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Lombalgia e hérnia de disco
É a queixa em que o exame de imagem atrapalha. A ressonância acha alteração em quase todo adulto sem dor — então a imagem pedida sem indicação encontra um achado que não é a causa, e esse achado vira diagnóstico, vira medo e às vezes vira cirurgia. Não pedir é conduta ativa, e este capítulo é sobre como fazê-la.
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NICE NG59 — lombalgia e ciática
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Homem de 38 anos com lombociatalgia à direita há 3 semanas. A dor desce pela face lateral da coxa e da perna, cruza o dorso do pé e chega ao hálux, com formigamento nesse trajeto. Os reflexos patelar e aquileu estão presentes e simétricos. Qual raiz está mais provavelmente acometida, qual disco costuma ser o responsável e como se testa a força correspondente à beira do leito?
O paciente que você vai ver
Sete e vinte de uma manhã de segunda-feira na unidade básica. A agenda do dia tem dezoito consultas marcadas e cinco vagas de demanda espontânea que já foram todas ocupadas antes das sete. A técnica de enfermagem avisa que a fila da recepção dobrou o corredor e que duas pessoas estão em pé porque não há cadeira.
O senhor Cícero Damião, 41 anos, entregador de aplicativo, entra andando devagar, com a mão apoiada na cintura, e senta na ponta da cadeira. A dor começou há seis dias, depois de subir três lances de escada com uma caixa nas costas. É na região lombar, dos dois lados, não desce para as pernas, piora quando ele se abaixa e melhora quando deita. Ele dormiu mal, não conseguiu trabalhar quatro dos seis dias e está com medo. Antes de você perguntar qualquer coisa, ele diz a frase que organiza a consulta inteira: doutor, eu quero fazer a ressonância, porque meu cunhado tinha isso e era hérnia de disco, e ele operou.
Você examina. Ele anda sem claudicar, tira o sapato sem apoio, a coluna está sem deformidade e sem lesão de pele, a musculatura paravertebral está contraída e dolorosa à palpação dos dois lados, os processos espinhosos não doem à percussão. Levantar a perna estendida não reproduz dor irradiada em nenhum dos lados. A força para andar nas pontas dos pés e nos calcanhares é normal, a sensibilidade dos pés está preservada, os reflexos patelar e aquileu estão presentes e simétricos. Ele não tem febre, não perdeu peso, nunca teve câncer, não usa corticoide, urina normalmente.
Não há uma única bandeira vermelha nesse exame. E a conduta que se oferece sozinha, na pressa de um consultório com dezoito pessoas esperando, é pedir a ressonância — porque pedir custa trinta segundos e explicar custa dez minutos, porque o paciente veio pedindo, e porque o exame parece a forma mais cuidadosa de resolver. Ela é, nesse paciente, a decisão que faz mal: a ressonância de coluna encontra alteração em quase todo adulto sem dor, e a alteração que ela vai encontrar nele não é a causa da dor dele. Vira laudo, vira nome, vira medo de se mexer, vira encaminhamento, e numa fração dos casos vira cirurgia numa coluna que ia melhorar sozinha.
Duas cadeiras adiante espera dona Neusa Aparecida, 71 anos, com dor lombar há cinco semanas que não passa deitada, acorda ela de madrugada e vem piorando devagar. Ela emagreceu, diz que a roupa está sobrando, e fez tratamento de câncer de mama há nove anos. Nela, o exame que o senhor Cícero está pedindo é urgente — e a decisão que mata é a mesma que acabou de ser tomada com ele, aplicada sem distinguir um do outro.
Este capítulo é sobre as duas decisões, que são a mesma decisão vista de dois lados: reconhecer a minoria em que a coluna que dói está doente, e ter o argumento e as palavras para não pedir imagem na maioria em que ela não está. Nenhuma das duas se resolve com exame. As duas se resolvem com uma lista curta de perguntas, um exame neurológico de cinco minutos e uma conversa que precisa ser feita.
Quem adoece disso
A dor lombar é, hoje, a doença que mais tira brasileiro do trabalho. Em 2025 o INSS concedeu 4.126.112 benefícios por incapacidade temporária, e a dorsalgia — o código M54 da CID-10, que é onde a lombalgia inespecífica entra — respondeu sozinha por 237.113 deles, contra 205.142 no ano anterior, uma alta de 15,6%. É o terceiro ano seguido em que a dor nas costas lidera o ranking. Logo abaixo, em segundo lugar, vêm os transtornos de discos intervertebrais, o M51, com 208.727 concessões. Somados, os dois códigos respondem por 10,8% de todos os afastamentos por doença do país, e o M54 sozinho por 5,75%. Distribuído pelos dias úteis do ano, isso é da ordem de novecentos trabalhadores por dia recebendo benefício por dor nas costas.
Esses números não descrevem uma doença grave. Descrevem uma doença comum que incapacita, e a diferença entre as duas coisas é exatamente o assunto do capítulo. A consequência clínica é imediata: a lombalgia é a queixa em que o interno vai treinar sua régua dezenas de vezes por mês, e a decisão que ele mais vai repetir nela não é diagnóstica, é a de investigar ou não investigar. Uma régua treinada no volume se descalibra sozinha, e nesta queixa ela se descalibra para o lado de pedir exame — porque pedir parece cuidado e recusar parece descaso.
A prevalência de dor crônica no adulto brasileiro é de cerca de 40%, segundo o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Dor Crônica do Ministério da Saúde, e a lombalgia é a dor crônica mais comum, seguida por joelho, ombro, cabeça e membros inferiores; um estudo em capitais brasileiras citado pelo mesmo Protocolo encontrou 77% de dor na coluna entre pessoas com dor crônica. Em 2017 a lombalgia foi a principal causa de anos perdidos por incapacidade entre adultos de 50 a 69 anos no mundo. Ou seja: a dor lombar não mata quase ninguém e incapacita quase todo mundo. Um diagnóstico que muda a vida do paciente sem ameaçá-la exige um tipo de conduta diferente do que o internato treina no pronto-socorro — a meta aqui não é excluir o que mata em quatro horas e liberar, é devolver função e evitar que a consulta produza um doente.
Do lado da causa, o consenso brasileiro de lombalgias e lombociatalgias registra que, no atendimento primário por médicos não especialistas, apenas 15% das lombalgias e lombociatalgias têm uma causa específica identificada. Os outros 85% recebem o nome de lombalgia mecânica comum ou inespecífica — e esse nome não é um fracasso diagnóstico, é o diagnóstico. Quem não aceita isso passa a investigar todo mundo à procura de um substantivo para escrever no prontuário, e o exame de imagem sempre entrega um.
O que fecha o quadro epidemiológico deste capítulo não é um dado sobre doentes, é um dado sobre gente sem dor. A revisão sistemática publicada no American Journal of Neuroradiology reuniu 33 estudos com 3.110 indivíduos assintomáticos e mediu quanto da população sem nenhuma dor lombar tem achado degenerativo na imagem da coluna. Aos 20 anos, 37% já têm degeneração discal; aos 40, 68%; aos 60, 88%; aos 80, 96%. Abaulamento discal aparece em 30% aos 20 anos e em 84% aos 80. Protrusão discal — a palavra que aparece no laudo e assusta — está presente em 29% dos assintomáticos de 20 anos e em 33% dos de 40. Degeneração facetária vai de 4% aos 20 para 83% aos 80, e espondilolistese, de 3% para 50%.
A leitura prática desses números é a régua do capítulo inteiro. Se dois de cada três adultos de 40 anos sem nenhuma dor têm degeneração discal na ressonância, então encontrar degeneração discal na ressonância de um paciente de 40 anos com dor não informa nada sobre a causa da dor dele: o achado tinha 68% de chance de estar lá de qualquer jeito. O exame não errou; a pergunta é que estava errada. E como o laudo é escrito com substantivos de doença, e não com a frequência do achado na população da mesma idade, ele produz no paciente e no médico uma certeza que os dados não sustentam.
Por que acontece o que acontece
A coluna lombar é uma pilha de cinco vértebras que precisa fazer duas coisas incompatíveis: sustentar peso e se dobrar. Entre os corpos vertebrais está o disco intervertebral, com um núcleo pulposo gelatinoso rico em água no centro e um anel fibroso de lamelas de colágeno em volta; atrás, de cada lado, as articulações zigapofisárias — as facetas — guiam o movimento e limitam a rotação. Ligamentos, musculatura paravertebral e a fáscia toracolombar completam o conjunto. Praticamente todas essas estruturas têm inervação nociceptiva, e é daí que sai a primeira e mais importante consequência clínica do capítulo.
O segmento lombar é inervado por uma rede difusa e entrelaçada de nervos, e o consenso brasileiro de lombalgias abre com essa afirmação porque ela explica o resto: sem exceção dos casos com acometimento de raiz, não é possível determinar com precisão o local de origem da dor. O nervo sinuvertebral que inerva o anel fibroso posterior e o ligamento longitudinal posterior recebe ramos de mais de um nível; o ramo medial que inerva a faceta também. Um mesmo estímulo chega ao corno posterior por vários segmentos, e o mapa que volta ao paciente é grosseiro. Por isso a dor lombar comum é descrita como uma faixa, e não como um ponto — e por isso nenhuma imagem consegue apontar qual estrutura está doendo. A imagem mostra anatomia; a dor é fisiologia. Elas se encontram em poucos casos, e a radiculopatia é o principal deles.
Quando o núcleo pulposo é empurrado para trás e rompe as lamelas do anel, o material extrudido sai quase sempre pelo canto posterolateral, porque o ligamento longitudinal posterior é forte no meio e afinado nas bordas. Nesse ponto ele encontra a raiz que está descendo para sair um nível abaixo — é por isso que uma hérnia do disco L4-L5 costuma comprometer a raiz L5, e uma hérnia L5-S1 a raiz S1. O nome da vértebra e o nome da raiz não coincidem, e essa é a fonte de metade da confusão do interno lendo laudo.
A dor da raiz comprimida tem duas origens somadas, e as duas importam para o tratamento. Uma é mecânica, a compressão direta do axônio e do gânglio da raiz dorsal. A outra é química: o núcleo pulposo é material que nunca teve contato com o sistema imune, e sua exposição desencadeia uma resposta inflamatória local intensa em volta da raiz. É essa inflamação, e não apenas o volume do fragmento, que produz dor irradiada — o que explica por que fragmentos pequenos podem doer muito e grandes podem não doer nada, por que o anti-inflamatório ajuda, e por que o corticoide e a infiltração epidural foram sempre uma tentação terapêutica neste quadro.
A mesma biologia explica a melhor notícia da hérnia de disco, que é a que menos chega ao paciente: o fragmento extrudido é reconhecido como corpo estranho, é invadido por macrófagos e neovasos e é reabsorvido. Hérnia de disco não é um buraco permanente na coluna; é um evento com começo, meio e fim. O tempo desse fim é medido em semanas a meses, e é exatamente por isso que a conduta padrão da radiculopatia sem déficit progressivo é conservadora e não cirúrgica. O paciente que opera na terceira semana e o que não opera tendem, no médio prazo, a chegar ao mesmo lugar — o que muda é a velocidade do alívio e o risco de uma cirurgia.
A anatomia do canal muda no nível em que a medula acaba. Em quase todo adulto a medula termina entre a primeira e a segunda vértebra lombar, no cone medular; abaixo disso o canal contém apenas as raízes lombares e sacrais soltas em líquor, o feixe que se chama cauda equina. Uma hérnia posterolateral encontra uma raiz e produz ciática. Uma hérnia grande e central, ou um tumor, ou um abscesso que ocupa o canal nesse nível, encontra o feixe inteiro — e comprime de uma só vez as raízes de sensibilidade perineal, de esfíncter e de força de ambos os membros inferiores. A síndrome da cauda equina não é uma ciática grave: é outra doença, com outra anatomia e outro relógio.
O que torna a cauda equina traiçoeira é a ordem em que as funções caem. As raízes sacrais que controlam o detrusor e o esfíncter estão no centro do feixe e são as mais vulneráveis à compressão central, e a bexiga é justamente o órgão que o paciente demora a notar. O que acontece primeiro é perda da sensação de bexiga cheia; o paciente para de sentir vontade de urinar, a bexiga distende além do ponto de contração eficaz, e o que ele percebe é um escape por transbordamento que ele atribui ao remédio, à idade ou ao repouso. A retenção instalada estraga o músculo detrusor por distensão, e a lesão nervosa prolongada não se reverte por completo depois de descomprimida. Por isso a bexiga é o parâmetro que define o prognóstico, e por isso a pergunta sobre urina precisa ser feita ativamente e com palavras concretas — a demora aqui não custa dor, custa função definitiva.
No canal estreito degenerativo o mecanismo é diferente e o exame clínico o revela sem imagem. Osteófitos, hipertrofia facetária e espessamento do ligamento amarelo reduzem a área do canal, e essa área muda com a postura: a extensão da coluna encurta o canal e o estreita, a flexão o alonga e o alarga. Daí a claudicação neurogênica, com dor e peso nas pernas ao andar que melhoram ao sentar, ao inclinar o tronco para a frente ou ao apoiar-se no carrinho do supermercado — e que pioram descendo ladeira, onde o tronco fica estendido, e melhoram subindo, onde ele se flete. A claudicação vascular faz o contrário: piora subindo, porque o que falta é fluxo, e melhora parando de pé, sem precisar sentar. Uma pergunta sobre ladeira separa duas doenças que a imagem custaria a separar.
As bandeiras vermelhas têm, cada uma, um mecanismo que explica por que a dor sai do padrão mecânico. Na fratura por fragilidade, o osso trabecular do corpo vertebral perde massa e cede sob carga fisiológica: a dor é súbita, ligada ao momento do esforço, focal sobre o processo espinhoso e reprodutível à percussão. Na infecção e na metástase, a colonização acontece no corpo vertebral, que é osso esponjoso com medula ricamente vascularizada e drenagem venosa que se comunica com o plexo venoso vertebral — um leito onde êmbolos sépticos e células tumorais se instalam com facilidade. O processo é expansivo e inflamatório, independe de carga, e por isso a dor não alivia deitado e acorda o paciente de madrugada. Dor que não respeita repouso é dor que não é mecânica, e essa é a tradução clínica direta da fisiopatologia.
Na espondiloartrite axial o mecanismo é a inflamação da entese, o ponto onde ligamento e cápsula se ancoram no osso. Inflamação em repouso produz rigidez, e movimento a dispersa: por isso a dor inflamatória piora de manhã e com a inatividade, melhora com exercício e não melhora com repouso, e leva o paciente a levantar de madrugada para se mexer. É a inversão exata do padrão mecânico, e reconhecê-la é o que muda a especialidade de destino.
Falta o mecanismo da dor que já dura meses. Quando a dor persiste, o sistema nociceptivo se altera: os neurônios do corno posterior ficam mais excitáveis, o campo receptivo se amplia, o controle inibitório descendente enfraquece, e o resultado é dor mantida com estímulo periférico pequeno ou nenhum. O Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Dor Crônica chama isso de dor nociplástica e cita a lombalgia primária crônica como exemplo. A consequência prática é dura de aceitar e precisa ser dita ao paciente: depois de certo ponto, a intensidade da dor deixa de ser um medidor da lesão. Procurar mais lesão com mais exames, nesse estágio, é procurar no lugar errado — e é o mecanismo pelo qual a investigação repetida agrava o problema que tentava resolver.

Como se apresenta de verdade
Quase toda dor lombar que entra pela porta é a mesma dor, e ela tem um retrato reconhecível em três minutos de conversa. O trabalho da consulta não é confirmar esse retrato — é conferir, com uma lista curta e fixa, se ele está inteiro ou se falta uma peça. Falta de peça tem nome: bandeira vermelha. São poucas, são específicas e valem justamente porque são raras.
A ordem de leitura importa. Primeiro o padrão da dor, que separa mecânica de não mecânica; depois a irradiação, que separa lombalgia de radiculopatia; depois a lista de bandeiras; e só então a idade e o contexto, que mudam a probabilidade de tudo o que veio antes. Quem inverte essa ordem e começa pela idade acaba investigando idoso demais e jovem de menos.
Aprender para cuidar no internato. Correlacionar dor, exame e função; evitar imagem rotineira e reconhecer emergência de cauda equina. Ao discutir o caso com o preceptor, explicite os achados que sustentam a hipótese, uma alternativa relevante, a decisão que precisa ocorrer agora e o que fará mudar o plano. O resultado esperado é uma ação clínica justificada e acompanhada, além de reconhecer o diagnóstico.
A lombalgia mecânica comum, que é a maioria absoluta
O retrato é este: dor em faixa na região lombar e nas nádegas, dos dois lados ou de um só, sem descer além da coxa; começou depois de um esforço, de uma torção ou simplesmente ao levantar da cama; piora com movimento, com flexão do tronco, com ficar muito tempo na mesma posição; melhora deitado. Não acorda o paciente de madrugada — ou acorda quando ele muda de posição, o que é outra coisa. Não vem com febre, não vem com perda de peso, não muda a urina nem as fezes, não tira força nem sensibilidade das pernas. O exame acha musculatura paravertebral contraída e dolorosa e, muitas vezes, uma escoliose antálgica que some quando a dor passa.
Esse quadro é a forma mais prevalente da dor lombar, e o consenso brasileiro registra que o episódio doloroso tem duração média de três a quatro dias, depois dos quais o paciente volta à normalidade com ou sem tratamento. O número parece pequeno demais para quem atende gente que sofre por semanas, e a razão é que a média é puxada por um enorme número de episódios curtos que nunca chegam ao consultório. Quem chega já é o que durou mais. Ainda assim, a mensagem para o paciente continua correta: a expectativa é de melhora, e a melhora costuma acontecer em dias a poucas semanas.
Duas armadilhas de linguagem aparecem aqui. A primeira é chamar isso de doença da coluna: o paciente entende coluna gasta, coluna quebrada, coluna que não pode se mexer, e o entendimento errado vira comportamento errado. A segunda é chamar de nada: quem ouve que não tem nada entende que a dor que sente não é real e que voltar é incomodar. A palavra correta é a que o próprio Protocolo Clínico usa — dor lombar inespecífica, que quer dizer que a dor é real e a causa é o conjunto do segmento, não uma peça quebrada dentro dele.
Quando desce para a perna: a ciática
Radiculopatia é dor que segue um território de raiz, e o que a define não é a intensidade nem o quanto desce, é o padrão. Dor que desce pela face posterior da coxa e passa do joelho, com formigamento ou dormência num trajeto reconhecível do pé, é linguagem de raiz. Dor que fica na nádega e na coxa alta, difusa, sem trajeto, é lombalgia com irradiação referida — e ela não muda a conduta.
Três raízes respondem por quase tudo na prática. A raiz L4 leva a dor pela face anterior da coxa até a face medial da perna, tira a sensibilidade da face medial do tornozelo, enfraquece a extensão do joelho e apaga o reflexo patelar. A raiz L5 desce pela face lateral da coxa e da perna até o dorso do pé e o hálux, tira a sensibilidade do dorso do pé, enfraquece a dorsiflexão do pé e do hálux — o paciente não consegue andar sobre os calcanhares — e não tem reflexo próprio para conferir. A raiz S1 desce pela face posterior até a face lateral do pé e o quinto dedo, enfraquece a flexão plantar — o paciente não consegue andar na ponta de um dos pés — e apaga o reflexo aquileu. Essa tabela de três linhas é o exame neurológico inteiro que a lombalgia exige, e ela cabe em dois minutos.
A elevação da perna estendida com o paciente deitado reproduz dor irradiada abaixo do joelho quando a raiz está sob tensão; o consenso brasileiro considera positiva a manobra que exacerba a dor no trajeto de L4-L5 ou L5-S1 entre 35 e 70 graus, e registra que a positividade aos 60 graus comprova compressão radicular. Quando a mesma manobra na perna sadia reproduz dor na perna doente, o achado é bem mais específico de hérnia com compressão. O sinal do arco de corda completa: eleva-se a perna até a dor aparecer e então flete-se o joelho; se a dor reduz ou some, o teste é positivo para hérnia discal.
O ponto que muda conduta, e que o interno frequentemente desconhece, é este: radiculopatia por hérnia de disco, com dor intensa mas sem déficit motor progressivo e sem alteração de esfíncter, continua sendo tratamento conservador. Não é indicação de ressonância na primeira consulta, não é indicação de cirurgia e não é indicação de repouso. O que muda a conduta na ciática é o déficit — força que está caindo entre uma consulta e outra —, não a intensidade da dor nem o tamanho do fragmento que uma imagem mostraria.

As bandeiras vermelhas, uma a uma, com o que levanta cada uma
O consenso brasileiro de lombalgias organiza os sinais de alerta em três grupos, e o protocolo de encaminhamento do Ministério da Saúde acrescenta os que mandam o paciente para a emergência. Somados, eles cabem numa lista de perguntas que o interno faz sempre, na mesma ordem, e que leva menos tempo do que preencher o pedido de exame que ela evita.
Neoplasia. Levanta a suspeita: história pessoal de câncer, em qualquer momento da vida; idade acima de 50 anos com dor nova; perda de peso involuntária; dor que não alivia deitado e piora à noite; dor progressiva por mais de quatro a seis semanas sem qualquer melhora. O câncer que chega à coluna geralmente vem de mama, próstata, pulmão, rim ou tireoide, além do mieloma múltiplo. A dona Neusa da cena de abertura tem três desses itens ao mesmo tempo, e cada um deles sozinho já bastaria. O manejo da dor a partir do diagnóstico é o do capítulo de cuidados paliativos e manejo da dor oncológica desta apostila; aqui a tarefa é reconhecer que essa dor não é lombalgia.
Infecção. Levanta a suspeita: febre, calafrio, infecção bacteriana recente ou em curso, procedimento recente na coluna, uso de droga injetável, imunossupressão de qualquer origem — corticoide crônico, quimioterapia, transplante, HIV com contagem baixa —, e dor lombar intensa, contínua, que não respeita repouso, com dor à percussão dos processos espinhosos. Espondilodiscite e abscesso epidural são doenças de dias a semanas, não de horas, e o que faz o diagnóstico atrasar é justamente que o paciente parece bem entre um pico de febre e outro.
Fratura. Levanta a suspeita: trauma de alta energia em qualquer idade; trauma trivial — uma queda da própria altura, um espirro, levantar um vaso — em idoso, em pessoa com osteoporose conhecida ou em usuário crônico de corticoide; dor de início súbito e datável, focal, reproduzida pela percussão do processo espinhoso, com o paciente evitando sentar e preferindo ficar de pé. A fratura vertebral por fragilidade é a bandeira mais frequentemente subestimada, porque o paciente não conta trauma nenhum. A investigação e o tratamento da osteoporose que está por trás dela são de Osteoporose pós-menopausa, na apostila de Ginecologia, na mulher, e de Osteoporose e metabolismo ósseo, na apostila de Endocrinologia, no homem e na osteoporose por corticoide; a fratura de quadril é de Fratura de quadril no idoso, desta apostila; a lombalgia pós-trauma de alta energia, com suspeita de instabilidade ou de lesão neurológica, é o capítulo de trauma raquimedular e choque neurogênico, e sai daqui remetida.
Dor inflamatória. Levanta a suspeita: dor lombar crônica, com mais de três meses, que começou antes dos 40 anos, de início insidioso, com rigidez matinal, que melhora com exercício e não melhora com repouso, e que acorda o paciente na segunda metade da noite fazendo-o levantar para se mexer. O protocolo do Ministério da Saúde adota exatamente esses cinco critérios e considera o padrão inflamatório quando pelo menos quatro deles estão presentes. Esse paciente é da reumatologia, e a demora nesse encaminhamento é medida em anos na vida real.
Síndrome da cauda equina e compressão de cone medular. É a única bandeira que conta em horas, e por isso tem seção própria a seguir.
A cauda equina, que é a única emergência de horas
O quadro que o protocolo do Ministério da Saúde descreve para compressão de cone medular ou cauda equina tem quatro elementos: perda de força e alteração de sensibilidade nos membros inferiores, simétrica ou assimétrica; anestesia em sela; alteração no controle de esfíncter vesical ou anal; e, no cone, os sinais de liberação piramidal que acompanham lesão acima do fim da medula. Qualquer um deles com dor lombar aguda tira o paciente da fila e o coloca em avaliação de emergência no mesmo dia.
A coorte prospectiva britânica com 621 pacientes operados por síndrome da cauda equina descreve como esses pacientes de fato se apresentam, e o retrato é menos dramático do que o livro sugere. Dor lombar estava presente em 96%, ciática em 93% — bilateral em 46% —, disfunção vesical em 83%, alteração de sensibilidade em sela em 81%, disfunção intestinal em 39% e disfunção sexual em 38%. Ou seja: mais da metade não tinha ciática bilateral, quase um quinto não tinha alteração em sela, e a maioria não tinha queixa intestinal. O mesmo estudo conclui que nenhum achado clínico isolado prevê com segurança a compressão na imagem. A tradução operacional é desconfortável e precisa: não existe combinação de sintomas que autorize excluir cauda equina no consultório. O que existe é um limiar baixo para imagem urgente.
Os números de tempo dessa coorte explicam por que o capítulo insiste tanto na pergunta sobre urina. A mediana entre o início dos sintomas e a cirurgia foi de 3 dias, com intervalo interquartil de 1 a 8, e apenas 32% foram operados dentro de 48 horas do início dos sintomas. Retenção urinária exigindo sondagem já estava presente antes da cirurgia em 31%. E um ano depois da operação, 14% ainda usavam sonda, apenas metade tinha função vesical normal, 43% mantinham disfunção intestinal e 51%, disfunção sexual. Esses desfechos são a razão pela qual a suspeita de cauda equina não sobrevive a um retorno marcado para a semana que vem.
A pergunta que o interno precisa aprender a fazer não é você está urinando normal, porque quase todo paciente responde que sim. É a sequência de perguntas concretas que está escrita no primeiro marco da conduta, e cada uma delas está atrás de um território sacral: sensação de bexiga cheia, início da micção, escape, sensibilidade ao papel higiênico, percepção da saída de gases e simetria da sensação de sentar. Todas são feitas antes de qualquer conduta, e a resposta vai escrita no prontuário.
O idoso, em quem a lista de hipóteses é outra
Acima dos 65 ou 70 anos a mesma queixa muda de significado, e a mudança não é sutil. O protocolo do Ministério da Saúde inclui idade de início acima de 70 anos entre os sinais de alerta que, por si sós, indicam imagem quando o raio-X é normal ou inconclusivo. A razão é a mudança de prevalência: nessa faixa entram fratura por fragilidade, metástase, mieloma, estenose de canal sintomática e infecção, e sai grande parte da lombalgia mecânica pura de esforço.
Três informações da história valem, no idoso, mais do que qualquer manobra. História de câncer, em qualquer época, porque a metástase vertebral pode aparecer anos depois do tratamento e a dor lombar costuma ser o primeiro sinal. Uso crônico de corticoide, porque ele produz osteoporose e, ao mesmo tempo, apaga a febre da infecção. E perda de peso não intencional, que o paciente raramente conta espontaneamente e que a família confirma quando perguntada sobre a roupa e o cinto.
Há ainda o diagnóstico que mata e se apresenta como dor lombar do idoso: o aneurisma de aorta abdominal, roto ou em expansão. Dor lombar ou em flanco de início súbito e intenso, em homem acima de 60 anos, tabagista ou hipertenso, especialmente com hipotensão, síncope ou massa abdominal pulsátil, é aneurisma até prova em contrário, e essa prova não se faz com raio-X de coluna. A régua é simples e vale decorar: dor lombar que não se modifica com a posição nem com o movimento da coluna não é dor de coluna. O manejo é o do capítulo de aneurisma de aorta abdominal desta apostila, e o único papel do interno aqui é levantar a hipótese e acionar em minutos.
Na mesma família de dor lombar que não vem da coluna entram a cólica renal e a pielonefrite, com o quadro urinário e a punho-percussão positiva, e a lesão renal aguda de causa obstrutiva, que às vezes se manifesta como dor lombar surda com queda de diurese. O manejo dessas está nos capítulos de litíase urinária e cólica nefrética e de injúria renal aguda desta apostila; aqui elas entram como diferencial que se levanta pela história e se resolve com exame de urina, não com imagem de coluna.
Criança e adolescente: a idade que é bandeira por si só
Dor lombar persistente em criança ou adolescente não é lombalgia comum até que se prove o contrário. O protocolo do Ministério da Saúde coloca o início dos sintomas abaixo dos 20 anos entre os sinais de alerta que indicam ressonância ou tomografia, e o consenso brasileiro coloca idade abaixo de 20 anos na lista de suspeita de tumor ou infecção. Nessa faixa entram espondilólise e espondilolistese do jovem atleta, discite, osteomielite vertebral, tumores ósseos primários como o osteoma osteoide — cuja dor clássica é noturna e cede com anti-inflamatório —, e as deformidades. A régua se inverte: no adulto jovem a imagem se justifica pela exceção, na criança a ausência de imagem é que precisa ser justificada. A investigação e o manejo pertencem ao capítulo de ortopedia pediátrica desta apostila, e a tarefa aqui é não tratar a criança com a régua do adulto.
O paciente que chega com a ressonância já feita
É uma apresentação por si só, e cada vez mais comum: o paciente entra com o laudo na mão antes de qualquer conversa. Está escrito abaulamento discal difuso, protrusão posterior em L4-L5, desidratação discal, redução do espaço intervertebral, artrose facetária. Ele já leu, já buscou o significado das palavras e já chegou assustado. Muitas vezes já foi orientado a não carregar peso, não se abaixar, não fazer atividade física.
O laudo descreve uma coluna comum para a idade, e não está errado: o radiologista descreveu o que viu. O que falta nele é o denominador — as mesmas prevalências do bloco de epidemiologia —, e fornecer esse denominador é trabalho do médico que está ali. A conduta é fixa: refazer a história e o exame do zero, sem olhar o laudo primeiro, e só depois conferir se o que a imagem mostra corresponde ao território que o exame encontrou. Achado que não corresponde ao quadro é achado incidental e se escreve assim no prontuário, com todas as letras.
Como fechar o diagnóstico
Na lombalgia o erro do interno raramente é deixar de conhecer a doença. É pedir imagem para um paciente que não precisava, e deixar de pedir para o que precisava — e as duas coisas costumam acontecer no mesmo plantão, com o mesmo médico, por falta da mesma lista de perguntas.
O que segue não é uma sequência de exames. É uma sequência de perguntas, e cada exame só entra quando existe uma pergunta que ele responde e cuja resposta muda o que vai ser feito nas próximas semanas. Vale dizer isso na ordem inversa também: exame cuja resposta não muda nada não é investigação, é ruído com laudo.
A lista curta: a anamnese que rastreia bandeira vermelha
São nove perguntas, elas cabem em três minutos, e o interno as faz sempre na mesma ordem, para não pular nenhuma quando a consulta estiver apertada. Qual a idade e quando começou. Como começou: houve trauma, e de que tamanho. Onde dói e até onde desce. O que melhora e o que piora — em especial se a dor alivia deitado. Se acorda à noite e se obriga a levantar. Se houve febre, calafrio ou infecção recente. Se houve perda de peso sem intenção. Se já teve câncer, em qualquer época. E se está urinando e evacuando como antes, com as perguntas concretas sobre sensação de bexiga cheia, jato, escape e sensibilidade perineal.
A essas nove se somam três de contexto que mudam tratamento e não diagnóstico: que remédios já usou, em que dose e por quanto tempo; se usa corticoide, anticoagulante ou tem doença renal, hepática ou úlcera; e o que ele faz da vida, porque a dor lombar é a principal causa de afastamento do trabalho no país e a resposta orienta a orientação, o atestado e a necessidade de acionar saúde do trabalhador.
Uma pergunta a mais separa dois mundos e quase nunca é feita: o que o senhor acha que está causando isso, e o que o preocupa? A resposta costuma ser hérnia de disco, coluna gasta ou medo de ficar em cadeira de rodas. Sem saber disso, a explicação que vem depois é dada no vácuo e a recusa da imagem soa como economia. Sabendo, a conversa passa a ter endereço.
O exame físico que decide, e que leva cinco minutos
Com o paciente de pé e a região lombar descoberta: inspeção da pele — lesões vesiculosas em faixa de um dermátomo mudam o diagnóstico para herpes-zóster antes de qualquer outra coisa —, alinhamento, escoliose antálgica, cicatrizes. Marcha normal, na ponta dos pés e nos calcanhares: aqui já se testa S1 e L5 de uma vez, sem tirar a roupa e sem martelo. Flexão e extensão do tronco: a dor que piora à flexão fala de disco; a que piora à extensão e melhora ao sentar fala de canal estreito e faceta.
Com o paciente sentado: reflexos patelar e aquileu comparados lado a lado; força de extensão do joelho, dorsiflexão do pé e do hálux, flexão plantar, graduadas de 0 a 5 e escritas no prontuário com o número — porque o valor de uma medida de força está inteiro na comparação com a próxima consulta, e adjetivo não se compara. Sensibilidade tátil nas três faixas de L4, L5 e S1, comparando os dois lados.
Com o paciente deitado: palpação da musculatura paravertebral e percussão dos processos espinhosos, que é o gesto que acha fratura e espondilodiscite e que quase ninguém faz; elevação da perna estendida dos dois lados, anotando o ângulo em que a dor irradiada aparece; sinal do arco de corda quando a elevação for positiva; palpação abdominal à procura de massa pulsátil no paciente acima de 60 anos; e palpação dos pulsos periféricos, que separa claudicação vascular de neurogênica em trinta segundos.
O toque retal e a avaliação da sensibilidade perineal não são rotina de lombalgia — são obrigatórios quando há qualquer suspeita de síndrome da cauda equina: alteração de esfíncter, dormência em sela, déficit motor bilateral ou ciática bilateral nova. Nesse cenário se avalia o tônus do esfíncter anal, a contração voluntária e a sensibilidade das regiões perianal e perineal, com acompanhante presente e com a explicação do porquê dita antes. Deixar de fazer o toque nesse contexto e escrever no prontuário que o paciente foi orientado a retornar se piorar é a sequência que produz a bexiga neurogênica definitiva.
Um último item, e ele não é do exame físico: verifique se o paciente consegue mostrar como pegou o peso, como dorme e como senta no trabalho. Isso não é gentileza — é a única forma de a orientação seguinte ser específica em vez de genérica.
Não pedir imagem é a conduta, e ela se faz de propósito
A recomendação é explícita e vale a citação literal: não ofereça imagem de rotina em ambiente não especializado para pessoas com dor lombar, com ou sem ciática. É a recomendação 1.1.4 da diretriz do NICE, mantida na revisão de 2020, e ela vem acompanhada de duas outras que completam o raciocínio: explique ao paciente que, mesmo se ele for encaminhado para avaliação especializada, pode ser que ele não precise de imagem; e, no serviço especializado, considere imagem apenas se o resultado tiver probabilidade de mudar o manejo.
Do lado brasileiro, a régua é a mesma dita com outras palavras. O consenso de lombalgias e lombociatalgias afirma que a caracterização etiológica da síndrome dolorosa lombar é um processo eminentemente clínico, no qual os exames complementares devem ser solicitados apenas para confirmação da hipótese diagnóstica, e coloca a tomografia e a ressonância nas lombalgias e ciatalgias de evolução atípica e naquelas cuja causa não foi determinada após seis semanas de tratamento clínico. O Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Dor Crônica diz o mesmo do outro lado: muitas alterações imagenológicas não têm relação direta com o mecanismo da dor, e os exames devem ser indicados de acordo com critérios clínicos.
O custo de pedir não é o custo do exame, e é aqui que o argumento fica convincente para quem ainda acha que pedir é sempre mais seguro. Primeiro custo: o achado que vai aparecer é altamente provável em quem não tem dor nenhuma — 68% de degeneração discal e 33% de protrusão aos 40 anos —, então o exame quase sempre devolve um nome, e o nome não é a causa. Segundo custo: esse nome muda o comportamento do paciente. Quem sai da consulta com um laudo de hérnia deixa de se mexer, deixa de trabalhar, passa a se ver como portador de uma coluna quebrada, e o desuso e o medo pioram a dor por conta própria. Terceiro custo: o laudo muda o comportamento do médico. A partir dele, cada consulta seguinte é sobre a imagem e não sobre o paciente, e a fila da neurocirurgia ganha mais um encaminhamento que não muda desfecho. Quarto custo: no caso da tomografia, radiação numa região que inclui gônadas e medula óssea, por uma pergunta que não foi feita. Quinto custo: a fila. A ressonância que este paciente não precisava é a que a dona Neusa vai esperar.
E há o custo que não aparece em nenhuma lista: a imagem substitui o exame físico. O médico que pediu a ressonância na primeira consulta não graduou a força, não anotou o ângulo da elevação da perna e não perguntou sobre esfíncter — e é justamente esse exame que teria pegado a cauda equina, que a ressonância pedida por outro motivo pode até mostrar, mas só depois de dias na fila.
Quando a imagem entra: o que cada exame responde
O protocolo de encaminhamento do Ministério da Saúde é o documento mais operacional que existe sobre isso na rede brasileira, porque lista as situações em que se pede ressonância ou tomografia se o raio-X for normal ou inconclusivo. São elas: sintomas que começaram em paciente com mais de 70 anos ou menos de 20; história prévia ou suspeita de câncer; imunossupressão, incluindo HIV e uso crônico de corticoide ou outros imunossupressores; sinais ou sintomas sistêmicos, como perda de peso involuntária e febre; dor de característica não mecânica, sem relação com atividade e repouso, ou predominantemente noturna; diagnóstico prévio de osteoporose; e dor lombar com duração maior que oito semanas sem resposta ao tratamento clínico otimizado. Essa é a lista, e ela é curta de propósito.
A radiografia simples de coluna lombar responde três perguntas e nenhuma além delas: há fratura ou colapso de corpo vertebral, há espondilolistese, há alteração grosseira de alinhamento. Ela não vê disco, não vê raiz, não vê medula e não exclui infecção nem tumor nas primeiras semanas, porque a lesão lítica precisa consumir uma fração significativa do osso para aparecer. É útil no idoso com suspeita de fratura por fragilidade, no trauma e como primeiro passo dentro da própria lista acima. Fora disso, uma radiografia normal não tranquiliza e uma radiografia com artrose confunde.
A tomografia computadorizada define bem osso: fratura, seu traço e sua estabilidade, lesão lítica ou blástica, e avalia canal, recessos laterais e forames com boa resolução espacial. É o exame de escolha quando a pergunta é óssea e quando a ressonância não está disponível a tempo. O preço é radiação, e por isso ela não é o exame de triagem de dor lombar.
A ressonância magnética é o exame que responde as perguntas de tecido mole: conteúdo do canal, cone medular e raízes da cauda equina, medula óssea vertebral, disco, e as coleções de infecção. É o exame da suspeita de cauda equina, de compressão medular, de espondilodiscite, de abscesso epidural e de metástase vertebral. É também o exame que se pede quando existe indicação cirúrgica em discussão — nunca antes dela. Fora dessas situações, ela é o exame que mais produz achado incidental na medicina, e é por isso que ela abre e fecha este capítulo.
A eletroneuromiografia não está indicada nas lombalgias agudas e crônicas nem nas lombociatalgias agudas, segundo o consenso brasileiro. Ela tem lugar no diagnóstico diferencial de outras doenças do sistema nervoso periférico que imitam quadro radicular — polineuropatia, mononeuropatia do fibular no paciente com pé caído sem dor lombar —, e não para confirmar uma hérnia que a clínica já disse qual é.
A densitometria óssea não é método de investigação inicial da dor lombar, e o achado de perda de massa óssea nela não significa que a osteoporose justifique a dor. Ela entra depois, quando já existe fratura por fragilidade ou deformidade vertebral no raio-X, para tratar a doença de base — e esse fio está nos capítulos de osteoporose: Osteoporose pós-menopausa, na apostila de Ginecologia, e Osteoporose e metabolismo ósseo, na apostila de Endocrinologia.
Laboratório: pouco, e com pergunta escrita
Não existe painel de sangue para lombalgia. Existem exames que respondem a bandeiras específicas, e eles se pedem quando a bandeira apareceu. Hemograma, velocidade de hemossedimentação e proteína C reativa entram quando a suspeita é de infecção, de neoplasia ou de doença inflamatória — a velocidade de hemossedimentação persistentemente elevada num paciente com dor lombar que não alivia deitado é achado que puxa a investigação inteira. Hemoculturas entram antes do antibiótico sempre que há febre com suspeita de espondilodiscite.
Cálcio, fosfatase alcalina, função renal e eletroforese de proteínas séricas entram na suspeita de mieloma e de metástase óssea; o Protocolo Clínico da Dor Crônica cita a eletroforese exatamente como exame que sugere condições inflamatórias, pela gamopatia policlonal, e neoplásicas, pelo pico monoclonal. Antígeno prostático específico entra no homem acima de 50 anos com dor lombar e suspeita de metástase. Exame de urina entra quando a hipótese é urinária, e não como rotina.
Função renal e hepática têm um segundo papel, que não é diagnóstico e sim de segurança: elas decidem se o anti-inflamatório pode ser prescrito e em que dose. Quem tem doença renal crônica, insuficiência cardíaca, cirrose, idade avançada ou uso de anticoagulante muda de esquema, e o ajuste está no capítulo de ajuste de dose na disfunção renal e hepática desta apostila, que deve ser consultado antes de assinar a receita, não depois.
A cauda equina não espera exame para virar prioridade
Diante da suspeita, três coisas acontecem em paralelo e não em sequência. A primeira é a avaliação da bexiga à beira do leito: mede-se o resíduo pós-miccional, por ultrassom de bexiga se houver, ou por sondagem de alívio se não houver. Volume residual alto em paciente com dor lombar e queixa sensitiva perineal é achado que muda o caso de categoria naquele minuto. A segunda é o exame perineal e o toque retal, com tônus, contração voluntária e sensibilidade. A terceira é acionar a referência de neurocirurgia ou ortopedia de coluna, com a ressonância pedida em caráter de urgência — e o acionamento acontece antes do resultado, não depois.
É preciso dizer com clareza o que não se faz. Não se agenda ressonância ambulatorial para a semana seguinte. Não se prescreve anti-inflamatório e retorno em sete dias. Não se aguarda a resolução espontânea porque a dor melhorou — e essa é a armadilha mais cruel do quadro: quando a raiz é comprimida a ponto de perder função, a dor irradiada pode diminuir. Perna que parou de doer e passou a dormir, com dificuldade nova para urinar, é piora disfarçada de melhora.
O protocolo do Ministério da Saúde lista, ao lado da suspeita de cauda equina, as outras condições que exigem encaminhamento para emergência na dor lombar: perda de força progressiva medida de maneira objetiva; dor intensa refratária ao tratamento clínico otimizado; diagnóstico de neoplasia acometendo a coluna vertebral; suspeita de infecção, especialmente em pessoas imunossuprimidas ou usuárias de drogas ilícitas endovenosas; e suspeita de fratura ou luxação associada a traumatismo recente. Essa é a porta da emergência, e ela tem seis chaves.
O que a rede entrega, e o que mandar junto no encaminhamento
Radiografia simples existe em praticamente qualquer unidade com apoio diagnóstico, e exames laboratoriais básicos também. Tomografia costuma existir no hospital de referência da região. Ressonância é o recurso escasso: em boa parte do país ela é regulada, tem fila de meses e é o exame que a suspeita de cauda equina, de compressão medular e de espondilodiscite precisa ter hoje. Essas duas frases juntas formam o argumento mais convincente que existe contra o pedido de rotina, e ele não é econômico, é clínico: a ressonância pedida sem indicação é a ressonância que falta para quem tem indicação.
Quando o encaminhamento é necessário, ele precisa carregar informação suficiente para ser regulado com prioridade correta. O protocolo do Ministério da Saúde define o conteúdo descritivo mínimo, e vale seguir item por item: características da dor, presença ou não de ciatalgia ou de claudicação neurogênica, tempo de início e duração, fatores desencadeantes e de alívio; presença de alterações no exame neurológico, descritas; outros sinais e sintomas relevantes, incluindo sintomas constitucionais; tratamento em uso ou já realizado, com o tipo e a duração do não farmacológico e a dose, a posologia e a resposta dos medicamentos; resultado de exame de imagem com data, se realizado; presença de imunossupressão e qual; motivo da suspeita de neoplasia, se houver; osteoporose prévia e como foi diagnosticada; associação com atividade laboral e qual; e o número da teleconsultoria, se o caso foi discutido com o Telessaúde.
O detalhe que mais muda a vida do paciente nessa lista é o item do tratamento já realizado. Encaminhamento que não descreve qual medicamento foi usado, em que dose e por quanto tempo volta da regulação, ou é classificado como baixa prioridade — e o paciente, que já esperou seis semanas, volta para o fim da fila.
O diferencial, que mora dentro da investigação
Separar as causas de dor lombar não é exercício de memória: é a mesma pergunta clínica vista pelo que muda a conduta, e ela se responde inteira pela história e pelo exame, sem imagem nenhuma. Mecânica, radicular, claudicação neurogênica, não mecânica e não vertebral são os cinco padrões, e a tabela do bloco seguinte organiza cada um com o que o denuncia e para onde ele vai — é a página deste capítulo para levar impressa no bolso do jaleco.
As três velocidades da dor lombar
Toda dor lombar sai da consulta em uma de três velocidades: emergência hoje, investigação em dias, ou tratamento sem imagem com retorno marcado. A maioria absoluta sai na terceira, e é justamente por isso que a primeira precisa de uma lista escrita — o que se faz muitas vezes seguidas deixa de ser conferido. O fluxo abaixo é a ordem em que essa velocidade se decide, e não a ordem em que o diagnóstico se fecha: na lombalgia comum o diagnóstico não fecha, e a decisão sai mesmo assim.
Como usar quadros e notas de fontes anteriores. Notas que transcrevem doses, prazos ou exigências de documentos antigos registram o conteúdo dessas fontes; não substituem a conduta clínica atualizada e individualizada neste capítulo. Separar indicação, dose, contraindicações, monitorização e acesso. Se houver divergência entre o documento histórico e a recomendação atual, discutir o protocolo vigente com a equipe antes de executar.
- 1Idade, tempo de dor e como começou. Início abaixo dos 20 ou acima dos 70 anos, e trauma de qualquer tamanho em quem tem osteoporose ou usa corticoide, já mudam a régua antes de qualquer exame.
- 2Padrão da dor: melhora deitado ou não. Dor que não alivia com repouso, que piora à noite e que obriga a levantar sai da categoria mecânica e entra na de investigar.
- 3A lista de bandeiras vermelhas, perguntada sempre na mesma ordem: câncer prévio, perda de peso, febre ou infecção recente, imunossupressão, trauma, e a sequência concreta de perguntas sobre urina, fezes e sensibilidade perineal.
- 4Se há suspeita de síndrome da cauda equina, déficit motor progressivo, dor refratária ao tratamento otimizado, neoplasia acometendo a coluna, suspeita de infecção ou fratura por traumatismo recente: emergência hoje. Ressonância de urgência e neurocirurgia ou ortopedia de coluna acionadas antes do resultado.
- 5Exame neurológico dirigido, com força graduada de 0 a 5 e escrita, sensibilidade nas faixas de L4, L5 e S1, reflexos patelar e aquileu comparados, marcha na ponta e no calcanhar, e elevação da perna estendida com o ângulo anotado.
- 6Se não há critério de emergência mas existe qualquer sinal de alerta da tabela abaixo: investigação em dias. Radiografia primeiro quando a pergunta é óssea; ressonância ou tomografia se o raio-X for normal ou inconclusivo, conforme a lista do protocolo do Ministério da Saúde.
- 7Se não há sinal de alerta nenhum e o exame neurológico é normal: sem imagem. Tratamento medicamentoso escrito com prazo, orientação de manter atividade, explicação do prognóstico e retorno marcado — a data no papel, não o aviso de voltar se piorar.
- 8Reavalie no prazo combinado, e reavalie a decisão, não só a dor: bandeira vermelha pode aparecer depois. O paciente que voltou pior é um paciente novo, e a lista se refaz inteira.
Hoje — a janela é de horas
Síndrome da cauda equina, compressão de cone medular, déficit motor progressivo, suspeita de infecção com febre em imunossuprimido, fratura instável. Ressonância de urgência, referência acionada antes do laudo, e o resíduo pós-miccional medido ainda na unidade. Nesta faixa o atraso não custa dor: custa função de bexiga, de intestino e sexual, e o que se perde não volta inteiro.
Dias — investigar com pergunta escrita
Idade acima de 70 ou abaixo de 20 anos, câncer prévio ou suspeito, imunossupressão, perda de peso ou febre, dor não mecânica ou noturna, osteoporose diagnosticada, e dor com mais de oito semanas sem resposta ao tratamento otimizado. Radiografia primeiro; ressonância ou tomografia se ela for normal ou inconclusiva. O pedido sai com a hipótese escrita, nunca com a queixa copiada da triagem.
Semanas — sem imagem, com retorno marcado
Exame neurológico normal e nenhuma bandeira vermelha, com ou sem ciática. Anti-inflamatório com dose e prazo, analgésico de resgate, manter atividade, explicação do prognóstico e retorno agendado. A imagem não entra agora nem entra por insistência: entra se aparecer bandeira, se o déficit progredir, ou se as oito semanas passarem sem resposta ao tratamento feito de verdade.
Bandeiras vermelhas — o que levanta cada uma, o que fazer e em que prazo
| Bandeira | O que a levanta | O que fazer, e em que prazo |
|---|---|---|
| Síndrome da cauda equina ou compressão de cone medular | Alteração de esfíncter vesical ou anal, anestesia em sela, perda de força e de sensibilidade nos membros inferiores, ciática bilateral nova; perna que parou de doer e passou a dormir | Emergência hoje: resíduo pós-miccional, toque retal e sensibilidade perineal, ressonância de urgência e neurocirurgia ou ortopedia de coluna acionadas antes do laudo |
| Déficit motor progressivo | Força que caiu entre uma avaliação e outra, medida de maneira objetiva e graduada de 0 a 5; pé caído novo, dificuldade nova para subir escada | Emergência hoje, conforme o protocolo do Ministério da Saúde. Intensidade da dor não substitui a medida de força |
| Infecção — espondilodiscite, abscesso epidural | Febre, calafrio, infecção bacteriana recente, procedimento recente na coluna, uso de droga injetável, imunossupressão; dor contínua que não respeita repouso, com dor à percussão dos processos espinhosos | Emergência hoje se imunossuprimido ou com febre: hemoculturas antes do antibiótico, hemograma, velocidade de hemossedimentação, proteína C reativa e ressonância |
| Fratura vertebral | Trauma de alta energia em qualquer idade; trauma trivial em idoso, em osteoporose conhecida ou em uso crônico de corticoide; dor súbita, datável e focal à percussão | Emergência se houver trauma recente com suspeita de instabilidade ou déficit; nos demais, radiografia em dias. A osteoporose de base é tratada no capítulo próprio |
| Neoplasia — metástase vertebral, mieloma | História de câncer em qualquer época, idade acima de 50 anos com dor nova, perda de peso involuntária, dor noturna que não alivia deitado, dor progressiva por mais de quatro a seis semanas | Emergência hoje se já há diagnóstico de neoplasia acometendo a coluna ou déficit neurológico; nos demais, ressonância em dias, com hemograma, cálcio, fosfatase alcalina e eletroforese de proteínas |
| Dor inflamatória — espondiloartrite axial | Dor lombar crônica com início antes dos 40 anos, insidiosa, com rigidez matinal, que melhora com exercício, não melhora com repouso e acorda na segunda metade da noite: pelo menos quatro desses cinco | Encaminhamento para reumatologia; não é caso de ortopedia nem de serviço de dor. O atraso aqui é medido em anos |
| Dor intensa refratária ao tratamento clínico otimizado | Dor que não cede a esquema adequado, tomado na dose certa e pelo tempo certo — conferir antes se o esquema foi de fato usado assim | Emergência, conforme o protocolo do Ministério da Saúde. Refratariedade é motivo para reabrir a hipótese, não para subir o degrau do analgésico às cegas |
| Idade de início abaixo de 20 ou acima de 70 anos | Dor lombar persistente nessas faixas, mesmo sem outro sinal | Investigação em dias. Na criança e no adolescente a régua se inverte, e o assunto é do capítulo de ortopedia pediátrica |
| Dor que não muda com a posição nem com o movimento da coluna | Dor lombar ou em flanco que não se modifica ao deitar, sentar ou flexionar; massa abdominal pulsátil, hipotensão, síncope, sintomas urinários, febre com punho-percussão positiva | A dor não é de coluna: aneurisma de aorta abdominal, cólica renal, pielonefrite, pancreatite e causas ginecológicas, cada uma com o capítulo próprio desta apostila |
As três raízes que respondem por quase toda ciática
| Raiz | Onde dói e formiga | O que fraqueja, e como testar | Reflexo |
|---|---|---|---|
| L4 | Face anterior da coxa, face medial da perna, face medial do tornozelo | Extensão do joelho — levantar da cadeira sem apoio, agachar e voltar | Patelar diminuído ou ausente |
| L5 | Face lateral da coxa e da perna, dorso do pé, hálux | Dorsiflexão do pé e do hálux — andar sobre os calcanhares; hálux contra resistência | Sem reflexo próprio para conferir |
| S1 | Face posterior da coxa e da perna, borda lateral do pé, quinto dedo | Flexão plantar — andar na ponta dos pés, ou dez elevações sobre um pé só | Aquileu diminuído ou ausente |
| Raízes sacrais baixas (S2 a S4) | Região perineal, perianal e face interna das nádegas — o território da sela | Esfíncter anal e detrusor — tônus e contração voluntária ao toque, resíduo pós-miccional | Não se avalia por reflexo na consulta: avalia-se por pergunta dirigida e exame |
Cinco padrões de dor lombar e para onde cada um vai
| Padrão | Como se reconhece | Para onde vai |
|---|---|---|
| Mecânica inespecífica | Piora com movimento e com carga, melhora deitado; sem irradiação além da coxa; exame neurológico normal | Tratamento sem imagem, manter atividade, retorno marcado. É a maioria absoluta |
| Radicular — ciática | Dor que segue trajeto de raiz e passa do joelho, com dormência no território; elevação da perna estendida positiva | Tratamento conservador enquanto não houver déficit progressivo; encaminhar se não melhorar em seis semanas de tratamento otimizado |
| Claudicação neurogênica — canal estreito | Dor e peso nas pernas ao caminhar, que melhoram ao sentar ou inclinar o tronco; piora descendo ladeira e melhora subindo; pulsos presentes | Encaminhamento para ortopedia ou neurocirurgia, conforme o protocolo do Ministério da Saúde |
| Não mecânica — infecciosa, neoplásica | Não alivia deitado, piora à noite, progressiva; febre, perda de peso, câncer prévio, imunossupressão | Investigação com imagem e laboratório; emergência se houver déficit, febre em imunossuprimido ou neoplasia já conhecida na coluna |
| Não vertebral | Não muda com a posição nem com o movimento da coluna; sinais abdominais, urinários, vasculares ou lesão de pele em faixa | Aneurisma de aorta abdominal, cólica renal, pielonefrite, pancreatite, causa ginecológica, herpes-zóster — cada um com sua via |
O que não se pede e o que não se prescreve — e o que se faz no lugar
| Conduta reflexa | Por que ela sai | O que entra no lugar |
|---|---|---|
| Ressonância ou tomografia na primeira consulta sem bandeira vermelha | Recomendação 1.1.4 do NICE, mantida em 2020: não oferecer imagem de rotina fora do serviço especializado. Dois em cada três adultos de 40 anos sem dor já têm degeneração discal | Exame neurológico dirigido, escrito, e retorno marcado. A imagem entra quando existe pergunta cuja resposta muda o manejo |
| Radiografia de coluna de rotina | Não vê disco, não vê raiz, não exclui infecção nem tumor nas primeiras semanas; e artrose no laudo confunde mais do que informa | Radiografia apenas quando a pergunta é óssea: suspeita de fratura, espondilolistese, alteração de alinhamento |
| Eletroneuromiografia na lombalgia ou na lombociatalgia aguda | Não está indicada nessas situações, segundo o consenso brasileiro de lombalgias | Reservada ao diferencial com outras doenças do nervo periférico que imitam quadro radicular |
| Repouso no leito | A inatividade tem ação deletéria sobre o aparelho locomotor; orientar retorno rápido às atividades habituais resulta em retorno mais rápido ao trabalho, menor limitação funcional a longo prazo e menor taxa de recorrência | Manter atividade dentro do tolerado, com a orientação escrita e explicada; retorno ao trabalho promovido ativamente (NICE 1.2.1 e 1.2.15) |
| Corticoide oral na ciática | Recomendação 1.2.16 do NICE, de 2020: não oferecer corticoide oral, gabapentinoides, outros antiepilépticos nem benzodiazepínicos na ciática, por falta de benefício e evidência de dano | Anti-inflamatório não esteroide na menor dose eficaz e pelo menor tempo, com consciência do benefício limitado na ciática |
| Relaxante muscular de rotina | O Protocolo Clínico da Dor Crônica registra que a evidência é incerta e limitada, com redução de dor clinicamente insignificante, e não recomenda o uso; nenhum relaxante muscular consta entre os fármacos que o Protocolo lista como disponíveis no SUS para essa finalidade | Anti-inflamatório com prazo, calor local, movimento precoce e explicação. Se for usado em contração muscular importante, por poucos dias, à noite, nunca em idoso e nunca em quem dirige |
| Opioide como primeira escolha na crise | Recomendação 1.2.25 do NICE: opioide fraco apenas se o anti-inflamatório for contraindicado, não tolerado ou ineficaz; 1.2.27, não oferecer opioide de rotina na lombalgia aguda; 1.2.28, não oferecer na lombalgia crônica | Anti-inflamatório em dose plena com horário fixo por poucos dias, mais analgésico simples de resgate |
| Antidepressivo ou gabapentinoide para dor lombar | Recomendações 1.2.29 e 1.2.30 do NICE: não oferecer inibidores de recaptação de serotonina, duais nem tricíclicos, nem gabapentinoides ou antiepilépticos para dor lombar | Reservados a quadros com componente neuropático definido ou a outras indicações, fora do escopo da lombalgia comum |
| Injeção espinhal para dor lombar | Recomendação 1.3.1 do NICE: não oferecer injeções espinhais para dor lombar. A epidural com anestésico e corticoide é considerada apenas na ciática aguda e grave (1.3.5) | Tratamento conservador estruturado, com exercício, e encaminhamento no prazo quando ele falha |
| Tração, colete, palmilha, ultrassom, TENS e acupuntura | Recomendações 1.2.3 a 1.2.12 do NICE: não oferecer nenhum deles para dor lombar com ou sem ciática | Programa de exercício em grupo, terapia manual apenas dentro de um pacote com exercício, e abordagem cognitivo-comportamental quando houver obstáculo psicossocial |
Prazos e destinos de encaminhamento — protocolo do Ministério da Saúde
| Situação | Destino | Critério ou prazo |
|---|---|---|
| Suspeita de cauda equina ou cone medular, déficit progressivo, dor refratária, neoplasia na coluna, suspeita de infecção, fratura ou luxação por trauma recente | Emergência | Hoje, sem agendar |
| Síndrome radicular | Ortopedia ou neurocirurgia | Sem melhora clínica após 6 semanas de tratamento clínico otimizado |
| Estenose de canal lombar diagnosticada ou suspeita clínica de claudicação neurogênica | Ortopedia ou neurocirurgia | Ao diagnóstico ou à suspeita clínica |
| Lombalgia mecânica com diagnóstico de espondilolistese | Ortopedia ou neurocirurgia | Ao diagnóstico |
| Dor lombar com sinal de alerta, sem indicação de avaliação emergencial, quando não há como solicitar ressonância ou tomografia na atenção primária | Ortopedia ou neurocirurgia | Assim que a limitação do serviço for reconhecida — o encaminhamento substitui o exame indisponível |
| Dor lombar crônica de característica inflamatória, com mais de 3 meses | Reumatologia | Ao reconhecimento do padrão |
| Dor lombar crônica inespecífica sem melhora após tratamento clínico otimizado | Serviço especializado em dor — fisiatria, acupuntura, equipe de dor ou a referência disponível; ortopedia ou neurocirurgia se esse serviço não existir | 6 meses |
| Dor lombar crônica com suspeita de associação com o trabalho | Medicina do Trabalho ou Saúde do Trabalhador | Mais de 3 meses de dor com suspeita de nexo |
Tratamento clínico otimizado, no protocolo do Ministério da Saúde, tem definição escrita e ela é o que sustenta todos os prazos desta página: tratamento medicamentoso, exercícios e acompanhamento fisioterápico, adaptados às condições do paciente. Encaminhamento por seis semanas de dor sem que nada disso tenha sido feito não é encaminhamento por falha de tratamento — é encaminhamento por ausência dele, e volta da regulação.
A lista de bandeiras vermelhas é para ser perguntada inteira, sempre, e não para ser lembrada quando o caso parecer estranho. A dor lombar é a queixa em que a familiaridade produz a falha: quem já viu trezentas lombalgias mecânicas para de perguntar sobre urina exatamente antes de encontrar a primeira cauda equina.
A dose da dipirona em solução oral se mede em gotas, não em mililitros, e a diferença entre as duas unidades é de vinte vezes. A Rename 2024 registra a solução oral de dipirona em 500 mg/mL: uma tomada de 20 mL dessa apresentação são 10 g, e quatro tomadas dessas somam 40 g num dia, dez vezes o teto de 4 g. Vinte gotas equivalem a 1 mL, ou 500 mg. Confira a unidade antes de transcrever qualquer posologia em volume.
Achado de imagem que não corresponde ao território encontrado no exame deve ser registrado no prontuário como achado incidental, com essas palavras. A frase escrita hoje é o que impede a repetição da investigação daqui a seis meses, quando outro médico abrir o mesmo laudo sem o exame que o contextualizava.
A conduta, hora a hora
A linha do tempo abaixo é a do paciente com dor lombar aguda, com ou sem ciática, sem bandeira vermelha — que é a esmagadora maioria. O paciente com suspeita de cauda equina não tem linha do tempo: ele tem o último marco desta lista, e ele vale a partir do minuto em que a suspeita nasce.
As doses citadas são as dos esquemas terapêuticos do Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Dor Crônica do Ministério da Saúde, com as apresentações confirmadas na Rename 2024, e a escolha entre as classes segue as recomendações da diretriz NG59 do NICE, que é o documento mais específico disponível sobre lombalgia e ciática. Confira função renal, função hepática, história de úlcera, uso de anticoagulante e alergia antes de prescrever anti-inflamatório; o ajuste está no capítulo de ajuste de dose na disfunção renal e hepática desta apostila.
Individualizar a analgesia e não perder a urgência. AINE exige avaliação renal, gastrointestinal, cardiovascular, de anticoagulantes e de gestação; usar a menor dose eficaz pelo menor tempo e reavaliar, sem fixar 600 mg de ibuprofeno como ponto de partida para todos. Gastroproteção não elimina nefrotoxicidade. Na ciática, o benefício de AINE é limitado e riscos permanecem; não oferecer gabapentinoide, benzodiazepínico ou corticoide oral rotineiro. Na suspeita de cauda equina, resíduo vesical baixo ou tônus retal preservado não dispensam RM urgente. Dor incontrolável e perda funcional importante também podem justificar referência antes de seis semanas.
Minuto 0 a 5 — a triagem que decide a velocidade
Avaliar primeiro sinais vitais e sinais de ameaça: déficit motor progressivo, disfunção esfincteriana, alteração perineal, trauma, infecção, câncer ou causa vascular. Fazer história e exame dirigidos, sem exigir uma lista completa antes de acionar uma emergência. Bandeiras vermelhas modificam probabilidade, mas nenhuma lista substitui o contexto. Perguntar concretamente sobre iniciar a micção, sensação de enchimento vesical e sensibilidade ao se limpar; não esperar incontinência estabelecida.
Prescrição- Aferir temperatura em todo paciente com dor lombar nova — febre muda a categoria e é o dado que mais se deixa de medir no consultório
- Perguntar, com estas palavras: está sentindo vontade de urinar como antes; consegue começar a urinar na hora que quer; escapa urina sem perceber; sente o papel higiênico quando se limpa; sente quando saem gases
- Registrar no prontuário a lista de bandeiras perguntadas e negadas, uma a uma — a negativa escrita é o que permite comparar na próxima consulta
Minuto 5 a 10 — o exame que decide, com número no papel
Exame neurológico dirigido em cinco minutos, com o paciente despido da cintura para baixo o suficiente para inspecionar a pele. A força é graduada de 0 a 5 e escrita com o número: adjetivo não se compara entre consultas, e a comparação é o único jeito de detectar déficit progressivo. Percussão dos processos espinhosos, palpação abdominal à procura de massa pulsátil acima dos 60 anos e palpação dos pulsos dos pés completam.
Prescrição- Marcha normal, na ponta dos pés (S1) e nos calcanhares (L5)
- Força graduada de 0 a 5: extensão do joelho (L4), dorsiflexão do pé e do hálux (L5), flexão plantar (S1) — anotada com o número
- Sensibilidade tátil comparada nas faixas de L4, L5 e S1; reflexos patelar e aquileu comparados lado a lado
- Elevação da perna estendida bilateral, com o ângulo em que a dor irradiada aparece anotado; sinal do arco de corda se positiva
- Exame perineal e avaliação esfincteriana quando indicados e consentidos; tônus retal normal não exclui cauda equina e o exame não deve atrasar RM e referência
Minuto 10 — a decisão de imagem, tomada em voz alta
Com a lista e o exame na mão, a decisão de imagem é explícita e tem justificativa escrita no prontuário. Sem bandeira vermelha e com exame neurológico normal, a decisão é não pedir, e isso é conduta — não é economia nem omissão. Com bandeira, a decisão é pedir o exame que responde àquela bandeira, com a hipótese escrita no pedido. O que não existe é pedir para ver o que aparece.
Prescrição- Sem bandeira: nenhuma imagem. Registrar no prontuário 'exame neurológico normal, sem sinais de alerta, sem indicação de imagem nesta consulta' e a data do retorno
- Com bandeira sem critério de emergência: radiografia de coluna lombar em duas incidências quando a pergunta é óssea; ressonância ou tomografia se ela for normal ou inconclusiva
- Com critério de emergência: ressonância de urgência e referência acionada antes do laudo
- Todo pedido de imagem sai com a hipótese diagnóstica escrita — não com a queixa copiada da triagem
Hora 0 — a prescrição da crise, escrita por extenso
O anti-inflamatório é a base, na menor dose eficaz e pelo menor tempo possível, com horário fixo nos primeiros dias e não conforme a dor — a analgesia sob demanda deixa o paciente encontrar a dor várias vezes ao dia e é o que o faz parar de se mexer. O analgésico simples entra como resgate. O paracetamol isolado não é a escolha, por recomendação expressa da diretriz do NICE. O opioide fraco só entra se o anti-inflamatório for contraindicado, não tolerado ou ineficaz, e nunca como primeira linha.
Prescrição- Ibuprofeno 600 mg por via oral de 8 em 8 horas, após alimento, por 5 a 7 dias — 1.800 mg ao dia, dentro do teto de 3.200 mg/dia do Protocolo Clínico da Dor Crônica. Alternativa com a mesma dose diária: 2 comprimidos de 300 mg de 8 em 8 horas
- Dipirona 500 mg a 1 g por via oral de 6 em 6 horas se dor, sem ultrapassar 4 g ao dia — 1 a 2 comprimidos de 500 mg até 4 vezes ao dia (Protocolo Clínico da Dor Crônica). Em solução oral, a apresentação da Rename 2024 é de 500 mg/mL e a dose se mede em gotas: 20 gotas equivalem a 1 mL, ou 500 mg
- Omeprazol 20 mg por via oral em jejum enquanto durar o anti-inflamatório, desde o início quando o risco gastrointestinal justificar, especialmente em pessoa com história prévia de evento gastrointestinal, ou em idoso, em usuário de corticoide, de ácido acetilsalicílico ou de anticoagulante (Protocolo Clínico da Dor Crônica; NICE 1.2.23)
- Se o anti-inflamatório for contraindicado, não tolerado ou ineficaz — e só nesse caso (NICE 1.2.25): fosfato de codeína 30 mg por via oral de 6 em 6 horas por até 3 dias, associado a analgésico simples, com orientação sobre sonolência, constipação e proibição de dirigir. Nunca para dor lombar crônica (NICE 1.2.28)
- Se for usado paracetamol em associação, teto absoluto de 4 g ao dia somando todas as apresentações: 2 comprimidos de 500 mg quatro vezes ao dia já são exatamente 4 g, e acrescentar a esse esquema um comprimido combinado de paracetamol com codeína estoura o teto sem que ninguém perceba
- Calor local por 20 minutos, duas a três vezes ao dia, nos primeiros dias
- Não prescrever: corticoide oral, relaxante muscular de rotina, benzodiazepínico, gabapentinoide ou antidepressivo para dor lombar (NICE 1.2.16, 1.2.29 e 1.2.30; Protocolo Clínico da Dor Crônica). Naproxeno, na rede pública, é componente especializado e está preconizado apenas para osteoartrite de joelho e de quadril; o diclofenaco oral não foi incorporado ao SUS para dor crônica musculoesquelética
Hora 0 — a orientação, que é tratamento e não conselho
Essa parte da consulta tem efeito maior que a receita e leva menos tempo do que preencher um pedido de ressonância. São quatro conteúdos: o que é a dor, o que se espera dela, o que fazer com o corpo e o que traz de volta. Entregue por escrito, e peça ao paciente que repita com as próprias palavras — orientação dada sem verificação não é orientação.
Prescrição- Manter atividade dentro do tolerado; nada de repouso no leito. Caminhar todos os dias, mesmo que pouco e devagar (NICE 1.2.1)
- Retorno ao trabalho promovido ativamente, com adaptação de tarefa se for possível, em vez de afastamento prolongado (NICE 1.2.15). Atestado, quando necessário, pelo menor tempo que resolva
- Explicar em uma frase o prognóstico: a expectativa é de melhora em dias a poucas semanas, e dor forte não significa lesão grave
- Entregar por escrito os sinais que trazem de volta no mesmo dia: perda de força na perna, dificuldade nova para urinar, escape de urina ou fezes, dormência para sentar, febre
- Retorno agendado com data — em 7 a 10 dias na lombalgia sem irradiação, e mais cedo na ciática
Dia 3 a 7 — o primeiro contato de segurança
Um contato curto, presencial ou por telefone, com três perguntas: a dor caiu, a força continua igual, e alguma daquelas cinco coisas apareceu. Esse contato não é para ajustar analgesia — é para pegar a bandeira que nasceu depois da primeira consulta, que é justamente a que o paciente não vai reconhecer sozinho.
Prescrição- Conferir se o esquema foi tomado como prescrito — horário fixo, dose certa, com alimento. Verificar uso real, efeitos adversos, barreiras, diagnóstico e aparecimento de sinais novos sem atribuir automaticamente a persistência à adesão
- Repetir a pergunta sobre urina, com as mesmas palavras concretas
- Repetir a graduação de força se havia ciática, e comparar com o número anotado na consulta anterior
Semana 2 a 6 — o tratamento otimizado, que é o que os prazos exigem
Todos os prazos de encaminhamento do protocolo do Ministério da Saúde dependem da expressão tratamento clínico otimizado, e ela tem definição escrita: tratamento medicamentoso, exercícios e acompanhamento fisioterápico, adaptados às condições do paciente. Sem as três pernas, o prazo não conta e o encaminhamento volta. Esta é a fase em que o exercício entra e o anti-inflamatório sai.
Prescrição- Encaminhar para programa de exercício, preferencialmente em grupo, adaptado às preferências e capacidades do paciente (NICE 1.2.2)
- Suspender o anti-inflamatório assim que a crise ceder; ele é medicamento de dias, não de manutenção
- Terapia manual apenas dentro de um pacote que inclua exercício, nunca isolada (NICE 1.2.7)
- Registrar no prontuário o que foi feito, com dose, duração e resposta — é esse registro que vai preencher o conteúdo descritivo mínimo do encaminhamento, se ele vier a ser necessário
- Avaliar obstáculo psicossocial: medo de se mover, crença de coluna quebrada, insatisfação e conflito no trabalho, sintomas depressivos. Quando eles dominam o quadro, o programa combinado físico e psicológico é o que muda o desfecho (NICE 1.2.13 e 1.2.14)
Semana 6 — a bifurcação da ciática
Seis semanas é o prazo escrito: síndrome radicular sem melhora clínica após seis semanas de tratamento clínico otimizado é encaminhamento para ortopedia ou neurocirurgia, conforme o protocolo do Ministério da Saúde. Antes disso, e sem déficit progressivo, a conduta continua conservadora mesmo que a dor esteja forte e mesmo que o paciente tenha uma imagem com hérnia no laudo.
Prescrição- Encaminhamento com o conteúdo descritivo mínimo completo, incluindo a descrição do exame neurológico e a lista do que já foi tentado, com dose e duração
- Ressonância pedida quando existe discussão cirúrgica em curso — o exame que interessa ao cirurgião é o que ele vai usar para operar, e ele tem validade de meses, não de anos
- Epidural com anestésico local e corticoide pode ser considerada na ciática aguda e grave, em serviço que a realize (NICE 1.3.5). Injeção espinhal para dor lombar sem irradiação não se oferece (NICE 1.3.1)
Semana 8 — quando a imagem finalmente entra sem bandeira
Persistência da dor exige nova avaliação clínica e funcional. Não há obrigação universal de radiografar exatamente na oitava semana, nem de fazer radiografia antes de toda RM. Pedir imagem quando a hipótese e a decisão terapêutica a justificarem: suspeita óssea, infecção, neoplasia, déficit progressivo ou planejamento especializado. Na lombalgia inespecífica sem mudança clínica, imagem rotineira costuma não melhorar o cuidado. Registrar a pergunta que o exame deve responder.
Prescrição- Antes de pedir, confirmar que o tratamento foi de fato otimizado: medicamento na dose certa pelo tempo certo, exercício e fisioterapia. Oito semanas sem tratamento não são oito semanas de falha de tratamento
- Escolher imagem pela hipótese e pelo impacto na conduta; não impor radiografia como etapa obrigatória antes de RM indicada.
- Reexaminar antes de olhar o laudo, e conferir se o achado corresponde ao território do exame
Mês 3 a 6 — quando virou dor crônica
Acima de três meses a dor passa a ser crônica pela definição do Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Dor Crônica, e o alvo do tratamento muda: sai a busca da lesão, entra a recuperação de função. Repetir imagem nessa fase, sem sinal novo, encontra os mesmos achados de sempre e reinicia um ciclo que já não estava ajudando.
Prescrição- Encaminhamento para serviço especializado em dor após 6 meses de tratamento clínico otimizado sem melhora, ou para ortopedia e neurocirurgia se esse serviço não existir na região (protocolo do Ministério da Saúde)
- Encaminhamento para reumatologia se o padrão for inflamatório, e para Medicina do Trabalho ou Saúde do Trabalhador se houver suspeita de associação com a atividade laboral
- Não prescrever opioide para dor lombar crônica nem para ciática crônica (NICE 1.2.28 e 1.2.17). Se o paciente já usa, explicar os riscos de continuar e conduzir a retirada de forma compartilhada (NICE 1.2.18 e 1.2.19)
- Dor crônica e sofrimento psíquico caminham juntos: rastrear humor e risco, e conduzir pelos capítulos de transtorno depressivo maior e de risco de suicídio desta apostila quando o rastreio for positivo
A qualquer momento — a rota da cauda equina
Esta rota não espera consulta, não espera exame e não espera manhã seguinte. Ela se abre com qualquer um destes: alteração de esfíncter vesical ou anal, dormência em sela, déficit motor bilateral, ciática bilateral nova, ou perna que parou de doer e passou a dormir. Os desfechos de bexiga, intestino e função sexual um ano depois da cirurgia dependem do estado neurológico com que o paciente chega à mesa, e é isso que está sendo decidido agora.
Prescrição- Medir o resíduo pós-miccional — ultrassom de bexiga se houver, sondagem de alívio se não houver
- Exame perineal e toque retal com tônus, contração voluntária e sensibilidade, com acompanhante e com a explicação dita antes
- Ressonância de coluna lombossacra em caráter de urgência
- Acionar neurocirurgia ou ortopedia de coluna imediatamente, antes do resultado da imagem; em serviço sem essa referência, acionar a regulação e transferir
- Sonda vesical de demora se houver retenção, com o volume drenado anotado
- Não prescrever analgesia e retorno ambulatorial: a melhora da dor nesse cenário não é sinal de melhora
Como saber se está funcionando
Na lombalgia, o que substitui o exame de imagem é a reavaliação marcada. Ela funciona porque quase tudo o que precisa ser pego se declara pelo tempo: a bandeira vermelha que não estava lá na primeira consulta, o déficit que progride, a dor que deixou de ser mecânica. Um exame isolado descreve um instante; a decisão depende da direção, e direção precisa de dois pontos.
Há uma diferença de altitude entre este bloco e a maioria das reavaliações do internato. Aqui o desfecho que importa não é a dor: é a função. Paciente que continua com dor 5 mas voltou a trabalhar, a dormir e a caminhar está indo bem; paciente com dor 2 que parou de sair de casa por medo de piorar está indo mal, e o segundo é quem cronifica. Pergunte o que ele voltou a fazer, não só quanto dói.
Esperado: Retomada progressiva das atividades habituais: caminhar, dormir a noite inteira, subir escada, voltar ao trabalho com ou sem adaptação de tarefa
Se não melhora: Função que não volta apesar da dor em queda é sinal de medo do movimento, e ele cronifica mais do que a lesão. Pergunte o que ele deixou de fazer e por quê, desfaça a crença específica que apareceu na resposta, e prescreva a atividade com nome, quantidade e horário — caminhar quinze minutos duas vezes ao dia é prescrição; 'faça exercício' não é.
Esperado: Queda progressiva, com espaçamento espontâneo das doses de resgate e noites sem despertar por dor
Se não melhora: Antes de subir o degrau do analgésico, confira se o esquema foi tomado como prescrito — horário fixo, dose certa, com alimento. Falha de adesão explica a maior parte da dor que não cede e é banal, frequente e fácil de corrigir. Persistindo com o esquema correto, reabra a lista de bandeiras inteira antes de trocar o remédio.
Esperado: Estável ou em recuperação, com o mesmo grau ou melhor
Se não melhora: Queda de grau entre duas avaliações é déficit motor progressivo, e o protocolo do Ministério da Saúde o coloca entre as condições de encaminhamento para emergência. Não espere o retorno programado, não peça o exame para depois e não aumente a analgesia: encaminhe hoje. Pé caído novo, dificuldade nova para subir escada e queda são apresentações desse mesmo achado contadas em linguagem de paciente.
Esperado: Sensação de bexiga cheia preservada, jato normal, sem escape, sensibilidade perineal íntegra e percepção da saída de gases
Se não melhora: Qualquer alteração nova abre a rota da cauda equina naquele minuto: resíduo pós-miccional, exame perineal com toque retal, ressonância de urgência e referência acionada antes do laudo. Não aceite a resposta 'está normal' sem as perguntas específicas — o paciente que não sente mais a bexiga encher também não sente que perdeu isso.
Esperado: Continua piorando com movimento e melhorando com repouso, sem despertar noturno que obrigue a levantar
Se não melhora: Dor que deixou de aliviar deitado, que passou a acordar o paciente de madrugada ou que se tornou contínua e progressiva mudou de categoria: saiu de mecânica e entrou em não mecânica. Isso reabre neoplasia, infecção e doença inflamatória, e indica imagem e laboratório mesmo que a primeira consulta tenha sido impecável.
Esperado: Afebril e peso estável
Se não melhora: Febre nova com dor lombar é infecção até prova em contrário, e em imunossuprimido é emergência: hemoculturas antes do antibiótico e ressonância. Perda de peso confirmada pela família ou pela roupa, com dor que não alivia deitado, é investigação de neoplasia, e não mais um ciclo de anti-inflamatório.
Esperado: Esquema tomado como escrito, sem epigastralgia, sem edema, sem elevação da pressão e sem constipação quando houve opioide
Se não melhora: Dispepsia, melena, edema, piora da pressão ou queda de função renal mandam suspender o anti-inflamatório agora, não reduzir a dose. Some ao cálculo o que o paciente toma por conta própria: é comum ele estar usando outro anti-inflamatório comprado na farmácia, e a soma das duas fontes é o que produz o sangramento.
Esperado: Retorno com adaptação de tarefa quando possível, no menor tempo que resolva
Se não melhora: Afastamento que se prolonga sem justificativa clínica é fator de mau prognóstico por si só, e não neutro. Converse sobre a tarefa concreta, negocie adaptação, e acione Saúde do Trabalhador quando houver suspeita de nexo com o trabalho e mais de três meses de dor — esse encaminhamento existe no protocolo do Ministério da Saúde e quase nunca é feito.
Esperado: Crenças ajustadas, medo do movimento em queda, sono e humor preservados
Se não melhora: Catastrofização, medo persistente de causar dano ao se mover, insatisfação com o trabalho e sintomas depressivos mudam o tratamento: o que muda o desfecho nesse subgrupo é o programa combinado físico e psicológico, não mais um exame. Rastreie humor e risco, e conduza pelos capítulos de transtorno depressivo maior e de risco de suicídio desta apostila quando o rastreio for positivo.
Esperado: Melhora antes de cada uma dessas marcas, com alta do acompanhamento
Se não melhora: Cada marca tem destino próprio, e eles estão na tabela de prazos e destinos deste capítulo. O que a tabela não diz, e que decide se o encaminhamento vai valer, é isto: antes de contar qualquer um desses prazos, confirme que o tratamento foi otimizado de verdade — medicamento, exercício e fisioterapia. Sem as três pernas o prazo não conta, e o encaminhamento volta da regulação com o paciente no fim da fila.
Onde o erro machuca
O dano: O exame quase sempre devolve um nome, porque o achado que ele vai encontrar existe em 68% dos adultos de 40 anos sem nenhuma dor. Esse nome muda o comportamento do paciente, que deixa de se mexer e passa a se ver como portador de uma coluna quebrada, e muda o comportamento do médico, que passa a tratar o laudo em vez do doente. O efeito líquido é mais dor, mais afastamento, mais encaminhamento e, numa fração dos casos, uma cirurgia numa coluna que ia melhorar sozinha — e a fila que esse pedido ocupou é a mesma em que espera quem tem metástase vertebral.
Como pegar a tempo: Antes de assinar qualquer pedido, escreva a hipótese que o exame vai testar e diga em voz alta o que muda se ele vier normal. Se nada muda, o exame não era necessário. Substitua o pedido por três coisas que custam o mesmo tempo: o exame neurológico escrito, a explicação do prognóstico e a data do retorno no papel.
O dano: Dizer 'o senhor tem uma hérnia de disco e desgaste na coluna' é verdadeiro e destrutivo ao mesmo tempo. O paciente entende dano estrutural permanente, começa a evitar movimento, atribui toda dor futura àquela imagem e, a partir dali, nenhuma consulta consegue mais falar de função. O laudo passa a ser o diagnóstico, e o diagnóstico passa a ser incurável na cabeça de quem o carrega.
Como pegar a tempo: Traduza sempre com a frequência do achado em pessoas sem dor da mesma idade: aos 40 anos, dois em cada três adultos sem dor nenhuma têm degeneração discal e um em cada três tem protrusão. Diga que o exame descreve uma coluna comum para a idade e que ele não explica, sozinho, a dor de agora. Registre no prontuário, com essas palavras, que o achado é incidental quando ele não corresponde ao território do exame.
O dano: A inatividade tem ação deletéria sobre o aparelho locomotor, e o repouso prolongado produz perda de condicionamento, mais dor, afastamento mais longo e mais recorrência. O paciente que passa cinco dias deitado por ordem médica sai da cama com a convicção de que se mexer causa dano — e essa convicção é mais difícil de tratar do que a crise que a originou.
Como pegar a tempo: Prescreva atividade com nome, quantidade e horário, do mesmo jeito que se prescreve remédio, e explique que doer ao se mexer não significa estar piorando. Quando a dor for tão intensa que impeça qualquer movimento, o que precisa ser revisto é a analgesia, não a permissão para andar.
O dano: Déficit motor progressivo é uma das condições que mandam o paciente para a emergência, e ele só existe como comparação entre duas medidas. Prontuário com 'força preservada' na primeira consulta e 'discreta fraqueza' na segunda não permite dizer se houve progressão, e o caso segue como ciática banal até o pé cair.
Como pegar a tempo: Grau de 0 a 5, escrito com o número, para extensão do joelho, dorsiflexão do pé e do hálux e flexão plantar, nos dois lados, em toda consulta de paciente com irradiação. Anote também o ângulo da elevação da perna estendida. Dois números e um ângulo, e a progressão passa a ser visível.
O dano: A perda da sensação de bexiga cheia é o primeiro sinal da compressão sacral, e é justamente o sinal que o paciente não percebe — ele não sente que deixou de sentir. O que ele nota é um escape que atribui ao remédio ou à idade. Quando a retenção se instala, o detrusor já distendeu, e um ano após a cirurgia metade dos operados não recupera função vesical normal, 43% mantêm disfunção intestinal e 51%, disfunção sexual.
Como pegar a tempo: Pergunte sempre com estas palavras, e registre a resposta: está sentindo vontade de urinar como antes; consegue começar a urinar na hora que quer; escapa urina sem perceber; sente o papel higiênico quando se limpa; sente quando saem gases. Diante de qualquer alteração, meça o resíduo pós-miccional na hora.
O dano: Quando a compressão da raiz avança a ponto de comprometer a condução, a dor irradiada pode diminuir. Perna que parou de doer e passou a dormir, ou dor que sumiu junto com o aparecimento de fraqueza, é piora disfarçada de melhora — e é a apresentação que faz o médico cancelar o encaminhamento e adiar a imagem exatamente no dia em que ela era necessária.
Como pegar a tempo: Trate intensidade e função como dois parâmetros independentes. Toda queda de dor em paciente com ciática vem acompanhada da pergunta sobre força e sensibilidade e da regraduação. Melhora só é melhora quando a dor cai e a função sobe.
O dano: A diretriz do NICE recomenda não oferecer corticoide oral, gabapentinoides, outros antiepilépticos nem benzodiazepínicos na ciática, por falta de benefício e evidência de dano. O Protocolo Clínico da Dor Crônica registra que a evidência sobre relaxante muscular é incerta e limitada, com redução de dor clinicamente insignificante, e não recomenda o uso. O dano é concreto: sedação e queda no idoso, acidente de trânsito e de trabalho, dependência com o benzodiazepínico, e hiperglicemia e insônia com o corticoide — tudo isso pago por um benefício que não se demonstrou.
Como pegar a tempo: A base é o anti-inflamatório em dose plena e por poucos dias, com analgésico simples de resgate, mais movimento e explicação. Se houver contração muscular importante e a decisão for usar relaxante, que seja por poucos dias, à noite, nunca em idoso e nunca em quem dirige ou opera máquina — e com a data de suspensão escrita na receita.
O dano: Opioide na lombalgia aguda como primeira escolha expõe a constipação, sedação, náusea e risco de acidente sem ganho sobre o anti-inflamatório; mantido depois dos três meses, expõe a tolerância, dependência e piora funcional numa dor em que o benefício de longo prazo é desconhecido. Uma vez iniciado, ele é difícil de retirar, e a retirada vira um segundo problema clínico maior que o primeiro.
Como pegar a tempo: Opioide fraco apenas se o anti-inflamatório for contraindicado, não tolerado ou ineficaz, por poucos dias, com data de término escrita. Nunca para dor lombar crônica nem para ciática crônica. Se o paciente chega já em uso, explique os riscos de continuar e conduza a retirada de forma compartilhada, em vez de simplesmente renovar a receita.
O dano: Dois comprimidos de paracetamol 500 mg quatro vezes ao dia já são exatamente 4 g, o teto diário. Acrescentar a esse esquema um comprimido combinado de paracetamol com codeína, ou um antigripal que o paciente toma por conta, leva a soma acima do teto sem que ninguém tenha prescrito uma dose alta — e a hepatotoxicidade do paracetamol não avisa antes.
Como pegar a tempo: Prescreva o paracetamol pela dose total diária e não por comprimido, pergunte o que mais o paciente toma por conta própria, incluindo antigripal e composto para dor de cabeça, e escreva o teto na receita. Vale a mesma disciplina com a unidade da dipirona em solução: a apresentação é de 500 mg/mL, a dose se mede em gotas, e vinte gotas equivalem a 500 mg.
O dano: Artrose está presente em quase todo mundo dessa idade e explica pouca coisa sozinha: aos 70 anos, 69% das pessoas sem dor têm degeneração facetária. Fechar o caso nesse nome deixa passar fratura vertebral por fragilidade, metástase, mieloma e espondilodiscite, e todas elas se apresentam exatamente como 'dor nas costas do idoso' na primeira consulta.
Como pegar a tempo: Acima de 70 anos, dor nova é sinal de alerta por si só na lista do protocolo do Ministério da Saúde. Pergunte ativamente por câncer prévio, corticoide, perda de peso e trauma trivial; percuta os processos espinhosos; e trate a artrose como diagnóstico de exclusão nessa faixa, não como explicação de primeira linha.
O dano: Encaminhamento que não descreve o exame neurológico, o que já foi tentado com dose e duração, e a razão da suspeita, é classificado como baixa prioridade ou devolvido pela regulação. O paciente que já esperou seis semanas volta para o fim de uma fila que pode ser de meses, e ninguém o avisa disso — ele descobre quando a dor piora.
Como pegar a tempo: Siga o conteúdo descritivo mínimo do protocolo do Ministério da Saúde item por item, e mantenha o prontuário atualizado ao longo do tratamento para que o encaminhamento se escreva sozinho no dia em que for necessário.
O dano: Na lombalgia, a segurança da conduta sem imagem inteira depende da reavaliação — é ela que substitui o exame. Orientação verbal de 'volte se piorar', dada no fim de uma consulta apressada, não sobrevive à semana: quem precisaria voltar em três dias volta em três semanas, e o déficit que teria uma janela cirúrgica chega instalado.
Como pegar a tempo: Data de retorno no papel, e a lista dos cinco sinais que trazem de volta no mesmo dia também por escrito. Peça ao paciente que repita com as próprias palavras — a verificação leva um minuto e é a única parte da orientação que se pode auditar.
O que dizer ao paciente e à família
A conversa mais importante deste capítulo não é a do diagnóstico grave. É a de recusar um exame que o paciente veio pedir, e ela acontece dezenas de vezes por semana, sempre com a sala cheia. Se ela for feita com pressa, o paciente entende descaso, procura outro serviço, faz o exame de qualquer jeito e volta com um laudo que agora precisa ser desfeito. Se ela for feita direito, ela é o tratamento.
O erro de linguagem que mais custa aqui é o oposto do que se costuma temer. Não é assustar: é minimizar. Quem ouve que não tem nada entende que a dor que sente não é real, que o médico não acreditou nele e que voltar seria incomodar — e é o retorno que faz a conduta sem imagem ser segura. Diga que a dor é real, que a causa é o conjunto e não uma peça quebrada, que a expectativa é de melhora, e diga com data e com lista escrita o que traz de volta.
A conversa central: por que não vou pedir a ressonância
“Eu entendo o pedido, e vou explicar por que a minha conduta é outra — não é economia, é o que eu faria comigo. Eu examinei o senhor inteiro: a força das duas pernas está normal, a sensibilidade está normal, os reflexos estão normais e não tem nenhum sinal de que exista alguma coisa grave aí. Nesse quadro, a ressonância tem um problema específico. Ela mostra desgaste em quase todo mundo, mesmo em quem não sente nada: de cada três pessoas de quarenta anos sem dor nenhuma, duas já têm desgaste no disco e uma tem o que o laudo chama de protrusão. Então, se eu pedir agora, é quase certo que vai aparecer alguma coisa escrita ali — e essa coisa provavelmente não é o que está doendo. Só que a partir do momento que está escrito, o senhor passa a carregar aquele nome, tem medo de se abaixar, para de trabalhar, e a dor melhora menos. Eu já vi isso muitas vezes, e é por isso que eu não vou pedir hoje. O que eu vou fazer é tratar a dor com remédio de horário, orientar exatamente o que fazer com o corpo, e marcar seu retorno para daqui a dez dias. E vou deixar escrito para o senhor cinco coisas que, se acontecerem, o trazem de volta no mesmo dia, sem esperar a data. Se em oito semanas o senhor não tiver melhorado com o tratamento feito direito, aí sim o exame entra — e vai entrar para responder uma pergunta que hoje eu ainda não tenho.”
Não diga: Não precisa de exame nenhum, isso é besteira, é só um jeito. Ressonância não muda nada mesmo. O SUS não tem, então nem adianta pedir. Se o senhor quiser fazer particular, faça.
Ao paciente que chega com a ressonância já feita e o laudo de hérnia
“Eu li o seu exame, e ele está bem feito — o radiologista descreveu certinho o que viu. O que falta no laudo, e não é culpa dele, é a comparação: esses achados são comuns em gente da sua idade que não tem dor nenhuma. Aos quarenta anos, dois em cada três adultos sem nenhuma queixa têm o mesmo desgaste de disco que está escrito aí, e um em cada três tem protrusão. Então o exame não está errado, ele descreve uma coluna comum para a sua idade. O que eu fiz agora foi examinar a senhora antes de olhar o laudo, de propósito. E o que eu encontrei no exame não bate com o local que a imagem aponta — o que quer dizer que esse achado provavelmente estava aí antes da dor começar e vai continuar aí depois que ela passar. Eu vou escrever isso no seu prontuário, com essas palavras, para que daqui a seis meses ninguém recomece a investigação por causa desse papel. E a dor de agora a gente vai tratar pelo que eu examinei, não pelo que a máquina fotografou.”
Não diga: Esse exame não vale nada. Todo mundo tem isso, esquece. Quem pediu isso não devia ter pedido.
Explicando o prognóstico sem prometer o que não se pode
“Vou ser direto com o que eu sei e com o que eu não sei. Essa dor tende a melhorar, e a maioria das pessoas melhora em dias a poucas semanas — a data exata eu não sei, e não vou inventar uma. Doer forte não quer dizer lesão grave: a coluna dói muito por coisas pequenas, e é assim mesmo. E sentir dor ao se mexer não significa que o senhor esteja piorando ou causando dano; movimento aqui é remédio, ficar deitado é o contrário. Pode ser que volte a doer outra vez no futuro; isso acontece e não quer dizer que deu errado. O que me preocuparia de verdade eu já pesquisei hoje, no exame, e não estava lá.”
Não diga: Isso é desgaste, não tem cura. O senhor vai ter que conviver com isso. Sua coluna está gasta para a idade. Vai ter que ter cuidado o resto da vida.
Ao paciente que precisa trabalhar e ao que pede afastamento longo
“O senhor faz entrega e carrega peso, então essa conversa é sobre trabalho de verdade, não sobre teoria. Ficar parado muito tempo piora, e voltar cedo, mesmo que devagar e mesmo com alguma dor, é o que dá o melhor resultado a longo prazo. Então o meu plano não é o senhor ficar em casa até parar de doer: é o senhor voltar com adaptação. Vou dar atestado pelos dias que o senhor realmente precisa e vou escrever uma orientação de restrição de peso por duas semanas, para o senhor apresentar. Se não houver como adaptar a tarefa, a gente reavalia — e, se essa dor virar coisa de meses e tiver ligação com o trabalho, existe um caminho específico pela Saúde do Trabalhador, e eu encaminho. O que eu não vou fazer é dar um afastamento longo agora, porque isso costuma acabar dificultando a volta, e não facilitando.”
Não diga: Se está doendo, fica em casa até melhorar. Vou dar trinta dias e a gente vê depois. Nesse trabalho o senhor nunca vai ficar bom.
A rede de segurança, dita e entregue por escrito
“Antes de o senhor sair, tem uma parte que é a mais importante da consulta, e eu vou deixar por escrito. Cinco coisas fazem o senhor voltar aqui no mesmo dia, sem esperar a data do retorno e sem marcar. Primeira: se a perna ficar fraca — se o pé começar a arrastar, se tropeçar, se não conseguir subir a escada como sobe hoje. Segunda: se tiver dificuldade nova para urinar, ou se demorar a sair, ou se escapar sem o senhor perceber. Terceira: se escapar fezes ou gases. Quarta: se ficar dormente na região de sentar, entre as pernas, aquela parte que encosta na cadeira. Quinta: se tiver febre. Qualquer uma dessas cinco, o senhor vem para o pronto-socorro, não espera. Pode me repetir quais são, para eu ter certeza de que ficou claro?”
Não diga: Qualquer coisa procure um médico. Se piorar muito volte. O senhor vai perceber se for grave.
Quando há suspeita de síndrome da cauda equina e é hoje
“Preciso mudar o rumo da conversa, e vou explicar por quê. O que a senhora me contou sobre não estar sentindo a bexiga encher e sobre a dormência para sentar, junto com o que eu encontrei no exame, levanta uma possibilidade específica: a de que alguma coisa esteja apertando o feixe de nervos que sai no fim da coluna. Isso é diferente da dor nas costas comum e é a única situação aqui em que o tempo conta em horas, não em semanas — porque o que se recupera depois depende de quanto tempo o nervo ficou apertado. Então eu não vou marcar exame para a semana que vem. A senhora vai para o hospital agora, com um encaminhamento meu, para fazer uma ressonância de urgência e ser avaliada pela equipe de coluna hoje. Pode ser que o exame não confirme, e isso vai ser uma boa notícia — mas essa é uma daquelas situações em que a gente não pode esperar para ter certeza. Tem alguém que possa levá-la agora, ou eu aciono o transporte?”
Não diga: Provavelmente não é nada, mas vamos pedir um exame por precaução. Depois a senhora agenda a ressonância e traz o resultado. Vou pedir urgente, mas se demorar a senhora avisa.
Ao idoso e à família quando existe bandeira vermelha e ainda não há resposta
“Vou dizer o que eu penso agora e o que ainda não sei. A dor da sua mãe tem três características que me tiram do diagnóstico comum: ela não melhora deitada, acorda ela de madrugada e veio junto com perda de peso — e ela teve um câncer tratado há nove anos. Isso não quer dizer que o câncer voltou, e eu não vou afirmar isso hoje. Quer dizer que eu preciso investigar como se pudesse ser, porque, se for, quanto antes a gente souber, mais coisa dá para fazer. Então eu vou pedir exames de sangue e uma ressonância, e vou marcar o retorno já com data para ver os resultados comigo, e não com quem estiver de plantão. Enquanto isso a gente trata a dor. Eu sei que essa espera é ruim, e não vou fingir que não é. O que eu posso garantir é que a senhora não vai ficar sem retorno: está agendado, está escrito, e se alguma coisa mudar antes, vocês voltam.”
Não diga: Não se preocupe, deve ser coisa da idade. Vamos pedir uns exames só por precaução, mas eu não acho que seja nada. Se der alguma coisa a gente conversa.
Ao paciente com dor há oito meses, quando o alvo do tratamento muda
“A senhora está há oito meses com essa dor e já fez dois exames que mostraram a mesma coisa. Eu quero propor uma mudança no que a gente está perseguindo, e preciso que faça sentido para a senhora, senão não funciona. Até agora a gente estava atrás de uma lesão que explicasse tudo. Só que, quando a dor passa de três meses, o próprio sistema que sente dor muda de funcionamento: ele fica mais sensível, e passa a doer com estímulo pequeno. Isso não quer dizer que a dor é da cabeça, nem que é invenção — é um mecanismo real, e é justamente por isso que procurar mais lesão com mais exame para de ajudar. O que muda a vida da senhora nessa fase é outra coisa: exercício orientado, sono, tratar o que estiver pesando no humor, e um serviço que cuide de dor de forma contínua, para onde eu vou encaminhá-la. A meta deixa de ser dor zero e passa a ser voltar a fazer o que a senhora parou de fazer. E não, isso não é desistir — é mudar para o tratamento que tem chance de funcionar.”
Não diga: Não tem mais nada a fazer. Os exames estão normais, então é emocional. A senhora vai ter que aprender a conviver. Vou pedir uma ressonância nova para ver se apareceu alguma coisa.
Onde bons médicos discordam
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.
Repouso curto, de três a quatro dias, com posicionamento
O consenso brasileiro descreve o repouso como eficaz nas lombalgias, lombociatalgias e ciáticas, indica o decúbito supino com joelhos fletidos para reduzir a pressão intradiscal, e fixa duração média de três a quatro dias, no máximo cinco a seis, admitindo prolongamento quando a dor permanece intensa e a deambulação, difícil.
Brazil AV e col., Diagnóstico e tratamento das lombalgias e lombociatalgias, Rev Bras Reumatol, 2004, seção de tratamento conservador
Nenhum repouso: manter atividade e promover o retorno ao trabalho
A recomendação é fornecer informação e encorajamento para continuar as atividades normais em todas as etapas do tratamento, e promover e facilitar ativamente o retorno ao trabalho ou às atividades de vida diária, sem qualquer indicação de repouso como intervenção.
NICE, Low back pain and sciatica in over 16s, NG59, recomendações 1.2.1 e 1.2.15
O próprio consenso brasileiro, no parágrafo seguinte
No mesmo texto que descreve o repouso, está registrado, com o maior grau de evidência da escala usada pelo documento, que estimular o paciente a retornar às atividades habituais o mais rapidamente possível resulta em retorno mais rápido ao trabalho, menor limitação funcional a longo prazo e menor taxa de recorrência — e que a inatividade tem ação deletéria sobre o aparelho locomotor.
Brazil AV e col., Rev Bras Reumatol, 2004, mesma seção, item classificado como grau A
A discordância aqui é menor do que parece e tem data: o texto brasileiro é de 2004 e já carrega dentro de si, com o grau de evidência mais alto que usa, a recomendação oposta à sua própria orientação de repouso. Decida assim para o paciente à sua frente: nenhuma prescrição de repouso no leito, nunca, em nenhum quadro sem bandeira vermelha. O que existe é tolerância — nas primeiras 24 a 48 horas de uma crise muito intensa, o paciente vai passar mais tempo deitado porque não consegue outra coisa, e isso é diferente de receber uma ordem médica para ficar na cama. A diferença prática está na frase que ele leva para casa: 'fique deitado até melhorar' produz um paciente com medo de se mexer; 'ande dentro do que der, todo dia, mesmo doendo um pouco' produz um paciente que volta a trabalhar antes. Quando a dor for tão intensa que impeça qualquer movimento, o problema não é a falta de repouso — é a analgesia insuficiente, e é ela que precisa ser revista.
São opções, sobretudo o relaxante na crise aguda e o corticoide na hérnia com radiculopatia
Relaxantes musculares como carisoprodol e ciclobenzaprina são apresentados como opção no tratamento de curto prazo da lombalgia aguda, com eficácia superior ao placebo e benefício adicional em associação a analgésicos e anti-inflamatórios, desaconselhando-se apenas o uso prolongado. Quanto ao corticoide, o mesmo texto registra que os estudos são conflitantes na lombalgia, mas argumenta que na hérnia discal, em que a compressão radicular vem acompanhada de inflamação, seu uso pode oferecer vantagem adicional sobre o anti-inflamatório.
Brazil AV e col., Diagnóstico e tratamento das lombalgias e lombociatalgias, Rev Bras Reumatol, 2004, seção de medicamentos
Nem um nem outro na ciática, por dano com benefício não demonstrado
A recomendação, revisada em 2020, é não oferecer gabapentinoides, outros antiepilépticos, corticoides orais nem benzodiazepínicos para o manejo da ciática, porque não há evidência global de benefício e há evidência de dano.
NICE, NG59, recomendação 1.2.16, marcada como [2020]
Relaxante muscular sem recomendação de uso, por efeito clinicamente insignificante
Revisão sistemática de relaxantes musculares não benzodiazepínicos mostrou redução de dor clinicamente insignificante; a evidência que justificaria o uso dessa classe é incerta e limitada, e o Protocolo não recomenda seu uso. Nenhum relaxante muscular figura na lista de fármacos que o Protocolo apresenta como disponíveis no SUS para dor crônica.
Ministério da Saúde, Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Dor Crônica, 2022, itens 7.2.3 e 7.2.6
Três coisas decidem, e nenhuma delas é qual documento é mais bonito. A primeira é a data e o tipo de evidência: 2004 argumenta por plausibilidade fisiopatológica — a raiz está inflamada, logo o corticoide deveria ajudar —, e 2020 responde com revisão de ensaios que mediram o desfecho e não encontraram benefício, com dano documentado. Plausibilidade perde para medida. A segunda é a reversibilidade do erro: não prescrever corticoide num paciente que talvez melhorasse um pouco custa alguns dias de dor; prescrever num diabético descompensa a glicemia, e prescrever benzodiazepínico ou relaxante num idoso produz queda e fratura, que é o desfecho que este capítulo inteiro tenta evitar. A terceira é o que existe na farmácia da sua unidade: relaxante muscular não está entre os fármacos que o Protocolo lista como disponíveis, e prescrever o que o paciente não vai conseguir retirar transfere para ele o custo e a frustração. Decisão prática: não prescrever corticoide oral na lombalgia nem na ciática; não prescrever relaxante muscular de rotina; e, se houver contração muscular importante num adulto jovem que não dirige e a decisão for usá-lo, que seja à noite, por poucos dias, com data de suspensão escrita na receita. Idoso, nunca.
Opção legítima na crise aguda, em casos restritos
Os opioides não são recomendados na lombalgia crônica pelo risco de dependência química quando usados por tempo prolongado, mas são apresentados como opção no tratamento da lombalgia e da ciatalgia agudas, em casos muito restritos, com fosfato de codeína na dose de 30 mg três a quatro vezes ao dia, tendo como principais efeitos adversos sonolência, déficit de atenção e constipação.
Brazil AV e col., Rev Bras Reumatol, 2004, seção de medicamentos
Somente se o anti-inflamatório falhou, e nunca de rotina
Considere opioide fraco, com ou sem paracetamol, para lombalgia aguda apenas se o anti-inflamatório for contraindicado, não tolerado ou tiver sido ineficaz; não ofereça opioide de rotina para lombalgia aguda; não ofereça opioide para lombalgia crônica nem para ciática crônica.
NICE, NG59, recomendações 1.2.25, 1.2.27, 1.2.28 e 1.2.17
Fora do SUS para dor crônica, por decisão de não incorporação
Opioides fracos — codeína e tramadol — e morfina em baixa dose para o tratamento da dor crônica não foram incorporados ao SUS, assim como os opioides fortes fentanila, oxicodona e buprenorfina; o Protocolo registra que a eficácia e a segurança do uso prolongado de opioides na dor crônica não oncológica são incertas.
Ministério da Saúde, Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Dor Crônica, 2022, item 7.2, citando as Portarias SCTIE/MS nº 46 e nº 59, de 20 de julho de 2021
As três posições concordam mais do que a leitura rápida sugere: nenhuma delas defende opioide como primeira escolha, e nenhuma delas o admite na dor crônica. A divergência real é sobre o quanto ele é excepcional na crise aguda. Decida por três perguntas concretas. O anti-inflamatório foi de fato tentado, na dose plena, com horário fixo, por pelo menos dois a três dias? Se não foi, a resposta é otimizar o que já está prescrito, não subir de degrau. Existe contraindicação real ao anti-inflamatório — doença renal crônica, insuficiência cardíaca, úlcera, anticoagulação, alergia? Se existe, o opioide fraco deixa de ser exceção e passa a ser a alternativa correta, e aí ele se prescreve sem culpa. E quem é este paciente: idade, direção de veículo, trabalho com máquina, história de uso problemático de substância, constipação já instalada? Cada um desses muda o balanço. Quando decidir usar, use com data de término escrita na receita, associado a analgésico simples, com orientação sobre constipação e sobre dirigir — e reavalie em três dias, não em três semanas. O que nenhuma das posições sustenta é deixar o paciente com dor intensa sem tratamento nenhum para evitar o opioide.
Imagem só se o resultado tiver probabilidade de mudar o manejo, e fora da atenção primária
Não ofereça imagem de rotina em ambiente não especializado para pessoas com dor lombar, com ou sem ciática; explique ao paciente que, mesmo referido para avaliação especializada, ele pode não precisar de imagem; e considere imagem em serviço especializado apenas se o resultado tiver probabilidade de mudar o manejo. A diretriz não fixa prazos numéricos para encaminhamento por dor persistente.
NICE, NG59, recomendações 1.1.4, 1.1.5 e 1.1.6
Lista fechada de sinais de alerta e prazos numéricos explícitos
Ressonância ou tomografia, se o raio-X for normal ou inconclusivo, nas situações de sinal de alerta sem indicação emergencial — idade de início acima de 70 ou abaixo de 20 anos, câncer prévio ou suspeito, imunossupressão, sintomas sistêmicos, dor não mecânica ou noturna, osteoporose prévia, e dor com mais de oito semanas sem resposta ao tratamento clínico otimizado. Encaminhamento para ortopedia ou neurocirurgia com seis semanas de síndrome radicular sem melhora, e para serviço de dor com seis meses de dor crônica inespecífica sem melhora.
Ministério da Saúde e UFRGS, Protocolos de encaminhamento da atenção básica para a atenção especializada, volume III, 2016, itens 1.4 e 2.1
Seis semanas de tratamento clínico como marco para a imagem
A tomografia computadorizada e a ressonância magnética têm indicação nas lombalgias e ciatalgias agudas de evolução atípica e naquelas de evolução insatisfatória cuja causa não foi determinada após seis semanas de tratamento clínico; a caracterização etiológica é processo eminentemente clínico, e os exames complementares servem para confirmar a hipótese.
Brazil AV e col., Rev Bras Reumatol, 2004, seção de diagnóstico complementar
As três dizem a mesma coisa no essencial — imagem sem hipótese não serve — e divergem no que é mais útil para quem atende: números. A diretriz do NICE é um princípio, e princípio sem número é difícil de auditar e fácil de burlar nos dois sentidos, tanto por quem pede tudo quanto por quem nunca pede. O protocolo do Ministério da Saúde é o documento a seguir na rede brasileira por três razões práticas: ele é nacional, ele é o que a regulação usa para classificar o seu encaminhamento, e ele traz a lista fechada de sinais de alerta que sustenta a decisão de não pedir nos demais casos. Decida assim: use a lista do protocolo brasileiro como gatilho, e use o princípio do NICE como filtro — mesmo com um item da lista presente, pergunte-se o que muda se o exame vier normal, porque a resposta muda a urgência e às vezes o exame escolhido. Entre as duas datas para a imagem sem bandeira, seis semanas no texto de 2004 e oito semanas no protocolo de 2016, este capítulo adota oito semanas, por ser a régua do documento vigente na rede e por dar tempo de o tratamento otimizado acontecer de fato — e observa que a diferença é acadêmica quando as três pernas do tratamento nunca foram oferecidas, situação em que nem seis nem oito semanas contam. E encurte tudo, sem hesitar, quando o paciente for idoso, imunossuprimido, tiver câncer prévio ou morar longe do serviço que faz o exame: para quem não vai conseguir voltar, a reavaliação seriada deixa de ser uma alternativa segura à imagem.
O raciocínio, em voz alta
Volte ao senhor Cícero Damião, 41 anos, entregador de aplicativo, sete e vinte de uma segunda-feira. Dor lombar bilateral há seis dias, começou depois de subir escada carregando uma caixa, piora à flexão, melhora deitado, não desce das nádegas. Sem febre, sem perda de peso, sem câncer prévio, sem corticoide, urina e evacua normalmente. Exame: marcha normal, na ponta e no calcanhar sem dificuldade, paravertebral contraída e dolorosa, percussão dos processos espinhosos indolor, elevação da perna estendida negativa dos dois lados, força 5 em 5 em todos os grupos, sensibilidade e reflexos normais e simétricos. Ele quer a ressonância.
o que penso agora
Antes de qualquer hipótese, verifico a velocidade. Ele não tem nada da lista de emergência: não tem déficit, não tem queixa de esfíncter, não tem febre, não tem trauma de alta energia, não tem câncer conhecido na coluna. Também não tem nenhum dos sinais que indicariam imagem em dias: tem 41 anos, a dor melhora deitada, não acorda de madrugada, o peso está estável, não é imunossuprimido, não tem osteoporose, e a dor tem seis dias — muito longe das oito semanas. Ele é a terceira velocidade, e isso já está decidido antes de eu abrir a boca sobre exame.
o que ainda pergunto, mesmo sem bandeira aparente
Faço a sequência concreta sobre urina, porque ela não se dispensa em ninguém, e todas as respostas são normais. Pergunto o que ele acha que está causando isso — e ele responde que acha que a coluna dele está gasta e que vai acabar em cadeira de rodas como um tio dele. Essa resposta é o dado mais importante da consulta até aqui, porque é ela que explica a insistência pela ressonância: ele não quer o exame, ele quer saber se vai ficar inválido, e o exame é a única forma que ele conhece de perguntar isso.
como a resposta muda o que eu vou fazer
Se eu pedir a ressonância, ela quase certamente vai mostrar alguma coisa — aos 41 anos, a probabilidade de encontrar degeneração discal em alguém sem dor nenhuma já passa de dois terços, e a de protrusão está em torno de um terço. Nele, com a crença que acabou de me contar, um laudo com a palavra hérnia não vai tranquilizar: vai confirmar o medo dele e transformar seis dias de dor em uma identidade. A conduta correta é tratar a dor e desmontar a crença, e essas duas coisas não precisam de máquina nenhuma.
o que eu digo, e nessa ordem
Primeiro nomeio: a dor é real e tem causa muscular e do conjunto da coluna, não é uma peça quebrada. Segundo respondo à pergunta que ele não fez em voz alta: nada no exame dele indica risco de perder o movimento das pernas, e eu digo isso olhando para ele. Terceiro explico por que não vou pedir o exame, usando o número — dois em cada três adultos da idade dele, sem dor nenhuma, têm desgaste no disco. Quarto entrego a rede de segurança escrita: as cinco coisas que o trazem de volta no mesmo dia. Quinto, marco o retorno com data.
o que eu prescrevo
Ibuprofeno 600 mg de 8 em 8 horas, após alimento, por sete dias, com horário fixo e não conforme a dor. Dipirona 500 mg a 1 g de 6 em 6 horas se dor, sem passar de 4 g por dia. Calor local. Caminhar quinze minutos duas vezes ao dia, com nome, quantidade e horário, porque atividade prescrita assim é cumprida e conselho genérico não é. Atestado de três dias e orientação escrita de restrição de peso por duas semanas, para ele apresentar. Nenhum relaxante muscular, nenhum corticoide, nenhum opioide. Retorno em dez dias.
o retorno, dia 10 — e a coisa muda
Ele volta melhor da dor lombar, mas com uma queixa nova: há três dias a dor desce pela face lateral da perna direita e chega ao dorso do pé e ao dedão, com formigamento. Reexamino, e agora a elevação da perna estendida à direita reproduz a dor irradiada a 45 graus. Testo de novo, com número: dorsiflexão do pé e do hálux, grau 5; flexão plantar, grau 5; reflexos presentes e simétricos; sensibilidade discretamente reduzida no dorso do pé. As perguntas de esfíncter continuam normais.
o que isso muda, e o que não muda
Muda o diagnóstico: agora é radiculopatia de L5 à direita, provavelmente por hérnia no disco L4-L5 — o disco de um nível acima da raiz que fraqueja, porque a hérnia posterolateral encontra a raiz que desce para sair no nível seguinte. E não muda a conduta. Radiculopatia com dor forte, sem déficit motor e sem alteração de esfíncter, continua sendo tratamento conservador, e a ressonância continua sem indicação: ela não mudaria nada do que eu vou fazer nas próximas seis semanas. O que muda é o relógio: começa a contar o prazo de seis semanas de tratamento otimizado, e é dele que depende o encaminhamento. Então prescrevo mais um ciclo de anti-inflamatório, encaminho para fisioterapia e para programa de exercício, escrevo o grau de força no prontuário e marco retorno em duas semanas — e ele sai sabendo que perda de força na perna é motivo para voltar antes.
seis semanas depois
Ele está trabalhando, com dor 2, ainda com formigamento leve no dedão que vem diminuindo, força 5 em 5. Alta do acompanhamento com orientação de manutenção do exercício. O fragmento herniado está sendo reabsorvido do jeito que costuma acontecer, e ele nunca soube que teve um — o que é exatamente o desfecho desejado. Vale fazer o contrafactual em voz alta: se eu tivesse pedido a ressonância no primeiro dia, ela teria mostrado a mesma hérnia que agora está desaparecendo, num paciente que ia melhorar sozinho, e ele teria passado seis semanas convencido de que tinha a coluna quebrada — com chance real de ter chegado a uma consulta cirúrgica.
e a dona Neusa, duas cadeiras adiante
Mesma manhã, mesma queixa registrada na triagem, decisão oposta. Dor lombar há cinco semanas, que não alivia deitada, acorda de madrugada, progressiva, com perda de peso confirmada pela filha, em paciente de 71 anos com câncer de mama tratado há nove anos. São quatro sinais de alerta somados, e qualquer um bastaria. Ela sai da consulta com hemograma, velocidade de hemossedimentação, proteína C reativa, cálcio, fosfatase alcalina e eletroforese de proteínas, e com ressonância de coluna pedida com a hipótese escrita no pedido — não com a queixa copiada da triagem —, e com o retorno agendado comigo para ver o resultado. O exame mostra lesão infiltrativa em corpo vertebral com componente epidural, e ela entra na via da oncologia no mesmo dia em que o laudo sai. O manejo da dor a partir daí é o do capítulo de cuidados paliativos e manejo da dor oncológica desta apostila.
o que os dois casos ensinam juntos
A mesma frase na triagem, dor nas costas, produziu duas condutas opostas, e o que as separou não foi exame nenhum: foi a mesma lista de perguntas feita nos dois. No senhor Cícero ela veio toda negativa e autorizou não pedir; na dona Neusa ela veio com quatro itens positivos e obrigou a pedir hoje. Recusar o exame na primeira e priorizar na segunda são a mesma competência, não duas — e a ressonância que sobrou por não ter sido gasta com ele é literalmente a que ela conseguiu marcar.
Faça você
Quarta-feira, 16h. Homem de 47 anos, motorista, em acompanhamento há quatro semanas por lombociatalgia à esquerda com território de S1, tratada de forma conservadora com anti-inflamatório e fisioterapia. Na última consulta, há duas semanas, a dor era 7, a flexão plantar estava grau 5 e a elevação da perna estendida à esquerda era positiva a 40 graus. Ele volta hoje dizendo que a dor da perna melhorou bastante, está em 3. Conta, quando perguntado, que desde ontem as duas pernas estão formigando, que precisou fazer força para começar a urinar de manhã e que não sentiu direito o papel higiênico. Sinais vitais normais, afebril. Ao exame: flexão plantar à esquerda grau 4, à direita grau 5; sensibilidade reduzida na região perineal e perianal; elevação da perna estendida agora positiva a 50 graus dos dois lados. Ele diz que veio só porque a esposa insistiu, porque para ele estava melhorando.
leitura da história
A queda da dor irradiada, isolada, seria boa notícia numa radiculopatia em tratamento. Aqui ela vem acompanhada de três sintomas novos que não pertencem a uma raiz só: formigamento nas duas pernas, dificuldade para iniciar a micção e perda de sensibilidade perineal. Sintoma bilateral e sintoma sacral mudam a anatomia da hipótese — deixa de ser uma raiz comprimida e passa a ser o feixe.
leitura do exame
Dois achados objetivos confirmam a mudança. A flexão plantar caiu de grau 5 para grau 4 à esquerda — é déficit motor progressivo, e ele só é visível porque o grau anterior estava escrito com número. E a sensibilidade perineal e perianal está reduzida, que é a anestesia em sela dos livros aparecendo em forma discreta. A elevação da perna estendida positiva agora dos dois lados completa o quadro.
o que os dados de coorte acrescentam
A apresentação real da síndrome da cauda equina é menos exuberante do que o livro sugere: na coorte prospectiva de 621 pacientes operados, quase metade não tinha ciática bilateral, cerca de um quinto não tinha alteração de sensibilidade em sela e a maioria não tinha queixa intestinal — e nenhum achado clínico isolado prevê com segurança a compressão na imagem. Ou seja, o quadro incompleto é a regra, e esperar que ele se complete é esperar o pior desfecho.
a decisão
— sua vez —
Ver como fecharíamos
É síndrome da cauda equina até prova em contrário, e a conduta é hoje, agora, sem agendar nada. Concretamente: medir o resíduo pós-miccional na unidade, por ultrassom de bexiga ou por sondagem de alívio, e anotar o volume; fazer o toque retal com avaliação de tônus, contração voluntária e sensibilidade perineal, com acompanhante e com a explicação dita antes; pedir ressonância de coluna lombossacra em caráter de urgência; e acionar neurocirurgia ou ortopedia de coluna imediatamente, antes do resultado do exame — em serviço sem essa referência, acionar a regulação e transferir. Se houver retenção, passar sonda vesical de demora e registrar o volume drenado. O que não se faz: agendar ressonância ambulatorial, prescrever mais anti-inflamatório com retorno em uma semana, ou tranquilizar-se com a melhora da dor. A queda da dor irradiada neste contexto é piora disfarçada de melhora, porque a raiz que perdeu condução dói menos. O prognóstico de bexiga, intestino e função sexual um ano depois da cirurgia depende do estado neurológico com que ele chega à mesa, e é isso que está sendo decidido nesta tarde. E ele veio porque a esposa insistiu: registre no prontuário que a orientação de retorno imediato foi entregue por escrito, porque foi ela que funcionou.
O território descrito — face lateral da coxa e da perna, dorso do pé e hálux — é o de L5, e a raiz L5 não tem reflexo próprio para conferir, o que explica reflexos patelar e aquileu normais num paciente com radiculopatia franca. O teste motor é a dorsiflexão do pé e do hálux, avaliada pela marcha sobre os calcanhares e pela resistência aplicada ao hálux. Quanto ao nível, a hérnia sai quase sempre pelo canto posterolateral, porque o ligamento longitudinal posterior é forte na linha média e afinado nas bordas, e nesse ponto ela encontra a raiz que está descendo para sair um nível abaixo: por isso o disco L4-L5 compromete tipicamente a raiz L5, e o disco L5-S1, a raiz S1. Essa dissociação entre o nome da vértebra e o nome da raiz é a fonte mais comum de erro na leitura de laudo. S1 daria dor na face posterior até a borda lateral do pé e o quinto dedo, com fraqueza de flexão plantar e reflexo aquileu diminuído; L4 daria dor anterior na coxa e medial na perna, com fraqueza de extensão do joelho e reflexo patelar diminuído.
Teste-se
Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.
Plano de revisão
Em 7 dias
Recuperação ativa em sete dias. Compare L5 e S1 por movimento, sensibilidade e reflexos. Explique por que melhora da dor com novo déficit não é evolução tranquilizadora. Responda antes de reler e depois confira onde faltou justificar uma decisão.
Em 30 dias
Aplicação em trinta dias. Construa plano conservador com atividade, analgesia individualizada e metas funcionais. Diante de disfunção vesical nova, apresente a rota urgente sem usar tônus retal ou resíduo baixo para excluir. Use dados observados, reconheça o que ainda não sabe e peça comparação com a avaliação do supervisor.
Agora atenda
Agora atenda: mulher de 68 anos, aposentada, chega ao ambulatório com dor lombar há três semanas que começou depois que ela levantou um vaso de plantas. A dor é forte, focal, piora ao sentar e ao levantar da cama, e melhorou pouco com o que ela vem tomando por conta própria. Ela usa prednisona há dois anos por polimialgia reumática e traz uma ressonância feita há quatro meses, por outra dor, com laudo de discopatia degenerativa multinível e protrusão em L4-L5. Ela quer repetir a ressonância. Decida a velocidade do caso, defenda a decisão de imagem que você tomou — seja ela pedir ou não pedir — e escreva a prescrição inteira, com dose, via, frequência e duração.
