Ginecologia e Obstetrícia › Parto e assistência ao nascimento
O feto que assusta e o feto que está mal
Avaliação da vitalidade fetal intraparto: ausculta intermitente e cardiotocografia
A monitorização contínua quase não deixa passar o feto em sofrimento e chama de anormal uma quantidade enorme de fetos que estão bem. É essa assimetria que decide quem precisa ficar no aparelho, o que se faz nos dez minutos seguintes a um traçado ruim, e quando o traçado decide o parto em vez de decidir vigiar mais.
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Portaria nº 353, de 14 de fevereiro de 2017 — Diretrizes Nacionais de Assistência ao Parto Normal (texto integral, 313 páginas, com o corpo de evidência do Relatório de Recomendação nº 211 da CONITEC, maio de 2016)
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção Primária à Saúde. Manual de Gestação de Alto Risco. Brasília: Ministério da Saúde, 2022, 692 p.
Paraíba. Secretaria de Estado da Saúde. Protocolo de Assistência Obstétrica — Rede Cegonha. João Pessoa: Ideia, 2020. ISBN 978-65-5608-081-9
Melo ASO, Souza ASR, Amorim MMR. Avaliação biofísica complementar da vitalidade fetal. Femina 2011;39(6):305-13
FEBRASGO. Manual de Orientação: Assistência ao Abortamento, Parto e Puerpério. Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia, 2010
Brasil. Ministério da Saúde. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais — Rename 2024. Brasília: Ministério da Saúde, 2024, 252 p. ISBN 978-65-5993-710-3
Brasil. Ministério da Saúde. Departamento de Atenção Básica. Atenção ao pré-natal de baixo risco. Cadernos de Atenção Básica nº 32, 1ª edição revista. Brasília, 2013
Brasil. Ministério da Saúde; Instituto Sírio-Libanês de Ensino e Pesquisa. Protocolos da Atenção Básica: Saúde das Mulheres. 1ª edição. Brasília, 2016
World Health Organization. WHO recommendations: intrapartum care for a positive childbirth experience. Geneva: WHO, 2018
NICE. Fetal monitoring in labour. NG229. https://www.nice.org.uk/guidance/ng229/chapter/Recommendations
NICE. NG229 — Fetal monitoring in labour.
Responda antes de ler
Terceira gestação, 39 semanas e 4 dias, risco habitual, em condução com ocitocina há duas horas por falha de progresso confirmada. A cardiotocografia contínua mostra linha de base de 145 bpm, variabilidade preservada e desacelerações de início gradual cujo fundo ocorre após o pico da contração, presentes em quatro das últimas seis contrações. Na faixa das contrações você conta seis em dez minutos. A mulher está em decúbito dorsal com a cabeceira elevada, afebril, pressão arterial 118 por 74. Qual é a primeira conduta?
O paciente que você vai ver
Onze e dez da noite, terça-feira. A maternidade ocupa o segundo andar de um hospital geral de porte médio, e você é o interno escalado para a noite. A técnica de enfermagem te encontra no posto e diz, sem tirar a mão da maçaneta: "doutor, o traçado do 5 tá feio, dá uma olhada". Você entra no quarto e encontra uma tira de papel saindo devagar do aparelho, dobrando-se sozinha no chão. Está escrito nela tudo o que você precisa saber, e você não sabe ler.
No leito 5 está Ediléia Pontelo, 34 anos, terceira gestação, 39 semanas e 4 dias, em condução com ocitocina desde as 21h por falha de progresso confirmada — decisão que a plantonista tomou e registrou, e que não é assunto seu esta noite. O que é assunto seu é o papel. A frequência corre em torno de 145. Depois de cada contração há uma queda que desce até uns 110 e volta devagar. E, quando você olha a faixa de baixo, a das contrações, conta seis em dez minutos.
No leito 2 está Regiane Almondes, 22 anos, primeira gestação, 39 semanas e 2 dias, pré-natal completo, sem nenhuma intercorrência. Ela não está em aparelho nenhum, e não deve estar: o sonar está pendurado no gancho ao lado da maca, e a vigilância dela é feita com ele, por você, de meia em meia hora. Ninguém nunca te ensinou direito como se faz: em que momento da contração encostar o transdutor, por quanto tempo escutar, o que anotar no prontuário depois. Você aprendeu observando, e o que você observou foi gente encostando o sonar entre as contrações e escrevendo "BCF 140".
Os dois leitos são este capítulo inteiro, e a diferença entre eles não é de gravidade — é de método, e o método muda o resultado. A monitorização contínua tem uma propriedade incômoda que precisa ser entendida antes de qualquer traçado: ela quase não deixa passar o feto que está mal, e classifica como anormal uma quantidade enorme de fetos que estão perfeitamente bem. Sensibilidade alta, especificidade baixa. É uma frase de prova, e é também a explicação de por que colocar todo mundo no aparelho produz mais cesariana sem produzir mais bebê saudável.
A consequência prática é a que mais desorienta o interno. A maior parte dos traçados que assustam é de feto bem. A categoria intermediária, aquela que não é nem tranquilizadora nem alarmante, é a mais comum de todas e é justamente a que não resolve nada sozinha: ela manda olhar de novo, corrigir o que dá para corrigir e reavaliar. E o traçado que de fato decide o parto na hora existe, é raro, e tem cara própria — reconhecê-lo é a competência que separa quem chama a plantonista no minuto certo de quem chama duas horas depois ou duas horas antes.
O que vem a seguir é o que fazer com esses dois leitos: como se faz a ausculta intermitente de verdade, quando a monitorização contínua está indicada e quando não está, como se lê um traçado em quatro parâmetros e na ordem certa, o que distingue uma desaceleração da outra, o que cada categoria exige, quais manobras de reanimação intrauterina se fazem e em que ordem, quando o traçado decide o parto — e o que se registra, porque o traçado é documento e será lido por outra pessoa, possivelmente anos depois.
Quem adoece disso
O problema que a vigilância fetal intraparto tenta resolver não tem o mesmo tamanho em todo lugar. A revisão brasileira que trouxe para o português a linguagem do traçado registra uma incidência de morbimortalidade por hipóxia de 4 por mil nascidos vivos nos países ricos e de cerca de 33 por mil nos países em desenvolvimento — oito vezes mais. O Brasil está no segundo grupo, e isso tem duas leituras opostas que convivem: há mais o que ganhar com vigilância boa, e há mais o que perder com vigilância mal interpretada, porque o volume de intervenção que uma leitura ruim gera é proporcional ao número de partos.
A diretriz nacional de assistência ao parto normal reuniu os ensaios que compararam monitorização eletrônica contínua com ausculta intermitente e publicou os resultados numa tabela. Vale traduzi-los para o que acontece a cada mil mulheres monitoradas continuamente em vez de auscultadas, porque a tabela original vem em risco relativo e o risco relativo esconde a dimensão do efeito. Convulsões neonatais: cerca de 1,2 a menos. Cesarianas por comprometimento fetal: cerca de 5 a mais. Partos vaginais instrumentais por comprometimento fetal: cerca de 18 a mais. Paralisia cerebral, morte fetal intraparto e mortalidade neonatal: sem diferença.
Dividindo uma coisa pela outra — e a conta é do capítulo, não do documento —, para evitar uma convulsão neonatal é preciso monitorar continuamente cerca de 822 mulheres, e no caminho realizar aproximadamente 4 cesarianas e 15 partos instrumentais a mais, todos por indicação de comprometimento fetal, sem nenhuma diferença mensurável em paralisia cerebral ou morte. É esta a frase que o título do capítulo resume: o exame gera mais cirurgia do que salva bebê. Isso não o torna inútil — a convulsão evitada é real, e há situações em que ele é a única coisa disponível. Torna-o um exame com indicação, como qualquer outro.
O tamanho do falso-positivo já estava dito, e mal dimensionado, no manual da federação brasileira de 2010: a taxa de falso-positivo do traçado para paralisia cerebral "atinge até 99%". Com a incidência de paralisia cerebral do próprio braço monitorado da tabela nacional — 1,84 por mil —, um valor preditivo positivo de 1% exigiria que no máximo 18,4% dos traçados fossem chamados de anormais. Como a categoria intermediária basta um parâmetro fora para ser acionada, e como ela é reconhecidamente a mais frequente, a fração real de traçados rotulados como não tranquilizadores é muito maior que isso. Ou seja: 99% não é o teto do falso-positivo, é o piso.
Há por fim a epidemiologia do equipamento, que decide o que você vai ver no seu internato. A ausculta intermitente feita com sonar Doppler ou estetoscópio de Pinard existe em qualquer maternidade do país e custa tempo de gente, não tecnologia. O cardiotocógrafo existe nos serviços de referência e falta em parte das unidades de menor porte, e a própria diretriz nacional avaliou que uma política de ausculta intermitente é mais vantajosa para o Brasil pelo custo de aquisição e manutenção dos aparelhos — ressalvando, com honestidade, que ausculta de qualidade consome mais profissional por leito do que o país costuma alocar. Você vai encontrar os dois erros: serviço que prende toda mulher ao aparelho porque ele existe, e serviço que não ausculta ninguém direito porque não há quem faça.
Por que acontece o que acontece
Toda a leitura do traçado sai de um fato mecânico: a contração uterina é uma pausa na oferta de oxigênio ao feto. A perfusão do espaço interviloso acontece pelas artérias espiraladas, que atravessam o miométrio; quando o miométrio se contrai, ele comprime esses vasos e o enchimento do espaço interviloso cai, voltando quando o útero relaxa. O feto, portanto, atravessa o trabalho de parto em apneia intermitente, por desenho. Um trabalho de parto de dez horas com quatro contrações a cada dez minutos submete o feto a cerca de duzentas e quarenta dessas pausas — e a imensa maioria dos fetos passa por todas elas sem consequência nenhuma.
O que torna isso tolerável é o intervalo. É no intervalo entre as contrações que o espaço interviloso se reenche, que o feto recupera a oferta de oxigênio e que o pequeno débito de metabolismo anaeróbio acumulado na contração anterior é pago. A conta é cumulativa e é uma conta de tempo, não de intensidade: um feto suporta muitas contrações fortes com bom intervalo e descompensa com contrações medianas e intervalo curto. É por isso que a taquissistolia — contração demais, portanto intervalo de menos — é a causa mais comum e mais reversível de traçado ruim, e por que a primeira pergunta diante de qualquer alteração é o que está acontecendo com a faixa de baixo do papel, a das contrações.
As desacelerações que você vai ver não são todas a mesma coisa, porque nascem de alças reflexas diferentes. A compressão do polo cefálico contra o colo e o canal ativa um reflexo vagal direto: a frequência cai junto com a contração, volta junto com ela, e não há hipoxemia envolvida — é a desaceleração precoce. A compressão do cordão umbilical eleva bruscamente a pressão arterial fetal, os barorreceptores respondem em segundos e a frequência despenca e volta com a mesma rapidez — é a desaceleração variável, a mais comum do trabalho de parto, e ela também é, na origem, uma resposta bem-sucedida.
A terceira alça é a que importa. Quando a oferta de oxigênio cai abaixo do que o feto consome, os quimiorreceptores respondem, e a resposta é lenta: a frequência começa a cair depois que a contração já começou, atinge o fundo depois do pico da contração e volta gradualmente à linha de base depois que o útero já relaxou. É a desaceleração tardia, e o atraso dela não é um detalhe de nomenclatura — é a assinatura temporal de um mecanismo químico, e não mecânico. Um traçado com desacelerações tardias repetidas está dizendo que a margem entre o que a placenta entrega e o que o feto consome ficou estreita.
A variabilidade é o parâmetro que carrega mais informação e o que menos se olha. Ela é a oscilação da linha de base batimento a batimento, e existe porque o simpático e o parassimpático puxam o nó sinusal em direções opostas o tempo todo, sob comando de um sistema nervoso central acordado e oxigenado. Uma variabilidade preservada é, na prática, um recibo de que o córtex e o tronco fetais estão recebendo oxigênio suficiente para funcionar. É por isso que a mesma desaceleração significa coisas diferentes conforme a variabilidade que a acompanha, e por que a perda de variabilidade somada a desacelerações repetidas é o achado que muda tudo.
Do lado materno, o traçado lê fisiologia que não é do feto. A hipotensão que se segue à analgesia regional reduz a perfusão uterina em minutos. O decúbito dorsal permite que o útero comprima a veia cava inferior, o retorno venoso cai e a pressão materna cai junto. A febre materna acelera o feto por efeito direto da temperatura antes de qualquer infecção fetal. A ocitocina em dose alta demais encurta o intervalo. Uma anemia materna grave reduz a oferta na origem. Nenhuma dessas coisas se corrige olhando para o papel — todas se corrigem olhando para a mulher, e é essa a razão de as manobras de reanimação intrauterina serem quase todas manobras maternas.
Agora dá para entender por que a sensibilidade é alta e a especificidade é baixa, que é a propriedade central deste capítulo. O traçado detecta o estímulo, não o dano. As desacelerações são respostas de defesa, e um feto que desacelera e recupera é um feto cujas defesas estão funcionando. A hipóxia que causa lesão neurológica exige profundidade e duração muito maiores do que as necessárias para produzir uma desaceleração feia. Como praticamente todo feto que vai mal exibe alteração antes, o exame quase não deixa passar; como a alteração aparece também em quase todo feto que vai bem, quase toda alteração é falso alarme.
Falta dizer o que o traçado não faz, porque isso também é mecanismo. Ele não mede pH: a relação entre padrão e acidose é indireta e depende do tempo de exposição, que o papel não informa. Ele não distingue o feto que está compensando há vinte minutos daquele que compensa há quatro horas, a não ser pela deriva lenta da linha de base e pela perda de variabilidade. E ele depende de leitura humana, com concordância entre observadores reconhecidamente baixa — o mesmo papel, dado a dois obstetras, recebe classificações diferentes com frequência incômoda. Um exame com essa combinação de propriedades não pode ser o único dono da decisão; ele entra na decisão junto com a fase do parto, a causa provável e a resposta às manobras.

Como se apresenta de verdade
A vigilância fetal intraparto exige interpretar a frequência no contexto das contrações, da mãe e das intervenções. Você deve distinguir um achado transitório de alteração persistente e reconhecer os limites de cada método. A resposta às medidas corretivas precisa ser documentada e não deve atrasar nascimento quando indicado.
O capítulo de assistência ao trabalho de parto traz a ausculta dentro da tabela de vigilância dele, junto com dinâmica uterina, toque e sinais vitais maternos, porque lá ela é uma linha da rotina. Aqui ela é o assunto: a técnica que quase ninguém ensina, os intervalos que os documentos brasileiros não dizem da mesma forma, e o que fazer com o que se ouve.
Vale marcar de saída o que fica fora daqui, para você saber onde procurar. A condução do trabalho de parto, o partograma e a decisão sobre ocitocina são do capítulo de assistência ao trabalho de parto. A indicação e a técnica da cirurgia e do parto instrumental cabem ao capítulo de cesariana e parto vaginal operatório; o que fica aqui é o traçado que motiva a indicação, e não a via. A avaliação de bem-estar fetal anteparto, com Doppler e perfil biofísico, pertence ao capítulo de restrição de crescimento fetal, e a imagem obstétrica é do capítulo que trata do rastreio de anomalias e da ultrassonografia: este só começa quando o trabalho de parto começa. A vigilância durante o preparo do colo e a indução é do capítulo de indução do parto; a distócia de ombro e as apresentações que não são cefálicas de vértice têm capítulo próprio; e tudo o que acontece depois que a criança sai — reanimação do recém-nascido e escore de vitalidade ao nascer — fica com a neonatologia, no capítulo que trata da reanimação neonatal na sala de parto. A fronteira, dos dois lados, é temporal: o início do trabalho de parto e o nascimento. Os critérios de distocia e parada de progressão estão no capítulo Antes de dizer que parou; a interpretação do traçado permanece aqui.
Percurso clínico: Interpretar o traçado com o contexto
Confirme sinal fetal e descreva linha de base, variabilidade e desacelerações em relação às contrações. Depois classifique e integre condições maternas, fase do parto e resposta às intervenções. Padrão grave exige ações coordenadas e preparação de resolução, sem aguardar completar uma leitura rotineira.
A ausculta intermitente, do jeito que se faz
O instrumento é o estetoscópio de Pinard ou o sonar Doppler, e os dois servem. O que muda o resultado não é o aparelho, é o método, e ele tem quatro exigências que a diretriz nacional lista juntas porque juntas é que elas significam alguma coisa.
A primeira é o momento: ausculta-se antes, durante e imediatamente após uma contração. Auscultar só no intervalo, com o útero relaxado, é ouvir o feto no melhor momento dele e perder exatamente o que se quer detectar, porque as desacelerações que interessam aparecem durante e logo depois do aperto. O trecho anterior ao aperto serve para estabelecer a linha de base; o que vem do aperto em diante é a resposta do feto a ele.
A segunda é a duração: por pelo menos 1 minuto. Nenhum dos documentos brasileiros consultados aceita menos do que isso, e a razão é aritmética — uma escuta de trinta segundos multiplicada por dois transforma uma diferença de dois batimentos em quatro, e não sobrevive tempo suficiente para flagrar uma queda que começa no fim da contração e volta devagar. Se você contar por menos de um minuto, você não fez a ausculta recomendada; fez outra coisa.
A terceira é o registro: anota-se uma taxa única — um número, não uma faixa —, com as acelerações e desacelerações que tiverem sido ouvidas. "BCF 140" e "BCF entre 130 e 150" não são a mesma informação; a segunda esconde se houve queda e a primeira, sozinha, esconde se houve recuperação. O registro correto tem número, momento do ciclo da contração e o que se ouviu de anormal, se houve.
A quarta é a confirmação: palpa-se o pulso materno sempre que houver suspeita de anormalidade. É a única forma de não confundir uma taquicardia materna de 130 com uma frequência fetal de 130, e a confusão é frequente o bastante para estar escrita na recomendação. Vale igualmente para o aparelho: transdutor mal posicionado registra o coração da mãe e devolve um traçado bonito de um feto que ninguém está ouvindo.
Sobre os intervalos há discordância entre os documentos brasileiros, desenvolvida no bloco de divergências e resumida na tabela de intervalos. Em resumo: a diretriz nacional fixa 30 minutos e não estabelece intervalo separado para o período expulsivo; o protocolo estadual traz, na mesma página, 15 a 30 minutos e 30 minutos, e fixa 5 minutos no segundo período; e o intervalo de 5 minutos após analgesia regional, esse sim, é nacional e vale por pelo menos 30 minutos e a cada dose de resgate.
Quando a monitorização contínua entra — e a lista é finita
A cardiotocografia contínua não se instala porque o aparelho está livre, e a de admissão em gestante saudável está listada entre as práticas não recomendadas com grau A pela federação brasileira. Ela entra quando existe um motivo declarado, e o motivo vai escrito no prontuário junto com o horário.
O primeiro grupo de motivos vem da própria ausculta: linha de base fora da faixa, desaceleração ouvida, ou dúvida que não se resolve repetindo a escuta. A diretriz nacional trata frequência abaixo de 110 ou acima de 160 e desacelerações à ausculta intermitente como achados que exigem assistência médica — e, fora do hospital, transferência.
O segundo grupo vem do que está sendo feito com a mulher. Ocitocina em uso, seja para indução, seja para condução, muda o intervalo entre as contrações e é, por isso, indicação de vigilância mais estreita. Analgesia regional recém-instalada ou dose de resgate abre uma janela de risco de hipotensão materna, com ausculta de 5 em 5 minutos por pelo menos 30 minutos e instalação do aparelho se algo se alterar.
O terceiro grupo vem do contexto obstétrico: mecônio moderado a espesso, febre materna, sangramento, suspeita de corioamnionite, apresentação anômala, cicatriz uterina prévia, gestação múltipla em parto vaginal — em que o manual federal de alto risco exige a possibilidade de monitorizar os dois fetos —, placenta prévia lateral ou marginal conduzida por via vaginal, e restrição de crescimento fetal, especialmente durante indução. Vale reparar num ponto: a lista de indicações de monitorização contínua no alto risco é sustentada por consenso de sociedades, e não por evidência de melhora de desfecho perinatal; a própria federação brasileira diz isso com todas as letras ao recomendá-la. Essa contradição é honesta e está no bloco de divergências.
E há o motivo que não é clínico e mesmo assim é legítimo: quando não há profissional disponível para auscultar de meia em meia hora com método, o aparelho vira a alternativa realista. Reconhecer isso é diferente de fingir que era indicação — e o que se registra é o que aconteceu.
Os quatro parâmetros, na ordem em que se lê
Um traçado se lê sempre na mesma ordem, e a ordem não é estética: cada parâmetro condiciona a leitura do seguinte. Antes deles, porém, olha-se a faixa de baixo — a das contrações —, porque sem saber onde estão as contrações não é possível classificar desaceleração nenhuma. Traçado lido só na faixa de cima é traçado adivinhado.
Linha de base é a média da frequência num segmento de dez minutos, excluídas acelerações e desacelerações, e exige pelo menos dois minutos identificáveis nesse segmento. A faixa considerada normal pela maioria dos documentos brasileiros é de 110 a 160 batimentos por minuto; acima disso por mais de dez minutos é taquicardia, e abaixo, bradicardia. Fetos prematuros tendem ao topo da faixa e pós-termo ao fundo dela. A causa mais frequente de taquicardia fetal é febre materna — não hipóxia.
Variabilidade é a amplitude das oscilações da linha de base num segmento de dez minutos, excluídas acelerações e desacelerações, medida do pico ao vale em batimentos por minuto. Os cortes divergem entre as classificações em circulação no Brasil, e a divergência muda classificação de traçado real; ela está na tabela de parâmetros e no bloco de divergências. O que não diverge é o significado: variabilidade preservada é o achado mais tranquilizador do papel, e a perda dela na companhia de desacelerações repetidas é o achado mais grave.
Acelerações são elevações abruptas — do início ao pico em menos de trinta segundos — de pelo menos 15 batimentos acima da linha de base e com pelo menos 15 segundos de duração; antes de 32 semanas, 10 batimentos por 10 segundos. Elas acompanham movimento fetal e indicam um feto neurologicamente responsivo. A ausência delas tem significado incerto e, isolada, é improvável que indique hipóxia — o ciclo de sono fetal normal dura de 20 a 40 minutos e pode chegar a 90, o que basta para apagar as acelerações de um traçado inteiro sem nenhuma doença por trás.
Desacelerações são quedas de mais de 15 batimentos com mais de 15 segundos de duração, e é onde mora a maior parte dos erros de leitura. Elas se classificam pela relação temporal com a contração e pela velocidade da queda, não pela profundidade nem pelo susto que causam. A seção seguinte é sobre isso.
Só depois dos quatro é que se classifica o traçado, e a classificação é sempre a última etapa. Quem começa pela categoria acaba encaixando o traçado no rótulo que já tinha escolhido — e a categoria, sozinha, não diz o que fazer: quem diz é a soma do padrão com a causa provável, a fase do parto e a resposta às manobras.
As desacelerações: o nome importa menos que a relação com a contração
Há quatro nomes e dois critérios que os separam: quanto tempo a queda leva para atingir o fundo, e onde esse fundo cai em relação ao pico da contração. Guardando esses dois critérios, os nomes se deduzem, e é assim que se deve aprender — decorar os nomes sem os critérios produz o interno que chama de tardia toda desaceleração feia.
A precoce tem queda gradual, com pelo menos trinta segundos entre o início e o fundo, e o fundo coincide com o pico da contração: começa, desce e volta em espelho com ela. Origem em compressão do polo cefálico, sem hipoxemia envolvida. É a única que pode estar presente num traçado plenamente normal.
A variável tem queda abrupta, menos de trinta segundos até o fundo, formato em V, e relação inconstante com as contrações — varia em tamanho, forma e momento. É a mais comum do trabalho de parto e traduz compressão de cordão por via barorreflexa. Raramente se associa a hipóxia relevante, exceto quando exibe critérios desfavoráveis, e aqui os documentos brasileiros descrevem o mesmo fenômeno com números diferentes: duração igual ou superior a 60 segundos ou queda superior a 60 batimentos, num deles; duração superior a um minuto, frequência caindo abaixo de 70 batimentos, morfologia em W, recuperação lenta, taquicardia ou bradicardia após o retorno e perda de variabilidade dentro da desaceleração, no outro. A divergência tem consequência e está auditada nas notas.
A tardia tem queda gradual, como a precoce, mas o fundo acontece depois do pico da contração e o retorno à linha de base se completa depois que a contração acabou; costuma começar pelo menos vinte segundos após o início da contração. Formato em U. É a resposta por quimiorreceptores à hipoxemia e indica reserva de oxigênio baixa. Uma tardia isolada não decide nada; tardias que se repetem, sim.
A prolongada é a que não cabe em nenhuma das anteriores porque dura demais, e é aqui que os cortes de tempo divergem entre os documentos: para uma das classificações ela começa em 2 minutos, para a outra em 3. Acima de 10 minutos os dois concordam que deixa de ser desaceleração e passa a ser mudança de linha de base — ou seja, o evento mais grave é o que sai da definição, e passa a se chamar bradicardia. As notas do bloco de critérios trazem a conta.
Falta a palavra que decide categoria: recorrente. Uma desaceleração é recorrente quando aparece em metade ou mais das contrações — e aqui está o corte que mais silenciosamente muda diagnóstico, porque um documento diz "50% ou mais" e o outro diz "mais de 50%". Um traçado com desaceleração tardia em exatamente metade das contrações é recorrente por um critério e não é pelo outro, e essa única palavra decide se ele é patológico ou apenas suspeito.
As categorias — e por que a do meio é a mais comum
Existem duas classificações em circulação no Brasil, e é preciso saber que são duas antes de usar qualquer uma. A da federação internacional, de 2015, chama as classes de normal, suspeita e patológica. A americana, publicada em 2008 e trazida ao português em 2011, numera três categorias, I, II e III. Não são traduções uma da outra: os critérios diferem, e a tabela de categorias do bloco seguinte mostra onde.
As duas concordam no extremo tranquilizador. Traçado normal, ou categoria I, exige que tudo esteja certo ao mesmo tempo: linha de base na faixa, variabilidade adequada, sem desacelerações tardias nem variáveis. Um traçado assim prediz com força equilíbrio ácido-base normal, e a conduta é seguir a rotina — não há o que fazer, e fazer alguma coisa é o erro.
As duas também concordam no extremo grave, e a descrição é reconhecível: variabilidade ausente acompanhada de desacelerações tardias recorrentes, de variáveis recorrentes ou de bradicardia; ou padrão sinusoidal. É o traçado que prediz equilíbrio ácido-base alterado e que exige conduta imediata. Note o que ele tem de particular: não é uma desaceleração feia, é a companhia entre desaceleração repetida e ausência de variabilidade. O feto que desacelera com variabilidade preservada está se defendendo; o que desacelera sem variabilidade nenhuma parou de se defender.
E há a categoria do meio, que é o assunto real deste capítulo. Ela é definida por exclusão — é tudo que não é nem o extremo bom nem o extremo ruim — e por isso engloba a maior parte dos traçados de trabalho de parto: qualquer taquicardia, qualquer variabilidade mínima, ausência de acelerações, qualquer desaceleração prolongada, tardias recorrentes com variabilidade preservada, variáveis recorrentes. Bastando um parâmetro fora, ela é acionada o tempo todo.
O que a torna difícil não é a frequência, é a formulação: ela não é preditiva de equilíbrio ácido-base alterado, e também não é preditiva de equilíbrio normal. Ela diz literalmente que o exame não sabe. O que se exige dela é avaliação continuada e reavaliação dentro do contexto clínico — quer dizer, corrigir o que dá para corrigir, olhar de novo, e decidir com informação que não está no papel: a fase do trabalho de parto, quanto falta para o nascimento, o que aconteceu antes, e se o padrão melhorou ou piorou depois das manobras.
É por isso que a frase mais útil que um interno pode aprender sobre categorias é esta: a categoria classifica o traçado, não a conduta. Dois traçados na mesma categoria intermediária, um em multípara com dilatação completa e cabeça coroando, outro em nulípara com 5 cm e ocitocina correndo, pedem condutas opostas — e o papel é idêntico.
O mesmo traçado em seis situações diferentes
No prematuro. A linha de base tende ao topo da faixa e a reserva é menor, o que estreita a margem dos dois lados: alterações aparecem mais cedo e toleram menos. Antes de 32 semanas o critério de aceleração muda — 10 batimentos por 10 segundos, e não 15 por 15 —, e um traçado sem acelerações nessa idade não carrega o mesmo significado que carregaria no termo.
Sob analgesia regional. A janela crítica são os primeiros 30 minutos após a instalação e após cada dose de resgate, e o mecanismo é materno: hipotensão. A conduta padrão diante de alteração nessa janela é decúbito lateral esquerdo, correção hemodinâmica e otimização respiratória, com instalação do aparelho; se a alteração for grave e não transitória, a diretriz nacional manda considerar outra causa que não a analgesia — a alteração pode ser coincidência, e tratar a hipotensão que não existe atrasa o diagnóstico do que existe.
Com febre materna. A taquicardia fetal aparece antes de qualquer outra coisa e é frequentemente só temperatura, não infecção fetal. Mas febre com taquicardia fetal e útero doloroso ou líquido com odor é corioamnionite até prova em contrário, e nesse caso o traçado deixa de ser o problema principal: o plano inteiro muda e o parto precisa acontecer.
Com ocitocina em curso. Toda alteração de traçado em mulher com ocitocina correndo é iatrogênica até prova em contrário, e a primeira medida não é chamar ninguém, é reduzir ou suspender a infusão — a meia-vida é curta e a resposta costuma vir em minutos. Vale contar as contrações antes de qualquer conclusão sobre o feto.
Na restrição de crescimento fetal. O feto restrito tolera menos e descompensa mais rápido, e alterações que seriam observáveis em outro feto tornam-se decisão. O acompanhamento anteparto desse feto — Doppler, perfil biofísico, estadiamento — é assunto do capítulo de restrição de crescimento fetal, e não se repete aqui; o que este capítulo assume é a leitura do traçado depois que o trabalho de parto começou.
No segundo período. Tudo se acelera. A compressão do polo cefálico e do cordão é máxima, desacelerações aparecem em quase todo mundo, e o tempo de deterioração é curto. É o momento em que a vigilância mais se estreita e em que o traçado, isolado, mais engana — porque a alternativa à espera, aqui, pode ser um parto que já ia acontecer em cinco minutos.
Como fechar o diagnóstico
Vigilância fetal intraparto não tem exame de sangue, não tem imagem e não tem escore que resolva. O instrumental é um sonar, um relógio, uma mão no fundo uterino e, quando indicado, um aparelho que desenha em papel o que a mão e o ouvido já vinham medindo. Por isso a parte investigativa deste capítulo não é sobre pedir exames: é sobre extrair informação confiável de um método barato e sobre não ser enganado por um método caro.
Há uma regra única por trás de tudo o que vem a seguir: antes de concluir qualquer coisa sobre o feto, confirme que é o feto que você está medindo. Frequência materna registrada como fetal, perda de sinal lida como traçado normal e desaceleração classificada sem olhar a faixa das contrações são os três erros que produzem as decisões mais absurdas da sala de parto — e os três são de aquisição, não de interpretação.
Ausculta alterada: os sessenta segundos seguintes
Você ouviu alguma coisa que não devia — a frequência caiu depois da contração, ou o número não bate com o de meia hora atrás. A primeira coisa a fazer não é chamar ninguém e não é buscar o aparelho: é confirmar que o que você ouviu é do feto. Ponha a mão no pulso da mulher e ausculte ao mesmo tempo. Se os dois batem juntos, você está ouvindo a mãe, e a conduta é reposicionar o transdutor, não iniciar reanimação.
Confirmado que é fetal, repita a ausculta atravessando um ciclo inteiro de contração — antes, durante e depois —, por pelo menos um minuto, e faça isso em duas ou três contrações seguidas. Uma queda isolada com recuperação imediata é diferente de uma queda que se repete a cada contração, e essa diferença não aparece numa escuta só. Enquanto ausculta, palpe o fundo uterino e conte contrações por dez minutos: metade das alterações de frequência que o interno encontra tem a explicação na faixa das contrações e não no feto.
Ao mesmo tempo, e sem esperar por conclusão nenhuma, faça o que é gratuito e reversível: coloque a mulher em decúbito lateral esquerdo. Depois cheque, nesta ordem, o que costuma explicar o resto — pressão arterial, se houve analgesia ou dose de resgate na última meia hora; bexiga; ocitocina em curso e a que velocidade; perdas vaginais, cor do líquido, sangramento; temperatura materna. São cinco perguntas e levam menos de dois minutos.
Agora a decisão se divide em três. Alteração transitória, com recuperação imediata, contrações adequadas e mulher estável: mantenha a ausculta com intervalo mais curto do que o de rotina até normalizar, e registre o episódio com hora, o que ouviu e o que fez. Alteração que persiste, ou linha de base fora da faixa: a diretriz nacional trata frequência abaixo de 110 ou acima de 160 e desacelerações à ausculta intermitente como achados que exigem assistência médica — chame a plantonista e instale a cardiotocografia, se houver. Alteração grave — queda profunda que não recupera — é emergência e vale a sequência do bloco de conduta, com ajuda chamada antes de qualquer outra coisa.
Existe uma quarta situação, e é a que o interno esquece: alteração persistente em serviço que não tem cardiotocógrafo nem obstetra disponível. Aí o achado é critério de transferência, e a transferência é a conduta. A diretriz nacional lista esses mesmos achados fetais entre os que motivam encaminhamento a assistência médica quando o parto está acontecendo fora do ambiente hospitalar — e a lógica vale para a unidade de menor porte: a ausência do recurso, quando o quadro o exige, é ela própria a indicação de transferir.
Montar a cardiotocografia, e o que sabota o traçado
São dois transdutores. O da frequência vai sobre o dorso fetal, e por isso as manobras de palpação abdominal vêm antes de encostar o aparelho — transdutor colocado no lugar errado é a origem mais comum de traçado ruim e de perda de sinal. O outro vai no fundo uterino e registra as contrações. A mulher fica em decúbito lateral esquerdo, semideitada entre 30 e 45 graus, ou sentada; nunca em decúbito dorsal plano, que reduz o retorno venoso e cria a alteração que se quer investigar.
A velocidade do papel pode ser de 1, 2 ou 3 centímetros por minuto, e a orientação do protocolo estadual é usar aquela com que o profissional está familiarizado. Vale saber por que isso importa: a mesma desaceleração desenhada a 1 cm/min parece estreita e abrupta, e a 3 cm/min parece larga e gradual. Como a distinção entre precoce, tardia e variável depende justamente da inclinação e do tempo até o fundo, ler um traçado sem saber a velocidade do papel é ler um gráfico sem escala. Confira a velocidade antes de classificar, e registre-a.
A duração média da avaliação é de dez minutos, com até trinta minutos adicionais quando alguma alteração precisa ser caracterizada, e mais tempo ainda quando a interpretação estiver em dúvida — estender a observação é conduta, não indecisão. Contra a pressa há um dado fisiológico: o ciclo de sono do feto normal dura de 20 a 40 minutos e pode chegar a 90. Um traçado de dez minutos sem acelerações, com variabilidade no limite inferior e sem desacelerações, é compatível com feto dormindo, e classificar isso como anormal na primeira tira é o caminho mais curto para uma intervenção desnecessária.
Duas coisas que não adiantam e estão escritas: não há indicação de administrar glicose à mãe nem de manipular o feto para melhorar o resultado — nenhuma das duas reduz a taxa de exames alterados. Para interromper o ciclo sono-vigília, o protocolo brasileiro descreve o estímulo sônico, com fonte de 500 a 1000 Hz e 110 a 120 decibéis por 3 a 5 segundos sobre o polo cefálico; vale registrar que essa descrição está no contexto da avaliação anteparto, e usá-la no intraparto é extensão de indicação, não recomendação escrita.
Por fim, os dois sabotadores silenciosos. O primeiro é o registro da frequência materna no lugar da fetal, que produz um traçado plausível, com variabilidade e tudo, de um coração que não é o que interessa — a confirmação é o pulso materno palpado ou o oxímetro, comparado com o número da tela. O segundo é a perda de sinal: intervalos em branco no papel não são traçado normal, e um papel cheio de buracos não classifica. Obesidade materna, polidrâmnio, feto muito ativo e mulher que se move são causas banais, e a solução é reposicionar o transdutor, não aceitar o traçado que sobrou.
A faixa de baixo: as contrações no mesmo papel
O traçado tem duas faixas, e a de baixo é a que o interno ignora. Ela é indispensável por um motivo lógico antes de clínico: sem saber quando cada contração começou e terminou, é impossível dizer se uma queda é precoce, tardia ou variável — a classificação inteira é definida pela relação temporal com a contração. Traçado lido só na faixa de cima produz laudo inventado.
É preciso saber o que o transdutor externo mede e o que ele não mede: ele dá frequência e duração das contrações, e não mede intensidade. A pressão que aparece no papel depende de quanto o cinto aperta e de onde o sensor está. Quem mede intensidade é a mão espalmada no fundo uterino. Por isso a palpação continua obrigatória mesmo com a mulher monitorizada, e um traçado que mostra contrações fracas em mulher cujo útero fica pétreo à palpação está errado, não a mão.
O achado que mais frequentemente explica um traçado ruim é a taquissistolia: mais de cinco contrações em dez minutos. O protocolo estadual acrescenta um segundo critério, uma contração com duração superior a 120 segundos, e o descreve entre os riscos do misoprostol. Repare na aritmética do alvo: a diretriz nacional estabelece como alvo da condução com ocitocina de quatro a cinco contrações em dez minutos, e o corte de taquissistolia é acima de cinco — ou seja, o alvo termina exatamente onde o problema começa, e não há faixa entre um e outro. Conduzir no alvo máximo é conduzir na borda.
Acima da taquissistolia está a hipertonia, em que o tônus basal sobe porque não há tempo para o útero relaxar entre uma contração e a seguinte, e a síndrome de hiperestimulação uterina, que é a alteração da contratilidade acompanhada de desacelerações ou de outras anormalidades da frequência fetal. A causa mais comum de hipertonia é uso indevido de ocitocina — que é também a mais rápida de corrigir, porque a meia-vida é curta. Descolamento prematuro de placenta é a causa que não se corrige e que precisa ser lembrada diante de hipertonia com dor entre as contrações.
Um detalhe de sequência que evita erro: conte as contrações antes de olhar as desacelerações, não depois. Quem olha a queda primeiro já formou a hipótese de sofrimento fetal e passa a ler a faixa de baixo procurando confirmação. Quem conta primeiro descobre seis contrações em dez minutos e resolve o traçado inteiro fechando o gotejamento.
O contexto que muda a leitura do mesmo traçado
O mesmo papel significa coisas diferentes conforme cinco informações que não estão nele. A primeira é o tempo: há quanto tempo esse padrão está lá. Desacelerações tardias há dez minutos e há duas horas são achados de gravidade completamente diferente, e a única forma de saber é ter registrado. A segunda é a fase do parto: no segundo período, com cabeça coroando, desacelerações são quase universais e a distância até o nascimento pode ser menor que a distância até o centro cirúrgico.
A terceira é o que está sendo infundido. A quarta é a temperatura materna, porque taquicardia fetal com febre materna é primeiro febre e só depois hipóxia. A quinta é a história daquela gestação: restrição de crescimento, pré-eclâmpsia, cicatriz uterina, prematuridade e gemelaridade estreitam a margem, e um traçado intermediário nessas mulheres não tem o mesmo prazo de observação que teria numa gestação de risco habitual.
O mecônio merece parágrafo próprio porque é onde os documentos brasileiros surpreendem. Mecônio significativo — verde-escuro ou preto, espesso, tenaz, com grumos — obriga a garantir a presença de profissional treinado em suporte avançado de vida neonatal no momento do parto e, se o parto estiver acontecendo fora do hospital, a transferir. Quanto à vigilância, porém, a diretriz nacional é explícita ao dizer que tanto a monitoração eletrônica contínua, se disponível, quanto a ausculta intermitente com técnica padronizada podem ser usadas diante de mecônio — e o corpo de evidência dela desaconselha a monitoração contínua de rotina nessa situação, pesando custo de aquisição e manutenção contra benefícios clínicos apenas marginais.
Vale dizer o que essa evidência de fato mostrou, porque é o único lugar do documento em que a monitorização contínua saiu melhor num desfecho neonatal: na presença de mecônio, a admissão em unidade neonatal foi de 6,3% com cardiotocografia contínua contra 17,1% com ausculta intermitente, ao preço de 26,9% contra 13,1% de cesariana. O documento reconhece o achado e ainda assim recomenda contra o uso rotineiro — decisão de política de saúde, declarada como tal, e não interpretação clínica escondida.
E há a amnioinfusão, que aparece na diretriz nacional numa formulação curiosa: considerá-la diante de mecônio moderado a espesso se não houver disponibilidade de monitoração eletrônica fetal contínua. Como a recomendação anterior diz que ausculta e cardiotocografia servem igualmente para mecônio, a condição da amnioinfusão só faz sentido se a monitoração contínua fosse a preferida — as duas recomendações não se sustentam juntas. A conta está nas notas.
O que não se pede — e o que o país não tem
Não se faz cardiotocografia de admissão em gestante saudável a termo. A federação brasileira a lista entre as práticas não recomendadas com grau de evidência A, com base em revisão de três ensaios e 11.259 mulheres em que o exame de admissão se associou a mais intervenção obstétrica sem diferença de morbimortalidade perinatal. Ela é a porta de entrada da imobilização: a mulher chega, é deitada, é conectada, e não sai mais dali.
Não se faz cardiotocografia contínua de rotina em trabalho de parto espontâneo de risco habitual, também com grau A na mesma lista, e pelo motivo que este capítulo inteiro desenvolve. Não se indica cesariana pela eliminação isolada de mecônio: a diretriz nacional registra que não há evidência para recomendar nem para desaconselhar essa conduta, o que é diferente de dizer que ela está indicada.
Do lado do que não existe: os exames de segunda linha que aumentariam a especificidade do traçado — pH ou lactato de sangue de couro cabeludo fetal, oximetria de pulso fetal, análise do segmento ST — não fazem parte da rotina descrita por nenhum documento brasileiro consultado neste capítulo, e aparecem nos ensaios internacionais que a diretriz nacional revisou, não nas recomendações que ela emite. A consequência prática é dura e precisa ser dita: no Brasil, diante de um traçado intermediário que persiste, não há teste confirmatório. O que existe é reavaliação clínica, correção de causas e tempo — e é isso que torna a leitura do traçado uma competência, e não um automatismo.
Do lado do que existe: sonar Doppler e estetoscópio de Pinard estão em qualquer maternidade, e é justamente por isso que a régua nacional foi construída sobre a ausculta intermitente. O cardiotocógrafo está nos serviços de referência. A ausência dele numa unidade de menor porte não é detalhe de infraestrutura: quando o quadro exige monitoração contínua, essa ausência é critério de transferência.
O registro, porque o traçado é documento
O papel do cardiotocógrafo é prova. Ele será lido por outra pessoa, num outro dia, possivelmente anos depois, e possivelmente por alguém que precisa reconstruir o que aconteceu naquela noite. Um traçado sem identificação é um papel anônimo, e um traçado sem anotações é um gráfico sem história. Identifique a tira: nome da mulher, número do prontuário, data, hora de início e velocidade do papel.
Anote no próprio papel, com a hora, tudo o que possa explicar uma mudança do desenho: troca de posição, toque vaginal, ruptura de membranas, instalação de analgesia e cada dose de resgate, início, aumento e suspensão da ocitocina, vômito, pico febril, exame do pulso materno, e a saída da mulher para o banheiro. Um traçado com uma queda às 2h14 e sem nenhuma anotação é indefensável; o mesmo traçado com "2h13 — dose de resgate na peridural" escrito ao lado se explica sozinho.
No prontuário, a evolução não diz "CTG normal". Ela diz os quatro parâmetros pelo nome e o número de cada um, a classificação que você atribuiu, o que motivou a instalação do aparelho, o que foi feito e a que horas, e qual foi a resposta. Uma frase que salva plantão: registrar a hora em que você chamou e a hora em que a plantonista chegou.
Na ausculta intermitente, o registro substitui o papel inteiro — não sobra nenhuma evidência física do que foi ouvido. Por isso cada ausculta precisa de hora, valor como taxa única, momento do ciclo da contração em que foi feita, e menção explícita a acelerações ou desacelerações ouvidas. Uma sequência de "BCF 140" a cada meia hora, sem nada disso, prova apenas que alguém escreveu um número. E, quando a mulher está sem aparelho por indicação correta, é esse registro que documenta que houve vigilância — a ausência de traçado nunca deve poder ser lida como ausência de cuidado.
Ler o traçado: os quatro parâmetros, as desacelerações e as categorias
As tabelas a seguir são a régua operacional do capítulo, e vêm com uma advertência que vale para todas: nenhuma delas é brasileira na origem. A classificação em três classes é da federação internacional de ginecologia e obstetrícia, de 2015, e chega ao Brasil reproduzida em protocolos estaduais; a classificação em três categorias numeradas é americana, de 2008, e chega em português por artigo de revisão de 2011. Não existe documento federal brasileiro que defina linha de base, variabilidade, tipos de desaceleração ou categorias de traçado: o manual federal de alto risco, na edição de 2022, não o faz, e a Portaria 353, que em 2017 aprovou as Diretrizes Nacionais de Assistência ao Parto Normal, fixa o método de vigilância e os gatilhos de chamada, mas não a gramática do papel. As notas ao final trazem as contas: onde os documentos divergem entre si, onde um deles diverge de si mesmo, e o que fecha quando conferido.
- 1Antes de olhar a faixa de cima, confirme que é o feto: pulso materno palpado ao mesmo tempo, ou oxímetro comparado com o número da tela. Frequência materna registrada como fetal é o erro que produz as decisões mais absurdas.
- 2Confira a velocidade do papel — 1, 2 ou 3 cm por minuto — e registre-a. Sem ela, a inclinação de uma desaceleração não significa nada, e é a inclinação que separa variável de tardia.
- 3Leia a faixa de baixo primeiro: quantas contrações em dez minutos e quanto dura cada uma. Acima de cinco em dez minutos é taquissistolia, e a maior parte dos traçados ruins se resolve aqui.
- 4Linha de base: a média num segmento de dez minutos, excluídas acelerações e desacelerações, com pelo menos dois minutos identificáveis. Anote o número, não a faixa.
- 5Variabilidade: a amplitude das oscilações, do pico ao vale, no mesmo segmento. É o parâmetro que carrega mais informação e o que mais se pula.
- 6Acelerações: presentes ou ausentes. Ausência isolada, com o resto normal, é compatível com sono fetal — o ciclo dura de 20 a 40 minutos e pode chegar a 90.
- 7Desacelerações: classifique cada uma pela velocidade da queda e por onde o fundo cai em relação ao pico da contração, e conte em que fração das contrações ela aparece. Metade ou mais é recorrente, e é essa palavra que decide categoria.
- 8Só agora classifique o traçado — e classifique o traçado, não a conduta. A conduta sai da soma da categoria com a causa provável, a fase do parto, o tempo que o padrão já dura e a resposta às manobras de reanimação intrauterina.
| Parâmetro | O que se mede | O que significa | O que muda |
|---|---|---|---|
| Contrações (faixa de baixo) | Número em 10 minutos e duração de cada uma, pelo traçado; intensidade e tônus basal, só pela mão no fundo uterino | É o intervalo, e não a força, que define se o feto consegue repor oxigênio entre uma contração e outra | Acima de 5 em 10 minutos: reduzir ou suspender a ocitocina antes de qualquer conclusão sobre o feto |
| Linha de base | Média da frequência num segmento de 10 minutos, excluídas acelerações e desacelerações, com pelo menos 2 minutos identificáveis | Normal entre 110 e 160 bpm na maioria dos documentos brasileiros. Acima por mais de 10 minutos é taquicardia; abaixo, bradicardia | Taquicardia pede temperatura materna antes de qualquer outra hipótese; bradicardia mantida é emergência até prova em contrário |
| Variabilidade | Amplitude das oscilações da linha de base, do pico ao vale, em bpm, no mesmo segmento de 10 minutos | Recibo de que o sistema nervoso central fetal está acordado e oxigenado. Os cortes divergem entre classificações — ver a tabela de categorias e as notas | Preservada, tranquiliza mesmo com desacelerações. Ausente e acompanhada de desaceleração repetida é o achado mais grave do papel |
| Acelerações | Elevação abrupta (início ao pico em menos de 30 s) de pelo menos 15 bpm por pelo menos 15 s; antes de 32 semanas, 10 bpm por 10 s | Feto neurologicamente responsivo. A ausência isolada tem significado incerto e é improvável que indique hipóxia sozinha | Ausência com o resto normal: estender a observação, pensar em ciclo de sono (20 a 40 minutos, até 90), não intervir |
| Desacelerações | Queda de mais de 15 bpm por mais de 15 s, classificada pela velocidade da queda e pela posição do fundo em relação ao pico da contração | Precoce e variável são respostas reflexas bem-sucedidas; tardia é resposta química à hipoxemia. Ver a tabela seguinte | O que decide não é a profundidade: é a recorrência (metade ou mais das contrações) e a variabilidade que a acompanha |
| Padrão sinusoidal | Onda regular em forma de sino, com variabilidade de 5 a 15 bpm e três a cinco ciclos por minuto, sem acelerações | Raro. Classicamente associado a anemia fetal grave — feto isoimunizado ou hidrópico — e também descrito na hipóxia | Entra direto na classe mais grave, sem precisar de desaceleração nenhuma junto |
Intervalos da ausculta intermitente: o que cada documento brasileiro manda
| Momento | Diretriz nacional (Portaria 353, 2017) | Protocolo estadual (Rede Cegonha PB, 2020) | Federação brasileira (2010, citando a sociedade canadense) |
|---|---|---|---|
| Primeiro período | A cada 30 minutos | Duas afirmações na mesma página: "a cada 15-30 minutos" e "a cada 30 minutos" | A cada 15 a 30 minutos |
| Segundo período | Não estabelece intervalo separado — a recomendação é uma só, de 30 minutos | A cada 5 minutos, durante e após cada contração | A cada 5 minutos |
| Após analgesia regional e a cada dose de resgate | A cada 5 minutos por no mínimo 30 minutos; se alterar, instalar cardiotocografia | Segue a diretriz nacional | Não especifica |
| Duração de cada escuta | Pelo menos 1 minuto, antes, durante e imediatamente após a contração | Pelo menos 1 minuto, antes, durante e após a contração | Não especifica duração |
| Como se registra | Taxa única, com acelerações e desacelerações se ouvidas; palpar o pulso materno diante de suspeita | Registrar no prontuário a presença de acelerações e desacelerações | Não especifica |
As desacelerações: o que distingue uma da outra
| Tipo | Velocidade da queda | Posição em relação à contração | Mecanismo | O que significa |
|---|---|---|---|---|
| Precoce (DIP I) | Gradual: 30 segundos ou mais do início ao fundo | Fundo coincide com o pico da contração; começa, desce e volta em espelho com ela | Reflexo vagal por compressão do polo cefálico | Não indica hipóxia. Pode estar presente num traçado plenamente normal |
| Variável (DIP III) | Abrupta: menos de 30 segundos do início ao fundo, formato em V | Relação inconstante — varia em tamanho, forma e momento entre contrações sucessivas | Barorreflexo por compressão do cordão umbilical | A mais comum do trabalho de parto. Raramente grave, exceto com critérios desfavoráveis (ver notas) |
| Tardia (DIP II) | Gradual: 30 segundos ou mais do início ao fundo, formato em U | Fundo depois do pico; início pelo menos 20 segundos após o início da contração; retorno depois do fim dela | Resposta de quimiorreceptores à hipoxemia | Reserva de oxigênio baixa. Isolada não decide; recorrente, sim |
| Prolongada | Descrita como abrupta na fonte americana; a classificação internacional não a define pela inclinação | Independente da contração: o que a define é a duração | Em geral quimiorreceptores, associada a hipotensão ou hipertonia uterina | Corte divergente: começa em 2 minutos por uma classificação e em 3 pela outra. Acima de 10 minutos passa a ser mudança de linha de base |
| Recorrente (qualificador, não tipo) | — | Aparece em metade ou mais das contrações | — | Corte divergente: "50% ou mais" numa fonte, "mais de 50%" na outra. É a palavra que decide a classe |
As duas classificações em circulação no Brasil, lado a lado
| Classe | Federação internacional, 2015 (via protocolo estadual) | Classificação americana, 2008 (via revisão brasileira de 2011) | O que exige |
|---|---|---|---|
| Tranquilizadora | Normal: linha de base 110-160 bpm, variabilidade 5-25 bpm, sem desacelerações recorrentes. Feto sem hipóxia; nenhuma intervenção necessária | Categoria I: linha de base 110-160 bpm, variabilidade moderada (6 a 25 bpm), sem tardias e sem variáveis; precoces e acelerações podem estar presentes ou ausentes | Seguir a rotina de vigilância. Fazer alguma coisa aqui é o erro |
| Intermediária | Suspeita: falta uma das características de normalidade, sem características patológicas. Sugere baixa probabilidade de hipóxia | Categoria II: qualquer traçado que não seja I nem III — taquicardia, variabilidade mínima ou acentuada, ausência de acelerações, desaceleração prolongada, tardias recorrentes com variabilidade moderada, variáveis recorrentes | Corrigir causas reversíveis, avaliação continuada e reavaliação no contexto clínico. Não é preditiva nem de acidose nem de normalidade |
| Grave | Patológica: linha de base abaixo de 100 bpm; variabilidade reduzida, acentuada ou sinusoidal; tardias recorrentes em mais de 50% das contrações; prolongadas por mais de 30 minutos, ou mais de 20 minutos com variabilidade reduzida; uma prolongada com mais de 5 minutos | Categoria III: variabilidade ausente acompanhada de tardias recorrentes, de variáveis recorrentes ou de bradicardia; ou padrão sinusoidal | Conduta imediata: reanimação intrauterina e preparo da resolução do parto. Na classificação internacional, considerar interrupção se os métodos adicionais não estiverem disponíveis |
| Terceira régua em circulação | — | Índice cardiotocométrico de Zugaib e Behle modificado: pontua linha de base 110-160, variabilidade 10-25 bpm, aceleração transitória e ausência de desacelerações; 4 ou 5 é feto ativo, 2 ou 3 hipoativo, 0 ou 1 inativo | Reproduzido no mesmo protocolo estadual que traz a classificação internacional, com corte de variabilidade diferente dela — ver notas |
O documento federal que fixa o método de vigilância não fixa a leitura do traçado. A diretriz nacional de assistência ao parto normal (Portaria 353, de 14 de fevereiro de 2017) determina o método na parturiente de baixo risco, a técnica da ausculta, o intervalo, o registro e os achados que exigem assistência médica — mas não define linha de base, variabilidade, tipos de desaceleração nem categorias. O manual de gestação de alto risco de 2022, com 692 páginas, também não: a expressão ausculta intermitente não aparece nele, e ele prescreve monitorização contínua apenas em situações pontuais, sem estabelecer como ler o resultado. A régua de leitura em uso no Brasil é importada, e chega por protocolo estadual e por artigo de revisão. Vigência da diretriz nacional: por ausência de substituto, e não por citação em documento mais novo.
A errata existe e é do próprio documento. A Portaria 353/2017 traz a nota "Republicada por ter saído, no Diário Oficial da União - DOU nº 36, de fevereiro de 2017, seção 1, página 37, com incorreções no original". Ou seja, o texto vigente já é a segunda publicação, e a busca por retificação posterior não devolve nada além disso.
Dois documentos do mesmo ministério discordam sobre a faixa normal da frequência cardíaca fetal. O caderno de atenção básica nº 32 (2013) afirma: "É considerada normal a frequência cardíaca fetal entre 120 a 160 batimentos por minuto". Os Protocolos da Atenção Básica: Saúde das Mulheres (2016) afirmam: "A frequência esperada é de 110 a 160 bpm". A conta da divergência: a faixa de 110 a 119 bpm, que tem 10 valores inteiros, é normal por um documento federal e bradicardia pelo outro. E a diretriz nacional de 2017 resolve na prática ao mandar chamar o médico quando a frequência está abaixo de 110 — alinhando-se ao corte de 110, sem revogar o texto de 2013.
O corte de variabilidade tem três valores em circulação, e dois deles estão no mesmo documento, a duas páginas de distância. O protocolo estadual afirma: "Variabilidade oscilatória normal: é definida entre 5 a 25 bpm pela FIGO e, pela classificação de Zugaib e Behle entre 10 e 25 bpm". A revisão brasileira de 2011 traz a régua americana: variabilidade moderada de 6 a 25 bpm, mínima igual ou menor que 5, ausente indetectável. A conta: uma variabilidade de 5 bpm é normal por uma régua, mínima (portanto anormal) por outra, e não pontua na terceira; e a faixa de 6 a 9 bpm é normal em duas e não pontua na terceira. O mesmo traçado muda de classe conforme a tabela que o leitor abrir, e o documento que imprime duas delas não diz qual usar.
A tabela da classificação internacional, como impressa no protocolo estadual, não fecha na linha de base. O critério de normalidade é 110 a 160 bpm e o critério de patológico é "linha de base abaixo de 100 bpm". A conta: a faixa de 100 a 109 bpm não é normal nem patológica e só é classificável pela cláusula residual de "suspeita". Pior: o mesmo documento define bradicardia como frequência basal abaixo de 110 e, dois parágrafos adiante, afirma que "valores entre 100 e 110 bpm podem ocorrer em fetos normais" — três rótulos para a mesma faixa, no mesmo capítulo. E o lado de cima não tem porta: taquicardia sustentada não figura entre os critérios de patológico, de modo que uma linha de base de 200 bpm com variabilidade preservada e sem desacelerações permanece apenas "suspeita" por essa tabela.
A palavra "recorrente" tem dois cortes que não coincidem, e é a palavra que decide a classe. A revisão brasileira de 2011 define desacelerações recorrentes como "a presença de desacelerações em 50% ou mais das contrações uterinas em um período de 20 minutos". A tabela da classificação internacional, no protocolo estadual, exige "desacelerações tardias recorrentes (em mais de 50% das contrações uterinas)". A conta é de um caso: um traçado com desaceleração tardia em exatamente metade das contrações é recorrente por uma régua e não é pela outra — e, como a recorrência das tardias é critério de patológico, o mesmo papel é patológico numa leitura e suspeito na outra. Ninguém decide cesárea por 50% contra 50,1%, mas essa fronteira é o tipo de coisa que se resolve escrevendo qual régua o serviço adota.
O corte da desaceleração prolongada difere em um minuto inteiro entre as duas réguas. A revisão brasileira de 2011 define prolongada como diminuição de 15 bpm ou mais com duração igual ou maior que 2 minutos e menor que 10. O protocolo estadual, seguindo a classificação internacional, diz: "Desacelerações prolongadas: duração superior a 3 minutos". A conta: uma queda de 2 minutos e 30 segundos é desaceleração prolongada por uma régua e não é pela outra — e como "desaceleração prolongada" é critério de categoria intermediária numa e de patológico na outra a partir de 5 minutos, o rótulo muda a conduta. As duas concordam num ponto e ele merece ser dito: acima de 10 minutos deixa de ser desaceleração e passa a ser mudança de linha de base, ou seja, o evento mais grave sai da definição e passa a se chamar bradicardia.
Os critérios de desaceleração variável desfavorável são grandezas diferentes nos dois documentos. A revisão brasileira de 2011 diz que a variável é desfavorável quando "a duração é igual ou superior a 60 segundos ou a queda superior a 60 bpm, ou ainda quando assume um formato de um W". O protocolo estadual lista, entre os critérios de mau prognóstico, "duração superior a um minuto" e "queda da FCF abaixo de 70 bpm". A conta: com linha de base de 150 bpm, uma queda de 60 bpm chega a 90 — desfavorável pela primeira régua (amplitude) e não pela segunda (piso absoluto). Um dos critérios é uma amplitude e o outro é um valor de chegada, e eles só coincidem quando a linha de base é de exatamente 130 bpm. E a duração diverge no próprio segundo: "igual ou superior a 60 segundos" contra "superior a um minuto" faz de 60 segundos exatos um achado desfavorável por uma régua e não pela outra.
O mesmo protocolo estadual indica cesariana por uma classificação que ele próprio não define. No capítulo de assistência ao parto cesariano, "Cardiotocografia categoria III" aparece na coluna das indicações consolidadas. No capítulo de avaliação da vitalidade fetal, o mesmo documento classifica a cardiotocografia intraparto em normal, suspeita e patológica, seguindo a classificação internacional — em que não existe categoria III. A expressão vem da classificação americana em três categorias numeradas, que o protocolo não reproduz em lugar nenhum. Ou seja: uma indicação consolidada de cirurgia está ancorada num rótulo que o documento nunca define.
As duas recomendações sobre mecônio da diretriz nacional não se sustentam juntas. A recomendação 86 diz que "tanto a monitoração eletrônica contínua da frequência cardíaca fetal, se disponível, como a ausculta fetal intermitente, seguindo técnicas padronizadas, podem ser utilizadas" diante de mecônio. A recomendação 87 manda "considerar a realização de amnioinfusão diante da eliminação de mecônio moderado a espesso durante o trabalho de parto se não houver disponibilidade de monitoração eletrônica fetal contínua". A conta lógica: se os dois métodos servem igualmente (86), a indisponibilidade de um deles não deixa nenhuma lacuna a preencher, e a condição da 87 fica sem objeto. A 87 só faz sentido se a monitoração contínua for a preferida para mecônio — que é exatamente o que a 86 nega.
Uma soma do resumo de evidência da diretriz nacional está errada por dez mil. O item 9.5.4 afirma que houve "uma maior incidência de convulsões (n=16.099) nos recém-nascidos do grupo de ausculta intermitente". A Tabela 16 do mesmo documento traz, para convulsões, 8/13.072 no braço da cardiotocografia contínua e 24/13.027 no braço da ausculta: 13.072 + 13.027 = 26.099, e não 16.099. Todos os outros números do mesmo parágrafo fecham quando somados na tabela — parto vaginal espontâneo 1.444 + 1.415 = 2.859; mortalidade 15.262 + 15.299 = 30.561; paralisia cerebral 6.527 + 6.552 = 13.079; encefalopatia 746 + 682 = 1.428; sinais neurológicos 5.767 + 5.804 = 11.571; admissão em unidade neonatal 15.200 + 15.291 = 30.491 — o que isola o erro num dígito único.
No mesmo parágrafo, um n foi colado no desfecho errado. O texto atribui n=15.823 a "cesariana e parto vaginal instrumental por comprometimento fetal". A conta: 15.823 é exatamente 7.918 + 7.905, que são os braços das análises "por qualquer motivo". As análises por comprometimento fetal têm outros tamanhos — 14.761 + 14.753 = 29.514 para cesariana e 6.474 + 6.490 = 12.964 para parto instrumental. O número está certo; o rótulo é que está trocado.
As conferências que fecharam, e são a maioria. Na Tabela 16, a linha do parto instrumental por sofrimento fetal fecha em todas as casas: 190/6.474 dá 2,935% e 75/6.490 dá 1,156%, o risco relativo bruto é 2,540 contra 2,54 publicado, e o efeito absoluto de 18 a mais por mil, com intervalo de 11 a 27, é reproduzido exatamente por 1,156% multiplicado por 1,54, 0,95 e 2,31. A linha do desconforto respiratório também fecha em todas as casas. Na Tabela 20, do mecônio, as quatro linhas conferidas fecham: cesariana 26,9% contra 13,1% com 145 a mais por mil; cesariana por alteração da frequência ou acidose 17,1% contra 7,6% com 95 a mais por mil; admissão em unidade neonatal 6,3% contra 17,1% com 108 a menos por mil; parto instrumentado 39,3% contra 34,2% com 55 a mais por mil. E as taxas de mortalidade declaradas em nota de rodapé conferem: 4,5% no estudo do Paquistão corresponde a (4+5)/200, e 0,6% no de Melbourne corresponde a 2/350.
Uma linha da Tabela 16 não fecha e vale ser dita com a ressalva certa. Para pH umbilical abaixo de 7,10, os braços são 36/1.279 (2,815%) na cardiotocografia contínua e 29/1.215 (2,387%) na ausculta — mais acidose no braço monitorado —, mas o risco relativo publicado é 0,92, que aponta para o lado oposto, e o efeito absoluto vem como 2 a menos por mil. A razão bruta dos dois braços somados é 1,18. Uma inversão assim é possível numa meta-análise de dois estudos com pesos e riscos de base diferentes, mas o documento não publica os estudos separados, e o leitor não tem como conferir — o que é, em si, o achado.
O aumento de cesariana atribuído à monitorização contínua tem três valores diferentes em documentos brasileiros, e dois deles estão no mesmo manual. A diretriz nacional, na Tabela 16, publica risco relativo de 1,19 para cesariana por qualquer motivo, isto é, 19% a mais. O manual da federação brasileira de 2010 cita, num capítulo, "incremento de 66% do número de cesarianas e 16% de parto vaginal operatório" pela meta-análise de Alfirevic, e, em outro capítulo, "marcante aumento da taxa de cesárea (41%) e de parto vaginal operatório (20%)" pela meta-análise de Thacker. A conta: 66 dividido por 19 é 3,5 — o maior valor em circulação é três vezes e meia o menor, e nenhum dos dois documentos reconcilia os números. O aluno que ouvir qualquer um deles numa aula terá ouvido um número brasileiro publicado.
A conta do capítulo, feita sobre a Tabela 16, e declarada como leitura própria. Aplicando os riscos relativos publicados às taxas do braço da ausculta, a monitorização contínua produz, a cada mil mulheres, 1,22 convulsão neonatal a menos, 4,95 cesarianas a mais por comprometimento fetal, 17,80 partos instrumentais a mais por comprometimento fetal e 0,31 caso a mais de paralisia cerebral (com intervalo que cruza a linha de nenhum efeito, isto é, sem diferença). Dividindo: são 822 mulheres monitorizadas por convulsão evitada, e cerca de 19 partos operatórios a mais por comprometimento fetal para cada convulsão evitada. Esta conta é do capítulo — o documento publica os riscos relativos e os efeitos absolutos, mas não a razão entre eles.
O valor preditivo de 1% não é o piso do exame, é o teto — e a conta é de Bayes. O manual da federação brasileira de 2010 afirma que "a taxa de falso-positivo do exame para paralisia cerebral é elevada, atingindo até 99%". Um falso-positivo de 99% equivale a um valor preditivo positivo de 1%. Com a incidência de paralisia cerebral do braço monitorado da Tabela 16 — 12 em 6.527, ou 1,84 por mil —, um valor preditivo de 1% exige que a fração de traçados rotulados como anormais seja de 0,184% dividido por 1%, isto é, 18,4%. Como a categoria intermediária é acionada por um único parâmetro fora e é reconhecidamente a mais frequente, a fração real é muito maior: se 60% dos traçados forem chamados de não tranquilizadores, o valor preditivo cai para 0,31% e o falso-positivo sobe para 99,7%. Ou seja, "até 99%" é o melhor cenário possível, não o pior. A leitura é do capítulo; o número de 99% e a incidência de paralisia cerebral são dos documentos.
O que a Rename 2024 fornece e o que ela não fornece, por busca exata sobre texto normalizado. Ocitocina: zero ocorrências — o uterotônico que a própria diretriz nacional manda administrar em todo parto não consta do elenco. Terbutalina: zero ocorrências — o tocolítico de resgate que o protocolo estadual prescreve para hipertonia e taquissistolia também não. Nifedipino: consta, no componente básico, nas apresentações de 10 mg cápsula e 10 mg comprimido, com código C08CA05 — o que significa que a dose de 20 mg prescrita pelo protocolo corresponde a duas unidades da apresentação padronizada. Sulfato de salbutamol solução injetável 0,5 mg/mL consta do componente básico. Misoprostol consta, em comprimido vaginal de 25 e de 200 mcg, com uso restrito a estabelecimentos hospitalares cadastrados. Sulfato de magnésio consta. A licença da Rename 2024 é Creative Commons Atribuição–Não Comercial–Compartilhamento pela mesma licença 4.0, com reprodução permitida mediante citação.
Este capítulo praticamente não prescreve fármaco, e isso é uma afirmação sobre o tema, não uma omissão. A vigilância fetal intraparto se faz com posição, tempo, mão e ouvido; as duas únicas drogas que entram são a ocitocina — para ser reduzida ou suspensa — e o tocolítico de resgate, quando a taquissistolia não cede com a suspensão. Por isso a tabela de conversão que caberia a um capítulo de fármaco foi substituída pelas tabelas de parâmetro, intervalo e categoria, e a única conversão de dose relevante é a do nifedipino: 20 mg por via oral equivalem a duas cápsulas ou dois comprimidos de 10 mg da apresentação da Rename, repetíveis a cada 30 minutos até o máximo de 4 doses, conforme o protocolo estadual; e a terbutalina, 0,25 mg por via subcutânea, corresponde a metade de uma ampola de 0,5 mg.
A conduta, hora a hora
Confirmar que o sinal é fetal e interpretar frequência e evolução pelo método de vigilância apropriado. Diante de alteração, avaliar causas reversíveis, posição, pressão materna, dinâmica e uso de ocitocina, suspendendo-a quando indicado. Reavaliar prontamente e chamar a equipe. Persistência ou gravidade exige escalonamento e decisão obstétrica, sem prolongar medidas ineficazes.
A segunda característica é o relógio. Toda medida deste bloco vem com um prazo de reavaliação, e é a reavaliação, não a medida, que produz a decisão. Um interno que faz tudo certo e não volta em dez minutos para ver o que mudou fez metade do trabalho, e a metade que não muda desfecho nenhum.
Admissão — escolher o método, e escrever por quê
Antes de qualquer exame, decida qual vigilância aquela mulher vai receber e registre a decisão com a justificativa. Risco habitual em trabalho de parto espontâneo, sem uso de ocitocina, sem mecônio significativo, sem febre, sem sangramento e sem gestação de risco: ausculta intermitente, e a mulher fica livre para andar, comer e mudar de posição. Presente qualquer um dos motivos da lista de indicações, monitorização contínua, com o motivo escrito. E não se faz cardiotocografia de admissão em gestante saudável a termo: ela aumenta intervenção sem nenhum ganho de desfecho, e é por ela que a imobilização entra.
Prescrição- Ausculta intermitente com estetoscópio de Pinard ou sonar Doppler na parturiente de baixo risco, em todos os locais de parto — Diretrizes Nacionais de Assistência ao Parto Normal (Portaria SAS/MS 353, 2017), rec. 25.
- Técnica, e ela é parte da recomendação: auscultar antes, durante e imediatamente após uma contração, por pelo menos 1 minuto e a cada 30 minutos, registrando como taxa única, anotando acelerações e desacelerações se ouvidas, e palpando o pulso materno diante de qualquer suspeita de anormalidade — MS 2017, rec. 25.
- NÃO prescrever cardiotocografia de admissão em gestante saudável a termo, nem cardiotocografia contínua de rotina em trabalho de parto espontâneo de risco habitual — ambas listadas entre as práticas não recomendadas, com grau de evidência A, pela FEBRASGO (Manual de Orientação: Assistência ao Abortamento, Parto e Puerpério, 2010).
- Registrar no prontuário: método escolhido, motivo, hora de início. Se a escolha pela monitorização contínua foi por indisponibilidade de profissional para auscultar, é isso que se escreve.
Primeiro período — a ausculta que se faz de verdade
Meia em meia hora, com relógio. Chegue antes da contração, encoste o transdutor sobre o dorso fetal, escute a linha de base, atravesse a contração inteira e continue escutando até depois que o útero relaxar. Um minuto, no mínimo, contado. Enquanto escuta, mantenha a outra mão no fundo uterino — você precisa saber onde a contração começa e termina para saber o que está ouvindo, e a mesma mão te dá a intensidade e o tônus basal, que nenhum aparelho externo mede. Ao terminar, escreva: hora, valor como número único, e o que ouviu de anormal. Repita a ausculta fora do intervalo de rotina sempre que houver motivo — mudança do padrão da dor, ruptura de membranas, perda de líquido de cor diferente, ou porque a mulher disse que alguma coisa mudou.
Prescrição- Intervalo de 30 minutos no primeiro período — MS 2017, rec. 25. O protocolo estadual da Rede Cegonha (PB, 2020) traz 15 a 30 minutos na mesma página em que repete 30 minutos, e a FEBRASGO (2010) adota 15 a 30 minutos citando a sociedade canadense. Ver a tabela de intervalos e o bloco de divergências.
- Imediatamente após ruptura de membranas: auscultar, verificar cor do líquido e conferir a apresentação — a ruptura com apresentação alta é o cenário clássico do prolapso de cordão, e a bradicardia que se instala nesse momento tem essa causa até prova em contrário.
- Sem prescrição medicamentosa. A vigilância do primeiro período de risco habitual não consome nenhum fármaco.
Ausculta alterada — os primeiros sessenta segundos
Antes de concluir qualquer coisa, palpe o pulso materno enquanto ausculta: se os dois batem juntos, você está ouvindo a mãe. Confirmado que é fetal, repita atravessando duas ou três contrações seguidas e conte as contrações em dez minutos. Ao mesmo tempo, e sem esperar conclusão, coloque a mulher em decúbito lateral esquerdo — a medida mais barata da obstetrícia. Depois cheque, nesta ordem: pressão arterial e se houve analgesia ou dose de resgate na última meia hora; ocitocina em curso e a que velocidade; bexiga; perdas, cor do líquido, sangramento; temperatura. Cinco perguntas, dois minutos.
Prescrição- Frequência abaixo de 110 ou acima de 160 bpm, ou desacelerações ouvidas à ausculta intermitente: são achados que exigem assistência médica, e transferência quando o parto está acontecendo fora do hospital — MS 2017, rec. 95.
- Instalar cardiotocografia, se disponível, diante de alteração que persiste — e, se não houver aparelho nem obstetra na unidade, a ausência do recurso diante de um quadro que o exige é ela própria critério de transferência.
- Decúbito lateral esquerdo diante de qualquer alteração da frequência cardíaca fetal — MS 2017, rec. 77 (formulada para a parturiente sob analgesia regional, e é a manobra padrão em qualquer alteração).
- Sem prescrição medicamentosa neste marco: nenhuma das medidas dos primeiros sessenta segundos é um fármaco.
Alteração fetal — medidas coordenadas e reavaliação contínua
Reconheça gravidade e acione ajuda. Confirme sinal fetal, suspenda ocitocina se em uso, reposicione e investigue hipotensão, taquissistolia, prolapso e outras causas conforme o quadro. Execute medidas pertinentes em paralelo, distribuindo tarefas; não espere observar efeito de cada uma para começar a seguinte. Corrija hipotensão com avaliação hemodinâmica, sem hidratação indiscriminada. Bradicardia persistente ou padrão grave exige preparar resolução enquanto reanima; um intervalo didático de cinco a dez minutos não autoriza demora.
Prescrição- Decúbito lateral esquerdo; se não houver resposta, decúbito lateral direito ou posição genupeitoral. Nenhuma paciente com alteração de frequência fetal permanece em decúbito dorsal.
- Suspender imediatamente a ocitocina — a meia-vida é curta. Conduta descrita para hipertonia e hiperestimulação no Protocolo de Assistência Obstétrica da Rede Cegonha (PB, 2020), que lista, na sequência: decúbito lateral esquerdo, hidratação venosa e, persistindo, tocolítico.
- Tocolítico de resgate quando a taquissistolia persiste após a suspensão da ocitocina: terbutalina 0,25 mg por via subcutânea, que é metade de uma ampola de 0,5 mg; ou nifedipino 20 mg por via oral, repetível a cada 30 minutos, até o máximo de 4 doses — Rede Cegonha (PB, 2020). Conferido na Rename 2024: a terbutalina não consta do elenco; o nifedipino consta no componente básico apenas nas apresentações de 10 mg cápsula e 10 mg comprimido, de modo que a dose de 20 mg corresponde a duas unidades.
- Hidratação venosa com cristaloide e correção da hipotensão materna, sobretudo na janela de 30 minutos após analgesia regional ou dose de resgate. A diretriz nacional determina, nessa situação, decúbito lateral esquerdo e avaliação da necessidade de otimização das condições respiratórias e circulatórias — MS 2017, rec. 77.
- Esvaziar a bexiga; cateterismo de alívio se a mulher não conseguir urinar.
- Toque vaginal para excluir prolapso de cordão e verificar iminência de nascimento. Diante de prolapso: elevar a apresentação com a mão enluvada e mantê-la elevada, posicionar em genupeitoral ou Trendelenburg, chamar ajuda e preparar a resolução imediata.
- No segundo período, suspender o puxo temporariamente enquanto se corrige o resto.
- Sobre oxigênio materno: nenhum dos documentos brasileiros consultados neste capítulo o prescreve como manobra de rotina para traçado alterado. O que a diretriz nacional determina é decúbito lateral esquerdo e avaliação da necessidade de otimização das condições respiratórias e circulatórias (rec. 77) — formulação que não equivale a máscara de oxigênio para todas. A prática é difundida no país e a régua escrita não a sustenta nem a proíbe.
- Marcar a hora de cada manobra no papel do traçado e reavaliar em 5 a 10 minutos.
Instalada a cardiotocografia — os primeiros trinta minutos
Posicione a mulher em decúbito lateral esquerdo, semideitada entre 30 e 45 graus, ou sentada — nunca em decúbito dorsal plano. Localize o dorso fetal pela palpação antes de encostar o transdutor da frequência, e ponha o segundo no fundo uterino. Confira e anote a velocidade do papel. Registre a tira: nome, prontuário, data, hora. Leia dez minutos antes de dizer qualquer coisa, e estenda por até mais trinta quando algum parâmetro precisar ser caracterizado — o ciclo de sono fetal dura de 20 a 40 minutos e chega a 90, e um traçado sem acelerações na primeira tira frequentemente é um feto dormindo. Enquanto isso, anote no próprio papel, com a hora, tudo o que possa explicar uma mudança: troca de posição, toque, ruptura de bolsa, dose de analgesia, alteração da ocitocina, vômito, pico febril.
Prescrição- Não administrar glicose à mãe e não manipular o feto para melhorar o resultado do exame: nenhuma das duas condutas reduz a taxa de resultados alterados — Rede Cegonha (PB, 2020).
- Confirmar que o sinal é fetal e não materno: pulso materno palpado ou oxímetro comparado com o número da tela. Perda de sinal não é traçado normal — reposicionar o transdutor.
- Manter a mulher fora do decúbito dorsal durante todo o registro, e permitir mudanças de posição compatíveis com a captação.
- Sem prescrição medicamentosa. A instalação do aparelho não pede droga nenhuma.
Categoria intermediária que persiste — o que se faz enquanto se espera
Este é o marco mais frequente e o menos ensinado. O traçado não é tranquilizador e não é grave; ele diz que o exame não sabe. O que se exige dele é avaliação continuada e reavaliação no contexto clínico — o que na prática significa quatro coisas. Primeira: refazer as manobras de reanimação intrauterina que ainda não tenham sido feitas, e verificar se as feitas foram feitas de verdade (a ocitocina foi fechada ou só reduzida?). Segunda: buscar a causa materna — febre, hipotensão, taquissistolia, desidratação, bexiga. Terceira: comparar com o traçado de meia hora atrás, porque a direção vale mais que o instantâneo: um padrão que estabilizou ou melhorou compra tempo, um que piora não compra. Quarta: informar a obstetra e combinar o prazo da próxima reavaliação em voz alta, com hora marcada. A categoria intermediária não é indicação de cesárea nem de tranquilidade; é indicação de alguém olhando de perto, com prazo.
Prescrição- Reavaliação com prazo declarado e escrito, tipicamente a cada 15 a 30 minutos enquanto o padrão persistir, e imediatamente diante de qualquer piora.
- Corrigir causas reversíveis é a conduta que a própria classificação internacional determina para a classe suspeita, conforme reproduzida no protocolo estadual: agir sobre as causas reversíveis ou prosseguir com métodos adicionais de avaliação da oxigenação fetal.
- Sobre esses métodos adicionais: pH ou lactato de sangue de couro cabeludo fetal, oximetria de pulso fetal e análise do segmento ST não fazem parte da rotina descrita por nenhum documento brasileiro consultado neste capítulo. Na prática brasileira, o que substitui o teste confirmatório é reavaliação clínica seriada e correção de causas.
- Antibiótico não entra aqui por causa do traçado. Se a taquicardia fetal vem com febre materna, útero doloroso ou líquido de odor fétido, o diagnóstico é corioamnionite e o plano inteiro muda — o que inclui antibiótico conforme o protocolo do serviço e a decisão de que o parto precisa acontecer.
- Sem prescrição medicamentosa dirigida ao traçado. O que se prescreve é tempo vigiado.
O traçado que decide o parto agora
Existe e tem cara própria: variabilidade ausente acompanhada de desacelerações tardias recorrentes, de variáveis recorrentes ou de bradicardia; ou padrão sinusoidal; ou uma desaceleração prolongada com mais de cinco minutos que não recupera com as manobras. Repare que o que caracteriza a gravidade não é a profundidade da queda — é a companhia entre desaceleração repetida e ausência de variabilidade, porque o feto que desacelera com variabilidade preservada está se defendendo e o que desacelera sem variabilidade nenhuma parou de se defender. Diante disso a sequência é simultânea, não sequencial: chame ajuda em voz alta, mantenha as manobras de reanimação intrauterina, garanta acesso venoso, e prepare a via mais rápida de nascimento — que depende da dilatação e da altura da apresentação, e é decisão de quem faz parto operatório. O interno não decide a via; o interno reconhece, chama e não perde minuto.
Prescrição- Chamar ajuda antes de qualquer outra coisa e em voz alta, dizendo o achado. Manter simultaneamente decúbito lateral, ocitocina suspensa, hidratação e bexiga vazia.
- Acesso venoso calibroso e comunicação ao centro cirúrgico enquanto a reanimação intrauterina continua.
- Cardiotocografia categoria III figura entre as indicações consolidadas de cesariana no protocolo estadual da Rede Cegonha (PB, 2020) — com a ressalva, registrada nas notas de auditoria, de que o mesmo documento classifica o traçado pela régua internacional, em que essa categoria não existe.
- Não indicar cesariana pela eliminação isolada de mecônio: a diretriz nacional registra que não há evidência para recomendar nem para desaconselhar essa conduta — MS 2017, rec. 88. Mecônio significativo obriga, sim, à presença de profissional treinado em suporte avançado de vida neonatal no parto, e a transferir quando o parto está fora do hospital — MS 2017, rec. 96 e 97.
- Vácuo-extrator não é primeira escolha diante de estado fetal não tranquilizador, pelo tempo maior necessário para a extração — Rede Cegonha (PB, 2020). A escolha entre as vias operatórias é do capítulo de cesariana e parto vaginal operatório.
- Avisar a equipe neonatal com o motivo e o tempo estimado, para que a sala esteja pronta.
Segundo período, nascimento e o registro que fica
No segundo período a vigilância se estreita e o traçado engana mais: a compressão é máxima, desacelerações aparecem em quase todo mundo, e a alternativa à espera pode ser um parto que já ia acontecer em cinco minutos. Ausculte no intervalo do segundo período, durante e após cada contração, e mantenha a mão no útero. Depois do nascimento, feche a documentação enquanto a memória está fresca: a evolução nomeia os quatro parâmetros com seus números, a classificação atribuída, o que motivou cada intervenção, a hora em que você chamou e a hora em que a plantonista chegou. Guarde o traçado identificado junto ao prontuário. E, quando a vigilância foi por ausculta intermitente, lembre que não sobra papel nenhum: o registro é a única prova de que houve vigilância.
Prescrição- Ausculta a cada 5 minutos no segundo período, durante e após cada contração — Rede Cegonha (PB, 2020) e FEBRASGO (2010). A diretriz nacional não estabelece intervalo separado para o segundo período: a recomendação 25 é única, de 30 minutos, e o intervalo de 5 minutos aparece nela apenas para a janela após analgesia regional (rec. 77). A divergência está no bloco próprio.
- Identificar a tira: nome, prontuário, data, hora de início e velocidade do papel. Anotar no papel, com a hora, cada evento que possa explicar uma mudança do desenho.
- Registrar na evolução os quatro parâmetros com seus números, a classificação, a conduta com horários e a resposta a ela — nunca apenas 'CTG normal'.
- Sem prescrição medicamentosa. O manejo ativo do terceiro período, o uterotônico profilático e as observações do pós-parto imediato são do capítulo de assistência ao trabalho de parto e do de hemorragia pós-parto.
Como saber se está funcionando
A pergunta deste bloco é diferente da pergunta do bloco de conduta. Lá era o que fazer; aqui é como saber se funcionou — e a resposta, na vigilância fetal, quase nunca é um número novo: é a comparação entre o que se vê agora e o que se via antes das manobras. Por isso os dois hábitos que sustentam este bloco inteiro são anotar a hora e comparar com o registro anterior.
Há um prazo que vale para todos os parâmetros: cinco a dez minutos depois das manobras de reanimação intrauterina. Antes disso não deu tempo de nada acontecer; muito depois disso, a informação de que as manobras não funcionaram chegou tarde. E há uma regra de direção: um padrão que melhora compra tempo, um que estabiliza compra menos, e um que piora não compra nenhum — mesmo que ainda esteja na mesma categoria.
Esperado: Estável, entre 110 e 160 bpm, sem deriva ao longo das horas
Se não melhora: Taquicardia: meça a temperatura materna antes de qualquer hipótese fetal, e reveja hidratação e drogas em uso. Uma linha de base que sobe lentamente ao longo de horas, mesmo dentro da faixa, é deriva e merece ser dita em voz alta. Bradicardia mantida que não recupera com as manobras é emergência e pede a resolução do parto, não outra rodada de manobras.
Esperado: Preservada, e mantida ao longo do tempo
Se não melhora: Variabilidade que cai é o sinal mais importante de piora, mesmo com o resto igual. Antes de concluir, descarte o ciclo de sono fetal, que pode durar até 90 minutos, e a sedação materna. Variabilidade ausente acompanhada de desacelerações repetidas ou de bradicardia é o achado que decide o parto — não se reavalia mais uma vez para ter certeza.
Esperado: Redução da profundidade, da frequência ou da duração após as manobras; desaparecimento é o melhor cenário
Se não melhora: Verifique se a manobra foi feita de verdade — a ocitocina foi fechada ou apenas reduzida? A mulher voltou ao decúbito dorsal sozinha? Desacelerações que passam de ocasionais a recorrentes, ou que ganham recuperação lenta, mudam a classe do traçado e são motivo de chamar a obstetra mesmo com variabilidade ainda preservada.
Esperado: Queda para 5 ou menos contrações em 10 minutos, com relaxamento completo entre elas
Se não melhora: Taquissistolia que persiste com a ocitocina desligada tem outra causa: hipertonia por sobredistensão, incoordenação ou descolamento prematuro de placenta — e a dor entre as contrações com útero lenhoso aponta para o terceiro. Persistindo sem essas causas, entra o tocolítico de resgate. Nunca reabra a ocitocina 'na metade' antes de o padrão fetal ter normalizado.
Esperado: Estável nos níveis anteriores à analgesia, com o feto recuperando junto
Se não melhora: Hipotensão que não corrige com decúbito lateral e volume precisa do anestesiologista. A diretriz nacional acrescenta uma advertência importante: se as anormalidades fetais forem graves e não transitórias, considere outra causa que não a analgesia regional — atribuir tudo à peridural atrasa o diagnóstico do que de fato está acontecendo.
Esperado: Sem febre, com a taquicardia fetal cedendo quando a temperatura cede
Se não melhora: Febre somada a taquicardia fetal, a dor à palpação uterina ou a líquido com odor levanta corioamnionite, e é assim que se trata o quadro enquanto outra causa não aparece. Aqui o traçado deixa de ser o problema principal: o plano inteiro muda, o antibiótico entra conforme o protocolo do serviço e o parto precisa acontecer. Bolsa rota há muitas horas aumenta a suspeita.
Esperado: O tempo do padrão anotado, e a distância até o nascimento estimada por dilatação e altura da apresentação
Se não melhora: Estes são os dois dados que mais mudam a decisão e os que menos aparecem no papel. Um traçado intermediário há dez minutos numa multípara com dilatação completa e cabeça coroando é uma situação; o mesmo traçado há duas horas numa nulípara com 5 cm é outra. Se você não sabe há quanto tempo o padrão está lá, o problema é de registro, e o registro se conserta a partir de agora.
Onde o erro machuca
O dano: Produz um traçado plausível, com variabilidade e tudo, de um coração que não é o que interessa — e, na pior versão, um registro tranquilizador de um feto que já não está vivo. É um erro de aquisição, não de interpretação, e por isso não é corrigido por mais leitura nem por mais experiência: o papel bonito não denuncia o problema.
Como pegar a tempo: Palpe o pulso materno enquanto ausculta ou compare-o com o número da tela do aparelho; a diretriz nacional inclui essa confirmação na própria técnica da ausculta. Desconfie sempre que a frequência fetal cair para a faixa dos 90 aos 120 e ficar 'estável' ali, e sempre que ela subir junto com a mãe. Perda de sinal com reaparecimento numa frequência nova pede reposicionamento do transdutor antes de qualquer conclusão.
O dano: A cardiotocografia contínua em gestante saudável em trabalho de parto espontâneo aumenta cesariana e parto instrumental sem melhorar desfecho neonatal, e a cardiotocografia de admissão está entre as práticas não recomendadas com grau A. O dano não para no exame: a mulher deitada progride pior, dói mais e recebe mais das outras intervenções, e o decúbito dorsal cria a hipotensão que vai produzir a alteração que motivará a próxima intervenção.
Como pegar a tempo: Trate a instalação como uma prescrição: só com indicação, e com o motivo escrito no prontuário junto com a hora. Quando o aparelho for necessário, negocie o que der para negociar — semideitada, sentada, lateral, com pausas quando o traçado permitir. E reavalie a indicação: motivo que passou é motivo para desligar.
O dano: A classificação inteira é definida pela relação temporal com a contração: sem saber quando ela começou e terminou, não há como dizer se a queda é precoce, tardia ou variável. O erro típico é chamar de tardia toda desaceleração feia, o que transforma um traçado com variáveis por compressão de cordão — comuns e quase sempre benignas — numa suspeita de insuficiência placentária, com a conduta correspondente.
Como pegar a tempo: Leia a faixa de baixo primeiro e conte as contrações antes de olhar as quedas. Confira e anote a velocidade do papel, porque a mesma desaceleração parece abrupta a 1 cm por minuto e gradual a 3. E mantenha a mão no fundo uterino mesmo com a mulher monitorizada: o transdutor externo dá frequência e duração, não intensidade nem tônus.
O dano: A categoria intermediária é a mais frequente de todas e diz literalmente que o exame não sabe — ela não prediz acidose e também não prediz normalidade. Tratá-la como diagnóstico transforma a maior parte dos trabalhos de parto em urgência e é a principal via pela qual um exame de alta sensibilidade e baixa especificidade vira cesariana. Na direção oposta, tratá-la como normal faz perder o feto que estava no começo da deterioração.
Como pegar a tempo: Diga o que você viu, não o rótulo: 'linha de base 165, variabilidade preservada, variáveis em duas de cinco contrações, com ocitocina correndo a 20 gotas' informa muito mais do que 'categoria II'. Depois trate a causa reversível, marque a hora, reavalie em prazo declarado e compare com o traçado anterior — a direção da mudança vale mais que a foto.
O dano: É o erro mais silencioso do bloco, porque tudo foi feito certo. Sem reavaliação cronometrada, ninguém sabe se a posição resolveu, se fechar a ocitocina resolveu, ou se o quadro está piorando por baixo de manobras que já não bastam. O tempo perdido aqui é o único tempo desta história que não volta, e ele é gasto com a equipe tranquila, achando que já agiu.
Como pegar a tempo: Marque no papel a hora de cada manobra e combine em voz alta com a equipe o horário da reavaliação, cinco a dez minutos depois. E confira se a manobra foi feita de verdade — a ocitocina foi fechada ou só reduzida, a mulher continua em lateral ou voltou sozinha para as costas, a bexiga foi esvaziada ou apenas 'ela disse que não está apertada'.
O dano: Quase toda alteração de traçado tem uma explicação materna do outro lado do quarto: taquissistolia por ocitocina, hipotensão pós-peridural, decúbito dorsal, febre, bexiga cheia, desidratação. Quem olha só a faixa de cima faz a conduta chegar ao feto sem passar pela causa — e a cesariana por sofrimento fetal em mulher com seis contrações em dez minutos e ocitocina aberta é a versão mais cara desse erro.
Como pegar a tempo: Antes de classificar, faça as cinco perguntas: contrações em dez minutos, ocitocina e a que velocidade, pressão arterial e analgesia recente, bexiga, temperatura. Elas levam dois minutos e resolvem a maior parte dos traçados que assustam. A frase que organiza o bloco inteiro é essa: as manobras de reanimação intrauterina são quase todas manobras maternas.
O que dizer ao paciente e à família
Vigilância fetal é o assunto sobre o qual as mulheres mais têm medo e menos recebem explicação, porque envolve uma máquina, um papel que elas não entendem e profissionais que olham para o papel e não para elas. Duas coisas resolvem quase tudo: dizer o que você está vendo em português, e dizer o que você vai fazer antes de fazer.
Vale também uma regra de tom. Diante de um traçado que assusta, a equipe fica em silêncio e se move rápido, e nada comunica mais medo do que isso. Fale enquanto age, mesmo que seja para descrever a manobra: a mulher que sabe que virar de lado tem uma razão colabora, e a que não sabe pergunta em pânico ou não colabora.
Explicando por que ela não vai ficar ligada ao aparelho
“"A senhora não precisa daquele aparelho, e isso é uma boa notícia. Nas gestações como a sua, escutar o coração do bebê com este aparelhinho de mão, de meia em meia hora, é tão seguro quanto o monitor contínuo — e o monitor prende a senhora na cama, o que atrapalha o trabalho de parto. Eu vou vir aqui a cada meia hora, e vou escutar durante e depois de uma contração, que é quando dá para saber como ele está reagindo. Se em algum momento eu achar que precisamos do monitor, eu explico o porquê antes de instalar."”
Não diga: "Não tem monitor disponível" quando há — a frase transforma uma conduta correta em falta de recurso, e a mulher passa o plantão achando que está sendo mal assistida. Também evite "está tudo bem" sem dizer o que você mediu.
Explicando por que ela vai ficar no aparelho
“"Vou instalar o monitor contínuo por um motivo específico: a senhora está com soro de ocitocina correndo, e isso deixa as contrações mais próximas umas das outras. O monitor mostra como o bebê está respondendo a cada contração. Vou colocar dois sensores com um cinto, não dói e não incomoda o bebê. A senhora pode ficar sentada ou de lado — só não deitada de costas, porque essa posição atrapalha a circulação. E, quando não for mais necessário, a gente tira."”
Não diga: Instalar em silêncio e sair da sala. Também evite prometer que ela vai poder andar se o aparelho for de cabo — prometa o que existe naquele serviço.
Quando o traçado assusta e você vai começar as manobras
“"O coração do bebê está fazendo umas quedas que eu não quero deixar passar, e agora nós vamos fazer algumas coisas simples que costumam resolver. Vou pedir para a senhora virar do lado esquerdo, vou fechar o soro que estava acelerando as contrações e vou pedir para esvaziar a bexiga. Nenhuma dessas coisas é urgência, todas são para dar mais folga ao bebê entre uma contração e outra. Vou voltar aqui em dez minutos para escutar de novo, e aí eu digo o que mudou."”
Não diga: "O bebê está em sofrimento." É a frase mais assustadora do vocabulário obstétrico e quase sempre é prematura — na maior parte das vezes o padrão é só um sinal de alerta e volta ao normal. Também evite sair correndo do quarto sem dizer nada e voltar com quatro pessoas.
Pedindo que ela pare de fazer força no meio do expulsivo
“"Vou pedir uma coisa difícil agora: não faça força nas próximas contrações, mesmo que a vontade seja enorme. Não é porque alguma coisa deu errado — é que o bebê precisa de um intervalo maior para se recuperar, e a força reduz esse intervalo. Respire pela boca comigo, solta o ar, assim. Eu vou avisar quando puder voltar a fazer força."”
Não diga: Comandar sem explicar. E não deixe outra pessoa contar até dez no ouvido dela enquanto você pede o contrário: a equipe precisa combinar antes.
Quando o traçado normaliza depois das manobras
“"Melhorou, e melhorou com o que a gente fez. O coração dele voltou ao ritmo de antes e as quedas pararam. Vou manter a senhora nessa posição e deixar o soro fechado por enquanto. Continuo escutando de perto, e se acontecer de novo eu faço a mesma coisa. A senhora fez a parte mais difícil, que foi virar e ficar assim."”
Não diga: Não contar. A mulher passou por dez minutos de gente séria em volta da cama e merece saber que passou — o silêncio depois do susto é lido como notícia ruim guardada.
Quando o traçado decide o nascimento agora
“"O coração do bebê mostrou uma alteração que não melhorou com o que a gente fez, e a decisão da Dra. [nome] é que ele precisa nascer agora. Nós vamos para a sala ao lado. Vai ser rápido, e vou explicando cada coisa enquanto acontece: primeiro a anestesia, depois a cirurgia, e o seu acompanhante entra com a senhora. A senhora não fez nada errado e não havia nada que a senhora pudesse ter feito diferente."”
Não diga: Explicar o mecanismo do traçado nesse momento. Não é hora de aula. E evite a expressão "não deu tempo", que ela vai repetir para si mesma como culpa — a decisão foi tomada dentro do tempo justamente para que desse.
Passando o traçado por telefone para a plantonista
“"Dra. [nome], é o interno da maternidade. Leito 5, terceira gestação, 39 e 4, em condução com ocitocina há duas horas. Linha de base 145, variabilidade preservada, desacelerações tardias em quatro das últimas seis contrações, seis contrações em dez minutos. Já fechei a ocitocina, virei em lateral esquerdo, hidratei e esvaziei a bexiga há oito minutos; vou reavaliar agora. Bolsa rota há três horas com líquido claro, afebril, pressão 118 por 70, 7 cm ao último toque, plano zero. Preciso que a senhora venha ver."”
Não diga: "O traçado está feio." Diga os quatro parâmetros com números, as contrações, o que já foi feito e há quanto tempo, e o que você quer que aconteça. E não termine com uma pergunta aberta se o que você precisa é que alguém venha: peça.
Onde bons médicos discordam
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.
Classificação internacional em três classes, de 2015: normal, suspeita e patológica
Traçado normal exige linha de base entre 110 e 160 bpm, variabilidade entre 5 e 25 bpm e ausência de desacelerações recorrentes, e dispensa intervenção. Suspeito é aquele a que falta uma das características de normalidade sem apresentar característica patológica, e pede correção de causas reversíveis ou métodos adicionais de avaliação da oxigenação fetal. Patológico exige linha de base abaixo de 100 bpm, ou variabilidade reduzida, acentuada ou sinusoidal, ou desacelerações tardias recorrentes em mais de 50% das contrações, ou desacelerações prolongadas em traçado por mais de 30 minutos (ou mais de 20 com variabilidade reduzida), ou uma prolongada com mais de 5 minutos. É a classificação impressa em tabela no protocolo estadual brasileiro mais detalhado em acesso aberto.
Paraíba. Secretaria de Estado da Saúde. Protocolo de Assistência Obstétrica — Rede Cegonha. João Pessoa, 2020, tabela 2 (classificação da cardiotocografia intraparto, FIGO 2015).
Classificação americana em três categorias numeradas, de 2008, em português desde 2011
Categoria I exige linha de base entre 110 e 160 bpm, variabilidade moderada — definida como amplitude de 6 a 25 bpm —, ausência de desacelerações tardias e variáveis, com precoces e acelerações presentes ou ausentes; prediz com força equilíbrio ácido-base normal. Categoria III é variabilidade ausente acompanhada de desacelerações tardias recorrentes, de variáveis recorrentes ou de bradicardia, ou padrão sinusoidal. Categoria II é definida por exclusão: tudo o que não é I nem III, explicitamente não preditivo nem de acidose nem de normalidade, exigindo avaliação continuada e reavaliação no contexto clínico. É esta a régua cujo rótulo 'categoria III' aparece nas listas brasileiras de indicação de cesariana.
Melo ASO, Souza ASR, Amorim MMR. Avaliação biofísica complementar da vitalidade fetal. Femina 2011;39(6):305-13, quadros 2 e 3.
Índice cardiotocométrico de Zugaib e Behle modificado, descrito como 'bastante utilizado em nosso meio'
Em vez de classes, um escore: um ponto para linha de base entre 110 e 160 bpm, um para variabilidade entre 10 e 25 bpm, dois para presença de aceleração transitória e um para ausência de desacelerações. Soma de 4 ou 5 é feto ativo (normal), 2 ou 3 é hipoativo (suspeito) e 0 ou 1 é inativo (anormal), com estimulação sônica indicada nos dois últimos para separar sono de hipoxemia. Repare no corte de variabilidade: 10 a 25 bpm, e não 5 a 25 nem 6 a 25. Está impresso no mesmo protocolo estadual, duas páginas depois da classificação internacional, sem que o documento diga qual das duas prevalece.
Paraíba. Secretaria de Estado da Saúde. Protocolo de Assistência Obstétrica — Rede Cegonha. João Pessoa, 2020, tabela 3 (índice cardiotocométrico de Zugaib e Behle modificado).
Na beira do leito, o que decide não é qual régua é a melhor — é qual delas está escrita no protocolo do serviço onde você está, porque o prontuário será lido por quem usa aquela. Pergunte, na primeira semana de estágio, qual delas o serviço adota, e use essa. O que nenhuma das três resolve, e por isso não pode depender delas, é a decisão em si: as três concordam no extremo tranquilizador e no extremo grave, e divergem exatamente na faixa intermediária, que é onde a decisão é clínica e não classificatória. Por isso o registro que protege o feto e protege você é o que descreve os quatro parâmetros com seus números — 'linha de base 165, variabilidade preservada, tardias em quatro de seis contrações' — e só depois acrescenta o rótulo. Descrição sobrevive à troca de régua; rótulo, não. E quando os cortes de variabilidade fizerem diferença real, o desempate é a direção: um traçado que piora entre duas leituras é motivo de chamar independentemente da classe em que ele caiu.
A cada 30 minutos — régua federal, desde 2017
A recomendação nacional é uma só e não se subdivide por fase do trabalho de parto: auscultar antes, durante e imediatamente após uma contração, por pelo menos 1 minuto e a cada 30 minutos, registrando como taxa única. O único intervalo diferente que a diretriz nacional estabelece é o de 5 em 5 minutos por no mínimo 30 minutos após o início de analgesia regional e a cada dose de resgate. Ou seja: pela régua federal, não existe intervalo próprio para o período expulsivo — o que se lê nela é 30 minutos do começo ao fim.
Brasil. Ministério da Saúde. Diretrizes Nacionais de Assistência ao Parto Normal (Portaria SAS/MS nº 353, de 14 de fevereiro de 2017), rec. 25 e 77.
No primeiro período, 15 a 30 minutos; no segundo, 5 — protocolo estadual e sociedade brasileira
O protocolo estadual determina ausculta a cada 15 a 30 minutos no primeiro período, antes, durante e logo após as contrações, com o objetivo declarado de detectar desacelerações — e, na mesma página, repete a formulação federal de 'pelo menos 1 minuto e a cada 30 minutos'. No segundo período, fixa 5 minutos, durante e após cada contração. O manual da federação brasileira, de 2010, adota os mesmos 15 a 30 minutos no primeiro período e 5 minutos no segundo, atribuindo-os à sociedade canadense de obstetras e ginecologistas, e afirma que a frequência da ausculta pouco varia na literatura.
Protocolo de Assistência Obstétrica — Rede Cegonha (PB, 2020), assistência ao primeiro e ao segundo períodos; FEBRASGO, Manual de Orientação: Assistência ao Abortamento, Parto e Puerpério, 2010, monitoração fetal.
A divergência tem duas metades com pesos diferentes. No primeiro período, 15 ou 30 minutos é uma diferença de intensidade de vigilância, e o que decide não é o documento: é a mulher. Trabalho de parto de risco habitual que progride bem, com feto tranquilizador em todas as escutas, comporta 30 minutos, que é o que a régua nacional manda e o que a realidade de pessoal permite sustentar com qualidade — e ausculta de 30 em 30 minutos feita com técnica vale mais que ausculta de 15 em 15 feita entre as contrações e por trinta segundos. Diante de qualquer coisa que aumente o risco, o intervalo encurta, e isso não precisa de autorização de documento nenhum. No segundo período a coisa muda de natureza: aqui a régua federal é silente, e silêncio não é permissão para auscultar de meia em meia hora enquanto o feto é comprimido a cada puxo. Adote os 5 minutos — é o que o protocolo estadual e a sociedade brasileira determinam, é fisiologicamente coerente com a compressão máxima do expulsivo, e é o que você vai conseguir defender depois. Escreva no prontuário o intervalo que usou.
Recomendar mesmo assim — posição das sociedades, reproduzida pela federação brasileira em 2010
O manual da federação brasileira recomenda a cardiotocografia contínua nas gestantes de alto risco — hipertensão, aloimunização, oligoidrâmnio e afins — e o faz com uma ressalva que ele próprio escreve: 'a despeito de não haver evidência que sua utilização resulte em melhor desfecho perinatal, incluindo a incidência de paralisia cerebral'. O grau de evidência atribuído à prática na tabela do mesmo manual é D, o mais baixo, enquanto a ausculta intermitente no baixo risco recebe grau A. O manual federal de alto risco, publicado em 2022, segue a mesma linha ao prescrever monitorização contínua em situações pontuais — placenta prévia lateral ou marginal em parto vaginal, gemelar em parto vaginal, restrição de crescimento em indução — sem justificá-las por desfecho.
FEBRASGO, Manual de Orientação: Assistência ao Abortamento, Parto e Puerpério, 2010, monitoração fetal e tabelas de práticas assistenciais; Brasil, Ministério da Saúde, Manual de Gestação de Alto Risco, 2022.
Não estender a recomendação além do que a evidência sustenta — leitura do corpo de evidência da diretriz nacional
A diretriz nacional revisou os ensaios que compararam os dois métodos e concluiu que a ausculta intermitente é tão segura quanto a cardiotocografia contínua na parturiente de baixo risco, que a cardiotocografia aumenta parto instrumental e cesariana sem impacto positivo em morbimortalidade perinatal, e que uma política de ausculta intermitente é mais vantajosa para o Brasil pelo custo dos equipamentos. Ela emite recomendação para o baixo risco e não emite recomendação equivalente estendendo a monitorização contínua ao alto risco — e, na única situação em que enfrenta o tema fora do baixo risco, o mecônio, diz explicitamente que os dois métodos podem ser usados e desaconselha o uso rotineiro do contínuo, pesando custo contra benefício apenas marginal.
Brasil. Ministério da Saúde. Diretrizes Nacionais de Assistência ao Parto Normal, 2017, capítulo 9.5 (avaliação do bem-estar fetal) e capítulo 12.4 (monitorização diante de mecônio), rec. 25, 86 e 87.
Esta é uma divergência que o interno não resolve e que precisa saber que existe, para não ser surpreendido nem por quem monitoriza tudo nem por quem não monitoriza nada. Diante da mulher, o que decide é a assimetria de reversibilidade em cada direção. Monitorizar continuamente uma gestante de alto risco custa mobilidade e aumenta a chance de uma intervenção desnecessária — um custo real, mas reversível e mensurável. Deixar de monitorizar um feto com reserva reduzida, num serviço que tem o aparelho, custa a única coisa que não volta. Por isso, na presença de uma condição que estreite a reserva fetal — restrição de crescimento, pré-eclâmpsia, prematuridade, gemelaridade, cicatriz uterina, ocitocina em curso —, monitorize, e registre que a indicação é de consenso e não de evidência de desfecho. Onde não há aparelho, a ausculta intermitente com técnica não é o plano B envergonhado: é o método que a régua nacional considera equivalente no baixo risco, e o que a diretriz aceita explicitamente diante de mecônio. Nenhuma das duas posições sustenta monitorizar continuamente a gestante saudável em trabalho de parto espontâneo.
O raciocínio, em voz alta
Regiane Almondes, 22 anos, primeira gestação, com 39 semanas e 2 dias pela ultrassonografia precoce. Pré-natal completo, sorologias negativas, cultura para estreptococo do grupo B negativa, sem comorbidades. Admitida às 22h40 em trabalho de parto estabelecido: colo com 5 cm, totalmente apagado, apresentação cefálica no plano menos um, membranas íntegras. À palpação, quatro contrações a cada dez minutos, de quarenta e cinco segundos cada. Batimentos de 138. Pressão 112 por 70, afebril. Você é o interno de plantão e a obstetra, a Dra. Vitalina Cabreira, está na maternidade.
o que penso agora
Risco habitual, trabalho de parto espontâneo, sem ocitocina, sem mecônio, sem febre, sem sangramento. O método é ausculta intermitente, e a decisão fica escrita no prontuário com esta justificativa. Ela não vai para o aparelho, não vai deitar de costas e não vai receber acesso venoso de rotina. O que ela vai receber é uma pessoa com um sonar e um relógio, de meia em meia hora, fazendo a ausculta com método — o que, no meu serviço, sou eu.
a rotina, até 01h30
A cada trinta minutos: chego antes da contração, encosto o sonar sobre o dorso fetal que localizei pela palpação, escuto a linha de base, atravesso a contração inteira e continuo escutando até depois do relaxamento. Um minuto contado, mão esquerda no fundo uterino. Anoto hora, número único, e se ouvi alguma coisa. Às 23h10, 140. Às 23h40, 142. À 00h10, 138, e nesta anoto também que a bolsa rompeu espontaneamente com líquido claro em grande quantidade — e que auscultei imediatamente por causa disso, e conferi a apresentação. À 00h40, 140. À 01h10, 144.
01h40 — a ausculta que muda o plantão
Linha de base em 140 antes da contração. Durante a contração, o número cai. Depois que o útero relaxa, ele ainda está em 105, e leva uns bons segundos para voltar. Na contração seguinte, a mesma coisa. Não é o susto que importa aqui: é que a queda começou tarde e voltou devagar, e isso tem nome.
os primeiros sessenta segundos
Antes de qualquer conclusão, ponho dois dedos no pulso dela enquanto ausculto: o pulso materno está em 92 e o que ouço está em 105 — não é a mãe. Repito atravessando mais duas contrações: a queda se repete nas duas. Palpo dez minutos de dinâmica: cinco contrações em dez minutos, fortes, com relaxamento completo. Cheque rápido: sem ocitocina correndo, sem analgesia, pressão 108 por 66, bexiga palpável e cheia, líquido ainda claro, temperatura 36,7.
a reanimação intrauterina, na ordem
Coloco em decúbito lateral esquerdo — primeiro, porque corrige compressão de cava e responde em segundos. Não há ocitocina para fechar. Peço que urine, e ela não consegue: cateterismo de alívio, quatrocentos mililitros. Ofereço líquido. Faço o toque com um objetivo declarado — excluir prolapso de cordão, porque a bolsa rompeu há noventa minutos com apresentação ainda não profundamente encaixada, e verificar a progressão: 7 cm, plano zero, occipitoesquerda anterior, sem cordão palpável. Anoto a hora de cada coisa: 01h44. E chamo a Dra. Vitalina — não com pressa, com informação.
01h52 — a reavaliação com hora marcada
Oito minutos depois, ausculto de novo, atravessando a contração: linha de base 138, sem queda depois da contração, recuperação imediata. Repito na contração seguinte: igual. A dinâmica caiu para quatro em dez minutos. A obstetra chega, escuta comigo e concorda: o padrão respondeu. Ela decide manter a ausculta com intervalo encurtado para quinze minutos pela hora seguinte, e voltar aos trinta se permanecer normal. Ninguém instalou aparelho nenhum, e a decisão de não instalar também vai escrita.
o que eu escrevi
"01h40 — ausculta intermitente: linha de base 140, desacelerações com início após o pico da contração e retorno lento, presentes em 3 de 3 contrações consecutivas. Pulso materno 92, discordante. Dinâmica 5/10min. Sem ocitocina. PA 108x66. Bexiga palpável. Líquido claro. Tax 36,7. 01h44 — decúbito lateral esquerdo, cateterismo de alívio com 400 mL, hidratação oral, toque: 7 cm, plano 0, OEA, sem prolapso. Comunicada Dra. Vitalina Cabreira. 01h52 — reavaliação: linha de base 138, sem desacelerações em 2 contrações, recuperação imediata. 01h55 — obstetra presente. Conduta: manter ausculta a cada 15 min por 1h."
o desfecho
Às 03h50 a dilatação está completa e o puxo é espontâneo. Ausculta a cada cinco minutos, durante e após cada contração, sempre entre 130 e 148, com recuperação imediata. Às 04h26 nasce uma menina vigorosa, entregue de imediato ao colo da mãe. Em toda a noite, o gasto de tecnologia foi zero — e o gasto de atenção foi alto, que é exatamente o desenho da régua brasileira.
o que este caso ensina
A ausculta intermitente realizada no momento correto reconheceu uma queda da frequência e levou à reavaliação. Ela não fornece o detalhamento contínuo de um traçado; uma alteração persistente ou recorrente exige escalonamento conforme o risco e o protocolo. Neste caso, houve melhora após medidas maternas, documentada com horário. Essa resposta não comprova ausência prévia de hipóxia nem permite atribuir toda alteração futura à mesma causa. O aprendizado é reconhecer, corrigir o que for reversível e medir a resposta sem perder tempo quando ela não ocorre.
Variação do caso — resposta e reavaliação
Variação da avaliação de Regiane: a frequência melhora após correção de uma condição materna. Registrar qual medida foi feita, tempo até resposta e vigilância subsequente. A melhora sustenta continuar observando nas condições adequadas, mas não garante que qualquer alteração futura tenha a mesma causa.
Variação do caso — quando mudar o plano
Se a bradicardia persiste ou o padrão permanece preocupante, mobilizar avaliação obstétrica e preparo para resolução conforme o quadro. Não repetir indefinidamente reposicionamento. A ausculta pode identificar alteração da frequência; a caracterização detalhada do traçado requer o método apropriado e correlação clínica.
Faça você
Ivanilda Marreiro, 29 anos, segunda gestação, 40 semanas e 1 dia, risco habitual. Está em segundo período, com dilatação completa confirmada às 05h10, sob analgesia peridural instalada às 02h30. Às 05h32 ela recebe uma dose de resgate pelo cateter por dor irruptiva. Às 05h36, a ausculta mostra 88 batimentos por minuto, mantidos entre as contrações; você repete e confirma, e o pulso materno está em 104, discordante. A cardiotocografia é instalada às 05h38 e mostra linha de base em torno de 85, variabilidade presente mas reduzida, sem acelerações. A pressão arterial materna é de 82 por 48 (era 118 por 72 às 05h10). O útero está relaxado entre as contrações e você conta três contrações em dez minutos. Ao toque: dilatação completa, plano mais dois, occipitopúbica, sem cordão palpável, bolsa rota há duas horas com líquido claro. Ela está em decúbito dorsal com a cabeceira elevada, e não sente vontade de fazer força.
o que já sei
Bradicardia fetal instalada quatro minutos depois de uma dose de resgate de analgesia peridural, com hipotensão materna franca e discordância entre a frequência fetal e o pulso materno — portanto o número é do feto. Sem taquissistolia: três contrações em dez minutos com relaxamento completo, e sem ocitocina em curso. Sem prolapso de cordão ao toque. Segundo período, dilatação completa, apresentação em plano mais dois e occipitopúbica.
o que os cortes dizem
Uma queda mantida abaixo de 110 bpm é bradicardia; se ela durar entre 2 e 10 minutos, uma das réguas ainda a chama de desaceleração prolongada, e acima de 10 minutos as duas concordam que passa a ser mudança de linha de base. A classificação internacional considera patológico o traçado com linha de base abaixo de 100 bpm, e também uma desaceleração prolongada com mais de 5 minutos. A régua americana só coloca a bradicardia na categoria mais grave quando ela vem com variabilidade ausente — e aqui a variabilidade está reduzida, não ausente.
conduta
— sua vez —
Ver como fecharíamos
Trate a mãe, e trate agora, sem esperar a classificação fechar. A causa está declarada no enunciado: hipotensão materna quatro minutos depois de uma dose de resgate, com a mulher em decúbito dorsal. A sequência é simultânea e leva menos de um minuto para ser iniciada — decúbito lateral esquerdo imediato (e lateral direito se não houver resposta), infusão rápida de cristaloide, elevação dos membros inferiores e chamada imediata do anestesiologista para correção hemodinâmica, que é dele. Não há ocitocina para fechar. Bexiga: esvazie. E chame a obstetra em voz alta ao mesmo tempo, dizendo o achado — bradicardia fetal mantida em segundo período com hipotensão pós-resgate. Marque a hora. Sobre a classificação: não perca tempo decidindo se isto é desaceleração prolongada ou bradicardia estabelecida, porque as duas réguas divergem justamente nesse corte de tempo e nenhuma das duas muda o que você faz nos próximos cinco minutos. O que muda a decisão é a resposta: se a pressão materna e a frequência fetal subirem juntas dentro de cinco a dez minutos, a causa era a analgesia e a conduta é seguir com vigilância estreita, com ausculta de cinco em cinco minutos e o registro do episódio inteiro. Se não subirem, duas coisas passam a valer ao mesmo tempo. A primeira é a advertência escrita na própria diretriz nacional: diante de anormalidades fetais graves e não transitórias, considere outra causa que não a analgesia regional — descolamento prematuro de placenta e rotura uterina entram na lista, e nenhum dos dois espera. A segunda é que a dilatação completa com apresentação em plano mais dois e variedade occipitopúbica torna o nascimento por via vaginal a rota mais rápida, e a decisão entre parto vaginal operatório e cesariana é de quem faz parto operatório, não sua — o que o interno faz é ter chamado a tempo, com a sala e a equipe neonatal avisadas. E o que não se faz em nenhuma hipótese: deixá-la em decúbito dorsal enquanto se discute, mandar fazer força para 'apressar' um feto que já está sem reserva, ou pressionar o fundo uterino.
São seis contrações em dez minutos, o que é taquissistolia, com ocitocina correndo — a causa mais frequente e mais reversível de traçado alterado, porque contração demais significa intervalo de menos e é no intervalo que o espaço interviloso se reenche. As desacelerações descritas são tardias (queda gradual, fundo depois do pico, retorno depois do fim da contração), e elas traduzem exatamente essa margem estreita. A conduta é fechar o gotejamento, que tem meia-vida curta, e corrigir o decúbito, que melhora o retorno venoso em segundos — e reavaliar com hora marcada. Cesariana neste ponto é indicar cirurgia sem ter tentado a medida gratuita e reversível que explica o quadro. Repetir a leitura em trinta minutos sem fazer nada desperdiça a janela em que a correção funciona. O tocolítico só entra se a taquissistolia persistir depois da suspensão da ocitocina, e nunca antes dela. E aumentar a infusão pioraria precisamente o que está errado.
Teste-se
Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.
Plano de revisão
Em 7 dias
Reconstrua de memória a técnica da ausculta intermitente em quatro exigências — momento no ciclo da contração, duração mínima, forma do registro e confirmação com o pulso materno — e diga qual é o intervalo da régua federal no primeiro período e o que ela diz sobre o segundo. Depois liste os quatro parâmetros do traçado na ordem em que se leem, e diga o que se olha antes deles. Se você travar na quarta exigência ou na faixa de baixo do papel, o furo é de método, e método se conserta relendo uma página. Aplicação comentada: O monitor marca frequência semelhante ao pulso materno. Antes de rotular bradicardia fetal, confirme a origem do sinal sem abandonar a avaliação clínica.
Em 30 dias
Pegue um traçado real do seu serviço, ou o caso de Ivanilda, e escreva o laudo como se fosse para outro plantonista: velocidade do papel, contrações em dez minutos, linha de base com número, variabilidade, acelerações, tipo de desaceleração e em que fração das contrações ela aparece, e só então a classificação. Em seguida, liste na ordem as manobras de reanimação intrauterina que você faria, dizendo o que cada uma corrige, e escreva a hora em que reavaliaria. Por último, responda sem consultar: quais são os três achados que, juntos, definem o traçado que decide o parto agora.
Agora atenda
Segundo período de trabalho de parto em gestante de risco habitual sob analgesia peridural. Poucos minutos após uma dose de resgate, a frequência cardíaca fetal cai e se mantém baixa, e a pressão arterial materna despencou. Conduza: confirme que o número é do feto, faça a reanimação intrauterina na ordem certa dizendo o que cada manobra corrige, decida o que reavaliar e em quantos minutos, diga em que momento você chama a obstetra e o que você diz a ela — e explique à mulher o que está acontecendo enquanto age.
