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O relógio começa na queda

Fratura de quadril no idoso: colo do fêmur e transtrocantérica

O desfecho de um ano se decide nas primeiras 48 horas, e quase tudo o que corre nesse período é feito pelo interno: a analgesia e o bloqueio de nervo, o jejum que ninguém cancelou, a hidratação, a prevenção do delirium e a recusa de esperar por exame que não muda conduta. Com a régua brasileira lida por inteiro — inclusive onde ela silencia, onde se contradiz e onde exclui do próprio escopo metade das fraturas de que trata.

Fontes deste capítulo

BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde; Secretaria de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos. Portaria Conjunta nº 21, de 24 de setembro de 2018. Aprova as Diretrizes Brasileiras para o Tratamento de Fratura do Colo do Fêmur em Idosos. Anexo: Diretrizes Brasileiras para o Tratamento da Fratura do Colo do Fêmur em Idosos. Brasília: Ministério da Saúde, 2018. 111 p. Sem cláusula de licença visível no documento.

BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Ciência, Tecnologia, Inovação e Insumos Estratégicos em Saúde. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais: Rename 2024. Brasília: Ministério da Saúde, 2024. 1ª edição, versão eletrônica. ISBN 978-65-5993-710-3. Licença Creative Commons Atribuição–Não Comercial–Compartilhamento pela mesma licença 4.0 Internacional, com reprodução permitida desde que citada a fonte.

SOCIEDADE BRASILEIRA DE ORTOPEDIA E TRAUMATOLOGIA. Consensos Brasileiros de Ortopedia e Traumatologia. Coordenadores: João Carlos Belloti e Moisés Cohen. São Paulo: Agência NaJaca, 2019. Elaborado em parceria com o Centro Cochrane do Brasil. Obra com todos os direitos reservados e reprodução total ou parcial proibida sem consentimento prévio da SBOT.

BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção Especializada à Saúde; Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação e do Complexo Econômico-Industrial da Saúde. Portaria Conjunta SAES/SECTICS nº 22, de 22 de outubro de 2025. Aprova o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Osteoporose. Brasília: Ministério da Saúde, 2025. 98 p.

SAKAKI, M. H.; OLIVEIRA, A. R.; COELHO, F. F.; LEME, L. E. G.; SUZUKI, I.; AMATUZZI, M. M. Estudo da mortalidade na fratura do fêmur proximal em idosos. Acta Ortopédica Brasileira, São Paulo, v. 12, n. 4, p. 242-249, out./dez. 2004.

01

Responda antes de ler

Mulher de 83 anos, previamente lúcida, que administrava os próprios medicamentos, saía sozinha para atividades no bairro e caminhava sem apoio, sofre fratura desviada do colo do fêmur. Relata dor crônica prévia no mesmo quadril. Não tem comorbidade descompensada. Segundo a régua nacional, qual é o tratamento indicado?

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O paciente que você vai ver

Sábado, 19h40. Hospital regional de cento e vinte leitos, referência para nove municípios; a ortopedia de plantão presencial mais próxima fica a duas horas e meia de estrada. Aqui o ortopedista está de sobreaviso, mora a vinte minutos e atende quando é chamado. Você é o interno da escala noturna e a sala amarela tem três leitos, dois ocupados.

A ambulância entra com dona Nicolina Bevilacqua, 82 anos, 58 quilos, viúva, aposentada, que mora com a filha e caminha sozinha pela casa e até a padaria da esquina. Por volta das seis da tarde ela escorregou no banheiro e caiu sentada, da própria altura. Não bateu a cabeça, não desmaiou, e lembra de tudo. Desde então não consegue levantar. A filha esperou uma hora para ver se melhorava, chamou o vizinho, e depois chamou a ambulância.

Ela está na maca com a perna direita visivelmente mais curta que a esquerda e o pé virado para fora. Está pálida, encolhida, e diz que a dor é a pior que já sentiu. A pressão é 148 por 86, a frequência cardíaca 96, a saturação 95% em ar ambiente. A técnica de enfermagem pergunta se pode dar alguma coisa para a dor.

Essa pergunta, feita às 19h47, é o começo do capítulo. O que decide o ano seguinte de dona Nicolina não é a escolha entre prótese e parafuso — essa é do ortopedista, e ele vai fazê-la bem. O que decide são as próximas quarenta e oito horas, e quase tudo o que acontece nelas é feito por você: a analgesia, a hidratação, a decisão de não deixá-la esperando um exame que não muda conduta, a ordem de jejum que alguém precisa cancelar quando a cirurgia é adiada, e a conversa com a filha.

Há um detalhe de relógio que quase todo mundo erra, e ele está escrito com todas as letras na régua nacional. O prazo de quarenta e oito horas começa a correr na hora em que o osso quebrou, e não na hora em que o paciente atravessa a porta. Dona Nicolina caiu às 18h. Quando você a vê, quase duas horas do prazo já foram gastas na sala da casa dela, esperando melhorar. O prazo termina na segunda-feira às 18h, e a única lista cirúrgica eletiva da semana começa na segunda às sete da manhã.

Este capítulo é sobre essas quarenta e oito horas e sobre o que vem depois delas. Ele trata da fratura de quadril inteira do lado clínico: o reconhecimento, inclusive quando a radiografia vem normal; a analgesia no idoso e o bloqueio de nervo; o jejum e a hidratação; o delirium do perioperatório; a decisão sobre o destino; e a conversa com a família sobre o que muda depois. A escolha do implante e a técnica cirúrgica não são dele.

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Quem adoece disso

Fratura de quadril é o nome clínico de duas fraturas vizinhas que se comportam de maneira diferente. A fratura do colo do fêmur é intracapsular: acontece dentro da cápsula articular do quadril, entre a cabeça e a região dos trocânteres. A fratura transtrocantérica, também chamada pertrocantérica, é extracapsular: acontece na linha que liga o trocânter maior ao menor, fora da cápsula. A diretriz brasileira registra que cerca de metade das fraturas proximais do fêmur são extracapsulares e o resto intracapsulares; o consenso da sociedade de ortopedia diz o mesmo com outras palavras, que colo e pertrocantérica têm incidência semelhante e somam mais de 90% das fraturas proximais do fêmur, ficando de 5% a 10% para as subtrocantéricas.

Essa divisão quase em partes iguais importa para entender uma coisa incômoda sobre a régua nacional, e é melhor dizê-la logo. O único documento brasileiro de âmbito nacional sobre fratura de quadril no idoso chama-se, pelo nome, diretriz para o tratamento da fratura do colo do fêmur, e coloca expressamente fora do seu escopo as pessoas com fraturas extracapsulares. Metade das fraturas de quadril do país fica de fora do único documento nacional que trata do assunto. O capítulo volta a esse ponto no bloco de critérios, com a conta e com as duas passagens em que o próprio documento atravessa a fronteira que declarou.

Quem quebra o quadril é uma população reconhecível. A diretriz de 2018 registra que 95% dessas fraturas ocorrem acima dos 60 anos e 75% em mulheres, e que a causa principal é a fragilidade óssea. O estudo Saúde, Bem-estar e Envelhecimento, feito no município de São Paulo e citado pela diretriz, encontrou que 28,6% dos idosos referiam quedas — 26,2% entre 60 e 74 anos e 36,9% acima de 75 anos, mais frequentes em mulheres, 33,0%, do que em homens, 22,3%. Num inquérito com 6.616 idosos de cem municípios de 23 estados, a prevalência de quedas foi de 27,6% e 11% dos entrevistados relataram fratura decorrente da queda.

A incidência brasileira medida está no protocolo de osteoporose de 2025: numa cidade do sul do país, entre 2010 e 2012, houve 268 internações por fratura de quadril por 100.000 mulheres e 153 por 100.000 homens ao ano. É uma razão de 1,75 entre mulheres e homens, coerente com os 75% da diretriz de 2018 e com o que qualquer enfermaria de ortopedia mostra.

A mortalidade é o número que muda a conversa com a família, e ele é alto. A diretriz de 2018 registra 5% a 10% de mortalidade em trinta dias e 15% a 30% no primeiro ano. O consenso da sociedade de ortopedia, um ano depois, escreve aproximadamente 9,6% em trinta dias e cerca de 30% em um ano. O protocolo de osteoporose de 2025 aborda o mesmo fato por outro ângulo e fala em aumento da taxa de mortalidade de 12% a 20% nos dois anos seguintes à fratura. A revisão brasileira do Instituto de Ortopedia e Traumatologia da Universidade de São Paulo, com 24.062 pacientes, encontrou 5,5% durante a internação, 19,2% em um ano e 24,9% em dois anos.

Vale ler esses números com cuidado, porque eles não dizem que a fratura mata. A fratura acontece em quem já estava perto do limite, e o que a série mostra é que o ano seguinte a uma fratura de quadril é um ano de risco. A mesma revisão brasileira identificou quatro fatores associados a maior mortalidade — idade avançada, número grande de doenças associadas, sexo masculino e presença de déficit cognitivo — e o interno reconhece nessa lista o retrato de quem lhe dá mais trabalho na enfermaria.

O desfecho que a família pergunta, porém, não é a morte. É se a mãe vai voltar a andar. A revisão brasileira registra que, em estudos recentes à época, pacientes idosos com fratura do fêmur proximal recuperaram a capacidade prévia de realizar as tarefas diárias em apenas 17% das vezes após quatro meses, e somente 43% readquiriram a capacidade anterior de deambulação. É esse par de números que o interno precisa ter na cabeça quando a filha perguntar, e não a mortalidade.

Há por fim o volume, que explica por que essa é uma doença de interno e não de subespecialista. No Instituto Nacional de Traumatologia e Ortopedia, em 2015, foram feitas 281 cirurgias para tratamento de fraturas em idosos; 40 delas, ou 14,23%, foram fraturas do colo do fêmur, sendo 12 artroplastias do quadril e 28 osteossínteses. Os três números fecham entre si e com a repartição por complexidade declarada na mesma frase, e a conferência está na nota 3. Fora dos institutos de referência, essa cirurgia acontece em hospital geral, com o interno cuidando das horas entre a queda e a sala.

04

Por que acontece o que acontece

O fêmur proximal é uma alavanca curta submetida a carga alta, e a sua irrigação é contraintuitiva. A cabeça femoral recebe sangue sobretudo por vasos que sobem pelo colo, por fora do osso, dentro de pregas da cápsula articular. Quando o colo quebra e os fragmentos se desviam, esses vasos são estirados ou rompidos, e a cabeça pode perder a sua fonte de sangue. É por isso que a fratura desviada do colo se trata substituindo a cabeça, e não a fixando: o problema não é só a linha de fratura, é a circulação que ela cortou.

A fratura transtrocantérica quebra osso esponjoso bem irrigado, fora da cápsula, e consolida quando é fixada. Em compensação ela sangra. A diretriz brasileira registra que a fratura do colo tem o sangramento parcialmente contido pela cápsula articular, o que não acontece nas transtrocantéricas e subtrocantéricas, em que o hematoma a partir do foco pode envolver perda superior a um litro de sangue. Um litro num corpo de 58 quilos é perto de um quinto da volemia, e ele se aloja na coxa sem qualquer sinal externo além de um edema que ninguém mede.

Guarde a consequência prática, porque ela é a diferença clínica mais importante entre as duas fraturas para quem não vai operar. A senhora com fratura do colo chega com dor e sinais vitais que costumam ser os dela. O senhor com fratura transtrocantérica pode chegar hipovolêmico sem parecer, especialmente se usa betabloqueador, que impede a taquicardia de aparecer, e se a pressão habitual dele era 160 e agora está 120. A anemia pré-operatória ocorre em cerca de 40% dos pacientes com fratura do quadril, e a diretriz lista entre as causas a própria fratura.

A queda que produz essas fraturas é de baixa energia: a pessoa cai da própria altura, no banheiro, na cozinha, ao sentar-se. Osso normal não quebra assim. Quando quebra, a fratura é o primeiro sintoma de uma doença óssea que já existia, e a segunda fratura fica muito mais provável do que a primeira era. O que fazer com essa informação é assunto do capítulo de osteoporose pós-menopausa, da apostila de Ginecologia; o que este capítulo faz é garantir que a informação não se perca na alta.

O motor de tudo o que vem depois é a imobilidade forçada pela dor. Um idoso deitado, com dor que impede virar-se, entra em poucas horas numa cascata conhecida: hipoventilação de bases, estase, pontos de pressão sem alívio, desidratação por não conseguir alcançar o copo, constipação, e um sensório que oscila. A diretriz brasileira lista exatamente esses riscos ao justificar a cirurgia precoce — pneumonia, lesão por pressão, dificuldade de mobilização no leito, delirium e aumento da mortalidade. O relógio importa porque cada uma dessas coisas se acumula por hora, não por dia.

O jejum acrescenta um mecanismo próprio a essa cascata. Em menos de vinte e quatro horas de dieta suspensa o glicogênio hepático se esgota, a gliconeogênese é ativada e a proteína muscular passa a ser consumida para produzir glicose. Num idoso de 58 quilos com massa muscular já reduzida, o custo desse catabolismo é a própria musculatura que vai precisar levantá-lo da cama depois da cirurgia. É por isso que jejum prolongado sem motivo não é um incômodo: é uma perda que a fisioterapia do pós-operatório terá de recuperar.

A dor tem um mecanismo duplo neste capítulo, e é o que explica a preferência da régua brasileira. Dor não controlada é um dos gatilhos mais reconhecidos de delirium no idoso; e as drogas com que se costuma controlá-la — opioide sistêmico, e sobretudo qualquer sedativo — são outro gatilho. A saída é anatômica em vez de farmacológica: a área da fratura proximal do fêmur é suprida pelos nervos femoral, isquiático, obturatório, cutâneo femoral lateral e subcostal, e injetar anestésico local no compartimento da fáscia ilíaca ou junto do nervo femoral interrompe a dor sem tocar no sensório. A diretriz registra, citando a AAOS, redução significativa da dor pré-operatória e redução da incidência de delirium pós-operatório com essa manobra, e é a recomendação de analgesia à qual o documento atribui a força mais alta de todas.

Por fim, o mecanismo da fratura que não aparece. Uma fratura sem desvio pode ter uma linha trabecular fina, orientada de tal maneira que fica escondida pela sobreposição do colo com o trocanter menor na radiografia. Girar o membro 10 graus para dentro coloca o colo do fêmur paralelo à mesa e apaga essa sobreposição, o que é a razão de existir a terceira incidência. Quando ainda assim a radiografia é normal e a clínica insiste, a fratura oculta responde por 3% a 9% dos casos, e a diretriz observa que parte dessa variação vem de radiografia inicial feita com padrão inadequado.

Esquemas de fratura intracapsular do colo femoral e extracapsular intertrocantérica.
Comparação anatômica de fratura do colo femoral intracapsular, à esquerda, e fratura intertrocantérica extracapsular, à direita. Na primeira, o desvio pode lesar vasos retinaculares e comprometer a cabeça femoral. Na segunda, pode haver sangramento importante em partes moles. Os volumes desenhados são ilustrativos e não quantificam hemorragia.
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Como se apresenta de verdade

O retrato completo da fratura de quadril é fácil e engana pela facilidade. O problema é que ele aparece inteiro em uma parte dos casos, e a outra parte chega sem ele — e é justamente nessa outra parte que o interno perde tempo. O que vem abaixo percorre as formas em que essa fratura chega ao pronto-socorro, da mais evidente àquela que ninguém identificou.

Uma advertência de exame físico antes de começar. Não existe manobra de mobilidade do quadril que valha a pena nesse paciente. Rodar o quadril para ver se dói, testar amplitude, sentar o paciente para avaliar melhor: tudo isso produz dor severa, pode desviar uma fratura que não estava desviada e não acrescenta nada que a radiografia não vá dizer melhor em quinze minutos. O exame que se faz é o que não dói: inspeção, palpação delicada, pulso e perfusão distais, sensibilidade e motricidade do pé, pele em todos os pontos de apoio, e o exame clínico geral inteiro, que é onde estão as respostas que mudam conduta.

Aprender para cuidar no internato. Organizar analgesia, cirurgia precoce, prevenção de complicações e recuperação funcional do idoso. Ao discutir o caso com o preceptor, explicite os achados que sustentam a hipótese, uma alternativa relevante, a decisão que precisa ocorrer agora e o que fará mudar o plano. O resultado esperado é uma ação clínica justificada e acompanhada, além de reconhecer o diagnóstico.

O retrato clássico: encurtamento, rotação externa e a impossibilidade de levantar

Idoso que cai da própria altura, não consegue mais ficar de pé e fica deitado com o membro visivelmente mais curto e o pé virado para fora. O encurtamento vem da tração dos músculos que atravessam o foco quando ele perde continuidade; a rotação externa vem do peso do próprio membro somado ao desequilíbrio muscular. A dor é referida na virilha, na face lateral do quadril, ou — e isto engana muito — na face medial da coxa e no joelho, porque a articulação do quadril e o joelho compartilham inervação.

Aprenda a dor referida no joelho como um item de rotina, não como curiosidade. Idoso que caiu e reclama de dor no joelho merece exame do quadril e radiografia do quadril, e não uma radiografia de joelho normal que fecha o atendimento e devolve para casa alguém que não vai conseguir levantar amanhã.

Nesse retrato completo, o diagnóstico é clínico e a radiografia é confirmatória. Isso tem uma consequência de relógio: a analgesia não espera a radiografia. Peça o exame e trate a dor no mesmo minuto, porque a fila do raio-X não é motivo clínico para manter alguém com dor 9 de 10.

Colo ou transtrocantérica: o que dá para dizer antes do raio-X, e o que não dá

Do lado de fora as duas se parecem, e a tentativa de distingui-las pelo exame gasta tempo sem resolver. A distinção é radiográfica, e é o raio-X que a faz em minutos. Ainda assim, dois sinais inclinam a suspeita e mudam o que você faz enquanto espera. A transtrocantérica costuma dar rotação externa mais acentuada, dor e edema mais laterais, sobre a região do trocânter, e às vezes equimose que aparece depois de algumas horas na face lateral da coxa.

O sinal que importa de verdade, porém, não é anatômico: é hemodinâmico. Diante de suspeita de fratura extracapsular, presuma perda de sangue e trate como tal — acesso venoso calibroso, hidratação criteriosa, hemograma seriado, e não se tranquilize com uma frequência cardíaca de 78 em quem toma metoprolol. A régua brasileira é explícita quanto à origem desse sangramento e ao volume que ele pode alcançar.

Uma fratura sem desvio, chamada de impactada, pode não dar encurtamento nem rotação. O paciente às vezes chega andando com apoio, mancando, com dor apenas na virilha ao carregar peso. Ela é fratura, é cirúrgica, e desviar-se enquanto o paciente anda com ela é exatamente o que se quer evitar.

A fratura oculta: quando a radiografia é normal e o paciente não levanta

Essa é a apresentação que produz erro grave, e ela tem um retrato próprio. Idoso que caiu, tem dor na virilha, não consegue apoiar o peso ou fica de pé com dor intolerável, e cuja radiografia foi lida como normal. A prevalência estimada de fratura oculta do colo do fêmur é de 3% a 9%, e a diretriz brasileira observa que o atraso no diagnóstico está invariavelmente associado a piores resultados clínicos.

A primeira pergunta diante de uma radiografia normal não é qual exame pedir agora. É se a radiografia foi feita direito. A régua exige três incidências: panorâmica da bacia em anteroposterior, perfil do quadril em incidência transversal com o paciente deitado, e anteroposterior do quadril com 10 graus de rotação interna do membro. Sem a terceira, a sobreposição do colo esconde a linha, e a sensibilidade declarada para a radiografia bem feita, de 90% a 98%, não se aplica.

Reconheça também o que é evidência clínica de fratura ainda que a imagem seja normal: incapacidade de elevar o calcanhar do leito com o joelho estendido, dor à percussão suave do calcanhar transmitida ao quadril, e dor na virilha à rotação passiva mínima. Nenhuma delas é sinal patognomônico; todas justificam continuar investigando em vez de dar alta.

O paciente com fratura oculta não vai para casa com analgésico e retorno. Ele fica, mantém a analgesia, e a investigação continua pelo caminho descrito no bloco de investigação.

O idoso que não conta: demência, delirium e o paciente que apenas parou de andar

Uma parte dos idosos com fratura de quadril não relata queda, não localiza dor e não coopera com o exame. Pode ser demência prévia, pode ser delirium instalado, pode ser afasia. O que a família traz é uma frase: ele parou de andar. Ou: ela não quer sair da cama desde ontem. Em quem já tinha marcha e perdeu-a de um dia para o outro, fratura de quadril entra na primeira linha da lista, mesmo sem história de queda.

Nesse paciente, procure sinais que não dependem do relato: assimetria de comprimento e de rotação com o paciente relaxado, careta ou gemido à mobilização passiva mínima de um lado e não do outro, equimose, e recusa consistente de apoiar um lado. Interrogue quem cuida, não só quem acompanhou até o hospital, e pergunte pela última vez em que a pessoa foi vista de pé.

Aqui vale uma inversão de raciocínio que economiza dias de internação. Diante de um idoso com demência que fica agitado sem causa aparente, a dor não diagnosticada é uma das primeiras coisas a procurar, e a fratura de quadril é uma das dores que mais passam despercebidas. A investigação e o manejo do delirium propriamente dito são do capítulo Delirium no paciente internado, da apostila de Síndromes do Paciente Internado; a este capítulo cabe a fratura como causa.

O que veio antes da queda: a fratura como consequência, não como acidente

Toda queda de idoso tem uma pergunta atrás dela: por que caiu. Escorregou no chão molhado é uma resposta suficiente. Não lembro, ou estava indo ao banheiro e escureceu tudo, não é. Perda de consciência antes da queda muda o atendimento inteiro, porque o paciente passa a ter dois problemas e o segundo pode matar antes do primeiro.

As perguntas cabem em um minuto e você as faz enquanto a analgesia faz efeito. Houve aviso — tontura, escurecimento visual, palpitação, dor no peito, falta de ar? Houve perda de consciência, e por quanto tempo? Alguém viu? Houve liberação esfincteriana ou movimento anormal? Havia febre, tosse ou disúria nos dias anteriores? Mudou algum remédio na última semana? Tomou a medicação de pressão em jejum ou tomou duas vezes?

Duas causas merecem busca ativa mesmo com história pouco sugestiva, porque são frequentes e tratáveis: hipoglicemia, medida com glicemia capilar em todo idoso que cai, e infecção, sobretudo urinária e respiratória, que em idoso se manifesta como queda e confusão antes de se manifestar como febre. Um eletrocardiograma faz parte da rotina pré-operatória de qualquer forma, e ele responde parte da pergunta sem custo de tempo.

A queda que acontece com o paciente já internado tem investigação e prevenção próprias, e são do capítulo Queda do paciente internado, da apostila de Síndromes do Paciente Internado. A revisão da lista de medicamentos que derruba idoso — polifarmácia e os critérios que a organizam — é da apostila de Geriatria, no capítulo que trata de polifarmácia. Aqui a lista entra apenas como pergunta de anamnese.

O paciente inteiro: o que examinar em quem não pode ser mobilizado

A fratura prende a atenção e o resto do corpo fica sem exame. Faça o contrário: examine tudo o que não exige mobilizar o quadril, e faça isso na primeira passagem, porque depois o paciente vai estar na fila do raio-X, do centro cirúrgico ou dormindo.

A cabeça, porque idoso que cai bate a cabeça mais do que conta, e porque muitos usam anticoagulante. Pergunte e procure: hematoma em couro cabeludo, laceração, escoriação, e reveja o nível de consciência de base com quem convive com ele. O tórax, porque a mesma queda quebra costela e produz derrame e contusão pulmonar que vão aparecer no segundo dia. O abdome, superficialmente. O membro superior homolateral, porque fratura de punho e de úmero proximal acompanham a de quadril com frequência e passam sem diagnóstico enquanto todos olham a perna.

A pele inteira, com atenção ao sacro, aos calcâneos, aos trocânteres e à região occipital, e o registro do que já estava vermelho na chegada. Não é burocracia: quem passou três horas no chão de casa antes de ser encontrado pode chegar com lesão por pressão já em curso, e o que não estiver escrito na admissão será atribuído à sua enfermaria. O estadiamento, a prevenção e o curativo dessas lesões são do capítulo Lesão por pressão no paciente internado.

Por fim, a função anterior — que não é exame físico, é anamnese, e decide mais do que qualquer achado. Ela andava sozinha, com bengala, com andador, ou não andava? Saía de casa, ia à padaria, participava da vida do bairro, ou circulava só dentro de casa? Fazia as próprias contas, tomava os próprios remédios? Mora com quem, e quem estaria disponível para cuidar? Essas quatro respostas entram na decisão sobre o tipo de artroplastia, na decisão de destino após a alta e na conversa com a família, e são difíceis de obter depois que o paciente entra em delirium.

06

Como fechar o diagnóstico

A investigação da fratura de quadril tem uma característica que a distingue de quase todo outro capítulo do internato: aqui, pedir exame a mais é um dano mensurável, porque cada exame consome horas de um prazo que é a própria conduta. A régua nacional diz, em duas frases separadas, que o ecocardiograma não deve ser motivo para postergar a cirurgia e que o bloqueio de nervo não deve ser usado para retardá-la. As duas frases existem porque as duas coisas acontecem.

O que segue está organizado pela pergunta que cada exame responde. Um exame que não responde a nenhuma pergunta desta lista não entra no pedido de hoje.

A radiografia certa, que são três incidências e não duas

A régua nacional pede, para suspeita de fratura do colo do fêmur: panorâmica da bacia em anteroposterior, perfil do quadril acometido obtido com o paciente deitado e o feixe atravessando a mesa, e anteroposterior do quadril com o membro em 10 graus de rotação interna. A panorâmica de bacia serve para procurar outros sítios de lesão, que num idoso que caiu é uma preocupação real. O perfil informa o desvio no plano que a incidência de frente não mostra.

A terceira incidência é a que quase sempre falta, e é a que mais rende. Girar o membro 10 graus para dentro deixa o colo do fêmur paralelo à mesa e reduz a sobreposição com o trocanter menor; a diretriz registra que essa incidência aumenta a acurácia, e associa a ela a sensibilidade de 90% a 98% atribuída à radiografia do quadril. Peça-a pelo nome no pedido, porque o técnico faz o que está escrito.

Uma observação de humanidade e de qualidade ao mesmo tempo: essa rotação interna dói muito num quadril fraturado. Faça a analgesia antes de mandar o paciente para o raio-X, e não depois. Paciente com dor não colabora com o posicionamento, o exame sai ruim, e você acaba pedindo outro.

Se a radiografia mostra a fratura, a investigação de imagem terminou. Não há papel para tomografia ou ressonância em fratura já visível na radiografia — quem precisar de imagem adicional para planejamento cirúrgico é o ortopedista, e ele pede.

Radiografia normal com clínica persistente: a escada de imagem, do ideal ao possível

A ressonância magnética é o método de escolha para a fratura oculta. A diretriz brasileira registra, citando o NICE, sensibilidade de 100% e especificidade entre 93% e 100%, esta última dependendo da experiência de quem interpreta. As contraindicações práticas são as de sempre: implante metálico incompatível, marca-passo e claustrofobia que impeça o exame.

Quando a ressonância não está disponível, a régua brasileira acompanha o NICE e indica tomografia computadorizada nas primeiras vinte e quatro horas, explicitamente para evitar o retardo da cirurgia — e registra que a AAOS não recomenda tomografia, por baixa qualidade dos estudos e exposição à radiação. As duas posições estão no mesmo documento, e o texto brasileiro escolhe a do NICE. Num hospital brasileiro com tomógrafo e sem ressonância, essa escolha é a que se aplica.

A cintilografia óssea tem acurácia próxima da ressonância, mas exige esperar setenta e duas horas para evitar falso-negativo, o que consumiria mais tempo do que o prazo inteiro da cirurgia; e a diretriz observa que ela não costuma estar disponível na maior parte dos hospitais de emergência brasileiros. A ultrassonografia tem sensibilidade de 100% contra a ressonância, mas especificidade de 65% — de cada cem exames positivos, trinta e cinco seriam de pacientes sem fratura — e a diretriz registra que não a indica por não ser técnica disseminada nem haver número satisfatório de profissionais habilitados a interpretá-la.

Existe ainda uma alternativa escrita na régua para serviços sem ressonância e sem tomografia, e ela merece leitura atenta, porque é a recomendação mais desconfortável do documento: mobilização com bloqueio de nervo, com manobras de tração e rotação interna e externa, associada à radiografia simples. O bloco de divergências apresenta as duas leituras possíveis dessa frase, sem eleger vencedora.

Os exames de sangue que a régua pede — e os que ela deixa de fora

A rotina que a diretriz determina é enxuta e vale a pena decorá-la, porque o excesso é o que atrasa. Perfil eletrolítico, hemograma e ureia plasmática de rotina. Creatinina como rotina pré-operatória para todos os pacientes — e o motivo é prognóstico, não só renal: a diretriz registra que creatinina elevada no primeiro dia de pós-operatório aumentou significativamente a chance de morte, enquanto os valores pré-operatórios e os do quarto dia não foram preditores. Albumina apenas quando a avaliação clínica indicar.

O estudo da coagulação e a radiografia de tórax, diz o texto, só se justificam quando clinicamente indicados. Isso contraria a rotina de muitos serviços, que pede coagulograma e tórax em todo pré-operatório, e é uma economia de horas quando o laboratório é lento.

Guarde três números da diretriz sobre quem é esse paciente, porque eles justificam a rotina: cerca de 40% dos pacientes com fratura do colo do fêmur têm disfunção renal, 35% têm uma comorbidade e 17% têm duas, e o comprometimento cardiovascular está presente em 35% dos casos. Anemia pré-operatória ocorre em aproximadamente 40%.

Sobre a albumina, a diretriz traz um dado que serve para a conversa com a família e para o pedido de acompanhamento nutricional: cada 1 g/dL a mais de albumina sérica na alta associou-se a melhora de 8,4% na medida de independência funcional após a reabilitação. É associação, não é efeito de intervenção — mas identifica quem vai precisar de mais suporte.

O eletrocardiograma, o ecocardiograma e a armadilha da avaliação cardiológica

O eletrocardiograma é de rotina e sai rápido; peça-o na admissão. Ele também responde parte da pergunta sobre o que causou a queda.

O ecocardiograma é a armadilha. A régua nacional restringe-o a três situações — dispneia em repouso, dispneia a pequenos esforços ou suspeita de estenose aórtica — e acrescenta, na mesma frase, que a sua realização não deve ser motivo para postergar a cirurgia. Vale a pena repetir por escrito no prontuário quando você não pedir: a ausência de indicação é uma decisão, e ela precisa estar registrada com o nome de quem a tomou.

A avaliação pré-operatória completa e a estratificação de risco cirúrgico são do capítulo A avaliação pré-operatória, da apostila de Pré e Pós-operatório. O que este capítulo acrescenta é o eixo do tempo: numa cirurgia de urgência com prazo de quarenta e oito horas, a estratificação serve para preparar o paciente, não para decidir se ele opera. As poucas condições que autorizam adiar estão na tabela principal do bloco de critérios, e elas são específicas.

Sobre antiagregantes, a régua é direta e contraria o hábito: o uso de aspirina e de clopidogrel não deve ser justificativa para postergar a cirurgia, e a AAOS avaliou seis estudos que não mostraram diferença entre atrasar e não atrasar em pacientes com terapia antiplaquetária. Quem estiver anticoagulado tem a conduta anestésica balizada pelos protocolos da droga em uso, o que é decisão do anestesista, não motivo automático de adiamento.

Investigar a causa da queda sem parar o relógio

Há uma tensão real entre investigar a síncope e operar em quarenta e oito horas, e ela se resolve por prioridade e não por sequência. Investigue agora o que é rápido, barato e potencialmente letal: glicemia capilar, eletrocardiograma, eletrólitos e função renal, hemograma, e exame de urina se houver qualquer sintoma. Isso já está na rotina pré-operatória, e portanto não custa hora nenhuma.

O que fica para depois da cirurgia é a investigação eletiva: monitorização prolongada de ritmo, ecocardiograma sem as três indicações, teste de inclinação, imagem de crânio sem trauma e sem alteração neurológica focal. Nenhum desses exames muda o que se faz nas próximas quarenta e oito horas, e todos eles atrasam.

A exceção é o trauma de crânio com anticoagulação ou com alteração de consciência, que sai da lógica deste capítulo e entra na do trauma: aí a tomografia de crânio é prioridade sobre tudo, inclusive sobre o quadril.

Escreva no prontuário a hipótese sobre a causa da queda, ainda que seja mecânica. Isso importa porque a decisão de investigar mais tarde precisa sobreviver à troca de equipe: o que não estiver escrito na admissão não será feito na semana seguinte.

A avaliação funcional prévia é exame, e ela decide a cirurgia

É difícil convencer um interno de que a pergunta sobre a padaria da esquina é um exame complementar, mas neste capítulo ela é. A régua nacional determina que a escolha entre artroplastia total e artroplastia parcial, na fratura desviada do colo, dependa de três coisas do paciente e não da fratura: capacidade cognitiva — atenção, juízo, raciocínio, memória e linguagem; demanda funcional comunitária, isto é, se ele faz atividades fora de casa além das domésticas; e condições clínicas favoráveis.

Quem tem as três recebe artroplastia total. Quem tem demanda funcional apenas doméstica, capacidade cognitiva reduzida e condições clínicas favoráveis recebe artroplastia parcial. Quem coleta essa informação, na prática, é o interno na admissão, com a família presente — e a informação some quando o paciente entra em delirium no segundo dia.

Registre, com estas palavras, quatro respostas: como ele andava antes, com ou sem apoio; aonde ele ia sozinho; quem administra os remédios e o dinheiro dele; e com quem ele mora. A diretriz também indica avaliação de terapia ocupacional na internação, justamente para registrar o status funcional em atividades de vida diária e instrumentais antes da fratura.

Some a essa avaliação a nutricional, que a régua indica com instrumento nomeado, a Mini Avaliação Nutricional, validada para pacientes acima de 60 anos. A diretriz registra, citando a AAOS, que a suplementação nutricional reduz a mortalidade e melhora o estado nutricional de idosos com fratura do colo do fêmur — o que é mais um argumento contra manter esse paciente em jejum sem motivo.

07

O relógio, e quem tem direito de pará-lo

Tudo neste capítulo se organiza em torno de um prazo e de uma lista curta de exceções. O prazo é de quarenta e oito horas a partir da ocorrência da fratura, ele está escrito na régua nacional, e o próprio documento acrescenta que as duas diretrizes adaptadas apontam trinta e seis horas como alvo ideal. As exceções são sete e estão escritas com números. Tudo o que não estiver nessa lista — falta de vaga na sala, exame que ninguém indicou, parecer que ninguém pediu, jejum que ninguém cancelou — é atraso sem causa clínica, e a revisão brasileira citada no bloco de divergências dá a esse atraso um nome útil: adiamento de paciente sem patologia ativa. As quatro tabelas abaixo põem lado a lado o prazo, as exceções, a diferença entre as duas fraturas e as contas de medicamento. As notas que vêm depois delas guardam o resultado da conferência feita nos documentos oficiais: o que não fechou e, com o mesmo peso, o que fechou.

Como usar quadros e notas de fontes anteriores. Notas que transcrevem doses, prazos ou exigências de documentos antigos registram o conteúdo dessas fontes; não substituem a conduta clínica atualizada e individualizada neste capítulo. Separar indicação, dose, contraindicações, monitorização e acesso. Se houver divergência entre o documento histórico e a recomendação atual, discutir o protocolo vigente com a equipe antes de executar.

  1. 1Anote a hora da fratura, não a hora da chegada. O prazo da régua nacional conta a partir da ocorrência da fratura, e o tempo gasto em casa antes da ambulância já foi consumido. Escreva essa hora no prontuário e no pedido de avaliação da ortopedia.
  2. 2Trate a dor antes de qualquer exame. Analgésico simples primeiro — dipirona ou paracetamol — e reavaliação da intensidade da dor entre trinta e sessenta minutos depois. Enquanto o paciente estiver no pronto-socorro, a dor se reavalia de hora em hora.
  3. 3Peça o bloqueio de nervo femoral ou da fáscia ilíaca ao anestesista ou ao ortopedista, o mais cedo possível, em dose única ou infusão contínua. É a única recomendação de analgesia da régua nacional com força de recomendação forte, e ela reduz dor e delirium. O bloqueio não pode ser usado como motivo para retardar a cirurgia.
  4. 4Peça a radiografia em três incidências, com a terceira nomeada no pedido. Se ela mostrar a fratura, a imagem terminou. Se vier normal e a clínica insistir, siga a escada: ressonância; na falta dela, tomografia nas primeiras vinte e quatro horas.
  5. 5Presuma perda de sangue na suspeita de fratura transtrocantérica: acesso calibroso, hidratação criteriosa respeitando a função cardíaca, hemograma seriado, e desconfiança explícita de frequência cardíaca normal em quem usa betabloqueador.
  6. 6Rode a rotina que a régua pede e só ela: eletrólitos, hemograma, ureia, creatinina, eletrocardiograma. Albumina se indicada. Coagulograma e radiografia de tórax só se houver indicação clínica escrita. Ecocardiograma apenas nas três situações da régua, e nunca como motivo de atraso.
  7. 7Confira a lista das sete causas que autorizam adiar. Se o paciente tem uma delas, corrija-a com urgência e registre a causa e a meta. Se não tem nenhuma, escreva no prontuário que não há causa clínica para adiamento e que o paciente está apto — essa frase é o que move a fila.
  8. 8Cancele o jejum toda vez que a cirurgia for adiada, e reprograme-o para a nova previsão. Jejum é prescrição médica com hora de início e hora de fim, e ninguém além de você vai suspendê-lo.
  9. 9Colha a função prévia com a família presente: como andava, aonde ia sozinha, quem cuida dos remédios, com quem mora. Essas quatro respostas entram na escolha da cirurgia e na decisão de destino, e ficam impossíveis de obter depois que o delirium começa.
  10. 10Monte o pacote de prevenção de delirium desde a admissão, porque ele é feito de coisas que só quem está na enfermaria faz: dor tratada, óculos e aparelho auditivo no paciente, luz de dia e escuro à noite, hidratação, mobilização precoce, familiar presente, e revisão da prescrição procurando o que sedar.

As sete causas que a régua nacional aceita para adiar a cirurgia

Causa aceita para postergarComo a diretriz de 2018 a escreveO que fazer com ela, e em quanto tempo
AnemiaHemoglobina abaixo de 9 g/dL, ou abaixo de 10 g/dL na presença de coronariopatiaTransfundir com alvo definido e reavaliar após cada concentrado. Atenção: o mesmo documento tem outros dois gatilhos diferentes para transfusão — ver nota 5. O adiamento aqui é de horas, não de dias
Distúrbio grave de sódioSódio plasmático abaixo de 120 ou acima de 150 mmol/LCorrigir com a velocidade que a causa permite e operar assim que sair da faixa. Valores entre 120 e 150 não autorizam adiar por este item — ver nota 13
Distúrbio grave de potássioPotássio abaixo de 2,8 ou acima de 6,0 mmol/LCorrigir e reavaliar com eletrocardiograma. Fora dessa faixa estreita, o potássio não para o relógio
Diabetes descompensadoDiabetes melito descompensadaControle glicêmico e correção de cetoacidose ou estado hiperosmolar, que têm capítulos próprios. Glicemia isoladamente alta em paciente estável não é causa de adiamento
Insuficiência cardíaca aguda ou descompensadaFalência ventricular aguda ou não compensadaCompensar com a equipe clínica e reavaliar em horas. É aqui que o ecocardiograma pode entrar, e mesmo assim ele não deve ser o motivo do atraso
Arritmia com resposta ventricular altaArritmia cardíaca passível de correção com frequência ventricular acima de 120 por minutoControlar frequência ou reverter, conforme o ritmo. O documento escreve a unidade dessa frequência de modo defeituoso — ver nota 13
Infecção pulmonar com sepse, ou alteração reversível da coagulaçãoInfecção pulmonar com sepse; alteração reversível da coagulaçãoTratar a sepse e reverter o distúrbio de coagulação. Estas duas são as únicas causas da lista que costumam custar mais de um dia, e ambas exigem registro escrito da meta e da reavaliação

Colo do fêmur e transtrocantérica: o que muda para quem não vai operar

O que se comparaFratura do colo do fêmur (intracapsular)Fratura transtrocantérica (extracapsular)
Onde fica a linha de fraturaDentro da cápsula articular, entre a cabeça e a região trocantéricaFora da cápsula, entre o trocânter maior e o menor
Quanto sangraSangramento parcialmente contido pela cápsulaHematoma no foco pode envolver perda superior a um litro de sangue
O que está ameaçadoA circulação da cabeça femoral, estirada ou rompida quando há desvioA volemia do paciente, sem sinal externo proporcional ao volume perdido
O que o interno vigia mais de pertoDor, sensório e o prazo até a cirurgiaTudo isso mais frequência, pressão, diurese e hemoglobina seriada
O que a régua nacional determina sobre o tratamentoFratura sem desvio: osteossíntese. Fratura desviada: artroplastia, total ou parcial conforme cognição, demanda funcional e condições clínicasFora do escopo declarado do documento; o consenso da sociedade de ortopedia trata apenas da escolha entre haste cefalomedular longa e curta — ver notas 4 e 10
Frequência relativaCerca de metade das fraturas proximais do fêmur é intracapsularCerca de metade é extracapsular; com as subtrocantéricas somam-se de 5% a 10% de fraturas fora dos dois grupos principais

Analgesia e bloqueio num adulto de 58 kg: de mg para mL nas apresentações da Rename 2024

Medicamento e apresentação no elencoComponente de financiamentoA contaO que isso muda no plantão
Dipirona, solução injetável 500 mg/mLBásico1 g equivale a 2 mL. Um teto usual de 4 g ao dia são 8 mL, em quatro tomadas de 2 mLÉ o analgésico simples injetável do elenco, e por isso é o primeiro degrau em quem está em jejum
Dipirona, solução oral 500 mg/mLBásico1 mL equivale a 20 gotas e a 500 mg, ou seja, 25 mg por gota. Uma colher de sopa de 20 mL seriam 10 g, duas vezes e meia o teto diário inteiro numa tomada sóA unidade da prescrição precisa dizer gotas ou mililitros, porque a diferença entre as duas é de vinte vezes
Paracetamol, comprimido 500 mg e solução oral 200 mg/mLBásico1 g equivale a 2 comprimidos ou a 5 mL da soluçãoO elenco não traz forma injetável de paracetamol: em paciente que não pode deglutir, o analgésico simples disponível é a dipirona
Sulfato de morfina, solução injetável 10 mg/mLEspecializado, com o protocolo de dor crônica como documento norteador2 mg seriam 0,2 mL da ampola sem diluir. Diluindo 1 mL, que tem 10 mg, até 10 mL, obtêm-se 1 mg/mL, e 2 mg passam a ser 2 mLA régua manda reduzir a dose de opioide em pelo menos 50% no idoso; volumes de 0,2 mL não se medem com segurança em seringa de 1 mL, então dilua
Bupivacaína, solução injetável 2,5 mg/mL (0,25%) e 5 mg/mL (0,5%)BásicoA dose subaracnóidea de 5 a 12 mg da diretriz corresponde a 1,0 a 2,4 mL na concentração de 0,5%, ou 2,0 a 4,8 mL na de 0,25%O anestésico do bloqueio e da raquianestesia está no elenco; a leitura dessa faixa contra o limiar de volume citado na mesma seção está na nota 14
Cefazolina, qualquer apresentaçãoNão consta do elenco da Rename 2024Sem conversão possívelÉ o antibiótico que a própria diretriz nomeia para a profilaxia cirúrgica; a consequência prática está na nota 12
Ácido tranexâmico, comprimido 250 mgEstratégicoSem forma injetável no elencoO resumo oficial recomenda o ácido tranexâmico para reduzir sangramento em quem está em jejum pré-operatório, e a única forma do elenco é oral

Cálcio e vitamina D: o alvo escrito na diretriz contra os comprimidos que o elenco tem

Combinação de comprimidos do elencoCálcio elementar ao diaVitamina D ao diaDistância do alvo de 1.200 mg e 600 UI
Dois comprimidos de 1.250 mg (500 mg de cálcio) com 400 UI1.000 mg800 UICálcio a 83,3% do alvo; vitamina D a 133,3%
Um de 1.250 mg (500 mg de cálcio) com 200 UI, mais um de 1.500 mg (600 mg de cálcio) com 400 UI1.100 mg600 UIVitamina D exata; cálcio a 91,7% do alvo, 100 mg abaixo
Um de 1.250 mg (500 mg de cálcio) com 200 UI, mais um de fosfato tribásico (600 mg de cálcio) com 400 UI1.100 mg600 UIMesma distância da linha acima, com duas apresentações que raramente coexistem na mesma farmácia básica
Três comprimidos de 1.250 mg (500 mg de cálcio) com 200 UI1.500 mg600 UIVitamina D exata; cálcio 300 mg acima do alvo, com três tomadas ao dia
Qualquer combinação de até quatro comprimidos do elencoNenhuma acerta 1.200 mg e 600 UI ao mesmo tempo; a conta está na nota 15

Nota 1 — O portal do Ministério oferece duas entradas para o mesmo documento. A página de protocolos e diretrizes terapêuticas lista, entre os assuntos que começam com F, uma entrada chamada tratamento e diretrizes brasileiras e outra chamada linha de cuidado. As duas entregam a Portaria Conjunta nº 21, de 24 de setembro de 2018, com o mesmo anexo: mesmos consideranda, mesmo resumo executivo, mesmos três capítulos. A comparação foi feita palavra a palavra depois de normalizar espaço e hífen, porque comparar o texto extraído de dois PDF por soma de verificação acusa diferença mesmo quando não há nenhuma. Resultado: 94% de coincidência de palavras, 113 blocos divergentes, e todos eles são caixas de texto flutuantes que a extração colocou em ordens diferentes, mais quebras de linha dentro de endereços eletrônicos. Nenhuma dose, nenhum corte e nenhum prazo diferem. Quem procurar uma linha de cuidado da fratura de quadril nesse endereço recebe de volta a diretriz de tratamento.

Nota 2 — O resumo oficial de duas páginas perde uma palavra que muda a conduta. O anexo determina que, nas artroplastias e osteossínteses do quadril, seja realizada profilaxia medicamentosa, e que a profilaxia medicamentosa estendida após a alta dure de 28 a 30 dias. O resumo publicado pela Conitec escreve que a profilaxia medicamentosa é feita em todos os pacientes após a alta hospitalar por um período de 28 a 30 dias — sem a palavra estendida e sem a frase que determina a profilaxia intra-hospitalar. Lido isoladamente, o resumo diz que a profilaxia começa na alta. O próprio anexo, quatro linhas adiante, determina heparina de baixo peso molecular podendo começar na admissão. O mesmo resumo traz ainda um endereço eletrônico defeituoso para a versão completa: o nome do arquivo termina com o sufixo de outro documento colado ao dele, e o endereço não resolve.

Nota 3 — O que bateu na conferência dos números oficiais. A introdução da diretriz registra que, no Instituto Nacional de Traumatologia e Ortopedia, em 2015, foram feitas 281 cirurgias para fraturas em idosos, das quais 3,91% de alta complexidade e 96,09% de média complexidade, e que 40 delas, ou 14,23%, foram fraturas do colo do fêmur, sendo 12 artroplastias e 28 osteossínteses. As contas: 40 dividido por 281 é 14,235%, que arredonda para os 14,23% declarados; 3,91% mais 96,09% somam exatamente 100%; e 12 mais 28 são os 40 declarados. Os quatro números fecham. Também fecha a razão entre sexos: as 268 internações por 100.000 mulheres contra 153 por 100.000 homens do protocolo de osteoporose de 2025 dão 1,75, coerente com os 75% de mulheres que a diretriz de 2018 declara.

Nota 4 — O documento exclui do escopo metade das fraturas de que trata. A seção de escopo diz, com estas palavras, que se considera fora das diretrizes as pessoas com fraturas extracapsulares ou da cabeça do fêmur. Vinte e cinco páginas adiante, o mesmo documento informa que cerca de 50% das fraturas proximais do fêmur são extracapsulares. E o texto atravessa a própria fronteira em duas passagens: a seção de técnicas anestésicas recomenda bloqueio do nervo femoral com infiltração local e sedação leve para a fixação das fraturas transtrocantéricas; e a primeira recomendação do resumo executivo indica ressonância magnética para fratura oculta do quadril, termo que abrange as duas. A consequência para o interno é concreta: para a fratura transtrocantérica, que é metade do problema, o país tem recomendação anestésica e nenhuma linha de cuidado nacional.

Nota 5 — O gatilho de transfusão aparece de quatro maneiras incompatíveis no mesmo documento. O resumo executivo e a seção 2.6 dizem evitar transfusão quando a hemoglobina for maior ou igual a 8 g/dL, com força de recomendação alta. A seção 1.4 diz que a transfusão prévia deve ser considerada com hemoglobina menor que 9 g/dL, ou menor que 10 g/dL em portador de doença isquêmica cardíaca, e repete esses cortes na lista de causas aceitáveis de adiamento. O corpo da seção 2.6 diz que os estudos sugerem transfundir abaixo de 7 g/dL e avaliar caso a caso entre 7 e 9, com alvo entre 7 e 9. E o resumo do NICE, na mesma página, diz abaixo de 7, ou abaixo de 8 na doença coronariana aguda. Um paciente com hemoglobina 8,5 é, ao mesmo tempo, não transfundir pelo resumo executivo e transfundir pela seção 1.4.

Nota 6 — Duas durações para a mesma profilaxia. O resumo executivo determina profilaxia medicamentosa estendida após a alta por um período de 28 a 30 dias. A seção 2.7, no corpo do mesmo anexo, determina profilaxia farmacológica contínua durante 28 a 35 dias. A diferença é de cinco dias no limite superior, e ela decide se o paciente recebe cinco caixas ou quatro na receita de alta. O detalhe do regime de tromboprofilaxia — droga, dose, início e suspensão em torno da cirurgia — é do capítulo Duas contas que não se somam, da apostila de Pré e Pós-operatório. O que fica aqui é a divergência de prazo entre duas seções do mesmo documento vigente, e o registro de que a régua brasileira da fratura de quadril não a resolve.

Nota 7 — Uma afirmação da diretriz sobre outro protocolo deixou de ser verdadeira. A seção de osteoporose da diretriz de 2018 afirma que o ácido zoledrônico não está indicado pelo protocolo de osteoporose do Brasil, por insuficiência de evidências de superioridade aos demais bisfosfonatos. O protocolo de osteoporose vigente, aprovado pela Portaria Conjunta SAES/SECTICS nº 22, de 22 de outubro de 2025, inclui o ácido zoledrônico entre os medicamentos do protocolo, com indicação para pacientes com intolerância ou dificuldade de deglutição dos bisfosfonatos orais, em dose de 5 mg por via intravenosa uma vez ao ano, e registra que essa avaliação está no Relatório de Recomendação nº 741, de junho de 2022 — quatro anos depois da diretriz. O mesmo protocolo passa a preconizar o pamidronato apenas quando o zoledrônico estiver indisponível ou contraindicado.

Nota 8 — A série de mortalidade da revisão brasileira não pode ser lida como progressão. As taxas médias que o resumo do artigo apresenta são 5,5% durante a internação, 4,7% em um mês, 11,9% em três meses, 10,8% em seis meses, 19,2% em um ano e 24,9% em dois anos. Duas passagens são impossíveis numa mortalidade acumulada, em que ninguém volta a estar vivo: de 5,5% para 4,7% entre a internação e o primeiro mês, uma queda de 0,8 ponto percentual; e de 11,9% para 10,8% entre três e seis meses, uma queda de 1,1 ponto. A explicação é metodológica — cada ponto de tempo é uma média de conjuntos diferentes de estudos, com populações diferentes —, e é justamente por isso que a série não descreve a trajetória de uma coorte. Use os extremos, 5,5% na internação e 19,2% em um ano, e não a curva.

Nota 9 — O que a série brasileira de jejum sustenta, e o que ela não sustenta. O estudo do Hospital Regional do Cariri acompanhou todas as placas de dieta zero de julho de 2014 a junho de 2015, adotou como inadequado o jejum superior a 12 horas, e identificou que o maior percentual de pacientes em dieta zero era para cirurgia e exames. No texto sobre 2015 aparecem os valores de 122 horas em maio e 46 horas e 20 minutos em junho, remetendo a um gráfico intitulado média de tempo de dieta zero. O primeiro desses valores equivale a mais de cinco dias, o que não é plausível como média de um serviço inteiro; o artigo não informa o número de placas por mês, de modo que o valor pode ser um máximo rotulado como média ou um erro de digitação. O que a fonte sustenta é a régua de 12 horas e a ordem dos motivos, não um tempo médio de jejum brasileiro.

Nota 10 — O consenso da sociedade de ortopedia sobre a fratura transtrocantérica está montado sobre o dossiê de outra pergunta. O item 57 dos Consensos Brasileiros de 2019 pergunta se, na fratura transtrocantérica instável, a fixação com haste cefalomedular longa protege o fêmur de fraturas subsequentes, e responde numa frase que as evidências disponíveis sugerem não haver diferença entre haste longa e curta, com nível de evidência V. Abaixo dessa frase, a introdução começa dizendo que os cistos ósseos solitários são cavidades benignas contendo líquidos, e o resto da seção é o dossiê de tratamento de cisto ósseo unicameral em crianças: curetagem, enxerto de medula óssea, injeção de corticosteroide. Contagem no trecho inteiro do item, 16.293 caracteres: 17 ocorrências da palavra cisto, duas de cefalomedular e uma única de transtrocantérica, que é a do próprio título.

Nota 11 — O risco de fratura ao longo da vida está com os sexos trocados. O mesmo consenso de 2019 escreve que se estima o risco de fratura de quadril ao longo da vida em 23,3% para homens e 11,2% para as mulheres. Os dois números estão certos e a atribuição está invertida, e três fontes deste capítulo mostram isso sem sair do Brasil: a diretriz de 2018 registra que 75% dessas fraturas ocorrem em mulheres; o protocolo de osteoporose de 2025 traz 268 internações por 100.000 mulheres contra 153 por 100.000 homens ao ano; e o próprio parágrafo do consenso, três linhas acima, descreve a fratura como doença do envelhecimento com predomínio feminino. Um risco vitalício duas vezes maior em homens seria incompatível com uma casuística de três quartos de mulheres.

Nota 12 — Três ausências no elenco nacional que mudam o que se prescreve. Buscando termo exato no texto da Rename 2024, depois de normalizar espaço e hífen: cefazolina tem zero ocorrências, embora seja o antibiótico que a própria diretriz nomeia para a profilaxia cirúrgica, com 2 g até 60 minutos antes da incisão. Paracetamol consta apenas como comprimido de 500 mg e solução oral de 200 mg/mL, sem forma injetável, de modo que o analgésico simples de quem está em jejum é a dipirona. De ácido tranexâmico, o elenco traz um único item, o comprimido de 250 mg do componente estratégico, embora o resumo oficial o recomende para reduzir sangramento no perioperatório. Antimicrobiano e hemostático de uso hospitalar chegam ao hospital por outras vias que não os componentes ambulatoriais da Rename, mas quem escreve a prescrição precisa saber que não pode contar com a farmácia básica para nenhum dos três.

Nota 13 — A lista de causas de adiamento tem valores que não pertencem a classe nenhuma e uma unidade defeituosa. Os cortes escritos são sódio menor que 120 ou maior que 150 mmol/L e potássio menor que 2,8 ou maior que 6,0 mmol/L. Um sódio de exatamente 120, ou um potássio de exatamente 6,0, não satisfazem nenhuma das duas desigualdades e portanto não autorizam adiar por esta lista, ainda que sejam clinicamente idênticos a 119,9 e 6,1. Na mesma lista, a arritmia é escrita como frequência ventricular maior que 120 min, sem a barra que a transformaria em batimentos por minuto; e a hemoglobina aparece grafada como 9 g/dl-1, notação que, lida ao pé da letra, multiplica em vez de dividir. Nenhum desses três é ambíguo na prática clínica, mas todos os três estão errados no papel que rege autorização e ressarcimento.

Nota 14 — A faixa de dose da raquianestesia e o limiar de volume citado logo abaixo dela não conversam. A diretriz indica bupivacaína isobárica entre 5 e 12 mg na maioria dos casos. Convertendo para as concentrações do elenco: 5 mg são 1,0 mL a 0,5% e 12 mg são 2,4 mL na mesma concentração. No parágrafo seguinte, o documento cita um estudo com 1.131 pacientes em que o volume superior a 1,5 mL associou-se a hipotensão em 83,9% dos casos, contra 26,8% com volume igual ou inferior a 1,5 mL. O teto da faixa recomendada equivale a 1,6 vez esse limiar. A ressalva honesta é que a faixa se refere à solução isobárica e o estudo do limiar usou solução hiperbárica; o documento não faz essa ressalva e põe os dois números em parágrafos consecutivos.

Nota 15 — O alvo de cálcio e vitamina D da diretriz não é alcançável com os comprimidos do elenco. A diretriz aconselha suplementação de 1.200 mg de cálcio e 600 UI de vitamina D. A Rename 2024 traz, no componente básico, carbonato de cálcio isolado com 500 mg de cálcio elementar; carbonato com 500 mg de cálcio mais 200 UI; carbonato com 500 mg de cálcio mais 400 UI; carbonato com 600 mg de cálcio mais 400 UI; e fosfato tribásico com 600 mg de cálcio mais 400 UI. Percorrendo todas as combinações de até quatro comprimidos por dia, nenhuma entrega 1.200 mg de cálcio e 600 UI simultaneamente. As que acertam a vitamina D entregam 1.000, 1.100 ou 1.500 mg de cálcio; a combinação mais simples, dois comprimidos iguais de 500 mg com 400 UI, entrega 83,3% do cálcio e 133,3% da vitamina D do alvo.

Nota 16 — A recomendação e a evidência que a sustenta contam a partir de relógios diferentes. A recomendação escrita determina evitar ultrapassar período superior a 48 horas a partir da ocorrência da fratura. No mesmo capítulo, a evidência citada da AAOS diz que a cirurgia realizada até 48 horas após a internação está associada a melhores resultados. Ocorrência da fratura e internação são dois marcos zero diferentes, e a distância entre eles é justamente o tempo que o idoso passa no chão de casa, esperando a família decidir, e depois na ambulância e na triagem. Adotar o marco mais exigente, que é o da recomendação, encurta o prazo real disponível e é o que este capítulo faz. A mesma frase aparece duas vezes no resumo executivo, uma com força de recomendação moderada e outra com força moderada a baixa.

Nota 17 — O opioide é degrau e proibição no mesmo documento, e o efeito adverso da dipirona está escrito ao contrário. A seção 1.3 descreve o bloqueio de nervo como recurso para quando os analgésicos simples e os opioides não forem suficientes, o que coloca o opioide como segundo degrau. A seção 1.4 determina que a utilização de opioide não é recomendada, por depressão sensorial e respiratória, e acrescenta que, quando utilizado, deve ter a dose reduzida em pelo menos 50%. Na mesma seção 1.3, o texto justifica o uso brasileiro da dipirona dizendo que ela não é comercializada nos Estados Unidos e na Europa por ter como evento adverso a granulocitose. O evento que motivou aquelas retiradas é a agranulocitose, que é o oposto: ausência de granulócitos, e não excesso.

Nota 18 — O que a régua nacional simplesmente não cobre. Busca por termo exato no anexo inteiro de 111 páginas: jejum aparece zero vez; sonda vesical e cateter vesical, zero vez; as classificações de Garden e de Pauwels, que organizam a fratura do colo em todo livro-texto, zero vez — o documento divide as fraturas apenas em desviadas e não desviadas. A palavra delirium aparece oito vezes, todas como risco a evitar ou benefício a obter, e nenhuma acompanhada de instrumento de rastreamento, de definição ou de conduta. São quatro lacunas de tamanhos diferentes: a de classificação é inofensiva, porque a decisão cirúrgica está escrita por desvio; as de jejum, sondagem e delirium recaem exatamente sobre o que o interno faz nas 48 horas, e são a razão de este capítulo assumir esses três assuntos e dizer que os assumiu.

Nota 19 — Uma recomendação de 2018 apoiada num consenso de 2002. A dose de cálcio e vitamina D da diretriz vem creditada, ao pé da tabela, ao Consenso Brasileiro de Osteoporose de 2002. Entre 2002 e hoje o país publicou e substituiu protocolos de osteoporose, sendo o vigente o de outubro de 2025. A diretriz da fratura de quadril, publicada em 2018, é anterior a essa atualização e não foi revista desde então: o teste de vigência dela é a permanência no portal do Ministério e a ausência de substituto, que é um teste mais fraco do que teria sido um documento novo citando-a como régua em uso. O leitor deve saber disso: a régua da fratura é de 2018 e ainda vale; a régua da osteoporose que ela cita mudou duas vezes desde que ela foi escrita.

08

A conduta, hora a hora

A linha do tempo abaixo é a de dona Nicolina, 82 anos, 58 quilos, que caiu às 18h de um sábado e chegou às 19h40. As horas são contadas a partir da fratura, como a régua nacional manda, e não da chegada. Onde há dose, ela vem das apresentações da Rename 2024 e das contas da tabela de conversão; onde há prazo, ele vem da diretriz de 2018. Onde não há régua brasileira — jejum, sondagem, prevenção de delirium — o texto diz que está assumindo, e explica com base em quê.

Uma observação sobre a divisão do trabalho, porque ela é a razão de este capítulo existir. Nada do que está aqui é decisão de ortopedista. O ortopedista decide entre parafuso, haste e prótese, e faz isso bem. O que fracassa nos hospitais brasileiros, com regularidade, é a faixa entre a queda e a sala, e ela é do interno e da equipe de enfermagem.

Da primeira noite à recuperação. Operar o mais cedo possível após estabilização de problemas corrigíveis; a NICE orienta no dia da admissão ou no seguinte. Não usar o teto de 48 horas como prazo para começar a organizar. Anticoagulantes exigem identificar agente, última dose, função renal e plano cirúrgico/anestésico; não impor espera fixa para todos nem ignorar seus riscos. Raquianestesia e anestesia geral são opções individualizadas, sem promessa universal de menor mortalidade pela via. Mobilizar com fisioterapia no dia seguinte quando clinicamente possível e conforme a carga liberada, mantendo nutrição, prevenção de delirium, trombose e lesão por pressão.

Prevenir a próxima fratura é parte do tratamento. Planejar avaliação de osteoporose e quedas antes da alta. A escolha de antiosteoporótico considera função renal, cálcio, vitamina D, deglutição, capacidade de permanecer sentado e adesão; bisfosfonato oral não é prescrição automática para todo idoso. Corrigir deficiência de cálcio/vitamina D e definir tratamento e responsável, sem esperar apenas um encaminhamento genérico. Imagem inicial negativa com suspeita persistente pede RM; se TC foi alternativa e também não esclareceu, manter suspeita e discutir RM.

  1. Hora 1h40 a 2h — a porta, e a primeira decisão é a dor

    Reconheça pela inspeção, não pela manobra. Encurtamento e rotação externa, ou incapacidade de levantar depois de uma queda: isso basta para suspeitar e para tratar. Não role o paciente, não teste amplitude, não sente ninguém. Puncione dois acessos venosos, colha os exames da rotina numa única punção, prescreva analgesia antes de mandar para o raio-X e anote a hora da fratura no prontuário. Se a suspeita for de fratura extracapsular, comece a tratar a volemia já aqui.

    Prescrição
    • Registrar no prontuário, com estas palavras: hora da queda, hora da chegada e hora do primeiro analgésico
    • Dipirona 1 g por via intravenosa, o que corresponde a 2 mL da solução de 500 mg/mL, diluída conforme a rotina do serviço — ou paracetamol 1 g por via oral, 2 comprimidos de 500 mg, se o paciente ainda pode deglutir e a cirurgia não é iminente
    • Não prescrever anti-inflamatório não esteroide: a régua nacional os contraindica no idoso pelo risco de hemorragia digestiva, nefrotoxicidade e retenção de líquidos
    • Acesso venoso periférico calibroso em dois sítios; coleta única para hemograma, eletrólitos, ureia, creatinina e tipagem
    • Glicemia capilar em todo idoso que caiu, e eletrocardiograma na admissão
    • Colchão de redistribuição de pressão ou coxins desde a maca, com calcâneos elevados e flutuantes, e registro do estado da pele no sacro, calcâneos e trocânteres
  2. Hora 2h a 3h — reavaliar a dor e pedir o bloqueio

    Reavaliar a dor após a primeira intervenção e oferecer analgesia suficiente para cuidados e imagem. Bloqueio femoral ou de fáscia ilíaca por profissional treinado é uma opção útil, mas não deve atrasar opioide titulado quando a dor permanece intensa ou o bloqueio não está prontamente disponível. No idoso, usar doses iniciais menores e reavaliar sedação, ventilação, pressão e função renal; evitar a ideia de que uma redução percentual fixa serve a todos. Analgesia multimodal e cuidado global ajudam a prevenir delirium.

    Prescrição
    • Escala de dor aplicada e anotada 30 a 60 minutos após o analgésico, e depois de hora em hora, com a hora escrita
    • Solicitar bloqueio do nervo femoral ou do compartimento da fáscia ilíaca, em dose única ou infusão contínua, registrando no pedido que é analgesia pré-operatória
    • Se houver necessidade de opioide antes do bloqueio: morfina com dose reduzida em pelo menos 50%, diluindo 1 mL da ampola de 10 mg/mL até 10 mL para obter 1 mg/mL, e titulando por essa solução
    • Prescrever antiemético e laxante de rotina junto com qualquer opioide, e vigiar frequência respiratória e sensório
    • Não prescrever benzodiazepínico para agitação nem para dormir
  3. Hora 2h a 4h — a radiografia certa, e o que fazer se ela vier normal

    Peça as três incidências pelo nome. Se a fratura aparecer, a imagem acabou e o paciente vai para a enfermaria com a analgesia mantida. Se vier normal e a paciente continuar sem conseguir apoiar o peso, ela não vai para casa: fica, mantém a analgesia, e a investigação segue pela escada da ressonância e, na falta dela, da tomografia nas primeiras vinte e quatro horas.

    Prescrição
    • Pedir panorâmica de bacia em anteroposterior, perfil do quadril com o paciente deitado, e anteroposterior do quadril com 10 graus de rotação interna — os três escritos no pedido
    • Se a radiografia for normal e a suspeita clínica persistir, solicitar ressonância magnética; na indisponibilidade dela, tomografia computadorizada dentro das primeiras 24 horas
    • Registrar no prontuário a frase que impede a alta indevida: incapacidade de apoiar o peso após queda, com radiografia inicial normal, mantida a suspeita de fratura oculta
    • Não solicitar cintilografia óssea, que exigiria esperar 72 horas, nem ultrassonografia para esse fim
  4. Hora 3h a 6h — volemia, sangue e a rotina que não atrasa

    Aqui separam-se as duas fraturas. Na transtrocantérica, presuma perda de sangue significativa e vigie-a: um hematoma de mais de um litro na coxa não produz sinal externo proporcional. Hidrate respeitando a função cardíaca, porque o mesmo idoso que não tolera hipovolemia também não tolera sobrecarga. Rode a rotina que a régua pede e resista a acrescentar exames.

    Prescrição
    • Hemograma seriado quando houver suspeita de fratura extracapsular, com o intervalo definido e escrito
    • Hidratação venosa criteriosa, com balanço hídrico e diurese anotados; reavaliar ausculta pulmonar a cada turno
    • Eletrólitos, ureia e creatinina de rotina; albumina apenas se a avaliação clínica indicar
    • Coagulograma e radiografia de tórax somente com indicação clínica escrita
    • Ecocardiograma apenas se houver dispneia em repouso, dispneia a pequenos esforços ou suspeita de estenose aórtica — sem atrasos rotineiros; instabilidade cardiovascular relevante exige avaliação e correção imediatas em paralelo ao planejamento
    • Registrar que o uso de aspirina ou clopidogrel não justifica adiamento, conforme a régua nacional
  5. Hora 6h a 12h — o jejum, a bexiga e a prevenção do delirium

    Este marco é o que o interno controla sozinho e é onde a régua nacional silencia: no anexo de 111 páginas, a palavra jejum não aparece nenhuma vez, e sonda vesical também não. Este capítulo assume os três assuntos e diz que assumiu. A regra prática do jejum é simples e ninguém a cumpre: jejum é prescrição com hora de início e hora de fim, vinculada a uma cirurgia com horário previsto. Quando o horário muda, a prescrição muda.

    Prescrição
    • Prescrever o jejum com a hora prevista da cirurgia escrita ao lado, e reavaliá-lo toda vez que a previsão mudar
    • Cancelar o jejum e liberar a dieta assim que a cirurgia for adiada para o dia seguinte, e prescrever o novo jejum com a nova hora
    • Manter suplementação nutricional oral hiperproteica quando o paciente estiver com dieta liberada, conforme avaliação nutricional
    • Evitar sondagem vesical de rotina: sonda é para retenção urinária documentada ou necessidade real de medir diurese, e não para comodidade de balanço
    • Pacote de prevenção de delirium desde a admissão: óculos e aparelho auditivo no paciente, luz natural durante o dia e escuro à noite, relógio e calendário visíveis, familiar presente, hidratação, dor tratada e cabeceira elevada
    • Revisar a prescrição inteira procurando o que seda e o que confunde, e retirar o que não for indispensável
  6. Hora 12h a 36h — a decisão sobre o relógio, e a frase que move a fila

    Alguém precisa escrever no prontuário se há ou não causa clínica para o adiamento, e esse alguém é você. Confira a lista das sete causas aceitas. Se a paciente tem uma delas, corrija com urgência e registre a meta. Se não tem nenhuma, escreva que não há causa clínica para adiamento e comunique isso a quem monta a lista cirúrgica — porque a diferença entre um adiamento por doença e um adiamento por falta de vaga é justamente essa frase no papel.

    Prescrição
    • Escrever no prontuário, com data e hora: paciente apto, sem causa clínica para adiamento, tempo decorrido desde a fratura em horas
    • Se houver causa aceita, escrever qual é, qual a meta e quando será reavaliada
    • Comunicar formalmente à coordenação do centro cirúrgico o prazo de 48 horas contado a partir da fratura, com a hora do término escrita
    • Colher a função prévia com a família presente e registrá-la: marcha, saídas de casa, autonomia para remédios e dinheiro, com quem mora
    • Manter a analgesia e a reavaliação da dor durante toda a espera, sem espaçar por melhora aparente
    • Manter mudança de decúbito programada e cuidado de pele, com a frequência definida pelo risco
  7. Até a hora 48 — a véspera da cirurgia, e o que a régua determina para ela

    A régua nacional prefere a anestesia regional, por menor incidência de complicações pulmonares e de mortalidade intra-hospitalar, e determina que o bloqueio do nervo femoral seja feito antes, para que a paciente possa ser posicionada em decúbito lateral sem dor. A tração pré-operatória, cutânea ou esquelética, está contraindicada: a diretriz registra que os riscos superaram os benefícios e que metade dos pacientes do grupo da tração achou a aplicação muito dolorosa.

    Prescrição
    • Não instalar tração cutânea nem esquelética no membro fraturado
    • Confirmar que a analgesia e o bloqueio estão prescritos e realizados antes do posicionamento
    • Banho pré-operatório com antisséptico padronizado pela instituição, conforme a régua
    • Antibioticoprofilaxia conforme o protocolo da instituição, com a dose de indução programada para até 60 minutos antes da incisão — o detalhe é do capítulo Sessenta minutos, e nem um dia a mais
    • Tromboprofilaxia conforme o protocolo do hospital, com a suspensão pré-operatória programada — o detalhe é do capítulo Duas contas que não se somam
    • Confirmar que o jejum começou na hora certa, e não doze horas antes por hábito
  8. Pós-operatório, dia 0 ao dia 2 — sentar, comer e começar a alta

    A régua determina fisioterapia precoce, dentro das 48 horas do pós-operatório, supervisionada, e registra melhora de mobilização e de independência com ela. O objetivo do primeiro dia não é andar: é sentar-se na beira do leito, comer sentado e sair da posição de risco. A alta começa a ser planejada no dia zero, com a família, e não na véspera.

    Prescrição
    • Solicitar fisioterapia para as primeiras 48 horas do pós-operatório, com continuidade programada
    • Liberar dieta assim que o anestesista permitir, e ofertar suplemento hiperproteico quando a ingestão for insuficiente
    • Manter analgesia programada por horário, não apenas se necessário, e reavaliar a dor a cada turno
    • Manter o pacote de prevenção de delirium no pós-operatório, com atenção especial às primeiras 72 horas
    • Planejar tratamento de osteoporose após avaliação clínica, renal, de cálcio/vitamina D e via adequada; não prescrever bisfosfonato oral automaticamente.
    • Escrever no resumo de alta: que houve fratura por fragilidade, qual a função prévia, qual a função na alta, o plano de reabilitação e a data do retorno
09

Como saber se está funcionando

Neste capítulo a reavaliação tem uma peculiaridade: um dos parâmetros é o próprio relógio. Tempo decorrido desde a fratura é um sinal vital deste paciente, e ele piora sozinho enquanto ninguém olha. Anote-o em horas, com a hora do término do prazo escrita ao lado, e passe-o no plantão como se passa uma pressão arterial.

Os demais parâmetros seguem a lógica do capítulo: o que se vigia antes da cirurgia é o que pode piorar durante a espera, e o que se vigia depois é o retorno da função. A régua nacional determina a frequência de apenas dois deles, a dor e a fisioterapia; os outros são assumidos aqui, e o texto diz quando é o caso.

Tempo decorrido desde a fraturaEm toda passagem de plantão e sempre que a previsão cirúrgica mudar

Esperado: Cirurgia realizada dentro de 48 horas contadas a partir da queda, com a meta ideal de 36 horas registrada pela própria diretriz

Se não melhora: Se o prazo estiver perto de vencer sem causa clínica, escreva no prontuário que o paciente está apto e comunique formalmente a coordenação cirúrgica. Um adiamento por falta de vaga registrado como tal é diferente de um adiamento que ninguém nomeou, e a diferença aparece no desfecho e na auditoria

Intensidade da dor30 a 60 minutos após cada analgésico, de hora em hora no pronto-socorro, e a cada turno na enfermaria — as três frequências estão na régua

Esperado: Dor que permita virar-se no leito, ser posicionado para o exame e dormir a noite

Se não melhora: Antes de subir o degrau farmacológico, verifique se o bloqueio foi solicitado e realizado. Dor que não cede com analgésico simples é indicação de bloqueio, não de opioide em dose cheia; e dor que reaparece de repente depois de controlada pede reexame do membro e da pele

Sensório e atençãoA cada turno antes da cirurgia e nas primeiras 72 horas depois dela

Esperado: Paciente orientado no mesmo nível de base descrito pela família, sem flutuação ao longo do dia

Se não melhora: Flutuação de atenção em idoso operado é delirium até prova em contrário, e as primeiras causas a procurar são dor não tratada, retenção urinária, constipação, hipóxia, infecção e a própria prescrição. O rastreamento formal e o manejo estão no capítulo Delirium no paciente internado; o que se garante aqui é que as causas evitáveis já tenham sido removidas antes

Volemia e hemoglobinaFrequência cardíaca, pressão e diurese a cada turno; hemoglobina seriada na suspeita de fratura extracapsular e no pós-operatório

Esperado: Diurese mantida, pressão próxima da habitual do paciente e hemoglobina estável

Se não melhora: Queda de hemoglobina com fratura transtrocantérica é sangramento no foco até prova em contrário. Ao decidir transfundir, saiba que a régua nacional traz quatro gatilhos diferentes para essa decisão, descritos na nota 5, e que a escolha entre eles é sua e precisa estar escrita

Horas de jejum acumuladasEm toda passagem de plantão, contadas desde a última refeição

Esperado: Jejum limitado ao intervalo pré-operatório previsto, e não a um estado permanente

Se não melhora: Jejum que passa de um dia para o outro sem cirurgia marcada é uma falha de prescrição, não uma fatalidade. Cancele-o, libere a dieta, e reprograme-o quando houver nova previsão. A régua nacional não fixa jejum para este paciente, e a série brasileira aberta neste capítulo adota como inadequado o jejum superior a 12 horas

Pele nos pontos de apoioA cada mudança de decúbito, com registro do que já existia na admissão

Esperado: Pele íntegra em sacro, calcâneos, trocânteres e occipital

Se não melhora: Eritema que não empalidece exige mudança do plano de posicionamento e de superfície de apoio no mesmo turno. A régua nacional determina reposicionamento a cada quatro horas no baixo risco e a cada duas horas no alto risco, e nomeia as escalas validadas no Brasil. O estadiamento e o curativo são do capítulo Lesão por pressão no paciente internado

Função recuperadaDiariamente a partir do primeiro dia de pós-operatório, com o marco alcançado escrito

Esperado: Dia 1 sentado na beira do leito e alimentando-se sentado; progressão para ortostatismo e passos com apoio conforme a liberação de carga determinada pelo cirurgião

Se não melhora: Função que não progride, com dor controlada e sem intercorrência clínica, é sinal de medo de cair ou de delirium hipoativo — e os dois se tratam, não se observam. Registre a função na alta em comparação com a função prévia, porque é ela, e não a mortalidade, que a família quer saber

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Onde o erro machuca

Mandar o paciente para o raio-X antes de tratar a dor

O dano: A terceira incidência exige rodar o membro 10 graus para dentro, o que é insuportável num quadril fraturado sem analgesia. O paciente não colabora, o exame sai mal posicionado, a linha de fratura continua escondida, e alguém pede outro exame — somando duas horas de prazo e uma segunda sessão de dor. É também o gesto que mais produz delirium na primeira noite.

Como pegar a tempo: Prescreva o analgésico e só então peça o exame; e escreva no pedido as três incidências pelo nome, para que o técnico não faça duas. Se a dor não cedeu em trinta a sessenta minutos, o exame espera o bloqueio, que é a recomendação de força forte da régua nacional.

Instalar tração cutânea para aliviar a dor enquanto espera a cirurgia

O dano: É um hábito antigo, ainda ensinado, e a régua nacional o desaconselha expressamente: os estudos avaliados não mostraram redução de dor nem de consumo de analgésicos com ou sem tração, e metade dos pacientes do grupo da tração achou a aplicação muito dolorosa. Some-se o risco local no sítio de instalação, num paciente que vai operar aquele mesmo osso.

Como pegar a tempo: Substitua a tração pelo que funciona: analgésico simples de horário, bloqueio de nervo, posicionamento confortável com coxim sob o joelho e a perna apoiada. Se o serviço tem rotina escrita de tração pré-operatória, leve o texto da diretriz para a discussão em vez de discutir por opinião.

Deixar a ordem de jejum de pé quando a cirurgia é adiada

O dano: É o erro mais silencioso e o mais frequente deste capítulo. A cirurgia é adiada no fim da tarde, ninguém cancela a dieta zero, e a paciente passa mais uma noite sem comer nem beber. Em menos de vinte e quatro horas o glicogênio hepático se esgota e a proteína muscular passa a ser consumida; é essa musculatura que teria de levantá-la da cama depois. Jejum prolongado também desidrata, constipa e é gatilho conhecido de delirium.

Como pegar a tempo: Trate o jejum como prescrição com hora de início e de fim, vinculada a uma cirurgia com horário. Adiou, cancelou: libera dieta e prescreve o novo jejum com a nova hora. Faça disso a última conferência da passagem de plantão, junto com a contagem de horas desde a fratura.

Tratar a dor com anti-inflamatório, ou com opioide em dose de adulto jovem

O dano: A régua nacional contraindica os anti-inflamatórios não esteroides no idoso com fratura de quadril por hemorragia digestiva, nefrotoxicidade e retenção de líquidos — num paciente em que cerca de 40% já têm disfunção renal. Do outro lado, opioide em dose cheia produz depressão sensorial e respiratória, e a régua determina redução de pelo menos 50% quando ele for usado. O dano do excesso é o delirium; o dano da falta também é o delirium.

Como pegar a tempo: Suba a escada na ordem certa: analgésico simples primeiro, reavaliação em trinta a sessenta minutos, bloqueio de nervo depois. Se precisar de opioide antes do bloqueio, dilua para poder titular — 2 mg da ampola de 10 mg/mL são 0,2 mL, volume que não se mede com segurança sem diluição.

Adiar a cirurgia por motivo que a régua nacional não aceita

O dano: Aspirina, clopidogrel, ecocardiograma pendente, parecer da cardiologia que ninguém pediu, hemoglobina de 8,7 que ninguém decidiu o que fazer com, e a espera pela lista eletiva de segunda-feira. Nenhum desses está na lista das sete causas aceitas, e cada dia de espera acumula pneumonia, lesão por pressão, delirium e perda de musculatura. A revisão brasileira chama esse paciente de adiado sem patologia ativa, e o nome é preciso.

Como pegar a tempo: Confira a lista das sete causas antes de aceitar qualquer adiamento, e escreva no prontuário qual delas se aplica. Quando nenhuma se aplicar, escreva também isso, com data e hora: é a frase que transforma um atraso invisível num atraso com dono.

Dar alta ao paciente com radiografia normal que não consegue apoiar o peso

O dano: A fratura oculta responde por 3% a 9% dos casos, e a diretriz registra que o atraso no diagnóstico está invariavelmente associado a piores resultados. O paciente que volta para casa com analgésico e retorno em sete dias passa uma semana deitado, sem profilaxia, sem fisioterapia e sem cirurgia, e às vezes volta com a fratura desviada.

Como pegar a tempo: Faça da incapacidade de apoiar o peso um critério de permanência, independentemente do laudo. Confira primeiro se a radiografia teve as três incidências; depois siga a escada de imagem. E escreva no prontuário a suspeita mantida, para que ela sobreviva à troca de equipe.

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O que dizer ao paciente e à família

As conversas deste capítulo têm uma característica incomum: a mais difícil não é a do diagnóstico, que é simples de explicar, e sim a do prognóstico funcional, que é onde o interno costuma prometer o que não pode. A família chega sempre com a mesma frase — ela vai voltar a andar? — e a resposta honesta carrega números incômodos: entre os idosos com fratura do fêmur proximal, cerca de 43% readquiriram a capacidade anterior de deambulação e apenas 17% recuperaram a capacidade prévia para as tarefas diárias em quatro meses.

O erro de linguagem mais caro aqui é o otimismo automático. Dizer que vai ficar tudo bem produz alívio imediato e uma decepção proporcional em quatro meses, quando a família estiver organizando a casa sem ter sido avisada de que precisaria. O oposto — recitar mortalidade para uma família assustada — também não é honestidade, é descarga de ansiedade. O caminho é dizer o que se sabe, na ordem do que muda decisão.

Explicar à paciente lúcida que ela vai operar, e por que operar é melhor

Dona Nicolina, a senhora quebrou o osso do quadril, aqui em cima da perna. Esse osso não cola sozinho deitada na cama, e ficar deitada esperando é o que faz mal: dá pneumonia, dá ferida nas costas, e a perna fica sem força. A cirurgia serve para a senhora poder sentar e levantar de novo, e por isso a gente quer fazer o mais rápido possível, de preferência até depois de amanhã. Enquanto isso, a minha obrigação é que a senhora não fique com essa dor. Se doer, chama, mesmo de madrugada.

Não diga: É uma cirurgiazinha simples. A senhora vai ficar boa como antes. Não precisa se preocupar com nada.

A pergunta da família: ela vai voltar a andar?

Vou responder com o que a gente sabe, porque a senhora vai precisar se organizar com base nisso. A maioria das pessoas volta a andar depois dessa cirurgia, mas menos da metade volta a andar exatamente como andava antes, e a recuperação leva meses, não semanas. O que mais aumenta a chance de voltar bem são três coisas: operar cedo, começar a levantar já no dia seguinte à cirurgia, e ter alguém em casa ajudando nos primeiros meses. Vamos conversar agora sobre como era o dia dela antes, porque é isso que a gente vai tentar recuperar.

Não diga: Ela volta ao normal, é só fazer fisioterapia. Ou: nessa idade, é difícil, a senhora já vai se preparando.

Quando a cirurgia é adiada por falta de vaga na sala

Preciso ser honesto com a senhora sobre o que está acontecendo. Sua mãe está pronta para operar: não tem nada de saúde impedindo, e eu escrevi isso no prontuário hoje às três da tarde. A cirurgia não aconteceu porque não houve sala disponível. Isso não é bom para ela, e eu já comuniquei a coordenação. Enquanto ela espera, três coisas continuam: a dor tratada, comida liberada até o horário do jejum de verdade, e a fisioterapia respiratória. Se amanhã também não houver sala, eu volto a falar com a senhora e a gente conversa sobre transferência.

Não diga: Está na fila, tem que esperar. O hospital é assim mesmo, não depende de mim.

Pedir o bloqueio de nervo ao anestesista ou ao ortopedista

Estou com uma paciente de 82 anos com fratura de colo de fêmur, dor 8 apesar de dipirona, sem uso de anticoagulante, cirurgia ainda sem horário. Queria pedir um bloqueio de nervo femoral ou de fáscia ilíaca para analgesia pré-operatória. A diretriz do Ministério recomenda com força forte, e o motivo principal não é conforto: é reduzir delirium e evitar que eu tenha que usar opioide nela. Consigo agendar para quando?

Não diga: Ela está com muita dor, dá para fazer alguma coisa? Ou: o pessoal aqui não costuma fazer bloqueio, deixa quieto.

Orientar a equipe de enfermagem sobre a dor durante a noite

Deixei a dipirona de horário, não só se necessário — quero que ela receba mesmo que esteja quietinha, porque idoso com dor às vezes não chama, só fica confuso de madrugada. Se a dor passar de 4 na escala, me chama antes de deixar para o plantão seguinte. E, por favor, não deixem ela em jejum se a cirurgia sair da lista: se isso acontecer, me avisem que eu libero a dieta na hora.

Não diga: Deixa se necessário que ela pede quando doer. Se ficar agitada, me chama que eu prescrevo alguma coisa para dormir.

Explicar à família por que a paciente ficou confusa depois da cirurgia

O que a senhora está vendo tem nome, chama delirium, e é comum em pessoas idosas depois de uma cirurgia grande. Não é demência começando, e na maioria das vezes melhora. A gente está procurando as causas que dá para tirar: dor, bexiga cheia, intestino preso, falta de oxigênio, infecção, remédio que confunde. O que mais ajuda vem da senhora: trazer os óculos e o aparelho de ouvido dela, ficar aqui durante o dia, abrir a cortina de manhã, conversar sobre coisas conhecidas, e deixar o quarto escuro à noite.

Não diga: É da idade. Ela ficou meio esclerosada, acontece. Vamos dar um calmante para ela sossegar.

Falar da próxima fratura antes da alta

Tem uma coisa que a senhora precisa levar daqui além do curativo. Esse osso quebrou com uma queda da própria altura, e isso significa que ele estava fraco — é uma doença chamada osteoporose, que não dói e por isso ninguém trata antes. O risco agora é a próxima fratura, e ela é bem mais provável do que essa foi. Estou prescrevendo cálcio, vitamina D e um remédio para o osso, e estou marcando o acompanhamento. Além disso, vamos conversar sobre o banheiro da casa, o tapete da sala e a luz do corredor à noite.

Não diga: Osteoporose todo mundo tem nessa idade, não tem muito o que fazer. Depois a senhora vê isso com o clínico.

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Onde bons médicos discordam

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.

Operar em até 48 horas muda a mortalidade, ou apenas acompanha quem estava melhor

O prazo de 48 horas é recomendação nacional e o retardo injustificado aumenta a morbiletalidade

A recomendação determina que o tratamento cirúrgico seja realizado com a maior brevidade possível, evitando ultrapassar 48 horas a partir da ocorrência da fratura, e acrescenta que as duas diretrizes adaptadas apontam 36 horas como alvo ideal. O texto afirma que o retardo injustificado contribui de maneira significativa para o aumento da morbiletalidade, apoiando-se em metanálise e revisão sistemática com 257.367 pacientes, e acrescenta que artigos brasileiros mostraram melhores resultados com abordagem em até 48 horas, independentemente do segmento do fêmur acometido. A mesma seção registra que há pouca evidência científica sobre o tempo adequado.

Diretrizes Brasileiras para o Tratamento da Fratura do Colo do Fêmur em Idosos, anexo da Portaria Conjunta nº 21, de 24 de setembro de 2018, resumo executivo e seção 1.2

O tempo até a cirurgia não mostrou interferência na mortalidade quando as comorbidades são levadas em conta

A revisão de 25 artigos com 24.062 pacientes acima de 60 anos conclui que os fatores tempo prévio à cirurgia, tipo de anestesia e tipo de osteossíntese não mostraram ter interferência na mortalidade, enquanto idade avançada, número grande de doenças associadas, sexo masculino e déficit cognitivo mostraram. O argumento vem de um estudo com 8.383 pacientes divididos em operados em até 24 horas, operados depois de 24 horas sem patologia ativa e operados depois de 24 horas com patologia ativa: a mortalidade do grupo operado rapidamente parece menor, mas a diferença desaparece quando os grupos são homogeneizados quanto à presença de doenças associadas.

Sakaki MH e col., Estudo da mortalidade na fratura do fêmur proximal em idosos, Acta Ortopédica Brasileira, 2004, seção de discussão sobre tempo até a cirurgia

Como decidir

A distinção que resolve o caso à sua frente é a que o próprio estudo brasileiro oferece: adiamento com patologia ativa contra adiamento sem patologia ativa. Se a paciente tem uma das sete causas aceitas, o adiamento é terapêutico — corrija a causa com urgência, registre a meta e opere assim que ela sair da faixa; o que a literatura sugere é que essa espera não custa mortalidade porque a doença corrigida custaria mais. Se ela não tem nenhuma, não existe leitura das duas posições que justifique esperar: a discussão é sobre mortalidade, e nenhuma das duas fontes discute a dor, o delirium, a lesão por pressão e a perda de musculatura, que se acumulam por hora e são o que a paciente vai sentir. Decida assim: com causa clínica, corrija; sem causa clínica, escreva que não há causa clínica e cobre a vaga. E anote a hora da fratura, não a da internação, porque a recomendação conta a partir dela.

Mobilizar um quadril possivelmente fraturado para revelar a fratura oculta

É a alternativa escrita para o serviço que não tem ressonância nem tomografia

Para pacientes com radiografia inicial negativa e suspeita clínica mantida, o documento registra que uma alternativa para os serviços de saúde sem acesso às tecnologias diagnósticas recomendadas é a mobilização com bloqueio de nervo, com realização de manobras de tração e rotação interna e externa, associada à radiografia simples. A frase aparece como Considerações no capítulo de pré-operatório, isto é, no mesmo nível editorial das demais recomendações práticas do documento, e é apresentada como saída para a realidade brasileira de serviços sem imagem avançada.

Diretrizes Brasileiras para o Tratamento da Fratura do Colo do Fêmur em Idosos, 2018, seção 1.1.7, quadro de Considerações

A régua de imagem do mesmo documento é ressonância e, na falta dela, tomografia em 24 horas

As recomendações de imagem do mesmo anexo determinam a ressonância magnética como método de escolha para a fratura oculta, com sensibilidade de 100% e especificidade entre 93% e 100%, e a tomografia computadorizada como escolha na ausência da ressonância, nas primeiras 24 horas, justamente para evitar retardo da cirurgia. Nenhuma dessas duas recomendações menciona mobilização como etapa diagnóstica, e o documento não descreve riscos nem contraindicações da manobra de tração e rotação sob bloqueio.

Mesmo anexo, resumo executivo, seções 1.1.4 e 1.1.5

Como decidir

Antes de escolher entre as duas, verifique a premissa: a manobra só é posta como alternativa quando faltam ressonância e tomografia. Um serviço com tomógrafo funcionando não está no caso previsto, e a régua manda tomografia nas primeiras 24 horas. Se faltarem as duas imagens, o que decide é uma pergunta sobre consequência: uma fratura não desviada que se desvia durante a manobra passa de osteossíntese a artroplastia, num hospital que não tinha ressonância — isto é, no hospital com menos recurso, a complicação custa mais. Pesando contra, ficar sem diagnóstico também custa, e o documento registra que o atraso diagnóstico se associa invariavelmente a piores resultados. Diante desse par, a decisão razoável é tratar a transferência para um serviço com imagem como a primeira opção, manter o paciente internado e analgesiado enquanto isso, e reservar a manobra para quando a transferência estiver descartada — e, nesse caso, discuti-la com o ortopedista e registrar a decisão com nome e hora.

Artroplastia total ou parcial na fratura desviada do colo em quem tem mais de 70 anos

A escolha se faz por cognição, demanda funcional e condições clínicas

A régua nacional determina artroplastia total do quadril para idosos com sinais de artrose do quadril, demanda funcional comunitária — ou seja, que fazem atividades fora de casa além das domésticas —, capacidade cognitiva preservada e condições clínicas favoráveis; e artroplastia parcial para os que têm demanda funcional apenas doméstica, capacidade cognitiva reduzida e condições clínicas favoráveis. Sobre o tipo de prótese parcial, recomenda a unipolar por custo menor e resultado funcional equivalente à bipolar, e a haste cimentada pelo risco maior de fratura com haste não cimentada no idoso.

Diretrizes Brasileiras para o Tratamento da Fratura do Colo do Fêmur em Idosos, 2018, resumo executivo e seções 1.5.2, 2.1, 2.2 e 2.3

Acima de 70 anos a artroplastia total dá melhor resultado funcional e menos reoperação, ao custo de mais luxação

O consenso da sociedade de ortopedia responde que a artroplastia total do quadril em pacientes acima de 70 anos com fratura do colo femoral leva a melhores resultados funcionais e menor taxa de reoperação em relação à hemiartroplastia, com nível de evidência I, e que por outro lado está associada a maior índice de luxação protética e a maior tempo cirúrgico, devendo-se individualizar o risco para a tomada de decisão. Os números citados incluem tempo cirúrgico médio 13,77 minutos maior e melhor escore funcional na artroplastia total, sem diferença de infecção entre os grupos.

Consensos Brasileiros de Ortopedia e Traumatologia, SBOT, 2019, item 53

Como decidir

A decisão do implante é do ortopedista, e nem uma nem outra posição transfere isso para o interno. O que é seu, e o que muda a escolha dele, é a qualidade da informação que você coleta na admissão: as duas réguas divergem sobre o peso da idade, mas convergem em individualizar por função e cognição, e essas duas variáveis só existem no prontuário se alguém tiver perguntado à família enquanto a paciente ainda estava lúcida. Registre, com estas palavras, se ela saía de casa sozinha, se administrava os próprios remédios, se usava apoio para andar, e se já tinha dor crônica naquele quadril antes da queda — essa última aponta artrose e inclina para a artroplastia total nas duas posições. Entregue esse registro ao ortopedista antes da avaliação dele, não depois.

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O raciocínio, em voz alta

Volte a dona Nicolina Bevilacqua, 82 anos, 58 quilos, que caiu no banheiro às 18h de sábado e chegou às 19h40. Perna direita encurtada e rodada para fora, dor referida como a pior da vida, pressão 148 por 86, frequência 96, saturação 95% em ar ambiente. Ela mora com a filha, anda sozinha até a padaria, administra os próprios remédios e usa losartana e sinvastatina. O ortopedista está de sobreaviso. A lista cirúrgica eletiva da semana começa na segunda às sete da manhã.

  1. o que eu faço no primeiro minuto

    Não mobilizo o quadril e não testo amplitude: o diagnóstico já está feito pela inspeção e qualquer manobra só produz dor e risco de desviar a fratura. Prescrevo dipirona 1 g por via intravenosa, o equivalente a 2 mL na concentração de 500 mg por mililitro, e mando para o raio-X depois disso, não antes. Puncio dois acessos, colho hemograma, eletrólitos, ureia, creatinina e tipagem numa punção só, e peço eletrocardiograma e glicemia capilar. E anoto no prontuário a hora que interessa: 18h, a hora da queda.

  2. por que a hora da queda e não a da chegada

    Porque a régua nacional conta o prazo de 48 horas a partir da ocorrência da fratura. Contado da queda, o prazo termina segunda-feira às 18h; contado da chegada, terminaria às 19h40 de segunda. A diferença parece pequena aqui e não é sempre: idoso que fica no chão de casa a noite inteira chega com metade do prazo já gasto. Escrevo as duas horas e a diferença entre elas no pedido de avaliação da ortopedia, porque é essa conta que move a fila.

  3. o que peço de imagem, e o que não peço

    Panorâmica de bacia em anteroposterior, perfil do quadril com ela deitada, e anteroposterior do quadril com 10 graus de rotação interna — os três escritos no pedido, porque o técnico faz o que está escrito. Não peço tomografia nem ressonância: elas são para quando a radiografia é normal e a suspeita persiste. A radiografia mostra fratura transversa do colo femoral direito com desvio.

  4. a dor às 20h30, e a decisão que muda a noite

    Reavalio trinta minutos depois do analgésico, como a régua manda, e a dor está em 8. O degrau seguinte não é morfina em dose cheia: é o bloqueio. Ligo para a anestesista e peço bloqueio de nervo femoral ou de fáscia ilíaca para analgesia pré-operatória, dizendo o motivo pelo nome — reduzir dor e reduzir delirium, com recomendação de força forte no documento nacional. Se o bloqueio demorar, uso morfina diluída, 1 mL da ampola de 10 mg/mL até 10 mL, e titulo por essa solução de 1 mg/mL, com dose reduzida pelo menos à metade.

  5. o que decido sobre volemia e sobre exames

    É fratura do colo, intracapsular: o sangramento fica parcialmente contido pela cápsula, e a vigilância hemodinâmica é a de rotina. Se fosse transtrocantérica, eu presumiria perda de mais de um litro e prescreveria hemograma seriado desde já. Hidrato com critério, anoto diurese, e não peço coagulograma nem radiografia de tórax, porque nenhum dos dois tem indicação clínica escrita. Não peço ecocardiograma: ela não tem dispneia em repouso nem a pequenos esforços, e não há sopro sugestivo de estenose aórtica.

  6. a conversa com a filha, no domingo de manhã

    Colho a função prévia com ela presente e escrevo as quatro respostas: andava sozinha sem apoio, ia à padaria, administrava os próprios remédios, mora com a filha. Essas quatro linhas são o que vai decidir entre artroplastia total e parcial, e daqui a dois dias elas podem não existir mais. Explico o prazo, digo que a cirurgia está pedida para segunda pela manhã, e respondo à pergunta sobre voltar a andar com os números que tenho, sem promessa.

  7. o domingo à noite, e o erro que quase acontece

    Às 18h de domingo a enfermagem me pergunta se deixa em jejum a partir da meia noite. A cirurgia é a primeira da lista de segunda, às 7h. Prescrevo o jejum com a hora prevista escrita ao lado e digo à equipe, com todas as letras, que se a cirurgia sair da lista eu quero ser avisado para liberar a dieta na hora. Mantenho a dipirona de horário, não se necessário, porque idoso com dor às vezes não chama — só fica confuso de madrugada.

  8. o que fica escrito antes de eu sair

    Uma frase, com data e hora: paciente apta, sem causa clínica para adiamento, 24 horas decorridas desde a fratura, prazo de 48 horas terminando segunda às 18h. Nenhuma das sete causas aceitas se aplica — hemoglobina 11,8, sódio 139, potássio 4,2, sem diabetes descompensado, sem falência ventricular, sem arritmia, sem infecção pulmonar, coagulação normal. Essa frase é a diferença entre um adiamento com dono e um adiamento que ninguém nomeou.

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Faça você

Segunda-feira, 21h. Chega ao pronto-socorro o senhor Casemiro Modenesi, 79 anos, 72 quilos, aposentado da construção civil, trazido pelo filho. Caiu da própria altura no quintal por volta das 14h, tentou levantar, não conseguiu, e ficou deitado no sofá a tarde inteira até o filho chegar do trabalho. Usa metoprolol, enalapril e metformina. Na maca ele está pálido, sudorético, com a perna esquerda rodada para fora e um edema difuso na face lateral da coxa. Pressão 104 por 62 — o filho diz que a pressão dele vive em 150 —, frequência cardíaca 84, saturação 94%, glicemia capilar 132. A radiografia em três incidências mostra fratura transtrocantérica esquerda com desvio. O hemograma da admissão traz hemoglobina 9,4. O ortopedista avisa que só opera na quarta-feira, porque a terça está tomada por uma cirurgia eletiva agendada há dois meses. Diga o que você faz, e por quê.

  1. leitura dos sinais vitais

    A frequência de 84 não tranquiliza ninguém: ele usa metoprolol, e a taquicardia que sinalizaria hipovolemia está farmacologicamente impedida de aparecer. O dado que conta é a pressão comparada com a habitual dele — 104 por 62 em quem vive com 150 é queda de mais de 30%, não é uma pressão boa. A palidez e a sudorese completam o quadro.

  2. leitura da fratura

    Transtrocantérica é extracapsular, e a régua nacional registra que nessas o hematoma a partir do foco pode envolver perda superior a um litro de sangue, porque a cápsula não contém nada. Num homem de 72 quilos, um litro é perto de um quinto da volemia. O edema difuso da coxa não é contusão: é o hematoma. A hemoglobina de 9,4 na admissão, sete horas depois da queda, tende a cair mais nas próximas horas.

  3. leitura do relógio

    Ele caiu às 14h de segunda. O prazo de 48 horas termina às 14h de quarta. A cirurgia proposta para quarta-feira pode caber no prazo ou não, dependendo do horário — e essa é uma pergunta que precisa ser feita, não presumida. Quando ele chegou, sete horas do prazo já tinham sido gastas no sofá da casa dele.

  4. o que o documento diz sobre esta fratura

    Muito pouco, e é honesto dizer isso ao leitor. A única régua nacional é a diretriz da fratura do colo do fêmur, que coloca expressamente as fraturas extracapsulares fora do seu escopo — embora reconheça que elas são metade das fraturas proximais do fêmur e faça, no corpo do texto, recomendação anestésica para a fixação das transtrocantéricas. O consenso da sociedade de ortopedia trata da fratura transtrocantérica apenas na escolha entre haste longa e curta.

Ver como fecharíamos

Primeiro a volemia, e agora. Dois acessos calibrosos, expansão criteriosa com cristaloide respeitando a função cardíaca, reserva de concentrado de hemácias, e hemograma seriado com intervalo escrito. A hemoglobina de 9,4 está dentro da faixa em que a própria diretriz se contradiz — o resumo executivo manda evitar transfundir com hemoglobina igual ou maior que 8, e a seção 1.4 manda considerar transfusão abaixo de 9 —, de modo que a decisão é sua, e o que não é aceitável é deixá-la implícita: escreva no prontuário qual gatilho você adotou e por quê, e reavalie após cada concentrado. Ao mesmo tempo, analgesia antes de qualquer outra coisa, com dipirona 1 g por via intravenosa e pedido de bloqueio de nervo femoral, e nada de anti-inflamatório num diabético hipotenso de 79 anos. Nada de tração cutânea. Depois o relógio: pergunte o horário previsto de quarta-feira e faça a conta em voz alta — se for depois das 14h, o prazo estourou, e essa é uma informação a comunicar por escrito, não um detalhe. Escreva no prontuário se há ou não causa clínica para o adiamento: se a hipovolemia e a anemia forem corrigidas até terça, não haverá, e a cirurgia eletiva de terça passa a ser uma escolha de prioridade da instituição, com nome e hora, e não um fato da natureza. Enquanto isso, jejum prescrito com hora de início e fim vinculada à cirurgia de quarta, e não desde já; pacote de prevenção de delirium desde a admissão, porque ele tem três fatores de risco somados — idade, dor e provável hipoperfusão; cuidado de pele com registro do que já chegou marcado depois de sete horas no sofá; e a função prévia colhida com o filho ainda hoje, enquanto ele está lúcido. Por fim, a causa da queda: glicemia normal, mas eletrocardiograma na admissão e revisão da dose do anti-hipertensivo, porque hipotensão postural em quem usa metoprolol e enalapril é uma explicação frequente e tratável.

Gabarito da questão de abertura
Comentário

Na fratura desviada do colo do fêmur, a diretriz determina procedimento de substituição, porque o desvio compromete a irrigação da cabeça femoral, e reserva a artroplastia total aos pacientes com sinais de artrose do quadril, demanda funcional comunitária — atividades fora de casa além das domésticas —, capacidade cognitiva preservada e condições clínicas favoráveis. A paciente reúne os quatro critérios, e a dor crônica prévia no mesmo quadril sugere coxartrose. A osteossíntese está indicada nas fraturas sem desvio. A artroplastia parcial é a opção de quem tem demanda apenas doméstica e cognição reduzida. O tratamento não cirúrgico é excepcional e, quando cogitado, a diretriz exige que as situações sejam claramente definidas e discutidas por pelo menos dois ortopedistas.

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Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
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Plano de revisão

Em 7 dias

Recuperação ativa em sete dias. Explique a sequência diante de radiografia negativa com incapacidade de apoio. Descreva como tratar dor enquanto se espera um bloqueio. Responda antes de reler e depois confira onde faltou justificar uma decisão.

Em 30 dias

Aplicação em trinta dias. Revise o percurso da queda à alta: atrasos evitáveis, hidratação, anticoagulantes, nutrição, delirium, mobilização e prevenção da próxima fratura. Defina quem acompanha cada necessidade. Use dados observados, reconheça o que ainda não sabe e peça comparação com a avaliação do supervisor.

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Agora atenda

Leve este capítulo para um atendimento em que a fratura seja evidente e o desafio esteja em outro lugar. Pratique três coisas na mesma passagem: prescrever analgesia antes de pedir imagem e justificar isso a quem estranhar; colher a função prévia com a família presente, com as quatro perguntas concretas, enquanto o paciente ainda está lúcido; e responder à pergunta sobre voltar a andar sem prometer e sem assustar. O treino difícil aqui não é o diagnóstico — é sustentar que o relógio é uma conduta, e dizer em voz alta que não há causa clínica para o adiamento quando não há.

Fratura de quadril no idoso – O relógio começa na queda — Internato | OsceLabs