável 30 mg/mL —, todas no componente Especializado, e todas classificadas no código ATC R05DA04, que é a família dos antitussígenos, e não em N02, que é a dos analgésicos. Não é erro: é a classificação internacional da molécula pelo seu uso histórico. Mas quem procurar codeína entre os analgésicos do elenco por código ATC não a encontra, e conclui erradamente que ela não está lá.
Nota 10 — Conferências da tabela de conversão, todas refeitas em Python contra as apresentações reais da Rename 2024, e todas FECHAM. Dipirona injetável 500 mg/mL: 1.000 mg dão 2,0 mL. Dipirona oral 500 mg/mL numa criança de 21 kg a 15 mg/kg: 315 mg dão 0,63 mL. Paracetamol oral 200 mg/mL, mesma criança e mesma dose por peso: 315 mg dão 1,575 mL. Ibuprofeno suspensão 50 mg/mL a 10 mg/kg: 210 mg dão 4,2 mL. E a trava que a fábrica exige explicitamente: a dose pediátrica calculada por peso foi comparada com a dose do adulto em cada linha, e nenhuma a excede — 315 mg de paracetamol contra 1.000 mg do adulto, 315 mg de dipirona contra 1.000 mg, 210 mg de ibuprofeno contra 600 mg.
Nota 11 — Um achado da conversão que não é aritmético e sim de segurança, e ele é a razão de a tabela existir. A única apresentação injetável de morfina da Rename 2024 é a de 10 mg/mL. A dose de 0,1 mg/kg numa criança de 21 kg é 2,1 mg, o que corresponde a 0,21 mL da ampola pura. Nenhuma seringa de uso corrente mede 0,21 mL com precisão aceitável, e um erro de meia marcação nessa escala dobra a dose. No adulto de 62 kg o problema é o mesmo em grau menor: 3,1 a 6,2 mg são 0,31 a 0,62 mL. A conduta que decorre é a diluição obrigatória: 1 mL da ampola em 9 mL de soro fisiológico produz 1 mg/mL, e a partir daí a dose em miligramas e o volume em mililitros são o mesmo número. A apresentação do elenco nacional não é errada; ela é apenas incompatível com a dose pediátrica sem um passo de diluição que precisa estar escrito na prescrição, e não subentendido.
Nota 12 — Contradição interna dos Consensos sobre o escafoide, com as duas frases lado a lado. A recomendação da pergunta 27 diz, com nível de evidência I, que se recomenda o tratamento cirúrgico para as fraturas do escafoide, especialmente quando há benefício no retorno precoce às atividades econômicas ou desportivas. A introdução da mesma pergunta, algumas linhas abaixo, diz que na fratura oculta ou estável a imobilização com gesso por quatro a seis semanas é o tratamento de escolha, porque o tratamento conservador resulta em cicatrização em 90% a 95% das fraturas do escafoide. As duas frases não são conciliáveis por leitura literal, porque a fratura não desviada do título é justamente a estável. Este capítulo não declara vencedor: leva a questão ao bloco de divergências com as duas posições rotuladas, e leva ao relatório final como decisão que não é de engenharia.
Nota 13 — Conferência que FECHA dentro da revisão citada pela pergunta 27, e vale registrá-la porque a soma é o teste mais fácil de um agregado. A revisão sistemática que a fonte descreve incluiu 8 ensaios clínicos e um total de 378 fraturas analisadas, das quais 182 tratadas por cirurgia e 196 por tratamento conservador. A soma das parcelas é 182 + 196 = 378, exatamente o agregado declarado. Nenhuma parcela excede o total e nenhuma sobra.
Nota 14 — Um falso positivo que quase entrou neste capítulo, registrado para que ninguém o repita. Na mesma pergunta 27, o texto extraído do PDF traz uma diferença média padronizada de 2,09 com intervalo de confiança de 95% aparentemente escrito como 3,08 a 1,11, com o limite inferior maior que o superior — o que pareceria erro grosseiro. Não é. O sinal de menos desaparece na extração de PDF, e com os sinais restaurados o intervalo é de menos 3,08 a menos 1,11, com o ponto estimado de menos 2,09 caindo dentro dele. A conferência que resolve é aritmética e leva dois segundos: 2,09 está entre 1,11 e 3,08 em módulo, logo o intervalo é coerente e o que falta são os sinais. Normalize antes de acusar.
Nota 15 — Dois documentos oficiais deste capítulo têm ficha catalográfica incompleta, e vale dizer porque é o teste de identidade que a fábrica manda fazer. Nos Consensos Brasileiros de Ortopedia e Traumatologia, a ficha traz coordenação, editora, cidade e ano, mas os campos ISBN e CDD estão em branco no documento servido. No volume III federal de encaminhamento, de 2016, o campo ISBN também está em branco, e a mesma ficha grafa o modo de acesso como Wold Wide Web. Em nenhum dos dois casos isso invalida o conteúdo; nos dois casos significa que a datação e a identidade se apoiaram em outros elementos, e o leitor precisa saber quais.
A conduta, hora a hora
A linha do tempo abaixo é a da noite inteira, com os três pacientes na ordem em que eles de fato exigem ser atendidos — que não é a ordem em que chegaram. As horas são de relógio. Toda dose citada abaixo foi calculada para um adulto de 62 quilos e uma criança de 21, sobre a apresentação real do elenco nacional, e a conta está na primeira tabela do bloco anterior. Onde há prazo brasileiro, ele está nomeado; onde não há régua brasileira, o texto diz que não há.
Uma coisa a notar antes de começar: em cinco dos oito marcos abaixo, o ato decisivo é escrever ou telefonar, e não fazer. Este é um capítulo em que o interno raramente é quem reduz a fratura, e quase sempre é quem determina se a fratura vai ser reduzida a tempo.
Mão fria não espera imagem eletiva. Mão hipoperfundida após fratura supracondiliana exige contato cirúrgico imediato e preparação de redução urgente por equipe habilitada. Obter imagem se não atrasar restauração da perfusão; não forçar flexão ou manobras repetidas. Mão rosada sem pulso também requer avaliação ortopédica urgente e vigilância, mesmo que o enchimento capilar esteja bom. Após qualquer imobilização/redução, repetir exame neurovascular. Dor crescente com parestesia mediana após fratura de rádio distal pode exigir descompressão urgente; melhora após abrir tala não dispensa comunicação e observação apropriada.
23h10 — a triagem que reordena a fila
Três pessoas com o braço encostado no corpo. A que chegou primeiro não é a que corre. A regra de ordenação deste capítulo é vascular e cabe numa frase: entre pacientes com fratura de membro superior, atende primeiro aquele cuja mão está fria. Toque as três mãos antes de abrir três prontuários, e leve vinte segundos por mão. A do Nicásio está fria e sem pulso radial; as outras duas estão quentes, rosadas e com pulso simétrico. A fila mudou. Escreva isso. O motivo pelo qual você passou uma criança na frente de duas pessoas que esperavam há mais tempo precisa estar no prontuário das três, e ele é um achado clínico, não uma preferência.
Prescrição- Registrar, para cada um dos três, o exame vascular da mão com a hora: pulso radial, temperatura, cor e enchimento capilar, comparados com o lado contralateral
- Registrar no prontuário do Nicásio: mão esquerda fria, pulso radial não palpável, enchimento capilar lento, hora do exame
- Não realizar manobra nenhuma no cotovelo dele até que a conduta seja definida
23h12 — a mão fria, e o telefonema que vem antes da imagem
Este é o marco que define o capítulo. Criança com fratura supracondiliana e mão mal perfundida é situação de tempo curto, e o tempo curto é gasto por dois motivos, os dois evitáveis: mandar para o raio-X primeiro e reavaliar depois, e esperar terminar de atender os outros dois pacientes antes de ligar. A razão de a imagem não vir antes é simples: nenhuma incidência responde à pergunta que importa agora, que é se a mão está sendo perfundida. E a razão de a espera não valer a pena é que o ortopedista de sobreaviso mora a vinte e cinco minutos, e esses vinte e cinco minutos correm em paralelo com tudo o que você ainda tem para fazer — ou não correm, se você não ligar. Ligue agora e escreva a hora do telefonema, o nome de quem atendeu e o que foi combinado. Se o ortopedista pedir a radiografia enquanto vem, a radiografia é feita enquanto ele vem, e não em lugar dele vir.
Prescrição- Contato imediato com o ortopedista de sobreaviso, com a hora e o nome de quem atendeu escritos no prontuário
- Informar, nesta ordem: idade e peso, hora e mecanismo do trauma, que a mão está fria e sem pulso radial, há quanto tempo, e que nenhuma manobra foi realizada
- Acesso venoso periférico e jejum, antecipando a possibilidade de redução sob anestesia
- Solicitar radiografia de cotovelo em anteroposterior e perfil, para ser realizada enquanto o ortopedista se desloca
23h20 — imobilizar sem forçar, e tratar a dor da criança
Enquanto o ortopedista vem, duas coisas: imobilizar de um jeito que não piore, e tirar a dor. A imobilização provisória do cotovelo tem uma regra que é a mais importante deste marco e a mais esquecida: não flexione o cotovelo além de noventa graus. A flexão maior fecha o espaço anterior, aumenta a pressão sobre o feixe neurovascular e é reconhecidamente um fator de contratura isquêmica. Imobilize na posição em que a criança está confortável, com o cotovelo em torno de noventa graus ou menos, e sustentando o antebraço. A confecção da tala propriamente dita — escolha de material, acolchoamento, extensão e o teste de folga sobre as saliências ósseas — é do capítulo O exame que se faz duas vezes, na apostila Procedimentos e Vias de Acesso. Use a técnica de lá; este capítulo cede o assunto inteiro e não repete uma linha dele. A dor: dipirona é o primeiro degrau e resolve a maior parte. Se a dor for intensa, o degrau seguinte no elenco nacional é a morfina — e é aqui que a nota 8 muda a sua prescrição, porque o tramadol, que seria o reflexo, não consta da Rename 2024.
Prescrição- Imobilização provisória do cotovelo em flexão de até 90 graus, sem tentativa de redução e sem forçar posição, com o antebraço sustentado
- Dipirona 315 mg (15 mg/kg) por via oral, o que corresponde a 0,63 mL da solução oral de 500 mg/mL — arredondando para baixo e conferindo o conta-gotas do frasco
- Se dor intensa: morfina até 2,1 mg (0,1 mg/kg) por via endovenosa, obrigatoriamente diluída — 1 mL da ampola de 10 mg/mL em 9 mL de soro fisiológico produz 1 mg/mL, e então se aspiram 2,1 mL
- Não usar anti-inflamatório como primeiro degrau em criança desidratada ou com vômitos
- REAVALIAR pulso, perfusão, sensibilidade e mobilidade imediatamente após a imobilização, e escrever a segunda hora
23h35 — a chegada do ortopedista, e o que o interno entrega
O ortopedista chega e a passagem leva noventa segundos se você tiver o que entregar, e dez minutos se não tiver. O que ele precisa é de uma linha do tempo vascular, não de uma opinião. Entregue nesta ordem: hora do trauma; hora do primeiro exame vascular e o que ele mostrou; se houve manobra ou imobilização, a hora dela; hora do segundo exame vascular e o que mudou; o resultado do teste do interósseo anterior; a presença ou ausência da prega cutânea anterior; e o que já foi prescrito. Essa é a informação que decide a urgência da sala. A decisão do que fazer com a fratura é dele, e este capítulo não a assume. O que a fonte brasileira diz sobre ela, para você entender a conversa: na supracondiliana com desvio, a redução fechada com fixação percutânea por fios é o tratamento mais aceito, e a discussão que resta é sobre a configuração dos fios — cruzados dão mais estabilidade e mais risco de lesão do nervo ulnar; a técnica de mini-abertura medial reduz esse risco; e alguns casos se beneficiam de três fios laterais. É a pergunta 21 dos Consensos, com nível de evidência I.
Prescrição- Passagem verbal em linha do tempo: hora do trauma, primeiro exame vascular, imobilização, segundo exame vascular, teste do interósseo anterior, prega cutânea
- Registrar no prontuário a hora da avaliação do ortopedista e a conduta definida por ele
- Manter jejum e acesso venoso até que a decisão cirúrgica esteja tomada
- Comunicar à mãe, em linguagem simples, o que foi decidido e por quê — a fala está no bloco de conversa
23h45 — a senhora Sibila, e a pergunta que a radiografia não faz
Agora a fratura evidente. Punho direito em degrau, sem ferida, mão quente e rosada, pulso radial presente, dedos móveis. Antes da imagem, o exame de sempre: os quatro itens vasculares e os quatro nervos, escritos com os valores. E o exame das articulações vizinhas, cotovelo e ombro do mesmo lado, porque o mesmo mecanismo fratura os três e a dor do punho abafa as outras duas. Trate a dor antes de mandar para o raio-X. Um punho fraturado sendo posicionado no chassi sem analgesia produz um exame mal posicionado e uma segunda ida ao setor. E então faça a pergunta que muda o resto da vida dela, que não está em nenhuma incidência: como foi a queda, e de que altura. Ela responde que escorregou no degrau e caiu de pé no chão. Isso é queda da própria altura, ela tem 74 anos, e o punho quebrou. Está definida a fratura por fragilidade — e note que ela já contou, espontaneamente, que quebrou o outro punho anos atrás. São duas.
Prescrição- Exame vascular e neurológico do membro, com valores escritos, ANTES de qualquer manobra
- Examinar cotovelo e ombro do mesmo lado
- Dipirona 1.000 mg por via endovenosa, o que corresponde a 2,0 mL da solução injetável de 500 mg/mL — conferindo o volume impresso na ampola, porque a de 5 mL entrega 2,5 g
- Radiografia de punho em posteroanterior e perfil, com oblíqua se houver dúvida sobre extensão articular
- Perguntar e registrar o mecanismo: altura da queda e circunstância
- Perguntar e registrar fratura prévia por queda de baixa energia
00h30 — a tala, e a frase que vale mais que a tala
A radiografia confirma fratura de rádio distal com desvio dorsal. A redução e a decisão entre gesso e cirurgia são do ortopedista, e a régua brasileira aqui simplesmente não existe: como está na nota 2, nenhuma das 88 perguntas do consenso nacional trata desta fratura. O que existe é o documento federal de encaminhamento, que resolve o endereço e não o tratamento. O que é seu, e o que ninguém vai fazer se você não fizer, é a frase do relatório de alta. Escreva-a inteira, com estas palavras: houve fratura por fragilidade, comprovada radiologicamente, em rádio distal, decorrente de queda da própria altura; há indicação de investigação e tratamento de osteoporose; e a paciente foi encaminhada. A investigação em si — o que pedir, quando pedir densitometria, quando ela é dispensável, quais cortes e qual tratamento — é inteiramente do capítulo Osteoporose pós-menopausa, na apostila de Ginecologia, e este capítulo a cede sem reserva. O que aquele capítulo pede que exista, e que este entrega, é a frase. É o gesto de maior rendimento desta noite e leva menos tempo do que medir a pressão.
Prescrição- Imobilização conforme a técnica do capítulo O exame que se faz duas vezes, NUNCA com o punho em flexão forçada
- REAVALIAR pulso, perfusão, sensibilidade e mobilidade após a imobilização, com a segunda hora escrita
- Escrever no relatório de alta a frase inteira: fratura por fragilidade, comprovada radiologicamente, em rádio distal, por queda da própria altura; indicação de investigação e tratamento de osteoporose; encaminhada
- Encaminhamento para seguimento da osteoporose, com o conteúdo mínimo que o documento federal de 2016 exige: localização e data da fratura, manejo realizado, e se há deformidade ou prejuízo funcional
- Analgesia para casa: dipirona 1.000 mg por via oral, dois comprimidos de 500 mg, a cada 6 horas se dor
- Orientar por escrito os gatilhos de retorno antecipado: dormência, dor crescente, dedos frios ou que mudam de cor
01h00 — o Graciano, e os dez minutos mais bem gastos da noite
A radiografia veio. O laudo diz que não há sinais de fratura. O paciente está de pé, com o capacete na mão, perguntando se pode ir. Aqui está o erro que custa o punho, e ele não parece um erro: liberar por causa de um raio-X limpo. Refaça o exame na frente dele. Dor à palpação da tabaqueira anatômica com o polegar estendido, dor no tubérculo do escafoide, dor à compressão axial do primeiro metacarpo — e compare com a mão direita, fazendo o lado bom primeiro. Se dói de forma desproporcional do lado da queda, o exame de imagem não fechou a questão. Confira também o pedido: se estava escrito punho e vieram duas incidências, a incidência do escafoide não foi feita e o exame não respondeu à pergunta. Peça a série de quatro, nomeando a posteroanterior em desvio ulnar. E se ainda assim vier limpa: imobilize incluindo o polegar, escreva a hipótese de fratura oculta do escafoide com essas palavras, e marque o retorno em dez a quatorze dias. O intervalo é leitura clínica deste capítulo, não norma brasileira — não há norma brasileira sobre isso, e a nota do bloco de critérios diz onde procurou. O que é da fonte nacional é o resto: a fratura oculta existe, é reconhecida por nome pela pergunta 27 dos Consensos, e o tratamento dela é gesso por quatro a seis semanas com consolidação em 90% a 95%.
Prescrição- Refazer o exame localizado: tabaqueira anatômica, tubérculo do escafoide e compressão axial do primeiro metacarpo, sempre comparados com o lado são
- Conferir se a radiografia realizada foi a série de escafoide em quatro incidências; se não foi, solicitá-la nomeando a posteroanterior com desvio ulnar
- Imobilização do punho incluindo o polegar
- Escrever no prontuário, com estas palavras: hipótese de fratura oculta do escafoide, radiografia inicial sem traço, punho imobilizado, retorno marcado
- Retorno em 10 a 14 dias para reavaliação clínica e nova radiografia
- Ibuprofeno 600 mg por via oral a cada 8 horas se dor, um comprimido de 600 mg, com alimento
- Orientação verbal e escrita de que a tala não deve ser retirada em casa, e por quê
01h30 — a alta dos três, e o que sobrevive ao plantão
Os três saem, e o que fica é o que foi escrito. Faça a última passada com uma pergunta só: se outro médico ler este prontuário daqui a dez dias, sem falar comigo, ele consegue saber o que eu encontrei e o que eu combinei? Para o Nicásio, isso significa: dois exames vasculares com duas horas, o teste do interósseo anterior nomeado, a hora do telefonema e o nome de quem atendeu. Para a senhora Sibila: a frase da fratura por fragilidade, inteira. Para o Graciano: a palavra hipótese e a data do retorno. E, em criança, uma última pergunta antes de assinar, sempre: a lesão, o mecanismo relatado e o desenvolvimento fecham entre si? A história do Nicásio fecha — barra de macaco, queda presenciada, mãe consistente, criança de 6 anos que corre e sobe. Quando não fecha, o caminho é o do capítulo Violência e maus-tratos infantis, na apostila de Emergências Pediátricas, e ele corre em paralelo ao tratamento, nunca em lugar dele.
Prescrição- Conferir, em cada um dos três prontuários, se há dois exames vasculares com horas distintas
- Conferir se o gatilho de retorno antecipado foi escrito e dito em voz alta a quem leva o paciente para casa
- Em criança: registrar explicitamente que a compatibilidade entre lesão, mecanismo e desenvolvimento foi avaliada, e o que se concluiu
- Passar no plantão os três casos pelo que está pendente, e não pelo diagnóstico: quem tem retorno marcado, quem tem cirurgia programada, e quem precisa de reavaliação vascular
Como saber se está funcionando
Há uma coisa incomum na reavaliação deste capítulo: quase nenhum dos parâmetros abaixo é um número que suba ou desça por conta própria. Todos eles só significam alguma coisa contra o achado anterior, e o achado anterior só existe se tiver sido escrito. Daí a insistência do bloco de investigação no registro: aqui, quem não anotou ontem não mede hoje.
Os prazos abaixo cobrem três janelas diferentes: as horas seguintes à imobilização, os dez a quatorze dias do escafoide, e as semanas a meses das complicações tardias do punho. Nenhum desses prazos está fixado por norma brasileira, e isso está dito onde importa.
Esperado: Pulso presente e simétrico ao lado contralateral, mão quente e rosada, enchimento capilar em até dois segundos. Os quatro itens escritos com o valor, e não como sem alterações.
Se não melhora: Qualquer piora entre o primeiro e o segundo exame é motivo de telefonema imediato ao ortopedista, mesmo que o valor absoluto ainda pareça aceitável. Perda de pulso que era palpável é a mudança mais grave possível neste capítulo. Se o membro estiver sob tala, o primeiro gesto é abrir a imobilização e olhar — o gesto e o raciocínio são do capítulo O exame que se faz duas vezes, na apostila Procedimentos e Vias de Acesso.
Esperado: Círculo fechado, com as duas pontas dobradas encostando polpa com polpa. Registre o gesto pelo nome, e não como força preservada.
Se não melhora: Incapacidade nova de dobrar as pontas do polegar e do indicador, com o paciente formando um triângulo de dedos retos, é déficit motor novo e telefonema imediato. Lembre que esse nervo é motor puro: a ausência de dormência não afasta a lesão, e é exatamente por isso que perguntar se está formigando não substitui o gesto.
Esperado: Sensibilidade preservada e simétrica na polpa do indicador comparada com a do mínimo, sem dormência nova
Se não melhora: Dormência progressiva nos três dedos e meio do lado do polegar, com dor em queimação que piora à noite e não cede à elevação, é compressão aguda do nervo mediano e não é para observar até de manhã. Abra a imobilização, retire qualquer flexão do punho, reavalie em minutos e comunique. A imobilização com o punho em flexão forçada é a causa mais evitável desse quadro.
Esperado: Dor que diminui progressivamente após a imobilização e responde à analgesia prescrita
Se não melhora: Dor que cresce, ou que deixa de responder à analgesia que respondia, é complicação até prova em contrário, e a resposta não é subir a dose do opioide sem olhar o membro. A regra geral é do capítulo de analgesia no paciente internado, na apostila de prescrição; a versão específica do membro imobilizado é do capítulo O exame que se faz duas vezes, e este capítulo as usa sem reescrevê-las.
Esperado: Extremidade sem cianose, sem edema tenso, e imobilização que continua folgada nas saliências ósseas pelo teste que o capítulo vizinho ensina
Se não melhora: Imobilização que ficou apertada com o edema é para abrir, e não para esperar. O detalhe da técnica — inclusive por que esparadrapo circular é pior que crepe, porque não cede quando o membro incha — é do capítulo O exame que se faz duas vezes, na apostila Procedimentos e Vias de Acesso.
Esperado: Duas saídas encerram o caso: dor resolvida com radiografia que continua normal, ou fratura agora visível, que passa a ser tratada como fratura confirmada
Se não melhora: Dor que persiste com segunda radiografia normal não é indicação de terceira radiografia: é indicação de imagem de maior sensibilidade — tomografia ou ressonância — e de avaliação pela ortopedia ou cirurgia da mão. O acesso a esses exames depende inteiramente da regulação local, porque não há régua nacional que os indique nesta situação.
Esperado: Polegar que se levanta do plano da mesa contra a gravidade
Se não melhora: Perda nova e indolor da extensão do polegar é ruptura do tendão extensor longo do polegar, e não é dor que passa. Acontece inclusive — e sobretudo — em fratura sem desvio tratada apenas com gesso, e o encaminhamento é para cirurgia da mão, não observação. No mesmo período, dor persistente e desproporcional com mão inchada, mudança de cor e de temperatura e rigidez que piora é síndrome dolorosa regional complexa: é diagnóstico, não baixo limiar, e piora quanto mais tarde se começa a mobilizar.
Onde o erro machuca
O dano: É o erro que custa o punho e é o único deste capítulo que não produz sintoma nenhum na hora. O paciente vai embora aliviado, volta a carregar peso, e a fratura sem desvio que existia se desloca ou não consolida. A fonte nacional dá as duas pontas da conta: com imobilização, a fratura oculta ou estável consolida em 90% a 95%; com desvio maior que 1 mm, a não união chega a 55% e a necrose avascular proximal fica em torno de 50%. O intervalo entre os dois desfechos foi a tala que não se colocou.
Como pegar a tempo: Refaça o exame localizado na frente do paciente, comparando com o lado são, antes de assinar a alta. Dor à palpação da tabaqueira anatômica com o polegar estendido, com radiografia normal, é indicação de imobilizar e reavaliar. Escreva a palavra hipótese no prontuário: sem ela, quem ler depois vê um punho normal engessado e desfaz a sua conduta.
O dano: O técnico faz o que está escrito, e você recebe duas incidências de punho com um laudo dizendo que não há fratura. O laudo está correto; a pergunta é que não foi feita. Isso é pior do que não pedir exame nenhum, porque produz um documento que parece afastar o diagnóstico e que vai ser lido como se tivesse afastado — inclusive por você, dali a uma hora, quando o cansaço já tiver chegado.
Como pegar a tempo: Escreva no pedido: radiografia de escafoide, série de quatro incidências, incluindo a posteroanterior com desvio ulnar. E, ao receber o resultado, confira quantas imagens vieram antes de ler o laudo.
O dano: Gasta o único recurso que não se recupera, que é tempo de perfusão, e gasta em série o que poderia correr em paralelo. O ortopedista de sobreaviso leva vinte e cinco minutos para chegar, e esses vinte e cinco minutos ou começaram a correr às 23h12 ou vão começar às 23h50. Nenhuma incidência responde à pergunta que importa nesse intervalo, que é se a mão está sendo perfundida agora.
Como pegar a tempo: Inverta a ordem por regra fixa: telefonema primeiro, imagem depois ou em paralelo. Se o ortopedista pedir a radiografia enquanto se desloca, ela é feita enquanto ele se desloca — e não em lugar de ele se deslocar. Escreva a hora do telefonema e o nome de quem atendeu.
O dano: Destrói a única coisa que permite dizer, amanhã, que alguma coisa mudou. E, especificamente neste capítulo, esconde o achado mais frequente: o nervo interósseo anterior é motor puro e não produz dormência nenhuma, de modo que uma lesão dele passa inteira por um exame que perguntou se estava formigando. O próximo plantonista, ao encontrar o déficit, não terá como saber se ele é novo.
Como pegar a tempo: Substitua a frase por esta, que cabe numa linha: interósseo anterior, mediano, radial e ulnar testados individualmente, motor e sensitivo, sem déficit. Se testou só alguns, escreva quais. Exame parcial declarado é informação; exame completo declarado que não aconteceu é uma armadilha.
O dano: São dois gestos diferentes com a mesma lógica: usar a posição para segurar a redução, ao custo de fechar um espaço por onde passa um nervo ou um vaso. No cotovelo, a flexão excessiva aumenta a pressão sobre o feixe neurovascular anterior e é fator reconhecido de contratura isquêmica, que é irreversível. No punho, a flexão forçada estreita o túnel do carpo e comprime o nervo mediano em horas.
Como pegar a tempo: No cotovelo, imobilize em torno de noventa graus ou menos, na posição em que a criança aceita, sustentando o antebraço. No punho, nunca em flexão forçada. E, nos dois casos, reavalie pulso, perfusão, sensibilidade e mobilidade imediatamente depois de imobilizar, que é passo numerado do protocolo federal do SAMU e não uma boa prática opcional.
O dano: O punho consolida, o gesso sai, e a doença que quebrou o osso segue sem diagnóstico e sem tratamento até a próxima fratura, que costuma ser maior. A fratura de punho da mulher aos 60 e poucos anos é frequentemente o primeiro aviso, e a de quadril costuma vir depois dos 75. O capítulo O relógio começa na queda, na posição 2 desta apostila, é o que acontece quando esse aviso não foi ouvido.
Como pegar a tempo: Faça a pergunta que nenhuma incidência faz: como foi a queda, e de que altura. Queda da própria altura ou menos, acima dos 50 anos, define fratura por fragilidade. E então escreva no relatório de alta a frase inteira, com estas palavras: fratura por fragilidade, comprovada radiologicamente, indicação de investigação e tratamento de osteoporose, encaminhada. A investigação em si é do capítulo Osteoporose pós-menopausa, na apostila de Ginecologia. O que cabe a você é impedir que o achado morra no prontuário do plantão.
O que dizer ao paciente e à família
As conversas deste capítulo têm uma dificuldade específica e ela é sempre a mesma: em quatro das sete falas abaixo, você precisa convencer alguém de que existe um problema que o exame não mostrou. É mais difícil do que dar uma má notícia com o exame na mão, porque o interlocutor tem a sensação de que você está sendo excessivo.
Duas frases atravessam quase todas essas conversas e as duas são armadilhas de linguagem, não de conhecimento. A primeira é sua, e é a que sai sozinha quando o plantão está cheio: dizer que o exame não mostrou nada e que a tala é só por precaução — o que autoriza o paciente a tirá-la. A segunda é dele: foi só uma torção. Onde essas duas frases se encontram, mora o erro que este capítulo existe para evitar.
Explicar ao rapaz de 24 anos por que ele sai imobilizado com a radiografia normal
“Graciano, o exame de hoje não mostrou fratura, e eu acredito nele. O problema é que ele foi feito cedo demais para o osso que eu estou preocupado. Existe um ossinho aqui na base do polegar que, quando quebra sem sair do lugar, só aparece na radiografia uns dez dias depois — não porque piore, mas porque a borda da fratura vai se alargando até dar para ver. Você tem dor exatamente em cima dele, e não tem no outro punho. Então eu vou imobilizar e você volta em dez a quatorze dias para a gente ver o mesmo exame de novo. Se estiver tudo bem, tiramos. Se tiver quebrado, a gente pegou no começo, e no começo esse osso cola em nove de cada dez casos. Quando não pega no começo, ele pode não colar nunca, e aí o punho não volta a ser o mesmo.”
Não diga: Não diga que é por precaução, e não diga que provavelmente não é nada. As duas frases dão permissão para tirar a tala no dia seguinte. E não prometa que ele volta a trabalhar em prazo nenhum sem que o retorno tenha acontecido.
Responder à pergunta de quem trabalha por entrega e não pode parar
“Eu entendi, e não vou fingir que dá na mesma. Duas semanas com o punho preso atrapalha, e eu sei disso. O que eu preciso que você saiba antes de decidir é a outra conta: se esse osso estiver quebrado e você continuar carregando peso, o que se perde não são duas semanas, é o movimento do punho para o resto da vida, com dor. A imobilização é o tratamento, não é exame. E o retorno é rápido: uma consulta e uma radiografia.”
Não diga: Não moralize, não diga que saúde vem antes do trabalho, e não trate a pressa dele como irresponsabilidade — ela é a economia real da vida dele. Ofereça o número da conta e deixe a decisão informada. E escreva no prontuário que a orientação foi dada e como.
Contar à mãe que o filho está com a mão sem circulação e que você já chamou o ortopedista
“Dona Evarista, eu preciso te contar uma coisa agora e te pedir uma. O Nicásio quebrou o osso do braço logo acima do cotovelo. Esse osso, quando quebra, às vezes empurra o vaso que leva sangue para a mão, e é o que está acontecendo: a mão dele está fria e eu não estou achando a pulsação no punho. Por isso eu já liguei para o ortopedista, ele está vindo, e vai chegar em uns vinte minutos. O que eu vou fazer enquanto isso é aliviar a dor e apoiar o braço numa posição segura, sem mexer no osso, porque mexer piora. O que eu te peço é que fique aqui do lado dele e me chame na hora se a mão ficar mais branca ou se ele reclamar que está piorando muito.”
Não diga: Não use a palavra amputação nem a palavra necrose. Não diga que vai ficar tudo bem, porque você ainda não sabe. E não deixe a mãe sozinha com a informação de que a mão está sem circulação sem dizer, na mesma frase, o que já está sendo feito e em quanto tempo.
Explicar por que não se pode mexer no cotovelo para ver se dói
“Eu sei que parece que eu deveria examinar mais. Nesse tipo de fratura, a ponta do osso de cima fica virada para a frente, e é bem na frente que passam o nervo e o vaso da mão. Cada vez que a gente dobra ou roda esse cotovelo para testar, a ponta do osso anda mais para dentro. Então o exame que eu faço é o da mão: eu olho a cor, sinto a temperatura, procuro a pulsação e peço para ele fazer uns gestos com os dedos. O cotovelo em si eu só apoio.”
Não diga: Não deixe a família com a impressão de que você não examinou. Diga em voz alta o que você está fazendo e por que, enquanto faz, porque o silêncio nessa hora é lido como omissão.
Explicar à senhora de 74 anos que o punho quebrado é um aviso sobre o osso
“Dona Sibila, a senhora quebrou o osso do punho, e ele vai ser tratado. Mas eu quero conversar sobre outra coisa. A senhora caiu da sua própria altura, escorregando num degrau — isso é uma queda pequena. Osso saudável não quebra numa queda dessas. Quando quebra, quase sempre é porque o osso está mais fraco do que deveria, e isso tem nome e tem tratamento. A senhora me contou que já quebrou o outro punho anos atrás numa queda parecida: então são duas. Eu vou escrever isso no seu papel de alta e encaminhar para investigar, porque tratar isso agora é o que evita que a próxima queda quebre o quadril.”
Não diga: Não diga que osteoporose é normal da idade e não tem o que fazer — é a frase que mais desmobiliza paciente nessa consulta, e é falsa. E não entregue a informação só por escrito: se ela não ouviu, ela não vai procurar.
Responder a quem pergunta se não seria melhor operar logo o punho
“Quem decide isso é o ortopedista, e vai depender de como os ossos ficaram na radiografia. O que eu posso te adiantar é que as duas coisas são tratamento de verdade: nem sempre operar é melhor, e nem sempre o gesso é o caminho mais fácil. O que a senhora precisa saber hoje é que a fratura vai ser tratada, que a dor vai ser controlada, e que eu marquei a conversa com quem decide.”
Não diga: Não opine sobre a indicação cirúrgica de uma fratura que você não vai tratar, e não repita a frase que o paciente ouviu no corredor. Se você não sabe, diga que quem decide é quem vai operar — é uma resposta completa.
Orientar o retorno antecipado, para quem leva o paciente para casa
“Antes de vocês irem, preciso que uma pessoa aqui decore cinco coisas, e eu vou escrever também. Voltem imediatamente, sem esperar a consulta marcada, se acontecer qualquer uma destas: os dedos ficarem dormentes; a dor aumentar em vez de diminuir; os dedos ficarem frios; os dedos mudarem de cor, ficando brancos ou roxos; ou ele não conseguir mexer os dedos. Não tirem a tala em casa por nenhum motivo — se estiver apertando, voltem, que a gente abre aqui.”
Não diga: Não entregue os gatilhos só no papel impresso, e não os dilua num parágrafo de recomendações gerais. Diga em voz alta, olhando para quem vai cuidar, e peça que a pessoa repita. E escreva no prontuário que orientou e o que orientou — se não está escrito, ninguém depois saberá se a família foi orientada ou apenas não voltou.
Onde bons médicos discordam
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.
Operar, com nível de evidência I, é o que a recomendação nacional escreve (SBOT, 2019)
A recomendação da pergunta 27 dos Consensos Brasileiros de Ortopedia e Traumatologia diz que, por acometer população predominantemente jovem e economicamente ativa, se recomenda o tratamento cirúrgico para as fraturas do escafoide, e que essa opção é especialmente recomendada quando há benefício relacionado ao retorno precoce às atividades econômicas ou desportivas. O nível de evidência declarado é I. A conclusão do mesmo texto acrescenta que as evidências de duas revisões sistemáticas sugerem superioridade do tratamento cirúrgico sobre o conservador quanto à união óssea, à melhora funcional, ao retorno ao trabalho e ao tempo de recuperação, sem diferença em complicações.
Consensos Brasileiros de Ortopedia e Traumatologia, SBOT, 2019, pergunta 27 — recomendação e conclusão
Imobilizar é o tratamento de escolha na fratura oculta ou estável, e é o que o mesmo documento escreve algumas linhas acima (SBOT, 2019)
A introdução da mesma pergunta 27 afirma que, em uma fratura oculta ou estável, a imobilização por gesso por quatro a seis semanas é o tratamento de escolha, porque o tratamento conservador resulta em cicatrização em 90% a 95% das fraturas do escafoide; e que, na fratura com desvio mínimo, abaixo de 1 mm, se devem considerar os fatores do paciente e discutir cuidadosamente benefícios e riscos das duas opções. Como o que define instabilidade, no mesmo parágrafo, é o deslocamento acima de 1 mm, a fratura não desviada do título da pergunta é justamente a que a introdução manda imobilizar.
Consensos Brasileiros de Ortopedia e Traumatologia, SBOT, 2019, pergunta 27 — introdução
A divergência é interna ao único documento brasileiro que existe sobre o assunto, e não se resolve escolhendo o parágrafo preferido. O que o interno decide não é isto: a escolha entre operar e engessar é do ortopedista ou do cirurgião da mão, com a radiografia na mão e o desvio medido. O que decide o caso à sua frente é o que vem antes das duas posições e é comum às duas: nas duas leituras, a fratura precisa ter sido reconhecida, e nas duas o punho sai imobilizado da primeira consulta. Um paciente que foi liberado com radiografia normal e dor na tabaqueira não está em nenhuma das duas condutas — está fora do documento inteiro. Encaminhe com o desvio descrito quando ele existir, registre que a discussão entre conservador e cirúrgico foi apresentada ao paciente quando o desvio for mínimo, e leve a contradição para quem vai tratar, em vez de escolher por ele.
Restaurada a perfusão, a ausência de pulso pode ser observada, porque a mão está sendo suprida por circulação colateral
Nesta leitura, o que define isquemia é a perfusão do tecido e não a palpabilidade do pulso. Uma mão quente, rosada e com enchimento capilar rápido está recebendo sangue, ainda que a artéria braquial esteja espasmada, comprimida ou obstruída, porque a rede colateral em torno do cotovelo assume o fluxo. Explorar cirurgicamente essa artéria acrescenta risco e tempo de anestesia a um membro que, naquele momento, está perfundido. A conduta é reduzir e fixar a fratura, observar de perto e reavaliar em intervalos curtos.
Leitura clínica corrente na literatura de trauma pediátrico do membro superior. Não localizado documento brasileiro que a enuncie.
Ausência de pulso após a redução é indicação de avaliação vascular, porque a colateral pode não bastar sob demanda
Nesta leitura, a perfusão em repouso não garante a perfusão sob esforço nem a longo prazo, e a artéria pode estar aprisionada no foco de fratura ou lesada na íntima, com trombose progressiva. A colateral que sustenta a mão de uma criança deitada na maca pode não sustentar a mesma mão em uso, e a sequela isquêmica tardia do antebraço é irreversível. A conduta é avaliação vascular formal e exploração quando indicada.
Leitura clínica corrente na literatura de cirurgia vascular e de mão. Não localizado documento brasileiro que a enuncie.
Comece registrando o que este capítulo mediu e que muda o peso da discussão: NÃO existe documento brasileiro localizado que trate da mão sem pulso na supracondiliana. As 88 perguntas dos Consensos incluem a supracondiliana com desvio, mas a pergunta é sobre configuração de fios, não sobre conduta vascular. O documento federal de encaminhamento manda toda suspeita de fratura para a emergência e para por aí. A diretriz brasileira de doença arterial periférica exclui trauma do próprio escopo, como registrou o capítulo Músculo não volta, na apostila de Cirurgia Vascular. Portanto: a decisão à sua frente não é sua e não vai ser resolvida por consulta a norma nacional. O que decide o caso é a qualidade do que você entrega a quem vai decidir — os quatro itens vasculares medidos e escritos, com hora, antes e depois de cada manobra, mais o teste do interósseo anterior nomeado. E há um ponto em que as duas posições concordam e que é integralmente seu: nas duas, uma mão que era rosada e esfria, ou um pulso que existia e some, muda tudo. Escreva os valores para que essa comparação seja possível.
Depois do pranchamento, na sequência da ficha BT12, de trauma de membros superiores e inferiores
A ficha BT12 numera onze passos e coloca, no passo 6, avaliar pulso periférico e perfusão, sensibilidade e mobilidade; no passo 7, realizar a imobilização da parte afetada; no passo 8, mobilizar com cuidado e imobilizar coluna cervical e tronco em prancha longa com alinhamento anatômico, sem atraso para o transporte; e só no passo 9, reavaliar pulso, perfusão, sensibilidade e mobilidade após a imobilização. A lógica implícita é a da cena: não interromper a preparação para o transporte.
Protocolo SAMU 192, ficha BT12 — trauma de membros superiores e inferiores; elaboração agosto/2014, revisão abril/2015
Imediatamente após a tala, e antes do pranchamento, na sequência da ficha BT13, de fratura exposta de extremidades
A ficha BT13, que fica imediatamente ao lado no mesmo documento e traz as mesmas datas de elaboração e revisão, também numera onze passos, mas na outra ordem: passo 6, avaliar; passo 7, imobilizar o segmento afetado; passo 8, reavaliar pulso, perfusão, sensibilidade e mobilidade após a imobilização; e só então, no passo 9, o pranchamento. A lógica implícita é a do membro: fechar o ciclo de checagem sobre o segmento que acabou de ser apertado antes de qualquer outra coisa.
Protocolo SAMU 192, ficha BT13 — fratura exposta de extremidades; elaboração agosto/2014, revisão abril/2015
As duas fichas estão em vigor, no mesmo documento, com as mesmas datas, e a divergência foi confirmada em duas renderizações independentes do PDF comparadas depois de normalizar espaço e hífen — não é artefato de extração. A conta está na nota 6. Para o paciente à sua frente, o que separa os dois casos não é a ficha e sim a pergunta que a reavaliação responde: ela existe para detectar o dano causado PELA imobilização. Se entre a tala e a reavaliação houver qualquer outro procedimento que mexa no membro — e o pranchamento mexe —, você deixa de saber a qual dos dois atos atribuir uma piora. Portanto, no ambiente hospitalar em que este capítulo se passa, onde não há pranchamento nem pressa de transporte, a questão desaparece: reavalie imediatamente após imobilizar, escreva a hora, e o dado fica interpretável. Onde as duas coisas acontecerem juntas, registre o que examinou depois de cada uma delas.
O raciocínio, em voz alta
Volte ao Nicásio Itambé, 6 anos, 21 quilos, trazido pela mãe às 23h05 depois de cair de uma barra de macaco de um metro e meio, com o braço estendido, por volta das 22h40. Cotovelo esquerdo muito inchado, com uma pequena prega de pele repuxada na dobra anterior, antebraço em posição alterada. Ele chora, não deixa mexer, e a mãe responde as perguntas. A mão está fria. Você não acha o pulso radial. Há outros dois pacientes esperando há mais tempo, com dor no punho. O ortopedista é de sobreaviso e mora a vinte e cinco minutos. São 23h10.
o que eu faço no primeiro minuto
Toco as três mãos da sala de espera antes de abrir três prontuários. Duas estão quentes e com pulso; a do Nicásio está fria e sem pulso radial. A fila acabou de mudar, e o motivo é um achado clínico que eu vou escrever nos três prontuários. Não toco no cotovelo dele para testar nada.
o que eu NÃO faço, e é o que mais tenta
Não mando para o raio-X para reavaliar depois. Nenhuma incidência responde se a mão está sendo perfundida agora, e mandar primeiro gasta em série vinte e cinco minutos que poderiam correr em paralelo. Também não testo amplitude, não procuro estabilidade e não rodo o antebraço: a ponta do fragmento proximal está virada para a frente, e é exatamente lá que passam a artéria braquial e o nervo mediano.
o telefonema, às 23h12
Ligo para o ortopedista de sobreaviso e digo, nesta ordem: 6 anos, 21 quilos; queda de barra de macaco com o braço estendido às 22h40; suspeita de supracondiliana do úmero esquerdo com desvio; mão fria e sem pulso radial desde a chegada; prega cutânea anterior presente; nenhuma manobra realizada. Escrevo no prontuário a hora do telefonema e o nome de quem atendeu. Ele pede a radiografia enquanto se desloca — então ela é feita enquanto ele vem, e não em lugar de ele vir.
o exame neurológico que eu escrevo por extenso
Ofereço um objeto pequeno e observo a pinça: ele forma um triângulo com as pontas dos dedos retas, não consegue fechar o círculo entre polegar e indicador. Isso é déficit do nervo interósseo anterior, que é motor puro e não dá dormência nenhuma — ele não está formigando, e isso não afasta nada. Testo também sensibilidade da polpa do indicador e do mínimo, extensão do punho e abdução dos dedos. Escrevo os quatro nervos pelo nome, com o gesto de cada um, e a hora. Ligo de novo para acrescentar o déficit motor à informação que já dei.
a imobilização, e a regra que a governa
Imobilizo com o cotovelo em torno de noventa graus, nunca além disso, na posição em que ele aceita, sustentando o antebraço, sem nenhuma tentativa de redução. A flexão maior fecha o espaço anterior e aumenta a pressão sobre o feixe — é fator reconhecido de contratura isquêmica. A técnica da tala em si eu uso do capítulo O exame que se faz duas vezes, na apostila Procedimentos e Vias de Acesso, e não a reinvento aqui.
a analgesia, com a conta feita
Dipirona 315 mg, que é 15 mg/kg para 21 quilos, o que corresponde a 0,63 mL da solução oral de 500 mg/mL. Como a dor é intensa e ele vai para o centro cirúrgico, prescrevo também morfina até 2,1 mg por via endovenosa — e escrevo a diluição na prescrição, porque 0,21 mL da ampola pura não se aspira com segurança: 1 mL da ampola de 10 mg/mL em 9 mL de soro fisiológico dá 1 mg/mL, e então aspiram-se 2,1 mL. Não uso tramadol, que seria o reflexo, porque ele não consta da Rename 2024.
o segundo exame, que é o passo numerado do protocolo federal
Imediatamente após imobilizar, refaço pulso, perfusão, sensibilidade e mobilidade, e escrevo a segunda hora ao lado da primeira. É o passo que o protocolo SAMU numera, e é o que permite, daqui a meia hora, dizer se piorou. Acesso venoso e jejum, antecipando a redução sob anestesia.
o que eu entrego quando ele chega, às 23h35
Uma linha do tempo vascular, não uma opinião: hora do trauma, primeiro exame vascular e o que mostrou, hora da imobilização, segundo exame vascular e o que mudou, resultado do teste do interósseo anterior, presença da prega cutânea, e o que já foi prescrito. A decisão sobre a fratura é dele. O que a fonte brasileira diz, para eu entender a conversa: na supracondiliana com desvio, a redução fechada com fixação percutânea é o mais aceito, e a discussão restante é sobre a configuração dos fios.
antes de assinar, a pergunta que não é ortopédica
Confiro se a lesão, o mecanismo relatado e o desenvolvimento fecham entre si. Barra de macaco, queda presenciada, mãe consistente, criança de 6 anos que corre e sobe: fecha. Registro explicitamente que avaliei e o que concluí. Se não fechasse, o caminho seria o do capítulo Violência e maus-tratos infantis, na apostila de Emergências Pediátricas, correndo em paralelo ao tratamento e nunca em lugar dele.
Faça você
Terça-feira, 20h40. Chega ao pronto-socorro o senhor Ananias Garanhuns, 71 anos, 78 quilos, motorista de ônibus aposentado, trazido pela filha. Ele conta que caiu no ponto de ônibus há três dias, escorregando no meio-fio, com a mão espalmada no chão. Foi a uma unidade de pronto atendimento naquela mesma noite, fez radiografia, ouviu que tinha quebrado o punho, saiu com uma tala e uma orientação de procurar ortopedista. Está voltando hoje porque desde ontem os três primeiros dedos da mão direita estão dormentes, e a dor, que estava melhorando, voltou pior — sobretudo à noite, em queimação, e não passa quando ele levanta o braço. À inspeção, a tala mantém o punho em flexão acentuada. Os dedos estão rosados e quentes, com enchimento capilar rápido. Ele usa enalapril e sinvastatina, e no papel da UPA está escrito, na íntegra: fratura de rádio distal direito, imobilizado, encaminhar ortopedia.
leitura do intervalo de três dias
O que mudou nesses três dias não foi a fratura: foi o que a imobilização fez com o que passa por baixo dela. Dormência que começa depois da tala, e não no dia do trauma, aponta para o que a tala está causando e não para o que o osso causou.
leitura do território da dormência
Três primeiros dedos e a metade radial do quarto é o território do nervo mediano. Some a isso dor em queimação com piora noturna que não cede à elevação, e o quadro tem nome e tem hora marcada.
leitura da posição da tala
O punho em flexão acentuada não é um detalhe de conforto. É a posição que estreita o túnel do carpo, e foi usada no passado justamente para segurar a redução. É a causa mais frequente e mais evitável do que ele tem.
leitura do que os dedos rosados NÃO dizem
Enchimento capilar rápido e dedos quentes afastam o problema arterial, e é bom que afastem. Mas não afastam compressão nervosa, que acontece com o membro perfeitamente perfundido — e é por isso que o exame neurológico é um exame separado do vascular, e não um apêndice dele.
leitura do papel da UPA
Cinco palavras. Não há exame vascular, não há exame neurológico, não há mecanismo, não há altura da queda, não há posição da imobilização e não há gatilho de retorno. A consequência prática é que você não tem com o que comparar o exame de hoje, e vai ter que tratar a dormência como nova sem poder prová-lo.
Ver como fecharíamos
Primeiro o nervo, e agora. Abra a imobilização, retire a flexão do punho e coloque-o em posição neutra, eleve o membro e reavalie a sensibilidade em minutos, registrando antes e depois com as duas horas. Isso é suspeita de compressão aguda do nervo mediano no túnel do carpo, e não é para prescrever analgésico e observar até de manhã: comunique o ortopedista no mesmo plantão, escrevendo a hora e o nome de quem atendeu. Documente por extenso os quatro nervos e os quatro itens vasculares, porque a partir de agora o valor de amanhã depende de existir um valor de hoje. Segundo, a fratura em si segue o caminho normal: reavaliação da redução pela ortopedia e nova imobilização em posição neutra, nunca em flexão forçada. Terceiro, e é o que ninguém fez até aqui: ele tem 71 anos e quebrou o punho caindo da própria altura. Isso é fratura por fragilidade, e o papel da UPA não a nomeia. Escreva no relatório a frase inteira — fratura por fragilidade, comprovada radiologicamente, em rádio distal, decorrente de queda da própria altura; indicação de investigação e tratamento de osteoporose; encaminhado — e encaminhe. E aqui a porta depende do sexo. A investigação da fratura por fragilidade na mulher depois da menopausa é de Osteoporose pós-menopausa, na apostila de Ginecologia; no homem, é de Osteoporose e metabolismo ósseo, na apostila de Endocrinologia. O senhor Ananias é homem. A régua de quando tratar sem densitometria do protocolo nacional, que os dois capítulos usam, — fratura por fragilidade em fêmur proximal, rádio distal, úmero proximal, vértebra, quadril ou costela fecha diagnóstico clínico — está escrita em termos de sítio de fratura e não de sexo, e o encaminhamento é o mesmo. O encaminhamento por fratura de fragilidade vale igualmente para o homem, a frase do relatório é a mesma, e a investigação de causa secundária — que no homem é a regra — segue Osteoporose e metabolismo ósseo. Por fim, o gatilho de retorno, dito em voz alta para a filha e escrito no papel: voltar imediatamente se a dormência aumentar, se a dor crescer, se os dedos esfriarem ou mudarem de cor, ou se ele não conseguir mexer os dedos. E não tirar a tala em casa.
O fragmento proximal corre maior risco. A principal irrigação do escafoide chega por ramos que entram dorsalmente na porção distal e seguem por via intraóssea em direção ao polo proximal. Uma fratura da cintura pode interromper esse fluxo retrógrado; desvio aumenta a preocupação com comprometimento vascular e instabilidade. Nas fraturas mais proximais, o fragmento proximal remanescente é menor, e não maior: sua vulnerabilidade decorre da dependência vascular e das condições locais de consolidação, não de um volume maior de osso a jusante. As fraturas do polo proximal têm maior risco de isquemia, atraso de consolidação e não união. O mecanismo não é a exposição ao líquido sinovial. O risco individual não deve ser expresso por percentuais fixos baseados apenas em um limiar de desvio.
Teste-se
Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.
Plano de revisão
Em 7 dias
Recuperação ativa em sete dias. Demonstre testes motores de mediano/interósseo anterior, radial e ulnar. Defina a conduta no escafoide suspeito com radiografia normal. Responda antes de reler e depois confira onde faltou justificar uma decisão.
Em 30 dias
Aplicação em trinta dias. Simule mão fria após fratura supracondiliana e parestesia mediana progressiva após fratura do rádio: decida a urgência e explique por que imagem e analgesia não podem atrasar proteção do membro. Use dados observados, reconheça o que ainda não sabe e peça comparação com a avaliação do supervisor.
Agora atenda
Escolha uma estação em que a fratura salte aos olhos e o risco esteja escondido noutro lugar do membro. Pratique quatro coisas na mesma passagem: examinar e ENUNCIAR em voz alta os quatro itens vasculares e os quatro nervos, com o gesto de cada um, antes de tocar em qualquer imobilização; refazer os mesmos exames depois dela e dizer a segunda hora; perguntar o mecanismo e a altura da queda mesmo quando o diagnóstico já está fechado, porque é a pergunta que a radiografia não faz; e explicar a alguém com pressa por que ele sai imobilizado com um exame normal, sem usar a palavra precaução. Se o caso oferecer uma criança, acrescente a quinta: dizer em voz alta que você avaliou se a lesão, o mecanismo e o desenvolvimento fecham entre si, e o que concluiu.
