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Otites e rinossinusite: quando o antibiótico muda o desfecho
Otite média aguda, otite média com efusão, otite externa e rinossinusite respondem a quatro perguntas diferentes sobre a mesma receita. Na maioria delas o antibiótico não encurta nada que importe e não previne a complicação que o interno teme; em algumas ele é a única coisa entre o paciente e o osso temporal. Este capítulo separa as duas situações com a régua brasileira na mão — e diz a idade dessa régua.
Piltcher OB, Kosugi EM, Sakano E, Mion O, Testa JRG, Romano FR, et al. Como evitar o uso inadequado de antibióticos nas infecções de vias aéreas superiores? Posição de um painel de especialistas. Associação Brasileira de Otorrinolaringologia e Cirurgia Cérvico-Facial — I Campanha sobre uso de antibióticos em infecções de vias aéreas superiores. Braz J Otorhinolaryngol. 2018;84(3):265-279
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Romano FR, Anselmo-Lima WT, Kosugi EM, Sakano E, Valera FCP, Lessa M, et al. Rhinosinusitis: Evidence and experience — 2024. Academia Brasileira de Rinologia e Associação Brasileira de Otorrinolaringologia e Cirurgia Cérvico-Facial, com a Associação Brasileira de Alergia e Imunologia. Braz J Otorhinolaryngol. 2025;91(5):101595. doi:10.1016/j.bjorl.2025.101595
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AAO-HNSF — Acute otitis externa guideline, 2014
AAO-HNSF — Adult sinusitis update, 2025
CDC — Outpatient pediatric antibiotic use
Prefeitura de São Paulo — elenco local, emergência e dispensação
Ministério da Saúde — Rename 2024, financiamento, p. 17 (cópia oficial municipal)
Responda antes de ler
Durante a discussão de um caso de otite média aguda em criança de 18 meses, um residente sustenta que todo caso deve receber antibiótico imediato, porque a prescrição precoce previne mastoidite e outras complicações supurativas. Considerando o que a literatura brasileira sobre uso de antibióticos em infecções de vias aéreas superiores afirma, qual das assertivas abaixo está correta?
O paciente que você vai ver
Sete e quarenta da manhã numa unidade básica de um bairro alto. A agenda tem doze nomes e quatro vagas de demanda espontânea, e a primeira delas já está ocupada desde as sete. Luciene entra segurando Otto Kruel, dois anos e três meses, quinze quilos, enrolado num cobertor fino. Ela dormiu sentada. Diz que o menino acordou três vezes na madrugada gritando e puxando a orelha direita, que está gripado desde sábado — coriza, tosse, febre baixa — e que ontem à noite a febre subiu. Mediu 38,9 °C em casa às duas da manhã, deu dipirona, ele dormiu uma hora e acordou gritando de novo.
Enquanto você lava as mãos, ela adianta o que veio pedir: "doutor, é ouvido, ele já teve isso em maio, na época o pediatra do particular deu amoxicilina e em dois dias ele estava bom. Só que agora eu não tenho como pagar consulta. O senhor pode já dar o remédio?" Você ainda não olhou a orelha e a conversa já chegou ao antibiótico. Isso não é um acidente da manhã de Luciene: é o formato padrão desta consulta no Brasil inteiro.
A tentação, aqui, é grande e tem uma boa justificativa aparente. A criança tem dor, tem febre, a mãe perdeu a noite, a fila tem mais quinze pessoas e a amoxicilina custa quase nada e está na farmácia da unidade. Prescrever encerra a consulta em quatro minutos e todo mundo sai satisfeito. Não prescrever custa dez minutos de conversa e devolve para Luciene a tarefa de voltar em dois dias.
Só que a pergunta que decide não é "a criança está sofrendo?". É outra, e este capítulo existe para você conseguir respondê-la em quatro consultas diferentes que chegam com a mesma cara: o antibiótico vai mudar o que acontece com este paciente, ou vai apenas mudar a flora dele e a da comunidade? Na otite média aguda, na otite média com efusão, na otite externa e na rinossinusite aguda a resposta é diferente — e em três das quatro ela é majoritariamente "não". Aprender a dizer isso com a régua na mão, e não por preguiça, é o que separa o interno que segura a receita do que apenas se esqueceu de escrevê-la.
Antes de olhar a orelha de Otto, vale saber uma coisa sobre o exame que você está prestes a fazer: ele é o único passo desta consulta que decide alguma coisa. Aqui não entra sangue, não entra imagem e não existe escore que substitua a vista. A otoscopia bem-feita, numa criança que não quer ficar parada, é a prova inteira.
Quem adoece disso
Metade das prescrições de antibiótico feitas em atendimento ambulatorial destina-se a alguma infecção de vias aéreas superiores — rinossinusite, otite média aguda e faringotonsilite concentram o grosso. É o número de abertura do painel de especialistas da Associação Brasileira de Otorrinolaringologia e Cirurgia Cérvico-Facial de 2018, e ele vem acompanhado de outro: em países que mediram, de 30% a 50% das prescrições de antibiótico são inapropriadas. O painel não mediu isso no Brasil; usou os dados de fora e escreveu o documento justamente para mudar o comportamento daqui.
A otite média aguda tem pico de incidência entre seis meses e dois anos, o que põe Otto exatamente na faixa. É a doença infecciosa que mais gera prescrição de antibiótico na infância nos Estados Unidos, e estima-se que mais de 80% dos casos diagnosticados recebam antibiótico imediato na maioria dos países. A exceção que o painel brasileiro cita é a Holanda, com 31,2%. Não é que as crianças holandesas tenham outra doença: é que a conduta-padrão de lá é outra.
Bactérias patogênicas são isoladas em cerca de 70% das culturas de orelha média na otite média aguda — Haemophilus influenzae, Streptococcus pneumoniae e Moraxella catarrhalis. Nos outros 30% ou não cresce bactéria nenhuma, ou crescem vírus: influenza, parainfluenza, rinovírus, vírus sincicial respiratório. Quase um terço das otites que você vai diagnosticar não tem bactéria dentro. Esse é o primeiro motivo aritmético para o efeito modesto do antibiótico.
O pneumococo já foi o agente mais prevalente e foi suplantado pelo H. influenzae na maioria dos países que implantaram vacinação em massa. O painel de 2018 registra que não temos dados nacionais de cultura de secreção de orelha média, mas que um estudo brasileiro mostrou aumento do isolamento de H. influenzae não tipável e redução do S. pneumoniae na rinofaringe de crianças imunizadas com a pneumocócica conjugada dez-valente. Ou seja: a mesma troca de protagonista provavelmente já aconteceu aqui. O calendário e o esquema da pneumocócica e da Hib são assunto de Retomar, não recomeçar, na apostila de Infectologia Pediátrica; aqui a vacina entra só como determinante epidemiológico — ela mudou quem é a bactéria, e quem é a bactéria muda a escolha do antibiótico.
A história natural das otites médias agudas não graves é o dado que mais deveria pesar na sua consulta. A cura ocorre independentemente do antibiótico na grande maioria dos casos, e os casos não graves são a esmagadora maioria dos que chegam. O benefício adicional do antibiótico existe, mas é modesto: incrementa de 12 a 14 pontos percentuais a taxa de resolução — de 80% sem antibiótico para 92% a 94% com ele. Traduzido em pacientes: é preciso tratar sete a nove crianças para obter esse benefício adicional em uma delas.
Na rinossinusite os números são ainda mais desfavoráveis à receita. Dos quadros agudos, apenas 0,5% a 2% evoluem para bacteriano no adulto, e de 5% a 13% na criança. Complicação é raridade estatística: estima-se uma complicação a cada 12.000 episódios de rinossinusite aguda em crianças e uma a cada 32.000 em adultos. Esses dois denominadores são o contrapeso honesto ao medo que faz o interno prescrever — e, ao mesmo tempo, a razão pela qual reconhecer a complicação quando ela aparece vale tanto.
A otite externa fecha o quadro com uma prevalência que o protocolo do Hospital de Clínicas da Universidade Federal do Triângulo Mineiro estima em 3% a 10% da população. É doença de calor e umidade, o que a torna, no Brasil, uma queixa de verão em qualquer porta de entrada litorânea ou de bairro com piscina de clube. E é a única das quatro entidades deste capítulo em que o tratamento certo é tópico — o que significa que, nela, o antibiótico oral que o interno prescreve por reflexo não é apenas inútil: é o erro.
Por que acontece o que acontece
As quatro entidades deste capítulo compartilham uma peça anatômica e um evento inicial. A peça é a mucosa respiratória contínua que forra o nariz, os seios paranasais, a rinofaringe, a tuba auditiva e a orelha média. O evento é o resfriado comum. Um vírus instala inflamação nessa mucosa; o edema fecha passagens estreitas; atrás de cada passagem fechada existe uma cavidade que precisava ventilar. O que muda entre otite média e rinossinusite é qual cavidade ficou sem ar.
Na orelha média, a passagem é a tuba auditiva. Ela liga a caixa timpânica à rinofaringe e faz duas coisas: iguala a pressão dos dois lados da membrana timpânica e drena secreção para a faringe. Quando o edema viral bloqueia o óstio faríngeo, a mucosa da orelha média continua absorvendo o ar preso — e a pressão dentro da caixa cai. A membrana timpânica é puxada para dentro, o paciente sente o ouvido tampado, e a queda de pressão faz transudar líquido para dentro da cavidade. Até aqui não há infecção bacteriana nenhuma: há uma orelha média com líquido estéril e pressão negativa.
O passo seguinte é o que define a otite média aguda. Aquele líquido é meio de cultura, e a mesma tuba que parou de drenar continua permitindo refluxo de secreção da rinofaringe — onde as três bactérias colonizadoras moram. Quando elas se multiplicam no derrame, a pressão dentro da caixa passa de negativa a positiva, e a membrana timpânica, que estava retraída, passa a abaular. Esse é o ponto exato em que a otoscopia muda de resposta, e é por isso que o abaulamento — e não a vermelhidão — é o sinal que o painel brasileiro chama de mais fidedigno.
A anatomia explica por que Otto e não a mãe dele. Na criança pequena a tuba auditiva é curta, larga e quase horizontal; no adulto ela é longa, estreita e desce em ângulo acentuado da orelha para a faringe. A tuba infantil, portanto, entrega refluxo com mais facilidade e drena com menos eficiência — e ainda por cima é aberta e fechada por uma musculatura menos eficiente, num crânio em que a tonsila faríngea ocupa espaço junto ao óstio. A incidência despenca depois dos dois anos porque a tuba muda de forma, não porque a criança fica mais forte.
A otite média com efusão é o mesmo cenário com a bactéria fora de cena. Sobra líquido atrás de uma membrana íntegra, sem os sinais agudos: sem dor importante, sem febre, sem abaulamento inflamatório. Ela aparece de duas maneiras — como resíduo previsível de uma otite média aguda que já resolveu a parte infecciosa, e como consequência crônica de disfunção tubária isolada. O líquido amortece a vibração da membrana e da cadeia ossicular, e o resultado é uma perda auditiva condutiva, geralmente leve a moderada, flutuante. Numa criança que está construindo fonologia, essa perda não é um detalhe audiológico: é ruído permanente sobre o sinal de que ela precisa para aprender a falar.
A orelha externa adoece por um mecanismo completamente diferente, e é por isso que o antibiótico oral falha nela. O conduto auditivo externo é pele sobre cartilagem e osso, protegido por uma camada de cerume ácido e lipídica que repele água e mantém o pH baixo. Água de piscina, calor, umidade e o cotonete removem essa camada; o pH sobe; a pele descama e racha; Pseudomonas aeruginosa e Staphylococcus aureus entram pelas fissuras. A infecção é da pele do canal, um tecido pobremente vascularizado e separado do sangue por uma barreira que os antibióticos sistêmicos atravessam mal. A concentração que interessa só se obtém pingando a droga em cima.
A forma necrotizante — a otite externa maligna do diabético — é essa mesma infecção que deixou de ser de pele. Em quem tem microangiopatia, quimiotaxia deficiente e cerume de pH mais alto, a Pseudomonas atravessa a fissura de Santorini, na junção osteocartilaginosa do conduto, e alcança osso. A partir daí não é mais dermatite infectada: é osteomielite de base de crânio, que caminha pelos forames e pega nervo craniano. O nervo facial é o mais acometido, em cerca de 31% dos casos. É a mesma bactéria da orelha do nadador num hospedeiro diferente, e o desfecho passa de "incômodo de uma semana" a "seis semanas de antibiótico e risco de morte".
Nos seios paranasais, por fim, a passagem que fecha é o complexo ostiomeatal — o corredor estreito por onde maxilar, etmoide anterior e frontal drenam para o meato médio. O edema viral fecha esse corredor, a depuração mucociliar para, o muco fica retido e a pressão parcial de oxigênio cai. A rinorreia purulenta que assusta o paciente e o médico aparece nesse ponto por conta dos neutrófilos que chegam e morrem — e aparece também no resfriado comum não complicado. Purulência é sinal de neutrófilo, não de bactéria: essa única frase evita boa parte das receitas erradas deste capítulo.

Como se apresenta de verdade
Quatro entidades, quatro apresentações que se confundem porque três delas doem no mesmo lugar e a quarta dói na face de quem também está com o nariz entupido. O que segue está organizado pela pergunta que o interno precisa responder à beira do paciente, e não pela ordem dos livros. Faringoamigdalite, critérios de Centor e teste rápido são do capítulo vizinho, Faringoamigdalites e critérios de Centor; estridor, crupe e epiglotite são de A garganta que não se olha, na apostila de Pneumologia Pediátrica; tontura e vertigem são de Tontura e vertigem no pronto-socorro.
Competência ao concluir este capítulo. Examinar ouvido e nariz, selecionar quem se beneficia de antibiótico e reconhecer complicações. Ao discutir com o supervisor, separe achados observados, hipótese, risco imediato e plano com reavaliação. A prática deve mostrar o raciocínio que sustenta a decisão, além da execução técnica.
Otite média aguda: a consulta inteira cabe no abaulamento
O quadro típico é o de Otto: criança pequena, resfriado há três a cinco dias, e então dor de ouvido de início rápido com febre. No lactente pré-verbal, que não diz onde dói, o equivalente é a tríade que o painel brasileiro descreve — mão na orelha, choro intenso e alteração do padrão de comportamento ou de sono, com ou sem febre. Uma criança de dez meses que passou a acordar gritando três noites depois de um resfriado está dizendo exatamente isso.
O diagnóstico, porém, não se faz pela história. Ele se faz por três elementos simultâneos: início agudo, derrame na orelha média e sinal de inflamação da orelha média. E o painel de 2018 é explícito sobre o que não serve: hiperemia isolada, diminuição de translucidez isolada ou presença de líquido retrotimpânico isolado, sem abaulamento e sem otorreia, não distinguem otite média aguda. O abaulamento da membrana timpânica é o sinal mais fidedigno.
Guarde essa frase porque ela desmonta o erro mais comum do internato inteiro. Uma criança de dois anos que chora, grita e se debate durante a otoscopia tem, pelo choro, vasodilatação da membrana timpânica. A membrana fica vermelha. Se vermelhidão bastasse, toda criança que chora teria otite — e é mais ou menos o que acontece na prática das unidades. Vermelho sem abaular é uma membrana irritada; vermelho abaulando, opaco, com relevos ósseos apagados, é otite média aguda.
A otorreia purulenta de início súbito, num conduto sem sinais de inflamação da pele, encerra a discussão: houve perfuração espontânea e há otite média aguda supurada. Costuma vir acompanhada de alívio imediato da dor — a mãe conta que o menino gritou a noite toda e amanheceu calmo com a fronha molhada. Não é melhora: é a membrana que cedeu.
Duas pistas etiológicas mudam a escolha do antibiótico, quando ele for indicado. A otite por pneumococo associa-se mais a alteração importante da membrana — sobretudo abaulamento —, a febre e a otalgia intensa. A otite por Haemophilus influenzae associa-se a sintoma ocular: a chamada síndrome otite-conjuntivite, com conjuntivite purulenta no mesmo lado ou nos dois. Uma criança com otite e olho remelando não é uma criança com duas doenças; é uma pista de que o agente provavelmente produz betalactamase.
Otite média com efusão: líquido sem infecção, e o que ele faz com a fala
É a entidade que o interno mais confunde com falha de tratamento, e a confusão custa cursos inteiros de antibiótico. Otite média com efusão é derrame na orelha média sem sinais agudos: membrana opaca, retraída ou de posição normal, imóvel, às vezes com nível hidroaéreo ou bolhas visíveis, e sem hiperemia intensa nem abaulamento. Não há dor significativa, não há febre. O paciente descreve ouvido tampado, som abafado, a própria voz ecoando na cabeça.
O ponto que evita a receita: efusão residual depois de uma otite média aguda é o curso esperado da doença, não o seu fracasso. A parte infecciosa resolve em dias; o líquido leva semanas a meses para ser reabsorvido. O painel brasileiro registra que os antibióticos têm efeito benéfico sobre a efusão até seis semanas após o término do tratamento, mas que esse efeito é clinicamente modesto e que eles não evitam a presença de efusão nem as recorrências tardias, depois de três meses. Uma criança reexaminada duas semanas depois, sem dor, sem febre, com uma membrana opaca e imóvel, está evoluindo bem — e o segundo antibiótico que ela ganha nessa consulta não faz nada por ela.
Na criança pequena, o que a efusão persistente ameaça não é a orelha: é a linguagem. A perda condutiva costuma ser leve a moderada e flutuante, e é exatamente esse perfil que passa despercebido. Ninguém desconfia de surdez numa criança que responde quando você fala perto e de frente. A queixa que chega é outra: fala pouco para a idade, troca sons, não atende quando é chamada de outro cômodo, aumenta o volume da televisão, parece distraída, foi rotulada de desobediente na creche.
O ponto pedagógico do internato é o encadeamento: bilateralidade e duração é que transformam um achado benigno em risco. Efusão unilateral de três semanas não preocupa. Efusão bilateral que persiste por três meses, numa criança em plena janela de aquisição fonológica, é indicação de avaliação audiológica formal — e de encaminhar, não de repetir amoxicilina. Registrar em prontuário a data em que a efusão foi vista pela primeira vez é o que permite contar esses três meses depois.
Anti-histamínico, descongestionante e corticoide não resolvem. A diretriz brasileira de 2005 vai além do "não ajuda" no caso dos anti-histamínicos: diz que eles são contraindicados na otite média aguda em crianças, porque prolongam o tempo de líquido na orelha média. É a rara ocasião em que o medicamento que a família já comprou por conta própria piora justamente o desfecho que preocupa.
Otite externa aguda difusa: a dor que aparece quando você puxa a orelha
A história é de calor, água e manipulação: banho de mar ou piscina, cotonete, unha, chave, fone intra-auricular, aparelho de amplificação sonora. O protocolo do Hospital de Clínicas da Universidade Federal do Triângulo Mineiro descreve os elementos diagnósticos com precisão útil: início rápido, em geral dentro de 48 horas, nas últimas três semanas; sintomas de inflamação do conduto, incluindo otalgia frequentemente grave, prurido ou plenitude auricular, com ou sem perda auditiva e com ou sem dor mandibular que piora ao mastigar; sinais de inflamação do canal, com sensibilidade do trágus, do pavilhão ou de ambos; e edema difuso do conduto, eritema ou ambos, com ou sem otorreia e linfadenite regional.
O sinal que separa da otite média em segundos é mecânico e não depende de você enxergar a membrana: tração do pavilhão e pressão sobre o trágus doem na otite externa e não doem na otite média. Some a isso a desproporção característica — dor intensa diante de um conduto que, à primeira olhada, parece só um pouco avermelhado. E some a dor ao mastigar, que existe porque a articulação temporomandibular está encostada na parede anterior do conduto inflamado.
O protocolo organiza a doença em quatro fases, e conhecê-las orienta o tratamento. Na fase pré-inflamatória há apenas eritema e edema leves, com prurido — o momento em que solução acidificante e higiene bastam. Na fase inflamatória leve surgem edema e hiperemia do conduto, dor ao trágus e otorreia discreta, inodora e clara. Na moderada, dor, prurido e edema se intensificam e a secreção vira seropurulenta. Na grave, a dor é pronunciada à mastigação e à palpação, o edema toma o conduto e a região pré-auricular, há linfadenopatia cervical reacional e secreção cinza-esverdeada com detritos de queratina.
Três variantes valem reconhecimento rápido, porque mudam a droga. A otite externa aguda localizada é um furúnculo da porção lateral cartilaginosa: um ponto de dor exuberante, com lesão única visível. A otite externa fúngica, ou otomicose, acomete a porção medial adjacente ao tímpano e aparece tipicamente depois de vários ciclos de gotas antibióticas; à otoscopia vêem-se esporos e hifas, geralmente de Aspergillus e menos frequentemente de Candida, e o quadro é de prurido e plenitude mais do que de dor. A otite de contato eczematosa tem edema, eritema, vesículas, exsudação e prurido, e o interrogatório encontra o alérgeno — níquel de brinco, borracha de fone, corante de xampu, ou a própria neomicina da gota que o paciente vem usando.
Há ainda duas apresentações que não são otite externa mas chegam pela mesma queixa. A miringite bolhosa, de etiologia viral e ligada a infecção de vias aéreas superiores, dá otalgia súbita no meio da noite, com zumbido e plenitude, e à otoscopia mostra bolhas de conteúdo seroso ou hemorrágico sobre a membrana; a dor cede depois de a bolha romper e sangrar. E a pericondrite, infecção do pericôndrio do pavilhão — eritema e endurecimento de parte ou de toda a orelha, com possível flutuação e febre — que evolui para necrose isquêmica da cartilagem e deformidade residual se for tratada como uma otite externa comum.
Otite externa necrotizante: o diabético cuja orelha dói de madrugada
É a apresentação que o internato precisa reconhecer sem ter visto nenhuma antes, porque o preço do atraso é osso. Os critérios de inclusão do protocolo institucional são diretos: otalgia grave, diabetes mellitus ou imunodeficiência, tecido de granulação no assoalho do conduto auditivo externo, cultura positiva para Pseudomonas aeruginosa com otorreia fétida, áreas de necrose cutânea ou envolvimento ósseo, e cintilografia com tecnécio ou gálio positiva.
Quatro marcas registradas resumem o reconhecimento: otalgia e otorreia persistentes com tecido de granulação; diabetes; idade avançada ou imunossupressão; e envolvimento de nervo craniano. A dor começa mais branda e evolui para lancinante, com piora noturna característica. A otorreia ocorre em 78% dos pacientes, mas é pouco específica. O achado específico é o tecido de granulação na junção osteocartilaginosa do conduto, presente em 75% dos casos — e ele só aparece para quem limpa o conduto e olha o assoalho.
O detalhe que engana é o que falta. Febre e taquicardia são incomuns. O paciente não parece séptico. Ele parece um senhor de 71 anos com uma otite externa que não melhorou com a gota que a unidade deu, e que voltou porque a dor não deixa dormir. Esperar toxemia para desconfiar é esperar a meningite, a trombose séptica de seio venoso, o abscesso cerebral ou a osteomielite de base de crânio — as quatro principais causas de morte nesses pacientes.
O nervo facial é o nervo craniano mais acometido, em 31% dos casos. Uma paralisia facial periférica num diabético idoso com otorreia crônica não é paralisia de Bell: é otite externa necrotizante até prova em contrário, e a diferença de conduta entre as duas hipóteses é internação contra corticoide ambulatorial. Trismo e linfadenopatia cervical existem, mas são menos frequentes.
Fora do diabético idoso, o mesmo quadro ocorre em outros imunossuprimidos: portadores de leucemia, anemia grave, pessoas vivendo com HIV, pacientes em uso de imunossupressores ou citotóxicos, e — o grupo que surpreende — crianças gravemente desnutridas. Nos imunossuprimidos não diabéticos, a forma fúngica por Aspergillus fumigatus é possível, e ela muda a droga inteira.
Rinossinusite aguda: quatro faixas no mesmo relógio
A atualização brasileira de 2025 define rinossinusite aguda como dois ou mais sintomas por até doze semanas, entre obstrução ou congestão nasal, rinorreia anterior ou posterior, dor ou pressão facial e redução do olfato — sendo que na criança a tosse entra no lugar da queixa de olfato. E declara em seguida o que poupa exame: para o diagnóstico não é necessário exame físico especializado nem exame radiológico.
Dentro dessa definição temporal cabem quatro quadros diferentes, e é a trajetória que os separa. A rinossinusite aguda viral tem sintomas mais intensos nos primeiros dois a três dias e melhora gradual, em geral dentro de catorze dias. A rinossinusite aguda viral prolongada — termo criado por esta atualização — é o mesmo quadro com melhora mais lenta, que pode durar três a quatro semanas ou mais; o nome existe justamente para reforçar que episódio prolongado continua sendo de origem viral. A forma bacteriana exige uma de duas coisas: piora significativa depois de melhora nos primeiros cinco dias — a dupla piora — ou manutenção do quadro intenso inicial, sem melhora gradual, depois de catorze dias.
O erro clínico que essa classificação corrige é o do calendário puro. O paciente que está no décimo segundo dia mas vem melhorando devagar não tem rinossinusite bacteriana; tem a forma viral prolongada, e o antibiótico não faz nada por ele. O que muda a categoria é a curva, não o número de dias. Um paciente que melhorou no quinto dia e piorou no sétimo, com dor que passou a ser claramente de um lado só, está numa categoria diferente do que ficou igual desde o começo.
Os sinais de unilateralidade merecem atenção porque são o achado mais útil ao lado do leito. A infecção viral começa difusa e bilateral. A mudança de padrão para predomínio claramente unilateral, sobretudo na dor e na rinorreia, é a que sugere que algo se instalou em um seio. Dor à percussão do seio maxilar ou frontal, dor dentária no arco superior, halitose e tosse noturna completam o quadro, mas nenhum deles isolado decide.
Rinorreia purulenta é o sintoma que mais convence o paciente e menos ajuda o médico. A atualização de 2025 registra que ela, apesar de classicamente associada à etiologia bacteriana, tem valor diagnóstico limitado — parâmetros clínicos isolados ou combinados não predizem resposta ao antibiótico. Secreção verde no quarto dia de resfriado é neutrófilo fazendo o trabalho dele.
Na criança há duas diferenças que valem número. A tosse é sintoma mais frequente do que a alteração de olfato e substitui essa queixa nos critérios. E a proporção de quadros que evoluem para bacteriano é maior: de 5% a 13% na criança, contra 0,5% a 2% no adulto. Pneumonia da criança e meningite bacteriana têm dono — Pneumonia na criança e A ordem certa não é a ordem do raciocínio, ambos em apostilas de pediatria; aqui a criança entra pelo nariz e pela orelha.
Quando deixou de ser otite ou rinossinusite: mastoidite, órbita e crânio
A mastoidite aguda é a complicação supurativa mais frequente da otite média e a que o interno tem obrigação de reconhecer sem ajuda. O quadro é o de uma criança com otite média aguda atual ou recente que passa a ter dor, eritema e edema retroauriculares, com apagamento do sulco atrás da orelha e deslocamento do pavilhão para fora e para baixo. Some febre e queda do estado geral. Esse conjunto não é sinal de que o antibiótico está demorando a agir: é indicação de hospital, antibiótico venoso, tomografia e otorrinolaringologista.
O restante da lista de complicações da otite média que o painel brasileiro enumera merece leitura devagar, porque explica por que a reavaliação existe: ruptura da membrana timpânica, mastoidite, meningite, abscesso subperiosteal, abscesso intracraniano, abscesso subdural, trombose de seio dural, labirintite, petrosite, paralisia facial e sepse. Vertigem de início súbito, paralisia facial periférica e rebaixamento de consciência numa criança com otite são três desvios que tiram o caso do consultório.
Do lado do nariz, a complicação que mais aparece é orbitária, e a classificação que a organiza desde 1970 é a de Chandler, ainda a mais citada: grupo 1, celulite periorbital, com inflamação e edema da pálpebra sem propagação para o interior da órbita; grupo 2, celulite orbitária, quando a infecção atravessa o septo; grupo 3, abscesso subperiosteal, coleção pós-septal entre a lâmina papirácea e o periósteo; grupo 4, abscesso orbitário verdadeiro; grupo 5, trombose do seio cavernoso. Uma proposta brasileira, de Velasco e Cruz e colaboradores, simplifica para três grupos por considerar que a celulite pré-septal é infecção palpebral e não orbitária.
O que separa o grupo 1 do grupo 2 à beira do leito não é a tomografia: é o exame que o interno pode fazer com uma lanterna. Celulite pré-septal tem edema e eritema palpebral com motilidade ocular preservada, acuidade visual normal, sem proptose e sem dor à movimentação do olho. A partir do momento em que aparece proptose, quemose, limitação da motilidade, dor à movimentação ocular, queda de acuidade ou alteração da visão de cores, a infecção é pós-septal e o paciente muda de endereço.
A lista de sinais de alerta do painel de 2018 cabe num cartão: alterações orbitárias, alterações visuais, dor frontal intensa, abaulamento frontal, sinais de meningite, sinais neurológicos focais e rebaixamento do nível de consciência. A diretriz de 2001 acrescenta um gatilho temporal que continua útil: piora importante dos sintomas e sinais de um quadro agudo depois de 72 horas de antibioticoterapia adequada, mais edema ou eritema palpebral, cefaleia intensa com irritabilidade e sinais de toxemia ou de irritação meníngea.
Vale dizer em voz alta o que essa seção não autoriza. Reconhecer que a complicação existe e é grave não é argumento para prescrever antibiótico em todo mundo — e a razão está no capítulo anterior deste texto, não na opinião de quem escreve. Antibiótico não elimina o risco de complicação e não deve ser prescrito indiscriminadamente; a raridade dos eventos limita conclusões sobre prevenção. Seleção por risco e retorno seguro continuam necessários. Seleção por risco e retorno seguro continuam necessários.
Como fechar o diagnóstico
A investigação deste capítulo é curta de propósito, e a maior parte do valor está em saber o que não pedir. Em três das quatro entidades o exame complementar não existe; na quarta ele decide tudo. O que segue separa uma coisa da outra.
A otoscopia é o exame complementar — e ela se faz com técnica
Não há exame de sangue, escore ou imagem que substitua olhar a membrana timpânica. O painel brasileiro registra explicitamente que muito da crítica às evidências de pequeno efeito do antibiótico se baseia na possibilidade de erro diagnóstico — de incluir nos ensaios crianças sem a doença ou sem otite bacteriana — e que o diagnóstico de certeza se baseia na otoscopia, que em crianças pequenas pode ser extremamente difícil. Traduzindo: parte do debate sobre antibiótico na otite média é, na verdade, um debate sobre a qualidade da otoscopia.
A técnica que muda o resultado começa pelo posicionamento. Criança pequena vai no colo, sentada de lado, com um braço da mãe segurando o tronco e o outro braço segurando a cabeça encostada no peito dela; as pernas da criança entre as pernas da mãe. Escolha o maior espéculo que entra. No lactente, tracione o pavilhão para trás e para baixo; a partir da idade escolar e no adulto, para trás e para cima — porque a angulação do conduto muda com a idade. Apoie a mão que segura o otoscópio na cabeça da criança, para que otoscópio e cabeça se movam juntos se ela se mexer.
Cerume é o motivo mais comum de otoscopia inconclusiva, e otoscopia inconclusiva vira, na prática das unidades, prescrição de antibiótico por segurança. Remover cerume com curette sob visão, ou amolecer e lavar quando não há suspeita de perfuração, é parte do exame — não uma tarefa de outra pessoa. Registrar em prontuário "conduto obstruído por cerume, membrana não visualizada" e prescrever amoxicilina é registrar por escrito que a decisão foi tomada sem o dado que a decidiria.
O que descrever no prontuário, sempre nas mesmas quatro linhas: posição da membrana (normal, retraída, abaulada), coloração e translucidez, presença de perfuração ou otorreia, e mobilidade. Essas quatro linhas escritas hoje são o único jeito de a reavaliação de daqui a 72 horas significar alguma coisa — e são também o que transforma "efusão vista pela primeira vez" numa data contável para o prazo de três meses.
Mobilidade: o dado que separa otite aguda de efusão
A membrana timpânica normal se move. A otoscopia pneumática — a insuflação com a pera acoplada ao otoscópio — é o método de consultório para verificar isso, e é ela que confirma a presença de derrame na orelha média quando o abaulamento não é óbvio. Membrana que não se move tem líquido atrás ou pressão negativa acentuada; membrana que se move normalmente praticamente afasta derrame.
Na prática brasileira das unidades básicas, o otoscópio com pera de insuflação muitas vezes não existe. Isso não é motivo para fingir que o dado foi obtido. É motivo para ser honesto no prontuário sobre o que foi e o que não foi examinado, e para pesar mais o abaulamento, a opacidade, o apagamento dos relevos ósseos e a presença de nível hidroaéreo ou de bolhas, que são visíveis sem insuflação.
A timpanometria é o exame que objetiva a mesma pergunta e não depende da habilidade de quem sopra. Curva plana indica orelha média com líquido; curva com pico deslocado para pressões negativas indica disfunção tubária sem derrame franco. Ela pertence ao acompanhamento da efusão persistente — não à consulta aguda —, e é útil justamente porque documenta o que a criança tem antes de você decidir sobre tubo de ventilação.
O painel brasileiro dá o dado que fecha esta seção do lado do desfecho: entre os efeitos do antibiótico na otite média, a melhora da efusão até seis semanas aparece, mas a presença de efusão e as recorrências tardias, depois de três meses, não mudam. Isto é, medir mobilidade serve para classificar e para acompanhar; não serve para justificar mais um antibiótico.
Audiologia e a criança que não responde quando é chamada
Na efusão persistente, o exame que decide não é da orelha: é da audição. A pergunta que a avaliação audiológica responde é quanto essa criança está perdendo, nos dois lados, e há quanto tempo. É esse número que sustenta a conversa sobre tubo de ventilação e a conversa com a escola, e é ele que falta quando o encaminhamento diz apenas "otite de repetição".
O gatilho prático para o internato: efusão bilateral documentada por três meses, ou qualquer efusão acompanhada de queixa de atraso de fala, de troca de sons, de queda de rendimento escolar ou de comportamento interpretado como desatenção. Nesses casos a avaliação audiológica não é opcional nem posterior ao encaminhamento — ela é o motivo do encaminhamento.
Vale registrar a assimetria de atenção que o sistema tem aqui. A triagem auditiva neonatal é obrigatória e bem estabelecida, e pega a perda congênita. A perda adquirida, condutiva, flutuante e reversível dos três aos seis anos — que é a que a efusão produz — não tem triagem equivalente, e depende inteiramente de alguém na atenção básica juntar "fala pouco" com "otite de repetição" e olhar a orelha.
O exame de imagem não tem papel na efusão não complicada. Tomografia de ossos temporais entra quando há suspeita de colesteatoma, de complicação, ou no planejamento cirúrgico — não para confirmar que existe líquido, coisa que a otoscopia e a timpanometria já dizem por muito menos.
Otite externa: o exame é limpar o conduto e olhar o assoalho
Na otite externa aguda difusa não complicada, o diagnóstico é clínico e nenhum exame é necessário. O protocolo institucional é explícito: os critérios de inclusão constituem o diagnóstico clínico, de acordo com anamnese e exame físico, e a radiologia raramente é indicada. O que muda o resultado é o procedimento, não o exame — limpeza delicada do conduto por aspiração, curette ou estilete algodoado, preferencialmente sob magnificação, para remover otorreia e descamação e permitir que a medicação tópica encoste na pele que precisa dela.
Cultura tem indicação estreita e específica. O protocolo a reserva para otorreia persistente, refratariedade da melhora clínica ou complicações, e nesses casos pede exame bacteriológico e cultura para fungos, não apenas bacteriológica. O motivo é o padrão que o próprio documento descreve: a otorreia relacionada a fungos ocorre em infecção refratária e costuma ser diagnosticada depois de vários ciclos de antibiótico oral e tópico — e o documento registra aumento da incidência de otite externa fúngica após a difusão do uso de ofloxacina.
A pergunta que o exame precisa responder antes de qualquer prescrição tópica é: a membrana timpânica está íntegra? Ela decide a droga, porque as gotas disponíveis se dividem por esse critério. E ela é frequentemente irrespondível na primeira consulta, porque o edema do conduto impede a visualização — o que, em vez de autorizar palpite, deve ser escrito no prontuário e resolvido na reavaliação.
Biópsia entra quando o quadro não se comporta como infecção. Exames citológico, histológico e anatomopatológico permitem levantar os diagnósticos diferenciais que o protocolo lista e que o interno tende a não considerar: colesteatoma, carcinoma epidermoide, linfoma, granulomatose de Wegener e granuloma eosinofílico. Otite externa que não responde a duas semanas de tratamento correto em paciente sem diabetes merece essa lista na cabeça.
Otite externa necrotizante: aqui o exame complementar decide tudo
Esta é a exceção do capítulo. Diante de otalgia grave e persistente em diabético ou imunossuprimido, com tecido de granulação no conduto, os exames deixam de ser supérfluos e passam a comandar. O protocolo pede leucograma, proteína C reativa e velocidade de hemossedimentação — não para fazer o diagnóstico, que é clínico, mas porque a velocidade de hemossedimentação é o marcador que se acompanha ao longo de semanas para saber se a osteomielite está cedendo.
Microbiologia é obrigatória e muda a droga. Coleta do conduto para cultura e antibiograma caracteriza o patógeno e o padrão de sensibilidade. Vale insistir porque o desfecho depende: na maioria dos casos o agente é Pseudomonas aeruginosa, mas Proteus mirabilis, Staphylococcus aureus, Klebsiella e Staphylococcus epidermidis aparecem, e nos imunossuprimidos não diabéticos Candida albicans e Aspergillus fumigatus podem estar em cena — caso em que a quinolona não trata nada.
Suspeita de otite externa necrotizante exige avaliação urgente por otorrinolaringologia e equipe hospitalar conforme gravidade. Colher microbiologia sem atraso relevante, investigar extensão com imagem apropriada e considerar biópsia para diagnósticos alternativos. Granulação é sugestiva, não patognomônica; ausência de febre não tranquiliza. Antibiótico sistêmico antipseudomonas deve seguir culturas, gravidade, função renal e resistência local; ciprofloxacino oral não é solução automática para todo diabético com quadro grave. TC e RM são complementares, e duração prolongada é individualizada pela resposta. Mas o protocolo registra uma limitação que o interno precisa saber para não pedir tomografia de controle a cada duas semanas: ela não colabora para a avaliação evolutiva, porque as alterações ósseas geralmente persistem depois de o paciente ter melhorado.
A ressonância define a extensão medial em direção à base do crânio, ao espaço parafaríngeo, aos forames, aos canais dos nervos cranianos, à dura-máter e ao encéfalo, e pode apontar trombose de seios durais por angiorressonância. As cintilografias resolvem o problema do acompanhamento: a de tecnécio-99 mostra atividade osteoblástica com sensibilidade alta, de 97,8%, mas baixa especificidade, e suas alterações persistem; a de gálio-67 mostra a infecção aguda e tende a normalizar com a resposta. Daí a estratégia do protocolo — as duas no estudo inicial, e gálio mensal para monitorar a resposta ao tratamento.
Rinossinusite: por que a radiografia de seios da face saiu de cena
A atualização brasileira de 2025 diz que o diagnóstico de rinossinusite aguda é essencialmente clínico e pode ser feito sem imagem e sem endoscopia. Isso encerra uma prática que ainda enche pedido de exame em unidade básica: a radiografia de seios da face na suspeita de sinusite aguda. Já a diretriz de 2001 chamava o valor diagnóstico da radiografia simples de controverso e discutível, admitindo-a apenas na dúvida diagnóstica e desaconselhando-a no controle evolutivo — e a razão é conhecida: velamento e espessamento mucoso aparecem no resfriado comum, sem sinusite bacteriana nenhuma.
A tomografia tem lugar bem delimitado. Ela entra nas complicações, nas formas crônicas ou recorrentes e no planejamento cirúrgico — não no diagnóstico do quadro agudo não complicado. Pedir tomografia para decidir se prescreve antibiótico é usar radiação para responder uma pergunta que a curva dos sintomas já responde de graça.
Exames de sangue têm papel marginal, e o painel de 2018 é honesto sobre isso: velocidade de hemossedimentação e proteína C reativa entram como um dos critérios de suspeita bacteriana, mas o próprio texto observa entre parênteses que, na prática, raramente são solicitados exames de sangue para o diagnóstico diferencial das rinossinusites agudas. Um marcador inflamatório elevado num paciente com nariz entupido há seis dias não muda o que você faria sem ele.
A endoscopia nasal é do especialista e serve a duas coisas: diferenciar viral de bacteriano pela visualização de secreção no meato médio e na rinofaringe, e colher material para cultura quando é necessário definir o agente — tipicamente depois de falha de antibioticoterapia empírica. Swab de narina anterior não serve para isso: colhe a flora da pele do nariz e devolve um resultado que não pertence ao seio.
Quando a suspeita é de complicação, a lógica se inverte por completo. Aí a imagem é urgente, não opcional: tomografia de seios da face e de órbita com contraste diante de qualquer sinal orbitário ou neurológico, e ressonância quando há suspeita de extensão intracraniana. A regra prática que vale carregar: no diagnóstico da rinossinusite aguda, imagem quase nunca; na suspeita de complicação da rinossinusite aguda, imagem agora.
As réguas que o Brasil usa, com a idade de cada uma
Antes das tabelas, a declaração que este capítulo deve ao leitor. O Ministério da Saúde não publicou protocolo clínico e diretriz terapêutica, nem caderno de atenção básica dedicado, para nenhuma das quatro entidades aqui. A régua brasileira da otite média aguda é um documento do Projeto Diretrizes da Associação Médica Brasileira e do Conselho Federal de Medicina, elaborado por Sociedade Brasileira de Pediatria e Associação Brasileira de Otorrinolaringologia e Cirurgia Cérvico-Facial, com elaboração final em 16 de agosto de 2005 — vinte e um anos —, atualizada de fato pelo painel de especialistas da associação de otorrinolaringologia de 2018. A da rinossinusite é o consenso de 2025 da Academia Brasileira de Rinologia com a mesma associação, que substituiu o consenso de 2015 e, mais atrás, uma diretriz de 21 de junho de 2001 que segue publicada. A da otite externa não existe em âmbito nacional: o que há são protocolos institucionais, e a régua que este capítulo usa é a de um hospital universitário federal, emitida em 18 de fevereiro de 2025. O que o SUS entrega vem da Relação Nacional de Medicamentos Essenciais de 2024. Quando o documento de 2005 é a única palavra sobre um ponto, o texto diz que é ele, e diz o ano.
- 1Otalgia de início rápido. Primeira decisão: a dor vem de fora ou de dentro? Tracione o pavilhão e pressione o trágus. Dói ao tracionar, com conduto edemaciado e eritematoso: otite externa, tratamento tópico. Não dói ao tracionar: siga para a otoscopia da membrana.
- 2Membrana visível e abaulada, opaca, com relevos apagados, ou otorreia purulenta de início súbito em conduto sem inflamação da pele: otite média aguda. Hiperemia isolada, translucidez reduzida isolada ou líquido retrotimpânico isolado, sem abaular e sem otorreia, não fecham o diagnóstico.
- 3Fechada a otite média aguda, pergunte quatro coisas antes de decidir sobre antibiótico: que idade tem, se é bilateral, se há otorreia e se o quadro é grave — otalgia moderada ou intensa, por mais de 48 horas, ou temperatura igual ou acima de 39 °C. Alguma resposta positiva indica antibiótico; nenhuma resposta positiva abre a porta da observação com reavaliação garantida.
- 4Membrana com líquido atrás, imóvel, sem abaulamento inflamatório, sem dor e sem febre: otite média com efusão. Não é otite média aguda e não é falha do tratamento anterior. Anote a data, não prescreva antibiótico, e conte três meses.
- 5Otalgia grave e persistente em diabético ou imunossuprimido, com tecido de granulação no assoalho do conduto, com ou sem paralisia facial: pare a linha da otite externa comum. Isto é otite externa necrotizante — colha cultura, peça marcadores inflamatórios e tomografia, e discuta internação.
- 6Queixa nasal e facial: classifique pela curva, não pelo calendário. Melhora gradual, mesmo lenta, mesmo além dos dez dias, é viral ou viral prolongada — sem antibiótico. Piora depois de melhora nos primeiros cinco dias, ou quadro intenso mantido sem melhora gradual depois de catorze dias, é a faixa bacteriana.
- 7A qualquer momento, em qualquer das quatro entidades: alteração orbitária ou visual, dor ou abaulamento frontal intensos, sinais meníngeos, sinal neurológico focal, rebaixamento de consciência, paralisia facial, vertigem de início súbito ou eritema e edema retroauriculares com pavilhão deslocado tiram o paciente do consultório e o levam para o hospital.
Otite média aguda: quando o antibiótico entra, e quanto ele vale
| Situação | Conduta quanto ao antibiótico | O que o número diz |
|---|---|---|
| Menor de 6 meses | Antibiótico, sempre | Indicação do painel ABORL-CCF 2018; não há faixa de observação nesta idade |
| Maior de 6 meses, doença grave: otalgia moderada ou intensa, ou por mais de 48 h, ou temperatura igual ou acima de 39 °C | Antibiótico | Gravidade é o critério que o painel usa; o benefício do antibiótico concentra-se em quem tem mais sintoma |
| Otite média aguda bilateral | 6–23 meses: usualmente antibiótico; ≥2 anos e não grave: observação pode ser opção | Idade, gravidade, otorreia e seguimento modificam a decisão. |
| Otorreia (perfuração espontânea) | Antibiótico | Número necessário para tratar de 3 — a melhor relação do capítulo |
| Maior de 6 meses, unilateral, não grave, sem otorreia | Observação com reavaliação garantida em 48 a 72 h é opção; o cabeçalho da tabela do painel de 2018 prevê tratamento no diagnóstico ou após observação | Resolução espontânea em 80%; o antibiótico acrescenta 12 a 14 pontos percentuais, número necessário para tratar de 7 a 9 |
| Qualquer situação, nas primeiras 24 h | Analgésico e antitérmico imediatos, independentemente da decisão sobre antibiótico | O antibiótico leva até 48 h para aliviar febre e otalgia; quem trata a dor é o analgésico |
| Efusão residual em reavaliação, sem dor e sem febre | Nenhum antibiótico novo | O antibiótico não evita a presença de efusão nem as recorrências depois de três meses |
| Complicação (mastoidite, paralisia facial, sinal meníngeo, vertigem) | Hospital, antibiótico venoso, otorrinolaringologia | Antibiótico não elimina o risco de complicação e não deve ser prescrito indiscriminadamente; a raridade dos eventos limita conclusões sobre prevenção. Seleção por risco e retorno seguro continuam necessários. |
Rinossinusite aguda: as quatro faixas da atualização brasileira de 2025
| Faixa | Como se reconhece | Conduta |
|---|---|---|
| Rinossinusite aguda (definição geral) | Dois ou mais sintomas por até 12 semanas, entre obstrução ou congestão nasal, rinorreia anterior ou posterior, dor ou pressão facial e redução do olfato; na criança, tosse no lugar do olfato | Diagnóstico clínico; não exige exame físico especializado nem imagem |
| Aguda viral | Sintomas mais intensos nos primeiros 2 a 3 dias, com melhora gradual, em geral dentro de 14 dias | Sem antibiótico. Lavagem nasal com solução isotônica e sintomáticos escolhidos pela queixa dominante |
| Aguda viral prolongada | Mesma curva, com melhora gradual mais lenta, podendo durar 3 a 4 semanas ou mais | Sem antibiótico. É o termo novo de 2025, criado para dizer que episódio longo continua sendo viral |
| Aguda bacteriana | Piora significativa — mais intensidade, mais gravidade ou sinais de unilateralidade — depois de melhora nos primeiros 5 dias (dupla piora); ou manutenção do quadro intenso inicial, sem melhora gradual, depois de 14 dias | Antibiótico nas apresentações mais graves; nos casos moderados, prescrição adiada com orientação de iniciar se não melhorar ou se piorar |
| Sinal de alerta em qualquer faixa | Alteração orbitária, alteração visual, dor frontal intensa, abaulamento frontal, sinal meníngeo, sinal neurológico focal, rebaixamento de consciência | Imagem urgente e antibiótico obrigatório; a complicação é a única situação em que a rinossinusite deixa de ser decisão ambulatorial |
Otite externa: a gota depende da membrana, e o sistêmico tem lista curta
| Cenário | O que o protocolo institucional indica | Cuidado |
|---|---|---|
| Fase pré-inflamatória: eritema e edema leves, prurido | Higiene do meato e solução acidificante — ácido acético a 2%, álcool boricado a 2%, ácido salicílico em álcool a 70% ou acetato de alumínio | Reduzir o pH local basta nesta fase; nenhuma delas consta na Rename 2024 |
| Fase inflamatória aguda, membrana timpânica íntegra | Escolher preparação otológica conforme membrana, alergia, protocolo e bula; doses não são intercambiáveis entre produtos. | A única solução otológica da Rename 2024 é a associação de polimixina B, neomicina, fluocinolona e lidocaína |
| Fase inflamatória aguda, membrana perfurada ou não visualizada | Preparação não ototóxica apropriada, como fluoroquinolona otológica; evitar aminoglicosídeo se perfurada ou incerta. | A gota que o SUS entrega contém neomicina, que é aminoglicosídeo — ver a nota de auditoria correspondente |
| Edema do conduto impedindo a entrada da medicação | Curativo local com gaze hidrófila embebida na medicação, trocado a cada 48 horas, até o edema ceder | Sem esse passo a gota escorre para fora e o tratamento falha por via de administração, não por escolha de droga |
| Extensão além do conduto, fatores de risco ou falha de aplicação local | Considerar terapia sistêmica apropriada e avaliação especializada | Edema isolado não basta; avaliar se a cobertura necessária inclui Pseudomonas. |
| Otite externa necrotizante | Suspeita de otite externa necrotizante exige avaliação urgente por otorrinolaringologia e equipe hospitalar conforme gravidade. Colher microbiologia sem atraso relevante, investigar extensão com imagem apropriada e considerar biópsia para diagnósticos alternativos. Granulação é sugestiva, não patognomônica; ausência de febre não tranquiliza. Antibiótico sistêmico antipseudomonas deve seguir culturas, gravidade, função renal e resistência local; ciprofloxacino oral não é solução automática para todo diabético com quadro grave. TC e RM são complementares, e duração prolongada é individualizada pela resposta. | Alguns autores propõem associar ceftazidima e ciprofloxacino porque 30% das cepas de Pseudomonas mostraram resistência ao ciprofloxacino |
| Otomicose | Controle dos fatores predisponentes e limpeza do conduto, muitas vezes suficientes; quando necessário, nistatina, cetoconazol, fluconazol a 0,2% em solução 3 gotas de 8 em 8 h por 3 semanas, ou clotrimazol a 1% 4 gotas de 12 em 12 h por 2 a 4 semanas | Suspeite dela na otorreia que piorou depois de ciclos repetidos de gota antibiótica |
Conversão mg ↔ mL ↔ frasco nas apresentações consultadas: criança de 15 kg e adulto de 70 kg
| Fármaco e apresentação da Rename | Dose do capítulo | Conta | Resultado prático |
|---|---|---|---|
| Amoxicilina suspensão oral 50 mg/mL | 45 mg/kg/dia, criança de 15 kg | 45 × 15 = 675 mg/dia; 675 ÷ 50 = 13,5 mL/dia | 4,5 mL de 8 em 8 h ou 6,75 mL de 12 em 12 h; 135 mL em 10 dias, ou seja 1 frasco de 150 mL |
| Amoxicilina suspensão oral 50 mg/mL | 90 mg/kg/dia, criança de 15 kg | 90 × 15 = 1.350 mg/dia; 1.350 ÷ 50 = 27 mL/dia | 9 mL de 8 em 8 h; 270 mL em 10 dias, ou seja 2 frascos de 150 mL |
| Amoxicilina + clavulanato suspensão 50 mg/mL + 12,5 mg/mL | 90 mg/kg/dia de amoxicilina, criança de 15 kg | 27 mL/dia × 12,5 = 337,5 mg/dia de clavulanato = 22,5 mg/kg/dia | Entrega 3,5 vezes os 6,4 mg/kg/dia de clavulanato que a tabela do painel de 2018 especifica para essa mesma dose de amoxicilina |
| Amoxicilina + clavulanato suspensão 50 mg/mL + 12,5 mg/mL | Clavulanato fixado em 6,4 mg/kg/dia, criança de 15 kg | 6,4 × 15 = 96 mg/dia; 96 ÷ 12,5 = 7,68 mL/dia; 7,68 × 50 = 384 mg/dia de amoxicilina | 25,6 mg/kg/dia de amoxicilina — 57% do piso de 45 mg/kg/dia. A apresentação da Rename é 4:1 e a combinação pedida exige 14:1 |
| Ceftriaxona pó para solução injetável 250 mg, 500 mg e 1 g | 50 mg/kg em dose única, criança de 15 kg | 50 × 15 = 750 mg | 3 frascos de 250 mg, ou 1 frasco e meio de 500 mg, ou três quartos de um frasco de 1 g |
| Ibuprofeno suspensão oral 50 mg/mL | 5 a 10 mg/kg por dose, criança de 15 kg | 75 a 150 mg por dose; ÷ 50 | 1,5 a 3 mL por dose |
| Dipirona solução oral 500 mg/mL | Conversão da apresentação, criança de 15 kg | 20 gotas = 1 mL = 500 mg, logo 1 gota = 25 mg; 15 gotas = 375 mg | 15 gotas equivalem a 0,75 mL e a 25 mg/kg |
| Amoxicilina comprimido 500 mg | Adulto de 70 kg, 500 mg de 8 em 8 h por 7 a 10 dias | 3 comprimidos/dia × 7 a 10 dias | 21 a 30 comprimidos. O regime alternativo de 875 mg de 12 em 12 h exigiria 1,75 comprimido por tomada: a Rename não tem a apresentação de 875 mg |
| Amoxicilina + clavulanato comprimido 500 mg + 125 mg | Adulto de 70 kg, de 8 em 8 h por 7 a 10 dias | 3 comprimidos/dia × 7 a 10 dias | 21 a 30 comprimidos. O regime de 875 mg + 125 mg de 12 em 12 h das tabelas de 2018 e de 2025 não consta na Rename |
| Antibiótico sistêmico na otite externa necrotizante | Definir com equipe especializada | Dose, via e duração pela gravidade, função renal, microbiologia e resposta | Não escolher posologia apenas por tamanho da caixa ou número de comprimidos. |
| Solução otológica polimixina B + neomicina + fluocinolona + lidocaína | 3 gotas de 8 em 8 h por 7 dias | 3 × 3 × 7 = 63 gotas; 63 ÷ 20 gotas por mL | 3,15 mL — um frasco de 5 mL cobre o tratamento inteiro |
Três contas do documento de 2005 não fecham, e todas na mesma direção — a de exagerar o efeito do antibiótico. Primeira: o texto diz que crianças não tratadas não têm resolução da dor nas primeiras 24 horas em 41% dos casos, com número necessário para causar dano de 2. Um número necessário para causar dano de 2 equivale a uma diferença absoluta de 50 pontos percentuais; aplicada sobre uma taxa de 41%, ela implicaria taxa de −9% entre os tratados. Proporção negativa não existe. Segunda: o texto diz que as não tratadas não têm resolução de dor e febre entre o segundo e o sétimo dia em 13% dos casos e, duas linhas abaixo, que o antibiótico reduz a dor nesse mesmo período com número necessário para tratar de 5 — uma redução absoluta de 20 pontos percentuais sobre uma base de 13. Terceira: o texto diz que a amoxicilina reduz o risco relativo de persistência dos sintomas no quarto dia em 18%, com número necessário para tratar de 6. Redução absoluta de 1÷6 = 16,7% com redução relativa de 18% obriga o risco no grupo placebo a ser 16,7 ÷ 18 = 92,6% — quer dizer, 93 de cada 100 crianças sem antibiótico ainda sintomáticas no quarto dia. Nenhuma das três leituras se sustenta, e o documento não reconcilia os pares.
O número que decide a receita mudou de tamanho entre dois documentos brasileiros. A diretriz de 2005 dá número necessário para tratar de 15 para a dor nas primeiras 24 horas e de 5 no período de dois a sete dias. O painel de 2018 da mesma associação de otorrinolaringologia, citando metanálise com escala analógica, diz que não há redução significativa da dor nas primeiras 24 horas, e dá número necessário para tratar de 20 entre o segundo e o terceiro dia e de 16 entre o quarto e o sétimo. Comparando as janelas correspondentes: 5 contra 16, uma diferença de mais de três vezes na quantidade de crianças que é preciso tratar para beneficiar uma. Quem lê apenas o documento de 2005 prescreve com um argumento três vezes mais forte do que a literatura brasileira mais recente sustenta.
Uma conferência que fecha, e vale registrar porque diz tanto quanto as que falham. O painel de 2018 afirma que o antibiótico incrementa de 12 a 14 pontos percentuais a taxa de resolução, de 80% sem antibiótico para 92% a 94% com ele, e conclui que é preciso tratar sete a nove crianças para beneficiar uma. Recalculando: 92 − 80 = 12 e 94 − 80 = 14; 1 ÷ 0,14 = 7,1 e 1 ÷ 0,12 = 8,3. O intervalo aritmético é de 7,1 a 8,3, e o texto escreve sete a nove — coerente se cada extremo for arredondado para cima de forma conservadora. As três parcelas batem entre si e com a conclusão.
O consenso de rinossinusite de 2015 põe dois números incompatíveis no mesmo parágrafo, sem reconciliá-los. Ele afirma que aproximadamente 80% dos casos de rinossinusite aguda leve respondem à amoxicilina em dose de 70 a 90 mg/kg/dia e, três linhas adiante, cita um estudo em que 70% dos pneumococos e 71,4% dos hemófilos isolados de 69 crianças eram resistentes à amoxicilina com clavulanato. Clavulanato não recupera pneumococo, cuja resistência é por alteração de proteína ligadora de penicilina e não por betalactamase: resistente ao par é resistente à amoxicilina isolada. Usando os próprios números do documento, que também diz que cerca de 15% dos casos por pneumococo se resolvem espontaneamente, a resolução esperada num quadro pneumocócico tratado com amoxicilina seria 0,30 + 0,70 × 0,15 = 0,405, isto é 40,5% — metade dos 80% declarados acima.
Dois documentos da mesma associação, publicados com três anos de intervalo e autores em comum, dão respostas opostas sobre a resistência do pneumococo no Brasil. O consenso de 2015 cita a série de 69 crianças com 70% de resistência. O painel de 2018 traz uma tabela com o perfil nacional de sensibilidade segundo o Sistema Regional de Vacinas de 2014, com 93% de sensibilidade dos estreptococos à penicilina acima dos cinco anos e 86,5% de sensibilidade do Haemophilus influenzae à ampicilina — e é justamente com esse dado que recusa a dose de 90 mg/kg/dia no Brasil. Não é um erro de conta; é uma divergência sobre o dado epidemiológico que sustenta a dose, e o interno precisa saber que ela existe antes de escolher entre 45 e 90.
O mesmo artigo de 2018 lista os critérios de rinossinusite bacteriana duas vezes, com cortes de febre diferentes. Na seção que discute viral contra bacteriana, o critério é febre igual ou acima de 38,3 °C. Na seção de antibióticos, mais adiante, a mesma lista reaparece com febre acima de 38 °C. Um paciente com 38,1 °C preenche um dos critérios pela segunda versão e não preenche pela primeira; com três de cinco critérios exigidos, esse um pode ser o que decide a receita. Não há nota no artigo explicando a diferença.
O gatilho temporal para aplicar a regra dos três critérios existe num documento e é explicitamente negado no outro. O consenso de 2015 escreve, antes da lista, que independentemente do tempo de duração a presença de pelo menos três dos sinais sugere quadro bacteriano. O painel de 2018 exige que o paciente já tenha mais de dez dias de sintomas antes de aplicar a mesma contagem. Para um paciente no sexto dia com dor unilateral intensa, febre alta e dupla piora, um documento autoriza chamar de bacteriano e o outro não.
Na atualização de 2025 há uma faixa de dias que pertence a duas classes ao mesmo tempo. O texto diz que a Academia Brasileira de Rinologia recomenda classificar como viral prolongada a rinossinusite aguda viral que dure mais de sete a dez dias com melhora lenta e progressiva. A Tabela 1 do mesmo artigo define a forma viral como aquela cuja melhora gradual ocorre, em geral, dentro de catorze dias. Um paciente no décimo segundo dia melhorando devagar é viral pela tabela e viral prolongada pelo texto. O parágrafo que introduz o termo faz as duas afirmações em sequência: descreve a recuperação da forma viral podendo levar de três a quatro semanas e, na frase seguinte, diz que além de sete a dez dias ela deixa de se chamar viral. Some-se que o corte que separa o bacteriano por tempo saiu de dez dias, nos documentos de 2001, 2015 e 2018, para catorze dias em 2025 — e os três primeiros seguem publicados e acessíveis.
Ainda no painel de 2018, a sulfa é proscrita e recomendada no mesmo artigo. Na seção da otite média aguda, o texto afirma que sulfas devem ser evitadas devido à baixa eficácia terapêutica em crianças. Na Tabela 6, de antibióticos para rinossinusite bacteriana na população pediátrica, sulfametoxazol com trimetoprima aparece como opção para reação alérgica à penicilina do tipo I. A própria Tabela 5 do artigo dá o motivo pelo qual a primeira afirmação parece a correta: sensibilidade nacional de 66% dos estreptococos e 75% do Haemophilus influenzae ao sulfametoxazol com trimetoprima.
A aritmética do clavulanato é a nota mais prática deste capítulo. A atualização de 2025 instrui, para risco de pneumococo resistente, a subir a amoxicilina até 4 g por dia sem aumentar a quantidade de ácido clavulânico — e a tabela do painel de 2018 fixa o clavulanato em 6,4 mg/kg/dia para amoxicilina de 45 a 90 mg/kg/dia, o que exige razão de 7:1 na dose baixa e de 14:1 na alta. A única suspensão de amoxicilina com clavulanato da Rename 2024 é de 50 mg/mL mais 12,5 mg/mL: razão fixa de 4:1. Com ela, 90 mg/kg/dia de amoxicilina arrastam 22,5 mg/kg/dia de clavulanato, 3,5 vezes o alvo; e fixar o clavulanato em 6,4 mg/kg/dia deixa a amoxicilina em 25,6 mg/kg/dia, abaixo de qualquer dose recomendada. Os dois extremos são inalcançáveis com o que o SUS entrega. Na mesma linha, as apresentações de 875 mg de amoxicilina isolada e de 875 mg mais 125 mg da associação, que constam das tabelas de adulto de 2018 e de 2025, não existem na Rename 2024 — sobra o esquema de 500 mg de 8 em 8 horas.
A associação otológica identificada na Rename 2024 não representa necessariamente todo o arsenal padronizado em cada serviço do SUS. O protocolo institucional registra que a associação de polimixina B 10.000 UI, neomicina 3,5 mg/mL, fluocinolona acetonida 0,25 mg/mL e lidocaína 20 mg/mL foi incorporada em março de 2017, depois de a comissão nacional de incorporação de tecnologias ter inicialmente não aprovado e reverter a decisão após consulta pública; e que, entre os estudos analisados, doze mostraram maior eficácia da quinolona, ciprofloxacino ou ofloxacino, em relação à associação de não quinolona com corticoide — isto é, justamente a que foi incorporada. Conferida na Rename 2024 por busca exata: essa associação é a única solução otológica do elenco, e não há ciprofloxacino nem ofloxacino em apresentação otológica. Otite externa difusa não complicada é tratada com analgesia e terapia tópica. Se houver obstrução, limpeza delicada sob visão ou mecha pode melhorar a chegada da gota; não instrumentar às cegas nem exigir limpeza traumática antes de iniciar tratamento. Membrana perfurada ou de integridade incerta pede preparação não ototóxica apropriada, como fluoroquinolona otológica conforme apresentação e protocolo; não apresentar cloranfenicol como alternativa universalmente segura. Edema isolado do conduto não basta para antibiótico sistêmico. Extensão além do conduto, fatores de risco e impossibilidade real de terapia local exigem decisão individualizada e reavaliação em 48–72 horas.
A conduta, hora a hora
O que segue é a sequência de decisões de um plantão, na ordem em que elas aparecem. Prescrições estão em dose por quilo ou em apresentação, sempre com a apresentação que a Rename 2024 entrega — quando o esquema recomendado pela régua não existe no elenco do SUS, o marco diz isso em vez de fingir que existe.
Uma advertência antes do primeiro marco. A decisão de não prescrever antibiótico só é segura se vier acompanhada de uma reavaliação de verdade — hora marcada, ou instrução escrita de retorno, ou prescrição adiada em mãos. Não prescrever e mandar embora sem rede não é conduta conservadora: é a mesma decisão apressada com o sinal trocado.
Aplicar diretrizes sem confundir populações. A trajetória de melhora de uma rinossinusite vale mais que a cor da secreção. A recomendação brasileira de 2025 e a AAO-HNS de 2025 usam critérios e estratégias com diferenças explícitas; na diretriz norte-americana, a maioria dos adultos tratados recebe amoxicilina com ou sem clavulanato por 5–7 dias. Não extrapolar duração de adulto para criança nem tratar imunossuprimido ou complicação como caso simples. Irrigação nasal requer água estéril, destilada ou previamente fervida e resfriada, com limpeza do dispositivo. Celulite orbitária pede internação, antibiótico intravenoso conforme cobertura local e avaliação conjunta; clindamicina isolada não é esquema universal. Efusão unilateral persistente no adulto exige investigar causa obstrutiva nasofaríngea.
Minuto zero, antes de decidir qualquer outra coisa
Trate a dor agora. O painel brasileiro é explícito sobre o motivo: o antibiótico demora até 48 horas para aliviar febre e otalgia, e portanto não é ele quem resolve o sofrimento que trouxe o paciente. Analgésico e antitérmico entram imediatamente, independentemente de você prescrever antibiótico ou não. Na otite média aguda essa é a intervenção com o melhor efeito imediato disponível, e a diretriz de 2005 registra que o ibuprofeno se mostrou superior ao placebo na resolução da dor. Na consulta em que você vai segurar o antibiótico, tratar bem a dor é também o que torna a conversa possível: a mãe aceita esperar quando vê o filho parar de chorar.
Prescrição- Ibuprofeno suspensão oral 50 mg/mL — 5 a 10 mg/kg por dose, de 6 em 6 ou de 8 em 8 horas. Criança de 15 kg: 1,5 a 3 mL por dose.
- Ou dipirona solução oral 500 mg/mL — 20 gotas equivalem a 1 mL e a 500 mg, logo cada gota tem 25 mg.
- Calor local seco sobre a orelha e cabeceira elevada para dormir: sem custo, sem risco, e é o que a família consegue fazer às três da manhã.
- Não prescreva anti-histamínico: a diretriz brasileira de 2005 o contraindica na otite média aguda em crianças, por prolongar o tempo de líquido na orelha média.
- Não prescreva descongestionante em criança: o mesmo documento registra pequeno benefício e risco aumentado de efeitos adversos.
Otite média aguda confirmada — decidir se o antibiótico entra
Confirmar otite média aguda por otoscopia e tratar a dor em todos os casos. Gravidade, idade, otorreia e possibilidade de seguimento orientam antibiótico. A bilateralidade tem especial peso entre 6 e 23 meses; em crianças de dois anos ou mais, doença bilateral não grave também pode admitir observação com retorno assegurado. Menores de seis meses e crianças com sinais sistêmicos ou complicação precisam de avaliação e tratamento apropriados, sem aplicar automaticamente regras de observação de crianças maiores.
Prescrição- Se optar por observar: marque o retorno em 48 a 72 horas com data e hora, e escreva na receita os sinais que antecipam o retorno — dor que piora, febre que sobe, criança prostrada, secreção pela orelha, inchaço atrás da orelha.
- Alternativa à observação pura: prescrição adiada — entregue a receita do antibiótico com instrução escrita de só comprar e iniciar se não houver melhora em 48 a 72 horas ou se piorar a qualquer momento.
- Registre no prontuário as quatro linhas da otoscopia: posição da membrana, coloração e translucidez, perfuração ou otorreia, mobilidade. Sem elas a reavaliação não tem com o que comparar.
Antibiótico indicado na otite média aguda — qual, quanto e por quanto tempo
Amoxicilina é primeira escolha usual, mas dose e duração dependem da idade, gravidade, exposição prévia e resistência local. A recomendação brasileira de 2018 de 45 mg/kg/dia não prova que dose alta de 80–90 mg/kg/dia seja sempre errada em 2026. Usar protocolo pediátrico local atualizado; dez dias são usualmente indicados em menores de dois anos ou doença grave, enquanto crianças maiores com doença não grave podem receber cursos mais curtos. Conferir dose máxima, intervalo, concentração e volume total, especialmente ao associar clavulanato.
Prescrição- Amoxicilina suspensão oral 50 mg/mL — 45 mg/kg/dia. Criança de 15 kg: 4,5 mL de 8 em 8 horas, ou 6,75 mL de 12 em 12 horas, por 10 dias. Total de 135 mL: um frasco de 150 mL cobre o tratamento.
- Se a criança vomita e não tolera via oral: ceftriaxona 50 mg/kg em dose única, por via intramuscular ou intravenosa. Criança de 15 kg: 750 mg, o que equivale a três frascos de 250 mg. Reavalie em 24 horas e complete por via oral se houver melhora.
- Falha em 48 a 72 horas, uso de amoxicilina nos 30 dias anteriores, ou síndrome otite-conjuntivite: amoxicilina com clavulanato. Atenção à apresentação — a suspensão da Rename é 50 mg/mL mais 12,5 mg/mL, razão 4:1, e nela 90 mg/kg/dia de amoxicilina entregam 22,5 mg/kg/dia de clavulanato.
- Alergia à penicilina sem gravidade: cefalosporina de segunda ou terceira geração, por exemplo cefuroxima 30 mg/kg/dia. Reação do tipo I: claritromicina 15 mg/kg/dia.
- Não prescreva azitromicina para otite média aguda.
Reavaliação mostra efusão sem sinais agudos — otite média com efusão
Aqui a conduta correta é ativa e não é medicamentosa. Reconheça que a efusão residual é o curso esperado, escreva a data em que ela foi vista pela primeira vez, explique à família o que ela é e o que não é, e marque o seguimento. Não entre com segundo antibiótico, com anti-histamínico, com descongestionante nem com corticoide — o antibiótico não evita a presença de efusão nem as recorrências depois de três meses, e o anti-histamínico prolonga o líquido. O que decide o encaminhamento é a combinação de bilateralidade, duração e repercussão auditiva.
Prescrição- Prontuário: "efusão em orelha média [direita/esquerda/bilateral], membrana imóvel, sem sinais agudos, primeira observação em [data]".
- Reavaliação otoscópica em 4 a 6 semanas, e de novo em 3 meses.
- Pergunte ativamente à família, em toda reavaliação: fala menos que os colegas da mesma idade? Troca sons? Aumenta o volume da televisão? Não atende quando é chamada de outro cômodo? A escola reclamou de desatenção?
- Efusão bilateral persistente por 3 meses, ou qualquer efusão com queixa de linguagem, audição ou rendimento escolar: encaminhamento para avaliação audiológica e otorrinolaringologia, com a data da primeira observação escrita no encaminhamento.
- Nenhum antibiótico, nenhum anti-histamínico, nenhum descongestionante, nenhum corticoide sistêmico.
Otite externa aguda difusa — limpar, pingar, secar
Otite externa difusa não complicada é tratada com analgesia e terapia tópica. Se houver obstrução, limpeza delicada sob visão ou mecha pode melhorar a chegada da gota; não instrumentar às cegas nem exigir limpeza traumática antes de iniciar tratamento. Membrana perfurada ou de integridade incerta pede preparação não ototóxica apropriada, como fluoroquinolona otológica conforme apresentação e protocolo; não apresentar cloranfenicol como alternativa universalmente segura. Edema isolado do conduto não basta para antibiótico sistêmico. Extensão além do conduto, fatores de risco e impossibilidade real de terapia local exigem decisão individualizada e reavaliação em 48–72 horas.
Prescrição- Confirmar segurança da preparação otológica pela integridade da membrana e pela bula; orientar aplicação e manter orelha seca sem introduzir objetos.
- Analgesia e retorno em 48–72 horas se não houver resposta; antes se piora, extensão ou sinais de alarme.
Otite externa que sai da pele — sistêmico, ou necrotizante
Suspeita de otite externa necrotizante exige avaliação urgente por otorrinolaringologia e equipe hospitalar conforme gravidade. Colher microbiologia sem atraso relevante, investigar extensão com imagem apropriada e considerar biópsia para diagnósticos alternativos. Granulação é sugestiva, não patognomônica; ausência de febre não tranquiliza. Antibiótico sistêmico antipseudomonas deve seguir culturas, gravidade, função renal e resistência local; ciprofloxacino oral não é solução automática para todo diabético com quadro grave. TC e RM são complementares, e duração prolongada é individualizada pela resposta.
Prescrição- Articular avaliação urgente, cultura e imagem conforme suspeita de extensão; cobertura sistêmica individualizada pela equipe.
- Não aguardar paralisia facial ou febre para suspeitar de otite necrotizante; avaliar controle glicêmico, pares cranianos e diagnósticos alternativos.
Rinossinusite aguda — classificar pela curva e decidir
Comece pela pergunta que classifica: como os sintomas se comportaram ao longo dos dias? Melhora gradual, mesmo lenta, é forma viral ou viral prolongada, e a Academia Brasileira de Rinologia recomenda contra o uso de antibiótico nas duas. Piora significativa depois de melhora nos primeiros cinco dias, ou manutenção do quadro intenso sem melhora gradual depois de catorze dias, é a faixa bacteriana. Mesmo nela, a recomendação de 2025 é usar antibiótico apenas nas apresentações mais graves; nos casos moderados a indicação é a prescrição adiada. Quando o antibiótico entra, amoxicilina com ou sem clavulanato por 7 a 10 dias é a primeira escolha. Quinolona só quando não houver alternativa — a restrição é formal e vem do risco de eventos adversos graves.
Prescrição- Todas as faixas: lavagem nasal com solução isotônica. A Rename 2024 traz cloreto de sódio 0,9% em solução nasal no componente básico.
- Sintomáticos escolhidos pela queixa dominante do paciente, e não por receita padronizada. Analgésicos, anti-inflamatórios não esteroidais e descongestionantes com parcimônia — os dois últimos têm taxa alta de efeitos adversos.
- Corticoide intranasal: o componente básico da Rename cobre apenas a budesonida, nas concentrações nasais de 32, 50 e 64 microgramas. Mometasona e fluticasona nasais ficam de fora do elenco.
- Bacteriana grave, adulto: amoxicilina 500 mg de 8 em 8 horas por 7 a 10 dias — 21 a 30 comprimidos. A apresentação de 875 mg não consta da Rename 2024 consultada; conferir padronização e disponibilidade locais, sem inferir indisponibilidade em toda a rede SUS.
- Bactéria produtora de betalactamase ou falha: amoxicilina com clavulanato 500 mg mais 125 mg de 8 em 8 horas por 7 a 10 dias. Diarreia ocorre em 1% a 10%.
- Alergia não grave à penicilina: cefuroxima axetil 250 a 500 mg de 12 em 12 horas. Alergia grave: macrolídeo, considerando a resistência elevada.
- Não prescreva corticoide sistêmico de depósito por via intramuscular: não é recomendado.
Qualquer momento, qualquer das quatro — a complicação
Este marco existe porque ele é o único do capítulo em que a demora custa órgão. Do lado da orelha: eritema, edema e dor retroauriculares com apagamento do sulco e pavilhão deslocado para fora e para baixo, paralisia facial periférica, vertigem de início súbito, sinal meníngeo ou rebaixamento de consciência. Do lado do nariz: edema e eritema palpebrais, proptose, quemose, limitação da motilidade ocular, dor à movimentação do olho, queda de acuidade ou alteração da visão de cores, dor ou abaulamento frontal intensos, sinal neurológico focal. E o gatilho temporal que a diretriz de 2001 registra: piora importante depois de 72 horas de antibioticoterapia adequada. Nenhum desses achados admite "volte em dois dias".
Prescrição- Acesso venoso, coleta de hemograma e marcadores inflamatórios, e imagem urgente: tomografia com contraste de seios da face e órbitas na suspeita orbitária; tomografia de mastoides na suspeita de mastoidite; ressonância quando há suspeita de extensão intracraniana.
- Celulite orbitária exige internação e antibiótico IV com cobertura conforme idade, foco, resistência e complicações. Avaliação conjunta por otorrino e oftalmologia decide drenagem; não usar clindamicina isolada como esquema universal.
- Discuta o esquema com a comissão de controle de infecção do serviço: a recomendação de discutir localmente está no próprio consenso brasileiro.
- Chame otorrinolaringologia e, na suspeita orbitária, oftalmologia, na mesma hora. Abscesso à tomografia, achados orbitários ou visuais progressivos, ou ausência de resposta ao antibiótico são indicações cirúrgicas.
- Na complicação da otite média, timpanocentese com ou sem tubo de ventilação sempre que possível, para aspirar secreção e colher material para cultura.
Como saber se está funcionando
A reavaliação é o que torna a decisão de não prescrever uma conduta e não um descuido. Nas quatro entidades deste capítulo ela tem prazos diferentes, porque as doenças correm em velocidades diferentes: a otite externa responde em dois dias, a otite média em dois a três, a rinossinusite pode levar uma semana, e a efusão leva meses. Marcar a reavaliação errada é tão ruim quanto não marcar nenhuma — o retorno em 30 dias para quem tinha 72 horas de janela é uma rede que não pega.
Uma observação que a bibliografia deste capítulo obriga a fazer. Falha clínica não é o mesmo que falha bacteriológica: o painel brasileiro cita estudos com cultura por punção antes e depois do tratamento em que, entre os pacientes que mantiveram cultura positiva entre o terceiro e o sétimo dia, a taxa de falha foi de 37% a 38% — quer dizer, 62% a 63% tiveram cura clínica mesmo com a bactéria ainda lá. O que você reavalia é o paciente.
Esperado: Redução clara da otalgia e das noites interrompidas, com ou sem antibiótico. O antibiótico leva até 48 horas para agir sobre febre e otalgia, então melhora antes disso é da analgesia — e melhora nenhuma antes disso não é falha de antibiótico.
Se não melhora: Se você estava observando, entre com amoxicilina. Se já estava com amoxicilina, reexamine a membrana antes de trocar: falha real de 48 a 72 horas indica amoxicilina com clavulanato, ou ceftriaxona por 3 dias. Reexamine também a hipótese: dor persistente com membrana normal manda procurar articulação temporomandibular, dente e faringe.
Esperado: Queda progressiva e desaparecimento. Febre residual baixa no terceiro dia, com criança ativa e comendo, é aceitável.
Se não melhora: Febre que persiste alta além de 72 horas, ou que reaparece depois de ter cedido, muda a pergunta de "que antibiótico" para "que complicação". Reexamine a região retroauricular, o nervo facial, o equilíbrio e o nível de consciência antes de escrever qualquer receita nova.
Esperado: Desaparecimento do abaulamento em dias. A opacidade e a imobilidade podem persistir por semanas — isso é efusão residual, e é o curso previsto da doença.
Se não melhora: Nada a fazer no plano medicamentoso: nem antibiótico, nem anti-histamínico, nem descongestionante, nem corticoide. O que muda é o calendário — anote a data e reavalie. Efusão bilateral que atravessa 3 meses vira encaminhamento com avaliação audiológica.
Esperado: Criança que atende quando chamada de outro cômodo, que não pede para repetir, que mantém o vocabulário e a inteligibilidade compatíveis com a idade, e sobre quem a escola ou a creche não faz queixa de desatenção.
Se não melhora: Qualquer resposta negativa antecipa o encaminhamento, independentemente dos 3 meses. A perda condutiva da efusão é leve a moderada e flutuante, e por isso passa por distração e por teimosia — o custo de esperar é tempo de janela de aquisição de fala, que não volta.
Esperado: Queda importante da dor e do edema, com o conduto começando a abrir e a membrana passando a ser visível. Ver a membrana na reavaliação é um objetivo do tratamento, e não um detalhe — é o que permite confirmar ou corrigir a escolha da gota.
Se não melhora: Reveja três coisas antes de trocar de droga: a gota está chegando à pele, ou o edema exige curativo de gaze embebida? A orelha continua molhando? Há fungo? Otorreia que piorou depois de ciclos de gota antibiótica sugere otomicose. Se surgiram febre, edema periauricular ou celulite, acrescente sistêmico.
Esperado: Resposta na mesma velocidade de qualquer otite externa. Em quem tem diabetes, a ausência de resposta em 48 horas não é motivo para trocar de gota: é motivo para procurar granulação no assoalho do conduto e pensar em forma necrotizante.
Se não melhora: Colha cultura, peça velocidade de hemossedimentação e proteína C reativa, peça tomografia contrastada e chame a otorrinolaringologia. No seguimento da forma necrotizante, a velocidade de hemossedimentação é o parâmetro que cai com a resposta; a tomografia não serve para acompanhar, porque as alterações ósseas persistem, e o exame que acompanha é a cintilografia com gálio, mensal.
Esperado: Pico nos primeiros dois a três dias e melhora gradual a partir daí, ainda que lenta. Melhorar devagar no décimo segundo dia é o curso normal da forma viral prolongada.
Se não melhora: Duas trajetórias mudam a categoria: piora significativa depois de melhora nos primeiros cinco dias, e manutenção do quadro intenso sem melhora gradual depois de catorze dias. Nas duas, considere a faixa bacteriana e decida entre antibiótico imediato, se grave, e prescrição adiada, se moderado. Falha de antibiótico é ausência de melhora relevante em 48 a 72 horas, ou piora a qualquer momento.
Onde o erro machuca
O dano: É a porta de entrada de boa parte das prescrições desnecessárias do país. A criança pequena que se debate e chora durante a otoscopia tem, pelo próprio choro, vasodilatação da membrana timpânica — a membrana fica vermelha porque ela está chorando, e não porque tem otite. O painel brasileiro de 2018 é explícito: hiperemia, diminuição de translucidez ou presença de líquido retrotimpânico, isoladamente, sem abaulamento e sem otorreia, não são sinais que distinguam otite média aguda. O dano não termina na receita: essa criança fica com um diagnóstico no prontuário que vai justificar o próximo antibiótico, e depois o rótulo de otite de repetição, e depois uma conversa sobre tubo de ventilação — tudo construído sobre uma membrana que estava vermelha de choro.
Como pegar a tempo: Procure o abaulamento, que é o sinal mais fidedigno, e a opacidade com apagamento dos relevos ósseos. Otorreia purulenta de início súbito em conduto sem inflamação da pele também fecha. Se a membrana está vermelha e plana, com relevos preservados, escreva isso no prontuário exatamente assim e não escreva otite média aguda. E acalme a criança antes: boa parte do vermelho vai embora com dois minutos de colo.
O dano: É o segundo antibiótico da história, aquele que quase sempre é o clavulanato, e ele não faz nada pelo paciente. O painel brasileiro registra que os antibióticos não evitam a presença de efusão nem as recorrências tardias depois de três meses. A criança que volta em duas semanas sem dor, sem febre e com uma membrana opaca e imóvel está exatamente onde deveria estar. Prescrever ali entrega diarreia, candidíase e pressão seletiva em troca de nada, e ainda ensina a família que aquele quadro precisou de dois antibióticos — informação que ela vai levar para as próximas cinco consultas e para a farmácia.
Como pegar a tempo: Separe as duas perguntas na reavaliação. Primeira: a doença aguda cedeu? Sem dor, sem febre, criança ativa: cedeu. Segunda: sobrou líquido? Se sobrou, anote a data e explique à família em uma frase que líquido leva semanas a meses para sair e que isso não é infecção. Marque a reavaliação, não a receita.
O dano: É o erro de via de administração mais frequente do capítulo. A infecção é da pele do conduto auditivo externo, um tecido pobremente vascularizado que os antibióticos sistêmicos alcançam mal; a concentração que trata só se obtém pingando a droga no lugar. O paciente sai com cefalexina, não melhora, volta em cinco dias com mais dor e mais edema, e nesse ponto o conduto está tão fechado que nem a gota entra mais — o que gera um segundo erro em cima do primeiro. Some os efeitos adversos e a pressão seletiva de um curso inteiro de antibiótico sistêmico que não tinha por que existir.
Como pegar a tempo: Trate topicamente e reserve o sistêmico para a lista curta do protocolo: febre, edema acentuado do conduto impedindo ver a membrana, edema periauricular. Antes da gota, limpe o conduto. Se o edema impede a entrada da medicação, use curativo de gaze embebida trocado a cada 48 horas — a solução para "a gota não entra" é mecânica, não farmacológica.
O dano: Aminoglicosídeo em contato com a orelha média por uma perfuração é ototóxico, e a perda auditiva neurossensorial que ele causa não volta. Otite externa difusa não complicada é tratada com analgesia e terapia tópica. Se houver obstrução, limpeza delicada sob visão ou mecha pode melhorar a chegada da gota; não instrumentar às cegas nem exigir limpeza traumática antes de iniciar tratamento. Membrana perfurada ou de integridade incerta pede preparação não ototóxica apropriada, como fluoroquinolona otológica conforme apresentação e protocolo; não apresentar cloranfenicol como alternativa universalmente segura. Edema isolado do conduto não basta para antibiótico sistêmico. Extensão além do conduto, fatores de risco e impossibilidade real de terapia local exigem decisão individualizada e reavaliação em 48–72 horas. O problema brasileiro é estrutural, e o interno precisa saber disso — a única solução otológica da Rename 2024 é a associação de polimixina B, neomicina, fluocinolona e lidocaína, isto é, contém aminoglicosídeo. A gota que o SUS entrega é justamente a que não se pode usar às cegas, numa doença em que o edema do conduto frequentemente impede ver a membrana.
Como pegar a tempo: Faça da visualização da membrana um objetivo explícito da consulta: limpe, aspire, use o maior espéculo que entra. Se ainda assim não vir, escreva "membrana não visualizada" no prontuário e trate como se houvesse perfuração. Pergunte pela história: perfuração prévia, cirurgia de ouvido, tubo de ventilação, otorreia crônica de repetição. E reavalie em 48 horas para ver a membrana quando o edema ceder.
O dano: O paciente no décimo dia com melhora lenta recebe amoxicilina porque "passou de dez dias" — e ele tem a forma viral prolongada, categoria que a atualização brasileira de 2025 criou justamente para nomear esse quadro e dizer que ele continua sendo viral. Como ele ia melhorar de qualquer jeito, a melhora dos dias seguintes é creditada ao antibiótico, e tanto o paciente quanto o médico saem da consulta com a lição errada reforçada. Do outro lado da mesma moeda: só 0,5% a 2% dos quadros agudos do adulto viram bacterianos, então tratar por calendário significa tratar dezenas de pessoas para acertar uma.
Como pegar a tempo: Pergunte pela trajetória, não pela data. "Desde quando começou" é a segunda pergunta; a primeira é "vem melhorando, piorando, ou está igual?". Melhora gradual, mesmo lenta, mesmo além de dez dias, é viral. O que muda a categoria é a dupla piora ou a manutenção do quadro intenso sem melhora gradual depois de catorze dias. E, mesmo nessa faixa, a recomendação de 2025 é antibiótico só nas apresentações graves, com prescrição adiada nos casos moderados.
O dano: É o erro simétrico ao excesso, e o mais fácil de cometer depois de ler um capítulo como este. Segurar o antibiótico é a decisão certa na maioria das consultas — mas ela só é segura acompanhada de reavaliação real. Sem retorno marcado, sem sinais de alarme escritos e sem prescrição adiada em mãos, a conduta conservadora vira alta de paciente que ninguém mais vai ver. A mastoidite, a complicação orbitária e a otite externa necrotizante não são frequentes, mas todas as três começam com um paciente que foi mandado para casa com a orientação de esperar e nenhuma instrução sobre quando parar de esperar.
Como pegar a tempo: Toda decisão de observar sai da consulta com três coisas: data e hora do retorno em 48 a 72 horas; lista escrita de sinais que antecipam o retorno — dor que piora, febre que sobe, prostração, secreção pela orelha, inchaço atrás da orelha, inchaço em volta do olho, visão alterada; e, quando couber, a receita do antibiótico na mão com instrução escrita de quando iniciar. Registre no prontuário que a orientação foi dada.
O que dizer ao paciente e à família
Este capítulo se ganha ou se perde na conversa, e não na prescrição. A família que sai sem antibiótico e sem entender por quê volta em dois dias em outra unidade, e consegue o antibiótico lá — com a lição adicional de que o primeiro médico foi negligente. As falas abaixo servem para que a explicação caiba nos minutos que a consulta tem.
Duas regras atravessam todas elas. Primeira: nunca diga "não é nada", porque dói, tirou a noite da família e não é nada mesmo. Segunda: diga o número. Números convencem mais que adjetivos, e os números deste capítulo são generosos com quem não prescreve.
A mãe já entra pedindo o antibiótico, antes de você olhar a orelha
“"Vou olhar a orelha dele agora e te digo exatamente o que estou vendo, combinado? Porque essa decisão depende do que aparece ali dentro, e não dá para tomar antes. Só quero te adiantar uma coisa para você não se assustar com o que eu falar depois: dor de ouvido em criança pequena é quase sempre uma coisa que passa sozinha, e o antibiótico, quando é preciso, não é ele que tira a dor. O que tira a dor é o remédio de dor, e esse eu vou dar de qualquer jeito, agora. Deixa eu olhar primeiro e a gente decide junto."”
Não diga: Evite discutir o antibiótico antes do exame. Você perde a autoridade da resposta e transforma a consulta numa negociação em que a otoscopia vira formalidade.
Explicar por que você vai observar em vez de prescrever
“"Vou te contar como essa doença se comporta. De cada cinco crianças com isso que o Otto tem, quatro melhoram sozinhas — sem antibiótico nenhum. O antibiótico ajuda um pouco, mas é pouco mesmo: a gente precisa dar para umas oito crianças para uma delas se dar melhor por causa dele. E ele demora até dois dias para fazer efeito na dor e na febre, então não é ele que vai fazer o senhor dormir hoje à noite. O que vai é o ibuprofeno, que eu já vou prescrever. Então minha proposta é essa: a gente trata a dor com força agora, você volta comigo depois de amanhã, e se ele não estiver melhor, eu entro com o antibiótico naquele dia. Você topa?"”
Não diga: Evite "é viral" como explicação, porque não é necessariamente verdade e a família já ouviu isso como sinônimo de "não vou te dar nada". Evite prometer que não vai precisar.
Entregar a prescrição adiada sem que ela vire receita comum
“"Vou te dar a receita do antibiótico, mas presta atenção no que eu vou escrever aqui atrás. Ela é para você guardar, não para comprar hoje. Se depois de amanhã ele não tiver melhorado, ou se piorar antes disso, aí você compra e começa. Estou te dando na mão porque não quero que você fique sem opção se ele piorar de madrugada num domingo. Mas o mais provável, de longe, é que você não precise usar — e se não precisar, melhor, porque antibiótico também dá diarreia e alergia. Vou anotar aqui a data em que você pode começar e os sinais que fazem você começar antes."”
Não diga: Evite entregar a receita sem escrever a instrução. Prescrição adiada sem orientação por escrito é apenas prescrição imediata com atraso de meia hora.
A reavaliação mostra líquido, e a família acha que o remédio não funcionou
“"Boa notícia primeiro: a infecção passou. Ele não tem mais dor, não tem mais febre, e a orelha por dentro não está mais inflamada. O que eu ainda vejo é líquido atrás do tímpano — e isso é normal depois de uma otite. O líquido leva semanas para sair, às vezes dois ou três meses. Não é infecção, não precisa de outro antibiótico, e outro antibiótico não tiraria esse líquido mais rápido. O que eu preciso de você é atenção a uma coisa: enquanto tem líquido, ele escuta um pouco abafado, como quem está com o ouvido tampado na piscina. Repara se ele está atendendo quando você chama de outro cômodo, se está aumentando o volume da televisão, se a fala está do jeito de sempre. Se você notar qualquer coisa diferente, me avisa antes da data do retorno."”
Não diga: Evite "está tudo bem, pode ir". Isso encerra a consulta sem instalar na família a vigilância sobre audição e fala, que é a única coisa que essa efusão exige.
Adulto com nariz entupido há doze dias, exigindo antibiótico
“"Deixa eu te fazer a pergunta que decide isso: nesses doze dias, você foi melhorando devagar, ou você melhorou e depois piorou de novo? ... Foi melhorando devagar. Então eu te explico. Existe um nome para exatamente o que você tem: resfriado que demora. A recuperação pode levar três, quatro semanas, e continua sendo viral o tempo todo. Antibiótico aqui não encurta nada e ainda te dá chance de diarreia. O que muda o jogo é outra coisa: se você tivesse melhorado e voltado a piorar, ou se estivesse igual ao primeiro dia, com dor forte de um lado só — aí sim. Vou te dar lavagem nasal com soro, remédio para dor e um spray, e quero que você volte se piorar a qualquer momento."”
Não diga: Evite discutir a cor da secreção. Se a conversa for para o verde, você já perdeu — e a purulência realmente não separa viral de bacteriano.
Explicar por que a otite externa não leva antibiótico de tomar
“"O que você tem é uma infecção da pele de dentro do canal do ouvido — a pele mesmo, aquela fininha que forra o canal. Antibiótico de tomar chega mal nesse lugar, porque é pele com pouca circulação. Por isso o tratamento é a gota: ela encosta direto no que está infectado, com uma concentração que o comprimido nunca alcançaria ali. Três coisas fazem esse tratamento dar certo: eu limpar o canal agora, você pingar direitinho de oito em oito horas, e a orelha ficar seca por quinze dias — no banho também, com algodão com vaselina na entrada. Nada de cotonete, nunca mais. Se em dois dias não estiver bem melhor, você volta."”
Não diga: Evite prometer alívio imediato. A dor da otite externa é frequentemente grave e leva um a dois dias para ceder, mesmo com o tratamento certo — e o paciente que esperava alívio em horas abandona a gota.
Diabético idoso com dor de ouvido que não melhorou com a gota
“"Seu Quintino, eu não vou trocar a gota hoje. Vou fazer diferente, e quero te explicar por quê. Em pessoa com diabetes, uma infecção de ouvido que não melhora e que dói mais de madrugada pode ter passado da pele para o osso do crânio, ali atrás. É bem menos comum do que a infecção simples, mas é séria, e o jeito de não perder tempo é investigar agora em vez de tentar outra gota e esperar mais uma semana. Vou colher material do ouvido para exame, pedir exames de sangue e uma tomografia, e falar com o otorrino hoje. Se der o que eu não quero, o tratamento é longo — seis semanas de antibiótico —, mas começar cedo faz toda a diferença."”
Não diga: Evite tranquilizar por antecipação, dizendo que provavelmente não é nada. O quadro necrotizante cursa com o paciente sem febre e sem aparência de gravidade, e a tranquilização é justamente o que faz o paciente não voltar.
Onde bons médicos discordam
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.
Dose padrão — Projeto Diretrizes AMB/CFM, 2005, e painel ABORL-CCF, 2018
A diretriz de 2005 responde diretamente à pergunta sobre dose dobrada: o uso de dose alta de amoxicilina não confere melhor resposta clínica, menor recorrência ou menos eventos adversos do que a dose padrão, e não há diferença entre 90 mg/kg/dia e 40 a 45 mg/kg/dia em crianças maiores de três meses. Treze anos depois, o painel de especialistas mantém a posição e explicita o motivo epidemiológico: recomenda 45 mg/kg/dia divididos em duas ou três tomadas e registra que, embora a Academia Americana de Pediatria recomende 90 mg/kg/dia, a resistência intermediária do pneumococo no nosso meio ainda é pequena e não justifica essa medida como primeira opção no Brasil. O dado nacional que sustenta a afirmação está na própria tabela do painel: 93% de sensibilidade dos estreptococos à penicilina acima dos cinco anos, pelo Sistema Regional de Vacinas de 2014.
Sakano E, Weckx LLM, Bernardo WM, Saffer M. Otite Média Aguda na Infância: Tratamento. Projeto Diretrizes AMB/CFM, elaboração final em 16 de agosto de 2005. E Piltcher OB et al. Braz J Otorhinolaryngol. 2018;84(3):265-279, seção de tratamento da otite média aguda e Tabelas 1 e 5.
Dose alta — Consenso ABORL-CCF de rinossinusites, 2015, e atualização ABR/ABORL-CCF, 2025
O consenso de rinossinusites de 2015, da mesma associação e com autores em comum, trabalha com faixa alta contra o mesmo pneumococo: estima que cerca de 80% dos casos de rinossinusite aguda leve respondam à amoxicilina em dose de 70 a 90 mg/kg/dia, e na seção pediátrica registra 40 mg/kg/dia ou 80 mg/kg/dia como tratamento inicial racional. A atualização de 2025 mantém a porta aberta e a formula em termos de risco: nos casos com risco de portar Streptococcus pneumoniae resistente, a dose pode ser aumentada até 4 g por dia sem aumentar a quantidade de ácido clavulânico. As tabelas de otite média do painel de 2018, aliás, também trazem a faixa de 45 a 90 mg/kg/dia — o texto recomenda o piso, a tabela permite o teto.
Anselmo-Lima WT, Sakano E, Tamashiro E, et al. Rinossinusites: evidências e experiências. Braz J Otorhinolaryngol. 2015;81(1 Supl.1):S1-S49, seções de resistência a antimicrobianos e de rinossinusite na criança. E Romano FR et al. Rhinosinusitis: Evidence and experience — 2024. Braz J Otorhinolaryngol. 2025;91(5):101595, seção de antibióticos na rinossinusite aguda bacteriana.
Amoxicilina é primeira escolha usual, mas dose e duração dependem da idade, gravidade, exposição prévia e resistência local. A recomendação brasileira de 2018 de 45 mg/kg/dia não prova que dose alta de 80–90 mg/kg/dia seja sempre errada em 2026. Usar protocolo pediátrico local atualizado; dez dias são usualmente indicados em menores de dois anos ou doença grave, enquanto crianças maiores com doença não grave podem receber cursos mais curtos. Conferir dose máxima, intervalo, concentração e volume total, especialmente ao associar clavulanato.
Contra na fase viral — European Position Paper on Rhinosinusitis, EPOS 2020, conforme relatado pela atualização brasileira de 2025
A posição europeia considera que o efeito é modesto demais para justificar o custo no início do quadro: apenas 7 pacientes em cada 100 tratados apresentam melhora completa com corticoide intranasal. Com esse número, o documento estabelece recomendação contra o uso na rinossinusite aguda viral. Considera, porém, benéfico e recomendado na forma viral prolongada com sintomas intensos — quer dizer, a recusa não é da droga, é do momento em que ela entra.
EPOS 2020, citado e comparado em Romano FR et al. Rhinosinusitis: Evidence and experience — 2024. Braz J Otorhinolaryngol. 2025;91(5):101595, seção de corticosteroides intranasais na rinossinusite aguda.
A favor em todos os tipos — International Consensus Statement on Allergy and Rhinology: Rhinosinusitis, ICAR-RS 2021, conforme relatado pela mesma atualização
A posição norte-americana pesa a mesma melhora modesta contra o risco muito baixo da droga e chega ao lado oposto. Considera que a melhora dos sintomas da rinossinusite aguda — sobretudo congestão nasal e rinorreia — e a redução da duração da doença compensam, e estabelece recomendação forte para o uso de doses dobradas de corticoide intranasal em todos os tipos de rinossinusite aguda. A atualização brasileira registra explicitamente que existe recomendação contraditória entre os dois documentos sobre essa classe.
ICAR-RS 2021, citado e comparado em Romano FR et al. Rhinosinusitis: Evidence and experience — 2024. Braz J Otorhinolaryngol. 2025;91(5):101595, mesma seção.
Posição intermediária da Academia Brasileira de Rinologia, 2025
A academia brasileira não adota nenhum dos dois extremos. Coloca o corticoide intranasal na rinossinusite aguda viral como uma opção que pode beneficiar os casos graves. Do lado bacteriano, o painel brasileiro de 2018 já registrava algo mais forte e que interessa a este capítulo: há evidência de que o corticoide tópico tenha eficácia semelhante ao antibiótico isolado nas formas bacterianas mais leves, o que poderia poupar antibiótico, e essa prática deveria ser estimulada.
Romano FR et al. Braz J Otorhinolaryngol. 2025;91(5):101595, posicionamento da Academia Brasileira de Rinologia. E Piltcher OB et al. Braz J Otorhinolaryngol. 2018;84(3):265-279, seção de corticosteroides tópicos na rinossinusite aguda bacteriana.
Decida pela gravidade do paciente e pelo que ele consegue obter. Quadro leve, poucos dias, incômodo tolerável: lavagem nasal e sintomático bastam, e a posição europeia é suficiente para não prescrever. Quadro intenso, obstrução que impede dormir, ou forma viral prolongada arrastada: as três posições convergem a favor do corticoide intranasal — e é aí que ele vale. E existe um argumento que só aparece na atenção básica brasileira: nas formas bacterianas leves, o corticoide tópico pode substituir o antibiótico, o que transforma esta escolha num instrumento de contenção e não num acréscimo. Verifique o acesso antes de prescrever: a Rename 2024 traz budesonida em suspensão para inalação nasal de 32, 50 e 64 microgramas no componente básico, e não traz mometasona nem fluticasona nasais.
Dez dias — Projeto Diretrizes AMB/CFM 2001, consenso ABORL-CCF 2015 e painel ABORL-CCF 2018
A diretriz de 2001 fixa a régua que atravessou duas décadas: a suspeita de rinossinusite aguda bacteriana deve ocorrer quando os sintomas de uma infecção viral de vias aéreas superiores pioram após o quinto dia ou persistem por mais de dez dias. O consenso de 2015 repete o mesmo corte ao definir a forma pós-viral. O painel de 2018 mantém os dez dias e acrescenta a exigência de pelo menos três critérios entre piora após fase inicial mais branda, rinorreia predominantemente unilateral ou gota pós-nasal francamente purulenta, dor local intensa sobretudo unilateral, febre e elevação de marcadores inflamatórios. Os três documentos continuam publicados e acessíveis.
Sakano E, Weckx LLM, Sennes LU. Diagnóstico e Tratamento da Rinossinusite. Projeto Diretrizes AMB/CFM, elaboração final em 21 de junho de 2001. Anselmo-Lima WT et al. Braz J Otorhinolaryngol. 2015;81(1 Supl.1):S1-S49. Piltcher OB et al. Braz J Otorhinolaryngol. 2018;84(3):265-279.
Catorze dias — atualização ABR/ABORL-CCF/ASBAI, 2025
A atualização move o corte e cria uma categoria para o intervalo que sobrou. A forma bacteriana passa a exigir piora significativa depois de melhora nos primeiros cinco dias, ou manutenção do quadro intenso inicial sem melhora gradual depois de catorze dias. O que existe entre a resolução rápida e esse limite ganha nome próprio: rinossinusite aguda viral prolongada, definida como o quadro viral que dura mais de sete a dez dias com melhora lenta e progressiva. A academia recomenda contra o uso de antibiótico tanto na forma viral quanto na viral prolongada.
Romano FR, Anselmo-Lima WT, Kosugi EM, Sakano E, et al. Rhinosinusitis: Evidence and experience — 2024. Braz J Otorhinolaryngol. 2025;91(5):101595, Tabela 1 e seção de classificação da rinossinusite aguda.
Decida pela trajetória, que é o único elemento em que os dois lados concordam. Piora depois de melhora — a dupla piora — é critério nos dois, e é o achado que mais muda a probabilidade; unilateralidade nova, idem. O que os separa é apenas o paciente que está no décimo primeiro, décimo segundo ou décimo terceiro dia sem dupla piora. Para ele, pergunte se a intensidade caiu desde o pico: se caiu, ainda que pouco, a leitura de 2025 é a mais defensável e o antibiótico não entra; se o quadro está tão intenso quanto no terceiro dia, os dois lados o mandam para a faixa bacteriana. E há uma saída que dispensa escolher: nessa zona de dúvida, com quadro moderado, a prescrição adiada satisfaz as duas réguas ao mesmo tempo — o paciente sai com o antibiótico na mão e a instrução de só começar se não melhorar ou se piorar. Registre no prontuário qual documento o seu serviço adota, porque colega e paciente vão encontrar o outro.
O raciocínio, em voz alta
Quintino Jurema, 71 anos, aposentado, diabético tipo 2 há dezoito anos, com hemoglobina glicada de 9,4% na última coleta. Chegou à unidade pela terceira vez em três semanas com a mesma queixa: dor no ouvido direito. Na primeira consulta recebeu a gota otológica da farmácia da unidade e orientação de manter a orelha seca. Na segunda, dez dias depois, a dor tinha piorado e ele recebeu cefalexina. Hoje diz que a dor não deixa dormir — começa a apertar por volta das duas da manhã e não cede com dipirona. Está afebril, corado, pressão de 138 por 84, frequência cardíaca de 78. Não parece doente. À otoscopia, depois de aspirar uma otorreia escassa e de odor forte, aparece uma massa avermelhada e friável no assoalho do conduto, na transição entre a parte cartilaginosa e a óssea. O sorriso é simétrico.
O que muda a hipótese
Três elementos, juntos, tiram o caso da otite externa comum: diabetes descompensado, otalgia grave com piora noturna que não responde a duas linhas de tratamento, e tecido de granulação no assoalho do conduto na junção osteocartilaginosa. Esse último é o achado específico da forma necrotizante, presente em cerca de 75% dos casos, e ele só apareceu porque alguém aspirou a otorreia e olhou o assoalho. A ausência de febre e de taquicardia não afasta nada: as duas são incomuns nessa doença, e é justamente por isso que ela chega tarde.
O que não fazer
Não trocar a gota por outra e mandar voltar em uma semana. Não interpretar a falha da cefalexina como necessidade de um antibiótico oral mais largo escolhido no escuro. E não se tranquilizar com o sorriso simétrico: o nervo facial é o nervo craniano mais acometido, em 31% dos casos, mas ele é consequência da extensão da doença e não pré-requisito para o diagnóstico.
O que foi feito
Coleta de secreção do conduto para cultura e antibiograma antes de qualquer antibiótico novo. Hemograma, proteína C reativa e velocidade de hemossedimentação, esta última anotada como o parâmetro que vai ser repetido ao longo do tratamento. Tomografia contrastada de orelhas e mastoides para definir a extensão. Contato com a otorrinolaringologia no mesmo dia, tanto para avaliar desbridamento quanto para biópsia — porque colesteatoma e carcinoma epidermoide entram no diferencial de um conduto com granulação. E controle glicêmico revisado, que aqui não é comorbidade de fundo: é o mecanismo da doença.
O antibiótico, e por quanto tempo
Suspeita de otite externa necrotizante exige avaliação urgente por otorrinolaringologia e equipe hospitalar conforme gravidade. Colher microbiologia sem atraso relevante, investigar extensão com imagem apropriada e considerar biópsia para diagnósticos alternativos. Granulação é sugestiva, não patognomônica; ausência de febre não tranquiliza. Antibiótico sistêmico antipseudomonas deve seguir culturas, gravidade, função renal e resistência local; ciprofloxacino oral não é solução automática para todo diabético com quadro grave. TC e RM são complementares, e duração prolongada é individualizada pela resposta. O tratamento é de no mínimo seis semanas. Vale a conta da apresentação: com os comprimidos de 500 mg da Rename, tomar de 8 em 8 horas soma 126 comprimidos ao longo de 42 dias, e isso precisa estar combinado com a farmácia antes de o paciente sair — tratamento de seis semanas que só tem receita para dez dias fracassa por logística.
Como saber se funcionou
Limpeza do conduto pelo menos uma vez por semana e reavaliação clínica frequente. A velocidade de hemossedimentação cai com a resposta e é o marcador de seguimento. A tomografia não serve para acompanhar, porque as alterações ósseas persistem depois da melhora; quem acompanha é a cintilografia com gálio-67, mensal, que mostra a infecção ativa e tende a normalizar — enquanto a de tecnécio-99, de alta sensibilidade e baixa especificidade, permanece alterada.
Faça você
Dinorá Formiga, 34 anos, professora, chega ao pronto atendimento às 21h de uma quarta-feira. Conta que ficou gripada há nove dias — coriza, espirros, dor de garganta leve, sem febre. Melhorou bastante no quinto dia, a ponto de voltar a dar aula na segunda. Ontem à tarde piorou de novo: dor no rosto do lado direito, que aumenta quando ela abaixa a cabeça, secreção nasal espessa saindo pela narina direita, e febre de 38,6 °C medida em casa. Hoje acordou com a pálpebra direita inchada, e o marido achou que era picada de inseto. Ao exame, temperatura de 38,4 °C, frequência cardíaca de 102, pressão de 118 por 72. Há edema e eritema da pálpebra superior e inferior direitas, com a fenda palpebral reduzida a cerca de um terço. Você abre a pálpebra com o dedo: o olho está centrado, sem protrusão evidente. Ela conta os dedos a três metros sem dificuldade com esse olho. Pergunta se pode ir para casa, porque tem prova para corrigir.
Classifique o quadro rinossinusal
Diga em que faixa Dinorá está e qual é o elemento da história que decide, sem usar o número de dias como argumento principal.
Decida se essa pálpebra pode ir para casa
Nomeie o exame de beira de leito que separa a infecção pré-septal da pós-septal e diga quais achados você precisa procurar antes de qualquer decisão.
Peça o que decide
Escolha entre não pedir imagem, pedir radiografia de seios da face e pedir tomografia — e justifique com a régua do capítulo.
Escreva a conduta das próximas duas horas
Destino, via do antibiótico, quem você chama, e o que você diz a ela sobre a prova que não vai ser corrigida hoje.
Ver como fecharíamos
Faixa: rinossinusite aguda bacteriana, e o que decide é a curva e não o calendário. Dinorá teve um quadro viral que melhorou claramente no quinto dia e piorou depois — a dupla piora, que é critério nas duas réguas brasileiras em circulação, a de dez dias e a de catorze. Some os sinais de unilateralidade, que a atualização de 2025 destaca: dor facial e rinorreia com predomínio claro à direita, depois de um início difuso e bilateral. E febre de 38,6 °C, que atravessa tanto o corte de acima de 38 °C quanto o de 38,3 °C que o painel de 2018 usa em duas seções diferentes do mesmo artigo. Com três dos cinco critérios preenchidos, o diagnóstico não depende de qual documento você adota. Mas a classificação não é o que decide esta noite. O edema palpebral em vigência de rinossinusite aguda é sinal de alerta para complicação, e ele aparece tanto na lista do painel de 2018 — alterações orbitárias — quanto na da diretriz de 2001. O exame de beira de leito que separa pré-septal de pós-septal não precisa de equipamento: acuidade visual grosseira, motilidade ocular nas seis posições, presença ou ausência de proptose, dor à movimentação do olho, reflexos pupilares e visão de cores. Dinorá tem acuidade aparentemente preservada e o olho centrado, o que aponta para celulite periorbital — grupo 1 de Chandler. O que você ainda não testou é a motilidade, a dor à movimentação e a pupila, e é exatamente aí que mora a diferença entre o grupo 1 e o grupo 2. Teste antes de decidir. Imagem: tomografia com contraste de seios da face e órbitas, agora. A regra do capítulo tem dois lados, e o segundo se aplica aqui: no diagnóstico da rinossinusite aguda, imagem quase nunca; na suspeita de complicação, imagem agora. Radiografia de seios da face não responde nada — a própria diretriz de 2001 já chamava seu valor de controverso e discutível, e ela é incapaz de mostrar o compartimento orbitário. A tomografia é o exame que diz se há coleção subperiosteal, que é o que muda a indicação cirúrgica. Esquema intravenoso deve ser definido pela equipe conforme patógenos, gravidade e resistência local, junto à avaliação de necessidade de drenagem. Chame otorrinolaringologia e oftalmologia hoje, não amanhã: abscesso à tomografia, achados orbitários ou visuais progressivos, ou ausência de resposta ao antibiótico são indicações cirúrgicas, e quem acompanha acuidade e motilidade de hora em hora precisa estar avisado desde já. Reavaliação oftalmológica seriada é a rede de segurança, porque a passagem de pré-septal para pós-septal acontece em horas. O que dizer a ela: que o inchaço da pálpebra, num nariz infectado, não é picada de inseto nem alergia — é a mesma infecção tentando passar para o compartimento do olho, e que a estrutura que separa os dois é uma membrana fina. Que o risco não é a dor: é a visão. Que o tratamento é venoso e não existe em comprimido, e que por isso a internação não é excesso de cuidado. E que a prova pode esperar.
Estudos com eventos raros não autorizam concluir impossibilidade de benefício preventivo. A decisão considera idade, gravidade e seguimento; mastoidite e outras complicações podem surgir mesmo em tratamento e exigem atendimento urgente.
Teste-se
Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.
Plano de revisão
Em 7 dias
Descreva a otoscopia em voz alta e diferencie otite externa, média aguda e efusão. Demonstre cálculo de amoxicilina e clavulanato sem excesso da associação.
Em 30 dias
Mude idade, bilateralidade e gravidade do caso pediátrico e justifique observação ou antibiótico. Compare edema palpebral simples e sinais orbitários.
Agora atenda
A parte difícil deste capítulo não é a otoscopia: é a consulta em que a família já entrou pedindo o antibiótico e você precisa fechar o diagnóstico, tratar a dor, explicar os números e combinar a reavaliação — tudo nos minutos que a agenda tem. Vá para o atendimento simulado praticar exatamente isso: examinar antes de negociar, dizer o número em vez do adjetivo, e sair da consulta com retorno marcado, sinais de alarme escritos e, quando couber, a receita adiada na mão da família.
