Ginecologia e ObstetríciaParto e assistência ao nascimento

Assistência ao trabalho de parto

Mecanismo e fases clínicas do trabalho de parto (partograma)

Como acompanhar um trabalho de parto do começo ao fim: o que se examina, com que frequência, o que o partograma registra e em que momento o lento vira desvio que precisa de alguém mais experiente.

Fontes deste capítulo

Brasil. Ministério da Saúde. Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (CONITEC). Diretrizes Nacionais de Assistência ao Parto Normal — versão resumida. Brasília: Ministério da Saúde, 2017

Brasil. Ministério da Saúde. CONITEC. Diretriz Nacional de Assistência ao Parto Normal — Relatório de Recomendação nº 211. Brasília, 2017 (documento completo, 381 páginas)

Brasil. Ministério da Saúde. Manual de Gestação de Alto Risco. Brasília: Ministério da Saúde, 2022

Paraíba. Secretaria de Estado da Saúde. Protocolo de Assistência Obstétrica — Rede Cegonha. João Pessoa, 2020

Leal MC, Pereira APE, Domingues RMSM, Filha MMT, Dias MAB, Nakamura-Pereira M, et al. Intervenções obstétricas durante o trabalho de parto e parto em mulheres brasileiras de risco habitual. Cadernos de Saúde Pública 2014;30(Supl. 1):S17-S32

01

Responda antes de ler

Primigesta de 39 semanas, risco habitual, é admitida às 19h em trabalho de parto: colo com 4 cm, 70% apagado, apresentação cefálica no plano −2 de DeLee, bolsa íntegra, três contrações em dez minutos com quarenta segundos, batimentos cardiofetais de 140 sem desacelerações. Às 23h, no toque de rotina, apresenta 6 cm, plano −1, occipitoesquerda anterior, bolsa íntegra; as contrações estão em quatro em dez minutos com cinquenta segundos e os batimentos permanecem em torno de 140, com recuperação imediata após a contração. Ela está deambulando, sem queixas além da dor das contrações. Qual é a conduta neste momento?

02

O paciente que você vai ver

São 19h de uma quarta-feira e o plantão da maternidade acabou de trocar. A obstetra plantonista passa por você no corredor com um copo de café numa mão e o celular na outra, e diz sem parar de andar: "acompanha a do leito 3 pra mim, qualquer coisa me chama". Você concorda com a cabeça antes de perceber que não sabe direito o que acabou de aceitar.

No leito 3 está Fernanda, 24 anos, primeira gestação, 39 semanas e 5 dias por ultrassonografia de primeiro trimestre. Pré-natal completo, sem intercorrências, sorologias negativas, estreptococo do grupo B negativo na cultura de 36 semanas. Chegou há uma hora e meia com contrações que começaram no meio da tarde. Está de pé, apoiada na cama, e para de falar quando vem a contração. O marido segura a mão dela e olha para você toda vez que você entra.

No prontuário, a avaliação da admissão: colo com 4 cm, 70% apagado, apresentação cefálica, apresentação no plano −2 de DeLee, bolsa íntegra, dinâmica de três contrações em dez minutos com quarenta segundos cada, batimentos cardiofetais de 140 por minuto auscultados após a contração. Pressão arterial 118 por 74. Junto do prontuário, preso na prancheta, um papel quadriculado com duas linhas diagonais impressas — o partograma. Está em branco.

E aqui começa o problema real do interno de obstetrícia. Você sabe o que é um partograma. Já viu um preenchido, provavelmente já respondeu questão sobre linha de alerta e linha de ação. O que você não sabe é o que fazer com aquele papel em branco às 19h de uma quarta-feira: quando marcar o primeiro ponto, o que anotar entre um toque e outro, quanto tempo pode passar sem que nada aconteça antes de aquilo virar um problema — e, sobretudo, em que momento exatamente você deve parar de acompanhar e ir buscar a plantonista.

Porque a pergunta que o plantão faz não é "qual é o diagnóstico". Fernanda está em trabalho de parto, isso está claro para todo mundo, inclusive para ela. A pergunta é outra e é mais difícil: isto que estou vendo agora é normal, é lento mas ainda normal, ou já é desvio? As três respostas levam a condutas completamente diferentes, e as duas primeiras exigem de você algo que ninguém ensina direito — a paciência informada de não fazer nada, sabendo por que não está fazendo.

Este capítulo é sobre as próximas dez horas de Fernanda. Ele percorre o que o feto faz para atravessar a bacia (e por que isso muda o que o seu dedo sente no toque), as fases clínicas com as durações que se pode esperar de cada uma, o que se examina e de quanto em quanto tempo, como o partograma transforma esses exames em uma imagem que se lê de longe, e — o ponto que mais importa — os critérios objetivos que separam a demora normal do desvio que exige alguém com mais experiência ao lado da cama.

03

Quem adoece disso

O Brasil é um país que faz muita cesárea, e o interno precisa saber disso antes de entrar na sala de parto, porque isso define o que ele vai ver de rotina — e a rotina que ele vai ver não é a régua. Na pesquisa Nascer no Brasil, que entrevistou 23.894 puérperas em 2011 e 2012 numa amostra hospitalar nacional, a taxa geral de cesárea foi de 51,9%: 46% no setor público e 88% no setor privado. Entre as mulheres classificadas como de risco obstétrico habitual — as que teoricamente menos precisariam de cirurgia — a cesárea foi de 45,5%, sendo 35,6% no setor público e 85,0% no privado.

O número que interessa clinicamente não é o total, é o contraste: a mesma mulher de risco habitual tem cerca de duas vezes e meia mais chance de terminar em cesárea se der à luz no setor suplementar do que na rede pública. Nenhuma diferença biológica explica isso. O que explica é o modelo de assistência — quem acompanha, com que expectativa de tempo, e quanto o serviço tolera um trabalho de parto que demora. É exatamente a competência que este capítulo ensina, e é por isso que ela vale como decisão clínica e não como detalhe de organização.

A mesma pesquisa mediu o que se faz com quem entra em trabalho de parto no Brasil. Entre as mulheres de risco habitual que tiveram parto vaginal, receberam ocitocina para condução 38,2%, foram submetidas a amniotomia 40,7%, sofreram manobra de Kristeller 37,3%, receberam episiotomia 56,1% e pariram em posição de litotomia 91,7%. Cateter venoso foi instalado em 73,8%. Do outro lado da conta, as práticas com evidência de benefício: comer durante o trabalho de parto, 25,6%; movimentar-se, 46,3%; algum método não farmacológico de alívio da dor, 28,0%; partograma preenchido, 44,2%.

Traduzindo para a beira do leito: se você acompanhar dez trabalhos de parto no seu internato e reproduzir o que vê à sua volta, vai fazer pressão no fundo uterino em quatro deles — uma manobra proibida pela diretriz nacional e listada no manual do Ministério da Saúde entre as causas de hemorragia pós-parto por trauma —, vai cortar o períneo de cinco e vai deitar nove de costas. E vai preencher partograma em menos da metade. A distância entre a régua e a prática não é um detalhe histórico: é o ambiente onde você está aprendendo, e ele ensina errado por repetição.

Vale também o outro lado da estatística, porque ele mostra que dá para mudar. Nos serviços públicos da amostra, onde o modelo é mais próximo do preconizado, as boas práticas foram sistematicamente mais frequentes que no setor privado — alimentação durante o trabalho de parto em 27,2% contra 10,4%, movimentação em 48,1% contra 29,1%, métodos não farmacológicos em 29,3% contra 15,3%, partograma em 46,1% contra 25,7%. São números baixos nos dois lados, mas o gradiente aponta na direção certa: assistência que acompanha em vez de acelerar produz menos intervenção sem produzir mais dano.

04

Por que acontece o que acontece

O trabalho de parto é um problema mecânico com três variáveis clássicas: o motor, o objeto e o trajeto. O motor é a contração uterina. O objeto é o feto, que não é uma esfera rígida mas um cilindro articulado com uma cabeça que se molda. O trajeto é a bacia materna, um canal curvo cujos diâmetros mudam de orientação ao longo do percurso. Praticamente tudo que você vai avaliar nas próximas horas é a leitura indireta de uma dessas três coisas — e quase toda parada de progressão é a falha de uma delas.

A contração uterina normal do trabalho de parto tem origem em marca-passos localizados perto dos cornos uterinos e se propaga de cima para baixo, com intensidade e duração maiores no fundo do que no segmento inferior. É o chamado tríplice gradiente descendente, e ele existe por uma razão funcional: a parte de cima do útero se encurta e traciona, a parte de baixo se distende e se deixa abrir. Sem esse gradiente, a contração aperta sem dilatar — é o que acontece na incoordenação uterina, em que a mulher tem dor, o útero endurece e o colo não muda.

As fibras do corpo uterino têm ainda uma propriedade que nenhum outro músculo do corpo tem no mesmo grau: depois de cada contração elas não voltam ao comprimento original, ficam um pouco mais curtas. Esse encurtamento cumulativo — a retração — é o que faz o colo ser progressivamente puxado para cima até desaparecer como estrutura tubular (o apagamento) e depois ser aberto (a dilatação). É também a razão de a dilatação ser irreversível em condições normais: não se volta de 6 para 4 cm, e um toque que 'volta' geralmente é erro de exame do primeiro ou do segundo examinador.

O trajeto é o que obriga o feto a fazer manobras. A bacia obstétrica não é um tubo reto: no estreito superior o maior diâmetro é o transverso; no estreito médio e no inferior o maior diâmetro é o anteroposterior. Ou seja, o canal gira noventa graus no meio do caminho. Como a cabeça fetal também é oval — mais longa no sentido anteroposterior do que no transverso —, ela precisa entrar na bacia com o maior diâmetro dela alinhado ao maior diâmetro de lá, e depois girar para continuar alinhada quando o canal gira. Toda a coreografia do mecanismo de parto sai dessa incompatibilidade de eixos.

É por isso que descrever o mecanismo não é folclore de prova. Cada tempo do mecanismo corresponde a alguma coisa que você identifica no toque — e é o que permite dizer, no meio da noite, se aquele exame que não mudou a dilatação em duas horas mostrou algum progresso ou nenhum. Descida sem dilatação é progresso. Rotação sem descida é progresso. Nada disso aparece se você só anotar centímetros.

Os tempos do mecanismo, e por que cada um acontece

Insinuação. É a passagem do maior diâmetro transverso da cabeça — o biparietal, cerca de 9,5 cm no feto de termo fletido — através do estreito superior da bacia. Clinicamente, a apresentação insinuada é a que atingiu o plano 0 de DeLee, isto é, o nível das espinhas isquiáticas, que você palpa como duas saliências ósseas nas paredes laterais da vagina. Em primigestas a insinuação costuma ocorrer nas últimas semanas, antes do trabalho de parto; em multíparas, com frequência só acontece durante ele. Um colo dilatando bem com apresentação que não insinua é um sinal de alerta precoce de desproporção.

Descida. É o deslocamento contínuo ao longo do canal, medido em centímetros acima ou abaixo do plano das espinhas: −4 a −1 acima, 0 nas espinhas, +1 a +4 abaixo, com +4 correspondendo à cabeça visível na vulva. A descida não é um tempo isolado — ela acontece junto com todos os outros e é o parâmetro que mais precocemente denuncia obstrução, porque o colo pode continuar dilatando por conta da tração enquanto a cabeça já não desce mais.

Flexão. Ao encontrar a resistência do canal, a cabeça encosta o queixo no tórax. A vantagem é puramente geométrica: a cabeça fletida se apresenta pelo diâmetro suboccipitobregmático, de cerca de 9,5 cm, enquanto a cabeça em atitude indiferente oferece o occipitofrontal, de cerca de 12 cm. Dois centímetros e meio decidem se passa ou não passa. Ao toque, a cabeça bem fletida é aquela em que você alcança facilmente a fontanela posterior (lambdoide, pequena e triangular) e não alcança a anterior.

Rotação interna. É o giro que alinha o occipital com a sínfise púbica — a variedade occipitopúbica —, e é o tempo que resolve o problema dos eixos: a cabeça entrou aproveitando o diâmetro transverso do estreito superior e agora precisa do anteroposterior do estreito inferior. Cerca de 90% das rotações terminam em occipitopúbica. As que terminam em occipitossacra (o chamado 'nascimento em olhar para o céu') resultam em expulsivo mais longo, mais dor lombar e mais laceração — não são indicação de cesárea por si, mas mudam a expectativa de tempo.

Desprendimento (deflexão). Com o occipital apoiado sob a sínfise púbica, que funciona como ponto de apoio, a cabeça faz o movimento inverso da flexão: desliza para fora deflexionando, e aparecem sucessivamente occipital, bregma, fronte, face e mento. É o momento em que o períneo distende ao máximo e em que o controle da velocidade da saída — mão sobre a cabeça, orientando a mulher a não fazer força enquanto a cabeça corona — tem impacto direto sobre laceração.

Rotação externa (restituição). Livre da bacia, a cabeça gira de volta para a posição que o dorso ocupa, porque os ombros, que estavam entrando na bacia pelo diâmetro transverso, giram agora para o anteroposterior. Essa rotação é espontânea e é o sinal de que os ombros estão prontos para nascer. Se ela não acontece e a cabeça se retrai contra o períneo — o sinal da tartaruga —, o diagnóstico é distocia de espáduas, e a partir daí a sequência de manobras é outra história, que exige ajuda imediata.

Desprendimento das espáduas. O ombro anterior sai primeiro, sob a sínfise, com tração suave para baixo no eixo da cabeça; depois o posterior, com tração para cima. O resto do corpo sai sem dificuldade. Tração forte, torção e pressa neste ponto são a origem clássica da lesão do plexo braquial — a força necessária é bem menor do que a intuição sugere.

Sequência conceitual do mecanismo do parto em apresentação cefálica fletida
Sequência conceitual do mecanismo do parto em apresentação cefálica fletida. Os movimentos se sobrepõem; o desenho não substitui a avaliação da evolução clínica.

Por que o toque significa alguma coisa

Traduzir o mecanismo em exame é o que separa quem acompanha de quem apenas anota. No toque, você procura sistematicamente cinco informações, e cada uma delas é um tempo do mecanismo: dilatação em centímetros (efeito da retração), apagamento em porcentagem ou em centímetros de comprimento do colo, altura da apresentação em plano de DeLee (insinuação e descida), variedade de posição pela localização da fontanela lambdoide (flexão e rotação) e estado das membranas.

A variedade de posição é o dado que os internos mais pulam e o que mais rende. Ela se nomeia pela relação entre o occipital fetal e a pelve materna: occipitoesquerda anterior, transversa, posterior, e assim por diante do lado direito. Uma variedade transversa que persiste com dilatação avançada indica que a rotação interna não está acontecendo — e é a apresentação típica da distocia do estreito médio, em que a cabeça para no plano 0. Uma variedade posterior explica por que aquela mulher tem tanta dor lombar e por que o expulsivo dela vai demorar mais.

A bolsa é a quinta informação, e a mais simples: íntegra ou rota; se rota, cor e cheiro do líquido. Líquido claro é tranquilizador. Líquido meconial fluido pede vigilância mais estreita; meconial espesso pede monitoração eletrônica contínua se houver, profissional treinado em reanimação neonatal presente no parto e transferência para hospital se o parto estiver ocorrendo fora dele. Líquido com odor fétido, em mulher febril, é corioamnionite até prova em contrário e muda todo o plano.

Vale registrar por que a bossa serossanguínea confunde. Ela é o edema do couro cabeludo que se forma no ponto que está sofrendo pressão, e cresce com o tempo de trabalho de parto — especialmente quando há obstrução. O dedo do examinador encosta na bossa e sente uma 'cabeça' mais baixa do que ela realmente está: o crânio ósseo continua parado no mesmo plano. Uma descida que 'progride' junto com o aparecimento de uma bossa volumosa deve ser lida com desconfiança, e o parâmetro confiável passa a ser a palpação abdominal — quantos quintos da cabeça ainda se palpam acima da sínfise.

05

Como se apresenta de verdade

Acompanhar o parto exige avaliar progresso, bem-estar materno e condição fetal em conjunto. Você deve reconhecer a fase do trabalho de parto, oferecer suporte e distinguir variação fisiológica de problema que demanda intervenção. A decisão deve ser explicada à mulher e documentada com o critério usado.

A diretriz nacional divide o processo em quatro tempos que se distinguem por eventos, não por relógio: o primeiro período vai do início do trabalho de parto até a dilatação completa; o segundo, da dilatação completa até o nascimento; o terceiro, do nascimento até a saída da placenta; e o quarto é a primeira hora depois da dequitação, quando ainda se está prevenindo a complicação que mais mata mulher no parto, que é a hemorragia.

Percurso clínico: Observar a evolução antes de intervir

Na admissão, avalie condições maternas e fetais, apresentação, contrações e evolução cervical. Registre os achados com horários e interprete tendência, respeitando conforto e consentimento. Defina a referência usada para fase ativa antes de falar em demora; um toque isolado não descreve progressão.

Falso trabalho de parto: o que mandar para casa

As contrações de Braxton Hicks acompanham a segunda metade da gestação e ficam mais frequentes no fim. São irregulares no intervalo e na intensidade, costumam ser sentidas mais no baixo ventre e nas virilhas do que na região lombar, não aumentam progressivamente e diminuem com repouso, hidratação, banho quente ou analgesia simples. E, o dado que decide, não modificam o colo: dois toques separados por uma ou duas horas mostram o mesmo colo.

O trabalho de parto verdadeiro tem contrações que se organizam: o intervalo encurta, a duração aumenta, a dor migra para a região lombossacra e não cede com repouso. Vem acompanhado com frequência da eliminação do tampão mucoso — muco espesso, às vezes raiado de sangue — que por si só não é diagnóstico de nada, porque pode preceder o trabalho de parto em dias.

A conduta na mulher que chega com contrações e colo ainda pouco modificado — até 3 cm — é explícita na diretriz nacional: não admitir, oferecer apoio e alívio da dor se necessário, e orientar que permaneça ou retorne para casa, pesando as preocupações dela, a distância até a maternidade e o risco de o parto acontecer sem assistência. Essa conversa não é logística: internar cedo demais é a porta de entrada para condução com ocitocina, amniotomia e cesárea por 'falha de progresso' de um trabalho de parto que ainda nem tinha começado.

E há o oposto, que é o erro mais perigoso: mandar para casa a mulher que já está em trabalho de parto ativo, sobretudo a multípara, que pode ir de 5 cm ao nascimento em pouco mais de uma hora. Antes de qualquer orientação de retorno, três coisas precisam ter sido feitas e registradas: toque com a dilatação anotada, ausculta dos batimentos e checagem de perdas — sangramento, líquido, e o que a mulher relata sobre a movimentação do bebê.

Primeiro período: latente e ativo — e o corte que mudou

A fase de latência do primeiro período, pela definição da diretriz nacional, é o tempo — não necessariamente contínuo — em que há contrações uterinas dolorosas e alguma modificação cervical, incluindo apagamento e alguma dilatação. O trabalho de parto estabelecido, ou fase ativa, exige contrações uterinas regulares e dilatação cervical progressiva a partir de 4 cm. Esse corte rege três coisas no Brasil: a decisão de admitir, o momento de abrir o partograma e o início da contagem do tempo.

A fase latente é longa, imprevisível e ninguém tem o direito de prometer quanto tempo ela vai durar: a própria Organização Mundial da Saúde afirma que não há duração padrão estabelecida para ela. É nela que a mulher cansa, e é nela que a assistência costuma se antecipar sem necessidade. A fase ativa é o que tem previsibilidade — e é por isso que o relógio, o partograma e os critérios de desvio só começam a valer quando ela começa.

Em 2018, a OMS passou a definir a fase ativa a partir de 5 cm, e não de 4, com base em coortes que mostraram que a dilatação não acelera de forma consistente antes disso. A régua brasileira vigente continua sendo a de 4 cm, e o capítulo a segue por ser a norma do serviço no país; o que a mudança da OMS obriga a corrigir não é o número de admissão, e sim a expectativa de velocidade — entre 4 e 6 cm o trabalho de parto normal pode ser genuinamente lento, e tratá-lo como distocia nessa faixa é a receita de intervenção desnecessária. O bloco de divergências detalha os dois documentos.

As durações que se pode esperar, na fase ativa, estão na tabela do bloco seguinte, e há uma leitura que vale mais que os números isolados: a diretriz nacional não descreve uma velocidade obrigatória por hora, descreve um envelope de duração total e um critério de parada. A diferença é enorme na prática. 'Menos de um centímetro nesta hora' não é diagnóstico de nada; 'menos de dois centímetros em quatro horas' é o critério de suspeita.

Segundo período: passivo e ativo

A dilatação completa não é o começo do esforço — é o começo do segundo período, que a diretriz nacional divide em duas fases. Na fase inicial ou passiva há dilatação total do colo sem sensação de puxo involuntário, seja porque a cabeça ainda está relativamente alta, seja porque a mulher está sob analgesia regional. Na fase ativa há dilatação total com cabeça visível, contrações expulsivas ou esforço materno ativo.

Essa distinção resolve um dos mal-entendidos mais frequentes do internato: o cronômetro do expulsivo não começa quando o toque encontra 10 cm, começa quando a fase ativa do segundo período começa. Se a dilatação completa foi confirmada em mulher sem analgesia e não há puxo, a orientação é reavaliar em uma hora para identificar em qual fase ela está — e não mandar fazer força.

Em mulheres com analgesia regional, o puxo deve ser adiado por pelo menos uma hora após a dilatação completa, ou mais se ela desejar, exceto se a mulher quiser fazer força ou se a cabeça já estiver visível. Depois disso, ela deve ser ativamente incentivada a fazer força durante as contrações. Puxo espontâneo é o padrão nas mulheres sem analgesia; puxo dirigido — aquele em que a equipe conta até dez em coro — deve ser evitado.

As durações esperadas do segundo período ativo variam com paridade e com analgesia e estão na tabela do bloco seguinte, junto dos prazos que definem prolongamento. O que interessa reter aqui é a lógica: o segundo período tem um limite de tempo muito mais curto que o primeiro, porque o feto está sendo comprimido a cada contração e a reserva dele é finita — e porque, passado certo ponto, a chance de nascimento espontâneo cai e a de trauma perineal e materno sobe.

Terceiro e quarto períodos

O terceiro período vai do nascimento até a expulsão da placenta e das membranas. Ele é curto e é o mais perigoso: é aqui que se previne a hemorragia pós-parto. A placenta se descola porque o útero, esvaziado, se contrai e reduz drasticamente a área de implantação, cisalhando a interface decidual. Os sinais clínicos do descolamento são o alongamento do cordão exteriorizado, o jorro de sangue e a subida do fundo uterino, que fica globoso e mais alto.

O descolamento pode se dar pelo centro, com a placenta saindo pela face fetal e o sangue represado atrás dela (mecanismo de Baudelocque-Schultze, o mais comum), ou pela borda, com sangramento visível precedendo a saída da placenta pela face materna (Baudelocque-Duncan). A distinção é descritiva; o que muda a conduta é o tempo. Considera-se o terceiro período prolongado depois de 30 minutos, e nele a placenta retida entra como diagnóstico.

O quarto período é a primeira hora depois da dequitação, e é o período de Greenberg. A hemostasia do sítio placentário se faz em camadas: primeiro pela contração das fibras miometriais que estrangulam os vasos que as atravessam — as ligaduras vivas de Pinard —, depois pela formação de trombos nesses vasos, com um breve intervalo de relaxamento uterino antes de o útero assumir o tônus contraído definitivo. Na prática de plantão, isso vira uma coisa só: palpar o útero e ver se está duro, do tamanho de uma bola de futebol, na altura da cicatriz umbilical.

É por isso que a primeira hora não é hora de largar a mulher no corredor esperando leito. As observações obrigatórias nesse momento são temperatura, pulso e pressão arterial, lóquios e contração uterina, exame da placenta e das membranas quanto à integridade, avaliação do estado emocional e micção espontânea. Bexiga cheia impede o útero de contrair e é causa banal e frequente de sangramento aumentado no pós-parto imediato.

O que muda em quem não é o caso típico

Multípara. Tudo é mais rápido e menos previsível. A fase ativa é mais curta, o segundo período pode durar minutos e a mulher costuma saber reconhecer o que está sentindo — quando uma multípara diz que o bebê está nascendo, a conduta é examinar imediatamente, não terminar a evolução. Por outro lado, a multiparidade é fator de risco para atonia uterina, e o terceiro período dela merece mais atenção, não menos.

Sob analgesia peridural. A analgesia não prolonga o primeiro período nem aumenta a chance de cesárea, mas prolonga o segundo período e aumenta a chance de parto vaginal instrumental — informação que precisa ser dita à mulher antes, não depois. Ela também apaga a sensação de puxo, o que exige adiar o esforço e usar o critério de tempo em vez do sintoma. E impõe monitoração adicional: ausculta dos batimentos a cada 5 minutos por pelo menos 30 minutos após a instalação da analgesia e a cada dose de resgate.

Com bolsa rota há muitas horas. Cada toque vaginal passa a contar mais: com membranas rotas, o número de exames vaginais se associa a sepse neonatal. Temperatura de 4 em 4 horas, atenção a mudança de cor ou cheiro das perdas, e limiar baixo para pensar em corioamnionite: febre materna com taquicardia fetal e líquido fétido é um quadro que muda o plano inteiro e exige o obstetra imediatamente.

Gestação de risco. O que este capítulo descreve é o acompanhamento da mulher de risco habitual. Pré-eclâmpsia, diabetes, cicatriz uterina prévia, restrição de crescimento, gemelaridade, apresentação anômala, prematuridade — cada uma dessas situações altera a vigilância, os limites de tempo e a via de parto, e nenhuma delas é para o interno conduzir sozinho. Reconhecer que a mulher do leito 3 não é de risco habitual é, em si, uma competência do capítulo.

06

Como fechar o diagnóstico

Acompanhar trabalho de parto é repetir um conjunto pequeno de exames em intervalos definidos e comparar cada um com o anterior. Não há exame de sangue, não há imagem, não há escore: o instrumento é a mão, o sonar e o relógio. O erro do interno raramente é não saber fazer o exame — é fazer o exame errado na hora errada, tipicamente examinando o colo a toda hora e a dinâmica quase nunca.

A ordem importa. Antes de qualquer toque, faz-se palpação abdominal e se avalia perdas vaginais. A palpação diz situação, apresentação, dorso e quantos quintos da cabeça permanecem palpáveis acima da sínfise — um dado que o toque não fornece com a mesma honestidade quando há bossa. Só depois disso, e com a mão higienizada e a mulher informada e consentindo, entra o dedo.

Dinâmica uterina: como se conta de verdade

Contração se avalia com a mão espalmada no fundo uterino, sem apertar, durante dez minutos corridos e com relógio à vista. Registram-se três coisas: quantas contrações houve em dez minutos, quanto tempo cada uma durou do início do endurecimento até o relaxamento, e a intensidade — que na palpação é semiquantitativa: fraca quando o fundo ainda se deprime com o dedo, moderada quando resiste, forte quando fica pétreo e não se deprime.

O padrão esperado na fase ativa está na tabela de vigilância do bloco seguinte. Abaixo dele, com progressão lenta, o quadro é de hipoatividade uterina — a distocia funcional mais comum e a que responde a medidas simples antes de qualquer droga: esvaziar a bexiga, hidratar, mudar de posição, andar e corrigir o medo e a dor, que inibem a contração por via adrenérgica.

Acima desse padrão está a taquissistolia, e ela importa por uma razão fisiológica: a perfusão do espaço interviloso acontece no intervalo entre as contrações. Contração demais significa intervalo de menos, e intervalo de menos significa feto hipoxêmico. A taquissistolia é quase sempre iatrogênica, por ocitocina em dose alta demais ou aumentada rápido demais, e a primeira conduta diante dela é reduzir ou suspender a infusão.

A frequência de avaliação e de registro está na tabela de vigilância, e a diferença entre as duas é proposital: avaliar com intervalo mais curto do que se registra é o que permite perceber a mudança de padrão antes de ela virar problema, sem transformar o partograma num borrão de anotações.

Batimentos cardiofetais: quando, como e o que é tranquilizador

Na gestante de risco habitual, o método recomendado em todos os locais de parto é a ausculta intermitente com estetoscópio de Pinard ou sonar Doppler. A técnica tem quatro exigências que, juntas, mudam o significado do resultado: auscultar antes, durante e imediatamente após uma contração; manter a ausculta por pelo menos um minuto; registrar o valor como uma taxa única, anotando acelerações e desacelerações se ouvidas; e palpar o pulso materno sempre que houver suspeita de anormalidade, para não confundir taquicardia materna com a frequência fetal.

Os intervalos estão na tabela de vigilância, e a lógica deles é simples de guardar: o intervalo encurta à medida que o feto fica mais exposto. No segundo período a compressão é máxima e a deterioração é rápida; depois da analgesia regional há uma janela de risco de hipotensão materna. Nos dois momentos, ausculta-se muito mais de perto do que ao longo do primeiro período.

A parte que o interno mais erra é o momento: auscultar só no intervalo entre as contrações, com o útero relaxado, é auscultar o feto no seu melhor momento e não ver justamente o que importa. As desacelerações que interessam aparecem durante e logo depois da contração. Auscultar antes da contração dá a linha de base; auscultar durante e depois mostra como o feto respondeu ao aperto.

Padrão tranquilizador, na ausculta intermitente, é linha de base dentro da faixa da tabela de vigilância, sem desacelerações e com recuperação imediata da frequência assim que a contração passa. Bradicardia mantida, taquicardia sustentada e desacelerações que se repetem a cada contração e demoram a recuperar pedem, nesta ordem: decúbito lateral esquerdo, suspender a ocitocina se estiver correndo, corrigir hipotensão e hidratar — e chamar o obstetra, instalando cardiotocografia se disponível.

A cardiotocografia contínua não é recomendada de rotina na mulher saudável em trabalho de parto espontâneo: ela não melhora desfecho neonatal e aumenta cesáreas e partos instrumentais, além de prender a mulher à cama, o que por si só piora a progressão. Ela entra quando há um motivo: alteração na ausculta intermitente, líquido meconial moderado a espesso, uso de ocitocina, febre materna, sangramento, gestação de risco. Ou seja, a cardiotocografia não é a versão melhor da ausculta — é o exame de outra pergunta, que só se faz quando a ausculta ou o contexto levantam a suspeita.

Toque vaginal: por que não de hora em hora

O intervalo de rotina da fase ativa está na tabela de vigilância, e é o mesmo na diretriz nacional e na recomendação da OMS. Fora dele, toca-se quando há motivo: preocupação com o progresso, alteração dos batimentos, mudança do padrão de dor, perda de líquido, sensação de puxo, suspeita de prolapso de cordão — ou por solicitação da mulher.

As razões para não tocar mais são três, e nenhuma delas é comodismo. A primeira é infecciosa: com membranas rotas, o número de exames vaginais se associa a sepse neonatal. A segunda é que não muda desfecho: o ensaio que comparou o intervalo de rotina com um intervalo mais curto não encontrou diferença na duração do trabalho de parto. A terceira é a que se subestima: o toque é doloroso e invasivo, interrompe a mulher no momento em que ela está lidando com a dor, e a insistência tem efeito acumulado sobre a experiência do parto, que é desfecho legítimo e medido.

Há um efeito colateral mais sutil e mais grave. Quem toca de hora em hora fatalmente encontra intervalos em que a dilatação não mudou — porque a dilatação não é linear —, e cada um desses achados vira uma pequena pressão para intervir. A cascata começa aí: mais toques, mais 'paradas' aparentes, mais amniotomia, mais ocitocina, mais taquissistolia, mais alteração de batimentos, mais cesárea.

O registro do toque tem cinco campos obrigatórios e é assim que ele deve entrar no prontuário: dilatação em centímetros, apagamento, altura da apresentação em plano de DeLee, variedade de posição e estado das membranas — com a cor do líquido se rotas. Toque anotado como '5 cm' e nada mais é um exame perdido: na próxima avaliação não haverá como dizer se houve progresso em descida ou rotação.

Altura da apresentação, variedade de posição e bolsa

Os planos de DeLee usam as espinhas isquiáticas como referência zero, e cada unidade equivale a um centímetro acima (negativo) ou abaixo (positivo) desse plano. Zero é a apresentação insinuada. Os cards do bloco de critérios mostram a gradação. A palpação abdominal complementar — quantos quintos da cabeça ainda se palpam acima da borda da sínfise — é o antídoto contra a ilusão da bossa: cabeça que o toque diz estar em +1 mas que ainda se palpa em três quintos pelo abdome não desceu, moldou.

A variedade de posição se determina localizando a fontanela posterior. Ela é pequena, triangular, formada pelo encontro de três suturas; a anterior é maior, losangular, com quatro suturas. Se a fontanela pequena está para a frente e para a esquerda, a variedade é occipitoesquerda anterior. Nos casos difíceis, com bossa importante, a palpação da orelha fetal e do seu pavilhão orienta o lado do occipital — é a manobra que os protocolos recomendam quando o toque não resolve.

O estado das membranas se registra em toda avaliação. Bolsa íntegra em trabalho de parto que progride bem não deve ser rompida de rotina: a amniotomia precoce, associada ou não à ocitocina, não é recomendada em mulheres que estejam progredindo bem. A amniotomia tem indicação — diante de suspeita de falha de progresso, ela encurta o trabalho de parto em cerca de uma hora e é o primeiro passo antes de escalar para ocitocina —, mas é intervenção com consequência: aumenta a intensidade e a dor das contrações, e é irreversível.

Quando a bolsa rompe, três coisas se checam imediatamente e nesta ordem: batimentos cardiofetais (o momento da ruptura é o clássico do prolapso de cordão, sobretudo com apresentação alta), cor do líquido e temperatura materna como linha de base. Prolapso de cordão é emergência: eleva-se a apresentação com a mão enluvada, coloca-se a mulher em posição genupeitoral ou Trendelenburg, chama-se ajuda e prepara-se cesárea imediata.

O que não pedir, e o que existe no SUS

Não se faz cardiotocografia de admissão de rotina em gestante de risco habitual: ela aumenta intervenção sem melhorar desfecho, e é a porta de entrada para imobilizar a mulher assim que ela chega. Não se pede ultrassonografia para 'confirmar' trabalho de parto — o diagnóstico é clínico. Não se pede rotina de exames laboratoriais para toda admissão em trabalho de parto de risco habitual; o que se checa é o que o pré-natal deixou pendente, com atenção à sorologia para HIV e sífilis e à cultura para estreptococo do grupo B, porque essas mudam conduta imediata.

Não se instala acesso venoso de rotina. Ele foi feito em quase três quartos das mulheres de risco habitual no Brasil, causa desconforto, limita a movimentação e não substitui a vigilância. Instala-se quando há indicação: uso de ocitocina, analgesia regional, fatores de risco para hemorragia, qualquer sinal de instabilidade — e imediatamente diante de hemorragia, retenção placentária ou colapso materno.

Do lado do que existe: tudo o que este capítulo pede está disponível em qualquer maternidade do SUS, porque o instrumental é a mão, o sonar ou o Pinard, o relógio e uma folha de partograma. É uma das poucas áreas da medicina em que a assistência recomendada custa menos que a assistência ruim — a diferença é tempo de profissional e organização do serviço, não tecnologia. A cardiotocografia, quando indicada, existe na maioria dos serviços de referência; sua ausência em uma unidade de menor porte é, ela própria, critério de transferência quando o quadro exige monitoração contínua.

07

O partograma, linha por linha — e os critérios de desvio

O partograma é uma folha quadriculada em que o eixo horizontal é o tempo, em horas, e o eixo vertical guarda duas escalas sobrepostas: a dilatação cervical, de 0 a 10 cm, e a altura da apresentação, em planos de DeLee. Cada toque vira dois pontos nessa folha. A vantagem sobre a evolução escrita é que a progressão vira uma imagem: quem chega de fora vê em três segundos, sem ler nada, se aquele trabalho de parto está andando. Ele não substitui o exame nem o julgamento — organiza os dois, e obriga a registrar o que costuma se perder, que é a descida.

  1. 1Confirme que é trabalho de parto: contração dolorosa regular MAIS modificação cervical. Faltando um dos dois, não abra partograma.
  2. 2Confirme que é fase ativa. É esse o momento de abrir a folha — o partograma não registra a fase de latência, e abri-lo cedo demais é a origem de metade das 'distocias' inventadas.
  3. 3Marque o primeiro toque: a dilatação no cruzamento hora × centímetro e, na mesma coluna, a altura da apresentação em plano de DeLee, com um símbolo diferente.
  4. 4Trace a linha de alerta a partir desse primeiro ponto de dilatação, subindo um centímetro por hora, e a linha de ação paralela a ela, quatro horas à direita.
  5. 5Preencha as faixas de vigilância no ritmo de cada uma: contrações, batimentos, sinais vitais maternos, estado da bolsa e cor do líquido, drogas em uso.
  6. 6A cada toque, marque os dois pontos novos e olhe a folha inteira, não só o último número: a curva cruzou a linha de alerta? Está aproximando-se da linha de ação? A descida acompanhou a dilatação?
  7. 7Cruzou a linha de alerta: reavalie a mulher e as três variáveis do parto — motor, objeto e trajeto — antes de qualquer intervenção; corrija bexiga cheia, desidratação, dor não controlada, posição e medo.
  8. 8Chegou à linha de ação, ou bateu um dos critérios de desvio da tabela: chame o obstetra. A partir daqui a decisão — ocitocina, amniotomia, parto instrumental, cesárea — não é do interno.

Alta e móvel (−3): acima das espinhas, ainda não insinuada

O maior diâmetro da cabeça não atravessou o estreito superior. Pela palpação abdominal, boa parte da cabeça permanece acima da sínfise. Em nulípara com dilatação avançada e apresentação nessa altura, pense em desproporção antes de pensar em ocitocina.

Insinuada (0): no plano das espinhas isquiáticas

O ponto de referência é palpável no nível das espinhas, que são as duas saliências ósseas laterais que o dedo encontra na parede vaginal. Este é o marco da insinuação e o zero da escala: daqui para baixo os planos são positivos.

Baixa (+2): abaixo das espinhas, já no estreito inferior

A cabeça ocupa a escava e a rotação interna deve estar completa ou completando-se. É a altura em que o parto instrumental se torna tecnicamente admissível quando indicado — e em que a distância até o nascimento passa a ser medida em minutos, não em horas.

Coroando (+4): cabeça visível distendendo o períneo

O períneo abaula e a cabeça é visível entre as contrações. É o momento de controlar a velocidade da deflexão e de orientar a mulher a não fazer força enquanto corona — o que reduz laceração —, não de puxar nem de empurrar o fundo.

Período / faseO que defineNulíparaMultípara
1º período — fase de latênciaContrações dolorosas + alguma modificação cervical, com dilatação até 4 cmDuração padrão não estabelecida; varia muito entre mulheresDuração padrão não estabelecida; varia muito entre mulheres
1º período — fase ativaContrações regulares + dilatação progressiva a partir de 4 cmMédia de 8 h; é pouco provável que passe de 18 hMédia de 5 h; é pouco provável que passe de 12 h
2º período — fase passivaDilatação total sem puxo involuntário, ou sob analgesia com cabeça ainda altaReavaliar em 1 h para definir em que fase estáReavaliar em 1 h para definir em que fase está
2º período — fase ativaDilatação total com cabeça visível, contrações expulsivas ou esforço materno ativo0,5 a 2,5 h sem peridural; 1 a 3 h com periduralAté 1 h sem peridural; até 2 h com peridural
3º período (dequitação)Do nascimento até a saída da placenta e das membranasConsiderado prolongado após 30 minConsiderado prolongado após 30 min
4º período (1ª hora)Primeira hora após a dequitação — período de GreenbergVigilância de tônus uterino e sangramentoVigilância de tônus uterino e sangramento

Vigilância no trabalho de parto: o que avaliar e com que frequência

ParâmetroFrequênciaO que é esperado
Dinâmica uterina (palpação de 10 min)Registro de 1 em 1 hora no 1º período; avaliação a cada 30 min na prática de plantão3 a 5 contrações em 10 min, de 40 a 60 s. Acima de 5 em 10 min, avaliadas ao longo de 30 min, é taquissistolia
Batimentos cardiofetais — 1º períodoA cada 30 min, antes/durante/após a contração, por pelo menos 1 minLinha de base de 110 a 160 bpm, sem desacelerações, com recuperação imediata após a contração
Batimentos cardiofetais — 2º períodoA cada 5 min, durante e após cada contraçãoMesma faixa; deterioração aqui é mais rápida
Batimentos após analgesia regionalA cada 5 min por no mínimo 30 min, e a cada dose de resgateAlteração indica decúbito lateral esquerdo, correção hemodinâmica e cardiotocografia
Toque vaginalDe 4 em 4 h, ou fora disso por indicação clínica ou a pedido da mulherRegistrar sempre os cinco campos: dilatação, apagamento, plano de DeLee, variedade de posição e membranas
Pulso maternoDe 1 em 1 horaAbaixo de 120 bpm
Pressão arterial e temperaturaDe 4 em 4 horasPA abaixo de 140/90 mmHg; temperatura abaixo de 37,5 °C
DiureseRegistrar a frequência das micçõesBexiga esvaziada regularmente — bexiga cheia atrapalha a descida e o tônus uterino no pós-parto

Partograma: o que entra em cada campo

CampoO que se registraRitmo
Momento de abrir a folhaAo diagnóstico de fase ativa — contrações regulares com dilatação a partir de 4 cm. A fase de latência não é registrada no gráficoUma vez
Dilatação cervicalUm símbolo (triângulo, na convenção mais usada) no cruzamento da hora com o centímetro encontradoA cada toque
Altura da apresentaçãoSímbolo distinto (círculo) no plano de DeLee correspondente, na mesma coluna de horaA cada toque
Linha de alertaTraçada a partir do primeiro registro de dilatação, subindo 1 cm por horaUma vez, ao abrir
Linha de açãoParalela à de alerta, 4 horas à direita — é o modelo recomendado pela diretriz nacionalUma vez, ao abrir
ContraçõesNúmero em 10 minutos, com a intensidade indicada pelo preenchimento do quadradoDe hora em hora
Batimentos cardiofetaisValor auscultado, com anotação de acelerações e desacelerações quando ouvidasA cada ausculta
Bolsa e líquidoÍntegra ou rota; se rota, cor do líquido (claro, meconial fluido, meconial espesso, sanguinolento)A cada avaliação
Ocitocina e outras drogasDose, via e horário, incluindo analgesia e antibióticoA cada mudança
Sinais vitais maternosPulso, pressão arterial, temperatura e diureseNo ritmo da tabela de vigilância

Critérios de desvio: quando o lento vira anormal

SituaçãoComo se defineO que fazer
Suspeita de falha de progresso no 1º períodoDilatação menor que 2 cm em 4 horas, considerando também descida, rotação e mudança no padrão das contraçõesReavaliar ambiente, posição, apoio, dor e bexiga; considerar amniotomia se as membranas estiverem íntegras; reexaminar em 2 horas
Falha de progresso confirmada no 1º períodoNo toque 2 horas depois, a dilatação progrediu menos de 1 cmA mulher passa a ser assistida por médico obstetra, que decide sobre as opções, incluindo ocitocina
Resposta à ocitocinaToque 4 horas após o início da infusãoAumento menor que 2 cm exige nova revisão obstétrica para avaliar cesárea; aumento de 2 cm ou mais autoriza seguir observando
Suspeita de prolongamento do 2º períodoNulípara: sem progresso de rotação ou descida após 1 hora de segundo período ativo. Multípara: após 30 minutosAmniotomia se as membranas estiverem íntegras; apoio, analgesia e reavaliação da dinâmica; avisar o obstetra
Prolongamento confirmado do 2º períodoNulípara: mais de 2 horas. Multípara: mais de 1 horaEncaminhar a médico treinado em parto vaginal operatório, se o nascimento não for iminente; revisão a cada 15 a 30 minutos
Terceiro período prolongadoPlacenta não dequitou em 30 minutosAcesso venoso calibroso, obstetra presente, exame vaginal minucioso com analgesia; extração manual nunca sem analgesia adequada
Sinais que exigem o obstetra independentemente do relógioPulso acima de 120 bpm em 2 ocasiões com 30 min de intervalo; PA sistólica ≥ 160 ou diastólica ≥ 110 mmHg em uma medida; PA ≥ 140/90 em duas medidas com 30 min; proteinúria de fita 2++ com PA ≥ 140/90; temperatura ≥ 38 °C em uma medida ou ≥ 37,5 °C em duas com 1 h de intervalo; mecônio espesso; sangramento; alteração dos batimentosChamar imediatamente; providenciar acesso venoso e, se o parto for fora de hospital, transferir

O que se faz e o que não se faz mais na sala de parto

PráticaRecomendaçãoRazão
Acompanhante de escolha da mulherDireito garantido e recomendado, em todo o processoApoio contínuo e individualizado reduz necessidade de analgesia e melhora a experiência
Movimentar-se e escolher a posiçãoEncorajar no primeiro período; desencorajar decúbito dorsal e semi-supino no expulsivoPosição vertical favorece a descida e a mulher tolera melhor a dor
Líquidos e dieta levePermitidos na mulher de risco habitual sem opioide e sem risco iminente de anestesia geralJejum prolongado não reduz complicação anestésica e piora o cansaço
Métodos não farmacológicos de alívio da dorOferecer antes dos farmacológicosBanho morno, massagem, bola, respiração e apoio contínuo têm efeito e não têm risco
Analgesia a pedido da mulherO pedido é indicação suficiente, independentemente da fase e do grau de dilataçãoInclui a mulher em fase latente com dor intensa, esgotados os métodos não farmacológicos
Enema e tricotomiaNão se fazem de rotinaNão reduzem infecção e são desconfortáveis e constrangedores
Amniotomia precoce de rotinaNão se faz em quem está progredindo bemNão encurta trabalho de parto normal e aumenta dor e intervenção
Episiotomia de rotinaNão se faz. Quando indicada, a indicação é justificada e a técnica é médio-lateral, com ângulo de 45 a 60 graus em relação ao eixo vertical, com analgesia garantidaUso rotineiro não protege o períneo e aumenta trauma
Manobra de KristellerVedadaNão deve ser realizada no segundo período; está listada entre os fatores de risco de hemorragia pós-parto por trauma
Puxo dirigidoEvitar em mulheres sem analgesia; apoiar o puxo espontâneoPuxo comandado cansa a mulher e não melhora desfecho
Proteção do períneoCompressas mornas podem ser consideradas; massagem perineal no segundo período não é recomendada; 'mãos sobre' e 'mãos prontas' são ambas aceitáveisO que muda desfecho é o controle da velocidade da deflexão, não a manobra em si
Contato pele a peleRecém-nascido sem complicações fica com a mãe na primeira horaPrevine hipotermia e favorece o início da amamentação
Clampeamento do cordãoNão seccionar antes de 1 minuto, salvo necessidade de reanimação; na conduta ativa, pinçar antes de 5 minutosMelhora as reservas de ferro do recém-nascido sem aumentar hemorragia materna

A linha de alerta descrita aqui é a do modelo nacional, com inclinação de um centímetro por hora e linha de ação quatro horas à direita. Ela é referência de registro, não sentença: cruzá-la manda reavaliar, não manda intervir. O bloco de divergências apresenta a posição da OMS, que desde 2018 recusa esse limiar como critério de progresso normal.

Linhas de ação mais precoces — de 2 ou 3 horas — foram testadas em ensaios controlados e aumentaram intervenção sem benefício para a mãe ou para a criança. É a razão pela qual o modelo brasileiro adota a de quatro horas.

Partograma iniciado na fase de latência produz uma curva que cruza a linha de alerta sem que nada de anormal esteja acontecendo. O erro de quando abrir a folha é mais comum e mais caro do que o erro de como preenchê-la.

Nenhum dos critérios de desvio da tabela é, sozinho, indicação de cesárea. Todos são indicação de reavaliação por quem tem competência para decidir — o que, para o interno, significa: chamar.

08

A conduta, hora a hora

Confirmar apresentação, fase, riscos e condições materna e fetal. Oferecer apoio, mobilidade e analgesia conforme preferência e indicação; acompanhar com o método apropriado ao risco. Antes de acelerar ou diagnosticar parada, revisar dilatação, tempo, contrações e critérios do protocolo. Alteração materna ou fetal exige reavaliação imediata, independentemente da velocidade de dilatação.

Duas travas valem para todos os marcos. A primeira: nada se faz sem explicar antes e obter concordância — inclusive o toque. A segunda: a mulher tem direito a acompanhante de sua escolha durante todo o processo, e isso não é cortesia da equipe, é lei federal e recomendação da diretriz nacional; o acompanhante recebe orientação sobre o que está acontecendo e onde ficar, e não é dispensado por conveniência do serviço.

  1. Admissão — hora 0

    Confirme o diagnóstico antes de qualquer outra coisa: contração dolorosa regular mais modificação cervical. Colha a história do trabalho de parto (quando começou, perdas, movimentação fetal), leia o cartão de pré-natal inteiro — idade gestacional confiável, sorologias, cultura para estreptococo do grupo B, comorbidades — e faça o exame completo: sinais vitais, palpação abdominal com manobras de Leopold, ausculta e, por último, toque. Pergunte se há plano de parto e leia com ela. Apresente-se, pergunte como ela quer ser chamada, garanta a entrada do acompanhante. Se estiver em fase ativa, abra o partograma; se ainda estiver na latência sem outra indicação de internação, ofereça apoio e alívio da dor e discuta permanecer ou voltar para casa, considerando a distância e as preocupações dela.

    Prescrição
    • Dieta leve e líquidos liberados na mulher de risco habitual que não esteja em uso de opioide nem tenha fator de risco iminente para anestesia geral — Diretrizes Nacionais de Assistência ao Parto Normal (MS/CONITEC, 2017), rec. 19 e 20.
    • Liberdade de posição e deambulação — MS/CONITEC 2017, rec. 101.
    • Métodos não farmacológicos de alívio da dor oferecidos antes dos farmacológicos: banho morno, massagem, bola, técnicas de respiração e relaxamento — MS/CONITEC 2017, rec. 37.
    • NÃO prescrever: enema, tricotomia, acesso venoso de rotina, jejum, cardiotocografia de admissão em gestante de risco habitual — MS/CONITEC 2017, rec. 98 e 99; OMS 2018, rec. 14 e 15.
    • Profilaxia intraparto de EGB: indicada por bacteriúria por EGB nesta gestação, filho anterior com doença invasiva ou cultura positiva, ressalvada cesárea antes do trabalho de parto com membranas íntegras. Com cultura desconhecida ou fora da validade de cinco semanas, prematuridade, rotura ≥18 horas ou febre intraparto indicam avaliar profilaxia. Cultura negativa válida não é anulada apenas por prematuridade ou rotura prolongada; febre exige avaliar infecção intra-amniótica e, se suspeita, tratar com esquema de amplo espectro que inclua cobertura de EGB. Penicilina G cristalina 5 milhões UI IV inicialmente, depois 2,5–3 milhões UI a cada 4 horas até o nascimento; alternativa: ampicilina 2 g IV inicialmente, depois 1 g a cada 4 horas. Alergia à penicilina: caracterizar a reação. Baixo risco de anafilaxia: cefazolina 2 g IV inicialmente e 1 g IV a cada 8 horas. Alto risco: clindamicina 900 mg IV a cada 8 horas somente com suscetibilidade do isolado documentada e avaliação de resistência induzível quando pertinente; se resistente ou suscetibilidade desconhecida, vancomicina 20 mg/kg IV a cada 8 horas, máximo 2 g por dose, ajustada à função renal e infundida conforme protocolo. Não usar eritromicina para profilaxia intraparto de EGB. Referência: ACOG, Committee Opinion 797, 2020; ver o capítulo Estreptococo do grupo B.
  2. Fase ativa — as horas que você vai passar ao lado da cama

    Esta é a parte longa e a que parece que não tem conduta. Tem: manter a vigilância no ritmo da tabela, registrar tudo no partograma, sustentar as boas práticas e proteger a mulher de intervenção desnecessária. Reavalie posição, bexiga, hidratação e dor a cada visita — os quatro corrigíveis que respondem por boa parte das progressões lentas. Se ela pedir analgesia, o pedido é indicação suficiente, em qualquer fase e em qualquer dilatação. Se as contrações estiverem espaçadas e o progresso lento, esgote primeiro o que é gratuito e reversível: andar, mudar de posição, esvaziar a bexiga, hidratar, acolher o medo. Amniotomia e ocitocina não são o primeiro degrau, e nenhuma das duas é decisão de interno.

    Prescrição
    • Analgesia regional a pedido da mulher — peridural ou combinada raqui-peridural, ambas eficazes; a escolha é do anestesiologista. O pedido materno é indicação suficiente, independentemente da fase do parto e do grau de dilatação — MS/CONITEC 2017, rec. 47 e 48.
    • Após a instalação da analgesia ou a cada dose de resgate: ausculta dos batimentos de 5 em 5 minutos por no mínimo 30 minutos, e decúbito lateral esquerdo diante de qualquer alteração — MS/CONITEC 2017, rec. 77.
    • Ocitocina para condução, SOMENTE após falha de progresso confirmada e por decisão do obstetra: 1 ampola (5 UI) em 500 mL de soro fisiológico 0,9%, iniciando a 8 gotas por minuto (24 mL/h em bomba de infusão), com aumento gradual a cada 30 minutos até o máximo de 32 gotas por minuto — Rede Cegonha (SES-PB, 2020). Os incrementos não devem ser mais frequentes que a cada 30 minutos e o alvo é de 4 a 5 contrações em 10 minutos — MS/CONITEC 2017, rec. 111.
    • Com ocitocina em curso, a monitoração fetal passa a ser contínua ou mais frequente, e deve-se oferecer analgesia peridural se disponível — MS/CONITEC 2017, rec. 109 e 110.
    • Antibiótico não é rotina no parto vaginal sem complicação — OMS 2018, rec. 53.
  3. Segundo período — o expulsivo

    Confirme em que fase do segundo período ela está antes de pedir esforço: dilatação completa sem puxo não é sinal para começar a fazer força. Deixe que escolha a posição — cócoras, lateral, quatro apoios, semi-sentada — e desencoraje ativamente o decúbito dorsal. Apoie o puxo espontâneo. A ausculta fica mais frequente aqui. Controle a velocidade da saída da cabeça com a mão, orientando a mulher a não empurrar durante a coroação. Não faça pressão no fundo uterino em nenhuma circunstância, e não corte o períneo por hábito.

    Prescrição
    • Posição de escolha da mulher; decúbito dorsal e semi-supino desencorajados — MS/CONITEC 2017, rec. 113.
    • Puxo espontâneo apoiado; puxo dirigido evitado. Com analgesia regional, adiar o puxo por pelo menos 1 hora após a dilatação completa, salvo se a mulher desejar antes ou a cabeça já estiver visível — MS/CONITEC 2017, rec. 115 e 117.
    • Compressas mornas no períneo podem ser consideradas; massagem perineal no segundo período e spray de lidocaína não são recomendados — MS/CONITEC 2017, rec. 136, 137 e 138.
    • Manobra de Kristeller: proibida — MS/CONITEC 2017, rec. 118; OMS 2018, rec. 40.
    • Episiotomia: não de rotina. Quando indicada, a indicação é justificada no prontuário, a técnica é médio-lateral originando na fúrcula e dirigida para o lado direito, com ângulo de 45 a 60 graus em relação ao eixo vertical, e sempre com analgesia efetiva antes — MS/CONITEC 2017, rec. 141, 142 e 143.
  4. Terceiro período — manejo ativo da dequitação

    Este é o marco em que a conduta ativa vence a expectante e em que o interno tem papel concreto. O conjunto tem três componentes: uterotônico logo após o nascimento, clampeamento do cordão no tempo certo e tração controlada depois dos sinais de descolamento. A conduta ativa encurta o terceiro período e reduz hemorragia e transfusão em comparação com a fisiológica, e é o que a diretriz nacional recomenda — respeitando a escolha da mulher de baixo risco que prefira conduta expectante, e mudando para ativa se houver sangramento ou se a placenta não sair em uma hora. O detalhamento do que fazer quando a hemorragia acontece é assunto do capítulo de hemorragia pós-parto; aqui fica a profilaxia.

    Prescrição
    • Ocitocina 10 UI por via intramuscular logo após o desprendimento da criança, antes do clampeamento e da secção do cordão. A ocitocina isolada é preferível à associação com ergometrina, por ter menos efeitos colaterais — MS/CONITEC 2017, rec. 154. A OMS admite 10 UI por via intramuscular ou endovenosa — OMS 2018, rec. 42.
    • Clampeamento do cordão: não seccionar antes de 1 minuto do nascimento, salvo necessidade de manobras de reanimação neonatal; na conduta ativa, pinçar antes de 5 minutos para permitir a tração controlada. Se a mulher pedir clampeamento após 5 minutos, apoiar a escolha. Registrar o horário do clampeamento — MS/CONITEC 2017, rec. 155 e 158; OMS 2018, rec. 44.
    • Tração controlada do cordão somente após a administração da ocitocina E os sinais de separação placentária, com a outra mão apoiando o útero acima da sínfise — MS/CONITEC 2017, rec. 156 e 157.
    • Massagem uterina sustentada não é necessária em quem recebeu ocitocina profilática — OMS 2018, rec. 46. A avaliação do tônus uterino, essa sim, é para todas — OMS 2018, rec. 52.
    • Ocitocina endovenosa adicional não é rotina para desprendimento da placenta retida; passa a ser indicada se houver hemorragia — MS/CONITEC 2017, rec. 166 e 167.
  5. Primeira hora após o parto — o quarto período

    Recém-nascido sem complicações vai para o colo da mãe, em contato pele a pele, e ali fica na primeira hora — a avaliação de rotina, o peso e o banho esperam. Enquanto isso, a vigilância materna: tônus uterino, sangramento, sinais vitais, integridade da placenta e das membranas, e a revisão do canal de parto com boa iluminação e analgesia. Repare o trauma perineal se houver, com técnica e material adequados, e cuide para que essa avaliação não atropele o encontro da mãe com o filho, exceto se houver sangramento que exija urgência.

    Prescrição
    • Contato pele a pele na primeira hora e amamentação assim que mãe e bebê estiverem prontos; banho do recém-nascido adiado por 24 horas — OMS 2018, rec. 48, 49 e 51.
    • Vitamina K 1 mg por via intramuscular no recém-nascido, após a primeira hora de contato pele a pele — OMS 2018, rec. 50.
    • Observações maternas logo após o parto: temperatura, pulso e pressão arterial, lóquios e contração uterina, exame da placenta e das membranas, avaliação emocional e micção espontânea — MS/CONITEC 2017, rec. 171.
    • Reparo perineal com analgesia efetiva: infiltração de até 20 mL de lidocaína a 1% ou equivalente, ou nova dose pelo cateter peridural. Sutura contínua na parede vaginal e na camada muscular, com fio sintético absorvível; a pele dispensa sutura se as bordas se apõem — MS/CONITEC 2017, rec. 184 e 186 a 189.
    • Anti-inflamatório não esteroide em supositório retal após o reparo de trauma perineal de primeiro e segundo graus, se não houver contraindicação — MS/CONITEC 2017, rec. 191.
    • Após parto vaginal sem complicação, mãe e recém-nascido permanecem no serviço por pelo menos 24 horas — OMS 2018, rec. 56.
09

Como saber se está funcionando

A pergunta que organiza este bloco é a que o interno leva para casa: como eu sei que este trabalho de parto continua indo bem? A resposta não é um exame — é a comparação sistemática entre uma avaliação e a anterior, com prazos definidos e um plano pronto para quando o parâmetro não se comporta.

Vale dizer com todas as letras o que 'não melhorou' significa em obstetrícia, porque é diferente do resto da medicina. Um trabalho de parto que não progride não é um paciente que não respondeu ao antibiótico: as duas vidas continuam sendo submetidas a contrações enquanto se decide. Por isso os prazos são curtos e por isso a ação padrão diante do desvio não é trocar a conduta por conta própria — é envolver quem tem competência para decidir a via de parto.

E há uma reavaliação que não cabe em tabela nenhuma: a mulher. Se ela diz que alguma coisa mudou — que a dor virou outra, que o bebê parou de mexer, que sente vontade de fazer força, que 'está saindo' —, isso é dado clínico de primeira linha e obriga a exame imediato. A literatura de segurança do parto está cheia de eventos graves precedidos por uma frase da mulher que ninguém levou a sério.

Dilatação cervicalA cada toque de rotina, e a curva completa lida no partograma a cada marcação

Esperado: Progressão contínua, ainda que irregular, com a curva mantendo-se à esquerda da linha de alerta

Se não melhora: Cruzou a linha de alerta: reavalie posição, bexiga, hidratação, dor, apoio e dinâmica antes de qualquer intervenção. Bateu o critério de falha de progresso da tabela: revisão obstétrica; a decisão sobre amniotomia, ocitocina ou cesárea é do obstetra

Descida da apresentação (plano de DeLee)A cada toque, sempre registrado junto da dilatação

Esperado: Descida progressiva, acompanhando a dilatação, com rotação para occipitopúbica ao longo do trajeto

Se não melhora: Dilatação que avança sem descida é o padrão da desproporção — confirme pela palpação abdominal quantos quintos da cabeça permanecem acima da sínfise, desconfie de bossa que simula descida e chame o obstetra

Dinâmica uterinaNo ritmo da tabela de vigilância, e sempre que o progresso desacelerar

Esperado: Contrações regulares, coordenadas, com o padrão descrito na tabela mantido ao longo das horas

Se não melhora: Hipoatividade: corrija bexiga, hidratação, posição, dor e medo antes de pensar em droga. Taquissistolia: reduza ou suspenda a ocitocina, coloque em decúbito lateral esquerdo e reavalie os batimentos — a hiperestimulação é iatrogênica até prova em contrário

Batimentos cardiofetaisNo ritmo da tabela, e imediatamente após ruptura de membranas, instalação de analgesia ou qualquer mudança do quadro

Esperado: Linha de base estável dentro da faixa da tabela, sem desacelerações, com recuperação imediata após a contração

Se não melhora: Decúbito lateral esquerdo, suspender ocitocina, corrigir hipotensão e hidratar; reavaliar em minutos e chamar o obstetra. Instalar cardiotocografia se disponível. Alteração que persiste apesar das medidas é motivo para preparar a resolução do parto

Temperatura e pulso maternosNo ritmo da tabela; mais frequentemente se a bolsa estiver rota há muitas horas

Esperado: Ambos dentro dos limites da tabela de vigilância, e estáveis ao longo do tempo

Se não melhora: Febre com taquicardia materna e fetal, útero doloroso ou líquido de odor fétido é corioamnionite até prova em contrário: chame o obstetra, colha o que for necessário, inicie antibiótico conforme o protocolo do serviço e antecipe que o parto precisa acontecer

Progresso do segundo períodoRevisão contínua; após o prolongamento confirmado, reavaliação a cada 15 a 30 minutos

Esperado: Descida e rotação progressivas com os puxos, com o nascimento dentro dos prazos da tabela de critérios

Se não melhora: Cheque contrações (podem ter enfraquecido), bexiga e posição; ofereça apoio e analgesia. Sem progresso dentro do prazo, a mulher precisa de avaliação por médico treinado em parto vaginal operatório — a decisão entre fórcipe, vácuo e cesárea não é do interno

DequitaçãoContada a partir do nascimento

Esperado: Sinais de descolamento e saída da placenta dentro do prazo da tabela, com placenta e membranas íntegras ao exame

Se não melhora: Placenta retida: acesso venoso calibroso, obstetra presente, analgesia adequada antes de qualquer exploração. Placenta que saiu incompleta é motivo de revisão da cavidade e de vigilância redobrada de sangramento

Tônus uterino e sangramento na primeira horaAvaliação repetida ao longo de toda a primeira hora

Esperado: Útero contraído e globoso na altura da cicatriz umbilical, lóquios em quantidade moderada, sinais vitais estáveis

Se não melhora: Útero amolecido é atonia: massagem, esvaziar a bexiga, garantir acesso venoso e chamar ajuda imediatamente — o manejo completo da hemorragia pós-parto é assunto do capítulo próprio, e nenhum minuto se ganha esperando para ver

Diurese maternaAo longo de todo o trabalho de parto e nas horas seguintes ao parto

Esperado: Micções espontâneas regulares, sem bexiga palpável

Se não melhora: Bexiga distendida atrapalha a descida no trabalho de parto e o tônus uterino depois dele — estimule a micção e cateterize se necessário. Bexiga palpável sem micção 6 horas após o parto é critério para avaliação médica

10

Onde o erro machuca

Tocar de hora em hora para 'ver se andou'

O dano: Com membranas rotas, o número de exames vaginais se associa a sepse neonatal. Além do risco infeccioso, cada toque é doloroso e interrompe a mulher no pior momento — e, por ser feito em intervalo curto demais, encontra intervalos naturais sem mudança de dilatação, que viram falsa 'parada' e disparam a cascata de amniotomia, ocitocina, taquissistolia e cesárea.

Como pegar a tempo: Toque no intervalo de rotina da tabela de vigilância, e fora dele só com motivo declarado. Entre um toque e outro, o que fornece informação é a dinâmica, a ausculta e o comportamento da mulher. Se você sente vontade de tocar por ansiedade, palpe o abdome e conte contrações: é o exame que estava faltando.

Fazer pressão no fundo uterino (manobra de Kristeller) para 'ajudar a sair'

O dano: Rotura uterina, laceração grave de trajeto, descolamento prematuro de placenta, lesão de vísceras maternas, fratura de costela, trauma fetal e hemorragia pós-parto — a manobra está listada entre os fatores de risco de hemorragia por trauma no manual do Ministério da Saúde. Foi feita em mais de um terço das mulheres brasileiras de risco habitual, o que significa que você vai vê-la sendo feita.

Como pegar a tempo: É vedada: a diretriz nacional determina que não seja realizada no segundo período, e a OMS não a recomenda. Não faça, mesmo se pedirem. Se o expulsivo não progride, o problema é outro — contração, posição, bexiga, analgesia, ou indicação de parto instrumental por quem sabe fazer.

Cortar o períneo por hábito, 'porque vai rasgar mesmo'

O dano: A episiotomia de rotina não protege o períneo: transforma um trauma que poderia ser pequeno ou inexistente em uma incisão que atravessa músculo, com dor, dispareunia e risco de extensão para o esfíncter anal. Mais da metade das brasileiras de risco habitual recebeu episiotomia.

Como pegar a tempo: Não faça de rotina. Quando indicada, a indicação vai escrita no prontuário, a analgesia vem antes, e a técnica é a médio-lateral com o ângulo recomendado. No dia a dia, o que protege o períneo é controlar a velocidade da deflexão e não apressar a saída.

Deixar o expulsivo correr sem cronômetro

O dano: Segundo período prolongado aumenta hemorragia pós-parto, trauma perineal grave, infecção e desfecho neonatal adverso. E o tempo passa rápido do lado de dentro do quarto: quem está torcendo pelo parto vaginal tende a esticar 'só mais dez minutos' várias vezes seguidas.

Como pegar a tempo: Anote no prontuário a hora em que o segundo período ativo começou — não a hora dos 10 cm, a hora em que começou o esforço ou a cabeça ficou visível. A partir dali, os prazos de suspeita e de confirmação são os da tabela de critérios, e valem por paridade.

Auscultar o feto só entre as contrações

O dano: É auscultar o feto no seu melhor momento. As desacelerações que denunciam sofrimento aparecem durante e logo depois da contração; auscultar só no útero relaxado devolve um número normal em um feto que está se deteriorando, e atrasa a intervenção que salvaria.

Como pegar a tempo: Ausculte antes, durante e imediatamente após a contração, mantendo por pelo menos um minuto, e registre como taxa única com as acelerações e desacelerações ouvidas. Na dúvida entre frequência fetal e materna, palpe o pulso da mulher ao mesmo tempo.

Puxar o cordão para tirar a placenta

O dano: Tração antes dos sinais de descolamento, ou sem uterotônico, pode romper o cordão — o que complica a retirada — e, no pior cenário, causa inversão uterina aguda, que é choque, dor intensa e emergência obstétrica grave. Tração excessiva do cordão está entre os fatores de risco de hemorragia pós-parto por trauma.

Como pegar a tempo: Tração controlada só depois de duas condições: ocitocina administrada e sinais de separação placentária presentes (alongamento do cordão, jorro de sangue, subida do fundo). E sempre com a outra mão apoiando o útero acima da sínfise. Sem os sinais, espere — o prazo do terceiro período está na tabela.

Ignorar a mulher que diz que alguma coisa mudou

O dano: É o erro que precede a maior parte dos eventos graves evitáveis na sala de parto. 'Está saindo', 'a dor ficou diferente', 'ele parou de mexer', 'está descendo alguma coisa' — cada uma dessas frases pode ser, respectivamente, um parto iminente, um descolamento de placenta, um comprometimento fetal e um prolapso de cordão. Nenhuma delas espera o fim da evolução que você está escrevendo.

Como pegar a tempo: Trate a fala da mulher como dado clínico com prioridade de exame imediato. Multípara que diz que o bebê está nascendo tem razão até prova em contrário. E deixe explícito para ela e para o acompanhante como chamar você — quem sabe que será ouvido chama mais cedo.

Internar e abrir partograma na fase de latência

O dano: O gráfico começa a correr antes de o trabalho de parto ter engrenado, a curva cruza a linha de alerta sem que nada de anormal esteja acontecendo, e a mulher é 'diagnosticada' com distocia por um problema de contabilidade. Daí saem condução, amniotomia e, com frequência, cesárea por falha de progresso.

Como pegar a tempo: Abra a folha ao diagnóstico de fase ativa. Antes disso, a assistência é apoio, alívio da dor e informação — e, na mulher que não preenche critério de internação e mora perto, orientação de aguardar em casa com um plano claro de quando voltar.

11

O que dizer ao paciente e à família

A mulher em trabalho de parto está fazendo uma coisa difícil, com dor, sem controle sobre o tempo e cercada de desconhecidos que a examinam. Comunicação, aqui, não é gentileza opcional: a própria diretriz nacional dedica recomendações à forma de falar, e o apoio contínuo tem efeito medido sobre necessidade de analgesia e sobre a experiência do parto. O que segue são falas que funcionam, no português que se usa de verdade.

Três regras cobrem quase tudo. Peça permissão antes de qualquer exame e explique o que vai fazer e por quê. Diga o que você sabe e o que não sabe, sem promessas de horário. E fale com a mulher, não sobre ela — inclusive quando estiver conversando com o acompanhante ou com a equipe dentro do quarto.

Chegando pela primeira vez ao leito

"Boa noite, meu nome é [nome], sou o interno que vai acompanhar a senhora nesta noite junto com a Dra. [nome]. Como a senhora prefere ser chamada? Antes de examinar, me conta como está: quando começaram as contrações, se perdeu líquido, se o bebê está mexendo como sempre."

Não diga: Entrar sem bater, começar pelo exame e só depois se apresentar, ou tratar por 'mãezinha' e 'querida'. E não anuncie o que não pode cumprir, como 'vai ser rápido'.

Antes de fazer o toque

"Preciso fazer um exame de toque para ver como está o colo do útero e a posição do bebê. É desconfortável e dura menos de um minuto. Posso fazer agora? Se doer demais em algum momento, me avise que eu paro. Vou avisar quando terminar."

Não diga: Tocar avisando só na hora em que o dedo entra, examinar durante uma contração sem necessidade, ou não dizer o resultado depois. Também não faça o toque 'aproveitando que já estou aqui': cada exame precisa de motivo.

Dizendo o que o exame mostrou

"O colo está com [x] centímetros e o bebê já desceu um pouco desde a última vez. Está indo bem, no ritmo esperado. O batimento do bebê está bom. Vou voltar a examinar daqui a algumas horas, mas vou passar aqui muito antes disso para escutar o coração dele e ver como a senhora está."

Não diga: Falar em centímetros sem traduzir, dizer 'ainda está só com quatro' — o 'só' informa desânimo, não dado —, ou sumir depois do exame sem combinar o próximo contato.

Quando ela pergunta quanto tempo falta

"Não dá para prometer um horário, e quem promete está chutando. O que posso dizer é que a senhora está na fase que costuma ser mais previsível, e que enquanto o bebê estiver bem e a senhora estiver progredindo, a gente tem tempo. Se em algum momento eu achar que precisamos mudar o plano, a senhora vai saber por mim antes de qualquer coisa acontecer."

Não diga: Dar prazo ('até meia-noite nasce'). O prazo vira contrato: quando ele passa, a mulher se sente fracassada e a equipe se sente autorizada a intervir.

Quando ela pede alguma coisa para a dor

"A senhora tem direito a analgesia quando quiser, não precisa esperar dilatar mais. Posso chamar o anestesista agora. Enquanto ele vem, quer tentar o chuveiro quente, mudar de posição ou a bola? Qualquer uma dessas ajuda e nenhuma atrapalha a analgesia depois."

Não diga: "Ainda está cedo para analgesia" ou "se fizer agora vai parar o trabalho de parto" — nenhuma das duas se sustenta: o pedido da mulher é indicação suficiente, e a peridural não prolonga o primeiro período nem aumenta a chance de cesárea.

Quando algo mudou e você vai chamar a plantonista

"Está tudo sob controle neste momento, mas notei uma coisa que quero mostrar para a médica: [o achado]. Vou chamá-la agora para ela examinar a senhora. Não é para se assustar — é assim que a gente trabalha: quando aparece qualquer dúvida, a gente chama."

Não diga: Sair correndo do quarto sem explicar nada, ou dizer 'não é nada' e voltar com três pessoas. Silêncio e pressa comunicam mais medo do que a informação.

Quando o plano muda para cesárea

"O trabalho de parto não está progredindo apesar de tudo que a gente tentou, e a Dra. [nome] avaliou que o caminho mais seguro agora é a cesárea. Vou explicar o que vai acontecer: [passos]. A senhora vai poder ficar com o bebê logo depois, e o seu acompanhante entra com a senhora. Quer que eu explique de novo alguma parte? A senhora fez tudo que dava para fazer — o corpo não falhou e a senhora não fez nada errado."

Não diga: "A senhora não dilatou", "não conseguiu", "a bacia é pequena demais" — frases que atribuem culpa e que ela vai repetir sobre si mesma por anos, inclusive na próxima gestação. Também não trate a cesárea como fracasso da equipe na frente dela.

No expulsivo

"A senhora está indo muito bem. Faça força quando o corpo pedir, do jeito que for melhor. Agora vou pedir uma coisa importante: quando eu disser, pare de fazer força e solte o ar, porque a cabecinha está saindo e devagar protege a senhora."

Não diga: O coro de 'força, força, força' contando até dez, que cansa a mulher e não melhora desfecho. E jamais comandar puxo com alguém empurrando o fundo do útero.

12

Onde bons médicos discordam

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.

Onde começa a fase ativa: 4 cm ou 5 cm de dilatação

Trabalho de parto estabelecido a partir de 4 cm (documento brasileiro, 2017)

A diretriz nacional define fase de latência como contrações dolorosas com modificação cervical incluindo dilatação até 4 cm, e trabalho de parto estabelecido como contrações regulares com dilatação progressiva a partir dos 4 cm. É esse corte que rege a admissão para assistência, a abertura do partograma e a contagem de tempo nas maternidades do SUS.

Brasil. MS/CONITEC. Diretrizes Nacionais de Assistência ao Parto Normal, 2017 (rec. 90 e 91).

Fase ativa a partir de 5 cm (documento internacional, 2018)

A OMS define a fase latente como progressão mais lenta da dilatação até 5 cm, e a fase ativa como dilatação mais rápida de 5 cm até a dilatação completa, em primeiro parto e nos seguintes. A justificativa é que as coortes contemporâneas mostram que o trabalho de parto não acelera de forma consistente antes desse ponto.

World Health Organization. WHO recommendations: intrapartum care for a positive childbirth experience, 2018 (rec. 5 e 6).

Como decidir

O corte não decide o que fazer com a mulher; decide a partir de quando você tem o direito de esperar velocidade. Na prática do plantão brasileiro, registre pelo padrão nacional — é a régua do serviço, do prontuário e da auditoria — e use o dado da OMS como calibração da sua expectativa: entre 4 e 6 cm, progresso lento com mãe e feto bem é território de observação, não de diagnóstico de distocia. Quando os dois documentos apontarem para condutas diferentes na mesma mulher, o que resolve é o par gravidade e reversibilidade: esperar mais uma reavaliação com mãe estável e feto tranquilizador é barato e reversível; conduzir com ocitocina uma mulher que ainda nem entrou na fase ativa não é.

Partograma com linha de alerta e de ação, ou faixas de referência por centímetro

Partograma com linha de ação de 4 horas (documento brasileiro, 2017)

A diretriz nacional determina o uso de um partograma com linha de ação de 4 horas, modelo da OMS ou equivalente, para o registro do progresso do parto. A escolha da linha de 4 horas é fundamentada em ensaios que compararam linhas de 2, 3 e 4 horas e mostraram que as linhas mais precoces aumentam intervenção sem benefício materno ou neonatal.

Brasil. MS/CONITEC. Diretrizes Nacionais de Assistência ao Parto Normal, 2017 (rec. 94) e Relatório de Recomendação nº 211, item 13.4.

O limiar de 1 cm/hora não identifica risco (documento internacional, 2018 e 2020)

A OMS afirma que o limiar de dilatação de 1 cm por hora durante a fase ativa — que é justamente a inclinação da linha de alerta — é impreciso para identificar mulheres em risco de desfecho adverso e não deve ser usado com essa finalidade, e que dilatação mais lenta que isso, isoladamente, não é indicação de intervenção. Em 2020 a organização lançou o Labour Care Guide, que substitui o partograma tradicional e troca as linhas por faixas de referência de progresso a cada centímetro de dilatação, com uma coluna de alerta para achados que exigem ação.

OMS, Intrapartum care, 2018 (rec. 7 e 8); OMS, comunicado de lançamento do Labour Care Guide, 15/12/2020.

Como decidir

Os dois lados concordam mais do que parece: nenhum deles autoriza intervir só porque uma linha foi cruzada. Preencha o partograma que existe no seu serviço, porque registro é obrigação legal e é o que permite a outra pessoa entender o caso em três segundos. E leia o cruzamento da linha de alerta como ele foi desenhado para ser lido — um gatilho de reavaliação da mulher inteira, não um diagnóstico. Diante da mulher à sua frente, o que muda decisão é a soma de dilatação, descida, rotação, contrações e bem-estar fetal; nenhum desses cinco isolado sustenta uma cesárea.

Quanto tempo o período expulsivo pode durar

Prazos separados por paridade e por analgesia (documento brasileiro, 2017)

A diretriz nacional descreve a duração normal da fase ativa do segundo período em faixas distintas para primíparas e multíparas, e distintas conforme haja ou não peridural, e fixa prazos de suspeita e de confirmação de falha de progresso a partir dos quais a mulher deve ser avaliada por médico treinado em parto vaginal operatório. Os valores estão na tabela de critérios deste capítulo.

Brasil. MS/CONITEC. Diretrizes Nacionais de Assistência ao Parto Normal, 2017 (rec. 121, 122, 125 e 126).

Um prazo único por paridade, sem separar analgesia (documento internacional, 2018)

A OMS orienta informar que a duração do segundo período varia de mulher para mulher e que, em primeiro parto, o nascimento costuma se completar em até 3 horas, e nos partos seguintes, em até 2 horas — sem estabelecer faixas separadas conforme a analgesia na declaração de duração, embora reconheça que a peridural prolonga essa etapa e recomende adiar o puxo por uma a duas horas nessas mulheres.

World Health Organization. WHO recommendations: intrapartum care for a positive childbirth experience, 2018 (rec. 33 e 37).

Como decidir

Aqui a reversibilidade do erro é assimétrica e isso deve pesar: esticar o expulsivo cobra caro (hemorragia, trauma perineal, desfecho neonatal), e encurtá-lo por impaciência também cobra (parto instrumental e cesárea evitáveis). O que desempata à beira do leito não é o número, é a direção: se há progresso de descida ou rotação a cada avaliação, com feto tranquilizador e mãe com condições, o tempo adicional é defensável e deve ser registrado com o motivo; se não há progresso nenhum, o prazo mais curto é o que vale, e a decisão é de quem faz parto operatório. Registre a hora de início do segundo período ativo — sem ela, esta discussão vira memória de plantão.

Quando pinçar o cordão umbilical

Não antes de 1 minuto e antes de 5 minutos, na conduta ativa

A diretriz nacional orienta administrar o uterotônico e, em seguida, pinçar e seccionar o cordão: não antes de 1 minuto do nascimento, a menos que haja necessidade de reanimação neonatal, e antes de 5 minutos para permitir a tração controlada como parte da conduta ativa. A OMS recomenda o clampeamento não antes de 1 minuto para melhores desfechos maternos e infantis. A federação brasileira de ginecologia e obstetrícia orienta retardar o clampeamento em no mínimo 1 minuto.

MS/CONITEC 2017 (rec. 154 e 155); OMS 2018 (rec. 44); FEBRASGO, Recomendações — Cuidados gerais na assistência ao parto, 2018.

Clampeamento após a parada da pulsação, na conduta fisiológica

A própria diretriz nacional define a conduta fisiológica do terceiro período como o conjunto que inclui não usar uterotônico de rotina, clampear o cordão após a parada da pulsação e aguardar a expulsão da placenta por esforço materno — e determina que a mulher de baixo risco para hemorragia que solicitar essa conduta seja apoiada em sua escolha, com mudança para conduta ativa se houver hemorragia ou se a placenta não sair em uma hora.

Brasil. MS/CONITEC. Diretrizes Nacionais de Assistência ao Parto Normal, 2017 (rec. 145, 153 e 159).

Como decidir

A escolha entre as duas condutas é da mulher, informada com números — e a diretriz nacional traz os riscos de hemorragia e de transfusão de cada uma para que essa conversa aconteça no pré-natal, não no meio do expulsivo. O que decide na hora é o risco individual de hemorragia: fatores de risco presentes, sangramento em curso ou recém-nascido que precisa de reanimação empurram para a conduta ativa e para o clampeamento no prazo mais curto. Sem esses fatores, e com a mulher pedindo, esperar é uma escolha legítima que precisa estar registrada — inclusive a hora do clampeamento.

Amniotomia diante de trabalho de parto lento

Amniotomia como primeiro passo diante de falha de progresso (documento brasileiro, 2017)

A diretriz nacional não recomenda amniotomia precoce de rotina em quem progride bem, mas orienta considerá-la diante de suspeita de falha de progresso no primeiro período, explicando à mulher que o procedimento encurta o trabalho de parto em cerca de uma hora e pode aumentar a intensidade e a dor das contrações — com reexame em duas horas para confirmar ou afastar a falha antes de escalar para ocitocina.

Brasil. MS/CONITEC. Diretrizes Nacionais de Assistência ao Parto Normal, 2017 (rec. 100, 104, 105 e 107).

Amniotomia não recomendada para prevenir demora (documento internacional, 2018)

A OMS não recomenda o uso de amniotomia isolada nem o de amniotomia precoce associada a ocitocina precoce com a finalidade de prevenir demora no trabalho de parto. Somada à fase ativa a partir de 5 cm e à recusa do limiar de 1 cm por hora como critério de progresso, a posição da OMS empurra o momento da intervenção para mais tarde do que a prática corrente.

World Health Organization. WHO recommendations: intrapartum care for a positive childbirth experience, 2018 (rec. 28 e 29).

Como decidir

A distância entre os dois documentos é menor do que a distância entre qualquer um deles e o que se faz no Brasil, onde a amniotomia foi realizada em quatro de cada dez mulheres de risco habitual — a maioria delas progredindo bem, situação em que os dois lados dizem para não fazer. Diante da mulher lenta, o critério é a irreversibilidade: romper a bolsa não tem volta, aumenta a dor, inicia a contagem de tempo de bolsa rota e compromete a opção de esperar. Antes dela vêm as medidas gratuitas e reversíveis — posição, deambulação, bexiga, hidratação, analgesia, apoio. E a decisão de romper, quando vier, é do obstetra, com a mulher informada do que muda.

13

O raciocínio, em voz alta

Fernanda, 24 anos, primeira gestação, 39 semanas e 5 dias, pré-natal sem intercorrências e cultura para estreptococo do grupo B negativa. Admitida às 19h com 4 cm, 70% apagada, cefálica no plano −2, bolsa íntegra, três contrações em dez minutos de quarenta segundos, batimentos de 140 e pressão de 118 por 74. Você é o interno de plantão e a obstetra pediu que você acompanhasse.

  1. o que penso agora

    Contrações regulares e dolorosas com dilatação a partir de 4 cm: trabalho de parto estabelecido, primigesta, risco habitual. Isso significa três decisões imediatas — admitir, abrir o partograma marcando dilatação e altura na coluna das 19h, e organizar a vigilância. Nenhuma delas envolve prescrever coisa alguma além de liberdade de posição, dieta leve e o acompanhante dentro do quarto.

  2. o que faço

    Traço a linha de alerta a partir do ponto das 19h e a linha de ação quatro horas à direita. Explico a Fernanda o que vou fazer e de quanto em quanto tempo, e combino que ela me chame a qualquer momento. Ausculto os batimentos no intervalo da tabela, antes, durante e depois da contração; palpo a dinâmica e registro; checo pulso de hora em hora e pressão e temperatura de quatro em quatro. Ofereço o chuveiro quente e a bola.

  3. 21h — reavaliação sem toque

    Dinâmica de quatro em dez minutos, com cinquenta segundos, contrações fortes à palpação. Batimentos de 138, sem desacelerações. Ela está de pé, apoiada no acompanhante, e pede analgesia. Chamo o anestesista: o pedido dela é indicação suficiente e não preciso de dilatação mínima para isso. Instalada a peridural, ausculto de cinco em cinco minutos pela meia hora seguinte e mantenho o decúbito lateral esquerdo — está tudo estável.

  4. 23h — o toque de rotina

    Colo com 7 cm, totalmente apagado, plano −1, variedade occipitoesquerda anterior, bolsa íntegra: três centímetros em quatro horas, com descida de um plano. Agora repare no que a folha mostra. Como a linha de alerta sobe um centímetro por hora desde as 19h, ela prevê 8 cm neste horário — e a curva de Fernanda, com 7, cruzou a linha de alerta. É aqui que o partograma costuma ser mal lido. Cruzar a linha manda reavaliar, não intervir: as contrações estão adequadas, o feto tranquilizador, a descida aconteceu e a mulher está bem. Registro os dois pontos e escrevo a conclusão no prontuário — progressão adequada, conduta expectante mantida.

  5. 01h — a hora em que a tentação aparece

    Toque com 8 cm, plano 0, occipitoesquerda anterior, bolsa íntegra. Um centímetro em duas horas: se eu olhasse só a dilatação, pareceria parada. Mas a apresentação insinuou — desceu um plano — e as contrações continuam boas com o feto tranquilizador. Descida é progresso. A curva segue longe da linha de ação, que é o gatilho seguinte. Reviso os corrigíveis: bexiga (peço que urine), hidratação, posição (mudo para lateral com apoio de travesseiro). Não rompo bolsa e não peço ocitocina.

  6. 03h — dilatação completa

    Colo completamente dilatado, plano +1, sem sensação de puxo — ela está sob peridural. Isto é segundo período em fase passiva, e o cronômetro do expulsivo ainda não começou. Adio o puxo, mantenho a ausculta no ritmo do segundo período e registro no prontuário a hora da dilatação completa como um evento diferente da hora de início do esforço.

  7. 04h — começa o expulsivo ativo

    Ela refere pressão e vontade de fazer força; a cabeça começa a ser visível durante a contração. Anoto: início do segundo período ativo, 04h05. Ela escolhe ficar semi-sentada com a cabeceira elevada. Apoio o puxo espontâneo, ausculto a cada cinco minutos durante e após cada contração, aplico compressa morna. Ninguém sobe na cama e ninguém empurra o fundo do útero.

  8. o desfecho

    Às 05h20 nasce um recém-nascido vigoroso, que vai direto para o colo dela. Administro ocitocina 10 UI intramuscular logo após o desprendimento, antes de clampear; secciono o cordão aos dois minutos; aguardo o alongamento do cordão e o jorro de sangue e faço a tração controlada com a outra mão apoiando o útero. Placenta íntegra às 05h32. Períneo com laceração de segundo grau, suturada com analgesia local. Útero contraído, sangramento normal, Fernanda com o filho no peito. O partograma cabe em uma folha e conta a noite inteira.

  9. o que este caso ensina

    Em dez horas, a conduta ativa foi: chamar o anestesista uma vez, aplicar uma ampola de ocitocina no fim e suturar. Todo o resto foi acompanhar, registrar e proteger. Foi um trabalho de parto que passou perto da linha de alerta e teria virado 'distocia' se alguém tivesse olhado só a dilatação às 01h — e teria terminado em cesárea se, além disso, o partograma tivesse sido aberto às 17h, quando ela ainda estava em fase latente em casa.

  10. Variação do caso — resposta e reavaliação

    Variação do acompanhamento de Fernanda: a dilatação muda pouco entre dois exames, mas ela e o feto estão bem. Conferir intervalo, fase e dinâmica, oferecer suporte e programar reavaliação justificada. Um ponto isolado no gráfico não estabelece distocia.

  11. Variação do caso — quando mudar o plano

    Se aparece febre, sangramento anormal ou alteração persistente da frequência fetal, abandonar a interpretação de evolução fisiológica até esclarecer o problema. Chamar a equipe e investigar causas e necessidade de intervenção. A decisão de aguardar depende de condições que precisam continuar presentes.

14

Faça você

Márcia, 31 anos, terceira gestação e dois partos vaginais anteriores, 40 semanas. Chegou às 22h40 com contrações fortes. Ao exame: 6 cm, totalmente apagada, cefálica no plano −1, bolsa íntegra, quatro contrações em dez minutos de cinquenta segundos, batimentos de 144, pressão 122 por 78, afebril. Você abre o partograma e inicia a vigilância. À 00h10 ela refere perda de líquido claro e, logo depois, vontade de fazer força; o toque mostra dilatação completa, plano +1, occipitodireita anterior. Ela escolhe ficar de quatro apoios. Você anota o início do segundo período ativo às 00h15 e ausculta a cada cinco minutos, sempre com batimentos entre 130 e 145 e recuperação imediata após as contrações. À 01h05 a apresentação continua em +1, sem progressão de descida nem de rotação; as contrações caíram para duas em dez minutos, de trinta segundos. Márcia está exausta, com a bexiga palpável, e diz que 'não sai'.

  1. o que já sei

    Multípara em segundo período ativo há cinquenta minutos, sem progresso de descida nem de rotação na última meia hora, com dinâmica que enfraqueceu e bexiga distendida. Feto tranquilizador em todas as auscultas. Bolsa já rota, com líquido claro.

  2. o que os prazos dizem

    Em multípara, a suspeita de prolongamento do segundo período se levanta quando não há progresso de rotação ou descida depois de trinta minutos de segundo período ativo, e a confirmação de falha se faz quando ele passa de uma hora. Márcia está dentro da janela em que a suspeita já está formada e o prazo de confirmação se aproxima.

  3. conduta

    — sua vez —

Ver como fecharíamos

Corrija primeiro o que é corrigível e gratuito, e faça isso agora, não daqui a vinte minutos: esvazie a bexiga (cateterismo de alívio se ela não conseguir urinar), ofereça hidratação e apoio, e ajude-a a mudar de posição — a bexiga distendida e o cansaço explicam boa parte da queda da dinâmica. Reavalie a dinâmica logo em seguida: a hipoatividade é a causa mais provável do travamento. Como já há suspeita formada de prolongamento em multípara e o prazo de confirmação está próximo, avise a obstetra agora e não depois de bater o relógio — quem decide sobre ocitocina, parto instrumental ou cesárea é ela, e a decisão exige alguém treinado em parto vaginal operatório disponível. A amniotomia não entra: a bolsa já rompeu. Mantenha a ausculta no ritmo do segundo período e registre a hora de cada avaliação. Se houver prolongamento confirmado, a reavaliação passa a ser a cada quinze a trinta minutos. E o que não se faz em nenhuma hipótese: pressão no fundo uterino, puxo dirigido em coro e episiotomia como tentativa de acelerar.

Gabarito da questão de abertura
Comentário

Ela progrediu dois centímetros em quatro horas e ainda desceu um plano, com contrações adequadas e feto tranquilizador. O critério de suspeita de falha de progresso no primeiro período é dilatação menor que dois centímetros em quatro horas, considerando também descida, rotação e padrão das contrações — nada disso está presente. Vale notar que, como a linha de alerta sobe um centímetro por hora, essa curva já a cruzou: cruzar a linha de alerta é gatilho de reavaliação da mulher inteira, e não de intervenção — e a reavaliação, aqui, encontra tudo normal. A régua não é um centímetro por hora: esse limiar é justamente o que a OMS considera impreciso para identificar risco. Amniotomia e ocitocina são intervenções para falha de progresso confirmada e por decisão do obstetra; cardiotocografia contínua não é recomendada em gestante saudável em trabalho de parto espontâneo, e ainda a prenderia à cama; e cesárea por 'falha' de um trabalho de parto que está progredindo é exatamente o erro que este capítulo existe para evitar.

15

Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
16

Plano de revisão

Em 7 dias

Reconstrua de memória a tabela de vigilância: quais parâmetros se acompanham no trabalho de parto, com que frequência cada um e o que é esperado. Depois responda sem consultar: quando se abre o partograma, o que significa cruzar a linha de alerta e o que significa chegar à linha de ação. Se você travar em algum item, o furo é de rotina de plantão, não de teoria. Aplicação comentada: Colo passou de 4 para 5 cm e mãe e feto estão bem. O número isolado autoriza chamar parada? Não. Considere fase, intervalo, dinâmica e evolução completa.

Em 30 dias

Pegue um caso real que você acompanhou (ou o caso de Márcia) e escreva a evolução completa como se fosse para outro plantonista: hora de início da fase ativa, hora de início do segundo período ativo, cada toque com os cinco campos, e a justificativa de cada decisão de não intervir. Em seguida, liste os três critérios de desvio que teriam mudado a sua conduta e diga em que minuto exato você teria chamado ajuda.

17

Agora atenda

Primigesta de 39 semanas, risco habitual, admitida em fase ativa com bolsa íntegra e feto tranquilizador. Ao longo do plantão, a dilatação avança devagar e a equipe começa a sugerir ocitocina. Conduza o acompanhamento: colha o que falta, examine no ritmo certo, registre no partograma, decida o que fazer diante da progressão lenta e diga em que momento você chamaria a plantonista.

Mecanismo e fases clínicas do trabalho de parto – Assistência ao trabalho de parto — Internato | OsceLabs