Outras EspecialidadesOtorrinolaringologia

Faringoamigdalites e critérios de Centor

O antibiótico não cura a dor de garganta: encurta o quadro em cerca de um dia. Ele existe para prevenir febre reumática, e essa é a única razão que justifica prescrevê-lo. Quem entende isso prescreve para quem tem risco e explica para quem não tem — e este capítulo dá o argumento e as palavras, porque o paciente veio querendo o antibiótico.

Fontes deste capítulo

Barbosa PJB, Müller RE, Latado AL, Achutti AC, Ramos AIO, Weksler C, et al. Diretrizes Brasileiras para o Diagnóstico, Tratamento e Prevenção da Febre Reumática. Sociedade Brasileira de Cardiologia, Sociedade Brasileira de Pediatria e Sociedade Brasileira de Reumatologia. Arq Bras Cardiol. 2009;93(3 supl.4):1-18

Piltcher OB, Kosugi EM, Sakano E, Mion O, Testa JRG, Romano FR, et al. Como evitar o uso inadequado de antibióticos nas infecções de vias aéreas superiores? Posição de um painel de especialistas. Associação Brasileira de Otorrinolaringologia e Cirurgia Cérvico-Facial. I Campanha sobre uso de antibióticos em infecções de vias aéreas superiores. Braz J Otorhinolaryngol. 2018;84(3):265-279

Brasil. Ministério da Saúde. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais: Rename 2024. Brasília: Ministério da Saúde, 2024. 252 p. ISBN 978-65-5993-710-3

World Health Organization. WHO guideline on the prevention and diagnosis of rheumatic fever and rheumatic heart disease. Geneva: World Health Organization, 2024

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente. Guia de vigilância em saúde: volume 1. 6. ed. rev. Brasília: Ministério da Saúde, 2024. ISBN 978-65-5993-506-2

01

Responda antes de ler

Menino de 9 anos, 30 kg, apresenta febre e dor de garganta há seis dias. Nas últimas horas surgiram dor unilateral, trismo e voz abafada. Qual é a conduta prioritária?

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O paciente que você vai ver

Nove e dez da noite numa unidade de pronto atendimento. A ficha diz apenas 'dor de garganta'. Entra Marivalda Peçanha, 34 anos, auxiliar de cozinha, com a mão no pescoço e a voz um pouco abafada. Começou anteontem: ardor ao engolir, febre que ela mediu em casa e deu 38,4 °C, dor de cabeça, corpo doído. Hoje piorou. Não tem tosse. Não tem coriza. Não está rouca. Tomou dipirona três vezes e melhorou por umas horas de cada vez.

Ela senta na cadeira e, antes de qualquer pergunta, diz a frase que organiza a consulta inteira: 'doutor, eu já sei que é infecção, todo ano é a mesma coisa, o senhor pode já ir passando a benzetacil que eu preciso trabalhar amanhã'. Ela não está sendo difícil. Está sendo eficiente: em cinco episódios anteriores, cinco médicos prescreveram antibiótico, e em todos ela melhorou. A conclusão que ela tirou é a única compatível com o que viveu — dor de garganta se trata com antibiótico, e quem não dá está economizando com a saúde dela.

Na cadeira ao lado espera Adenilson, 6 anos, no colo da avó. Também com dor de garganta, também com febre desde ontem. A avó conta que ele está sem apetite, que vomitou uma vez e que se queixa de dor na barriga. Está sem tosse. A avó traz a caixa vazia de amoxicilina que sobrou de um resfriado do irmão e pergunta se pode dar aquilo mesmo, para adiantar.

E na maca do corredor, encostado na parede, está Wanderson, 22 anos, entregador. Chegou há vinte minutos. Ele não fala: aponta para a garganta e faz que não com a cabeça quando perguntam se consegue engolir. Está sentado inclinado para a frente, com a boca entreaberta, e há saliva escorrendo pelo canto do lábio para uma gaze que ele segura na mão. A febre é de 38,9 °C. Ele tenta abrir a boca para a inspeção e consegue abrir dois dedos, não mais.

Três dores de garganta, três desfechos completamente diferentes. Uma vai embora com sintomáticos e uma conversa. Uma vai embora com uma injeção e um cartão de retorno. E uma não vai embora — precisa de avaliação de via aérea e provavelmente de drenagem hoje, e o tempo que se gasta discutindo antibiótico com a primeira é tempo que não se gasta olhando a terceira.

O turno tem mais quarenta fichas. A distância entre um plantão bom e um plantão ruim, nesta queixa, não está no conhecimento da doença: está em conseguir separar, em três minutos por paciente, qual dos três está na frente.

03

Quem adoece disso

Faringoamigdalite é uma das queixas mais frequentes de qualquer porta de entrada brasileira, e a maioria esmagadora é viral. As estimativas do painel da Associação Brasileira de Otorrinolaringologia e Cirurgia Cérvico-Facial põem os vírus em 70% a 95% dos casos — rinovírus, coronavírus, adenovírus, herpes simples, parainfluenza, enterovírus, Epstein-Barr, citomegalovírus, influenza. A consequência prática é dura e direta: se o quadro que entrou pela porta fosse escolhido no acaso, a chance de o antibiótico servir para alguma coisa seria de uma em cinco, na melhor das hipóteses.

A fatia estreptocócica é a que interessa, e ela tem endereço etário. O Streptococcus pyogenes, estreptococo beta-hemolítico do grupo A, acomete preferencialmente pessoas de 5 a 18 anos. A diretriz brasileira de febre reumática atribui a ele 15% a 20% das faringoamigdalites em um trecho e cerca de 30% em outro; o painel da ABORL-CCF trabalha com 20% a 40%. A leitura honesta desse intervalo é que a prevalência muda com a idade e com o serviço: numa unidade básica cheia de escolares no inverno, a fatia é alta; numa emergência de adultos, é baixa. O escolar de 8 anos com febre alta e sem tosse e o adulto de 50 anos com dor de garganta e coriza não são o mesmo problema, e usar a mesma probabilidade para os dois é o primeiro erro da consulta.

O motivo de tudo isto importar não é a dor de garganta: é a febre reumática. Seguindo a projeção do modelo epidemiológico da Organização Mundial da Saúde aplicada à população brasileira, a diretriz das sociedades brasileiras de Cardiologia, Pediatria e Reumatologia estima cerca de 10 milhões de faringoamigdalites estreptocócicas por ano no Brasil, das quais decorreriam 30.000 casos novos de febre reumática, com aproximadamente 15.000 evoluindo com acometimento cardíaco. Estudos em escolares de capitais brasileiras estimam a prevalência de cardiopatia reumática crônica em 1 a 7 casos por 1.000, contra 0,1 a 0,4 por 1.000 nos Estados Unidos. Dez a setenta vezes mais.

Esses números têm preço e têm morte. Em 2007, o SUS gastou cerca de R$ 157.578.000 com internações por febre reumática ou cardiopatia reumática crônica, e 31% das cirurgias cardíacas do período foram em pacientes com sequela de febre reumática. A letalidade hospitalar por cardiopatia reumática crônica foi de 6,8% em 2005 e 7,5% em 2007. O cálculo de anos de vida perdidos ajustados por incapacidade chegou a 55 mil anos, ou 26 anos por paciente.

É por isso que o Brasil não pode copiar a régua de um país onde a febre reumática praticamente sumiu. Aqui a doença que o antibiótico previne ainda opera, ainda interna adolescente, ainda troca válvula de gente de vinte e poucos anos. A conclusão, porém, não é 'trate todo mundo': é o contrário. Como quatro em cada cinco dores de garganta são virais e o antibiótico só previne febre reumática em quem tem estreptococo, tratar todo mundo significa expor quatro pessoas a um remédio inútil para talvez beneficiar uma — e, ainda por cima, ensinar às quatro que dor de garganta se trata com antibiótico, o que garante que elas voltem pedindo na próxima. O acerto é mirar.

Uma última âncora de calendário. O estreptococo se transmite por gotícula e a taxa de transmissão em contatos próximos de quem não é tratado é de cerca de 35% — famílias, escolas, alojamentos. Vinte e quatro horas depois de iniciada a penicilina, a pessoa se torna minimamente contagiante. Isso muda o que se diz na porta sobre voltar à escola e ao trabalho, e é o único efeito do antibiótico que aparece no mesmo dia.

04

Por que acontece o que acontece

A febre reumática não é uma infecção do coração. É uma reação imune tardia do próprio paciente contra estruturas dele mesmo, disparada por uma infecção de orofaringe que já passou. Entender isso resolve, de uma vez, quase todas as perguntas práticas do capítulo: por que só a garganta e não a pele; por que a doença aparece semanas depois; por que ainda dá tempo de prevenir no nono dia; e por que a duração do antibiótico não é negociável.

O gatilho é o Streptococcus pyogenes na orofaringe. Anticorpos e linfócitos T dirigidos contra antígenos estreptocócicos — a proteína M é o antígeno mais estudado — reconhecem também estruturas do hospedeiro, por mimetismo molecular. No coração, esses anticorpos de reação cruzada se fixam ao endotélio valvar e aumentam a expressão da molécula de adesão VCAM-1, que atrai quimiocinas e favorece a infiltração de neutrófilos, macrófagos e sobretudo linfócitos T. O resultado é inflamação local, destruição tecidual e necrose. Os nódulos de Aschoff, agregados de células semelhantes a macrófagos considerados patognomônicos, funcionam como células apresentadoras de antígeno para as células T, o que mantém a apresentação antigênica no próprio sítio da lesão e amplifica a resposta muito depois de a bactéria ter desaparecido.

A predisposição é genética e distribuída de forma desigual. Estudos populacionais associam a doença a antígenos HLA de classe II, com marcadores diferentes em cada população — o alelo mais frequente, independentemente da origem étnica, é o HLA-DR7 —, e a alelos ligados à resposta inflamatória, como os que codificam TNF-alfa e o responsável pela deficiência de lecitina ligadora de manose. Nada disso é dosável na consulta. O que se leva para a beira do leito é a consequência: a incidência de febre reumática após faringoamigdalite estreptocócica é praticamente a mesma no mundo inteiro, na faixa de 1% a 5% — o que muda entre países não é a suscetibilidade individual, é quantas faringoamigdalites estreptocócicas acontecem e quantas são tratadas.

O perfil de citocinas explica por que dois pacientes com a mesma bactéria terminam com doenças diferentes. Uma resposta de padrão Th1, com predomínio de TNF-alfa e interferon-gama no tecido cardíaco, associa-se a cardite grave e sequela valvar; onde há muitas células produtoras de IL-4, como no miocárdio, a miocardite cura em algumas semanas. Clinicamente, isso aparece como uma dissociação curiosa: apenas 5% dos pacientes com cardite grave cursaram com coreia, enquanto entre os de cardite leve a coreia apareceu em 65%.

Por que só a garganta. O estreptococo do grupo A causa também impetigo, e o impetigo é comum. Mas somente a faringoamigdalite se associa ao surgimento de febre reumática. A infecção de pele leva a outra complicação não supurativa — a glomerulonefrite difusa aguda pós-estreptocócica —, que tem tema próprio na apostila de Nefrologia Pediátrica e não se resolve com a mesma lógica deste capítulo. Guarde a assimetria, porque ela sustenta a frase mais importante da conversa com o paciente e da prova: o antibiótico da faringoamigdalite previne febre reumática; ele não previne glomerulonefrite.

O tempo é o segundo eixo do mecanismo. Como a doença é imune e não infecciosa, ela não começa junto com a dor de garganta: começa depois. A cardite tende a aparecer precocemente dentro do surto e é mais frequentemente diagnosticada nas três primeiras semanas da fase aguda; a coreia é manifestação tardia, podendo surgir até sete meses após a infecção estreptocócica. A janela entre a infecção e o disparo da autoimunidade é justamente o que dá ao médico o luxo raro de poder esperar. O tratamento precoce e adequado da faringoamigdalite estreptocócica com penicilina até o nono dia de instalação do quadro ainda erradica a infecção e evita o primeiro surto. Nove dias. Isso significa que aguardar 48 horas para reavaliar, ou esperar o resultado de uma cultura, não custa a prevenção — e é o que autoriza, tecnicamente, não sair prescrevendo na primeira consulta.

O terceiro eixo é a erradicação, e é ele que explica a duração. A prevenção não depende de o paciente melhorar: depende de a bactéria sumir da orofaringe. O que se busca é a manutenção de nível sérico bactericida por 10 dias. Ao optar pela via oral, a dose, o intervalo e a duração de 10 dias precisam ser estritamente respeitados, sob pena de não se obter nível sérico adequado para erradicar o estreptococo — erros nesses itens são comuns na prática e levam ao insucesso. O painel da ABORL-CCF é explícito no ponto que mais gera confusão: tratar com amoxicilina por 7 dias pode não ser efetivo na prevenção primária de febre reumática, porque não erradica o S. pyogenes da orofaringe. O paciente vai melhorar em três dias com sete dias de antibiótico. Ele simplesmente não vai ficar protegido. É por isso que a duração de 10 dias não é tradição nem excesso de zelo: é a única variável do esquema que não tem a ver com sintoma.

A penicilina benzatina resolve esse problema por engenharia farmacológica, não por disciplina do paciente: uma injeção intramuscular libera a droga lentamente e mantém nível sérico pelos 10 dias, sem depender de ninguém lembrar de tomar. É a razão de ela permanecer droga de escolha na diretriz brasileira de febre reumática, ao lado da ação bactericida comprovada, da baixa incidência de efeitos colaterais, do espectro estreito e do custo baixo. Some-se a isso o fato de que, até hoje, não se registrou resistência do estreptococo do grupo A à penicilina. Em 2026, esta é uma frase quase impossível de escrever sobre qualquer outro par bactéria-antibiótico.

Do lado supurativo, o mecanismo é banal e mecânico: a infecção sai da cripta amigdaliana, atravessa a cápsula e ocupa o espaço peritonsilar, entre a amígdala e o músculo constritor superior da faringe. O pus nesse espaço empurra a amígdala e a úvula para o lado oposto, irrita o pterigoideo medial — de onde vem o trismo — e altera a ressonância da voz. Como o espaço peritonsilar se comunica com o parafaríngeo, e este com o retrofaríngeo e daí com o mediastino, o abscesso periamigdaliano não é uma amigdalite pior: é uma coleção com rota de fuga. Coleção não responde a antibiótico sozinha, e é por isso que a conduta muda de classe — passa a incluir drenagem. Quando, em vez de coletar, o edema ocupa a supraglote ou eleva o assoalho da boca, o mecanismo deixa de ser inflamatório e passa a ser geométrico: o que está em jogo é o calibre por onde o ar passa.

Quatro vinhetas mostram faringite, antibiótico, acometimento valvar e movimentos involuntários.
Da esquerda para a direita: infecção estreptocócica, tratamento antibiótico, comprometimento cardíaco imunomediado e coreia. São elementos relacionados, não uma sequência obrigatória nem uma escala temporal. O tratamento oportuno da faringite estreptocócica reduz o risco de febre reumática. As manifestações geralmente surgem semanas depois da infecção; a coreia pode ser mais tardia.
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Como se apresenta de verdade

Dor de garganta é um sintoma, não um diagnóstico, e o espectro que se apresenta na porta vai de um resfriado que incomoda a engolir até uma via aérea que se fecha em uma hora. O trabalho do exame clínico não é adivinhar o germe: é decidir, nesta ordem, se o paciente precisa de via aérea agora, se precisa de drenagem hoje, e só então se merece ou não antibiótico.

A régua de gravidade vem antes da régua etiológica. Um quadro que engana e um quadro que mata podem ter a mesma queixa de abertura, e o que os separa quase nunca é laboratório: é o que se vê na oroscopia, o que se apalpa no pescoço e o que o paciente faz com a própria saliva.

Competência ao concluir este capítulo. Avaliar via aérea e complicações antes do escore e usar antibiótico com diagnóstico e dose justificados. Ao discutir com o supervisor, separe achados observados, hipótese, risco imediato e plano com reavaliação. A prática deve mostrar o raciocínio que sustenta a decisão, além da execução técnica.

A faringoamigdalite viral, que é a maioria absoluta

Começa devagar. A dor de garganta é difusa, moderada, e vem acompanhada por sintomas de mucosa: coriza, obstrução nasal, tosse, rouquidão, conjuntivite. A febre é baixa ou ausente. O painel da ABORL-CCF lista como sugestivos de etiologia viral o início lento, a febrícula, a tosse, a congestão nasal, a conjuntivite, a rouquidão, a diarreia, as lesões orais ulceradas ou vesiculares e a idade abaixo de 3 anos — em qualquer idade, aliás, o conjunto vale, mas abaixo de 3 anos a etiologia viral é a regra.

Na oroscopia, a faringe está hiperemiada e as amígdalas podem estar aumentadas, com ou sem exsudato. Este é o ponto que mais confunde o interno: exsudato branco na amígdala não é sinônimo de bactéria. Adenovírus e Epstein-Barr produzem exsudato exuberante, e a placa branca continua sendo, no Brasil, o gatilho mais frequente de uma prescrição desnecessária.

Dois quadros virais têm assinatura própria e devem ser reconhecidos de olho, porque poupam qualquer discussão sobre antibiótico. A herpangina, do grupo dos enterovírus, produz vesículas e úlceras pequenas nos pilares amigdalianos e no palato mole, com faringe posterior poupada — dói muito, sobretudo em criança pequena, e o problema real é a hidratação. A gengivoestomatite herpética primária faz o contrário: as úlceras ocupam a boca anterior, gengiva e lábios, com gengiva sangrante e halitose, e é a razão pela qual se examina a boca inteira, não só o fundo. Lesão vesicular ou ulcerada em qualquer lugar da boca é argumento contra estreptococo, não a favor. A evolução esperada, em todos eles, é de melhora progressiva em três a sete dias.

A faringoamigdalite estreptocócica, que é a que muda a conduta

O quadro típico é o oposto do viral em quase tudo. Começa de repente. A dor de garganta é intensa e a odinofagia domina a queixa. A febre é alta, acima de 38,5 °C. Não há tosse, não há coriza, não há rouquidão, não há conjuntivite. Há mal-estar, cefaleia, às vezes náusea e vômito.

Ao exame, a orofaringe está intensamente hiperemiada e edemaciada, as amígdalas estão aumentadas com exsudato, pode haver petéquias no palato, e os linfonodos cervicais anteriores estão aumentados, maiores que 1 cm, dolorosos e com sinais flogísticos. A diretriz brasileira de febre reumática resume os critérios clínicos validados pela Organização Mundial da Saúde nesse mesmo conjunto: mal-estar geral, vômitos, febre elevada, hiperemia e edema de orofaringe, petéquias e exsudato purulento, além de gânglios cervicais palpáveis e dolorosos.

Dois achados merecem destaque porque são pouco lembrados e valem muito. O primeiro é a dor abdominal isolada, sem outras queixas gastrointestinais, que aparece na lista de sinais bacterianos do painel da ABORL-CCF e é uma armadilha clássica da criança em idade escolar — o quadro chega como abdome agudo e resolve com a oroscopia. O segundo é o rash escarlatiniforme: pele em lixa, poupando o sulco nasolabial, acentuada nas dobras. Escarlatina é faringoamigdalite estreptocócica com exantema pela toxina eritrogênica, e a conduta antibiótica é a mesma da faringoamigdalite; o exantema em si, seu tempo de descamação e o diferencial com as outras doenças exantemáticas têm tema próprio na apostila, em 'Doenças exantemáticas'.

A curva natural, mesmo sem antibiótico, é de melhora. O painel da ABORL-CCF registra que 90% das faringotonsilites bacterianas se resolvem completa e espontaneamente em sete dias. Esse número é o que impede o médico de confundir a melhora do paciente com prova de que a prescrição estava certa.

A mononucleose, que engana e que muda a prescrição

O adolescente ou adulto jovem com dor de garganta muito intensa, amígdalas enormes com exsudato espesso, febre prolongada por mais de uma semana e cansaço desproporcional está pedindo que se pense em mononucleose infecciosa. Três achados deslocam a probabilidade: linfonodomegalia cervical posterior — e não apenas anterior —, linfonodomegalia generalizada e esplenomegalia. Some-se o edema periorbitário e a fadiga que não combina com o resto.

O que muda a conduta é a interação com a aminopenicilina. Exantema maculopapular difuso e pruriginoso, frequentemente acometendo palmas e plantas, surge tipicamente de 7 a 10 dias após o início do antimicrobiano e se resolve em cerca de uma semana. Não é alergia à penicilina, e rotulá-la como tal marca o prontuário do paciente para o resto da vida — inclusive para uma futura profilaxia secundária de febre reumática, em que a penicilina é insubstituível.

O detalhe que fecha a armadilha: teste rápido positivo para estreptococo não afasta mononucleose. Num estudo com 222 crianças com faringite estreptocócica aguda, até 18% tinham coinfecção por vírus Epstein-Barr, e distinguir coinfecção verdadeira de colonização pelo estreptococo é difícil. Quando o quadro tem cara de mononucleose e há indicação de tratar o estreptococo, a escolha racional é a penicilina benzatina ou a penicilina V, e não a amoxicilina.

Duas consequências que o interno esquece de dizer: baço aumentado contraindica esporte de contato e esforço abdominal por semanas, pela chance de ruptura esplênica, e a fadiga pode durar mais que o resto do quadro.

Falta confirmar a suspeita, e cada exame tem hora e idade. Não há diretriz brasileira sobre essa confirmação; a régua aqui é a revisão brasileira de Oliveira e colaboradores, de 2012, e a página de laboratório do CDC, de 2024. O hemograma traz linfócitos acima de 50%, com pelo menos 10% deles atípicos — achado característico, não patognomônico, que pode só aparecer depois da primeira semana. O anticorpo heterófilo, o monoteste, é reativo em cerca de 40% dos casos na primeira semana e em 80% a 90% na terceira: negativo cedo com suspeita alta, repete-se na segunda ou terceira semana ou vai-se à sorologia específica. Abaixo dos 4 anos a sensibilidade usualmente não passa de 40% a 50%, e o CDC diz o mesmo com outras palavras: o heterófilo com frequência falta na criança e, positivo, sugere a doença sem confirmar o vírus. Quem confirma é a sorologia: IgM contra o antígeno do capsídeo viral sem anticorpo contra o antígeno nuclear, que só aparece de 2 a 4 meses depois dos sintomas, define infecção primária; anticorpos contra o capsídeo e contra o antígeno nuclear, juntos, sugerem infecção passada. A criança pequena engana também na clínica: pela mesma revisão, nessa idade a infecção costuma ser assintomática ou uma faringite leve, com ou sem amigdalite, sem o quadro do adolescente. E o corticoide não entra na mononucleose não complicada, em que pode favorecer infecção secundária; fica para as formas exuberantes e complicadas — na garganta, a hipertrofia de amígdalas que ameaça obstruir a via aérea, avaliada antes de qualquer receita, como nas três urgências de via aérea deste capítulo; fora dela, plaquetopenia grave, anemia hemolítica autoimune e cardite.

O abscesso periamigdaliano, que é o que se drena

É a complicação supurativa mais comum e a mais fácil de reconhecer quando se sabe o que procurar. O paciente costuma ter tido uma amigdalite alguns dias antes, tratada ou não, e piorou em vez de melhorar. Quatro achados montam o quadro: dor unilateral, que é o que primeiro chama atenção porque amigdalite viral e estreptocócica costumam ser simétricas; trismo, isto é, dificuldade de abrir a boca, pela irritação do pterigoideo medial; voz abafada, a chamada voz de batata quente; e sialorreia, porque engolir dói demais.

Na oroscopia, quando se consegue ver, há abaulamento do palato mole de um lado, com a amígdala empurrada para baixo e para a linha média, e a úvula desviada para o lado oposto. O protocolo municipal de Ribeirão Preto descreve como quadro elegível para atendimento otorrinolaringológico de urgência exatamente esse conjunto: dor de garganta, odinofagia, trismo ou restrição da abertura bucal, com ou sem febre, dificuldade respiratória e sialorreia.

A consequência prática é a que importa: coleção não resolve com antibiótico isolado. O painel da ABORL-CCF orienta, nas complicações supurativas — abscesso peritonsilar, parafaríngeo ou retrofaríngeo —, realizar a drenagem, com lâmina fria ou punção aspirativa, e introduzir antibiótico sistêmico, considerando internação nos casos mais graves, com trismo, desidratação, disfagia intensa ou mau estado geral. O interno não drena sozinho; o interno reconhece, chama e não manda para casa com receita.

Oroscopia compara tonsilas simétricas com abaulamento unilateral e desvio da úvula.
À esquerda, aumento tonsilar bilateral com exsudato e úvula central. À direita, abaulamento periamigdaliano unilateral com deslocamento da amígdala e da úvula. Assimetria, trismo, voz abafada e dificuldade para engolir aumentam a suspeita de complicação. Celulite e abscesso podem se sobrepor clinicamente; avaliar via aérea e necessidade de confirmação ou drenagem conforme o caso.

As três que exigem via aérea, não antibiótico

A epiglotite ou supraglotite do adulto tem apresentação enganosamente pobre à oroscopia: a garganta pode parecer quase normal, e a discrepância entre uma dor de garganta desproporcional e um exame de orofaringe pouco alterado é, por si só, um sinal de alarme. O quadro é de instalação rápida, com febre, odinofagia intensa, voz abafada, dificuldade para engolir a saliva e, adiante, estridor. O protocolo de regulação em otorrinolaringologia do TelessaúdeRS-UFRGS coloca essa suspeita entre as condições que indicam encaminhamento para urgência ou emergência, e caracteriza-a por três achados: dor de garganta grave, disfagia e sialorreia.

A angina de Ludwig é uma celulite bilateral do assoalho da boca, quase sempre de origem dentária, dos espaços submandibular, sublingual e submentoniano. Endurece o assoalho, eleva a língua contra o palato e empurra a base da língua para trás. O que se vê é edema submandibular bilateral e lenhoso, com a pele tensa, o paciente sem conseguir tocar o palato com a língua, a voz alterada, febre alta e mau estado geral.

A difteria voltou à lista porque a cobertura vacinal caiu. Ela é a única das três em que a orofaringe grita e o paciente sussurra. O Guia de Vigilância em Saúde descreve a angina diftérica como a forma mais comum: placas pseudomembranosas aderentes e invasivas, esbranquiçadas ou amarelo-acinzentadas, às vezes cinzento-escuras ou negras, espessas, de bordas bem definidas, que se estendem além das amígdalas e invadem pilares, úvula, palato mole e retrofaringe. E registra a dissociação que fecha o diagnóstico à beira do leito: a dor de garganta é discreta, independentemente da quantidade de placas, e a febre normalmente não é muito elevada, entre 37,5 °C e 38,5 °C, com o estado geral comprometido, o paciente prostrado e pálido. Nos casos graves há edema cervical intenso com aumento importante dos gânglios, o pescoço taurino.

Deglutir a própria saliva é um reflexo, e quem para de fazê-lo para porque dói demais ou porque não passa mais. É a régua comum às três e ao abscesso, e a única do capítulo que dispensa raciocínio diferencial para agir. A técnica de abordagem dessa via aérea, incluindo o que preparar e em que ordem, tem tema próprio em 'Manejo de via aérea'.

As faringites que mudam tudo quando são a primeira pista

A faringite da infecção aguda pelo HIV entra aqui não por frequência, mas por consequência. O quadro de síndrome retroviral aguda cursa com febre, faringite, linfonodomegalia generalizada, exantema, mialgia e, com frequência, úlceras orais rasas — e tende a acontecer em quem teve exposição de risco recente. Ela é indistinguível da mononucleose no consultório, e é por isso que a pergunta sobre exposição e a oferta de testagem fazem parte do exame, não de uma investigação de exceção. A conduta a partir de um resultado reagente, incluindo tempo de janela, confirmação e início de terapia, tem tema próprio em 'HIV/aids'.

A angina de Plaut-Vincent é uma ulceração necrótica unilateral da amígdala, de fundo acinzentado e odor fétido marcante, ligada à associação fusoespiralar, e costuma vir com higiene bucal ruim. Ela aparece nominalmente no diagnóstico diferencial da difteria no Guia de Vigilância em Saúde e na lista de agentes não estreptocócicos do painel da ABORL-CCF. O que a denuncia é a combinação de unilateralidade, necrose e halitose intensa. Já a faringite gonocócica é habitualmente pobre em sintomas ou francamente assintomática, e o que a levanta é a história sexual, não a oroscopia — ela merece lembrança justamente porque não aparece em escore nenhum.

E há a agranulocitose. Dor de garganta com ulceração e febre em quem usa medicamento capaz de causar neutropenia — metimazol e propiltiouracil, dipirona, clozapina, quimioterápicos — obriga a pedir hemograma antes de qualquer coisa. Ela também aparece nominalmente no diferencial da difteria amigdaliana no Guia de Vigilância em Saúde.

O que muda por grupo: criança pequena, idoso, imunossuprimido, gestante

Abaixo de 3 anos, a régua é outra. A recomendação do Departamento de Infectologia da Sociedade Brasileira de Pediatria registra que a infecção por S. pyogenes ocorre predominantemente entre 5 e 15 anos, sendo rara em menores de 2 anos, e que abaixo de 3 anos o achado de complicações supurativas é extremamente raro. A apresentação, quando há infecção estreptocócica nessa idade, tampouco é a clássica: em vez de amigdalite exsudativa com febre alta, o lactente faz um quadro arrastado de coriza persistente, febrícula, irritabilidade e adenomegalia — a chamada estreptococose. Some-se que o próprio painel da ABORL-CCF diz que a utilidade do escore de Centor modificado parece menor nas crianças do que nos adultos, pela diferença de apresentação da dor de garganta nos primeiros anos de vida. A soma disso tudo é uma regra prática de conduta: abaixo de 3 anos não se aplica o escore para justificar antibiótico, e a dor de garganta se trata como viral salvo situação excepcional bem documentada.

No outro extremo, o adulto acima de 45 anos perde ponto no escore justamente porque a prevalência de estreptococo despenca com a idade. Isso não significa que dor de garganta em idoso seja banal: significa que, se ele estiver grave, a explicação provavelmente não é faringoamigdalite estreptocócica. Dor de garganta com disfagia progressiva, perda de peso, rouquidão persistente por três semanas ou mais e linfonodo cervical endurecido e aderido em tabagista ou etilista é neoplasia de cabeça e pescoço até prova em contrário, e o protocolo do TelessaúdeRS-UFRGS trata essa combinação como prioridade de encaminhamento, não como caso de antibiótico.

No imunossuprimido — quimioterapia, transplante, corticoide crônico, HIV com imunodepressão, diabetes descompensado — três coisas mudam. A resposta inflamatória pode ser pobre, e a ausência de exsudato ou de febre alta não afasta infecção bacteriana grave; a candidíase orofaríngea entra como causa comum de odinofagia com placas brancas destacáveis, que se removem com espátula deixando base eritematosa, e não é caso de antibiótico; e o limiar para internar e para pedir imagem cervical cai. O painel da ABORL-CCF lista explicitamente 'graves comorbidades, como diabetes descompensado e imunossupressão' entre as situações que devem ser tratadas com antibiótico.

Na gestante, o que muda é a lista de escolhas, não a lógica da decisão. Penicilina benzatina e amoxicilina são seguras e permanecem primeira linha. O ponto de atenção é o esquema alternativo: quando a paciente é alérgica à penicilina, a escolha precisa considerar a gestação, e a decisão de qual macrolídeo usar deixa de ser automática.

Por fim, o paciente que já teve febre reumática é uma categoria à parte, e não pertence a este capítulo do ponto de vista da decisão: ele está em profilaxia secundária contínua, com penicilina G benzatina de 21 em 21 dias — 600.000 UI abaixo de 20 kg e 1.200.000 UI a partir de 20 kg —, e uma dor de garganta nele exige checar se a profilaxia está em dia antes de qualquer outra coisa.

06

Como fechar o diagnóstico

O interno não erra esta queixa por desconhecer faringoamigdalite. Erra por pedir exame que não muda nada, por não pedir o único que mudaria, e sobretudo por transformar uma decisão clínica em uma decisão de laboratório num serviço que não tem laboratório para isso. A investigação da dor de garganta tem uma característica incômoda: na imensa maioria dos casos, o exame que decide é o exame físico, e o resultado dele é a decisão de não pedir mais nada.

A ordem abaixo é a ordem real. Primeiro se descarta o que exige via aérea ou drenagem, porque isso independe de etiologia. Depois se estima a probabilidade de estreptococo com o que se colheu na anamnese e viu na boca. Só então, e apenas numa faixa estreita de probabilidade, entra um teste — se ele existir naquele serviço.

Pensar além do escore. Dor unilateral com trismo e voz abafada sugere abscesso peritonsilar e requer avaliação urgente para drenagem e antibiótico apropriado. Estridor, sialorreia e postura em tripé pedem equipe capaz de assegurar via aérea imediatamente, preservando posição de conforto e evitando exame forçado. Febre que reaparece, dor cervical unilateral e manifestações sépticas após faringite fazem considerar síndrome de Lemierre. Faringite em usuário de fármaco associado a agranulocitose exige hemograma urgente. Na mononucleose, orientar risco esplênico e retorno ao esforço individualizado; não basta trocar o antibiótico.

Antes de tudo: a triagem de gravidade, que não usa exame nenhum

Cinco perguntas e um olhar resolvem a primeira bifurcação, e elas vêm antes de qualquer escore. Consegue engolir a própria saliva? Consegue abrir a boca? A voz está abafada? Há edema no pescoço ou no assoalho da boca? Está sentado inclinado para a frente, com a boca entreaberta e recusando deitar? Qualquer resposta positiva tira o paciente da fila da faringoamigdalite comum e o coloca no fluxo de urgência.

Duas cautelas de exame que evitam desastre. Diante de placas extensas e aderentes que ultrapassam as amígdalas, o Guia de Vigilância em Saúde é explícito: não remover a pseudomembrana, porque a remoção acelera a absorção da toxina e provoca sangramento. E, na suspeita de epiglotite, manipulação agressiva da orofaringe e abaixamento forçado da língua podem precipitar obstrução — a inspeção é gentil, e a laringoscopia é feita por quem tem condição de assegurar a via aérea no mesmo ato.

O exame que decide: orofaringe com luz boa e pescoço com as duas mãos

A oroscopia mal feita é a maior fonte de erro desta consulta, e o motivo mais comum é banal: luz insuficiente. Lanterna de foco, paciente sentado com a cabeça em posição neutra, língua abaixada com espátula no terço médio — no terço posterior desencadeia náusea e fecha o campo —, e o pedido é para dizer 'á' sustentado, que eleva o palato mole e abre a visão da parede posterior.

O que se procura, em ordem, é uma lista curta. Simetria: as duas amígdalas ocupam o mesmo volume e a úvula está na linha média? Exsudato: existe, e está sobre a amígdala ou ultrapassando os pilares? Aderência: a placa se destaca com a espátula, ou é aderente e sangra? Palato: há petéquias? Mucosa: há vesículas ou úlceras, e onde — pilares e palato mole, ou boca anterior e gengiva? Assoalho da boca: está elevado, endurecido? Dentes: há foco dentário evidente?

A distinção entre placa que se destaca e placa aderente é a que separa três mundos. Exsudato amigdaliano de faringoamigdalite estreptocócica ou viral é removível e não sangra. Placa branca destacável que deixa base eritematosa em toda a mucosa é candidíase. Pseudomembrana aderente, invasiva, que ultrapassa a amígdala e sangra ao ser tocada é difteria até prova em contrário, e a partir daí a conduta é notificação imediata e coleta antes de antibiótico.

A palpação cervical é feita com as duas mãos, por trás ou pela frente, percorrendo as cadeias em sequência: submandibular, cervical anterior ao longo do esternocleidomastóideo, cervical posterior atrás do músculo, supraclavicular. Três informações saem daí e nenhuma delas sai de exame de imagem. Linfonodo cervical anterior maior que 1 cm, doloroso e com sinais flogísticos conta ponto no escore e aponta para estreptococo. Linfonodo cervical posterior ou generalizado aponta para mononucleose ou para infecção viral sistêmica. Linfonodo endurecido, indolor, aderido a planos profundos ou em massa fusionada não pertence a este capítulo: é suspeita de neoplasia e tem prioridade de encaminhamento no protocolo do TelessaúdeRS-UFRGS, que fixa em 2 cm e quatro semanas o limite de linfonodomegalia persistente sem causa definida na atenção primária.

Fecha-se o exame com o que quase nunca é feito e quase sempre importa: temperatura medida, não relatada; ausculta pulmonar quando há tosse; palpação do abdome quando se cogita mononucleose, procurando baço; e inspeção da pele, procurando exantema.

Três esquemas separados de coleção periamigdaliana, edema sublingual e epiglote edemaciada.
Três localizações, da esquerda para a direita: coleção periamigdaliana; edema do assoalho da boca com elevação da língua, como na angina de Ludwig; e epiglote edemaciada. Disfagia, sialorreia, alteração de voz e dificuldade respiratória alertam para ameaça à via aérea, sem uma ordem obrigatória de aparecimento. Não aguarde exames para reconhecer instabilidade.

O escore de Centor e a modificação de McIsaac: o que cada item significa

O escore não é um teste diagnóstico. É uma forma disciplinada de dizer em voz alta a probabilidade que o médico já estimou, e sua função real é impedir que a prescrição seja decidida pela placa branca ou pelo pedido do paciente. O painel da ABORL-CCF apresenta a versão modificada por McIsaac com cinco itens: febre acima de 38 °C vale +1; ausência de tosse vale +1; adenopatia cervical anterior maior que 1 cm vale +1; exsudato ou edema amigdaliano vale +1; e a idade entra como +1 entre 3 e 14 anos, 0 entre 15 e 44 anos e -1 a partir de 45 anos.

Cada item existe por um motivo e vale a pena saber qual. A febre acima de 38 °C separa o processo inflamatório intenso do desconforto de mucosa. A ausência de tosse é o item mais informativo do conjunto, porque tosse indica acometimento de via aérea inferior ou de mucosa respiratória, e o estreptococo do grupo A não faz isso: ele é uma infecção localizada de orofaringe. A adenopatia cervical anterior é o gânglio de drenagem da própria amígdala, e o que conta é anterior, dolorosa e maior que 1 cm — gânglio posterior conta a favor de mononucleose, não de estreptococo. O exsudato ou edema amigdaliano é o item menos específico, e é exatamente o que a maioria dos médicos usa sozinho para prescrever. A idade é o item que não se examina e que mais desloca a probabilidade: aos 8 anos a prevalência é alta, aos 50 é baixa, e o escore transforma isso em aritmética em vez de deixar no palpite.

As probabilidades que a Tabela 8 do painel da ABORL-CCF associa a cada pontuação são: 0 ponto ou menos, cerca de 2,5%; 1 ponto, 6% a 7%; 2 pontos, cerca de 15%; 3 pontos, 30% a 35%; 4 pontos ou mais, 50% a 60%. Vale registrar que, duas páginas adiante, o texto do mesmo documento cita faixas menores — 11% a 17% para 2 a 3 pontos e 28% a 53% para 4 ou mais — e a diferença entre as duas leituras não muda a conduta em nenhuma faixa, o que é a única razão pela qual ela é tolerável. A ordem de grandeza é o que interessa: mesmo no topo do escore, metade dos pacientes não tem estreptococo. Escore alto não é diagnóstico; é probabilidade alta o bastante para justificar tratar.

O escore tem limites que precisam ser ditos. Ele contempla cinco características e deixa de fora achados que também importam: petéquia no palato, início súbito, ausência de úlceras ou vesículas orais, cefaleia, ausência de diarreia e vômitos. O painel da ABORL-CCF é direto ao dizer que, mais importante do que a pontuação final, é considerar o quadro clínico global. E o próprio painel registra que a utilidade do escore parece menor nas crianças do que nos adultos. Some-se a isso a posição da Organização Mundial da Saúde em sua diretriz de 2024, que, avaliando as regras de predição clínica, não conseguiu recomendar nenhuma delas, porque o desempenho varia entre populações e nenhuma demonstrou sensibilidade e especificidade altas em populações diversas. A leitura correta desse conjunto não é abandonar o escore: é usá-lo como o que ele é — uma régua de decisão que torna explícita a probabilidade e obriga a examinar quatro coisas que seriam esquecidas, e não um exame que diz sim ou não.

O que confirma e o que exclui: teste rápido e cultura

A cultura de orofaringe é o padrão-ouro. A diretriz brasileira de febre reumática lhe atribui sensibilidade de 90% a 95%; o painel da ABORL-CCF trabalha com faixas mais conservadoras, de 60% a 90% de sensibilidade e 65% a 95% de especificidade. O problema não é acurácia: é tempo. O resultado leva de 48 a 72 horas, e o custo somado à altíssima prevalência da queixa inviabiliza o uso de rotina.

O teste rápido de detecção de antígeno resolve o tempo e paga com sensibilidade. A diretriz brasileira registra sensibilidade de 80% e especificidade de 95%; o painel da ABORL-CCF, especificidade em torno de 95% e sensibilidade entre 60% e 90%. A assimetria entre os dois números é o que governa a interpretação, e ela é simples: teste rápido positivo confirma; teste rápido negativo não exclui com a mesma força. Por isso a diretriz brasileira recomenda que, diante de quadro clínico sugestivo e teste rápido negativo, se faça cultura de orofaringe.

A janela de indicação é estreita e é o que quase ninguém respeita. O painel da ABORL-CCF orienta considerar o teste rápido apenas na faixa de probabilidade intermediária, com 2 a 3 pontos no escore. Abaixo de 1 ponto a probabilidade é tão baixa que um resultado positivo teria alta chance de refletir portador são; com 4 pontos ou mais a conduta já está decidida. Testar quem se vai tratar de qualquer jeito, ou quem não se vai tratar de jeito nenhum, é gastar dinheiro para não mudar nada.

Há um limite biológico do qual nenhum teste escapa: cerca de 30% das infecções por estreptococo do grupo A são subclínicas, e o isolamento da bactéria em vias aéreas superiores pode representar infecção verdadeira ou apenas a condição de portador são. Somente na infecção verdadeira ocorre elevação de anticorpos e, consequentemente, risco de desenvolver febre reumática. Isso significa que um teste positivo em quem tem quadro clínico viral provavelmente identificou um portador que está com um resfriado — e tratar esse paciente não previne nada, porque não há infecção estreptocócica ativa para prevenir.

Onde o teste não existe — que é a situação da maior parte da rede brasileira, e o painel da ABORL-CCF diz isso com todas as letras ao registrar que, pelo custo elevado e pela alta prevalência das faringotonsilites, o teste rápido ainda não pôde ser introduzido de rotina nos serviços públicos —, o escore deixa de ser um refinamento e passa a ser o instrumento de decisão. A recomendação da Organização Mundial da Saúde de 2024 endereça exatamente esse cenário: em populações de risco moderado a alto de febre reumática e sem disponibilidade de teste, crianças e adolescentes com faringite clinicamente suspeita devem ser tratados com antibiótico — recomendação forte, ainda que com certeza de evidência muito baixa. O Brasil, com prevalência de cardiopatia reumática crônica de 1 a 7 por 1.000 escolares, é uma dessas populações.

O que não pedir, e o que custa pedir

ASLO. A dosagem de antiestreptolisina O confirma apenas infecção estreptocócica anterior. A elevação dos títulos começa por volta do sétimo dia após a infecção e atinge o pico entre a quarta e a sexta semana, mantendo-se elevada por meses e às vezes por um ano. Uma ASLO colhida na consulta de dor de garganta responde a uma pergunta que ninguém fez, e o resultado que voltar duas semanas depois vai gerar uma segunda consulta e, com frequência, um segundo antibiótico. Ela é exame para o diagnóstico de febre reumática, não de faringoamigdalite — e mesmo lá, a diretriz brasileira recomenda duas dosagens com 15 dias de intervalo e lembra que cerca de 20% dos pacientes com febre reumática não cursam com elevação de ASLO.

Hemograma e proteína C reativa. Não distinguem infecção por S. pyogenes das demais. Quadros virais habitualmente cursam com linfocitose e PCR baixa e quadros bacterianos podem cursar com neutrofilia e PCR mais elevada, mas 'podem' e 'habitualmente' não sustentam decisão individual. Pedir hemograma e PCR numa faringoamigdalite comum acrescenta duas horas de espera, um custo e uma ansiedade — e, na prática do plantão, um número levemente alterado costuma virar a justificativa retroativa para a receita que já se pretendia fazer. Há três exceções em que o hemograma é obrigatório e não opcional: suspeita de agranulocitose por medicamento, suspeita de mononucleose com necessidade de documentar linfocitose atípica, e o paciente imunossuprimido ou toxemiado.

Imagem e cultura de controle. Radiografia cervical e tomografia não fazem parte da avaliação da faringoamigdalite; a tomografia de pescoço com contraste tem indicação restrita a suspeita de coleção cervical profunda, parafaríngea ou retrofaríngea, extensão de abscesso ou quadro que não responde ao tratamento. E não se repete cultura ao final do tratamento em paciente assintomático: isso apenas identifica portador são, que não desenvolve febre reumática e não precisa ser tratado.

O custo de pedir não é só financeiro. Todo exame pedido sem pergunta produz três coisas previsíveis: um resultado no limite que exige nova conduta, um retorno que ocupa vaga de outro paciente e, principalmente, a mensagem implícita de que a dor de garganta é assunto de laboratório. O paciente aprende isso e volta pedindo exame, do mesmo jeito que aprendeu a pedir antibiótico.

O diferencial mora aqui: o achado que confirma um é o que exclui o outro

Separar o diferencial em bloco próprio mentiria sobre como se raciocina. Na prática, cada achado da oroscopia e do pescoço move várias hipóteses ao mesmo tempo, e é essa movimentação simultânea que se aprende.

Tosse presente. Move para viral e tira ponto do escore. É o item que mais frequentemente aparece junto com uma prescrição de antibiótico, e cada vez que isso acontece o médico está prescrevendo contra o próprio exame.

Assimetria com desvio de úvula. Move para abscesso periamigdaliano e derruba a discussão sobre qual antibiótico oral escolher, porque a conduta passa a incluir drenagem. Assimetria sem abaulamento, com úlcera necrótica unilateral e halitose intensa, move para angina de Plaut-Vincent.

Linfonodo cervical posterior, esplenomegalia, fadiga desproporcional e febre por mais de uma semana. Move para mononucleose e, com isso, muda a escolha do antibiótico caso haja indicação de tratar — penicilina, não aminopenicilina. Move também para síndrome retroviral aguda quando há exposição de risco e úlceras orais rasas, e essa hipótese muda a consulta inteira.

Placa aderente que ultrapassa a amígdala, com dor discreta e febre pouco elevada. Move para difteria, e aqui o diferencial deixa de ser acadêmico. O Guia de Vigilância em Saúde lista, no diferencial da difteria amigdaliana ou faríngea, exatamente amigdalite estreptocócica, angina monocítica, angina de Plaut-Vincent e agranulocitose — o mesmo quarteto, percorrido no sentido inverso.

Vesículas e úlceras. Movem para viral e afastam estreptococo, com a localização dizendo qual: pilares e palato mole na herpangina, boca anterior e gengiva na gengivoestomatite herpética.

Placa branca destacável em toda a mucosa oral, deixando base eritematosa. Move para candidíase e levanta a pergunta seguinte, que é por que este paciente tem candidíase — corticoide inalatório sem lavar a boca, diabetes, imunossupressão, HIV.

O que existe no SUS: exame que não se consegue não é conduta

A investigação precisa caber no serviço em que o paciente está. Numa unidade básica ou numa UPA brasileira típica, o que se tem à mão é a lanterna, a espátula, as mãos e o termômetro. Cultura de orofaringe existe no papel e chega em dois ou três dias, o que a torna útil apenas quando há como reavaliar o paciente. Teste rápido de antígeno estreptocócico está disponível em serviços específicos e não é rotina na rede pública, pelo custo somado à altíssima prevalência da queixa.

A consequência disso é a que organiza o capítulo inteiro: no Brasil, na maior parte dos atendimentos, o escore não é um refinamento que se aplica quando falta o teste — é o instrumento principal. Isso aumenta, e não diminui, a responsabilidade de examinar bem: quando não existe exame de arbitragem, o único árbitro é a qualidade da anamnese e da oroscopia.

Do lado terapêutico, o que existe na farmácia da unidade é o que decide a prescrição, e a Rename 2024 é explícita quanto a isso. Do Componente Básico — o que a farmácia da unidade básica dispensa — constam benzilpenicilina benzatina nas apresentações de 600.000 UI e 1.200.000 UI, amoxicilina em suspensão oral de 50 mg/mL e em cápsula e comprimido de 500 mg, cefalexina, claritromicina, estolato de eritromicina, cloridrato de clindamicina em cápsulas de 150 e 300 mg, dipirona, paracetamol e ibuprofeno. A fenoximetilpenicilina potássica, a penicilina V que as diretrizes chamam de droga oral de escolha, consta da Rename numa única apresentação — pó para solução oral de 80.000 UI/mL — e no Componente Estratégico, que é de aquisição centralizada para programas específicos e não é o que está na prateleira da unidade. Escrever penicilina V numa receita brasileira é, na maioria dos lugares, escrever algo que o paciente não vai encontrar.

Há um dado da própria Rename que pertence a este capítulo e raramente é lido: a classificação AWaRe, adotada desde a edição de 2022. Amoxicilina, benzilpenicilina benzatina, cefalexina e clindamicina estão no grupo Acesso, definido como o dos medicamentos de primeira ou segunda linha para infecções comuns e amplamente acessíveis. Azitromicina, claritromicina e eritromicina estão no grupo Alerta, definido como o dos medicamentos destinados apenas a um grupo específico de pacientes, com doenças e síndromes bem definidas, cuja utilização deve ser monitorada continuamente. A distinção está impressa na lista oficial de medicamentos essenciais do país, ao lado de cada apresentação, e é a razão técnica pela qual azitromicina não é atalho aceitável para dor de garganta.

07

As três velocidades da dor de garganta

Toda dor de garganta sai da consulta em uma de três velocidades. Emergência agora, quando o problema é via aérea ou coleção. Antibiótico hoje, quando a probabilidade de estreptococo é alta o bastante para justificar prevenir febre reumática. E sintomático com data de retorno, que é o destino da maioria absoluta. O fluxo abaixo é a ordem em que essas três se decidem — a de gravidade primeiro, sempre, porque ela não depende de etiologia nenhuma.

  1. 1Antes de qualquer hipótese, a triagem de via aérea: o paciente consegue engolir a própria saliva, consegue abrir a boca, a voz está normal, o pescoço e o assoalho da boca estão livres, e ele consegue ficar deitado? Sialorreia, trismo, voz abafada, estridor, edema cervical ou postura sentada inclinada para a frente tiram o paciente deste fluxo.
  2. 2Se há suspeita de epiglotite ou supraglotite, de angina de Ludwig ou de obstrução: emergência agora, avaliação de via aérea por quem possa assegurá-la, sem manipulação agressiva da orofaringe. Se há dor unilateral com trismo, voz abafada, abaulamento do palato e desvio de úvula: abscesso periamigdaliano, avaliação otorrinolaringológica no mesmo dia para drenagem, mais antibiótico sistêmico.
  3. 3Oroscopia com luz boa e palpação das cadeias cervicais. Registrar simetria, exsudato, aderência da placa, petéquias no palato, vesículas ou úlceras e a localização delas, e o tamanho, a dor e a cadeia dos linfonodos.
  4. 4Se as placas forem aderentes, invasivas e ultrapassarem as amígdalas, com dor de garganta discreta apesar da extensão, febre entre 37,5 °C e 38,5 °C e estado geral comprometido: caso suspeito de difteria. Suspeita de difteria requer isolamento apropriado, notificação imediata e internação com avaliação de via aérea, antitoxina e antibiótico. Colher material prontamente quando viável, sem atrasar tratamento para aguardar coleta ou confirmação. Não tentar arrancar pseudomembrana aderente. Avaliar comunicantes com vigilância epidemiológica.
  5. 5Se há úlcera oral, vesícula, coriza, conjuntivite, rouquidão ou tosse: o quadro é viral e a decisão sobre antibiótico está tomada. Sintomático, orientação e data de retorno.
  6. 6Idade abaixo de 3 anos: a infecção estreptocócica é rara e as complicações supurativas são extremamente raras. Não se aplica o escore para justificar antibiótico nessa faixa; trata-se como viral, salvo situação excepcional documentada.
  7. 7Nos demais, aplicar o escore de Centor modificado por McIsaac: febre acima de 38 °C, ausência de tosse, adenopatia cervical anterior maior que 1 cm, exsudato ou edema amigdaliano, e o ajuste pela idade — mais um ponto de 3 a 14 anos, zero de 15 a 44 anos, menos um a partir de 45 anos.
  8. 81 ponto ou menos: sem antibiótico, sem teste. Sintomático, explicação e retorno se piorar.
  9. 92 a 3 pontos, sem sinais virais claros: selecionar teste rápido ou cultura conforme disponibilidade e protocolo. Resultado positivo sustenta tratamento específico. Em criança sintomática com três anos ou mais, teste rápido negativo requer cultura de confirmação, com mecanismo de contato se positiva; no adulto, cultura após teste rápido negativo não é rotina. Oferecer sintomáticos e orientações de retorno enquanto se acompanha. Sem teste, explicitar a estratégia local, risco de febre reumática e possibilidade de reavaliação; o escore isolado não confirma a etiologia.
  10. 10Centor/McIsaac estima probabilidade e ajuda a selecionar teste; não confirma estreptococo nem avalia via aérea. Sinais virais claros favorecem cuidado sintomático sem teste rotineiro. Sem sinais virais, preferir confirmação por teste rápido ou cultura quando disponíveis. Crianças sintomáticas com três anos ou mais e teste rápido negativo geralmente precisam de cultura de confirmação; adultos não precisam dela rotineiramente. Protocolos divergem sobre tratamento empírico em escore alto e locais sem teste: explicitar a estratégia local e o risco de febre reumática, sem ensinar quatro pontos como autorização universal. Dor intensa, desidratação, estridor e toxemia exigem avaliação de gravidade e diagnóstico diferencial; não são equivalentes a faringite estreptocócica simples. Para faringite estreptocócica simples com indicação estabelecida, usar penicilina G benzatina IM em dose única ou amoxicilina oral por dez dias completos, conforme peso, alergias e protocolo.
  11. 11Em qualquer escore, estridor, dispneia, choque, toxemia ou suspeita de abscesso exigem saída imediata do caminho de faringite simples: avaliar ABC, chamar ajuda e organizar emergência/otorrino, com suporte, antimicrobiano e eventual drenagem conforme a complicação. Desidratação e dor incapacitante exigem avaliação presencial e correção apropriada. Piora, persistência ou comorbidade relevante exigem reavaliação diagnóstica; não significam automaticamente estreptococo nem autorizam universalmente penicilina benzatina.
  12. 12Em todos os casos, escrever no prontuário a pontuação obtida, a decisão tomada e a data do retorno — e entregar ao paciente, por escrito, a lista de sinais que obrigam a voltar antes.

1 ponto ou menos — não tratar, e não testar

Probabilidade de estreptococo em torno de 2,5% com zero ponto ou menos e de 6% a 7% com um ponto. Nessa faixa, o antibiótico não tem alvo: mesmo um teste positivo teria alta chance de refletir portador são com um quadro viral. Conduta: analgesia, hidratação, explicação e data de retorno. O painel da ABORL-CCF orienta não usar antibiótico e não usar o teste rápido de rotina aqui.

2 a 3 pontos — a faixa em que o teste muda alguma coisa

Probabilidade em torno de 15% com dois pontos e de 30% a 35% com três. É a única faixa em que testar altera a conduta, e é por isso que o teste rápido se reserva a ela. Sem teste disponível, escolhe-se entre tratar agora — quando o paciente não tem como voltar — e reavaliar em 48 a 72 horas com prescrição tardia. A janela de nove dias sustenta as duas.

4 pontos ou mais — tratar, e não testar

Probabilidade de 50% a 60%. Alta o bastante para tratar e para dispensar o teste, porque o resultado não mudaria a conduta. Metade desses pacientes ainda assim não tem estreptococo — o que significa que a decisão é de aceitar tratar alguns sem alvo para proteger os que têm, e não de ter feito um diagnóstico. Penicilina benzatina em dose única, ou amoxicilina por 10 dias.

Escore de Centor modificado por McIsaac: o item, o que ele quer dizer e quanto vale

ItemO que ele está medindoPontos
Febre acima de 38 °CSepara inflamação intensa de desconforto de mucosa. O item febre considera temperatura acima de 38 °C na história ou aferição, conforme a versão do escore; não excluir febre documentada em casa porque o paciente tomou antitérmico.+1
Ausência de tosseO item mais informativo. Tosse indica acometimento de mucosa respiratória, e o estreptococo do grupo A faz infecção localizada de orofaringe.+1
Adenopatia cervical anterior maior que 1 cmÉ o linfonodo de drenagem da própria amígdala. Precisa ser anterior, dolorosa e com sinais flogísticos. Gânglio posterior conta a favor de mononucleose.+1
Exsudato ou edema amigdalianoO item menos específico do escore, e o que a maioria das prescrições desnecessárias usa sozinho. Vírus também fazem exsudato.+1
Idade de 3 a 14 anosA faixa de maior prevalência de estreptococo. É o item que não se examina e que mais desloca a probabilidade.+1
Idade de 15 a 44 anosFaixa intermediária: não acrescenta nem retira.0
Idade de 45 anos ou maisA prevalência de estreptococo despenca com a idade, e o escore desconta isso.-1

Probabilidade, confirmação e segurança

SituaçãoCondutaLimite
Sinais virais clarosSintomáticos e retorno orientado; não testar rotineiramenteExsudato isolado não confirma bactéria.
Sem sinais virais clarosUsar escore para probabilidade e seleção de testeEscore alto não confirma estreptococo.
Teste rápido positivo ou cultura positiva compatívelTratar com esquema apropriadoInterpretar no quadro clínico, considerando portador.
Teste rápido negativo em criança ≥3 anosCultura de confirmação quando indicada; garantir contato do resultadoEm adultos, cultura após teste rápido negativo não é rotineira.
Sem teste acessívelDecidir conforme risco, protocolo e possibilidade de seguimentoTratamento empírico deve ser justificado; dificuldade de retorno não prova etiologia.
Sialorreia, estridor, trismo, assimetria ou toxemiaAvaliar via aérea e complicação com urgênciaNão aplicar escore para liberar.

Esquemas para faringite estreptocócica — conferir população, alergia e apresentação

Medicamento e viaDose pediátricaAdulto ou tetoDuração
Penicilina G benzatina IM<27 kg: 600.000 UI; ≥27 kg: 1.200.000 UI1.200.000 UIDose única
Amoxicilina VO25 mg/kg/dose de 12/12 hMáximo 500 mg/dose; adulto 500 mg de 12/12 h10 dias
Amoxicilina VO, alternativa diária50 mg/kg uma vez ao diaMáximo 1.000 mg/dia10 dias
Cefalexina VO, alergia não imediata e não grave, com culpado que não foi amoxicilina nem ampicilina20 mg/kg/dose de 12/12 hMáximo 500 mg/dose10 dias
Claritromicina VO, alternativa selecionada7,5 mg/kg/dose de 12/12 hMáximo 250 mg/dose10 dias
Clindamicina VO, alternativa selecionada7 mg/kg/dose de 8/8 hMáximo 300 mg/dose10 dias
Azitromicina VO, alternativa selecionadaDia 1: 12 mg/kg (máx. 500 mg); dias 2–5: 6 mg/kg/dia (máx. 250 mg)Dia 1: 500 mg; dias 2–5: 250 mg/dia5 dias

O que o antibiótico previne, e quanto — números absolutos e quantas pessoas é preciso tratar

DesfechoSem antibióticoCom antibióticoPessoas tratadas para evitar um caso
Febre reumática em 2 meses, em quem tem swab positivo (7 estudos, 3.416 participantes)16 por 1.0008 por 1.000125
Febre reumática em 2 meses, em quem tem dor de garganta em geral (17 estudos, 12.132 participantes)19 por 1.0007 por 1.00084
Abscesso periamigdaliano em 2 meses (7 estudos, 2.367 participantes)23 por 1.0003 por 1.00050
Otite média aguda em 14 dias (10 estudos, 3.646 participantes)20 por 1.0005 por 1.00067
Febre reumática, recalculada com o risco basal brasileiro estimado (30.000 casos para 10 milhões de faringoamigdalites estreptocócicas ao ano, ou 3 por 1.000)3 por 1.000cerca de 1,5 por 1.000cerca de 680

O que engana e o que mata

QuadroO que o levantaO que fazer
Mononucleose infecciosaAdolescente ou adulto jovem, febre por mais de uma semana, amígdalas muito aumentadas com exsudato, linfonodo cervical posterior, linfonodomegalia generalizada, esplenomegalia, fadiga desproporcional, edema periorbitário.Exantema associado a aminopenicilina durante mononucleose não comprova alergia permanente; avaliar características, gravidade e necessidade de investigação posterior. Se houver indicação de tratar estreptococo, usar penicilina benzatina ou penicilina V. Suspender esporte de contato enquanto houver esplenomegalia.
Abscesso periamigdalianoDor unilateral, trismo, voz abafada, sialorreia, abaulamento do palato mole com desvio da úvula para o lado oposto, piora depois de alguns dias de amigdalite.Avaliação otorrinolaringológica no mesmo dia. Drenagem por punção aspirativa ou incisão, mais antibiótico sistêmico. Internar se houver trismo importante, desidratação, disfagia intensa ou mau estado geral.
Epiglotite ou supraglotiteDor de garganta desproporcional ao que se vê na orofaringe, instalação rápida, febre, voz abafada, incapacidade de engolir a saliva, postura sentada inclinada para a frente, estridor.Emergência. Não manipular agressivamente a orofaringe. Avaliação de via aérea por quem possa assegurá-la no mesmo ato. Antibiótico sistêmico e corticoide entram depois de a via aérea estar decidida.
Angina de LudwigEdema submandibular bilateral, lenhoso, assoalho da boca endurecido e elevado, língua empurrada contra o palato, foco dentário, febre alta, mau estado geral.Emergência. Via aérea primeiro, antibiótico sistêmico e avaliação cirúrgica para drenagem. Foco dentário precisa ser tratado.
DifteriaPseudomembrana aderente e invasiva que ultrapassa as amígdalas, dor de garganta discreta apesar da placa, febre de 37,5 °C a 38,5 °C, prostração, palidez, pescoço taurino, vacinação incompleta ou desconhecida.Notificação imediata. Não remover a pseudomembrana. Colher material prontamente, sem atrasar antitoxina e antibiótico na suspeita relevante de difteria. Internação, soro antidiftérico endovenoso conforme a forma clínica e antibiótico por 14 dias. Investigar e acompanhar os comunicantes.
Infecção aguda pelo HIVFebre, faringite, linfonodomegalia generalizada, exantema, mialgia, úlceras orais rasas, exposição de risco recente.Oferecer testagem. O quadro é indistinguível da mononucleose no consultório, e a consequência de identificá-lo muda o cuidado do paciente inteiro.
Agranulocitose medicamentosaDor de garganta com ulceração e febre em quem usa metimazol, propiltiouracil, dipirona, clozapina ou quimioterápico.Hemograma agora. É a única situação deste capítulo em que o hemograma deixa de ser exame inútil e passa a ser o exame que decide.
Neoplasia de cabeça e pescoçoDisfagia progressiva, odinofagia persistente, rouquidão por três semanas ou mais, perda de peso, linfonodo cervical endurecido e aderido, tabagismo ou etilismo.Encaminhamento prioritário, com descrição completa do exame e dos fatores de risco. Não é caso de mais um ciclo de antibiótico.

As probabilidades por pontuação são as da Tabela 8 do painel da ABORL-CCF. Duas páginas adiante, o texto do mesmo documento cita faixas um pouco menores para as mesmas pontuações; a conduta por faixa é idêntica nas duas leituras, e por isso a divergência não muda decisão nenhuma.

Os números absolutos de febre reumática, abscesso e otite vêm dos sumários de evidência da diretriz da Organização Mundial da Saúde de 2024. As pessoas tratadas para evitar um caso foram calculadas a partir desses absolutos: a diferença entre os dois riscos, invertida. Para a febre reumática em swab positivo, 16 menos 8 por 1.000 dá 8 por 1.000, e o inverso de 0,008 é 125.

A última linha da tabela de números é o recálculo com o risco basal brasileiro estimado pela diretriz de febre reumática — 30.000 casos ao ano para 10 milhões de faringoamigdalites estreptocócicas, ou 3 por 1.000. Aplicando a mesma redução relativa, restam cerca de 1,5 por 1.000, e é preciso tratar cerca de 680 faringoamigdalites estreptocócicas para evitar um caso. Os ensaios que sustentam a redução relativa foram feitos majoritariamente antes de 1960, em populações militares com incidência muito maior que a brasileira de hoje, e é essa a razão da diferença.

A mesma diretriz brasileira que projeta 30.000 casos ao ano também afirma que a incidência de febre reumática após faringoamigdalite estreptocócica fica entre 1% e 5%. Um por cento de 10 milhões seriam 100.000 casos, e cinco por cento seriam 500.000 — de três a dezessete vezes o que ela própria projeta. Os cálculos deste capítulo usam a projeção de 30.000, que é a mais conservadora e a mais compatível com os dados de internação disponíveis.

A azitromicina aparece na tabela de prescrição porque consta da Tabela 5 da diretriz brasileira de febre reumática, com 20 mg/kg/dia por 3 dias e máximo de 500 mg/dia. Duas observações práticas antes de usá-la: o teto de 500 mg/dia passa a valer a partir de 25 kg, de modo que uma criança de 30 kg recebe na verdade 16,7 mg/kg e um adulto recebe cerca de 7 mg/kg — a dose por peso deixa de existir; e a Rename 2024 a classifica no grupo Alerta da escala AWaRe, ao lado da claritromicina e da eritromicina, enquanto amoxicilina e penicilina benzatina estão no grupo Acesso.

O corte de peso da penicilina benzatina diverge entre fontes brasileiras — 20 kg na diretriz de febre reumática, 27 kg na recomendação da Sociedade Brasileira de Pediatria e no painel da ABORL-CCF —, e para uma criança de 25 kg isso é a diferença entre 1.200.000 UI e 600.000 UI. O capítulo adota 27 kg; a divergência está tratada por extenso no bloco sobre onde bons médicos discordam.

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A conduta, hora a hora

A consulta de dor de garganta dura poucos minutos e tem um número pequeno de decisões, todas tomadas na mesma ordem, sempre. O que muda entre um atendimento bom e um ruim não é o conhecimento: é a disciplina de tomar as decisões na ordem certa e de escrever cada uma delas — inclusive a decisão de não prescrever, que é a mais frequente e a única que costuma sair do consultório sem registro.

Toda dose abaixo vem com a fonte que a sustenta. Onde as fontes brasileiras divergem, a divergência está dita e a escolha do capítulo está justificada. E há um marco inteiro dedicado ao que não se prescreve, porque nesta queixa a prescrição por hábito é mais perigosa que a omissão.

  1. Minuto 0 a 2 — a triagem que não depende de etiologia

    Antes de perguntar há quanto tempo dói, olhar. O paciente está engolindo a própria saliva? Consegue abrir a boca? A voz está normal ou abafada? Está sentado inclinado para a frente? Há edema no pescoço ou no assoalho da boca? Há estridor? Essa checagem custa vinte segundos e é a única do capítulo cuja falha mata no mesmo turno. Qualquer resposta positiva interrompe o atendimento ambulatorial e abre o caminho da urgência.

    Prescrição
    • Sialorreia com disfagia e dor de garganta grave, ou estridor, ou postura em tripé: acionar avaliação de via aérea agora, com quem possa assegurá-la, e não manipular agressivamente a orofaringe (TelessaúdeRS-UFRGS, Protocolo 8, Otorrinolaringologia Adulto, versão digital 2023)
    • Dor unilateral com trismo, voz abafada, abaulamento do palato e desvio da úvula: avaliação otorrinolaringológica no mesmo dia para drenagem, por punção aspirativa ou incisão, associada a antibiótico sistêmico (ABORL-CCF, I Campanha sobre uso de antibióticos em infecções de vias aéreas superiores)
    • Assoalho da boca endurecido e elevado, com edema submandibular bilateral e lenhoso: angina de Ludwig; via aérea primeiro, antibiótico sistêmico e avaliação cirúrgica
    • Suspeita de difteria requer isolamento apropriado, notificação imediata e internação com avaliação de via aérea, antitoxina e antibiótico. Colher material prontamente quando viável, sem atrasar tratamento para aguardar coleta ou confirmação. Não tentar arrancar pseudomembrana aderente. Avaliar comunicantes com vigilância epidemiológica.
  2. Minuto 3 a 8 — a anamnese que alimenta o escore, e o exame que o completa

    Cinco perguntas dão quatro dos cinco itens: quando começou e se foi de repente; se há tosse, coriza, rouquidão ou conjuntivite; se mediu a febre e quanto deu; se dói em um lado só; e o que já tomou. Duas perguntas a mais mudam o capítulo inteiro em alguns pacientes: que medicamentos usa de forma contínua, por causa da agranulocitose; e, quando o quadro tem cara de mononucleose, se houve exposição de risco recente. A oroscopia com luz de foco e a palpação das cadeias cervicais fecham o quinto item e trazem os achados que o escore não contempla — petéquias no palato, vesículas, aderência da placa, cadeia do linfonodo.

    Prescrição
    • O item febre considera temperatura acima de 38 °C na história ou aferição, conforme a versão do escore; não excluir febre documentada em casa porque o paciente tomou antitérmico.
    • Registrar no prontuário os cinco itens do escore, marcados um a um, e a pontuação final
    • Palpar sempre as cadeias anterior e posterior: gânglio posterior desloca a hipótese para mononucleose e não pontua no escore
    • Diante de placa extensa e aderente, não remover a pseudomembrana — a remoção acelera a absorção de toxina e provoca sangramento (Guia de Vigilância em Saúde, volume 1, 6ª edição revisada)
  3. Minuto 9 — a decisão sobre antibiótico, tomada em voz alta

    Centor/McIsaac estima probabilidade e ajuda a selecionar teste; não confirma estreptococo nem avalia via aérea. Sinais virais claros favorecem cuidado sintomático sem teste rotineiro. Sem sinais virais, preferir confirmação por teste rápido ou cultura quando disponíveis. Crianças sintomáticas com três anos ou mais e teste rápido negativo geralmente precisam de cultura de confirmação; adultos não precisam dela rotineiramente. Protocolos divergem sobre tratamento empírico em escore alto e locais sem teste: explicitar a estratégia local e o risco de febre reumática, sem ensinar quatro pontos como autorização universal. Dor intensa, desidratação, estridor e toxemia exigem avaliação de gravidade e diagnóstico diferencial; não são equivalentes a faringite estreptocócica simples.

    Prescrição
    • A janela para prevenir febre reumática é de até 9 dias do início do quadro: esperar 48 horas para reavaliar não custa a prevenção (diretriz brasileira de febre reumática; ABORL-CCF)
    • Escrever no prontuário a pontuação, a decisão e o motivo — 'escore 1, sem indicação de antibiótico nesta consulta, retorno em 48 h se piorar' é uma frase que protege o paciente e o médico
    • Centor/McIsaac estima probabilidade e ajuda a selecionar teste; não confirma estreptococo nem avalia via aérea. Sinais virais claros favorecem cuidado sintomático sem teste rotineiro. Sem sinais virais, preferir confirmação por teste rápido ou cultura quando disponíveis. Crianças sintomáticas com três anos ou mais e teste rápido negativo geralmente precisam de cultura de confirmação; adultos não precisam dela rotineiramente. Protocolos divergem sobre tratamento empírico em escore alto e locais sem teste: explicitar a estratégia local e o risco de febre reumática, sem ensinar quatro pontos como autorização universal. Dor intensa, desidratação, estridor e toxemia exigem avaliação de gravidade e diagnóstico diferencial; não são equivalentes a faringite estreptocócica simples.
  4. Minuto 10 — a prescrição, quando ela está indicada

    A primeira escolha brasileira é a penicilina, por três razões que não mudaram: ação bactericida comprovada, espectro estreito e nenhuma resistência do estreptococo do grupo A registrada até hoje. A escolha entre a injeção e o comprimido não é de preferência: é de aderência. A benzatina resolve os 10 dias num único ato; a via oral transfere ao paciente a tarefa de manter nível sérico por 10 dias, e é aí que a prevenção se perde. Quando há dúvida sobre a adesão, a injeção é a conduta mais segura.

    Prescrição
    • Penicilina G benzatina: 600.000 UI IM em dose única para peso abaixo de 27 kg; 1.200.000 UI para 27 kg ou mais, conforme esquema CDC adotado nesta revisão. Não misturar esse corte com o de profilaxia secundária da febre reumática. Escolher via com decisão compartilhada, acesso e adesão.
    • Para faringite estreptocócica confirmada ou tratada segundo protocolo: amoxicilina 50 mg/kg uma vez ao dia (máximo 1.000 mg/dia), ou 25 mg/kg por dose de 12/12 horas (máximo 500 mg/dose), durante 10 dias, conforme CDC. Na suspensão 50 mg/mL, criança de 12 kg recebe 6 mL de 12/12 horas; criança de 25 kg atinge o teto de 500 mg por dose, ou 10 mL de 12/12 horas. No adulto, 500 mg de 12/12 horas por 10 dias é opção. Confirmar concentração, alergia, função renal e apresentação real.
    • Alergia não imediata, de baixo risco e sem reação cutânea grave, em que o culpado não foi a amoxicilina nem a ampicilina: cefalexina 20 mg/kg por dose de 12/12 horas, máximo 500 mg por dose, por 10 dias é opção. Depois de reação a amoxicilina ou ampicilina, mesmo no exantema tardio leve, a cefalexina fica fora: é aminocefalosporina, com a cadeia lateral da ampicilina, e esta apostila adota aqui a régua de Reações de hipersensibilidade a drogas, na apostila de Imunologia. Nesse caso, e na alergia imediata ou na reação grave a betalactâmicos, a escolha muda; verificar resistência local antes de macrolídeo ou clindamicina.
    • Alternativas no alérgico selecionado: claritromicina 7,5 mg/kg por dose de 12/12 horas, máximo 250 mg por dose, por 10 dias; clindamicina 7 mg/kg por dose de 8/8 horas, máximo 300 mg por dose, por 10 dias. Considerar interações, resistência, efeitos adversos e apresentação que permita a dose.
    • A duração depende do medicamento: penicilina oral e amoxicilina têm curso de 10 dias; azitromicina, quando justificada por alergia e suscetibilidade, tem regime próprio de 5 dias. Não usar “todo antibiótico oral, sem exceção, dez dias”.
    • Suspeita de mononucleose exige avaliar hidratação, via aérea e baço; evitar aminopenicilina se alternativa indicada for apropriada e explicar que exantema nesse contexto não confirma por si só alergia permanente.
  5. Minuto 11 — o sintomático, que é o que o paciente veio buscar

    A dor é o motivo real da consulta, e ela precisa ser tratada com a mesma seriedade com que se recusa o antibiótico. Recusar antibiótico e não prescrever analgesia é a forma mais eficiente de garantir que o paciente volte em outro serviço e saia com antibiótico. O analgésico é a prescrição principal em quatro de cada cinco pacientes deste capítulo.

    Prescrição
    • Dipirona, adulto: 500 mg, um comprimido ou 20 gotas, até de 6/6 horas (Ministério da Saúde, Dengue: diagnóstico e manejo clínico, 6ª edição, 2024, Apêndice H)
    • Dipirona, criança: 10 mg/kg/dose até de 6/6 horas, respeitando a dose máxima por peso e idade; a solução oral é de 50 mg/mL e as gotas, de 500 mg/mL, com 1 mL correspondendo a 20 gotas (mesma fonte)
    • Paracetamol, adulto: 500 mg de 4/4 horas, ou 1.000 mg até de 6/6 horas, sem exceder 4 g em 24 horas (mesma fonte)
    • Paracetamol, criança: 10 mg/kg/dose até de 6/6 horas, sem ultrapassar a dose recomendada, porque doses elevadas são hepatotóxicas; a solução oral é de 200 mg/mL, com 1 mL correspondendo a 20 gotas (mesma fonte)
    • Atenção à equivalência entre apresentações: nas gotas de paracetamol a 200 mg/mL, 40 gotas correspondem a 400 mg e 60 gotas a 600 mg — e não a um e a dois comprimidos de 500 mg, respectivamente. Prescrever em miligramas e conferir a concentração do frasco evita subdose
    • Medidas não farmacológicas que valem a frase: hidratação abundante e fria, alimentos gelados, evitar irritantes como fumo e bebida alcoólica, repouso relativo
    • Ibuprofeno é alternativa analgésica e anti-inflamatória, disponível na Rename 2024 em comprimidos de 200, 300 e 600 mg e cápsula de 600 mg, e deve ser evitado em desidratação, doença renal e sangramento ativo
  6. Minuto 12 — o que não se prescreve, incluindo o que se prescreve por hábito

    Esta é a lista que muda a estatística de um serviço inteiro. Cada item abaixo é uma prescrição comum, e nenhum deles tem indicação na faringoamigdalite não complicada.

    Prescrição
    • Azitromicina como atalho: três comprimidos são mais cômodos que trinta cápsulas, e é exatamente por isso que ela é prescrita. Ela consta da Tabela 5 da diretriz brasileira de febre reumática como opção de alérgico, e é última linha, não primeira — e está no grupo Alerta da classificação AWaRe da Rename 2024
    • Amoxicilina com clavulanato na faringoamigdalite não complicada: espectro maior, mais diarreia, sem ganho. A associação tem lugar nas complicações supurativas, não na amigdalite (ABORL-CCF 2018)
    • Ceftriaxona intramuscular 'para garantir': não é conduta de faringoamigdalite comum e converte uma consulta ambulatorial numa exposição desnecessária a cefalosporina de terceira geração
    • Dez dias se aplicam aos esquemas orais de penicilina e amoxicilina; duração de outras alternativas depende do fármaco e do regime validado.
    • Sulfonamidas, tetraciclinas e cloranfenicol: não devem ser usados, pela alta prevalência de resistência do estreptococo e por não erradicarem o EBGA da orofaringe (diretriz brasileira de febre reumática; Sociedade Brasileira de Pediatria 2006)
    • ASLO, hemograma e proteína C reativa na faringoamigdalite comum: não distinguem etiologia e não mudam conduta. O hemograma tem indicação apenas na suspeita de agranulocitose, na suspeita de mononucleose e no paciente imunossuprimido ou toxemiado
    • Cultura de controle ao final do tratamento em paciente assintomático: identifica portador são e gera novo ciclo de antibiótico sem benefício
    • Antibiótico para o portador são: ele não desenvolve febre reumática e não precisa ser tratado
    • Amigdalectomia como forma de prevenir febre reumática: a diretriz brasileira é explícita ao dizer que a amigdalectomia não é medida recomendada para profilaxia primária
    • Aminopenicilina quando há suspeita de mononucleose: produz exantema que costuma ser rotulado como alergia à penicilina e acompanha o paciente para sempre
  7. Minuto 13 a 15 — a conversa, o retorno e o papel que sai na mão

    O paciente que não recebe antibiótico precisa sair com três coisas concretas: o que ele tem, quanto tempo isso dura, e a lista escrita do que o obriga a voltar antes. Sem as três, a decisão de não prescrever vira, na cabeça dele, uma consulta em que não foi feito nada. Quem recebeu antibiótico precisa das mesmas três, mais a instrução de completar os 10 dias mesmo depois de melhorar.

    Prescrição
    • Data de retorno marcada, e não 'volte se precisar': 48 a 72 horas quando a decisão foi observar, e 7 a 10 dias quando foi tratar
    • Lista escrita de sinais que obrigam a voltar antes: dificuldade para engolir a própria saliva, dificuldade para abrir a boca, dor que passa a ser só de um lado, voz que muda de timbre, falta de ar, edema no pescoço, febre que volta depois de ter cedido, ou dor que piora depois de já ter melhorado
    • Afastamento: quem tem faringoamigdalite estreptocócica e recebeu penicilina torna-se minimamente contagiante 24 horas após o início do tratamento, o que permite dizer com precisão quando voltar à escola ou ao trabalho (diretriz brasileira de febre reumática)
    • Contatos próximos: a taxa de transmissão do estreptococo do grupo A a partir de quem não é tratado é de cerca de 35% em famílias, escolas e aglomerações — isso justifica orientar, não justifica tratar contato assintomático (mesma fonte)
    • Se o caso for suspeito de difteria, a lógica é outra e é de saúde pública: todos os comunicantes precisam de exame clínico, coleta de material para cultura e vigilância por no mínimo sete dias a contar do último contato, e há indicação de quimioprofilaxia e de atualização vacinal conforme a situação de cada um (Guia de Vigilância em Saúde, volume 1, 6ª edição revisada)
  8. Dia 2 a 3 — a reavaliação de quem não recebeu antibiótico

    Este marco é o que sustenta tecnicamente a decisão de não prescrever, e é o que quase nunca é oferecido. Quem foi observado volta, e a volta é curta: a dor está melhorando, piorando ou igual? Apareceu algum sinal da lista? Se o quadro segue o curso viral esperado, encerra-se. Se piorou, o escore é refeito e a decisão é revista — e nada foi perdido, porque a janela de prevenção da febre reumática vai até o nono dia.

    Prescrição
    • Prescrição tardia, quando não houver como reavaliar presencialmente: entregar a receita com a instrução explícita de só usar se houver piora em 48 a 72 horas, e dizer quais são os sinais de piora. A estratégia reduz o consumo de antibiótico sem aumentar a morbidade, e depende de o paciente estar bem orientado (ABORL-CCF 2018)
    • Piora com aparecimento de dor unilateral, trismo ou voz abafada: não é indicação de trocar o antibiótico, é indicação de avaliar coleção
    • Febre que persiste além de sete dias, com linfonodo posterior e fadiga: reavaliar para mononucleose e para infecção aguda pelo HIV, não escalonar antibiótico
  9. Dia 10 — o fim do curso, e o que se faz depois

    Quem tomou penicilina benzatina não tem nada a fazer no dia 10: a injeção já cobriu os 10 dias. Quem tomou via oral termina o curso e encerra. Não se colhe cultura de controle, não se repete antibiótico, não se prolonga o tratamento porque 'ainda tem placa' — a placa amigdaliana pode demorar a sumir e não é critério de falha.

    Prescrição
    • Falha terapêutica verdadeira é sintoma que não melhora ou que retorna com o quadro completo, e não a persistência do achado na oroscopia
    • Diante de falha com penicilina, o painel da ABORL-CCF oferece cefadroxila 50 mg/kg/dia em 2 tomadas, cefalexina 50 mg/kg/dia em 4 tomadas ou clindamicina 20 mg/kg/dia em 3 tomadas, todas por 10 dias
    • Episódios repetidos: registrar quantos, quando e como foram documentados. O protocolo municipal de Ribeirão Preto usa como referência de amigdalites de repetição 3 episódios em 6 meses ou 4 ou mais em 1 ano, confirmados pelo médico e com uso de antibiótico em todos — a decisão sobre amigdalectomia é do otorrinolaringologista e depende dessa documentação, que só existe se alguém a tiver escrito na hora
    • Paciente com febre reumática prévia ou cardiopatia reumática: conferir se a profilaxia secundária está em dia — penicilina G benzatina de 21 em 21 dias, 600.000 UI abaixo de 20 kg e 1.200.000 UI a partir de 20 kg; penicilina V 250 mg de 12/12 horas quando a via injetável for impossível; sulfadiazina 500 mg até 30 kg e 1 g acima de 30 kg, uma vez ao dia, em alérgicos à penicilina; eritromicina 250 mg de 12/12 horas em alérgicos à penicilina e à sulfa (diretriz brasileira de febre reumática, Tabela 6)
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Como saber se está funcionando

A pergunta que fica sem resposta no internato não é 'o que prescrever': é 'como eu sei, em 48 horas, se estava certo'. Nesta queixa, a resposta é incômoda: quase todos melhoram, com ou sem antibiótico, e por isso a melhora não valida a decisão. O que valida é ter definido, antes, o que se esperava ver e em quanto tempo — e ter dito ao paciente exatamente o que faria a conduta mudar.

Os parâmetros abaixo servem para os dois caminhos, o de quem recebeu antibiótico e o de quem não recebeu, porque a diferença entre as duas curvas é pequena e a vigilância é a mesma.

Dor de garganta e odinofagiaEm 48 a 72 horas

Esperado: Curva descendente. Com antibiótico, a melhora é apenas um pouco mais rápida: o painel da ABORL-CCF estima em torno de 16 horas de ganho na dor, e 90% das faringotonsilites bacterianas se resolvem completa e espontaneamente em 7 dias.

Se não melhora: Dor que não cede em 72 horas, ou que muda de padrão e passa a ser unilateral, faz reavaliar coleção antes de qualquer troca de antibiótico. Trocar de antibiótico é a resposta errada para dor que piora.

FebreEm 48 a 72 horas

Esperado: Defervescência progressiva. Em quem recebeu antibiótico apropriado, espera-se que a febre esteja cedendo até o terceiro dia.

Se não melhora: Febre além do quinto dia com o quadro completo pede outra hipótese, não outra receita: mononucleose, infecção aguda pelo HIV, coleção profunda, abscesso, e no imunossuprimido a lista se amplia. Febre alta que retorna depois de ter cedido é sinal de complicação supurativa.

Capacidade de engolir — líquidos, sólidos e a própria salivaEm todo contato, desde o primeiro

Esperado: Melhora progressiva da ingestão. O paciente volta a beber e depois a comer.

Se não melhora: Piora da deglutição é o parâmetro mais importante do capítulo. Deixar de engolir a saliva reclassifica o paciente como emergência de via aérea, seja qual for o diagnóstico anterior, e não admite reavaliação agendada.

Abertura da bocaEm 48 a 72 horas, e a qualquer momento se o paciente relatar

Esperado: Abertura preservada e simétrica.

Se não melhora: Trismo novo é abscesso periamigdaliano até prova em contrário e exige avaliação otorrinolaringológica no mesmo dia. Ele quase nunca é relatado espontaneamente: precisa ser perguntado.

Timbre da vozEm todo contato

Esperado: Voz normal, ou levemente alterada pela dor, melhorando junto com ela.

Se não melhora: Voz abafada, de batata quente, indica ocupação do espaço peritonsilar ou supraglótico. É achado de urgência, e não sinal de laringite.

Hidratação e diurese, sobretudo na criança e no idosoEm 24 a 48 horas

Esperado: Ingestão mantida, diurese preservada, mucosas úmidas.

Se não melhora: Desidratação por recusa de ingesta é, por si só, indicação de tratamento e às vezes de hidratação assistida, mesmo em quadro viral. Consta da lista de situações que devem ser tratadas com antibiótico no painel da ABORL-CCF quando o quadro é bacteriano.

Pescoço: cadeias cervicais e contornoEm 48 a 72 horas e no retorno de 7 a 10 dias

Esperado: Redução progressiva do tamanho e da dor dos linfonodos cervicais anteriores.

Se não melhora: Aumento do volume cervical, edema difuso ou endurecimento sugere extensão para espaços profundos. Linfonodo que persiste maior que 2 cm por quatro semanas, endurecido ou aderido, sai desta linha de cuidado e entra na de investigação de neoplasia, com encaminhamento prioritário (TelessaúdeRS-UFRGS).

Aderência ao esquema oral, contada em unidades e não em intençãoNo retorno, entre o sétimo e o décimo dia

Esperado: O curso completo tomado. Perguntar quantas cápsulas sobraram é mais informativo que perguntar se tomou direitinho: 30 cápsulas em 10 dias de amoxicilina de 8/8 horas, e sobrar mais que duas ou três significa que a erradicação provavelmente não aconteceu.

Se não melhora: Curso interrompido em paciente com indicação real de profilaxia primária e ainda dentro dos nove dias do início do quadro: a saída mais segura é a penicilina benzatina em dose única, que resolve a aderência por engenharia e não por promessa.

Sinais tardios, que se explicam no primeiro dia e se procuram semanas depoisDa segunda à quinta semana

Esperado: Nada. A imensa maioria não terá nada.

Se não melhora: Poliartrite migratória de grandes articulações, sopro cardíaco novo, cansaço aos esforços, movimentos involuntários que desaparecem no sono, nódulos subcutâneos ou eritema marginado — qualquer um deles, semanas após uma dor de garganta, obriga a pensar em febre reumática e a aplicar os critérios de Jones, com evidência de infecção estreptocócica anterior. Urina escura, edema periorbitário matinal e hipertensão apontam para outra complicação, a glomerulonefrite difusa aguda pós-estreptocócica, que tem tema próprio na apostila de Nefrologia Pediátrica e que o antibiótico da faringoamigdalite não previne.

A decisão de não prescrever, reavaliada como qualquer outra condutaNo retorno, e no fim do plantão

Esperado: O paciente melhorou dentro do prazo previsto, sem complicação, e consegue repetir com as próprias palavras por que não recebeu antibiótico.

Se não melhora: Paciente que foi a outro serviço e saiu com antibiótico é informação sobre a conversa, e não necessariamente sobre a decisão clínica. As três perguntas a fazer são se a analgesia foi suficiente, se a data de retorno foi dada e se a lista de sinais de alarme saiu por escrito. Quando a resposta for não, a decisão estava certa e a consulta estava incompleta.

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Onde o erro machuca

Prescrever antibiótico porque há placa branca na amígdala — inclusive quando há tosse e coriza junto

O dano: É o erro mais frequente do país nesta queixa, e o mais caro em escala. Exsudato amigdaliano é produzido também por adenovírus, herpes e sobretudo pelo vírus Epstein-Barr, e é o item menos específico do escore de Centor modificado. Quando o mesmo paciente tem tosse, coriza ou rouquidão, a prescrição passa a contradizer o próprio exame registrado no prontuário, porque esses achados indicam acometimento de mucosa respiratória, que o estreptococo do grupo A não produz. O paciente recebe um remédio sem alvo, corre risco de exantema, diarreia e alergia, e aprende que dor de garganta com placa se trata com antibiótico — o que garante o próximo atendimento igual. Em escala, é o que sustenta a resistência antimicrobiana descrita pela Organização Mundial da Saúde como um dos principais problemas de saúde do mundo.

Como pegar a tempo: Antes de assinar, contar os pontos em voz alta. Placa sozinha vale 1 ponto, e 1 ponto significa probabilidade de 6% a 7%. Perguntar e anotar tosse e coriza sempre: 'ausência de tosse' é o item mais informativo do escore justamente porque a presença dela quase encerra a discussão. Se a decisão de prescrever não sobrevive à pergunta 'quantos pontos ele tem', ela não era clínica.

Aplicar o escore de Centor numa criança abaixo de 3 anos

O dano: Nessa faixa, a infecção por S. pyogenes é rara — a recomendação da Sociedade Brasileira de Pediatria a descreve como rara abaixo de 2 anos — e as complicações supurativas são extremamente raras abaixo de 3. Além disso, o próprio painel da ABORL-CCF registra que a utilidade do escore é menor nas crianças do que nos adultos. Aplicar a régua ali produz pontuação alta em quadros virais banais, porque febre e ausência de tosse são comuns, e resulta em antibiótico numa idade em que o benefício é próximo de zero e a alteração de microbiota é maior.

Como pegar a tempo: Abaixo de 3 anos, o escore não entra na conversa. A conduta é de quadro viral, salvo situação excepcional bem documentada, e a atenção vai para hidratação e para sinais de gravidade.

Dar amoxicilina para um adolescente com quadro de mononucleose

O dano: Exantema maculopapular difuso e pruriginoso, que costuma acometer palmas e plantas, aparece tipicamente 7 a 10 dias depois do início do antimicrobiano. O dano imediato é o susto; o dano permanente é o rótulo. O paciente sai marcado como alérgico à penicilina e perde, para o resto da vida, o antibiótico de espectro mais estreito, sem resistência conhecida do estreptococo — inclusive para uma eventual profilaxia secundária de febre reumática, em que a penicilina é insubstituível.

Como pegar a tempo: Procurar os três achados que deslocam a hipótese: linfonodo cervical posterior, linfonodomegalia generalizada e esplenomegalia. Quando houver suspeita e ainda assim indicação de tratar o estreptococo, escolher penicilina benzatina ou penicilina V. E lembrar que teste rápido positivo não afasta mononucleose: até 18% das crianças com faringite estreptocócica aguda tinham coinfecção por Epstein-Barr num estudo com 222 crianças.

Mandar para casa quem não consegue engolir a própria saliva

O dano: É o erro que mata no mesmo turno. Sialorreia com disfagia e dor de garganta grave é a tríade que o protocolo de regulação em otorrinolaringologia do TelessaúdeRS-UFRGS usa para indicar encaminhamento à urgência por suspeita de epiglotite ou supraglotite. Some-se trismo, voz abafada, edema cervical ou postura sentada inclinada para a frente, e o paciente tem via aérea em risco ou coleção cervical. Uma receita de antibiótico não segura nada disso, e a piora costuma acontecer em horas.

Como pegar a tempo: Fazer a pergunta antes de tudo e olhar o queixo do paciente: saliva escorrendo é achado visível da porta. Quem não engole a saliva não vai para casa, não espera resultado de exame e não recebe manipulação agressiva da orofaringe.

Tratar o abscesso periamigdaliano só com antibiótico

O dano: Coleção não se resolve por difusão de droga. O espaço peritonsilar se comunica com o parafaríngeo, e este com o retrofaríngeo e com o mediastino — o abscesso não drenado tem rota de fuga para o tórax. Enquanto isso, o paciente segue com trismo e disfagia, desidrata e o quadro evolui.

Como pegar a tempo: Reconhecer a assimetria: abaulamento do palato mole de um lado, amígdala deslocada e úvula desviada para o lado oposto. Diante disso, avaliação otorrinolaringológica no mesmo dia para drenagem por punção aspirativa ou incisão, mais antibiótico sistêmico, com internação se houver trismo importante, desidratação, disfagia intensa ou mau estado geral.

Prescrever azitromicina porque são três comprimidos em vez de trinta cápsulas

O dano: A comodidade é real e a lógica é sedutora, e é por isso que este é o erro que mais cresce. Mas a azitromicina está no grupo Alerta da classificação AWaRe impressa na Rename 2024, ao lado da claritromicina e da eritromicina — reservado a grupos específicos de pacientes com doenças bem definidas e com uso a ser monitorado continuamente —, enquanto amoxicilina e benzilpenicilina benzatina estão no grupo Acesso. Ela figura na Tabela 5 da diretriz brasileira de febre reumática como opção de alérgico, não como primeira linha, e o teto de 500 mg/dia faz a dose por peso deixar de existir a partir de 25 kg.

Como pegar a tempo: Quando o motivo da escolha for a comodidade, e não a alergia, a resposta certa não é a azitromicina: é a penicilina G benzatina, que resolve os dez dias em um único ato, com espectro estreito e sem resistência conhecida.

Prescrever antibiótico oral por 5 ou 7 dias

O dano: O paciente melhora igual, e é justamente isso que torna o erro invisível. A duração de 10 dias não existe para o sintoma: existe para manter nível sérico bactericida pelo tempo necessário à erradicação do estreptococo da orofaringe. O painel da ABORL-CCF afirma que o tratamento com amoxicilina por 7 dias pode não ser efetivo na prevenção primária de febre reumática, e a diretriz brasileira alerta que erros de dose, intervalo ou duração são observados na prática médica e levam ao insucesso do tratamento. O dano é silencioso: o único desfecho perdido é o que só apareceria semanas depois.

Como pegar a tempo: Escrever a duração por extenso na receita e dizê-la em voz alta: dez dias, mesmo depois de melhorar. Quando houver dúvida sobre a adesão, trocar a via oral pela injeção em vez de encurtar o curso.

Pedir ASLO na consulta de dor de garganta

O dano: O título de antiestreptolisina O começa a subir por volta do sétimo dia após a infecção e atinge o pico entre a quarta e a sexta semana, mantendo-se elevado por meses. Um resultado colhido hoje responde sobre o passado e não sobre o quadro atual. O dano prático é em cadeia: o resultado volta depois que o paciente já melhorou, gera uma segunda consulta, costuma gerar um segundo antibiótico e ensina paciente e equipe que dor de garganta é assunto de laboratório.

Como pegar a tempo: Reservar a ASLO para a investigação de febre reumática, e mesmo lá com duas dosagens separadas por quinze dias, lembrando que cerca de 20% dos pacientes com febre reumática não cursam com elevação do título.

Remover a pseudomembrana para 'ver melhor' o que há embaixo

O dano: Diante de uma placa aderente que ultrapassa a amígdala, a manobra é ativamente perigosa: o Guia de Vigilância em Saúde orienta não remover a pseudomembrana, porque a remoção acelera a absorção de toxina e provoca sangramento. Além disso, a coleta feita depois de iniciado antibiótico compromete a cultura, que é o padrão-ouro do diagnóstico da difteria.

Como pegar a tempo: Placa aderente e invasiva é sinal de parar, não de raspar. Suspeita de difteria requer isolamento apropriado, notificação imediata e internação com avaliação de via aérea, antitoxina e antibiótico. Colher material prontamente quando viável, sem atrasar tratamento para aguardar coleta ou confirmação. Não tentar arrancar pseudomembrana aderente. Avaliar comunicantes com vigilância epidemiológica.

Recusar o antibiótico e não prescrever analgesia

O dano: O paciente veio por causa da dor. Sai sem antibiótico e sem alívio, conclui que a consulta não serviu para nada, procura outro serviço no dia seguinte e sai de lá com a receita que queria — e com a certeza reforçada de que o primeiro médico errou. A decisão clínica estava certa; a consulta estava incompleta, e o efeito líquido foi um antibiótico a mais e uma confiança a menos.

Como pegar a tempo: Prescrever a analgesia com a mesma seriedade com que se recusa o antibiótico: dipirona ou paracetamol em dose e intervalo escritos, hidratação, alimentos gelados e a informação de quantos dias isso dura. Em quatro de cada cinco pacientes deste capítulo, o analgésico é a prescrição principal.

Tratar a dor de garganta do idoso tabagista como mais uma amigdalite

O dano: Disfagia progressiva, odinofagia persistente, rouquidão por três semanas ou mais, perda de peso e linfonodo cervical endurecido e aderido, em tabagista ou etilista, formam um quadro de neoplasia de cabeça e pescoço. Cada ciclo de antibiótico dado nesse contexto compra semanas de atraso, e o atraso muda o estádio ao diagnóstico. O protocolo do TelessaúdeRS-UFRGS coloca essas combinações entre as de prioridade de encaminhamento justamente porque o tempo aqui vale tecido.

Como pegar a tempo: Palpar o pescoço em toda dor de garganta e perguntar sobre tabagismo, etilismo, perda de peso e duração da rouquidão. Linfonodo persistente maior que 2 cm por quatro semanas sem causa definida sai desta linha de cuidado.

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O que dizer ao paciente e à família

Nenhuma decisão deste capítulo sobrevive sem a conversa. O paciente chegou com uma hipótese pronta — 'é infecção, preciso de antibiótico' — construída por anos de consultas em que ele recebeu exatamente isso. Contrariar essa hipótese sem argumento não é conduta conservadora: é uma consulta perdida, e um antibiótico prescrito por outra pessoa algumas horas depois.

As falas abaixo são para dizer, não para parafrasear. Elas partem de três princípios: reconhecer o pedido antes de negá-lo, dar o motivo real em vez do motivo institucional, e terminar sempre com o que o paciente vai fazer a partir de agora.

A conversa central: por que não vou dar antibiótico

Eu entendo o pedido, e vou explicar por que a minha conduta é outra — não é economia, e não é falta de cuidado. O que você tem tem cara de infecção por vírus, e o antibiótico não age em vírus. Mesmo quando a causa é bactéria, o antibiótico não cura mais rápido: encurta a dor em cerca de um dia, e a maior parte das pessoas melhora sozinha em uma semana. Ele existe aqui por outro motivo, que é evitar uma complicação chamada febre reumática, que afeta as articulações e o coração semanas depois. Quando o exame aponta para essa bactéria, eu dou o antibiótico sem hesitar, porque aí ele vale a pena. No seu caso o exame não aponta, e dar o remédio agora traz risco de diarreia, alergia e de deixar as bactérias do seu corpo mais resistentes, sem te dar o benefício.

Não diga: Não precisa de antibiótico, isso é só uma viroses. Não tem nada. Antibiótico não adianta mesmo. Isso passa sozinho. O protocolo não deixa. Não tem no posto.

Quando o paciente diz que sempre tomou antibiótico e sempre melhorou

Faz todo sentido você pensar assim, e eu pensaria igual no seu lugar. Só que quase todo mundo melhora em uma semana com ou sem antibiótico, então o que você viu foi a melhora natural acontecendo junto com o remédio. É como quem toma chá e melhora do resfriado: não é o chá. O que eu posso fazer é isto: tratar bem a sua dor agora e te ver de novo em dois ou três dias. Se você não estiver melhorando, eu revejo tudo. E eu tenho até nove dias desde o começo do quadro para começar o antibiótico e ainda evitar aquela complicação do coração, então esperar dois dias não te tira nada.

Não diga: Isso é impressão sua. Os médicos que te atenderam antes erraram. Você só melhorou por coincidência. Isso é efeito placebo.

Quando o paciente pergunta se pode ficar surdo, ficar com problema no coração ou piorar

É uma pergunta boa, e a resposta honesta é que o risco existe, é pequeno, e eu vou te dizer exatamente como a gente vigia. A complicação que a gente quer evitar com antibiótico é a febre reumática, e ela aparece semanas depois, com dor e inchaço em várias articulações que vão mudando de lugar, cansaço ao esforço ou falta de ar. Se você tiver qualquer uma dessas coisas nas próximas semanas, volte e diga que teve dor de garganta agora — isso muda o que a gente investiga. No curto prazo, o que eu quero que você observe é diferente: dificuldade para engolir a saliva, dificuldade para abrir a boca, dor que passa a ser de um lado só, voz mudada ou falta de ar. Qualquer uma dessas, você não espera o retorno: procura atendimento na hora.

Não diga: Não vai acontecer nada. Isso é raríssimo, esquece. Fica tranquilo que não tem risco nenhum. Se acontecer, a gente resolve.

Quando vou dar a injeção de penicilina benzatina

Neste caso o exame aponta para a bactéria, e eu vou tratar. Vou usar uma injeção de penicilina, dose única, no músculo. Escolhi a injeção por um motivo bem prático: o remédio precisa ficar agindo por dez dias seguidos, e a injeção garante isso de uma vez. Se fosse por comprimido, seriam três por dia durante dez dias, e a maioria das pessoas — inclusive eu — para de tomar quando melhora, por volta do terceiro dia. Aí a dor some, mas a bactéria não é eliminada, e é justamente ela que a gente quer eliminar para proteger o seu coração. A injeção dói na hora e no local por um ou dois dias; eu vou aplicar devagar e posso usar um anestésico junto, que reduz bem essa dor.

Não diga: É só uma picadinha. Não dói nada. É benzetacil, todo mundo toma. Precisa porque sim.

Quando vou dar comprimido e preciso que ele complete os dez dias

São dez dias, e essa é a parte que eu preciso que você leve a sério mais do que qualquer outra. Você vai melhorar em uns três dias, e nesse dia vai bater a vontade de parar. Se parar, o remédio terá servido para a dor e não terá servido para o que importa, que é eliminar a bactéria e proteger o seu coração. São trinta cápsulas ao todo, três por dia. Se você achar que não vai conseguir, me diga agora e sem constrangimento: eu troco pela injeção, que resolve de uma vez. Não tem problema nenhum em dizer que não vai dar.

Não diga: Toma direitinho. Não pode esquecer. Se parar, o problema é seu. Depois não venha reclamar.

Quando é preciso avaliar via aérea ou drenar, e há pressa

O que eu estou vendo aqui é diferente de uma dor de garganta comum, e eu preciso agir agora. A sua garganta está inchada de um jeito que pode atrapalhar a sua respiração, e por isso eu não vou te dar uma receita e te mandar para casa. Eu já chamei o colega da otorrino e a gente vai te levar para um lugar com o material adequado. Enquanto isso, fique sentado como você está, do jeito que estiver mais confortável, e não force. Eu vou ficar aqui com você. Se o seu acompanhante estiver na sala de espera, eu vou chamar agora para explicar.

Não diga: Calma que não é nada. Deita aí que eu vou examinar melhor. Abre bem a boca. Vamos esperar o exame ficar pronto. Depois eu explico.

Com o pai ou a mãe da criança que trouxe sobra de antibiótico de casa

Obrigado por trazer e por perguntar antes de dar — muita gente dá sem perguntar. Não é para usar, por dois motivos. O primeiro é que o que sobrou nunca dá o tratamento completo: dá uns dias, que aliviam e não curam, e isso é o pior dos dois mundos. O segundo é que essa dor de garganta dele tem cara de vírus, e antibiótico em vírus só traz efeito colateral. O que ele precisa agora é de remédio para a dor e para a febre, de líquido e de comida gelada, que ele vai aceitar melhor. E eu quero ver ele de novo em dois dias, ou antes se aparecer qualquer coisa desta lista aqui, que eu vou escrever para você.

Não diga: Nunca faça isso. Isso é automedicação, é perigoso. A senhora não pode fazer isso. Joga fora.

Quando a incerteza é real, e o paciente insiste

Vou ser direto: pelo que eu examinei, o quadro fica no meio do caminho. Não é claramente vírus e não é claramente bactéria. Nessa faixa, o ideal seria um teste de garganta, que a gente não tem disponível aqui hoje. Então eu tenho duas saídas honestas, e quero decidir com você. Uma é começar o antibiótico agora. A outra é tratar a dor, você voltar em dois ou três dias e a gente decidir com mais informação — e essa espera não é arriscada, porque dá para começar o antibiótico até o nono dia e ainda proteger o coração. Se você tiver como voltar, eu prefiro a segunda; se voltar for difícil, eu prefiro tratar hoje. De qualquer forma você sai daqui com o remédio para a dor, a data do retorno e a lista do que te obriga a voltar antes — eu não estou te mandando embora sem nada, e não estou fechando a porta.

Não diga: É melhor prevenir. Na dúvida, a gente dá. Vou dar porque não custa nada. Eu não sei o que você tem. Eu sou o médico aqui. Se quiser, procure outro. É assim e pronto.

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Onde bons médicos discordam

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.

Usar ou não um escore clínico para decidir a prescrição

Usar o escore de Centor modificado por McIsaac como instrumento de decisão

O painel brasileiro de otorrinolaringologia recomenda que a predição de infecção por S. pyogenes seja feita clinicamente por meio de critérios como o escore de Centor modificado, exatamente porque, por razões de custo e viabilidade, a identificação microbiológica não é factível na prática diária, nem mesmo em países desenvolvidos. O escore organiza a decisão, obriga a examinar quatro coisas que seriam esquecidas e torna a probabilidade explícita.

Piltcher OB e col., Como evitar o uso inadequado de antibióticos nas infecções de vias aéreas superiores? Posição de um painel de especialistas, ABORL-CCF, Braz J Otorhinolaryngol 2018;84(3):265-279, seção de faringotonsilites agudas e Tabela 8

Não endossar nenhuma regra de predição clínica

A diretriz da Organização Mundial da Saúde de 2024 registra que não foi possível fazer recomendação sobre regras de predição clínica ou sobre qualquer conjunto de sinais e sintomas com acurácia diagnóstica suficiente, porque o desempenho dessas regras varia entre populações e nenhuma demonstrou sensibilidade e especificidade altas em populações diversas. A decisão sobre usá-las é deixada aos formuladores de política de cada país, e o que o documento reconhece como consistente é apenas o conjunto de dor de garganta com febre e sem coriza nem tosse.

World Health Organization, WHO guideline on the prevention and diagnosis of rheumatic fever and rheumatic heart disease, 2024, seção de recomendações sobre diagnóstico e tratamento da faringite por estreptococo do grupo A

Como decidir

As duas posições dizem a mesma coisa por caminhos opostos: o escore não é um teste. A diferença está em para que se usa. Ele é ruim como instrumento de diagnóstico — mesmo no topo, metade dos pacientes não tem estreptococo — e é bom como disciplina de decisão, porque força a examinar febre medida, tosse, cadeia cervical anterior e orofaringe, e porque transforma um palpite em um número escrito no prontuário. Centor/McIsaac estima probabilidade e ajuda a selecionar teste; não confirma estreptococo nem avalia via aérea. Sinais virais claros favorecem cuidado sintomático sem teste rotineiro. Sem sinais virais, preferir confirmação por teste rápido ou cultura quando disponíveis. Crianças sintomáticas com três anos ou mais e teste rápido negativo geralmente precisam de cultura de confirmação; adultos não precisam dela rotineiramente. Protocolos divergem sobre tratamento empírico em escore alto e locais sem teste: explicitar a estratégia local e o risco de febre reumática, sem ensinar quatro pontos como autorização universal. Dor intensa, desidratação, estridor e toxemia exigem avaliação de gravidade e diagnóstico diferencial; não são equivalentes a faringite estreptocócica simples. Quando o quadro clínico global contradisser a pontuação, o quadro clínico vence: petéquia no palato, início súbito e ausência de úlceras orais não estão no escore e continuam valendo.

Onde não há teste rápido nem cultura: tratar empiricamente ou observar

Tratar as crianças e os adolescentes com suspeita clínica, em populações de risco moderado a alto

A diretriz da Organização Mundial da Saúde de 2024 faz recomendação forte, ainda que com certeza de evidência muito baixa, de tratar com antibiótico crianças e adolescentes com faringite clinicamente suspeita em populações de risco moderado a alto de febre reumática onde não há teste diagnóstico disponível. O mesmo documento delimita a suspeita clínica: febre presente, coriza e tosse ausentes. E é explícito ao dizer que quem se apresenta com dor de garganta não deve receber antibiótico a menos que a infecção esteja confirmada ou clinicamente suspeita nessas áreas.

World Health Organization, WHO guideline on the prevention and diagnosis of rheumatic fever and rheumatic heart disease, 2024, recomendação 2

Reavaliar em 48 a 72 horas com prescrição tardia, tratando na hora só quem não puder voltar

O painel brasileiro oferece, para a faixa de probabilidade intermediária sem disponibilidade de teste, duas saídas plausíveis: considerar tratamento imediato quando não houver possibilidade de seguimento do indivíduo, ou reavaliar dentro de 48 a 72 horas para eventual prescrição tardia. O mesmo documento sustenta essa espera lembrando que o tratamento para prevenir febre reumática não precisa ser iniciado no começo do quadro, havendo segurança de até nove dias.

Piltcher OB e col., ABORL-CCF, Braz J Otorhinolaryngol 2018;84(3):265-279, conduta para escore de Centor modificado entre 2 e 3, e seção sobre prescrição tardia

Como decidir

A divergência não é sobre a doença: é sobre a rede. As duas posições concordam que a janela de nove dias existe; discordam sobre quanto se pode confiar no retorno do paciente. Decida pelo acesso, não pela probabilidade. Se o paciente mora longe, veio de transporte cedido, é criança em creche com surto conhecido, tem cardiopatia reumática na família ou simplesmente disse que não conseguirá voltar, trate hoje. Se ele tem como voltar, entende o combinado e sai com analgesia e com a lista escrita de sinais de alarme, observe — e diga a data. Uma regra de segurança fecha as duas: nunca observe sem oferecer um jeito concreto de reavaliação, seja retorno marcado, seja a receita tardia na mão com a instrução explícita de quando usá-la.

Penicilina benzatina intramuscular ou antibiótico oral por dez dias

Penicilina benzatina como droga de escolha

A diretriz brasileira de febre reumática mantém a penicilina benzatina como droga de escolha para o tratamento da faringoamigdalite estreptocócica, com grau de recomendação I e nível de evidência B, pela suscetibilidade comprovada do estreptococo, pela ação bactericida, pela eficácia clínica e bacteriológica, pela baixa incidência de efeitos colaterais, pela boa aderência ao esquema, pelo espectro estreito e pelo baixo custo. E registra que uma dificuldade importante da profilaxia primária são os casos de tratamento inadequado, seja por antibiótico bacteriostático, seja por administração por período inferior a dez dias.

Diretrizes Brasileiras para o Diagnóstico, Tratamento e Prevenção da Febre Reumática, SBC/SBP/SBR, Arq Bras Cardiol 2009;93(3 supl.4):1-18, seção de profilaxia primária

Amoxicilina oral como primeira escolha

A recomendação do Departamento de Infectologia da Sociedade Brasileira de Pediatria coloca a amoxicilina 50 mg/kg/dia em duas tomadas diárias por dez dias entre as primeiras escolhas orais, e o painel da ABORL-CCF a descreve como outra boa opção terapêutica, considerada por algumas diretrizes como droga de primeira escolha. A vantagem prática é evitar a injeção e a dor local, sobretudo em criança, e a palatabilidade da suspensão favorece a adesão.

Nascimento-Carvalho CM, Marques HHS, Recomendação do Departamento de Infectologia da SBP para conduta de crianças e adolescentes com faringoamigdalites agudas, J Pediatr (Rio J) 2006;82(1):79-82; e Piltcher OB e col., ABORL-CCF, Braz J Otorhinolaryngol 2018;84(3):265-279

Penicilina, intramuscular ou oral, sem hierarquia entre as vias

A diretriz da Organização Mundial da Saúde de 2024 recomenda penicilina, intramuscular ou oral, como tratamento de primeira linha para a prevenção de febre reumática — recomendação condicional, com baixa certeza de evidência —, justificando a preferência pela penicilina em relação a outros antibióticos por seu espectro estreito, pela ausência de resistência conhecida do estreptococo do grupo A e pela menor chance de gerar nova resistência antimicrobiana na comunidade em comparação com antibióticos de espectro mais amplo.

World Health Organization, WHO guideline on the prevention and diagnosis of rheumatic fever and rheumatic heart disease, 2024, recomendação 3

Como decidir

Nenhuma das três posições defende a azitromicina, e todas defendem a penicilina — a discordância é só de via. Decida pela aderência, que é a variável que realmente determina se a erradicação vai acontecer. Pergunte, sem julgamento, se o paciente acredita que vai tomar trinta cápsulas em dez dias, e ouça a resposta. Criança que aceita bem a suspensão, família organizada, retorno garantido: a via oral é excelente e evita a dor da injeção. Adolescente que mora sozinho, adulto em jornada dupla, paciente que já interrompeu tratamento antes, ou qualquer situação em que o retorno seja improvável: a injeção resolve os dez dias num único ato e é a escolha mais segura. Há dois desempates absolutos. Se houver suspeita de mononucleose, a aminopenicilina sai da mesa. E se houver história de anafilaxia à penicilina, as duas saem, e a discussão passa a ser entre macrolídeo e clindamicina.

Dez dias de antibiótico, ou cursos mais curtos

Dez dias para os regimes orais de penicilina e amoxicilina; outras alternativas têm duração específica.

A diretriz brasileira de febre reumática é categórica: ao se optar pela via oral, a dose, o intervalo das doses e a duração de dez dias devem ser estritamente respeitados, sob pena de não se obter nível sérico adequado para a erradicação do estreptococo, e erros nesses itens levam ao insucesso do tratamento. O painel da ABORL-CCF diz o mesmo aplicado à droga mais usada: o tratamento com amoxicilina por sete dias pode não ser efetivo na prevenção primária de febre reumática, por não erradicar o S. pyogenes da orofaringe.

Diretrizes Brasileiras para o Diagnóstico, Tratamento e Prevenção da Febre Reumática, SBC/SBP/SBR, Arq Bras Cardiol 2009;93(3 supl.4):1-18; e Piltcher OB e col., ABORL-CCF, Braz J Otorhinolaryngol 2018;84(3):265-279

Cursos curtos podem ser equivalentes para desfechos clínicos

A diretriz da Organização Mundial da Saúde de 2024, ao revisar a evidência sobre duração, cita a comparação entre terapia oral curta, de dois a seis dias, e dez dias de terapia oral, sem diferenças clinicamente importantes encontradas, e não fixa duração exata nas recomendações do tratamento agudo. A literatura de cursos curtos é ampla em desfechos sintomáticos e de erradicação a curto prazo.

World Health Organization, WHO guideline on the prevention and diagnosis of rheumatic fever and rheumatic heart disease, 2024, seção sobre escolha e duração do antibiótico

Como decidir

O que decide aqui é qual desfecho está em jogo, e ele não é o mesmo nos dois lados. Os estudos de curso curto medem sintoma e erradicação de curto prazo em populações onde a febre reumática praticamente desapareceu; o desfecho que interessa no Brasil é raro e exige ensaios que ninguém vai repetir. Enquanto a evidência não for produzida em população de risco comparável ao brasileiro, o custo de errar é assimétrico: encurtar poupa alguns dias de comprimido e arrisca o único benefício pelo qual se prescreveu. Prescreva dez dias na via oral, resolva a aderência trocando a via e registre a duração por extenso na receita — a receita ambígua é a origem mais comum do curso encurtado.

O corte de peso da penicilina benzatina: 20 kg ou 27 kg

Vinte quilos

A Tabela 5 da diretriz brasileira de febre reumática prescreve, na profilaxia primária, 600.000 UI para peso abaixo de 20 kg e 1.200.000 UI para peso igual ou superior a 20 kg, em dose única intramuscular. O mesmo corte de 20 kg aparece na Tabela 6, que trata da profilaxia secundária a cada 21 dias.

Diretrizes Brasileiras para o Diagnóstico, Tratamento e Prevenção da Febre Reumática, SBC/SBP/SBR, Arq Bras Cardiol 2009;93(3 supl.4):1-18, Tabelas 5 e 6

Vinte e sete quilos

A recomendação do Departamento de Infectologia da Sociedade Brasileira de Pediatria fixa 600.000 UI para peso igual ou inferior a 27 kg e 1.200.000 UI acima de 27 kg, em dose única intramuscular, e o painel da ABORL-CCF repete o mesmo corte de 27 kg nos esquemas de faringotonsilite aguda.

Nascimento-Carvalho CM, Marques HHS, J Pediatr (Rio J) 2006;82(1):79-82; e Piltcher OB e col., ABORL-CCF, Braz J Otorhinolaryngol 2018;84(3):265-279

Como decidir

Esta revisão adota o esquema CDC para tratamento agudo: 600.000 UI abaixo de 27 kg e 1.200.000 UI a partir de 27 kg. Protocolos brasileiros históricos diferem; registrar o esquema adotado e não escolher dose por improviso. Profilaxia secundária de febre reumática tem indicação e regime próprios.

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O raciocínio, em voz alta

Volte à Marivalda Peçanha, 34 anos, auxiliar de cozinha, nove e dez da noite. Dor de garganta há dois dias, de início súbito, intensa ao engolir. Febre medida em casa de 38,4 °C. Cefaleia e mialgia. Sem tosse, sem coriza, sem rouquidão, sem conjuntivite. Tomou dipirona três vezes com alívio parcial. Pediu a injeção antes de qualquer exame, dizendo que todo ano é a mesma coisa e que precisa trabalhar amanhã.

  1. o que penso agora

    Antes de qualquer hipótese etiológica, verifico a velocidade. Ela fala normalmente, com voz limpa, está engolindo a própria saliva, abriu a boca sem dificuldade quando pedi e está sentada relaxada na cadeira. Não há edema cervical visível nem assoalho de boca elevado. Isso a tira do caminho da urgência e me autoriza a conduzir a consulta como faringoamigdalite comum. Só agora começo a pensar em vírus ou bactéria.

  2. o que peço

    Nada de laboratório ainda. Peço a ela que abra a boca com a lanterna de foco ligada, abaixo a língua no terço médio e peço um 'á' sustentado. E depois palpo as cadeias cervicais com as duas mãos, anterior e posterior, submandibular e supraclavicular. Meço a temperatura no atendimento, porque o item do escore é a temperatura medida.

  3. como a resposta muda o que penso

    Orofaringe intensamente hiperemiada, amígdalas aumentadas e simétricas com exsudato esbranquiçado que se destaca à espátula, sem ultrapassar os pilares. Petéquias no palato mole. Úvula na linha média. Sem vesículas, sem úlceras, sem placa aderente. Termômetro: 38,6 °C. Linfonodos cervicais anteriores bilaterais, dolorosos, o maior com cerca de 2 cm, com sinais flogísticos; cadeia posterior livre. Nada disso é diagnóstico sozinho, mas o conjunto tem forma.

  4. o que penso agora

    Conto os pontos em voz alta, um a um. Febre acima de 38 °C, medida: mais um. Ausência de tosse: mais um. Adenopatia cervical anterior maior que 1 cm e dolorosa: mais um. Exsudato amigdaliano: mais um. Idade de 34 anos, entre 15 e 44: zero. Total de quatro pontos. Na Tabela 8 do painel da ABORL-CCF, quatro pontos ou mais corresponde a probabilidade de 50% a 60% de faringotonsilite por S. pyogenes. Escore alto aumenta a probabilidade, mas não confirma a causa. Preferir confirmação quando disponível; tratamento empírico exige contexto e protocolo explicitados.

  5. o que peço

    Ainda nada de laboratório. Testar aqui seria gastar para não mudar conduta, e a diretriz brasileira e o painel brasileiro concordam nisso. O que peço é a história de alergia: já teve reação a penicilina, a amoxicilina, a algum antibiótico? Já tomou benzetacil antes e o que aconteceu? E, porque o quadro tem exsudato exuberante em adulto jovem, procuro ativamente os achados de mononucleose — linfonodo posterior, esplenomegalia, fadiga desproporcional, febre por mais de uma semana.

  6. como a resposta muda o que penso

    Nega alergia. Já recebeu penicilina benzatina duas vezes, sem reação. Cadeia posterior livre, baço não palpável, febre há dois dias e não há aquele cansaço desproporcional. A hipótese de mononucleose perde força, e com ela cai a restrição à aminopenicilina. Fico com faringoamigdalite estreptocócica provável, sem sinais de complicação supurativa e sem critério de gravidade.

  7. o que penso agora

    A decisão de tratar está tomada, e agora a escolha é de via — e essa escolha é sobre aderência, não sobre preferência. O antibiótico oral exige dez dias completos: são trinta cápsulas de amoxicilina, três por dia. Ela trabalha em cozinha, em turno, e disse duas vezes que precisa trabalhar. A pergunta que faço é direta e sem julgamento: você acha que consegue tomar três cápsulas por dia durante dez dias, mesmo depois de melhorar no terceiro? Ela ri e diz que na outra vez parou quando melhorou.

  8. o que peço

    Prescrevo penicilina G benzatina 1.200.000 UI, intramuscular profunda, dose única, aqui na unidade e agora — ela tem 34 anos e mais de 27 kg. Oriento a técnica a usar agulha 30x8 mm, injetar lenta e progressivamente por dois a três minutos e não friccionar o local, e autorizo 0,5 mL de lidocaína a 2% sem vasoconstritor junto, que reduz a dor durante a aplicação e nas primeiras 24 horas sem interferir significativamente nos níveis séricos. Junto, dipirona 500 mg, um comprimido, até de 6 em 6 horas, para a dor. E hidratação, alimentos gelados, sem fumo e sem álcool.

  9. como a resposta muda o que penso

    Enquanto a injeção é preparada, uso o tempo para o que o antibiótico não faz. Digo a ela por que estou tratando: não para curar mais rápido, porque a diferença é de mais ou menos um dia, mas para evitar febre reumática, uma complicação que aparece semanas depois nas articulações e no coração. Digo que 24 horas depois da penicilina ela deixa de transmitir, o que responde à pergunta do trabalho com precisão. E digo o que a obriga a voltar antes: não conseguir engolir a saliva, não conseguir abrir a boca, dor que passe a ser só de um lado, voz mudada, falta de ar, inchaço no pescoço, ou febre que volte depois de ter cedido.

  10. o que penso agora

    Escrevo no prontuário a frase que fecha a consulta e que serve de âncora para quem vier depois: 'faringoamigdalite, escore de Centor modificado 4 pontos — febre medida 38,6 °C, ausência de tosse, adenopatia cervical anterior 2 cm dolorosa, exsudato amigdaliano, idade 34 anos; sem sinais de complicação supurativa ou de comprometimento de via aérea; penicilina G benzatina 1.200.000 UI IM em dose única aplicada na unidade; dipirona 500 mg 6/6 h; orientada quanto a sinais de alarme por escrito; retorno em 7 dias ou antes se piorar'. A decisão de prescrever aqui é tão disciplinada quanto a de não prescrever no paciente da cadeira ao lado: as duas saem do mesmo escore, do mesmo exame e da mesma frase escrita.

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Faça você

Quinta-feira, 14h, unidade de pronto atendimento. Menino de 8 anos, 26 kg, trazido pela mãe. Há cinco dias começou com dor de garganta e febre; foi atendido no segundo dia em outro serviço, onde recebeu amoxicilina em suspensão, prescrita por sete dias, e melhorou um pouco no terceiro dia. Ontem à noite a febre voltou, subiu para 39 °C, e hoje ele está diferente: chora ao engolir, a dor agora é do lado direito, fala como se estivesse com a boca cheia e a mãe percebeu que ele está babando no travesseiro e cuspindo num copo em vez de engolir. Ao exame, ele consegue abrir a boca apenas cerca de dois centímetros e resiste quando se tenta abrir mais. À oroscopia possível, há abaulamento do palato mole à direita e a úvula parece deslocada para a esquerda. Sem estridor. Saturação 97% em ar ambiente, frequência respiratória 22, frequência cardíaca 128.

  1. leitura da história

    O padrão temporal é o que informa: melhora parcial seguida de piora no quinto dia não é falha de antibiótico, é complicação. Falha terapêutica verdadeira é o quadro que nunca melhora ou que retorna completo; aqui houve uma piora nova, com achados novos e localizados de um lado só.

  2. leitura do exame

    Quatro achados montam o quadro e nenhum deles é de amigdalite comum: dor unilateral onde antes era difusa, trismo com abertura de apenas dois centímetros, voz abafada, e sialorreia com recusa de engolir a própria saliva. O abaulamento do palato mole de um lado com desvio da úvula para o lado oposto fecha a assimetria. Saturação e frequência respiratória normais não tranquilizam — elas caem tarde.

  3. o que o antibiótico prescrito antes explica

    A prescrição de sete dias de amoxicilina é curta para a finalidade principal do antibiótico nesta doença, e a interrupção comum ao terceiro dia é a regra e não a exceção. Isso importa para a conversa que virá com a mãe e para a decisão de profilaxia futura, mas não muda o que precisa acontecer nos próximos minutos.

  4. a decisão que falta

    Diga, em ordem e com nomes: o que este menino tem, o que se faz agora e nesta ordem, o que não se faz de jeito nenhum, e qual é a prescrição por extenso — incluindo se ele vai para casa ou não.

Ver como fecharíamos

É abscesso periamigdaliano até prova em contrário, com o agravante decisivo de que a criança parou de engolir a própria saliva — o que reclassifica o caso como problema potencial de via aérea, e não apenas como coleção. A conduta é agora, sem agendamento. Primeiro: manter a criança sentada, na posição em que ela estiver mais confortável, sem forçar decúbito e sem manipulação agressiva da orofaringe ou abaixamento forçado da língua, que podem precipitar obstrução. Segundo: acionar avaliação otorrinolaringológica no mesmo dia — o protocolo municipal de Ribeirão Preto trata o abscesso periamigdaliano como urgência a ser encaminhada no mesmo dia por central de regulação e com contato prévio com o otorrinolaringologista —, e acionar em paralelo quem possa assegurar a via aérea. Terceiro: acesso venoso, hidratação endovenosa (ele está desidratado por recusa de ingesta) e analgesia parenteral. Para faringite estreptocócica confirmada ou tratada segundo protocolo: amoxicilina 50 mg/kg uma vez ao dia (máximo 1.000 mg/dia), ou 25 mg/kg por dose de 12/12 horas (máximo 500 mg/dose), durante 10 dias, conforme CDC. Na suspensão 50 mg/mL, criança de 12 kg recebe 6 mL de 12/12 horas; criança de 25 kg atinge o teto de 500 mg por dose, ou 10 mL de 12/12 horas. No adulto, 500 mg de 12/12 horas por 10 dias é opção. Confirmar concentração, alergia, função renal e apresentação real. Quinto: o tratamento definitivo é a drenagem, por punção aspirativa ou incisão com lâmina fria, feita pelo otorrinolaringologista — coleção não se resolve com antibiótico isolado. Ele fica internado: trismo, desidratação, disfagia intensa e mau estado geral estão todos presentes, e cada um deles sozinho já é critério de internação. O que não se faz: mandar para casa com receita nova, trocar o antibiótico oral e reavaliar em 48 horas, insistir na oroscopia forçada para ver melhor, ou esperar exame de imagem antes de acionar a otorrinolaringologia. Tomografia de pescoço com contraste tem lugar depois, se houver suspeita de extensão para os espaços parafaríngeo ou retrofaríngeo — não antes, e nunca como condição para chamar ajuda.

Gabarito da questão de abertura
Comentário

Trismo, assimetria e voz abafada indicam possível complicação supurativa. O escore foi criado para probabilidade de estreptococo em quadro não complicado e não decide segurança da via aérea ou necessidade de drenagem.

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Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
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Plano de revisão

Em 7 dias

Simule a consulta: triagem de gravidade, estimativa de probabilidade, necessidade de teste e explicação de não prescrever. Calcule amoxicilina conferindo teto e concentração.

Em 30 dias

Compare faringite simples, abscesso e difteria. Explique por que Centor não decide os dois últimos e organize tratamento e encaminhamento sem demora.

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Agora atenda

Agora atenda: mulher de 29 anos, professora de educação infantil, chega à unidade básica com dor de garganta há três dias, febre aferida em casa de 37,8 °C, tosse seca e coriza. Diz que na creche onde trabalha várias crianças estão com o mesmo quadro, que já tomou dois dias de um antibiótico que sobrou em casa e que quer 'a injeção' porque não pode faltar. Colha a história, examine a orofaringe e o pescoço, conte os pontos, decida — e explique a ela a sua decisão com as suas palavras.