Ginecologia e ObstetríciaParto e assistência ao nascimento

As horas que o corticoide precisa

Trabalho de parto prematuro: tocólise e corticoterapia antenatal

Por que o objetivo não é parar o parto: como separar quem está em trabalho de parto de quem não está, o que a corticoterapia exige em semanas e em doses, para que servem exatamente as 48 horas da tocólise, e em que hospital essa mulher tem de estar quando o bebê nascer.

Fontes deste capítulo

BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção Primária à Saúde. Manual de gestação de alto risco. Brasília: Ministério da Saúde, 2022. 692 p. Capítulo 6 — Prematuridade.

BRASIL. Ministério da Saúde. Portaria GM/MS nº 5.350, de 12 de setembro de 2024. Altera a Portaria de Consolidação GM/MS nº 3, de 28 de setembro de 2017, para dispor sobre a Rede Alyne. Diário Oficial da União, 13 set. 2024, edição 178, seção 1, página 90.

DISTRITO FEDERAL. Secretaria de Estado de Saúde. Protocolo de Atenção à Saúde: Trabalho de parto prematuro. Portaria SES-DF nº 1.356, de 5 de dezembro de 2018, publicada no DODF nº 239 de 17 de dezembro de 2018.

Hospital Universitário Ana Bezerra (UFRN/Ebserh). Protocolo PRT.DM.025 — Trabalho de parto prematuro. Emissão 26 de maio de 2021, versão 1.

Maternidade Escola da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Rotinas assistenciais: Aceleração da maturidade fetal.

01

Responda antes de ler

Gestante de 32 semanas chega ao pronto-socorro com cólicas há seis horas. À palpação de dez minutos, duas contrações fracas. Especular sem líquido e sem sangramento. Toque com colo posterior, grosso, fechado. Batimentos cardiofetais normais, sem febre. A ultrassonografia transvaginal mostra comprimento cervical de 36 mm. Após quatro horas de observação, o colo permanece fechado e as contrações espaçaram. Qual a conduta?

02

O paciente que você vai ver

São 2h40 de uma quinta-feira. O hospital tem noventa leitos, uma maternidade de doze leitos no segundo andar e nenhuma unidade neonatal. A cidade tem sessenta mil habitantes e a maternidade de referência com leito de terapia intensiva neonatal fica a oitenta quilômetros, numa estrada que a ambulância faz em uma hora e dez, quando a ambulância está livre. A obstetra é de sobreaviso e mora a quinze minutos: Dra. Wilma Tibúrcio. Você é o interno da noite.

No leito 4 está Danúbia Rondelli, 26 anos, auxiliar de cozinha, segunda gestação. Trinta semanas e dois dias por ultrassonografia de primeiro trimestre — a data está no cartão, escrita à caneta, e confere com a última menstruação. O primeiro filho nasceu de trinta e quatro semanas, há três anos, e ficou onze dias internado. Ela chegou às 2h10 com contrações que começaram por volta das nove da noite e que agora vêm de cinco em cinco minutos. Não perdeu líquido. Não sangrou. E a primeira coisa que ela diz, antes que você pergunte qualquer coisa, é: "doutor, dá pra segurar?".

A enfermeira Silvane Pedroso já anotou o que dá para anotar: pressão 112 por 70, pulso 92, temperatura 36,8 °C, batimentos cardiofetais de 148. Ao toque, colo com 2 cm, 60% apagado, apresentação cefálica alta, bolsa íntegra. Ao especular, sem líquido nos fórnices, sem sangramento, sem corrimento fétido. À palpação, três contrações em dez minutos, de trinta e cinco segundos, e o útero relaxa inteiro entre elas.

A pergunta que você faz para si mesmo, e que o plantão inteiro faria no seu lugar, é qual tocolítico usar. É a pergunta errada, e este capítulo existe por causa dela.

Porque a tocólise, isoladamente, não melhora o desfecho do recém-nascido. O manual federal diz isso em uma frase que quase ninguém lê inteira: os tocolíticos são preconizados por até 48 horas e possivelmente por até sete dias, mas não reduzem de forma significativa a ocorrência de parto pré-termo, nem a mortalidade, nem a morbidade neonatais. O que muda desfecho é o que cabe dentro dessas horas — o corticoide antenatal, que precisa de tempo para agir, e a transferência da gestante para um hospital com leito neonatal, que precisa de tempo para acontecer. A tocólise compra as horas. Ela não é o tratamento; ela é o transporte do tratamento.

Quem entende essa inversão prescreve numa ordem determinada: data a gestação, decide se há trabalho de parto, dá o corticoide, aí sim considera segurar as contrações, e liga para a regulação antes de o parto começar. Quem não entende faz o contrário — instala o soro, titula a droga, comemora quando as contrações cedem, e descobre na manhã seguinte que ninguém prescreveu a betametasona e que ninguém procurou vaga.

E há uma segunda pergunta, tão importante quanto, que este capítulo trata antes de todas as outras: Danúbia está mesmo em trabalho de parto? A maioria das mulheres que chega de madrugada com contrações antes do termo não está, e tratar todas como se estivessem é excesso com custo — internação, droga com efeito adverso, ansiedade e leito ocupado. Separar as duas é a primeira competência do capítulo. As próximas horas de Danúbia dependem disso, e as próximas páginas percorrem, na ordem, o que decide internar, o que decide prescrever e onde essa mulher precisa estar quando o bebê nascer.

Uma fronteira, antes de começar: aqui a bolsa está íntegra. Trabalho de parto prematuro com membranas rotas é outro problema, com outro relógio e outra decisão sobre antibiótico, e pertence ao capítulo de rotura prematura de membranas desta mesma apostila. Se ao especular houver líquido no fórnice, feche este capítulo e abra aquele.

Duas outras fronteiras, para que você saiba de antemão o que este capítulo não vai desenvolver. O acompanhamento do trabalho de parto propriamente dito — as fases clínicas, o partograma, a periodicidade dos exames — pertence ao capítulo que abre esta apostila, sobre assistência ao trabalho de parto, e este aqui o toma emprestado sem repeti-lo: quando o nascimento prematuro acontece mesmo assim, é lá que está a assistência. E o rastreio e o esquema de antibiótico para o estreptococo do grupo B são do capítulo dedicado a ele; aqui a profilaxia aparece porque é prescrita nesta noite, e não porque este seja o lugar de aprendê-la.

Em compensação, duas coisas este capítulo assume por inteiro e declara que assumiu. A primeira é a transferência da gestante ainda grávida — a decisão de destino, com os critérios de estratificação, é do capítulo de estratificação de risco gestacional, mas o ato de mover esta mulher, nesta madrugada, antes de o bebê nascer, é daqui. A segunda é a prevenção em quem já teve um parto prematuro espontâneo: a medida do colo no pré-natal pertence ao capítulo de rastreio de anomalias e ultrassonografia obstétrica, mas o que se oferece a quem já perdeu um filho para a prematuridade, e o que sai escrito na alta, é assunto deste.

03

Quem adoece disso

O manual federal define parto pré-termo pelo teto de 36 semanas e 6 dias de idade gestacional, excluído o período que se considera abortamento, e situa a ocorrência brasileira em torno de 11%. Acrescenta que as complicações decorrentes de nascer cedo demais respondem pela maior parcela das mortes neonatais no país. Esses dois números, juntos, explicam por que um capítulo sobre 48 horas de conduta cabe num livro de internato: a competência tem denominador grande e desfecho duro.

As causas se dividem em três, e a divisão importa porque cada uma tem dono diferente. O trabalho de parto prematuro espontâneo com membranas íntegras é o assunto deste capítulo. A rotura prematura pré-termo das membranas é do capítulo vizinho. E a prematuridade terapêutica — quando uma condição materna ou fetal obriga a antecipar o parto — aparece nos capítulos de pré-eclâmpsia, síndrome HELLP, descolamento prematuro de placenta e restrição de crescimento fetal, que decidem quando interromper. O protocolo do Distrito Federal atribui ao trabalho de parto prematuro cerca de 75% dos nascimentos antes da 37ª semana, somando as formas espontâneas.

O fator de risco isolado mais forte é o antecedente de parto pré-termo espontâneo, e o manual federal diz que essa informação é essencial no pré-natal. Danúbia tem esse antecedente. A lista que vem depois, no mesmo manual, mistura quatro naturezas. Obstétricas e uterinas: gestação múltipla, polidrâmnio, malformação uterina ou fetal, conização e outras lesões mecânicas do colo, e intervalo curto entre partos, abaixo de dezoito meses. Nutricionais e hematológicas: índice de massa corporal baixo e anemia. Comportamentais e sociais: tabagismo, etilismo, uso de substâncias psicoativas, contexto social desfavorável, estresse físico ou mental, depressão e ansiedade. E infecciosas: doença periodontal, vaginose bacteriana, bacteriúria assintomática e infecção do trato urinário, pielonefrite incluída. Some-se o sangramento por via vaginal nos primeiros meses.

Leia essa lista uma segunda vez e note o que ela tem: metade é social e a outra metade é infecciosa. Não há como separar a epidemiologia da prematuridade brasileira da epidemiologia da pobreza e da assistência pré-natal desigual — e é por isso que a primeira medida preventiva de todas, a que não custa ampola nenhuma, é o pré-natal iniciado cedo e a busca ativa de infecção urinária e genital. O elo entre infecção urinária e prematuridade é tratado no capítulo de infecção do trato urinário e bacteriúria assintomática na gestação, e vale relê-lo antes de decidir que a contração desta noite não tem causa.

Há um número que os documentos brasileiros consultados não trazem, e a ausência muda a leitura clínica: nenhum deles quantifica quantas mulheres que procuram o pronto-socorro com contrações antes do termo efetivamente pariram nos sete dias seguintes. O manual federal reconhece a categoria — chama de falso trabalho de parto prematuro e manda orientar bem a gestante antes de dispensá-la — mas não diz que fração do movimento noturno ela representa. O guia do Einstein é o único do conjunto que operacionaliza a dúvida, com um período de observação de quatro a seis horas e critérios objetivos de alta. O interno, portanto, trabalha sem a estatística que mais o ajudaria, e precisa compensar com exame.

Do lado do tratamento, a estatística existe e é desanimadora, e é ela que sustenta a inversão de prioridades deste capítulo. Nos ensaios que a bula da atosibana resume, o tocolítico e o beta-agonista adiaram o parto por 48 horas em 88,1% e 88,9% das mulheres, sem diferença entre eles; a diferença apareceu nos efeitos adversos maternos, sobretudo cardiovasculares, relatados em 8,3% das que receberam atosibana contra 81,2% das que receberam beta-agonista. Ou seja: o ganho tocolítico é semelhante entre as classes e o preço não é. Escolher droga, aqui, é escolher efeito adverso.

Por fim, a estatística que ninguém publica em tabela mas que decide o desfecho: onde o bebê nasce. O recém-nascido de 30 semanas que nasce num hospital sem unidade neonatal precisa ser estabilizado, aquecido, ventilado e transportado por estrada; a mesma criança nascida dentro do hospital de referência atravessa um corredor. A norma brasileira reconhece isso ao vincular a gestante, desde o pré-natal, ao local onde o parto será realizado — e ao colocar o transporte inter-hospitalar dentro do sistema logístico da rede. É o motivo pelo qual a próxima ligação telefônica costuma valer mais que a próxima ampola.

E a rede que organiza esse deslocamento mudou de nome e de regramento em setembro de 2024. A Portaria GM/MS nº 5.350 transformou a Rede Cegonha na Rede Alyne e, entre os seus objetivos declarados, colocou reduzir a morbimortalidade materna e infantil com ênfase no componente neonatal, sobretudo da população negra e indígena. A menção explícita a essas populações não é retórica de preâmbulo: ela nomeia, dentro da norma, o gradiente que a epidemiologia da prematuridade brasileira mostra e que a vinculação ao serviço certo é justamente a ferramenta para corrigir. Todos os protocolos clínicos citados neste capítulo foram escritos antes dessa portaria e falam a linguagem da rede anterior.

04

Por que acontece o que acontece

O trabalho de parto prematuro não é uma doença; é o desfecho comum de muitas. O manual federal descreve a patogênese como um quadro sindrômico, de origem multifatorial, em que fatores causais e associados interagem de forma complexa — e acrescenta que é exatamente isso que torna difícil elaborar estratégias de prevenção. Guarde a frase, porque ela explica o fracasso terapêutico que vem depois.

A via final é sempre a mesma e tem três componentes que amadurecem juntos: o miométrio, que passa de quiescente a contrátil; o colo, que amolece, apaga e dilata; e as membranas com a decídua, que se ativam e se enfraquecem. Quando os três andam no mesmo passo e no tempo certo, chama-se trabalho de parto. Quando andam cedo, chama-se prematuridade. E quando as membranas se adiantam aos outros dois, o quadro que aparece na porta é rotura, não contração — o que já é o capítulo vizinho.

O que empurra essa via final é heterogêneo: infecção e inflamação intrauterinas, isquemia útero-placentária, sobredistensão do útero, hemorragia decidual, resposta ao estresse, alterações mecânicas do colo. Cada uma dessas rotas produz mediadores diferentes — citocinas, prostaglandinas, trombina, corticotrofina — e todas convergem para a mesma coisa: cálcio livre dentro da célula miometrial, que faz a actina e a miosina deslizarem uma sobre a outra.

Todos os tocolíticos atacam esse último passo, e nenhum deles ataca a causa. O bloqueador de canal de cálcio impede a entrada de cálcio extracelular e aumenta a saída do intracelular. O antagonista do receptor de ocitocina bloqueia o sinal que abre esses canais. O inibidor da prostaglandina-sintetase corta um dos mediadores que chega até eles. O agonista beta-2 ativa a adenilato-ciclase, aumenta o monofosfato de adenosina cíclico e reduz o cálcio livre. Quatro classes, quatro portas diferentes, uma única sala.

Daí a frase mais importante do capítulo, e ela está no manual federal em letra miúda: os tocolíticos evitam o parto por até 48 horas, possivelmente por até sete dias, e não reduzem de forma significativa a ocorrência de parto pré-termo, nem a mortalidade, nem a morbidade neonatais. Não é que a droga não funcione — ela funciona no músculo. É que a causa continua lá, e a causa é que determina o desfecho. Quando a causa é infecção intra-amniótica, aliás, a falha do primeiro tocolítico é a própria pista: o guia do Einstein registra que a falha se associa a cultura positiva do líquido amniótico em quase 65% dos casos.

O corticoide antenatal, ao contrário, não mexe no útero. Ele atravessa a placenta e age no feto, acelerando a maturação do pulmão pelo estímulo à síntese e à liberação de surfactante nos pneumócitos do tipo II, e dando maior estabilidade vascular ao prematuro. O efeito não é só pulmonar: reduz hemorragia periventricular, leucomalácia, enterocolite necrosante, persistência do canal arterial, retinopatia da prematuridade e, principalmente, mortalidade neonatal. É por isso que ele, e não a tocólise, é a intervenção que muda o prognóstico.

E o corticoide precisa de tempo. A curva que o manual federal descreve tem quatro pontos, e vale decorá-los na ordem: no intervalo de dois a sete dias entre a injeção e o nascimento está o pico do benefício; cumpridas 24 horas, parte dele já se instalou; aquém disso, a proteção é parcial; e, passada a primeira semana, o efeito decai, ainda que não desapareça de imediato. Essa é a razão aritmética das 48 horas de tocólise: não são 48 horas porque a droga só dura isso — são 48 horas porque é o intervalo entre a primeira e a segunda dose de betametasona mais o tempo mínimo para que a segunda faça efeito.

O sulfato de magnésio é outra história e não pertence a nenhuma das duas anteriores. Ele não é tocolítico — o guia do Sofia Feldman é explícito ao dizer que o magnésio não demonstrou atividade tocolítica e não deve ser usado com essa finalidade. O que ele faz é neuroproteção fetal: administrado à mãe pouco antes de um nascimento muito prematuro, reduz a chance de paralisia cerebral no sobrevivente. Tem janela própria, indicação própria e teto de tempo próprio, e é o item que mais se esquece quando o plantão está concentrado em segurar as contrações.

As 48 horas, decompostas

Vale abrir o relógio das 48 horas, porque o número redondo esconde a lógica. A betametasona é dada em duas doses de 12 mg separadas por 24 horas. Se a primeira dose entra às 3h de quinta-feira, a segunda entra às 3h de sexta. O efeito máximo se instala de dois a sete dias depois da primeira, mas já há benefício mensurável 24 horas depois dela. Segurar o parto por 48 horas garante o ciclo inteiro mais um intervalo de segurança; segurar por 24 garante uma dose e algum efeito; segurar por seis horas não garante nada de pulmão, mas pode garantir a estrada.

É essa a segunda função das horas, e ela é independente do corticoide: transferir a gestante. Um recém-nascido de 30 semanas transportado por ambulância chega ao centro de referência pior do que teria chegado dentro do útero. O manual federal diz que o ganho de tempo é considerado benéfico para garantir tempo adequado para a corticoterapia e para a transferência da gestante para uma instituição com maiores recursos antes que ocorra o parto prematuro. As duas coisas, na mesma frase, com o mesmo peso.

Por isso a tocólise tem prazo e não tem manutenção. O manual federal recomenda não usar tocolítico por qualquer via como tratamento de manutenção depois do episódio resolvido, e o protocolo do Distrito Federal registra que não há evidência de que manter a tocólise, mesmo por via oral, até 34 semanas melhore o desfecho. Uma vez gastas as horas no que elas serviam para comprar, não há o que continuar comprando.

Colo preservado e colo encurtado com afunilamento e membranas íntegras
Colo preservado e colo encurtado com afunilamento e membranas íntegras. O diagnóstico de trabalho de parto prematuro integra contrações e alteração cervical.
05

Como se apresenta de verdade

No trabalho de parto prematuro, cada medida tem uma finalidade e uma janela. Você deve confirmar a situação, identificar contraindicações à espera e distinguir corticoide, tocólise, neuroproteção e profilaxia de EGB. O local do nascimento faz parte da decisão, e a transferência depende de estabilidade e possibilidade de transporte.

Percurso clínico: Estimar a probabilidade de nascimento

Caracterize contrações, membranas e evolução cervical. Separe suspeita de trabalho de parto de confirmação e avalie infecção e contraindicações à tocólise. Corticoide, neuroproteção e transferência têm janelas próprias; a decisão depende da chance de nascimento e dos recursos, não somente da presença de dor.

O que ela conta, e o que isso vale

A queixa costuma vir em ordem inversa à utilidade. A mulher descreve primeiro a dor, que é o dado menos discriminante, e só depois, se perguntada, a pressão para baixo, a sensação de que o bebê desceu, o corrimento que mudou de aspecto. Pergunte por perda de líquido de forma direta e concreta — se molhou a roupa, se escorreu pela perna, se foi uma vez ou continua — porque a resposta muda de capítulo. Pergunte por sangramento e por febre, que mudam a conduta. E pergunte por ardência ao urinar, que aponta para a causa mais tratável de todas.

A duração e o intervalo das contrações valem mais quando você mesmo palpa. Uma dinâmica que a paciente descreve como "de cinco em cinco minutos" e que à palpação de dez minutos aparece como duas contrações fracas é outra coisa. Palpe por dez minutos completos, com a mão espalmada no fundo, e registre número, duração e intensidade. O manual federal manda avaliar dinâmica uterina, altura uterina, apresentação e frequência cardíaca fetal já na admissão, junto dos dados vitais maternos.

Contração mais colo: o critério, e os três números que circulam

O diagnóstico exige as duas metades. Para o manual federal, o diagnóstico se caracteriza pela ocorrência de contrações uterinas junto de mudanças no colo — que amolece, esvaece e dilata —, e ele não fixa números. Os protocolos que fixam divergem entre si, e a diferença não é acadêmica: ela decide quem é internada.

O protocolo do Distrito Federal exige pelo menos quatro contrações em 20 minutos ou oito em 60 minutos, com dilatação de pelo menos 1 cm e esvaecimento presente. O guia do Einstein exige a mesma frequência de contrações, mas pede dilatação de pelo menos 3 cm, ou esvaecimento acima de 50%, ou comprimento cervical abaixo de 30 mm à ultrassonografia transvaginal. Entre 1 cm e 3 cm de dilatação existe uma faixa inteira de mulheres que um documento interna e o outro observa.

Na prática de plantão, o que resolve é a segunda avaliação. O manual federal orienta manter a gestante em observação para reavaliar queixas e repetir o exame físico, buscando mais elementos para o diagnóstico correto. Colo que muda entre dois exames separados por algumas horas é trabalho de parto, qualquer que seja o número inicial; colo que não muda, com contrações que espaçam, é a outra coisa.

A mulher que não está em trabalho de parto

O manual federal dá nome à categoria — falso trabalho de parto prematuro — e diz o que fazer com ela: dispensar com orientação. A orientação não é um detalhe burocrático; é a parte da conduta que substitui a internação, e por isso precisa ser específica. A gestante volta imediatamente se as contrações ficarem rítmicas e mais próximas, se perder líquido, se sangrar ou se perceber redução dos movimentos do bebê.

O guia do Einstein transforma isso em algoritmo: sem mudança cervical, mede-se o colo; comprimento acima de 30 mm torna o trabalho de parto improvável, observa-se por quatro a seis horas e, na ausência de dilatação ou esvaecimento progressivo, dá-se alta com retorno ao pré-natal em uma a duas semanas. E há uma linha que o interno precisa ler duas vezes: nessa situação, não se administra tocolítico nem corticoide antenatal. Não tratar é conduta, e conduta que exige tanta segurança quanto tratar.

O protocolo do Distrito Federal aplica o mesmo raciocínio na outra ponta da idade gestacional: a partir de 34 semanas, com membranas íntegras, fase latente — menos de três contrações fortes em dez minutos e dilatação abaixo de 4 cm —, a paciente recebe alta com orientação sobre os sinais de alerta, depois de tratada eventual infecção.

Os diferenciais que mudam a conduta inteira

Contração pré-termo é sintoma, e há diagnósticos por trás dela que transformam a tocólise de tratamento em erro. O manual federal cita dois com destaque. O primeiro é o descolamento prematuro de placenta, que em fase inicial e em gestação pré-termo pode dar contrações sem sangramento evidente — e segurar as contrações de um descolamento é segurar dentro do útero um feto que está perdendo oxigênio. O segundo é a corioamnionite, que pode ser subclínica, e cujo tratamento é esvaziar o útero, não mantê-lo cheio.

Fora do útero, o mesmo manual lembra dos quadros abdominais e pélvicos que produzem dor em cólica e contração reflexa: apendicite, litíase renal e pielonefrite. Cada um tem capítulo próprio nesta apostila e no nível, e cada um explica uma gestante que teria recebido nifedipino a noite inteira sem melhorar. O descolamento prematuro de placenta e a pré-eclâmpsia com achados graves, por sua vez, têm capítulos próprios de obstetrícia neste nível, e é para eles que este capítulo manda o leitor quando a resposta deixa de ser segurar e passa a ser interromper.

E há a checagem que se faz com o espéculo antes de qualquer outra coisa: procurar líquido amniótico. Alguns casos de trabalho de parto prematuro decorrem de rotura prematura de membranas, e a distinção não é sutil — muda a decisão sobre antibiótico, sobre tocólise e sobre até quando esperar. Este capítulo trata do trabalho de parto prematuro com membranas íntegras. A rotura pré-termo é do capítulo de rotura prematura de membranas, e este capítulo cede a ele inteiramente esse cenário.

O antecedente que reorganiza a consulta

Quando a mulher já teve um parto prematuro espontâneo, três coisas mudam de uma vez. A probabilidade de que este episódio seja trabalho de parto verdadeiro sobe. A conversa sobre transferência começa mais cedo, porque a chance de nascimento é maior. E o plano de saída do hospital inclui prevenção — assunto que este capítulo assume, e que é tratado no bloco de conduta.

O antecedente também organiza o que perguntar sobre o parto anterior: com quantas semanas, se houve rotura de membranas antes das contrações, se houve infecção, quanto tempo o bebê ficou internado, se houve procedimento no colo desde então. Duas prematuridades por rotura de membranas contam uma história diferente de duas prematuridades por colo que abriu sem dor.

O que a apresentação não decide

Nenhum achado do exame decide sozinho a conduta, porque tudo neste capítulo é indexado por semana. Uma dilatação de 2 cm com 30 semanas manda internar, dar corticoide, considerar tocólise, considerar magnésio e procurar vaga. A mesma dilatação com 35 semanas não manda nada disso. Por isso a datação da gestação, tratada no bloco seguinte, vem antes de qualquer decisão, mesmo quando a mulher chega com dor.

E nenhum achado do exame substitui a busca de causa. O manual federal manda colher hemograma, exames de urina e cultura para estreptococo do grupo B já na admissão, e recomenda ultrassonografia sempre que possível, porque ela pode identificar causas da contratilidade anormal. A contração é o motivo da vinda; a causa é o que decide se vale a pena segurá-la.

06

Como fechar o diagnóstico

A investigação do trabalho de parto prematuro tem duas perguntas, e elas não são feitas na mesma ordem em que aparecem no prontuário. A primeira é quantas semanas — porque toda decisão deste capítulo é indexada por semana, e uma data errada erra a conduta inteira. A segunda é por quê — porque a causa da contração decide se vale segurá-la.

A datação, que vem antes de tudo

A rotina da Maternidade Escola da UFRJ encerra o capítulo de corticoterapia com um lembrete de uma linha: a correta determinação da idade gestacional é fundamental para o diagnóstico da prematuridade. É a frase mais barata e mais rentável do assunto. Entre 31 semanas e 6 dias e 32 semanas há a diferença de dar ou não dar sulfato de magnésio; entre 33 semanas e 6 dias e 34 há a diferença de tocolisar ou não; entre 23 e 24 há a diferença de oferecer ou não corticoide num documento e não no outro.

A regra prática é a do capítulo de cálculo de idade gestacional desta apostila, e este capítulo a toma emprestada sem repeti-la: a ultrassonografia de primeiro trimestre manda sobre a data da última menstruação quando as duas discordam além da margem, e a data definida na primeira consulta não se refaz a cada exame novo. O que interessa aqui é o corolário: se a gestante chega sem cartão, sem ultrassonografia precoce e com data incerta, a idade gestacional estimada por exame tardio tem margem de duas a três semanas, e essa margem atravessa todos os cortes deste capítulo de uma vez. Nesse caso, decida pelo pior cenário plausível e registre a incerteza no prontuário, para que quem vier depois saiba de onde saiu a semana.

O espéculo antes do toque

Ordem de exame, aqui, é conteúdo. O protocolo do Distrito Federal manda que toda paciente atendida na emergência com diagnóstico de trabalho de parto prematuro seja submetida a exame especular, procurando vulvovaginite ou perda de líquido amniótico. O guia do Einstein pede espéculo úmido e não lubrificado, para estimar a dilatação e avaliar o estado das membranas.

Duas razões sustentam a ordem. A primeira é diagnóstica: o líquido que se vê acumulado no fórnice, ou que escorre pelo orifício externo quando a mulher tosse, muda o capítulo — passa a ser rotura prematura de membranas, e este capítulo cede o caso. A segunda é de dano: cada toque vaginal em membranas rotas é inóculo, e o toque feito antes do espéculo é o toque que ninguém decidiu fazer, foi só o que veio primeiro na rotina.

Vendo o colo, aproveite: registre também aspecto de corrimento e presença de sangue. Corrimento fétido com febre é corioamnionite até prova em contrário, e corioamnionite é contraindicação à tocólise em todos os quatro documentos brasileiros consultados — o único item em que os quatro concordam.

O colo medido: o exame que evita a internação

É aqui que a ultrassonografia transvaginal muda de papel. No pré-natal da mulher sem sintoma, a medida do colo é rastreio, obtida no mesmo exame morfológico do segundo trimestre, entre a 19ª e a 24ª semana, com risco aumentado a partir do corte de 25 mm — e esse uso pertence ao capítulo de rastreio de anomalias e ultrassonografia obstétrica, que assume a medida e registra que a progesterona micronizada não consta da Rename. Este capítulo cede aquele uso e assume outro.

O uso que este capítulo assume é o agudo: a mulher que está na sua frente, com contrações, sem mudança cervical evidente ao toque. O guia do Einstein é o único documento brasileiro consultado que operacionaliza a decisão com número: sem mudança cervical, mede-se o colo; abaixo de 30 mm o trabalho de parto é considerado provável e a paciente entra na via de tratamento; acima de 30 mm é considerado improvável, observa-se de quatro a seis horas e dá-se alta se não houver progressão.

O ganho é grande e vale dizer em voz alta: um exame de dez minutos separa a internação com droga endovenosa da alta com orientação. Onde não houver ultrassonografia transvaginal disponível de madrugada — que é a regra no Brasil e não a exceção —, o substituto é o tempo: dois toques feitos pela mesma pessoa, separados por algumas horas, com registro dos cinco campos. Colo que não muda é colo que não está trabalhando.

Os exames da admissão, e o que cada um responde

O manual federal lista o que colher já na entrada: hemograma, urina tipo 1 e urocultura, e material para pesquisa de estreptococo do grupo B sempre que possível. Acrescenta a ultrassonografia obstétrica quando disponível, porque ela pode identificar causas da contratilidade anormal, estimar o peso fetal e avaliar o líquido. O guia do Einstein acrescenta proteína C-reativa e cardiotocografia a partir de 28 semanas.

Cada exame tem uma pergunta atrás. O hemograma e a proteína C-reativa perguntam por infecção — não fecham diagnóstico de corioamnionite, que é clínico, mas mudam o limiar de suspeita. A urina tipo 1 e a urocultura perguntam pela causa tratável mais frequente, e o tratamento da infecção urinária na gestação, com os esquemas e as durações, está no capítulo próprio desta apostila. O swab vaginal e retal pergunta pelo estreptococo do grupo B, e serve à decisão de antibiótico intraparto — cujo rastreio e cujos esquemas pertencem ao capítulo de estreptococo do grupo B, que este capítulo consulta e não repete. A ultrassonografia pergunta pelo peso fetal estimado, que é o número que o neonatologista vai querer ouvir ao telefone.

Uma advertência sobre o hemograma depois do corticoide, que economiza uma investigação inteira: o guia do Sofia Feldman registra que a betametasona aumenta a contagem total de leucócitos em cerca de 30% e reduz a de linfócitos em cerca de 45% nas primeiras 24 horas, com retorno aos valores basais em até três dias. Leucocitose isolada depois da primeira dose não é infecção. Contagem acima de 20.000 células por milímetro cúbico, essa sim, merece ser investigada.

Vitalidade fetal e busca de infecção

O manual federal recomenda cardiotocografia sempre que possível, com repetição conforme a avaliação clínica, e programação de controles maternos e fetais periódicos: dados vitais maternos, dinâmica uterina e frequência cardíaca fetal. Recomenda também perguntar à gestante sobre a movimentação fetal percebida nos últimos dias e nas últimas horas — pergunta que costuma ser pulada porque parece subjetiva e que às vezes é a única pista de que algo mudou antes das contrações.

A busca de corioamnionite não tem exame único. Ela se faz somando febre materna, taquicardia materna, taquicardia fetal, dor à palpação uterina, líquido de odor fétido e leucocitose — e o peso de cada item depende dos outros. O ponto prático é que a suspeita muda a conduta em bloco: contraindica a tocólise, contraindica o corticoide na leitura do manual federal, que exige ausência de evidência clínica de infecção intra-amniótica para usá-lo, e transforma o plano de segurar em plano de esvaziar.

Há ainda um sinal indireto e tardio, que o interno costuma interpretar ao contrário: a falha do tocolítico. Quando as contrações não cedem à primeira droga, a leitura reflexa é aumentar a dose ou trocar de classe. O guia do Einstein oferece a outra leitura, com número: a falha do primeiro tocolítico se associa a cultura positiva do líquido amniótico em quase 65% dos casos. Falha, portanto, é motivo para reabrir o diagnóstico, e não só para reabrir a prescrição.

O que não está disponível, e o exame que não é laboratorial

Um teste que a literatura internacional usa há décadas para decidir quem não internar — a fibronectina fetal em secreção cervicovaginal — não aparece na conduta de nenhum dos documentos brasileiros consultados. Ele figura uma única vez no manual federal, e apenas na lista de referências bibliográficas, num artigo de revisão sobre predição de parto prematuro. Nenhum protocolo brasileiro consultado o incorpora à decisão. O interno que leu sobre fibronectina numa fonte estrangeira precisa saber que, na régua brasileira, o exame que cumpre esse papel é a medida do colo.

E existe uma investigação que não passa pelo laboratório e que costuma ficar para depois: descobrir se há vaga. Saber, ainda de madrugada, se a maternidade de referência tem leito de terapia intensiva neonatal disponível é dado que muda conduta tanto quanto um hemograma — decide se a próxima hora será gasta em titular droga ou em organizar transporte. A Portaria GM/MS nº 5.350, de 2024, coloca a regulação e o transporte inter-hospitalar dentro do sistema logístico da Rede Alyne e prevê equipes especializadas em atendimento materno e infantil com cobertura de 24 horas por dia, sete dias por semana, no complexo regulador. Ligar cedo é usar o que a norma prevê; ligar depois do parto é usá-lo tarde.

07

As semanas, os esquemas e as contas que não fecham

Tudo neste capítulo é decidido por semana de gestação, e as semanas não coincidem entre os documentos brasileiros. Este bloco põe as faixas lado a lado, mostra os esquemas de corticoide que circulam no país, compara as listas de contraindicação à tocólise e refaz, em Python, a conversão entre a dose prescrita e a ampola que existe na gaveta. As notas ao final registram o que não fechou na conferência, com a conta, e também o que fechou.

  1. 1Date a gestação. Sem semana confiável, nenhuma das decisões seguintes tem critério.
  2. 2Passe o espéculo antes do toque. Se houver líquido amniótico, este capítulo termina aqui e começa o de rotura prematura de membranas.
  3. 3Some contração e colo. Sem modificação cervical, não há trabalho de parto prematuro; meça o colo se puder, observe de quatro a seis horas e reavalie.
  4. 4Procure a causa antes de segurar a contração: infecção urinária, corioamnionite, descolamento prematuro de placenta, abdome agudo.
  5. 5Prescreva o corticoide se a idade gestacional estiver na faixa e não houver evidência clínica de infecção intra-amniótica. Esta é a primeira prescrição, não a segunda.
  6. 6Só então considere a tocólise, e apenas se não houver contraindicação. Ela existe para comprar 48 horas — o ciclo do corticoide e a transferência.
  7. 7Some o sulfato de magnésio se a idade gestacional for menor e o parto for provável nas próximas horas. É neuroproteção, não tocólise.
  8. 8Ligue para a regulação. A gestante viaja melhor que o recém-nascido, e a vaga leva tempo.

As semanas que governam cada decisão, e onde os documentos discordam

DecisãoManual federal (2022)Outros documentos brasileirosA semana em disputa
Corticoide antenatalUso estimulado entre 24 e 34 semanas; fora dessa faixa, particularizado conforme o serviçoSES-DF e Maternidade Escola da UFRJ: 24 a 33 semanas e 6 dias. HU Ana Bezerra: de 24 a 34 semanas, com limite inclusivo. Einstein: 23 a 34 no fluxograma, 24 a 34 na nota e no indicador do mesmo documento23 semanas, que aparece e some dentro de um único documento; e 34 semanas, limite inclusivo em uns e exclusivo em outros
TocóliseElegíveis: membranas íntegras, dilatação de até 4 a 5 cm, idade gestacional entre 24 e 34 semanasSES-DF: tocólise até 33 semanas e 6 dias, e idade gestacional igual ou maior que 34 semanas figura como contraindicação. Bula da atosibana: 24 a 33 semanas completas, dilatação de 1 a 3 cm34 semanas: elegível no manual federal e contraindicação expressa no protocolo estadual
Neuroproteção com sulfato de magnésioAté 31 semanas e 6 dias, quando o parto tem alta probabilidade nas próximas 24 horasSES-DF e HU Ana Bezerra: 24 a 31 semanas e 6 dias. Einstein: 24 a 32 semanas32 semanas: fora no manual federal e nos dois protocolos públicos, dentro no guia privado
Conduta entre 22 e 23 semanas e 6 diasFora dos limites declarados; uso particularizado conforme as características do serviçoSES-DF: internar e tocolisar, reservando as demais medidas de proteção fetal para idades acima de 24 semanas, pelo prognósticoA faixa inteira: sem classe no documento federal, com conduta explícita no estadual
Prematuro tardio, de 34 a 36 semanas e 6 diasFora da faixa recomendada de corticoide; uso particularizadoMaternidade Escola da UFRJ e HU Ana Bezerra: ciclo único de betametasona em quem não recebeu corticoide antes e tem risco de parto em 7 dias, com aumento do risco de hipoglicemia neonatalA faixa inteira: recomendada por dois documentos assistenciais e não recomendada pelo manual federal
Progesterona vaginal na prevenção200 mg à noite; em colo curto, do diagnóstico até 36 semanas e 6 dias; em antecedente de parto prematuro espontâneo, a partir de 16 semanas, na mesma doseSES-DF: 100 mg diários em quem já teve parto prematuro e 200 mg diários em colo de até 2,5 cm, ambos de 24 a 33 semanas e 6 diasA dose (100 contra 200 mg) e a janela inteira (16 semanas contra 24; 36 semanas e 6 dias contra 33 e 6)

Os esquemas de corticoterapia antenatal que circulam no Brasil

DocumentoBetametasonaDexametasonaCorticoide total no ciclo
Manual de gestação de alto risco (Ministério da Saúde, 2022), quadro 112 mg por via intramuscular a cada 24 horas, por 2 dias6 mg por via intramuscular a cada 24 horas, por 2 dias24 mg de betametasona; 12 mg de dexametasona
Protocolo SES-DF (Portaria SES-DF nº 1.356/2018), figura 412 mg por via intramuscular, 2 doses, intervalo de 24 horas6 mg por via intramuscular, 4 doses, intervalo de 12 horas24 mg por qualquer das duas
HU Ana Bezerra / UFRN (PRT.DM.025, 2021)12 mg por via intramuscular a cada 24 horas, 2 doses6 mg por via intramuscular a cada 12 horas, 4 doses24 mg por qualquer das duas
Maternidade Escola da UFRJ, rotinas assistenciais12 mg por via intramuscular, repetindo a mesma dose em 24 horas6 mg por via intramuscular a cada 12 horas, total de 4 doses24 mg por qualquer das duas
Guia do episódio de cuidado do Einstein (revisão de 2024)12 mg por via intramuscular, repetida após 24 horas4 mg por via intramuscular a cada 8 horas, total de 6 aplicações24 mg por qualquer das duas
Guia de práticas clínicas do Sofia Feldman (revisão de 2008)12 mg por via intramuscular a cada 24 horas ou, em dose acelerada, a cada 12 horas, 2 doses6 mg por via intramuscular a cada 12 horas, 4 doses24 mg por qualquer das duas
Bula profissional do Beta-Long (betametasona)2 mL, equivalentes a 12 mg, por via intramuscular, ao menos 24 horas antes do parto previsto; segunda dose de 2 mL após 24 horas se o parto não ocorrerNão se aplica24 mg

Contraindicações à tocólise: cada documento lista a sua

DocumentoO que lista
Manual de gestação de alto risco (2022)Morte fetal intrauterina; anomalia fetal letal; vitalidade fetal alterada; quadros hipertensivos graves, incluindo pré-eclâmpsia com achados graves; hemorragia materna com instabilidade hemodinâmica; corioamnionite; doenças cardíacas graves
Protocolo SES-DF (2018)Idade gestacional igual ou maior que 34 semanas; rotura prematura de membranas; infecção amniótica; descolamento prematuro de placenta; placenta prévia sangrante; pré-eclâmpsia grave ou eclâmpsia; diabetes insulinodependente descompensado; cardiopatias maternas; hipertireoidismo não compensado; anemia falciforme; hemorragia materna com instabilidade hemodinâmica
HU Ana Bezerra / UFRN (2021)Feto morto; corioamnionite; sofrimento fetal agudo; sangramento genital intenso
Guia do Einstein (2024)Malformação incompatível com a vida; óbito fetal; cardiotocografia categoria III; eclâmpsia ou pré-eclâmpsia grave; hemorragia materna com instabilidade hemodinâmica; corioamnionite; rotura prematura de membranas, ressalvando que, sem infecção, a corticoterapia ainda pode ser considerada
O que os quatro têm em comumCorioamnionite e morte fetal. Tudo o mais varia: a lista mais longa tem onze itens e a mais curta tem quatro

Dose, apresentação, ampolas e velocidade — refeito em Python contra a bula

Fármaco e finalidadeDose prescritaApresentação realO que se administraRitmo
Betametasona — maturação pulmonar12 mg por via intramuscular, 2 dosesSuspensão injetável com 3 mg/mL de acetato mais 3 mg/mL de betametasona sob a forma de fosfato dissódico, em ampolas de 1 mL: 6 mg de betametasona por mL2 mL, isto é, 2 ampolas por dose; 4 ampolas no ciclo completo de 24 mgIntervalo de 24 horas entre as duas doses
Dexametasona — maturação pulmonar6 mg por via intramuscular, 4 dosesSolução injetável de fosfato dissódico de dexametasona 4 mg/mL, em ampolas de 2,5 mL, ou seja, 10 mg por ampola1,5 mL por dose, sobrando 1 mL (4 mg) na ampola; o ciclo de 24 mg usa 6 mL de soluçãoIntervalo de 12 horas entre as doses
Nifedipino — tocólise de primeira escolha10 mg por via oral no ataque, repetível; manutenção de 10 a 20 mg por 48 horasCápsula de 10 mg e comprimido de 10 mg, ambos no Componente Básico da Rename 20241 cápsula ou comprimido por dose, engolido inteiro; o ataque máximo de 40 mg são 4 unidadesAtaque a cada 20 a 30 minutos conforme o protocolo; manutenção a cada 6 ou 8 horas
Sulfato de magnésio 50% — neuroproteção, ataque4 g por via intravenosa em 20 a 30 minutosSolução injetável a 50%, ampolas de 10 mL, com 5 g por ampola8 mL da solução a 50%, diluídos até 20 mL20 mL em 20 minutos, equivalentes a 60 mL/h em bomba
Sulfato de magnésio 10% — neuroproteção, ataque4 g por via intravenosa em 20 a 30 minutosSolução injetável a 10%, ampolas de 10 mL, com 1 g por ampola40 mL, isto é, 4 ampolas, diluídos até 100 mL100 mL em 20 minutos, equivalentes a 300 mL/h em bomba
Sulfato de magnésio — neuroproteção, manutenção1 g por hora, até o nascimento ou por no máximo 24 horas10 mL da solução a 50%, ou 50 mL da solução a 10%, em 500 mL de soro fisiológico: 5 g por bolsa100 mL/h entregam exatamente 1 g/h; 24 horas consomem 24 g e infundem 2,4 LBomba de infusão contínua, com reflexo patelar, frequência respiratória e diurese vigiados
Atosibana — tocólise, bólus6,75 mg por via intravenosa em 1 minutoSolução injetável 7,5 mg/mL em frasco de 0,9 mL, que contém exatamente 6,75 mg1 frasco de 0,9 mL, puroBólus lento, em 1 minuto
Atosibana — tocólise, infusão18 mg/h por 3 horas, depois 6 mg/h por até 45 horasConcentrado 7,5 mg/mL em frasco de 5 mL (37,5 mg); a bolsa se prepara com 2 frascos em 100 mL, resultando em 0,75 mg/mL24 mL/h por 3 horas (72 mL) e 8 mL/h depois; as 45 horas exigem 360 mL, isto é, mais 3,6 bolsasO curso inteiro consome 5 bolsas de 100 mL, 10 frascos de 5 mL e 1 frasco de 0,9 mL, e não deve passar de 48 horas
Salbutamol injetável — tocólise de segunda escolha10 microgramas por minuto, aumentando conforme a respostaSolução injetável 0,5 mg/mL em ampolas de 1 mL (bula do Aerolin injetável; consta da Rename 2024)10 ampolas, isto é, 5 mg, em 490 mL de soro fisiológico: 10 microgramas por mL60 mL/h, ou 20 gotas por minuto, entregam 10 microgramas por minuto

O quadro 1 do manual federal imprime, lado a lado, betametasona 12 mg por via intramuscular a cada 24 horas por 2 dias e dexametasona 6 mg por via intramuscular a cada 24 horas por 2 dias. A conta: a coluna da betametasona entrega 12 × 2 = 24 mg; a da dexametasona entrega 6 × 2 = 12 mg. Os dois corticoides têm potência glicocorticoide praticamente igual, e o quadro os apresenta como alternativas equivalentes — mas uma das colunas dá metade da outra. O esquema clássico da dexametasona, presente em todos os outros cinco documentos brasileiros consultados, é 6 mg a cada 12 horas em quatro doses, isto é, 24 mg. A diferença entre o quadro federal e os demais é de 12 mg de dexametasona, ou 50% do ciclo. Este é o achado central da conferência deste capítulo, e é o único ponto do capítulo em que a orientação prática se afasta do documento federal.

A bula profissional do Beta-Long contém, no item de posologia, uma indicação obstétrica explícita — 2 mL, equivalentes a 12 mg, por via intramuscular, ao menos 24 horas antes do parto previsto, repetidos após 24 horas se o parto não ocorrer — e, no item de contraindicações, a frase de que os corticosteroides não estão indicados no tratamento profilático da síndrome da membrana hialina em prematuros. Lidas literalmente, as duas passagens do mesmo documento se anulam. A leitura mais benigna é que a contraindicação se refere ao tratamento do recém-nascido já nascido, que é objeto de outra frase logo adiante; essa leitura é interpretação de quem escreve este capítulo, e não está escrita na bula.

A mesma bula acrescenta duas restrições que nenhum protocolo brasileiro repete. A primeira: os corticosteroides não devem ser administrados a grávidas com pré-eclâmpsia, eclâmpsia ou sinais de lesão placentária — exatamente as pacientes em que os capítulos de pré-eclâmpsia e de síndrome HELLP indicam corticoterapia antes de 34 semanas. A segunda: o uso profilático após a 32ª semana ainda é discutível, enquanto o manual federal estimula o uso até 34 semanas. Há ainda a linha de que o medicamento é contraindicado para menores de 15 anos, faixa em que a gestação não é rara no Brasil. As três restrições ficam registradas como estão escritas, sem lado vencedor declarado.

A bula da dexametasona injetável declara a apresentação como solução de 4 mg/mL em ampolas de 2,5 mL e, três linhas abaixo, escreve que cada ampola contém 4,37 mg de fosfato dissódico de dexametasona. A conta: 4 mg/mL × 2,5 mL = 10 mg por ampola, não 4,37 mg. O cabeçalho de composição diz 'cada ampola' onde a aritmética exige 'cada mL' — um fator 2,5. O item de posologia da mesma bula corrige sozinho o erro ao dizer que cada mL contém 4 mg. A conferência foi feita sobre o texto normalizado, e a frase está mesmo no documento.

Ainda na dexametasona, uma ambiguidade que muda o volume aspirado. A bula informa que 4 mg de fosfato dissódico correspondem a cerca de 3,33 mg de dexametasona. Se os 6 mg dos protocolos forem lidos como 6 mg do produto rotulado, a dose é 1,5 mL; se forem lidos como 6 mg de dexametasona, a dose passa a 1,8 mL. Nenhum dos protocolos brasileiros consultados esclarece qual das duas leituras adota. A prática consolidada é a primeira — prescreve-se pelo rótulo —, e é a que a tabela de conversão acima usa.

O protocolo do Distrito Federal apresenta o salbutamol como ampola de 0,01 mg/mL e manda diluir 10 ampolas, que ele descreve entre parênteses como 0,1 mg, em 490 mL de soro fisiológico, para infundir 10 microgramas por minuto a 60 mL/h. A conta não fecha por um fator de 50: 0,1 mg em 500 mL dão 0,2 micrograma por mL, e 60 mL/h entregariam 0,2 micrograma por minuto, não 10. A apresentação real do salbutamol injetável, tanto na bula do Aerolin quanto na Rename 2024, é 0,5 mg/mL em ampolas de 1 mL — e com ela a conta fecha: 10 ampolas são 5 mg, que em 500 mL dão 10 microgramas por mL, e 60 mL/h entregam exatamente os 10 microgramas por minuto prescritos. O que o protocolo escreveu na coluna da apresentação foi a concentração da solução final, não a da ampola; e o valor entre parênteses ficou 50 vezes menor que a massa real.

A origem do erro é rastreável e vale como advertência sobre cópia de esquema. O guia do Sofia Feldman, de 2008, escreve corretamente: ampolas de 1 mL com 0,5 mg, preparo de 5 mg (10 ampolas) em 500 mL de soro glicosado, resultando em 0,01 mg/mL. O protocolo estadual reproduziu o número 0,01 mg/mL na coluna errada e recalculou a massa a partir dele. A conferência de uma linha que teria evitado o erro é a mesma que se faz na beira do leito: multiplicar o número de ampolas pela concentração da ampola e conferir se o resultado bate com a velocidade prescrita.

A bula vigente do salbutamol injetável, aprovada pela Anvisa em 19 de janeiro de 2021, indica o medicamento apenas para alívio do broncoespasmo grave da asma ou da bronquite e para o estado de mal asmático, e sua posologia cobre apenas essas situações. A única menção a parto prematuro está nas contraindicações, e é para dizer que as formas farmacêuticas não injetáveis não devem ser empregadas no controle do parto prematuro. Não há, portanto, dose obstétrica registrada para a droga que um protocolo estadual brasileiro em vigor lista como tocolítico de segunda escolha. Fica o registro, sem juízo sobre a decisão de manter ou não a prática: essa decisão é clínica e regulatória, e não de quem confere contas.

O nifedipino tem quatro esquemas brasileiros e eles não convergem. Somando ataque e manutenção nas primeiras 24 horas: manual federal, esquema A, 30 + 20 mg a cada 8 horas = 90 mg; manual federal, esquema B, 20 + 20 mg a cada 6 horas = 100 mg; protocolo do Distrito Federal, 40 + 10 mg a cada 6 horas = 80 mg; HU Ana Bezerra, 40 + 20 mg a cada 6 horas = 120 mg. O guia do Einstein prescreve ataque de 20 mg seguido de 10 a 20 mg a cada 3 a 8 horas; no extremo superior da faixa que ele mesmo autoriza — 20 mg a cada 3 horas — o total chega a 180 mg em 24 horas. A bula do nifedipino comprimido diz que a dose máxima diária habitual é 20 mg três vezes ao dia, isto é, 60 mg, e que raramente se exige dose diária superior a 120 mg. O extremo autorizado pelo guia é o triplo da máxima habitual e uma vez e meia o teto raro.

Mesmo nifedipino, outra divergência, esta entre bula e manual. A bula do comprimido diz que o medicamento é de uso oral, incluindo uso sublingual nas crises hipertensivas. O manual federal, no capítulo de prematuridade, escreve o contrário para a tocólise: os comprimidos sempre devem ser engolidos inteiros, sem mastigar, e não se deve utilizar a via sublingual. A discussão sobre nifedipino sublingual na emergência hipertensiva pertence ao capítulo de anti-hipertensivos na gestação; para tocólise, a régua deste capítulo é a do manual federal.

A bula da atosibana descreve o curso completo em três fases — bólus de 6,75 mg, três horas a 18 mg/h e até 45 horas a 6 mg/h — e, no parágrafo seguinte, escreve que a dose total de um curso completo não deve preferivelmente exceder 330 mg. A conta do próprio esquema: 6,75 + (3 × 18) + (45 × 6) = 6,75 + 54 + 270 = 330,75 mg. O regime máximo da bula ultrapassa em 0,75 mg o teto que a mesma bula declara. A diferença não tem consequência clínica; ela está aqui porque é exatamente o gênero de inconsistência que, com outro fator de escala, produz erro de dose.

O protocolo do HU Ana Bezerra descreve a atosibana com uma etapa a mais e um erro de volume. A etapa intermediária — infundir os 28 mL que sobram da primeira bolsa a 8 mL/h por três horas e meia — está aritmeticamente correta: 100 − (24 × 3) = 28 mL, e 28 ÷ 8 = 3,5 horas. O que não fecha é a etapa seguinte: o protocolo manda diluir 10 mL em 90 mL de soro e infundir a 8 mL/h por 45 horas, mas 100 mL a 8 mL/h duram 12,5 horas. As 45 horas exigem 360 mL, isto é, 3,6 bolsas — e a própria bula do produto diz, com todas as letras, que novas bolsas de 100 mL devem ser preparadas do mesmo modo para permitir a continuidade da infusão. Somando a etapa extra, o esquema entrega 351,75 mg em 51,5 horas, contra o teto de 330 mg e as 48 horas declarados na bula, e contra as 48 horas que o próprio protocolo defende algumas linhas acima ao dizer que o prolongamento além desse prazo não tem evidência que o justifique.

A bula da atosibana restringe a indicação a idade gestacional entre 24 e 33 semanas completas, dilatação cervical de 1 a 3 cm (0 a 3 em nulíparas), esvaecimento de pelo menos 50%, quatro contrações de pelo menos 30 segundos em 30 minutos, frequência cardíaca fetal normal e idade materna igual ou maior que 18 anos. Duas dessas restrições não têm correspondente em protocolo brasileiro nenhum: o teto de dilatação, que o manual federal estende a 4 ou 5 cm, e o piso de idade materna, num país em que a gestação na adolescência é fator de risco para prematuridade. O uso fora dessas faixas é uso fora do registro, e a decisão de fazê-lo é clínica.

O sulfato de magnésio para neuroproteção tem dois esquemas brasileiros com o dobro de diferença. O manual federal, o protocolo do Distrito Federal e o guia do Einstein usam ataque de 4 g e manutenção de 1 g/h, por até 24 horas. O protocolo do HU Ana Bezerra usa ataque de 6 g e manutenção de 2 g/h, por no máximo 12 horas, e explica por quê: é a mesma dose usada para pré-eclâmpsia grave naquele serviço. As duas diluições conferem — 12 g em 500 mL a 84 mL/h entregam 2,02 g/h, e 5 g em 500 mL a 100 mL/h entregam exatamente 1 g/h. A divergência, portanto, não é de aritmética: é de escolha, e ela dobra a exposição materna por hora enquanto reduz à metade o tempo máximo.

Nem tudo que se conferiu falhou. Vale listar o que bateu, porque conta a mesma história pelo outro lado. Bateram: as duas diluições de sulfato de magnésio do protocolo do Distrito Federal, tanto na solução a 50% (8 mL para 4 g, 20 mL em 20 minutos, 60 mL/h) quanto na de 10% (40 mL para 4 g, 100 mL em 20 minutos, 300 mL/h); a conversão de gotas do manual federal para a terbutalina, em que 40 gotas por minuto correspondem mesmo a 120 mL/h, com 20 gotas por mililitro; as duas diluições de terbutalina, que produzem 5 microgramas por mL tanto no esquema federal (2,5 mg em 500 mL) quanto no do Einstein (5 mg em 1.000 mL); a etapa intermediária da atosibana no HU Ana Bezerra; e a indometacina, cujo extremo de 50 mg de ataque mais 25 mg a cada 4 horas soma 200 mg em 24 horas, que é o teto diário habitual do fármaco. As contas do sulfato de magnésio e da terbutalina foram refeitas em Python, e não conferidas por leitura.

A terbutalina, mesma droga e mesma concentração final nos dois documentos, tem tetos diferentes: o manual federal para em 40 gotas por minuto, equivalentes a 10 microgramas por minuto, e o guia do Einstein autoriza até 25 microgramas por minuto. São 2,5 vezes de diferença no teto de exposição a um beta-agonista cujo efeito adverso relevante é edema agudo de pulmão. A rotina da Maternidade Escola da UFRJ acrescenta a advertência que fecha o raciocínio: atenção ao uso concomitante de tocolítico beta-agonista e corticoide, pelo risco de edema pulmonar — e corticoide, neste capítulo, todo mundo recebe.

A conferência na Rename 2024 foi feita com busca exata sobre o texto normalizado. Constam do Componente Básico: acetato de betametasona mais fosfato dissódico de betametasona 3 mg/mL + 3 mg/mL, suspensão injetável; dexametasona 4 mg/mL, solução injetável; nifedipino 10 mg, cápsula e comprimido; sulfato de magnésio a 10% e a 50%, solução injetável; e sulfato de salbutamol 0,5 mg/mL, solução injetável. Não constam do elenco: terbutalina, atosibana, indometacina e progesterona micronizada. A consequência prática é direta — dos tocolíticos que os protocolos brasileiros citam, o SUS fornece dois, e o de melhor perfil de segurança não está entre eles; e a medida preventiva que o manual federal recomenda depois do episódio, a progesterona vaginal, não é fornecida pelo elenco, achado que o capítulo de rastreio de anomalias e ultrassonografia obstétrica também registrou.

Uma inconsistência interna do guia do Einstein, de um documento revisado em junho de 2024: o fluxograma manda administrar corticoide antenatal entre 23 e 34 semanas, a nota de rodapé do mesmo fluxograma diz 24 a 34 semanas, e o indicador de qualidade no fim do documento diz 24 a 34. A semana em disputa é a de 23, que é justamente a semana da periviabilidade — aquela em que a decisão de oferecer ou não corticoide se confunde com a decisão de reanimar ou não o recém-nascido, e que a rotina da Maternidade Escola da UFRJ trata como decisão compartilhada com a família.

Por fim, uma norma que mudou depois dos protocolos. Todos os documentos clínicos deste capítulo foram escritos quando a rede materno-infantil do SUS se chamava Rede Cegonha. A Portaria GM/MS nº 5.350, de 12 de setembro de 2024, publicada no Diário Oficial da União de 13 de setembro daquele ano, alterou a Portaria de Consolidação GM/MS nº 3/2017 e, no art. 2º, determinou que a Rede Cegonha fica transformada na Rede Alyne, revogando de uma vez os arts. 20 a 35, 48 e 49, 60 a 63 e 93 a 95 do anexo correspondente. Quem citar a Rede Cegonha hoje como a rede vigente está citando o nome anterior de uma estrutura que foi reescrita — inclusive na parte que interessa a este capítulo, que é a vinculação da gestante ao local do parto e o transporte inter-hospitalar.

08

A conduta, hora a hora

Avaliar idade gestacional, colo, membranas, infecção e condições materna e fetal. Se há indicação e segurança, usar as intervenções para benefício neonatal e ganho de tempo conforme suas próprias regras. Organizar transferência precoce quando necessária. Não adiar nascimento indicado por deterioração apenas para completar corticoide, nem manter tocólise sem finalidade definida.

Duas travas valem para todos os marcos. A primeira: enquanto não estiver claro se as membranas estão íntegras, nada do que vem abaixo se decide. A segunda: o corticoide não espera a certeza de que o parto vai acontecer — espera apenas que a idade gestacional esteja na faixa e que não haja evidência clínica de infecção intra-amniótica. Quem espera a certeza dá a injeção tarde demais para ela funcionar.

  1. Minuto 0 a 15 — datar, olhar, e decidir de que capítulo é o caso

    Antes de qualquer prescrição, três coisas. Primeiro, a idade gestacional: cartão de pré-natal na mão, ultrassonografia de primeiro trimestre se houver, e a semana registrada por escrito no prontuário, com a fonte. Segundo, o exame especular, feito antes do toque, procurando líquido amniótico no fórnice ou saindo pelo orifício externo à tosse — se houver, este capítulo termina e começa o de rotura prematura de membranas. Terceiro, os dados vitais maternos e a frequência cardíaca fetal, junto de uma palpação de dez minutos completos para contar a dinâmica. Só depois disso se toca, e o toque registra os cinco campos: dilatação, apagamento, altura, variedade e estado das membranas.

    Prescrição
    • Internação para avaliação em gestante com contrações antes de 37 semanas e alguma modificação cervical — Manual de gestação de alto risco (MS, 2022), item 6.4.
    • Exame especular com espéculo úmido e não lubrificado, antes do toque, procurando perda de líquido, sangramento e vulvovaginite — Protocolo SES-DF (2018), item 8.2; guia do Einstein (2024), item 2.
    • Registro em prontuário da idade gestacional e da fonte que a definiu. Toda decisão deste capítulo é indexada por semana, e a rotina da Maternidade Escola da UFRJ trata a datação correta como pré-requisito do diagnóstico de prematuridade.
    • Dados vitais maternos, altura uterina, apresentação, dinâmica uterina em 10 minutos de palpação e frequência cardíaca fetal — Manual de gestação de alto risco (2022), item 6.4.
  2. Primeira hora — o diagnóstico, e a decisão de não internar

    Trabalho de parto prematuro é contração mais modificação cervical, e sem a segunda metade não há diagnóstico. Se o colo não mudou, meça-o por ultrassonografia transvaginal quando houver o exame disponível; onde não houver, use o tempo como exame e repita o toque algumas horas depois, de preferência com a mesma pessoa examinando. A alta de quem não está em trabalho de parto é conduta, e vem com orientação específica, não com um genérico 'qualquer coisa volte'. Enquanto isso, colha o que responde pela causa: hemograma, urina tipo 1, urocultura e, sempre que possível, swab vaginal e retal para estreptococo do grupo B.

    Prescrição
    • Critério diagnóstico: contrações uterinas associadas a modificações do colo — amolecimento, esvaecimento e dilatação — Manual de gestação de alto risco (2022), item 6.3. Os protocolos que numeram divergem: pelo menos 4 contrações em 20 minutos ou 8 em 60 minutos, com dilatação de ao menos 1 cm e esvaecimento, no Protocolo SES-DF (2018); os mesmos números de contração, mas com dilatação de ao menos 3 cm, ou esvaecimento acima de 50%, ou colo abaixo de 30 mm à ultrassonografia transvaginal, no guia do Einstein (2024).
    • Sem mudança cervical e com colo acima de 30 mm: observar de 4 a 6 horas, não administrar tocolítico nem corticoide, dar alta na ausência de progressão e devolver ao pré-natal em 1 a 2 semanas — guia do Einstein (2024), fluxograma.
    • A partir de 34 semanas, membranas íntegras, fase latente (menos de 3 contrações fortes em 10 minutos e dilatação abaixo de 4 cm): alta com orientação sobre os sinais de alerta — Protocolo SES-DF (2018), item 8.2.
    • Exames da admissão: hemograma, urina tipo 1 e urocultura, cultura vaginal e retal para estreptococo do grupo B e, quando disponível, ultrassonografia obstétrica — Manual de gestação de alto risco (2022), item 6.4. O guia do Einstein acrescenta proteína C-reativa e cardiotocografia a partir de 28 semanas.
    • Tratar a causa encontrada. Infecção urinária e bacteriúria assintomática têm capítulo próprio nesta apostila, e o tratamento delas é parte da conduta do trabalho de parto prematuro, não um adendo.
  3. Assim que a semana está definida — o corticoide, que é a primeira prescrição

    Esta é a inversão que o capítulo defende. A betametasona não entra depois que o tocolítico funcionou; ela entra assim que a idade gestacional está na faixa e não há evidência clínica de infecção intra-amniótica, mesmo que ainda haja dúvida se o parto vai acontecer. A razão é aritmética: o efeito máximo aparece de dois a sete dias depois da primeira dose, há algum efeito depois de 24 horas, e abaixo de 24 horas a eficácia é incompleta. Cada hora que se espera é hora que não volta. E há um dado que o guia do Sofia Feldman e a rotina da UFRJ registram e que muda o cálculo em quem parece que vai parir logo: a mortalidade neonatal é menor mesmo quando o parto ocorre em menos de 24 horas da dose. Prescrever é quase sempre melhor do que aguardar, e o pior desfecho possível é a mulher parir com a ampola ainda na bandeja.

    Prescrição
    • Betametasona 12 mg por via intramuscular, repetida em 24 horas — 2 ampolas de 1 mL por dose, da suspensão com 3 mg/mL de acetato mais 3 mg/mL de betametasona sob a forma de fosfato, o que dá 6 mg de betametasona por mL. Ciclo completo: 24 mg, 4 ampolas — Manual de gestação de alto risco (2022), quadro 1; bula profissional do Beta-Long.
    • Alternativa, quando não houver betametasona: dexametasona 6 mg por via intramuscular a cada 12 horas, em 4 doses, totalizando 24 mg. São 1,5 mL por dose da solução de 4 mg/mL — Protocolo SES-DF (2018), figura 4; HU Ana Bezerra (2021); Maternidade Escola da UFRJ; guia do Sofia Feldman. ⚠️ O quadro 1 do manual federal imprime, para a dexametasona, 6 mg a cada 24 horas por 2 dias, o que soma 12 mg — metade do ciclo, e metade da dose de betametasona impressa na linha de cima do mesmo quadro. A conta está detalhada nas notas do bloco anterior.
    • Faixa de idade gestacional: uso estimulado entre 24 e 34 semanas; fora dela, particularizado conforme o serviço — Manual de gestação de alto risco (2022), item 6.4.1. Os documentos assistenciais fecham a faixa em 33 semanas e 6 dias ou em 34 semanas completas, e dois deles admitem ciclo único entre 34 e 36 semanas e 6 dias em quem nunca recebeu corticoide.
    • Condição para prescrever: ausência de evidência clínica de infecção intra-amniótica — Manual de gestação de alto risco (2022), item 6.4.1.
    • Dose de resgate: admite-se repetir o ciclo em gestação com menos de 34 semanas, desde que a dose anterior tenha sido administrada há mais de 7 a 14 dias, e outros ciclos não são recomendados — Manual de gestação de alto risco (2022), item 6.4.5. Os demais documentos divergem quanto ao intervalo e quanto ao que se repete; a divergência está no bloco próprio.
    • Não prescrever corticoide em quem foi classificada como trabalho de parto improvável — guia do Einstein (2024), fluxograma.
  4. Logo em seguida — a tocólise, e o que exatamente ela está comprando

    Agora sim. A tocólise entra depois do corticoide porque ela existe para o corticoide, e para a estrada. O manual federal é explícito: nem todo trabalho de parto prematuro deve receber tentativa de inibição, e a avaliação é caso a caso. Elegível é a gestante com membranas íntegras, até 4 a 5 cm de dilatação e idade gestacional entre 24 e 34 semanas — com a ressalva de que o protocolo estadual do Distrito Federal fecha em 33 semanas e 6 dias e trata 34 semanas ou mais como contraindicação. A primeira escolha no Brasil é o nifedipino, e o seu uso como uterolítico é reconhecidamente fora do registro. Não se associam tocolíticos: a associação multiplica efeito adverso sem melhorar desfecho neonatal. Se o primeiro falhar, troca-se de classe — e reabre-se o diagnóstico, porque falha se associa com frequência a infecção intra-amniótica.

    Prescrição
    • Nifedipino, primeira escolha. Esquema do manual federal, opção A: 10 mg por via oral, repetível a cada 20 minutos por mais 2 vezes na primeira hora se as contrações persistirem (30 mg no total), seguido de 20 mg por via oral a cada 8 horas por 48 horas. Opção B: 20 mg por via oral na primeira hora e, como manutenção, 20 mg a cada 6 ou 8 horas nas 48 horas seguintes — Manual de gestação de alto risco (2022), item 6.4.2.
    • Modo de usar o nifedipino: comprimido simples no ataque; comprimido simples ou revestido de liberação retardada na manutenção; sempre engolido inteiro, sem mastigar; nunca por via sublingual — Manual de gestação de alto risco (2022), item 6.4.2.
    • Contraindicações do nifedipino: doenças cardiovasculares, disfunção hepática e hipotensão importante. Em hipertensas, sobretudo em uso de anti-hipertensivo ou com doses elevadas de nifedipino, pode ocorrer hipotensão com repercussão fetal. A associação com sulfato de magnésio potencializa o bloqueio neuromuscular e exige monitoração materna e fetal rigorosa — Manual de gestação de alto risco (2022), item 6.4.2.
    • Atosibana, quando disponível: bólus de 6,75 mg por via intravenosa em 1 minuto (1 frasco de 0,9 mL), seguido de infusão de 18 mg/h por 3 horas (24 mL/h da bolsa de 100 mL preparada com 2 frascos de 5 mL) e depois 6 mg/h (8 mL/h) por até 45 horas, preparando bolsas novas conforme necessário. Duração total do tratamento não deve exceder 48 horas — Manual de gestação de alto risco (2022), item 6.4.2; bula profissional do Tractocile. Não consta da Rename 2024.
    • Contraindicações à tocólise (manual federal): morte fetal intrauterina, anomalia fetal letal, vitalidade fetal alterada, quadros hipertensivos graves incluindo pré-eclâmpsia com achados graves, hemorragia materna com instabilidade hemodinâmica, corioamnionite e doenças cardíacas graves — Manual de gestação de alto risco (2022), item 6.4.2. As listas dos demais documentos estão no bloco anterior e acrescentam descolamento prematuro de placenta, placenta prévia sangrante e sofrimento fetal agudo, entre outros.
    • Não associar tocolíticos; havendo falha, tentar outro fármaco do grupo se não houver contraindicação, e reavaliar o diagnóstico — Manual de gestação de alto risco (2022), item 6.4.2; guia do Einstein (2024).
    • Duração: até 48 horas. Não usar tocolítico por qualquer via como tratamento de manutenção depois do episódio resolvido — Manual de gestação de alto risco (2022), itens 6.4.2 e 6.4.5.
  5. Se o parto parece próximo e a idade gestacional é menor — o sulfato de magnésio

    É outra prescrição, com outra finalidade e outra janela, e é a que mais se perde no meio da noite. O sulfato de magnésio aqui não serve para inibir contração — não tem atividade tocolítica demonstrada. Serve para reduzir paralisia cerebral no recém-nascido muito prematuro, e por isso a indicação depende de duas coisas ao mesmo tempo: idade gestacional abaixo do corte e alta probabilidade de o parto acontecer nas próximas horas. Se o parto deixar de ser iminente, a infusão se suspende. E, ao lado da bomba, uma ampola de gluconato de cálcio a 10% fica separada antes de a infusão começar, não depois de o reflexo patelar sumir.

    Prescrição
    • Indicação: até 31 semanas e 6 dias, quando se considerar que o parto tem alta probabilidade de ocorrer nas próximas 24 horas — Manual de gestação de alto risco (2022), item 6.4.3. O guia do Einstein estende a 32 semanas; o protocolo do Distrito Federal e o do HU Ana Bezerra fixam a mesma faixa do manual federal, de 24 a 31 semanas e 6 dias.
    • Ataque: 4 g por via intravenosa em 20 a 30 minutos. Com a solução a 50% (ampola de 10 mL com 5 g), são 8 mL diluídos até 20 mL, correndo a 60 mL/h. Com a solução a 10% (ampola de 10 mL com 1 g), são 40 mL — 4 ampolas — diluídos até 100 mL, correndo a 300 mL/h — Manual de gestação de alto risco (2022), item 6.4.3; Protocolo SES-DF (2018), figura 6.
    • Manutenção: 1 g por hora até o nascimento, com máximo de 24 horas; se o parto não ocorrer em 24 horas, suspender. São 5 g em 500 mL de soro fisiológico correndo a 100 mL/h — Manual de gestação de alto risco (2022), item 6.4.3.
    • Em prematuridade eletiva ou terapêutica, iniciar 4 horas antes do nascimento e manter até o parto — Manual de gestação de alto risco (2022), item 6.4.3.
    • Monitoração durante a infusão: diurese, reflexo patelar, frequência respiratória, frequência cardíaca e pressão arterial. Suspender a infusão se algum parâmetro se alterar e retomar quando se restabelecer — Manual de gestação de alto risco (2022), item 6.4.3; Protocolo SES-DF (2018), figura 6, que sugere frequência respiratória acima de 14 por minuto e diurese acima de 25 mL/h como alvos.
    • Uma ampola de gluconato de cálcio a 10% (10 mL, 1 g) disponível ao lado do leito, para a rara possibilidade de intoxicação grave — Manual de gestação de alto risco (2022), item 6.4.3.
    • Contraindicação: miastenia gravis — Manual de gestação de alto risco (2022), item 6.4.3. Cautela na associação com nifedipino, pelo risco de bloqueio neuromuscular potencializado.
  6. Em paralelo — a profilaxia para o estreptococo do grupo B

    Toda gestante em trabalho de parto prematuro entra na conta do estreptococo do grupo B, porque a prematuridade é, por si, indicação de profilaxia quando não há cultura recente. O manual federal descreve a lógica em três movimentos: colhe-se o material vaginal e anal, começa-se o antibiótico enquanto se aguarda o resultado, e o desfecho decide o que fazer com ele — se o trabalho de parto prematuro não for inibido, mantém-se até o parto; se a cultura vier negativa ou se a tocólise der certo, suspende-se. O rastreio, os esquemas, as alternativas em alérgicas e as janelas de validade da cultura pertencem ao capítulo de estreptococo do grupo B desta apostila, e este capítulo remete a ele em vez de repeti-lo. O que fica aqui é a decisão de iniciar, que é do plantão de obstetrícia e acontece nesta hora.

    Prescrição
    • Colher material vaginal e anal para cultura específica e administrar o antibiótico enquanto se aguarda o resultado — Manual de gestação de alto risco (2022), item 6.4.4.
    • Manter até o parto se o trabalho de parto prematuro não for inibido; suspender após a tocólise se a cultura for negativa ou se a inibição for bem-sucedida — Manual de gestação de alto risco (2022), item 6.4.4.
    • Os esquemas, as doses e a conduta na alergia à penicilina estão no capítulo de estreptococo do grupo B. Um dado de elenco que interessa a quem prescreve: a Rename 2024 traz benzilpenicilina potássica 5.000.000 UI em pó para solução injetável nos componentes Básico e Estratégico, mas não traz ampicilina nem clindamicina injetável — a apresentação injetável de clindamicina foi excluída do elenco por recomendação da Conitec.
  7. Antes de o parto começar — a transferência, que é a conduta que mais muda desfecho

    Aqui está a razão de existir das 48 horas, e é a parte que o interno costuma tratar como assunto administrativo. Um recém-nascido de 30 semanas nascido num hospital sem unidade neonatal precisa ser reanimado, aquecido, estabilizado e transportado por estrada por uma equipe que não é a que o assistiu; a mesma criança nascida dentro do hospital de referência atravessa um corredor. Transferir a gestante enquanto ela ainda está grávida — e não o recém-nascido depois — é a decisão isolada com maior impacto sobre o desfecho, e é por isso que o telefonema para a central de regulação é feito na primeira hora, e não quando a dilatação chega a 6 cm. A decisão de destino, com os critérios de estratificação de risco, é do capítulo de estratificação de risco gestacional desta apostila; a transferência intraútero, no meio do episódio agudo, é deste.

    Prescrição
    • Acionar a central de regulação assim que a idade gestacional e o diagnóstico estiverem definidos. O sistema logístico da Rede Alyne compreende a regulação e o transporte inter-hospitalar e prevê equipes especializadas em atendimento materno e infantil com cobertura de 24 horas por dia, 7 dias por semana, no complexo regulador — Portaria GM/MS nº 5.350/2024, art. 7ºC.
    • A maternidade ou hospital geral sem habilitação em alto risco é responsável pelo atendimento das intercorrências até a estabilização e a transferência segura, quando necessário — Portaria GM/MS nº 5.350/2024, art. 7ºA, § 2º. Ou seja: estabilizar e transferir não é favor, é atribuição declarada do ponto de atenção.
    • A vinculação da gestante ao local onde o parto será realizado começa no pré-natal, e não na madrugada da intercorrência — Portaria GM/MS nº 5.350/2024, art. 7º, § 1º, inciso V. Se a gestante já está vinculada, o telefonema é para a maternidade dela; se não está, o telefonema é para a regulação.
    • Iniciar o corticoide antes de embarcar, e não no destino. As horas de estrada contam para o relógio da maturação pulmonar apenas se a primeira dose já foi dada.
    • Registrar no documento de transferência: idade gestacional e a fonte dela, horário exato da primeira e da segunda dose de corticoide, horário de início e término do sulfato de magnésio, estado das membranas, resultado ou pendência da cultura para estreptococo do grupo B, antibiótico e horários, peso fetal estimado, e o exame de colo mais recente com a hora.
  8. As 48 horas seguintes — o parto que acontece, e a alta de quem não pariu

    Se a tocólise falhar ou estiver contraindicada, assiste-se ao parto, e o prematuro impõe cuidados próprios: ele é mais sensível a trauma e a anoxia. Se a tocólise funcionar, o episódio termina com uma alta que precisa carregar prevenção — porque quem teve um trabalho de parto prematuro tem risco aumentado de ter outro, e porque o que se prescreve na alta é o que sobra do episódio. Nos dois desfechos, o mesmo cuidado: nada de manter tocolítico, e nada de repetir corticoide semanalmente.

    Prescrição
    • Assistência ao parto prematuro: não há restrição ao parto vaginal em apresentação cefálica fletida; vigilância atenta do bem-estar fetal; cautela no uso de ocitocina e de analgésicos sistêmicos; anestesia raquidiana e peridural podem ser empregadas; manter as membranas íntegras o maior tempo possível; sem episiotomia de rotina — Manual de gestação de alto risco (2022), item 6.4.6.
    • Parto instrumental — fórceps ou vácuo — é contraindicado abaixo de 34 semanas; considerar clampeamento tardio do cordão se a condição materna e neonatal permitirem — guia do Einstein (2024), item 5.
    • Profissional treinado em reanimação neonatal presente ao nascimento. A reanimação em si é do capítulo de reanimação neonatal em sala de parto; o que é deste capítulo é garantir que a pessoa esteja na sala antes de o bebê nascer.
    • Após inibição bem-sucedida: avaliação diária da dinâmica uterina, da movimentação e da frequência cardíaca fetal e dos dados vitais; alta após 24 horas sem contrações e com corticoterapia completa, com orientação de mobilograma duas vezes ao dia e retorno imediato em caso de contrações rítmicas, perda de líquido, sangramento ou redução da movimentação fetal — Protocolo SES-DF (2018), item 10.
    • Não manter tocolítico por qualquer via como tratamento de manutenção; não manter antibiótico após a alta, mesmo com cultura positiva para estreptococo do grupo B; repouso restrito ao leito não tem efeito comprovado e acrescenta risco tromboembólico — Manual de gestação de alto risco (2022), item 6.4.5; guia do Einstein (2024), item 4.
    • Prevenção em quem já teve parto prematuro espontâneo: progesterona natural micronizada 200 mg por via vaginal, à noite, iniciada a partir de 16 semanas, independentemente da medida do colo, com avaliação seriada do comprimento cervical de 16 a 24 semanas — Manual de gestação de alto risco (2022), item 6.2. O protocolo do Distrito Federal usa 100 mg nessa indicação, de 24 a 33 semanas e 6 dias. A progesterona micronizada não consta da Rename 2024, o que significa que a prescrição sai do bolso da paciente ou de programa local.
    • Resgate de corticoide: admitido em gestação com menos de 34 semanas, com a dose anterior administrada há mais de 7 a 14 dias; outros ciclos não são recomendados e podem trazer repercussões negativas para o concepto — Manual de gestação de alto risco (2022), item 6.4.5.
09

Como saber se está funcionando

Depois que a prescrição está feita, o trabalho muda de natureza: passa a ser vigiar duas coisas ao mesmo tempo, o feto e o efeito adverso da droga que se acabou de dar. Os parâmetros abaixo são os que decidem continuar, suspender ou chamar.

Uma observação sobre o ritmo. Nenhum documento brasileiro consultado fixa a frequência de reavaliação do trabalho de parto prematuro com a precisão com que a diretriz nacional fixa a do parto a termo. O que existe é a orientação genérica do manual federal de adotar uma programação de controles maternos e fetais periódicos. Na ausência de régua, o que se faz é herdar a do parto a termo para os parâmetros fetais e usar a bula para os parâmetros de droga — e registrar no prontuário o intervalo escolhido, para que a equipe seguinte saiba de onde ele veio.

Dinâmica uterinaPalpação de 10 minutos a cada 30 a 60 minutos durante o ataque do tocolítico, depois a cada 2 a 4 horas

Esperado: Redução do número e da intensidade das contrações nas primeiras horas de tocólise

Se não melhora: Falha do tocolítico depois da dose máxima de ataque. O manual federal permite trocar de classe se não houver contraindicação, e proíbe associar. Antes de trocar, reabra o diagnóstico: a falha se associa a cultura positiva do líquido amniótico em quase 65% dos casos, segundo o guia do Einstein, e infecção intra-amniótica é contraindicação, não indicação de mais droga.

Colo (dilatação e apagamento)Ao diagnóstico e depois apenas por indicação clínica, evitando toques repetidos

Esperado: Estabilidade. Colo que não muda entre duas avaliações separadas por horas é o melhor sinal de que a tocólise comprou o que se queria

Se não melhora: Progressão apesar do tocolítico significa que o parto vai acontecer. Mude o objetivo: pare de tentar segurar, garanta que o corticoide foi dado, cheque se a neuroproteção está indicada pela idade gestacional, confirme a antibioticoprofilaxia e chame quem vai receber o recém-nascido. Se a transferência ainda for viável no tempo disponível, ela decide mais que qualquer droga.

Frequência cardíaca fetalAusculta seriada conforme a rotina do serviço; cardiotocografia a partir de 28 semanas e sempre que houver mudança clínica

Esperado: Linha de base de 110 a 160 batimentos por minuto, sem desacelerações

Se não melhora: Taquicardia fetal em vigência de beta-agonista pode ser efeito da droga — o manual federal usa batimentos abaixo de 180 por minuto como limite de titulação da terbutalina —, mas taquicardia fetal com febre materna é corioamnionite até prova em contrário. Alteração persistente muda a categoria do problema: vitalidade fetal alterada é contraindicação à tocólise em todos os documentos consultados.

Frequência cardíaca e pressão arterial maternasA cada 15 a 30 minutos durante o ataque do tocolítico e a cada 4 horas depois

Esperado: Pulso abaixo de 120 por minuto e pressão estável

Se não melhora: Com beta-agonista, o manual federal usa frequência cardíaca materna abaixo de 120 por minuto como teto de titulação, e interrupção do uso não é incomum. Com nifedipino, a hipotensão costuma ser leve e fugaz, mas em hipertensas em uso de anti-hipertensivo ou com doses elevadas pode ser importante e ter repercussão fetal. Queda sintomática manda parar e reavaliar, não reduzir a dose e seguir.

Reflexo patelar, frequência respiratória e diurese, durante o sulfato de magnésioA cada 4 horas enquanto a infusão correr, e imediatamente a qualquer queixa de fraqueza ou sonolência

Esperado: Reflexo patelar presente, frequência respiratória acima de 14 por minuto, diurese acima de 25 mL por hora

Se não melhora: Alteração de qualquer um dos três manda parar a infusão e retomá-la quando o parâmetro se restabelecer — é o que diz o protocolo do Distrito Federal, em caixa alta, e é uma das poucas ordens que os documentos brasileiros dão com essa ênfase. Depressão ou parada respiratória: gluconato de cálcio a 10%, uma ampola por via intravenosa, imediatamente. A ampola já deve estar separada antes de a infusão começar.

Temperatura materna e sinais de infecçãoA cada 4 horas, e sempre que houver taquicardia materna ou fetal

Esperado: Temperatura abaixo de 37,8 °C, útero indolor à palpação, líquido sem odor

Se não melhora: Febre com taquicardia materna e fetal, dor uterina ou líquido fétido faz o plano virar do avesso: corioamnionite contraindica a tocólise e contraindica o corticoide na leitura do manual federal, e a conduta passa a ser esvaziar o útero com antibiótico. Uma armadilha de exame: leucocitose isolada nas primeiras 24 horas após a betametasona é efeito do corticoide, com aumento de cerca de 30% na contagem total, e não infecção — valores acima de 20.000 por milímetro cúbico é que devem ser investigados.

O relógio do corticoideConferido em cada passagem de plantão e antes de qualquer transferência

Esperado: Primeira dose administrada e horário anotado; segunda dose programada para 24 horas depois

Se não melhora: O erro aqui não é clínico, é de registro, e é o mais frequente do capítulo: a segunda dose se perde na troca de plantão ou na transferência. Escreva o horário da segunda dose na prescrição, no cartão da gestante e no documento de transferência. Se o parto acontecer antes dela, isso não anula o benefício da primeira — mas ninguém deve descobrir que a segunda não foi dada lendo o prontuário depois do nascimento.

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Onde o erro machuca

Tocolisar e esquecer o corticoide

O dano: É a inversão de prioridades que dá título a este capítulo. A tocólise isolada não reduz mortalidade nem morbidade neonatais — o manual federal diz isso com todas as letras. O corticoide reduz. Quando o plantão inteiro se organiza em torno da bomba de infusão, a ampola de betametasona fica na bandeja e a única intervenção com efeito comprovado sobre o desfecho não acontece. O recém-nascido paga a diferença em síndrome do desconforto respiratório, hemorragia periventricular e enterocolite necrosante.

Como pegar a tempo: Inverta a ordem da prescrição: corticoide primeiro, tocolítico depois. Escreva a betametasona na primeira linha da folha, com o horário da segunda dose já anotado. E use a pergunta de conferência que cabe em cinco segundos na passagem de plantão: que horas foi a primeira dose?

Esperar a certeza de que o parto vai acontecer para dar a primeira dose

O dano: O corticoide leva tempo para agir: eficácia incompleta abaixo de 24 horas, efeito máximo de dois a sete dias. Quem espera a dilatação chegar a 4 cm para se convencer perdeu justamente as horas de que a droga precisava. E o cálculo é assimétrico: dar corticoide a quem não vai parir custa pouco; não dar a quem vai parir custa o pulmão de um prematuro.

Como pegar a tempo: A condição para prescrever não é a certeza do parto — são duas outras coisas: idade gestacional dentro da faixa e ausência de evidência clínica de infecção intra-amniótica. Se as duas estão satisfeitas, prescreva. A única situação em que se deixa de dar por prognóstico é a da mulher classificada como trabalho de parto improvável, com colo preservado, em que o guia do Einstein orienta expressamente não administrar.

Segurar o parto de quem precisa nascer

O dano: Este é o erro grave do capítulo e é o mais fácil de cometer, porque a mulher chega contraindo e o reflexo é inibir. Tocolisar uma corioamnionite mantém o feto num ambiente infectado e adia a única conduta útil, que é esvaziar o útero. Tocolisar um descolamento prematuro de placenta em fase inicial — que pode dar contrações sem sangramento evidente — mantém dentro do útero um feto que está perdendo oxigênio. Tocolisar uma pré-eclâmpsia com achados graves adia a interrupção que é o tratamento da doença materna.

Como pegar a tempo: Antes de prescrever o tocolítico, leia em voz alta a lista de contraindicações e responda a cada item. Depois faça a pergunta que resume as três armadilhas: existe alguma razão para este feto estar melhor fora do que dentro? Febre, líquido fétido, útero doloroso, sangramento, cardiotocografia alterada e pressão alta com sinais de gravidade são as respostas que mandam parar.

Manter o tocolítico por dias, ou mandar para casa com prescrição de manutenção

O dano: As horas já foram gastas no que serviam para comprar. Manter a droga depois disso acrescenta efeito adverso materno sem acrescentar benefício: o manual federal não recomenda tocolítico por qualquer via como manutenção depois do episódio resolvido, e o protocolo do Distrito Federal registra que não há evidência de que manter a tocólise até 34 semanas melhore o desfecho. Com beta-agonista, a exposição prolongada é francamente perigosa; com nifedipino, os esquemas brasileiros já chegam ao teto de bula em 24 horas.

Como pegar a tempo: Escreva a data e a hora de suspensão do tocolítico na própria prescrição, no momento em que o inicia. Quarenta e oito horas, e ponto. Na alta, a lista do que não se leva para casa é curta e vale conferir item a item: tocolítico, não; antibiótico, não, mesmo com cultura positiva; repouso absoluto, não.

Copiar a dose de dexametasona do quadro do manual federal

O dano: Na linha da dexametasona, o quadro 1 do manual federal traz 6 mg por via intramuscular a cada 24 horas por 2 dias, esquema que soma 12 mg — metade do ciclo de 24 mg que os outros cinco documentos brasileiros consultados prescrevem, e metade da dose de betametasona impressa na linha imediatamente acima, num quadro que apresenta as duas como alternativas equivalentes. Quem copia o quadro dá meio ciclo.

Como pegar a tempo: Prefira a betametasona, que é a primeira escolha em todos os documentos e cuja dose não diverge entre eles: 12 mg por via intramuscular, duas doses, com 24 horas de intervalo. Quando só houver dexametasona, use 6 mg a cada 12 horas em quatro doses. A conferência que resolve, em qualquer caso, é somar a dose total do ciclo e confirmar que deu 24 mg.

Deixar o telefonema para depois do parto

O dano: O recém-nascido prematuro transportado por estrada chega ao centro de referência em condição pior do que teria chegado dentro do útero, e o transporte neonatal consome equipe, incubadora e tempo que a maternidade de origem raramente tem à noite. A norma vigente coloca o transporte inter-hospitalar de gestantes e recém-nascidos que necessitem de cuidados intensivos dentro do sistema logístico da rede, com equipe de regulação 24 horas por dia — o recurso existe e costuma ser acionado tarde.

Como pegar a tempo: Faça a ligação na primeira hora, junto com a primeira prescrição, e não quando a dilatação avançar. Duas informações bastam para abrir a conversa com a regulação: a idade gestacional e o fato de que a paciente está em trabalho de parto prematuro em serviço sem leito neonatal. E confira, antes de tudo, se a gestante já tem maternidade de vinculação — nesse caso o telefonema tem endereço.

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O que dizer ao paciente e à família

Esta é uma conversa difícil por um motivo específico: a mulher chegou pedindo uma coisa — segurar o parto — e a resposta honesta é que talvez não dê, e que o que se vai fazer serve para outra coisa. Explicar isso sem parecer que se desistiu dela é a competência do bloco.

Vale uma regra de forma antes das falas: não prometa semanas. Prometa o que a conduta realmente entrega, que são horas, um remédio para o pulmão do bebê e, quando for o caso, um hospital diferente. Promessa de tempo que não se cumpre destrói a confiança justamente no momento em que ela mais será necessária.

Dizer o diagnóstico, depois do primeiro exame

"O exame mostrou que o seu colo já começou a mudar, e isso quer dizer que você está em trabalho de parto — com trinta semanas, que é cedo. Eu não vou te prometer que a gente segura, porque não depende só de mim nem só do remédio. O que eu posso é te contar, passo a passo, o que será feito daqui até de manhã, e a razão de cada coisa."

Não diga: Evite 'vamos inibir e você vai para casa'. Evite também o oposto, o silêncio técnico enquanto se instala o acesso — a mulher preenche o silêncio com o pior cenário que consegue imaginar.

Explicar por que a injeção importa mais que o soro

"Vou te dar uma injeção agora e outra igual amanhã, no mesmo horário. Ela não segura o parto: ela atravessa a placenta e faz o pulmão do seu bebê amadurecer mais rápido. Se ele nascer prematuro, esse remédio é o que mais muda a vida dele. Ele leva umas horas para começar a agir, e é por isso que eu vou dar agora, antes de saber se o parto vai acontecer ou não."

Não diga: Não chame de 'remédio para o pulmão' e pare aí — a mulher precisa entender que a segunda dose importa, senão ela pode recusar a transferência ou pedir alta antes das 24 horas.

Explicar o que a tocólise é e o que não é

"Também vou dar um remédio para diminuir as contrações. Ele não vai fazer você chegar aos nove meses; o que ele faz é ganhar tempo, mais ou menos dois dias. Esse tempo serve para a injeção do pulmão agir e, se for preciso, para a gente te levar para um hospital que tem UTI para bebê prematuro. É por isso que ele existe."

Não diga: Evite 'esse remédio segura o parto'. É a frase que produz a decepção da manhã seguinte e a sensação de que o tratamento falhou, quando ele fez exatamente o que devia.

Propor a transferência

"Este hospital não tem UTI para recém-nascido. Se o seu bebê nascer aqui, ele vai precisar ser levado de ambulância depois de nascer, e isso é pior para ele do que ir agora, dentro de você. Por isso eu já liguei pedindo vaga em um hospital a oitenta quilômetros. Eu sei que é longe da sua família e eu vou te ajudar a organizar isso — mas essa é a parte da conduta que mais muda o que vai acontecer com ele."

Não diga: Evite apresentar a transferência como falta de recurso ou como expulsão. Ela é tratamento, e é assim que precisa ser dita. E nunca diga 'não temos como te atender aqui' sem, na mesma frase, dizer para onde e por quê.

Passar o caso para quem vai receber o recém-nascido

"Trinta semanas e dois dias, datada por ultrassom de primeiro trimestre. Segunda gestação, um parto prematuro anterior de trinta e quatro semanas. Membranas íntegras, colo com dois centímetros e sessenta por cento apagado às duas e quarenta. Primeira dose de betametasona às três e dez; a segunda está prescrita para amanhã às três e dez. Sulfato de magnésio iniciado às quatro. Swab colhido, cultura pendente, antibiótico iniciado. Peso fetal estimado de mil quatrocentos e cinquenta gramas. Sem febre, sem líquido, sem sangramento."

Não diga: Não passe o caso em minutos relativos ('faz umas duas horas'). O neonatologista precisa de horários absolutos, porque o intervalo entre a dose de corticoide e o nascimento é o dado que ele vai usar. E não omita o que está pendente: cultura em andamento é informação, não lacuna.

Quando não se vai inibir

"O exame mostrou sinais de infecção dentro do útero. Nessa situação, segurar o parto piora as coisas para você e para o bebê — o lugar mais seguro para ele, agora, é fora. A gente vai começar antibiótico e acompanhar o parto. Eu sei que não é o que você esperava ouvir, e eu vou explicar cada passo enquanto a gente faz."

Não diga: Evite 'não tem mais o que fazer'. Há muito a fazer — antibiótico, corticoide quando indicado, vigilância, equipe de reanimação na sala. O que mudou foi o objetivo, não o cuidado.

A alta de quem não estava em trabalho de parto

"O seu colo não mudou nas horas em que você ficou aqui, e as contrações espaçaram. Isso quer dizer que não era trabalho de parto, e por isso eu não vou te dar remédio nenhum — dar remédio agora só traria efeito colateral. Você volta na hora, sem esperar consulta marcada, se as contrações ficarem de três em três minutos, se molhar a roupa com um líquido claro, se sangrar, ou se o bebê mexer menos do que costuma. E a consulta do pré-natal fica marcada para a semana que vem."

Não diga: Evite dar alta com 'foi só contração de treinamento' e nada mais. A alta segura é a que a mulher sai sabendo repetir, em voz alta, os quatro motivos para voltar.

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Onde bons médicos discordam

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.

Quantas vezes se repete o corticoide, e com que intervalo

Manual de gestação de alto risco, Ministério da Saúde, 2022: repete-se o ciclo inteiro, uma única vez, com intervalo de mais de 7 a 14 dias

O documento federal admite a repetição do ciclo, que chama de resgate, em gestação com menos de 34 semanas e desde que a dose anterior tenha sido administrada há mais de 7 a 14 dias. E fecha a porta na frase seguinte: outros ciclos não são recomendados e podem trazer repercussões negativas para o concepto. O intervalo, note-se, é dado como faixa — 7 a 14 dias — e não como número, o que deixa a decisão de quando repetir para quem prescreve.

BRASIL. Ministério da Saúde. Manual de gestação de alto risco, 2022, item 6.4.5.

HU Ana Bezerra / UFRN, protocolo PRT.DM.025, 2021: repete-se uma dose isolada de betametasona, com mais de 14 dias

O protocolo do hospital universitário federal escreve outra coisa: uma nova dose de 12 mg de betametasona pode ser realizada caso o último ciclo tenha ocorrido há mais de 14 dias. Não é um ciclo novo de duas doses — é uma dose só. E o intervalo é fixado em 14 dias, sem a faixa de 7 a 14 do documento federal.

Hospital Universitário Ana Bezerra (UFRN/Ebserh). PRT.DM.025 — Trabalho de parto prematuro, 2021, item 4.4.1.2.

Maternidade Escola da UFRJ: novo ciclo com mais de 14 dias, admitindo 7 conforme o quadro clínico, com teto de dois ciclos

A rotina da maternidade escola combina as duas posições anteriores e acrescenta um teto. Se a gestante tem menos de 34 semanas, segue em risco de parto pré-termo em até 7 dias e já recebeu um ciclo há mais de 14 dias, pode-se considerar um novo ciclo; e, conforme o quadro clínico, esse novo ciclo poderá ser administrado após 7 dias do anterior. No mesmo bloco, a rotina diz não recomendar ciclos repetidos regularmente, entendendo por isso mais de dois.

Maternidade Escola da UFRJ. Rotinas assistenciais: aceleração da maturidade fetal.

Guia do Hospital Sofia Feldman, revisão de 2008: repetição após 7 dias, antes de 32 semanas, com máximo de 3 doses

O guia mais antigo do conjunto é também o mais permissivo em número e o mais restritivo em idade gestacional: sugere repetir a dose se houver novo episódio com risco elevado de parto pré-termo antes de 32 semanas e após 7 dias da dose de ataque inicial, com um máximo de 3 doses, e determina que nesse caso a droga de escolha seja a betametasona 12 mg. O próprio guia reconhece, na frase anterior, que as evidências sobre doses repetidas eram conflitantes quando ele foi escrito.

Hospital Sofia Feldman. Guia de práticas clínicas: trabalho de parto prematuro, 2ª revisão, 2008.

Como decidir

A pergunta prática é uma só: esta gestante recebeu corticoide antes, quando, e ela vai parir nos próximos sete dias? Se a resposta ao 'quando' for menos de sete dias, todos os quatro documentos concordam em não repetir, e a decisão está tomada. Se for mais de quatorze dias, todos os quatro admitem alguma repetição, e a decisão também está tomada — o que resta é escolher entre uma dose e um ciclo, e o serviço costuma ter preferência escrita. A faixa em que a decisão é sua é a de sete a quatorze dias, e ali o que pesa não é a data: é a probabilidade de parto nos próximos sete dias. Diante de uma mulher com colo de 3 cm progredindo apesar do tocolítico, com dez dias da dose anterior, repetir tem lógica; diante de uma mulher estável, com colo parado e dez dias da dose, esperar mais alguns dias custa pouco e preserva a possibilidade de repetir na hora certa. Duas travas valem sempre: nenhum documento autoriza repetição semanal programada, e nenhum admite repetir acima de 34 semanas. E, na dúvida sobre quantos ciclos já foram dados, o que decide é o registro — se não estiver escrito, considere que houve, e não que não houve.

Corticoide entre 34 semanas e 36 semanas e 6 dias, o chamado prematuro tardio

Manual de gestação de alto risco, Ministério da Saúde, 2022: não recomenda, deixa particularizado

O documento federal delimita a faixa recomendada entre 24 e 34 semanas e diz que, fora dela, o uso deve ser particularizado de acordo com as características de cada serviço. Não há, no capítulo de prematuridade, nenhuma recomendação positiva de corticoide entre 34 e 36 semanas e 6 dias, nem menção ao risco de hipoglicemia neonatal que essa indicação carrega.

BRASIL. Ministério da Saúde. Manual de gestação de alto risco, 2022, item 6.4.1.

Maternidade Escola da UFRJ e HU Ana Bezerra: recomendam ciclo único em quem nunca recebeu, e declaram o preço

A rotina da maternidade escola é explícita: um ciclo único de betametasona é recomendado para gestantes entre 34 e 36 semanas e 6 dias em risco de parto pré-termo em 7 dias que não receberam dose prévia de corticoide, e o uso pode ser considerado também em cesárea eletiva nessa faixa, após discussão com a equipe. O protocolo do HU Ana Bezerra diz o mesmo e acrescenta a contrapartida: a corticoterapia melhora os resultados neonatais nessa faixa em fetos sem exposição prévia, aumentando, no entanto, o risco de hipoglicemia neonatal.

Maternidade Escola da UFRJ, rotinas assistenciais; Hospital Universitário Ana Bezerra (UFRN/Ebserh), PRT.DM.025, 2021, item 4.4.1.2.

Bula profissional do Beta-Long: o uso após a 32ª semana ainda é discutível

O texto registrado do medicamento vai na direção oposta às duas posições anteriores e recua ainda mais o limite. A posologia obstétrica da bula é escrita para a situação em que o parto antes da 32ª semana se torna necessário ou inevitável, e o item de advertências afirma que o uso profilático de corticosteroides após a 32ª semana de gestação ainda é discutível, devendo haver criterioso julgamento médico quanto aos benefícios e riscos potenciais para a mãe e o feto.

Bula profissional do Beta-Long (acetato de betametasona + fosfato dissódico de betametasona), União Química.

Como decidir

Duas perguntas resolvem quase todos os casos. A primeira: esta gestante já recebeu corticoide em algum momento desta gestação? Se já recebeu, as três posições convergem para não repetir nessa faixa, e a decisão está tomada. A segunda: o parto é realmente provável nos próximos sete dias, ou é uma possibilidade genérica? A recomendação dos dois serviços universitários é escrita para risco de parto em sete dias, e não para qualquer contração acima de 34 semanas — usá-la fora disso é expor à hipoglicemia neonatal um recém-nascido que nasceria bem. Se as duas respostas apontarem para prescrever, prescreva e avise a equipe neonatal, porque o preço da decisão é dela: o recém-nascido precisa de vigilância de glicemia. E, seja qual for a escolha, registre por escrito a razão — nesta faixa a conduta se afasta do manual federal, e conduta que se afasta do documento nacional precisa estar justificada no prontuário.

Até que semana se tocolisa, e o que fazer exatamente na semana 34

Manual de gestação de alto risco, Ministério da Saúde, 2022: elegíveis entre 24 e 34 semanas, com dilatação de até 4 a 5 cm

O documento federal descreve as candidatas à tocólise como pacientes com membranas íntegras, com até 4 cm a 5 cm de dilatação cervical e com idade gestacional entre 24 e 34 semanas, acrescentando que fora desses limites o uso deve ser particularizado. Lido ao pé da letra, o intervalo inclui a semana 34 e admite dilatações que os demais documentos consideram avançadas demais para tentar inibir.

BRASIL. Ministério da Saúde. Manual de gestação de alto risco, 2022, item 6.4.2.

Protocolo SES-DF, Portaria SES-DF nº 1.356/2018: tocólise até 33 semanas e 6 dias, e 34 semanas é contraindicação expressa

O protocolo estadual indica o tratamento farmacológico para tocólise em gestantes com idade gestacional até 33 semanas e 6 dias e coloca, no topo da sua lista de contraindicações, a idade gestacional igual ou maior que 34 semanas. Para a paciente de 34 semanas ou mais, com membranas íntegras e em fase latente, a conduta que ele prescreve é alta com orientação sobre sinais de alerta, depois de tratada eventual infecção.

DISTRITO FEDERAL. Secretaria de Estado de Saúde. Protocolo de atenção à saúde: trabalho de parto prematuro, Portaria SES-DF nº 1.356/2018, itens 8.2 e 8.3.

Bula profissional do Tractocile: indicação registrada entre 24 e 33 semanas completas, com dilatação de 1 a 3 cm

O texto registrado da atosibana no Brasil desenha a paciente com precisão maior que a de qualquer protocolo: contrações uterinas regulares de pelo menos 30 segundos, com frequência igual ou maior que 4 em 30 minutos; dilatação cervical de 1 a 3 cm, ou de 0 a 3 em nulíparas; esvaecimento igual ou maior que 50%; idade materna igual ou maior que 18 anos; idade gestacional entre 24 e 33 semanas completas; e frequência cardíaca fetal normal. O teto de dilatação é bem menor que o de 4 a 5 cm do manual federal, e o piso de idade materna não tem correspondente em documento brasileiro nenhum.

Bula profissional do Tractocile (acetato de atosibana), Laboratórios Ferring.

Como decidir

Na semana 34 a pergunta muda de forma: já não é 'consigo segurar', é 'o que eu ganho com mais 48 horas'. Some o que a tocólise compraria neste caso concreto. Se a gestante ainda não recebeu corticoide e o serviço adota a indicação de prematuro tardio, ganham-se as horas do ciclo. Se ela está num hospital sem leito neonatal e a referência fica a duas horas de estrada, ganha-se a transferência. Se ela já recebeu o ciclo completo e já está no hospital de referência, não se ganha quase nada — e aí a lista de contraindicações e os efeitos adversos da droga passam a pesar mais que o benefício hipotético. A dilatação entra como segundo filtro: o protocolo estadual e a bula da atosibana convergem em que a chance de sucesso cai muito acima de 3 a 4 cm, e o protocolo do Distrito Federal, quando a dilatação é maior, manda tentar avisando a paciente da menor probabilidade de sucesso — o que é uma forma honesta de dizer que a conversa faz parte da decisão. Registre a idade gestacional e a fonte dela antes de decidir: nesta semana, um erro de datação de sete dias inverte a conduta.

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O raciocínio, em voz alta

Danúbia Rondelli, 26 anos, 62 kg, segunda gestação, 30 semanas e 2 dias por ultrassonografia de primeiro trimestre. Um parto prematuro anterior, de 34 semanas. Chegou às 2h10 de quinta-feira com contrações iniciadas por volta das 21h. Hospital geral de noventa leitos, maternidade de risco habitual, sem unidade neonatal; a referência com terapia intensiva neonatal fica a oitenta quilômetros. Ao exame: pressão 112 por 70 mmHg, pulso 92, temperatura 36,8 °C, batimentos cardiofetais de 148. Especular sem líquido, sem sangramento, sem corrimento fétido. Toque com colo de 2 cm, 60% apagado, apresentação cefálica alta, bolsa íntegra. Palpação de dez minutos: três contrações de trinta e cinco segundos, útero relaxando entre elas. A obstetra, Dra. Wilma Tibúrcio, está a caminho e chega em quinze minutos.

  1. 2h45 — datar e olhar

    A primeira anotação do prontuário é a idade gestacional com a fonte: 30 semanas e 2 dias por ultrassonografia de primeiro trimestre, confirmada pela data da última menstruação no cartão. O especular já foi feito e não mostrou líquido — o que fecha a porta do capítulo de rotura prematura de membranas e mantém o caso aqui. O toque confirma a modificação cervical. Contração mais colo: é trabalho de parto prematuro, e não a categoria de falso trabalho de parto.

  2. 2h50 — o que se colhe, e por quê

    Hemograma, urina tipo 1, urocultura e swab vaginal e retal para estreptococo do grupo B, colhidos na mesma punção e no mesmo exame. A urina responde pela causa mais tratável — e o capítulo de infecção urinária na gestação explica por que ela aparece tanto aqui. O hemograma entra antes da betametasona, para que a leucocitose que virá depois não seja confundida com infecção.

  3. 3h10 — a primeira prescrição é o corticoide

    Betametasona 12 mg por via intramuscular, duas ampolas de 1 mL, com o horário escrito na prescrição e a segunda dose já programada para as 3h10 de sexta. Não há febre, o útero não é doloroso e o líquido não foi visto — não há evidência clínica de infecção intra-amniótica, que é a única condição que o manual federal impõe. A gestação está em 30 semanas, dentro da faixa em que todos os documentos concordam. Nada disso depende de saber se o parto vai acontecer.

  4. 3h20 — a ligação, antes da bomba de infusão

    Telefonema para a central de regulação com duas frases: paciente de 30 semanas e 2 dias, trabalho de parto prematuro instalado, hospital sem leito neonatal. O sistema logístico da Rede Alyne prevê equipe de regulação materno-infantil 24 horas por dia, e a maternidade de risco habitual tem, por norma, a atribuição de estabilizar e transferir. A vaga não sai de imediato, mas o pedido está registrado — e o que vem depois foi feito para dar tempo a ele.

  5. 3h30 — a tocólise, com o objetivo declarado

    Nifedipino 10 mg por via oral, comprimido engolido inteiro, repetível a cada 20 minutos por mais duas vezes na primeira hora se as contrações persistirem, seguido de manutenção. Antes de prescrever, a lista de contraindicações foi lida item a item e respondida: sem morte fetal, sem anomalia letal, batimentos normais, sem hipertensão, sem sangramento, sem febre nem líquido fétido, sem cardiopatia. Na prescrição, ao lado da manutenção, a data e a hora de suspensão: 48 horas.

  6. 3h40 — o antibiótico que não é da inibição

    O swab foi colhido e a cultura vai demorar. Prematuridade sem cultura recente é indicação de profilaxia para estreptococo do grupo B, e o antibiótico começa enquanto se aguarda o resultado — se a tocólise der certo e a cultura vier negativa, suspende-se. O esquema é o do capítulo de estreptococo do grupo B, e a decisão de iniciar é desta noite.

  7. 4h00 — o magnésio, que quase se perdeu

    Com 30 semanas e 2 dias, Danúbia está dentro da janela de neuroproteção — abaixo de 31 semanas e 6 dias. A segunda condição é a probabilidade de parto nas próximas horas, e o colo dela progrediu de 2 para 3 cm entre 2h40 e 4h. Sulfato de magnésio 4 g em 20 minutos, com 8 mL da solução a 50% diluídos até 20 mL, seguido de 1 g por hora — 5 g em 500 mL de soro fisiológico a 100 mL/h. A ampola de gluconato de cálcio a 10% fica separada na bandeja antes de a bomba começar, e reflexo patelar, frequência respiratória e diurese entram na folha de controle de quatro em quatro horas.

  8. 7h30 — o que aconteceu e o que se decide com isso

    As contrações caíram para uma em dez minutos. O colo, reavaliado por indicação clínica, segue em 3 cm. A pressão está em 104 por 62 mmHg, sem sintoma, e o pulso em 88. Reflexo patelar presente, diurese de 40 mL por hora. A regulação confirmou vaga na maternidade de referência para as 11h. A conduta agora é não fazer mais nada de novo: manter o nifedipino no esquema, manter o magnésio até o transporte, e garantir que a segunda dose de betametasona esteja anotada em três lugares — prescrição, cartão da gestante e documento de transferência.

  9. 11h00 — a transferência, e o que viaja com ela

    Danúbia embarca com o resumo escrito: 30 semanas e 2 dias por ultrassonografia de primeiro trimestre; um parto prematuro anterior; membranas íntegras; colo de 3 cm às 4h e mantido às 7h30; betametasona às 3h10, com a segunda dose devida às 3h10 de sexta; sulfato de magnésio iniciado às 4h; swab colhido às 2h50 com cultura pendente; antibiótico iniciado às 3h40; nifedipino em manutenção, com suspensão programada; peso fetal estimado de 1.450 g; sem febre, sem sangramento, sem perda de líquido. É o documento que decide o que a equipe de destino vai fazer nas primeiras horas — e é a única parte da noite que não pode ser refeita depois.

  10. Variação do caso — resposta e reavaliação

    Variação durante o preparo de Danúbia: as contrações diminuem e o colo permanece estável. Reavaliar segurança do transporte, comunicar a referência e conferir os horários das próximas doses. Resposta à tocólise facilita um objetivo específico; não garante que o risco de parto prematuro acabou.

  11. Variação do caso — quando mudar o plano

    Se surge febre, sangramento importante ou deterioração fetal, rever a indicação de ganhar tempo e acionar a equipe para o cuidado resolutivo. A próxima dose do corticoide deixa de governar o plano. A passagem de caso deve explicitar por que a conduta mudou.

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Faça você

Sexta-feira, 22h40, o mesmo hospital. Suzete Manzoli tem 31 anos, é diarista, terceira gestação, dois partos a termo anteriores. Está com 34 semanas e 4 dias por ultrassonografia de segundo trimestre feita com 19 semanas — não há exame de primeiro trimestre, e a data da última menstruação é incerta porque ela usava anticoncepcional injetável até três meses antes de engravidar. Chegou com contrações há quatro horas, que ela descreve como "de cinco em cinco minutos". À palpação de dez minutos você conta duas contrações de trinta segundos, e o útero relaxa bem entre elas. Pressão 118 por 76 mmHg, pulso 84, temperatura 36,6 °C, batimentos cardiofetais de 142 sem desacelerações. Ao especular, sem líquido nos fórnices, sem sangramento; corrimento branco, sem odor. Ao toque, colo com 2 cm, 50% apagado, apresentação cefálica no plano −2, bolsa íntegra. Ela nunca recebeu corticoide nesta gestação. A urina tipo 1 mostra dez leucócitos por campo, sem nitrito; a urocultura foi colhida. O hospital continua sem unidade neonatal, e a referência continua a oitenta quilômetros. A obstetra de sobreaviso atende ao telefone e pergunta o que você acha que deve ser feito.

  1. Primeiro

    Ela está em trabalho de parto prematuro? Diga qual metade do critério está presente, qual está em dúvida, e o que você faria nas próximas horas para resolver a dúvida sem internar ninguém à toa.

  2. Segundo

    Corticoide, sim ou não? A idade gestacional dela cai na faixa em que dois documentos brasileiros recomendam e o manual federal não. Diga o que pesa de cada lado neste caso concreto e qual pergunta você faria antes de decidir.

  3. Terceiro

    Tocólise e sulfato de magnésio: quais das duas se aplicam a 34 semanas e 4 dias, e por quê? E, se você decidir por alguma delas, o que exatamente essas horas comprariam neste hospital?

Ver como fecharíamos

Primeiro. Metade do critério está presente e a outra é duvidosa. Duas contrações em dez minutos equivalem, se mantida a frequência, a quatro em vinte; essa conta não afasta trabalho de parto. A dúvida depende da persistência das contrações e da evolução cervical; e o colo de 2 cm com 50% de apagamento em uma terceira gestação, com dois partos a termo anteriores, é um achado ambíguo, porque a multípara costuma carregar algum apagamento e alguma dilatação fora do trabalho de parto. A conduta que resolve a dúvida sem internar é a que o manual federal descreve e o guia do Einstein operacionaliza: observação por quatro a seis horas com reavaliação do colo pela mesma pessoa, e medida do comprimento cervical por ultrassonografia transvaginal se houver o exame disponível — colo acima de 30 mm torna o trabalho de parto improvável. Enquanto observa, trate o que aparecer: dez leucócitos por campo sem nitrito não fecham infecção urinária, mas a urocultura já foi colhida e o resultado muda a conduta. Uma ressalva importante sobre a idade gestacional: a datação por ultrassonografia de 19 semanas tem margem de cerca de uma a duas semanas, e este é um caso em que a semana decide — registre a incerteza. Segundo. Aqui está a divergência do capítulo. O manual federal delimita o corticoide entre 24 e 34 semanas e diz que fora disso o uso é particularizado; a rotina da Maternidade Escola da UFRJ e o protocolo do HU Ana Bezerra recomendam um ciclo único entre 34 e 36 semanas e 6 dias em quem não recebeu corticoide antes e tem risco de parto em sete dias, declarando o preço, que é o aumento do risco de hipoglicemia neonatal; e a bula da betametasona recua ainda mais, dizendo que o uso profilático após a 32ª semana ainda é discutível. Suzete satisfaz a condição principal das duas posições favoráveis: nunca recebeu corticoide. O que falta é a outra condição, e ela é a pergunta a fazer — o parto é provável nos próximos sete dias, ou isto vai se resolver e ela vai para casa? Se a observação mostrar colo que progride, a resposta é sim e a prescrição se justifica, com aviso à equipe neonatal para vigiar a glicemia do recém-nascido. Se o colo não mudar e as contrações espaçarem, a resposta é não, e prescrever seria expor sem ganho. Em qualquer dos dois casos, registre no prontuário a razão da escolha, porque nesta faixa a conduta se afasta do documento federal. Terceiro. O sulfato de magnésio está fora: a janela de neuroproteção termina em 31 semanas e 6 dias no manual federal e nos dois protocolos públicos, e mesmo o guia que mais a estende para em 32 semanas. Não há indicação com 34 semanas e 4 dias, e prescrevê-lo aqui seria expor a paciente ao risco de bloqueio neuromuscular sem nenhum benefício esperado. A tocólise é a decisão difícil: o manual federal inclui a semana 34 na faixa de elegibilidade, e o protocolo do Distrito Federal a lista como contraindicação expressa, mandando dar alta com orientação à paciente de 34 semanas ou mais em fase latente. O que desempata é somar o que as 48 horas comprariam neste hospital concreto — e aqui elas comprariam duas coisas reais: o ciclo de corticoide, se a decisão do segundo item for prescrever, e a transferência para um serviço com leito neonatal, que é o que falta a este hospital. Se o colo progredir, portanto, há razão para tocolisar; se não progredir, não há o que segurar. E o telefonema para a regulação se faz de qualquer maneira, antes de a decisão sobre a droga estar tomada, porque a vaga demora mais que a ampola.

Gabarito da questão de abertura
Comentário

Sem modificação cervical não há trabalho de parto prematuro, e o comprimento cervical acima de 30 mm torna o diagnóstico improvável no algoritmo do guia hospitalar consultado — que orienta expressamente não administrar tocolítico nem corticoide antenatal nessa situação, observar de quatro a seis horas e dar alta na ausência de progressão, com retorno ao pré-natal em uma a duas semanas. Não tratar é conduta, e exige tanta segurança quanto tratar. A alta segura, porém, não é silenciosa: a mulher precisa sair sabendo repetir os motivos para voltar imediatamente, que são contrações rítmicas e próximas, perda de líquido, sangramento e redução da movimentação fetal. Tocólise profilática e tocolítico domiciliar de manutenção não são recomendados em documento algum.

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Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
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Plano de revisão

Em 7 dias

A tocólise não melhora desfecho neonatal por si — ela compra as 48 horas de que o corticoide precisa para agir e de que a transferência precisa para acontecer. A ordem da prescrição segue dessa frase: datar a gestação, passar o espéculo antes do toque, confirmar contração mais modificação cervical, prescrever betametasona 12 mg por via intramuscular repetida em 24 horas, só então considerar o tocolítico, e ligar para a regulação na primeira hora. Contração sem colo modificado não é trabalho de parto e não recebe droga nenhuma. Aplicação comentada: Duas contrações em dez minutos são menos frequentes que quatro em vinte? Não. O dado que esclarece a dúvida é a persistência e a evolução, especialmente cervical.

Em 30 dias

Reveja as quatro janelas em semanas e o que cada uma manda fazer: corticoide de 24 a 34; tocólise até 33 semanas e 6 dias ou 34, conforme o documento, com membranas íntegras; neuroproteção com sulfato de magnésio até 31 semanas e 6 dias; e o intervalo que vai de 34 semanas até 36 semanas e 6 dias, no qual dois serviços universitários recomendam ciclo único de corticoide para quem nunca recebeu, e o manual federal não. Reveja também as contraindicações à tocólise, que são o ponto em que o erro custa caro — corioamnionite, descolamento prematuro de placenta, vitalidade fetal alterada e pré-eclâmpsia com achados graves são fetos que precisam nascer. E reveja o ciclo de dexametasona: 6 mg a cada 12 horas em quatro doses, somando 24 mg, e não os 12 mg que o quadro do manual federal imprime.

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Agora atenda

Duas e quarenta da manhã, maternidade de risco habitual sem leito neonatal. Uma gestante de trinta semanas com contrações e bolsa íntegra pede que você segure o parto dela. Você tem quinze minutos até a obstetra chegar, e a ordem em que você fizer as coisas vale mais do que qual droga você escolher. Atenda o caso e descubra o que você prescreve primeiro — e para quem você liga.