Ginecologia e Obstetrícia › Parto e assistência ao nascimento
A puérpera com febre
Infecção puerperal (endometrite) e mastite lactacional
Duas infecções do mesmo período, com lógicas opostas: a que interna e se trata por veia, e a que se trata mantendo a amamentação — e o exame que percorre a mama, a ferida, o pulmão, a veia e a urina antes de fechar o diagnóstico no útero.
Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia. Infecção puerperal. São Paulo: Febrasgo; 2018 (Protocolo Febrasgo – Obstetrícia, nº 117 / Comissão Nacional Especializada em Assistência ao Abortamento, Parto e Puerpério). Publicado em Femina. 2019;47(12):898-901
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Fosfato de clindamicina 150 mg/mL solução injetável. Bula do profissional de saúde aprovada pela Anvisa. Hipolabor Farmacêutica
Sulfato de gentamicina 40 mg/mL solução injetável. Bula do profissional de saúde aprovada pela Anvisa. Hipolabor Farmacêutica
Sulbactam sódico/ampicilina sódica pó para solução injetável 1,5 g e 3,0 g. Bula do profissional de saúde aprovada pela Anvisa. Mylan Laboratórios
Cefalexina 500 mg cápsula dura. Bula do profissional de saúde aprovada pela Anvisa. EMS
Ibuprofeno 600 mg comprimido. Bula do profissional de saúde aprovada pela Anvisa. Vitamedic Indústria Farmacêutica
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Sobre as definições de febre no puerpério usadas pelos documentos brasileiros, qual afirmação está correta?
O paciente que você vai ver
São 22h40 de uma quarta-feira e a técnica de enfermagem chega ao posto com a folha de sinais vitais dobrada em duas, porque são dois nomes e ela quer que você olhe os dois juntos. No leito 4 da maternidade está Elzenir Basílio, 27 anos, quarto dia de uma cesariana de urgência por falha de progressão, depois de dezesseis horas de trabalho de parto com bolsa rota. Temperatura 38,6 °C. Na maca 2 da observação do pronto-socorro, que fica dois corredores adiante, está Rosileia Aderaldo, 24 anos, décimo sexto dia de um parto vaginal sem intercorrência, que voltou de casa hoje à noite com dor na mama direita. Temperatura 38,5 °C.
Os dois números são praticamente iguais e não significam a mesma coisa. Elzenir vai ficar internada, vai receber antibiótico por veia dentro da próxima hora e vai ser reexaminada de manhã por alguém que sabe o que procurar. Rosileia vai para casa hoje, com analgesia, com uma orientação individualizada sobre lactação e com um retorno marcado — e a decisão mais importante do atendimento dela não é qual antibiótico prescrever, é o que dizer quando ela perguntar se pode continuar amamentando.
Febre puerperal exige buscar foco e gravidade. Suspeita de endometrite com comprometimento clínico requer antibiótico intravenoso e avaliação hospitalar. No foco mamário, diferencie inflamação, infecção bacteriana e coleção; nem toda mastite exige antibiótico, e nem todo quadro febril permite alta.
Há uma terceira coisa na folha que a técnica trouxe, e é a que mais engana. Nem toda febre do puerpério vem do útero, e a régua de exame que este capítulo ensina percorre cinco territórios antes de fechar o diagnóstico: a mama, a ferida operatória ou a episiotomia, o pulmão, a veia — a do acesso venoso e a da perna — e a urina. O protocolo brasileiro acrescenta os raros, que existem e chegam: gastroenterite, faringite e infecção no local da anestesia. Fechar em endometrite sem ter olhado a mama de Elzenir é a forma mais eficiente de tratar a doença errada com o antibiótico certo.
E há um detalhe de calendário que decide o desfecho das duas. A endometrite costuma aparecer entre o segundo e o quinto dia, ainda dentro do hospital ou logo depois da alta, quando existe alguém para medir a temperatura de rotina. A mastite tem pico na segunda e na terceira semanas, quando a mulher já está em casa, cansada, sozinha com um recém-nascido, e a única pessoa que vai medir alguma coisa é ela mesma. Uma chega até você; a outra decide se vem.
O raciocínio comum é identificar foco, gravidade e necessidade de controle da causa. Nem toda endometrite tem conteúdo retido que exija esvaziamento, e a mama não deve ser tratada como um reservatório a esvaziar.
Quem adoece disso
A infecção é o terceiro vértice da tríade que mata gestantes e puérperas, ao lado das síndromes hipertensivas e da hemorragia. O protocolo brasileiro registra que a infecção puerperal varia de 1% a 15% dos partos, e que, nos países desenvolvidos, a sepse passou à frente da hipertensão na lista de causas diretas de morte materna obstétrica. A faixa é larga porque mede coisas diferentes em serviços diferentes, e larga desse jeito ela serve para uma coisa só: dizer que você vai encontrar.
O número brasileiro que existe mede menos do que parece. A vigilância nacional obrigatória de infecção relacionada à assistência conta a endometrite como uma infecção de sítio cirúrgico de órgão e cavidade após a cesariana, com período de vigilância de 30 dias contados a partir do dia da cirurgia. Parto vaginal não aparece na lista de procedimentos monitorados, e episiotomia não aparece em lugar nenhum do documento. A consequência prática é direta: a taxa de endometrite que a sua maternidade informa ao sistema nacional é, por construção, uma taxa de cesariana. A endometrite depois de um parto vaginal existe, é tratada, e não é contada.
Do lado da mama, não há denominador nacional. A mastite lactacional não entra na notificação obrigatória, e o único critério federal publicado para abscesso mamário ou mastite está pendurado na cirurgia de implante de prótese mamária, que é um procedimento cirúrgico. Ou seja: a mulher que coloca uma prótese e infecta tem critério diagnóstico federal; a mulher que amamenta e infecta não tem, e o único documento nacional que a maneja é um caderno de aleitamento materno de 2015. O capítulo trata isso como achado, não como detalhe de arquivo — quem não é contado não aparece em indicador nenhum, e o que não aparece em indicador não organiza serviço.
O que se sabe sobre distribuição vem do documento de aleitamento e do protocolo de infecção. A mastite se concentra na segunda e na terceira semanas depois do parto, embora possa aparecer em qualquer fase da amamentação; o ingurgitamento patológico tem pico entre o terceiro e o quinto dia e é mais frequente em primíparas; e o abscesso, em regra, é o desfecho de uma mastite que ninguém tratou, ou que se tratou tarde, ou de qualquer jeito — com destaque para a mulher que deixou de oferecer aquele lado sem tirar o leite de outro modo. Cerca de 10% dos abscessos comprometem lactações futuras.
Sobre quem mata, o protocolo brasileiro escolhe um número estrangeiro, e vale reparar nisso. O germe mais frequente na sepse puerperal é o estreptococo do grupo A, e a medida que o documento usa para dimensionar o risco vem do Reino Unido: entre 2006 e 2008, esse germe respondeu diretamente por 13 das 29 mortes maternas por infecção registradas lá. Não há número brasileiro equivalente no documento. Isso não invalida o alerta — invalida a ideia de que o Brasil sabe de quantas mulheres está falando.
Por que acontece o que acontece
Depois que a placenta sai, o endométrio é uma ferida. A superfície do leito placentário é decídua cruenta, com vasos abertos, coágulo fresco e tecido desvitalizado, e ela fica em contato direto com o canal vaginal por um colo que ainda não fechou. Sobe por esse caminho o que mora na vagina e no intestino — aeróbios do tipo da Escherichia coli, estreptococos, e os anaeróbios da própria cavidade —, e o meio de cultura já está pronto quando eles chegam. Por isso a endometrite é ascendente e polimicrobiana, e por isso nenhum esquema que não cubra anaeróbio resolve o quadro.
Entre os fatores de risco há um que pesa mais do que todos os outros, e é a via de parto: a cesariana. O mecanismo explica a lista inteira. A incisão uterina soma tecido desvitalizado, fio de sutura como corpo estranho e inóculo depositado dentro da cavidade abdominal. Amniorrexe e trabalho de parto prolongados alargam a janela de ascensão; a manipulação vaginal excessiva e a monitoração interna levam a flora para cima; a retenção de restos ovulares mantém substrato dentro do útero; e a hemorragia, a anemia, a obesidade, o diabetes e a imunossupressão reduzem a capacidade de contenção. Nenhum desses fatores é surpreendente depois que se entende que a doença é uma ferida contaminada por via ascendente.
O aspecto dos lóquios orienta a etiologia antes de qualquer cultura, e essa é uma informação de olfato que o interno costuma desprezar. Corrimento com mau cheiro sugere participação de anaeróbios; corrimento serossanguinolento e pouco fétido sugere infecção estreptocócica. A distinção não muda o esquema empírico, que cobre os dois, mas muda a velocidade com que você se preocupa: o estreptococo do grupo A é o germe que mata rápido e é o que mais aparece nos quadros precoces e fulminantes.
Há um mecanismo que explica por que a febre às vezes não cede com o antibiótico certo, e ele não é bacteriano: é vascular. Na tromboflebite pélvica séptica, a trombose infectada das veias pélvicas ou ováricas se instala sobre o mesmo leito inflamado e passa a alimentar picos febris que nenhum antimicrobiano alcança, porque o foco está dentro de um trombo. Ela é invisível ao exame físico e frequentemente à imagem, e é por isso que o teste diagnóstico brasileiro para ela é terapêutico: anticoagula-se e observa-se a curva térmica. Uma febre em picos que cai com heparina responde uma pergunta que a tomografia não respondeu.
Na mama, o evento inicial não é bactéria: é estase. Quando o leite produzido numa área deixa de ser removido, a pressão dentro do ducto sobe, as células que forram os alvéolos se achatam e a junção entre elas se afrouxa. A barreira deixa de ser estanque nos dois sentidos: material do plasma atravessa para dentro do leite, e leite atravessa para o tecido em volta. O tecido reage, e a reação é a inflamação — com dor, calor, rubor e, muitas vezes, febre, sem que exista infecção nenhuma. É essa inflamação estéril que faz a maioria dos casos, e é ela que explica por que a mama pode doer muito e melhorar em horas sem antibiótico.
A infecção vem depois, e vem porque o terreno ficou pronto. Sobre leite represado, tecido machucado e resposta inflamatória em curso, a bactéria se instala com facilidade — em regra um estafilococo —, e ela entra, quase sempre, pela lesão do mamilo. Daí a frase que organiza a prevenção inteira: a fissura da primeira semana é o que produz a mastite da terceira. Corrigir a pega no alojamento conjunto não é gentileza com a mãe cansada — é profilaxia de uma doença que interna.
O documento internacional acrescenta uma peça que muda o que se faz com as mãos. Ele descreve o que o senso comum chama de leite empedrado como estreitamento ductal por edema e hiperemia, e não como um tampão macroscópico que se possa expulsar. Se não há tampão, apertar e massaguear com força não desobstrui nada: traumatiza tecido já edemaciado e empurra o quadro na direção do fleimão, aquela massa endurecida sem flutuação que não se opera e leva semanas para sumir. É uma explicação mecânica de por que uma conduta bem-intencionada piora a doença.
E há o mecanismo de retroalimentação que torna a intuição de esvaziar perigosa quando levada ao extremo. O volume de leite obedece a um circuito local em que mais remoção produz mais produção. Numa mama já congesta e inflamada, ordenhar em excesso para esvaziar aumenta a produção, aumenta a distensão e alimenta o ciclo. É por isso que os dois documentos concordam em manter a criança na mama e divergem sobre tudo o que se faz além disso — e é por isso que a divergência importa à beira do leito, e não só na bibliografia.
Reconhecer o foco e individualizar seu tratamento
Endometrite envolve infecção do endométrio e pode ocorrer sem restos retidos. Antibiótico é central; evacuação uterina depende de indicação clínica e investigação. Persistência da febre exige revisar foco, complicações e diagnósticos alternativos.
Na mama, edema e inflamação alteram o fluxo de leite. A abordagem operacional está no marco de mastite: não se deve transformar alívio da distensão em objetivo de esvaziar.
A terceira cavidade é a que ninguém desenha e que decide o caso mais grave do capítulo: a coleção. Abscesso pélvico, abscesso de parede, abscesso de fundo de saco e abscesso mamário têm em comum uma cápsula, e cápsula é uma barreira farmacológica. Antibiótico não entra em pus organizado em concentração útil. Quando existe flutuação, a droga deixa de ser a decisão principal e passa a ser o acompanhamento de um procedimento — e o procedimento é o tratamento.

Como se apresenta de verdade
Febre puerperal exige localizar o foco e reconhecer repercussão sistêmica. Você deve examinar além do útero, revisar procedimentos e antibióticos recebidos e definir necessidade de internação. A resposta ao tratamento é uma curva de sintomas, sinais e função orgânica, não apenas a próxima temperatura.
O que segue é o desenho clínico das duas doenças centrais e dos cinco territórios que precisam ser percorridos antes de fechar em qualquer uma delas. A ordem do capítulo é deliberada: a endometrite vem primeiro porque é a hipótese principal, e os outros focos vêm logo em seguida porque a hipótese principal não pode ser a única.
Percurso clínico: Encontrar o foco e graduar gravidade
Avalie sinais vitais, perfusão, útero, lóquios, ferida, urina e mamas conforme sintomas. Endometrite, infecção de ferida e mastite exigem percursos próprios. No foco mamário, siga o manejo atualizado do marco de mastite; na suspeita de sepse, priorize atendimento hospitalar e tratamento oportuno.
As três réguas de febre, e a que você usa
A definição clássica de morbidade febril puerperal, herdada dos livros-texto, exige temperatura oral que alcance 38,0 °C em dois dias quaisquer da primeira dezena do puerpério, descontadas as 24 horas iniciais. O protocolo brasileiro de infecção puerperal invoca esse conceito duas vezes, dizendo que ele complementa a definição de infecção — e não o define em lugar nenhum das suas quatro páginas. Quem lê só o protocolo sai sem os números.
A definição que o protocolo imprime é outra, e vem da Organização Mundial da Saúde, de 1992. Ela trata a sepse puerperal como uma infecção genital instalada em algum ponto entre a rotura das membranas — ou o início do trabalho de parto — e o 42º dia depois do nascimento, e exige dois entre cinco itens. Os cinco: dor na pelve; temperatura oral de 38,5 °C ou mais, bastando uma medida; secreção vaginal anormal, purulenta por exemplo; odor anormal dessa secreção; e involução uterina lenta, quantificada como redução inferior a 2 cm ao dia ao longo dos oito primeiros dias. Em relação à régua anterior mudaram três coisas: meio grau a mais, uma aferição em vez de duas, e uma janela seis vezes maior.
A terceira régua é federal e recente, e é a que a comissão de controle de infecção do seu hospital usa. O critério de endometrite da nota técnica vigente exige, na ausência de identificação microbiológica em secreção ou tecido endometrial, pelo menos dois destes três achados em quem tem suspeita de endometrite: febre com temperatura axilar acima de 38 °C em pelo menos duas aferições; dor em baixo ventre ou útero amolecido sem outra causa; e loquiação purulenta. E aqui há uma armadilha de unidade que nenhum dos três documentos resolve: a temperatura axilar corre abaixo da oral, de modo que 38 °C na axila é um limiar fisiologicamente mais alto do que 38 °C na boca. Os documentos trocam de sítio sem oferecer conversão.
O que fazer com três réguas discordantes é mais simples do que parece, porque elas servem a coisas diferentes. A régua federal serve para contar casos, e o próprio documento avisa que os critérios existem para a definição epidemiológica e não devem ser confundidos com os critérios clínicos que o médico usa para definir e tratar a infecção. A régua da Organização Mundial da Saúde serve para nomear sepse puerperal. E a régua que decide o seu plantão não é nenhuma das três: é o gatilho de ação do protocolo brasileiro, que manda internar e iniciar antibiótico venoso diante de dor abdominal somada a temperatura acima de 38 °C e a pulso acima de 90. Esse é o número que muda a sua conduta hoje à noite.
E há uma exclusão que precisa ser lida como estatística, não como clínica. A definição clássica tira as primeiras 24 horas porque febre baixa e autolimitada é comum logo depois do parto e quase nunca é infecção. Mas o germe que mais mata na sepse puerperal, o estreptococo do grupo A, é justamente o que produz quadros precoces e fulminantes. Uma puérpera que faz temperatura alta ainda no primeiro dia, com prostração, pulso acelerado ou respiração curta, é investigada como sepse — e não observada porque a definição a deixou de fora.
A endometrite: o quadro que fecha em três achados
O desenho típico é febre entre o segundo e o quinto dia pós-parto — mais frequente e mais precoce depois de cesariana — acompanhada de três achados que andam juntos: dor e hipersensibilidade uterina à palpação, útero subinvoluído, isto é, mais alto do que deveria estar para o dia, e lóquios alterados, aumentados em volume, purulentos ou fétidos. Com os três presentes e sem outro foco ao exame, a endometrite deixa de ser hipótese e passa a ser diagnóstico de trabalho.
Os sinais que dizem que o quadro deixou de ser local são uma lista curta, e vale decorá-la porque cada item é um gatilho. Mal-estar generalizado; dor abdominal ou torácica; dor e sensibilidade sobre o útero ou sobre a loja renal; diarreia ou vômitos, que podem denunciar produção de exotoxina e choque tóxico precoce; respiração acima de 20 incursões por minuto, que o protocolo classifica como sintoma grave; pulso que se mantém acima de 90; e hipertermia acima de 38 °C. Três desses itens juntos — dor no abdome, temperatura acima de 38 °C e pulso acima de 90 — bastam para indicar admissão hospitalar e antibiótico intravenoso.
O protocolo organiza as formas clínicas em três degraus, e o degrau importa porque anuncia o que vem depois. A forma localizada abrange vulvoperineal, vaginite, cervicite e endometrite. A propagada abrange endomiometrite, salpingite, anexite, parametrite, pelviperitonite, miofasciíte e tromboflebite pélvica. A generalizada abrange peritonite difusa, sepse puerperal e choque séptico. O interno que reconhece a primeira e trata a tempo é o que impede a segunda; o que confunde a segunda com a primeira descobre o erro pela febre que não cede.
Um detalhe de cronologia separa o quadro sistêmico da coleção: temperatura em picos persistentes sugere abscesso. Não é que a febre seja mais alta — é que ela é intermitente e volta, apesar de esquema adequado, e essa forma de curva térmica é um dado, não um ruído. Anote a curva; ela é o exame que decide no terceiro dia.
Os outros cinco territórios, e o achado que entrega cada um
A mama. Ingurgitamento ou vermelhidão mamária estão na lista de sintomas de sepse do puerpério do próprio protocolo de infecção, e a mastite é descrita ali como condição facilmente negligenciada na clínica, capaz de levar a abscesso, fasciíte necrosante e síndrome do choque tóxico. Na puérpera febril, expor as duas mamas e palpar é parte do exame, não um adendo. Uma área em cunha, dolorosa, quente e avermelhada num quadrante muda o diagnóstico inteiro.
A ferida operatória e o períneo. Celulite em volta da cicatriz ou secreção na incisão de cesariana, e o mesmo na episiotomia. O protocolo orienta examinar cuidadosamente pele e tecidos moles em qualquer mulher com suspeita de sepse bacteriana, olhando especialmente cânulas venosas, locais de injeção e as feridas de cesariana e de episiotomia, e colher cultura de todos os locais suspeitos. E traz o sinal que separa o infectado do catastrófico: a característica cardinal da fasciíte necrosante é a dor desproporcional. A fasciíte precoce ocorre profundamente e pode não ter alteração visível de pele; quando aparecem bolhas e necrose evidente, o processo já se superficializou.
O pulmão. Tosse produtiva na lista de sintomas, e a orientação de que a pneumonia grave seja conduzida junto com pneumologia ou infectologia, com betalactâmico associado a macrolídeo para cobrir típicos e atípicos. Em puérpera recém-operada, some a isso a atelectasia e a hipoventilação por dor de incisão — que não é infecção e produz febre.
A veia. Dois territórios com o mesmo nome. O primeiro é o acesso venoso e os sítios de punção, que devem ser inspecionados e cujos dispositivos suspeitos de serem a fonte da infecção devem ser retirados ou trocados. O segundo é a perna: a puérpera é uma paciente de risco trombótico, e a tromboembolia venosa da gestação e do puerpério tem capítulo próprio, em 'A mesma adaptação, os dois riscos'. O que fica aqui é a versão infectada desse território, a tromboflebite pélvica séptica, que nenhum outro capítulo do nível assume e que este capítulo assume por isso.
A urina. As infecções bacterianas por Gram-negativos são particularmente associadas ao trato urinário, e o protocolo é explícito em que a pielonefrite aguda seja tratada de forma agressiva, com hospitalização e antibiótico endovenoso. Na puérpera com sonda vesical recente — quase toda cesariana — a urina sobe na lista, e o exame de urina entra na primeira coleta. A régua de bacteriúria e infecção urinária durante a gestação está em 'A única bactéria que se trata sem queixa'; no puerpério, o que muda é que o achado deixa de ser assintomático e passa a competir com o útero pelo mesmo sintoma.
A ferida operatória e a episiotomia infectadas, plano por plano
A nota técnica federal classifica a infecção de sítio cirúrgico em três planos, e o plano define o que se faz. A incisional superficial envolve apenas pele e subcutâneo, e fecha com qualquer um destes quatro: saída de pus pela incisão superficial; germe identificado em secreção ou tecido colhido com assepsia; abertura deliberada da incisão pelo médico diante de dor, sensibilidade aumentada, edema, hiperemia ou calor; ou o diagnóstico registrado pelo próprio médico. Inflamação discreta e secreção restrita aos pontos de sutura não contam.
A incisional profunda envolve tecidos moles profundos, fáscia e músculo, e fecha com drenagem purulenta da incisão profunda que não venha de órgão-cavidade; ou com a combinação de incisão aberta ou aspirada pelo médico mais microrganismo identificado (ou exame não realizado) mais pelo menos um sinal entre febre acima de 38 °C, dor e aumento de sensibilidade localizada; ou com abscesso ou outra evidência de infecção profunda ao exame clínico, anatomopatológico ou de imagem; ou com o diagnóstico feito pelo médico assistente. A órgão/cavidade alcança estrutura situada além da fáscia e do músculo, desde que tenha sido aberta ou manipulada no ato cirúrgico — e é aí que a endometrite pós-cesariana entra na contagem.
Duas regras da nota mudam a rotina do plantão e quase nunca são ditas. A primeira: computa-se sempre o plano mais profundo, de modo que a paciente que preenche superficial e órgão-cavidade conta só como órgão-cavidade. A segunda: culturas colhidas por swab com haste de algodão não são aceitas como identificação microbiológica. Quem passa o swab na secreção da ferida e manda para o laboratório coletou um exame que não fecha critério nenhum — e, clinicamente, colheu a flora da pele.
Do lado do períneo, a assimetria é gritante e vale ser dita ao aluno. A episiotomia infectada é uma ferida operatória que dói, abre, drena e às vezes precisa de desbridamento; o protocolo de infecção puerperal lista a drenagem de abscessos perineais e o desbridamento de fasciíte necrosante perineal entre as intervenções cirúrgicas necessárias. Mesmo assim, a episiotomia não aparece na lista federal de procedimentos com notificação obrigatória de infecção — só a cesariana. A técnica e a indicação da episiotomia são assunto de 'Assistência ao trabalho de parto'; a episiotomia que infectou é deste capítulo, porque não tem outro dono.
Um exemplo concreto para fixar o plano. Doralina Beltrão, 31 anos, sétimo dia de um parto vaginal com episiotomia, volta com dor perineal que aumentou em vez de diminuir, borda da sutura entreaberta, secreção turva e temperatura de 38,2 °C. Se a abertura é só de pele e subcutâneo, e a conduta é abrir, limpar e cuidar do curativo, o plano é superficial. Se a dor é desproporcional ao que se vê, se há crepitação, anestesia local da pele ou toxemia, a pergunta deixa de ser curativo e passa a ser centro cirúrgico.
Ingurgitamento, bloqueio, mastite e abscesso: o que separa os quatro
Ingurgitamento patológico. As duas mamas ficam distendidas além do tolerável, com desconforto intenso e por vezes febre baixa e indisposição; a pele mostra manchas avermelhadas, edema e brilho, o mamilo achata e o leite sai com dificuldade. É mais comum em primíparas, entre o terceiro e o quinto dia. O que o identifica é a distribuição: difuso e nas duas mamas. O alívio segue manejo fisiológico e medidas de conforto, e não há antibiótico nenhum nesta linha.
Bloqueio de ducto. Um nódulo bem delimitado, que dói ao toque, com vermelhidão e calor restritos àquele ponto, numa mulher que em geral não tem febre. Em parte dos casos aparece, no ápice do mamilo, um pontinho esbranquiçado que mal se enxerga e dói de forma desproporcional ao tamanho quando a criança suga. O que o identifica é ser focal numa mulher que não está toxemiada. É o degrau imediatamente anterior à mastite, e tratá-lo cedo é o que evita o degrau seguinte.
Mastite. Inflamação de um ou mais segmentos da mama lactante, quase sempre de um lado só, que pode evoluir para infecção bacteriana ou não evoluir. A parte afetada fica dolorosa, vermelha, edemaciada e quente, em área que tende a desenhar uma cunha a partir de um quadrante. O que aponta infecção é o conjunto de mal-estar importante, calafrios e temperatura acima de 38 °C — e o documento nacional admite que sinal e sintoma nem sempre separam com segurança a forma infecciosa da estéril. O leite daquela mama muda de gosto, fica mais salgado porque o sódio sobe e a lactose cai, e é comum a criança recusar aquele lado por causa disso.
Abscesso mamário. Dor forte, calafrio, indisposição, febre — e, à palpação, um ponto que amolece e cede sob o dedo. É a coleção, e a coleção muda a categoria da decisão: deixa de ser qual antibiótico e passa a ser quando e como drenar. No diagnóstico diferencial entram galactocele, fibroadenoma e carcinoma — a mama que amamenta não fica imune a doença que nada tem a ver com amamentação, e mama que não volta ao normal no ritmo esperado depois da fase aguda continua sendo reexaminada, com imagem, até resolver. As doenças benignas da mama fora do puerpério e a descarga papilar são de 'Doenças benignas da mama e descarga papilar'; o nódulo que persiste é de 'Nódulo mamário'.
Uma observação sobre a topografia, e ela é leitura deste capítulo, não citação. O caderno nacional afirma que o segmento mais comumente afetado pela mastite é o quadrante superior esquerdo. A lateralidade não tem explicação anatômica nem fisiológica conhecida, e a descrição clássica do quadrante mais acometido é a do quadrante superior externo, que existe nas duas mamas. Tratar a frase como uma preferência de lado seria procurar a doença no lugar errado; o que se procura é a cunha, no quadrante que estiver com ela.
Fora do espectro, mas dentro da mesma consulta, ficam três imitadores que pertencem ao capítulo de aleitamento materno e são citados aqui só para não serem confundidos com infecção: a candidose do mamilo, com dor em agulhadas que persiste depois da mamada; o fenômeno de Raynaud do mamilo, com sequência de palidez, cianose e rubor; e a galactocele, cisto de leite palpável como massa lisa e sem sinais sistêmicos.
As apresentações que enganam
A mulher que não está com febre agora. Analgésico e anti-inflamatório tomados em casa mascaram a curva térmica, e a puérpera que chega afebril às 22h pode ter feito 39 °C às 18h. Pergunte o que ela tomou e a que horas, e trate a informação da temperatura relatada em casa como dado clínico. O resto do exame não muda: útero, lóquios, mamas, ferida, pulmão, pernas e urina.
A febre precoce que a definição exclui. Já foi dita e vale repetir, porque é o erro com o pior desfecho: as primeiras 24 horas ficam fora da definição clássica por razão estatística, e o estreptococo do grupo A não respeita definição.
A mama que não é mastite. Área avermelhada, endurecida e quente que não cede ao tratamento em duas semanas obriga a pensar em carcinoma inflamatório, e aspecto que muda sem relação com a mamada obriga a olhar de novo até resolver. A mama que amamenta é uma mama como as outras.
A criança que não mama porque está doente. Sucção débil, letargia, hipotonia e instabilidade térmica no recém-nascido não são sinais de má técnica: são sinais de alarme e mudam o sujeito do atendimento. O recém-nascido é da Pediatria, e a régua do lactente febril está em 'Febre sem sinais localizatórios no lactente'. O que é deste capítulo é lembrar que a mãe com mastite e o bebê que não está bem são dois pacientes, não um.
A puérpera que já está em choque e ainda conversa. O reconhecimento precoce de disfunção orgânica em quem tem foco infeccioso é o que separa infecção de sepse, e a lógica dos pacotes iniciais, do lactato e do escore não é deste capítulo: está em 'Sepse: reconhecer e tratar na primeira hora'. O que fica aqui é o gatilho de encaminhamento — a puérpera com sinal de alarme não espera vaga de enfermaria para começar antibiótico.
Como fechar o diagnóstico
Investigar uma puérpera febril é, antes de tudo, examinar sete territórios em ordem fixa. Nenhum exame de sangue substitui essa sequência, e nenhum resultado é pré-requisito para começar o tratamento: no hospital, o antibiótico venoso de amplo espectro em dose elevada deve ser iniciado imediatamente, sem esperar o resultado das investigações, porque uma vez sistêmica a infecção pode deteriorar em horas.
A ordem existe por dois motivos. O primeiro é de frequência: a endometrite é a causa mais provável, e ela é a única em que o exame do abdome e dos lóquios fecha o diagnóstico na beira do leito. O segundo é de omissão: os focos que ficam por último são justamente os que se esquece quando o primeiro já pareceu suficiente.
O exame da puérpera febril, na ordem
Comece pelos sinais vitais completos, com frequência respiratória contada de verdade — é o parâmetro que a folha registra por hábito e que o protocolo trata como sintoma grave acima de 20 incursões por minuto. Meça a temperatura e anote o sítio de medida, porque as réguas divergem justamente nisso. Some a pressão arterial, a frequência cardíaca e o nível de consciência.
Depois o abdome. Palpe o fundo uterino e compare com o dia de puerpério: no quarto dia o útero deve estar em torno da metade da distância entre a sínfise e a cicatriz umbilical, e mais alto do que isso é subinvolução. Procure dor e hipersensibilidade à palpação uterina; teste a descompressão; procure distensão e sinais de irritação peritoneal, que já não são de endometrite localizada. Em quem operou, palpe a incisão e observe se há dor desproporcional ao que se vê.
Em seguida os lóquios. Não se examina lóquio pelo relato: examina-se pela vista e pelo olfato, com o absorvente na mão e luva. Volume aumentado, aspecto purulento e odor fétido são os três achados que, somados à dor uterina, fecham o desenho. Corrimento francamente purulento é um dos itens da definição da Organização Mundial da Saúde e um dos três achados do critério federal de endometrite.
Depois as mamas, as duas, expostas e palpadas, com a mulher sentada. Inspeção procurando distensão global e brilho da pele, área avermelhada delimitada, e o que houver no mamilo e na aréola: fissura, bolha, marca esbranquiçada, eritema ou descamação fina. Palpação procurando nódulo, delimitando a área e buscando ponto de flutuação. Área de flutuação com dor intensa, febre e calafrios levanta abscesso.
Por fim, ferida operatória e períneo com boa luz e afastamento; ausculta pulmonar; membros inferiores procurando assimetria, dor à palpação da panturrilha e empastamento; e os sítios de punção, um a um, inclusive o do acesso que a paciente ainda tem no dorso da mão. Termine perguntando por sintomas urinários, tosse produtiva, diarreia e vômito — os três últimos estão na lista do protocolo e são frequentemente atribuídos a outra coisa.
O que se colhe, e o que cada exame responde
A investigação inicial da infecção puerperal é curta e está toda no protocolo: hemograma completo, hemoculturas, cultura de material endocervical e endometrial, e ultrassonografia. Colha tudo de uma vez, na mesma punção em que se instala o acesso, e siga tratando. Colher culturas antes do antibiótico é correto; esperar o resultado das culturas para prescrever é o erro que o documento proíbe em uma frase.
Cada exame responde a uma pergunta diferente. O hemograma serve de linha de base e entrega a contagem de plaquetas, sem confirmar nem afastar endometrite. As hemoculturas mudam o esquema no dia seguinte, não hoje — e mudam mais na paciente que não responde do que na que responde. A cultura de material endocervical e endometrial é a que o protocolo pede, e é também a que mais sofre com contaminação de flora vaginal na coleta.
A ultrassonografia tem um papel definido e dois alvos declarados: ela é fundamental para o diagnóstico de retenção de produtos da concepção e de abscessos intracavitários e de parede abdominal. Isso é tudo. Ela não diagnostica endometrite, não gradua gravidade e não decide antibiótico. O momento em que ela decide alguma coisa é depois — quando a febre não cede em 24 a 48 horas, e a pergunta passa a ser se sobrou conteúdo ou se formou coleção.
Em quem tem sinal de alarme, some o que a lógica da sepse exige e que este capítulo não desenvolve: gasometria com lactato, função renal, bilirrubina e os parâmetros de perfusão. O rastreamento por escore, a definição de disfunção orgânica e os pacotes da primeira hora estão em 'Sepse: reconhecer e tratar na primeira hora'. O que fica aqui é o gatilho: a antibioticoterapia deve começar na primeira hora após o reconhecimento da sepse, e cada hora de atraso aumenta a mortalidade.
O exame da mama, que decide sem aparelho
Na mastite, o diagnóstico é clínico e o exame que decide é a palpação. Delimite a área com o dedo e desenhe mentalmente a sua forma: difusa e bilateral aponta ingurgitamento; nódulo focal em mulher afebril e sem toxemia aponta bloqueio de ducto; cunha dolorosa e quente com febre e mal-estar aponta mastite; e ponto de flutuação aponta abscesso. Procure também, no ápice do mamilo, o pontinho esbranquiçado que mal se enxerga e dói fora de proporção quando a criança suga.
Depois da mama, olhe a mamada. Não é possível tratar mastite sem saber se o leite está saindo, e a única forma de saber é ver a criança mamando. O que interessa a este capítulo é o subconjunto que causa e resolve a doença: se a aréola está tensa a ponto de impedir a pega, se a boca abocanha aréola além do mamilo, se o queixo toca a mama, se o lábio inferior está virado para fora, se há deglutição audível, e se dói. Dor que atravessa a mamada inteira, ou que não some depois dos primeiros sete dias, é achado de exame. A observação completa da mamada, com os oito itens de posicionamento e pega, e o manejo geral do aleitamento são de 'Aleitamento materno exclusivo até 6 meses', na Pediatria; o capítulo de aleitamento materno desta apostila ainda não está escrito e vai assumir a versão obstétrica dessa conversa.
A ultrassonografia da mama tem indicação estreita e clara: quando há suspeita de abscesso, para confirmar a coleção e indicar o melhor local para incisão ou aspiração. Fora disso, ela empurra o tratamento para depois do resultado numa doença em que o tempo importa. E os exames laboratoriais gerais têm utilidade limitada no diagnóstico da mastite: proteína C-reativa e contagem de leucócitos não separam a inflamação estéril da bacteriana.
A cultura do leite com antibiograma tem cinco indicações, e só cinco: quadro grave; mastite epidêmica; mastite contraída dentro do hospital; recorrência, definida como mais de dois episódios; e falta de resposta ao antibiótico já prescrito. Pedir fora dessas cinco não muda conduta e atrasa um tratamento que é tempo-dependente.
O que não pedir, e por quê
Não peça exame nenhum para autorizar o início do antibiótico venoso na puérpera com sinal de alarme. Nenhum item da investigação inicial é pré-requisito; a coleta e a prescrição acontecem na mesma passagem pelo leito.
Não peça cultura de leite de rotina, não peça ultrassonografia em toda mastite e não peça hemograma para decidir se uma mama dolorida merece antibiótico. Os três transformam uma decisão de beira de leito numa espera.
Não colha swab de haste de algodão da ferida operatória esperando identificação microbiológica: a nota técnica federal recusa esse material como critério, e clinicamente ele colhe a flora da pele. O que se colhe é secreção ou tecido, assepticamente.
Não transporte para a sala de imagem a puérpera hemodinamicamente instável, e não repita hemograma de hora em hora esperando que ele decida. E não peça mamografia para investigar uma mama aguda e dolorosa em lactação: o exame que responde à pergunta do abscesso é a ultrassonografia.
Duas ausências completam a lista, e são ausências de norma, não de exame. Não existe critério federal de notificação para endometrite depois de parto vaginal, e não existe documento brasileiro dedicado à mastite lactacional — o manejo nacional dela vive dentro de um caderno de aleitamento materno. Saber disso muda o que você espera encontrar quando procurar protocolo no seu serviço.
O elenco do SUS, droga por droga — e as ausências que mudam conduta
Aqui há um achado que muda conduta, e ele foi conferido droga a droga na relação nacional vigente, com busca exata sobre o texto normalizado. Do lado oral, tudo o que a mastite pede está no elenco e no componente básico: cefalexina em cápsula e em comprimido de 500 mg, mais a suspensão de 50 mg por mL; amoxicilina de 500 mg; amoxicilina com clavulanato de potássio de 500 mg mais 125 mg; estolato de eritromicina de 500 mg; e ibuprofeno em comprimido de 200, 300 e 600 mg. A mastite é, do ponto de vista de abastecimento, uma doença resolvida na atenção básica.
Do lado venoso, a situação é o oposto, e é surpreendente. Ampicilina não consta da relação nacional em nenhuma apresentação, e sulbactam também não — de modo que o esquema 1 do protocolo brasileiro de infecção puerperal, ampicilina-sulbactam com aminoglicosídeo, usa uma droga que não está no elenco. Gentamicina consta apenas como pomada oftálmica de 5 mg/g e solução oftálmica de 5 mg/mL; a apresentação injetável não está na relação. Clindamicina consta apenas como cápsula oral de 150 e 300 mg e como solução e gel tópicos; a solução injetável aparece uma única vez no documento, na lista de exclusões. Metronidazol consta como comprimido de 250 e 400 mg, gel vaginal e suspensão oral — não há apresentação injetável. Cefazolina, oxacilina e vancomicina não constam.
O único aminoglicosídeo injetável do elenco é a amicacina em solução injetável de 250 mg/mL, e ela está no componente estratégico, que é o dos programas específicos, não no básico. Ceftriaxona injetável consta, no componente básico, classificada como antimicrobiano de vigilância na classificação da Organização Mundial da Saúde adotada pela relação nacional.
Antes de concluir demais, vale dizer o que a relação nacional é e o que ela não é. Ela organiza a assistência farmacêutica em quatro anexos — componente básico, estratégico, especializado e insumos — e não tem anexo de uso hospitalar. Medicamento usado dentro de uma internação é adquirido pelo próprio hospital, por outra via de financiamento, e por isso a ausência na relação não significa que o frasco não exista na farmácia da maternidade. Significa outra coisa, e a outra coisa é o que interessa ao interno: a disponibilidade do esquema venoso da endometrite depende da padronização do seu hospital, não de uma lista nacional — e num serviço de pequeno porte, no interior, a pergunta 'temos clindamicina injetável?' precisa ser feita antes do plantão, não durante.
Há ainda uma droga do capítulo com endereço peculiar. A cabergolina, que é o que se usaria para suprimir a lactação, consta da relação nacional no componente especializado, vinculada aos protocolos de acromegalia e hiperprolactinemia. Suprimir a lactação de uma mulher com mastite não está indicado por nenhum dos documentos deste capítulo — e, no elenco nacional, não é sequer uma indicação prevista para a droga.
Quando o exame é a notificação, e não o diagnóstico
Uma parte do que se anota sobre a puérpera febril não serve para tratá-la: serve para contá-la. A nota técnica federal é explícita ao dizer que os critérios diagnósticos devem ser utilizados somente para a definição das infecções relacionadas à assistência sob o ponto de vista epidemiológico, e que não devem ser confundidos com os critérios clínicos, usados pelo médico para definir a infecção e tratá-la. O documento chega a explicitar que, mesmo com o médico certo do diagnóstico clínico, a infecção pode não ser computada do ponto de vista epidemiológico — e vice-versa.
Para o interno, isso resolve uma confusão comum de enfermaria. A comissão de controle de infecção pode não contar como endometrite o caso que você está tratando como endometrite, e isso não é discordância clínica: é diferença de instrumento. O critério de contagem exige dois achados entre febre axilar acima de 38 °C em pelo menos duas aferições, dor em baixo ventre ou útero amolecido sem outra causa, e loquiação purulenta — ou identificação microbiológica em secreção ou tecido endometrial obtido assepticamente.
A janela também é diferente da clínica. Para a cesariana, o período de vigilância é de 30 dias, contados com o dia da cirurgia como dia 1, e vale para os três planos de infecção de sítio cirúrgico. Se houver necessidade de retornar ao centro cirúrgico para nova abordagem no mesmo sítio, começa um novo período de vigilância. E, havendo mais de uma incisão, considera-se a ocorrência em todas as incisões.
Registrar direito é, aqui, uma tarefa clínica com consequência coletiva. O dia de puerpério, o sítio da medida de temperatura, o número de aferições, o aspecto e o odor dos lóquios, a via de parto e a data da cirurgia são o que permite que o caso exista nos dois mundos. A evolução que diz 'febril, em antibiótico' não serve a nenhum dos dois.
As réguas da febre, os dois esquemas e as contas que ninguém faz
O que segue é a sequência da puérpera febril, do momento em que a temperatura é anotada até o momento em que se decide onde ela dorme — e as quatro tabelas que se consultam dentro dessa sequência. Uma advertência de escopo antes de começar: as réguas que definem febre puerperal servem a finalidades diferentes, e nenhuma delas é o gatilho de conduta. O gatilho de conduta é curto e cabe numa linha: dor abdominal com temperatura acima de 38 °C e frequência cardíaca acima de 90 batimentos por minuto indicam internação e antibiótico venoso. Tudo o mais nesta seção existe para você saber por que os números não batem entre si.
- 1Meça e registre a temperatura com o sítio da medida escrito ao lado do número, e conte a frequência respiratória. Sem o sítio, o valor não se compara com régua nenhuma; sem a frequência respiratória, um dos sinais de alarme fica invisível.
- 2Percorra os sete territórios na ordem: sinais vitais, abdome e fundo uterino, lóquios, mamas, ferida operatória e períneo, pulmões e membros inferiores, sítios de punção. Só depois pergunte por sintomas urinários, tosse, diarreia e vômito.
- 3Procure os sinais de alarme enquanto examina: temperatura acima de 38 °C, taquicardia sustentada acima de 90 batimentos por minuto, frequência respiratória acima de 20 incursões por minuto, dor abdominal ou torácica, diarreia ou vômito, dor e sensibilidade uterina ou renal, mal-estar generalizado.
- 4Com sinal de alarme e foco uterino provável, interne. Colha hemograma, hemoculturas e cultura de material endocervical e endometrial, peça a ultrassonografia, e inicie o antibiótico venoso imediatamente — sem esperar resultado nenhum.
- 5Escolha o esquema pela tabela dos venosos, com a única trava que o protocolo impõe: evitar o uso terapêutico do antibiótico que foi usado na profilaxia. Depois de cesariana com cefalosporina profilática, isso empurra a escolha para o esquema com cobertura de anaeróbios.
- 6Foco mamário: avaliar gravidade e seguir o marco de mastite; suspeita de coleção exige avaliação para drenagem.
- 7Em qualquer uma das duas, decida sobre a amamentação antes que a mulher pergunte. Ela continua — na mastite, na mama afetada; no abscesso, inclusive na mama drenada; e na endometrite, durante o antibiótico venoso, com a conversa que o bloco de critérios detalha.
- 8Marque a hora zero e o relógio de cada decisão: 24 a 48 horas sem melhora da endometrite manda reexaminar e repetir a imagem; 12 a 24 horas de remoção efetiva do leite sem melhora é o gatilho nacional do antibiótico na mastite; 48 horas de antibiótico sem regressão da mastite manda pensar em abscesso.
- 9Quando a febre não cede com esquema adequado, reexamine antes de trocar a droga. A sequência é reexame completo, ultrassonografia, e então a lista do que precisa de procedimento: restos ovulares pedem curetagem; abscesso pede drenagem; fasciíte pede desbridamento; coleção no fundo de saco pede colpotomia.
- 10Investigação negativa e febre em picos que continua: aventa-se tromboflebite pélvica séptica, cujo teste diagnóstico é terapêutico. A decisão é do obstetra; o que é seu é lembrar dela antes que alguém escale antibiótico pela terceira vez.
- 11Antes da alta, escreva o que a mulher leva: quantos dias de antibiótico faltam, quais sinais fazem voltar hoje mesmo, quando é o retorno, e — se ela amamenta — a frase de que a amamentação continua e por quê.
| Régua e documento | Temperatura e sítio | Aferições e janela | Para que serve |
|---|---|---|---|
| Morbidade febril puerperal — definição clássica dos livros-texto, invocada duas vezes pelo Protocolo Febrasgo nº 117 e não definida por ele | 38,0 °C ou mais, oral | Pelo menos 2 dos 10 primeiros dias, excluídas as primeiras 24 horas | Nomear a febre do puerpério quando ainda não se sabe se é infecção |
| Sepse puerperal — definição da Organização Mundial da Saúde de 1992, reproduzida pelo Protocolo Febrasgo nº 117 (2018) | 38,5 °C ou mais, oral | Uma única aferição, em qualquer ocasião, entre a rotura das membranas ou o trabalho de parto e o 42º dia | Nomear sepse puerperal, com 2 ou mais dos 5 achados |
| Gatilho de internação — Protocolo Febrasgo nº 117 (2018) | Acima de 38 °C, sítio não especificado | Sem número de aferições e sem janela; vale a qualquer momento | Decidir hoje: com dor abdominal e frequência acima de 90, interna e começa o venoso |
| Endometrite — critério federal, Nota Técnica GVIMS/GGTES/DIRE3/Anvisa nº 03/2026 (Quadro 51) | Acima de 38 °C, axilar | Pelo menos 2 aferições; dentro dos 30 dias da cesariana | Contar o caso na vigilância nacional — o próprio documento diz que não se confunde com critério clínico |
| Mastite infecciosa — Caderno de Atenção Básica nº 23 (2015) | Acima de 38 °C, sítio não especificado | Sem número de aferições e sem janela | Separar a mastite com sinal de infecção da inflamatória, junto com mal-estar importante e calafrios |
Endometrite: os dois esquemas venosos, e o que a bula acrescenta
| Esquema e quem o sustenta | Droga, dose, via e intervalo | Volume e unidades por dia | O que a bula acrescenta |
|---|---|---|---|
| Esquema 1 — Protocolo Febrasgo nº 117 (2018) | Ampicilina-sulbactam 3 g por via endovenosa a cada 6 horas, por 7 a 10 dias, associada a aminoglicosídeo | Frasco-ampola de 3,0 g (2 g de ampicilina e 1 g de sulbactam); 6,4 mL de diluente dão 8 mL; 4 frascos por dia; 28 frascos em 7 dias | A faixa de bula é de 1,5 g a 12 g por dia, com teto de 4 g de sulbactam em 24 horas: o esquema entrega exatamente 12 g e exatamente 4 g de sulbactam. E a bula proíbe misturar no mesmo recipiente com aminoglicosídeo |
| Esquema 2 — Protocolo Febrasgo nº 117 (2018); é também a primeira escolha do Manual de Gestação de Alto Risco (2022) | Clindamicina 600 mg por via endovenosa a cada 6 horas, por 7 a 10 dias, associada a aminoglicosídeo; alternativa anaeróbia: metronidazol 500 mg por via endovenosa a cada 8 horas | Ampola de 4 mL a 150 mg/mL, ou seja, 600 mg por ampola; 4 ampolas por dia; 28 ampolas em 7 dias | 2.400 mg por dia é o piso da faixa de bula para infecção da pelve feminina (2.400 a 2.700 mg). Diluir a no máximo 18 mg/mL e infundir a no máximo 30 mg por minuto: 600 mg em 50 mL correm em 20 minutos |
| Aminoglicosídeo dos dois esquemas — Protocolo Febrasgo nº 117 (2018) | Gentamicina 180 a 240 mg por via intramuscular ou endovenosa a cada 24 horas; ou amicacina 1 g a cada 24 horas; ambas por 7 a 10 dias | Gentamicina: ampola de 2 mL a 40 mg/mL, 80 mg por ampola; 240 mg são 6 mL, 3 ampolas. Amicacina: 250 mg/mL, 1 g são 4 mL | A bula da gentamicina entrega 180 e 240 mg como total diário do esquema de 8 em 8 horas (60 mg ou 80 mg três vezes ao dia), e manda calcular por massa magra nos extremos de peso |
| Alternativas do Manual de Gestação de Alto Risco (2022), Quadro 2 | Ampicilina com gentamicina e metronidazol; ou amoxicilina-clavulanato | O Quadro 2 nomeia as drogas e não imprime dose, via nem intervalo | Amoxicilina-clavulanato oral consta da relação nacional em comprimido de 500 mg mais 125 mg, componente básico |
| Observações que valem para os dois esquemas — Protocolo Febrasgo nº 117 (2018) | Manter a via endovenosa por pelo menos 24 a 48 horas após o último pico febril; evitar o antibiótico usado na profilaxia; reavaliar com infectologia se não houver melhora em 24 a 48 horas | Nenhuma linha do protocolo descreve passagem para via oral nem nomeia droga oral de continuidade | A bula da clindamicina descreve, para infecção pélvica, continuidade com clindamicina oral de 450 a 600 mg a cada 6 horas até completar 10 a 14 dias — um caminho que o protocolo obstétrico não menciona |
Mastite: as duas réguas lado a lado
| Decisão | Caderno de Atenção Básica nº 23 — Ministério da Saúde, 2015 | Protocolo nº 36 da Academy of Breastfeeding Medicine, 2022 |
|---|---|---|
| A amamentação continua? | Sim, inclusive na mama afetada: a presença de bactérias no leite não oferece risco ao recém-nascido a termo sadio | Sim: consumir leite de uma mama com mastite bacteriana é seguro para o lactente |
| O que se faz com o leite retido | Esvaziamento adequado da mama é o componente mais importante do tratamento, preferencialmente pelo próprio lactente, com ordenha complementar se necessário | Amamentar em livre demanda sem o objetivo de esvaziar: aumentar a remoção aumenta a produção e alimenta o ciclo de hiperlactação |
| Massagem | Massagens delicadas com movimentos circulares, sobretudo nas áreas mais afetadas, para fluidificar o leite viscoso e estimular a ejeção | Evitar massagem profunda e aparelhos vibratórios: traumatizam tecido edemaciado e favorecem fleimão |
| Calor ou frio | Crioterapia por no máximo 20 minutos de cada vez, pelo efeito rebote; calor local e compressas mornas no bloqueio de ducto | Gelo e anti-inflamatório; o calor vasodilata e pode piorar os sintomas, embora conforte algumas pacientes |
| O ponto branco no mamilo | Remover, esfregando com toalha ou usando agulha esterilizada | Não perfurar: a perfuração causa trauma e mais estreitamento do lúmen |
| Quando entra o antibiótico | Sintomas graves desde o início do quadro, fissura mamilar, e ausência de melhora após 12 a 24 horas da remoção efetiva do leite acumulado | Só na mastite bacteriana; avaliação médica se os sintomas sistêmicos persistirem por mais de 24 horas |
| Qual antibiótico e por quanto tempo | Cefalexina 500 mg de 6 em 6 horas; ou amoxicilina 500 mg ou amoxicilina-clavulanato 500 mg mais 125 mg de 8 em 8 horas; eritromicina 500 mg de 6 em 6 horas na alergia a betalactâmicos; mínimo de 10 dias | Dicloxacilina ou flucloxacilina 500 mg quatro vezes ao dia, ou cefalexina 500 mg quatro vezes ao dia, por 10 a 14 dias; segunda linha com clindamicina 300 mg quatro vezes ao dia |
| Abscesso | Drenagem cirúrgica, de preferência sob anestesia local, com cultura da secreção; manter antibiótico e esvaziamento | Drenar para controle; aspiração por agulha com cultura é primeira linha frequente, mas recorre — considerar dreno já no procedimento inicial, por gravidade e nunca a vácuo |
Dose, volume e quantas unidades — puérpera de 68 kg
| Droga e esquema | Apresentação | Por tomada | Por 24 horas e por curso |
|---|---|---|---|
| Clindamicina 600 mg por via endovenosa de 6 em 6 horas | Ampola de 4 mL a 150 mg/mL — 600 mg por ampola | 600 mg = 4,0 mL = 1 ampola, diluída em 50 mL e infundida em 20 minutos | 2.400 mg por dia = 4 ampolas por dia; 28 ampolas em 7 dias |
| Gentamicina 240 mg por via endovenosa ou intramuscular a cada 24 horas | Ampola de 2 mL a 40 mg/mL — 80 mg por ampola | 240 mg = 6,0 mL = 3 ampolas | 3,53 mg/kg por dia nesta mulher; 21 ampolas em 7 dias |
| Ampicilina-sulbactam 3 g por via endovenosa de 6 em 6 horas | Frasco-ampola de 3,0 g — 1 g de sulbactam e 2 g de ampicilina | 3 g = 8,0 mL depois de 6,4 mL de diluente = 1 frasco | 12 g por dia = 4 frascos por dia; 28 frascos em 7 dias |
| Amicacina 1 g por via endovenosa ou intramuscular a cada 24 horas | Solução injetável de 250 mg/mL | 1.000 mg = 4,0 mL | 14,7 mg/kg por dia nesta mulher; 7 g em 7 dias |
| Cefalexina 500 mg por via oral de 6 em 6 horas, mínimo de 10 dias | Cápsula de 500 mg, em caixas de 8 ou de 10 para dispensação | 500 mg = 1 cápsula | 4 cápsulas por dia; 40 cápsulas no curso mínimo, o que exige 4 caixas de 10 ou 5 caixas de 8 |
| Amoxicilina-clavulanato 500 mg mais 125 mg por via oral de 8 em 8 horas, 10 dias | Comprimido de 500 mg mais 125 mg | 1 comprimido | 3 comprimidos por dia; 30 comprimidos no curso |
| Ibuprofeno 600 mg por via oral de 8 em 8 horas | Comprimido ou cápsula de 600 mg | 1 comprimido | 1.800 mg por dia, dentro do teto de bula de 3.200 mg em 24 horas |
| Heparina como teste terapêutico da tromboflebite pélvica séptica | Ampola de 5.000 UI em 0,25 mL | Bólus de 5.000 UI = 0,25 mL = 1 ampola | Manutenção de 700 a 2.000 UI por hora, ou seja, 16.800 a 48.000 UI por dia — de 3,4 a 9,6 ampolas por dia |
Três documentos brasileiros em uso definem a febre do puerpério com três números e dois sítios diferentes: 38,0 °C oral em duas de dez dias, 38,5 °C oral em aferição única até o 42º dia, e acima de 38 °C axilar em pelo menos duas aferições nos 30 dias da cesariana. Meio grau separa as duas primeiras; a terceira troca de sítio sem oferecer conversão. Uma puérpera com 38,3 °C aferida duas vezes preenche a morbidade febril puerperal e não preenche o critério de febre da definição de sepse puerperal.
O protocolo brasileiro de infecção puerperal invoca o conceito de morbidade febril puerperal duas vezes, dizendo que ele complementa a definição de infecção — e não o define. Quem lê apenas o protocolo fica com a régua de 38,5 °C da Organização Mundial da Saúde e sem a de 38,0 °C que o próprio texto disse ser necessária.
A faixa de gentamicina do protocolo, de 180 a 240 mg, é exatamente o total diário do esquema fracionado da bula: 60 mg três vezes ao dia até 60 kg dão 180 mg, e 80 mg três vezes ao dia acima de 60 kg dão 240 mg. O protocolo imprime esse total como dose única de 24 em 24 horas. A conta por peso mostra o efeito: 240 mg numa mulher de 68 kg são 3,53 mg/kg por dia; numa de 95 kg, 2,53 mg/kg; numa de 45 kg, 5,33 mg/kg. E a dose única diária de aminoglicosídeo, que é a prática que o intervalo de 24 horas sugere, costuma ser calculada em 5 mg/kg — o que numa mulher de 70 kg daria 350 mg, 46% acima do teto da faixa impressa. A obesidade está na própria lista de fatores de risco do protocolo, e é justamente onde a faixa fixa mais subdosa.
A amicacina do protocolo, 1 g por dia sem correção por peso, produz 20,0 mg/kg numa mulher de 50 kg e 10,5 mg/kg numa de 95 kg — extremos opostos da faixa usual de 15 a 20 mg/kg por dia, na mesma linha da tabela, com a mesma dose. Peso é o dado que falta nas duas linhas de aminoglicosídeo.
A dose de ampicilina-sulbactam do protocolo, 3 g de 6 em 6 horas, dá 12 g por dia — que é o topo da faixa de bula para infecção grave e, ao mesmo tempo, exatamente o teto declarado de 4 g de sulbactam em 24 horas (12 g na proporção de 1 para 2 contêm 4 g de sulbactam). Não sobra margem, e a bula avisa que a frequência pode precisar ser menor conforme a função renal — que é justamente o que a sepse compromete.
A mesma bula proíbe reconstituir e administrar ampicilina-sulbactam junto com aminoglicosídeo: qualquer aminopenicilina inativa o aminoglicosídeo in vitro, e as duas drogas não devem ser misturadas fisicamente no mesmo recipiente. O esquema 1 do protocolo brasileiro é exatamente essa associação, e o protocolo não traz a advertência. À beira do leito isso significa duas coisas: acessos ou horários separados, e nunca a mesma bolsa.
Conferência que fechou: as quatro linhas de velocidade de infusão da bula da clindamicina são internamente consistentes e todas correm exatamente no teto declarado de 30 mg por minuto — 300 mg em 50 mL por 10 minutos, 600 mg em 50 mL por 20 minutos, 900 mg em 50 a 100 mL por 30 minutos e 1.200 mg em 100 mL por 40 minutos. As concentrações resultantes vão de 6 a 18 mg/mL, respeitando o teto de 18. Não há margem: qualquer aceleração da bomba ultrapassa a velocidade máxima.
Conferência que fechou, com uma ressalva: os 2.400 mg por dia do esquema obstétrico de clindamicina estão dentro da faixa de bula para infecção da pelve feminina, que é de 2.400 a 2.700 mg por dia — no piso dela. A própria bula, para doença inflamatória pélvica hospitalar, usa 900 mg de 8 em 8 horas, ou seja, 2.700 mg por dia, e associa gentamicina de 2,0 mg/kg seguida de 1,5 mg/kg de 8 em 8 horas. Numa mulher de 70 kg esse esquema entrega 315 mg de gentamicina por dia, contra os 240 mg do protocolo obstétrico: 31% de diferença entre dois documentos brasileiros disponíveis para a mesma pelve infectada.
Duas linhas do mesmo Ministério da Saúde tratam a mastite de forma diferente. O Caderno de Atenção Básica nº 23 prescreve cefalexina 500 mg por via oral de 6 em 6 horas como primeira opção, no ambulatório. O Manual de Gestação de Alto Risco põe 'mastites' dentro da linha de pele e partes moles do seu quadro de tratamento empírico, e sugere clindamicina com cefazolina, tendo oxacilina como alternativa — três drogas venosas de hospital. Os dois documentos são federais e estão vigentes; nenhum dos dois menciona o outro.
O gatilho do antibiótico na mastite, no texto nacional, é escrito com a conjunção 'e': sintomas graves desde o início do quadro, fissura mamilar e ausência de melhora após 12 a 24 horas da remoção efetiva do leite. Lida ao pé da letra, a frase exigiria as três condições ao mesmo tempo, e quase nenhuma mulher receberia antibiótico. A leitura corrente, e a que este capítulo adota, é de alternativas — qualquer uma das três indica. Vale saber que a ambiguidade está na fonte, e não na sua leitura.
Nenhum dos dois documentos de mastite define abscesso por tamanho. Não há corte em centímetros para decidir entre punção e dreno, nem para indicar drenagem: o que decide é a presença de coleção drenável, identificada pela flutuação ao exame e confirmada pela ultrassonografia, que também marca o ponto de acesso. O corte em centímetros que circula na prática não está em nenhuma das duas réguas.
As três drogas que os documentos brasileiros põem em primeiro lugar para a puérpera trazem, cada uma, uma restrição de amamentação na própria bula. A da clindamicina diz que, pelos potenciais efeitos adversos em neonatos, ela não deve ser utilizada em mulheres que estão amamentando. A da gentamicina manda considerar a interrupção do aleitamento ou do tratamento diante de efeitos graves no lactente. A do ibuprofeno diz que ele não é recomendado no período de amamentação. Nenhum dos protocolos obstétricos ou de aleitamento menciona essas frases, e todos mandam manter a amamentação. A divergência é real, é documental, e o capítulo a expõe em vez de escolher por você — a decisão é do obstetra e do pediatra que assistem aquela dupla.
A ausência que estrutura a metade mamária deste capítulo: não existe documento brasileiro dedicado à mastite lactacional. O manejo nacional dela ocupa duas seções de um caderno de aleitamento materno de 2015, e o único critério diagnóstico federal publicado sob o título de abscesso mamário ou mastite está vinculado à cirurgia de implante de prótese mamária, na vigilância de infecção de sítio cirúrgico. A mulher que amamenta não tem, no Brasil, um documento próprio.
A conduta, hora a hora
Avaliar estabilidade e sinais de sepse, examinar focos obstétricos e não obstétricos e colher exames que ajudem sem atrasar terapia urgente. Escolher antibiótico pelo foco e gravidade e avaliar necessidade de controle de coleção ou tecido retido. Reavaliar resposta e ajustar com resultados e contexto; persistência de febre pede revisão do diagnóstico e do foco.
Duas travas atravessam todos os marcos. A primeira: nenhum passo do tratamento depende de resultado de exame — colhe-se e prescreve-se na mesma passagem pelo leito. A segunda: em nenhum momento deste capítulo a amamentação é suspensa como parte do tratamento, nem na mastite, nem no abscesso, nem durante o antibiótico venoso da endometrite.
Antes da febre — o que reduz o risco e cabe ao interno
A prevenção da endometrite é quase toda técnica e quase toda anterior ao seu turno, mas duas coisas continuam nas suas mãos no alojamento conjunto. A primeira é a parcimônia de toques no trabalho de parto prolongado, que é o fator modificável mais direto da lista de risco. A segunda é a correção da pega na primeira mamada — que não previne endometrite, previne a mastite da terceira semana, porque a fissura mamilar é a porta de entrada da bactéria. A profilaxia antibiótica da cesariana é assunto do capítulo de cesariana desta apostila, e a indicação e a técnica da episiotomia são de 'Assistência ao trabalho de parto'.
Prescrição- Registre no prontuário a via de parto, a data e a hora da cirurgia, o tempo de bolsa rota, o número de toques e qual antibiótico foi usado na profilaxia. O último item é o que evita, dias depois, repetir na terapêutica o antibiótico da profilaxia — Protocolo Febrasgo nº 117 (2018), observações.
- Examine a mamada pelo menos uma vez antes da alta e corrija a pega com as mãos, na mesma mamada: aréola tensa, ordenhar um pouco antes de recolocar; boca pouco aberta, esperar a criança abrir bem e abaixar a língua. A causa mais comum de trauma mamilar é posicionamento e pega inadequados — Caderno de Atenção Básica nº 23 (2015), seção 9.5.
- Oriente a puérpera, por escrito no cartão, sobre o que faz voltar antes do retorno: febre medida em casa, dor que aumenta em vez de diminuir, lóquios com mau cheiro, mama endurecida com área quente e vermelha, dor perineal crescente, e ferida operatória com secreção.
Minuto 0 a 30 — a puérpera febril na porta
Meça, registre com o sítio, conte a frequência respiratória e percorra os sete territórios. A decisão que sai desta meia hora é binária e tem um gatilho escrito: dor abdominal com temperatura acima de 38 °C e frequência cardíaca acima de 90 batimentos por minuto indicam admissão hospitalar e antibiótico intravenoso. Sem isso, e com foco mamário ou perineal isolado, o caminho é ambulatorial — mas a alta só sai depois que os outros territórios foram examinados, não antes.
Prescrição- Exame dirigido completo: sinais vitais com frequência respiratória contada, fundo uterino, lóquios inspecionados e cheirados, as duas mamas expostas, ferida operatória e períneo com boa luz, ausculta pulmonar, membros inferiores e sítios de punção — Protocolo Febrasgo nº 117 (2018), sintomas comuns de sepse no puerpério e infecção da pele e dos tecidos moles.
- Retire ou troque todo dispositivo de acesso vascular suspeito de ser a fonte da infecção, e colha cultura de todos os locais suspeitos — Protocolo Febrasgo nº 117 (2018).
- Com sinal de alarme presente, acesso venoso, coleta e antibiótico na mesma sequência. Na presença de disfunção orgânica, a antibioticoterapia começa na primeira hora após o reconhecimento — Manual de Gestação de Alto Risco (2022), capítulo 38.
A endometrite: internar e começar o venoso
Tratamento hospitalar, antibiótico intravenoso de amplo espectro em dose elevada, iniciado imediatamente e sem esperar as investigações. A escolha entre os dois esquemas do protocolo tem uma trava única e prática: evite o antibiótico que já foi usado na profilaxia. Como a profilaxia da cesariana é uma cefalosporina, e como a endometrite pós-cesariana depende de cobertura de anaeróbios, o esquema com clindamicina ou metronidazol é o que o Ministério da Saúde põe como primeira escolha no seu quadro de tratamento empírico.
Prescrição- Esquema 1 — ampicilina-sulbactam 3 g por via endovenosa a cada 6 horas, associada a gentamicina 180 a 240 mg por via intramuscular ou endovenosa a cada 24 horas, ou a amicacina 1 g a cada 24 horas. Duração de 7 a 10 dias, monitorando função renal e ototoxicidade — Protocolo Febrasgo nº 117 (2018), tratamento medicamentoso.
- Esquema 2 — clindamicina 600 mg por via endovenosa a cada 6 horas, ou metronidazol 500 mg por via endovenosa a cada 8 horas, associados a gentamicina ou amicacina nas mesmas doses. Duração de 7 a 10 dias, com precaução na disfunção renal ou hepática — Protocolo Febrasgo nº 117 (2018).
- Primeira escolha federal para endometrite pós-parto, pós-aborto e aborto infectado: clindamicina com gentamicina; alternativas: ampicilina com gentamicina e metronidazol, ou amoxicilina-clavulanato — Manual de Gestação de Alto Risco (2022), Quadro 2. O quadro nomeia as drogas e não imprime doses.
- Nunca misture ampicilina-sulbactam e aminoglicosídeo no mesmo recipiente nem na mesma via ao mesmo tempo: qualquer aminopenicilina inativa o aminoglicosídeo in vitro — bula profissional do sulbactam sódico/ampicilina sódica, item de incompatibilidade. Reconstitua e administre separadamente.
- Clindamicina endovenosa: diluir a no máximo 18 mg/mL e infundir a no máximo 30 mg por minuto. Na prática, 600 mg em 50 mL correndo em 20 minutos — bula profissional do fosfato de clindamicina, índices de diluição e infusão.
- Peça o peso da paciente antes de prescrever o aminoglicosídeo e anote-o na prescrição. A faixa fixa de 180 a 240 mg entrega 3,53 mg/kg por dia numa mulher de 68 kg e 2,53 mg/kg numa de 95 kg — e a bula manda calcular por massa corpórea magra nos extremos de peso.
As 48 horas seguintes — o critério de alta que o interno alonga sem motivo
Aqui está o ponto em que a maioria dos internos prolonga a internação sem critério, e a razão é uma leitura desatenta do protocolo. Ele traz duas frases: cada droga aparece com 'durante 7 a 10 dias', e as observações mandam manter a terapia endovenosa por, no mínimo, 24 a 48 horas contadas do último pico febril. As duas frases juntas não dizem 7 a 10 dias de veia — dizem 7 a 10 dias de tratamento, dos quais a parte venosa termina 24 a 48 horas depois que a febre parou. O que o protocolo não diz, e é a lacuna real, é com o que se continua: nenhuma linha nomeia droga oral de continuidade. Essa decisão é do obstetra ou da infectologia do serviço, e a lógica geral de descalonamento e duração está em 'O antibiótico que ninguém para'.
Prescrição- Anote na evolução o horário de cada pico febril. Sem essa anotação, ninguém sabe quando começaram as 24 a 48 horas — e a paciente fica no soro por inércia — Protocolo Febrasgo nº 117 (2018), observações.
- Reavalie diariamente altura e consistência uterina, dor à palpação, volume e odor dos lóquios, e a ferida operatória. A melhora desses quatro, junto com a curva térmica, é o que autoriza pensar em alta.
- Com aminoglicosídeo em curso, monitore função renal e sinais de ototoxicidade, e lembre que a própria bula recomenda avaliação da função renal em tratamentos que passem de 7 a 10 dias — bula profissional do sulfato de gentamicina, advertências.
- Na alta, escreva quantos dias de tratamento faltam, com que droga, e os sinais que fazem voltar hoje mesmo: febre de novo, dor abdominal crescente, lóquios com mau cheiro, sangramento aumentado. Sangramento que aumenta em vez de diminuir depois das primeiras 24 horas é hemorragia pós-parto secundária, e é de 'Hemorragia pós-parto'.
Quando a febre não cede em 24 a 48 horas — a hipótese muda
Febre que persiste apesar de esquema adequado não é indicação de trocar de antibiótico: é indicação de reexaminar. O protocolo manda solicitar avaliação da infectologia e reavaliar a terapêutica, e a sequência prática é reexame completo, ultrassonografia, e a lista do que precisa de procedimento. Só depois de esgotada essa lista é que entra o diagnóstico de exclusão — e ele é vascular, não bacteriano.
Prescrição- Reexame completo dos sete territórios, inclusive os que já pareciam limpos: ferida operatória, mamas, urina, membros inferiores e sítios de punção. Temperatura em picos persistentes sugere abscesso — Protocolo Febrasgo nº 117 (2018).
- Ultrassonografia repetida, com dois alvos: retenção de produtos da concepção e abscesso intracavitário ou de parede abdominal — Protocolo Febrasgo nº 117 (2018), investigação laboratorial inicial.
- O que precisa de procedimento, conforme o achado: curetagem de restos placentários; drenagem de abscessos perineais e da incisão de cesariana; colpotomia para abscesso do fundo de saco de Douglas; desbridamento de fasciíte necrosante perineal e abdominal; laparotomia para abscesso entre alças, parietocólico ou subfrênico; e histerectomia total na miometrite e na infecção clostridiana — Protocolo Febrasgo nº 117 (2018), tratamento cirúrgico.
- Persistindo o quadro febril sem indicação cirúrgica, aventa-se tromboflebite pélvica séptica, que exige heparina como teste terapêutico: 5.000 UI por via endovenosa, seguidas de 700 a 2.000 UI por hora, com controle do tempo de tromboplastina parcialmente ativada a cada 4 horas e alvo de 1,5 a 2 vezes o valor médio; estabilizados o tempo e a dose, o controle passa a diário. As complicações principais são hemorragia e trombocitopenia — Protocolo Febrasgo nº 117 (2018). A decisão é do obstetra; a lembrança é sua.
- Tromboflebite pélvica séptica que não responde a antibiótico e heparina é indicação de laparotomia com ligadura da veia ovariana — Protocolo Febrasgo nº 117 (2018). A profilaxia e o tratamento do tromboembolismo venoso da gestação e do puerpério, fora do contexto séptico, são de 'A mesma adaptação, os dois riscos'.
A ferida operatória e a episiotomia infectadas
A conduta é a de qualquer ferida cirúrgica infectada, com três diferenças que valem para o períneo: a região é úmida e contaminada por natureza, a dor compete com a dor esperada do pós-parto, e a mulher está sentada em cima da ferida para amamentar. O que decide é o plano acometido e a presença de coleção — e o sinal que muda tudo é a dor desproporcional ao que se vê.
Prescrição- Ferida com coleção: abrir, drenar e colher secreção ou tecido assepticamente para cultura — nunca por swab de haste de algodão, que não é aceito como identificação microbiológica e colhe flora de pele — Nota Técnica GVIMS/GGTES/DIRE3/Anvisa nº 03/2026.
- Dor desproporcional ao achado, com ou sem alteração visível de pele, é o sinal cardinal da fasciíte necrosante, que ocorre profundamente e só se superficializa com bolhas e necrose evidente. A conduta é desbridamento amplo, e a avaliação cirúrgica é imediata — Protocolo Febrasgo nº 117 (2018).
- Registre o plano acometido — incisional superficial, incisional profunda ou órgão/cavidade —, a data da cirurgia e o dia de pós-operatório. Computa-se sempre o plano mais profundo, e havendo mais de uma incisão, considera-se a ocorrência em todas — Nota Técnica nº 03/2026.
- Analgesia adequada, banho de assento morno para higiene e conforto, e revisão diária. A mulher precisa conseguir sentar para amamentar: analgesia insuficiente no períneo é uma causa evitável de desmame.
Mastite: o que se faz antes do antibiótico, e quando ele entra
Mantenha amamentação fisiológica, sem tentar esvaziar a mama. Se necessário, retire pequeno volume para conforto ou pega. Evite massagem profunda e ordenha excessiva. Analgesia, avaliação da dupla e reavaliação compõem o plano. Suspeita de mastite bacteriana requer antibiótico; fissura isolada não basta para indicá-lo.
Prescrição- Identifique e trate a causa da estase: mamadas em horário fixo, redução súbita no número de mamadas, sono longo do bebê à noite, chupeta e mamadeira, sucção fraca, freio de língua curto, produção excessiva, separação da dupla, desmame abrupto e fadiga materna — Caderno de Atenção Básica nº 23 (2015), seção 9.9.
- Mantenha amamentação fisiológica, sem tentar esvaziar a mama. Se necessário, retire pequeno volume para conforto ou pega. Evite massagem profunda e ordenha excessiva.
- Observe a mamada com consentimento e corrija pega e posição sem comprimir agressivamente a área inflamada.
- Ibuprofeno 600 mg por via oral três a quatro vezes ao dia, sem exceder 3.200 mg em 24 horas, pelo menor tempo necessário; paracetamol ou dipirona como alternativas. O anti-inflamatório é nomeado como o mais efetivo neste quadro e reduz também inflamação e edema — Caderno de Atenção Básica nº 23 (2015), seções 9.4 e 9.9, para a escolha; bula profissional do ibuprofeno 600 mg para a posologia.
- Medidas de suporte: repouso materno, de preferência no leito; líquidos abundantes; sutiã bem firme; e suporte emocional, que o documento nomeia como componente do tratamento e como o mais negligenciado, porque o quadro é muito doloroso e cursa com comprometimento do estado geral — Caderno de Atenção Básica nº 23 (2015), seção 9.9.
- Na suspeita de mastite bacteriana, cefalexina 500 mg por via oral a cada 6 horas é uma opção, com duração de 10 a 14 dias e revisão conforme resposta, alergia e epidemiologia local. Falha exige cultura e revisão diagnóstica e terapêutica.
- Não suspenda a amamentação e não use droga de supressão da lactação em mulher que deseja continuar amamentando — Caderno de Atenção Básica nº 23 (2015), seções 9.9 e 9.10.
- Sem regressão dos sintomas 48 horas após o início do antibiótico, considere abscesso mamário e encaminhe para avaliação especializada e revisão do esquema; agende o retorno e garanta acesso por demanda espontânea — Caderno de Atenção Básica nº 23 (2015), seção 9.9.
Abscesso mamário: drenar, manter o antibiótico, manter a mamada
Coleção com cápsula não responde a antibiótico isolado, e é por isso que a decisão muda de categoria. Os três pilares são inegociáveis e valem nas duas réguas: drenar, manter o antibiótico e manter a amamentação — inclusive na mama drenada. O abscesso costuma ser o desfecho de uma mastite que ninguém tratou, ou que se tratou tarde, ou de qualquer jeito — e aparece com frequência depois que a mulher deixou de oferecer aquele lado sem tirar o leite de outro modo. Ou seja: a orientação errada da semana passada é o fator de risco desta semana.
Prescrição- Drenagem cirúrgica, de preferência sob anestesia local, com coleta de secreção purulenta para cultura e teste de sensibilidade — Caderno de Atenção Básica nº 23 (2015), seção 9.10.
- Ultrassonografia para confirmar o abscesso e indicar o melhor local para incisão ou aspiração — Caderno de Atenção Básica nº 23 (2015), seção 9.10.
- Manter tratamento da infecção e seguimento após drenagem; o manejo da lactação segue o marco anterior.
- Se a dor impedir mamada no lado afetado, organizar alívio e manutenção fisiológica da lactação, sem ordenha para esvaziar.
- Alternativa descrita pelo documento internacional, onde houver estrutura: aspiração por agulha com cultura, ou colocação de dreno já no procedimento inicial, mantido por gravidade e nunca em sistema de sucção, porque aspirações repetidas recorrem com frequência e desanimam a mulher — Protocolo nº 36 da Academy of Breastfeeding Medicine (2022).
- Reavalie até a resolução completa, com exame físico e imagem: mama que não melhora como deveria depois do quadro agudo entra em diferencial com galactocele, fibroadenoma e carcinoma. Cerca de 10% dos abscessos comprometem lactações futuras — Caderno de Atenção Básica nº 23 (2015), seção 9.10.
Como saber se está funcionando
Nas duas doenças deste capítulo a reavaliação tem hora marcada, e a hora é curta. Na endometrite, o relógio é de 24 a 48 horas: sem melhora nesse intervalo, a hipótese muda e a conduta deixa de ser medicamentosa. Na mastite, há dois relógios encaixados — 12 a 24 horas de remoção efetiva do leite decidem se entra antibiótico, e 48 horas de antibiótico decidem se existe coleção.
Registre febre, extensão da inflamação, dor, estado geral, início das intervenções e resposta. A reavaliação precisa comparar achados objetivos.
Esperado: Queda progressiva e, depois, ausência de novos picos. O último pico febril é o marco: a via endovenosa se mantém por pelo menos 24 a 48 horas depois dele
Se não melhora: Febre que persiste 24 a 48 horas apesar de esquema adequado manda reexaminar e repetir a imagem, não trocar a droga. Temperatura em picos persistentes sugere abscesso, e picos que continuam com investigação negativa levantam tromboflebite pélvica séptica
Esperado: Involução progressiva, útero que desce e endurece, e dor à palpação que diminui a cada dia
Se não melhora: Útero que não desce ou que volta a subir aponta conteúdo retido: repita a ultrassonografia procurando restos ovulares. Dor uterina que aumenta em vez de diminuir, com toxemia, aponta propagação — endomiometrite, parametrite, pelviperitonite
Esperado: Redução do volume, clareamento progressivo e desaparecimento do odor fétido
Se não melhora: Odor que persiste ou piora com o esquema correndo aponta foco não drenado. Sangramento que aumenta em vez de diminuir não é lóquio abundante: é hemorragia pós-parto secundária, e a régua está em 'Hemorragia pós-parto'
Esperado: Frequência cardíaca abaixo de 90 batimentos por minuto e frequência respiratória abaixo de 20 incursões por minuto, com a mulher lúcida e sem mal-estar
Se não melhora: Taquicardia sustentada acima de 90, taquipneia acima de 20, diarreia ou vômito e mal-estar generalizado são sinais de alarme do protocolo e indicam doença sistêmica. Diarreia e vômito podem ser sinais precoces de choque tóxico por exotoxina, e não gastroenterite
Esperado: Bordas coaptadas, sem coleção, sem secreção purulenta e com dor em queda
Se não melhora: Dor desproporcional ao que se vê é o sinal cardinal da fasciíte necrosante e pede avaliação cirúrgica imediata, mesmo com pele aparentemente íntegra. Coleção pede abertura e drenagem, com cultura de secreção ou tecido — nunca por swab
Esperado: Redução da área endurecida e da vermelhidão, queda da febre em 48 horas, e mamadas que a mulher consegue manter na mama afetada
Se não melhora: Sem regressão dos sintomas em 48 horas de antibiótico, considere abscesso e encaminhe. Área que endurece sem flutuar depois de manipulação vigorosa sugere fleimão, que se trata com antibiótico e paciência e não com bisturi. E mama que não resolve como deveria entra em diferencial com carcinoma
Esperado: Creatinina estável e ausência de zumbido, hipoacusia ou desequilíbrio
Se não melhora: Elevação de creatinina ou queixa auditiva obriga a rever dose e intervalo, e a discutir troca do aminoglicosídeo. A bula manda avaliar a função renal em tratamentos prolongados e calcular a dose por massa corpórea magra nos extremos de peso — o que exige que o peso esteja anotado na prescrição
Onde o erro machuca
O dano: Orientação incompatível com a situação da dupla pode aumentar dor, dificultar alimentação e interromper aleitamento desejado.
Como pegar a tempo: Planeje a continuidade da lactação conforme o marco de mastite e as condições da dupla.
O dano: Os dois lados do mesmo erro de categoria. Ingurgitamento e mastite inflamatória não são infecção, e tratá-los com antibiótico expõe a mulher e o lactente sem mudar o desfecho. Do outro lado, coleção purulenta com cápsula não responde a antibiótico isolado: trocar a droga diante de uma área que flutua é gastar mais 48 horas enquanto o abscesso cresce, e cerca de 10% dos abscessos comprometem lactações futuras.
Como pegar a tempo: Diferencie inflamação, suspeita bacteriana e coleção; reavalie resposta e sinais sistêmicos.
O dano: A exclusão das primeiras 24 horas na definição clássica é estatística: temperatura pouco elevada e passageira é frequente nas horas que seguem o nascimento. Mas o germe mais frequente na sepse puerperal é o estreptococo do grupo A, que produz quadros precoces e fulminantes, e o protocolo registra que a condição da mulher pode deteriorar de modo extremamente rápido, com morte em poucas horas, se o tratamento não ocorrer.
Como pegar a tempo: Separe a definição do gatilho. A definição serve para nomear; o gatilho é dor abdominal com temperatura acima de 38 °C e pulso acima de 90. Temperatura elevada no primeiro dia, somada a prostração, pulso persistentemente rápido ou respiração curta, se investiga como sepse — com coleta e antibiótico —, seja qual for a definição que o caso preenche.
O dano: A endometrite é ascendente e polimicrobiana, e a participação anaeróbia é a regra depois de cesariana — que é o principal fator de risco isolado. Um esquema que não cobre anaeróbio trata metade da flora. E repetir o antibiótico da profilaxia é insistir numa cobertura que já falhou naquela paciente: o protocolo manda evitar o uso terapêutico dos antibióticos usados na profilaxia.
Como pegar a tempo: Antes de prescrever, procure no prontuário qual antibiótico foi usado na profilaxia da cesariana e escreva isso na evolução. Depois escolha um esquema com clindamicina ou metronidazol associado a aminoglicosídeo, que é a primeira escolha federal para endometrite pós-parto. E não misture ampicilina-sulbactam com aminoglicosídeo no mesmo recipiente.
O dano: O protocolo imprime 'durante 7 a 10 dias' ao lado de cada droga e, nas observações, manda manter a via endovenosa por pelo menos 24 a 48 horas após o último pico febril. Lidas como sinônimos, as duas frases produzem sete a dez dias de internação em quem ficou afebril no terceiro — com acesso venoso, risco de flebite, separação da criança e prejuízo da amamentação, que é exatamente o que este capítulo passa o tempo todo tentando proteger.
Como pegar a tempo: Registre o horário do último pico febril na evolução e conte a partir dele. Passadas 24 a 48 horas afebril, com útero involuindo, lóquios sem odor e ferida limpa, a discussão é de alta e de continuidade — e a escolha da droga oral de continuidade, que o protocolo obstétrico não nomeia, é do obstetra ou da infectologia do serviço. A lógica geral de duração e descalonamento está em 'O antibiótico que ninguém para'.
O dano: Escalar espectro é a resposta reflexa e quase sempre a errada. As causas reais de febre persistente na endometrite tratada não são de espectro: são restos ovulares, abscesso intracavitário ou de parede, coleção no fundo de saco, fasciíte necrosante e tromboflebite pélvica séptica — e nenhuma delas melhora com um antibiótico mais largo. Cada troca custa mais 48 horas.
Como pegar a tempo: Antes de mexer na prescrição, refaça o exame dos sete territórios e repita a ultrassonografia. Restos pedem curetagem; abscesso pede drenagem ou colpotomia; fasciíte pede desbridamento. Investigação negativa com febre em picos que continua é a hora de aventar tromboflebite pélvica séptica e de lembrar que o teste diagnóstico dela é terapêutico.
O que dizer ao paciente e à família
Nas duas doenças deste capítulo você conversa com uma mulher exausta, dolorida, com um recém-nascido no colo e, com frequência, com uma segunda pessoa na sala que já tem opinião formada. As frases importam mais do que o normal porque uma delas — 'para de amamentar' — encerra a amamentação e é dita todos os dias.
Duas regras cobrem quase tudo. Diga o que vai acontecer antes que perguntem, inclusive sobre a amamentação; e nunca deixe a mulher sair sem um número de tempo: quando melhora, quando volta, e o que faz voltar hoje mesmo.
A mulher com mastite que diz que vai desmamar por causa da dor
“"Rosileia, eu entendo — dói muito e você está exausta. Mas o que está causando essa dor é leite parado dentro da mama, e quem tira esse leite melhor do que qualquer bomba é o seu bebê. Se você parar de dar essa mama, o leite fica lá dentro e a chance de virar um abscesso, que precisa de corte, aumenta. O leite não está estragado e não faz mal a ele. Meu plano é tirar a sua dor primeiro, com remédio, e ajustar a pega agora, aqui, com as minhas mãos. Se em dois dias não estiver melhor, você volta e a gente muda o plano — mas não desmama hoje por causa da dor de hoje."”
Não diga: "Não é nada, isso passa" e "aguenta que é normal". Também não argumente com o benefício do aleitamento para a criança: ela já ouviu isso e está com dor. Argumente com a dor dela — o esvaziamento é o que alivia — e ofereça analgesia de verdade na mesma consulta.
A avó ou o companheiro que pede complemento porque "o leite está infeccionado"
“"Eu sei que soa ao contrário do que a intuição diz. O leite dessa mama tem bactéria, sim, e mesmo assim ele não faz mal para um bebê a termo e saudável — isso está no protocolo do Ministério da Saúde. O que faz mal é o leite ficar parado. A senhora pode ajudar muito de outro jeito: segurando o bebê entre as mamadas, lembrando ela de beber água e de descansar, e me avisando se ela ficar mais quente ou mais prostrada."”
Não diga: Discutir com quem acompanha na frente da puérpera, e dar a informação só para ela. Quem prepara a mamadeira à noite é quem está na sala; se essa pessoa não entender o plano, o plano não sobrevive à madrugada.
Corrigindo a pega, com as mãos, sem constranger
“"Posso ajustar com a minha mão? Vou pedir licença e encostar em você. Olha: a aréola está muito cheia e dura, então ele escorrega e pega só o bico — por isso rachou e por isso dói. Vou tirar um pouquinho de leite com a mão para amolecer aqui, e a gente espera ele abrir bem a boca antes de encostar. Repare que agora o queixo dele encosta na mama e o lábio de baixo está virado para fora. Está doendo agora?"”
Não diga: Empurrar a cabeça do bebê contra a mama e corrigir sem avisar. E não diga que a pega está errada — diga o que você vai mudar e peça que ela diga se a dor mudou. A resposta dela é o teste.
Explicando à puérpera por que ela fica internada com endometrite
“"Elzenir, a febre está vindo de uma infecção dentro do útero, que é comum depois de cesariana e tem tratamento. O antibiótico precisa ser na veia porque por via oral ele não chega em concentração suficiente num quadro assim. Você fica internada até a febre passar e mais um dia ou dois depois disso — não é um número fixo, é a febre que manda. Seu bebê fica com você e você continua amamentando."”
Não diga: Prometer alta com data. E não use 'infecção puerperal' sem traduzir: muita mulher entende que fez alguma coisa errada na higiene, e essa culpa atrapalha o resto da conversa.
Ela pergunta se o antibiótico da veia faz mal ao bebê que mama
“"Essa é uma pergunta boa e eu vou te responder com o que a gente sabe e com o que a gente não sabe. Os protocolos de obstetrícia mandam manter a amamentação durante esse tratamento, e é isso que a gente vai fazer. A bula de um dos remédios é mais cautelosa do que o protocolo, e por isso eu vou conversar com a obstetra e com o pediatra do seu bebê antes de fechar a prescrição — não porque tenha risco conhecido, mas porque você merece que essa escolha seja feita por quem responde pelos dois. Se mudarmos alguma coisa, eu venho te explicar."”
Não diga: Dizer "não tem problema nenhum" e encerrar. E não repassar a dúvida crua para a mãe — a incerteza é para ser resolvida entre médicos, não estacionada no colo de quem está com febre.
Pedindo ajuda por telefone, em quinze segundos
“"Doutora, é o interno da maternidade. Puérpera de 27 anos, quarto dia de cesariana de urgência com bolsa rota de dezesseis horas. Está com 38,6 °C, frequência 108, respiratória 22, útero doloroso e dois dedos acima do esperado, lóquios purulentos e fétidos, ferida limpa e mamas normais. Já colhi hemograma, hemoculturas e cultura de lóquios e pedi a ultrassonografia. Preciso da senhora para liberar o esquema venoso e conferir qual antibiótico ela recebeu na profilaxia."”
Não diga: Começar pela história do parto e terminar com "quando a senhora puder". Comece pelo dia de puerpério e pela via de parto, dê os números que definem o alarme, conte o que já foi feito e feche com o pedido, dito com todas as letras.
Antes de drenar um abscesso mamário
“"O que se formou aqui é uma bolsa de pus, e bolsa de pus não some com antibiótico — precisa sair. É um procedimento com anestesia local, e a gente manda uma amostra para saber qual é a bactéria. Duas coisas que costumam assustar e não deveriam: você continua amamentando, inclusive nessa mama, e o antibiótico continua depois da drenagem. Se doer demais para o bebê pegar desse lado, a gente tira o leite com a mão nesses dias e mantém o outro peito — mas a mama não pode ficar cheia."”
Não diga: Chamar de 'uma limpezinha' e prometer que não vai doer. E não deixe a conversa sobre amamentação para depois do procedimento: é justamente no susto da drenagem que a mulher decide desmamar sozinha.
Onde bons médicos discordam
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.
Dois esquemas equivalentes, com ampicilina-sulbactam em primeiro lugar (protocolo de sociedade, 2018)
O protocolo brasileiro de infecção puerperal apresenta dois esquemas sem hierarquia declarada e numera primeiro a associação de ampicilina-sulbactam com aminoglicosídeo; o segundo é clindamicina ou metronidazol com aminoglicosídeo. As doses, as vias, os intervalos e a duração de 7 a 10 dias estão impressos para as cinco drogas, e a única trava de escolha que o documento impõe é evitar o antibiótico que foi usado na profilaxia. O próprio protocolo declara que as evidências são todas de grau 3 ou 4.
Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia. Infecção puerperal. Protocolo Febrasgo – Obstetrícia nº 117, 2018 (Femina. 2019;47(12):898-901), tratamento medicamentoso e observações.
Clindamicina com gentamicina como tratamento empírico sugerido (manual federal, 2022)
O manual federal de gestação de alto risco arruma o tratamento empírico segundo o sítio provável da infecção e, na linha da endometrite pós-parto, pós-aborto e aborto infectado, sugere clindamicina com gentamicina, deixando ampicilina com gentamicina e metronidazol, ou amoxicilina-clavulanato, como alternativas. O quadro nomeia as drogas e não imprime dose, via, intervalo nem duração — a escolha vem com a orientação de adaptar localmente conforme disponibilidade e perfil de resistência da população.
Brasil. Ministério da Saúde. Manual de Gestação de Alto Risco. Brasília, 2022, capítulo 38, Quadro 2 (tratamento empírico sugerido conforme sítio provável de infecção) e Quadro 3.
Os dois lados cobrem anaeróbio, e é isso que precisa estar de pé. Diante da mulher à sua frente, três coisas decidem melhor do que a ordem numérica dos documentos. Primeiro, qual antibiótico ela recebeu na profilaxia: como a profilaxia da cesariana é uma cefalosporina, e a endometrite pós-cesariana depende de cobertura anaeróbia, isso quase sempre empurra para a clindamicina ou o metronidazol. Segundo, o que existe padronizado na sua farmácia — a relação nacional de medicamentos não traz ampicilina, sulbactam nem as formas injetáveis de clindamicina, metronidazol e gentamicina, de modo que o abastecimento depende do seu hospital, e essa pergunta se faz antes do plantão. Terceiro, uma advertência de bula que nenhum dos dois documentos traz: aminopenicilina inativa aminoglicosídeo, e por isso ampicilina-sulbactam e gentamicina nunca vão no mesmo recipiente. Se você escolher o esquema 1, escreva na prescrição que as duas correm separadas.
Sete a dez dias de tratamento, impresso ao lado de cada droga (protocolo de sociedade, 2018)
As cinco drogas do protocolo aparecem com a mesma duração: ampicilina-sulbactam, gentamicina, amicacina, clindamicina e metronidazol, todas 'durante 7 a 10 dias', todas por via parenteral. Lida isoladamente, essa é uma prescrição de sete a dez dias de antibiótico venoso, e é assim que muitas enfermarias a executam — inclusive porque o documento não nomeia nenhuma droga oral de continuidade.
Protocolo Febrasgo – Obstetrícia nº 117, 2018, doses do tratamento medicamentoso.
A veia sai 24 a 48 horas depois do último pico febril (observação do mesmo protocolo, 2018)
Na lista de observações, o mesmo documento determina que as pacientes permaneçam em terapia endovenosa por 24 a 48 horas, no mínimo, depois do último pico febril. Lida assim, a duração total de 7 a 10 dias é de tratamento, e não de internação: a parte venosa termina quando a curva térmica se resolve, e o restante seria completado por outra via. A bula da clindamicina descreve esse caminho para infecção pélvica — continuidade oral de 450 a 600 mg a cada 6 horas até completar 10 a 14 dias —, mas o protocolo obstétrico não o menciona.
Protocolo Febrasgo – Obstetrícia nº 117, 2018, observações; bula profissional do fosfato de clindamicina 150 mg/mL, posologia em doença inflamatória pélvica.
A discordância é interna a um documento de quatro páginas, e o aluno não vai resolvê-la — vai decidir com ela. Duas perguntas resolvem o caso concreto. A primeira: a paciente está afebril há quanto tempo, com útero involuindo, lóquios sem odor e sem foco novo? Se sim, o gatilho de retirada da veia já foi atingido e a discussão passa a ser sobre continuidade, não sobre mais dias de soro. A segunda: existe algo que justifique estender — coleção drenada, bacteremia documentada, resposta lenta, imunossupressão? Se sim, o tempo maior tem motivo escrito, e o motivo vai na evolução. O que não pode acontecer é a paciente ficar mais quatro dias na veia porque ninguém anotou a hora do último pico febril. E a escolha da droga oral de continuidade, que o protocolo não nomeia, é do obstetra ou da infectologia — a lógica geral está em 'O antibiótico que ninguém para'.
O esvaziamento é o componente mais importante do tratamento (caderno federal, 2015)
A régua nacional da mastite descreve a estase de leite como o evento inicial e coloca o esvaziamento adequado da mama como o componente mais importante do tratamento, preferencialmente pelo próprio lactente, com retirada manual após as mamadas se o esvaziamento não for adequado. No mesmo conjunto de seções ela recomenda massagens delicadas com movimentos circulares nas áreas afetadas, calor local e massagem suave em direção ao mamilo no bloqueio de ducto, e remoção do ponto branco do mamilo esfregando com toalha ou com agulha esterilizada.
Brasil. Ministério da Saúde. Saúde da criança: aleitamento materno e alimentação complementar, 2. ed., 2015 (Cadernos de Atenção Básica nº 23), seções 9.4, 9.8 e 9.9.
Livre demanda sem objetivo de esvaziar, e sem massagem profunda (protocolo internacional, 2022)
O protocolo internacional reescreve a doença como espectro inflamatório com estreitamento ductal e disbiose, e não como um tampão removível. Daí decorrem quatro condutas opostas: alimentar em livre demanda sem tentar esvaziar, porque mais remoção produz mais produção e alimenta o ciclo de hiperlactação; evitar massagem profunda e aparelhos vibratórios, que traumatizam tecido edemaciado e favorecem fleimão; preferir gelo e anti-inflamatório ao calor prolongado; e não perfurar o ponto de obstrução do mamilo, porque a perfuração causa trauma e mais estreitamento.
Mitchell KB et al. Protocolo Clínico nº 36 da Academy of Breastfeeding Medicine: o espectro da mastite, revisado 2022, recomendações gerais e intervenções médicas.
Para a conduta atual, utilizar o percurso do marco de mastite. As recomendações históricas da tabela são comparação de documentos, não uma segunda prescrição para a mesma paciente.
O raciocínio, em voz alta
Elzenir Basílio, 27 anos, 68 kg, quarto dia de uma cesariana de urgência por falha de progressão, depois de dezesseis horas de trabalho de parto com bolsa rota e múltiplos toques. Recebeu cefalosporina de primeira geração como profilaxia, antes da incisão. Está no alojamento conjunto, amamentando, e às 22h40 a técnica traz a folha: temperatura axilar de 38,6 °C, frequência cardíaca de 108, frequência respiratória de 22, pressão 106 por 68. Ela diz que passou o dia com dor na barriga e achou que fosse o corte.
o que penso agora
Três sinais de alarme do protocolo estão presentes de uma vez: respiração acima de 20 incursões por minuto, pulso que se mantém acima de 90 e hipertermia acima de 38 °C. Some a dor no abdome e o gatilho escrito está fechado: essa combinação indica admissão e antibiótico intravenoso. Ela já está internada, o que não muda nada: o que muda é que o antibiótico começa agora, e não amanhã na visita. E ela é o retrato do fator de risco principal: cesariana, bolsa rota prolongada, trabalho de parto longo, toques repetidos.
22h45 — o exame que decide, na ordem
Fundo uterino dois dedos acima do esperado para o quarto dia, amolecido e muito doloroso à palpação. Lóquios abundantes, purulentos e com odor fétido — inspecionei e cheirei, com o absorvente na mão. Ferida operatória com bordas coaptadas, sem coleção, sem secreção e com dor proporcional ao que se vê. As duas mamas expostas: cheias, simétricas, sem área avermelhada, sem nódulo, mamilos íntegros. Ausculta pulmonar limpa, panturrilhas sem dor e sem empastamento, sítio de punção do dorso da mão sem flogose. Sem sintoma urinário. Endometrite com sinais sistêmicos, e os outros cinco territórios afastados no mesmo exame.
22h50 — colher e prescrever na mesma passagem
Acesso periférico, e na mesma punção hemograma, hemoculturas e cultura de material endocervical e endometrial. Peço a ultrassonografia para afastar restos ovulares e coleção, e deixo claro na solicitação que ela não é pré-requisito para o antibiótico. Antes de escrever a prescrição, procuro no prontuário qual antibiótico foi usado na profilaxia — cefazolina — e anoto isso na evolução, porque é o dado que exclui uma família inteira da escolha terapêutica.
22h55 — a escolha do esquema, e por quê
Endometrite pós-cesariana com cefalosporina na profilaxia. O manual federal sugere clindamicina com gentamicina como tratamento empírico para endometrite pós-parto, e o protocolo manda evitar o antibiótico da profilaxia — as duas coisas apontam para o mesmo lado. Prescrevo clindamicina 600 mg por via endovenosa de 6 em 6 horas, o que dá 4 ampolas de 4 mL por dia e 2.400 mg diários, no piso da faixa de bula para infecção da pelve feminina. Cada dose vai diluída em 50 mL e corre em 20 minutos, porque a bula limita a 18 mg por mL e a 30 mg por minuto.
22h58 — o aminoglicosídeo, com o peso na prescrição
Gentamicina 240 mg por via endovenosa a cada 24 horas: 6 mL, 3 ampolas de 2 mL a 40 mg/mL. Escrevo o peso ao lado da dose — 68 kg — porque 240 mg nessa mulher são 3,53 mg por quilo por dia, e a faixa fixa do protocolo é o total diário de um esquema fracionado da bula reimpresso como dose única. Se ela pesasse 95 kg, a mesma dose entregaria 2,53 mg por quilo, e a conversa com a plantonista seria outra. Peço creatinina e registro a ausência de zumbido e de hipoacusia na entrada.
23h05 — o que digo a ela antes de sair do quarto
Explico que a febre vem de uma infecção dentro do útero, comum depois de cesariana, que tem tratamento e que o antibiótico precisa ser na veia porque por boca não chega em concentração suficiente. Digo que ela fica internada até a febre passar e mais um dia ou dois — que não é número fixo, é a febre que manda. E digo, antes que ela pergunte, que o bebê fica com ela e que ela continua amamentando durante o tratamento.
23h10 — a pergunta que ela faz, e o que faço com ela
Ela pergunta se o remédio da veia faz mal ao leite. Respondo que os protocolos de obstetrícia mandam manter a amamentação durante esse tratamento e que é isso que vamos fazer, e acrescento que a bula de um dos remédios é mais cautelosa do que o protocolo — por isso vou conversar com a obstetra e com o pediatra antes de fechar a prescrição. Registro na evolução que a dúvida foi levantada e a quem foi levada. Não é formalidade: é o que impede que alguém, no plantão seguinte, resolva a questão sozinho suspendendo a mamada.
dia seguinte, 7h — a primeira reavaliação
Ainda febril, com pico de 38,4 °C às 4h — anoto o horário, porque é dele que sai o relógio da alta. Útero um pouco menos doloroso, lóquios ainda com odor. Ultrassonografia sem restos ovulares e sem coleção. Hemograma com leucocitose e desvio, hemoculturas em andamento. Nada a mudar: o esquema tem menos de doze horas, e trocar antibiótico com menos de 24 a 48 horas de tratamento é resolver a ansiedade da equipe, não o problema da paciente.
segundo dia — a curva vira
Último pico febril às 4h de ontem; nas últimas 27 horas, sem febre. Útero descendo e com dor bem menor, lóquios sem odor, ferida limpa, mamas sem alteração, creatinina estável, sem queixa auditiva. As hemoculturas seguem negativas. Com 24 a 48 horas afebril completadas e os quatro parâmetros clínicos em melhora, a discussão deixa de ser mais dias de soro e passa a ser continuidade e alta.
o desfecho
A obstetra suspende a via venosa 36 horas após o último pico febril e define com a farmácia clínica do serviço a droga oral de continuidade — que o protocolo obstétrico não nomeia. Elzenir vai para casa no sexto dia de puerpério, amamentando, com a receita, o número de dias que faltam escrito na receita e uma lista curta do que a faz voltar hoje mesmo: febre de novo, dor abdominal que aumenta, lóquios com mau cheiro, sangramento que aumenta em vez de diminuir. Retorno em sete dias.
o que este caso ensina
Três decisões mudaram o desfecho e nenhuma delas foi a escolha da molécula. A primeira foi examinar os sete territórios antes de fechar o diagnóstico, porque é o que autoriza dizer que a febre é do útero. A segunda foi procurar no prontuário o antibiótico da profilaxia antes de prescrever. A terceira foi anotar o horário do último pico febril — sem essa linha, Elzenir teria ficado na veia até completar sete dias, separada do bebê por um número que ninguém conferiu.
Variação do caso — resposta e reavaliação
Variação do tratamento de Elzenir: a febre cai, mas surgem oligúria e prostração maior. A temperatura isolada não significa resposta adequada. Reavaliar perfusão, função orgânica e necessidade de suporte e escalonamento.
Variação do caso — quando mudar o plano
Se permanece febril apesar de tratamento adequado, conferir dose, administração e foco, procurando coleção, material retido, resistência ou diagnóstico alternativo conforme a avaliação. Não prolongar a mesma receita sem formular a pergunta que explica a falha.
Faça você
Rosileia Aderaldo, 24 anos, décimo sexto dia de um parto vaginal sem intercorrências, primeira filha. Chega à observação do pronto-socorro às 22h30 com dor na mama direita e febre medida em casa de 38,9 °C. Conta que a dor começou há quatro dias, que teve fissura no mamilo direito na primeira semana e que há dois dias foi atendida numa unidade de pronto atendimento, onde recebeu dipirona e a orientação de suspender a amamentação daquela mama até melhorar. Desde então ela dá só a mama esquerda e não tirou leite da direita nenhuma vez. Ao exame: temperatura 38,5 °C, frequência cardíaca 104, frequência respiratória 18, pressão 112 por 70, lúcida e prostrada. Mama direita com área em cunha no quadrante superior externo, endurecida, quente, muito dolorosa, com cerca de 6 cm, sem ponto de flutuação evidente; mamilo com fissura em cicatrização. Mama esquerda sem alteração. Útero involuído e indolor, lóquios escassos e sem odor, sem sintomas urinários, ausculta pulmonar limpa, panturrilhas normais. A filha está no colo dela, ativa, corada, mamando bem no lado esquerdo.
o que já sei
Mastite no décimo sexto dia, dentro do pico da segunda e terceira semanas, com os quatro achados locais e com os três sinais de infecção: indisposição marcada, temperatura acima de 38 °C e a área em cunha. A fissura mamilar da primeira semana é a porta de entrada clássica. O exame dos outros territórios está limpo: útero involuído, lóquios normais, sem foco urinário, pulmonar ou de membros inferiores. A febre é da mama.
o detalhe que muda tudo
Há 48 horas ela recebeu a orientação de suspender a amamentação naquela mama, e não ordenhou nenhuma vez desde então. Isso não é um detalhe de história: é o fator que explica por que o quadro piorou e é, no documento nacional, o cenário descrito como comum para a complicação seguinte.
conduta
— sua vez —
Ver como fecharíamos
Avalio estado geral e sinais de sepse, examino a mama e observo a mamada com consentimento. A interrupção anterior pode ter contribuído para desconforto, sem provar uma causa única. Retomo o manejo fisiológico descrito no marco de mastite, com analgesia e apoio à dupla. Febre persistente, prostração e evolução do quadro sustentam avaliar forma bacteriana. A fissura, sozinha, não é indicação de antibiótico. Se clinicamente estável e elegível para manejo ambulatorial, cefalexina 500 mg a cada 6 horas por 10 a 14 dias é opção; verifico alergias, acesso e necessidade de cultura conforme contexto. Não excluo coleção apenas por ausência de flutuação. Massa persistente, piora ou resposta insatisfatória indicam ultrassonografia e avaliação especializada. Reavalio em 24 a 48 horas, antes se piorar; sepse exige hospital. Abscesso demanda controle do foco e plano de lactação. Registro exame, conduta, orientações e responsabilidade pelo retorno.
A definição clássica de morbidade febril puerperal usa temperatura oral de 38,0 °C ou mais em pelo menos dois dos dez primeiros dias, excluídas as primeiras 24 horas; já a definição de sepse puerperal proposta pela Organização Mundial da Saúde em 1992, que o protocolo brasileiro reproduz, usa febre com temperatura oral de 38,5 °C ou mais em qualquer ocasião, dentro de uma janela que vai da rotura das membranas ou do trabalho de parto até o 42º dia, exigindo dois ou mais de cinco achados. Há ainda uma terceira régua, a federal, destinada à vigilância epidemiológica: ela exige temperatura axilar acima de 38 °C em pelo menos duas aferições — sítio diferente das duas anteriores, sem que nenhum documento ofereça conversão. Por isso é falso dizer que as três coincidem no corte e no sítio. E a exclusão das primeiras 24 horas é estatística, não clínica: o estreptococo do grupo A, germe mais frequente na sepse puerperal, produz quadros precoces e fulminantes, de modo que febre alta com queda do estado geral nesse período se investiga.
Teste-se
Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.
Plano de revisão
Em 7 dias
Reconstrua de memória, sem consultar: as três réguas de febre no puerpério, com a temperatura, o sítio de medida, o número de aferições e a janela de cada uma, e diga para que serve cada uma. Depois escreva os dois esquemas venosos da endometrite com dose, via e intervalo, e diga qual é o critério que retira a via venosa. Por fim, escreva o gatilho do antibiótico na mastite e o que se faz nas 12 a 24 horas anteriores a ele. Se você travar no critério de retirada da veia, o furo é de leitura do protocolo, e é o que mais prolonga internação. Aplicação comentada: Febre com mama dolorosa exclui outro foco puerperal? Não. O exame deve confirmar coerência clínica e procurar sinais sistêmicos ou outra fonte.
Em 30 dias
Pegue a última puérpera febril que você acompanhou e refaça, no papel, o exame dos sete territórios na ordem — sinais vitais com frequência respiratória, fundo uterino, lóquios, mamas, ferida e períneo, pulmões e membros, sítios de punção — marcando qual deles não foi examinado no atendimento real. Depois pegue a prescrição do aminoglicosídeo daquele caso, procure o peso da paciente no prontuário e calcule quantos miligramas por quilo por dia ela recebeu. Por fim, escreva de cabeça a frase de quinze segundos com que você diria a uma mulher com mastite que ela vai continuar amamentando, e cronometre você lendo em voz alta.
Agora atenda
Puérpera no quarto dia de uma cesariana de urgência com bolsa rota prolongada chega com febre, taquicardia e dor em baixo ventre. Conduza o atendimento: examine na ordem certa e diga em voz alta o que está procurando em cada território, decida se interna, prescreva o esquema venoso justificando a escolha pelo antibiótico da profilaxia, diga o que colhe e o que não espera, e responda à pergunta que ela vai fazer sobre continuar amamentando.
