Ginecologia e ObstetríciaParto e assistência ao nascimento

A cicatriz cobra duas vezes

Acretismo placentário e rotura uterina

Duas catástrofes com a mesma raiz e destinos opostos: uma se enxerga com meses de antecedência, no laudo de uma mulher que não sente nada, e a outra se decide em minutos, numa sala em que tudo parecia bem — o que se rastreia, o que se reconhece no relatório da cirurgia anterior, o que nunca se faz com uma placenta que não solta, e qual sinal encerra uma prova de trabalho de parto.

Fontes deste capítulo

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção Primária à Saúde. Departamento de Ações Programáticas. Manual de gestação de alto risco. Brasília: Ministério da Saúde; 2022. 692 p.

Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo). Rotura uterina. São Paulo: Febrasgo; 2021. (Protocolo Febrasgo-Obstetrícia, n. 29 / Comissão Nacional Especializada em Urgências Obstétricas).

Andreucci CB, Magalhães CG. Rotura uterina. São Paulo: Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo); 2018. (Protocolo Febrasgo-Obstetrícia, n. 108 / Comissão Nacional Especializada em Urgências Obstétricas).

Brasil. Ministério da Saúde. Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec). Diretrizes de atenção à gestante: a operação cesariana. Relatório de Recomendação nº 179. Brasília: Ministério da Saúde; março de 2016. Aprovada pela Portaria SAS/MS nº 306, de 28 de março de 2016.

Francisco RP, Martinelli S, Kondo MM. Placenta prévia e acretismo placentário. São Paulo: Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo); 2018. (Protocolo Febrasgo-Obstetrícia, n. 26 / Comissão Nacional Especializada em Assistência ao Abortamento, Parto e Puerpério).

01

Responda antes de ler

Segundo o protocolo brasileiro dedicado à rotura uterina, qual achado é descrito como o primeiro sinal suspeito no trabalho de parto, e qual é a sua característica típica?

02

O paciente que você vai ver

Terça-feira, oito e quarenta da manhã, hospital regional de cento e trinta leitos. Você é o interno de obstetrícia e o plantão de hoje tem duas pontas: o ambulatório de pré-natal, no segundo andar, e a maternidade, no terceiro. As duas mulheres deste capítulo já estão no prédio, e nenhuma das duas está sangrando.

No ambulatório, a segunda ficha da manhã é a de Neusimar Corvelo, 33 anos, terceira gestação, 31 semanas e 4 dias. Duas cesarianas anteriores, a última há dois anos. Ela veio buscar o resultado da ultrassonografia que fez na semana passada, na policlínica do município, e está com pressa porque deixou os dois filhos com a vizinha. Não tem queixa. Não sangrou em nenhum momento da gestação. O laudo, três linhas no meio de uma página, diz que a placenta é anterior e recobre o orifício interno do colo, e acrescenta uma frase que ninguém no corredor vai ler duas vezes: perda da zona hipoecoica retroplacentária, com lacunas irregulares no terço inferior.

No terceiro andar, no leito 2, está Suzileide Braule, 29 anos, segunda gestação, 39 semanas e 1 dia. Uma cesariana anterior, há quatro anos, por apresentação pélvica. Ela optou no pré-natal por tentar o parto normal, entrou em trabalho de parto sozinha às cinco da manhã, está com 6 cm de dilatação, e a plantonista já registrou no prontuário que a evolução é boa. O acompanhante trouxe café. Também não há queixa.

As duas têm a mesma lesão. Uma cicatriz no útero, feita numa sala de cirurgia, alguns anos atrás, por um motivo que hoje quase ninguém lembra qual foi. E as duas estão a caminho de catástrofes diferentes, que se comportam de modos opostos e que este capítulo trata juntas exatamente por isso.

A de Neusimar é a catástrofe que se enxerga com meses de antecedência. O que a imagem descreve é uma placenta que se implantou sobre a cicatriz e pode não ter onde se descolar. Se ninguém ler aquelas três linhas hoje, o diagnóstico não vai aparecer depois: não há sintoma que o denuncie, não há exame de sangue que o encontre, e ele só vai se anunciar no dia do parto, na hora em que alguém puxar o cordão. Todo o desfecho dela — o hospital em que vai parir, quem vai estar na sala, quantas bolsas de sangue estarão reservadas, a data marcada no papel — se decide nesta consulta de dez minutos, ou não se decide nunca.

A de Suzileide é a catástrofe que acontece em minutos e que nenhuma consulta prevê. Ela fez tudo certo, o trabalho de parto está indo bem, e o risco dela é da ordem de três em mil. Quando acontecer, se acontecer, não vai começar por sangue: vai começar por um traçado que despenca, ou por uma dor que não passa no intervalo entre as contrações, e a única coisa que vai separar um desfecho de outro é o tempo entre alguém reconhecer aquilo e o abdome estar aberto.

Guarde a assimetria, porque ela organiza tudo o que vem a seguir e define o que se cobra de você em cada uma. No acretismo, a competência é de calendário: rastrear, reconhecer o laudo, encaminhar, marcar a data, reservar sangue, e não tocar na placenta. Na rotura, a competência é de relógio: vigiar, reconhecer o sinal certo entre sinais parecidos, chamar, e não pedir exame nenhum. Uma se perde por desatenção no ambulatório. A outra se perde por hesitação na sala.

03

Quem adoece disso

Os dois quadros deste capítulo são raros, e nenhum dos dois é raro pelo motivo que se imagina. Eles são raros porque dependem de uma cicatriz uterina — e o Brasil produz cicatrizes uterinas em escala industrial. É a única epidemiologia que o interno precisa levar daqui: a frequência dos dois sobe com a taxa de cesariana, e a taxa de cesariana brasileira é uma das mais altas do mundo. O manual federal de gestação de alto risco diz isso sem rodeio a respeito da placenta prévia, cuja prevalência geral estima em 5,2 por mil gestações e sobre a qual registra que vem aumentando com a maior realização de operações cesarianas. O que vale para a placenta prévia vale, com mais força, para o que cresce dentro dela.

A aritmética do acretismo é a parte que muda comportamento, e ela precisa ser lida com o cuidado que quase nunca se toma. A série que os documentos brasileiros publicam mede o risco de acretismo na presença de placenta prévia, e só nessa condição: 3% quando não houve cesárea nenhuma; 11% depois de uma; 40% depois de duas; 61% depois de três; e 67% de quatro em diante. Repare no que essa série faz. Ela não descreve o efeito da cesárea sozinha; descreve o efeito da cesárea somada a uma placenta que se implantou em cima da cicatriz. É por isso que a pergunta do rastreamento tem duas partes e não uma, e é por isso que uma mulher com quatro cesarianas e placenta fúndica não está no mesmo lugar da tabela que uma com duas cesarianas e placenta anterior baixa.

O salto da segunda para a terceira coluna é o número que fica. Entre uma cesárea e duas, o risco vai de 11% para 40% — quase quadruplica. Não há degrau parecido em nenhum outro ponto da série, e é ele que transforma a segunda cesariana, na conversa do pré-natal, em decisão com consequência mensurável para a gestação seguinte. Essa conversa, quando ela pode acontecer, é do capítulo de cesariana e parto vaginal operatório desta apostila, que trata da indicação. O que fica aqui é o preço que a decisão cobra depois.

A rotura tem outra escala e um denominador que vale decorar. O protocolo brasileiro dedicado ao tema estima que ela ocorra, em mulheres com cicatriz de cesariana prévia, em 325 casos a cada 100 mil nascimentos — três em mil, aproximadamente. Em primigestas, é rara: entre um caso em 5.700 e um caso a cada 20 mil gestações. Depois de miomectomia, a estimativa publicada é de sete casos em 756 nascimentos, o que dá quase 1%, quase o triplo da taxa da cicatriz de cesariana. Guarde os três juntos, porque a comparação é o que ensina: útero sem cicatriz quase não rompe, útero com cicatriz de cesariana rompe pouco, útero aberto no corpo rompe bastante.

Duas advertências sobre esses números, e as duas são do próprio documento. A primeira é que a série de risco por número de cesáreas, na placenta prévia, é publicada sem denominador em qualquer dos textos brasileiros — não se diz quantas mulheres foram observadas nem em que população, e o leitor que quiser saber precisa ir ao artigo original, que é estrangeiro. A segunda é que os três números de rotura acima não fecham entre si com os que o mesmo protocolo publica logo adiante; a conta está no bloco de critérios, e ela importa porque é justamente a taxa do útero sem cicatriz que fica errada em quase duas ordens de grandeza.

Do outro lado da conta está a morbidade, e ela é o argumento de por que os dois quadros abrem um capítulo em vez de um parágrafo. Na rotura consumada, a histerectomia é necessária em até 33% dos casos, e a mortalidade perinatal somada à incidência de encefalopatia hipóxico-isquêmica chega a 6%. No acretismo, a perda sanguínea média estimada no parto é de 2,5 litros, com transfusão maciça, lesão de bexiga ou de ureter e pós-operatório em terapia intensiva como companhia habitual. No quadro federal, os dois figuram entre as complicações hemorrágicas classificadas como potencialmente ameaçadoras à vida, degrau imediatamente anterior ao near miss materno, na companhia do descolamento prematuro e da hemorragia do pós-parto.

E há o dado que fecha a epidemiologia com uma frase de organização e não de biologia: o manual federal escreve que existe risco de morte materna quando o acretismo é atendido em local com poucos recursos ou sem o diagnóstico prévio. Os dois fatores são evitáveis e nenhum deles é cirúrgico. O primeiro se resolve com uma transferência marcada com semanas de antecedência; o segundo, com alguém lendo o laudo até o fim. Nos dois casos, quem resolve costuma ser a pessoa menos graduada da sala.

04

Por que acontece o que acontece

Uma cesariana deixa no útero uma cicatriz que não é músculo. O corte atravessa o segmento inferior, e o que fecha ali não recompõe miométrio: recompõe tecido fibroso, com vascularização pobre, sobre o qual o endométrio da gestação seguinte se restabelece mal e às vezes não se restabelece. Essa faixa de tecido é a lesão de que este capítulo inteiro trata. Ela não dói, não aparece em exame de rotina, não muda a menstruação e não impede nada. Ela só cobra em duas circunstâncias muito específicas: quando uma placenta se implanta em cima dela, e quando um útero se contrai contra ela.

A primeira circunstância produz o acretismo. Onde a cicatriz está, pode faltar decídua basal — e a decídua basal é a camada que existe justamente para permitir que a placenta se solte. Sem ela, as vilosidades ancoram diretamente no miométrio, e o órgão passa a gestação inteira sem um plano por onde se descolar. A profundidade dessa ancoragem é o que dá os nomes: acreta quando apenas adere ao miométrio; increta quando entra nele; percreta quando o atravessa e chega à serosa. Em cada cem casos, 80 são acreta, 15 increta e 5 percreta. A associação com a placenta prévia não é coincidência anatômica, e sim geográfica: a cesárea abre o útero baixo, de modo que uma placenta implantada baixo é a que tem mais chance de aterrissar em cima de uma cirurgia antiga. A placenta prévia em si, com a sua classificação e o seu sangramento, é do capítulo Placenta prévia; o que entra aqui é o que a cicatriz faz por baixo dela.

A segunda circunstância produz a rotura, e ela é um problema de mecânica, não de implantação. O segmento inferior tem papel passivo no trabalho de parto: as fibras musculares dele são oblíquas em vez de longitudinais, a camada é fina, e a função dele é se distender enquanto o fundo encurta e empurra. Uma faixa de tecido fibroso encaixada nessa região não faz nem uma coisa nem outra — não se contrai com o resto e não estira como músculo estira. A cada metrossístole, a força do tríplice gradiente descendente é transmitida para um segmento que já é o ponto mais fino da parede e que tem, no meio dele, um trecho que não acompanha. Quando existe também um obstáculo à descida, o segmento se distende progressivamente, forma-se um anel de constrição patológico entre corpo e segmento, as contrações perdem eficácia, e a parede cede no ponto em que ela é menos parede.

Daí decorre a diferença que decide quem pode entrar em trabalho de parto. A cicatriz segmentar transversa, que é a de quase toda cesariana moderna, fica num tecido que já era passivo, e por isso é a que sustenta a oferta de prova de trabalho de parto. A cicatriz longitudinal, corporal ou segmento-corporal, atravessa a musculatura que se contrai com força a cada contração — e essa é a que a régua federal exclui do trabalho de parto por escrito. A miomectomia com abertura de cavidade e a correção de malformação uterina deixam cicatriz da segunda espécie e entram na mesma categoria. Não é o número de cirurgias que manda; é onde o corte foi.

Há um terceiro elemento, e ele é farmacológico. Qualquer coisa que aumente a força ou a frequência da contração aumenta a carga sobre a cicatriz, e é por isso que a indução e a condução mudam o risco de forma medida: mulheres com cesariana anterior submetidas à indução do trabalho de parto têm 1,5% de chance da complicação, e o uso de prostaglandina, comparado à indução com ocitocina, leva a taxa de 1,1% para 2,5%. A diferença entre as duas drogas não é de potência, é de reversibilidade: a ocitocina tem meia-vida curta e se desliga fechando a bomba; a prostaglandina, uma vez administrada, continua agindo mesmo depois de alguém decidir que foi um erro. É essa assimetria — e não uma diferença de eficácia — que sustenta a proibição brasileira do misoprostol nesse útero. A técnica de induzir, os métodos e o preparo do colo são do capítulo Indução do parto desta apostila; aqui fica só o que a cicatriz impõe.

Por que uma sangra quando alguém puxa e a outra sangra por dentro

As duas hemorragias têm topografias diferentes, e é isso que explica por que uma é previsível e a outra é surpreendente. No acretismo, o sangramento é potencial: enquanto ninguém mexe, a placenta acretizada fica quieta, porque não há superfície aberta. Ela pode, inclusive, sangrar menos do que uma placenta prévia comum, e por uma razão mecânica — o que está ancorado no músculo não acompanha o segmento que se forma, e o que não se move não abre leito. Silêncio, ali, não é ausência de doença: é ausência de movimento. A hemorragia se instala no instante em que alguém tenta separar o inseparável, e ela é grande porque escancara de uma só vez a rede vascular inteira de um órgão que, no termo, recebe cerca de um quinto de tudo o que o coração materno bombeia.

Na rotura, o sangramento é imediato e está no lugar errado para ser visto. A solução de continuidade atravessa a serosa e põe a cavidade uterina em comunicação com a peritoneal, de modo que o sangue arterial vai para o abdome. O que aparece na vagina é o resto, e pode ser pouco ou nenhum. É por isso que a desproporção entre o estado da mulher e o sangue no absorvente é, ela mesma, um sinal — e por isso que quem espera o sangramento externo para pensar em rotura já perdeu o intervalo que importava.

E é por isso, ainda, que o feto avisa antes da mãe. A distensão do segmento e a perda de continuidade da parede reduzem o fluxo placentário antes de a mulher ficar instável: há hipofluxo, alteração da vitalidade, e só depois a hemorragia materna toma o comando do quadro. O protocolo brasileiro é explícito ao dizer que o primeiro sinal suspeito é a bradicardia fetal, abaixo de 110 batimentos por minuto. A ordem dos acontecimentos é essa, e não a intuitiva — o traçado, depois a dor, depois o sangue.

Representação didática de alterações da relação entre placenta e parede uterina
Representação didática de alterações da relação entre placenta e parede uterina. A figura não reúne todos os sinais diagnósticos nem define conduta isoladamente.
05

Como se apresenta de verdade

A cicatriz uterina exige dois raciocínios: planejamento diante de suspeita de acretismo e resposta urgente diante de possível rotura. Você deve relacionar placenta baixa e cesáreas anteriores ao local seguro de cuidado, sem esperar sangramento. Durante o parto, mudanças maternas ou fetais podem ser a primeira pista de rotura.

Vale abrir pela frase que resume o acretismo e que o protocolo brasileiro escreve dentro do documento de placenta prévia: diante de uma placenta prévia que não sangrou, o que se deve levantar é a suspeita de aderência anormal. É uma inversão contraintuitiva o bastante para valer decorar. A placenta prévia que sangra está fazendo o que placenta prévia faz — a borda se desloca com a formação do segmento inferior e o leito abre. A que não sangra pode simplesmente não ter como se deslocar.

Percurso clínico: Distinguir planejamento de ruptura aguda

Suspeita antenatal de acretismo exige planejamento de equipe, recursos e local do parto. Ruptura uterina suspeita é emergência que exige avaliação e controle imediato. Em ambos, integre o percurso de hemorragia; não tente remover à força placenta com suspeita de invasão.

O acretismo se apresenta em três linhas de um laudo

O que existe de apresentação é isto: uma mulher com cirurgia uterina prévia e uma placenta baixa, anterior ou prévia. Nada mais. Ela chega assintomática, com o cartão em dia, e o achado está numa ultrassonografia que foi pedida por outro motivo — para datar, para medir crescimento, para conferir a apresentação. Em menos de um décimo das gestantes com placenta prévia o diagnóstico vem por exame de rotina em paciente sem sintoma; nas outras, quem abre a porta é o sangramento, e esse é assunto do capítulo Placenta prévia.

As condições que associam a mulher ao acretismo, e que o manual federal lista, vão além da cesariana e é útil conhecê-las porque cada uma delas aparece na anamnese e nenhuma delas dói: alterações anatômicas do útero, como útero bicorno, adenomiose e miomas submucosos; qualquer cicatriz cirúrgica uterina, o que inclui interrupção cirúrgica da gravidez, dilatação e curetagem, miomectomias e ressecções endometriais, além da síndrome de Asherman; reprodução assistida; embolização de artérias uterinas; quimioterapia e radiação; endometrites; dispositivo intrauterino; extração manual de placenta em gestação anterior; e acretismo placentário prévio. A pergunta de triagem, portanto, não é 'quantas cesáreas', é 'alguma vez alguém entrou neste útero'.

E há a apresentação tardia, que é a que ninguém quer: o acretismo não diagnosticado se apresenta no terceiro período do parto, como uma placenta que não dequita e não tem plano de clivagem. O que se faz nesse minuto está no bloco de conduta, e o que não se faz é o gesto que mais custa vida neste capítulo.

Rotura: o traçado, e o que ele chega antes de quê

O primeiro sinal suspeito é a bradicardia fetal, abaixo de 110 batimentos por minuto. Não existe traçado padrão para a rotura, mas a bradicardia sustentada, precedida com frequência de desacelerações tardias, é o que se observa. Isso tem uma consequência prática enorme e simples: numa prova de trabalho de parto, o parâmetro que primeiro informa a rotura é o mesmo que a equipe já está monitorando de rotina — e ele muda antes de a mulher sentir qualquer coisa diferente.

O restante do quadro vem depois, e o protocolo nacional o organiza em sete itens que se somam ao traçado: frequência cardíaca fetal não tranquilizadora, instabilidade hemodinâmica materna, apresentação fetal não detectável ao toque, dor abdominal repentina, hemorragia vaginal, diminuição da atividade uterina e hematúria. Nenhum é obrigatório. Um só, com o antecedente certo, já basta para levantar a suspeita.

Dois deles merecem tradução, porque são contraintuitivos. A diminuição da atividade uterina significa que a dinâmica que vinha boa parou: uma parturiente que estava com quatro contrações em dez minutos e de repente não tem mais nenhuma não melhorou, perdeu a parede que produzia a contração. E a apresentação que sobe é o oposto do que o toque costuma informar: uma cabeça que estava no plano zero e agora está alta e móvel mudou de compartimento. A dilatação não regride em condições normais; a altura da apresentação, nesta, regride.

Completam a lista dois sinais que o sangue no peritônio produz e que se procuram no abdome, não na vagina: dor no ombro, pela irritação diafragmática, que leva o nome de Laffont, e hematoma periumbilical, que leva o nome de Cullen. Nenhum dos dois é precoce, e nenhum dos dois é necessário — mas quem os encontra numa mulher em trabalho de parto com cicatriz uterina não precisa de mais nada para chamar a sala.

A apresentação clássica é a exceção, e por três motivos

A imagem que se aprende — dor lancinante, acalmia transitória, feto palpável sob a parede, choque — existe e está descrita nos documentos brasileiros. O problema é que ela descreve o fim de uma sequência, e não o começo. O primeiro motivo pelo qual ela é exceção é cronológico: quando a mulher chega a esse quadro, o intervalo em que o feto ainda estava recuperável já passou. Vigiar por ela é vigiar pelo desfecho.

O segundo motivo é a analgesia. Numa maternidade em que a prova de trabalho de parto é oferecida com estrutura, boa parte das mulheres está sob bloqueio regional — e a dor abrupta e lancinante que a descrição clássica pede pode simplesmente não aparecer, ou aparecer como um desconforto que se atribui ao progresso. O sinal que sobrevive à analgesia é o traçado, e é mais uma razão para ele ser o eixo da vigilância.

O terceiro motivo é que a rotura tem apresentações que não são intraparto. Ela pode ocorrer inesperada e raramente durante a gestação, antes do trabalho de parto, em cicatriz uterina prévia — inclusive nas porções fúndica e corporal —, e nesse caso o quadro inicial se parece com o de uma gravidez ectópica rota: dor intensa, sinais de irritação peritoneal e sangramento que pode ser oculto. E pode ser diagnosticada só depois do nascimento, quando a ocupação da pelve pelo feto tamponou a hemorragia até ele sair.

Essa última é a que mais escapa, e o protocolo brasileiro descreve exatamente o gatilho: suspeita-se de rotura no puerpério em mulher com cesariana anterior que apresenta dor abdominal persistente após o nascimento, além de hemorragia pós-parto que não melhora após as medidas farmacológicas para atonia uterina. O manejo dessa hemorragia — a sequência dos uterotônicos, o antifibrinolítico, o balão — pertence inteiro ao capítulo Hemorragia pós-parto. A este cabe apenas a pergunta que a falha daquelas medidas obriga: se as drogas da atonia não resolvem, é possível que o tônus nunca tenha sido o problema.

A iminência: quando o útero ainda está inteiro e já está avisando

Antes de ceder, um segmento obstruído se distende, e a distensão tem forma palpável. O anel de constrição entre corpo e segmento migra para cima, na direção do umbigo, e vira um sulco transversal que se enxerga e se toca através da parede — chama-se sinal de Bandl. Ao mesmo tempo, os ligamentos redondos ficam retesados e desviados para a frente do útero, palpáveis como duas cordas oblíquas — chama-se sinal de Frommel. Os dois somados são a síndrome de distensão segmentar que leva os dois nomes.

Ao redor deles, a clínica de um útero que trabalha contra um obstáculo: contrações subentrantes, intensas e excessivamente dolorosas, aumento da dor sobre o segmento inferior durante as contrações, parturiente ansiosa e agitada, e ausência de progressão apesar de uma dinâmica que parece exuberante. É um diagnóstico inteiramente de exame físico. Não há imagem, não há exame de sangue e não há escore.

O valor dessa síndrome está em ser a última janela aberta: depois dela não há mais escolha de via, e antes dela a catástrofe ainda pode terminar como uma cesariana comum. E ela tem uma consequência de conduta que é preciso dizer antes de qualquer outra, porque o instinto puxa para o lado errado — diante desse quadro, o que se faz é parar de estimular o útero, não abreviar o expulsivo. A pressão sobre o fundo uterino, que já é manobra proscrita na assistência ao parto, é aqui o gesto que consuma a rotura, e está listada entre os traumas obstétricos que a produzem.

O que muda em quem não é a mulher com cesariana anterior

Útero sem cicatriz nenhuma. Aqui a raridade é o próprio obstáculo diagnóstico, porque a hipótese não é levantada por ninguém. O que denuncia é a cena, não o antecedente — parto obstruído por desproporção que passou despercebida, com muitas horas e nenhuma reavaliação; miométrio estimulado além do que suportava; trauma abdominal de alta energia; e manobras obstétricas, com destaque para a pressão sobre o fundo. A fraqueza congênita da parede, como na síndrome de Ehlers-Danlos do tipo vascular e nas malformações müllerianas, entra na lista e é a exceção da exceção.

Útero superdistendido. Gemelaridade, polidrâmnio e macrossomia distendem uma parede que a multiparidade já tornou menos muscular, e a soma é o principal fator físico que provoca rotura quando o miométrio está enfraquecido por qualquer motivo.

Miomectomia prévia. É a cicatriz de risco mais alto do conjunto, com estimativa de sete casos em 756 nascimentos, e ela costuma ser esquecida porque não aparece na pergunta 'quantas cesáreas você teve'. Pergunte por cirurgia no útero, não por cesariana.

Percretismo fora do parto. A placenta que atravessa o miométrio e alcança a serosa pode romper o útero longe de qualquer contração, às vezes ainda na metade da gestação, com dor no abdome e queda de pressão sem que apareça sangue na vagina — e o guia federal de 2000 já registrava que a hemorragia dessas roturas pode ser fatal. É o ponto em que os dois quadros deste capítulo deixam de ser dois.

Quem já rompeu. O risco de recorrência varia entre 5% e 7,5%, e é a única situação do capítulo em que a decisão é fechada: cesariana eletiva antes do trabalho de parto, a partir de 37 semanas de gestação.

06

Como fechar o diagnóstico

Investigar aqui é fazer duas coisas completamente diferentes com o mesmo antecedente. No acretismo, investigar é uma rotina de calendário, com uma pergunta de anamnese, um exame de imagem pedido na semana certa e um laudo lido até o fim — e o tempo disponível é de semanas. Na rotura, investigar é o que não se faz: não há exame que a confirme, não há exame que a exclua, e o tempo disponível é de minutos. O erro simétrico é tratar a primeira com a pressa da segunda e a segunda com a paciência da primeira.

Há um exame que serve aos dois e que quase ninguém pede: o relatório da cirurgia anterior. Ele diz onde foi o corte no útero, e essa informação decide se a mulher pode entrar em trabalho de parto e ajuda a estimar o risco da placenta que se implantou por cima. Ele não está na barriga da mulher, não está no cartão de pré-natal e não se recupera perguntando. Ele se recupera pedindo ao serviço que operou.

As duas perguntas que disparam o rastreamento

A regra brasileira mais operacional sobre acretismo não está num capítulo de acretismo: está no segundo ponto-chave do protocolo nacional de hemorragia pós-parto, e cabe em duas perguntas. Primeira: houve cirurgia uterina prévia? Segunda: onde está a placenta? Toda mulher que já teve cesariana precisa, nesta gestação, de uma imagem que diga onde a placenta está; e, se ela estiver prévia, de inserção baixa ou na parede anterior, a paciente segue para serviço de referência — para afastar a aderência anormal ou para parir com equipe preparada.

Repare no que essa frase resolve. Ela não pede sinal ecográfico nenhum para acionar o encaminhamento — pede apenas o cruzamento entre uma cicatriz e uma topografia. Isso é deliberado, e é o que torna a regra executável numa unidade básica que não tem ultrassonografista experiente: o encaminhamento não depende de alguém enxergar lacunas, depende de alguém ler onde a placenta está.

O protocolo da sociedade nacional chega ao mesmo ponto por outro caminho e com uma frase que vale como norma de conduta: no pré-natal, sempre que se associarem placenta prévia e cesárea anterior, o diagnóstico de acretismo deve ser buscado, e o obstetra deve solicitar ultrassonografia com equipe experiente para esse fim. A palavra que carrega o peso é 'experiente'. É um exame operador-dependente, e pedi-lo sem dizer o que se procura costuma devolver um laudo que responde outra pergunta.

A ressonância magnética entra como método complementar, com indicação estreita e duas finalidades: desempatar quando a ultrassonografia não esclarece, o que costuma acontecer com placenta de predomínio posterior e em gestante obesa, e medir até onde a invasão foi nos casos que já são suspeitos. Rastreamento ela não faz, e substituta da ultrassonografia ela não é. Em boa parte do país também não existe — e nenhuma conduta deste capítulo pode depender dela.

Quando repetir a imagem: quatro respostas brasileiras para a mesma pergunta

Aqui o interno vai encontrar instruções diferentes escritas em cartões diferentes, e é melhor saber disso do que descobrir na frente da paciente. O manual federal manda repetir a imagem na 28ª semana sempre que a placenta for prévia ou de inserção baixa, e manda fazê-lo com dois propósitos simultâneos: reconfirmar onde ela está e procurar aderência anormal — que é achado progressivo, cuja aparência muda conforme as semanas passam. O protocolo da sociedade nacional, para a suspeita que aparece antes de 28 semanas em paciente assintomática, manda repetir na 32ª semana.

A diretriz federal da operação cesariana traz uma terceira instrução, e ela diverge de si mesma. A recomendação escrita manda, em gestantes com placenta prévia, realizar exame ultrassonográfico com Doppler entre as semanas 28 e 32 da gestação, ou antes, se possível. Mas a pergunta que essa recomendação responde, formulada duas páginas antes no mesmo documento, fala de mulheres com placenta baixa entre 32 e 34 semanas; e a revisão de evidências que ela cita conclui, com estas palavras, que os exames para investigação de placenta prévia sejam realizados entre 32 e 34 semanas. As duas janelas do mesmo documento se tocam num único ponto: a semana 32.

Não é uma discussão bizantina. A idade gestacional em que a imagem é feita muda o que ela mostra — o acretismo é progressivo — e muda também quanto tempo sobra para organizar o parto. Uma imagem feita com 28 semanas dá oito a nove semanas de margem para transferir, marcar e reservar sangue. Uma feita com 34 dá uma ou duas.

A conduta que concilia as quatro instruções sem contrariar nenhuma é a que este capítulo adota e declara como leitura própria, não como citação: repetir por volta de 28 semanas, para confirmar a localização e abrir o processo de encaminhamento com margem; e repetir de novo entre 32 e 34, agora com Doppler e com equipe experiente, para caracterizar a invasão e programar a data. Quem só puder fazer um exame faz o de 32, que é o único ponto em que todas as janelas se encontram.

O que se vê na imagem, e o que o interno pode reconhecer no laudo

O interno não faz o exame e não vai discordar do ultrassonografista. O que ele precisa é reconhecer, num laudo escrito por outra pessoa, as expressões que significam suspeita de invasão — porque é ele quem vai ler o papel primeiro, quase sempre num corredor.

A lista federal tem sete itens: perda do espaço hipoecoico retroplacentário; adelgaçamento do miométrio subjacente; irregularidade da interface entre o útero e a bexiga; protrusão da placenta para a bexiga; lacunas irregulares; aumento da vascularização útero-vesical ou subplacentária; e fluxo turbulento ao mapeamento Doppler. Na ressonância, os sinais descritos são protrusão placentária, placenta heterogênea, bandas intraplacentárias nas imagens ponderadas em T2, interrupção focal da parede miometrial, invasão de estruturas pélvicas e perda do plano miometrial entre a placenta e a bexiga.

A lista brasileira mais recente, do protocolo de ultrassonografia morfológica de 2025, também tem sete itens e não é a mesma. Ela nomeia a perda da zona hipoecoica retroplacentária, o afilamento miometrial com um número — miométrio subjacente abaixo de 1 mm —, o aumento da vascularização ao Doppler colorido, as lacunas múltiplas, grandes e irregulares que dão à placenta o aspecto de queijo suíço, o aumento da vascularização entre útero e bexiga com formação de vasos em ponte, a interrupção da linha ecogênica da serosa vesical e a protrusão de tecido placentário com distorção do contorno uterino.

Vale comparar as duas com atenção, porque a diferença é instrutiva. Dos catorze itens somados, um único traz limiar numérico, e ele só existe no documento de 2025. Todos os demais são qualitativos: 'irregularidade', 'aumento', 'lacunas', 'turbulento'. Nenhum diz quantas lacunas, de que tamanho, ou aumento em relação a quê. Isso significa que a mesma imagem pode receber laudos diferentes de dois examinadores sem que nenhum dos dois esteja errado — e que a ausência das palavras não exclui a doença. É por isso que o encaminhamento se dispara pelo cruzamento cicatriz-topografia, e não pelos sinais.

Os números do próprio manual federal explicam por que essa cautela é obrigatória: para prever o grau de invasão, a sensibilidade é alta — entre 80% e 100% — e a especificidade fica baixa, na faixa de 40% a 77%. Traduzindo para a mulher à sua frente, com a conta feita no bloco de critérios: numa gestante com placenta prévia e uma cesárea anterior, um exame descrito como suspeito acerta em algo entre um terço e um sétimo dos casos; na mesma mulher com duas cesáreas, o mesmo exame suspeito acerta em quase metade a três quartos. O exame não decide sozinho em nenhum dos dois cenários — ele soma-se à aritmética da história.

O exame que ninguém pede: o relatório da cirurgia anterior

A cicatriz da pele não informa a incisão do útero. Uma transversa suprapúbica pode esconder por baixo uma histerotomia corporal, e o contrário também acontece. Como a régua federal não recomenda que a mulher com cicatriz uterina longitudinal entre em trabalho de parto, é essa a informação que decide a via — e é ela que mais falta no prontuário.

Onde procurar: no relatório cirúrgico, no resumo de alta da internação em que a cesárea foi feita, ou no prontuário do serviço que operou. O que perguntar, quando o documento não existe: com quantas semanas foi, qual era a indicação, o bebê era muito pequeno, foi de emergência. Cesariana muito prematura e feita às pressas, com segmento inferior ainda não formado, aumenta a chance de a histerotomia ter sido segmento-corporal ou corporal. Não é prova, é probabilidade — e é o suficiente para levar a decisão a quem tem mais experiência.

Uma armadilha vale ser dita com todas as letras: essa dúvida não se resolve com imagem. A régua federal recusa, como rotina, tanto a avaliação ultrassonográfica da cicatriz pós-cesariana segmentar quanto a pelvimetria, em quem tem uma ou mais cirurgias prévias. Medir a espessura do segmento parece científico e não substitui o relatório — um número em milímetros não diz onde foi o corte.

Registre no prontuário quando a informação não foi obtida. Essa frase, escrita, é o que faz a próxima pessoa procurar — e é o que impede que a ausência de dado seja lida, semanas depois, como cicatriz segmentar confirmada.

Na rotura não há investigação: há sala

O diagnóstico da rotura é clínico e se estabelece com o abdome aberto. Isso não é uma frase de efeito: é o que o protocolo nacional descreve ao dizer que a suspeita se levanta em mulheres com fatores de risco e frequência cardíaca fetal não tranquilizadora súbita, agravamento da dor abdominal, sangramento vaginal ou instabilidade hemodinâmica — e ao passar direto da suspeita para o tratamento, sem etapa de confirmação.

Existem, é verdade, achados de imagem descritos: descontinuidade do miométrio, hematomas adjacentes à cicatriz, membrana amniótica herniada, líquido livre na cavidade peritoneal, partes fetais fora do útero e, no trauma abdominal da gestante, pneumoperitônio. Eles são úteis num contexto e num só: quando a rotura acontece fora do trabalho de parto e o quadro é ambíguo, ou quando o exame foi feito por outro motivo e o achado aparece. Não são um passo do fluxo intraparto. Uma imagem normal não exclui rotura, e o tempo gasto em obtê-la sai inteiro do intervalo entre a alteração do traçado e o nascimento.

O que se colhe, então? Sangue, e enquanto se caminha: tipagem sanguínea e fator Rh, prova cruzada, hemograma e coagulograma com fibrinogênio — não para decidir se opera, mas para que a agência transfusional já esteja trabalhando quando o abdome estiver aberto. E o que se pede é sala: centro cirúrgico, anestesista, reserva de sangue e neonatologia avisada da idade gestacional. Pedir sala não é uma providência administrativa; é o exame diagnóstico deste quadro.

Os exames que se recusa a pedir, e o que a rede realmente entrega

Não se pede tomografia nem ressonância na suspeita de rotura intraparto, e não se transporta uma parturiente instável para setor de imagem. Não se pede ultrassonografia de cicatriz nem pelvimetria para decidir via de parto. Não se repete hemoglobina esperando que ela decida. E, no acretismo, não se pede toque vaginal em mulher com placenta prévia — o exame é proscrito pelo risco de hemorragia abundante, e essa proscrição é do capítulo Placenta prévia, que é onde ela mora.

Do lado do que existe: quase tudo o que este capítulo pede é organização, não orçamento. Ultrassonografia obstétrica com Doppler existe na rede, ainda que com fila. Relatório cirúrgico existe em papel, num arquivo, e depende de alguém telefonar. Tipagem, prova cruzada, reserva de hemocomponentes e uma data marcada em agenda cirúrgica não são tecnologia. O que costuma faltar de verdade é ultrassonografista com experiência em invasão placentária, ressonância, radiologia intervencionista e o próprio serviço de referência com terapia intensiva adulta e neonatal e banco de sangue — e a falta desses quatro não altera o roteiro; altera o calendário, porque a transferência deixa de ser providência do fim da gestação e passa a ser tarefa da semana em que a suspeita apareceu.

Duas ausências merecem ser ditas pelo nome, porque mudam o que se pode prescrever, e as duas foram conferidas por grep literal no elenco nacional de medicamentos essenciais em vigor, com o texto previamente normalizado. A ocitocina não consta do elenco — nem sob essa grafia nem sob a variante com x —, o que é notável num país que a usa em todo nascimento. E o ácido tranexâmico consta apenas como comprimido de 250 mg, no componente estratégico: não há apresentação injetável no elenco, embora a via prescrita na hemorragia obstétrica seja a endovenosa. Metilergometrina e carbetocina também não constam. O misoprostol consta, em comprimido vaginal de 25 e de 200 microgramas, com uso restrito a estabelecimentos hospitalares cadastrados — e é justamente a droga que não se usa no útero com cicatriz.

07

A cicatriz, a placenta e o relógio: o que decide em cada uma das duas

Os dois quadros deste capítulo se decidem em momentos diferentes, e a ordem abaixo respeita isso: os primeiros passos acontecem no ambulatório, com semanas de sobra, e os últimos acontecem numa sala, com minutos. Quem inverte a ordem chega ao parto de uma mulher com acretismo sem saber que ela tem, ou pede uma imagem enquanto um feto acidosa. As tabelas que seguem o fluxo são as que se consultam dentro dele, e as notas ao final trazem as conferências que este capítulo fez nas fontes oficiais — tanto o que bateu quanto o que não bateu, com a conta escrita.

  1. 1Na primeira consulta, pergunte por cirurgia no útero, e não por cesariana. Cesárea, curetagem, miomectomia, ressecção endometrial, correção de malformação: qualquer uma delas é uma cicatriz, e qualquer uma delas entra na conta.
  2. 2Havendo cesariana prévia, garanta que exista uma ultrassonografia definindo a localização da placenta. Não é um exame a mais: é a segunda metade da pergunta que decide o resto.
  3. 3Placenta prévia, de inserção baixa ou de parede anterior somada a cicatriz uterina: encaminhe a serviço de referência agora, sem esperar sinal de invasão na imagem. O gatilho é o cruzamento, não o achado.
  4. 4Peça o relatório da cirurgia anterior. Sem ele, a incisão uterina é desconhecida e a decisão sobre a via de parto sobe de nível — registre no prontuário que a informação não foi obtida.
  5. 5Repita a imagem por volta de 28 semanas para confirmar a localização, e de novo entre 32 e 34 com Doppler e equipe experiente para caracterizar a invasão. Leia o laudo inteiro, não só a conclusão.
  6. 6Confirmada ou mantida a suspeita, o parto tem lugar, equipe e data: serviço com terapia intensiva adulta e neonatal, banco de sangue, obstetra e anestesista experientes e retaguarda cirúrgica; cesariana programada entre 35 e 37 semanas conforme o documento adotado pelo serviço; consentimento assinado.
  7. 7No dia, antes da incisão: dois acessos calibrosos, sondagem vesical, hemocomponentes reservados e a agência transfusional avisada pelo nome do diagnóstico, não por 'reserva de sangue'.
  8. 8Confirmado o acretismo depois da extração fetal, a placenta fica onde está. Não se traciona para testar, não se descola manualmente e não se cureta o leito. Histerorrafia com a placenta in situ e histerectomia — decisão do cirurgião, nunca do interno.
  9. 9Na mulher que vai tentar parto após cesariana, a vigilância é contínua e o parâmetro que informa primeiro é a frequência cardíaca fetal. Progresso que trava num útero com cicatriz não é apenas um problema de tempo.
  10. 10Anel de retração que sobe com ligamentos redondos tensos: pare o uterotônico imediatamente e leve ao centro cirúrgico. Não empurre o fundo uterino e não tente abreviar o expulsivo.
  11. 11Bradicardia sustentada, dor que persiste entre as contrações, dinâmica que cessou ou apresentação que subiu: suspeita de rotura. Chame a sala, reponha volume no caminho e não peça imagem para confirmar.
  12. 12Depois, em qualquer dos dois: relatório cirúrgico descrevendo sítio e extensão, conversa sobre o que foi retirado e o que isso significa, e o plano escrito da próxima gestação. Rotura prévia contraindica nova prova de trabalho de parto.

A cicatriz que a mulher tem, e o que cada uma autoriza

Antecedente uterinoTrabalho de partoSe houver indicação de induzirO que muda no pré-natal
Cesariana segmentar transversa, umaRecomendado na maioria das situações, em serviço com acesso imediato à cesarianaBalão cervical ou ocitocina, com uso prudente e só com indicação médica; misoprostol não recomendadoUltrassonografia para definir a localização da placenta; se prévia, baixa ou anterior, encaminhamento
Cesariana segmentar transversa, duasCabe oferecer; profissionais e instituições têm resguardada a autonomia de aceitar ou não assistirMesma regra, e a decisão de induzir sobe de nívelMesmo rastreamento, com a série de risco de acretismo agora em 40% na presença de placenta prévia
Três ou mais cesarianasOperação cesariana é o recomendado pela régua federalNão se aplica: a via já está decididaRastreamento igual, com o risco de acretismo na faixa mais alta da série
Cicatriz longitudinal, corporal ou segmento-corporalTrabalho de parto e parto vaginal não recomendadosNão se aplicaProgramação de cesariana antes do trabalho de parto e definição do local do nascimento
Miomectomia com abertura de cavidade ou correção de malformaçãoMesma cautela da cicatriz longitudinalNão se aplicaCicatriz de maior risco medido; a pergunta da anamnese precisa alcançá-la
Rotura uterina préviaContraindicado; nenhuma condição favorável reabreNão se aplicaCesariana eletiva antes do trabalho de parto, a partir de 37 semanas
Incisão uterina desconhecida, sem relatório cirúrgicoTratada como desconhecida: a decisão vai para quem tem experiênciaNão se decide sem o dadoBuscar o relatório ou o resumo de alta; registrar no prontuário se não foi obtido

Onde está a placenta, e o que isso soma à cicatriz

Situação na imagemO que ela obriga agoraO risco que ela carregaOnde o assunto mora
Placenta fúndica ou posterior, sem cicatriz uterinaNada além do pré-natal habitualAcretismo é evento de exceção nesta combinaçãoRotina do pré-natal de baixo risco
Placenta anterior ou baixa, com cesariana préviaEncaminhamento a serviço de referência, mesmo sem sinal de invasão na imagemÉ o cruzamento que o ponto-chave nacional usa para acionar o encaminhamentoEste capítulo, pelo lado da cicatriz
Placenta prévia confirmada, sem cesárea anteriorSeguimento de placenta prévia e busca de sinais de invasão na imagem de 28 semanasAcretismo em cerca de 3%Classificação, sangramento e conduta em Placenta prévia
Placenta prévia com uma cesárea anteriorImagem com Doppler e equipe experiente; programação do parto em referênciaAcretismo em cerca de 11%Este capítulo
Placenta prévia com duas ou mais cesáreasMesma conduta, com reserva de hemocomponentes e data programadaAcretismo em cerca de 40% depois de duas cesáreas, 61% depois de três e 67% de quatro em dianteEste capítulo
Placenta prévia que nunca sangrouAumenta a suspeita em vez de tranquilizar; a imagem passa a procurar invasãoA placenta aderida ao miométrio não se desloca e por isso não sangraEste capítulo

Rotura uterina: os números com o denominador que os documentos publicam

PopulaçãoEstimativa publicadaEm números redondosFonte da estimativa
Mulher com cicatriz de cesariana prévia325 casos a cada 100 mil nascimentosCerca de 3 em mil, ou 1 em 308Protocolo nacional de rotura uterina, 2021
Primigesta, útero sem cicatrizEntre 1 em 5.700 e 1 em 20 mil gestaçõesEntre 0,018% e 0,005%Protocolo nacional de rotura uterina, 2021
Depois de miomectomia7 casos em 756 nascimentosCerca de 0,9%, ou 1 em 108Protocolo nacional de rotura uterina, 2021
Cesariana anterior com trabalho de parto induzido1,5%Cerca de 1 em 67Protocolo nacional de rotura uterina, 2021
Indução com prostaglandina contra indução com ocitocina2,5% contra 1,1%Razão de 2,3 vezesProtocolo nacional de rotura uterina, 2021
Recorrência em quem já teve roturaEntre 5% e 7,5%Cerca de 1 em 15 a 1 em 20Protocolo nacional de rotura uterina, 2021
Uma cesariana prévia, em protocolo estadual0,5% a 1%Entre 1 em 200 e 1 em 100Protocolo estadual de assistência obstétrica, 2020
Duas cesarianas prévias, em protocolo estadual1,7% a 2%Cerca de 1 em 50Protocolo estadual de assistência obstétrica, 2020

O que é do interno, o que é com o obstetra e o que não é decisão de ninguém que esteja sozinho

MomentoO interno fazSó com o obstetraNão se faz
Consulta de pré-natalPerguntar por cirurgia uterina, conferir onde está a placenta no laudo, pedir o relatório cirúrgico, abrir o encaminhamentoDefinir a via de parto quando a incisão é desconhecidaConcluir cicatriz segmentar a partir da cicatriz da pele
Suspeita de acretismo confirmadaOrganizar a transferência, checar reserva de hemocomponentes, conferir a data marcada, explicar à mulher em palavras delaDefinir a idade gestacional do parto e o plano cirúrgicoDeixar o parto acontecer no serviço de origem por conveniência da família
Na sala, no acretismoAcessos calibrosos, sondagem vesical, conferência do sangue reservado, registro de horáriosEscolha da histerotomia, decisão de histerectomia, controle vascularTracionar o cordão, descolar manualmente ou curetar o leito
Prova de trabalho de partoVigiar traçado, dinâmica, dor entre contrações e altura da apresentação; registrar cada reavaliaçãoDecidir induzir, escolher o método e definir os parâmetros que encerram a tentativaPrescrever misoprostol; aplicar pressão sobre o fundo uterino
Suspeita de roturaChamar sala e obstetra, dois acessos, colher tipagem e prova cruzada, iniciar reposição, avisar a neonatologiaIndicar a laparotomia e conduzir o intraoperatórioPedir imagem para confirmar; prescrever uterotônico; esperar estabilizar para operar
DepoisRegistrar o que foi visto, conferir se o relatório descreve sítio e extensão, orientar retorno e contracepçãoAconselhamento sobre gestações futuras e via de partoDeixar a mulher sair sem saber o que foi feito no útero dela

A conta que não fecha, e é a mais grave do capítulo. O protocolo nacional de rotura uterina, na revisão de 2021, escreve num mesmo parágrafo que a rotura é rara em primigestas, variando entre um caso em 5.700 e um caso a cada 20 mil gestações — isto é, entre 0,018% e 0,005% —, e, cinco linhas adiante, que mulheres com cesariana anterior submetidas à indução apresentam 1,5% de chance de complicação 'versus 0,8% de risco em mulheres sem cicatriz uterina prévia'. Os dois números descrevem a mesma população, o útero sem cicatriz, e diferem por um fator de 46 (0,8 dividido por 0,0175) a 160 (0,8 dividido por 0,005). A leitura mais provável é que o 0,8% seja o risco da mulher COM cicatriz em trabalho de parto espontâneo, que é o valor clássico da literatura, e que o sujeito da frase esteja trocado. Conferido na edição de 2018 e na de 2021: a frase é idêntica nas duas, e a revisão não a corrigiu.

A mesma frase produz um segundo erro, este puramente aritmético. O documento estima a rotura em mulheres com cicatriz de cesariana em 325 casos por 100 mil nascimentos, ou 0,325%. Se as duas parcelas dessa população são as induzidas, com 1,5%, e as de trabalho de parto espontâneo, com 0,8%, nenhuma média ponderada delas pode dar 0,325%: resolvendo 0,325 = 1,5f + 0,8(1−f) para a fração f de induzidas, obtém-se f = −0,68, uma fração negativa. O agregado é menor que a menor das parcelas, o que é impossível numa média ponderada. E, se o 0,8% for lido ao pé da letra, como risco do útero sem cicatriz, ele fica 2,5 vezes maior que o do útero com cicatriz — invertendo a segunda recomendação final do próprio protocolo, que diz que a cicatriz aumenta o risco. Os três números não podem estar certos ao mesmo tempo.

Uma conferência que fechou, e uma que a revisão estragou. O mesmo protocolo informa que a indução com prostaglandina eleva a taxa de rotura de 1,1% para 2,5% em relação à indução com ocitocina. A razão é 2,5 dividido por 1,1, ou seja, 2,27. A edição de 2018 descrevia isso como 'mais que dobra', o que confere. A edição de 2021 manteve os dois números e trocou a frase por 'dobra', que é menos exata do que a anterior. É pouco, e vale registrar porque mostra que uma revisão não garante melhora — o número certo pode sair de uma edição para outra.

A semana da cesariana programada no acretismo tem quatro respostas brasileiras, e a interseção das quatro é de sete dias. A diretriz federal da operação cesariana, de 2016, manda programar para as semanas 34 a 36 na suspeita de increta ou percreta; o manual federal de gestação de alto risco, de 2022, manda programar entre 35 semanas e 36 semanas e 6 dias; o protocolo da sociedade nacional, de 2018, e o protocolo estadual de 2020 mandam realizar o parto com 36 a 37 semanas. Tomando cada janela do primeiro ao último dia da semana citada, 34 semanas cabe em apenas uma delas, 35 semanas em duas, 37 semanas em duas, e 36 semanas é o único ponto que cabe nas quatro. A união vai de 34 semanas a 37 semanas e 6 dias — 28 dias de diferença entre os documentos para a mesma decisão.

A janela do parto e a janela do corticoide não se encontram, e as duas moram no mesmo volume. A seção 5.3.4 do manual federal programa o parto do acretismo entre 35 semanas e 36 semanas e 6 dias. A seção 6.4.1 do mesmo manual, sobre corticoterapia antenatal, escreve que a utilização deve ser estimulada entre 24 e 34 semanas de gestação, e que fora dessa faixa o uso se particulariza conforme as características de cada serviço. Isto é: a cesariana eletiva que o manual programa cai inteiramente fora da faixa de corticoide que o mesmo manual recomenda, sem que ele diga o que fazer nesse intervalo. O bloco de divergências trata do que sobra dessa lacuna.

O parêntese que multiplica o risco por mais de cem. A diretriz federal da operação cesariana escreve que gestantes com cesariana prévia têm risco de 0,6% a 1,3% de desenvolver placenta de inserção baixa e que, dessas, 11% a 14% podem evoluir com acretismo. O caminho que ela mesma descreve dá, portanto, entre 0,6% × 11% = 0,066% e 1,3% × 14% = 0,182% de acretismo por gestação — entre 1 em 1.515 e 1 em 549. Três linhas adiante, no mesmo parágrafo, ela escreve entre parênteses que duas cesarianas prévias trazem risco de 23% a 40% de acretismo e três ou mais, de 35% a 67% 'em uma próxima gestação', sem repetir a condição de haver placenta prévia. Lido assim, o parêntese fica entre 126 e 606 vezes maior que o caminho descrito na frase anterior. Os extremos denunciam a origem: 40% e 67% são exatamente os valores da série condicional que o manual de 2022 e o protocolo da sociedade nacional publicam para duas e para quatro ou mais cesáreas na presença de placenta prévia. É uma série condicional impressa como se fosse incondicional.

A janela do rastreamento diverge dentro do mesmo documento. A recomendação escrita da diretriz federal da operação cesariana manda, em gestantes com placenta prévia, realizar ultrassonografia com Doppler entre as semanas 28 e 32. A pergunta que essa recomendação responde, no corpo do documento, é formulada para mulheres com placenta baixa entre 32 e 34 semanas; e a revisão de evidências citada ali conclui que os exames sejam realizados entre 32 e 34 semanas. As duas janelas do mesmo texto se tocam apenas na semana 32, e o manual federal de 2022, por sua vez, manda repetir com 28. Nenhuma delas está errada isoladamente; o que não existe é uma resposta única, e o serviço precisa escolher a sua e escrevê-la.

Uma tabela de indicações que soma mais de 100%. O protocolo estadual de assistência obstétrica de 2020 lista as indicações de histerectomia durante a cesariana como placentação anômala 38%, rotura uterina 32%, atonia uterina 29%, sangramento não identificado 9%, placenta prévia 7%, descolamento prematuro de placenta 2%, mioma uterino 1% e outras abaixo de 2%. A soma das sete primeiras é 118%, e com a última chega a 120%. Como cada histerectomia entra com uma indicação, as classes deveriam ser mutuamente exclusivas e somar 100%: há um excesso de 18 a 20 pontos percentuais. A leitura mais provável é que a série original permitisse mais de uma indicação por caso, ou que placentação anômala e placenta prévia se sobreponham — mas a tabela publicada não diz nem uma coisa nem outra, e quem a lê como distribuição está lendo errado.

Duas linhas do mesmo protocolo que se contradizem sobre a placenta acretizada, com consequência cirúrgica. O mesmo protocolo estadual de 2020 escreve, na conduta do acretismo, que sem invasão uterina profunda se faz curetagem do leito; e, dez linhas abaixo, na lista de cuidados no parto com suspeita de acretismo, que não se deve tentar descolamento manual e que a histerectomia é feita com a placenta in situ. As duas instruções não podem ser executadas na mesma paciente. E, no mesmo documento, a definição de placenta acreta — a placenta que penetra na decídua, mas não o miométrio — descreve implantação normal: o acretismo é definido, no manual federal e no protocolo da sociedade nacional, pela ausência total ou parcial da decídua basal, que é justamente o que falta ali.

Uma conferência que fechou, e vale porque parece divergência e não é. A diretriz federal da operação cesariana recomenda individualizar a conduta sobre a via de parto quando o intervalo entre partos for inferior a 15 meses ou o intergestacional for inferior a seis meses. Os dois cortes descrevem a mesma mulher: seis meses entre o parto anterior e a concepção, mais os nove meses da gestação, dão exatamente os 15 meses entre um parto e o outro. A soma fecha. O que não fecha entre os estudos citados no mesmo documento são os cortes: uma série trabalha com intergestacional de até 9 meses, de 9 a 15 e acima de 15, com taxas de 5,0%, 1,9% e 1,1%; outra com menos e mais de 6 meses, com 2,2% e 0,9%; uma terceira com menos e mais de 19 meses entre partos, com 2,3% e 1,1%. Nas duas primeiras faixas da primeira série, os valores 9 e 15 meses pertencem, cada um, a duas classes ao mesmo tempo.

O manual federal aponta para a edição errada do protocolo de rotura. O Manual de gestação de alto risco, de 2022, cita na bibliografia o protocolo de rotura uterina da sociedade nacional na edição de 2018, número 108, com os dois autores no crédito. Essa edição foi revista em 2021, renumerada para 29 e passou a ser creditada à federação; a própria folha de rosto da nova traz, escrito, que 2021 é a edição revista e atualizada e que 2018 é a anterior. Quem seguir a referência do manual federal chega ao documento superado. As diferenças entre as duas edições são pequenas, e as duas foram lidas para este capítulo — mas a referência aponta para trás.

O que o SUS fornece do que este capítulo cita, conferido por busca exata sobre o texto normalizado do elenco nacional de medicamentos essenciais de 2024. Ácido tranexâmico aparece só como comprimido de 250 mg, no componente estratégico: apresentação injetável não existe no elenco, embora a via prescrita na hemorragia obstétrica seja a endovenosa e a dose seja de 1 grama, o que corresponderia a quatro ampolas de 5 mL com 250 mg. Ocitocina não consta em nenhuma grafia. Metilergometrina e carbetocina não constam. Misoprostol consta em comprimido vaginal de 25 e de 200 microgramas, com uso restrito a estabelecimentos hospitalares cadastrados, e é justamente a droga que a régua federal proíbe para induzir um útero com cicatriz. A betametasona consta como suspensão injetável de 3 mg/mL somados a 3 mg/mL, no componente básico — ou seja, uma ampola de 1 mL entrega 6 mg, e a dose de 12 mg do ciclo antenatal são 2 mL, duas ampolas por dose e quatro no ciclo completo.

08

A conduta, hora a hora

Na suspeita de acretismo, encaminhar para avaliação e planejamento com equipe, hemoterapia e recursos adequados, documentando imagem e história uterina. Evitar tentativa improvisada de descolamento placentário. Na suspeita de rotura, mobilizar suporte e equipe cirúrgica imediatamente; confirmação por imagem não deve atrasar uma emergência clínica.

Duas travas atravessam tudo. A primeira: no acretismo, o gesto mais importante do interno é negativo — não tocar na placenta. A segunda: na rotura, o gesto mais importante é temporal — não gastar minuto nenhum em confirmar. Fora dessas duas, quase nada aqui é decisão sua; o que é seu é o relógio e o telefone.

  1. Da primeira consulta às 24 semanas — a pergunta que abre o rastreamento

    O rastreamento do acretismo começa numa pergunta de anamnese que quase todo mundo faz pela metade. Perguntar 'quantas cesáreas você teve' deixa de fora curetagem, miomectomia, ressecção endometrial, correção de malformação e a extração manual de placenta de uma gestação anterior — todas condições que o manual federal associa ao acretismo. A pergunta certa é sobre cirurgia no útero, e ela precisa ser feita com exemplos, porque a mulher não classifica uma curetagem como cirurgia. Ao mesmo tempo, garanta que exista, ou vá existir, uma imagem que diga onde a placenta está: sem essa segunda metade, a primeira não decide nada. A rotina do pré-natal de baixo risco e o calendário dos exames são do capítulo próprio; o que este acrescenta é que, havendo cicatriz uterina, a localização placentária deixa de ser um dado descritivo e passa a ser um dado de decisão.

    Prescrição
    • Anamnese dirigida a cirurgia uterina, com exemplos: cesariana, curetagem ou interrupção cirúrgica, miomectomia, ressecção endometrial, correção de malformação, extração manual de placenta em parto anterior, acretismo prévio. Registrar quantas, quando e por quê — Manual de gestação de alto risco (MS, 2022), seção 5.3.2.
    • Solicitar ou recuperar o relatório da cirurgia uterina anterior, ou o resumo de alta daquela internação. Sem ele, a incisão é desconhecida — a cicatriz de pele não informa a do útero, e a régua federal desaconselha resolver isso por imagem — Diretrizes de atenção à gestante: a operação cesariana (Conitec/MS nº 179, 2016), recomendações 46 e seguintes.
    • Toda gestante com cesariana prévia deve ter a localização placentária definida por ultrassonografia na gestação — Protocolo Febrasgo-Obstetrícia nº 52, Hemorragia pós-parto, 3ª ed. (2025), ponto-chave 2.
    • Registrar no prontuário a estratificação e o que ficou pendente. A informação que não foi obtida precisa estar escrita como não obtida, e não ausente — leitura deste capítulo, não citação.
  2. Semanas 28 a 34 — confirmar, nomear e encaminhar

    Este é o marco em que o diagnóstico existe ou deixa de existir. Repete-se a imagem para confirmar a localização e para procurar sinais de invasão, que é achado progressivo e muda com as semanas. E aciona-se o encaminhamento pelo cruzamento, não pelo achado: placenta prévia, de inserção baixa ou de parede anterior em mulher com cesariana prévia já manda para serviço de referência, com ou sem lacuna descrita no laudo. Quem espera o ultrassonografista escrever a palavra acretismo para encaminhar vai encaminhar tarde, porque o exame tem especificidade baixa e nem sempre há quem o faça com experiência. A imagem obstétrica em si — o que cada exame responde e como se pede — é do capítulo Rastreio de anomalias e ultrassonografia obstétrica; aqui entra o achado e o que ele obriga.

    Prescrição
    • Na gestante com placenta prévia ou de inserção baixa, repetir a ultrassonografia com 28 semanas para confirmar o diagnóstico e buscar sinais de acretismo, condição progressiva cujas imagens mudam com a idade gestacional — Manual de gestação de alto risco (MS, 2022), seção 5.3.3.
    • Havendo cesariana prévia e placenta prévia, de inserção baixa ou de parede anterior: encaminhar a serviço de referência para excluir acretismo ou para ter o parto assistido por equipe preparada — Protocolo Febrasgo-Obstetrícia nº 52 (2025), ponto-chave 2.
    • Solicitar ultrassonografia com Doppler e equipe experiente para o diagnóstico de acretismo. Havendo dúvida, e sobretudo na placenta de predomínio posterior ou na obesidade materna, a ressonância magnética entra como complementar, não como rastreamento — Protocolo Febrasgo-Obstetrícia nº 26 (2018); Manual de gestação de alto risco (MS, 2022), seção 5.3.3.
    • Placenta prévia confirmada, suspeita de acretismo e hemorragias na gestação constam entre os critérios de encaminhamento ao pré-natal de alto risco — Manual de gestação de alto risco (MS, 2022), capítulo 1. A decisão de destino em si é do capítulo Estratificação de risco; a transferência antes do parto é deste.
  3. Antes do parto — o que se combina, com quem, e onde

    O diagnóstico de acretismo muda quatro coisas ao mesmo tempo, e nenhuma delas é uma droga: muda o hospital, a equipe, o sangue e a data. Quem tem acretismo vai para um serviço de referência que saiba sustentar paciente grave: leito intensivo para adulto e para recém-nascido, banco de sangue na casa, obstetra e anestesista com experiência, e retaguarda cirúrgica de urologia, cirurgia geral e vascular. Não é um detalhe de infraestrutura: o manual federal registra que existe risco de morte materna quando o atendimento é realizado em local com poucos recursos ou sem o diagnóstico prévio. A transferência combinada por telefone e não organizada no papel não acontece; alguém precisa marcar consulta, garantir transporte e registrar quem recebeu.

    Prescrição
    • Encaminhamento a serviço de referência com terapia intensiva de adulto e neonatal, banco de sangue, obstetras e anestesistas experientes e equipe cirúrgica de retaguarda — Manual de gestação de alto risco (MS, 2022), seção 5.3.4.
    • Reserva de hemocomponentes e de leito de terapia intensiva, com contato prévio ao banco de sangue para o protocolo de transfusão maciça; acessos calibrosos e em maior número. A perda sanguínea média estimada no parto com acretismo é de 2,5 litros — Manual de gestação de alto risco (MS, 2022), seção 5.3.4; Protocolo Febrasgo-Obstetrícia nº 26 (2018).
    • Termo de consentimento livre e esclarecido assinado, cobrindo a possibilidade de histerectomia; dois acessos com cateter 16 G; sondagem vesical; anestesia planejada com a equipe — Protocolo Febrasgo-Obstetrícia nº 26 (2018), quadro de cuidados no parto.
    • Ao acionar a agência transfusional, nomear o diagnóstico: 'cesariana programada por suspeita de acretismo placentário', e não 'reserva de sangue'. O pedido nomeado é o que abre o protocolo de transfusão maciça antes de a paciente entrar na sala — leitura deste capítulo, não citação.
  4. A data — entre 35 e 37 semanas, e o que muda conforme o documento que o serviço adota

    O parto do acretismo é programado, e programado quer dizer antes do trabalho de parto começar: a lógica inteira é evitar que a placenta seja solicitada pela contração e pela dilatação. A idade gestacional exata é onde os documentos brasileiros divergem, e o bloco de divergências trata disso com os rótulos de cada um. O que não diverge é o resto: cesariana, inventário da cavidade antes de escolher onde abrir o útero, histerotomia que evita a topografia da placenta, e nenhuma tentativa de dequitação. A histerotomia costuma ser segmento-corporal, corporal ou até fúndica, e essa escolha é feita com a cavidade aberta, pela palpação — não é uma decisão que se toma de véspera nem que caiba ao interno opinar.

    Prescrição
    • Parto programado entre 35 semanas e 36 semanas e 6 dias, com planejamento de cesárea-histerectomia com a placenta in situ — Manual de gestação de alto risco (MS, 2022), seção 5.3.4.
    • Parto realizado com 36 a 37 semanas, em centro de referência com equipe multidisciplinar — Protocolo Febrasgo-Obstetrícia nº 26 (2018); e Protocolo de assistência obstétrica Rede Cegonha (Paraíba, 2020).
    • Na suspeita de placenta increta ou percreta, programar a operação cesariana para as semanas 34 a 36 — Diretrizes de atenção à gestante: a operação cesariana (Conitec/MS nº 179, 2016), recomendação sobre acretismo placentário.
    • Inventário da cavidade peritoneal antes de escolher a histerotomia, verificando vascularização local, abaulamento do segmento inferior e da bexiga e sinais de percretismo; a histerotomia deve evitar a localização da placenta — Manual de gestação de alto risco (MS, 2022), seção 5.3.4.
    • Corticoterapia antenatal: o mesmo manual estimula o uso entre 24 e 34 semanas e diz que fora dessa faixa o uso deve ser particularizado conforme o serviço. Como o parto programado do acretismo cai fora dela, a decisão é do serviço e precisa estar escrita no plano — Manual de gestação de alto risco (MS, 2022), seções 5.3.4 e 6.4.1. Ver divergências.
  5. Na sala, no acretismo — o gesto que não se faz

    Extraído o feto e confirmada a aderência anormal, o útero é fechado com a placenta ainda dentro dele, e daí se segue para a histerectomia total. A placenta não sai. Essa é a frase do manual federal e é o eixo de toda a conduta cirúrgica: pode ocorrer sangramento volumoso e catastrófico se houver tentativa de extração manual da placenta, ou lesão dela no momento da histerotomia e da extração fetal, e nessas situações é comum a ausência de miométrio, ou uma espessura mínima dele, que impossibilita pinçar ou suturar. Não há o que pinçar. O interno não opera, mas precisa saber disso por dois motivos: porque vai estar segurando afastador quando a decisão for tomada, e porque a mesma regra vale fora da sala programada — diante de uma placenta que não dequita e não tem plano de clivagem, num parto qualquer, o procedimento se interrompe. O manejo da hemorragia que se instala a partir daí é do capítulo Hemorragia pós-parto desta apostila.

    Prescrição
    • Após a extração fetal, confirmado o acretismo: histerorrafia com a placenta in situ e histerectomia total — Manual de gestação de alto risco (MS, 2022), seção 5.3.4.
    • Não tentar descolamento manual da placenta; histerectomia com a placenta in situ; tamponamento pélvico nos casos de sangramento difuso com instabilidade hemodinâmica — Protocolo Febrasgo-Obstetrícia nº 26 (2018), quadro de cuidados no parto.
    • Dissecção cuidadosa da bexiga, que pode estar aderida; verificação do comprometimento da camada seromuscular vesical; cuidado na dissecção junto ao paramétrio; identificação do ureter para evitar lesão — Manual de gestação de alto risco (MS, 2022), seção 5.3.4.
    • Persistindo sangramento difuso da pelve após a histerectomia: controle de danos com tamponamento pélvico por compressas, para retirada em 48 horas, somado à correção da coagulação, da hipotermia e da acidose — Manual de gestação de alto risco (MS, 2022), seção 5.3.4.
    • Havendo radiologia intervencionista, cabe oclusão temporária das artérias ilíacas internas ou embolização. É recurso de poucos serviços e a sua ausência não muda o plano — Manual de gestação de alto risco (MS, 2022), seção 5.3.4.
  6. A prova de trabalho de parto — o que se vigia, e o que a encerra

    Oferecer parto vaginal a quem tem uma cesariana segmentar transversa é conduta recomendada, e a decisão de oferecê-la é do capítulo Cesariana e parto vaginal operatório. O que este capítulo assume é o que a decisão obriga depois dela: o lugar e a vigilância. O lugar é uma maternidade com acesso imediato à cesariana, e isso é parte da indicação e não uma conveniência: onde o abdome não se abre em poucos minutos, a tentativa não deve ser oferecida. A vigilância é contínua, materna e fetal, e o parâmetro que informa primeiro é a frequência cardíaca fetal. E há uma regra farmacológica que não admite exceção: o misoprostol não é recomendado para induzir um útero com cicatriz de cesariana, independentemente do número de cesáreas. Não existe dose pequena que o redima, nem via que o redima, nem cicatriz velha o suficiente para dispensá-lo. Os métodos de indução, o preparo do colo e os esquemas são do capítulo Indução do parto.

    Prescrição
    • Para as gestantes que desejam parto vaginal, espontâneo ou induzido, após operação cesariana: monitorização materno-fetal intermitente e assistência que possibilite acesso imediato à operação cesariana — Diretrizes de atenção à gestante: a operação cesariana (Conitec/MS nº 179, 2016), recomendação sobre vigilância.
    • Havendo indicação médica de induzir: balão cervical ou ocitocina, com uso prudente. O misoprostol não é recomendado para indução em mulher com cicatriz de cesariana prévia, independentemente do número de cesarianas — mesma diretriz, recomendações 50 e 51.
    • Indução eletiva por conveniência do médico ou da gestante é vedada nesse útero; e a indução, mesmo indicada, eleva a taxa de rotura de 1,1% com ocitocina para 2,5% com prostaglandina — Diretrizes de atenção à gestante (2016); Protocolo Febrasgo-Obstetrícia nº 29, Rotura uterina (2021).
    • Intervalo entre partos inferior a 15 meses, ou intergestacional inferior a seis meses: individualizar a conduta relativa ao modo de nascimento. Não é contraindicação — é motivo para a decisão subir de nível — Diretrizes de atenção à gestante (2016), recomendação 48.
    • Após parto vaginal em mulher com cesariana anterior: revisão sistemática da cavidade uterina em busca de roturas assintomáticas e revisão obrigatória do canal de parto — Protocolo de assistência obstétrica Rede Cegonha (Paraíba, 2020).
  7. O minuto da suspeita de rotura — os primeiros cinco

    A sequência aqui é curta e não admite etapa intermediária. Reconhecida a conjunção — traçado que despenca, dor que persiste entre as contrações, dinâmica que cessou, apresentação que subiu —, o que se faz é chamar a sala e reanimar a caminho dela, não antes dela. O sangramento é intracavitário e arterial; com o abdome fechado, nenhuma reposição acompanha o ritmo da perda. Diante da iminência, que é o quadro em que o útero ainda está inteiro, a primeira ordem é diferente e igualmente urgente: desligar o uterotônico. E há três gestos proibidos que a intuição sugere — pedir imagem, prescrever ocitocina e empurrar o fundo uterino. O primeiro gasta o intervalo que decide o desfecho neonatal; o segundo trata o diagnóstico errado, porque o que sangra é a solução de continuidade e não a falta de contração; o terceiro consuma a rotura. A parada cardiorrespiratória materna, se acontecer, é do capítulo Embolia amniótica e parada na gestante.

    Prescrição
    • Diante de sinais de iminência — anel de retração ascendente com ligamentos redondos tensos: suspender imediatamente o uterotônico, solicitar ajuda, monitorização, sala de cirurgia disponível e encaminhamento ao centro cirúrgico — Protocolo de assistência obstétrica Rede Cegonha (Paraíba, 2020); Diretrizes de atenção à gestante (2016).
    • Diante da suspeita de rotura consumada: solicitar ajuda, garantir via aérea pérvia e oxigênio suplementar, dois acessos calibrosos, e encaminhar à cesariana de emergência se o nascimento vaginal não é iminente — Protocolo Febrasgo-Obstetrícia nº 29, Rotura uterina (2021).
    • Reposição volêmica com 30 mL/kg de soro fisiológico ou Ringer lactato, com o débito urinário na sonda vesical determinando a infusão subsequente; transfusão de hemoderivados conforme o grau de choque hemorrágico — Protocolo Febrasgo-Obstetrícia nº 29 (2021). Em mulher de 70 kg isso são 2.100 mL, ou pouco mais de quatro bolsas de 500 mL.
    • Colher na mesma punção tipagem sanguínea com fator Rh, prova cruzada, hemograma e coagulograma com fibrinogênio e plaquetas, sem que a coleta atrase qualquer passo — Protocolo de assistência obstétrica Rede Cegonha (Paraíba, 2020).
    • Obter consentimento para laparotomia e possível histerectomia, avisar a neonatologia da idade gestacional, e registrar no prontuário o horário de cada achado — Protocolo de assistência obstétrica Rede Cegonha (Paraíba, 2020).
    • Não pedir exame de imagem para confirmar a suspeita, não prescrever uterotônico e não aplicar pressão sobre o fundo uterino, que é manobra proscrita e está entre os traumas que produzem rotura — Protocolo Febrasgo-Obstetrícia nº 29 (2021); Diretrizes nacionais de assistência ao parto normal.
  8. Depois — o relatório, a alta e a gestação seguinte

    O que sobra dos dois quadros é um documento e uma conversa, e os dois decidem a próxima gestação. O relatório cirúrgico precisa dizer onde exatamente foi a lesão, se ela acompanhou ou não a cicatriz antiga, que extensão tinha, o que se fez com ela e o que mais foi atingido — porque é esse texto que o obstetra seguinte vai ler, e escrevê-lo mal transfere para ele uma decisão sem base. A conversa precisa dizer, em palavras que a mulher use, o que foi retirado e o que isso significa. E há uma regra fechada, a única deste capítulo que não admite discussão: quem já rompeu não entra em nova tentativa de parto vaginal, e a gestação seguinte se resolve por cesariana marcada antes de qualquer contração, a partir de 37 semanas.

    Prescrição
    • Mulheres com antecedente de rotura uterina prévia devem ser submetidas a cesariana eletiva antes do trabalho de parto, a partir de 37 semanas de gestação — Protocolo Febrasgo-Obstetrícia nº 29, Rotura uterina (2021), recomendação final 6.
    • Registrar no relatório cirúrgico o sítio e a extensão da lesão, se ela seguiu a cicatriz prévia, o que foi reparado e o que foi lesado; registrar também a deiscência encontrada como achado de cesariana, que não é emergência mas muda o aconselhamento seguinte — leitura deste capítulo, apoiada no que o protocolo nacional descreve sobre deiscência.
    • Vigilância pós-operatória com reavaliação seriada de hemoglobina, coagulograma, diurese e função renal; internações prolongadas, terapia intensiva, lesão do trato urinário e infecção de sítio cirúrgico são as complicações descritas — Protocolo Febrasgo-Obstetrícia nº 29 (2021).
    • Contracepção eficaz combinada antes da alta em quem manteve o útero, e o método escolhido registrado no cartão. A escolha do método é do capítulo Contracepção de emergência e no pós-parto — leitura deste capítulo quanto à indicação.
    • Registrar no cartão da mulher e no prontuário: o que aconteceu, o que foi feito e qual é o plano de parto da próxima gestação — leitura deste capítulo, não citação.
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Como saber se está funcionando

Reavaliar, aqui, quer dizer duas coisas em escalas de tempo diferentes. No acretismo, a reavaliação é de calendário: a mesma mulher é reexaminada em semanas distintas porque o achado muda com a idade gestacional, e o que se acompanha é se o plano está montado. Na prova de trabalho de parto, a reavaliação é de minutos, e o que se acompanha é se a parede está aguentando.

Vale uma regra que atravessa os dois: nenhum parâmetro isolado encerra a busca. Um traçado que melhorou não afasta rotura se a dor continua entre as contrações; um laudo sem sinais de invasão não afasta acretismo numa mulher com duas cesáreas e placenta anterior. A vigilância se sustenta na conjunção, não no achado mais tranquilizador.

Frequência cardíaca fetal, na prova de trabalho de partoContinuamente durante toda a tentativa, com registro a cada avaliação; é o parâmetro que se move primeiro

Esperado: Traçado sem desacelerações que se repitam e sem queda sustentada da linha de base; variabilidade preservada

Se não melhora: Bradicardia sustentada abaixo de 110 bpm, sobretudo precedida de desacelerações tardias, é o primeiro sinal suspeito de rotura. Traçado que não recupera com as medidas habituais, num útero com cicatriz, é indicação de sala — não de reposicionar transdutor e reavaliar em quinze minutos

Dor, e onde ela mora no intervalo entre as contraçõesA cada avaliação, e sempre que a mulher pedir analgesia fora do previsto

Esperado: Dor que acompanha a contração e cede no intervalo; a mulher consegue conversar entre elas

Se não melhora: Dor que persiste entre as contrações, ou dor súbita e localizada sobre a cicatriz, muda a hipótese. Sob bloqueio regional esse sinal pode não aparecer, e a ausência dele não tranquiliza: nesse cenário o traçado assume o papel de sentinela

Dinâmica uterinaA cada avaliação da evolução, com o número de contrações em dez minutos anotado

Esperado: Dinâmica que se mantém regular e eficiente enquanto a dilatação progride

Se não melhora: Diminuição ou cessação de uma dinâmica que vinha boa não é melhora: consta da lista nacional de sinais de rotura aguda. Taquissistolia e hipertonia, do outro lado, são o cenário do útero que trabalha contra um obstáculo — e a primeira ordem, nas duas situações, é desligar o uterotônico

Altura da apresentação ao toqueNos toques da evolução, comparada sempre com a anterior e anotada em plano de DeLee

Esperado: Descida progressiva, ou pelo menos estabilidade com dilatação avançando

Se não melhora: Apresentação que estava insinuada e voltou a ser alta e móvel é o achado que mais fecha o diagnóstico à beira do leito: o feto mudou de compartimento. Numa parede remendada, uma progressão que empaca não é apenas demora: é um dos cenários em que ela cede

Contorno do abdome e os sinais de distensão segmentarNa palpação de cada avaliação, com atenção deliberada ao sulco transversal e aos ligamentos redondos

Esperado: Contorno uterino regular, sem sulco palpável, ligamentos redondos não individualizáveis

Se não melhora: Anel de retração que ascende em direção à cicatriz umbilical somado a ligamentos redondos tensos e desviados para a face ventral compõem a síndrome de distensão segmentar. É o último momento em que a catástrofe ainda pode virar cesariana, e o que se faz é parar de estimular e levar à sala

Estado hemodinâmico materno confrontado com o sangue que se vêA cada aferição de sinais vitais durante a tentativa e nas duas horas seguintes ao nascimento

Esperado: Estabilidade que se explica pelo que está acontecendo, com o sangue perdido compatível com o quadro

Se não melhora: Instabilidade maior do que o sangramento externo explica é o achado que denuncia hemorragia intraperitoneal. Logo depois de um parto vaginal tentado sobre cicatriz, útero duro somado a dor que não passa e a sangramento que resiste às drogas da atonia levanta suspeita de rotura — a conduta da hemorragia em si é do capítulo Hemorragia pós-parto

No acretismo, o calendário: laudo, encaminhamento e reservaA cada consulta de pré-natal a partir da suspeita, até a data marcada

Esperado: Imagem repetida na semana combinada, referência contatada com resposta registrada, data agendada, hemocomponentes reservados e consentimento assinado

Se não melhora: Encaminhamento sem resposta, data não marcada ou reserva não confirmada são falhas de processo com desfecho clínico: o manual federal atribui o risco de morte materna ao atendimento em local com poucos recursos ou sem diagnóstico prévio. Um item pendente a menos de quatro semanas do parto muda a prioridade da consulta inteira

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Onde o erro machuca

Ler 'placenta prévia que não sangra' como boa notícia

O dano: É a inversão que custa o diagnóstico inteiro. O que está ancorado no músculo não acompanha o segmento que se forma, e o que não se move não abre leito vascular — de modo que o silêncio pode ser exatamente o sinal. A mulher segue no pré-natal comum, ninguém pede a imagem dirigida, e o acretismo se apresenta na dequitação, num serviço sem banco de sangue.

Como pegar a tempo: Diante de placenta prévia que atravessa o terceiro trimestre sem sangrar em mulher com cicatriz uterina, suba a suspeita em vez de baixá-la. O protocolo nacional é literal nesse ponto: placenta prévia sem sangramento é situação em que se procura aderência anormal. E acione o encaminhamento pelo cruzamento entre cicatriz e topografia, que não depende de nenhum achado no laudo.

Decidir a via de parto pela cicatriz da pele

O dano: A incisão de pele não informa a incisão uterina. Uma transversa suprapúbica pode ter por baixo uma histerotomia corporal, feita às pressas numa cesárea muito prematura — e é justamente a cicatriz longitudinal que a régua federal exclui do trabalho de parto. Decidir pela pele é oferecer prova de trabalho de parto a quem não podia recebê-la, com o risco concentrado no útero que mais rompe.

Como pegar a tempo: Peça o relatório cirúrgico ou o resumo de alta. Não havendo, pergunte pela circunstância: com quantas semanas, qual indicação, o bebê era muito pequeno, foi de emergência. E trate a cicatriz como desconhecida, levando a decisão a quem tem mais experiência. Medir o segmento por ultrassonografia não resolve — a régua federal desaconselha essa medida e a pelvimetria como rotina.

Prescrever misoprostol para amadurecer o colo de um útero com cicatriz

O dano: A prostaglandina, uma vez administrada, não se desliga: não se retira o comprimido em tempo útil de mudar o desfecho. O preço está medido — a taxa de rotura com prostaglandina é de 2,5% contra 1,1% com ocitocina. E a régua nacional fecha a porta com a cláusula que a maioria tenta abrir: não é recomendado, independentemente do número de cesarianas.

Como pegar a tempo: Havendo cicatriz de cesariana e motivo verdadeiro para interromper a gestação, o que se pergunta não é a dose: é se o colo já está favorável. Não estando, o caminho é mecânico — balão cervical — ou cirúrgico, com a ocitocina admitida sob uso prudente e com indicação médica. A técnica de cada método é do capítulo Indução do parto; a proibição é da cicatriz.

Tracionar o cordão ou tentar dequitar diante de uma placenta que não solta

O dano: Sem plano de clivagem, a tração não descola: arranca. Escancara-se de uma só vez a rede vascular inteira de um órgão que, no termo, recebe cerca de um quinto de tudo o que o coração materno bombeia, num útero em que costuma faltar miométrio para pinçar ou suturar. É o gesto que transforma uma placenta retida numa hemorragia catastrófica, e ele costuma ser feito por quem não sabia que estava diante de acretismo.

Como pegar a tempo: Interrompa. Não retire nem parte da placenta, não cureta o leito, chame o obstetra e prepare-se para laparotomia. Confirmado o acretismo depois da extração fetal, o caminho é histerorrafia com a placenta in situ e histerectomia. E, no parto programado, nada disso é improviso: já está escrito no plano antes de a paciente entrar na sala.

Pedir imagem para confirmar a suspeita de rotura antes de indicar a laparotomia

O dano: Imagem normal não exclui rotura, e o tempo gasto em obtê-la sai inteiro do intervalo entre a alteração do traçado e o nascimento — que é o intervalo que se correlaciona com acidose e com encefalopatia. Some-se o transporte de uma paciente instável para fora da sala, e o exame passa a custar duas coisas ao mesmo tempo.

Como pegar a tempo: Suspeita fundamentada é indicação suficiente. Chame a sala, reponha volume no caminho, colha o sangue na mesma punção e avise a neonatologia. Os achados de imagem descritos para rotura existem e valem fora do trabalho de parto, quando o quadro é ambíguo — não como etapa do fluxo intraparto.

Deixar a mulher com acretismo parir onde ela mora

O dano: É o erro mais silencioso do capítulo, porque parece consideração com a família. O manual federal atribui explicitamente o risco de morte materna ao atendimento realizado em local com poucos recursos ou sem diagnóstico prévio, e uma cesárea com histerectomia planejada exige banco de sangue, terapia intensiva adulta e neonatal e retaguarda cirúrgica. Um serviço que não tem isso não fica seguro por ter uma equipe dedicada.

Como pegar a tempo: Trate a transferência como parte da prescrição, com prazo: contato registrado, consulta marcada na referência, data do parto agendada, hemocomponentes reservados, transporte resolvido. E organize a conversa em torno do que se ganha, não do que falta. Encaminhamento combinado por telefone e não escrito no prontuário é encaminhamento que não aconteceu.

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O que dizer ao paciente e à família

As conversas deste capítulo se dividem pelo tempo disponível, como tudo o mais aqui. As do acretismo acontecem sentado, num ambulatório, com semanas pela frente e uma palavra difícil para traduzir. As da rotura acontecem de pé, em quinze segundos, com alguém do outro lado do telefone ou com uma mulher sendo levada para a sala.

Duas regras cobrem as duas situações. Nomeie o que está acontecendo, para a mulher inclusive, porque pressa calada assusta mais do que qualquer informação dita. E desfecho não se promete: promete-se presença, promete-se avisar, e diz-se quem vai explicar aquilo que não cabe a você explicar.

Explicando o achado do laudo no ambulatório, pela primeira vez

"Dona Neusimar, o ultrassom mostrou duas coisas. A primeira é que a placenta está bem embaixo, tampando a saída do útero. A segunda é que ela pode estar grudada mais forte do que deveria, bem em cima da cicatriz das suas cesáreas. Isso tem um nome técnico, acretismo, mas o que interessa é o que muda: a senhora vai continuar bem até o fim, sem sentir nada disso — e o parto vai precisar ser marcado, num hospital maior, com sangue separado e com uma equipe que já esteja esperando a senhora."

Não diga: Usar a palavra acretismo sem traduzir, e usar 'pode ser grave' sem dizer o que se faz a respeito. Também não prometa que o exame vai confirmar: ele tem especificidade baixa, e a conduta não muda enquanto a suspeita existir.

Explicando a transferência, com semanas de antecedência

"O hospital daqui atende parto muito bem, e nesse caso específico ele não tem duas coisas de que a senhora pode precisar: banco de sangue dentro da casa e uma UTI para a senhora e outra para o bebê. Por isso o seu parto vai ser lá em [cidade]. Eu vou marcar hoje a consulta lá, e vou anotar aqui no seu cartão a data e o nome de quem vai receber a senhora. A senhora vai voltar aqui nas consultas até lá — nada muda no acompanhamento, muda só onde a criança vai nascer."

Não diga: Anunciar a transferência como falta de recurso ou como notícia ruim. Dê a data, o nome e o telefone, e resolva o transporte na mesma consulta: encaminhamento combinado de boca não acontece.

Antes da cesariana programada, quando a histerectomia entra na conversa

"Na cirurgia da senhora, a placenta pode estar tão presa no útero que tentar tirá-la causaria um sangramento muito grande. Quando isso acontece, o mais seguro é retirar o útero junto com ela. Não é o que a gente quer, e a decisão só é tomada lá dentro, com a barriga aberta, pela cirurgiã. Se acontecer, a senhora não vai poder engravidar de novo — e é por isso que a doutora vai conversar isso com a senhora antes, e a senhora vai assinar um papel dizendo que entendeu."

Não diga: Antecipar uma indicação que não é sua e usar eufemismo — 'dar uma olhada por dentro'. E não deixe a conversa da fertilidade para o dia da cirurgia: ela precisa acontecer com tempo para a mulher pensar e perguntar.

Oferecendo a prova de trabalho de parto, com os números na mesa

"A senhora teve uma cesárea, e o corte foi no lugar que permite tentar o parto normal. Tentar é o recomendado, e a maior parte das mulheres consegue. Há um risco pequeno de essa cicatriz ceder enquanto a senhora estiver em trabalho de parto — algo perto de três casos em mil. É por isso que a senhora vai ficar com o aparelho ligado o tempo todo e é por isso que o parto tem que ser aqui, que tem centro cirúrgico pronto. Se em algum momento a gente achar melhor parar e operar, a gente para."

Não diga: Oferecer sem dizer o número e sem dizer o que a vigilância exige, e prometer parto normal. A decisão de oferecer, e as condições dela, são do capítulo de cesariana e parto vaginal operatório — o que se transmite aqui é o risco que ela carrega.

Pedindo ajuda pelo telefone, em quinze segundos

"Doutora, é o [nome], da sala 2. Segunda gestação, uma cesárea anterior, em prova de trabalho de parto, 7 cm. Bradicardia de 70 há três minutos que não recupera, a dinâmica parou, ela tem dor que não passa entre as contrações e a apresentação que estava no zero está alta. Sangramento vaginal pequeno. Suspeita de rotura. Já chamei o centro cirúrgico e o anestesista, dois acessos e soro correndo, tipagem e prova cruzada colhidas. Preciso da senhora aqui agora."

Não diga: Abrir pela narrativa do trabalho de parto e fechar com um 'quando a senhora puder'. Abra pelo problema, dê a soma de achados que sustenta a suspeita, diga o que já está feito e termine com um pedido sem rodeio.

Falando com a mulher enquanto ela é levada para a sala

"[Nome], o batimento do bebê caiu e não voltou, e a sua dor não está passando entre as contrações. A gente acha que a cicatriz do seu útero pode ter aberto, e por isso a gente vai fazer a cirurgia agora — não dá para esperar e não dá para tentar o parto normal. A anestesista já está lá dentro. Eu vou com a senhora até a porta e o seu marido vai ficar sabendo de tudo, alguém vai falar com ele em cinco minutos."

Não diga: Silêncio e pressa sem explicação, que é o que mais assusta. E não peça calma: diga o que está acontecendo, o que vai ser feito e quem vai avisar a família.

Depois, explicando o que ficou escrito no relatório

"O que a senhora teve foi uma abertura da cicatriz do útero durante o trabalho de parto. A cirurgiã costurou o útero e ele ficou. Está escrito no relatório onde foi e o tamanho, e isso é importante: numa próxima gestação, a senhora não vai poder tentar o parto normal de novo, o parto vai ser cesárea marcada antes de entrar em trabalho de parto. Vou anotar isso no seu cartão e a senhora leva uma cópia do relatório. E a gente precisa combinar um método para não engravidar agora."

Não diga: Deixar que ela vá embora sem uma versão do ocorrido: sozinha, vai montar uma com os pedaços que ouviu no meio do susto. E contracepção, aqui, não é conselho de rotina — é conduta indicada pelo próprio evento.

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Onde bons médicos discordam

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.

Com quantas semanas se programa a cesariana do acretismo

34 a 36 semanas, quando a suspeita é de increta ou percreta (diretriz federal da operação cesariana, março de 2016)

A diretriz federal que orienta a operação cesariana no país separa o acretismo em dois casos e trata o mais grave à parte: em gestantes com acretismo placentário, recomenda programar a operação cesariana; e, nas situações de suspeita de placenta increta ou percreta, recomenda programar para as semanas 34 a 36 da gestação. A lógica declarada é a de antecipar o nascimento nos casos em que a invasão é mais profunda, e portanto em que a chance de a placenta ser solicitada antes da data é maior. É a única das três posições que faz a idade gestacional depender do grau de invasão.

Diretrizes de atenção à gestante: a operação cesariana. Relatório de Recomendação nº 179 (Conitec/MS, março de 2016; Portaria SAS/MS nº 306/2016), recomendações sobre acretismo placentário.

35 semanas a 36 semanas e 6 dias, para todo acretismo (manual federal de gestação de alto risco, 2022)

O manual federal mais recente não separa por grau de invasão e fixa uma janela única, mais estreita e mais tardia na ponta inicial: programa-se o nascimento para a faixa que vai de 35 semanas a 36 semanas e 6 dias, com cesárea-histerectomia planejada e a placenta deixada no lugar. É a régua federal em uso, é a mais nova das três e é a que o pré-natal de alto risco brasileiro segue. Ela tem, contra si, uma incoerência interna: a mesma publicação confina a corticoterapia antenatal à faixa de 24 a 34 semanas, de modo que a janela do parto que ela recomenda cai inteiramente fora da janela de corticoide que ela recomenda.

Manual de gestação de alto risco (Ministério da Saúde, 2022), seções 5.3.4 e 6.4.1.

36 a 37 semanas (protocolo da sociedade nacional, 2018, e protocolo estadual, 2020)

O protocolo da federação brasileira de ginecologia e obstetrícia, dentro do documento de placenta prévia e acretismo, escreve que o parto deve ser realizado com 36 a 37 semanas, em centro de referência com experiência em acretismo e equipe multidisciplinar nomeada item por item. O protocolo estadual da Paraíba repete a mesma janela. É a posição mais tardia das três e a que menos prematuridade produz — e é também a que dá menos margem para a hipótese de a placenta sangrar antes da data marcada.

Protocolo Febrasgo-Obstetrícia nº 26, Placenta prévia e acretismo placentário (2018); Protocolo de assistência obstétrica Rede Cegonha (Paraíba, 2020).

Como decidir

A conta está na nota de critérios: tomando cada janela do primeiro ao último dia da semana citada, as três só se sobrepõem entre 36 semanas e 36 semanas e 6 dias — sete dias —, e a distância entre os extremos é de 28 dias. Diante da mulher à sua frente, o que decide não é escolher a régua mais nova: é qual dos dois riscos ela carrega mais. Suspeita de increta ou percreta, sangramento prévio na gestação, contrações ou placenta que já sangrou empurram para a ponta precoce, porque um parto de emergência num acretismo é a situação com maior mortalidade descrita. Ausência de sangramento, colo longo e fechado, serviço de referência com vaga garantida e neonatologia que trate prematuro tardio com folga empurram para a ponta tardia, porque cada semana ganha reduz morbidade neonatal. O que não é opcional: a data precisa estar marcada, escrita e comunicada, qualquer que seja a semana escolhida — e a decisão de qual documento o serviço segue precisa ser institucional, não do plantonista do dia.

Corticoide antenatal na cesariana programada do acretismo

A faixa é de 24 a 34 semanas, e fora dela o uso se particulariza (manual federal, 2022)

A seção de prematuridade do manual federal é explícita: o corticoide deve ter o uso estimulado na faixa de 24 a 34 semanas, e fora dela particularizado conforme as características de cada serviço. Acrescenta que o efeito máximo parece aparecer quando o nascimento ocorre entre dois e sete dias depois da primeira dose. Lido ao pé da letra, e cruzado com a janela de 35 a 36 semanas e 6 dias que o mesmo manual recomenda para o acretismo, esse texto não autoriza nem proíbe o corticoide no parto programado — ele devolve a decisão ao serviço, sem dizer com base em quê.

Manual de gestação de alto risco (Ministério da Saúde, 2022), seções 6.4.1 e 5.3.4.

O parto do acretismo é pré-termo eletivo, e a prematuridade é iatrogênica (leitura da própria conduta programada)

O outro lado não está escrito como recomendação em nenhum dos documentos brasileiros deste conjunto, e é por isso que ele aparece aqui como leitura e não como citação. O argumento é este: o nascimento entre 35 e 37 semanas no acretismo não acontece por trabalho de parto pré-termo, acontece porque alguém marcou a data — é prematuridade tardia produzida pela conduta, com data conhecida com semanas de antecedência, o que é exatamente a situação em que a janela de dois a sete dias antes do parto pode ser cumprida com precisão. O contraponto, igualmente legítimo, é que a faixa de 24 a 34 semanas foi fixada onde o benefício está demonstrado, e que estendê-la por analogia é decidir sem evidência dentro de um documento que escolheu não estender.

Leitura deste capítulo a partir do cruzamento entre as seções 5.3.4 e 6.4.1 do Manual de gestação de alto risco (2022). Nenhum dos documentos brasileiros consultados escreve essa recomendação.

Como decidir

Enquanto a régua não disser, a decisão é do serviço e precisa estar escrita no plano de parto antes da semana da cirurgia, e não combinada na véspera. O que o interno faz é garantir que a pergunta seja feita a tempo: se o parto está marcado para 35 semanas e 4 dias, a janela de dois a sete dias antes cai entre 34 e 35 semanas, e a decisão precisa ter sido tomada até lá. Perguntar no dia é o mesmo que decidir por omissão. Deixe escrito no prontuário qual foi a decisão e de quem ela partiu — o fundamento está em disputa, e o plantonista seguinte precisa saber que aquilo foi decidido de propósito.

Rotura consumada com feto vivo e nascimento vaginal iminente

Cesariana de emergência, salvo se o nascimento vaginal já é iminente (protocolo nacional de rotura, 2021)

O protocolo brasileiro dedicado à rotura escreve que as pacientes hemodinamicamente instáveis devem receber fluidos e hemoderivados conforme o grau de choque e ser encaminhadas para cesariana de emergência, se o nascimento vaginal não é iminente. A oração condicional é deliberada e reaparece na recomendação final, que fala em rápida resolução do nascimento, geralmente por meio de cesariana de emergência. O protocolo estadual da Paraíba materializa a mesma exceção no fluxograma: feto vivo, cabeça encaixada e dilatação completa mandam avaliar parto instrumental. O argumento é de tempo — quando sair por baixo é mais rápido, sair por baixo encurta a distância entre a queda dos batimentos e o nascimento, e é essa distância que se correlaciona com a acidose.

Protocolo Febrasgo-Obstetrícia nº 29, Rotura uterina (2021); Protocolo de assistência obstétrica Rede Cegonha (Paraíba, 2020), fluxograma de conduta na rotura uterina.

A rotura consumada é laparotomia, e a via vaginal não resolve o abdome (leitura pelo mecanismo)

A posição oposta parte de um fato que os mesmos documentos descrevem: na rotura completa a hemorragia é intraperitoneal e arterial, e a extração fetal por qualquer via não fecha a solução de continuidade. Nascido o feto por baixo, o abdome continua tendo de ser aberto — de modo que a via vaginal antecipa o nascimento sem antecipar a hemostasia, e pode custar minutos se a avaliação de que ela era iminente estiver errada. Some-se que a rotura frequentemente se apresenta com a apresentação alta e móvel, situação em que não há parto vaginal a ser abreviado, e que a instrumentação de um feto sobre um útero roto é manobra de risco próprio.

Leitura deste capítulo a partir da descrição do mecanismo e dos achados no Protocolo Febrasgo-Obstetrícia nº 29 (2021) e no protocolo estadual (2020). Nenhum documento brasileiro consultado escreve essa objeção nestes termos.

Como decidir

A divergência é menos sobre a via e mais sobre quem está avaliando o que é iminente. Se a decisão for tomada por quem tem experiência, com dilatação completa, apresentação baixa e insinuada e sala pronta ao lado, a extração por baixo é defensável e está escrita na régua nacional. Fora dessas condições — e sobretudo com apresentação que subiu, que é um dos sinais da própria rotura —, não existe nascimento iminente a abreviar, e o caminho é o abdome. Para o interno, a regra prática que concilia as duas posições é a mesma nos dois cenários e não depende dessa escolha: chamar a sala, abrir dois acessos, colher tipagem e prova cruzada, iniciar reposição e avisar a neonatologia. Quem decide por onde o feto sai é o obstetra, e essa decisão nunca é motivo para atrasar a sala.

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O raciocínio, em voz alta

Neusimar Corvelo, 33 anos, terceira gestação, 31 semanas e 4 dias, chega ao ambulatório de pré-natal de um hospital regional com o resultado da ultrassonografia que fez na policlínica. Duas cesarianas anteriores, a última há dois anos; não sabe dizer o tipo de corte no útero. Nunca sangrou nesta gestação e não tem queixa. O laudo descreve placenta anterior recobrindo o orifício interno do colo, com perda da zona hipoecoica retroplacentária e lacunas irregulares no terço inferior. O hospital tem maternidade com doze leitos, não tem terapia intensiva neonatal e a agência transfusional mais próxima fica a quarenta minutos. A referência terciária é numa cidade a noventa quilômetros.

  1. o que penso agora

    Duas cesáreas somadas a placenta prévia anterior é o cruzamento de maior risco da série brasileira: com duas cesáreas, o risco de acretismo na presença de placenta prévia é de cerca de 40%. E o laudo já descreve dois dos sinais de invasão. Mas repare no que não muda a minha conduta: mesmo que o laudo não tivesse descrito sinal nenhum, o encaminhamento estaria indicado — o gatilho é cicatriz somada a placenta prévia, de inserção baixa ou anterior, e não o achado. O fato de ela nunca ter sangrado não tranquiliza: numa prévia silenciosa a suspeita de aderência anormal sobe, porque tecido ancorado no músculo não acompanha o segmento que se forma e, imóvel, não abre leito.

  2. a pergunta que ainda não foi feita

    Volto à anamnese antes de qualquer encaminhamento, porque falta um dado. Pergunto por cirurgia no útero, com exemplos, e não por cesariana: ela teve uma curetagem aos 22 anos, depois de um aborto. Isso não muda a conduta de hoje, mas entra no prontuário e na carta de encaminhamento, porque é mais uma condição associada. E pergunto pelo tipo de corte da última cesárea: ela não sabe, e a cicatriz da pele é transversa — o que não responde. Peço o resumo de alta ao serviço que operou.

  3. o que faço nesta consulta, e não na próxima

    Escrevo o encaminhamento ao pré-natal de alto risco em serviço de referência, nomeando o motivo: placenta prévia anterior com duas cesarianas anteriores e sinais ultrassonográficos de suspeita de acretismo. Ligo para a regulação na frente dela e anoto o protocolo. Marco o retorno aqui em duas semanas para conferir se a consulta lá saiu. E anoto no cartão, com letra legível, a frase que vai ser lida por qualquer plantonista que a receba: suspeita de acretismo placentário, parto programado em serviço terciário, não realizar toque vaginal.

  4. 32 semanas — a imagem dirigida

    A referência agenda a consulta para dez dias depois e solicita nova ultrassonografia com Doppler, com equipe experiente. Este é o exame que caracteriza a invasão, e é o único ponto do calendário em que todas as instruções brasileiras se encontram: o manual federal manda repetir com 28, o protocolo da sociedade nacional manda na 32ª, e a diretriz da operação cesariana diverge de si mesma entre 28 a 32 e 32 a 34. Trinta e duas semanas cabe em todas.

  5. o que o novo laudo diz, e o que ele não decide

    O exame descreve miométrio subjacente afilado, lacunas múltiplas e grandes e vasos em ponte entre útero e bexiga. É uma descrição de suspeita alta. Ainda assim não é confirmação: a predição do grau de invasão tem sensibilidade de 80% a 100%, mas especificidade de 40% a 77%. Nesta mulher, com probabilidade de partida em torno de 40%, um exame descrito como suspeito acerta em algo entre 47% e 74% dos casos. Isso importa para a conversa com ela — não se promete certeza — e não importa para a conduta, que já estava definida desde a primeira consulta.

  6. o que muda no plano, e quem decide

    A equipe da referência define parto por cesariana programada, com planejamento de histerectomia e placenta in situ, e marca a data. A idade gestacional escolhida é institucional e segue o manual federal: 35 semanas e 5 dias. Fica registrado no plano que a corticoterapia foi discutida — o mesmo manual confina o corticoide a 24 a 34 semanas, e a data escolhida cai fora dessa faixa — e que a decisão foi tomada com nome e data, e não por omissão.

  7. as quatro coisas que a data obriga

    Local: serviço com terapia intensiva adulta e neonatal, banco de sangue e retaguarda cirúrgica de urologia e cirurgia geral. Equipe: obstetra e anestesista experientes avisados da data. Sangue: hemocomponentes reservados, com a agência transfusional acionada pelo nome do diagnóstico e não por reserva genérica — a perda média estimada neste parto é de 2,5 litros. E consentimento: termo assinado cobrindo a possibilidade de histerectomia, conversado com tempo para ela perguntar.

  8. a conversa que eu faço, e a que não é minha

    A minha é traduzir: a placenta está em cima da cicatriz e pode estar grudada, isso não dá sintoma, a senhora vai continuar bem, e o parto vai ser marcado num hospital maior porque lá tem sangue separado e UTI. A que não é minha é a indicação da histerectomia — quem explica é a cirurgiã, e eu digo isso a ela em vez de antecipar. O que eu não faço é anunciar a transferência como falta de recurso: dou a data, o nome de quem vai receber e resolvo o transporte na mesma consulta.

  9. o dia

    Cesariana às 35 semanas e 5 dias. Inventário da cavidade antes de abrir o útero: segmento inferior abaulado e muito vascularizado, com a bexiga aderida. A histerotomia é escolhida longe da placenta, pela palpação, e é fúndica. O recém-nascido sai bem e vai para a neonatologia. Confirmado o acretismo, a placenta não é tocada: histerorrafia com ela dentro, e histerectomia total. Eu seguro afastador, confiro as bolsas antes de cada instalação e anoto os horários. Nenhuma dessas decisões é minha, e a minha parte já tinha acontecido dez semanas antes.

  10. o desfecho

    Perda estimada em 2,3 litros, três concentrados de hemácias, sem lesão de bexiga apesar da aderência. Ela vai para a terapia intensiva por vinte e quatro horas e recebe alta no quinto dia. Sai com o relatório cirúrgico em mãos, com a informação de que não vai poder engravidar de novo dita por quem operou, e com retorno marcado.

  11. o que este caso ensina

    A cirurgia foi longa e complexa e não foi o que decidiu o desfecho. O que decidiu foi uma consulta de dez minutos, quatro semanas e um dia antes, em que alguém leu o laudo até o fim e ligou para a regulação na frente da paciente. Se aquele encaminhamento não tivesse saído, a mesma cirurgia aconteceria — só que de emergência, num hospital sem banco de sangue, com uma equipe que descobriria o acretismo ao puxar o cordão. É a diferença que o manual federal nomeia quando diz que existe risco de morte materna no atendimento em local com poucos recursos ou sem diagnóstico prévio.

  12. Variação do caso — resposta e reavaliação

    Variação do acompanhamento de Neusimar: continua sem sangrar, mas ainda não conseguiu consulta no centro de referência. A ausência de sintoma não reduz a necessidade de resolver o encaminhamento. Confirmar quem assume o caso, plano de nascimento e destino diante de sangramento.

  13. Variação do caso — quando mudar o plano

    Se apresenta sangramento importante ou entra em trabalho de parto antes do planejamento, reavaliar estabilidade e acionar a referência e o suporte disponíveis conforme a urgência. Não manter o agendamento futuro como se fosse proteção presente. Comunicar suspeita de acretismo antes de qualquer intervenção placentária.

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Faça você

Delzuita Loureiro, 29 anos, segunda gestação, 39 semanas e 3 dias, admitida em trabalho de parto espontâneo numa maternidade com centro cirúrgico e anestesista de plantão. Uma cesariana anterior há dezesseis meses, indicada por apresentação pélvica com 38 semanas; o resumo de alta descreve histerotomia segmentar transversa. Optou no pré-natal por prova de trabalho de parto, com termo assinado. Admitida com 5 cm, evoluiu bem e está agora com 7 cm, sob analgesia peridural instalada há duas horas, tendo pedido dois reforços nesse intervalo. Há quinze minutos a técnica anotou que a dinâmica caiu de quatro contrações em dez minutos para uma. Delzuita refere dor abdominal que 'não passa nem no intervalo'. A cardiotocografia mostra bradicardia de 75 bpm sustentada há três minutos. Pressão arterial 96 por 58 mmHg, frequência cardíaca materna 124 bpm. Sangramento vaginal escasso. Ao toque, a apresentação, que estava no plano zero de DeLee na avaliação anterior, está alta e móvel.

  1. o que já sei

    Não é um achado isolado: são quatro somados sobre um útero com cicatriz — bradicardia que não recupera, dor que atravessa o intervalo das contrações, uma dinâmica boa que sumiu e uma apresentação que perdeu altura. São quatro dos sete sinais que a lista nacional traz para rotura aguda, e o primeiro é exatamente aquele que o protocolo aponta como o mais precoce. Sangue escasso na vagina não descarta coisa alguma: quando a parede se rompe por inteiro, a maior parte do sangue vai para dentro do abdome.

  2. o detalhe que quase todo mundo lê errado

    A dinâmica não melhorou e a analgesia não explica o quadro. Dois reforços de peridural em duas horas e uma dor que atravessa o intervalo entre as contrações são informação sobre o útero, não sobre o limiar de dor dela. E o intervalo interpartal de dezesseis meses entra no aconselhamento, não como contraindicação: a régua federal manda individualizar a conduta abaixo de quinze meses, e este caso está acima.

  3. o que eu decido não fazer

    Antes de listar condutas, três gestos que a intuição sugere e que aqui custam caro: pedir uma ultrassonografia para confirmar, prescrever uterotônico porque a dinâmica caiu, e tentar abreviar o expulsivo empurrando o fundo uterino. Vale saber por que cada um está errado antes de escrever a conduta, porque é o raciocínio que se transfere para o próximo caso — e não a lista.

  4. conduta

    — sua vez —

Ver como fecharíamos

Peça ajuda antes de tudo, e sem se afastar dela: obstetra de plantão, anestesista, centro cirúrgico e enfermagem, e avise a neonatologia da idade gestacional. Suspenda imediatamente qualquer infusão de ocitocina que esteja correndo. Garanta via aérea pérvia e oxigênio suplementar, instale dois acessos venosos calibrosos e inicie reposição volêmica com 30 mL/kg de cristaloide — em mulher de 70 kg são 2.100 mL, pouco mais de quatro bolsas de 500 mL —, com o débito urinário na sonda vesical determinando a infusão seguinte. Na mesma punção, colha tipagem com fator Rh, prova cruzada, hemograma, coagulograma, fibrinogênio e plaquetas, e acione a agência transfusional dizendo suspeita de rotura uterina, não reserva de sangue. Obtenha consentimento para laparotomia e possível histerectomia. E, tão importante quanto o que se faz, o que não se faz: não peça ultrassonografia nem qualquer imagem para confirmar a suspeita, porque exame normal não exclui rotura e cada minuto gasto sai da distância entre a queda dos batimentos e o nascimento, que é a variável ligada à acidose grave e à encefalopatia; não prescreva uterotônico, porque o que sangra é a solução de continuidade e não a falta de contração; não aplique pressão sobre o fundo uterino, manobra proscrita que aqui consuma a rotura; e não espere estabilizar para depois operar, porque com o abdome fechado nenhuma reposição acompanha o ritmo de uma hemorragia arterial intraperitoneal. Sobre a via: a régua nacional encaminha à cesariana de emergência se o nascimento vaginal não é iminente — e aqui ele não é, porque a apresentação subiu e está alta e móvel, de modo que não há parto vaginal a abreviar. Essa decisão é do obstetra e não é motivo para atrasar a sala. Aberto o abdome, a decisão entre reparo e histerectomia é individualizada pela estabilidade materna e pela lesão encontrada, com histerectomia indicada nas lesões irreparáveis ou na hemorragia incontrolável; e a histerectomia é necessária em até um terço dos casos. Depois, duas obrigações que não são cirúrgicas: garantir que o relatório descreva o sítio e a extensão, porque é esse texto que decide a via de parto da próxima gestação, e dizer a ela, antes da alta, que ter rompido uma vez fecha a porta para tentar parto normal de novo, e que a gestação seguinte se resolve por cesariana marcada antes de qualquer contração, a partir de 37 semanas.

Gabarito da questão de abertura
Comentário

O protocolo nacional é explícito: o primeiro sinal suspeito é a bradicardia fetal, abaixo de 110 batimentos por minuto. Não existe traçado padrão para a rotura, mas a bradicardia sustentada, com frequência precedida de desacelerações tardias, é o que se observa. A explicação está no mecanismo: a distensão do segmento e a perda de continuidade da parede reduzem o fluxo placentário antes de a mãe ficar instável, de modo que o feto avisa primeiro. Isso tem duas consequências práticas. A primeira é que o parâmetro sentinela numa prova de trabalho de parto é o mesmo que a equipe já monitora de rotina. A segunda é que os achados maternos clássicos chegam depois: sangue na vagina pode ser pouco ou nenhum, já que a perda se acumula dentro do abdome; hematúria só aparece com a bexiga envolvida; e a dor lancinante com acalmia transitória descreve o fim de uma sequência, não o começo dela — e pode nem aparecer sob bloqueio regional. Quanto ao tônus, o que a lista nacional registra é o oposto: diminuição da atividade uterina, com a dinâmica eficiente que simplesmente cessa.

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Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
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Plano de revisão

Em 7 dias

Reconstrua de memória, sem consultar: as duas perguntas que disparam o rastreamento do acretismo, e por que o gatilho é o cruzamento entre cicatriz e topografia e não o achado de imagem. Depois escreva a série de risco de acretismo por número de cesáreas dizendo, em voz alta, a condição sob a qual ela vale. Em seguida liste os sete sinais de rotura aguda e diga qual deles chega primeiro e por quê. Se você travar na condição da série — na presença de placenta prévia —, o furo é grave, porque é exatamente onde um documento federal se enganou. Aplicação comentada: Placenta não se desprende em paciente com cicatriz e suspeita de acretismo. Tração repetida pode precipitar hemorragia; comunique e siga o plano especializado.

Em 30 dias

Pegue, no serviço em que você estiver, três prontuários de gestantes com cesariana anterior e confira uma coisa só em cada um: existe, em algum lugar, o registro do tipo de incisão uterina da cirurgia anterior? Depois levante as respostas escritas para estas perguntas: qual é o serviço de referência para acretismo daqui, quanto tempo leva a transferência e quem regula; qual documento o serviço adotou para a idade gestacional da cesariana programada no acretismo, e isso está escrito em algum lugar; existe protocolo de transfusão maciça e quanto tempo leva a primeira bolsa; e o que o serviço decidiu sobre corticoide no parto programado entre 35 e 37 semanas. Por fim, redija de memória o pedido de socorro de quinze segundos que você faria diante de uma suspeita de rotura, e depois cronometre a própria leitura em voz alta.

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Agora atenda

Gestante em prova de trabalho de parto após uma cesariana, com sete centímetros de dilatação, que apresenta queda sustentada dos batimentos fetais, dor que atravessa o intervalo das contrações e dinâmica uterina que desapareceu. Conduza o atendimento: diga o que você examina e em que ordem, o que você suspende, o que prescreve, o que decide não pedir e por quê, e o que você diria em quinze segundos ao obstetra pelo telefone.

Acretismo placentário e rotura uterina – A cicatriz cobra duas vezes — Internato | OsceLabs