Ginecologia e ObstetríciaParto e assistência ao nascimento

Hemorragia pós-parto

A emergência em que o diagnóstico é fácil e a morte acontece mesmo assim: como quantificar o que se perde, o que a mão faz enquanto a boca pede ajuda, e por que a puérpera jovem só avisa quando já é tarde.

Fontes deste capítulo

Organização Pan-Americana da Saúde. Recomendações assistenciais para prevenção, diagnóstico e tratamento da hemorragia obstétrica. Brasília: OPAS; 2018. ISBN 978-85-7967-124-1

Brasil. Ministério da Saúde. Manual de Gestação de Alto Risco. Brasília: Ministério da Saúde; 2022

Brasil. Ministério da Saúde. Diretrizes Nacionais de Assistência ao Parto Normal, aprovadas pela Portaria SAS/MS nº 353, de 14 de fevereiro de 2017

Brasil. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Resolução da Diretoria Colegiada RDC nº 34, de 11 de junho de 2014, que dispõe sobre as Boas Práticas no Ciclo do Sangue

Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia. Hemorragia pós-parto. 3ª ed. São Paulo: Febrasgo; 2025 (Protocolo Febrasgo-Obstetrícia, nº 52 / Comissão Nacional Especializada em Urgências Obstétricas). Femina. 2025;53(4):278-89

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Responda antes de ler

Sobre a prevenção da hemorragia pós-parto na assistência de rotina ao nascimento, qual afirmação está correta?

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O paciente que você vai ver

São 4h12 e o parto foi bonito. Cleide tem 26 anos, é a segunda gestação, 39 semanas, e teve um trabalho de parto de sete horas que ninguém precisou apressar. O recém-nascido está no peito dela, a placenta saiu inteira às 4h07, você fez a ocitocina intramuscular logo depois do desprendimento e a residente já suturou uma laceração de segundo grau. O acompanhante está filmando. A técnica de enfermagem apagou a luz principal do quarto e ficou só a luminária do berço aceso.

Às 4h26 a técnica te chama do corredor, sem urgência na voz: "doutor, ela sujou de novo". Você entra. O lençol tem uma poça de sangue de uns cinquenta centímetros e há sangue escorrendo pela borda da cama, pingando no chão em fio contínuo. Cleide está conversando. Diz que está bem, só um pouco enjoada. A pressão que a técnica acabou de medir é 112 por 70. A frequência cardíaca é 104. O acompanhante pergunta se aquilo é normal.

Essa é a cena que este capítulo vai desmontar, porque quase tudo nela induz ao erro. A poça de cinquenta centímetros no lençol parece muito e parece pouco ao mesmo tempo — depende do que você compara. A pressão de 112 por 70 é normal em qualquer enfermaria do hospital e não significa nada aqui. A frequência de 104 é o tipo de número que se anota e se esquece. E Cleide conversando é o dado mais enganoso de todos: a puérpera jovem mantém a conversa, mantém a cor e mantém a pressão até perder um quarto do próprio volume de sangue, e então cai de uma vez, sem o aviso gradual que o interno aprendeu a esperar de um choque.

Ninguém deixa de ver o sangue. A hemorragia pós-parto não é uma doença que se esconde atrás de um diagnóstico difícil: ela está ali, encharcando o lençol, na frente de todo mundo no quarto. O que mata é o intervalo entre ver e agir — e o principal motor desse intervalo é a subestimação. A perda é medida a olho, o olho erra sistematicamente para menos, e a fisiologia da gestante conspira para que os sinais vitais confirmem, por mais uns minutos, a impressão errada.

E há a segunda armadilha, que é de ordem. Diante de sangue, a tentação é pensar em causas, listar diferenciais, procurar de onde vem. A ordem correta não é alfabética nem investigativa: é de frequência e de velocidade. Atonia uterina responde por cerca de sete em cada dez casos e é o que sangra mais rápido. Por isso a mão vai ao fundo do útero antes de a lanterna ir ao canal de parto. A busca de laceração acontece — mas depois, e com o útero já contraindo.

O que vem a seguir é a sequência de mãos: o que a sua mão faz enquanto a sua boca pede ajuda, o que você tem autonomia para fazer sozinho, o que só se faz com o obstetra na sala e o que nunca é decisão sua. E, no meio disso, a única pergunta que separa uma puérpera que vai para casa em dois dias de uma que vai para a terapia intensiva: quanto sangue, de verdade, já saiu.

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Quem adoece disso

No Brasil, a hemorragia é a segunda causa de morte materna, atrás apenas dos distúrbios hipertensivos da gravidez. Não é um dado de país distante: é a descrição do país onde você vai fazer plantão. E o número de fundo não melhorou o quanto deveria — a razão de mortalidade materna brasileira oscila em torno de 50 mortes maternas para cada 100 mil nascidos vivos, um patamar que o Ministério da Saúde classifica como elevado e que ficou muito distante do compromisso assumido para 2015, de no máximo 35 por 100 mil. O objetivo de desenvolvimento sustentável assumido para 2030 é menos de 70 por 100 mil no mundo; o Brasil já deveria estar bem abaixo disso e não está.

A consequência clínica desses números é direta. Se a hemorragia fosse rara, o interno poderia tratá-la como um capítulo teórico. Ela não é: a hemorragia pós-parto primária complica de 5% a 10% dos partos. Em um plantão de doze horas numa maternidade de porte médio, com vinte partos, a estatística prevê um a dois sangramentos aumentados. Você vai ver. A pergunta não é se, é quando — e se, quando acontecer, o quarto vai ter alguém que sabe o que fazer nos primeiros cinco minutos.

Dentro da hemorragia pós-parto, a distribuição das causas é o dado que mais organiza a conduta. Atonia uterina responde por cerca de 70% dos casos; trauma do canal de parto, incluindo lacerações, hematomas, inversão e rotura uterina, por cerca de 19%; retenção de tecido placentário, coágulos e acretismo, por cerca de 10%; e as coagulopatias, congênitas ou adquiridas, por cerca de 1%. Essa hierarquia não é curiosidade: é a ordem em que você procura, e é o motivo de a primeira mão ir ao útero.

Há um número que muda o comportamento mais do que todos os outros: a maioria dos casos de hemorragia pós-parto ocorre em mulheres sem fator de risco identificável. A estratificação de risco existe e vale a pena — ela decide onde a puérpera fica nas primeiras duas horas, se o acesso venoso calibroso é obrigatório, se há tipagem, prova cruzada e sangue reservado. Mas ela não seleciona quem vai sangrar. Serve para preparar melhor um grupo, nunca para relaxar no outro. Toda instituição que assiste parto, e todo profissional que assiste parto, precisa ser capaz de diagnosticar e tratar uma hemorragia — inclusive na mulher de risco habitual que teve um parto bonito às 4h07.

Por fim, o padrão de como se morre. Quando se analisam casos de near miss materno e de óbito por hemorragia, o que aparece com regularidade não é falta de conhecimento sobre a doença: são atrasos. O modelo clássico das três demoras descreve a demora da mulher e da família em buscar atendimento, a demora em chegar ao serviço adequado e a demora na prestação do cuidado dentro da instituição de referência. A terceira demora é a sua — e é a única sobre a qual um interno tem poder direto. Cada minuto entre o sangue no lençol e a mão no fundo uterino é uma parcela dela.

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Por que acontece o que acontece

O sítio placentário é uma ferida. Quando a placenta se descola, ela deixa uma superfície de vasos abertos do calibre de artérias espiraladas, sem tônus próprio e sem esfíncter, dentro de um órgão que acabou de ser esvaziado. Nenhum sistema de coagulação do mundo fecha uma superfície desse tamanho a tempo — e é por isso que a hemostasia do pós-parto não é bioquímica, é mecânica. Quem fecha os vasos é o músculo em volta deles.

As fibras do miométrio se dispõem entrelaçadas, e os vasos que nutrem o leito placentário atravessam essa malha. Quando o útero se contrai, as fibras encurtam e estrangulam os vasos que passam entre elas: são as chamadas ligaduras vivas de Pinard. A trombose dos vasos vem depois, e é o que dá permanência à hemostasia — mas nos primeiros minutos o que segura a paciente viva é a contração. Daí decorre tudo o que se faz na atonia: massagear é apertar as ligaduras com a mão; dar uterotônico é fazê-las apertarem sozinhas; encher um balão dentro do útero é substituir a compressão que o músculo não está fazendo.

Isso explica por que o útero atônico é, além de amolecido, mais alto do que o esperado: ele está distendido por sangue e coágulos represados por dentro. Fundo uterino que sobe no pós-parto é sinal de sangramento acontecendo, não de involução lenta.

Duas coisas impedem mecanicamente essa contração, e as duas são reversíveis de graça. A primeira é a bexiga distendida, que empurra o útero para cima e para o lado e atrapalha o encurtamento das fibras — esvaziar a bexiga antes de comprimir é parte da técnica, não uma gentileza. A segunda é conteúdo dentro da cavidade: restos placentários, membranas ou coágulos volumosos mantêm o útero distendido e ele não consegue se fechar em torno do nada, porque não há nada. Enquanto houver conteúdo, o uterotônico não resolve.

Há ainda um mecanismo farmacológico que o interno precisa entender para não perder tempo: a dessensibilização dos receptores de ocitocina. Trabalho de parto prolongado, e principalmente indução ou condução com doses altas de ocitocina, expõem o miométrio à droga por horas e reduzem a resposta contrátil dele quando ela é mais necessária. Traduzindo para a beira do leito: a mulher que ficou doze horas em bomba de ocitocina é justamente a que tende a não responder à ocitocina do tratamento. Nela, o erro clássico é repetir ocitócito e esperar; a conduta correta é não atrasar o uterotônico de segunda linha.

Por que a puérpera esconde o choque

A gestação é um estado de hipervolemia fisiológica: o volume plasmático se expande ao longo dos três trimestres e a mulher chega ao termo com um reservatório que a mulher não grávida não tem. A dimensão dessa expansão está embutida na própria tabela de grau de choque adotada no Brasil, que trabalha com uma mulher de 50 a 70 kg e faz corresponder perdas de 500 a 1.000 mL a 10% a 15% da volemia e perdas acima de 2.000 mL a mais de 35%. Fazendo a conta ao contrário, o volume sanguíneo implícito é da ordem de 5 a 6,5 litros — perto de 100 mL por quilo, contra os cerca de 70 mL por quilo de um adulto não gestante.

Esse reservatório extra tem uma finalidade evolutiva óbvia: ele existe para ser gasto no parto. E tem uma consequência clínica que é o eixo deste capítulo — a puérpera hígida costuma manifestar os primeiros sinais de choque hipovolêmico apenas depois de perder mais de 20% do volume. Vinte por cento de cerca de 5,7 litros é algo em torno de 1,1 litro. Ou seja: a mulher que ainda conversa, ainda está corada e ainda tem pressão normal já pode ter perdido mais de um litro de sangue. A pressão arterial não é um sinal precoce de hemorragia obstétrica; é um sinal tardio, e quando ela cai a reserva já acabou.

Isso muda a lógica da monitoração. Se a pressão só se altera no fim, o parâmetro útil precisa aparecer antes — e o que se altera primeiro é a frequência cardíaca, seguida da relação entre ela e a pressão. Por isso o índice de choque, que é simplesmente a frequência cardíaca dividida pela pressão arterial sistólica, entrou nos protocolos brasileiros: ele captura a taquicardia compensatória antes de a sistólica ceder. Uma puérpera com frequência de 118 e sistólica de 104 tem índice de 1,13 e pressão "normal" no papel — e já está na faixa em que a transfusão passa a ser possibilidade concreta.

Nem todas as mulheres têm o mesmo colchão. Anêmicas, mulheres de baixa estatura e portadoras de pré-eclâmpsia toleram muito menos as perdas volêmicas e evoluem para um choque mais refratário e mais rápido. A pré-eclâmpsia soma dois problemas: a mulher está com volume plasmático contraído em vez de expandido, e pode já chegar ao parto com plaquetopenia ou com distúrbio de coagulação instalado. Quando essas pacientes sangram, o roteiro do capítulo continua valendo, mas a margem de tempo é menor — e o manejo da própria pré-eclâmpsia é assunto do capítulo dela.

Modelo da compressão dos vasos do leito placentário pela contração miometrial
Modelo da compressão dos vasos do leito placentário pela contração miometrial. A atonia compromete esse mecanismo de hemostasia.

Trauma, tecido e trombina: por que cada um sangra de um jeito

O trauma sangra com o útero duro, e é isso que o denuncia. Laceração de colo, de vagina ou de períneo, prolongamento de episiotomia, rotura uterina e hematomas do canal são lesões vasculares que a contração do miométrio não alcança. Se o fundo está lenhoso e o sangue continua saindo, a conta não fecha por atonia — e a conduta é iluminar, expor e olhar. O sangue do trauma costuma ser vivo e contínuo, em vez do jorro intermitente com coágulos que acompanha a atonia.

A inversão uterina é o trauma que se disfarça de outra coisa. Ela acontece quando o fundo do útero é puxado para dentro da própria cavidade, quase sempre por tração do cordão antes dos sinais de descolamento ou sem uterotônico administrado, e produz um quadro desproporcional: dor intensa, choque que parece maior do que o sangramento visível, fundo uterino que não se palpa no abdome e uma massa que aparece na vagina. É a razão pela qual a tração controlada do cordão só se faz depois da ocitocina e dos sinais de separação, com a outra mão apoiando o útero.

O tecido retido sangra porque impede o fechamento. Cotilédone retido, lobo acessório, placenta sucenturiada, membranas ou um acretismo não diagnosticado mantêm a cavidade ocupada e o útero incapaz de se contrair sobre si mesmo. O sinal clássico é o útero que amolece de novo assim que a massagem para, e que volta a firmar enquanto a mão está lá — o miométrio consegue apertar sob compressão externa, mas não sustenta. Placenta que saiu incompleta ao exame é indicação de revisão da cavidade, não de observação.

A trombina é a causa mais rara — cerca de 1% — e a mais perigosa, porque transforma qualquer uma das outras três em algo que não para. A hemorragia obstétrica tem uma particularidade em relação à do trauma: evolui para hipofibrinogenemia mais rapidamente. E o círculo se fecha na tríade letal do choque hipovolêmico — coagulopatia, hipotermia e acidose —, em que cada elemento piora os outros dois: o sangue frio não coagula, a hipoperfusão acidifica, a acidose inibe as enzimas da coagulação. É por isso que aquecer o soro e cobrir a paciente não é conforto: é tratamento da coagulopatia, e vale desde o primeiro minuto.

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Como se apresenta de verdade

A hemorragia pós-parto exige reconhecer perda e deterioração antes da hipotensão tardia. Você deve chamar ajuda, iniciar medidas simultâneas e procurar o mecanismo do sangramento, acompanhando resposta. O controle aparente só é confiável quando sangramento, perfusão e necessidade de suporte melhoram de forma sustentada.

Chama-se hemorragia pós-parto maciça o sangramento superior a 2.000 mL nas primeiras 24 horas por qualquer via, ou aquele que exige transfusão mínima de quatro unidades de concentrado de hemácias, ou que resulta em queda de hemoglobina igual ou maior que 4 g/dL, ou que evolui com distúrbio de coagulação. Essa não é uma classificação acadêmica: é o gatilho para abrir o protocolo de transfusão maciça da instituição, e cada um dos quatro critérios pode aparecer sozinho.

Percurso clínico: Reconhecer, tratar e medir resposta

Quantifique perda e acompanhe perfusão sem esperar hipotensão. Procure os mecanismos de sangramento e inicie medidas pertinentes em paralelo, com equipe e hemoterapia mobilizadas. A resposta orienta escalonamento; relógios didáticos não estabelecem um tempo mínimo de espera. Registre intervenções para evitar repetição e atraso.

A forma típica: sangue à vista e útero mole

É o quadro do quarto de Cleide. Minutos a horas após a dequitação, o sangramento vaginal aumenta ou volta a aumentar depois de ter diminuído, com coágulos, em jorros que acompanham a manipulação do abdome. À palpação, o fundo uterino está amolecido, mal delimitado e frequentemente acima da cicatriz umbilical. Quando você massageia, o útero endurece e sai um coágulo grande; quando você para, ele amolece de novo. Isso é atonia até prova em contrário, e responde por cerca de 70% dos casos.

Os sintomas maternos são inespecíficos e chegam antes dos sinais vitais: náusea, tontura ao sentar, sensação de desmaio, sede, agitação, sudorese fria, bocejo. Puérpera que "não está se sentindo bem" no pós-parto imediato merece exame, não um antiemético. A palidez de mucosas é útil, mas tardia, e piora a comparação em pele escura — a conjuntiva, a mucosa oral e o leito ungueal são os pontos que menos enganam.

Há um detalhe de cronologia que o interno subestima: o pico do risco não é no momento do parto, é nas duas horas seguintes. A maior parte das hemorragias graves acontece nesse intervalo, e é por isso que a vigilância recomendada é de verificação do tônus uterino a cada 15 minutos nas primeiras 2 horas, em todas as puérperas, comece imediatamente após a saída da placenta e independentemente de onde a mulher esteja. Quatro checagens por hora, dois braços de relógio: é a rotina mais barata e mais desprezada da maternidade.

As formas que não sangram para fora

O sangue pode ficar dentro. Em decúbito dorsal, o útero atônico acumula sangue e coágulos na cavidade e na vagina, e o lençol pode estar quase limpo enquanto a paciente perde um litro por dentro. A pista é a discordância: fundo uterino subindo e amolecendo, taquicardia progressiva, mulher que não melhora — com pouco sangue visível. A manobra que resolve a dúvida é palpar o fundo e comprimi-lo: sai um jorro de coágulos represados.

Depois de cesariana, o compartimento é outro. Sangramento intra-abdominal ou retroperitoneal, hematoma de ligamento largo e lesão de vasos uterinos não aparecem na vagina, e a puérpera se apresenta com dor abdominal desproporcional, distensão, taquicardia, queda progressiva de hemoglobina e sinais de irritação peritoneal. A regra prática é dura e vale a pena decorar: instabilidade hemodinâmica que persiste depois de o sítio aparente ter sido controlado significa foco de sangramento ainda ativo — oculto ou não — ou necessidade de mais hemocomponente. Nenhuma das duas coisas se resolve esperando.

Os hematomas do canal de parto são a apresentação que mais engana quem procura sangue. Hematoma vulvar, vaginal ou paravaginal produz dor perineal ou retal intensa e progressiva, sensação de peso ou de "vontade de evacuar", abaulamento azulado ou massa palpável ao toque, retenção urinária — e sangramento externo mínimo ou ausente. Dor perineal que aumenta em vez de diminuir na primeira hora após a sutura não é resposta ao trauma: é hematoma até que alguém olhe com boa iluminação e toque.

A rotura uterina e a inversão são os dois quadros em que a paciente parece mais grave do que o sangue explica. Na rotura, há dor abdominal contínua, choque desproporcional, palpação de partes fetais no abdome quando ocorre intraparto e, no pós-parto, sangramento persistente com útero "que não fecha" — em mulher com cesariana anterior, revisar o segmento uterino é rotina depois de parto vaginal. Na inversão, a tríade é choque, dor intensa e fundo uterino que desapareceu do abdome, com massa visível ou palpável na vagina.

A hemorragia que volta depois: a HPP secundária

Hemorragia pós-parto secundária é a que ocorre depois das primeiras 24 horas e até seis a doze semanas do parto, com pico de incidência nas duas primeiras semanas. É mais rara, e você a encontra no pronto-socorro, não na sala de parto: a puérpera volta com sangramento vermelho vivo que aumentou em vez de diminuir, às vezes com coágulos, às vezes com febre e dor pélvica.

As causas mudam de peso. Retenção de tecido placentário, infecção puerperal, distúrbios hereditários de coagulação que se manifestam tarde e doença trofoblástica gestacional entram na lista, e o sangramento uterino anormal no puerpério tardio deve remeter à possibilidade de doença trofoblástica. O exame começa igual — tônus, altura uterina, canal de parto, sinais vitais, índice de choque — e ganha dois acréscimos: temperatura com pesquisa de foco uterino, e ultrassonografia pélvica em busca de conteúdo intracavitário.

O erro característico aqui é tratar como "lóquios abundantes" o que é sangramento franco, mandar para casa com orientação e nada mais. A régua é a mesma da HPP primária: se o volume causa instabilidade, é hemorragia, e o roteiro de ajuda, acesso, exames e uterotônico vale integralmente, mesmo dez dias depois do parto.

O que muda em quem não é a puérpera típica

Na hipertensa e na pré-eclâmptica. É a paciente em que mais coisas mudam ao mesmo tempo. Ela tolera menos a perda, pode chegar com plaquetopenia ou coagulopatia, e o sulfato de magnésio em curso relaxa o miométrio e favorece a atonia. E o uterotônico de segunda linha que você tem à mão — a metilergometrina — é contraindicado nela. Reconhecer isso antes de precisar é o que evita a pausa no meio da emergência. O manejo da pré-eclâmpsia em si é assunto do capítulo próprio; o que este capítulo pede é que você olhe a pressão do pré-natal antes de escolher a ampola.

Na anêmica. Ela descompensa mais cedo e chega mais rápido ao limiar transfusional, porque parte de uma reserva menor. É a paciente em que o gatilho de 300 mL com alteração de sinais clínicos vale mais que o de 500 mL.

Na obesa. Três atrasos somados: o fundo uterino é difícil de palpar através do panículo, a estimativa visual da perda piora e o acesso venoso demora mais. Antecipe o acesso e apoie-se no índice de choque, que não depende da palpação.

Na que teve cesariana ou cirurgia uterina prévia. Cesariana anterior com placenta anterior é a combinação clássica de risco de acretismo, e placenta prévia ou de inserção baixa classifica como alto risco. Se essa mulher teve parto vaginal, a revisão do segmento uterino faz parte da checagem de trauma. E se, durante uma extração manual de placenta, não houver plano de clivagem entre útero e massa placentária, o procedimento se interrompe: insistir em retirar a placenta — mesmo parte dela — é o gesto que transforma um acretismo em hemorragia catastrófica.

Na grande multípara e na de útero superdistendido. Gemelaridade, polidrâmnio, macrossomia e muitos partos prévios distendem o miométrio e o deixam pior contrátil. No pós-parto, mantenha a ocitocina de manutenção por pelo menos quatro horas em vez de suspender ao sair da sala.

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Como fechar o diagnóstico

Diagnosticar hemorragia pós-parto é fácil e é onde quase todo mundo erra — porque a pergunta não é "ela está sangrando?", e sim "quanto já saiu e de onde". Nenhuma das duas respostas vem de exame de sangue. Vêm de uma balança, de uma bolsa graduada, de uma mão no fundo uterino e de um relógio. Os exames laboratoriais entram para guiar a reposição, nunca para autorizar o início do tratamento.

A ordem dos gestos é ditada por frequência e por velocidade, não por elegância diagnóstica. Primeiro a mão vai ao fundo uterino, porque atonia é 70% dos casos e é o que sangra mais rápido; e, enquanto ela está lá comprimindo, a boca chama ajuda e a equipe instala dois acessos calibrosos. Só com o útero contraindo é que se procura laceração, se revisa a cavidade e se pensa em coagulopatia. Quem inverte essa ordem vai encontrar a laceração — e vai encontrá-la em uma paciente que perdeu mais um litro no caminho.

Quantificar a perda: o exame que quase ninguém faz

A estimativa visual é subjetiva e erra sistematicamente para menos. Ainda assim é o que se usa em quase todo lugar, então vale conhecer as equivalências que os protocolos brasileiros publicam para calibrar o olho: uma poça de 50 cm de diâmetro corresponde a cerca de 500 mL; de 75 cm, a cerca de 1.000 mL; de 100 cm, a cerca de 1.500 mL. Cama com poça de sangue sobre o lençol, provavelmente menos de 1.000 mL. Sangue fluindo da cama para o chão, provavelmente mais de 1.000 mL. Uma compressa 50% embebida vale cerca de 25 mL; 75%, cerca de 50 mL; totalmente embebida, cerca de 75 mL; e uma compressa pingando, cerca de 100 mL.

Volte à cena do quarto de Cleide com essa régua na cabeça. Poça de cinquenta centímetros no lençol, mais sangue escorrendo pela borda da cama e pingando no chão: pelos dois parâmetros, a perda já ultrapassou o litro. E era o que a técnica chamou de "sujou de novo".

A pesagem de compressas é a alternativa barata e objetiva, e é especialmente útil em cesariana e em histerectomia periparto. A base física é simples: a densidade do sangue fica entre 1,04 e 1,06 g/cm³, praticamente a da água, então 1 mL de sangue equivale a cerca de 1 grama. A fórmula é a subtração: perda estimada em mililitros igual ao peso das compressas sujas em gramas menos o peso estimado das mesmas compressas secas em gramas. Um exemplo com números: se as compressas usadas pesam 1.240 g e o mesmo número de compressas secas pesa 360 g, a perda estimada é de 880 mL. Para que isso funcione às 4h da manhã, o serviço precisa ter uma balança na sala e o peso seco do pacote anotado antes — organização, não tecnologia.

Os dispositivos coletores — bolsas, sacos ou fraldas graduadas posicionados sob a mulher logo após o parto vaginal, abaixo do nível dela e sem compressão externa — dão uma estimativa melhor que a visual e são o método que a Organização Mundial da Saúde adotou como padrão em 2025, com a bolsa coletora graduada recomendada no parto vaginal. Colocá-la logo depois do nascimento, e não depois da placenta, é o detalhe que evita misturar líquido amniótico ao volume medido.

E o gatilho para agir. A régua brasileira mais recente dispara a ação em três situações: perda maior que 500 mL; perda maior que 300 mL acompanhada de alteração de sinais clínicos; ou avaliação subjetiva com sinais clínicos alterados, mesmo sem sangramento visível. Repare que o terceiro gatilho não exige ver sangue nenhum — e é exatamente o que cobre o hematoma, o sangramento intracavitário e o intra-abdominal.

Os quatro Ts na ordem em que a mão os procura

Tônus, primeiro, sempre. Uma mão espalmada no fundo uterino, através do abdome, responde a pergunta que resolve 70% dos casos: o útero está lenhoso ou amolecido? Se está amolecido, o diagnóstico está feito e o tratamento começa naquele segundo, com a própria mão comprimindo. Se está contraído e o sangue continua saindo, a atonia foi descartada em cinco segundos e você ganhou o direito de procurar em outro lugar.

Trajeto, segundo. Exige o que raramente está pronto: boa iluminação, valvas, aspiração, analgesia e alguém para afastar. Revisa-se sistematicamente colo uterino, paredes vaginais, fúrcula, períneo e a extensão de uma eventual episiotomia. Procura-se também o que não sangra para fora: hematoma paravaginal, hematoma de ligamento largo, e — em mulher com cesariana anterior que pariu por via vaginal — a integridade do segmento uterino. A revisão do canal não é opcional na hemorragia: mesmo com atonia confirmada, mais de um T pode estar operando ao mesmo tempo.

Tecido, terceiro. Duas perguntas: a placenta que saiu estava íntegra, com todos os cotilédones e as membranas completas? E a cavidade está vazia? Placenta incompleta ao exame, ou útero que amolece de novo assim que a compressão para, indicam revisão da cavidade. Se a placenta ainda não saiu e passaram 30 minutos sem sangramento excessivo, o passo é a extração manual — com analgesia adequada, jamais sem — e com a trava do plano de clivagem: sem plano, não se insiste.

Trombina, por último e por história. Não se espera o coagulograma para pensar nela. Pergunta-se, em voz alta, para quem estiver no quarto: histórico de sangramento anormal, doença de von Willebrand, hemofilia, plaquetopenia, hepatopatia, uso de heparina, de anticoagulante oral ou de aspirina, pré-eclâmpsia grave, síndrome HELLP, descolamento prematuro de placenta, óbito fetal retido, corioamnionite. Coagulopatia também se suspeita pelo comportamento do sangue: sangramento em babação por todos os pontos de punção, coágulos que não se formam, e sangramento que reaparece em sítio já tratado.

Índice de choque e sinais vitais: o que se mede e o que significa

O índice de choque é a frequência cardíaca dividida pela pressão arterial sistólica. É uma conta de cabeça, não custa nada e antecipa a instabilidade em relação a qualquer um dos dois números isolados. Vale a pena fazer as contas com casos concretos: frequência 88 e sistólica 120 dá 0,73, que é normal; 104 sobre 110 dá 0,95; 118 sobre 104 dá 1,13; 126 sobre 88 dá 1,43; 130 sobre 70 dá 1,86. Repare que no terceiro exemplo a pressão ainda seria descrita como normal em qualquer evolução.

A régua adotada aqui é a da sociedade nacional: índice igual ou maior que 1,0 manda tratar de forma agressiva, considerar o traje antichoque e acionar a hemoterapia. O corte de 0,9 do documento da OPAS, os degraus superiores de 1,4 e 1,7 e a regra de ler a tabela pelo pior parâmetro isolado estão no bloco de critérios e no de divergências.

Uma advertência sobre as porcentagens dessa tabela: elas são faixas de referência, não uma conta a ser feita à beira do leito. As correspondências entre volume perdido e porcentagem de volemia publicadas nos protocolos brasileiros implicam volumes sanguíneos que variam de 5.000 a 6.700 mL de uma linha para outra — ou seja, foram arredondadas para caber em faixas úteis. Use a tabela para classificar o grau de choque pelos sinais, não para calcular quanto sangue a paciente perdeu.

O que se colhe de sangue, e o que não esperar dos resultados

Colhe-se de uma vez, na mesma punção do acesso, e sem que isso atrase nada: hemograma, coagulograma, fibrinogênio, ionograma e prova cruzada. Nos casos graves, acrescentam-se lactato e gasometria. Cada tubo responde uma pergunta diferente: o hemograma dá a linha de base e a contagem de plaquetas; o coagulograma e o fibrinogênio dizem se há coagulopatia e se o crioprecipitado vai ser necessário; o ionograma flagra a hipercalemia do sangue transfundido e a hipocalcemia produzida pelo citrato do plasma; o lactato e a gasometria medem a dívida de perfusão e a acidose.

O que não esperar: que a hemoglobina reflita a perda aguda. Ela não reflete. No sangramento agudo, a paciente perde plasma e hemácias na mesma proporção, e a concentração só cai depois da hemodiluição — que leva horas ou depende do soro que você infundiu. Hemoglobina normal em puérpera sangrando não afasta nada, e hemoglobina "ainda 10" nunca foi motivo para não transfundir uma paciente instável. Os sinais clínicos são os critérios mais importantes para definir necessidade de transfusão imediata.

As provas viscoelásticas à beira do leito, tromboelastografia e tromboelastometria, avaliam a capacidade hemostática em tempo real e parecem reduzir o consumo de hemocomponentes, sem redução comprovada de mortalidade. O que limita o uso é custo, necessidade de treinamento e falta de padronização de valores para gestantes e puérperas. Se o seu serviço tem, ótimo; se não tem, nada do que este capítulo manda fazer depende disso.

A ultrassonografia tem papel estreito e um lugar claro: ela é útil na suspeita de conteúdo intracavitário — na hemorragia secundária, na dúvida sobre restos, na avaliação de hematoma — e pode guiar a inserção do balão de tamponamento. Ela não é o exame que diagnostica hemorragia pós-parto, e mandar uma paciente instável para a sala de ultrassom é uma das formas mais eficientes de perder a hora de ouro.

O que não pedir, e o que existe no SUS

Não se espera resultado de exame para tratar. Nenhum passo do tratamento inicial — chamar ajuda, comprimir, acessos, cristaloide aquecido, ocitocina, ácido tranexâmico, esvaziar a bexiga — depende de um número que venha do laboratório. Não se espera prova cruzada em paciente instável: a norma sanitária brasileira prevê a liberação de hemocomponentes em transfusão caracterizada como emergência sem que os testes pré-transfusionais estejam concluídos, segundo protocolo do serviço de hemoterapia, com termo de responsabilidade assinado pelo médico e a bolsa rotulada como liberada sem testes. Saber que isso existe é o que evita a frase "estamos esperando a tipagem" durante quarenta minutos.

Não se pede tomografia nem ressonância na paciente instável, e não se transporta paciente instável para setor de imagem. Não se repete hemoglobina de meia em meia hora esperando que ela decida por você. E não se substitui a palpação do fundo uterino por monitor nenhum: o dado que muda a conduta é o tônus, e ele só existe na mão de quem está no quarto.

Do lado do que existe: quase tudo. Ocitocina, metilergometrina, misoprostol e ácido tranexâmico estão na rede e são baratos. Balança, valvas, boa iluminação, sonda vesical, manta térmica e soro aquecido são organização, não orçamento. O documento brasileiro de referência lista um kit de emergência montado e lacrado para ficar na sala — fluxograma e checklist plastificados, cristaloide, equipos, jelcos 14, 16 e 18, as quatro drogas, seringas, agulhas, máscara de oxigênio, sonda vesical de demora com coletor, termômetro, manta térmica, tubos de coleta e pedidos de exame pré-preenchidos —, e ele foi calibrado para a primeira rodada, não para a guerra inteira (a conta está nas notas do bloco de critérios). O que costuma faltar de verdade é o que não está no kit: balão de tamponamento industrializado, traje antichoque e sangue reservado em unidade de menor porte. A ausência dos três não muda o roteiro inicial — muda o relógio da transferência, que passa a ser acionada no momento do diagnóstico, e não quando a droga falha.

07

A hora de ouro, os quatro Ts e as tabelas que decidem

A hora de ouro na hemorragia pós-parto é a recomendação de controlar o sítio de sangramento dentro da primeira hora a partir do diagnóstico — ou, no mínimo, estar em fase avançada do tratamento ao fim desse período. O termo importa menos que o princípio: intervenção precoce, agressiva e sem atraso. Existe relação direta entre o desfecho materno e o tempo até o controle do foco, e a demora leva à tríade letal de coagulopatia, hipotermia e acidose. O que segue é a sequência dessa hora, e as tabelas que se consultam dentro dela. Uma advertência de escopo: hemorragia pós-parto é uma emergência obstétrica, não um desespero obstétrico — correr sem sequência produz tanto dano quanto esperar.

  1. 1Verbalize o diagnóstico em voz alta para a equipe e para a paciente: "hemorragia pós-parto, estou abrindo o protocolo". Nomear é o que faz três pessoas pararem de fazer outra coisa.
  2. 2Chame o obstetra de plantão imediatamente, e com ele o anestesista e a enfermagem. Não se sai do lado da paciente até a resolução do quadro; quem chama é quem está com a mão livre.
  3. 3Ponha a mão no fundo uterino. Amolecido, comece a compressão bimanual naquele instante — ela é a primeira manobra da atonia e vale enquanto os uterotônicos não fazem efeito.
  4. 4Dois acessos venosos calibrosos, jelco 16 ou 14, e cristaloide aquecido correndo. Colha na mesma punção hemograma, coagulograma, fibrinogênio, ionograma e prova cruzada; nos casos graves, lactato e gasometria.
  5. 5Ocitocina e ácido tranexâmico juntos, sem esperar a falha de nada. O ácido tranexâmico é adjuvante de qualquer um dos quatro Ts e perde efeito a cada minuto de atraso.
  6. 6Esvazie a bexiga e passe sonda vesical de demora — melhora a contração, aumenta a eficácia da compressão e passa a medir a diurese, que é o seu monitor de perfusão.
  7. 7Estime a gravidade com o que está na sua frente: sinais vitais, índice de choque e volume perdido pela poça, pelas compressas ou pela bolsa coletora. Oxigênio sob máscara facial a 8 a 10 L/min, membros inferiores elevados, manta térmica e temperatura a cada 15 minutos.
  8. 8Determine a causa pelos quatro Ts, nesta ordem: tônus, trajeto, tecido, trombina. Mais de um pode estar operando ao mesmo tempo, então nenhum achado encerra a busca.
  9. 9Sem resposta ao uterotônico de primeira linha, escale sem pausa: metilergometrina, depois misoprostol, sempre mantendo a compressão. Reavalie a resposta hemodinâmica a cada 250 a 500 mL de cristaloide infundido.
  10. 10Falhou o tratamento medicamentoso: balão de tamponamento intrauterino, traje antichoque se houver instabilidade, protocolo de transfusão acionado. A partir daqui a decisão é do obstetra e do centro cirúrgico.
  11. 11Hemorragia refratária ou deterioração: controle definitivo conforme a causa e mobilização imediata da equipe cirúrgica e hemoterapia. Não há espera obrigatória de 90 minutos.
  12. 12Controlado o sangramento, a paciente fica em leito de observação rigorosa por 24 horas. Enfermaria comum e quarto de vigilância de risco habitual estão proibidos para quem sangrou.

Choque compensado — 10% a 15% da volemia (500 a 1.000 mL)

Consciência normal, perfusão normal, pulso de 60 a 90, sistólica acima de 90 mmHg, índice de choque entre 0,7 e 1,0. Transfusão usualmente não é necessária. É aqui que a paciente está enquanto conversa com você — e é aqui que o tratamento tem de começar, porque a próxima faixa não avisa.

Choque leve — 16% a 25% (1.000 a 1.500 mL)

Consciência normal ou agitada, palidez e frieza, pulso de 91 a 100, sistólica de 80 a 90 mmHg, índice de choque de 1,0 a 1,3. Transfusão possível. A agitação é sinal de hipoperfusão cerebral e é lida como ansiedade com uma frequência assustadora.

Choque moderado — 26% a 35% (1.500 a 2.000 mL)

Agitação, palidez, frieza e sudorese, pulso de 101 a 120, sistólica de 70 a 79 mmHg, índice de choque de 1,3 a 1,7. Transfusão usualmente exigida e protocolo de transfusão maciça aberto. O traje antichoque não pneumático, se houver, entra aqui.

Choque grave — acima de 35% (mais de 2.000 mL)

Letargia ou inconsciência, perfusão capilar acima de 3 segundos, pulso acima de 120, sistólica abaixo de 70 mmHg, índice de choque acima de 1,7. Transfusão maciça provável. Este é o grau em que se chega quando o compensado não foi reconhecido — e o critério de gravidade é sempre o pior parâmetro isolado, nunca a média deles.

Causa (4 Ts)FrequênciaComo se reconhece à beira do leitoPrimeiro passo
TÔNUS — atonia uterina70%Fundo uterino amolecido, mal delimitado, frequentemente alto; endurece com a massagem e amolece quando ela para; sangramento em jorros com coágulosCompressão uterina bimanual imediata + ocitocina + ácido tranexâmico; esvaziar a bexiga
TRAUMA — lacerações, hematomas, inversão e rotura19%Útero contraído e sangramento que continua; sangue vivo e contínuo. Hematoma: dor perineal ou retal progressiva com pouco sangue externo. Inversão: choque desproporcional, fundo ausente ao abdome, massa na vaginaRevisão do canal com iluminação, valvas e analgesia; sutura das lacerações; drenagem de hematoma; manobra de Taxe na inversão; laparotomia na rotura
TECIDO — restos, coágulos e acretismo10%Placenta que saiu incompleta ao exame; útero que só fica firme sob compressão; dequitação que passou de 30 minutosRevisão da cavidade e extração manual com analgesia; curetagem se houver restos. Sem plano de clivagem, interromper e pensar em acretismo
TROMBINA — coagulopatias1%Sangramento em babação por punções e mucosas, coágulos que não se formam, ressangramento de sítio já tratado; história de coagulopatia, anticoagulante, pré-eclâmpsia grave, HELLP, DPP ou sepseCoagulograma e fibrinogênio; tratamento específico e hemocomponentes; cautela com a opção cirúrgica

Uterotônicos e antifibrinolítico: dose, esquema e quando não usar

DrogaApresentaçãoDose e viaRepetição e tetoNão usar quando
Ocitocina — prevençãoAmpola de 1 mL com 5 UI10 UI por via intramuscular (2 ampolas), logo após o desprendimento da criança e antes do clampeamento, em todos os partosDose única. Esquemas endovenosos exigem manutenção em bomba por 4 a 12 horasNão infundir em bólus rápido nem dose de ataque acima de 5 UI por via endovenosa: há relatos de colapso e óbito materno em cesariana
Ocitocina — tratamentoAmpola de 1 mL com 5 UI5 UI por via endovenosa lenta em 3 minutos, seguidas de 20 a 40 UI em 500 mL de SF 0,9% a 250 mL/hManutenção a 125 mL/h por 4 horas. Na atonia grave, avaliar manutenção por até 24 horas a 3 UI/h, monitorando o risco de intoxicação hídricaNão é contraindicada, mas responde mal em quem recebeu ocitocina por horas no trabalho de parto: não atrase a segunda linha
MetilergometrinaAmpola de 1 mL com 0,2 mg0,2 mg por via intramuscular (1 ampola)Repetir em 20 minutos se necessário; em sangramento grave, mais 3 doses de 0,2 mg a cada 4 horas. Teto de 1 mg em 24 horas, ou seja, 5 ampolasHipertensão, pré-eclâmpsia e demais síndromes hipertensivas. Se a primeira dose falhar, é improvável que a segunda funcione
MisoprostolComprimidos de 25, 100 ou 200 µg800 µg por via retal (4 comprimidos de 200 µg), dose únicaInício de ação em 15 a 20 minutos por via retal e em 7 a 11 minutos por via oral. No Brasil não há formulação oralSe já foi usado na prevenção, não se usa no tratamento. Não espere o efeito parado: insira e siga a sequência
Ácido tranexâmicoAmpola de 5 mL com 250 mg1 g (4 ampolas, 20 mL) por via endovenosa lenta, em 10 minutos, o que corresponde a 100 mg por minutoRepetir se o sangramento persistir 30 minutos após a primeira dose, ou se reiniciar em até 24 horas. Vale para qualquer um dos 4 TsNão iniciar após 3 horas do nascimento. Cada 15 minutos de atraso reduz em 10% o efeito hemostático

Estratificação de risco à admissão e o que ela obriga

FaixaQuem entraO que se faz além do manejo ativo do 3º período
Baixo riscoSem cicatriz uterina, gestação única, até 3 partos vaginais prévios, sem distúrbio de coagulação, sem história de HPPObservação rigorosa por 1 a 2 horas em local adequado; acompanhante estimulado a ajudar a detectar sinais de alerta
Médio riscoCesariana ou cirurgia uterina prévia; pré-eclâmpsia sem sinais de gravidade; hipertensão gestacional leve; superdistensão uterina (gemelar, polidrâmnio, macrossomia); 4 ou mais partos vaginais; corioamnionite; história de atonia ou hemorragia; IMC acima de 35 kg/m²; indução do partoTudo do baixo risco + hemograma, tipagem sanguínea, avaliar acesso venoso periférico jelco 16 G e identificação dos riscos no prontuário
Alto riscoPlacenta prévia ou de inserção baixa; pré-eclâmpsia com sinais de gravidade; hematócrito abaixo de 30% com outro fator; plaquetas abaixo de 100.000/mm³; sangramento ativo à admissão; coagulopatias; anticoagulantes; DPP; acretismo; dois ou mais fatores de médio riscoTudo do médio risco + acesso venoso jelco 16 G obrigatório, prova cruzada e reserva de concentrado de hemácias

Hemocomponentes: o que cada bolsa faz

HemocomponenteVolume por unidadeQuando entraEfeito esperado
Concentrado de hemácias250 a 300 mLInstabilidade hemodinâmica; resposta inadequada após 1.500 mL de cristaloideCada unidade eleva a hemoglobina em 1 a 1,5 g/dL e o hematócrito em cerca de 3%
Plasma fresco congelado180 a 200 mLRNI acima de 1,5 ou TP acima de 1,5 vez o normal; reposição de fatores; transfusão maciçaRepõe fatores de coagulação, fibrinogênio e antitrombina III
Concentrado de plaquetas50 mL por unidade randômicaPlaquetas abaixo de 50.000, ou abaixo de 100.000 com sangramento ativoCada unidade randômica eleva a contagem em 5.000 a 10.000/mm³. Uma dose de adulto equivale a cerca de 7 unidades randômicas
Crioprecipitado10 a 20 mL por unidadeFibrinogênio abaixo de 200 mg/dL; transfusão maciçaCada unidade eleva o fibrinogênio em cerca de 10 mg/dL; a dose de adulto de 7 a 10 unidades eleva de 70 a 100 mg/dL
Metas transfusionaisServem para guiar a reposição, não para autorizar o início delaHemoglobina acima de 7 a 8 g/dL, plaquetas acima de 50.000 (ou 100.000 com sangramento ativo), TP e PTTa abaixo de 1,5 vez o controle, fibrinogênio acima de 200 mg/dL

O papel do interno: o que faz sozinho, o que faz com autorização, o que chama

SituaçãoInterno faz sozinhoSó com o obstetra
Reconhecimento e chamadoVerbalizar o diagnóstico, chamar obstetra, anestesista e enfermagem, iniciar o cronômetro e registrar horários
Compressão e esvaziamentoCompressão uterina bimanual, massagem, esvaziar a bexiga, passar sonda vesical de demora
SuporteDois acessos calibrosos, cristaloide aquecido, oxigênio sob máscara, elevação de membros, manta térmica, coleta dos exames, medida da perda
UterotônicosAdministrar ocitocina e ácido tranexâmico conforme o protocolo escrito da instituiçãoEscalonamento e escolha do segundo uterotônico quando há hipertensão, cardiopatia ou dúvida
HemocomponentesPedir tipagem e prova cruzada, levar o pedido, cobrar a agência transfusional, conferir bolsa e identificação à beira do leitoIndicar a transfusão, abrir o protocolo de transfusão maciça e assinar o termo de responsabilidade da liberação de emergência
ProcedimentosSegurar valva, iluminar, preparar material, cronometrar o misoprostol e o ácido tranexâmicoRevisão do canal, extração manual de placenta, curetagem, balão de tamponamento, traje antichoque, laparotomia e histerectomia

A tabela de grau de choque classifica pelo pior parâmetro isolado. Frequência cardíaca acima de 120 bpm define choque grave mesmo com todo o resto normal — não se faz média de parâmetros em hemorragia.

O ácido tranexâmico não é droga de resgate. Ele entra junto com o primeiro uterotônico, vale para qualquer um dos quatro Ts e perde 10% do efeito a cada 15 minutos de atraso.

A compressão bimanual é a primeira manobra da atonia e também o que segura o sangramento das outras causas enquanto o cenário se organiza. Ela não é gesto de espera: é tratamento em curso.

Nenhum dos degraus deste fluxo termina a busca. Mais de um T pode estar operando ao mesmo tempo, e instabilidade que persiste depois do sítio aparentemente controlado significa foco ainda ativo ou necessidade de mais hemocomponente.

O kit de emergência publicado cobre a primeira rodada de tratamento e não mais que isso: 8 ampolas de ocitocina somam 40 UI, 2 ampolas de metilergometrina somam 0,4 mg de um teto de 1 mg, e os 4 comprimidos de misoprostol são exatamente uma dose. Quem abre o kit já deveria estar pedindo reposição à farmácia.

08

A conduta, hora a hora

Nomear a emergência, mobilizar equipe e hemoterapia, quantificar perda e avaliar perfusão. Iniciar o conjunto de medidas indicado, incluindo compressão, uterotônico, ácido tranexâmico e suporte conforme o quadro, enquanto se investigam tônus, trauma, tecido e coagulação. Se a resposta é insuficiente, escalar sem completar uma sequência lenta de tentativas isoladas.

Duas travas valem para todos os marcos. A primeira: a equipe médica não se afasta da paciente até a resolução do quadro hemorrágico — o interno que sai da sala para buscar material é o interno que a equipe perdeu. A segunda: nada do que está aqui depende de resultado de exame. Se você está esperando um número para começar, começou errado.

  1. Antes de sangrar — a prevenção, que é a parte da conduta que mais salva

    Na admissão, estratifique o risco pela tabela do bloco anterior e execute o pacote da faixa: quem é de médio risco tem hemograma, tipagem e acesso avaliado; quem é de alto risco tem acesso calibroso instalado, prova cruzada e sangue reservado. Registre a estratificação no prontuário e refaça-a a cada avaliação, porque o cenário muda. Depois do nascimento, o uterotônico profilático é a medida isolada mais eficaz que existe: reduz em mais de 50% os casos de hemorragia por atonia. E, terminada a dequitação, começa a vigilância do quarto período — verificação do tônus uterino a cada 15 minutos nas primeiras 2 horas, em todas as puérperas, onde quer que elas estejam. A mecânica do terceiro período — clampeamento oportuno, tração controlada com a manobra de Brandt-Andrews, sinais de descolamento — está detalhada no capítulo de assistência ao trabalho de parto; aqui fica a parte que muda o risco de sangrar.

    Prescrição
    • Ocitocina 10 UI por via intramuscular (2 ampolas de 5 UI/mL), logo após o desprendimento da criança e antes do clampeamento e secção do cordão, em todos os partos, vaginais e cesarianas. A ocitocina isolada é preferível à associação com ergometrina, por ter menos efeitos colaterais — Diretrizes Nacionais de Assistência ao Parto Normal (Portaria SAS/MS nº 353/2017), rec. 158 e 160; OPAS 2018, quadro 6; Protocolo Febrasgo-Obstetrícia nº 52 (2025), tabela 3.
    • Na cesariana, quando se optar pela via endovenosa: 5 UI de ocitocina em infusão lenta por 3 minutos, seguidas de manutenção com 20 UI em 500 mL de SF 0,9% a 125 mL/h por 4 a 12 horas em bomba de infusão. Alternativa é o esquema da "regra dos 3": 3 UI EV em bólus lento de no mínimo 30 segundos, reavaliando o tônus a cada 3 minutos até três doses, e, obtida a resposta, manutenção de 3 UI/h por 4 horas — que corresponde a 15 UI (3 ampolas) em 500 mL de SF 0,9% correndo a 100 mL/h — OPAS 2018, item 2.1.1.1; Febrasgo nº 52 (2025), tabela 4.
    • Proibido por via endovenosa: dose de ataque de ocitocina acima de 5 UI e bólus em menos de 30 segundos. Há relatos de colapso e óbito materno em cesariana após infusão endovenosa rápida de 10 UI — OPAS 2018, item 2.1.1.1.
    • Vigilância do quarto período: massagem uterina gentil e verificação do tônus a cada 15 minutos nas primeiras 2 horas após a saída da placenta, em todas as puérperas — OPAS 2018, item 2.1.4; Febrasgo nº 52 (2025), tabela 3.
    • Medidas de prevenção que não são medicamentos: uso racional da ocitocina durante o trabalho de parto (a exposição prolongada dessensibiliza os receptores), episiotomia seletiva em vez de rotineira e manobra de Kristeller proscrita, por estar entre os fatores de risco de hemorragia por trauma — OPAS 2018, item 2.1.6; MS, Manual de Gestação de Alto Risco (2022), quadro 4 do capítulo 18.
  2. Minuto 0 a 3 — nomear, chamar e comprimir

    Diga em voz alta o diagnóstico, para a equipe e para a paciente. Chame o obstetra de plantão, o anestesista e a enfermagem imediatamente — pela porta, pelo telefone, por quem estiver mais perto, mas sem sair de lá. Ponha a mão no fundo uterino. Amolecido, inicie a compressão bimanual na mesma hora: ela é a primeira manobra da atonia e existe justamente para segurar o sangramento enquanto os uterotônicos ainda não fizeram efeito. Peça que alguém esvazie a bexiga, porque a bexiga cheia reduz a eficácia da compressão. E marque a hora: o cronômetro da hora de ouro começa aqui, e o registro desse horário é o que vai organizar todas as decisões seguintes.

    Prescrição
    • Compressão uterina bimanual imediata. Na manobra de Hamilton, uma mão fechada em punho é introduzida na vagina e apoiada no fórnice anterior enquanto a outra mão comprime o fundo uterino pelo abdome, aproximando as duas paredes; é a técnica sugerida na paciente anestesiada. Na manobra de Chantrapitak, a compressão é apenas abdominal, e é a sugerida na paciente não anestesiada. Esvaziar a bexiga antes da compressão é essencial para aumentar a eficácia — OPAS 2018, item 4.2.1; Febrasgo nº 52 (2025), quadro 2.
    • Dois acessos venosos periféricos calibrosos, jelco 16 ou 14 G, e início da infusão de soro fisiológico 0,9% ou Ringer lactato aquecido — OPAS 2018, anexo 6.3, item 2.
    • Coleta na mesma punção: hemograma, coagulograma, fibrinogênio, ionograma e prova cruzada. Nos casos graves, acrescentar lactato e gasometria — OPAS 2018, anexo 6.3, item 2.
    • Oxigênio sob máscara facial a 8 a 10 L/min, elevação dos membros inferiores, monitoração materna contínua e sonda vesical de demora para monitorar a diurese — OPAS 2018, anexo 6.2 e 6.3.
  3. Minuto 3 a 10 — as drogas, nesta ordem, sem esperar a falha de cada uma

    Ocitocina e ácido tranexâmico entram juntos. O tranexâmico não é resgate: ele é adjuvante de qualquer um dos quatro Ts, entra assim que a hemorragia é identificada e perde efeito a cada minuto perdido. Se o tônus não responde em poucos minutos, escale sem pausa para a metilergometrina — checando a pressão antes — e, na sequência, para o misoprostol. O misoprostol tem latência de 15 a 20 minutos por via retal, então a orientação é inseri-lo e avançar, e não parar o relógio para ver se funciona. Enquanto tudo isso corre, a compressão bimanual não é interrompida, e alguém revisa o canal de parto.

    Prescrição
    • Ocitocina 5 UI por via endovenosa lenta em 3 minutos, seguidas de 20 a 40 UI diluídas em 500 mL de SF 0,9%, correndo a 250 mL/h; manutenção a 125 mL/h por 4 horas. Com a bolsa de 20 UI, 250 mL/h entregam 10 UI/h e 125 mL/h entregam 5 UI/h — OPAS 2018, quadro 9; Febrasgo nº 52 (2025), quadro 1.
    • Ácido tranexâmico 1 g (4 ampolas de 5 mL com 250 mg) por via endovenosa lenta, em 10 minutos, o que corresponde a 100 mg por minuto. Iniciar assim que a HPP for diagnosticada, dentro de três horas do nascimento, independentemente da causa da hemorragia; não reiniciar essa janela quando o sangramento começar. Repetir 1 g se o sangramento persistir 30 minutos após a primeira dose, ou se reiniciar em até 24 horas — OPAS 2018, quadro 9; Febrasgo nº 52 (2025), quadro 1; OMS 2025 (uso endovenoso precoce, dentro de 3 horas do parto).
    • Metilergometrina 0,2 mg por via intramuscular (1 ampola de 1 mL), repetível em 20 minutos se necessário; em sangramento grave, mais 3 doses de 0,2 mg a cada 4 horas, com teto de 1 mg em 24 horas — isto é, 5 ampolas no total. CONTRAINDICADA em pacientes hipertensas e nas síndromes hipertensivas da gestação. Se a primeira dose falhar, é improvável que a segunda seja eficaz — OPAS 2018, quadro 9; Febrasgo nº 52 (2025), quadro 1.
    • Misoprostol 800 µg por via retal, em dose única — 4 comprimidos de 200 µg. No Brasil não existe formulação oral, e, se o misoprostol já tiver sido usado na prevenção, ele não é usado no tratamento — Febrasgo nº 52 (2025), quadro 1 e tabela 4; OPAS 2018, quadro 9.
    • Se a prevenção estava sendo feita pelo esquema da "regra dos 3" e a terceira dose falhou, a indicação é uterotônico de segunda linha imediatamente, e não outro esquema de ocitócito — OPAS 2018, quadro 9.
  4. Minuto 10 a 20 — volume, calor e a decisão de transfundir

    A reposição volêmica mudou de lógica: não se infundem mais cargas predeterminadas nem se aplica a regra clássica de 3 para 1, porque excesso de cristaloide dilui fatores de coagulação e pode reativar o foco de sangramento. Reavalia-se a resposta hemodinâmica a cada 250 a 500 mL infundidos. Paciente que já recebeu 1.500 mL de cristaloide sem resposta adequada e sustentada é candidata a hemocomponente — e a decisão se apoia nos sinais clínicos, não no hemograma. Ao mesmo tempo, combata a hipotermia desde já: soro aquecido, manta térmica ou cobertores, temperatura medida a cada 15 minutos na primeira hora.

    Prescrição
    • Cristaloide aquecido (SF 0,9% ou Ringer lactato), com reavaliação do estado hemodinâmico a cada 250 a 500 mL infundidos. Coloides devem ser evitados — OPAS 2018, item 5.1; Febrasgo nº 52 (2025), seção de ressuscitação hemostática.
    • Indicação de hemocomponente: instabilidade hemodinâmica, ou resposta inadequada após 1.500 mL de cristaloide, ou índice de choque igual ou maior que 1,0. Índice igual ou maior que 1,4 já manda abrir o protocolo de transfusão maciça — Febrasgo nº 52 (2025), tabela 5; OPAS 2018, quadro 8.
    • Transfusão maciça: proporção de 1:1:1 entre concentrado de hemácias, plasma fresco congelado e concentrado de plaquetas, com quatro ou mais concentrados de hemácias. O esquema de rodadas publicado prevê, na primeira e na segunda rodadas, 6 unidades de concentrado de hemácias, 6 de plasma, 6 de plaquetas e 10 de crioprecipitado; na terceira rodada, ácido tranexâmico 1 g endovenoso em 10 minutos; e, na quarta, 6, 6 e 6 — Febrasgo nº 52 (2025), quadro 4.
    • Fibrinogênio abaixo de 200 mg/dL: uma dose de adulto de crioprecipitado (7 a 10 unidades) ou 2 g de concentrado de fibrinogênio. A hemorragia obstétrica evolui para hipofibrinogenemia mais rápido que a do trauma — Febrasgo nº 52 (2025); OPAS 2018, item 5.2.
    • Paciente instável e sem sangue reservado: o protocolo de transfusão maciça deve prever a transfusão de sangue O negativo sem prova cruzada. A liberação de hemocomponentes em transfusão de emergência, sem que os testes pré-transfusionais estejam concluídos, é prevista na RDC/Anvisa nº 34/2014, art. 136, § 2º, segundo protocolo do serviço de hemoterapia — Febrasgo nº 52 (2025); RDC/Anvisa nº 34/2014.
    • Antes de instalar qualquer bolsa, é obrigatória a conferência da identificação da receptora, do rótulo da bolsa, da etiqueta de liberação, da validade, da inspeção visual e dos sinais vitais; o tempo máximo de infusão de uma bolsa é de 4 horas — RDC/Anvisa nº 34/2014, arts. 142 e 143.
    • Antitérmica e antitrombótica ao mesmo tempo: manta térmica aluminizada ou cobertores, soro aquecido e temperatura axilar a cada 15 minutos na primeira hora — OPAS 2018, anexo 6.2.
  5. Minuto 20 a 60 — quando o remédio não resolveu

    Falha do tratamento medicamentoso na atonia significa balão de tamponamento intrauterino. É um procedimento do obstetra, mas o interno prepara e ajuda: antissepsia, sonda vesical de demora, valvas, pinçamento cervical, soro morno para insuflar. Em paralelo, havendo instabilidade ou iminência de choque, entra o traje antichoque não pneumático, se o serviço tiver. E o protocolo de transfusão já deve estar correndo. Se o quadro for de trauma, a sequência é outra e é cirúrgica desde o começo: sutura das lacerações, drenagem de hematomas, manobra de Taxe na inversão uterina, laparotomia na rotura.

    Prescrição
    • Balão de tamponamento intrauterino na atonia refratária: volume de infusão de 350 a 500 mL após parto vaginal, 60 a 250 mL na cesariana e 100 mL na técnica de "sanduíche uterino" com sutura compressiva. Insuflar com soro morno ou em temperatura ambiente, nunca gelado, pelo risco de hipotermia. Permanência máxima de 24 horas. Manter uterotônico e antibioticoprofilaxia durante o tamponamento — por exemplo, cefazolina 1 g por via endovenosa a cada 8 horas. Esvaziar por etapas, 100 mL a cada 15 minutos, durante o dia e com sala cirúrgica reservada — Febrasgo nº 52 (2025), quadro 2; OPAS 2018, item 4.2.2.
    • Traje antichoque não pneumático na instabilidade hemodinâmica ou iminência de choque: aplicação sempre sequencial, do segmento 1 (tornozelo) ao 6 (abdome). Contraindicado em feto vivo viável, lesões supradiafragmáticas, cardiopatia e pneumopatia graves e edema agudo de pulmão. Retirada apenas com perda inferior a 50 mL/h nas últimas 2 horas, pulso igual ou menor que 100 bpm, sistólica entre 90 e 100 mmHg e hemoglobina acima de 7 g/dL, obedecendo à "regra dos 20": 20 minutos de observação após cada segmento e reposicionamento imediato de todo o traje se a sistólica cair 20 mmHg ou a frequência subir 20 bpm — OPAS 2018, item 4.2.3 e quadros 12 e 13; Febrasgo nº 52 (2025), quadro 2.
    • Retenção placentária: acesso venoso calibroso, obstetra presente, exame vaginal minucioso e extração manual — nunca sem analgesia adequada. Ocitocina endovenosa adicional para desprendimento da placenta não é rotina, mas passa a ser indicada se houver hemorragia — Diretrizes Nacionais de Assistência ao Parto Normal (2017), rec. 170 a 176.
    • Sem plano de clivagem entre útero e massa placentária durante a extração manual: interromper o procedimento, não retirar nem parte da placenta e preparar-se para laparotomia ou conduta conservadora — o quadro é de acretismo — OPAS 2018, item 4.4.3.1.
  6. Hemorragia persistente ou deterioração — escalonamento imediato

    Sangramento persistente, instabilidade ou resposta insuficiente exigem escalonamento conforme a causa. Mobilize cedo cirurgia, anestesia e hemoterapia. Medidas conservadoras dependem de viabilidade e resposta; não se aguarda uma hora e meia para preparar controle cirúrgico ou histerectomia. A equipe responsável decide antes de deterioração evitável; o interno monitora perda, perfusão e resposta e comunica piora prontamente.

    Prescrição
    • Tratamento cirúrgico conservador: ligadura bilateral das artérias uterinas (técnicas de O'Leary ou de Posadas), ligadura das conexões útero-ovarianas para sangramento do fundo, ligadura das artérias ilíacas internas nas lacerações graves do canal, e suturas compressivas de B-Lynch, Hayman ou Cho conforme a topografia. Sempre com fio absorvível — Febrasgo nº 52 (2025), quadro 3.
    • Histerectomia: indicada na falha do tratamento conservador, e a decisão deve anteceder o estabelecimento da tríade letal (coagulopatia, hipotermia e acidose). A subtotal é preferencial, salvo quando o foco está no colo ou no segmento inferior — Febrasgo nº 52 (2025), quadro 3; OPAS 2018, item 4.3.3.
    • Cirurgia de controle de danos: empacotamento pélvico com laparostomia nas pacientes instáveis com a tríade letal instalada, com correção definitiva em 2 a 5 dias — OPAS 2018, item 4.3.4; Febrasgo nº 52 (2025), quadro 3.
  7. As 24 horas seguintes — o período em que a paciente volta a sangrar

    Controlado o foco, a puérpera que sangrou não vai para a enfermaria comum. Ela fica em leito que permita observação rigorosa nas primeiras 24 horas, pelo risco de novo sangramento e pela necessidade de abordagem precoce se ele vier. Mantêm-se a ocitocina de manutenção, o controle de sinais vitais e diurese e a reavaliação seriada do tônus. E fica valendo a regra que fecha o capítulo: instabilidade que persiste depois de o sangramento aparentemente ter sido controlado significa foco ainda ativo, oculto ou não, ou necessidade de mais hemocomponente — e as duas possibilidades exigem alguém revisando, não observando.

    Prescrição
    • Manutenção de ocitocina após a atonia grave: prescrever por unidade de tempo, e não por gotejamento decorado. A referência é 3 UI/hora por até 24 horas, com monitoração do risco de intoxicação hídrica. Com a bolsa de 20 UI em 500 mL de SF 0,9%, 3 UI/h correspondem a 75 mL/h; com a bolsa de 40 UI em 500 mL, correspondem a 37,5 mL/h — OPAS 2018, quadro 9; Febrasgo nº 52 (2025), quadro 1.
    • Leito com observação rigorosa por 24 horas. Não encaminhar a puérpera que sangrou para enfermaria ou quarto que ofereça apenas vigilância de risco habitual — OPAS 2018, quadro 4; Febrasgo nº 52 (2025), ponto-chave 9.
    • Reposição de ferro e reavaliação do hemograma antes da alta, e orientação de retorno com os sinais de hemorragia secundária: sangramento que aumenta em vez de diminuir, coágulos grandes, febre, dor pélvica, tontura — MS, Manual de Gestação de Alto Risco (2022); Febrasgo nº 52 (2025).
    • Registro no prontuário e no cartão da mulher: história de hemorragia pós-parto é fator de risco para a próxima gestação e obriga o parto seguinte a acontecer em maternidade hospitalar, com plano escrito para o terceiro período — Diretrizes Nacionais de Assistência ao Parto Normal (2017), rec. 168 e 169.
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Como saber se está funcionando

Em hemorragia, reavaliar não é uma etapa depois do tratamento: é o tratamento acontecendo. A pergunta se repete a cada poucos minutos e sempre com os mesmos termos — o útero está mais duro, o sangue está saindo mais devagar, e a paciente está compensando melhor do que há cinco minutos? Duas respostas positivas e uma negativa já obrigam a mudar alguma coisa.

E há um critério de fracasso que atravessa tudo: instabilidade hemodinâmica que persiste depois de o sítio aparente ter sido controlado significa foco de sangramento ainda ativo, oculto ou não, ou necessidade de mais hemocomponente. Não existe uma terceira explicação tranquilizadora. Quando essa situação aparece, o passo é revisar todos os focos possíveis, inclusive o retroperitônio, e não aguardar melhora espontânea.

Tônus uterinoA cada poucos minutos enquanto o sangramento estiver ativo; depois de controlado, a cada 15 minutos por 2 horas e, na paciente que sangrou, ao longo das 24 horas seguintes

Esperado: Útero lenhoso, bem delimitado, na altura da cicatriz umbilical ou abaixo dela, e que assim permanece quando a mão sai

Se não melhora: Amolece de novo ao cessar a compressão: há conteúdo na cavidade ou a droga não pegou. Escale o uterotônico sem esperar, revise a cavidade e o canal, e prepare o balão de tamponamento. Útero duro com sangramento mantido não é atonia — é trajeto, e o exame que resolve é a revisão com valva e boa luz

Ritmo do sangramentoMedido continuamente pela bolsa coletora, pelas compressas pesadas ou, na falta das duas, pela contagem de compressas trocadas por hora

Esperado: Queda progressiva do ritmo. O parâmetro de estabilidade usado nos protocolos é perda inferior a 50 mL por hora sustentada por pelo menos 2 horas

Se não melhora: Reabra a busca dos quatro Ts do começo, porque mais de um pode estar operando. Sangramento que reaparece em sítio já suturado, ou que sai por punções e mucosas, aponta coagulopatia e pede fibrinogênio e hemocomponente

Índice de choque (FC ÷ PAS)A cada aferição de sinais vitais, no mínimo a cada 5 a 10 minutos na fase ativa

Esperado: Queda para abaixo de 1,0 e permanência lá. É o parâmetro que se move antes da pressão

Se não melhora: Índice que se mantém em 1,0 ou mais apesar do cristaloide: hemocomponente. A partir de 1,4, protocolo de transfusão maciça aberto. A partir de 1,7, risco alto de desfecho materno adverso e abordagem imediata

Frequência cardíaca e pressão sistólicaMonitoração contínua; registro a cada 5 a 15 minutos conforme a gravidade

Esperado: Frequência abaixo de 100 bpm e sistólica acima de 90 a 100 mmHg, mantidas sem necessidade de novos bólus

Se não melhora: Resposta transitória — melhora e piora de novo em minutos — significa sangramento ativo, não hipovolemia residual. Reavalie o estado hemodinâmico a cada 250 a 500 mL de cristaloide e não empurre volume indefinidamente: o excesso dilui fatores e reativa o foco

Nível de consciência e perfusão periféricaA cada avaliação, junto dos sinais vitais

Esperado: Paciente lúcida, tranquila, com extremidades quentes e enchimento capilar rápido

Se não melhora: Agitação é hipoperfusão cerebral até prova em contrário, e é rotineiramente confundida com ansiedade — a paciente agitada já está em choque leve a moderado. Letargia, sudorese e enchimento capilar acima de 3 segundos definem choque grave, qualquer que seja a pressão

DiureseDe hora em hora, pela sonda vesical de demora instalada no início do atendimento

Esperado: Retomada e manutenção de fluxo urinário, com bolsa que enche de forma visível a cada hora

Se não melhora: Oligúria que não responde a fluidos é critério de near miss materno e sinal de que a perfusão renal não foi restaurada. Reavalie sangramento oculto, escale a reposição com hemocomponente e envolva a terapia intensiva

TemperaturaA cada 15 minutos na primeira hora e depois de hora em hora

Esperado: Normotermia mantida com soro aquecido, manta térmica e ambiente aquecido

Se não melhora: Hipotermia é um dos três lados da tríade letal e piora a coagulação diretamente. Aumente as medidas de aquecimento antes de pedir mais plasma — sangue frio não coagula por mais fator que se reponha

Fibrinogênio e coagulogramaNa coleta inicial e repetidos após a primeira rodada de hemocomponentes ou a cada agravamento

Esperado: Fibrinogênio acima de 200 mg/dL, TP e PTTa abaixo de 1,5 vez o controle, plaquetas acima de 50.000 (ou 100.000 com sangramento ativo)

Se não melhora: Fibrinogênio abaixo de 200 mg/dL exige uma dose de adulto de crioprecipitado ou 2 g de concentrado de fibrinogênio — e a hemorragia obstétrica chega lá antes da do trauma, então esse exame se repete cedo

HemoglobinaNa coleta inicial como linha de base, e depois da estabilização

Esperado: Acima de 7 a 8 g/dL após a reposição, com hematócrito de 21% a 24%

Se não melhora: Não use a hemoglobina para decidir na fase aguda: ela não acompanha a perda em tempo real, e os sinais clínicos são os critérios mais importantes para indicar transfusão imediata. Hemoglobina que continua caindo depois do controle aparente é sinal de foco ativo, não de diluição

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Onde o erro machuca

Estimar a perda a olho e arredondar para baixo

O dano: A estimativa visual subestima sistematicamente. Como a puérpera hígida só mostra sinais de choque depois de perder mais de 20% do volume — algo em torno de 1,1 litro —, a subestimação e a compensação fisiológica erram para o mesmo lado ao mesmo tempo. O resultado é uma paciente classificada como "sangramento moderado" que já está em choque leve e que vai desabar de uma vez.

Como pegar a tempo: Use uma régua objetiva: bolsa coletora graduada colocada logo após o parto vaginal, ou pesagem de compressas com a subtração do peso seco, ou, na falta das duas, as equivalências publicadas de poça e de compressa. Diante de dúvida entre dois números, trate pelo maior. E lembre que perda de 300 mL com alteração de sinais clínicos já é gatilho de ação.

Tratar a pressão normal como tranquilizadora

O dano: A pressão arterial é sinal tardio na gestante e na puérpera. Uma sistólica de 110 com frequência de 118 é um índice de choque de 1,13, isto é, faixa de risco de transfusão — mas o número que vai para a evolução costuma ser "PA 110/70, estável". Cada rodada de sinais vitais lida assim é uma perda de dez a quinze minutos.

Como pegar a tempo: Calcule o índice de choque em voz alta a cada aferição: frequência dividida pela sistólica. É conta de cabeça e não custa nada. E leia a tabela de grau de choque pelo pior parâmetro isolado, nunca pela média — frequência acima de 120 define choque grave por si só.

Procurar a laceração antes de palpar o fundo uterino

O dano: Atonia responde por 70% dos casos e é a causa que sangra mais rápido. Montar valva, buscar foco e iluminar leva minutos, e são minutos em que ninguém está comprimindo o útero. Pior: com o útero mole, o campo enche de sangue e a revisão do canal fica ruim justamente por causa do sangramento que não foi controlado.

Como pegar a tempo: Primeiro a mão no fundo. Amolecido, compressão bimanual imediata e uterotônico. Útero lenhoso com sangramento persistente é o que autoriza — e obriga — a revisão do canal. A ordem não é preferência de estilo: é frequência e velocidade.

Guardar o ácido tranexâmico para quando os uterotônicos falharem

O dano: O efeito hemostático do ácido tranexâmico cai cerca de 10% a cada 15 minutos de atraso na primeira dose, e depois de 3 horas do nascimento não se recomenda mais iniciá-lo. Reservá-lo como resgate é entregar a droga no momento em que ela já não funciona.

Como pegar a tempo: Ele entra junto com o primeiro uterotônico, assim que a hemorragia é identificada, e vale para qualquer um dos quatro Ts — inclusive trauma e coagulopatia. Um grama endovenoso em 10 minutos. Registre o horário do nascimento: ele define a janela de três horas para iniciar tranexâmico. Registre separadamente o início do sangramento.

Repetir ocitocina em quem passou horas em bomba de ocitocina

O dano: A exposição prolongada dessensibiliza os receptores miometriais. A mulher que foi induzida ou conduzida com doses altas é justamente a que responde pior — e cada nova ampola de ocitócito consome minutos de hora de ouro sem contrair nada.

Como pegar a tempo: Nesse contexto, não atrase o uterotônico de segunda linha. Se o esquema profilático da "regra dos 3" falhou na terceira dose, a indicação já é metilergometrina ou misoprostol, e não outro esquema de ocitocina. Cheque a pressão antes da metilergometrina.

Aplicar metilergometrina sem olhar a pressão

O dano: A metilergometrina é contraindicada em hipertensas e nas síndromes hipertensivas da gestação. E a paciente com pré-eclâmpsia é exatamente a que tem mais chance de estar em uso de sulfato de magnésio, que relaxa o miométrio e favorece a atonia — ou seja, a que mais precisa do segundo uterotônico é a que menos pode receber esse.

Como pegar a tempo: Leia a pressão do pré-natal e a do trabalho de parto antes de precisar. Na hipertensa, o segundo degrau é o misoprostol 800 µg por via retal, e o balão de tamponamento entra mais cedo na sequência. Diga isso em voz alta para a equipe ao abrir o protocolo.

Esperar a prova cruzada, o hemograma ou o ultrassom para agir

O dano: Nenhum passo do tratamento inicial depende de resultado de exame, e a hemoglobina não acompanha a perda aguda. Enquanto se aguarda, a paciente atravessa faixas de choque. A liberação de hemocomponentes em emergência sem os testes pré-transfusionais concluídos é prevista em norma sanitária, mas quem não sabe disso espera calado.

Como pegar a tempo: Colha tudo de uma vez e siga tratando. Em paciente instável e sem sangue reservado, o protocolo institucional prevê sangue O negativo sem prova cruzada, com termo de responsabilidade assinado e a bolsa rotulada. Pergunte ao seu serviço, antes do plantão, onde fica esse protocolo.

Encher a paciente de cristaloide até ela responder

O dano: Cargas predeterminadas e a antiga regra de 3 para 1 saíram do protocolo: o excesso de cristaloide dilui os fatores de coagulação, esfria a paciente e pode reativar um foco de sangramento já contido. O resultado é uma coagulopatia dilucional produzida pela própria reanimação.

Como pegar a tempo: Reavalie a resposta a cada 250 a 500 mL infundidos, com soro aquecido. Ausência de resposta adequada e sustentada após 1.500 mL indica hemocomponente, não mais soro. E hipotermia se combate desde o primeiro minuto, com manta e soro aquecido, porque ela é um dos três lados da tríade letal.

Mandar para a enfermaria a puérpera que sangrou e parou

O dano: O risco de novo sangramento nas primeiras 24 horas é real, e enfermaria ou quarto de vigilância de risco habitual não detectam a recidiva a tempo. É o cenário em que a segunda hemorragia é encontrada já em choque, com a equipe do primeiro episódio em casa.

Como pegar a tempo: Leito com observação rigorosa por 24 horas, ocitocina de manutenção prescrita por unidade de tempo, reavaliação seriada do tônus e do sangramento, e passagem de plantão explícita dizendo o que aconteceu, quanto se perdeu e o que foi feito.

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O que dizer ao paciente e à família

Numa hemorragia, você fala com quatro interlocutores ao mesmo tempo: a paciente, o acompanhante, a equipe do quarto e quem está do outro lado do telefone. As quatro conversas têm registros diferentes, e confundi-los é como se perde tempo — o pedido de ajuda que vira desabafo, ou a explicação à paciente que vira jargão de plantão.

Duas regras cobrem quase tudo. Nomeie o que está acontecendo, para todo mundo, inclusive para a mulher: silêncio e pressa comunicam mais medo do que qualquer informação. E não prometa desfecho — prometa presença e prometa avisar.

Nomeando o diagnóstico para a equipe, dentro do quarto

"Atenção: hemorragia pós-parto, útero atônico, estou abrindo o protocolo. Chame a Dra. [nome] e o anestesista agora. Preciso de dois acessos 16, soro aquecido, ocitocina e tranexâmico, e alguém anotando o horário. São 4h28."

Não diga: Frases sem destinatário — "alguém chama alguém" — e diagnóstico sussurrado no corredor. Também não peça "material" genérico: nomeie o item, o calibre e a pessoa.

Falando com a paciente enquanto comprime

"Cleide, o seu útero relaxou e isso está fazendo você sangrar mais do que o normal. Eu preciso apertar o útero com as duas mãos e vai doer — é desconfortável e é o que faz o sangramento parar. Fique comigo, me diga se sentir tontura ou enjoo. A médica está vindo e eu não vou sair daqui."

Não diga: "Não é nada" e "calma". Também não descreva o que está fazendo em termos técnicos e não peça que ela relaxe: peça que ela avise o que sente, que é informação clínica de verdade.

Falando com o acompanhante

"Ela está com um sangramento aumentado depois do parto, é uma situação que a gente sabe tratar e já começamos. Vão entrar mais pessoas aqui e vai parecer confuso — é normal. Preciso que o senhor fique ali, com o bebê, e me chame se ela ficar sonolenta ou disser que está passando mal. Assim que der, eu venho falar com o senhor."

Não diga: Mandar o acompanhante para fora sem explicar, e prometer que "está tudo bem". Dar a ele uma tarefa concreta reduz o pânico e o transforma em observador útil.

Pedindo ajuda pelo telefone, em quinze segundos

"Doutora, é o [nome], da sala 3. Puérpera de parto vaginal há 20 minutos, segunda gestação, com hemorragia por atonia. Perda estimada acima de um litro, frequência 118, pressão 104 por 62, índice de choque 1,13. Já estou com compressão bimanual, dois acessos, ocitocina e tranexâmico feitos, exames colhidos. Preciso da senhora aqui agora."

Não diga: Começar pela história do parto. Comece pelo problema, dê o número que define gravidade, diga o que já foi feito e termine com um pedido explícito. Não termine com "quando a senhora puder".

Quando a transfusão entra

"Cleide, você perdeu bastante sangue e a gente vai repor com sangue de doador. É um procedimento comum aqui, e a gente confere seu nome e a bolsa antes de instalar. Você vai sentir a mão gelada, e a gente vai te aquecer. Alguma coisa que eu precise saber antes — alguma religião ou algum problema anterior com transfusão?"

Não diga: Instalar sem avisar. E não faça a pergunta sobre recusa transfusional como se fosse um obstáculo: ela é parte da conferência, e é melhor descobrir agora do que com a bolsa na mão.

Quando a equipe começa a falar em histerectomia

"O sangramento não parou com os remédios nem com o balão, e a Dra. [nome] vai conversar com você sobre a cirurgia. Uma das possibilidades é a retirada do útero, e isso significa que você não poderá engravidar de novo. É uma decisão que se toma para salvar a sua vida, e ela vai te explicar tudo antes. Eu vou ficar aqui com você."

Não diga: Antecipar a indicação que não é sua, e usar eufemismo — "vão dar uma olhada por dentro". Também não diga "vai ficar tudo bem": diga o que vai acontecer e quem vai explicar.

No dia seguinte, explicando o que aconteceu

"O que você teve chama-se hemorragia pós-parto: o útero não contraiu direito depois que a placenta saiu, e por isso você sangrou. Você perdeu cerca de [x] mL e recebeu [o que foi feito]. Isso não foi culpa de nada que você fez. É importante que fique registrado no seu cartão, porque numa próxima gestação você vai ter um plano específico e o parto precisa ser em maternidade de hospital."

Não diga: Deixar a mulher sem a versão do que aconteceu — ela vai reconstruir sozinha, com o pouco que ouviu no meio do susto. E não omita o registro para a próxima gestação: é a parte da conversa que muda o desfecho do próximo parto.

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Onde bons médicos discordam

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.

Qual limiar define hemorragia pós-parto e como se mede a perda

500 mL no parto vaginal, 1.000 mL na cesariana, ou qualquer perda que instabilize (documentos brasileiros)

A definição adotada no Brasil separa os limiares por via de parto e acrescenta a cláusula que salva: qualquer perda pelo trato genital capaz de causar instabilidade hemodinâmica é hemorragia, independentemente do volume. O método de estimativa fica a critério do serviço, desde que haja pelo menos um incorporado à rotina. A versão mais recente da sociedade nacional acrescenta gatilhos de vigilância ativa: perda acima de 500 mL, ou acima de 300 mL com alteração de sinais clínicos, ou sinais clínicos alterados mesmo sem sangramento visível.

OPAS. Recomendações assistenciais para prevenção, diagnóstico e tratamento da hemorragia obstétrica, 2018 (item 1.1); MS, Manual de Gestação de Alto Risco, 2022 (cap. 18); Protocolo Febrasgo-Obstetrícia nº 52, 2025.

Perda medida objetivamente, com bolsa graduada, a partir de 500 mL — ou 300 mL com sinal hemodinâmico anormal (documento internacional, 2025)

A diretriz consolidada da Organização Mundial da Saúde de 2025 desloca o eixo da definição para o método: o diagnóstico se faz por perda medida objetivamente, com limiar de 500 mL, ou de 300 mL somado a qualquer sinal hemodinâmico anormal, e recomenda a bolsa coletora graduada no parto vaginal. A escolha é deliberada — a estimativa visual erra para menos, e um limiar sem método de medida transfere o diagnóstico para a impressão de quem está no quarto.

World Health Organization. Consolidated guidelines for the prevention, diagnosis and treatment of postpartum haemorrhage, 2025 (sumário executivo).

Como decidir

Os dois lados apontam para o mesmo número; o que muda é de onde ele vem. À beira do leito, decida pela reversibilidade do erro: superestimar a perda custa uma ampola de ocitocina, um grama de tranexâmico e um telefonema; subestimar custa a hora de ouro. Se o seu serviço tem bolsa coletora, use — o custo é irrisório e ela resolve a discussão. Se não tem, adote a régua de compressa e poça e trate pelo maior número que você conseguir defender. E guarde o gatilho dos 300 mL para a paciente anêmica, de baixa estatura ou pré-eclâmptica, que é justamente aquela em quem o limiar de 500 mL chega tarde demais.

Onde fica o corte do índice de choque: 0,9 ou 1,0

0,9 já sinaliza risco de transfusão (documento brasileiro, 2018)

O documento da OPAS adotado pelo Ministério da Saúde fixa três degraus: índice igual ou maior que 0,9 significa risco de transfusão e manda abordar de forma agressiva, considerar transferência e acionar a hemoterapia; a partir de 1,4, abrir protocolo de transfusão maciça; a partir de 1,7, alto risco de resultado materno adverso. O texto reconhece que, na prática clínica, valores iguais ou maiores que 1 — frequência cardíaca superior à sistólica — já sinalizam necessidade de abordagem agressiva.

OPAS. Recomendações assistenciais para prevenção, diagnóstico e tratamento da hemorragia obstétrica, 2018 (item 3.5 e quadro 8).

1,0 é o corte operacional (documento brasileiro, 2025)

A terceira edição do protocolo da federação brasileira simplifica a tabela e coloca o corte único em 1,0: índice igual ou maior que 1,0 sugere perda sanguínea significativa e risco de necessidade de transfusão, mandando abordagem agressiva, consideração do traje antichoque e acionamento da hemoterapia. Na tabela de grau de choque, a faixa de 0,7 a 1,0 corresponde ao choque compensado, em que a transfusão usualmente não é necessária.

Protocolo Febrasgo-Obstetrícia nº 52, 3ª ed., 2025 (tabelas 5 e 6).

Como decidir

A distância entre 0,9 e 1,0 é de um batimento por minuto em uma sistólica de 110 — não é uma disputa clínica, é arredondamento de tabela. Este capítulo adota 1,0 por ser a régua nacional mais recente e por ser mais fácil de calcular de cabeça (frequência maior que a sistólica). Mas a decisão à beira do leito não se toma pelo corte: um índice de 0,92 numa puérpera anêmica, com sangramento ativo e útero que amolece, é motivo para chamar e para pedir sangue, e um índice de 1,05 numa paciente que parou de sangrar e está corada é motivo para reavaliar em cinco minutos. O que os dois documentos concordam integralmente é nos degraus superiores — 1,4 abre transfusão maciça, 1,7 é risco alto —, e é neles que o número decide sozinho.

Sequência escalonada ou pacote aplicado de uma vez

Sequenciamento: cada degrau depois da falha do anterior (documentos brasileiros)

Os documentos brasileiros organizam o tratamento como uma sequência: massagem bimanual e ocitocina, depois metilergometrina, depois misoprostol, depois balão de tamponamento, depois traje antichoque e cirurgia — com o ácido tranexâmico administrado em concomitância desde o diagnóstico. A justificativa é operacional: a execução sequenciada, consciente e correta é o que evita que a pressa produza erro, e o fluxograma existe para que a equipe saiba qual é o próximo passo sem discutir.

OPAS, 2018 (fluxograma 2 e anexos 6.2 e 6.3); Protocolo Febrasgo-Obstetrícia nº 52, 2025 (fluxograma de conduta).

Pacote de tratamento, tudo junto e sem atraso (documento internacional, 2025)

A diretriz da Organização Mundial da Saúde de 2025 recomenda um pacote de primeira linha aplicado como um conjunto, com implementação apoiada: massagem uterina, uterotônico, ácido tranexâmico, cristaloide endovenoso, exame do trato genital e escalonamento do cuidado, instituídos rapidamente e sem intervalo entre eles. A lógica é que cada minuto entre um componente e o seguinte é perda mensurável de efeito, sobretudo para o antifibrinolítico.

World Health Organization. Consolidated guidelines for the prevention, diagnosis and treatment of postpartum haemorrhage, 2025 (sumário executivo).

Como decidir

A divergência é menos sobre o que fazer e mais sobre quantas pessoas há no quarto. Com uma equipe de quatro, o pacote é factível e é melhor: nada do que está nele exige que o anterior tenha falhado. Com duas pessoas às 4h da manhã, a sequência protege de esquecer um passo. A regra prática que concilia os dois: o que não depende de decisão médica acontece em paralelo — compressão, acessos, cristaloide, ocitocina, tranexâmico, sonda, exames, aquecimento —, e o que é decisão escalonada — segundo uterotônico, balão, traje, cirurgia — segue a sequência do fluxograma do seu serviço. E o ácido tranexâmico nunca espera a falha de nada, nos dois modelos.

Uterotônico em todo parto, ou apoiar a escolha da conduta fisiológica

Uso universal de uterotônico após todos os nascimentos

A estratégia brasileira de prevenção parte do uso universal da ocitocina após o parto, em todos os nascimentos, por ser a principal ação de prevenção e reduzir em mais de 50% os casos de hemorragia por atonia. Os locais que ainda não usam ocitocina profilática de rotina depois de todos os partos devem inserir a prática imediatamente em seus protocolos. Nenhuma outra medida preventiva substitui o uterotônico.

OPAS, 2018 (item 2 e quadros 5 e 6); Protocolo Febrasgo-Obstetrícia nº 52, 2025 (tabela 3).

Conduta ativa recomendada, com apoio à escolha informada da mulher de baixo risco

A diretriz nacional de assistência ao parto normal recomenda a conduta ativa no terceiro período por estar associada a menor risco de hemorragia e de transfusão — e, na mesma página, determina que a mulher com baixo risco de hemorragia que solicitar conduta expectante seja apoiada em sua escolha, com mudança para conduta ativa se houver hemorragia ou se a placenta não dequitar em uma hora. Ela obriga, inclusive, a explicar antes os números de cada conduta: risco de hemorragia acima de um litro de cerca de 13 em 1.000 na conduta ativa contra cerca de 29 em 1.000 na fisiológica, e transfusão de cerca de 14 em 1.000 contra cerca de 40 em 1.000.

Brasil. MS. Diretrizes Nacionais de Assistência ao Parto Normal (Portaria SAS/MS nº 353/2017), rec. 156 a 159 e 165.

Como decidir

A conversa que resolve isso acontece no pré-natal, com os números na mesa, e não com a criança nascendo. Diante da mulher à sua frente, três coisas empurram para a conduta ativa e devem ser ditas: qualquer fator de risco para hemorragia, sangramento em curso e recém-nascido que precise de reanimação. Sem esses, e com a mulher informada tendo pedido a conduta fisiológica, a escolha dela é legítima e precisa estar registrada — inclusive a hora do clampeamento. O que não é escolha é a vigilância: verificação do tônus a cada 15 minutos por 2 horas vale para os dois caminhos, e é ela que transforma uma conduta fisiológica em uma conduta segura.

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O raciocínio, em voz alta

Cleide, 26 anos, segunda gestação, 39 semanas, parto vaginal espontâneo às 4h01, placenta íntegra às 4h07, ocitocina 10 UI intramuscular feita logo após o desprendimento, laceração de segundo grau suturada. Às 4h26 a técnica chama: poça de cerca de 50 cm no lençol e sangue escorrendo pela borda da cama até o chão. Pressão 112 por 70, frequência 104. Cleide está conversando e diz que está só um pouco enjoada.

  1. o que penso agora

    Poça de 50 cm equivale a cerca de 500 mL, e sangue fluindo da cama para o chão indica perda provavelmente acima de 1.000 mL. Somando, já passou do litro. O índice de choque é 104 dividido por 112, ou seja, 0,93 — abaixo do corte de 1,0, mas com náusea, que é sintoma de hipoperfusão. Ela é jovem e hígida: a pressão normal aqui não informa nada, porque a puérpera só descompensa depois de perder mais de 20% do volume. Isto é hemorragia pós-parto até prova em contrário.

  2. 4h27 — nomear e chamar

    Digo em voz alta: hemorragia pós-parto, protocolo aberto, e peço que chamem a plantonista, o anestesista e mais uma técnica. Registro 4h27 como horário do reconhecimento e confiro o nascimento às 4h01: a janela de três horas para iniciar tranexâmico vai até 7h01, e a dose das 4h31 ocorre trinta minutos após o parto. O reconhecimento da hemorragia não reinicia essa janela. Organizo controle do foco sem demora; sangramento refratário ou deterioração não esperam um prazo cirúrgico fixo.

  3. 4h28 — a mão antes de tudo

    Palpo o fundo uterino: amolecido, mal delimitado, dois dedos acima da cicatriz umbilical. Atonia. Inicio a compressão bimanual imediatamente e mando esvaziar a bexiga — sai um volume grande de urina e, com o útero comprimido, sai também um coágulo represado. A compressão não vai parar enquanto a droga não pegar.

  4. 4h30 — o que corre em paralelo

    Dois acessos 16 G com soro fisiológico aquecido. Colho hemograma, coagulograma, fibrinogênio, ionograma e prova cruzada na mesma punção. Oxigênio sob máscara a 10 L/min, membros inferiores elevados, manta térmica, sonda vesical de demora. Peço que a bolsa coletora seja instalada e que as compressas passem a ser pesadas — de agora em diante quero número, não impressão.

  5. 4h31 — as duas drogas juntas

    Ocitocina 5 UI endovenosas lentas em 3 minutos, seguidas de 20 UI em 500 mL de SF 0,9% a 250 mL/h. E ácido tranexâmico 1 g endovenoso em 10 minutos, quatro ampolas de 250 mg. Anoto os dois horários. O tranexâmico não é resgate: cada 15 minutos de atraso custa 10% do efeito, e depois de 3 horas do nascimento ele deixa de ser indicado.

  6. 4h36 — reavaliação e a decisão que a pressão não daria

    Frequência 118, pressão 104 por 62: índice de choque 1,13. A pressão sistólica ainda seria descrita como normal por qualquer um que só olhasse o número. O índice diz outra coisa — faixa de risco de transfusão. Cobro a agência transfusional e comunico à plantonista, que chega e assume. O útero está um pouco mais firme sob a minha mão, mas amolece quando eu alivio.

  7. 4h38 — o segundo degrau, com a checagem que evita o erro

    Antes da metilergometrina, confiro o cartão de pré-natal e a curva pressórica: sem hipertensão, sem pré-eclâmpsia. Metilergometrina 0,2 mg intramuscular. Se ela fosse hipertensa, esse degrau estaria vetado e o passo seguinte seria direto o misoprostol — e o balão entraria mais cedo na sequência.

  8. 4h45 — misoprostol e revisão do canal

    O útero continua sem sustentar o tônus. Misoprostol 800 µg por via retal, quatro comprimidos de 200 µg — insiro e sigo, sem parar o relógio para esperar os 15 a 20 minutos de latência. Enquanto isso, a plantonista revisa o canal com valva e boa iluminação: a sutura anterior está íntegra e não há laceração de colo. A placenta, reexaminada, está completa. Nenhum outro T em ação.

  9. 4h52 — o que a conta diz

    A bolsa coletora acumulou 900 mL desde as 4h30, e as compressas pesadas somam mais 380 mL. Com o que já havia no lençol e no chão antes da bolsa, a perda passa de 1,8 litro. Já foram 1.200 mL de cristaloide sem resposta sustentada. Frequência 116, pressão 96 por 58: índice 1,21. A plantonista indica hemocomponente e aciona o protocolo transfusional; como não havia sangue reservado, a agência libera concentrado de hemácias sem prova cruzada concluída, com termo assinado por ela e a bolsa rotulada. Eu confiro nome, rótulo, etiqueta, validade e sinais vitais antes de instalar.

  10. o desfecho

    Às 4h58, com a terceira droga fazendo efeito e o útero finalmente lenhoso, o sangramento cai para gotejamento. Duas unidades de concentrado de hemácias, temperatura mantida com manta e soro aquecido, diurese retomada. Às 6h o índice de choque está em 0,84 e a perda das últimas duas horas ficou abaixo de 50 mL/h. Cleide vai para leito de observação rigorosa por 24 horas, com ocitocina de manutenção a 3 UI/h — o que, na bolsa de 20 UI em 500 mL, corresponde a 75 mL/h na bomba.

  11. o que este caso ensina

    Entre a chamada da técnica e a primeira droga passaram-se quatro minutos, e todos os quatro foram gastos com coisas que não dependiam de ninguém chegar: nomear, comprimir, puncionar. A pressão arterial nunca ficou abaixo de 90 e teria autorizado a esperar em qualquer momento. O que mudou a conduta foi a conta de cabeça — poça, compressa, bolsa, frequência dividida por sistólica — e a decisão de tratar pelo maior número defensável em vez do mais confortável.

  12. Variação do caso — resposta e reavaliação

    Variação do caso de Cleide: o útero fica firme após as medidas iniciais, mas o sangramento continua. Isso muda a procura da causa: avaliar trauma, tecido e coagulação com a equipe, sem insistir apenas em mais uterotônico. Registrar o que respondeu e o que permanece.

  13. Variação do caso — quando mudar o plano

    Se a perda visível diminui, mas pulso, perfusão ou consciência pioram, procurar perda oculta e resposta inadequada à reposição. Reavaliar necessidade de controle invasivo e hemoterapia. Pressão ainda preservada não deve atrasar escalonamento de uma paciente em deterioração.

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Faça você

Rosália, 34 anos, quinta gestação e quatro partos vaginais prévios, 38 semanas e 4 dias, gestação gemelar. Hipertensão gestacional em acompanhamento, com pressões em torno de 145 por 92 nas últimas consultas e no trabalho de parto; não recebeu sulfato de magnésio. Trabalho de parto conduzido com ocitocina em bomba por nove horas. Ambos os recém-nascidos nasceram bem por via vaginal às 23h40 e 23h47. Você fez ocitocina 10 UI intramuscular após o desprendimento do segundo, e a placenta saiu às 23h55, aparentemente íntegra. À 0h12 a acompanhante chama: sangramento em jorro, lençol encharcado e coágulos grandes. Fundo uterino amolecido, três dedos acima da cicatriz umbilical. Pressão 138 por 88, frequência 112, paciente lúcida e queixando-se de tontura ao sentar.

  1. o que já sei

    Atonia uterina em paciente com três fatores de risco somados: grande multípara, útero superdistendido por gemelaridade e nove horas de exposição à ocitocina — o que dessensibiliza os receptores e prevê má resposta ao ocitócito. Índice de choque de 112 dividido por 138, ou seja, 0,81; ainda abaixo do corte, mas com tontura postural, que é sintoma de hipovolemia.

  2. o detalhe que muda a sequência

    Ela tem hipertensão gestacional. Isso veta um dos degraus do protocolo e obriga a reorganizar a ordem das drogas antes de precisar delas.

  3. conduta

    — sua vez —

Ver como fecharíamos

Nomeie o diagnóstico e chame o obstetra, o anestesista e a enfermagem antes de qualquer outra coisa, sem sair do lado dela. Mão no fundo uterino e compressão bimanual imediata, com a bexiga esvaziada e sonda de demora instalada. Dois acessos 16 G, cristaloide aquecido, coleta de hemograma, coagulograma, fibrinogênio, ionograma e prova cruzada, oxigênio sob máscara, manta térmica, bolsa coletora e pesagem de compressas — quero número, e a estimativa a olho já está errada para menos. Ocitocina 5 UI endovenosas lentas em 3 minutos seguidas de 20 a 40 UI em 500 mL de SF 0,9% a 250 mL/h, e ácido tranexâmico 1 g endovenoso em 10 minutos junto, sem esperar a falha de nada, com o horário do nascimento anotado para a janela de três horas. A metilergometrina está CONTRAINDICADA: hipertensão gestacional. O segundo degrau, aqui, é o misoprostol 800 µg por via retal — quatro comprimidos de 200 µg —, inserido de imediato e sem parar para esperar os 15 a 20 minutos de latência. E, como um dos degraus da escada foi retirado, o balão de tamponamento intrauterino sobe de posição: avise a equipe agora que ele pode ser necessário, para que o material esteja separado. Antecipe também que ela responde mal à ocitocina pela exposição prolongada, e não gaste minutos repetindo ocitócito. Em paralelo, revise o canal de parto com valva e boa luz e reexamine a placenta e as membranas — gemelar tem duas placentas ou uma placenta com dois cordões, e a retenção de cotilédone é fácil de passar. Reavalie a resposta hemodinâmica a cada 250 a 500 mL de cristaloide e calcule o índice de choque a cada aferição: sem resposta sustentada após 1.500 mL, ou índice igual ou maior que 1,0, a indicação é hemocomponente e a hemoterapia precisa ter sido acionada antes disso. Se o sangramento não ceder, o relógio do prazo cirúrgico começou à 0h12.

Gabarito da questão de abertura
Comentário

O uso universal de uterotônico após todos os nascimentos é o componente mais eficaz do manejo ativo do terceiro período, e a ocitocina é a droga de primeira linha: 10 UI por via intramuscular, duas ampolas de 5 UI, logo após o desprendimento da criança e antes do clampeamento do cordão, reduzindo em mais de 50% os casos de hemorragia por atonia. Restringir a profilaxia às pacientes de risco ignora o dado que organiza toda a prevenção — a maioria dos casos ocorre em mulheres sem fator de risco identificável —, e é pelo mesmo motivo que a estratificação nunca autoriza relaxar a vigilância no grupo de baixo risco: ela decide onde a puérpera fica e o que se prepara, não quem vai sangrar. Nenhuma outra medida preventiva substitui o uterotônico, e a massagem entra como vigilância complementar, com verificação do tônus a cada 15 minutos nas primeiras 2 horas. Por fim, dose de ataque endovenosa acima de 5 UI e bólus em menos de 30 segundos são desaconselhados: há relatos de colapso e óbito materno em cesariana após infusão endovenosa rápida de 10 UI.

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Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
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Plano de revisão

Em 7 dias

Reconstrua de memória, sem consultar: os quatro Ts com as frequências relativas, o que cada um faz o útero parecer à palpação e qual é o primeiro passo de cada um. Depois escreva as quatro drogas com dose, via e a contraindicação de cada uma, e diga em qual ordem elas entram numa paciente hipertensa. Se você travar na ordem, o furo é de sequência, não de farmacologia — e sequência é o que se perde às 4h da manhã. Aplicação comentada: Útero contraiu, mas o sangramento continua. Reavalie trauma, tecido e coagulação; repetir somente medidas para atonia pode deixar a causa ativa.

Em 30 dias

Pegue a última puérpera que você acompanhou no pós-parto imediato e refaça, no papel, a estimativa da perda pelos três métodos: poça e compressa, pesagem e bolsa coletora. Depois calcule o índice de choque de cada aferição de sinais vitais que estiver no prontuário e marque em que minuto ele cruzou 1,0 — se cruzou. Por fim, escreva a frase de quinze segundos com que você pediria ajuda por telefone naquele caso, e cronometre você lendo em voz alta.

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Agora atenda

Puérpera de parto vaginal há vinte minutos, com sangramento aumentado e útero amolecido, pressão ainda normal e frequência em ascensão. Conduza o atendimento: quantifique a perda, examine na ordem certa, prescreva o que é seu para prescrever, diga o que você faria com as próprias mãos e em que momento exato você chamaria o obstetra — e o que você diria a ele em quinze segundos.

Hemorragia pós-parto — Internato | OsceLabs