Ginecologia e Obstetrícia › Parto e assistência ao nascimento
Antes de dizer que parou
Distócias e parada de progressão (dilatação e descida)
O diagnóstico mais comum da sala de parto e o mais frequentemente errado: em que dilatação a fase ativa realmente começa, o que conta como contração adequada, quantas horas o critério exige, o que se corrige antes de decidir — e como se escreve uma indicação que a próxima gestação não herde sem justificativa.
Brasil. Ministério da Saúde. Diretrizes Nacionais de Assistência ao Parto Normal, aprovadas pela Portaria SAS/MS nº 353, de 14 de fevereiro de 2017 (Relatório de Recomendação nº 211, CONITEC)
Brasil. Ministério da Saúde. Diretrizes de Atenção à Gestante: a operação cesariana. Relatório de Recomendação nº 179, março de 2016 (CONITEC), aprovadas pela Portaria SAS/MS nº 306, de 28 de março de 2016
Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares. Hospital Universitário Walter Cantídio / Maternidade Escola Assis Chateaubriand, Universidade Federal do Ceará. Protocolo PRO.MED-OBS-MEAC.008 — Distócias, versão 4, emissão em 27 de fevereiro de 2023
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Zhang J, Landy HJ, Branch DW, Burkman R, Haberman S, Gregory KD, et al. Contemporary patterns of spontaneous labor with normal neonatal outcomes. Obstetrics & Gynecology. 2010;116(6):1281-7
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Responda antes de ler
Primigesta de 39 semanas chega à maternidade com contrações regulares e dolorosas, colo com 5 cm, totalmente apagado, feto tranquilizador. O protocolo do serviço define fase ativa a partir de 6 cm e orienta evitar internação abaixo desse valor; a diretriz nacional define trabalho de parto estabelecido a partir de 4 cm e manda admitir a partir daí. Qual é a leitura correta dessa divergência?
O paciente que você vai ver
São 3h40 de uma quinta-feira. A maternidade tem oito leitos obstétricos e uma obstetra por plantão; a desta noite, a Dra. Tercília Vasconcelhos, entrou no centro cirúrgico há vinte minutos com outra paciente. Antes de entrar, ela apontou para o leito 4 e disse: 'dá uma olhada nessa e me fala'. Na prancheta do leito 4, com a letra do plantão que saiu à meia-noite, está escrito: 'parada de progressão — avaliar cesárea'.
No leito 4 está Neuzimar Quixaba, 23 anos, primeira gestação, 39 semanas e 4 dias, idade gestacional firmada por ultrassonografia precoce. O pré-natal não registra intercorrência nenhuma. Chegou às 22h com contrações que tinham começado no fim da tarde e foi admitida com 4 cm, 80% apagada, cefálica, bolsa íntegra. O partograma foi aberto às 22h10. O toque de 1h50 registra 6 cm. O toque que você acaba de fazer, às 3h40, registra 6 cm.
Os números do resto da folha: batimentos cardiofetais entre 136 e 144 em todas as auscultas, sem desacelerações; pressão arterial 112 por 70; temperatura 36,7 °C; bolsa ainda íntegra. Peridural instalada à 0h30, a pedido dela. E, no campo da dinâmica uterina, a mesma palavra repetida em todas as linhas desde a meia-noite: 'presente'. Neuzimar está deitada de costas desde que a analgesia foi instalada, porque alguém disse que agora ela não podia mais levantar. Você palpa o abdome e encontra uma bexiga cheia dois dedos acima da sínfise.
Repare no que a folha diz e no que ela não diz. Não diz quantas contrações houve em dez minutos, nem quanto duraram, nem se o fundo uterino ficava duro à palpação — 'presente' não é um dado, é uma impressão anotada num campo que pedia um número. Não diz a variedade de posição em nenhum dos quatro toques. A altura da apresentação foi registrada uma única vez, às 22h, e nunca mais.
E é nessa distância que mora o assunto deste capítulo. A frase da prancheta tem a forma de um diagnóstico e a autoridade de um, mas nenhum dos critérios que a sustentariam foi verificado. Existem critérios, eles têm números, e eles exigem coisas que ninguém mediu: que a fase ativa tenha realmente começado, que a contração tenha sido documentada como adequada, que um número mínimo de horas tenha decorrido, e que o que dá para corrigir já tenha sido corrigido.
A decisão que está sendo tomada às 3h40 no leito 4 é, no agregado, a decisão que produz a maior parte das cesarianas de primeira gestação do país. Ela é tomada de madrugada, com o plantão cansado, sobre uma folha preenchida pela metade, e quase sempre por uma pessoa que não estava lá quando o trabalho de parto começou. E cada uma dessas decisões devolve à mulher uma cicatriz uterina que vai pesar em todas as gestações seguintes.
Este capítulo é sobre as próximas horas de Neuzimar. Ele percorre o que é progresso normal e por que a régua mudou, em que dilatação a fase ativa começa e quantos números diferentes o Brasil usa para responder isso, os três fatores do parto como método de investigação e não como decoração, os critérios de parada de dilatação e de parada de descida com a contração documentada, o que se corrige antes de decidir, a desproporção verdadeira — que é rara — e como se escreve uma indicação de cesariana de modo que a próxima gestação não herde uma cicatriz sem justificativa registrada.
Quem adoece disso
A taxa brasileira de cesariana e a decomposição completa da classificação de Robson são do capítulo 'Cesariana e parto vaginal operatório', na posição 3 desta apostila. O que interessa aqui é uma fatia dela: as cesarianas que não estavam decididas quando a mulher entrou pela porta, e que foram decididas durante um trabalho de parto que tinha começado sozinho, em quem nunca havia sido operada. Essa fatia é a que este capítulo pode mudar, e é a única em que o interno de plantão participa da decisão.
O recorte nacional mais recente do sistema de nascidos vivos, com 20.298.365 nascimentos entre 2014 e 2020, separa exatamente esses dois grupos. O grupo 1 — nulíparas de termo, feto único cefálico, trabalho de parto espontâneo — foi 17,5% dos nascimentos, com 45,2% de cesárea dentro do grupo. O grupo 3 — multíparas sem cesárea anterior, nas mesmas condições — foi 18,8% dos nascimentos, com 19,3% de cesárea. Multiplicando cada participação pela proporção interna, o grupo 1 contribui com 7,91 pontos percentuais e o grupo 3 com 3,63, somando 11,54 pontos percentuais sobre a taxa média de 56,1% do período. Uma em cada cinco cesarianas brasileiras é decidida no meio de um trabalho de parto espontâneo, em útero sem cicatriz.
O contraste entre esses dois grupos é o número mais instrutivo do capítulo, porque as duas populações são obstetricamente idênticas em tudo — termo, feto único, cefálico, trabalho de parto que começou sozinho — exceto na paridade. E a chance de terminar em cirurgia é 2,34 vezes maior na nulípara. Nenhuma diferença de bacia explica isso, porque a bacia da multípara de hoje é a mesma bacia da nulípara que ela foi. O que muda é o tempo que o serviço tolera, a expectativa de velocidade que a equipe carrega, e a facilidade com que se aceita, numa primeira gestação, a hipótese de que aquele corpo não vai dar conta.
Os rótulos que essas cirurgias recebem completam o quadro. Um estudo conduzido numa maternidade de São Paulo com mulheres do grupo 1, citado pelo recorte nacional, encontrou como principais indicações: sofrimento fetal em 37,4%, desproporção cefalopélvica em 37,2%, presença de mecônio em 8,6% e suspeita de macrossomia em 7,7%. Vale reparar em duas coisas antes de usar esses números. A primeira: os quatro rótulos somam 90,9%, o que deixa 9,1% para todo o resto — inclusive para as indicações que existem de verdade e não cabem nessa lista. A segunda: o artigo que cita esses percentuais não informa o denominador, isto é, quantas cesarianas foram classificadas, em que período e em qual serviço. Percentual sem denominador não se transporta para outro lugar, e é assim que ele costuma viajar.
Ainda assim, vale fazer a conta de ordem de grandeza, deixando claro que ela é uma leitura e não um dado publicado. Se a proporção medida naquela maternidade valesse para o país, 45,2% de cesárea no grupo 1 multiplicados por 37,2% de rótulo de desproporção dariam 16,8% de todas as nulíparas de termo em trabalho de parto espontâneo saindo do parto com esse diagnóstico — cerca de 2,94% de todos os nascimentos brasileiros. A desproporção verdadeira, aquela em que a passagem é mecanicamente impossível, é rara em populações sem raquitismo e sem sequela pélvica. A distância entre a frequência do rótulo e a frequência da entidade é o que este capítulo tenta encurtar.
Há uma consequência prática disso para quem está no internato agora, e ela é incômoda de dizer. No plantão, o rótulo chega antes do critério: a frase 'parada de progressão' já está escrita quando você abre a prancheta, e a conversa que se segue costuma ser sobre a hora da sala, não sobre a hora do último toque. Reverter essa ordem — critério primeiro, rótulo depois — é a competência inteira deste capítulo, e ela não exige nenhum equipamento: exige uma mão no fundo uterino, um relógio e a disposição de perguntar em voz alta qual critério está sendo usado.
Por que acontece o que acontece
Distócia não é uma doença: é o nome que se dá ao fracasso mecânico de um processo com três variáveis, e a graça do nome está em obrigar quem examina a perguntar de qual delas se trata — o que empurra, o que é empurrado, ou por onde. A mecânica do trabalho de parto normal — o tríplice gradiente descendente, a retração, os tempos do mecanismo e a leitura do partograma — é do capítulo 'Assistência ao trabalho de parto', na posição 1 desta apostila. O que este capítulo acrescenta é o que fazer quando esse processo trava: os três fatores deixam de ser uma lista para decorar e viram um roteiro de exame, porque cada um deles se examina de um jeito diferente e só um deles se corrige com frequência.
O motor é o fator que quase sempre está errado e quase sempre pode ser corrigido. Uma contração serve para dilatar quando é forte o bastante para transmitir pressão ao colo e frequente o bastante para que essa pressão se repita, e nenhuma dessas duas coisas se lê no rosto da mulher. A palpação com a mão espalmada por dez minutos mede a frequência com precisão e a duração com boa aproximação; a intensidade ela mede de forma semiquantitativa, pela resistência do fundo ao dedo. O que a palpação não produz é um número de intensidade — e é justamente um número de intensidade que os critérios internacionais de parada exigem quando falam em atividade uterina adequada. A régua brasileira resolveu esse impasse por outro caminho: define o alvo da condução pela frequência, quatro a cinco contrações em dez minutos, e não fixa unidade de intensidade nenhuma.
A régua de velocidade mudou porque a população e o manejo mudaram. As curvas clássicas descreviam mulheres de meados do século passado, com outra idade materna, outro peso, outra taxa de indução e sem analgesia regional difundida. A coorte contemporânea de referência, com 62.415 parturientes de dezenove hospitais entre 2002 e 2008, mostrou duas coisas que mudam a beira do leito: a dilatação de 4 para 5 cm pode levar mais de seis horas no percentil 95, e a de 5 para 6 cm mais de três horas, em nulíparas e em multíparas quase igualmente; e é só depois dos 6 cm que a curva ganha inclinação, e que a multípara passa a andar mais rápido que a nulípara. Traduzindo: a lentidão entre 4 e 6 cm é o comportamento esperado, não o desvio, e o relógio que se aplica a ela é o relógio errado.
O trajeto é o fator que mais aparece na conversa e menos aparece na realidade. A bacia não é um anel rígido: as articulações sacroilíacas e a sínfise ganham mobilidade sob influência hormonal, o sacro faz nutação e contranutação conforme a posição do quadril, e a hiperflexão das coxas sobre o abdome aumenta mensuravelmente o diâmetro utilizável do estreito inferior. Do outro lado, a cabeça fetal também não é rígida: as suturas permitem cavalgamento dos parietais e a moldagem reduz os diâmetros ao longo das horas. Um canal que muda de forma e um objeto que muda de forma explicam por que uma medida tomada no papel, com a mulher deitada e imóvel, prevê tão mal o que vai acontecer — e por que o único teste que decide é o trabalho de parto acompanhado.
No objeto, o que decide raramente é o peso: é a atitude e a variedade. Entre uma cabeça bem fletida e a mesma cabeça em atitude indiferente vão uns dois centímetros e meio no diâmetro que se oferece ao canal; para a defletida de segundo grau, vão quatro. São centímetros de diferença produzidos por graus de flexão, num canal em que centímetros decidem. A variedade de posição faz o mesmo por outro caminho: a occipitoposterior persistente e a occipitotransversa persistente prolongam o expulsivo porque exigem uma rotação maior ou uma acomodação que o estreito médio não oferece — e a transversa que persiste com dilatação avançada, com a cabeça travada no plano zero, é o retrato clássico da distócia do estreito médio.
Há um fenômeno que engana o dedo de quem examina e que precisa ser entendido, não decorado. Onde a apresentação sofre pressão, o couro cabeludo acumula edema: é a bossa serossanguínea, que cresce quanto mais longo é o trabalho de parto e quanto maior a obstrução. O dedo do examinador encosta primeiro nessa tumefação mole e a lê como se fosse o crânio, de modo que a apresentação parece ter descido enquanto o osso continua parado no mesmo plano. Uma descida que 'progride' acompanhada de uma bossa que cresce deve ser lida com desconfiança, e o parâmetro que resolve a dúvida não está dentro da vagina: é a palpação abdominal, contando quantos quintos do polo cefálico ainda se palpam acima da borda da sínfise. Osso não faz bossa.

A desproporção verdadeira existe e é rara, e o que a define é justamente o que a torna difícil de afirmar: a passagem é impossível mesmo com contração adequada, moldagem completa e tempo suficiente. Como cada um desses três elementos só pode ser verificado ao longo do trabalho de parto, a desproporção é um diagnóstico retrospectivo — feito depois de o teste ter sido corretamente conduzido, e nunca antes dele. É por isso que nenhuma medida de bacia, nenhuma altura materna e nenhuma estimativa de peso substituem a prova. E é por isso que o mesmo achado — 6 cm às 1h50 e 6 cm às 3h40 — pode significar desproporção numa mulher e bexiga cheia em outra: o achado é idêntico, o que difere é tudo o que foi verificado em volta dele.
Como se apresenta de verdade
Antes de diagnosticar parada, é preciso dizer em que fase a mulher está, há quanto tempo e sob quais condições. Você deve revisar dinâmica, posição, descida e fatores reversíveis, usando critérios explícitos. O rótulo escrito pelo plantão anterior é uma hipótese que precisa de dados, não uma indicação automática de cesariana.
A tradição brasileira classifica as distócias pelos três fatores: funcional quando o problema é o motor, do trajeto quando é a bacia ou as partes moles, e do objeto quando é o feto. A classificação é útil como roteiro de exame e inútil como diagnóstico isolado, porque a esmagadora maioria das paradas reais é funcional, corrigível e reversível — e porque as três se apresentam exatamente da mesma maneira: um número de centímetros que não mudou entre dois toques.
Percurso clínico: Demonstrar a evolução que sustenta distocia
Registre dilatação, apresentação óssea, posição, membranas, dinâmica e condições maternas e fetais. Use uma definição explícita de fase ativa e parada. Avalie causas e adequação das condições antes de indicar intervenção; o nome da distocia deve resumir evidências, não substituir observação.
Fase latente prolongada: o quadro que mais vira cesárea sem ser parada
A fase de latência é o período, não necessariamente contínuo, em que há contrações dolorosas e alguma modificação cervical, com dilatação lenta. Ela é longa, imprevisível e não tem duração padrão estabelecida — a régua nacional e a recomendação internacional dizem isso com todas as letras. A mulher em fase latente sofre, cansa, pede internação e recebe. E a partir do momento em que ela é internada e alguém abre uma folha de partograma, começa a correr um relógio que não foi feito para ela.
O quadro típico é reconhecível e você vai vê-lo muitas vezes: primigesta admitida com 3 ou 4 cm, contrações dolorosas mas irregulares, colo que muda pouco em quatro horas, partograma aberto na admissão, curva que cruza a linha de alerta na madrugada e uma anotação de 'evolução lenta'. Não há parada nenhuma: há uma mulher em fase latente sendo medida com o relógio da fase ativa. A cascata que se segue é sempre a mesma — amniotomia, ocitocina, mais dor, imobilidade, taquissistolia, alteração de batimentos, cirurgia.
O que separa a fase latente prolongada da parada de dilatação não é o tempo decorrido nem a angústia da equipe: é a dilatação em que a mulher está. Nenhum critério de parada de dilatação se aplica antes da fase ativa, em nenhum dos documentos que a definem — e como os documentos discordam sobre onde a fase ativa começa, discordam também sobre a partir de quando o diagnóstico pode sequer ser cogitado. Os cortes concorrentes estão na tabela do bloco de critérios e a discussão inteira está no bloco de divergências.
Há uma consequência prática que vale guardar, porque ela resolve metade dos casos que você vai ver: se a mulher está abaixo do corte de fase ativa que o seu serviço adota, a resposta correta para 'ela parou?' não é 'sim' nem 'não' — é 'a pergunta ainda não se aplica'. Dizer isso em voz alta, com o número na mão, é um ato clínico, e é frequentemente o único que separa aquela mulher de uma cirurgia.
Parada de dilatação: o que o critério exige, item por item
Parada de dilatação, no sentido estrito, é a ausência de progressão da dilatação em fase ativa apesar de atividade uterina adequada. A definição tem quatro exigências e nenhuma delas é dispensável: fase ativa confirmada, membranas rotas, atividade uterina documentada e um número mínimo de horas. O protocolo hospitalar brasileiro que escreve essa definição por extenso exige dilatação acima de 6 cm, rotura de membranas e ausência de progressão após quatro horas de atividade uterina adequada, ou pelo menos seis horas de ocitocina com atividade inadequada e nenhuma mudança cervical.
A régua federal chega ao mesmo lugar por outro caminho e com outros números. Ela não usa a palavra parada: fala em suspeita de falha de progresso, que se levanta com progressão da dilatação inferior a 2 cm em 4 horas, e em falha confirmada, que se estabelece quando um novo exame vaginal duas horas depois mostra progressão de menos de 1 cm. Some-se a etapa seguinte, que é a resposta à ocitocina avaliada com um toque quatro horas após o início da infusão, e o percurso completo do diagnóstico federal leva dez horas de relógio, não duas.
As duas formulações mudam o que precisa estar escrito no prontuário. A federal exige duas medidas de dilatação separadas por quatro horas, mais uma terceira duas horas depois. A hospitalar exige que a atividade uterina esteja documentada como adequada durante as quatro horas, o que significa palpações registradas, não a palavra 'presente'. Nas duas, o que invalida o diagnóstico é o mesmo: um intervalo curto demais entre os toques, uma dinâmica não medida, ou uma mulher que ainda não estava na fase ativa quando a contagem começou.
Vale nomear o que a parada de dilatação não é. Não é um toque sem mudança: a dilatação não avança de forma linear e intervalos sem mudança fazem parte de trabalhos de parto absolutamente normais. Não é a curva cruzando a linha de alerta, que manda reavaliar e não manda intervir. E não é a dilatação isolada: descida e rotação também são progresso, e a própria régua federal manda considerá-las no diagnóstico, junto com a mudança no padrão das contrações.
Parada de descida: o relógio do segundo período
No segundo período o problema muda de natureza. A dilatação acabou; o que se acompanha agora é a descida e a rotação, e o feto está sendo comprimido a cada contração, de modo que a reserva é finita e os prazos são curtos. A definição de parada de descida é a ausência de descida e de rotação, com contrações adequadas e membranas rotas, por um número de horas que varia com a paridade — e, em alguns documentos, com a analgesia.
O cronômetro começa onde quase ninguém anota. Ele não começa na dilatação total: começa na fase ativa do segundo período, definida como dilatação total com cabeça visível, contrações expulsivas ou esforço materno ativo. Mulher com dilatação total, sob peridural e sem puxo está na fase passiva, e a régua federal manda reavaliar em uma hora para identificar em qual fase ela está, não mandar fazer força. A hora do início do esforço é o dado mais importante do prontuário deste capítulo e é o que mais falta nele.
Os prazos federais separam nulíparas de multíparas: suspeita de prolongamento quando não há progresso de rotação ou descida após uma hora de segundo período ativo na nulípara e após trinta minutos na multípara; falha confirmada acima de duas horas na nulípara e de uma hora na multípara. Confirmada a falha, e não sendo o nascimento iminente, a conduta escrita não é operar: é solicitar avaliação por médico treinado em parto vaginal operatório, com revisão a cada quinze a trinta minutos. O instrumento, os pré-requisitos e a escolha entre fórcipe e vácuo são do capítulo 'Cesariana e parto vaginal operatório'.
Existe uma armadilha aritmética nesses prazos, e ela vale ser vista antes de você usá-los à beira do leito: as durações consideradas normais e os prazos de falha confirmada se sobrepõem dentro do mesmo documento, de modo que a mesma mulher, no mesmo minuto, cabe nas duas categorias. As contas estão nas notas do bloco de critérios. A conduta que sai disso não é escolher um número: é registrar a direção do movimento a cada avaliação, porque progresso de descida ou de rotação, com feto tranquilizador, sustenta a espera, e ausência dos dois não a sustenta em nenhuma das leituras.
Desproporção verdadeira: os sinais que a sugerem
Nenhum sinal isolado firma o diagnóstico, mas alguns achados, reunidos, deslocam a probabilidade. O primeiro é a dissociação entre dilatação e descida: colo que continua abrindo enquanto a apresentação não desce, porque a tração das contrações abre o colo mesmo quando o polo está obstruído. O segundo é a apresentação alta com dilatação avançada, confirmada pela palpação abdominal e não pelo toque. O terceiro é a moldagem intensa, com cavalgamento dos parietais palpável, acompanhada de bossa volumosa e crescente.
O quarto sinal é a persistência: variedade transversa que não roda apesar de horas de contração adequada, com a cabeça travada no plano zero, é o retrato da distócia do estreito médio. O quinto é o comportamento da própria contração — o quadro de hiperatividade uterina contra obstáculo, com útero que aperta cada vez mais sem que nada desça, é diferente da hipoatividade que responde a medidas simples, e é o cenário em que insistir com ocitocina troca uma cirurgia por uma rotura.
Do outro lado, vale saber o que não sugere desproporção, porque é o que mais se usa para afirmá-la. A pelvimetria clínica não é recomendada para prever falha de progressão nem para definir a via de parto na régua nacional da cesariana, e a pelvimetria por imagem aumenta a taxa de cirurgia sem melhorar desfecho neonatal. A altura materna e o tamanho do pé são nomeados e recusados por essa mesma régua. E a estimativa ultrassonográfica de peso a termo em gestação de baixo risco não é recomendada de rotina, com taxa de falso-positivo próxima de metade acima de 4.000 g.
Existe uma tensão real entre esses dois parágrafos, e ela não se resolve com uma frase: os protocolos estaduais e hospitalares brasileiros continuam ensinando a medir a bacia e publicando os cortes numéricos, enquanto a diretriz federal recusa a pelvimetria como preditor. Os dois lados, com seus documentos e suas datas, estão no bloco de divergências.
As situações em que os prazos e as causas mudam
Sob analgesia regional. A anestesia peridural deixa o primeiro período com a mesma duração e não eleva a chance de cirurgia, mas alonga o segundo e aumenta o uso de instrumento. Ela também apaga a sensação de puxo, o que obriga a usar o relógio no lugar do sintoma e a adiar o esforço por pelo menos uma hora após a dilatação completa. E cria um efeito de segunda ordem que produz distócia por conta própria: a mulher que acredita que não pode mais se mover passa horas em decúbito dorsal.
Multípara. Tudo é mais rápido e os prazos são metade dos da nulípara. A contrapartida é que a multípara que realmente para merece mais desconfiança, não menos: uma bacia que já deixou passar um feto raramente é o obstáculo, de modo que a atenção se desloca para a apresentação, para a variedade e para o tamanho relativo. E a multípara com parada de descida e hiperatividade uterina é a que corre risco de rotura.
Com cicatriz uterina. A condução com ocitocina existe e é aceita, mas a vigilância muda e o limiar para envolver o obstetra é outro; a indução com prostaglandina é proscrita. Toda a decisão de via na mulher com cesariana anterior é do capítulo 'Cesariana e parto vaginal operatório'. O que pertence a este é o alerta: dor que persiste entre as contrações durante a condução não é distócia, é suspeita de rotura, e a conduta é chamar imediatamente.
Trabalho de parto induzido. A falha de indução é uma entidade própria, com critérios próprios, e é do capítulo 'A indução começa na data', na posição 8. A fronteira é simples: enquanto o colo ainda está sendo preparado e a fase ativa não começou, o que pode falhar é a indução; depois que a fase ativa se estabeleceu, o que pode parar é o trabalho de parto, e os critérios passam a ser os deste capítulo.
Apresentação anômala e distócia de ombro. As apresentações anômalas, as deflexões e a distócia de ombro têm capítulo próprio nesta apostila, na posição 14. Aqui entram apenas como causa de parada por parte do objeto, e o capítulo remete a ele para o diagnóstico e o manejo de cada uma.
Quando o traçado muda a decisão. A vigilância fetal intraparto e a interpretação da cardiotocografia são do capítulo de avaliação da vitalidade fetal intraparto, na posição 15 desta apostila. Este capítulo entra apenas no ponto em que o traçado altera a conduta da parada: um padrão não tranquilizador encurta qualquer prazo de espera deste capítulo, e transforma uma discussão sobre tempo numa decisão sobre a via mais rápida.
Como fechar o diagnóstico
A investigação que decide este capítulo quase não tem exame complementar. Ela tem uma mão espalmada no fundo uterino, um relógio, um toque feito com os cinco campos preenchidos, uma palpação abdominal que confere o que o toque disse, e o prontuário lido de trás para a frente. O tropeço típico do interno aqui não é a falta de um exame: é tomar por dado o que foi anotado como impressão — 'dinâmica presente', 'evolução lenta', 'colo grosso' — e construir uma decisão cirúrgica em cima disso.
A ordem também importa, e ela é contraintuitiva. Antes de examinar o colo, mede-se a contração; antes de concluir sobre a altura, palpa-se o abdome; e antes de qualquer das duas coisas, reconstitui-se a linha do tempo, porque todo critério deste capítulo é uma diferença entre dois horários. Um toque sem o horário do anterior não informa nada sobre progresso, por mais completo que seja.
Contração adequada: o que se mede, e em que unidade
A técnica da palpação está descrita no capítulo 'Assistência ao trabalho de parto'; o que importa retomar aqui é o produto dela. Dez minutos ininterruptos de mão no fundo uterino devolvem três números: quantas contrações couberam na janela, quantos segundos cada uma levou do endurecimento até soltar, e o quanto o fundo resistiu ao dedo — se ainda afunda, se resiste, ou se fica pétreo. Os três números vão para o prontuário nessa forma. 'Presente' não é nenhum dos três.
Aqui existe um vão conceitual que o interno precisa conhecer para não ser pego por ele. Os critérios de parada de dilatação escritos nos protocolos hospitalares brasileiros exigem 'atividade uterina adequada' durante quatro horas. A régua federal, por sua vez, não define atividade adequada: define um alvo para a condução, que é chegar a quatro ou cinco contrações em dez minutos, e determina que os incrementos de dose não sejam mais frequentes do que a cada trinta minutos. Ou seja, o critério de frequência existe e é nacional; o critério de intensidade, com unidade, não existe em documento brasileiro em uso.
A consequência prática é direta: no Brasil, 'atividade adequada' é uma afirmação clínica sobre frequência, duração e consistência do útero à palpação, feita por quem examinou e assinada por quem examinou. Não é um número que a máquina produz. Escrever no prontuário 'quatro contrações em dez minutos, de cinquenta segundos, fortes à palpação, avaliadas às 3h40 por dez minutos' é o que sustenta um diagnóstico de parada; escrever 'dinâmica adequada' é o que o derruba, porque não diz o que foi medido nem quando.
Do lado oposto está a taquissistolia, que é mais que cinco contrações em dez minutos avaliadas ao longo de trinta minutos. Ela importa porque o sangue materno só atravessa a placenta enquanto o músculo está solto: apertar mais vezes encurta justamente as pausas em que o feto é oxigenado. Diante de uma parada aparente com ocitocina correndo, a primeira pergunta não é se falta dose: é se sobra. O útero que aperta sem parar contra um obstáculo é um quadro diferente do útero que não aperta o suficiente, e a conduta dos dois é oposta.
Descida real e descida aparente
A altura da apresentação se registra em plano de DeLee, com as espinhas isquiáticas como zero, e essa é a medida que entra no partograma. Mas ela é feita com um dedo que encosta na primeira coisa que encontra, e a primeira coisa que se encontra num trabalho de parto longo costuma ser o edema do couro cabeludo, não o crânio. O antídoto é a palpação abdominal, contando quantos quintos do polo cefálico ainda se palpam acima da borda superior da sínfise púbica.
A regra de leitura é simples e compara duas medidas em vez de confiar numa: quando o dedo anuncia um plano melhor e a mão sobre o abdome continua encontrando a mesma fração de cabeça acima do púbis, o que mudou foi a forma do polo, e não a posição dele. Duas avaliações consecutivas em que o plano de DeLee 'melhora' enquanto os quintos palpáveis não mudam descrevem uma bossa que cresce, e não uma descida que acontece. E o inverso também vale e é tranquilizador: quintos que diminuem confirmam descida real mesmo quando o toque muda pouco, porque o osso está atravessando.
Um segundo sinal do mesmo fenômeno é o cavalgamento das suturas, que se palpa como um degrau na linha média, onde um parietal monta sobre o outro. Moldagem discreta é normal e esperada; moldagem intensa e progressiva, junto com bossa volumosa e apresentação que não sai do lugar, é a assinatura de um polo que está sendo comprimido contra um obstáculo. Os três achados juntos — cavalgamento, bossa e altura estacionária pela palpação abdominal — pesam muito mais do que qualquer um deles isolado.
Vale registrar o que a ultrassonografia intraparto acrescenta e o que ela não acrescenta. Há protocolos brasileiros que descrevem medidas ecográficas de progressão e de distância entre a cabeça e o períneo, com valores de corte, e as usam para estimar a probabilidade de parto vaginal no segundo período prolongado. É recurso de serviço com quem saiba executá-lo, e não substitui nada do que este bloco descreve. O uso que tem sustentação mais firme na régua nacional é outro e é mais estreito: esclarecer a variedade de posição quando o exame clínico não resolve, antes de instrumentar.
Variedade de posição: o dado que explica a lentidão
De todos os campos do toque, a variedade de posição é o que mais se deixa em branco e o que mais renderia neste capítulo. Ela se determina localizando a fontanela posterior — pequena, triangular, formada pelo encontro de três suturas — e se nomeia pela relação do occipital com a pelve materna. Sem ela, uma parada não tem explicação possível: você sabe que o número não mudou, e não sabe por quê.
Duas variedades explicam a maior parte das lentidões do fim do trabalho de parto. A occipitoposterior persistente prolonga o expulsivo, dá dor lombar intensa, produz puxo precoce antes da dilatação completa e aumenta o trauma perineal. A occipitotransversa persistente indica que a rotação interna não aconteceu, e é a variedade típica da parada no plano zero. Nenhuma das duas é, por si, indicação de cesariana; as duas mudam a expectativa de tempo e o que se tenta antes.
O que se tenta é barato e reversível. Mudança de posição materna — qualquer posição que flexione o quadril e libere o sacro — favorece a rotação; quatro apoios e decúbito lateral do lado do dorso fetal são os mais usados. A rotação manual da cabeça para occipitopúbica está descrita em protocolo hospitalar brasileiro, é feita sob analgesia e não é procedimento de interno. E a analgesia, aqui, tem dupla função: alivia a dor lombar e relaxa o assoalho, o que facilita a acomodação.
Registre a variedade em todo toque, mesmo quando ela não muda — principalmente quando ela não muda. Duas horas de occipitotransversa documentada é um dado clínico com peso próprio, que muda a conversa com o obstetra de 'ela não dilatou' para 'a cabeça não rodou, apesar de contração adequada, e continua no plano zero'. A segunda frase indica o que investigar; a primeira só descreve o desânimo da equipe.
Os corrigíveis, e o que a evidência sustenta de cada um
A régua federal manda considerar, diante da suspeita de falha de progresso, uma lista que não é de exames: o ambiente onde a mulher está sendo assistida, a atitude dela, o estado emocional, o tipo de apoio físico e emocional que está recebendo, a paridade, a dilatação e as mudanças cervicais, as contrações uterinas, a altura e a posição da apresentação, e a necessidade de referência. Essa lista é a primeira etapa obrigatória do diagnóstico, e não uma cortesia antes dele.
Posição e mobilidade. Deambulação e posição vertical encurtam o trabalho de parto, e protocolos brasileiros as descrevem como medidas de efeito comparável ao dos ocitócitos na distócia funcional. O contrário também é verdade e produz distócia: restrição ao leito e monitoração eletrônica contínua aparecem nominalmente nas listas brasileiras de fatores que favorecem a distócia. A mulher sob peridural pode e deve mudar de posição no leito, e a crença de que não pode é um achado clínico corrigível em trinta segundos de conversa.
Bexiga e hidratação. Bexiga distendida ocupa espaço no trajeto e interfere no tônus; esvaziá-la, por micção espontânea ou cateterismo de alívio, é gratuito e imediato. A hidratação e a ingestão de líquidos são liberadas na mulher de risco habitual, e o jejum prolongado piora o cansaço sem reduzir complicação anestésica. Nenhuma dessas duas medidas resolve uma parada verdadeira; as duas resolvem uma parte considerável das paradas aparentes.
Dor, medo e ambiente. Medo, ansiedade e sensação de abandono liberam catecolaminas, que inibem a contração — o mecanismo está descrito nos protocolos brasileiros de distócia, e a analgesia é oferecida ali como tratamento da distócia de dilatação em mulher ansiosa, e não apenas como conforto. O pedido de analgesia da mulher é indicação suficiente em qualquer fase e em qualquer dilatação. Apoio contínuo, ambiente com pouco ruído e privacidade reduzem intervenção com efeito medido.
Amniotomia e ocitocina. São o degrau seguinte, não o primeiro. A amniotomia diante de suspeita de falha de progresso costuma adiantar o parto em torno de sessenta minutos e cobra em contrações mais intensas e mais doloridas — e não tem volta: do rompimento em diante começa a correr o tempo de membranas rotas, e a opção de esperar fica mais cara. A ocitocina entra depois da confirmação e por decisão do obstetra. E há uma advertência que a própria régua federal faz: informada a mulher, o uso de ocitocina depois da ruptura das membranas diminui o tempo até o parto, mas não muda o tipo de parto nem os outros desfechos.
O exame que não decide nada, e o insumo que pode faltar
Medir a bacia, com a mão ou com radiografia, não entra nesta investigação: a régua nacional da cesariana afasta as duas coisas tanto da previsão de falha quanto da escolha da via, e a revisão que a sustenta encontrou, no braço submetido à medida radiológica, mais cirurgia sem nenhum ganho em asfixia, em internação neonatal ou em deiscência de sutura. A recomendação internacional segue na mesma direção e desaconselha a medida clínica como rotina de admissão.
Altura da mulher e tamanho do pé também não servem de preditor — a régua nacional nomeia os dois e os afasta. E estimar o peso do feto por ultrassonografia, como rotina no termo de baixo risco, também não: metade dos fetos rotulados acima de quatro quilos não está acima de quatro quilos, e o rótulo, uma vez no prontuário, passa a empurrar a decisão sozinho. O peso estimado volta a pesar num único ponto, que é a escolha entre instrumento e cirurgia no expulsivo, e esse ponto é do capítulo 'Cesariana e parto vaginal operatório'.
O que de fato se procura é o que está faltando no prontuário: a hora do diagnóstico de fase ativa, a hora de cada toque com os cinco campos, a hora do início do segundo período ativo, a dinâmica com número e a variedade de posição. São informações de papel e de mão, não de máquina, e são elas que sustentam ou derrubam o diagnóstico.
Do lado do que o sistema fornece, há um achado que muda o modo de trabalhar. Interrogada termo a termo sobre o texto normalizado, a edição de 2024 da Relação Nacional de Medicamentos Essenciais não devolve nenhuma ocorrência de ocitocina — nem sob essa grafia nem sob a forma escrita com xis — e tampouco devolve ampicilina, cefazolina, cefalotina, metilergometrina nem terbutalina. O misoprostol consta, no componente básico, com uso restrito a estabelecimentos hospitalares cadastrados junto à autoridade sanitária. Isso não significa que a ocitocina falte na maternidade: significa que ela chega por outra via de financiamento e de compra, e que conferir se a ampola está no carro de parto é tarefa do serviço, não do elenco nacional.
E há o que a estrutura precisa ter para que uma prova de trabalho de parto seja segura: alguém que saiba conduzi-la, acesso a cesariana quando ela for necessária, e — o item que mais falta e menos se declara — alguém treinado em parto vaginal operatório, porque a falha confirmada do segundo período manda chamar quem instrumenta, e não manda operar. Saber, antes de o expulsivo travar, se existe essa pessoa no plantão é uma informação clínica e muda o momento de acionar o centro cirúrgico.
Da fase ao critério: o que se exige antes de escrever 'parada de progressão'
O que segue é a sequência do diagnóstico, do primeiro horário reconstituído até a frase que fica escrita no relatório, com os números que sustentam cada passo. Vale avisar de duas coisas. A primeira: nenhum dos números adiante indica cirurgia por conta própria — cada um deles dispara uma reavaliação por quem pode decidir a via, o que, para o interno, quer dizer chamar. A segunda: as contas dos documentos foram refeitas uma a uma, e várias não batem. O conjunto delas está nas notas ao fim deste bloco, com a aritmética escrita — inclusive as que bateram, porque saber que uma conta fecha vale tanto quanto saber que outra não fecha.
- 1Antes de qualquer exame, reconstitua a linha do tempo: hora do diagnóstico de fase ativa, hora de cada toque, hora do início do segundo período ativo. Todo critério deste capítulo é a diferença entre dois horários, e sem eles nenhum critério pode ser aplicado.
- 2Pergunte em que dilatação a mulher está e qual corte de fase ativa o seu serviço adota. Abaixo desse corte, a pergunta 'ela parou?' não se aplica — e dizer isso em voz alta é a conduta.
- 3Meça a contração você mesmo: mão espalmada, dez minutos, relógio. Anote número em dez minutos, duração em segundos e intensidade à palpação. Sem esses três números, não existe diagnóstico de parada, existe impressão.
- 4Corrija o corrigível agora, e não daqui a vinte minutos: posição e mobilidade, bexiga, hidratação, dor sem controle, apoio e ambiente. Todos são gratuitos, reversíveis e figuram na lista que a régua federal manda considerar antes de diagnosticar.
- 5Refaça o exame com os cinco campos — dilatação, apagamento, plano de DeLee, variedade de posição e membranas — e confronte a altura do toque com a palpação abdominal em quintos. Bossa que cresce simula descida; osso não faz bossa.
- 6Só então aplique o critério, e diga em voz alta qual documento você está usando. No primeiro período, a régua federal levanta suspeita com menos de 2 cm em 4 horas e confirma falha com menos de 1 cm no toque 2 horas depois.
- 7Respeite a etapa clínica que existe entre o diagnóstico e a sala cirúrgica: confirmada a falha, a mulher passa a ser assistida por médico obstetra, que revisa o diagnóstico e decide sobre as opções, incluindo amniotomia e ocitocina.
- 8Com ocitocina em curso, o relógio é outro: novo toque 4 horas após o início da infusão. Aumento menor que 2 cm exige nova revisão obstétrica para avaliar cesariana; aumento de 2 cm ou mais autoriza seguir observando.
- 9Chegando ao segundo período, ponha o cronômetro para correr da fase ativa dele, e não da dilatação total. Nulípara: suspeita quando 1 hora passa sem rotação nem descida, falha confirmada acima de 2 horas. Multípara: suspeita aos 30 minutos, falha confirmada acima de 1 hora.
- 10Confirmada a falha do segundo período e não sendo o nascimento iminente, a conduta escrita é avaliação por médico treinado em parto vaginal operatório, com revisão a cada 15 a 30 minutos. Esse degrau não se pula, e ele não equivale a indicar a cirurgia.
- 11Decidida a cirurgia, escreva a indicação com o que foi verificado: dilatação, horários, dinâmica medida, altura pela palpação abdominal, variedade, o que foi corrigido e o que foi tentado. É esse parágrafo que vai decidir a via da próxima gestação.
Fase por fase: o que se espera, o que define parada e o que se corrige antes
| Fase | O que se espera | O que define parada | O que se corrige antes |
|---|---|---|---|
| Primeiro período — fase latente | Contrações dolorosas com modificação cervical lenta; sem duração padrão estabelecida, e muito variável entre mulheres | Nada. Nenhum critério de parada se aplica antes da fase ativa, em nenhum dos documentos | Apoio, alívio da dor, ambiente, hidratação, mobilidade — e a decisão de não internar quem pode aguardar em casa com plano de retorno |
| Primeiro período — fase ativa | Dilatação progressiva, não linear; lentidão entre 4 e 6 cm é comportamento esperado e não desvio | Suspeita: progressão menor que 2 cm em 4 horas. Confirmada: progressão menor que 1 cm no toque feito 2 horas depois | Posição e mobilidade, bexiga, hidratação, dor sem controle, apoio e ambiente — tudo isso antes de amniotomia e antes de ocitocina |
| Primeiro período — sob condução com ocitocina | Chegar a 4 a 5 contrações em 10 minutos, com incrementos não mais frequentes que a cada 30 minutos | Toque 4 horas após o início da infusão: aumento menor que 2 cm exige nova revisão obstétrica para avaliar cesariana | Antes de subir o gotejamento, conferir taquissistolia, batimentos, posição e bexiga — o útero que aperta demais parece o que aperta de menos no papel |
| Segundo período — fase passiva | Dilatação total sem sensação de puxo, ou sob analgesia com cabeça ainda alta; nenhum relógio de expulsivo correndo ainda | Nada. Reavaliar em 1 hora para identificar em que fase ela está | Adiar o puxo por pelo menos 1 hora sob analgesia, posição de escolha, bexiga — e não comandar força |
| Segundo período — fase ativa, nulípara | Descida e rotação progressivas a cada avaliação, com o nascimento dentro dos prazos por paridade | Suspeita: sem progresso de rotação ou descida após 1 hora. Falha confirmada: acima de 2 horas | Dinâmica que enfraqueceu, bexiga, posição, exaustão, analgesia; amniotomia se as membranas estiverem íntegras |
| Segundo período — fase ativa, multípara | Descida e rotação progressivas, tipicamente mais rápidas | Suspeita: sem progresso após 30 minutos. Falha confirmada: acima de 1 hora | Os mesmos, com o prazo pela metade — e com desconfiança maior se a parada for real, porque aquela bacia já deixou passar um feto |
Os três fatores como roteiro de exame, e não como lista para decorar
| Fator | O que se examina, e como | O que se corrige | O que não se corrige |
|---|---|---|---|
| Motor — a contração | Palpação com a mão espalmada por 10 minutos corridos: número em 10 min, duração em segundos, intensidade pela resistência do fundo | Hipoatividade: posição, mobilidade, bexiga, hidratação, dor, medo. Depois disso, amniotomia e ocitocina por decisão do obstetra | Hiperatividade contra obstáculo: apertar mais não abre nada, e insistir troca uma cirurgia por uma rotura |
| Trajeto — a bacia óssea | Prova de trabalho de parto acompanhada. As medidas clínicas não são recomendadas para prever falha de progressão nem para definir a via | A posição materna: flexão do quadril e liberdade do sacro mudam mensuravelmente os diâmetros utilizáveis | A forma da bacia. Quando ela é de fato o obstáculo, o teste que revela isso é o próprio trabalho de parto, e a via é a abdominal |
| Trajeto — as partes moles | Toque: colo edemaciado, aglutinação de bordas, septo vaginal, tumor prévio. Exame da vulva e do períneo | Edema de colo por puxo precoce ou por compressão prolongada; aglutinação de bordas, que costuma ceder ao toque | Tumor prévio que não ascendeu, estenose cicatricial estabelecida, septo completo não ressecado antes da gestação |
| Objeto — o feto | Variedade de posição pela fontanela posterior; atitude (flexão ou deflexão); altura real por palpação abdominal em quintos; moldagem e bossa | Variedade posterior ou transversa: mudança de posição materna, analgesia, tempo. A rotação manual existe e não é procedimento de interno | Deflexão de segundo grau, situação transversa e apresentações que têm capítulo próprio nesta apostila |
| A mulher e o ambiente | Onde ela está, em que posição, há quanto tempo, com quem, com que dor e com que medo — a régua federal manda considerar cada um desses itens antes de diagnosticar | Praticamente tudo: imobilidade imposta, dor sem controle, ausência de acompanhante, ruído, jejum, medo não acolhido | O que não se corrige é a escassez de gente no plantão — mas isso se nomeia como limitação do serviço, e não como distócia da mulher |
Onde cada documento põe o corte
| O que se decide | Documento e data | O corte que ele fixa | O que isso muda no plantão |
|---|---|---|---|
| Começo da fase ativa | MS/CONITEC, Diretrizes Nacionais de Assistência ao Parto Normal, 2017 (rec. 90 e 91) | Trabalho de parto estabelecido com contrações regulares e dilatação progressiva a partir de 4 cm; admitir com 4 cm ou mais | É a régua do prontuário, da auditoria e da porta de entrada no SUS |
| Começo da fase ativa | OMS, Intrapartum care for a positive childbirth experience, 2018 (rec. 5) | Fase latente até 5 cm; fase ativa de 5 cm até a dilatação completa, no primeiro parto e nos seguintes | Calibra a expectativa: abaixo de 5 cm a lentidão é o esperado, não o desvio |
| Começo da fase ativa | Protocolo de Assistência Obstétrica — Rede Cegonha, Paraíba, 2020; protocolo de distócias do HC-UFC/MEAC, versão 4, 2023 | Fase ativa aos 6 cm; partograma não deve ser aberto antes disso, e a internação abaixo de 6 cm deve ser evitada | É o corte que os protocolos de serviço vêm adotando, e ele conflita com a régua federal de admissão |
| Duração da fase ativa do primeiro período | MS/CONITEC 2017 (rec. 92) | Primíparas: média de 8 h, pouco provável que passe de 18 h. Multíparas: média de 5 h, pouco provável que passe de 12 h | É um envelope de duração total, não uma velocidade obrigatória por hora |
| Duração da fase ativa do primeiro período | OMS 2018 (rec. 6) | Não costuma passar de 12 h no primeiro parto nem de 10 h nos seguintes, contadas a partir de 5 cm | Seis horas a menos que a régua nacional para a nulípara, com ponto de partida diferente |
| Velocidade mínima de dilatação | OMS 2018 (rec. 7 e 8) | O limiar de 1 cm por hora é impreciso para identificar risco e irrealisticamente rápido para algumas mulheres; dilatação mais lenta, isolada, não indica intervenção | Retira do 1 cm por hora o estatuto de critério, mantendo-o apenas como traço de registro |
| O que é contração adequada | MS/CONITEC 2017 (rec. 111) | Alvo da condução: aumentar a dose até haver 4 a 5 contrações em 10 minutos, com incrementos não mais frequentes que a cada 30 minutos | Critério de frequência. Nenhuma unidade de intensidade é fixada em documento brasileiro em uso |
| Parada de dilatação | Protocolo de distócias do HC-UFC/MEAC, versão 4, 2023 | Dilatação acima de 6 cm, membranas rotas, sem progressão após 4 h de atividade uterina adequada, ou ao menos 6 h de ocitocina com atividade inadequada e nenhuma mudança cervical | Exige a contração documentada como adequada, e não presumida — é o item que mais falta no prontuário |
| Falha de progresso no primeiro período | MS/CONITEC 2017 (rec. 103, 105 e 112) | Suspeita com progressão menor que 2 cm em 4 h; confirmada com menos de 1 cm no toque 2 h depois; resposta à ocitocina avaliada com toque 4 h após o início da infusão | O percurso completo do diagnóstico federal leva dez horas de relógio, não duas |
| Duração do segundo período | MS/CONITEC 2017 (rec. 121 e 122) | Duração normal: primíparas 0,5 a 2,5 h sem peridural e 1 a 3 h com; multíparas até 1 h sem e 2 h com. Falha confirmada acima de 2 h na nulípara e de 1 h na multípara | Duas escalas no mesmo documento, e elas se sobrepõem — ver as notas deste bloco |
| Duração do segundo período | OMS 2018 (rec. 33) | O nascimento costuma se completar em até 3 h no primeiro parto e em até 2 h nos seguintes | Um prazo único por paridade, sem separar quem está sob analgesia de quem não está |
| Pelvimetria e antropometria como preditores | MS/CONITEC, A operação cesariana, 2016 (rec. 22 e 23); OMS 2018 (rec. 11) | Pelvimetria clínica não recomendada para prever falha de progressão nem para definir a via; altura materna e tamanho do pé também não | Retira do exame os números que mais se usam para afirmar desproporção antes da prova de trabalho de parto |
Ocitocina de condução: o que a prescrição escrita em gotas realmente entrega
| Ritmo prescrito (1 ampola de 5 UI em 500 mL de soro fisiológico 0,9%) | Com equipo de macrogotas — 20 gotas por mL | Com equipo de microgotas — 60 gotas por mL | O que isso muda na decisão |
|---|---|---|---|
| Concentração da solução | 10 mUI por mL | 10 mUI por mL | A concentração não depende do equipo; o que depende é a velocidade com que ela entra |
| 8 gotas por minuto (início do esquema estadual) | 24 mL/h, ou 4,0 mUI por minuto | 8 mL/h, ou 1,33 mUI por minuto | A mesma prescrição entrega o triplo da dose de partida conforme o equipo pendurado |
| 16 gotas por minuto (primeiro incremento, aos 30 min) | 48 mL/h, ou 8,0 mUI por minuto | 16 mL/h, ou 2,67 mUI por minuto | O intervalo mínimo entre incrementos é de 30 minutos pela régua federal |
| 24 gotas por minuto (segundo incremento, aos 60 min) | 72 mL/h, ou 12,0 mUI por minuto | 24 mL/h, ou 4,0 mUI por minuto | O alvo não é a dose: é chegar a 4 ou 5 contrações em 10 minutos e parar de subir |
| 32 gotas por minuto (teto do esquema estadual) | 96 mL/h, ou 16,0 mUI por minuto | 32 mL/h, ou 5,33 mUI por minuto | O teto é alcançado em 1,5 hora; o toque de reavaliação só está previsto para 4 horas após o início |
| 64 gotas por minuto (mencionado como limite de alguns autores) | 192 mL/h, ou 32,0 mUI por minuto | 64 mL/h, ou 10,67 mUI por minuto | Faixa de esquema de alta dose, que reduz cesariana por distócia e aumenta hiperestimulação |
| Está na Relação Nacional de Medicamentos Essenciais 2024? | Nenhuma ocorrência, sob nenhuma das duas grafias | Nenhuma ocorrência, sob nenhuma das duas grafias | Chega por outra via de compra: conferir a ampola no carro de parto é tarefa do serviço, não do elenco nacional |
O valor exato que pertence a duas classes, e ele aparece duas vezes. A recomendação 91 da diretriz nacional de 2017 define a fase de latência como o período com contrações dolorosas e alguma modificação cervical 'incluindo apagamento e dilatação até 4 cm', e o trabalho de parto estabelecido como aquele em que há dilatação cervical progressiva 'a partir dos 4 cm'. Uma mulher com exatamente 4,0 cm satisfaz as duas definições ao mesmo tempo. Na recomendação imediatamente anterior, a de número 90, o mesmo documento parte a faixa de outro jeito e sem sobreposição: não estabelecido é dilatação menor ou igual a 3 cm, estabelecido é maior ou igual a 4 cm. Duas recomendações consecutivas, duas partições diferentes do mesmo eixo. O documento internacional de 2018 repete o defeito uma casa adiante: fase latente com dilatação 'até 5 cm' e fase ativa 'de 5 cm até a dilatação completa'.
Três cortes de fase ativa em vigor ao mesmo tempo no Brasil, com amplitude de 2 cm. A diretriz federal de 2017 fixa 4 cm; a recomendação internacional de 2018 fixa 5 cm; e dois documentos brasileiros de serviço — o protocolo estadual da Paraíba, de 2020, e o protocolo de distócias do hospital universitário do Ceará, versão 4, de 2023 — fixam 6 cm, com a instrução expressa de não abrir partograma antes disso. O conflito não é acadêmico: pela régua federal, a mulher com 4 cm deve ser admitida para assistência; pelo protocolo hospitalar, a internação abaixo de 6 cm deve ser evitada. A mesma mulher, com 5 cm, é admitida por um documento e mandada esperar pelo outro.
O segundo período, no documento federal, classifica a mesma mulher em duas categorias incompatíveis no mesmo minuto. A recomendação 121 dá a duração normal da fase ativa do segundo período: primíparas, de 0,5 a 2,5 horas sem peridural e de 1 a 3 horas com peridural; multíparas, até 1 hora sem e 2 horas com. A recomendação 122, na linha seguinte, fixa a falha confirmada acima de 2 horas na nulípara e acima de 1 hora na multípara, sem separar quem está sob analgesia. Fazendo a conta em minutos: a nulípara com peridural tem 60 minutos — dos 120 aos 180 — em que está simultaneamente dentro da duração normal e com falha confirmada; a nulípara sem peridural tem 30 minutos nessa condição, dos 120 aos 150; e a multípara com peridural tem 60 minutos, dos 60 aos 120.
O mesmo par de recomendações deixa faixas sem classe nenhuma. A recomendação 122 diz que, na maioria das nulíparas, o parto deve ocorrer no prazo de 3 horas após o início da fase ativa do segundo período. Mas a duração normal da nulípara sem peridural termina em 2,5 horas. Entre 2,5 e 3 horas há 30 minutos que já não são duração normal e ainda estão dentro do prazo em que a maioria pare. Na multípara sem peridural o vão é maior: a duração normal termina em 1 hora e o prazo de nascimento vai até 2 horas, deixando 60 minutos sem classe. Somando as quatro combinações de paridade e analgesia, há 150 minutos de sobreposição e 90 minutos de vão dentro de um único documento, em duas recomendações vizinhas.
A mesma recomendação numerada aparece com dois textos diferentes dentro do mesmo arquivo. No sumário de recomendações, a de número 103 lista 'dilatação cervical menor que 2 cm em 4 horas para as primíparas' e 'dilatação cervical menor que 2 cm em 4 horas ou um progresso lento do trabalho de parto para as multíparas'. No corpo do documento, a mesma recomendação 103 traz uma linha só, sem paridade: 'progresso da dilatação cervical inferior a 2 cm em 4 horas'. Quem lê o sumário tem um critério com uma cláusula aberta para multíparas; quem lê o corpo tem um critério único. A recomendação 107 sofre do mesmo problema em sentido inverso: no sumário ela manda repetir o exame vaginal duas horas depois 'independente do estado das membranas', e no corpo essa expressão desaparece.
O protocolo hospitalar de distócias, versão 4, define parada de progressão três vezes, com três réguas. Na seção de classificação: dilatação acima de 6 cm, com rotura de membranas, sem progressão após 4 horas de atividade uterina adequada, ou ao menos 6 horas de ocitocina com atividade inadequada. Na seção de termos correlatos, duas páginas adiante: 'parada de progressão (2 a 4 h de franco trabalho de parto, sem mudanças na dilatação ou 1 h de franco trabalho de parto sem descida)'. E na tabela final, sem relógio nenhum: 'dilatação mantida após dois ou mais toques sucessivos, mesmo com contrações adequadas'. Como o mesmo documento fixa o toque de rotina de 4 em 4 horas, 'dois toques sucessivos' equivale a 4 horas — o que faz a definição da tabela coincidir com a da classificação e discordar da dos termos correlatos, que autorizaria o diagnóstico com metade do tempo.
O mesmo protocolo adota a curva contemporânea na definição e mantém a régua clássica na tabela operacional. Ele abre citando o estudo de 2010 que redefiniu os padrões e afirma que as curvas antigas 'não condizem com aspectos obstétricos atuais'; adota 6 cm como início da fase ativa por causa dela; e registra que a dilatação de 4 para 5 cm pode levar mais de 6 horas. Duas páginas adiante, na seção do partograma, escreve que a fase de interesse é 'a de dilatação ou fase ativa com velocidade de dilatação cervical mínima de 1 cm/h', e a tabela de diagnóstico define fase ativa prolongada como 'velocidade da dilatação < 1 cm/h'. O limiar de 1 cm por hora é exatamente o que o documento internacional de 2018 declara impreciso para identificar risco e irrealisticamente rápido para algumas mulheres. O protocolo, portanto, recusa a régua velha na primeira página e a aplica na décima segunda.
Ainda no mesmo documento, a definição de fase ativa prolongada carrega uma faixa de fator 2 sem critério de escolha: 'velocidade da dilatação inferior a 1 a 2 cm em 2 horas'. Um centímetro em duas horas é 0,5 cm por hora; dois centímetros em duas horas é 1 cm por hora. A tabela final do mesmo protocolo fixa o limiar em menos de 1 cm por hora, isto é, no topo da faixa. Quem lê o texto corrido pode diagnosticar com o dobro de rigor de quem lê a tabela, e nada no documento diz qual das duas leituras vale.
Um erro de unidade por fator dez, que muda a frase de improvável para impossível. O mesmo protocolo define período expulsivo prolongado como 'descida < 1 cm ou ausente, depois de 60-90 min de puxos espontâneos e contrações uterinas regulares (> 3 contrações/ minuto)'. Três contrações por minuto seriam trinta em dez minutos. O padrão esperado da fase ativa é de três a cinco contrações em dez minutos, e mais de cinco em dez minutos já é taquissistolia — de modo que o valor impresso é seis vezes o limiar de hiperestimulação e dez vezes o que a frase evidentemente quis dizer. A frase foi conferida com o espaço e o hífen removidos do texto antes da comparação, para descartar artefato de extração, e está mesmo impressa assim: o erro é do documento, e não da leitura dele.
Dois documentos brasileiros medem a mesma bacia e deixam faixas inteiras sem classe. O protocolo hospitalar lista como valores de referência conjugata obstétrica de 11 cm, diâmetro bi-isquiático de 10,5 cm e bituberoso de 11,0 cm. O protocolo estadual define vício pélvico por conjugata vera obstétrica menor que 10 cm, bi-isquiático menor que 9,5 cm e bituberoso menor que 8 cm. Entre um e outro sobra, respectivamente, 1,0 cm, 1,0 cm e 3,0 cm de faixa que não é normal pelo primeiro nem anormal pelo segundo. Uma mulher com bituberoso de 9 cm está, ao mesmo tempo, abaixo do valor de referência de um documento e acima do corte de anormalidade do outro. E os dois números convivem com a régua federal de 2016, que não recomenda a pelvimetria clínica nem para prever falha de progressão nem para definir a via de parto.
Os limites de segundo período que o protocolo hospitalar adota ficam acima do percentil 95 que ele próprio cita, e a folga não é uniforme. Ele reproduz do estudo contemporâneo os percentis 95 do segundo período — 2,8 horas para nulíparas sem peridural, 3,6 com peridural, 1,3 para multíparas sem e 2,0 com — e, na mesma página, adota como limites aceitáveis 3, 4, 2 e 3 horas. As razões entre o limite adotado e o percentil citado são de 1,07, 1,11, 1,54 e 1,50 — ou seja, 12 e 24 minutos de folga para a nulípara, contra 42 e 60 minutos para a multípara. Arredondar para cima é uma escolha defensável; arredondar mais para quem tem menos margem fisiológica é uma escolha que o documento não explica.
A ocitocina de condução é prescrita no Brasil numa unidade que depende do material pendurado. A régua federal fixa o alvo — 4 a 5 contrações em 10 minutos — e o intervalo mínimo entre incrementos, 30 minutos, mas não traz dose de partida, nem teto, nem unidade. A dose aparece no protocolo estadual, escrita em gotas por minuto: 1 ampola de 5 UI em 500 mL, iniciando a 8 gotas por minuto até o máximo de 32. Recalculando: a solução fica a 10 mUI por mL, e 8 gotas por minuto num equipo de macrogotas dão 24 mL/h, isto é, 4,0 mUI por minuto; num equipo de microgotas, as mesmas 8 gotas por minuto dão 8 mL/h, isto é, 1,33 mUI por minuto. A mesma prescrição entrega três vezes mais ou três vezes menos conforme o equipo. Há ainda um descompasso de relógio: subindo de 8 a 32 gotas de 8 em 8, com 30 minutos entre incrementos, o teto do esquema é alcançado em 1,5 hora, e o toque de reavaliação previsto pela régua federal só acontece 4 horas após o início — a mulher passa 2,5 horas no teto antes de alguém checar se funcionou.
A régua brasileira sabe da mudança das curvas desde 2016 e não a incorporou às recomendações numeradas de 2017. A diretriz federal da operação cesariana, de março de 2016, escreve nas suas considerações que 'tendo em vista as evidências mais recentes sobre a evolução do trabalho de parto, com a curva de Zhang et al. (2010), limites menos rígidos para documentar falha de progressão podem ser adotados, não havendo obrigatoriedade de intervir em um trabalho de parto que se estende além dos limites habituais se mãe e concepto se encontram bem'. Onze meses depois, a diretriz nacional de assistência ao parto normal, aprovada pela Portaria SAS/MS nº 353 de 14 de fevereiro de 2017, publica o corte de 4 cm, o envelope de 18 horas e o partograma com linha de alerta de 1 cm por hora. As duas são do mesmo ministério e as duas seguem em vigor. Este é o achado central do capítulo: no Brasil, o documento que reconhece a curva contemporânea não é o que fixa a régua da assistência, e o que fixa a régua é anterior à incorporação.
Duas observações de datação e de licença, que mudam o peso do que se cita. O protocolo hospitalar de distócias declara emissão em 27 de fevereiro de 2023 e próxima revisão em 26 de fevereiro de 2025 — data que já passou, de modo que ele circula fora da própria janela de vigência que estabeleceu; e o histórico interno registra a versão 4 como de 15 de fevereiro de 2023, doze dias antes da emissão impressa no cabeçalho. No rodapé, a mesma linha traz duas cláusulas incompatíveis: 'Permitida a reprodução parcial ou total, desde que indicada a fonte e sem fins lucrativos' e, na sequência, 'Todos os direitos reservados'.
O que foi conferido e fechou, item por item. A conversão de gotas do protocolo estadual bate com o recálculo: 8 gotas por minuto num equipo de 20 gotas por mL são exatamente 24 mL/h, que é o número que o próprio documento imprime entre parênteses. A busca exata sobre o texto normalizado da Relação Nacional de Medicamentos Essenciais de 2024 confirma zero ocorrência de ocitocina, oxitocina, ampicilina, cefazolina, cefalotina, metilergometrina e terbutalina, com misoprostol, bupivacaína, lidocaína e nifedipino presentes — a mesma verificação foi feita para nomes que deveriam estar no elenco, como amoxicilina, penicilina e insulina, e todos apareceram, o que afasta falha de extração. A decomposição de Robson fecha com a taxa nacional: os grupos 1 a 5 somam 44,49 pontos percentuais sobre a taxa média de 56,1%, isto é, 79,3% de toda a cesariana do período. E os percentis do estudo contemporâneo citados pelo protocolo hospitalar batem com os do artigo original, casa por casa.
A conduta, hora a hora
Confirmar fase e reconstruir exames e horários comparáveis. Avaliar contrações, membranas, posição, descida, analgesia e condição materna e fetal. Corrigir fatores reversíveis e acompanhar quando seguro, aplicando o critério do protocolo para demora ou parada. Alteração de segurança pode indicar resolução antes desses prazos; não esperar um número para tratar uma emergência.
Duas coisas atravessam todos os marcos. Uma: escolher a via não cabe ao interno em nenhuma das situações descritas aqui; cabe a ele medir o que ficou sem medida, desfazer o que é reversível, conferir o critério e acionar quem decide no momento certo. A outra: nada disso vale sem explicação prévia à mulher e sem registro posterior, com os horários — sem eles, nenhuma das discussões deste capítulo pode sequer ser tida.
Ao receber o caso — antes de tocar, antes de concordar
A primeira coisa a fazer não é examinar: é reconstituir a linha do tempo. Procure no prontuário a hora em que a fase ativa foi diagnosticada, a dilatação de cada toque com a hora de cada um, a hora do início do segundo período ativo se ela já estiver nele, e o que foi anotado como dinâmica. Some a isso a leitura do cartão de pré-natal e a história do trabalho de parto contada por ela. Só depois disso examine. E não escreva 'parada de progressão' como se fosse um diagnóstico herdado: escreva o que você encontrou, com hora, e o que ainda falta encontrar.
Prescrição- Diante da suspeita de falha de progresso no primeiro período, levar em consideração o ambiente onde a mulher está sendo assistida, a atitude dela, o estado emocional, o apoio físico e emocional recebido, a paridade, a dilatação e as mudanças cervicais, as contrações, a altura e a posição da apresentação e a necessidade de assistência profissional apropriada — MS/CONITEC 2017, rec. 102.
- Registrar as observações do primeiro período no ritmo da diretriz: frequência das contrações de hora em hora, pulso de hora em hora, temperatura e pressão arterial de 4 em 4 horas, exame vaginal de 4 em 4 horas ou por indicação clínica — MS/CONITEC 2017, rec. 93.
- Não abrir nem alimentar partograma na fase de latência: a folha se abre ao diagnóstico de fase ativa. O acompanhamento e a leitura do partograma são do capítulo 'Assistência ao trabalho de parto', na posição 1 desta apostila.
Nos dez minutos seguintes — medir a contração
Ponha a mão espalmada no fundo uterino, sem apertar, e fique dez minutos inteiros, cronometrando. Conte as contrações, cronometre a duração de cada uma do início do endurecimento ao relaxamento e classifique a intensidade pela resistência do fundo ao dedo. Anote os três números com a hora. Essa é a informação que falta em praticamente todo prontuário de 'parada de progressão' que você vai ler, e sem ela o diagnóstico não existe — nem no critério federal, que fala em mudanças na intensidade, duração e frequência, nem no hospitalar, que exige atividade uterina adequada documentada.
Prescrição- Alvo da condução com ocitocina, quando ela vier: 4 a 5 contrações em 10 minutos, com incrementos de dose não mais frequentes do que a cada 30 minutos — MS/CONITEC 2017, rec. 111.
- Taquissistolia — mais de 5 contrações em 10 minutos avaliadas ao longo de 30 minutos — com ocitocina em curso: reduzir ou suspender a infusão, decúbito lateral esquerdo e reavaliar os batimentos antes de qualquer outra coisa.
- Não prescrever líquidos endovenosos com a finalidade de encurtar o trabalho de parto — OMS 2018, rec. 32. Hidratação por via oral é liberada na mulher de risco habitual.
Imediatamente — corrigir o corrigível
Esgote o que é gratuito e reversível antes de qualquer conversa sobre via de parto, e faça isso agora, não daqui a vinte minutos. Levante a mulher ou mude a posição dela no leito, esvazie a bexiga, ofereça líquidos, chame o acompanhante para dentro, reduza o ruído do quarto, e pergunte diretamente do que ela está com medo. Se ela está sob peridural e acredita que não pode mais se mover, desfaça essa crença: ela pode mudar de decúbito, e a imobilidade prolongada é ela própria um fator de distócia listado nos protocolos brasileiros.
Prescrição- Encorajar a movimentação e a adoção das posições mais confortáveis no trabalho de parto — MS/CONITEC 2017, rec. 101.
- Analgesia a pedido da mulher: o pedido é indicação suficiente, independentemente da fase do parto e do grau de dilatação — MS/CONITEC 2017, rec. 47 e 48. Em mulher ansiosa com distócia de dilatação, a analgesia entra como tratamento e não apenas como conforto.
- Esvaziamento vesical por micção espontânea ou, se ela não conseguir urinar, cateterismo de alívio — a bexiga distendida ocupa espaço no trajeto e interfere no tônus.
- Oferecer apoio e controle efetivo da dor a todas as mulheres com falha de progresso no primeiro período — MS/CONITEC 2017, rec. 108.
Depois de corrigir — refazer o exame direito
Refaça o toque com os cinco campos e escreva os cinco: dilatação em centímetros, apagamento, altura em plano de DeLee, variedade de posição pela fontanela posterior e estado das membranas, com a cor do líquido se rotas. Em seguida palpe o abdome e conte quantos quintos do polo cefálico ainda se palpam acima da sínfise, e confronte esse número com o que o dedo disse. Se a altura pelo toque melhorou e os quintos não mudaram, o que cresceu foi a bossa. Anote os dois achados, um ao lado do outro, com a hora.
Prescrição- Exame vaginal de 4 em 4 horas, ou fora disso por indicação clínica ou a pedido da mulher — MS/CONITEC 2017, rec. 93. Encurtar o intervalo para 'ver se andou' encontra intervalos naturais sem mudança e fabrica paradas.
- Depois da rotura das membranas, quanto mais toques, maior a associação com sepse neonatal: cada exame a mais precisa de um motivo declarado por escrito.
- Ultrassonografia antes de instrumentar, quando houver dúvida clínica sobre a variedade de posição. Fora dessa indicação, não há evidência suficiente para o uso rotineiro de ultrassonografia para avaliar estação, flexão e descida no segundo período.
Só agora — aplicar o critério, em voz alta
Com a linha do tempo reconstituída, a dinâmica medida e o exame refeito, aplique o critério e diga qual documento você está usando. Duas perguntas resolvem quase tudo. A primeira: ela está na fase ativa pelo corte que este serviço adota? Se não, a pergunta sobre parada ainda não se aplica, e isso é a conduta. A segunda: quantas horas se passaram, com que dinâmica documentada, desde qual toque? Enquanto qualquer um dos elementos do critério estiver faltando, o que existe é progresso lento sob observação, e não parada.
Prescrição- Primeiro período, suspeita de falha de progresso: progressão da dilatação inferior a 2 cm em 4 horas, considerando também descida e rotação do polo cefálico e mudanças na intensidade, duração e frequência das contrações — MS/CONITEC 2017, rec. 103.
- Primeiro período, falha confirmada: exame vaginal 2 horas depois com progressão da dilatação menor que 1 cm — MS/CONITEC 2017, rec. 105.
- Segundo período: suspeita de prolongamento sem progresso de rotação ou descida após 1 hora na nulípara e após 30 minutos na multípara; falha confirmada acima de 2 horas e de 1 hora, respectivamente — MS/CONITEC 2017, rec. 122.
- Nenhum desses números é, sozinho, indicação de cesariana: todos mandam envolver quem tem competência para decidir a via.
A etapa que existe entre o diagnóstico e a sala cirúrgica
Confirmada a falha, a mulher passa a ser assistida por médico obstetra, que revisa o diagnóstico e decide entre as opções — e existe uma etapa inteira de tratamento clínico antes da cirurgia. A amniotomia vem primeiro se as membranas estiverem íntegras, com a mulher informada de que ela encurta o trabalho de parto em torno de sessenta minutos, com o preço de contrações mais fortes e mais doloridas, das contrações. Depois dela, a ocitocina, com o alvo de frequência e o intervalo mínimo entre incrementos. E então um prazo, que é o que fecha a etapa: um toque quatro horas após o início da infusão. Nada produz tantas cesarianas evitáveis quanto saltar esse trecho do percurso.
Prescrição- Diante da suspeita de falha de progresso no primeiro período, considerar amniotomia se as membranas estiverem íntegras, explicando o procedimento — MS/CONITEC 2017, rec. 104.
- Confirmada a falha de progresso, a mulher deve ser transferida para assistência sob responsabilidade de médico obstetra, que revisa o diagnóstico e decide sobre as opções, incluindo o uso de ocitocina — MS/CONITEC 2017, rec. 106.
- Esquema estadual de condução: 1 ampola de ocitocina (5 UI) em 500 mL de soro fisiológico 0,9%, iniciando a 8 gotas por minuto, com aumento gradual a cada 30 minutos até o máximo de 32 gotas por minuto — Protocolo de Assistência Obstétrica, Rede Cegonha (Paraíba, 2020). A conversão para mUI por minuto está na tabela deste capítulo, e depende do equipo.
- Com ocitocina em curso: monitoração fetal contínua ou mais frequente, e oferecer analgesia peridural se disponível — MS/CONITEC 2017, rec. 109 e 110.
- Toque 4 horas após o início da ocitocina: aumento menor que 2 cm exige nova revisão obstétrica para avaliar a necessidade de cesariana; aumento de 2 cm ou mais autoriza seguir observando o progresso — MS/CONITEC 2017, rec. 112.
Segundo período que não anda — o degrau antes da cirurgia
Escreva no prontuário o minuto em que o esforço expulsivo começou, e não o minuto da dilatação total: é dessa hora que os prazos correm. Cheque de novo os corrigíveis — contrações que enfraqueceram, bexiga, posição, exaustão, analgesia — e reconfirme a altura e a variedade com a palpação abdominal ao lado do toque. Confirmado o prolongamento, e desde que o nascimento não esteja iminente, o que a régua manda não é abrir a barriga: é pedir que examine alguém treinado em parto vaginal operatório. Se não houver quem instrumente no plantão, diga isso em voz alta assim que perceber, porque muda o momento de acionar o centro cirúrgico.
Prescrição- Se as contrações estiverem inadequadas no início do segundo período, considerar ocitocina e analgesia regional; um médico obstetra deve avaliar a mulher com prolongamento confirmado antes do uso de ocitocina — MS/CONITEC 2017, rec. 124 e 127.
- Realizar amniotomia se as membranas estiverem intactas, ao levantar a suspeita de prolongamento do segundo período — MS/CONITEC 2017, rec. 125 e 126.
- Encaminhar a médico treinado em parto vaginal operatório se o nascimento não for iminente, com revisão a cada 15 a 30 minutos após a avaliação obstétrica inicial — MS/CONITEC 2017, rec. 122 e 128. Os pré-requisitos, a escolha do instrumento e as regras de parada são do capítulo 'Cesariana e parto vaginal operatório'.
- Pressão no fundo uterino: vedada, em qualquer circunstância — MS/CONITEC 2017, rec. 118; OMS 2018, rec. 40. Ela está listada entre os fatores de risco de hemorragia pós-parto por trauma.
Quando a decisão é operar — o parágrafo que decide a próxima gestação
Decidida a cesariana pelo obstetra, o interno tem duas tarefas, e a segunda é a que quase ninguém faz. A primeira é preparar a cirurgia como cirurgia — o antibiótico tem hora, a mulher precisa entender o que foi encontrado e o que foi tentado, e o pediatra precisa ser avisado; o detalhamento é do capítulo 'Cesariana e parto vaginal operatório'. A segunda é escrever a indicação. Uma indicação útil não é um rótulo: é uma frase que qualquer obstetra que leia daqui a três anos consiga reconstituir. Ela diz em que dilatação, por quantas horas, com que dinâmica medida, com que altura pela palpação abdominal, com que variedade, com o que foi corrigido e com o que foi tentado.
Prescrição- Registrar os fatores que influenciaram a decisão pela cesariana e, quando possível, qual deles pesou mais — MS/CONITEC, A operação cesariana, 2016.
- Registrar no relatório cirúrgico o tipo de incisão uterina, com todas as letras. É essa informação que decide se a próxima gestação poderá tentar o parto vaginal, e a cicatriz da pele não a revela — MS/CONITEC 2016.
- Escrever a indicação com o que foi verificado, e não com o rótulo: 'parada de dilatação em 7 cm por 4 h e 20 min, com dinâmica de 4 contrações em 10 min de 50 s fortes, documentada às 2h10 e às 4h30, bexiga esvaziada, posição alternada, ocitocina em curso desde 0h40, occipitotransversa esquerda mantida, 3/5 palpáveis' informa; 'distócia' não informa nada.
- Registrar também o que não foi possível oferecer — ausência de quem instrumente, indisponibilidade de sala — como limitação do serviço, e não como característica da mulher.
Como saber se está funcionando
Esperar bem e omitir-se parecem a mesma coisa de fora do quarto, e um único detalhe as distingue: quem espera bem sabe o que está esperando, em quanto tempo, e o que fará se aquilo não vier. Nenhum exame produz essa distinção — ela nasce de confrontar cada avaliação com a anterior dentro de prazos escritos, e depende de um dado banal que quase sempre falta: o horário anotado.
Convém dizer por que os prazos aqui são tão mais curtos do que no resto da medicina. Um antibiótico que não funcionou custa uma troca de esquema; um trabalho de parto que não anda custa horas de compressão sobre um feto cuja reserva é finita. Daí a proibição de mudar de conduta por conta própria, e daí a assimetria que percorre o capítulo inteiro: mais uma reavaliação, com mãe estável e feto tranquilizador, custa quase nada e se desfaz; uma cirurgia não se desfaz, e a cicatriz acompanha essa mulher por todas as gestações que vierem.
Esperado: Progressão, ainda que irregular e não linear, com a lentidão entre 4 e 6 cm lida como comportamento esperado e não como desvio
Se não melhora: Menos de 2 cm em 4 horas levanta a suspeita e obriga a rever ambiente, posição, bexiga, hidratação, dor e dinâmica antes de qualquer intervenção. Menos de 1 cm no toque 2 horas depois confirma a falha, e a partir daí a mulher passa a ser assistida por médico obstetra, que decide as opções
Esperado: Três a cinco contrações em 10 minutos, de 40 a 60 segundos, com o fundo resistindo ao dedo; sob condução, o alvo é de 4 a 5 em 10 minutos
Se não melhora: Abaixo do padrão, desfaça primeiro o que não custa nada — bexiga, hidratação, decúbito, dor e medo — antes de cogitar qualquer fármaco: a hipoatividade é a distócia mais comum e a mais reversível. Acima do padrão, com ocitocina correndo, reduza ou suspenda a infusão — a taquissistolia é iatrogênica até prova em contrário e reduz a perfusão do espaço interviloso
Esperado: Quintos palpáveis diminuindo ao longo das avaliações, coerentes com o que o plano de DeLee indica
Se não melhora: Plano de DeLee que 'melhora' com quintos palpáveis inalterados descreve bossa que cresce, não descida que acontece. Dilatação que avança sem descida é o padrão da obstrução, e cavalgamento de suturas palpável junto com bossa volumosa reforça a suspeita. Nessa combinação, chame o obstetra e não suba a ocitocina
Esperado: Rotação progressiva em direção à occipitopúbica ao longo do trajeto
Se não melhora: Transversa que persiste com dilatação avançada e cabeça no plano zero é o retrato da distócia do estreito médio. Posterior persistente prolonga o expulsivo e explica a dor lombar. Nenhuma das duas indica cirurgia por si: as duas mudam o que se tenta antes — mudança de posição materna, analgesia e tempo — e mudam a expectativa que se comunica à mulher
Esperado: Aumento de 2 cm ou mais na dilatação, com a dinâmica no alvo de 4 a 5 contrações em 10 minutos
Se não melhora: Aumento menor que 2 cm em 4 horas exige nova revisão obstétrica para avaliar a necessidade de cesariana. Antes de concluir por falta de resposta, confirme que a dose chegou ao alvo de frequência, que não há taquissistolia e que a infusão de fato correu — bomba parada e acesso infiltrado explicam mais 'falhas de ocitocina' do que a fisiologia
Esperado: Descida e rotação progressivas a cada avaliação, com o nascimento dentro dos prazos por paridade
Se não melhora: Antes de tudo, procure a contração que enfraqueceu, a bexiga que voltou a encher, o decúbito de que ninguém a tirou, o cansaço e a dor. Vencido o prazo sem progresso, o que a régua manda é avaliação por médico treinado em parto vaginal operatório. Isso não é o mesmo que indicar a cirurgia, e também não autoriza mais meia hora de espera porque a sala está ocupada
Esperado: Frequência de base dentro da faixa, sem desacelerações repetidas e de recuperação lenta; temperatura e pulso maternos sem alteração
Se não melhora: Alteração persistente encurta todos os prazos deste capítulo e transforma a discussão de tempo numa decisão sobre a via mais rápida — a interpretação do traçado é do capítulo de vitalidade fetal intraparto, na posição 15. Febre com taquicardia materna e fetal em bolsa rota há horas é infecção intra-amniótica até prova em contrário. E dor abdominal que persiste entre as contrações, em mulher com cicatriz uterina sob condução, é suspeita de rotura: chamado imediato, não reavaliação programada
Onde o erro machuca
O dano: O relógio começa a correr sobre um processo que ainda não engrenou, e a folha registra um atraso que não existe: a mulher termina com um diagnóstico de distócia produzido por contabilidade, e não por obstetrícia. Dali saem amniotomia, condução e cirurgia num trabalho de parto que ainda nem tinha começado. É o erro mais comum e o mais caro deste capítulo.
Como pegar a tempo: Abra a folha ao diagnóstico de fase ativa, e saiba qual corte o seu serviço adota — 4, 5 ou 6 cm, porque os três existem em documentos brasileiros em vigor. Antes disso, a assistência é apoio, alívio da dor, mobilidade e informação. E quando alguém perguntar se ela parou, responda com o número: 'ela está com 4 cm, e o critério de parada não se aplica aqui'.
O dano: Sem número em dez minutos, duração em segundos e intensidade à palpação, nenhum critério de parada pode ser aplicado: o critério hospitalar exige atividade uterina adequada documentada e o federal manda considerar mudanças na intensidade, na duração e na frequência. O diagnóstico construído sobre 'presente' não é um diagnóstico frágil, é um diagnóstico impossível — e ninguém consegue reconstituí-lo depois, nem para aprender nem para defender.
Como pegar a tempo: Mão espalmada, dez minutos inteiros, cronômetro rodando, três números anotados com a hora. É o exame que leva dez minutos e resolve a maior parte das paradas aparentes, e é justamente o que ninguém faz porque parece que não se está fazendo nada.
O dano: A apresentação parece ter descido dois planos enquanto o crânio continua parado, e uma obstrução real passa a ser registrada como progresso. Nos casos em que se caminha para o instrumento, a consequência é pior: uma aplicação média é classificada como baixa no papel, e o instrumento é aplicado numa altura em que ele não deveria ter sido considerado.
Como pegar a tempo: Confronte sempre o plano de DeLee com a palpação abdominal em quintos acima da sínfise, e desconfie de qualquer descida que venha acompanhada de bossa que cresce. Palpe também as suturas: cavalgamento é moldagem, e moldagem intensa com altura estacionária aponta para obstrução, não para progresso.
O dano: O feto é oxigenado nas pausas, e não nas contrações: encurtá-las tira dele justamente a janela de que depende. Quando a parada vem de obstrução e não de hipoatividade, subir a dose não abre nada e só acrescenta risco — inclusive de rotura, sobretudo em útero com cicatriz.
Como pegar a tempo: Antes de qualquer incremento, meça a dinâmica de novo. Mais de cinco contrações em dez minutos avaliadas ao longo de trinta minutos é taquissistolia, e a primeira conduta é reduzir ou suspender a infusão, não aumentá-la. Respeite o intervalo mínimo de trinta minutos entre incrementos e lembre-se de que o alvo é a frequência, não a dose.
O dano: O cronômetro do segundo período começa na fase ativa dele — dilatação total com cabeça visível, contrações expulsivas ou esforço materno ativo —, e não no toque que encontrou 10 cm. Contar desde a dilatação total, sobretudo em mulher sob peridural que ainda não tem puxo, consome os prazos antes de eles começarem e produz um 'expulsivo prolongado' em quem ainda estava na fase passiva.
Como pegar a tempo: Anote no prontuário, como um evento separado, a hora do início do esforço ou da cabeça visível. Em mulher sem analgesia com dilatação total e sem puxo, a régua manda reavaliar em uma hora para identificar a fase, e não mandar fazer força. Sob peridural, o puxo é adiado por pelo menos uma hora.
O dano: O rótulo não permite reconstituir nada. Três anos depois, a mulher chega a outra maternidade com uma cicatriz uterina e uma palavra, e essa palavra empurra a decisão da via para a repetição da cirurgia. Some-se a isso que 'a senhora não dilatou' e 'a sua bacia é pequena' são frases que ela vai repetir a respeito de si por muito tempo, inclusive na gestação seguinte, e o efeito da indicação mal escrita atravessa a vida reprodutiva inteira.
Como pegar a tempo: Escreva o que foi verificado, com hora: dilatação, intervalo entre os toques, dinâmica medida, altura pela palpação abdominal, variedade de posição, o que foi corrigido e o que foi tentado. E registre o tipo de incisão uterina no relatório cirúrgico — é a informação que decide se a próxima gestação poderá tentar o parto vaginal.
O que dizer ao paciente e à família
A mulher a quem se diz que o parto 'não está andando' ouve um veredito sobre o próprio corpo, e não a descrição de um processo. Como essa frase é construída decide o que ela vai acreditar sobre si mesma durante anos — e, muito concretamente, o que ela vai pedir na gestação seguinte, quando chegar ao pré-natal dizendo que da outra vez não conseguiu.
Três regras cobrem quase tudo. Fale do processo e não da pessoa: 'a dilatação está em 6 cm desde as 2h' informa, 'a senhora não dilatou' acusa. Combine o próximo encontro, dizendo o que vai fazer agora e a que horas volta, porque espera sem prazo é o que faz a própria mulher pedir a cirurgia. E não dê hora para o nascimento: quem promete horário assina um contrato que o corpo não leu, e a conta chega no minuto em que o horário passa.
Chegando ao leito depois de ler 'parada de progressão' na folha
“"Dona [nome], eu sou o [nome], interno de plantão, e vou acompanhar a senhora daqui em diante. Li o que está escrito na sua folha e quero conferir umas coisas antes de qualquer decisão. Vou ficar dez minutos com a mão na sua barriga para contar as contrações, e depois vou examinar. Enquanto isso, me conta: como está a dor, a senhora consegue urinar, e há quanto tempo está deitada assim?"”
Não diga: Chegar repetindo o que está escrito como se fosse verdade estabelecida, ou anunciar a cesárea antes de examinar. Também não diga 'vamos ver se resolve', que promete um desfecho que você não controla.
Explicando por que você vai esperar
“"O bebê está bem em todas as vezes que eu escutei, a senhora está bem, e o colo mudou desde ontem à noite. Existe um tempo mínimo que a gente precisa observar antes de dizer que o parto travou, e a gente ainda não chegou nele. Vou tentar umas coisas simples agora — mudar a senhora de posição, esvaziar a bexiga, dar água — e volto a examinar em [x] horas. Se qualquer coisa mudar antes disso, me chame."”
Não diga: "Vamos dar mais um tempinho", que não é um plano, e "não tem o que fazer agora", que soa como abandono. A espera precisa ter começo, motivo e hora de terminar.
Quando ela pergunta se a bacia dela é pequena
“"Não dá para saber isso medindo a senhora por fora, e por isso a gente não mede: os estudos mostraram que essa medida faz operar mais sem que o bebê nasça melhor. Quem responde essa pergunta é o próprio trabalho de parto, porque os ossos da sua bacia se abrem um pouco e a cabeça do bebê se molda. É por isso que a gente acompanha em vez de decidir de antemão."”
Não diga: "A sua bacia é estreita" e "o bebê é grande demais" ditos antes da prova de trabalho de parto. As duas frases são difíceis de desmentir depois e ela vai levar as duas para a próxima gestação.
Quando ela está imóvel na cama por causa da analgesia
“"A senhora pode mudar de posição, sim — a anestesia tira a dor, não tira o seu direito de se mexer. Vou ajudar a senhora a virar de lado e colocar um travesseiro entre os joelhos. Ficar horas de costas deixa o bebê com menos espaço para descer, e mudar de posição é uma das coisas que mais ajudam neste momento. A cada meia hora a gente muda de novo."”
Não diga: Deixar de pé a crença de que ela não pode se mover, que costuma vir de uma frase dita de passagem por alguém da equipe. Corrigir isso leva trinta segundos e muda a mecânica das horas seguintes.
Explicando a ocitocina antes de instalar
“"A médica vai indicar um soro com um remédio que deixa as contrações mais fortes e mais frequentes. Duas coisas a senhora precisa saber: as contrações vão doer mais, e por isso a analgesia continua disponível a qualquer momento; e o bebê vai ser escutado com mais frequência enquanto o soro estiver correndo. Daqui a quatro horas a gente examina de novo para ver se funcionou."”
Não diga: Instalar sem explicar, ou dizer que 'é só um sorinho'. E não prometa que a ocitocina evita a cesárea: ela encurta o tempo até o parto, e não muda a via.
Quando o expulsivo não anda e você vai chamar a plantonista
“"A senhora está fazendo força há [x] e o bebê não desceu desde a última vez que eu examinei. Isso tem um prazo combinado, e a gente chegou nele. Vou chamar a doutora agora para ela examinar — existe uma opção de ajudar o bebê a nascer por baixo antes de pensar em cirurgia, e é ela quem avalia isso. Não é para se assustar: chamar na hora certa é como a gente trabalha."”
Não diga: Sair do quarto sem explicar, ou dizer 'já volto' e reaparecer com três pessoas e uma maca. Pressa calada assusta mais do que qualquer explicação.
Quando a decisão passa a ser cirúrgica
“"A doutora examinou, e agora o mais seguro é fazer a cesárea. Vou explicar exatamente o que aconteceu, porque a senhora tem direito de saber e vai precisar dessa informação na próxima gravidez: o colo parou em [x] centímetros por [y] horas, com as contrações no ritmo certo, e o bebê não desceu. Isso vai estar escrito no seu relatório, junto com o tipo de corte que vai ser feito no útero. A senhora fez tudo que dava para fazer."”
Não diga: "A senhora não conseguiu" e "o seu corpo não colaborou". E não dê alta com a palavra 'distócia' e mais nada: sem o detalhamento, o que chega à maternidade seguinte é uma cicatriz sem história, e isso costuma bastar para repetir a cirurgia.
Onde bons médicos discordam
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.
Quatro centímetros, com admissão obrigatória a partir daí (portaria ministerial de 2017)
A diretriz nacional define a fase de latência como o período com contrações dolorosas e alguma modificação cervical, incluindo apagamento e dilatação até 4 cm, e o trabalho de parto estabelecido como aquele em que há contrações regulares e dilatação progressiva a partir dos 4 cm. O mesmo documento manda admitir para assistência a mulher com 4 cm ou mais, e orientar quem está com 3 cm ou menos a permanecer ou retornar para casa. É esse corte que rege a admissão, a abertura do partograma e o início da contagem do tempo nas maternidades do SUS.
Brasil. MS/CONITEC. Diretrizes Nacionais de Assistência ao Parto Normal, aprovadas pela Portaria SAS/MS nº 353, de 14 de fevereiro de 2017, rec. 90 e 91.
Cinco centímetros, por não haver aceleração consistente antes disso (recomendação da Organização Mundial da Saúde, 2018)
A recomendação da Organização Mundial da Saúde define a fase latente como o período com contrações dolorosas e progressão mais lenta da dilatação até 5 cm, e a fase ativa como o período de dilatação mais rápida de 5 cm até a dilatação completa, no primeiro parto e nos seguintes. A justificativa é que as séries recentes não mostram aceleração consistente da dilatação antes desse ponto. O mesmo documento recusa o limiar de 1 cm por hora como critério de progresso normal.
World Health Organization. WHO recommendations: intrapartum care for a positive childbirth experience. Genebra, 2018, rec. 5, 6, 7 e 8.
Seis centímetros, com partograma e internação adiados (protocolos brasileiros de serviço de 2020 e de 2023)
O protocolo estadual da Paraíba determina que o partograma é importante na detecção de distócia mas não deve ser iniciado antes dos 6 cm, porque abri-lo antes incita intervenções desnecessárias e iatrogenias. O protocolo de distócias do hospital universitário do Ceará vai adiante: fixa a transição para a fase ativa em 6 cm com base nas curvas contemporâneas, determina que o diagnóstico de distócia não seja feito antes disso, e orienta evitar a internação de pacientes com dilatação menor que 6 cm, ressalvando que a decisão de internar é do médico avaliador e considera fadiga, tolerância à dor, paridade, distância até o hospital e cicatriz uterina prévia.
Paraíba. Secretaria de Estado da Saúde. Protocolo de Assistência Obstétrica — Rede Cegonha. João Pessoa, 2020; e EBSERH/HC-UFC, Maternidade Escola Assis Chateaubriand. Protocolo PRO.MED-OBS-MEAC.008 — Distócias, versão 4, 2023.
O corte não muda o cuidado que aquela mulher recebe; muda o momento em que passa a ser legítimo cobrar velocidade dela, e sobretudo o momento em que a pergunta 'ela parou?' começa a fazer sentido. Duas coisas resolvem à beira do leito. A primeira: registre pelo corte do serviço em que você está, porque é a régua do prontuário e da auditoria, e diga em voz alta qual é ele. A segunda: use os cortes mais altos como calibração da expectativa, nunca como autorização para mandar embora quem já está em trabalho de parto doloroso — o corte de 6 cm nasceu para evitar diagnóstico precoce de distócia, não para negar acolhimento, e o próprio protocolo que o adota ressalva a decisão individual de internar. Quando os documentos apontarem para condutas diferentes na mesma mulher, pese gravidade e reversibilidade: observar mais uma reavaliação, com mãe estável e feto tranquilizador, custa pouco e se desfaz; conduzir com ocitocina quem ainda não entrou na fase ativa não é, e mandar para casa uma multípara em fase ativa é o erro que não se desfaz.
Critério de frequência, sem unidade de intensidade (régua federal brasileira, 2017)
A diretriz nacional não define atividade uterina adequada. O que ela define é o alvo da condução: aumentar a dose de ocitocina até haver quatro a cinco contrações em dez minutos, com incrementos não mais frequentes do que a cada trinta minutos. E, no diagnóstico de falha de progresso, manda considerar 'mudanças na intensidade, duração e frequência das contrações uterinas', sem fixar como a intensidade deve ser expressa. Na prática, a adequação é uma afirmação clínica de quem palpou, sustentada por número em dez minutos, duração em segundos e consistência do fundo.
Brasil. MS/CONITEC. Diretrizes Nacionais de Assistência ao Parto Normal, 2017, rec. 103 e 111.
Critério que pressupõe intensidade medida (definição de parada adotada por protocolo hospitalar brasileiro, 2023)
O protocolo de distócias do hospital universitário do Ceará define parada secundária de dilatação como dilatação acima de 6 cm, com rotura de membranas, que não progride após quatro horas de atividade uterina adequada, ou pelo menos seis horas de ocitocina com atividade uterina inadequada e nenhuma mudança cervical. A distinção entre atividade adequada e inadequada muda o prazo em duas horas, e o documento não define nenhuma das duas nem indica em que unidade elas seriam expressas. Nos textos de origem internacionais dessa formulação, a adequação é medida por cateter de pressão intrauterina, um recurso que nenhum documento brasileiro em uso exige nem descreve.
EBSERH/HC-UFC, Maternidade Escola Assis Chateaubriand. Protocolo PRO.MED-OBS-MEAC.008 — Distócias, versão 4, 2023, seção 3.1.
A pergunta prática não é qual definição é a certa: é o que você vai escrever no prontuário para que a decisão seja reconstituível. Documente sempre os três parâmetros que a palpação produz — número em dez minutos, duração em segundos e intensidade pela resistência do fundo —, com a hora, e nomeie a conclusão: 'atividade adequada, avaliada por dez minutos às tal hora'. Isso satisfaz o critério hospitalar na única forma em que ele pode ser satisfeito no Brasil, e satisfaz o federal, que pede exatamente esses elementos. E use a distinção do protocolo hospitalar a favor da mulher, não contra ela: se a atividade não puder ser afirmada como adequada, o prazo que vale é o mais longo, de seis horas sob ocitocina, e não o mais curto. Diante de dúvida sobre a intensidade, a conduta é medir de novo por mais dez minutos — nunca presumir adequação para encurtar o relógio.
Não recomendada, nem para prever falha nem para definir a via (régua federal brasileira, 2016, e documento internacional, 2018)
A diretriz nacional da operação cesariana recomenda, com essas palavras, que a pelvimetria clínica não seja utilizada para predizer a ocorrência de falha de progressão do trabalho de parto nem para definir a forma de nascimento, e que dados antropométricos maternos como a altura e o tamanho do pé também não sejam usados com essa finalidade. A revisão que sustenta a recomendação mostrou que mulheres submetidas a pelvimetria radiológica tiveram mais chance de terminar em cesariana, sem diferença em asfixia, admissão em unidade neonatal ou deiscência de sutura. A recomendação internacional acompanha, desaconselhando a pelvimetria clínica de rotina na admissão de gestantes saudáveis.
Brasil. MS/CONITEC. Diretrizes de Atenção à Gestante: a operação cesariana, Relatório de Recomendação nº 179, 2016, rec. 22 e 23; e WHO, Intrapartum care, 2018, rec. 11.
Ensinada, com cortes numéricos, como parte do exame da distócia (protocolos brasileiros de serviço, 2020 e 2023)
O protocolo estadual da Paraíba descreve a técnica de medida da conjugata diagonalis e do diâmetro bituberoso e fixa parâmetros de vício pélvico: conjugata vera obstétrica menor que 10 cm no estreito superior, bi-isquiático menor que 9,5 cm no médio e bituberoso menor que 8 cm no inferior, acrescentando que o principal meio de avaliação das distócias ósseas ainda é clínico. O protocolo hospitalar do Ceará lista valores de referência — conjugata obstétrica de 11 cm, bi-isquiático de 10,5 cm, bituberoso de 11,0 cm — e sinais como o de Muller, e em seguida registra que, conforme evidências mais atuais, a pelvimetria isolada não deve ser usada como decisão de via de nascimento, mas que, associada à história obstétrica, ao exame físico e à evolução do partograma, ajuda na tomada de decisão em situações incertas.
Paraíba. Secretaria de Estado da Saúde. Protocolo de Assistência Obstétrica — Rede Cegonha. João Pessoa, 2020; e EBSERH/HC-UFC. Protocolo PRO.MED-OBS-MEAC.008 — Distócias, versão 4, 2023, seção 8.
O que separa os dois lados não é a medida em si: é o momento em que ela entra. Usada antes da prova de trabalho de parto, como preditor, a pelvimetria aumenta cirurgia sem melhorar desfecho, e é isso que a régua federal proíbe. Usada depois, junto com uma parada documentada, uma variedade que não roda e uma apresentação que não desce, ela é mais um elemento descritivo — e é assim que o próprio protocolo hospitalar a qualifica. À beira do leito, três perguntas resolvem: a medida vai mudar alguma coisa que ainda não foi tentada? Ela vai ser escrita como achado ou como conclusão? E se ela vier normal, a conduta muda? Se a resposta às três for não, a medida não é exame, é justificativa retrospectiva. Repare ainda que os números dos dois documentos brasileiros não se encaixam, e a nota de auditoria deste capítulo mostra as faixas que sobram entre eles — o que é uma razão a mais para não fazer da medida o argumento central de uma decisão cirúrgica.
O raciocínio, em voz alta
Neuzimar Quixaba, 23 anos, primeira gestação, 39 semanas e 4 dias por ultrassonografia de primeiro trimestre, pré-natal completo e sem intercorrências. Admitida às 22h com 4 cm, 80% apagada, cefálica, bolsa íntegra. Partograma aberto às 22h10. Peridural instalada à 0h30, a pedido dela. Toque de 1h50: 6 cm. Toque de 3h40: 6 cm. Na prancheta, escrito pelo plantão anterior: 'parada de progressão — avaliar cesárea'. Batimentos entre 136 e 144 em todas as auscultas, sem desacelerações; pressão 112 por 70; temperatura 36,7 °C; bolsa ainda íntegra. No campo da dinâmica, a palavra 'presente' repetida desde a meia-noite. Ela está em decúbito dorsal desde a analgesia e tem bexiga palpável dois dedos acima da sínfise. A obstetra está em outra cirurgia com outra paciente, e quem está ao lado do leito é você.
o que penso agora
A frase da prancheta tem a forma de um diagnóstico e não tem nenhum dos elementos de um. Para haver parada de dilatação eu preciso de quatro coisas: fase ativa estabelecida, um intervalo mínimo entre dois toques, atividade uterina documentada como adequada nesse intervalo, e o corrigível já corrigido. Do que está na folha, só tenho os dois toques. E vejo duas coisas que podem explicar tudo sem que nada tenha travado: uma bexiga cheia e três horas de decúbito dorsal.
3h40 — o exame que estava faltando
Antes de tocar, ponho a mão espalmada no fundo uterino e fico dez minutos inteiros, cronometrando. Conto duas contrações em dez minutos, de trinta segundos, com o fundo se deprimindo ao dedo — fracas. Anoto os três números com a hora. Isso muda o caso inteiro: o que existe aqui não é um colo que não abre, é um útero que não está apertando. E hipoatividade uterina é a distócia mais comum e a mais reversível que existe.
3h55 — corrigir o corrigível, agora
Explico a Neuzimar que ela pode se mexer, que a anestesia tira a dor e não tira o movimento, e ajudo a virá-la para o decúbito lateral esquerdo com travesseiro entre os joelhos. Ela não consegue urinar; faço cateterismo de alívio e drenam 450 mL. Ofereço água. Chamo o acompanhante, que estava no corredor porque alguém disse que ele não podia ficar. Baixo a luz e desligo a televisão do quarto. Anoto cada uma dessas medidas com o horário, porque cada uma delas faz parte do diagnóstico.
4h10 — o toque, com os cinco campos
Refaço o exame e escrevo os cinco: 6 cm, colo totalmente apagado, plano −1 de DeLee, occipitoesquerda transversa, bolsa íntegra. Palpo o abdome: 3/5 do polo cefálico ainda acima da sínfise. Repare no que aparece agora e não estava em nenhum toque anterior — a variedade. Ela é transversa, e transversa explica lentidão. Registro os dois achados lado a lado, com a hora, e escrevo a conclusão: progresso lento sob observação, corrigíveis corrigidos às 3h55, critério de falha ainda não preenchido.
5h00 — a dinâmica responde
Nova palpação de dez minutos: quatro contrações em dez minutos, de cinquenta segundos, o fundo resistindo ao dedo. Nada foi prescrito — a mudança veio da bexiga vazia, da posição e da hidratação. Neuzimar está de lado, conversando com o marido entre as contrações. Batimentos de 140, sem desacelerações. Aviso a Dra. Vasconcelhos por telefone do que encontrei e do que fiz, e combino reavaliar às 7h40, completando o intervalo de quatro horas desde o toque das 3h40.
7h40 — o toque que decide
Colo com 8 cm, plano 0, occipitoesquerda anterior, bolsa íntegra; 2/5 palpáveis pelo abdome. Dois centímetros em quatro horas, com um plano de descida e a rotação acontecendo. Pela régua federal, não há sequer suspeita de falha de progresso: o critério é progressão menor que 2 cm em 4 horas, e houve exatamente 2. E há duas coisas que a dilatação isolada não mostraria — a descida e a rotação —, e as duas são progresso. Registro isso com essas palavras, e não rompo a bolsa nem peço ocitocina.
10h20 — dilatação total, sem começar a contar
Colo completamente dilatado, plano +1, occipitopúbica. Ela não sente vontade de fazer força, e sob analgesia regional isso é o esperado: estamos na fase passiva do segundo período, e o cronômetro do expulsivo ainda não começou. Adio o esforço, mantenho a ausculta no ritmo do segundo período. No prontuário, a hora da dilatação total entra numa linha, e a hora em que o esforço começar entrará noutra. Às 11h25 ela refere pressão e a cabeça começa a ser visível na contração: anoto início do segundo período ativo, 11h25.
12h30 — o desfecho
O bebê nasce vigoroso e é entregue a ela pele a pele. Uma hora e cinco minutos de segundo período ativo, dentro do prazo da nulípara sob analgesia por qualquer das leituras. Placenta íntegra às 12h41, laceração de segundo grau suturada com anestesia local, útero contraído. Da porta ao nascimento foram catorze horas e meia — bem dentro do envelope de 18 horas que a régua federal considera pouco provável ultrapassar.
o que este caso ensina
Nada do que decidiu este caso custou dinheiro ou exigiu equipamento. O que mudou o desfecho foi um exame de dez minutos que ninguém tinha feito, uma sonda de alívio, uma mudança de decúbito e a disposição de perguntar qual critério estava sendo aplicado. Repare também no que estava faltando na folha e passou a existir: a dinâmica com número, a variedade de posição, a altura pela palpação abdominal e o horário de cada coisa. Se às 3h40 alguém tivesse escrito 'parada de progressão' e chamado a sala, o prontuário de Neuzimar diria hoje 'distócia' — e a cicatriz decidiria a via da próxima gestação sem que ninguém pudesse reconstituir por quê.
Variação do caso — resposta e reavaliação
Variação do caso de Neuzimar: após corrigir a bexiga distendida e rever posição e dinâmica, há descida e nova dilatação. Documentar a resposta e atualizar o plano, retirando a hipótese de parada que não se sustentou. Não manter o rótulo por inércia no prontuário.
Variação do caso — quando mudar o plano
Se não ocorre progresso apesar das condições e do tempo exigidos pelo critério adotado, apresentar os dados completos à obstetra e discutir a próxima intervenção. Se surgir deterioração materna ou fetal, a prioridade muda imediatamente. Aguardar com segurança e adiar uma indicação resolutiva são decisões diferentes.
Faça você
Doracy Estigarribia, 29 anos, terceira gestação e dois partos vaginais anteriores, sem cesariana, 40 semanas e 2 dias. Entrou em trabalho de parto espontâneo e evoluiu rápido: chegou às 6h com 5 cm, dilatação completa às 8h50. Não quis analgesia. Início do segundo período ativo anotado às 8h55, quando começou o puxo espontâneo. Bolsa rota às 8h20, líquido claro. Às 9h50, ao exame: dilatação total, plano +2 de DeLee, occipitodireita posterior. O toque das 9h20 havia registrado plano +1. Batimentos entre 138 e 150, com recuperação imediata após cada contração. Você palpa a dinâmica por dez minutos: quatro contrações em dez minutos, de cinquenta segundos, fortes. Bexiga esvaziada às 9h30. Ao palpar o abdome, você conta 2/5 do polo cefálico acima da sínfise — o mesmo número que o interno do plantão anterior anotou às 9h20. Ao toque, você sente uma tumefação mole e depressível sobre a apresentação, que não estava descrita antes.
o que já sei
Multípara com dois partos vaginais anteriores — a combinação com melhor prognóstico que existe. Segundo período ativo desde 8h55, portanto cinquenta e cinco minutos às 9h50. Contração documentada como adequada. Membranas rotas. Bexiga esvaziada. Feto tranquilizador em todas as auscultas. Nada do que é corrigível está pendente.
o relógio da multípara
Numa mulher que já pariu, basta meia hora de segundo período ativo sem rotação e sem descida para que a suspeita de prolongamento se levante, e a falha fica confirmada assim que esse período passa de uma hora. Às 9h50 são cinquenta e cinco minutos: a suspeita está formada há vinte e cinco minutos e a confirmação está a cinco minutos de distância.
os dois achados que mudam a leitura
O plano de DeLee melhorou de +1 para +2 entre 9h20 e 9h50. Mas os quintos palpáveis pelo abdome não mudaram, e apareceu ao toque uma tumefação mole sobre a apresentação que antes não existia. Some-se a variedade: occipitodireita posterior, que não rodou. Cada um desses três achados, sozinho, seria pouco. Juntos, eles dizem uma coisa específica sobre o que aconteceu na última meia hora.
conduta
— sua vez —
Ver como fecharíamos
Comece desfazendo a impressão de progresso. A descida de +1 para +2 não é descida: os quintos palpáveis acima da sínfise continuam em 2/5, e a tumefação mole e depressível que apareceu sobre a apresentação é bossa serossanguínea. O que o seu dedo alcançou foi o edema do couro cabeludo, e não o crânio — o osso continua onde estava às 9h20. Registre os dois achados lado a lado com essas palavras, porque essa linha é a que muda a conversa com a plantonista: 'plano +2 ao toque, 2/5 palpáveis pelo abdome, bossa presente — sem descida real desde 9h20'. Feita essa correção, o quadro é de parada de descida em multípara, com contração documentada como adequada, membranas rotas, bexiga vazia e variedade posterior que não rodou. Chame a Dra. Vasconcelhos agora, e não aos sessenta minutos exatos: a suspeita está formada há vinte e cinco minutos, a confirmação está a cinco minutos, e a conduta escrita para a falha confirmada do segundo período não é operar — é solicitar avaliação por médico treinado em parto vaginal operatório, se o nascimento não for iminente. Enquanto ela vem, faça o que é seu: mantenha a ausculta no ritmo do segundo período, ofereça mudança de posição — quatro apoios ou decúbito lateral do lado do dorso fetal favorecem a rotação da posterior —, reconfirme a variedade pela fontanela posterior e repita a palpação abdominal. Não faça pressão no fundo uterino em nenhuma hipótese: ela é vedada pela régua nacional, está listada entre os fatores de risco de hemorragia por trauma, e num polo impactado só aumenta a impactação. Duas ressalvas que o interno precisa conseguir dizer em voz alta, e que não enfraquecem a conduta. Uma: bossa não prova desproporção. Ela prova que o toque estava medindo a coisa errada, e o que sustenta a suspeita de obstrução aqui é a soma — altura estacionária pela palpação abdominal, variedade posterior persistente e contração adequada sem resultado. E outra: multípara com dois partos vaginais anteriores tem prognóstico favorável, e a decisão entre instrumento e cirurgia com a cabeça em +2 real depende de pré-requisitos que só quem instrumenta verifica. Se não houver quem instrumente neste plantão, diga isso em voz alta agora, porque muda o momento de acionar o centro cirúrgico — e essa é uma limitação do serviço, que se registra como tal, e não uma característica de Doracy.
Três cortes convivem hoje no Brasil, com amplitude de dois centímetros: a diretriz federal de 2017 fixa 4 cm, a recomendação internacional de 2018 fixa 5 cm, e protocolos brasileiros de serviço de 2020 e de 2023 fixam 6 cm. Nenhum revoga o outro: protocolo de serviço não revoga portaria ministerial, e os documentos têm finalidades diferentes. O corte mais alto nasceu de uma preocupação específica — abrir o partograma cedo demais produz curvas que cruzam a linha de alerta sem que nada de anormal aconteça, e dali saem condução e cesariana desnecessárias. Ele calibra a expectativa de velocidade; não autoriza mandar embora quem já está em trabalho de parto doloroso, e o próprio protocolo que o adota ressalva que a decisão de internar é individual e considera fadiga, tolerância à dor, paridade e distância até o hospital. Mandar para casa uma mulher em fase ativa é o erro que não se desfaz, sobretudo em multípara.
Teste-se
Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.
Plano de revisão
Em 7 dias
Reconstrua de memória, sem consultar: os três elementos que precisam existir antes de qualquer diagnóstico de parada de dilatação; os números da suspeita e da confirmação de falha de progresso no primeiro período, e o prazo de reavaliação depois da ocitocina; os prazos que levantam a suspeita e os que confirmam a falha no segundo período, separados por paridade; e os três números que dez minutos de mão no fundo uterino produzem. Depois responda a uma só pergunta: em que dilatação começa a fase ativa no serviço em que você está, e qual documento fixa esse corte. Se você travar na dinâmica ou no corte de fase ativa, o furo é de rotina de plantão, e é o que some às quatro da manhã. Aplicação comentada: Bossa cresce, mas a apresentação óssea não desce. Diferencie os dois achados; aumento de tecido mole não demonstra progressão do polo ósseo.
Em 30 dias
Pegue um prontuário de cesariana por parada de progressão que você tenha acompanhado (ou o caso de Neuzimar) e reescreva a indicação como ela deveria ter sido escrita, em um parágrafo: dilatação, horários dos toques, dinâmica com número e hora da medida, altura pela palpação abdominal em quintos, variedade de posição, o que foi corrigido, o que foi tentado e por quanto tempo. Em seguida, sublinhe cada elemento que não estava no prontuário original e conte quantos são. Por fim, volte às três divergências e escreva uma linha para cada, dizendo o que mudaria na sua conduta se aquela mulher estivesse com 5 cm em vez de 7.
Agora atenda
Madrugada de plantão em maternidade. Uma primigesta de termo, admitida em fase ativa e sob analgesia, está com a mesma dilatação há quase duas horas, e a folha de admissão já traz escrito 'parada de progressão'. Conduza a avaliação: reconstitua a linha do tempo, meça o que ninguém mediu, corrija o que é corrigível, aplique o critério dizendo qual documento sustenta cada número, aponte o minuto em que chamaria a plantonista, e redija a indicação que ficaria no prontuário caso a decisão fosse cirúrgica.
