Ginecologia e Obstetrícia › Parto e assistência ao nascimento
Quando a cabeça sai e os ombros não
Apresentações anômalas e distócia de ombro
As apresentações anômalas se diagnosticam com semanas de antecedência e mudam a via de parto; a distócia de ombro não avisa e se resolve em cinco minutos, com as mãos e sem droga nenhuma. Este é um capítulo de treino: a sequência de manobras, o relógio, quem se chama e o que se registra depois.
Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo). Manejo da distocia de ombro. Femina. 2022;50(7):415-27 (Febrasgo Position Statement nº 7, julho de 2022, Comissão Nacional Especializada em Urgências Obstétricas; Alves AL, Nozaki AM, Polido CB, Knobel R)
Brasil. Ministério da Saúde. Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (CONITEC). Diretrizes Nacionais de Assistência ao Parto Normal, aprovadas pela Portaria SAS/MS nº 353, de 14 de fevereiro de 2017 (republicada por incorreções no original)
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção Primária à Saúde. Manual de Gestação de Alto Risco. Brasília: Ministério da Saúde, 2022. 692 p. ISBN 978-65-5993-312-9
Brasil. Ministério da Saúde. Diretrizes de Atenção à Gestante: a operação cesariana. Aprovadas pela Portaria SAS/MS nº 306, de 28 de março de 2016; CONITEC, Relatório de Recomendação nº 179, março de 2016
Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo). Assistência ao parto pélvico. Femina. 2024;52(1):26-40 (Febrasgo Position Statement nº 1, 2024, Comissão Nacional Especializada em Urgências Obstétricas)
Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo). Parto vaginal operatório. Femina. 2023;51(7):423-35
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Hospitalar e de Urgência. Protocolos de Suporte Avançado de Vida — Protocolo SAMU 192, AGO5: assistência ao parto iminente distócico: ombros. Brasília, 2014 (o protocolo AGO5 traz elaboração de abril de 2016)
Paraíba. Secretaria de Estado da Saúde. Protocolo de Assistência Obstétrica — Rede Cegonha. João Pessoa: Ideia, 2020. ISBN 978-65-5608-081-9
Brasil. Ministério da Saúde. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais — Rename 2024. Brasília: Ministério da Saúde, 2024. 252 p. ISBN 978-65-5993-710-3
Bulas profissionais registradas na Anvisa: Tridil (nitroglicerina) solução injetável 5 mg/mL, Cristália Produtos Químicos Farmacêuticos; e sulfato de terbutalina solução injetável 0,5 mg/mL, medicamento genérico
Hospital de Clínicas da Universidade Federal do Triângulo Mineiro / EBSERH. Protocolo Parto Instrumentalizado, PRT.HC-UFTM-UMUL.008, versão 1, emissão de 24 de fevereiro de 2026, vigência de dois anos
Foad SL, Mehlman CT, Ying J. The epidemiology of neonatal brachial plexus palsy in the United States. Journal of Bone and Joint Surgery (American). 2008;90(6):1258-64
Kleitman V, Feldman R, Walfisch A, Toledano R, Sheiner E. Recurrent shoulder dystocia: is it predictable? Archives of Gynecology and Obstetrics. 2016;294(6):1161-6
Responda antes de ler
Gestante de 36 semanas e 3 dias, segunda gestação, comparece à consulta de pré-natal. A palpação encontra polo duro e arredondado no fundo uterino e a ultrassonografia confirma apresentação pélvica incompleta modo de nádegas pura, com peso fetal estimado de 2.900 gramas, líquido normal e placenta de inserção normal. Ela não tem cicatriz uterina e a gestação transcorreu sem intercorrências. Qual é a conduta recomendada pela régua brasileira?
O paciente que você vai ver
São 2h50 de uma terça-feira e o parto está indo bem. Naura Bonifácio tem 31 anos, é a terceira gestação com dois partos vaginais anteriores, 39 semanas e 4 dias, pré-natal completo numa unidade de saúde a doze quadras da maternidade. Chegou às 23h com 6 cm, entrou em fase ativa sem que ninguém precisasse apressar nada e recusou analgesia — diz que nos outros dois não precisou. Está semi-sentada com a cabeceira elevada, o companheiro, Rosalvo, de pé do lado esquerdo da cama, e a técnica de enfermagem, Anésia, com a mão no fundo do útero contando a dinâmica. Você é o interno de plantão. A obstetra, a Dra. Marilva Marrocos, está na sala ao lado terminando uma revisão de canal.
Às 2h51 a cabeça corona. Você faz o que aprendeu: mão sobre o polo cefálico controlando a velocidade da deflexão, a outra protegendo o períneo, e pede a Naura que não empurre enquanto a cabeça sai. A cabeça sai inteira, com a face voltada para o períneo. E aí acontece uma coisa que você já viu em vídeo e nunca viu ao vivo: a cabeça não gira. Fica ali, parada, o queixo apertado contra a vulva, as bochechas espremidas para fora. E, na contração seguinte, ela recua. Não muito — meio centímetro, talvez menos —, mas recua, como se alguma coisa a estivesse puxando de volta para dentro.
Anésia levanta os olhos e diz uma frase que você vai lembrar por muito tempo: "doutor, ele travou". Rosalvo, que não entende nada de obstetrícia, entende tudo pelo tom e pergunta o que está acontecendo. Naura, que já pariu duas vezes e sabe como é o resto, diz: "não está saindo". Você olha o relógio da parede porque alguém precisa olhar o relógio, e são 2h52. A partir deste segundo, tudo que você fizer e tudo que deixar de fazer entra numa conta que ninguém no quarto está vendo, mas que o recém-nascido está pagando.
E aqui está o problema deste capítulo. O seu corpo quer fazer três coisas ao mesmo tempo, e as três são erradas. Quer puxar a cabeça com mais força, porque a impressão é de que falta pouco. Quer pedir a alguém que empurre o fundo do útero, porque parece que o bebê precisa de um empurrão. E quer pedir a Naura que faça mais força, porque foi assim que ela pariu os outros dois. Puxar com mais força é como se lesa o plexo braquial. Empurrar o fundo é como se transforma uma distócia numa rotura uterina. E o puxo materno, neste momento, só aperta mais o ombro contra o púbis.
O que resolve é outra coisa: uma sequência de manobras que muda a geometria da pelve e do feto, feita por mãos que sabem o que estão fazendo, na ordem certa, com alguém contando o tempo em voz alta. Não há droga. Não há exame. Não há tempo para procurar no celular. A única coisa que separa Naura e o filho de um desfecho bom de uma lesão permanente é o que a equipe daquele quarto já sabia antes de entrar nele.
Este capítulo é sobre isso, e sobre o que vem antes. Antes, porque a distócia de ombro é a única emergência do parto que não se anuncia — mas as apresentações anômalas, que dividem com ela o título do capítulo, se anunciam com semanas de antecedência e mudam a via de parto quando alguém as reconhece a tempo. Vamos percorrer as duas metades: o que se diagnostica com calma, no pré-natal e na admissão, e o que se resolve em cinco minutos, com as mãos.
Quem adoece disso
A distócia de ombro ocorre em 0,2% a 3,0% dos partos. A faixa é de quinze vezes, e a razão está declarada no documento que a publica: o diagnóstico é subjetivo — depende de o profissional julgar que precisou de mais do que a tração habitual — e a frequência real muda com a prevalência de macrossomia e de diabetes na população atendida. Numa maternidade com duzentos partos vaginais por mês, os dois extremos da faixa são realidades diferentes: 0,4 caso por mês, isto é, um a cada dois meses e meio, ou seis casos por mês, um a cada cinco dias. Nenhum dos documentos nacionais que regem o tema traz incidência medida no Brasil.
O dado que organiza a conduta não é a frequência, é a imprevisibilidade. Aproximadamente metade das distócias acontece em recém-nascidos com peso ao nascer abaixo de 4.000 gramas — ou seja, em fetos que ninguém chamaria de macrossômicos. A maioria dos casos ocorre em mulheres com pelve de dimensões normais, e a maioria ocorre sem fator de risco anteparto ou intraparto identificável. Isso tem uma consequência prática que precisa ser dita sem rodeio: não existe uma triagem que separe as mulheres que vão ter distócia das que não vão. Toda sala de parto precisa estar pronta, sempre.
Quando dá errado, dá errado depressa. As lesões neonatais incidem em 5% das distócias e podem acontecer mesmo com o tratamento corretamente instituído — a complicação mais frequente é a lesão do plexo braquial. A estimativa publicada é de um caso de encefalopatia hipóxico-isquêmica atribuível à distócia para cada 22 mil partos vaginais a termo. Vale fazer a conta, porque ela explica por que não se dá número a mãe nenhuma: se a incidência real for de 0,2%, isso significa uma encefalopatia a cada 44 distócias; se for de 3,0%, uma a cada 660. Os mesmos dois números publicados no mesmo parágrafo do mesmo documento produzem risco quinze vezes diferente.
A recorrência existe e é subestimada por construção. O risco declarado é de pelo menos 10%, podendo chegar a 25% — e o "pelo menos" não é modéstia: o denominador de qualquer estudo de recorrência exclui justamente as mulheres que foram para cesárea eletiva na gestação seguinte por terem tido uma distócia, que são as de maior risco. Toda estimativa publicada é, portanto, um piso. Para a mulher à sua frente, isso significa que a próxima gestação dela muda de categoria: a distócia prévia entra na lista de fatores anteparto e passa a pesar na conversa sobre via de parto, junto do peso fetal estimado e do controle glicêmico.
O pano de fundo brasileiro é de aumento. A prevalência crescente de obesidade e de diabetes na gestação — os dois fatores que produzem macrossomia — é apontada como a causa do aumento contemporâneo da distócia de ombro. Some-se a isso o que o país continua fazendo com o segundo período: a manobra de Kristeller e a episiotomia de rotina seguem frequentes nas maternidades brasileiras, e os percentuais medidos estão no capítulo de assistência ao trabalho de parto, que abre esta apostila. Nenhuma das duas previne distócia. A primeira agrava a impactação, é vedada no segundo período pela diretriz nacional e figura entre as causas de hemorragia por trauma.
Há, por fim, um número que muda o que você deve fazer com este capítulo. O treinamento de habilidades e a simulação melhoram o uso das manobras, a comunicação entre a equipe e a documentação do evento — e reduzem as lesões transitórias do plexo braquial. Não é o conhecimento teórico que muda desfecho aqui: é a mão que já fez o movimento antes. Se o seu serviço tem manequim, use. Se não tem, ensaie a sequência em voz alta com quem está de plantão. É a intervenção com melhor razão entre custo e benefício de toda a obstetrícia de urgência.
Por que acontece o que acontece
A distócia de ombro é um problema de geometria, não de força. No parto normal, os ombros entram na pelve alinhados ao diâmetro transverso do estreito superior e, enquanto a cabeça faz a rotação interna, giram para um diâmetro oblíquo — o ombro posterior desce primeiro, à frente do anterior. Quando essa rotação falha, os dois ombros permanecem no diâmetro anteroposterior e descem juntos: o ombro anterior encaixa atrás da sínfise púbica e impacta ali, osso contra osso. Se o ombro de trás também travar, agora contra o promontório sacral, a impactação passa a ser de dois pontos e o quadro fica bem mais difícil.
A falha da rotação tem três explicações conhecidas, e nenhuma delas envolve a mulher fazer pouca força. Pode ser a resistência entre a pele fetal e as paredes vaginais, que trava o giro. Pode ser um parto precipitado, em que a descida foi rápida demais para que o giro acontecesse. E pode ser a desproporção entre um tórax de dimensões grandes e um diâmetro biparietal comparativamente menor — a anatomia típica do filho de mãe diabética, em que o depósito centrípeto de gordura aumenta as relações tórax-cabeça e ombro-cabeça mesmo em fetos abaixo de 4.000 gramas. Isso explica por que o diabetes é fator de risco independentemente do peso.
O sinal clínico decorre direto da mecânica. Com o ombro anterior travado atrás do púbis, a cabeça que já saiu fica presa a ele pelo pescoço: cada tentativa de descida do corpo traciona a cabeça no sentido inverso, de volta ao períneo. É o sinal da tartaruga — a cabeça recua contra a vulva na contração e não faz a rotação externa espontânea. A face comprimida contra a vulva produz o outro achado clássico, a impressão de bochechas cheias mesmo em recém-nascido de peso normal. Repare que o sinal não é dificuldade de tração: é a cabeça andando para trás.
O relógio começa a correr no instante da impactação, e ele corre por três motivos somados. O cordão umbilical fica comprimido entre o corpo fetal e o canal, reduzindo o fluxo. O tórax, preso na pelve, não consegue expandir, de modo que o recém-nascido não inspira mesmo com a cabeça fora. E a compressão do pescoço produz estimulação vagal excessiva, com bradicardia. O tempo-limite declarado pela régua brasileira, antes que o risco de lesão por asfixia aumente, é de cinco minutos — o que significa que a organização da equipe não é etiqueta, é terapêutica.
A lesão do plexo braquial tem mecanismo próprio e é o motivo de as duas proibições existirem. Enquanto o ombro está impactado, qualquer força que continue empurrando ou puxando a cabeça aumenta o ângulo entre a cabeça e o ombro travado, e as raízes de C5 a T1 são estiradas nesse ângulo. Por isso a tração para liberar os ombros deve ser axial, alinhada com a coluna cervicotorácica do feto, num vetor que não ultrapasse 45 graus abaixo do plano horizontal da mulher — e por isso a percepção de que está sendo preciso força excessiva é, ela própria, o critério de que o problema não é de força.
A pressão no fundo uterino é o erro que transforma uma distócia numa catástrofe, e a razão é geométrica também. Empurrar o fundo aplica ao feto um vetor de cima para baixo no eixo do corpo materno — exatamente o vetor que crava o ombro anterior com mais força atrás da sínfise. Ela agrava a impactação, some com o pouco de espaço que restava e adiciona ao quadro o risco de rotura uterina, que a manobra já carrega em qualquer segundo período. O detalhamento da rotura e do que a provoca é do capítulo de acretismo e rotura uterina; aqui basta a regra: nenhuma mão sobe no abdome durante uma distócia de ombro.
As manobras que resolvem fazem uma de três coisas, e vale guardar a lista porque ela permite entender qualquer sequência que você encontre. A primeira é aumentar os diâmetros da pelve materna: é o que fazem a hiperflexão das coxas, o quatro apoios e a posição de largada de corrida. A segunda é reduzir o diâmetro biacromial do feto, seja aduzindo os ombros, seja removendo o braço posterior. A terceira é mudar a relação entre o biacromial e a pelve óssea, girando o tronco fetal para o diâmetro oblíquo, que é mais amplo, e desimpactando o ombro anterior de trás da sínfise.
Duas dessas contas têm número, e o número explica por que a manobra funciona. A hiperflexão das coxas sobre o abdome promove o alinhamento vertical da pelve, com rotação cefálica do púbis, redução da lordose lombar, retificação do promontório e giro da sínfise sobre o ombro impactado; o ombro posterior cai na concavidade do sacro e a força expulsiva passa a ser perpendicular ao plano de saída. E a remoção do braço posterior reduz de 2 a 3 centímetros o diâmetro que precisa passar, convertendo o biacromial num diâmetro axiloacromial de 10 a 11 centímetros. Dois a três centímetros decidem se passa ou não passa.
Como se apresenta de verdade
Na distocia de ombros, o interno precisa reconhecer a emergência, chamar ajuda e colaborar numa sequência organizada. Você deve evitar tração excessiva e pressão fúndica, registrar tempos e entender que cada manobra tenta mudar uma relação mecânica. O cuidado continua com avaliação materna e neonatal após o nascimento.
O que as une é o que se examina. As duas se leem pela mesma sequência: palpação abdominal antes do toque, toque com os cinco campos registrados, e atenção ao que a mecânica do parto está dizendo. O partograma, as fases clínicas e a régua que separa a demora normal do desvio pertencem ao capítulo de assistência ao trabalho de parto, que abre esta apostila; aqui entra o que interrompe ou desvia esse percurso.
Percurso clínico: Executar uma resposta coordenada
Reconheça dificuldade após saída da cabeça, anuncie, chame ajuda e organize manobras com quem está treinado. Evite pressão fúndica e tração excessiva. Cada manobra tem objetivo anatômico e resposta a avaliar; registrar tempo ajuda a equipe, sem impor espera antes da próxima ação necessária.
A estática fetal, palavra por palavra
Quatro termos descrevem como o feto está dentro do útero, e confundi-los é a origem de metade dos erros de comunicação no plantão. Situação diz como o eixo mais longo do feto se dispõe em relação ao eixo mais longo do útero, e tem três respostas: longitudinal, transversa ou oblíqua. Apresentação nomeia a parte fetal que ocupa o estreito superior e vai comandar o mecanismo do parto — cefálica, pélvica ou córmica. Posição, ou variedade de posição, é a relação entre um ponto de referência do feto e a pelve materna. Atitude é o grau de flexão da cabeça sobre o tronco — e é o que separa uma cefálica fletida de uma cefálica defletida.
As manobras de Leopold respondem a essas perguntas em ordem e sem toque. A primeira delimita o fundo uterino e diz que polo o ocupa: nádegas dão uma massa larga, irregular e menos consistente; a cabeça dá uma massa dura, arredondada e que se move independentemente do tronco. A segunda procura o dorso, de um lado, contra as pequenas partes do outro. A terceira apreende a apresentação acima da sínfise e testa se ela está móvel ou já insinuada. A quarta, com o examinador de costas para o rosto da mulher, aprofunda os dedos na direção da escava e diz o quanto da apresentação ainda está acima da borda superior do púbis.
O toque confirma e detalha, e o que ele encontra depende da apresentação. Numa cefálica fletida, o dedo alcança a fontanela posterior, pequena e triangular, e a variedade se nomeia por ela. Numa pélvica, o dedo encontra o sacro e a fenda interglútea, e a referência é a crista sacrococcígea. Numa córmica, a escava está vazia — não há parte fetal apresentada, e esse achado isolado, somado a uma palpação em que nenhum polo ocupa o fundo, já fecha o diagnóstico à beira do leito. Nas defletidas, o dedo encontra referências que não deveriam estar ali: a glabela, o nariz, o mento.
A apresentação pélvica
A apresentação pélvica é comum cedo e rara no termo. Antes de 28 semanas a prevalência é de 20% a 25,7%; no termo cai para 3% a 4%. A explicação é de espaço: enquanto o líquido é relativamente abundante e o feto pequeno, ele se move; à medida que a relação entre conteúdo e continente se estreita, a estática cefálica passa a ser a mais adequada ao formato do útero. Quando a apresentação pélvica persiste no termo, portanto, ela é um sinal — em mais de 15% dos casos está associada a anormalidade placentária, fetal ou materna, o que faz da persistência um motivo para reexaminar a gestação inteira, e não apenas a posição.
As modalidades importam porque decidem elegibilidade. Na incompleta modo de nádegas pura, os quadris estão fletidos e as pernas estendidas à frente do tronco; é a mais comum, com frequência entre 50% e 70%. Na completa, quadris e joelhos estão fletidos, com os pés rentes às nádegas; sua frequência é de 5% a 10%. As demais incompletas — modo de joelhos e modo de pés — somam entre 10% e 40%. As duas primeiras são as favoráveis à via vaginal, porque o plano mais baixo do corpo fetal contém o diâmetro bitrocantérico, que dilata bem as partes moles e abre caminho para os diâmetros biacromial e biparietal que vêm atrás.
As incompletas modo de joelhos e de pés são outra história e não são elegíveis para parto vaginal em feto único. O membro inferior se desprende cedo, por um colo ainda incompletamente dilatado ou por uma pelve estreita demais, e o que vem depois — bitrocantérico, biacromial, biparietal — é significativamente maior. Sobra espaço para prolapso de cordão, que agrava uma hipóxia que o desprendimento difícil do tronco já produziu. A única exceção admitida é o segundo feto de uma gemelar, situação em que a extração podal tem chance de sucesso maior.
A recorrência é alta e escalona: cerca de 9% após uma gestação pélvica, 25% após duas e quase 40% após três consecutivas. Entre os fatores associados estão prematuridade, história familiar, anomalias uterinas como útero bicorno e septado e miomas, placenta prévia e cornual, multiparidade, oligoidrâmnio e polidrâmnio, pelve materna contraída, anomalias fetais, extensão dos membros inferiores fetais, gemelaridade, cordão curto, restrição de crescimento e idade materna avançada. A biometria e a estimativa de peso que sustentam parte dessas decisões são do capítulo de restrição de crescimento fetal; a imagem que identifica anomalia uterina ou placentária é do capítulo sobre o que cada ultrassom responde.
A versão cefálica externa existe para evitar tudo isso e quase não se faz. A régua brasileira é explícita: na ausência de contraindicações, ela é recomendada a partir de 36 semanas de idade gestacional, mediante termo de consentimento informado, ofertada às mulheres e realizada por profissional experiente, em ambiente hospitalar. O sucesso agrupado é de 58%, o que não é pouco para um procedimento que dispensa cirurgia. Não é isenta de riscos — descolamento, sofrimento fetal, cesárea de emergência — e a taxa de cesárea depois de uma versão bem-sucedida ainda é maior do que a dos fetos que sempre estiveram cefálicos. Uma mulher informada pode razoavelmente recusá-la; o que não se sustenta é não oferecer.
Quando a versão está contraindicada, não pode ser feita ou não teve sucesso, a cesariana é recomendada e se programa a partir de 39 semanas completas — com a orientação de aguardar, quando possível, que o trabalho de parto comece. Se a mulher decidir por parto pélvico vaginal, ela precisa ser informada do maior risco de morbidade e mortalidade perinatal e neonatal, a assistência precisa ser feita por profissional experiente, e o consentimento precisa estar registrado. São elegíveis as gestantes sem vício pélvico, com feto em pélvica incompleta modo de nádegas pura ou completa, entre 2.000 e 4.000 gramas, excluídas a restrição de crescimento intrauterino, a hiperextensão do polo cefálico e as anomalias passíveis de distocia. A técnica das manobras do parto pélvico e o fórcipe de Piper são do capítulo de cesariana e parto vaginal operatório; este capítulo cede a técnica e assume o reconhecimento.
Situação transversa e apresentação córmica
O diagnóstico é o mais fácil de todos e o mais fácil de perder por não pensar nele. Na palpação, nenhum polo fetal ocupa o fundo uterino e o útero parece alargado no sentido transverso; a cabeça se palpa numa das fossas ilíacas. No toque, a escava está vazia. Se as membranas romperem, pode-se encontrar o ombro, o gradil costal ou um membro. É a apresentação com maior risco de prolapso de cordão, e a ruptura da bolsa é o momento em que ele acontece.
A conduta é curta: em situação transversa persistente com feto vivo e viável, a via é abdominal. Não há prova de trabalho de parto a fazer, e o trabalho de parto com feto em situação transversa é o cenário clássico da rotura uterina por obstrução — assunto do capítulo de acretismo e rotura uterina. As tentativas de versão interna com o feto único a termo saíram da prática por morbidade; a versão cefálica externa, essa sim, pode ser tentada antes do trabalho de parto pelas mesmas regras da pélvica.
O que cabe ao interno é o reconhecimento e a comunicação, e o que cabe registrar é o achado com hora. Uma gestante que chega em trabalho de parto e cujo fundo uterino não tem polo é uma urgência de sala, não de ambulatório: acesso venoso, ausculta dos batimentos, obstetra imediatamente, sala cirúrgica avisada, e nenhuma amniotomia por nenhum motivo.
As deflexões cefálicas e a apresentação composta
As deflexões se graduam pelo quanto a cabeça se afastou da atitude fletida, e cada grau oferece um diâmetro diferente ao canal. Na de primeiro grau, ou apresentação de bregma, o diâmetro que se apresenta é o occipitofrontal, de cerca de 12 centímetros, e o ponto de referência é a glabela; o parto vaginal pode evoluir, desde que a vitalidade do feto se mantenha preservada. Na de segundo grau, ou apresentação de fronte, o diâmetro é o occipitoglabelar, de cerca de 13 centímetros — o maior de todos —, e a referência é o nariz.
A de fronte é a que mais confunde porque é instável: ela pode fletir e virar bregma ou defletir e virar face ao longo da descida, e por isso admite prova de trabalho de parto. O que não admite é insistência: quando não se resolve, a interrupção costuma ser por via alta. Na de terceiro grau, ou apresentação de face, a deflexão é máxima e o diâmetro submentobregmático é de cerca de 9,5 centímetros — surpreendentemente pequeno —, com o mento como referência. A evolução vaginal é possível na variedade mentoanterior; na mentoposterior é preciso rotação para mentoanterior, e sem ela não há parto vaginal.
Na apresentação composta, a cabeça se insinua acompanhada de um membro, ou de mais de um. Está associada a prolapso de cordão e, em caso de prolapso ou de não redução espontânea do membro, a indicação é cesárea. Em todas essas situações, o parto vaginal operatório tem contraindicações próprias — a córmica, a fronte e a face mentoposterior estão entre elas —, e a escolha e a técnica do fórcipe e do vácuo-extrator são do capítulo de cesariana e parto vaginal operatório.
A distócia de ombro: o sinal, e o que não é o sinal
A definição operacional é a necessidade de manobras adicionais à suave tração descendente exercida para desprender os ombros. Essa tração tem nome — manobra cabeça-ombro — e é a referência: quando ela falha com força habitual, o diagnóstico está feito. A percepção de que está sendo preciso força excessiva já é, por si, indicação de que manobras específicas são necessárias. Não existe um número para "força habitual", e é honesto dizer isso: o diagnóstico e a gravidade da distócia de ombro são subjetivos, e o próprio documento que rege a conduta no Brasil assume essa subjetividade.
O sinal objetivo mais confiável é o da tartaruga: a cabeça já exteriorizada recua contra o períneo na contração e não faz a rotação externa espontânea. Repare no que isso significa — o problema não é que o corpo demora a sair, é que a cabeça anda para trás. Há dois achados de apoio, ambos de valor menor: a impressão de bochechas cheias, pela compressão da face contra a vulva, mesmo em feto de peso normal; e a ausência da restituição, isto é, a cabeça não gira para se realinhar com o dorso.
Um critério de tempo circula e precisa ser lido com cuidado: intervalo maior que 60 segundos entre a saída da cabeça e a saída dos ombros. A régua brasileira registra que esse critério mais objetivo ainda necessita de estudos de validação, tanto para o diagnóstico quanto para a previsão de resultados neonatais adversos — enquanto o protocolo brasileiro de suporte avançado de vida pré-hospitalar o adota como critério de inclusão. É o mesmo número usado de duas formas: gatilho de conduta num documento, hipótese não validada no outro. O bloco de divergências detalha.
Vale dizer o que não é distócia de ombro, porque o rótulo aplicado errado gera intervenção errada. Não é distócia de ombro o corpo que demora alguns segundos e sai com a tração habitual na contração seguinte. Não é distócia de ombro o expulsivo prolongado com a cabeça ainda alta — isso é falha de progresso do segundo período, com critérios próprios, e o capítulo Antes de dizer que parou trata dos critérios de distocia e parada de progressão. E não é distócia de ombro a cabeça derradeira encarcerada no parto pélvico, que tem manobras próprias e é do capítulo de cesariana e parto vaginal operatório.

Quem tem mais risco — e por que isso quase não seleciona ninguém
Os fatores anteparto conhecidos são macrossomia fetal, diabetes mellitus, história prévia de distócia de ombro, gestação pós-termo, sexo fetal masculino, obesidade materna com ganho excessivo de peso e idade materna. O principal é a macrossomia — mas a associação é estatística, não preditiva: a distócia aumenta progressivamente acima de 4.000 gramas e a morbimortalidade neonatal aumenta significativamente acima de 4.500 gramas, e mesmo assim o peso fetal não tem bom valor de predição. A maioria dos fetos macrossômicos nasce sem distócia, e cerca de metade das distócias acontece abaixo de 4.000 gramas.
O diabetes merece um parágrafo próprio porque o mecanismo não é só o peso. O filho de mãe diabética com controle glicêmico ruim é grande e desproporcional: o depósito centrípeto de gordura aumenta as relações tórax-cabeça e ombro-cabeça, elevando o risco de distócia mesmo abaixo de 4.000 gramas. O rastreamento, o diagnóstico e o manejo glicêmico do diabetes gestacional são do capítulo de diabetes mellitus gestacional; o que este capítulo assume é o que a hiperglicemia faz com a anatomia do ombro e o que se decide sobre via de parto e momento do parto por causa disso.
Os fatores intraparto são as distocias dos períodos funcionais — parada secundária da dilatação e período pélvico prolongado — e o parto vaginal operatório. Isoladamente, as anormalidades do período pélvico não são preditores úteis; combinadas a peso fetal estimado acima de 4.000 gramas e a parto vaginal operatório, associam-se a aumento da incidência. Sobre o fórcipe e o vácuo não há evidência de que a tração instrumental por si aumente a impactação; os riscos parecem semelhantes entre os dois instrumentos.
Poucos desses fatores são modificáveis, e vale saber quais: o controle do peso corporal antes e durante a gestação e o controle glicêmico entre as diabéticas são as principais estratégias capazes de reduzir o risco. Tudo o mais é descrição. É por isso que a frase honesta a dizer numa aula, num plantão e a uma gestante é a mesma: a distócia de ombro é predominantemente imprevisível e não prevenível, e o que muda desfecho é a equipe estar treinada para reconhecê-la e resolvê-la.
Como fechar o diagnóstico
Este é um capítulo com quase nenhum exame. Não há laboratório, não há escore, e a única imagem que muda alguma coisa é a que confirma a apresentação perto do termo. O instrumento é a mão — a palpação antes do toque, o toque com os cinco campos registrados — e o relógio. Vale dizer isso com todas as letras porque a tentação, diante de um evento grave, é procurar um exame que anuncie o risco, e ele não existe.
A investigação aqui se divide em três tempos que não se misturam: antes, o que se pode saber sobre a apresentação e sobre o peso; durante, o que a mão diz enquanto a distócia acontece; e depois, o exame do recém-nascido e o da mulher, que são o que sustenta o registro e o aconselhamento das próximas gestações.
A palpação, que é o exame que decide
A palpação abdominal sistemática antes de cada toque é o que identifica a apresentação anômala em tempo de mudar a via de parto. Ela é gratuita, não invasiva, e responde às quatro perguntas na ordem em que elas importam: que polo ocupa o fundo, de que lado está o dorso, o que se apresenta ao estreito superior e o quanto disso já desceu. Uma gestante de 36 semanas ou mais em que a primeira manobra encontra uma massa dura e arredondada no fundo uterino é uma candidata a versão cefálica externa, e a janela para essa conversa é agora, não na admissão.
A quarta manobra tem uma tradução prática que vale guardar: quantos quintos da cabeça ainda se palpam por cima do púbis. É o antídoto contra a ilusão que a bossa serossanguínea produz, fazendo o toque encontrar uma apresentação mais baixa do que ela de fato está. Numa suspeita de desproporção — e a suspeita de desproporção é o que antecede boa parte das distócias intraparto —, o número de quintos palpáveis é mais honesto do que o plano de DeLee.
Durante a distócia, a palpação muda de função: ela informa qual é o ombro impactado. Saber se o dorso fetal está voltado para a direita ou para a esquerda materna define de que lado o auxiliar se posiciona para a pressão suprapúbica, e qual mão do operador entra na vagina para as manobras internas. Perder essa informação custa uma tentativa inteira feita do lado errado, e no relógio deste capítulo uma tentativa é muito tempo.
A estimativa de peso fetal e o que fazer com o erro dela
Nenhum método disponível estima peso fetal com acurácia suficiente para decidir sozinho. A ultrassonografia e a avaliação clínica — manobras de Leopold, regra de Johnson — têm baixa sensibilidade para estimar o peso ao nascer. O Manual de Gestação de Alto Risco é direto ao dizer que a estimativa por ultrassonografia apresenta falhas consideráveis e que, entre os parâmetros isolados, a circunferência abdominal é o que melhor identifica o crescimento exagerado — porque nela está o fígado, que responde de perto às anormalidades do crescimento fetal.
Os parâmetros biométricos criados justamente para prever distócia não resistiram ao teste. Diferença entre os diâmetros abdominal e biparietal, circunferência torácica, razão entre circunferência cefálica e abdominal, razão entre comprimento femoral e circunferência abdominal, distância úmero-espinhal, diâmetro bochecha a bochecha, largura do ombro: ou não foram testados em grandes estudos prospectivos, ou não provaram ser úteis. Biometria levemente anormal não prediz distócia de ombro. A técnica e a interpretação da biometria e do Doppler são do capítulo de restrição de crescimento fetal.
O que se faz com uma estimativa ruim, então, é usá-la só onde ela ainda muda conduta — e nas faixas altas, em que o erro relativo pesa menos sobre a decisão. É o que a régua brasileira faz: reserva a cesárea preventiva para estimativas acima de 4.500 gramas com diabetes e acima de 5.000 gramas sem diabetes, e usa faixas intermediárias apenas quando o segundo período já prolongou. Os números completos e a fonte de cada um estão na tabela de pesos do bloco de critérios, com as contradições que eles produzem entre documentos brasileiros nas notas.
O que não se pede
A pelvimetria clínica não é recomendada para predizer falha de progressão do trabalho de parto nem para definir a forma de nascimento — a recomendação brasileira sobre isso tem qualidade de evidência classificada como alta, o que é raro em obstetrícia. Dados antropométricos maternos, como altura ou tamanho do pé, também não servem. E, como a distócia de ombro ocorre predominantemente em parturientes com dimensões pélvicas normais, exames de imagem e pelvimetria não identificam quem está sob risco aumentado, exceto nos casos raros de anormalidade pélvica ou fetal grave.
Em gestação de baixo risco no termo, não se pede ultrassonografia de rotina apenas para estimar o peso do feto: o conjunto de evidências não corrobora essa prática. Não se pede exame de imagem com a finalidade de decidir se a mulher vai ou não ter distócia, porque não existe exame com essa capacidade. E não se pede nada durante o evento: quando a distócia acontece, não há tempo, não há indicação e não há aparelho que ajude.
Há uma coisa que se pede e que quase ninguém pede: a história obstétrica detalhada, com o peso de cada recém-nascido anterior e a existência de distócia prévia. Um recém-nascido anterior acima de 4,5 quilos é fator para avaliação individual do local de parto pela diretriz nacional, e uma distócia prévia entra na decisão de via de parto da gestação atual. Isso está no cartão, custa uma pergunta e é o dado mais útil que este capítulo tem para oferecer antes do parto.
A ultrassonografia que ainda vale a pena perto do termo
Há um uso legítimo e barato da imagem neste tema: confirmar a apresentação em torno de 36 semanas, quando a palpação levanta a suspeita de pélvica ou de situação transversa. Não é para estimar peso, é para decidir se a versão cefálica externa entra na conversa — e a janela dessa conversa fecha. As perguntas que cada janela de ultrassonografia responde ao longo da gestação são do capítulo sobre rastreio de anomalias e ultrassonografia obstétrica; o que este capítulo assume é o pedido dirigido no fim do terceiro trimestre.
Vale saber o que essa confirmação muda, porque justifica a insistência no pedido. Confirmada a pélvica em ambiente que ofereça versão, abre-se uma via com 58% de sucesso agrupado que evita uma cesárea. Confirmada a pélvica sem oferta de versão, ainda assim muda o planejamento: a recomendação passa a ser cesárea programada, não antes de 39 semanas completas, aguardando quando possível o início do trabalho de parto — e a mulher precisa saber, no pré-natal, quais instituições e profissionais assistem parto pélvico no seu município.
E vale saber o que ela não muda. Confirmar apresentação cefálica não afasta risco de distócia de ombro, porque a distócia acontece justamente em fetos cefálicos com pelve normal. Uma ultrassonografia normal de terceiro trimestre não é permissão para relaxar a preparação da sala. A frase que deve ficar é essa: nenhum exame deste capítulo é tranquilizador, porque nenhum deles responde à pergunta que importa.
Depois que nasce: o exame do recém-nascido e o da mulher
O exame do recém-nascido depois de uma distócia tem alvos definidos e é a origem do que se vai dizer à família. Observa-se a movimentação espontânea dos dois membros superiores e a simetria delas; procura-se assimetria do reflexo de Moro; palpam-se as clavículas procurando crepitação, dor e degrau; observa-se a expansão torácica e o padrão respiratório; e registra-se o índice de Apgar e o pH do cordão umbilical, que são os dois números que a documentação exige. A reanimação, quando necessária, tem capítulo próprio — Reanimação neonatal em sala de parto —, e a asfixia com suas consequências é do capítulo de encefalopatia hipóxico-isquêmica.
A lesão do plexo braquial não tem dono em nenhum capítulo escrito deste nível, e por isso este capítulo a assume, no que interessa a quem estava na sala. Quando o acometimento se limita às raízes altas — C5 com C6, e às vezes também C7 —, o quadro é o da paralisia de Duchenne-Erb: braço aduzido, rodado internamente, antebraço pronado. É o de melhor prognóstico. As que envolvem todas as raízes, de C5 a T1, produzem um membro flácido inteiro e têm prognóstico bem pior. O estiramento é significativamente mais incidente quando três ou mais manobras foram necessárias — o que é um argumento a favor de escolher bem, não de fazer muitas.
Na mulher, o exame de depois é o do canal de parto e o do sangramento. As complicações maternas graves mais comuns são a hemorragia pós-parto, seja por atonia, seja por lesão do trajeto, e as lacerações perineais complicadas. Vêm depois a diástase da sínfise púbica, as lesões do trato urinário — uretra e bexiga — e a neuropatia cutânea femoral lateral transitória, esta última secundária à própria hiperflexão das coxas. A quantificação da perda, o índice de choque e o manejo completo da hemorragia são do capítulo de hemorragia pós-parto, que é o vizinho imediato desta apostila.
O que existe no SUS — e o que não existe
A boa notícia deste capítulo é que ele quase não custa nada. Tudo o que resolve uma distócia de ombro existe em qualquer maternidade do país: mãos, uma cama que permita hiperflexão das coxas e mudança para quatro apoios, luvas, um relógio com ponteiro de segundos e gente suficiente na sala. Nada disso depende de tecnologia, e um serviço que não resolve uma distócia raramente falha por falta de material — falha por falta de sequência ensaiada e de alguém contando o tempo.
A má notícia está nos dois fármacos. Para relaxar o útero antes das manobras de última instância, a régua brasileira recomenda dois fármacos: terbutalina, 0,25 mg por via subcutânea, e nitroglicerina, em bolus de 50 microgramas por minuto até obter relaxamento, com teto de 250 microgramas. Nenhum dos dois figura no elenco nacional de medicamentos essenciais de 2024. A ocitocina tampouco figura. Isso não os torna indisponíveis — muitos hospitais os têm por compra própria —, mas significa que a padronização nacional não garante que estejam na sua sala.
Há ainda um improviso que a própria régua descreve e que vale conhecer porque usa material que existe em toda sala de parto: a tipoia axilar para extração do ombro posterior, feita com uma sonda urinária de calibre 12 ou 14, ou um cateter de sucção, dobrado em alça na ponta do dedo indicador, passado por trás da axila posterior e recuperado pelo dedo da outra mão. É uma manobra de resgate, não é do interno, e não substitui treino — mas é a prova de que o gargalo aqui é conhecimento, não orçamento.
A sequência, o relógio e os pesos — com o que não fecha entre os documentos
Três coisas precisam estar decoradas antes de a distócia acontecer: a sequência de manobras, o tempo que se tem e o que cada uma das manobras faz. A sequência abaixo é a que a federação brasileira de ginecologia e obstetrícia publicou em 2022 para as posições verticais, no mnemônico A SAÍDA, com a variante de litotomia indicada em cada passo. Ela foi escolhida aqui por dois motivos declarados: o algoritmo vertical tem origem brasileira, e é o que se aplica a uma mulher que está parindo de cócoras, sentada ou de quatro apoios — que é o cenário de boa parte dos partos assistidos segundo a diretriz nacional. As notas ao fim do bloco registram, com a conta, o que não fecha entre os documentos brasileiros: a ordem das manobras, o relógio e os pesos.
- 1Reconheça e diga em voz alta. A falha da manobra cabeça-ombro com força habitual, ou a cabeça que recua contra o períneo sem rotação externa, é o diagnóstico. Anuncie à mulher e ao acompanhante o que está acontecendo, chame ajuda nominalmente — obstetra, enfermagem, pediatra, anestesista — e mande alguém começar a contar o tempo em voz alta, marcando o horário no papel.
- 2Pare o que agrava. Nenhuma mão sobe no fundo do útero. A tração continua axial e suave, nunca aumentada. A mulher para de fazer força. O cordão não é seccionado, mesmo que haja circular: se estiver frouxa, desfaça com o dedo; se estiver tensa, deixe e siga.
- 3Aumente o agachamento, ou hiperflexione as coxas. Em posição vertical, peça que a mulher agache mais, aproximando a pelve da superfície de apoio; em litotomia, dois profissionais seguram um membro inferior cada e hiperflexionam as coxas sobre o abdome, com abdução, retirando as pernas das perneiras antes. É a manobra de McRoberts, ou a de McRoberts modificada na vertical.
- 4Some pressão suprapúbica externa. Um auxiliar posicionado do lado do dorso fetal comprime o abdome inferior em direção inferomedial, com as mãos espalmadas como na massagem cardíaca, para aduzir o ombro anterior. Trinta segundos contínuos; se não resolver, mais trinta em pulsos. É a manobra de Rubin I, e ela é iniciada imediatamente antes da tração da cabeça, sob o comando de quem traciona.
- 5Mude a posição para quatro apoios. Mãos e joelhos, ou a posição de largada de corrida, com o membro inferior do lado do dorso fetal fletido à frente. Amplia o espaço na concavidade do sacro e conta com a gravidade. Repita a tração — agora o ombro que era posterior está anterior. É a manobra de Gaskin, e nesta posição a tração pode ser para baixo, liberando o ombro posterior, ou para cima, liberando o anterior.
- 6Entre com a mão: manobras rotatórias internas, em sequência. Rubin II — dois dedos atrás do ombro anterior impactado, empurrando-o para o diâmetro oblíquo. Sem resposta, acrescente a outra mão à frente do ombro posterior, abduzindo-o: é o parafuso de Woods. Sem resposta, troque as mãos de ombro e gire no sentido inverso: é a Woods reversa. Uma episiotomia pode ser necessária se a resistência perineal impedir a mão de entrar — mas ela não resolve a distócia, que é impactação óssea.
- 7Desprenda o braço posterior. A mão entra pelo vazio sacral, alcança o braço posterior à frente do tórax fetal, pressiona a fossa antecubital para fletir o antebraço e traciona o punho para fora, girando o tronco. É a manobra de Jacquemier, e ela reduz de 2 a 3 centímetros o diâmetro que precisa passar. Se o braço estiver estendido ou atrás do dorso, as alternativas são a manobra de Shrug e a tração axilar de Menticoglou.
- 8Avalie as manobras de resgate — e não sozinho. Fratura intencional da clavícula anterior e extração do ombro posterior com tipoia axilar vêm antes das de última instância, que são a manobra de Zavanelli, o resgate abdominal e a sinfisiotomia. Todas exigem obstetra experiente, relaxamento uterino e, em duas delas, sala cirúrgica. Nenhuma delas é decisão de interno; saber que existem e pedir quem as faz, sim.
As manobras, uma a uma: o que faz, o que exige, o que se erra
| Manobra | O que ela faz | O que exige | Erro comum |
|---|---|---|---|
| Manobra cabeça-ombro (a tração de referência) | Não é manobra de distócia: é a tração suave descendente do parto normal, axial, alinhada à coluna cervicotorácica fetal, num vetor de até 45 graus abaixo do plano horizontal da mulher | Perceber quando ela falha com força habitual — é esse o diagnóstico | Aumentar a força em vez de mudar de manobra; a percepção de força excessiva já é o critério de que o problema não é de força |
| McRoberts (hiperflexão das coxas) e McRoberts modificada (aumento do agachamento) | Alinha a pelve verticalmente, roda o púbis cefalicamente, reduz a lordose lombar, retifica o promontório, gira a sínfise sobre o ombro impactado e faz o ombro posterior cair na concavidade sacral | Duas pessoas em litotomia, uma para cada membro; pernas fora das perneiras; em vertical, só a mulher agachar mais | Fazer com as pernas ainda nas perneiras, o que impede a hiperflexão real; e desistir antes de associar a pressão suprapúbica |
| Rubin I (pressão suprapúbica externa) | Aduz o ombro anterior, tirando-o de trás da sínfise; é feita em direção inferomedial, do lado do dorso fetal, com as mãos espalmadas | Um auxiliar que saiba de que lado está o dorso; 30 segundos contínuos, depois 30 em pulsos; começar imediatamente antes da tração | Empurrar o fundo uterino achando que é a mesma coisa — é o oposto: crava o ombro e pode romper o útero. Em obesidade importante o passo pode ser omitido por ineficácia |
| Gaskin (quatro apoios) e largada de corrida | Amplia o espaço na concavidade do sacro e usa a gravidade; inverte os ombros, de modo que o posterior passa a ser o mais acessível | Cama que permita a mudança, mulher com mobilidade — é mais fácil sem analgesia regional e mais difícil em leito cirúrgico | Não tentar por achar que atrapalha; e, depois de mudar de posição, esquecer que os ombros inverteram e repetir a manobra no ombro errado |
| Rubin II (rotação interna, adução do ombro anterior) | Empurra o ombro anterior impactado para o diâmetro oblíquo da pelve, que é mais amplo | Mão do lado correspondente ao dorso fetal, introduzida pelo vazio sacral e deslocada superiormente até atrás do ombro anterior | Entrar com a mão errada e perder uma tentativa inteira; e tentar sem espaço perineal quando uma episiotomia teria permitido a entrada |
| Parafuso de Woods e Woods reversa | Somam à adução do ombro anterior a abdução do posterior, girando o biacromial para o oblíquo; a reversa faz a rotação no sentido inverso, para o outro oblíquo | As duas mãos dentro, em sequência e sem retirar a primeira; e clareza de qual ombro é qual | Fazer as três rotatórias como uma coisa só e sem ordem, o que impede saber o que funcionou e o que registrar |
| Jacquemier (desprendimento do braço posterior) e Shrug | Converte o diâmetro biacromial em axiloacromial, de 10 a 11 centímetros — uma redução de 2 a 3 centímetros; a Shrug entrelaça polegar e indicador no cavo axilar e gira cabeça e ombro juntos em 180 graus | Mão contrária ao lado do dorso, entrando pelo vazio sacral; pressão na fossa antecubital se o braço estiver estendido; frequentemente exige episiotomia para caber | Tracionar o braço pelo úmero em vez de apreender antebraço e mão — o risco de fratura umeral existe, mas o pior é a perda de tempo por técnica errada |
| Menticoglou (tração axilar) e tipoia axilar | Desce ou libera o ombro posterior quando o cotovelo não é alcançável: dedos médios das duas mãos entrelaçados no cavo axilar, tração inferior ao longo da curvatura sacral; a tipoia usa sonda urinária número 12 ou 14 dobrada em alça | Duas mãos livres e um auxiliar que flexione a cabeça fetal em direção ao ombro impactado; para a tipoia, uma sonda e treino | Tratar como manobra de rotina — é alternativa de resgate, e a fratura umeral é a morbidade neonatal mais associada à tipoia |
| Fratura de clavícula, Zavanelli, resgate abdominal e sinfisiotomia | Reduzem o biacromial pela fratura; recolocam a cabeça na pelve para cesárea; giram o ombro por via abdominal com extração vaginal; ou abrem a pelve pela cartilagem púbica | Obstetra experiente, relaxamento uterino com terbutalina ou nitroglicerina, sala cirúrgica nas duas centrais; a sinfisiotomia só onde não há sala cirúrgica | Chegar a elas sem ter feito a sequência anterior, e chegar a elas sozinho — todas são decisão de quem tem competência para assumir a morbidade que carregam |
O relógio: o que se conta, a partir de quando, e quem diz
| Marco | O que se conta | Quanto | Documento |
|---|---|---|---|
| Saída do polo cefálico na vulva sem desprendimento dos ombros | Intervalo entre a cabeça e os ombros | 60 segundos — é o critério de inclusão do protocolo | Protocolo SAMU 192, atendimento ao parto iminente distócico: ombros (AGO5), elaboração de abril de 2016 |
| Falha da manobra cabeça-ombro com força habitual, ou sinal da tartaruga | Nada: é o próprio diagnóstico, e é subjetivo | O critério de 60 segundos é registrado como ainda necessitando de estudos de validação | Febrasgo, Manejo da distocia de ombro, Position Statement nº 7, julho de 2022 |
| Do reconhecimento até o desprendimento | Tempo total da assistência, cronometrado e documentado desde o diagnóstico | 5 minutos — limite antes de aumentar o risco de lesão por asfixia | Febrasgo, 2022 |
| Tentativas de extração fetal | Tempo somado das manobras | 7 a 8 minutos — a partir daí, maior probabilidade de dano neurológico e óbito neonatal | Protocolo de Assistência Obstétrica, Rede Cegonha, Secretaria de Estado da Saúde da Paraíba, 2020 |
| Pressão suprapúbica (Rubin I) | Duração de cada tentativa antes de mudar de manobra | 30 segundos contínuos, seguidos de 30 segundos em pulsos | Rede Cegonha/Paraíba, 2020; o protocolo do SAMU declara 30 segundos com punho cerrado |
| Chegada de cada profissional chamado | Horário de entrada de cada um na sala | Registro obrigatório, sem prazo definido | Febrasgo, 2022 (documentação) |
Os pesos, e o que cada documento brasileiro faz com eles
| Peso fetal estimado | Com diabetes | Sem diabetes | Documento |
|---|---|---|---|
| Acima de 4.000 g | Define macrossomia; associa-se a distócia de ombro, paralisia de plexo, fratura de clavícula e asfixia | Define macrossomia, com as mesmas associações | Ministério da Saúde, Manual de Gestação de Alto Risco, 2022 |
| De 4.000 a 4.500 g | Indução do parto com 39 semanas no diabetes gestacional; cesárea se o segundo estágio prolongar | Indução pode ser oferecida com 39 semanas; conduta expectante é alternativa razoável. Indução com 37 ou 38 semanas está desaconselhada | Febrasgo, 2022 |
| Acima de 4.500 g | A cesárea parece prevenir a distócia e a morbidade associada, avaliado dentro de uma semana do parto | Sugere-se maior atenção e conduta individualizada; não há indicação de cesárea só pelo peso | Febrasgo, 2022; Ministério da Saúde/CONITEC, Diretrizes de Atenção à Gestante: a operação cesariana, 2016 |
| De 4.500 a 5.000 g | Já coberto pela linha acima | Cesárea se o segundo estágio prolongar | Febrasgo, 2022 |
| Acima de 5.000 g | Já coberto pela linha acima | A cesárea parece prevenir a distócia e a morbidade associada | Febrasgo, 2022 |
| Acima de 4.000 g com a cabeça na pelve média, ou acima de 4.500 g com período pélvico prolongado | Cesárea intraparto em vez de parto vaginal operatório | Cesárea intraparto em vez de parto vaginal operatório | Febrasgo, 2022; Febrasgo, Parto vaginal operatório, 2023 |
As apresentações anômalas: o que muda na condução
| Apresentação | Como se reconhece | O que muda | De quem é o resto |
|---|---|---|---|
| Pélvica incompleta modo de nádegas pura, ou pélvica completa | Palpação com polo duro no fundo; ao toque, sacro e fenda interglútea. Frequência de 50% a 70% e de 5% a 10%, respectivamente | Versão cefálica externa a partir de 36 semanas. Sem ela ou com falha, cesárea a partir de 39 semanas, aguardando o trabalho de parto. Parto vaginal possível entre 2.000 e 4.000 g, com equipe experiente e consentimento | As manobras do parto pélvico e o fórcipe de Piper são do capítulo de cesariana e parto vaginal operatório |
| Pélvica incompleta modo de joelhos ou de pés | Ao toque, joelho ou pé como parte mais baixa; somam de 10% a 40% das pélvicas | Não é elegível para parto vaginal em feto único, pelo desprendimento antecipado dos membros e pelo risco de prolapso de cordão. Aceitável apenas no segundo gemelar | A condução da gemelar é do capítulo de cesariana e parto vaginal operatório |
| Situação transversa (apresentação córmica) | Nenhum polo no fundo uterino; útero alargado transversalmente; escava vazia ao toque | Via abdominal. Nenhuma amniotomia. Maior risco de prolapso de cordão na ruptura das membranas | A rotura uterina por obstrução é do capítulo de acretismo e rotura uterina |
| Cefálica defletida de 1º grau (bregma) | Referência é a glabela; diâmetro occipitofrontal, cerca de 12 cm | Evolução vaginal possível com vitalidade fetal preservada | Os critérios de falha de progresso do primeiro e do segundo períodos são do capítulo de assistência ao trabalho de parto |
| Cefálica defletida de 2º grau (fronte) | Referência é o nariz; diâmetro occipitoglabelar, cerca de 13 cm — o maior | Cabe prova de trabalho de parto porque pode fletir ou defletir, mas não se insiste; a resolução costuma ser por via alta. É contraindicação ao parto vaginal operatório | A escolha e a técnica do instrumento são do capítulo de cesariana e parto vaginal operatório |
| Cefálica defletida de 3º grau (face) | Referência é o mento; diâmetro submentobregmático, cerca de 9,5 cm | Evolução vaginal possível na variedade mentoanterior. Na mentoposterior, sem rotação para mentoanterior não há parto vaginal, e o vácuo-extrator está contraindicado | O parto vaginal operatório na face mentoanterior é do capítulo de cesariana e parto vaginal operatório |
| Apresentação composta | Um ou mais membros insinuados junto com o polo cefálico | Associada a prolapso de cordão. Com prolapso, ou sem redução espontânea do membro, a indicação é cesárea | O manejo do prolapso de cordão até a resolução é do capítulo de assistência ao trabalho de parto |
A ordem das manobras não fecha dentro do mesmo documento, e o próprio documento diz por quê. O Position Statement nº 7 da Febrasgo (2022) traz dois mnemônicos. No ALEERTA, para litotomia, a sequência é: chamar ajuda (1), McRoberts (2), pressão suprapúbica (3), considerar episiotomia (4), remover o braço posterior (5), manobras internas (6) e alterar a posição para quatro apoios (7). No A SAÍDA, para as posições verticais, é: chamar ajuda e aumentar o agachamento (1), pressão suprapúbica (2), quatro apoios (3), manobras internas (4), desprender o braço posterior (5) e avaliar resgate (6). Conta: o quatro apoios é o sétimo e último passo num quadro e o terceiro num outro; o braço posterior vem antes das manobras internas num e depois no outro. Dois dos seis passos trocam de lugar. A explicação está escrita no próprio texto: as evidências sobre a eficácia e o sequenciamento das manobras são escassas, e não há prova de que uma seja superior à outra. Conferência que fecha por honestidade do documento, não por coerência das tabelas.
O protocolo estadual da Paraíba (2020) reproduz os dois mesmos mnemônicos e acrescenta uma frase que os desempata para o lado do quatro apoios: recomenda a manobra de Gaskin antes das manobras internas, afirmando que ela soluciona 80% das distócias. A afirmação vem sem denominador e sem referência numerada no ponto em que aparece. Ela não contradiz a Febrasgo — que também classifica o Gaskin entre as manobras secundárias de alta eficácia e baixa morbidade —, mas o percentual isolado não deve ser repetido como se fosse medida.
O relógio é o achado mais consequente e o que menos fecha. A Febrasgo (2022) declara cinco minutos como o tempo-limite antes do aumento do risco de lesão por asfixia. O protocolo da Paraíba (2020) declara que após 7 a 8 minutos de tentativas de extração fetal há maior probabilidade de dano neurológico e óbito neonatal. Conta: 7 minutos são 1,4 vez o limite da Febrasgo, e 8 minutos são 1,6 vez — de 40% a 60% a mais. E os marcos são diferentes: a Febrasgo cronometra a partir do reconhecimento; a Paraíba, a partir do início das tentativas; e o protocolo do SAMU (AGO5, 2016) usa 60 segundos contados da saída do polo cefálico como o próprio critério diagnóstico. Somando o minuto do diagnóstico aos 8 minutos de manobras, chega-se a 9 minutos desde a saída da cabeça — 1,8 vez o limite de cinco minutos. Um serviço que adote o número maior sem o marco correspondente está trabalhando com quase o dobro do prazo.
Conferência que fechou, e vale registrar porque é rara: as faixas de peso da Febrasgo (2022) não deixam nenhum valor exato pertencendo a duas classes. Os limiares de cesárea usam 'acima de 4.500 g' e 'acima de 5.000 g'; as faixas de segundo estágio prolongado usam 'entre 4.000 e 4.500 g' e 'entre 4.500 e 5.000 g'. Testando os valores de fronteira: 4.500 g com diabetes não é 'acima de 4.500' e cai na faixa de 4.000 a 4.500, que só indica cesárea se o segundo estágio prolongar; 5.000 g sem diabetes cai na faixa de 4.500 a 5.000, com a mesma condição. Nenhum peso exato recebe duas condutas incompatíveis.
O que não fecha é entre documentos, e o exemplo mais didático é um feto estimado em 4.200 g. Para o Manual de Gestação de Alto Risco do Ministério da Saúde (2022), ele é macrossômico, porque a definição é peso acima de 4.000 g. Para as Diretrizes de Atenção à Gestante: a operação cesariana (MS/CONITEC, 2016), ele está abaixo do limiar de 4.500 g que dispara maior atenção e conduta individualizada. Para a Febrasgo (2022), se a mãe tiver diabetes gestacional, ele está na faixa em que a indução com 39 semanas é indicada e a cesárea se aplica caso o segundo estágio prolongue. Três documentos brasileiros vigentes, três leituras do mesmo número, e nenhuma delas errada — o que muda é a pergunta que cada documento está respondendo.
A definição de 'segundo estágio prolongado' que aciona a cesárea preventiva é o dobro da que aciona a chamada de ajuda. A Febrasgo (2022) usa quatro horas para primípara com analgesia, três sem analgesia, três para multípara com analgesia e duas sem. As Diretrizes Nacionais de Assistência ao Parto Normal (MS/CONITEC, 2017) confirmam falha de progresso do segundo período em mais de 2 horas na nulípara e mais de 1 hora na multípara. Conta: 4 horas contra 2 é o dobro; 2 horas contra 1 é o dobro. Não é contradição — os dois documentos acionam ações diferentes, um a cesárea preventiva de distócia e o outro o encaminhamento a quem faz parto operatório — mas quem usar a régua da Febrasgo para decidir quando chamar vai chamar com o dobro do atraso que a diretriz nacional autoriza.
Dentro da própria diretriz nacional há uma janela que não fecha, e ela vale para todo este capítulo porque é onde a distócia de ombro costuma nascer. A recomendação 121 declara como duração normal da fase ativa do segundo período, na nulípara, cerca de 0,5 a 2,5 horas sem peridural e 1 a 3 horas com peridural; na multípara, até 1 hora sem e 2 horas com. A recomendação 122, logo abaixo, confirma falha de progresso acima de 2 horas na nulípara e acima de 1 hora na multípara, sem distinguir analgesia. Conta: uma nulípara sob peridural às 2 horas e meia está simultaneamente dentro da duração normal declarada pela 121 e além do limiar de confirmação da 122; a janela de conflito é de 1 hora na nulípara com peridural, 0,5 hora na nulípara sem, e 1 hora na multípara com peridural. A largura da janela é exatamente o acréscimo que a peridural produz, e que a recomendação 122 ignora.
A faixa de incidência publicada — 0,2% a 3,0% dos partos — é de fator 15, e isso contamina qualquer número derivado dela. O mesmo documento estima uma encefalopatia hipóxico-isquêmica secundária à distócia a cada 22 mil partos vaginais a termo. Conta: com incidência de 0,2%, isso significa uma encefalopatia a cada 44 distócias (2,27%); com incidência de 3,0%, uma a cada 660 (0,15%). Os dois resultados diferem por 15 vezes e vêm do mesmo par de números. Não é erro do documento: é o que acontece quando se divide um numerador preciso por um denominador de quinze vezes de amplitude. A consequência prática é que nenhuma versão desse risco deve ser dita a uma mulher como se fosse uma taxa.
Dois documentos dizem 'metade' com denominadores diferentes. A Febrasgo (2022) afirma que aproximadamente metade das distócias ocorre em recém-nascidos com peso ao nascer inferior a 4.000 gramas. O protocolo da Paraíba (2020) afirma que cerca de 50% dos casos ocorrem em conceptos com peso normal. Como o corte de macrossomia do Ministério da Saúde é justamente 4.000 gramas, as duas frases coincidem na prática — mas 'peso normal' inclui o feto de baixo peso e o pequeno para a idade gestacional, e é a formulação menos precisa. Vale usar a primeira.
A recorrência de 'pelo menos 10%, podendo alcançar 25%' é um piso por construção, e o próprio documento explica: as escolhas subsequentes por cesárea eletiva retiram do denominador exatamente as mulheres de maior risco. A referência citada para o número é Kleitman e colaboradores, Archives of Gynecology and Obstetrics, 2016 — não aberta no original para este capítulo, e portanto nenhuma afirmação aqui vai além do que o documento brasileiro declara.
O número de lesões de plexo que ficam não tem, na régua brasileira, fonte primária correspondente. O texto da Febrasgo (2022) afirma que as lesões de C5 e C6, ou de C5, C6 e C7, se recuperam dentro de seis meses em mais da metade dos casos, e que as que envolvem todas as raízes de C5 a T1 se restabelecem em cerca de 14% — e cita para isso a referência 37, que é Foad, Mehlman e Ying, 'The epidemiology of neonatal brachial plexus palsy in the United States', Journal of Bone and Joint Surgery, 2008. Esse artigo é um estudo de incidência a partir de um banco de internações pediátricas; os dados de recuperação por padrão de raiz estão em outro trabalho do mesmo grupo, uma revisão de prognóstico publicada no Journal of Children's Orthopaedics em 2009. Nenhum dos dois foi aberto no original para este capítulo, de modo que a atribuição fica registrada como deslocada, não como erro provado. O que este capítulo não faz, por não haver base para isso, é oferecer um percentual único de 'lesões permanentes': o que existe é recuperação por padrão de raiz, e os dois números não se somam em um.
Nenhum documento federal brasileiro fixa a sequência de manobras da distócia de ombro, e isso muda quem responde pela régua. Nas Diretrizes Nacionais de Assistência ao Parto Normal (Portaria SAS/MS nº 353, de 14 de fevereiro de 2017), com 921.860 caracteres de texto extraído, uma busca exata sobre o texto normalizado — sem acento, sem hífen e sem espaço — devolve zero ocorrências de McRoberts, Rubin, pressão suprapúbica e Gaskin; 'distócia de ombro' aparece 3 vezes, sempre como fator de risco ou item de desfecho composto. No Manual de Gestação de Alto Risco (Ministério da Saúde, 2022), 'distócia de ombros' aparece 7 vezes, todas como complicação de macrossomia e diabetes, e 'McRoberts' aparece 1 vez, no capítulo de obesidade, apenas para dizer que a manobra fica dificultada pelo panículo adiposo. A régua de conduta é da sociedade de especialidade, desde julho de 2022; no pré-hospitalar, é o protocolo do SAMU, de 2016. O ALEERTA, além disso, é importado: a Febrasgo o credita ao manual do curso de suporte avançado de vida em obstetrícia publicado no Brasil em 2016. Já o A SAÍDA tem origem brasileira, num algoritmo publicado por Amorim e colaboradores na revista Femina em 2013.
Os dois fármacos que a régua nomeia não constam do elenco nacional. Uma busca exata sobre o texto normalizado da Relação Nacional de Medicamentos Essenciais de 2024 devolve zero ocorrências de terbutalina, zero de nitroglicerina e zero de ocitocina. Constam, para comparação, o misoprostol (25 e 200 microgramas, comprimido vaginal, com uso restrito a estabelecimentos hospitalares cadastrados) e o ácido tranexâmico apenas em comprimido de 250 miligramas, sem apresentação injetável. Isso não torna os dois fármacos indisponíveis, porque muitos serviços os adquirem por conta própria — mas significa que a padronização nacional não garante que o relaxamento uterino descrito para as manobras de resgate esteja ao alcance da sala.
Conferência que fechou, na bula: a tabela de diluição da nitroglicerina injetável 5 mg/mL foi recalculada em Python contra as concentrações que ela própria declara, e todas batem. 5 mL da ampola em 250 mL dão 100 microgramas por mL; 10 mL em 250 mL dão 200; 20 mL em 250 mL dão 400; 10, 20 e 40 mL em 500 mL dão os mesmos três valores; 25 mg em 500 mL dão 50 microgramas por mL e 50 mg em 500 mL dão 100; e 5 mg em 100 mL dão 50. Nove afirmações, nove conferências corretas. O que a conta revela é outra coisa: a dose de 50 microgramas, sem diluição, corresponde a 0,01 mL da ampola — volume que nenhuma seringa mede, e é por isso que a bula estampa 'uso intravenoso não direto, diluir antes do uso'.
A conduta, hora a hora
Nomear a distocia, acionar equipe e marcar o tempo. Aplicar manobras apropriadas por profissionais treinados, começando conforme o protocolo e mudando quando não resolvem; pressão suprapúbica é diferente de pressão no fundo uterino. Evitar repetir tração crescente. Preparar suporte neonatal e avaliar lesões e sangramento depois da resolução.
Duas coisas valem para todos os marcos. A primeira: o interno raramente vai ser quem executa as manobras internas, e não deve tentar aprender a fazê-las lendo. Vai ser, com muita frequência, a segunda pessoa útil na sala — quem hiperflexiona uma coxa, quem faz a pressão suprapúbica do lado certo, quem conta o tempo em voz alta, quem chama o pediatra pelo nome e quem escreve o que aconteceu. Nenhuma dessas funções é menor, e todas mudam desfecho. A segunda: nada disso se aprende na hora. Ensaie a sequência com quem está de plantão antes de precisar dela.
Minuto 0 — reconhecer, anunciar e parar o que agrava
O diagnóstico é a falha da manobra cabeça-ombro com força habitual, ou a cabeça que recua contra o períneo sem fazer a rotação externa. Reconhecido, três coisas acontecem juntas e em segundos. Você diz em voz alta o que está acontecendo — para a mulher, para o acompanhante e para a equipe, com as mesmas palavras. Você pede ajuda nominalmente, não genericamente: obstetra, enfermagem obstétrica, pediatra, anestesista. E alguém marca o horário no papel e começa a contar o tempo em voz alta. Enquanto isso, três coisas param: a mulher para de fazer força, ninguém encosta no fundo do útero e a tração deixa de ser aumentada. Se houver circular de cordão frouxa, desfaça com o dedo; se estiver tensa, deixe como está — o cordão não é seccionado antes da liberação dos ombros, porque a secção não resolve a impactação e reduz ainda mais a oxigenação do feto.
Prescrição- NÃO fazer pressão no fundo uterino em nenhuma circunstância — a manobra agrava a impactação, associa-se ao estiramento do plexo braquial e a rotura uterina. Febrasgo, Manejo da distocia de ombro, Position Statement nº 7, 2022; a proibição da pressão de fundo no segundo período já consta das Diretrizes Nacionais de Assistência ao Parto Normal (MS/CONITEC, 2017, rec. 118).
- NÃO exercer tração excessiva. A tração permanece axial, alinhada à coluna cervicotorácica fetal, num vetor de até 45 graus abaixo do plano horizontal da mulher — Febrasgo, 2022.
- NÃO seccionar o cordão umbilical antes da liberação dos ombros; circulares frouxas são desfeitas com o dedo, sem secção — Febrasgo, 2022.
- Orientação contrária aos puxos voluntários, comunicada diretamente à mulher — Febrasgo, 2022.
- Documentar o momento do diagnóstico e iniciar a cronometragem da assistência — Febrasgo, 2022.
Minuto 0 a 1 — hiperflexão das coxas e pressão suprapúbica
É o primeiro par de manobras específicas e resolve a maioria dos casos. Se a mulher está em posição vertical, peça que aumente o agachamento, aproximando a pelve da superfície de apoio; se está em litotomia, duas pessoas — uma de cada lado — retiram as pernas das perneiras e hiperflexionam as coxas sobre o abdome, com abdução. É a manobra de McRoberts. Simultaneamente, um auxiliar posicionado do lado do dorso fetal comprime o abdome inferior em direção inferomedial, com as mãos espalmadas como na massagem cardíaca: é a manobra de Rubin I. A compressão começa imediatamente antes da tração da cabeça, sob comando de quem traciona, e é mantida por trinta segundos contínuos; sem sucesso, mais trinta segundos em pulsos. Em obesidade importante esse passo pode ser omitido, porque o panículo adiposo dificulta tanto a pressão suprapúbica quanto a hiperflexão.
Prescrição- Manobra de McRoberts — hiperflexão das coxas sobre o abdome, com abdução, pernas fora das perneiras; em posição vertical, aumento do agachamento (McRoberts modificada) — Febrasgo, 2022.
- Manobra de Rubin I — pressão suprapúbica externa em direção inferomedial, do lado do dorso fetal, mãos espalmadas, iniciada imediatamente antes da tração — Febrasgo, 2022. Duração de 30 segundos contínuos seguidos de 30 segundos em pulsos — Rede Cegonha/Paraíba, 2020.
- Retirar as perneiras antes de hiperflexionar: sem isso a hiperflexão real não acontece — Febrasgo, 2022.
- Sondagem vesical pode ser necessária se a bexiga estiver distendida e dificultar as manobras — Febrasgo, 2022.
Minuto 1 a 2 — mudar a posição para quatro apoios
Falhando o par inicial, o passo seguinte no algoritmo brasileiro para posições verticais é mudar a mulher para quatro apoios — mãos e joelhos — ou para a posição de largada de corrida, com o membro inferior do lado do dorso fetal fletido e deslocado à frente da pelve. As duas ampliam o espaço na concavidade do sacro e contam com a gravidade, e têm alta eficácia com baixa morbidade. Nesta posição, repita a tração: os ombros estão invertidos, e o que era posterior agora está anterior e mais acessível. A tração pode ser para baixo, liberando o ombro posterior, ou para cima, liberando o anterior. Registre a inversão mentalmente, porque ela vale para todas as manobras que vierem depois — esquecer disso é o modo mais fácil de fazer a manobra certa no ombro errado. Na sequência de litotomia, este passo aparece por último; aqui ele vem antes, e o bloco de divergências explica por que os dois quadros discordam.
Prescrição- Manobra de Gaskin — posição de quatro apoios (mãos e joelhos) — Febrasgo, 2022. Alternativa: posição de largada de corrida, com o membro inferior homolateral ao dorso fetal fletido à frente — Febrasgo, 2022.
- Repetir a tração já na nova posição, para baixo (ombro posterior) ou para cima (ombro anterior) — Febrasgo, 2022.
- As manobras subsequentes passam a ser executadas nos ombros contrários aos da litotomia, porque a mudança de posição inverte a relação anterior/posterior — Febrasgo, 2022.
Minuto 2 a 3 — a mão dentro: as rotatórias internas
As três rotatórias internas se fazem em sequência e sem desistir no meio. A primeira é Rubin II: a mão do lado correspondente ao dorso fetal entra pelo vazio sacral, desloca-se superiormente e se aloja atrás do ombro anterior impactado, empurrando-o no sentido da adução, para tirá-lo do diâmetro anteroposterior e levá-lo ao oblíquo, que é mais amplo. Falhando, a mão fica onde está e a outra entra pelo vazio sacral contralateral, alojando-se à frente do ombro posterior: as duas trabalham juntas, uma aduzindo o anterior e outra abduzindo o posterior — é o parafuso de Woods. Falhando de novo, a mão inferior sai, a superior desce para trás do ombro posterior e a rotação se faz no sentido inverso, para o oblíquo seguinte: é a Woods reversa. Uma episiotomia pode ser necessária aqui, não para resolver a distócia, que é óssea, mas para permitir que a mão entre quando a resistência perineal impede.
Prescrição- Manobra de Rubin II — dois dedos atrás do ombro anterior impactado, promovendo adução e deslocamento para o diâmetro oblíquo — Febrasgo, 2022.
- Parafuso de Woods — mantida a mão de Rubin II, a outra entra à frente do ombro posterior, abduzindo-o simultaneamente — Febrasgo, 2022.
- Woods reversa — mão superior deslocada para trás do ombro posterior, com rotação interna do dorso fetal em 180 graus, invertendo os ombros para o oblíquo de desprendimento — Febrasgo, 2022.
- Episiotomia: evitar de rotina, porque não resolve a impactação óssea; considerar apenas quando a resistência perineal dificultar a execução das manobras internas — Febrasgo, 2022.
Minuto 3 a 4 — desprender o braço posterior
É a manobra com alta taxa de sucesso e a de maior efeito geométrico: remover o braço posterior converte o diâmetro biacromial num axiloacromial de 10 a 11 centímetros, uma redução de 2 a 3 centímetros. É a manobra de Jacquemier e se executa em três tempos. Primeiro, a mão contrária ao lado do dorso fetal entra na vagina, progride pelo vazio sacral e apreende o braço posterior com os dedos paralelos ao úmero. Segundo, o braço é deslocado para a frente do tórax fetal, com pressão na fossa antecubital se estiver estendido. Terceiro, antebraço e mão são apreendidos e tracionados para fora, passando à frente do tórax, o que gira o tronco e libera antebraço, braço e ombro posteriores. Quando o cotovelo não é alcançável, as alternativas são a manobra de Shrug — polegar e indicador entrelaçados no cavo axilar, girando cabeça e ombro juntos em 180 graus — e a tração axilar de Menticoglou, com os dedos médios das duas mãos entrelaçados na axila posterior e tração inferior ao longo da curvatura sacral.
Prescrição- Manobra de Jacquemier — desprendimento completo do braço posterior em três tempos, com a mão contrária ao lado do dorso fetal — Febrasgo, 2022.
- Manobra de Shrug quando o braço estiver estendido ou atrás do dorso fetal — Febrasgo, 2022.
- Tração axilar de Menticoglou quando o cotovelo ou o antebraço não forem alcançáveis; frequentemente promove liberação espontânea do ombro anterior — Febrasgo, 2022.
- Na posição de quatro apoios, o braço posterior está situado superiormente e a mão do operador entra por cima, pelo vazio sacral — Febrasgo, 2022.
Minuto 4 a 5 — as manobras de resgate, e quem as decide
Se a sequência inteira falhou, a assistência progride para manobras de maior morbidade — e nenhuma delas é decisão de interno. Antes das clássicas de última instância vêm duas: a fratura intencional da clavícula anterior, tracionando-a para fora com os dedos até que quebre, o que reduz o biacromial; e a extração do ombro posterior com uma tipoia axilar improvisada com sonda urinária de calibre 12 ou 14, dobrada em alça, passada por trás da axila posterior e recuperada pelo dedo indicador da outra mão. Depois delas, as de última instância: a manobra de Zavanelli, que reverte a rotação externa, flete a cabeça e a empurra de volta para a vagina o mais alto possível, para cesárea subsequente; o resgate abdominal, com laparotomia e histerotomia para girar o ombro por dentro enquanto outro operador extrai por via vaginal; e a sinfisiotomia, que divide cirurgicamente a cartilagem púbica e deve ficar restrita a locais sem sala cirúrgica disponível, pela morbidade e pela instabilidade pélvica que produz. Relaxamento muscular e uterino otimiza o sucesso das três.
Prescrição- Terbutalina 0,25 mg por via subcutânea — 0,5 mL da solução injetável de 0,5 mg/mL, isto é, meia ampola de 1 mL, para relaxamento uterino antes das manobras de última instância — Febrasgo, 2022; apresentação conferida na bula do genérico registrado na Anvisa.
- Nitroglicerina 50 microgramas a cada minuto até obter relaxamento, com dose máxima de 250 microgramas — Febrasgo, 2022. A ampola é de 5 mg/mL e exige diluição: com 5 mL da ampola em 250 mL, a solução fica a 100 microgramas por mL e cada dose de 50 microgramas corresponde a 0,5 mL. Sem diluir, 50 microgramas seriam 0,01 mL, volume que nenhuma seringa mede.
- Nem a terbutalina nem a nitroglicerina constam da Relação Nacional de Medicamentos Essenciais de 2024 — conferir a disponibilidade no seu serviço antes de contar com elas.
- Fratura intencional da clavícula anterior e tipoia axilar com sonda urinária número 12 ou 14 precedem as manobras de última instância, por serem menos mórbidas — Febrasgo, 2022.
- Zavanelli, resgate abdominal e sinfisiotomia: decisão de obstetra experiente, com avaliação de riscos e benefícios e das possibilidades locais — Febrasgo, 2022.
Nasceu — os primeiros minutos do recém-nascido e da mulher
Solto o ombro, o parto termina como qualquer outro e a atenção se divide. O recém-nascido pode nascer deprimido, e por isso o pediatra deveria já estar na sala: a reanimação segue o fluxograma próprio e é assunto do capítulo de reanimação neonatal em sala de parto. Assim que ele estabilizar, examine os dois membros superiores procurando assimetria de movimento espontâneo e do reflexo de Moro, palpe as clavículas procurando crepitação e degrau, e registre o índice de Apgar e o pH do cordão umbilical. Na mulher, o terceiro período segue o manejo ativo de sempre, com atenção redobrada: a distócia é fator de risco para hemorragia pós-parto por atonia e por trauma, e a revisão do canal precisa ser feita com boa iluminação, procurando lacerações complicadas. A quantificação da perda e o manejo da hemorragia são do capítulo de hemorragia pós-parto.
Prescrição- Manejo ativo do terceiro período: ocitocina 10 UI por via intramuscular logo após o desprendimento, antes do clampeamento — Diretrizes Nacionais de Assistência ao Parto Normal (MS/CONITEC, 2017, rec. 154). A ocitocina não consta da Relação Nacional de Medicamentos Essenciais de 2024.
- Revisão do canal de parto com boa iluminação e analgesia, procurando lacerações complicadas e hematomas — Febrasgo, 2022.
- Exame neonatal completo dirigido: movimentação espontânea e simetria dos membros superiores, reflexo de Moro, palpação das clavículas, expansão torácica — Febrasgo, 2022.
- Registrar índice de Apgar, pH do cordão umbilical, perda sanguínea estimada e a avaliação neonatal — Febrasgo, 2022.
Depois — o registro que sustenta a assistência prestada
A documentação de uma distócia de ombro é parte do tratamento, não burocracia depois dele, e a régua brasileira é explícita ao dizer que ela importa tanto para o aconselhamento da mulher sobre as próximas gestações quanto para assuntos legais. Formulários padronizados melhoram o registro, e um serviço que assiste partos deveria ter o seu. O que precisa constar: quem participou e a que horas cada um chegou; qual ombro estava impactado, direito ou esquerdo; quais manobras foram feitas, na ordem em que aconteceram, quanto tempo cada uma durou e quem a executou; o intervalo total até a resolução; a perda sanguínea estimada; os achados da revisão do canal; o índice de Apgar, o pH do cordão e a avaliação neonatal. E, do lado da conversa: o que foi dito à mulher e ao acompanhante durante e depois. Escreva enquanto lembra — no dia seguinte, a ordem das manobras já não é confiável.
Prescrição- Registrar os membros da equipe presentes e o tempo até a chegada de cada um na cena do parto — Febrasgo, 2022.
- Registrar qual ombro estava impactado e em qual ombro cada manobra foi realizada, na ordem em que ocorreram, com o tempo gasto em cada uma e o intervalo até a resolução — Febrasgo, 2022.
- Registrar perda sanguínea estimada, detalhes da revisão do canal de parto, índice de Apgar, pH do cordão umbilical e avaliação neonatal — Febrasgo, 2022.
- Registrar a comunicação com a parturiente e os acompanhantes, detalhando as manobras realizadas e as complicações ocorridas — Febrasgo, 2022.
- Anotar o peso ao nascer: ele entra na estimativa de risco da próxima gestação, junto da própria distócia como antecedente.
Como saber se está funcionando
A reavaliação numa distócia de ombro não tem prazo de horas — tem prazo de segundos, e acontece entre uma manobra e a seguinte. A pergunta que organiza tudo é: esta manobra resolveu, e se não resolveu, qual é a próxima e por quê. Fazer duas vezes a mesma coisa porque ninguém sabia o que já tinha sido feito é o desperdício mais caro deste capítulo.
Há uma segunda camada de reavaliação, que começa quando a criança nasce e vai até a alta e além dela: o recém-nascido, a mulher e o registro. E há uma terceira, que quase ninguém faz e que é a que muda a próxima gestação — a consulta em que se conversa sobre o que aconteceu e sobre o risco de recorrência.
Repare que nenhum dos parâmetros abaixo é um exame. São observações que alguém precisa estar fazendo enquanto outra pessoa opera, e é por isso que a distribuição de papéis na sala não é formalidade: sem alguém olhando o relógio e alguém anotando, metade destes parâmetros simplesmente não existe.
Esperado: Desprendimento dentro do prazo de cinco minutos declarado pela régua brasileira, com o horário de cada manobra registrado
Se não melhora: Passados os cinco minutos sem desprendimento, a assistência já deveria estar nas manobras de resgate, com obstetra experiente presente e sala cirúrgica avisada. Se ninguém está contando, o tempo real é sempre maior do que a impressão da equipe — designe a contagem antes de precisar dela
Esperado: Mudança efetiva de posição quando indicada — hiperflexão real com as pernas fora das perneiras, quatro apoios completo, largada de corrida com o membro certo à frente
Se não melhora: Hiperflexão feita pela metade não é McRoberts. Se a cama não permite a mudança para quatro apoios, isso precisa ser resolvido antes do próximo plantão, não durante a distócia — e vale registrar como limitação estrutural do serviço
Esperado: A equipe inteira sabendo, em voz alta, se o dorso fetal está à direita ou à esquerda materna, e qual ombro está atrás da sínfise
Se não melhora: Sem essa informação, a pressão suprapúbica é feita do lado errado e a mão errada entra na vagina. Depois da mudança para quatro apoios, os ombros invertem: o que era anterior passa a estar inferior. Repita em voz alta a cada mudança
Esperado: Tração axial, alinhada à coluna cervicotorácica fetal, num vetor de até 45 graus abaixo do plano horizontal, com força habitual
Se não melhora: A percepção de que está sendo preciso força excessiva é o sinal de que a manobra é a errada, não de que falta força. Aumentar a tração aumenta o estiramento do plexo braquial. Troque de manobra, não de intensidade
Esperado: Cada manobra anunciada antes e o resultado anunciado depois, para que ninguém repita o que já falhou
Se não melhora: O estiramento do plexo braquial é significativamente mais incidente quando três ou mais manobras são realizadas — o que é um argumento para escolher bem e comunicar, não para tentar tudo. Comunicação eficiente entre os membros da equipe é recomendação explícita da régua brasileira, com essa exata justificativa
Esperado: Movimentação espontânea simétrica dos dois membros superiores, reflexo de Moro simétrico, clavículas sem crepitação nem degrau, expansão torácica normal, Apgar e pH do cordão registrados
Se não melhora: Braço aduzido, rodado internamente e com antebraço pronado, com Moro assimétrico, sugere lesão das raízes altas. Membro superior inteiro flácido sugere envolvimento de todas as raízes, de prognóstico bem pior. Em ambos, avaliação especializada e seguimento — e a conversa com a família não é adiada para o dia da alta
Esperado: Útero contraído, sangramento dentro do esperado, canal de parto revisado e reparado, sínfise púbica sem dor desproporcional, micção espontânea
Se não melhora: Sangramento aumentado após distócia é hemorragia pós-parto até prova em contrário, por atonia ou por trauma, e o manejo é o do capítulo próprio. Dor púbica intensa com marcha impossível sugere diástase da sínfise. Dormência na face lateral da coxa é a neuropatia cutânea femoral lateral, transitória, secundária à própria hiperflexão — informe a mulher para que não se assuste
Onde o erro machuca
O dano: É o erro que transforma uma distócia numa catástrofe. A pressão de fundo aplica um vetor no eixo do corpo materno que crava o ombro anterior com mais força atrás da sínfise, agravando a impactação; associa-se ao estiramento do plexo braquial e à rotura uterina. A manobra de Kristeller já é vedada no segundo período pela diretriz nacional (recomendação 118) e figura entre os fatores de risco de hemorragia pós-parto por trauma — e ainda assim segue sendo feita com frequência nas maternidades brasileiras, como mostra o capítulo de assistência ao trabalho de parto.
Como pegar a tempo: Diga em voz alta, no primeiro segundo, que ninguém sobe no abdome. É uma frase curta e ela precisa sair antes que alguém tenha a ideia. Não confunda com a pressão suprapúbica, que é o oposto: é baixa, logo acima do púbis, em direção inferomedial, e serve para aduzir o ombro — não para empurrar o feto para baixo.
O dano: Enquanto o ombro está travado, toda força adicional aumenta o ângulo entre a cabeça e o ombro impactado, e são as raízes de C5 a T1 que absorvem esse ângulo. É assim que se produz a lesão do plexo braquial — a complicação neonatal mais frequente da distócia. E a tração fora do eixo, com angulação maior que 45 graus abaixo do plano horizontal, piora ainda mais a geometria.
Como pegar a tempo: Trate a percepção de força excessiva como um sinal diagnóstico e não como um convite. Se você precisa de mais força, a manobra é a errada. Mantenha a tração axial, alinhada à coluna cervicotorácica do feto, e mude de manobra na sequência ensaiada.
O dano: A secção do cordão não contribui em nada para a resolução da impactação, que é óssea, e retira do feto a única fonte de oxigenação que ainda existe enquanto o tórax está preso e ele não consegue inspirar. É uma decisão que parece técnica e é apenas custosa.
Como pegar a tempo: Não seccione antes da liberação dos ombros, em nenhuma circunstância. Se houver circular frouxa, desfaça com o dedo indicador. Se estiver tensa, deixe como está e siga a sequência — o problema não está no pescoço.
O dano: A distócia de ombro é impactação óssea entre o ombro fetal e a pelve materna; nenhum corte de partes moles muda essa geometria. A episiotomia feita com essa expectativa adiciona trauma perineal, dor e risco de extensão ao esfíncter anal sem resolver nada, e consome tempo do relógio de cinco minutos.
Como pegar a tempo: A episiotomia entra por um motivo só e ele é mecânico: permitir que a mão do operador entre quando a resistência perineal impede as manobras internas ou o desprendimento do braço posterior. Fora disso, evite. E repare que um dos dois mnemônicos brasileiros a lista como passo próprio da sequência — o bloco de divergências trata dessa discordância.
O dano: Cada repetição custa entre trinta segundos e um minuto de um prazo de cinco. Pior: o estiramento do plexo braquial é significativamente mais incidente quando três ou mais manobras são realizadas, de modo que a tentativa desperdiçada não é neutra — ela aumenta o risco de lesão. Depois da mudança para quatro apoios, os ombros invertem, e quem esquece disso executa a manobra correta no ombro errado.
Como pegar a tempo: Anuncie cada manobra antes de fazê-la e o resultado depois. Mantenha uma pessoa dizendo em voz alta o que já foi feito. E, a cada mudança de posição, repita para toda a sala qual ombro está onde.
O dano: Sem cronometragem, a equipe subestima sistematicamente o tempo gasto, e o registro reconstruído no dia seguinte erra a ordem das manobras. A documentação incompleta prejudica duas coisas concretas: o aconselhamento da mulher sobre o risco de recorrência na próxima gestação, que é de pelo menos 10%, e a defesa da assistência prestada, se ela for questionada.
Como pegar a tempo: Designe a contagem no primeiro segundo — 'você conta o tempo em voz alta' — e escreva enquanto lembra, de preferência em formulário padronizado. Registre quem chegou e quando, qual ombro estava impactado, cada manobra na ordem, o tempo de cada uma, o intervalo total, o Apgar, o pH do cordão, a perda estimada e o que foi dito à mulher.
O que dizer ao paciente e à família
Esta é a emergência obstétrica em que a sala vira caos mais rápido, e por um motivo específico: o parto estava indo bem até dez segundos atrás. A mulher tem uma cabeça de bebê entre as pernas e vê seis pessoas entrarem correndo. O acompanhante, que estava filmando, não entende nada e é a pessoa mais assustada do quarto. E a equipe, que precisa se comunicar rápido, tende a falar entre si em código, por cima da mulher, como se ela não estivesse ali.
A régua brasileira trata a comunicação como parte do tratamento, e por duas razões diferentes. Entre a equipe, comunicação clara e objetiva evita repetição desnecessária de manobras e otimiza o manejo em tempo oportuno — ou seja, salva minutos. Com a mulher e o acompanhante, ela é obrigação explícita durante toda a assistência, detalhando as manobras realizadas e as complicações ocorridas. As falas abaixo são curtas de propósito: neste quadro, frase longa é frase que não é dita.
No segundo em que você reconhece
“"O ombro do bebê está preso. Isso acontece, a gente sabe o que fazer e vai fazer agora. Vou chamar mais gente para o quarto e vou pedir umas coisas para a senhora — preciso que a senhora faça exatamente o que eu pedir, na hora que eu pedir."”
Não diga: Silêncio. O pior som numa distócia é a equipe se olhando sem falar: a mulher preenche o silêncio com a pior hipótese. Também não diga 'calma' — diga o que está acontecendo e o que ela deve fazer.
Pedindo que ela pare de fazer força
“"Agora eu preciso que a senhora PARE de fazer força. Sei que o corpo está pedindo. Não faça. Solte o ar devagar. Quando eu disser, a senhora faz de novo."”
Não diga: Deixar a instrução implícita ou dizer só 'relaxa'. O puxo materno neste momento aperta mais o ombro contra o púbis, e a orientação contrária aos puxos voluntários é recomendação expressa. E não deixe ninguém do outro lado do quarto continuar comandando força em coro.
Chamando ajuda — o que dizer para a porta
“"Distócia de ombro no leito 3. Chamem a Dra. Marilva, a enfermagem obstétrica, o pediatra e o anestesista. Anésia, você conta o tempo em voz alta a partir de agora, e anota o horário."”
Não diga: Gritar 'ajuda' sem dizer quem, o quê e onde — ninguém sai do lugar. E não deixe a contagem do tempo por conta de quem já tem outra função nas mãos: quem está operando não consegue contar.
Contando o tempo, em voz alta
“"Um minuto. McRoberts e pressão suprapúbica feitos, sem sucesso. Vou passar para quatro apoios. Dois minutos."”
Não diga: Contar baixinho ou só olhar o relógio. A contagem em voz alta cumpre duas funções ao mesmo tempo: mantém a equipe no relógio de cinco minutos e produz o registro que será escrito depois. E não anuncie o tempo sem anunciar a manobra — o número sozinho só aumenta o pânico.
Ao acompanhante, sem tirar as mãos do lugar
“"O senhor pode ficar. Fique aqui, na cabeceira, segurando a mão dela e falando com ela. O ombro do bebê está preso e a equipe está fazendo as manobras para soltar. Vai levar alguns minutos e vai ter bastante gente entrando. Assim que der, eu explico tudo."”
Não diga: Mandar o acompanhante para fora sem explicação. Ele é o direito dela, e nesse momento é também uma função útil: alguém que fala com a mulher enquanto todo mundo fala do bebê. Também não peça a ele que ajude a segurar as pernas — isso é da equipe.
Depois, quando o bebê está bem
“"Já passou. O ombro dele estava preso atrás do osso da sua bacia — isso se chama distócia de ombro, é uma emergência do parto, e a gente resolveu com manobras, sem cirurgia. Ele está bem. A senhora vai ficar dolorida de algumas dessas manobras. Eu vou escrever tudo no seu prontuário e depois vou voltar aqui para explicar de novo com calma, porque agora ninguém guarda nada."”
Não diga: Tratar como se nada tivesse acontecido, ou minimizar com 'foi só um sustinho'. Ela viu o quarto encher de gente e vai reconstruir essa história sozinha depois. E não deixe de nomear o evento: sem o nome, ela não consegue contar isso a outro médico na próxima gestação.
Depois, quando o recém-nascido tem lesão do plexo braquial
“"Tem uma coisa que eu preciso contar. O bracinho direito dele está se movendo menos que o esquerdo. Isso se chama lesão do plexo braquial e é a complicação mais comum quando o ombro fica preso. A maior parte melhora, e o quanto melhora depende de quais nervos foram atingidos — quem vai poder dizer isso é o exame das próximas semanas, com acompanhamento especializado, que eu já vou pedir. Eu não vou dar um número agora porque seria chute. O que eu posso garantir é que a senhora não fez nada errado e o bebê não vai ficar sem acompanhamento."”
Não diga: Prometer recuperação total, dar percentual de cura, ou dizer 'foi porque o bebê era grande'. Também não atribua culpa à equipe nem à mulher na frente dela — o que se registra no prontuário é o fato, e a conversa com o serviço é outra conversa.
Onde bons médicos discordam
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.
Por último, depois das manobras internas — mnemônico ALEERTA, para litotomia (documento brasileiro, 2022, régua importada)
No quadro de litotomia, a sequência proposta é chamar ajuda, McRoberts, pressão suprapúbica externa, considerar episiotomia, remover o braço posterior, manobras internas e, só então, alterar a posição para quatro apoios. O mnemônico é creditado ao manual do curso de suporte avançado de vida em obstetrícia publicado no Brasil em 2016 — ou seja, é régua importada, adotada por documento brasileiro.
Febrasgo. Manejo da distocia de ombro. Position Statement nº 7, julho de 2022 (Quadro 1), creditando o manual ALSO Brasil, São Paulo: Sarvier, 2016.
Cedo, antes das manobras internas — mnemônico A SAÍDA, para posições verticais (documento brasileiro, 2022, algoritmo de origem nacional)
No quadro das posições verticais, a sequência é chamar ajuda com aumento do agachamento, pressão suprapúbica externa, alterar a posição para quatro apoios, manobras internas, desprender o braço posterior e avaliar resgate. O algoritmo é creditado a um trabalho brasileiro publicado em 2013, e o protocolo estadual da Paraíba vai além, recomendando o quatro apoios antes das manobras internas com a afirmação de que ele soluciona 80% das distócias.
Febrasgo, Position Statement nº 7, julho de 2022 (Quadro 2), creditando Amorim MM e colaboradores, Femina 2013;41(3):115-24; Protocolo de Assistência Obstétrica — Rede Cegonha, Secretaria de Estado da Saúde da Paraíba, 2020.
Não decida pelo mnemônico: decida pela posição em que a mulher está e pelo que dá para mudar em segundos. Se ela está de cócoras, sentada num banco ou já de quatro apoios, mudar de posição custa dez segundos e não exige entrar com a mão — a sequência vertical é a que serve. Se ela está numa mesa cirúrgica, sob peridural, com as pernas em perneiras e um cateter epidural, mudar para quatro apoios custa um minuto de gente e de organização, e a sequência de litotomia deixa isso por último por essa razão prática, não por eficácia comprovada. O próprio documento registra que as evidências sobre a eficácia e o sequenciamento são escassas e que não há prova de superioridade de uma manobra sobre outra. O que não se discute é o princípio: manobra menos invasiva primeiro, e nunca duas vezes a mesma. Registre a ordem que você seguiu — é ela, e não o mnemônico, que vai para o prontuário.
Cinco minutos, contados do reconhecimento — e o critério de 60 segundos como hipótese não validada (documento de sociedade, 2022)
O tempo-limite que antecede o aumento do risco de lesão por asfixia é declarado como cinco minutos, cronometrados a partir da documentação do momento do diagnóstico. O mesmo documento registra que critérios mais objetivos, como um intervalo superior a 60 segundos entre o desprendimento da cabeça e o dos ombros, ainda necessitam de estudos de validação, tanto para o diagnóstico quanto para a previsão de resultados neonatais adversos.
Febrasgo. Manejo da distocia de ombro. Position Statement nº 7, julho de 2022.
Sessenta segundos como o próprio critério diagnóstico, e 7 a 8 minutos de manobras como limite (protocolo federal pré-hospitalar, 2016, e protocolo estadual, 2020)
O protocolo de suporte avançado de vida do serviço de atendimento móvel de urgência define a distócia pelo critério de inclusão: cabeça na vulva sem desprendimento dos ombros após 60 segundos, com a instrução de jamais tracionar a cabeça a partir daí. O protocolo estadual da Paraíba usa o mesmo marco de 60 segundos para confirmar a impactação e declara que, após 7 a 8 minutos de tentativas de extração fetal, há maior probabilidade de dano neurológico fetal e óbito neonatal.
Brasil. Ministério da Saúde. Protocolos de Suporte Avançado de Vida, protocolo SAMU 192 AGO5, elaboração de abril de 2016; Protocolo de Assistência Obstétrica — Rede Cegonha, Secretaria de Estado da Saúde da Paraíba, 2020.
O que decide à beira do leito não é o número, é o marco — e a assimetria do erro. Contados a partir de marcos diferentes, 7 a 8 minutos de manobras somados ao minuto do diagnóstico chegam a 9 minutos desde a saída da cabeça, quase o dobro dos cinco minutos do outro documento. Diante de um feto que não respira, o erro de ser rápido demais custa uma manobra extra e um relatório mais longo; o erro de ser lento demais custa encefalopatia. Portanto: adote o prazo mais curto como régua de conduta, comece a contar no instante do reconhecimento e diga em voz alta a que horas isso foi. E registre os dois tempos — o do reconhecimento e o do desprendimento —, porque é o par que permite a quem ler depois entender o que aconteceu. O critério de 60 segundos, tratado como gatilho de conduta no pré-hospitalar e como hipótese não validada no documento de sociedade, não deve ser usado para negar o diagnóstico: se a manobra cabeça-ombro falhou com força habitual, é distócia, mesmo antes dos 60 segundos.
Evitar — o procedimento não resolve impactação óssea (documento de sociedade, 2022, texto corrido)
Entre as condutas imprescindíveis do manejo inicial está a de evitar a realização de episiotomia, com a justificativa explícita de que o procedimento não resolve a distócia, que é resultante de impactação óssea. A ressalva vem em seguida: diante da necessidade de manobras internas, a episiotomia pode ser necessária nos casos em que a resistência perineal dificulta a execução — e a sondagem vesical, pelo mesmo motivo, também pode ser.
Febrasgo. Manejo da distocia de ombro. Position Statement nº 7, julho de 2022, seção de manejo inicial.
Considerar como passo próprio da sequência (o mesmo documento, no quadro de litotomia, e o protocolo estadual, 2020)
No mnemônico ALEERTA, para litotomia, o segundo E corresponde a 'considerar episiotomia', posicionado entre a pressão suprapúbica externa e a remoção do braço posterior — isto é, como um passo nomeado da sequência, e não como exceção. O protocolo estadual da Paraíba reproduz o mnemônico com o mesmo passo na mesma posição.
Febrasgo, Position Statement nº 7, julho de 2022 (Quadro 1); Protocolo de Assistência Obstétrica — Rede Cegonha, Secretaria de Estado da Saúde da Paraíba, 2020.
A discordância é sobre o gatilho, não sobre a técnica, e o gatilho é mecânico: a episiotomia não abre espaço entre o ombro e o osso, abre espaço para a mão do operador. Portanto, a pergunta a fazer no momento não é 'já é hora da episiotomia', é 'a minha mão consegue entrar'. Se a resposta for não, e a próxima manobra da sua sequência exige a mão dentro — rotatórias internas ou desprendimento do braço posterior —, a episiotomia tem indicação e deve ser registrada com essa justificativa. Se a próxima manobra é externa, como a mudança para quatro apoios, cortar não muda nada e adiciona trauma. Vale lembrar que a diretriz nacional de parto normal exige que a indicação de episiotomia seja justificada no prontuário e que a analgesia venha antes — obrigação que a urgência não suspende, ainda que o anestésico local possa ser infiltrado em segundos.
O raciocínio, em voz alta
Naura Bonifácio, 31 anos, terceira gestação com dois partos vaginais anteriores, 39 semanas e 4 dias, pré-natal completo e sem intercorrências, sem diabetes, recém-nascidos anteriores de 3.400 e 3.750 gramas. Admitida às 23h com 6 cm, evoluiu sem condução, recusou analgesia. Às 2h51 a cabeça desprende, não faz a rotação externa e recua contra o períneo na contração seguinte. Você é o interno; a obstetra, a Dra. Marilva Marrocos, está na sala ao lado. Na sala estão você, a técnica de enfermagem Anésia e o companheiro, Rosalvo.
o que penso agora
Falha da manobra cabeça-ombro com força habitual, mais sinal da tartaruga: distócia de ombro, diagnóstico feito, sem exame nenhum. Nenhum fator de risco anteparto — o que era esperado, porque a maioria dos casos não tem. Naura está semi-sentada, com mobilidade e sem analgesia regional: a sequência que se aplica é a das posições verticais. E o relógio começou agora.
2h52 — os primeiros dez segundos
Digo em voz alta: "o ombro está preso, a gente sabe o que fazer". Peço a Naura que pare de fazer força e solte o ar. Grito para a porta o que preciso, com nome: a Dra. Marilva, a enfermagem obstétrica, o pediatra, o anestesista. Digo a Anésia que conte o tempo em voz alta e anote o horário. Digo a Rosalvo que fique na cabeceira falando com ela. E digo a frase que precisa sair antes que alguém tenha a ideia: ninguém encosta no fundo do útero.
2h52 — aumento do agachamento e pressão suprapúbica
Peço a Naura que agache mais, aproximando a pelve do apoio — é a hiperflexão da posição vertical, o equivalente ao McRoberts. Ao mesmo tempo, palpo rapidamente e digo em voz alta que o dorso está à esquerda materna. Anésia se posiciona desse lado e faz a pressão suprapúbica em direção inferomedial, com as mãos espalmadas, começando imediatamente antes de eu tracionar. Trinta segundos contínuos. Nada. Mais trinta em pulsos. Nada. Anésia diz: "um minuto".
2h53 — quatro apoios
A Dra. Marilva entra e assume a tração; eu passo a auxiliar. Mudamos Naura para quatro apoios — ela consegue sozinha, porque não tem analgesia regional e está com força nas pernas. Digo em voz alta que os ombros inverteram: o que estava preso atrás do púbis agora é o inferior. A Dra. Marilva repete a tração, agora para cima. Não sai. Anésia diz: "dois minutos".
2h54 — a mão dentro
A Dra. Marilva entra com a mão pelo vazio sacral e faz Rubin II, empurrando o ombro impactado no sentido da adução, para o oblíquo. Sem resposta, mantém a mão e entra com a outra à frente do ombro contrário: parafuso de Woods. O tronco gira um pouco. Ela pede que eu segure a cabeça alinhada, sem tracionar. Anésia diz: "três minutos". O pediatra chega e monta a mesa de reanimação.
2h55 — o braço posterior
A Dra. Marilva anuncia o que vai fazer: desprendimento do braço posterior. Entra com a mão, alcança o braço à frente do tórax, pressiona a fossa antecubital, apreende o antebraço e a mão e traciona para fora. O tronco gira e o ombro sai. Ela pede a episiotomia? Não pede: com Naura em quatro apoios e o períneo distendido, a mão entrou sem precisar. Anésia diz: "três minutos e quarenta". O recém-nascido desprende inteiro às 2h55.
o desfecho
Menino de 3.980 gramas — abaixo dos 4.000, como em cerca de metade das distócias. Apgar 4 no primeiro minuto e 8 no quinto, com ventilação por pressão positiva por quarenta segundos; pH do cordão de 7,18. Move os dois braços simetricamente e o Moro é simétrico; as clavículas não têm crepitação. Ocitocina 10 UI intramuscular logo após o desprendimento; placenta íntegra às 3h04; revisão do canal mostra laceração de segundo grau, suturada. Naura sangra dentro do esperado. No dia seguinte ela refere dormência na face lateral da coxa direita — neuropatia cutânea femoral lateral, transitória, da própria hiperflexão.
o registro
Escrevo enquanto lembro: horário do diagnóstico (2h52) e do desprendimento (2h55), ombro impactado esquerdo, manobras na ordem — agachamento aumentado com pressão suprapúbica por 60 segundos, quatro apoios, Rubin II, parafuso de Woods, desprendimento do braço posterior —, quem executou cada uma, quem chegou e a que horas, Apgar, pH do cordão, peso ao nascer, perda estimada, achados da revisão do canal, e o que foi dito a Naura e a Rosalvo. Anoto também que não houve episiotomia e não houve pressão de fundo.
o que este caso ensina
Três minutos e quarenta segundos, cinco manobras, nenhuma droga, nenhum exame e nenhum minuto perdido — porque alguém contou o tempo em voz alta desde o primeiro segundo e porque a sala sabia de que lado estava o dorso. Repare no que quase deu errado: Naura não tinha um único fator de risco, o bebê pesava menos de 4.000 gramas, e nada no pré-natal teria previsto isso. Repare também no papel do interno: ele não fez nenhuma manobra interna, e ainda assim fez a metade do que salvou aquele parto.
Variação do caso — resposta e reavaliação
Variação da sequência de Naura: a primeira combinação de manobras não libera os ombros. Comunicar claramente a ausência de resposta e passar à próxima opção apropriada com a equipe. O que orienta a mudança é o resultado mecânico, não insistir mais forte na mesma tração.
Variação do caso — quando mudar o plano
Depois do nascimento, se o bebê apresenta assimetria de movimento ou a mãe mantém sangramento, iniciar avaliação e cuidados específicos e documentar achados. Resolver a obstrução encerra uma etapa, não todo o atendimento. Explicar à família o ocorrido e o acompanhamento necessário sem prometer ausência de sequelas.
Faça você
Delfina Caetana, 28 anos, segunda gestação, 39 semanas e 2 dias, com diabetes mellitus gestacional em uso de insulina desde a 30ª semana e controle glicêmico irregular nas últimas quatro semanas. A ultrassonografia de 38 semanas e 4 dias estimou peso fetal em 4.280 gramas. O primeiro parto foi vaginal, com recém-nascido de 3.900 gramas, e o cartão registra, na alta daquela internação, a frase "dificuldade no desprendimento dos ombros, resolvido com manobras". Ela chega à maternidade às 6h20 em trabalho de parto, com 7 cm, apresentação cefálica no plano 0, bolsa íntegra, dinâmica de quatro contrações em dez minutos e batimentos de 142 sem desacelerações. Está bem, quer parto normal e pergunta se pode. A obstetra de sobreaviso mora a vinte minutos e ainda não chegou.
o que já sei
Multípara com diabetes gestacional em insulina e controle irregular, peso fetal estimado de 4.280 gramas — dentro da faixa de 4.000 a 4.500 gramas — e história pregressa de distócia de ombro registrada no cartão. Três fatores anteparto simultâneos, o que é incomum: a maioria dos casos não tem nenhum. Ela já está em trabalho de parto ativo.
o que os documentos dizem sobre esta faixa de peso
Com diabetes e peso fetal estimado acima de 4.500 gramas, a cesárea parece prevenir a distócia. Delfina está abaixo desse limiar. Na faixa de 4.000 a 4.500 gramas com diabetes gestacional, a régua brasileira indica indução com 39 semanas — janela que já passou, porque ela chegou em trabalho de parto espontâneo — e aplica o princípio da cesárea se o segundo estágio prolongar. A distócia prévia, com risco de recorrência de pelo menos 10%, entra na decisão de via de parto junto do peso estimado e do controle glicêmico.
o que preparo
Nada disso é droga nem exame. É gente, cama e relógio: quem estará na sala no expulsivo, se esta cama permite hiperflexão real e mudança para quatro apoios, e quem vai contar o tempo em voz alta se acontecer. E é conversa: Delfina precisa saber o que está no cartão dela e o que isso significa, antes de a dilatação completar.
conduta
— sua vez —
Ver como fecharíamos
Comece pelo que não pode esperar: chame a obstetra de sobreaviso agora, não quando a dilatação completar — vinte minutos de estrada é exatamente o tempo que uma distócia não tem. Avise a enfermagem obstétrica, o pediatra e o anestesista de que este parto tem três fatores de risco somados e peça que estejam por perto no expulsivo. Enquanto isso, prepare a sala: cama que permita hiperflexão real das coxas e mudança para quatro apoios (pernas fora das perneiras desde já), relógio visível, e uma pessoa designada, pelo nome, para contar o tempo em voz alta se acontecer. Converse com Delfina antes, com calma, enquanto ainda dá: explique que o registro do parto anterior descreve uma distócia de ombro, que o risco de repetir é de pelo menos 10%, que a equipe estará preparada, e pergunte o que ela quer — a decisão sobre a via é dela e da obstetra, informada, e não do interno. Se ela optar por seguir com o parto vaginal, o plano é o de sempre, com dois acréscimos: expulsivo cronometrado desde o início da fase ativa do segundo período, e limiar baixíssimo para chamar. Se o segundo estágio prolongar, o princípio da cesárea intraparto se aplica a esta faixa de peso com diabetes, e essa decisão é da obstetra. Não peça ultrassonografia agora para 'confirmar o peso': a estimativa tem falhas consideráveis, não vai mudar a faixa e vai consumir tempo. Não induza nada — ela já está em trabalho de parto. E não deixe de registrar, no prontuário desta internação, os três fatores de risco e o que foi combinado: é esse registro que vai orientar a terceira gestação dela.
Na apresentação pélvica, e na ausência de contraindicações, a versão cefálica externa é recomendada a partir de 36 semanas de idade gestacional, mediante termo de consentimento informado, ofertada à mulher e realizada por profissional experiente com a manobra, em ambiente hospitalar. O sucesso agrupado é de 58%. A cesariana programada por apresentação pélvica é recomendada a partir de 39 semanas, sugerindo-se aguardar o início do trabalho de parto — e não a partir de 37. Conduta expectante sem oferecer a versão desperdiça a janela do procedimento, que exige idade gestacional mínima e planejamento. Indução com feto pélvico não é a estratégia descrita em nenhuma das quatro abordagens previstas.
Teste-se
Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.
Plano de revisão
Em 7 dias
Reconstrua de memória a sequência de manobras da posição vertical, na ordem, dizendo o que cada uma faz — aumentar diâmetro da pelve, reduzir o biacromial ou mudar a relação entre os dois. Depois responda sem consultar: qual é o sinal diagnóstico, quanto tempo se tem e a partir de que marco, e as duas coisas que nunca se fazem. Se você travar na ordem, o furo é de treino, não de teoria: ensaie em voz alta com quem está de plantão. Aplicação comentada: A primeira manobra falhou. A equipe deve comunicar o resultado e avançar prontamente conforme treinamento, sem repetir indefinidamente a mesma força.
Em 30 dias
Pegue o próximo parto que você acompanhar e, antes de a cabeça coroar, responda mentalmente a três perguntas: de que lado está o dorso fetal, quem na sala contaria o tempo e como esta cama muda para quatro apoios. Depois, escreva o registro que você faria se acontecesse uma distócia — equipe e horários, ombro impactado, manobras na ordem com o tempo de cada uma, Apgar, pH do cordão, peso ao nascer e o que foi dito à mulher. Compare com a lista deste capítulo e veja o que faltou.
Agora atenda
Multípara a termo, com diabetes gestacional em insulina, peso fetal estimado em torno de 4.300 gramas e uma frase no cartão descrevendo dificuldade no desprendimento dos ombros no parto anterior. Chega em trabalho de parto ativo, sem obstetra na casa. Conduza: colha o que falta do cartão e da história, examine, decida o que preparar e quem chamar, converse com ela sobre a via de parto e diga em que momento exatamente você pediria ajuda.
