Ginecologia e ObstetríciaParto e assistência ao nascimento

Os dois relógios da bolsa rota

Rotura prematura de membranas ovulares (RPMO) pré-termo e a termo

A mesma perda de líquido é duas doenças: a termo a pergunta é quando induzir, pré-termo é por quanto tempo esperar — e quem encerra a espera, em qualquer semana, é a infecção.

Fontes deste capítulo

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção Primária à Saúde. Departamento de Ações Programáticas. Manual de gestação de alto risco [recurso eletrônico]. Brasília: Ministério da Saúde, 2022. 692 p. ISBN 978-65-5993-312-9

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Ciência, Tecnologia, Inovação e Insumos Estratégicos em Saúde. Departamento de Assistência Farmacêutica e Insumos Estratégicos. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais: Rename 2024 [recurso eletrônico]. Brasília: Ministério da Saúde, 2024. 252 p. ISBN 978-65-5993-710-3

Hospital Universitário da Universidade Federal da Grande Dourados (Ebserh). Protocolo PRT.UMUL.007 — Ruptura Prematura de Membranas Ovulares (Ruprema). Versão 01, emissão 04/03/2024, próxima revisão 04/03/2026. Publicado pela Portaria nº 062, de 04 de março de 2024, Boletim de Serviço nº 454, de 07 de março de 2024

Hospital Israelita Albert Einstein. Rotura Prematura de Membranas Ovulares (RPMO) — Guia do Episódio de Cuidado. Documento CPTW50.4, versão 4. Elaboração 15/04/2021, revisão 02/09/2025, aprovação 17/09/2025

Secretaria de Estado de Saúde do Distrito Federal. Fluxograma do Protocolo de Rotura Prematura de Membranas. Brasília: SES-DF

01

Responda antes de ler

Sobre o uso do sulfato de magnésio na rotura prematura de membranas, assinale a afirmação correta.

02

O paciente que você vai ver

São 21h40 de um domingo e a maternidade do hospital municipal tem oito leitos, uma obstetra de plantão e nenhum leito de terapia intensiva neonatal. O mais próximo fica a quarenta quilômetros, num hospital de referência que hoje respondeu por telefone que está com as seis vagas ocupadas. Você é o interno da noite. Na maca do corredor e na sala de observação estão duas mulheres, e a triagem escreveu a mesma frase nas duas fichas: perda de líquido pela vagina.

Suelma Praxedes tem 31 anos, é a terceira gestação, 39 semanas e 1 dia, e chegou às 20h50 dizendo que estava lavando louça quando molhou o chão. Trocou de roupa, veio de carro com o marido e continua perdendo líquido claro, sem cheiro, que já encharcou o segundo absorvente. Não tem contração nenhuma. O bebê mexe. A pressão é 118 por 76, a temperatura axilar é 36,3 °C e os batimentos fetais estão em 144. Ela pergunta quanto tempo vai demorar para ganhar neném e se pode tomar banho.

Franciene Cambraia tem 22 anos, é a primeira gestação, 27 semanas e 3 dias, e chegou às 21h20. Também perdeu líquido, também claro, também sem contração. A diferença é que ela chorou quando o marido perguntou se estava tudo bem, porque alguém na fila disse que com sete meses o bebê não vinga. A pressão é 104 por 62, a temperatura axilar é 36,8 °C e os batimentos fetais estão em 152. O cartão de pré-natal mostra uma ultrassonografia de dez semanas — a idade gestacional é confiável.

As duas têm a mesma doença e não têm a mesma doença. O nome é o mesmo, a fisiopatologia é a mesma, o exame que confirma é o mesmo — e a pergunta clínica é oposta. Diante de Suelma, a pergunta é quando fazer o parto nascer: hoje à noite, amanhã de manhã, ou quando o corpo dela resolver. Diante de Franciene, a pergunta é quanto tempo é possível não fazer o parto acontecer, e o que se faz com o tempo que se ganha.

A inversão é toda por conta da idade gestacional, e ela funciona porque dois relógios começam a correr no instante em que a bolsa rompe. O primeiro é o da infecção: a cavidade amniótica era estéril e fechada, deixou de ser as duas coisas, e a partir de agora cada hora aumenta a chance de bactéria subindo da vagina alcançar as membranas, o líquido, a placenta e o feto. O segundo é o da maturidade: cada dia dentro do útero é pulmão que amadurece, cérebro que se organiza, peso que se ganha, dia de terapia intensiva que não vai ser preciso.

Em Suelma, o segundo relógio já parou — com 39 semanas não há nada mais a amadurecer, então só o relógio da infecção conta, e a conduta anda na direção do parto. Em Franciene, os dois correm ao mesmo tempo e em sentidos contrários: esperar rende pulmão e custa risco de infecção. Todo o capítulo é a administração dessa corrida — o que se faz para atrasar um relógio, o que se faz para adiantar o outro, e quais são os sinais que dizem que a corrida acabou e o bebê precisa nascer hoje, tenha a idade que tiver.

E há um gesto que atravessa as duas camas: o toque vaginal. Ele é o exame que sua mão quer fazer, é o exame que o plantão inteiro espera que você faça, e é exatamente o exame que não se faz. Não porque doa, não porque seja difícil — porque encurta o relógio que você está tentando esticar, e não responde nenhuma pergunta que o espéculo não responda melhor.

03

Quem adoece disso

A rotura prematura das membranas ovulares acontece em cerca de 10% de todas as gestações, e é isso que a torna assunto de plantão e não de ambulatório: em uma maternidade que faz mil partos por ano, são cerca de cem mulheres chegando por essa queixa. Dessas dez em cada cem, oito estão no termo e duas estão antes dele — a proporção que o manual federal registra é de 80% dos casos a partir de 37 semanas.

Feita a conta, a rotura pré-termo fica em torno de 2% das gestações, e é exatamente essa a faixa que os protocolos hospitalares brasileiros descrevem: entre 2% e 3%. O caderno de atenção básica que ainda organiza o pré-natal na rede escreve a mesma coisa com números um pouco diferentes — incidência entre 3% e 18,5%, média de 10%, e cerca de 25% dos casos antes do termo, o que daria 2,5%. Vinte por cento ou vinte e cinco, a resposta cabe na mesma faixa e não muda conduta nenhuma; vale conhecer os dois porque eles aparecem escritos lado a lado.

O número que muda o comportamento é outro. Aqueles 2% de roturas pré-termo respondem por cerca de um terço dos partos prematuros, e a prematuridade é, nas palavras do protocolo hospitalar de 2024, um dos principais contribuintes para a morbidade e a mortalidade perinatais. É por isso que uma queixa banal — molhou a roupa — vira internação imediata e vigilância diária: não porque a rotura mate a mãe, mas porque ela é a porta de entrada mais comum para o nascimento antes da hora. Em números de mortalidade perinatal, a rotura pré-termo responde por cerca de 20%.

A recorrência é alta e quase nunca é perguntada. Cerca de uma em cada cinco mulheres que teve rotura prematura numa gestação terá de novo na seguinte, e o antecedente é o fator de risco isolado mais forte que existe para a doença. Isso tem uma consequência prática que não é do plantão e sim do pré-natal: a pergunta "na gestação passada a bolsa estourou antes da hora?" pertence à primeira consulta, e a resposta muda quem precisa ser vista mais vezes.

Do lado das complicações, três números organizam o medo. O descolamento prematuro de placenta ocorre em 2% a 5% dos casos — a mesma paciente que está internada esperando pode sangrar. O prolapso de cordão chega a 11%, e é a razão de o exame especular procurar alça de cordão antes de qualquer outra coisa quando a apresentação está alta. E a infecção da cavidade amniótica é a complicação que encerra a espera, seja qual for a semana em que ela chegue.

Por fim, a assimetria que este capítulo vai repetir. A rotura no termo tem prognóstico materno e perinatal bom e um problema de logística: quando induzir e com quê. A rotura pré-termo tem prognóstico ruim proporcional à precocidade e um problema de julgamento: quanto tempo esperar, com que vigilância, e em que ponto o risco de continuar dentro passa a ser maior que o de nascer. As duas ocupam o mesmo leito e exigem duas cabeças diferentes.

04

Por que acontece o que acontece

As membranas ovulares são duas, coladas uma na outra e frequentemente tratadas como uma só. A âmnio é a de dentro, avascular, banhada pelo líquido; o córion é a de fora, encostado na decídua materna. A resistência mecânica do conjunto não vem da espessura — as duas juntas são finas como papel molhado — e sim de uma malha de colágeno que se comporta como tecido: aguenta tração enquanto as fibras estiverem inteiras e cede de uma vez quando um número suficiente delas foi cortado.

Cortar essas fibras é o que a inflamação faz. Bactérias da flora vaginal sobem pelo canal cervical, alcançam a interface entre o córion e a decídua e desencadeiam resposta inflamatória local; os leucócitos recrutados liberam metaloproteinases de matriz, que são exatamente enzimas de degradar colágeno. O resultado é uma zona de enfraquecimento sobre o orifício interno do colo — a região que já sofre a maior tração mecânica, porque é onde a bolsa faz cunha. O manual federal é explícito ao apontar o processo inflamatório e infeccioso local como o fator causal mais influente.

Isso explica por que os fatores de risco parecem uma lista desconexa e não são. Infecção do trato genital inferior, infecção urinária, colo curto e cervicodilatação precoce operam pelo mesmo mecanismo: encurtam a distância entre a flora vaginal e as membranas, ou já denunciam que a barreira cervical não está fazendo seu trabalho. Sobredistensão uterina — gemelaridade, polidrâmnio, macrossomia — opera pelo outro braço, o da tração. Tabagismo, baixo índice de massa corporal, uso de drogas ilícitas e baixo nível socioeconômico entram pelos dois, degradando matriz e reduzindo defesa. E procedimentos invasivos, da amniocentese à cerclagem, entram pelo mais óbvio: alguém atravessou as membranas.

O termo que organiza o resto do capítulo é período de latência: quantas horas ou dias separam a rotura do momento em que as contrações começam sozinhas. Ele é curto no termo e longo antes dele, e a relação é inversa à idade gestacional — quanto mais precoce a rotura, mais dias em média a gestação segue. Essa é a boa notícia da rotura pré-termo, e é ela que torna a conduta expectante possível: não se está esticando um fio de horas, se está administrando dias a semanas.

A má notícia mora no mesmo lugar. O que faz a latência acabar é, em boa parte dos casos, a própria infecção — a mesma corioamnionite subclínica que rompeu as membranas continua produzindo mediadores inflamatórios, e mediador inflamatório na cavidade amniótica é estímulo para contração uterina. Por isso a espera não é um período neutro em que nada acontece: é um período em que uma doença silenciosa está trabalhando, e o trabalho de parto que começa sozinho às vezes é o primeiro sinal de que ela ganhou.

Perdido o líquido, aparece o segundo mecanismo de dano, que não tem nada a ver com bactéria. O líquido amniótico é espaço: é o que permite ao pulmão fetal encher e esvaziar seus movimentos respiratórios, ao membro se estender e ao cordão não ser esmagado. Oligoâmnio grave e persistente antes do fim do segundo trimestre produz hipoplasia pulmonar — pulmão que não se desenvolveu porque nunca teve para onde se expandir —, deformidades de face, mãos e pés por compressão, e restrição de crescimento. É por isso que a rotura muito precoce tem prognóstico ruim mesmo quando não infecciona.

E o oligoâmnio produz o terceiro mecanismo, o agudo. Sem líquido entre o cordão e a parede uterina, cada contração comprime o cordão, e compressão de cordão aparece na cardiotocografia como desaceleração variável. Essa é a razão de a vigilância da vitalidade não ser opcional na mulher que espera: o sofrimento fetal por compressão funicular pode aparecer sem contração perceptível e sem nenhum sinal de infecção. É um segundo motivo, independente, para interromper.

Junte os três e o desenho da doença fica claro. A infecção provoca a rotura; a rotura abre a cavidade à infecção; a cavidade infectada dispara o parto; e enquanto isso a falta de líquido estraga pulmão devagar e comprime cordão depressa. Não há como interromper esse ciclo sem tirar o feto de dentro — o que existe é a possibilidade de comprá-lo por algumas semanas, com antibiótico que atrasa a infecção e corticoide que adianta o pulmão. É isso, literalmente, o que a conduta expectante é.

Esquema da perda de líquido após ruptura das membranas
Esquema da perda de líquido após ruptura das membranas. A confirmação e a avaliação de infecção dependem da história e do exame.

Por que a idade gestacional é o eixo, e não o tempo de bolsa rota

É tentador organizar a conduta pelo relógio de parede: bolsa rota há tantas horas, faça isso. O relógio importa, e mais adiante ele vai aparecer com um corte declarado. Mas ele não é o eixo, e a razão é aritmética. O risco de esperar cresce com o tempo de bolsa rota; o benefício de esperar depende de quanto falta para o pulmão fetal estar pronto. Como o primeiro termo cresce devagar e o segundo varia de zero, no termo, a semanas inteiras de ganho, numa gestação de 26 semanas, é o segundo que domina a soma.

Traduzindo em decisão: numa mulher de 39 semanas, esperar não compra nada e custa risco de infecção; a conta fecha na direção do parto quase imediatamente. Numa mulher de 27 semanas, cada semana ganha reduz de forma substancial a chance de doença de membrana hialina, de hemorragia intraventricular e de enterocolite necrosante; a conta fecha na direção de esperar, mesmo pagando dias de risco infeccioso. E existe uma faixa no meio — entre 34 e 37 semanas — em que os dois termos ficam parecidos, e é exatamente aí que os documentos brasileiros discordam entre si.

É por isso que o manual federal insiste, antes de qualquer faixa, que a datação seja precisa e que os protocolos por idade gestacional sejam usados como norteadores, não como régua rígida — e chega a dizer que um serviço com boa terapia intensiva neonatal pode operar num limite e outro, sem ela, em outro. A frase é incômoda porque parece afrouxar a norma. Ela não afrouxa: ela nomeia a variável que a norma esconde, que é o berçário que vai receber a criança.

O que o toque vaginal faz, mecanicamente

A proibição do toque não é etiqueta. Com as membranas íntegras, o dedo enluvado que entra na vagina esbarra numa barreira física: a bolsa. Com as membranas rotas, a mesma vagina e a mesma cavidade amniótica são um espaço contínuo, e o dedo empurra flora vaginal para cima — literalmente inocula. O manual federal escreve a regra sem rodeio: na admissão da gestante com rotura, principalmente antes do termo, com vitalidade assegurada e destinada à conduta expectante, o toque não deve ser realizado, por ser ato facilitador de infecção.

A grandeza do dano é conhecida e é dose-dependente: o número de exames vaginais com bolsa rota se associa a sepse neonatal. Não existe um toque que seja de graça e outro que custe; existe uma contagem, e cada unidade a mais é risco a mais. Isso vale inclusive quando a mulher já entrou em trabalho de parto — o capítulo de assistência ao trabalho de parto trata da frequência dos toques na mulher de risco habitual, e é lá que está a régua para a mulher em trabalho de parto estabelecido. Aqui a regra é mais simples porque a situação é mais restrita: fora de trabalho de parto e com bolsa rota, não se toca.

O que se perde ao não tocar é menos do que parece. A informação que o toque daria — dilatação e apagamento — não muda a conduta de quem está em conduta expectante, porque a decisão de esperar ou interromper não depende do colo. E as informações que realmente importam à admissão, quais sejam a confirmação do diagnóstico, o aspecto do líquido e a presença de alça de cordão, são todas obtidas pelo exame especular, feito com espéculo estéril e sem dedo nenhum dentro.

05

Como se apresenta de verdade

Na rotura de membranas, a pergunta não é apenas há quanto tempo rompeu: é se ainda é seguro esperar nesta idade gestacional. Você deve confirmar o diagnóstico com método apropriado, procurar infecção, trabalho de parto e comprometimento fetal e explicar o objetivo da conduta expectante.

A palavra "prematura", nessa definição, não se refere ao feto: refere-se ao trabalho de parto. Rotura prematura de membranas é rotura antes do trabalho de parto, e pode acontecer com 39 semanas — foi o que aconteceu com Suelma. Quando ela acontece antes de 37 semanas, o nome ganha um segundo adjetivo e vira rotura prematura pré-termo. A confusão entre os dois é a origem de uma boa parte dos erros de conduta deste capítulo, e de pelo menos um erro de redação num documento oficial brasileiro.

Percurso clínico: Separar infecção, prematuridade e profilaxia

Confirme a suspeita de ruptura e avalie idade gestacional, sinais de infecção e condição fetal. Separe antibiótico de latência, profilaxia intraparto para EGB e tratamento de infecção: têm finalidades e indicações diferentes. Estabilidade não elimina necessidade de vigilância e plano de acesso.

A forma típica: a mulher sabe antes de você

O quadro clássico é a perda súbita de líquido claro em grande volume, seguida de perda contínua ou intermitente de pequeno volume. A mulher costuma descrever o momento com precisão de hora — estava lavando louça, estava se levantando da cama —, porque a sensação é inequívoca e diferente de tudo que ela viveu na gestação. Quando a história é essa, a suspeita clínica se confirma em cerca de 90% dos casos, e o exame que vem depois é confirmação, não investigação.

O que se pergunta na anamnese é curto e cada item muda conduta. A hora exata da rotura, porque ela inicia a contagem do tempo de bolsa rota. A cor: claro é o esperado, meconial pede vigilância diferente, sanguinolento levanta descolamento, e amarelado ou esverdeado com odor levanta infecção. O odor, que quando fétido é o achado mais específico de infecção intra-amniótica que a beira do leito oferece. A quantidade e se continua saindo. E a presença de contração, porque a definição exige que não haja trabalho de parto e porque a mulher que já contrai tem outra conduta.

Ao exame geral, a palpação abdominal pode revelar sensação de pouco líquido — o útero "veste" o feto, as partes fetais ficam fáceis demais de identificar, e a altura uterina pode ter caído em relação à consulta anterior. Não é sinal confiável isoladamente, mas é o primeiro dado objetivo que a mão colhe e serve para calibrar a expectativa antes do espéculo.

As formas que enganam, e as três que mais enganam

Nem toda perda é súbita e volumosa. A rotura alta, longe do colo, produz gotejamento intermitente e escasso, que a mulher confunde com corrimento aumentado ou com escape de urina, e que ela às vezes relata como "molhadinho há três dias". Nessa apresentação a história perde valor e o exame ganha tudo: o líquido pode não estar refluindo pelo orifício externo no momento em que o espéculo abre, e o diagnóstico depende de manobra facilitadora ou de exame auxiliar.

Os três diagnósticos diferenciais que respondem por quase todos os casos são perda urinária, conteúdo vaginal excessivo e saída do tampão mucoso. A perda urinária é frequente no terceiro trimestre, tem cheiro característico, sai em jato com o esforço e cessa entre esforços. O corrimento é espesso, aderente às paredes, e não escorre pelo colo. O tampão é gelatinoso, muitas vezes com raia de sangue, e é evento único e não perda continuada — e, importante, é sinal de modificação cervical, não de rotura.

Há uma quarta possibilidade que não é diagnóstico diferencial e sim erro de sequência: a mulher com rotura confirmada e sangramento associado. Rotura com sangramento não é rotura simples até que se afaste descolamento prematuro de placenta e placenta prévia, e são esses dois os capítulos que descrevem cada um deles. O que este capítulo assume é o alerta: sangue junto com a perda de líquido reordena a investigação, e a ultrassonografia deixa de ser opcional.

A rotura no termo: um quadro simples e uma decisão

A partir de 37 semanas o quadro clínico é quase sempre banal. Mulher bem, feto bem, sem contração, sem febre, com líquido claro. Não há investigação a fazer além de confirmar o diagnóstico, checar a vitalidade fetal e ler o cartão de pré-natal, com atenção especial ao resultado da cultura para estreptococo do grupo B, que é o dado que muda a prescrição das próximas horas.

O que a apresentação esconde é o único desfecho que importa aqui, e ele é temporal. No termo o período de latência é curto, e é por isso que a janela discutida entre os documentos brasileiros se mede em horas e não em dias; quem não entra em trabalho de parto nessas horas fica exposta, hora a hora, ao risco de infecção intra-amniótica e de endometrite. A decisão clínica, portanto, não é sobre diagnóstico: é sobre quanto dessa espera espontânea vale a pena aceitar, e é ela que o bloco de divergências vai abrir.

Uma coisa a apresentação no termo não permite: mandar para casa. A rotura confirmada em qualquer idade gestacional é critério de internação, e a mulher que vai esperar espera dentro do hospital, com temperatura aferida e batimentos auscultados. "Voltar quando começarem as dores" é conduta de trabalho de parto com bolsa íntegra, e não desta doença.

A rotura pré-termo: o mesmo quadro, outra leitura

Antes de 37 semanas o quadro de admissão é o mesmo — e é isso que engana. A mulher está bem, o feto está bem, não há febre e não há contração; a diferença inteira está no número escrito no cartão. É por isso que a idade gestacional precisa ser confirmada antes de qualquer decisão, e por isso a ultrassonografia precoce vale mais aqui do que em quase qualquer outro momento da gestação.

A leitura muda em três pontos. Primeiro, a apresentação de admissão não é o quadro: é o dia zero de uma internação que vai durar dias ou semanas, e tudo que se colhe agora é linha de base para comparação. Segundo, o que se procura no exame não é só a confirmação da rotura, é a exclusão de infecção já instalada — que muda a conduta de esperar para interromper na mesma consulta. Terceiro, a quantidade de líquido residual, que a ultrassonografia estima, é o dado prognóstico que ninguém colhe na admissão e que faz falta depois.

Uma apresentação particular merece nome: a mulher que chega com rotura pré-termo e já em trabalho de parto. Ela não é candidata a conduta expectante, porque o corpo já decidiu. O que muda é o que ainda dá tempo de fazer antes do nascimento — profilaxia para estreptococo do grupo B, corticoide se houver janela, sulfato de magnésio se for muito prematuro — e a vaga na terapia intensiva neonatal, que precisa ser buscada agora e não depois.

Antes da viabilidade: a apresentação que muda a conversa, não o exame

Abaixo do limite de viabilidade, a apresentação clínica é idêntica e o significado é outro. O prognóstico é desfavorável e o manual federal o diz com todas as letras: via de regra, mesmo com conduta expectante, o concepto não terá condições de desenvolvimento pós-natal. A razão não é a infecção, é o oligoâmnio persistente numa fase em que o pulmão ainda depende de espaço para se formar.

O que a apresentação exige, aqui, é conversa e registro. O casal precisa de informação detalhada sobre o prognóstico perinatal e sobre o risco materno, com espaço para dúvida e para tempo — o manual observa que a concordância às vezes só vem depois de alguns dias, com o oligoâmnio persistindo e com boa relação médico-paciente. E qualquer que seja a decisão, ela é registrada por escrito, com assinatura.

A faixa entre 22 e 24 semanas é a que o próprio manual manda particularizar, e é a que os protocolos hospitalares tratam como zona de individualização. Nenhum documento brasileiro entrega um número que decida por você aqui, e este capítulo não vai fingir que entrega: o que existe é uma conversa estruturada, um serviço com berçário conhecido, e uma decisão compartilhada.

Quando a apresentação já é a infecção

A corioamnionite pode ser o motivo da vinda ou aparecer no quinto dia de internação, e o quadro completo é reconhecível: febre materna, taquicardia da mãe, taquicardia do feto, útero doloroso à palpação, líquido de odor fétido ou francamente purulento escoando pelo orifício do colo. Quando os cinco estão juntos, ninguém erra.

O problema é que quase nunca estão. A forma que mata é a subclínica, em que o único achado é uma leucocitose que subiu, ou uma taquicardia fetal que ninguém relacionou, ou movimentos respiratórios fetais que sumiram do perfil biofísico. É por isso que a vigilância é diária e escrita, e por isso o bloco de critérios deste capítulo dedica uma tabela inteira ao desacordo entre os documentos brasileiros sobre o que basta para dizer que há infecção.

Duas armadilhas de leitura, aqui. A primeira: corticoide altera o hemograma por cerca de 48 horas, e leucocitose nesse intervalo não pode ser lida como infecção sem outro dado. A segunda: taquicardia materna também é efeito de betamimético e de dor, e taquicardia fetal isolada pode ser febre materna de qualquer origem. Nenhum dos dois invalida o achado — os dois obrigam a repetir a medida e a somar.

06

Como fechar o diagnóstico

A investigação da rotura prematura tem uma característica incomum: o exame que faz o diagnóstico é gratuito, dura dois minutos e está disponível em toda maternidade do país. O que costuma faltar não é recurso, é ordem — a sequência dos gestos e a disciplina de não fazer o que a mão quer fazer.

A ordem que os protocolos brasileiros repetem é esta: anamnese dirigida com a hora da rotura e as características do líquido; confirmação pelo exame especular; procura ativa de sinais de infecção materna e fetal, clínicos e laboratoriais; ultrassonografia obstétrica; internação; avaliação da vitalidade fetal; coleta do swab para estreptococo do grupo B; e só então a decisão sobre via de parto e momento da interrupção. Note o que não está na lista.

O exame especular é o exame

O exame especular é feito com espéculo estéril, boa iluminação, e a paciente em posição ginecológica. O que confirma o diagnóstico é a visualização direta de líquido amniótico saindo pelo orifício externo do colo, espontaneamente ou após esforço. Paredes vaginais limpas com líquido acumulado no fundo de saco posterior sustentam o mesmo diagnóstico. Quando nada sai, existem manobras facilitadoras aceitas: pedir que a paciente tussa ou faça Valsalva, e mobilizar a apresentação fetal para cima, o que descola a cabeça do colo e libera o líquido represado atrás dela.

Enquanto o espéculo está aberto, três coisas a mais são colhidas de graça, e esquecê-las custa uma segunda passagem. A primeira é a procura de alça de cordão no canal ou na vagina — prolapso de cordão complica até 11% das roturas e é emergência de minutos. A segunda é a caracterização do líquido quanto a cor, cheiro e presença de grumos. A terceira é o material para as culturas que o serviço tiver protocolo de colher, incluindo o swab vaginal e anal para estreptococo do grupo B, que é o exame que decide a prescrição do parto.

O que não entra: o dedo. E há um detalhe de execução que a pressa atropela — o espéculo é introduzido sem lubrificante que altere o pH, porque parte dos exames auxiliares se baseia justamente em pH, e porque lubrificante contamina a lâmina de cristalização.

Os exames auxiliares e o que cada um vale de verdade

A prova de cristalização é a mais antiga e a mais disponível: material do fundo de saco e da proximidade do colo é espalhado numa lâmina, deixado secar e olhado ao microscópio; a presença de líquido amniótico produz um padrão arborescente, descrito como folha de samambaia. O ponto fraco é declarado pelo próprio caderno federal: falsos-negativos são comuns, sobretudo quando já passou tempo entre a rotura e o exame. Serve para confirmar, não para descartar.

A medida do pH vaginal com fita explora o fato de o líquido amniótico ser alcalino e o conteúdo vaginal ser ácido. Os dois documentos federais que tratam do tema fixam o corte em pontos ligeiramente diferentes — um escreve acima de 6, o outro acima de 6,5 —, e ambos avisam que falsos-positivos e falsos-negativos são frequentes. Sangue, sêmen, urina, antisséptico e vaginose bacteriana alcalinizam a vagina e produzem o mesmo resultado que a rotura. Também serve para reforçar, não para decidir.

A ultrassonografia obstétrica não fecha diagnóstico e é o exame mais útil da lista mesmo assim. Um índice de líquido amniótico abaixo do limite inferior para a idade gestacional, numa mulher com história compatível, é fortemente sugestivo; e o volume de líquido residual, medido na admissão, é a linha de base de todo o seguimento e um dos elementos que decidem se um serviço pode oferecer acompanhamento fora do leito. Ela também responde a apresentação, o peso fetal estimado e a localização placentária, todos necessários para a decisão de via de parto.

Os testes imunocromatográficos, que detectam proteínas específicas do líquido amniótico na secreção vaginal, têm sensibilidade e especificidade altas e são a resposta técnica para o caso duvidoso. O manual federal os cita pelo nome e acrescenta a frase que importa no Brasil: são de custo elevado e quase nunca disponíveis na prática diária. Vale saber que existem e vale não construir o raciocínio em cima deles.

O swab do estreptococo e a procura da causa

Dois exames da admissão são colhidos por você e são os únicos em que a técnica de coleta muda o resultado. O primeiro é o swab para estreptococo do grupo B. A coleta é vaginal e endoanal, e a soma das duas é o que dá sensibilidade: o manual federal descreve introduzir uns 2 cm do swab no terço inferior da vagina, girando-o contra toda a circunferência da parede, e em seguida meio centímetro no ânus, além do esfíncter — com o mesmo swab ou com um segundo. Não se usa espéculo para essa coleta, e o material vai para meio de transporte de Stuart. A orientação prévia importa: banho ou evacuação imediatamente antes reduzem o rendimento, e quando isso já aconteceu pela manhã, a coleta pode ser feita no fim da tarde.

Na mulher com rotura, esse swab tem uma peculiaridade que o diferencia do rastreio de rotina: ele é colhido no momento da internação, em qualquer idade gestacional pré-termo, e não na janela de 36 semanas e 0 dia a 37 semanas e 6 dias em que o rastreio universal acontece. O motivo é óbvio quando dito: ela pode parir antes da janela. As regras do rastreio de rotina, de quem colhe, quando e o que fazer com cada resultado, são do capítulo de estreptococo do grupo B desta apostila, que ainda está por escrever; o que este capítulo assume é a coleta na admissão e a leitura do resultado para decidir a profilaxia intraparto.

O segundo par é urina tipo I e urocultura, e ele não é rastreio: é procura de causa tratável. Infecção do trato urinário é fator de risco reconhecido para a rotura, e uma bacteriúria encontrada agora vai ser tratada durante a internação. Há um resultado que muda mais do que o tratamento: urocultura positiva para estreptococo do grupo B em qualquer momento da gestação é considerada colonização maciça, dispensa a coleta do swab e indica a profilaxia intraparto por si só. O tratamento da infecção urinária na gestante, com os esquemas e as durações, é do capítulo que trata dela; aqui a informação que importa é qual agente veio.

Culturas cervicais e vaginais para gonococo e clamídia entram quando o serviço tiver protocolo e disponibilidade — o caderno federal de atenção básica as menciona com essa ressalva. Elas não mudam a conduta obstétrica desta internação e mudam o tratamento do casal.

Datar a gestação é o exame diagnóstico mais importante

Toda a conduta deste capítulo é uma função da idade gestacional, e o número que entra nessa função vem de outro lugar. A datação confiável é a do primeiro trimestre, e o cartão de pré-natal é onde ela está. O manual federal é explícito ao pedir que a datação seja muito precisa, levando em conta os elementos clínicos e a ultrassonografia precoce, antes de aplicar qualquer protocolo por faixa.

Na prática de plantão, o problema aparece de três formas. A mulher sem pré-natal, em que a datação será por ultrassonografia tardia, com margem de erro de duas a três semanas — margem que pode atravessar uma fronteira de conduta inteira. A mulher com data de última menstruação incerta e ultrassonografia de terceiro trimestre no cartão, situação em que a tentação é usar o número mais recente, que é o menos confiável. E a mulher com datação boa mas registro ilegível, em que o que falta é tempo de procurar. O capítulo de diagnóstico de gravidez e cálculo de idade gestacional é o dono dessa régua; aqui basta a consequência: sem data confiável, a decisão de esperar ou interromper não tem base.

Quando a incerteza é irredutível e cai perto de uma fronteira, a saída não é escolher o número que dá o resultado desejado. É explicitar a incerteza no prontuário, discutir com quem vai receber o recém-nascido e conduzir pela margem mais conservadora para o feto — o que quase sempre significa tratar como se fosse a idade menor, garantindo corticoide, sulfato de magnésio e vaga em terapia intensiva neonatal.

Os exames de admissão e o ritmo de repetição

A lista de admissão do manual federal é curta e cada item tem função: urina tipo I e urocultura, porque infecção urinária é causa e é tratável; hemograma e proteína C reativa, como linha de base do rastreio de infecção; e a pesquisa de estreptococo do grupo B, colhida do introito vaginal e da região anal. A avaliação clínica que acompanha é igualmente simples: pulso, temperatura, pressão arterial, tônus uterino e presença de fisometria.

O ritmo de repetição diverge pouco e vale conhecer: o intervalo do manual federal para o par hemograma e proteína C reativa é de dois a três dias; o protocolo hospitalar de 2024 escreve a cada dois dias; e o guia de episódio de cuidado escreve a cada 48 a 72 horas, acrescentando urina e urocultura ao pacote repetido. Na prática, dois a três dias é o consenso, e a decisão de encurtar o intervalo é clínica: qualquer alteração no exame físico antecipa a coleta.

Duas cautelas de interpretação, que valem mais que o exame. O corticoide eleva leucócitos por cerca de 48 horas, o que obriga a anotar no pedido a data da última dose. E a proteína C reativa isolada tem desempenho ruim para diagnosticar infecção intra-amniótica; o que informa é a tendência entre coletas, não o valor de uma delas.

A vigilância fetal enquanto se espera

O feto que espera é vigiado por dois motivos independentes: pode estar sendo infectado e pode estar tendo o cordão comprimido. Os métodos são os mesmos e as leituras são diferentes. A ausculta dos batimentos é o exame de base, feita várias vezes ao dia; o protocolo hospitalar de 2024 escreve a cada seis horas.

A cardiotocografia tem uma limitação de idade gestacional que decide sua indicação, e os protocolos a expressam pelo corte, não pela explicação: o protocolo hospitalar de 2024 a indica a partir de 30 semanas na admissão e manda individualizar durante a espera, enquanto o manual federal, escrevendo para a faixa de 24 a 34 semanas, pede cardiotocografia diária. A razão habitualmente invocada para o corte é a imaturidade autonômica do feto muito prematuro, que produz traçados de leitura pouco confiável — mas nenhum dos documentos consultados a escreve, e quem decide qual método usar abaixo de 30 semanas é o protocolo do serviço. O guia hospitalar de episódio de cuidado também pede diária, e nomeia o alvo: vigilância de compressão funicular.

A ultrassonografia com Doppler e o perfil biofísico fetal completam o pacote, com frequência que também varia entre documentos — duas vezes por semana no manual federal, semanal no protocolo hospitalar. Dentro do perfil biofísico, um parâmetro tem peso especial nesta doença: a ausência de movimentos respiratórios fetais entra explicitamente na lista de sinais sugestivos de infecção intrauterina do manual federal e reaparece na lista do protocolo hospitalar. Não é um dado de vitalidade apenas; é um dado de infecção.

E há o parâmetro que ninguém pede e que muda a conversa com a família: a estimativa do peso fetal. Ela entra na decisão do neonatologista, entra na busca de vaga e entra na informação que se dá ao casal. Ela é pedida na admissão, junto com a primeira ultrassonografia, e não na véspera do parto.

07

As quatro decisões, as faixas que as governam e o que não fecha nos documentos

São quatro as decisões deste capítulo, e cada uma tem uma régua brasileira com nome e data. Diagnosticar: exame especular, com o toque vaginal proscrito — Manual de Gestação de Alto Risco (MS, 2022), capítulo 7.2 e 7.3. Induzir no termo: postura ativa para desencadeamento do trabalho de parto — mesmo manual, 7.6. Esperar antes do termo: conduta expectante de 24 a 34 semanas, com corticoide, antibiótico e vigilância — 7.5. Interromper: cinco motivos declarados — 7.5.1. O manual de 2022 é a régua federal em uso, e a prova disso não é a ausência de substituto: é que um protocolo hospitalar publicado por portaria em março de 2024 o cita como fonte e reproduz o fluxograma dele. O que segue são as faixas, os critérios e a aritmética — inclusive onde ela não fecha.

  1. 1Confirme com o espéculo estéril e registre a hora da rotura. Não toque. Enquanto o espéculo está aberto, procure alça de cordão, descreva cor e odor do líquido e colha o swab vaginal e anal para estreptococo do grupo B.
  2. 2Confirme a idade gestacional pelo cartão, pela ultrassonografia mais precoce que existir. É esse número que decide tudo o que vem abaixo — e é ele, não o tempo de bolsa rota, que define a faixa.
  3. 3Interne. Rotura confirmada é internação em qualquer idade gestacional. Colha hemograma, proteína C reativa, urina tipo I e urocultura; meça pulso, pressão, temperatura e tônus uterino; ausculte o feto.
  4. 4Procure infecção intra-amniótica ANTES de escolher a faixa. Se houver, a faixa não importa: a conduta é resolver a gestação em qualquer idade gestacional, e o antibiótico passa de profilático a terapêutico.
  5. 5Sem infecção e com feto em boas condições, aplique a faixa: a termo, conduta ativa; de 34 a 36 semanas e 6 dias, conduta ativa na maioria dos serviços brasileiros; de 24 a 33 semanas e 6 dias, conduta expectante com o pacote completo; abaixo da viabilidade, decisão compartilhada e registrada.
  6. 6Monte a espera com quatro peças, quando a faixa for a expectante: corticoide para o pulmão, antibiótico para a latência, sulfato de magnésio na iminência do parto se for muito prematuro, e vigilância diária escrita. Busque a vaga de terapia intensiva neonatal no dia da internação.
  7. 7Reavalie todo dia com os mesmos termos, e interrompa quando aparecer qualquer um dos motivos declarados: infecção materna ou fetal, comprometimento da vitalidade, maturidade alcançada, trabalho de parto espontâneo ou a semana de corte do serviço.

As faixas de idade gestacional em quatro documentos brasileiros

Idade gestacionalManual de Gestação de Alto Risco (MS, 2022)Fluxograma da Secretaria de Saúde do Distrito FederalProtocolo de hospital universitário federal (2024)Guia de episódio de cuidado hospitalar (versão 4, 2025)
Abaixo de 22 semanasCoberta por “antes da viabilidade fetal ou 24 semanas”: prognóstico desfavorável, informação detalhada ao casal, decisão registrada por escritoFaixa própria: acolhimento, orientação e indução após termo assinado; se houver recusa, conduzir como 22 a 23 semanasSem faixa. A menção mais baixa é a de que antibiótico pode ser considerado após 20 semanasCoberta por “abaixo de 24 semanas”: conduta ativa ou expectante, individualizada
22 a 23 semanas e 6 diasMesma faixa anterior; o texto manda particularizar entre 22 e 24 semanasFaixa própria: indução após termo assinado ou conduta expectante com monitorização; se os controles forem normais, evoluir a conduta a partir de 24 semanasFaixa “23/24 semanas”: individualizar; sem corticoide, sem sulfato de magnésio, sem profilaxia para estreptococo e sem tocólise antes da viabilidade, considerada a partir de 23 semanasMesma faixa “abaixo de 24 semanas”: sem corticoide, sem neuroproteção, sem profilaxia para estreptococo e sem cesariana; antibiótico de latência pode ser considerado
24 semanas e 0 diaPertence às duas faixas ao mesmo tempo: “antes da viabilidade ou 24 semanas” e “entre 24 e 34 semanas”Pertence só à faixa de 24 a 33 semanas e 6 diasPertence às duas ao mesmo tempo: à faixa “23/24 semanas” e à faixa de 24 a 33 semanas e 6 diasPertence só à faixa de 24 a 33 semanas e 6 dias
24 a 33 semanas e 6 diasConduta expectante com repouso relativo, hidratação oral generosa, controle de sinais vitais, hemograma e proteína C reativa a cada 2 a 3 dias, cardiotocografia diária, Doppler e perfil biofísico duas vezes por semana, corticoide, antibiótico e tocolíticos evitadosConduta expectante com monitorização de infecção e de bem-estar fetal, corticoterapia, antibiótico de latência e neuroproteção na iminência do parto até 32 semanasConduta expectante com antibiótico de latência, corticoide, swab para estreptococo, sulfato de magnésio abaixo de 32 semanas e busca de vaga em terapia intensiva neonatalConduta expectante na ausência de corioamnionite e de sofrimento fetal, com internação, corticoide, antibiótico de latência e vigilância clínica e laboratorial
34 a 36 semanas e 6 diasCoberta por “após 34 semanas”: conduzir como no termo, com resolução, principalmente onde houver suporte neonatal adequado; serviços com menor infraestrutura podem esperar até 36 semanasConduta ativa, com resolução da gestação e antibioticoprofilaxia para estreptococo do grupo BTradicionalmente indução do trabalho de parto, com rastreio e profilaxia para estreptococo e corticoterapia individualizada, sem atrasar a resolução para dar corticoideConduta ativa, com indução em até 12 horas; a conduta expectante nessa faixa deve ser individualizada para casos selecionados
37 semanas ou maisPostura ativa para desencadeamento do trabalho de partoConduta ativa, com resolução conforme indicação obstétricaInterrupção conforme indicação obstétrica, com profilaxia para estreptococo conforme o resultado do pré-natalPode-se aguardar o trabalho de parto espontâneo até 12 horas do diagnóstico; após esse período a indução torna-se obrigatória

O que cada documento exige para dizer que há corioamnionite

DocumentoFebre exigidaQuantos outros critérios são necessáriosCorte de leucócitosDemais achados listados
Manual de Gestação de Alto Risco (MS, 2022), item 7.5.2Febre materna aparece como um dos quatro sinais, sem valor numérico e sem ser obrigatóriaNenhum mínimo declarado — a lista é de “sinais sugestivos”Acima de 20.000/mm³ ou com desvio significativo à esquerda; abaixo de 20.000, aumento de 20% em relação a exames anterioresTaquicardia materna e/ou fetal; ausência de movimentos respiratórios fetais no perfil biofísico
Fluxograma da Secretaria de Saúde do Distrito FederalTemperatura igual ou acima de 37,8 °CDois parâmetros — mas ligados à febre por “e/ou”, o que na leitura literal dispensa a febreAcima de 15.000 células por mililitro, ou elevação sustentada progressivaFrequência materna acima de 100 bpm; batimentos fetais acima de 160 persistentes; trabalho de parto ou sensibilidade uterina; secreção uterina purulenta
Guia de episódio de cuidado hospitalar (versão 4, 2025)Febre materna, sem valor numérico, e obrigatóriaPelo menos umAcima de 15.000/mm³, na ausência de corticoideTaquicardia materna acima de 100 bpm ou fetal acima de 160 bpm; secreção vaginal purulenta; dor uterina à palpação
Protocolo de hospital universitário federal (2024)Igual ou acima de 39,0 °C, ou dois episódios entre 38,0 e 38,9 °C separados por 45 minutos, sem outra fonte aparenteNenhum — os demais achados são descritos como “outros sintomas que podem estar associados”Acima de 15.000/mm³ na ausência de corticoide e com desvio à esquerdaTaquicardia materna acima de 100 bpm; batimentos fetais acima de 160 bpm por no mínimo 10 minutos; secreção purulenta pelo orifício externo; sensibilidade uterina; bacteremia; ausência de movimentos respiratórios fetais

Antibiótico para prolongar a latência: o mesmo objetivo, quatro receitas

DocumentoNa admissãoPrimeiras 48 horasDepois das 48 horasAlternativa declarada
Manual de Gestação de Alto Risco (MS, 2022), item 7.5Nada além da coleta vaginal e perianal antes de começarAmpicilina 2 g por via endovenosa a cada 6 horas, com o objetivo declarado de prevenir a doença neonatal pelo estreptococo do grupo BAmoxicilina 500 mg por via oral a cada 8 horas por mais cinco dias, associada a dose única de azitromicina — a dose da azitromicina não é declaradaNenhuma; o texto registra que o emprego não é unânime entre os serviços
Fluxograma da Secretaria de Saúde do Distrito FederalAzitromicina 1 g por via oral em dose únicaAmpicilina 2 g por via endovenosa a cada 6 horasAmoxicilina 500 mg por via oral a cada 8 horas por 5 diasCefazolina 1 g endovenosa a cada 8 horas por 48 horas e depois cefalexina 500 mg oral a cada 6 horas por 5 dias; ou clindamicina 900 mg endovenosa a cada 8 horas com gentamicina 5 mg/kg/dia por 48 horas e depois clindamicina 300 mg oral a cada 8 horas por 5 dias
Protocolo de hospital universitário federal (2024)Azitromicina 1 g por via oralAmpicilina 2 g por via endovenosa a cada 6 horasAmoxicilina 875 mg por via oral a cada 12 horas ou 500 mg a cada 8 horas, por mais cinco diasCefazolina 1 g endovenosa a cada 8 horas por 48 horas com azitromicina 1 g oral em dose única, seguidas de amoxicilina 500 mg oral a cada 8 horas por 5 dias; o texto veta amoxicilina com clavulanato pelo risco de enterocolite necrosante
Guia de episódio de cuidado hospitalar (versão 4, 2025)Azitromicina 1 g por via oral em dose únicaAmpicilina 2 g por via endovenosa a cada 6 horasAmoxicilina 500 mg por via oral a cada 8 horas até completar 7 dias de terapêutica, se houver alta ou retirada do acesso venosoNa alérgica: vancomicina 1 g endovenosa a cada 12 horas com azitromicina 1 g oral em dose única

Dose, apresentação e quantos frascos — mulher de 70 kg, contas refeitas

Fármaco e esquemaApresentaçãoO que sai da farmáciaConsta na Rename 2024?
Betametasona 12 mg intramuscular a cada 24 horas, 2 dosesAcetato 3 mg/mL mais fosfato dissódico 3 mg/mL — 6 mg de betametasona por mL, ampola de 1 mL2 ampolas por dose (2 mL); 4 ampolas no ciclo, total de 24 mgSim, componente básico
Dexametasona 6 mg intramuscular a cada 12 horas, 4 dosesFosfato dissódico 4 mg/mL, ampola de 2,5 mL (10 mg por ampola)1,5 mL por dose; 6 mL no ciclo, total de 24 mg — compram-se 3 ampolas e usam-se 24 dos 30 mgSim, componente básico
Ampicilina 2 g endovenosa a cada 6 horas por 48 horasFrasco-ampola de 1 g de pó para solução injetável2 frascos por dose, 8 doses, 16 frascos no totalNão consta
Amoxicilina 500 mg por via oral a cada 8 horas por 5 diasCápsula ou comprimido de 500 mg15 cápsulas, 7,5 g no totalSim, componente básico
Amoxicilina 875 mg por via oral a cada 12 horas por 5 diasA apresentação de 875 mg não existe no elenco: dividir a dose pela cápsula disponível dá 1,75 cápsulaNão executável com o que o elenco forneceNão nessa apresentação
Azitromicina 1 g por via oral em dose únicaComprimido de 500 mg2 comprimidosSim, componentes básico e estratégico
Benzilpenicilina potássica 5.000.000 UI de ataque e 2.500.000 UI a cada 4 horas até o partoFrasco-ampola de 5.000.000 UI de pó para solução injetávelTrabalho de parto de 8 horas: 2 frascos. De 12 horas: 2,5 frascos. De 16 horas: 3 frascosSim, componentes básico e estratégico — sob o nome de benzilpenicilina potássica
Sulfato de magnésio: ataque de 4 g e manutenção de 1 g por horaSulfato de magnésio heptaidratado a 50% (500 mg/mL) e a 10% (100 mg/mL), ampolas de 10 mLAtaque: 8 mL da solução a 50% ou 40 mL da solução a 10%. Manutenção com 10 mL a 50% em 490 mL a 100 mL/h, ou 100 mL a 10% em 400 mL a 50 mL/hSim, componente básico, nas duas concentrações
Gentamicina 5 mg/kg por dia — 350 mgSolução injetável 40 mg/mL, ampola de 2 mL (80 mg)8,75 mL, ou 4,4 ampolasSó as apresentações oftálmicas constam
Clindamicina 900 mg endovenosa a cada 8 horasSolução injetável 150 mg/mL, ampola de 4 mL (600 mg)6 mL, ou 1,5 ampola por doseSó as cápsulas de 150 e 300 mg e as apresentações tópicas constam
Vancomicina 20 mg/kg a cada 8 horas — 1.400 mg por doseFrasco-ampola de 500 mg de pó para solução injetável2,8 frascos por dose, 4,2 g por diaNão consta
Gluconato de cálcio a 10%, antídoto da intoxicação por magnésioAmpola de 10 mL, equivalente a 1 g do sal1 ampola, deixada prescrita antes de começar o magnésioNão consta

A semana 24 pertence a duas faixas ao mesmo tempo, em dois documentos independentes. O manual federal intitula um item “conduta na rotura antes da viabilidade fetal ou 24 semanas” e o item seguinte “conduta entre 24 e 34 semanas”: a mulher com 24 semanas e zero dia satisfaz literalmente os dois. O protocolo hospitalar de 2024 repete a colisão por outro caminho — cria uma faixa “23/24 semanas” de individualização e, logo acima, uma faixa de 24 a 33 semanas e 6 dias de conduta expectante plena. Como as condutas das duas faixas são opostas em quatro itens (corticoide, sulfato de magnésio, profilaxia para estreptococo e tocólise, todos vetados na faixa de baixo e prescritos na de cima), a ambiguidade não é acadêmica: ela decide se a mulher recebe ou não o ciclo de corticoide. O fluxograma da Secretaria de Saúde do Distrito Federal é o único dos quatro que fecha as cinco faixas sem sobreposição e sem vão, e faz isso pelo recurso mais simples que existe, que é escrever “23 semanas e 6 dias” em vez de “23 semanas”.

Do outro lado da mesma escala há um vão. O protocolo hospitalar de 2024 não tem faixa nenhuma abaixo de 23 semanas: a faixa mais baixa é “23/24 semanas”, e a única menção a algo mais precoce é a observação de que antibiótico pode ser considerado após 20 semanas. Uma mulher com 21 semanas e rotura confirmada cai fora de todas as caixas do documento. O manual federal cobre essa faixa por definição, ao intitular seu item por “antes da viabilidade fetal”, mas abre outra frouxidão ao definir a doença como fenômeno de gestações “acima de 20 a 22 semanas” — duas semanas de fronteira que ficam ao gosto do leitor.

A aritmética do corticoide tem um erro conhecido e uma armadilha menos conhecida. O erro está no quadro de corticoterapia antenatal do manual federal, cujas duas linhas repetem o mesmo intervalo de 24 horas por 2 dias — uma para 12 mg de betametasona, outra para 6 mg de dexametasona. Multiplicando dose por número de doses, a primeira soma 24 mg e a segunda soma apenas 12. Um ciclo de dexametasona equipotente exige quatro aplicações de 6 mg separadas por 12 horas, e é assim que ele consta do capítulo 7 do mesmo manual, do fluxograma distrital e do protocolo hospitalar de 2024, este último escrevendo o total entre parênteses. Vale o capítulo 7, não o quadro.

A armadilha está na ampola de betametasona, e ela funciona na direção oposta. A Rename registra a apresentação como “acetato de betametasona mais fosfato dissódico de betametasona, 3 mg/mL mais 3 mg/mL”, e a bula confirma: cada mililitro tem 3 mg de um sal e 3 mg do outro, o que dá 6 mg de betametasona por mL, em ampola de 1 mL. Quem lê “3 mg/mL” e prescreve 12 mg aspira 4 mL e aplica o dobro da dose. A dose correta são 2 mL, isto é, 2 ampolas; o ciclo inteiro são 4 ampolas.

A janela do corticoide aparece com quatro valores no material brasileiro, e três deles estão no mesmo documento ou na mesma prateleira. O manual federal, no capítulo de prematuridade, estimula o uso entre 24 e 34 semanas e manda particularizar fora dessa faixa; o mesmo manual, no capítulo de transmissão vertical do HIV, escreve entre 23 e 34 semanas; o guia hospitalar de episódio de cuidado escreve 24 a 34; e o protocolo hospitalar de 2024 escreve 24 semanas a 36 semanas e 6 dias, acrescentando que o melhor benefício está entre 28 e 34 semanas e que, entre 24 e 28, o ganho declarado é redução de enterocolite necrosante e de hemorragia intracraniana. A diferença entre 34 e 36 semanas e 6 dias vale quase três semanas de indicação.

A regra da dose de resgate diverge em três dimensões ao mesmo tempo. O manual federal admite repetir o ciclo — o ciclo inteiro — em gestações com menos de 34 semanas, desde que a dose anterior tenha sido dada há mais de 7 a 14 dias, e veta ciclos adicionais. O protocolo hospitalar de 2024 chama o mesmo gesto de “repique”, restringe a faixa a 28 a 34 semanas, exige mais de 14 dias e manda dar metade da dose convencional, 12 mg em dose única. Ou seja: faixa mais estreita, intervalo mais longo e metade do fármaco. Vale notar ainda que o manual federal enquadra o resgate na recorrência do trabalho de parto prematuro, e não escreve regra de resgate dentro do capítulo de rotura, onde fala apenas em “ciclo único”.

O esquema de antibiótico para prolongar a latência tem a mesma indicação e quatro redações. Três documentos põem a azitromicina 1 g por via oral na admissão, junto com a primeira dose de ampicilina; o manual federal a põe depois das 48 horas, junto com a amoxicilina oral, e não declara a dose. Dose única de azitromicina, sem número, é prescrição incompleta: as apresentações do elenco são de 500 mg e de 250 mg, e a diferença entre 1 g e 500 mg é a diferença entre o esquema estudado e outro. Vale registrar a divergência conceitual embutida: o manual federal atribui às 48 horas de ampicilina o objetivo de prevenir doença neonatal por estreptococo do grupo B, e chama de prolongamento de latência só a fase oral; os outros três chamam o conjunto de esquema de latência. Não é semântica — é o que decide se a ampicilina para quando a cultura vem negativa.

A amoxicilina de 875 mg a cada 12 horas, oferecida como alternativa no protocolo hospitalar de 2024, não é executável com o que o Sistema Único de Saúde fornece: o elenco tem cápsula e comprimido de 500 mg, e 875 dividido por 500 dá 1,75 cápsula por tomada. Além disso os dois esquemas oferecidos como equivalentes não são equivalentes: 875 mg duas vezes ao dia somam 1.750 mg, e 500 mg três vezes ao dia somam 1.500 mg — 250 mg de diferença por dia, ou um sexto a mais. Não é diferença que mude desfecho, e é diferença que mude a conferência de quem confere.

Sete dos fármacos deste capítulo não constam da Rename 2024, e a busca foi feita por texto normalizado, sem acento e sem hífen, para não errar por artefato de extração. Não constam: ampicilina, em nenhuma apresentação; cefazolina; vancomicina; gentamicina injetável, presente apenas como pomada e solução oftálmicas; clindamicina injetável, presente apenas como cápsulas de 150 e 300 mg e como uso tópico; metronidazol injetável, presente apenas em comprimido e gel vaginal; e gluconato de cálcio, que é o antídoto da intoxicação pelo sulfato de magnésio e não aparece sob nenhuma grafia. Isso significa que o esqueleto endovenoso do esquema de latência, o esquema de resgate da alérgica e o tratamento da corioamnionite dependem da farmácia hospitalar e não do componente básico da assistência farmacêutica — e é uma conversa que o interno precisa saber ter com quem compra.

O sulfato de magnésio é a conferência que mais fecha e a que mais engana. Fecha assim: a Rename declara 4,05 mEq de magnésio por mililitro na solução a 50% e 0,81 mEq/mL na solução a 10%; a massa molar do sulfato de magnésio heptaidratado é 246,47 g/mol, de modo que 0,5 g em 1 mL dão 2,029 mmol e, por ser o magnésio divalente, 4,06 mEq — e a bula do produto declara que 1 g do sal equivale a 8,12 mEq, o que reproduz o mesmo número. Engana assim: as doses são escritas em gramas do sal, não de magnésio elementar, e os 4 g da dose de ataque contêm cerca de 394 mg de magnésio elementar. As duas manutenções do protocolo hospitalar também fecham: 10 mL a 50% em 490 mL correndo a 100 mL/h entregam 1,00 g/h, e 100 mL a 10% em 400 mL correndo a 50 mL/h entregam igualmente 1,00 g/h.

A dose de ataque do sulfato de magnésio, no entanto, não fecha na diluição a 10%. O protocolo hospitalar prescreve 40 mL da solução a 10% em 60 mL de soro, correndo a 600 mL/h por 20 minutos. São 100 mL de bolsa: a 600 mL/h ela termina em 10 minutos, não em 20. Para 100 mL em 20 minutos a vazão teria de ser 300 mL/h — que é exatamente a que o mesmo protocolo manda usar na diluição a 50%, em que a bolsa tem 108 mL e leva 21,6 minutos. Os dois esquemas entregam a mesma dose de 4 g e deveriam levar o mesmo tempo; do jeito escrito, um deles infunde no dobro da velocidade. Como a intoxicação por magnésio é dependente de pico, a correção não é cosmética.

A vancomicina aparece nos dois documentos hospitalares com esquemas cuja dose diária difere por um fator de dois. O protocolo de 2024 escreve 20 mg/kg a cada 8 horas, com teto de 2 g por dose — numa mulher de 70 kg são 1.400 mg por dose e 4,2 g por dia, e o teto por dose só é alcançado aos 100 kg. O guia de episódio de cuidado escreve 1 g a cada 12 horas, que são 2,0 g por dia. A razão entre os dois é 2,1. Os contextos não são idênticos — um trata a alergia grave no lugar da profilaxia para estreptococo, o outro a alergia no lugar do esquema de latência —, mas a paciente é a mesma e a droga é a mesma, e nenhum dos dois textos explica a diferença.

Quatro documentos brasileiros definem corioamnionite de quatro maneiras, e a diferença que mais importa é quantos critérios bastam. O manual federal lista quatro “sinais sugestivos de infecção intrauterina” sem exigir febre e sem declarar mínimo, de modo que taquicardia materna isolada satisfaz a lista. O guia hospitalar exige febre mais pelo menos um achado. O protocolo hospitalar de 2024 exige febre alta — 39,0 °C, ou dois episódios entre 38,0 e 38,9 °C separados por 45 minutos — e classifica todo o resto como achados que “podem estar associados”, sem exigir nenhum. E o fluxograma distrital escreve “febre igual ou acima de 37,8 °C e/ou presença de 02 parâmetros”: o conectivo “e/ou”, lido ao pé da letra, permite diagnosticar corioamnionite sem febre alguma, e também permite diagnosticá-la só com febre. Some-se a isso três limiares de temperatura (37,8, 38,0 e 39,0 °C) e dois de leucócitos (15.000 e 20.000), e o que resta é uma decisão que o serviço tem de padronizar por escrito antes do plantão, porque ela não vem padronizada de cima.

O rastreio universal do estreptococo do grupo B mudou de janela e há documento em circulação que não acompanhou. O manual federal de 2022 recomenda a cultura vaginal e endoanal entre 36 semanas e 0 dia e 37 semanas e 6 dias. O protocolo hospitalar publicado por portaria em março de 2024 lista, entre as indicações de profilaxia, “cultura positiva para estreptococo entre 35 e 37 semanas” — a janela antiga. A consequência prática é do lado da validade: o intervalo de 5 semanas em que a cultura mantém valor preditivo é o mesmo nos dois textos, mas a coleta feita com 35 semanas expira mais cedo em relação a um parto a termo. A divergência aparece do confronto entre os dois documentos, e nenhum dos dois declara a mudança de janela.

Há um erro de redação no manual federal que confunde exatamente o eixo deste capítulo. O quadro que trata da prevenção da sepse neonatal precoce em gestantes a termo é intitulado “gestantes a termo (idade gestacional maior ou igual a 37 semanas) com diagnóstico de ruptura prematura das membranas pré-termo)” — com o adjetivo “pré-termo” aplicado a uma gestação declarada a termo na mesma linha, e com um parêntese que abre uma vez e fecha duas. O quadro seguinte, esse coerente, trata das gestantes com 36 semanas e 6 dias ou menos. Quem lê só o título do primeiro quadro pode aplicar a conduta da gestante a termo em quem está pré-termo, ou o contrário.

Dois cortes de tempo de bolsa rota convivem no mesmo manual federal, e não é contradição: é que são duas doenças. Para prevenção da sepse neonatal por estreptococo do grupo B, o corte é rotura de membranas com duração igual ou superior a 18 horas, listada como fator de risco intraparto e suficiente sozinha para indicar a profilaxia. Para prevenção da transmissão vertical do HIV, o corte é bem menor: o capítulo respectivo registra que a taxa de transmissão se eleva depois de quatro horas de bolsa rota, e manda evitar períodos longos. Dezoito horas é o número que responde à pergunta “preciso fazer penicilina?”; quatro horas é o número que responde à pergunta “quanto tempo posso deixar essa mulher em trabalho de parto?” — e as duas perguntas podem estar sendo feitas sobre a mesma paciente.

Uma conferência que fecha, e vale registrar porque a divergência aparente assusta. O manual federal escreve que a rotura ocorre em cerca de 10% das gestações e que 80% dos casos são a termo, o que deixa 2% de roturas pré-termo; o protocolo hospitalar de 2024 escreve que a rotura pré-termo complica de 2% a 3% das gestações e que a rotura a termo ocorre em cerca de 8%; e o caderno federal de atenção básica escreve incidência média de 10% com cerca de 25% dos casos antes do termo, o que daria 2,5%. Fazendo as contas, 10% vezes 20% dá 2,0% e 10% vezes 25% dá 2,5%, e os dois caem dentro da faixa de 2% a 3% declarada pelo terceiro documento. Os números diferem e não brigam.

Por fim, uma armadilha de nomenclatura que faz sumir um medicamento que existe. Procurar “penicilina G cristalina” na Rename 2024 devolve zero ocorrências, e a leitura apressada conclui que a droga de escolha da profilaxia intraparto está fora do elenco. Ela está dentro, com o nome da denominação comum brasileira: benzilpenicilina potássica, 5.000.000 UI, pó para solução injetável, componentes básico e estratégico. A lição vale para o resto da lista: a busca por nome de balcão erra, e a busca por denominação comum acerta — foi assim que a ausência da ampicilina, essa real, ficou confirmada.

08

A conduta, hora a hora

Avaliar sinais vitais, feto e perda de líquido, evitando toques desnecessários. Integrar idade gestacional e sinais de infecção ou outra contraindicação à espera. Se houver condições para manejo expectante, organizar vigilância e intervenções com indicação própria; se surgir infecção ou deterioração, priorizar tratamento e nascimento conforme a equipe, sem aguardar completar corticoide.

Duas travas valem em todos os marcos. A primeira: nenhuma decisão de faixa é tomada antes de excluir infecção intra-amniótica — havendo infecção, a idade gestacional deixa de comandar e o parto acontece em qualquer semana. A segunda: nenhum toque vaginal em mulher com bolsa rota fora de trabalho de parto, e isso inclui o toque de quem chega depois de você e quer conferir.

  1. Primeira hora — confirmar, datar e internar sem tocar

    Anamnese dirigida com hora da rotura, cor, odor, quantidade e continuidade da perda, presença de contração e movimentação fetal. Exame especular com espéculo estéril: visualizar o líquido saindo pelo orifício externo, usando tosse, Valsalva ou mobilização da apresentação se não sair espontaneamente; procurar alça de cordão; descrever o líquido. Aproveitar a mesma passagem para colher o swab vaginal e anal para estreptococo do grupo B. Só depois disso, medir pulso, pressão, temperatura, avaliar tônus uterino e auscultar os batimentos fetais. A datação vem do cartão e da ultrassonografia mais precoce que houver, e ela é o número que governa tudo o que vem a seguir. Rotura confirmada interna, em qualquer idade gestacional — não existe alta com bolsa rota e orientação de retorno.

    Prescrição
    • Internação em qualquer idade gestacional — protocolo de hospital universitário federal, 2024, item 9 (“qualquer gestante com diagnóstico de bolsa rota”).
    • NÃO realizar toque vaginal na admissão, na paciente fora de trabalho de parto — Manual de Gestação de Alto Risco (MS, 2022), item 7.3: “o toque não deve ser realizado, pois é ato facilitador de infecção”.
    • Hemograma, proteína C reativa, urina tipo I e urocultura na admissão; swab vaginal e anal para estreptococo do grupo B — MS, 2022, item 7.3.
    • Ultrassonografia obstétrica na admissão, com estimativa de peso fetal, apresentação, localização placentária e volume de líquido residual.
    • Se houver vaga a buscar, buscá-la hoje: contato com a referência neonatal no dia da internação, e não na véspera do parto.
  2. 37 semanas ou mais — o relógio que sobrou é o da infecção

    No termo não há maturidade a ganhar, e o único relógio que corre é o da infecção. A régua federal é de uma frase: rotura no termo indica postura ativa para desencadeamento do trabalho de parto. Isso não significa cesariana — significa que a gestação vai terminar, e que a via preferencial é a vaginal, justamente para reduzir o risco infeccioso. O que a evidência acrescenta, e o que os documentos brasileiros discutem entre si, é quanto de espera espontânea é razoável antes de começar a indução; um guia hospitalar admite até 12 horas do diagnóstico e torna a indução obrigatória depois disso. O método de indução é decisão obstétrica e depende das condições do colo; a escolha entre misoprostol, prostaglandina e ocitocina é do capítulo que trata da indução, e não deste. O que é deste capítulo é a checagem que decide a prescrição das próximas horas: o resultado da cultura para estreptococo do grupo B, e o relógio das 18 horas.

    Prescrição
    • Conduta ativa: desencadear o trabalho de parto — MS, 2022, item 7.6. Via vaginal preferencial na ausência de contraindicação — MS, 2022, item 7.7.
    • Profilaxia intraparto para estreptococo do grupo B se a cultura for positiva, se for desconhecida com fator de risco presente, ou se houver bacteriúria por estreptococo nesta gestação — MS, 2022, capítulo 39, recomendações 1, 2 e 4. O esquema e os detalhes de execução estão no capítulo de assistência ao trabalho de parto.
    • Rotura de membranas com 18 horas ou mais é, sozinha, fator de risco intraparto suficiente para indicar a profilaxia na parturiente de cultura desconhecida — MS, 2022, capítulo 39, quadros 1 e 3.
    • Cultura negativa colhida há 5 semanas ou menos dispensa a profilaxia mesmo com bolsa rota há mais de 18 horas — MS, 2022, capítulo 39, observação ao quadro 4.
    • NÃO prescrever antibiótico de latência no termo: não há evidência que sustente antibiótico de rotina na rotura a termo em paciente sem indicação de profilaxia para estreptococo — guia de episódio de cuidado hospitalar, versão 4.
  3. 34 a 36 semanas e 6 dias — a faixa em que os documentos brigam

    Esta é a faixa de decisão mais desconfortável do capítulo, e o desconforto é honesto: os dois relógios têm velocidades parecidas. O manual federal a resolve pelo lado da conduta ativa, dizendo que a rotura após 34 semanas pode ser conduzida como no termo, com resolução da gestação, principalmente nas maternidades com suporte neonatal adequado — e abrindo, na mesma frase, a exceção para serviços de menor infraestrutura neonatal, que podem esperar até 36 semanas em casos selecionados. O protocolo hospitalar de 2024 escreve que “tradicionalmente” se recomenda a indução e registra, em nota de rodapé do próprio fluxograma, que naquele serviço a conduta acima de 34 semanas é resolutiva por causa da infraestrutura neonatal. O guia hospitalar de episódio de cuidado inverte a ênfase: conduta ativa, mas com a expectante individualizada para casos selecionados. Na prática do interno, a decisão não é sua — o que é seu é reconhecer que ela existe, saber quais são os dois argumentos e trazer os dados que a decidem: quantidade de líquido residual, ausência de infecção, vitalidade fetal e, sobretudo, quem vai receber a criança.

    Prescrição
    • Conduta resolutiva na maioria dos serviços brasileiros — MS, 2022, item 7.6; protocolo de hospital universitário federal, 2024, nota ao fluxograma.
    • Corticoterapia individualizada nesta faixa, sem atrasar a resolução para dar corticoide e sem administrá-la quando a cesariana for iminente — protocolo de hospital universitário federal, 2024, item 8.2 e notas.
    • Rastreio e profilaxia para estreptococo do grupo B: nesta faixa a idade gestacional abaixo de 37 semanas é, por si só, fator de risco que indica a profilaxia quando a cultura é desconhecida — MS, 2022, capítulo 39, recomendação 2.
    • Tratar infecção ovular se houver, e nesse caso a faixa deixa de importar.
  4. 24 a 33 semanas e 6 dias — montar a espera

    Aqui a conduta expectante compensa, e ela não é “observar”: é um pacote com quatro peças e um calendário. A primeira peça é o corticoide, que é o único item cujo benefício aumenta com o tempo que se ganha. A segunda é o antibiótico de latência, que prolonga a espera e reduz infecção materna e fetal. A terceira é o sulfato de magnésio, reservado para a iminência do parto abaixo de 32 semanas. A quarta é a vigilância, diária e escrita, que é o que transforma a espera em conduta e não em omissão. O manual federal acrescenta repouso relativo e hidratação oral generosa, com mínimo de 2,5 litros por dia, e é explícito ao dizer que tocolíticos devem ser evitados. A regra geral é a internação até o parto; alguns serviços oferecem acompanhamento ambulatorial semanal a casos muito selecionados — boa quantidade de líquido residual, apresentação cefálica, condições sociais favoráveis —, e o próprio manual classifica esse arranjo como de caráter excepcional.

    Prescrição
    • Repouso relativo; hidratação oral generosa, mínimo de 2,5 L/dia; controle de pulso, pressão e temperatura; observação do tônus uterino e dos batimentos fetais; verificação do aspecto, odor e cor dos pensos vaginais — MS, 2022, item 7.5.
    • Hemograma e proteína C reativa a cada 2 a 3 dias — MS, 2022, item 7.5.
    • Cardiotocografia diária; ultrassonografia com Doppler e perfil biofísico duas vezes por semana — MS, 2022, item 7.5. O protocolo hospitalar de 2024 indica cardiotocografia a partir de 30 semanas e Doppler semanal, e manda auscultar os batimentos a cada 6 horas.
    • Antibiótico de latência: azitromicina 1 g por via oral na admissão, ampicilina 2 g endovenosa a cada 6 horas por 48 horas e depois amoxicilina 500 mg por via oral a cada 8 horas por 5 dias — fluxograma da Secretaria de Saúde do Distrito Federal e protocolo de hospital universitário federal, 2024. O manual federal usa os mesmos fármacos com a azitromicina no fim e sem declarar a dose dela.
    • NÃO usar amoxicilina com clavulanato como antibiótico de latência, pelo risco aumentado de enterocolite necrosante no recém-nascido — protocolo de hospital universitário federal, 2024, item 8.1.
    • Tocolíticos devem ser evitados — MS, 2022, item 7.5. Um guia hospitalar vai além e escreve que a tocólise não está recomendada, independentemente da idade gestacional.
    • Sulfato de magnésio para neuroproteção fetal se a idade gestacional for menor que 32 semanas e o parto for iminente: 4 g de ataque em 20 minutos e 1 g/h de manutenção até o parto, com controle de diurese, reflexo patelar, frequência respiratória e frequência cardíaca a cada 4 horas, e gluconato de cálcio a 10% já prescrito para o caso de intoxicação — MS, 2022, item 7.7; fluxograma distrital; protocolo hospitalar de 2024, item 8.4.
  5. O corticoide — a janela, o ciclo e o resgate

    O corticoide antenatal reduz síndrome do desconforto respiratório, hemorragia periventricular e enterocolite necrosante, e é a intervenção deste capítulo com maior efeito por real gasto. A eficácia máxima ocorre quando o parto acontece de 2 a 7 dias após a primeira dose; a partir de 24 horas já existe algum efeito, abaixo disso a proteção é incompleta, e ela declina depois de sete dias. Isso tem uma consequência de conduta que se esquece: quando o parto é iminente, não se atrasa o parto para completar o ciclo — dá-se a primeira dose e segue-se em frente. Há uma contraindicação que este capítulo torna central: o corticoide não é administrado na vigência de evidência clínica de infecção intra-amniótica. E há a divergência de janela, que é grande: o manual federal estimula o uso entre 24 e 34 semanas, um protocolo hospitalar de 2024 estende a 36 semanas e 6 dias, e o mesmo manual federal escreve 23 semanas num outro capítulo.

    Prescrição
    • Betametasona 12 mg por via intramuscular a cada 24 horas, 2 doses (2 ampolas de 1 mL por dose; a ampola tem 3 mg de acetato mais 3 mg de fosfato dissódico por mL, isto é, 6 mg de betametasona por mL) — MS, 2022, item 7.5.
    • OU dexametasona 6 mg por via intramuscular de 12 em 12 horas, 4 doses, totalizando 24 mg (1,5 mL por dose, da ampola de 4 mg/mL) — MS, 2022, item 7.5; fluxograma distrital; protocolo hospitalar de 2024, item 8.2. O quadro de corticoterapia do capítulo 6 do próprio manual federal escreve dexametasona a cada 24 horas por 2 dias, o que entrega metade do ciclo; prevalece o esquema de 12 em 12 horas.
    • NÃO administrar corticoide havendo evidência clínica de infecção intra-amniótica — MS, 2022, item 6.4.1; guia de episódio de cuidado hospitalar, versão 4.
    • Não atrasar o nascimento para completar o ciclo, e não administrar quando a cesariana for iminente — protocolo hospitalar de 2024, notas do item 8.
    • Resgate: o manual federal admite repetir o ciclo em gestações com menos de 34 semanas quando a dose anterior foi dada há mais de 7 a 14 dias, e veta ciclos adicionais; o protocolo hospitalar de 2024 admite meia dose (12 mg em dose única) entre 28 e 34 semanas, com mais de 14 dias desde o primeiro ciclo. A decisão é do obstetra e o serviço precisa ter escolhido uma das duas.
  6. Abaixo da viabilidade — a conduta que é conversa e documento

    Nessa faixa não há pacote a montar, e a decisão é compartilhada. O prognóstico costuma ser desfavorável: o oligoâmnio persistente impede o desenvolvimento pulmonar normal e, via de regra, mesmo com conduta expectante, o concepto não terá condições de desenvolvimento pós-natal. O que o manual federal descreve é um procedimento de informação e registro — informação detalhada ao casal sobre prognóstico perinatal e riscos maternos, espaço para dúvidas, e documento assinado. Optando o casal pela continuidade da gravidez, mantêm-se os cuidados de rotina para a mãe e para o feto, e pede-se assinatura no prontuário ou em termo próprio confirmando que as orientações foram recebidas. Se a proposta de indução for aceita, o manual a enquadra pelo risco de vida materno e exige anuência assinada pelo casal e por dois profissionais especialistas do serviço. O fluxograma distrital descreve o mesmo procedimento com outra ênfase e uma redação que este capítulo não vai resolver por conta própria — ele escreve “indução de abortamento após assinatura de termo” abaixo de 22 semanas. A distinção entre um procedimento e outro, em direito brasileiro, depende do enquadramento no artigo 128 do Código Penal, e não é decisão de interno: é decisão institucional, tomada com a chefia e registrada.

    Prescrição
    • Informação detalhada ao casal sobre prognóstico perinatal e riscos maternos; registro assinado da orientação recebida — MS, 2022, item 7.4.
    • Se houver indução por risco de vida materno: anuência assinada pelo casal e por dois profissionais especialistas do serviço — MS, 2022, item 7.4.
    • Particularizar a conduta entre 22 e 24 semanas — MS, 2022, item 7.4.
    • NÃO administrar corticoide, sulfato de magnésio para neuroproteção, profilaxia para estreptococo do grupo B nem tocólise antes da viabilidade — protocolo hospitalar de 2024, item 8, alínea d; guia de episódio de cuidado hospitalar, versão 4.
    • O antibiótico de latência é o único item do pacote que pode ser considerado nessa faixa — protocolo hospitalar de 2024 (“pode ser considerada após 20 semanas”); guia de episódio de cuidado hospitalar, versão 4.
  7. Quando a espera acaba — os cinco motivos e a semana de corte

    A conduta expectante tem prazo, e o prazo tem cinco nomes. O manual federal lista, como motivos para interromper: sinais de infecção materna e/ou fetal; comprometimento da vitalidade fetal; maturidade fetal confirmada; desencadeamento espontâneo do trabalho de parto; e as 34 semanas atingidas, a depender de cada serviço. Os quatro primeiros são clínicos e não têm negociação; o quinto é institucional, e é ele que muda de hospital para hospital. Dois dos cinco merecem cuidado. “Trabalho de parto espontâneo” não é sinal benigno de que chegou a hora: numa mulher com rotura pré-termo e vigilância normal, o trabalho de parto que começa sozinho é, com frequência, a primeira manifestação de infecção que os exames ainda não pegaram — e por isso ele obriga a reavaliar a temperatura, os batimentos e o leucograma, e não apenas a conduzir o parto. E “comprometimento da vitalidade” aqui tem duas causas possíveis, infecção e compressão de cordão, com condutas idênticas mas com conversas diferentes com o neonatologista. Independentemente do motivo, a via vaginal é preferencial, e o sulfato de magnésio entra se o parto for acontecer antes de 32 semanas.

    Prescrição
    • Interromper diante de sinais de infecção materna e/ou fetal; comprometimento da vitalidade fetal; maturidade fetal confirmada; trabalho de parto espontâneo; ou 34 semanas atingidas, a depender do serviço — MS, 2022, item 7.5.1.
    • Infecção intrauterina indica conduta ativa imediata, independentemente da idade gestacional — MS, 2022, atenção ao fluxograma 1.
    • Via vaginal preferencial na ausência de contraindicação, como forma de evitar riscos infecciosos maiores — MS, 2022, item 7.7.
    • Sulfato de magnésio como neuroprotetor se o parto for ocorrer antes de 32 semanas — MS, 2022, item 7.7.
    • Profilaxia intraparto para estreptococo do grupo B conforme protocolo específico — MS, 2022, item 7.7 e capítulo 39.
  8. Corioamnionite — o que encerra a espera de vez

    Diagnosticada a infecção intra-amniótica, a conduta é uma só e não depende de semana: antibiótico de amplo espectro por via endovenosa e resolução da gestação, preferencialmente por via vaginal. Não se espera o antibiótico “fazer efeito” para depois decidir o parto — o foco infeccioso é a cavidade, e esvaziá-la faz parte do tratamento. Também não se administra corticoide a partir daqui, e a tocólise, que já não era recomendada, passa a ser francamente contraindicada. Os esquemas antibióticos brasileiros divergem em qual combinação vem primeiro, e o interno deve prescrever o do seu serviço; o que não varia é o par aminoglicosídeo mais betalactâmico ou lincosamida, e a cobertura anaeróbia acrescentada quando o parto é cesáreo. A duração também diverge: um documento manda manter até 48 horas do parto ou do último pico febril, outro manda manter até 48 horas sem febre após o parto, e um terceiro escreve sete dias e, duas linhas abaixo, “manter até o parto”.

    Prescrição
    • Ampicilina 2 g endovenosa a cada 6 horas mais gentamicina, com amoxicilina-clavulanato como alternativa — MS, 2022, capítulo 38, quadro 2 (tratamento empírico da corioamnionite).
    • OU clindamicina 600 mg endovenosa a cada 6 horas mais gentamicina 3,5 a 5,0 mg/kg em dose única diária; OU ampicilina 2 g endovenosa a cada 6 horas, ou benzilpenicilina potássica 5.000.000 UI a cada 4 horas, mais gentamicina, mais metronidazol 500 mg endovenoso a cada 8 horas — protocolo hospitalar de 2024, item 10.1.
    • Se o parto for cesáreo, acrescentar cobertura anaeróbia — clindamicina 900 mg endovenosa a cada 8 horas ou metronidazol 500 mg endovenoso a cada 8 horas — guia de episódio de cuidado hospitalar, versão 4.
    • Resolução da gestação, preferencialmente por via vaginal, em qualquer idade gestacional — protocolo hospitalar de 2024, item 10.1; MS, 2022, atenção ao fluxograma 1.
    • Suspender o corticoide e não iniciar novo ciclo; não fazer tocólise.
    • Duração do antibiótico: manter por até 48 horas do parto ou do último pico febril (protocolo hospitalar de 2024) ou até 48 horas sem febre após o parto (fluxograma distrital) — o serviço precisa ter escolhido uma das duas.
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Como saber se está funcionando

Reavaliar, aqui, é o tratamento. A mulher que espera não está sendo observada: ela está sendo medida, todo dia, com os mesmos termos, para que a alteração seja reconhecida como alteração e não confundida com variação normal. O que segue é o que se mede, com que frequência, e o que cada desvio significa.

Três cuidados de leitura atravessam todos os parâmetros. O corticoide altera o leucograma por cerca de 48 horas, e a data da última dose vai anotada no pedido. A febre é o parâmetro mais tardio e o mais confiável — esperar por ela é errar, e desprezá-la também. E qualquer parâmetro isolado que se altere obriga a reavaliar os outros no mesmo turno, e não na coleta de amanhã.

Temperatura axilar maternaQuatro vezes ao dia no mínimo, no intervalo que o serviço padronizar, e fora de hora diante de qualquer achado novo

Esperado: Estável e abaixo de 37,8 °C

Se não melhora: Repita a medida no intervalo que o protocolo do serviço definir e some aos demais critérios. Numa mulher de bolsa rota, febre sem outra origem identificável significa infecção da cavidade enquanto não se provar o contrário. Acione a obstetra, repita o par de exames inflamatórios, troque o antibiótico profilático pelo terapêutico e prepare a resolução da gestação.

Frequência cardíaca maternaA cada 4 a 6 horas, junto com a temperatura e a pressão

Esperado: Abaixo de 100 bpm, e estável em relação à linha de base da admissão

Se não melhora: Taquicardia materna persistente sem febre e sem dor pede busca ativa dos outros critérios de infecção. Antes de concluir, descarte as causas competidoras: dor, ansiedade, desidratação, anemia e efeito de fármaco. Taquicardia que aparece junto com taquicardia fetal é achado bem mais específico do que qualquer uma das duas isolada.

Frequência cardíaca fetalAusculta a cada 6 horas no mínimo; cardiotocografia conforme a idade gestacional e o protocolo do serviço

Esperado: Linha de base entre 110 e 160 bpm, sem desacelerações

Se não melhora: Acima de 160 bpm de forma persistente por 10 minutos ou mais, considere infecção e febre materna. Desacelerações variáveis apontam compressão funicular por oligoâmnio e são um segundo motivo, independente da infecção, para interromper. Nos dois casos, a conduta imediata é chamar quem decide e reavaliar a vitalidade por método adicional.

Aspecto, cor e odor do líquido nos pensos vaginaisA cada troca, com registro em prontuário

Esperado: Claro, sem odor, em quantidade que tende a diminuir

Se não melhora: Odor fétido é o achado de beira de leito mais específico de infecção que existe nesta doença, e não precisa de laboratório para valer. Líquido purulento escoando pelo orifício do colo tem o mesmo peso. Líquido que fica meconial muda o plano de recepção do recém-nascido; líquido sanguinolento levanta descolamento.

Hemograma e proteína C reativaA cada 2 a 3 dias, e antecipado sempre que houver alteração clínica

Esperado: Leucograma estável em relação ao anterior e proteína C reativa sem tendência de alta

Se não melhora: Leia a tendência, não o valor isolado: o manual federal considera sugestivo tanto o leucograma acima de 20.000/mm³ quanto o abaixo desse valor que subiu 20% em relação ao exame anterior; protocolos hospitalares usam 15.000/mm³. Nos dois casos, desconte o corticoide das últimas 48 horas antes de concluir, e some o resultado aos parâmetros clínicos.

Tônus uterino, dor à palpação e dinâmicaPelo menos uma vez por turno, e sempre que a mulher referir cólica

Esperado: Útero indolor, sem contrações regulares

Se não melhora: Sensibilidade uterina entra em três das quatro listas brasileiras de critérios de corioamnionite. Contração regular numa mulher em conduta expectante não é apenas o começo do trabalho de parto: com frequência é a primeira manifestação de infecção intra-amniótica. Reavalie temperatura, batimentos e leucograma antes de concluir que “entrou em trabalho de parto”.

Volume de líquido amniótico residual e vitalidade por método de imagemUltrassonografia com Doppler e perfil biofísico duas vezes por semana pelo manual federal, semanal pelo protocolo hospitalar de 2024

Esperado: Volume estável em relação à admissão, com perfil biofísico preservado

Se não melhora: Queda progressiva do volume residual piora o prognóstico e retira a paciente da lista dos raros casos elegíveis a acompanhamento fora do leito. Dentro do perfil biofísico, a ausência de movimentos respiratórios fetais tem peso duplo nesta doença: ela é sinal de vitalidade e é, por escrito, sinal sugestivo de infecção intrauterina.

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Onde o erro machuca

Fazer o toque vaginal “só para confirmar”

O dano: É o erro mais comum e o único que causa dano por si mesmo. Com as membranas rotas, a vagina e a cavidade amniótica são um espaço contínuo, e o dedo empurra flora vaginal para dentro. O número de exames vaginais com bolsa rota se associa a sepse neonatal, e a relação é de contagem: não existe um toque grátis. O agravante é que a informação obtida — dilatação e apagamento — não muda a conduta de quem vai esperar, porque a decisão de esperar ou interromper não depende do colo.

Como pegar a tempo: Escreva no prontuário, na admissão, a frase “bolsa rota, toque não realizado”, e diga em voz alta na passagem de plantão. Isso protege a paciente de você e do próximo. Se alguém acima de você quiser tocar, ofereça o espéculo: alça de cordão, aspecto do líquido e confirmação do diagnóstico saem todos por ele. E quando o toque for realmente necessário — trabalho de parto instalado, decisão do obstetra —, que seja um, com luva estéril, e registrado.

Descartar o diagnóstico porque a cristalização deu negativa

O dano: A prova de cristalização e a fita de pH confirmam bem e descartam mal. O próprio caderno federal registra que falsos-negativos da cristalização são comuns, sobretudo quando já passou tempo entre a rotura e o exame; e a fita de pH sofre falso-positivo com sangue, sêmen, urina, antisséptico e vaginose. Mandar para casa uma mulher com história típica e teste auxiliar negativo é devolver à rua uma bolsa rota sem vigilância — e, no pré-termo, sem corticoide e sem antibiótico.

Como pegar a tempo: Trate os auxiliares como o que são: reforço, nunca veto. Com história típica e exame duvidoso, interne e observe, repita o especular depois de algum tempo em decúbito, e peça a ultrassonografia para ver o volume residual. Se o serviço tiver teste imunocromatográfico disponível, é aqui que ele vale o custo — e o manual federal avisa que, no Brasil, ele quase nunca está disponível.

Ler o leucograma sem descontar o corticoide — nos dois sentidos

O dano: O corticoide altera o hemograma por cerca de 48 horas. Quem esquece isso comete os dois erros opostos: chama de infecção uma leucocitose que é do fármaco e interrompe uma gestação de 27 semanas sem necessidade; ou, tendo aprendido a regra, desculpa como “é do corticoide” uma leucocitose que era real e perde 24 horas. O segundo erro é o mais caro, porque a corioamnionite subclínica é justamente a que não dá febre no primeiro dia.

Como pegar a tempo: Anote a data e a hora da última dose de corticoide no pedido do hemograma, e leia a série e não o ponto. O manual federal dá a régua da série de graça: um leucograma abaixo de 20.000 que subiu 20% em relação ao anterior conta como sugestivo. E quando a dúvida persistir, resolva-a pelos parâmetros que o corticoide não altera — temperatura, odor do líquido, dor uterina e batimentos fetais.

Misturar a faixa de idade gestacional de um documento com a conduta de outro

O dano: Os documentos brasileiros não usam as mesmas fronteiras. Quem pega a faixa “entre 24 e 34 semanas” do manual federal e aplica nela o pacote de corticoide “de 24 a 36 semanas e 6 dias” de um protocolo hospitalar produz uma conduta que nenhum dos dois autorizou. O caso mais perigoso é a mulher com 24 semanas exatas, que cai em duas faixas com condutas opostas em dois documentos diferentes: numa leitura ela recebe corticoide, sulfato de magnésio e profilaxia para estreptococo, e na outra não recebe nenhum dos três.

Como pegar a tempo: Escolha o documento do seu serviço e siga-o inteiro — faixa e conduta juntas. Onde ele for omisso ou ambíguo, a saída é a mesma que este capítulo usa: leve a ambiguidade ao obstetra e registre a decisão tomada, com a justificativa. E, na fronteira exata, decida pela margem que protege mais o feto, que quase sempre é a de tratar como a idade menor.

Atrasar o parto para completar o ciclo de corticoide

O dano: A regra do corticoide é conhecida pela metade: sabe-se que a eficácia máxima ocorre de 2 a 7 dias após a primeira dose, e conclui-se disso que vale a pena segurar. Não vale, quando há indicação de nascer. A partir de 24 horas já existe algum efeito, e a paciente com corioamnionite, sofrimento fetal ou trabalho de parto instalado não é candidata a esperar 24 horas por nada. Segurar um parto indicado para completar duas doses é trocar um benefício incremental por um risco integral.

Como pegar a tempo: Dê a primeira dose e siga com a conduta indicada. A regra escrita no protocolo hospitalar de 2024 é literal: não atrasar o parto para realizar dose de corticoide, e não administrá-lo quando a cesariana for iminente. E lembre da contraindicação que este capítulo torna central: havendo evidência clínica de infecção intra-amniótica, o corticoide não entra.

Comemorar que “ela entrou em trabalho de parto sozinha”

O dano: Numa mulher em conduta expectante com 29 semanas e vigilância normal, o trabalho de parto que começa espontaneamente costuma ser lido como o fim natural da espera. Com frequência ele é outra coisa: a primeira manifestação clínica de uma corioamnionite que os exames ainda não pegaram, porque mediador inflamatório na cavidade amniótica é estímulo de contração uterina. Quem lê o trabalho de parto como evento neutro conduz o parto sem antibiótico terapêutico e sem avisar o neonatologista de que a criança pode nascer infectada.

Como pegar a tempo: Trate o início espontâneo do trabalho de parto como um dos cinco motivos de interrupção e, ao mesmo tempo, como um gatilho de reavaliação infecciosa. Meça temperatura, conte a frequência da mãe e a do feto, palpe o útero, cheire o penso e colha o par hemograma e proteína C reativa antes de assumir que é só o parto chegando. E passe a informação para quem vai receber o recém-nascido.

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O que dizer ao paciente e à família

Nesta doença você conversa com duas mulheres que ouviram a mesma frase — “sua bolsa estourou” — e precisam de dois discursos opostos. Uma vai ganhar bebê hoje ou amanhã e quer saber quanto demora. A outra vai ficar internada por semanas para não ganhar bebê, e ainda não sabe disso.

Duas regras cobrem quase tudo. Nomeie o tempo: “hoje”, “nos próximos dias”, “até quatro semanas” são informações, e “vamos ver” não é. E não prometa a semana em que o bebê vai nascer — prometa o critério pelo qual isso vai ser decidido, que é o que você realmente controla.

Explicando à mulher no termo por que ela não vai para casa

“Confirmei que é líquido do bebê mesmo, a bolsa rompeu. Isso quer dizer que o seu bebê vai nascer, e vai ser nos próximos dias — não tem como fechar de novo. Com 39 semanas ele já está pronto, então o que a gente precisa agora é evitar infecção, porque a bolsa rota deixa uma porta aberta. Por isso a senhora fica internada, e não vai para casa esperar. Vou medir a sua temperatura de tempo em tempo e escutar o coração dele. Se o trabalho de parto não começar sozinho, a gente ajuda a começar.”

Não diga: “Vamos observar” sem dizer por quanto tempo, e “pode ser hoje, pode ser semana que vem”. Também não diga que “estourou porque a senhora fez esforço” — a causa quase nunca é essa, e a frase deixa culpa onde não havia.

Explicando à mulher pré-termo por que ela vai ficar semanas internada

“A bolsa rompeu com 27 semanas, e é cedo. O seu bebê está bem agora, e cada dia que ele ficar aí dentro é pulmão dele amadurecendo. Então o plano é o contrário do que a senhora está imaginando: a gente vai tentar segurar, não apressar. Para isso a senhora fica internada, vai tomar uma injeção que amadurece o pulmão dele mais rápido e um antibiótico que ajuda a segurar. Eu não sei dizer quantos dias — pode ser dias, pode ser semanas. O que eu sei dizer é o que vai encerrar a espera: se aparecer infecção, ou se ele der sinal de que não está bem lá dentro, o bebê nasce naquele dia.”

Não diga: Prometer uma semana (“vamos até 34”) como se fosse contrato. Também evite o oposto: silêncio sobre a prematuridade, que faz a família descobrir o tamanho do problema pela reação da equipe no dia do parto.

Justificando à paciente e à equipe por que não vai fazer o toque

“Eu não vou fazer o exame de toque, e é de propósito. Com a bolsa rota, o dedo leva bactéria da vagina para dentro, e infecção é justamente o que a gente está tentando evitar. Vou usar só o espéculo, que é aquele aparelho que abre, e por ele eu vejo tudo o que preciso ver. Se em algum momento o toque for necessário, quem faz é a obstetra, uma vez só, e eu registro.”

Não diga: Dizer “protocolo não deixa” — protocolo não é argumento para quem está com medo. E não faça o toque para agradar quem cobrou: a resposta a “mas você não tocou?” é o motivo, não o gesto.

Quando não há vaga de terapia intensiva neonatal

“Preciso te contar uma coisa que não é sobre a senhora, é sobre a estrutura. Se o seu bebê nascer com essa idade, ele precisa de uma unidade de terapia intensiva de recém-nascido, e a nossa maternidade não tem. Já estamos procurando vaga desde hoje, e enquanto isso a senhora continua aqui recebendo o tratamento que segura a gestação. Se a vaga aparecer e a gente achar mais seguro, a senhora vai de ambulância antes do parto, que é bem melhor do que o bebê ir depois. Vou te dar notícia dessa procura todo dia, mesmo quando não houver novidade.”

Não diga: Omitir a limitação até o dia do parto. E não transforme a busca de vaga em promessa — informe o esforço e a frequência com que vai atualizar, não o resultado.

Comunicando corioamnionite e que o parto vai ser hoje

“A senhora está com febre e o coração do bebê acelerou, e os exames mudaram desde ontem. Isso indica que a infecção chegou ao líquido, e é a única situação em que a espera para. Não dá para tratar a infecção com o bebê dentro: parte do tratamento é ele nascer. Já comecei o antibiótico na veia e chamei a obstetra. Vamos tentar o parto normal, que é mais seguro para a senhora nessa situação. Vou avisar a equipe do recém-nascido para eles estarem na sala.”

Não diga: “Deu uma infecçãozinha” e qualquer diminutivo. Também não peça autorização para uma decisão que já está tomada por indicação médica: informe a decisão, explique o motivo e responda o que ela perguntar.

A conversa da periviabilidade, com o casal

“Vou ser direto com vocês porque vocês precisam da informação inteira para decidir junto comigo. Com essa idade, mesmo que a gestação continue, as chances de o bebê sobreviver e de se desenvolver depois são muito pequenas, e a principal razão é que sem líquido o pulmão dele não consegue se formar. Existem dois caminhos, e nenhum dos dois é fácil. Vou explicar os dois, com o que cada um significa para o bebê e o que significa de risco para a senhora, vocês vão poder perguntar tudo, e não precisa ser hoje. O que a gente decidir fica escrito, e vocês assinam junto comigo.”

Não diga: Decidir pelo casal para poupá-los da decisão, e apresentar uma das opções como “o que se faz nesses casos”. Também evite dar o prognóstico em porcentagem inventada: o que se diz é o que o documento sustenta.

Passando o caso ao obstetra por telefone, à noite

“Doutora, mulher de 27 semanas e 3 dias por ultrassonografia de dez semanas, primeira gestação, rotura confirmada no especular às 21h30, líquido claro sem odor, sem contração, sem alça de cordão. Temperatura 36,8, pulso 88, batimentos fetais 152 e regulares, útero indolor. Colhi hemograma, proteína C reativa, urina e o swab para estreptococo. Não fiz toque. Internei. Estou pedindo autorização para iniciar o corticoide e o antibiótico de latência hoje, e queria confirmar com a senhora a conduta de vitalidade, porque com 27 semanas a cardiotocografia ainda não é confiável. Já pedi vaga na referência neonatal; as seis estão ocupadas.”

Não diga: Começar pela conduta e deixar a idade gestacional para o fim — nesta doença a idade gestacional é a primeira informação, porque é ela que muda todo o resto. E não omita o que você ainda não fez: “não fiz toque” é informação, não desculpa.

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Onde bons médicos discordam

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.

Rotura no termo: induzir já ou aceitar uma janela de espera espontânea

Postura ativa imediata, sem janela declarada (manual federal brasileiro, 2022)

O Manual de Gestação de Alto Risco encerra o capítulo de rotura com uma frase de comando e sem número: rotura no termo indica postura ativa para desencadeamento do trabalho de parto. Não há autorização explícita de espera, nem prazo a partir do qual a indução se torna obrigatória. Lida ao pé da letra, a orientação é para começar a induzir assim que o diagnóstico estiver feito e a paciente internada. O argumento por trás dessa posição é o do relógio único: no termo não há maturidade a ganhar, então cada hora de bolsa rota é risco de infecção sem contrapartida. O mesmo manual reforça a lógica ao listar rotura de membranas com 18 horas ou mais como fator de risco intraparto suficiente, sozinho, para indicar antibiótico à parturiente de cultura desconhecida.

Brasil. Ministério da Saúde. Manual de Gestação de Alto Risco. Brasília, 2022, itens 7.6 e 7.7, e capítulo 39, quadros 1 e 3.

Espera espontânea de até 12 horas, com indução obrigatória depois disso (guia hospitalar brasileiro, versão 4, revisada em 2025)

O guia de episódio de cuidado de um hospital brasileiro fixa uma janela e um prazo: na ausência de corioamnionite e de sofrimento fetal agudo, pode-se aguardar o trabalho de parto espontâneo até 12 horas após o diagnóstico, tornando-se a indução obrigatória depois desse período. A justificativa que o próprio documento oferece para a indução é a mesma da posição anterior — reduzir o tempo entre a rotura e o nascimento, reduzir corioamnionite e endometrite e reduzir admissões do recém-nascido em terapia intensiva —, com o acréscimo de que isso se obtém sem aumentar as taxas de cesariana ou de fórceps. A diferença, portanto, não é sobre o benefício da indução: é sobre se as primeiras horas de espera espontânea custam alguma coisa.

Hospital Israelita Albert Einstein. Rotura Prematura de Membranas Ovulares — Guia do Episódio de Cuidado, documento CPTW50.4, versão 4, revisão de 02/09/2025.

Como decidir

Decida pelo que a mulher à sua frente traz de específico, porque a diferença entre as duas posições é de horas e não de dias. Três dados empurram para induzir agora: cultura para estreptococo do grupo B positiva ou desconhecida, tempo de bolsa rota já contando desde antes da chegada, e colo favorável, que torna a indução curta. Três dados sustentam esperar algumas horas: contrações começando por conta própria, colo desfavorável, e o desejo explícito da mulher de tentar o trabalho de parto espontâneo, depois de informada. O que não é negociável em nenhuma das duas posições: a internação, a temperatura medida de tempo em tempo, e o relógio das 18 horas correndo desde a rotura e não desde a admissão.

Rotura entre 34 e 36 semanas e 6 dias: resolver agora ou esperar até 37

Resolver, conduzindo como no termo — com exceção explícita para serviços de menor infraestrutura neonatal (manual federal brasileiro, 2022)

O manual federal escreve que a rotura após 34 semanas pode, via de regra, ser conduzida como no termo, com resolução da gestação, principalmente nas maternidades em que haja suporte neonatal adequado — evitando expor o binômio ao risco infeccioso. E abre, na frase seguinte, a exceção que raramente é lida: serviços com menor infraestrutura neonatal podem adotar conduta particularizada e expectante por mais tempo, até 36 semanas, principalmente nos casos com quantidade satisfatória de líquido amniótico, boa vitalidade fetal e sem sinais de infecção. A exceção é notável porque inverte a intuição: onde há menos recurso neonatal, espera-se mais, e não menos.

Brasil. Ministério da Saúde. Manual de Gestação de Alto Risco. Brasília, 2022, item 7.6.

Resolver, e declarar que a razão é a estrutura do próprio serviço (protocolo de hospital universitário federal, publicado por portaria em março de 2024)

O protocolo hospitalar descreve a faixa de 34 a 36 semanas e 6 dias escrevendo que “tradicionalmente recomenda-se a indução do trabalho de parto”, com rastreio e profilaxia para estreptococo, tratamento de infecção ovular se houver e corticoterapia individualizada — sem atrasar a resolução para dar corticoide. E acrescenta, em nota ao fluxograma que ele reproduz do manual federal, a frase que explicita a lógica local: naquele serviço, devido à infraestrutura neonatal, recomenda-se conduta resolutiva acima de 34 semanas. É a mesma conduta da posição anterior, sustentada por uma razão institucional declarada em vez de uma razão fisiopatológica.

Hospital Universitário da Universidade Federal da Grande Dourados. Protocolo PRT.UMUL.007 — Ruptura Prematura de Membranas Ovulares, versão 01, emissão 04/03/2024, item 8 e nota à figura 2.

Conduta ativa como regra, mas com espera individualizada admitida para casos selecionados (guia hospitalar brasileiro, versão 4, revisada em 2025)

O guia hospitalar fixa a conduta ativa como padrão da faixa — indução em até 12 horas da rotura, para reduzir tempo de bolsa rota, oligoâmnio e corioamnionite — e registra, logo abaixo, que a conduta expectante entre 34 e 36 semanas deve ser individualizada para casos selecionados, na ausência de corioamnionite e de sofrimento fetal agudo. É a posição intermediária: o padrão é nascer, e o desvio do padrão é possível, nominal e reservado. Vale registrar que o mesmo documento lista, entre suas referências, um ensaio clínico randomizado que comparou exatamente indução e conduta expectante nessa faixa de 34 a 37 semanas — o que indica que a abertura é deliberada, e não descuido de redação.

Hospital Israelita Albert Einstein. Rotura Prematura de Membranas Ovulares — Guia do Episódio de Cuidado, documento CPTW50.4, versão 4, revisão de 02/09/2025, fluxograma e lista de referências.

Como decidir

A pergunta que decide não é “qual documento está certo”, e sim “onde essa criança vai ser cuidada”. Três posições e uma variável comum: todas as três condicionam a decisão à infraestrutura neonatal disponível, e duas dizem isso por escrito. Levante quatro dados antes de opinar: existe berçário ou terapia intensiva neonatal no seu serviço; qual é o volume de líquido residual; há algum sinal de infecção, mesmo mínimo; e a idade gestacional é confiável. Com estrutura neonatal presente e qualquer sinal de infecção, a conta fecha em nascer. Sem estrutura neonatal, com líquido preservado, vitalidade boa e nenhum sinal infeccioso, a exceção que o próprio manual federal escreve é o caminho — e ela precisa estar registrada no prontuário como decisão consciente, com a vigilância que a sustenta, e não como espera por falta de decisão.

O que basta para dizer que há corioamnionite

Uma lista de sinais sugestivos, sem exigir febre e sem número mínimo (manual federal brasileiro, 2022)

O manual federal não define corioamnionite por critérios: define uma lista de quatro “sinais sugestivos de infecção intrauterina” — taquicardia materna e/ou fetal; febre materna; leucócitos acima de 20.000/mm³ ou com desvio significativo à esquerda, ou abaixo de 20.000 com aumento de 20% em relação a exames anteriores; e ausência de movimentos respiratórios fetais no perfil biofísico. Não há mínimo declarado, e a febre não é obrigatória. A leitura literal é permissiva: taquicardia materna isolada satisfaz a lista. O ganho dessa formulação é a sensibilidade, num contexto em que a forma subclínica é a que mata; o custo é a interrupção de gestações pré-termo por achado inespecífico.

Brasil. Ministério da Saúde. Manual de Gestação de Alto Risco. Brasília, 2022, item 7.5.2.

Febre obrigatória mais pelo menos um outro achado (guia hospitalar brasileiro, versão 4, revisada em 2025)

O guia hospitalar exige a conjunção: presença de febre materna associada a pelo menos um dos achados — taquicardia materna acima de 100 bpm ou fetal acima de 160 bpm, leucocitose acima de 15.000/mm³ sem corticoide, secreção vaginal purulenta, ou dor uterina à palpação. É a formulação mais próxima da literatura internacional de referência, e a que produz menos falso-positivo. O custo é do outro lado: a paciente com corioamnionite subclínica, ainda sem febre, não satisfaz o critério, e a decisão de interromper precisa então ser tomada fora dele — pela deterioração de parâmetros isolados, que é exatamente o que essa formulação se recusa a nomear.

Hospital Israelita Albert Einstein. Rotura Prematura de Membranas Ovulares — Guia do Episódio de Cuidado, documento CPTW50.4, versão 4, revisão de 02/09/2025.

Febre alta sozinha, com os demais achados rebaixados a acompanhantes (protocolo de hospital universitário federal, março de 2024)

O protocolo hospitalar coloca todo o peso na temperatura e nenhum nos demais: o critério diagnóstico é febre igual ou acima de 39,0 °C, ou dois episódios entre 38,0 e 38,9 °C separados por 45 minutos, sem outra fonte aparente de infecção. Tudo o mais — taquicardia materna, taquicardia fetal persistente por pelo menos 10 minutos, leucocitose acima de 15.000/mm³ sem corticoide e com desvio, secreção purulenta pelo orifício do colo, sensibilidade uterina, bacteremia e ausência de movimentos respiratórios fetais — aparece sob o título de “outros sintomas que podem estar associados”, sem entrar na conta. É a formulação mais específica das três, e a que mais demora a disparar.

Hospital Universitário da Universidade Federal da Grande Dourados. Protocolo PRT.UMUL.007 — Ruptura Prematura de Membranas Ovulares, versão 01, emissão 04/03/2024, item 10.1.

Como decidir

Nenhuma das três formulações decide sozinha diante da paciente real, e o erro é escolher a que confirma a conduta que você já queria. Decida pela assimetria de consequências, que muda com a idade gestacional. Com 36 semanas, o custo de interromper por achado inespecífico é baixo e o custo de perder uma infecção é alto — use o critério mais sensível, que é a lista federal. Com 26 semanas, cada dia ganho vale muito e interromper por taquicardia materna isolada pode custar semanas de pulmão — repita a medida, procure a causa competidora, colha o par hemograma e proteína C reativa, e exija a conjunção antes de decidir. Em qualquer semana, dois achados dispensam discussão de critério: líquido de odor fétido e secreção purulenta pelo orifício do colo. E, seja qual for a régua adotada, ela precisa estar escolhida por escrito no protocolo do serviço antes do plantão — porque, como interno, o que você faz é colher e somar os parâmetros, e quem os transforma em decisão é quem assinou o protocolo.

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O raciocínio, em voz alta

Franciene Cambraia, 22 anos, primeira gestação, 27 semanas e 3 dias por ultrassonografia de dez semanas. Chegou às 21h20 de domingo à maternidade de oito leitos do hospital municipal, referindo perda de líquido claro iniciada por volta das 20h, contínua, sem cheiro, sem contração e com o bebê mexendo. Pressão 104 por 62 mmHg, pulso 88 bpm, temperatura axilar 36,8 °C, batimentos fetais 152 bpm e regulares. Pré-natal com sete consultas, sorologias negativas, sem cultura para estreptococo do grupo B — que só é colhida com 36 semanas. Não há terapia intensiva neonatal no hospital; a referência fica a quarenta quilômetros e informou por telefone que as seis vagas estão ocupadas. Você é o interno da noite e a obstetra está em casa, a doze minutos.

  1. o que penso agora

    História típica de rotura, com hora conhecida — 20h, ou seja, uma hora e vinte de bolsa rota até agora. A idade gestacional é confiável, e é ela que decide tudo: 27 semanas e 3 dias cai na faixa de conduta expectante em todos os documentos brasileiros. Antes de aplicar a faixa, preciso confirmar o diagnóstico e excluir infecção — se houver infecção, a faixa não importa e o bebê nasce hoje. Os sinais vitais e os batimentos fetais estão bons, mas 152 bpm é o limite superior do confortável e vai precisar de segunda medida.

  2. 21h30 — o espéculo, e o que não faço

    Espéculo estéril, sem lubrificante. Vejo líquido claro escoando pelo orifício externo do colo quando peço que ela tussa. Diagnóstico confirmado. Ainda com o espéculo aberto, procuro alça de cordão — não há —, descrevo o líquido como claro, sem odor e sem grumos, e colho o swab do terço inferior da vagina e da região anal para estreptococo do grupo B, já que ela não tem cultura. Não faço toque vaginal, e escrevo isso no prontuário com essas palavras, para me proteger e proteger a paciente de quem chegar depois.

  3. 21h45 — a linha de base

    Interno. Prescrevo hemograma, proteína C reativa, urina tipo I e urocultura, e peço a ultrassonografia obstétrica com estimativa de peso fetal, apresentação, localização placentária e volume de líquido residual — esse último número é a linha de base do seguimento inteiro, e não vou ter chance de colhê-lo retroativamente. Anoto os sinais vitais de admissão como referência: 104 por 62, 88 bpm, 36,8 °C, útero indolor, sem dinâmica.

  4. 22h00 — ligo para a obstetra antes de prescrever

    Passo o caso na ordem que ela precisa: idade gestacional e como foi datada, primeiro; diagnóstico confirmado no especular; ausência de contração, de febre e de alça de cordão; sinais vitais; o que já colhi; e o que não fiz — não fiz toque. Peço autorização para iniciar o corticoide e o antibiótico de latência hoje, e levanto a dúvida da vitalidade: com 27 semanas a cardiotocografia ainda não é confiável, e o protocolo do serviço precisa dizer o que fazer no lugar. Informo que a referência neonatal está sem vaga e que já registrei o pedido.

  5. 22h20 — as quatro peças da espera

    Corticoide: betametasona 12 mg intramuscular, agora, e a segunda dose em 24 horas. Confiro a ampola antes de aspirar — 3 mg de acetato mais 3 mg de fosfato dissódico por mililitro dão 6 mg de betametasona por mL, então 12 mg são 2 mL, isto é, duas ampolas de 1 mL, e não quatro. Antibiótico de latência: azitromicina 1 g por via oral agora, que são dois comprimidos de 500 mg, e ampicilina 2 g endovenosa de 6 em 6 horas por 48 horas, seguidas de amoxicilina 500 mg de 8 em 8 horas por cinco dias. Sulfato de magnésio: não agora — ele entra na iminência do parto, e ela não está em trabalho de parto. Vigilância: prescrevo temperatura, pulso e pressão de 4 em 4 horas, ausculta fetal de 6 em 6 horas, verificação do aspecto e do odor dos pensos a cada troca, e hemograma com proteína C reativa a cada dois dias, anotando no pedido a hora da dose de corticoide.

  6. 22h40 — a conversa que muda a internação

    Explico a ela e ao marido que o plano é o inverso do que estão imaginando: a gente vai tentar segurar, não apressar, porque cada dia ali dentro é pulmão amadurecendo. Digo que não sei quantos dias — pode ser dias, pode ser semanas —, e digo o que encerra a espera: infecção, ou sinal de que o bebê não está bem. Conto que o hospital não tem terapia intensiva neonatal, que a busca por vaga começou hoje e que vou dar notícia todo dia, mesmo sem novidade. Não prometo semana nenhuma.

  7. quinto dia — a alteração que aparece sozinha

    Temperatura 37,2 °C às 6h e 37,6 °C às 10h; pulso subiu de 88 para 104; batimentos fetais em 168 na ausculta das 10h, repetidos em 166. O penso tem líquido levemente amarelado, sem odor que eu consiga afirmar. Leucócitos 16.800, contra 11.200 na admissão e 12.100 no terceiro dia — e a última dose de corticoide foi há quatro dias, então não é o fármaco. Somo: taquicardia materna, taquicardia fetal e leucograma em ascensão de 39% sobre o exame anterior, com temperatura subindo. Pela lista do manual federal, isso já é infecção intrauterina. Chamo a obstetra imediatamente, sem esperar a coleta do dia seguinte.

  8. o desfecho e o que ele ensina

    Antibiótico terapêutico iniciado, corticoide suspenso — já estava completo desde o segundo dia —, sulfato de magnésio iniciado por estar abaixo de 32 semanas e com parto iminente, e resolução da gestação por via vaginal com 28 semanas e 1 dia. A espera rendeu cinco dias e o ciclo completo de corticoide, que é exatamente o que ela deveria render. O que este caso ensina não é o desfecho, é a ordem: nada do que foi feito no quinto dia teria sido possível sem a linha de base colhida na primeira hora. O leucograma de 16.800 só significa alguma coisa porque existe o de 11.200 da admissão; a temperatura de 37,6 °C só é alarme porque existe a de 36,8 °C escrita na ficha.

  9. Variação do caso — resposta e reavaliação

    Variação da vigilância de Franciene: permanece afebril e sem dor uterina, com feto estável. A espera continua tendo objetivo e critérios, que devem constar da evolução diária. Ausência de contrações não dispensa procurar sinais de infecção ou mudança fetal.

  10. Variação do caso — quando mudar o plano

    Se surgem febre e dor uterina com suspeita de infecção intra-amniótica, rever imediatamente o plano expectante e iniciar tratamento terapêutico indicado. Não confundir antibiótico de latência com tratamento de infecção estabelecida. O ganho de alguns dias deixa de ser benefício quando a espera se torna perigosa.

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Faça você

Gleiciane Baima, 29 anos, terceira gestação e dois partos vaginais prévios, 35 semanas e 2 dias por ultrassonografia de doze semanas. Chega às 5h40 de uma quarta-feira ao mesmo hospital municipal, sem terapia intensiva neonatal. Conta que a bolsa rompeu por volta das 9h de ontem — quase 21 horas atrás — e que ela demorou a vir porque achou que era urina e porque não tinha com quem deixar os filhos. Continua perdendo líquido claro, com um leve tom amarelado, sem cheiro que ela note. Refere cólicas fracas e irregulares desde a madrugada. Pressão 122 por 78 mmHg, pulso 96 bpm, temperatura axilar 37,5 °C, batimentos fetais 158 bpm. O cartão de pré-natal traz uma cultura vaginal e anal para estreptococo do grupo B colhida com 34 semanas, com resultado positivo. A obstetra está a caminho e chega em vinte minutos.

  1. o que já sei

    Rotura confirmada pela história, com 35 semanas e 2 dias, o que a coloca na faixa de 34 a 36 semanas e 6 dias — a faixa em que os documentos brasileiros mais divergem. O tempo de bolsa rota é de quase 21 horas, já acima do corte de 18 horas. Há três parâmetros que doem: temperatura de 37,5 °C, pulso de 96 e batimentos fetais de 158. Nenhum deles isolado fecha critério de infecção em nenhuma das quatro réguas brasileiras; os três juntos, em quem tem 21 horas de bolsa rota, são outra conversa.

  2. as duas armadilhas de leitura do cartão

    A primeira é achar que a cultura de 34 semanas “não vale” porque a janela de rastreio recomendada é de 36 semanas e 0 dia a 37 semanas e 6 dias. A regra das 5 semanas de validade é regra para cultura NEGATIVA — é ela que expira e obriga a recoletar. A segunda é o inverso: recolher o swab agora, como se o resultado positivo precisasse de confirmação dentro da janela. Nenhuma das duas leituras muda o que a cultura já disse.

  3. o detalhe que muda a sequência

    Ela chegou com cólicas irregulares desde a madrugada. Numa mulher com bolsa rota há 21 horas e três parâmetros alterados, contração que começa sozinha não é a boa notícia de que o trabalho de parto chegou.

Ver como fecharíamos

Confirme o diagnóstico e o tempo de rotura pelo especular, sem toque, procurando alça de cordão e descrevendo cor e odor do líquido — o tom amarelado é achado a caracterizar, não a ignorar. Interne, colha hemograma, proteína C reativa, urina tipo I e urocultura como linha de base, e repita a temperatura e as duas frequências dentro do intervalo que o protocolo do serviço define. NÃO recolha o swab: cultura positiva é positiva e não expira; a regra de validade de cinco semanas se aplica à cultura negativa. Inicie a profilaxia intraparto para estreptococo do grupo B — ela é indicada por três motivos independentes aqui: cultura positiva, idade gestacional abaixo de 37 semanas e bolsa rota há mais de 18 horas. Chame a obstetra e apresente a decisão de faixa como decisão dela, com os dados na mão: o manual federal manda conduzir a rotura acima de 34 semanas como no termo, com resolução, e abre exceção de espera até 36 semanas justamente para serviços com menor infraestrutura neonatal, que é o caso deste hospital — mas a exceção é escrita para casos com líquido satisfatório, boa vitalidade e SEM sinais de infecção, e é esse último requisito que esta paciente não cumpre. Some os três parâmetros e o tempo de rotura, trate o início das cólicas como gatilho de reavaliação infecciosa e não como progressão fisiológica, e prepare a conduta ativa. Não dê corticoide sem a obstetra: nessa faixa ele é individualizado, não se atrasa o parto por ele, e ele é contraindicado se a infecção estiver instalada. Avise a equipe que vai receber o recém-nascido de que se trata de bolsa rota prolongada com estreptococo positivo, porque isso muda a vigilância dele nas primeiras horas.

Gabarito da questão de abertura
Comentário

Na RPM pré-termo, magnésio pode ser utilizado para neuroproteção quando o nascimento é iminente, em geral nas próximas 24 horas, dentro da faixa gestacional prevista no protocolo. Não se administra automaticamente na admissão nem com o objetivo de prolongar a latência. Um esquema usado é 4 g IV em 15–30 minutos e 1 g/h até o parto ou por no máximo 24 horas, com avaliação de função renal, diurese, respiração e reflexos e disponibilidade de gluconato de cálcio. Infecção intra-amniótica exige antibiótico e decisão de parto; não se deve retardar uma resolução indicada para completar magnésio ou corticoide. Limites gestacionais e contraindicações devem seguir a diretriz adotada.

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Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
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Plano de revisão

Em 7 dias

Reconstrua de memória, sem consultar: as cinco faixas de idade gestacional e a conduta de cada uma; as quatro peças do pacote de conduta expectante; e os cinco motivos de interrupção. Depois escreva as duas contas que este capítulo pede que você saiba fazer de cabeça — quantos mililitros são 12 mg de betametasona na ampola de 3 mais 3 mg/mL, e quantas horas de bolsa rota bastam, sozinhas, para indicar a profilaxia intraparto para estreptococo do grupo B. Aplicação comentada: A gestante recebeu antibiótico de latência; isso encerra a avaliação de profilaxia de EGB no parto? Não. A indicação intraparto deve ser conferida separadamente.

Em 30 dias

Pegue o protocolo de rotura prematura de membranas do serviço onde você está e responda três perguntas com ele na mão: qual é a faixa a que pertence uma gestante com exatamente 24 semanas e zero dia; quantos critérios são exigidos para dizer que há corioamnionite; e qual é o esquema de antibiótico de latência, com a dose da azitromicina escrita. Se alguma das três não tiver resposta no papel, você achou o que precisa levar para a discussão de caso.

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Agora atenda

Gestante de 28 semanas chega à maternidade com perda de líquido claro há duas horas, sem contração, sem febre e com o bebê ativo. Conduza o atendimento: confirme o diagnóstico com o exame que confirma, colha a história que decide a faixa, diga em voz alta o que você NÃO vai fazer e por quê, monte a espera com as peças que ela tem direito de receber hoje, e diga exatamente quais sinais, medidos com que frequência, vão encerrar essa espera.