PediatriaPneumologia Pediátrica

A garganta que não se olha

Laringotraqueíte aguda (crupe viral) e epiglotite

Duas doenças ocupam a mesma cena — a criança que chega às duas da manhã fazendo um barulho na inspiração — e correm em relógios opostos: uma leva dois dias para chegar ao pior e sete para ir embora, a outra sai da saúde para a obstrução em poucas horas. Separá-las é decisão de beira de leito, tomada antes de qualquer exame, e a primeira coisa que ela manda fazer é não fazer nada: não abrir a boca, não deitar a criança, não tirá-la do colo.

Fontes deste capítulo

Belo Horizonte. Secretaria Municipal de Saúde. Subsecretaria de Atenção à Saúde. Protocolo: abordagem e manejo — crupe na infância (laringotraqueítes). Belo Horizonte: SMSA/PBH, 2026. 16 p.

Sociedade Brasileira de Pediatria. Departamento Científico de Emergências. Crupe viral e bacteriano. Guia Prático de Conduta, n. 1, jan. 2017. 9 p.

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação e do Complexo Econômico-Industrial da Saúde. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais: Rename 2024. Brasília: Ministério da Saúde, 2024. 252 p. ISBN 978-65-5993-710-3.

Eurofarma Laboratórios S.A. Fosfato dissódico de dexametasona, solução injetável e solução para diluição para infusão 4 mg/mL — bula para o profissional de saúde. Medicamento genérico, Lei n.º 9.787/1999.

Hipolabor Farmacêutica Ltda. Adren (epinefrina), solução injetável 1 mg/mL — bula para o profissional de saúde. Caixa com 100 ampolas de 1 mL.

01

Responda antes de ler

Criança de 8 kg com crupe moderado vai receber epinefrina nebulizada. A unidade tem ampolas de epinefrina 1 mg/mL (1:1000) com 1 mL cada. O protocolo da unidade utiliza 0,5 mL/kg dessa solução, com máximo de 5 mL. Considerando esse protocolo, qual é a prescrição correta?

02

O paciente que você vai ver

Duas e dez da manhã de uma quinta-feira de junho. Você é o interno da noite numa unidade de pronto atendimento de bairro, com um pediatra plantonista que está há quarenta minutos com um lactente desidratado na sala de medicação. A recepção tem onze pessoas sentadas, e nove delas estão ali pela mesma coisa: criança com tosse. É junho.

A técnica de enfermagem não usa a palavra estridor. Ela aparece na porta do consultório e diz: “doutor, essa aqui tá fazendo um barulho quando puxa o ar”. É a melhor descrição possível, e é a única informação que você tem antes de olhar.

Nicolly Bortoluzzi tem 2 anos e 12 quilos. Está no colo da mãe, de cabeça no ombro dela, acordada, olhando para você com a cara de quem foi arrancada da cama. A cada inspiração sai um som áspero, alto, que se ouve do outro lado da mesa sem estetoscópio nenhum. Quando ela tosse — e ela tosse enquanto você a observa — o som é seco, curto, metálico, um latido. Está rouca: as poucas palavras que diz saem raspando. Coriza desde anteontem, febre baixa ontem, e a mãe conta que “ontem à noite já tinha ficado meio assim, mas passou”.

Você não encostou nela ainda e já tem quase tudo. Tosse de latido mais rouquidão mais estridor inspiratório, numa criança de 2 anos, em junho, na madrugada, com dois dias de coriza antes: isso é crupe enquanto nada disser o contrário — e o que dirá o contrário não é um exame — é outra história clínica.

A outra história clínica é a que faz este capítulo existir. Imagine que a técnica tivesse dito exatamente a mesma frase sobre outra criança: “tá fazendo um barulho quando puxa o ar”. Você entra e encontra um menino de 5 anos sentado na beira da maca, tronco para a frente, queixo empinado, boca entreaberta, com um fio de saliva no canto da boca porque engolir dói. Ele não tosse. Não está rouco: a voz saiu abafada, como se falasse com alguma coisa na boca. Está quente, prostrado, com cara de doente de verdade. E a mãe diz que ele estava bem no jantar.

Os dois fazem estridor. Os dois estão obstruindo a via aérea de cima. E as duas condutas são quase opostas, a começar pelo gesto mais automático que existe num pronto-socorro: no segundo caso, você não vai olhar a garganta. Não vai pedir para ele deitar. Não vai separá-lo da mãe para puncionar veia. Vai chamar quem sabe intubar criança, e vai fazer isso antes de qualquer outra coisa.

Este capítulo é sobre as seis perguntas que separam essas duas cenas à beira do leito, sobre por que a saturação de oxigênio mente nas duas, sobre um corticoide que se dá para quase todo mundo — inclusive para o caso leve que vai para casa — e sobre uma nebulização que compra tempo e cobra o troco duas horas depois. E termina onde precisa terminar: numa vacina, que é a razão de a segunda cena ter ficado rara sem ter ficado impossível.

Nicolly volta a aparecer no bloco de conduta, com nome, peso e conta feita. O menino de 5 anos se chama Enzo e volta no bloco de apresentação. Os dois são fictícios, como todas as pessoas deste capítulo.

03

Quem adoece disso

Crupe é o nome de síndrome, não de um agente. O guia da Sociedade Brasileira de Pediatria define a síndrome do crupe pela combinação de rouquidão, tosse ladrante, estridor predominantemente inspiratório e graus variados de desconforto respiratório — e observa que a mesma síndrome pode ser produzida por vírus, por bactéria e pela difteria. Quando a causa é viral, chama-se crupe viral. O nome anatômico depende de até onde a inflamação desceu: só laringe é laringite; laringe e traqueia é laringotraqueíte, que é o quadro típico; se alcançar bronquíolos, entram sibilos e tempo expiratório prolongado, e vira laringotraqueobronquite.

Nenhuma outra doença fecha a via aérea superior da criança com tanta frequência: segundo o mesmo guia, a laringotraqueobronquite responde por 90% dos casos de estridor. Representa entre 1,5% e 6% das doenças do trato respiratório na infância. Se você trabalha num pronto-socorro pediátrico no inverno, essa proporção não parece pequena.

A faixa etária é estreita e os dois documentos brasileiros concordam nela: 1 a 6 anos, com pico aos 18 meses, e predomínio no sexo masculino da ordem de 1,4 a 2 vezes. O protocolo municipal repete os mesmos números. Guarde o pico: a criança modal do crupe tem ano e meio e pesa por volta de 11 quilos, e esse peso vai importar quando chegarmos à dose da adrenalina.

Os agentes são os vírus respiratórios de sempre. Parainfluenza tipos 1, 2 e 3 são os principais; vírus sincicial respiratório, influenza A e B e SARS-CoV-2 também produzem o quadro. Passados os 5 anos de idade entra na lista um agente que não é vírus, o Mycoplasma pneumoniae. Existe ainda o crupe espasmódico, que aparece sem infecção viral aguda — e o protocolo municipal é explícito ao dizer que avaliação e manejo não mudam por causa disso, o que evita uma discussão etiológica no meio da madrugada.

Predomina no outono e no inverno, mas ocorre o ano inteiro. Os sintomas duram tipicamente de 3 a 7 dias, pioram à noite e alcançam o pico de gravidade entre o segundo e o quarto dia. Nos casos mais graves, o guia da Sociedade Brasileira de Pediatria registra duração de até 14 dias.

A intubação é rara: o protocolo municipal cita aproximadamente 0,2% das crianças com crupe. Duas em mil. Isso é uma informação de mão dupla — protege você do reflexo de intubar cedo demais, e obriga você a levar a sério as duas de cada mil, porque elas existem e não avisam com antecedência.

A traqueíte bacteriana é a outra ponta. Entre os internados com diagnóstico de crupe, a etiologia bacteriana aparece classicamente na proporção de 1 para 40 ou 50 casos; entre os que vão para a unidade de terapia intensiva, a proporção sobe para 1 em 8. A série de Hopkins citada pelo guia (Pediatrics, 2006) é mais dura ainda: a traqueíte bacteriana respondeu por 48% das internações em terapia intensiva por obstrução potencialmente fatal de via aérea superior, seguida pelo crupe viral com 46% e pela supraglotite. A mortalidade citada para a traqueíte varia entre 18% e 40%.

Repare no que essa série está dizendo. Ela não diz que a traqueíte bacteriana ficou mais comum: diz que, depois que a vacinação contra o Haemophilus influenzae tipo b tirou a epiglotite do topo, sobrou a traqueíte como principal causa de obstrução de via aérea superior com risco de morte na criança. O guia da Sociedade Brasileira de Pediatria escreve isso com todas as letras: a traqueíte bacteriana, doença rara, emergiu como a principal causa de obstrução potencialmente fatal após a vacinação contra o Hib. O topo não sumiu; trocou de ocupante.

Sobre a epiglotite falta o número que interessaria: não há, nos documentos brasileiros consultados por este capítulo, série epidemiológica brasileira publicada de epiglotite aguda na criança na era pós-Hib, e não afirmo incidência nacional. O que os dois documentos brasileiros abertos dizem é qualitativo — os casos de supraglotite infecciosa diminuíram acentuadamente com a introdução da vacina — e é só isso que este capítulo afirma.

Uma última nota de epidemiologia que é, na verdade, de bibliografia. Os números acima vêm quase todos de séries norte-americanas e canadenses citadas pelos documentos brasileiros, não de coortes brasileiras. Isso não os invalida; muda o que você pode dizer com eles. Prevalência e sazonalidade viajam mal entre países; anatomia e farmacologia viajam bem.

Vale um parágrafo sobre o que essa epidemiologia significa para o seu plantão. Nove entre dez crianças com estridor têm crupe; dessas, a esmagadora maioria vai bem com uma dose de corticoide; duas em mil precisam de tubo. Se você tratar toda criança com estridor como emergência de via aérea, vai transformar dezenas de noites tranquilas em intervenções desnecessárias — e agitação, neste capítulo, é iatrogenia. Se tratar todas como banais, vai perder a traqueíte e a epiglotite, que são raras e letais. O capítulo inteiro é sobre manter essas duas atitudes simultaneamente, e a maneira de manter é uma triagem de seis perguntas feita da porta, antes de tocar.

04

Por que acontece o que acontece

A criança faz estridor onde o adulto não faria porque a via aérea dela tem um gargalo que a do adulto não tem. Abaixo das cordas vocais existe a região subglótica, cercada pela cartilagem cricoide — o único anel completo e rígido de toda a via aérea. Ali a mucosa é frouxa, pouco aderente, e tem para onde inchar: para dentro. É a porção mais estreita da via aérea superior da criança, e é exatamente onde o vírus do crupe faz o edema.

O guia da Sociedade Brasileira de Pediatria dá o número que transforma isso em conta: em lactentes, 1 mm de edema na região subglótica causa 50% de diminuição do calibre da traqueia. Refazendo a conta, o tamanho do estrago aparece. Um milímetro de edema circunferente tira 2 mm do diâmetro; num lactente com 4 mm de subglote, o diâmetro cai a 2 mm — os 50% do guia —, mas a área de secção cai 75%, de 12,6 para 3,1 mm². E, como a resistência ao fluxo laminar varia com a quarta potência do raio, a resistência sobe cerca de 16 vezes. Numa criança maior, com 6 mm de subglote, o mesmo milímetro derruba o diâmetro em 33%, a área em 56% e multiplica a resistência por 5. Um milímetro de mucosa é a diferença entre dormir e trabalhar para respirar.

A localização do estreitamento decide o barulho, e isso é a coisa mais útil que a anatomia tem a oferecer à beira do leito. A via aérea supraglótica — do nariz até logo acima das cordas — não tem cartilagem: ela distende e colapsa com facilidade, e colapsa justamente na inspiração, quando a pressão negativa a suga para dentro. Por isso obstrução supraglótica dá estridor sobretudo inspiratório e piora deitado. Glote e traqueia cervical, sustentadas por cartilagem, colapsam menos: quando obstruem, o ruído aparece na inspiração ou nos dois tempos. E a traqueia intratorácica faz o contrário — na expiração a pressão dentro do tórax aumenta e a comprime, de modo que a obstrução ali soa mais na saída do ar.

A mesma anatomia explica a voz, que é o sinal mais barato e mais subestimado da cena. O crupe inflama a glote e as cordas vocais: a criança fica rouca, e a rouquidão é ruído produzido por corda vocal doente. A supraglotite poupa as cordas e incha o que está acima delas: a voz não fica rouca, fica abafada, como se houvesse algo na boca — é o que se descreve como voz de batata quente. Duas alterações de voz opostas, com origens anatômicas opostas, na mesma cena de estridor. Quem ouve a diferença já separou metade do diagnóstico sem tocar na criança.

Pela mesma razão, a supraglotite não faz tosse ladrante. A tosse de latido é um som produzido por laringe e traqueia inflamadas; se a doença está acima das cordas, esse som não aparece. Ausência de tosse ladrante numa criança com estridor e febre alta não é detalhe: é a peça que muda a rota.

Agora o motivo de a agitação ser perigosa, e não apenas desagradável. O choro aumenta a pressão negativa intratorácica na inspiração, o que colapsa ainda mais a via aérea extratorácica já estreitada, e transforma fluxo laminar em turbulento, aumentando a resistência à entrada de ar. Ou seja: chorar fecha. Não é figura de linguagem nem delicadeza — é mecânica. Por isso os dois documentos brasileiros mandam manter a criança o mais confortável possível, de preferência no colo, e recomendam cautela com exames detalhados, em especial a inspeção da garganta.

A saturação de oxigênio engana por um motivo mecânico, não por defeito do aparelho. A luz da via aérea se estreita muito antes de a criança ficar hipóxica: a obstrução alta é um problema de trabalho respiratório, e o trabalho respiratório compensa a troca gasosa até não compensar mais. O guia da Sociedade Brasileira de Pediatria é explícito — a saturação normal pode gerar impressão falsa de baixo risco, e a hipóxia documentada indica doença avançada e falência respiratória iminente, com risco de parada. Uma saturação de 97% numa criança que faz estridor em repouso e tiragem não é um bom sinal: é um sinal ausente. O sinal presente é o esforço.

As duas drogas do capítulo atacam o mesmo edema por caminhos diferentes, e é isso que explica o relógio delas. A adrenalina inalatória estimula receptores alfa-adrenérgicos e contrai os capilares arteriolares da mucosa: ela espreme a água para fora do tecido, quase instantaneamente, e não trata nada da inflamação que colocou a água ali. Por isso o efeito é ultrarrápido e breve, com duração da ordem de 2 horas. O corticoide faz o oposto: reduz a inflamação e a permeabilidade vascular, começa a agir em horas, e a dexametasona tem meia-vida biológica longa, com ação superior a 48 horas — uma dose só cobre o pico da doença. Adrenalina compra tempo; corticoide gasta o tempo comprado.

Dois modelos anatômicos abertos da laringe: à esquerda, edema abaixo das pregas vocais com epiglote preservada; à direita, epiglote espessada acima das pregas, com região subglótica aberta.
Dois níveis de obstrução: no crupe, predomina o edema subglótico, abaixo das pregas vocais; na epiglotite, a inflamação compromete a epiglote e a região supraglótica. A epiglote contém cartilagem elástica e mantém formato de folha, mesmo espessada. O desenho destaca a localização, que deve ser relacionada aos sinais clínicos.
05

Como se apresenta de verdade

Observe primeiro a criança no colo e na posição de conforto: voz, tosse, estridor, esforço, comportamento e manejo da saliva. Minimize procedimentos que provoquem agitação. A restrição mais importante à inspeção da garganta vale na suspeita de epiglotite ou obstrução relevante; não é uma proibição geral de examinar toda criança com dor de garganta. No crupe típico, a inspeção da orofaringe raramente acrescenta informação útil.

O crupe visto da porta

A tríade é tosse de latido, rouquidão e estridor inspiratório, e ela costuma vir montada sobre dois dias de resfriado. O protocolo municipal descreve a tosse como metálica, semelhante à de um cachorro ou de uma foca; a rouquidão como comum, refletindo comprometimento laríngeo; o estridor como presente sobretudo na inspiração e exacerbado pela agitação. A febre, quando há, é geralmente baixa — e o protocolo faz questão de dizer que a ausência de febre não exclui o diagnóstico.

O curso tem forma reconhecível. Começa com rinorreia clara, faringite, tosse leve e febre baixa; em 12 a 48 horas instala-se a obstrução alta. Piora à noite, principalmente na madrugada. Alcança o pior entre o segundo e o quarto dia e resolve-se em 3 a 7 dias. Uma família que chega às duas da manhã do segundo dia está, quase sempre, chegando no pico — e essa informação vale ouro na conversa da alta, porque explica por que ela pode piorar de novo amanhã e ainda assim estar no roteiro esperado.

Há um detalhe do protocolo municipal que merece leitura devagar, porque é um critério negativo e critério negativo se esquece: ausência de sialorreia e de disfagia. O crupe não faz a criança babar nem sofrer para engolir. Quando esses dois aparecem, o protocolo manda pensar em epiglotite e em abscesso retroamigdaliano. Ou seja: os sinais que mais assustam no crupe são justamente os que o crupe não faz — sialorreia e disfagia.

O que o crupe faz, e assusta com razão, é esforço. Taquipneia, retrações intercostais, batimento de asa nasal. Cianose é rara e, quando aparece, é dos casos graves. Nos quadros mais avançados o guia da Sociedade Brasileira de Pediatria descreve retrações claviculares, esternais e diafragmáticas, agitação psicomotora que evolui para sonolência, e respiração paradoxal — sinal de que a musculatura está chegando ao fim.

A epiglotite vista da porta

Enzo Piovesan tem 5 anos. Jantou bem, brincou, foi dormir. Às onze da noite acordou com febre alta e queixa de dor para engolir; à uma da manhã não quis água; às duas está sentado na maca com o tronco inclinado para a frente, apoiado nas mãos, queixo projetado e boca entreaberta — a postura que os livros chamam de tripé e que a criança adota sozinha porque é a única em que a via aérea fica aberta. Há saliva escorrendo, não porque ele produza mais, mas porque engolir dói demais.

Nenhum dos dois documentos brasileiros abertos traz um protocolo de manejo de epiglotite, e isso precisa ser dito antes da descrição, para você saber o peso do que está lendo. O guia da Sociedade Brasileira de Pediatria trata a supraglotite como diagnóstico diferencial, em poucas linhas; o protocolo municipal a lista entre os diferenciais e entre as dúvidas diagnósticas que mandam encaminhar. O que descrevo a seguir é o que esses dois textos dizem, mais o que se deduz da anatomia — e a dedução está marcada.

O que o guia diz, literalmente, é isto: na supraglotite infecciosa a obstrução promove estridor e desconforto respiratório sem rouquidão e sem tosse ladrante, porque cordas vocais e traqueia são poupadas; e a criança tem aparência tóxica e alteração de perfusão circulatória, típicas de doença bacteriana e ausentes no crupe viral. São quatro contrastes numa frase só, e todos os quatro se observam da porta.

O relógio é a quinta diferença, e talvez a mais importante para quem decide. O crupe leva 12 a 48 horas de pródromo para começar e dias para resolver; a epiglotite sai da saúde para a obstrução em poucas horas. A frase “ele estava bem no jantar” não é um detalhe da anamnese: é um dado de velocidade, e velocidade alta em obstrução alta é motivo para tratar como emergência de via aérea antes de ter certeza de qualquer diagnóstico.

A sexta é a idade, e ela orienta sem decidir. O crupe concentra-se entre 1 e 6 anos com pico aos 18 meses; a epiglotite, na literatura pré-vacinal, era doença de pré-escolar e escolar. Mas idade nenhuma exclui: existe crupe em criança de 6 anos e existe epiglotite em lactente. Idade é peso de evidência, não trava.

As seis perguntas que separam, à beira do leito

Esta seção é o núcleo do capítulo. Não é um escore, não tem pontuação e não precisa de aparelho. São seis perguntas que você responde olhando e ouvindo, na ordem em que a cena as entrega, e cuja combinação separa as duas doenças antes de qualquer exame.

A primeira é o pródromo. Houve resfriado antes? O crupe vem montado sobre 12 a 48 horas de coriza e tosse leve; a epiglotite vem sobre nada, ou sobre poucas horas de mal-estar. “Estava bem no jantar” pesa contra crupe.

A segunda é a voz. Rouca, raspando, com tosse de latido? Isso é corda vocal inflamada, e corda vocal fica abaixo da epiglote — é crupe. Abafada, como se falasse com algo na boca, sem tosse de latido? Isso é edema acima das cordas.

A terceira é a postura. A criança com crupe fica onde a puserem, de preferência no colo, e não tem preferência forte de posição. A criança com epiglotite escolhe sentar inclinada para a frente e resiste a deitar — e essa resistência é informação clínica, não birra.

A quarta é a saliva. Baba? Recusa engolir a própria saliva? O protocolo municipal coloca a ausência de sialorreia e disfagia como marca do crupe. Presença é sinal de que dói lá em cima.

A quinta é a febre e a aparência geral. Febre baixa e criança que interage entre as crises apontam para crupe. Febre alta com prostração, palidez, olhar parado e má perfusão — a chamada aparência tóxica — apontam para doença bacteriana, epiglotite ou traqueíte.

A sexta é a velocidade, e ela é a que resolve empate. Horas contra dias. Quando cinco perguntas ficam ambíguas e a sexta diz que tudo aconteceu em três horas, trate como via aérea ameaçada.

Uma nota sobre a origem desta lista: o agrupamento em seis perguntas é deste capítulo. Os elementos vêm dos dois documentos brasileiros consultados, mas nenhum deles publica uma lista de seis itens nesta forma. Se você quiser conferir a origem de cada um, eles estão espalhados entre as manifestações clínicas do protocolo municipal e o parágrafo de supraglotite do guia da Sociedade Brasileira de Pediatria.

A traqueíte bacteriana: o crupe que não responde

Existe uma terceira criança nesta cena, e ela começa parecendo a primeira. A traqueíte bacteriana — também chamada de crupe membranoso ou pseudomembranoso — combina manifestações de crupe viral e de epiglotite: depois de um pródromo viral breve, aparecem tosse ladrante, rouquidão, estridor inspiratório e insuficiência respiratória, e a esses sinais somam-se febre alta, acima de 38,5 °C, e toxemia.

Traqueíte bacteriana entra no diferencial quando há toxemia, secreções e resposta inadequada ao tratamento habitual, mas ausência de resposta não confirma sozinha o diagnóstico. Reavalie a criança e a segurança da via aérea. Repetição de adrenalina quando indicada e organização de suporte podem ocorrer em paralelo à reconsideração diagnóstica.

O protocolo municipal chega à mesma conclusão por outra porta: febre alta, toxemia, progressão dos sintomas respiratórios e falha terapêutica com corticoide e adrenalina sugerem infecção bacteriana associada e exigem abordagem distinta. Os agentes que ele cita são Staphylococcus aureus, incluindo cepas resistentes à meticilina, Streptococcus pneumoniae e Haemophilus influenzae tipo b.

O desfecho justifica o alarme. A taxa de internação em terapia intensiva citada pelo guia é de 94%, a de intubação é de 83%, e 28% dos casos têm complicações graves. Quem intuba costuma passar de três a sete dias com o tubo, e o cuidado com ele precisa ser obsessivo: membrana desprendida entope tubo, e tubo entupido devolve a obstrução que ele foi colocado para vencer. O diagnóstico definitivo se faz vendo a traqueia: à laringoscopia há exsudato purulento e malcheiroso bloqueando a luz, de fácil remoção e sem sangramento. Hemocultura costuma ser negativa.

Guarde a frase operacional, que é curta: corticoide e adrenalina não têm papel na traqueíte bacteriana. O tratamento é assegurar via aérea, estabilizar e dar antibiótico parenteral.

Quando não é infecção nenhuma

A aspiração de corpo estranho não tem capítulo próprio neste nível do curso, e por isso este capítulo assume o reconhecimento dela à beira do leito, e declara que assumiu. Ela entra aqui porque produz exatamente o mesmo ruído e porque o tratamento do crupe não faz nada por ela.

O que a denuncia é a ausência de história infecciosa e a presença de um começo sem preâmbulo. Criança que estava brincando ou comendo, teve um episódio de engasgo ou tosse súbita e desde então faz ruído — sem coriza antes, sem febre, sem evolução de horas. O protocolo municipal lista a aspiração de corpo estranho entre os diagnósticos diferenciais do crupe, e o guia da Sociedade Brasileira de Pediatria observa que a radiografia cervical normal não exclui aspiração de corpo estranho — o que é mais um motivo para o diagnóstico ser de história, não de imagem.

A anafilaxia é a outra impostora, e essa tem dono: o capítulo “Anafilaxia e choque anafilático no pronto-socorro”, da apostila de Medicina de Emergência, trata dela por inteiro, com adrenalina intramuscular e manejo. Aqui ela só precisa ser reconhecida — os dois documentos brasileiros a listam entre os diferenciais do crupe — e reconhecê-la é notar exposição, urticária, angioedema, início em minutos e acometimento de outros sistemas. Se a hipótese for anafilaxia, a droga é adrenalina intramuscular, não nebulizada, e a conduta é a daquele capítulo.

A difteria merece uma linha própria, e não porque você vá vê-la. O guia da Sociedade Brasileira de Pediatria a lista duas vezes: entre as infecções da via aérea supraglótica, ao lado do abscesso retrofaríngeo e da supraglotite, e entre as etiologias possíveis da síndrome do crupe, ao lado da traqueíte bacteriana. Ela é a terceira doença cuja epidemiologia foi reescrita por uma vacina, e a razão de estar aqui é a mesma da epiglotite: rara não é impossível, e a pergunta sobre a caderneta vacinal separa as duas condições. Este capítulo não a desenvolve — os detalhes de esquema e de bloqueio de contatos são do capítulo de Infectologia Pediátrica sobre o calendário nacional.

Completam a lista, nos dois documentos: abscesso retrofaríngeo, abscesso peritonsilar, mononucleose infecciosa, e queimaduras ou traumas de via aérea. A faringoamigdalite comum e os critérios de Centor são do capítulo “Faringoamigdalites e critérios de Centor”, da apostila de Otorrinolaringologia — a criança com dor de garganta e sem estridor não é assunto deste capítulo.

E há a criança que faz crupe muitas vezes. Quando os quadros são recorrentes, o guia manda afastar refluxo gastroesofágico, papilomatose recorrente de laringe, estenose laringotraqueal e anomalias congênitas. Não é para investigar isso na madrugada; é para não dar alta pela quarta vez sem encaminhar.

Quem tem mais chance de ficar grave

O protocolo municipal publica uma lista curta de fatores de risco para crupe grave, e ela vale a pena porque muda o limiar de observação e de encaminhamento, não o tratamento: prematuridade; idade inferior a seis meses; condições estruturais prévias da via aérea superior, como traqueomalácia ou estenose subglótica; história de crupe grave anterior; retorno não planejado ao pronto-socorro dentro de 24 horas após a primeira apresentação; e trissomia 21.

O guia da Sociedade Brasileira de Pediatria acrescenta dois grupos de risco de falência respiratória que não são idênticos aos de cima: criança menor de seis meses, paciente com estridor em repouso ou alteração do nível de consciência, e detecção de hipercapnia. E anota que crianças com manipulação anterior da via aérea superior — cirurgias, intubação prévia — ou com doenças prévias dela exigem abordagem mais cuidadosa.

Repare no item que aparece nas duas listas e é fácil de subestimar: menor de seis meses. Abaixo dessa idade o gargalo subglótico é menor em valor absoluto, e o mesmo milímetro de edema custa proporcionalmente mais. Some a isso que essa é exatamente a faixa em que a bronquiolite domina — e bronquiolite é do capítulo “Bronquiolite viral aguda”, o segundo desta apostila. Lactente pequeno com ruído respiratório merece que você decida, primeiro, se o ruído é inspiratório e alto ou expiratório e baixo.

O item “retorno não planejado em 24 horas” é o que mais se perde no plantão, porque quem atende a segunda vez raramente sabe da primeira. Pergunte explicitamente se já vieram por isso, e quando. A resposta muda o destino da criança.

06

Como fechar o diagnóstico

A parte mais importante desta seção é a lista do que não se pede — e, na suspeita de epiglotite, do que não se faz. Vou começar pelo raciocínio de por que os exames decidem tão pouco aqui, porque sem esse raciocínio a lista de proibições vira dogma, e dogma se esquece na hora errada.

O diagnóstico é clínico, e a frase tem conteúdo

O guia da Sociedade Brasileira de Pediatria afirma que o diagnóstico do crupe se baseia nos achados clínicos, e sustenta a afirmação com números que valem memorizar. Em metade dos casos de crupe viral clinicamente evidente a radiografia cervical sai normal: um exame que é normal em 50% dos doentes não serve para confirmar. E o achado clássico — o estreitamento da traqueia subglótica, descrito como sinal da ponta de lápis ou da torre de igreja — pode estar presente numa criança saudável, apenas pelo estreitamento anatômico natural daquela região. Um exame que é anormal em quem não tem a doença não serve para descartar as outras.

A conclusão do guia é dupla e categórica. A radiografia cervical normal não exclui aspiração de corpo estranho nem supraglotite, e a alterada não diagnostica crupe; e ela não deve ser realizada em crianças com obstrução das vias aéreas superiores. O exame se reserva à investigação de outra etiologia — a suspeita de corpo estranho é o exemplo que o próprio guia dá — ou aos casos de evolução atípica.

Há um segundo motivo, e é logístico: fazer radiografia cervical numa criança que obstrui significa tirá-la do colo, levá-la a outra sala, posicioná-la e, eventualmente, deitá-la. Cada um desses gestos custa agitação, e agitação fecha. O risco do exame não está na radiação; está no trajeto até ele.

A oximetria: obrigatória, e enganosa

O guia manda fazer oximetria de pulso em todas as crianças com estridor. E, na mesma frase, avisa que a saturação normal pode gerar impressão falsa de baixo risco. As duas coisas são verdadeiras ao mesmo tempo, e a maneira de segurá-las juntas é lembrar que a oximetria só tem valor quando está alterada.

Quando está normal, ela não informa nada sobre a gravidade da obstrução, porque a luz da via aérea se estreita marcadamente antes de a criança ficar hipóxica. Quando está baixa, ela informa muito, e nada de bom: hipóxia documentada indica doença avançada e falência respiratória iminente, com risco de parada respiratória. O guia é explícito ao dizer que hipoxemia na síndrome do crupe é indicativo de internação em terapia intensiva.

Há ainda um refinamento que é fácil de esquecer e útil de lembrar: se a criança tem crupe moderado e está hipoxêmica, o guia sugere que provavelmente há acometimento concomitante das vias aéreas inferiores. Ou seja, saturação baixa com obstrução alta modesta é motivo para procurar outra coisa embaixo — bronquiolite, pneumonia — e não para escalar o tratamento do crupe.

O protocolo municipal usa a saturação de outro jeito, e o jeito é coerente com tudo isso: ela não entra na graduação da gravidade; entra como critério de encaminhamento à urgência, com o corte de 92%, ao lado de cianose de lábios ou extremidades. Gravidade se mede pelo esforço; saturação decide destino quando já está ruim.

O que não se faz na suspeita de epiglotite

Na suspeita de epiglotite ou obstrução significativa, evite manobras que possam precipitar piora enquanto organiza suporte de via aérea com equipe experiente. A prioridade é manter ventilação e posição de conforto; a investigação vem no ambiente apropriado.

Não force abertura da boca nem use abaixador de língua para demonstrar a epiglote nesse cenário. Na criança com crupe típico, o exame da garganta raramente é necessário e pode ser dispensado se só aumentar a agitação. Em outra apresentação estável, o exame é definido pela hipótese e pela segurança, sem aplicar a restrição como regra universal.

Não deite a criança. A postura em tripé que ela escolheu é a que mantém a via aérea aberta; deitar transfere o peso do tecido supraglótico edemaciado sobre a abertura. Nenhum dos dois documentos brasileiros abertos usa essas palavras — esta é leitura minha a partir da anatomia que os dois descrevem, e está declarada como leitura minha.

Não separe a criança de quem a trouxe, e adie a punção venosa. O protocolo municipal manda manter a criança o mais confortável possível, de preferência no colo, e é crucial evitar qualquer situação que possa causar estresse, porque isso pode agravar os sintomas. Punção venosa é estresse. Se o acesso for necessário, ele se obtém no ambiente controlado onde a via aérea será assegurada, e não no corredor.

Não force máscara no rosto. O oxigênio, quando indicado, vai por aproximação — o protocolo descreve a técnica de blow-by: segurar a fonte a alguns centímetros do rosto, criando uma nuvem em torno de nariz e boca, porque causa menos agitação do que máscara ou cânula nasal.

E não postergue a chamada. O que se faz, em vez de tudo o que não se faz, é acionar cedo quem assegura via aérea pediátrica. Como isso se faz na prática — sequência rápida, escolha de lâmina, plano de resgate — é assunto do capítulo “Via aérea no trauma”, da apostila de Trauma, que é onde a técnica está descrita neste nível. Aqui a obrigação é reconhecer e chamar, e chamar cedo.

Quando o exame entra, e qual

Há três situações em que investigar deixa de ser dano e passa a ser dever. A primeira é a evolução atípica: crupe que não segue o roteiro de 3 a 7 dias, que não piora à noite e melhora de dia, que não responde a nada. A segunda é a suspeita de corpo estranho, único exemplo em que o próprio guia autoriza a radiografia cervical. A terceira é a suspeita de traqueíte bacteriana, em que o diagnóstico definitivo se faz visualizando a traqueia.

Nas três, o exame não é um pedido de balcão. A visualização da via aérea na suspeita de traqueíte é feita, segundo o guia, com o paciente admitido em terapia intensiva e a intubação realizada em centro cirúrgico, com endoscopia — o procedimento diagnostica, trata e colhe material para microbiologia no mesmo ato. Interno nenhum faz isso sozinho, e a decisão relevante para você é a de acionar.

Sobre exames laboratoriais, há uma ausência a registrar: nenhum dos dois documentos brasileiros abertos indica hemograma, proteína C reativa ou cultura de orofaringe para diferenciar crupe viral de bacteriano à beira do leito. O que o protocolo municipal usa para levantar a hipótese bacteriana é clínico — febre alta, toxemia, progressão e falha terapêutica —, não laboratorial. Não afirmo, portanto, valor discriminatório de nenhum exame de sangue nessa diferenciação.

E sobre gasometria: o guia cita a detecção de hipercapnia entre os indicadores de risco de falência respiratória. Não diz quando colhê-la, e não vou inventar um critério. Na prática, a criança que está evoluindo para fadiga se reconhece pelo esforço, pela queda do murmúrio e pela alteração do sensório — todos antes do gasômetro.

O que os documentos brasileiros não têm

Esta seção existe porque a ausência é informação, e porque ficar sabendo dela no meio de uma prova ou de um plantão é pior do que ficar sabendo agora.

O Ministério da Saúde não publicou protocolo clínico nem diretriz terapêutica sobre crupe. A régua brasileira mais recente sobre o tema é municipal — o protocolo de Belo Horizonte, de 2026 — e a de sociedade é o guia da Sociedade Brasileira de Pediatria, de 2017. Isso significa que, sobre esse tema, o serviço em que você trabalha provavelmente segue um protocolo institucional próprio ou um livro-texto estrangeiro, e que vale conferir qual antes de discutir dose com o preceptor.

Não existe, nos documentos abertos, uma tabela brasileira publicada e completa para graduar o crupe. O protocolo municipal gradua explicitamente pelo escore de Westley — e não publica o escore. O guia da Sociedade Brasileira de Pediatria publica uma tabela de escore clínico com cinco sinais, mas os itens e os cortes dela não são os do Westley. Quem lê os dois documentos e tenta usar os dois chega a classificações diferentes para a mesma criança. Isso está detalhado, com as contas, nas notas do bloco de critérios e no bloco de divergências.

Não existe documento brasileiro recente dedicado à epiglotite aguda na criança. O material nacional mais próximo é uma revisão do Jornal de Pediatria de 1999, que não foi aberta no original e sobre a qual este capítulo nada afirma. Vinte e sete anos é muito tempo para uma doença cuja epidemiologia mudou por causa de uma vacina.

E não existe, em documento de bula brasileiro, autorização para a via pela qual a adrenalina é usada aqui. A bula da ampola de epinefrina 1 mg/mL declara uso intramuscular, intravenoso e subcutâneo, e lista como indicações a parada cardiorrespiratória e os estados de choque, a anafilaxia, a crise asmática grave pouco responsiva, o controle de pequenas hemorragias cutâneas e a associação a anestésicos locais. Nebulização não está entre as vias; crupe não está entre as indicações. A nebulização de adrenalina no crupe é, no Brasil, uso fora de bula — recomendado por um protocolo municipal e por um guia de sociedade, fornecido pelo Sistema Único de Saúde como insumo, e não previsto pelo fabricante para essa via. Você vai fazer isso; faça sabendo.

O elenco do Sistema Único de Saúde: o que tem, e o que falta

O elenco se confere fármaco a fármaco, por busca exata sobre o texto e nunca por impressão de leitura, porque a diferença entre o que o protocolo manda e o que a unidade tem decide a prescrição que você de fato escreve. O que a Rename 2024 traz, para os fármacos deste capítulo, é o seguinte.

Dexametasona consta do componente básico em três apresentações úteis aqui: comprimido de 4 mg, elixir de 0,1 mg/mL e solução injetável de 4 mg/mL. Não há suspensão oral concentrada. Isso importa porque, com elixir de 0,1 mg/mL, uma dose de 0,15 mg/kg numa criança de 12 kg vira 18 mL, e uma dose de 0,6 mg/kg na mesma criança viraria 72 mL — as contas estão nas notas do bloco de critérios.

Prednisolona consta como fosfato sódico de prednisolona, solução oral, em duas concentrações: 1 mg/mL e 3 mg/mL, ambas no componente básico. É a alternativa praticável quando não há dexametasona, e a de 3 mg/mL é a que o protocolo municipal usa no exemplo dele.

Prednisona consta apenas em comprimido, de 5 mg e de 20 mg. Não existe solução oral de prednisona na Rename 2024. Guarde isso: o fluxograma do protocolo municipal escreve prednisona onde o texto corrido dele escreve prednisolona, e a troca não é sinônimo — é a diferença entre uma dose que se mede em mililitros e uma que exigiria partir comprimido em criança de 12 quilos.

Budesonida consta, mas não na forma que o guia recomenda. O que a Rename tem é suspensão para inalação nasal de 32, 50 e 64 mcg, no componente básico, e apresentações de 200 e 400 mcg em aerossol oral, cápsula e pó inalatório, no componente especializado e vinculadas aos protocolos de asma e de doença pulmonar obstrutiva crônica. Suspensão para nebulização não consta. A dose de 2 mg inalados que o guia oferece como alternativa à dexametasona não é, portanto, prescritível com o elenco nacional na forma em que foi estudada.

Epinefrina consta: 1 mg/mL, solução injetável, componente básico. Uma observação de método que pode economizar tempo a quem for conferir: a palavra “adrenalina” não aparece nenhuma vez na Rename 2024 — a denominação comum brasileira usada é epinefrina, e quem buscar pela outra palavra conclui, errado, que o fármaco não está no elenco.

E cefuroxima não consta. Nenhuma ocorrência. Os dois documentos brasileiros sugerem cefalosporina de segunda geração — cefuroxima — ou de terceira para a traqueíte bacteriana, e o protocolo municipal já registra que a cefuroxima não está na relação municipal de Belo Horizonte. A Rename confirma que ela também não está na nacional. Ceftriaxona está, em pó para solução injetável de 250 mg, 500 mg e 1 g, no componente básico, com classificação de vigilância no eixo de uso racional de antimicrobianos.

07

Separar as duas, graduar uma, dosar por peso e decidir a hora da alta

As primeiras decisões são reconhecer obstrução alta, avaliar gravidade e distinguir o crupe típico de hipóteses que ameaçam rapidamente a via aérea. Examine apenas o necessário, mantendo conforto e ajuda experiente disponível quando há risco. Depois confira fármaco, via e concentração e registre a resposta. O tempo de observação após adrenalina faz parte da segurança da alta.

  1. 1Antes de encostar, responda às seis perguntas da porta: houve pródromo, como está a voz, que postura ela escolheu, se baba, como é a febre e a aparência geral, e em quanto tempo tudo isso aconteceu. Velocidade alta, voz abafada, salivação e aparência tóxica mudam a rota — não é crupe.
  2. 2Se a rota mudou: ninguém abre a boca, ninguém deita a criança, ninguém a tira do colo. Oxigênio por aproximação se necessário, e chamada imediata de quem assegura via aérea pediátrica. O resto do fluxo abaixo não se aplica.
  3. 3Se é crupe: gradue observando estridor em repouso, retração, entrada de ar, cor e nível de consciência. Estridor só com agitação e sem tiragem é leve; estridor em repouso já sobe a classificação; sonolência ou cianose colocam a criança na faixa de ameaça à vida.
  4. 4Anote o peso — pesado ou estimado — e deixe as doses escritas antes de administrar qualquer coisa. Corticoide entra em dose única para todos, inclusive no leve. Adrenalina nebulizada entra no moderado e no grave, e não entra no leve.
  5. 5Marque a hora da adrenalina no papel. É essa marca que decide a alta, não a impressão de melhora dos primeiros trinta minutos.
  6. 6Reavalie a cada dose e ao fim da janela de observação: estridor em repouso ausente, esforço regredido, criança bebendo e família orientada é alta. Qualquer um desses faltando é permanência.
  7. 7Ausência de resposta exige reavaliar gravidade, entrega do tratamento e diagnóstico diferencial, com ajuda experiente. Pode ser necessário repetir adrenalina sob monitorização enquanto se organiza suporte; isso não impede investigar traqueíte bacteriana, epiglotite ou corpo estranho.

As seis perguntas da porta, e o que cada resposta pesa

PerguntaCrupe viralEpiglotite (supraglotite)Traqueíte bacteriana
Houve pródromo?Sim: 12 a 48 h de coriza, faringite, tosse leve e febre baixaNão, ou muito breve — “estava bem no jantar”Sim, pródromo viral breve, e depois piora
Como está a voz?Rouca, raspando; tosse metálica em latidoAbafada, sem rouquidão e sem tosse de latidoRouca, com tosse ladrante — como no crupe
Que postura ela escolheu?Nenhuma em especial; fica confortável no coloSentada e inclinada para a frente; resiste a deitarVariável; costuma estar prostrada
Baba ou tem dor para engolir?Não — a ausência dos dois é marca do crupeSim, sialorreia e disfagia são típicasSecreção purulenta; pode ter dor
Como é a febre e a aparência?Febre em geral baixa, e pode não haver; interage entre as crisesFebre alta com aparência tóxica e perfusão alteradaFebre acima de 38,5 °C com toxemia
Em quanto tempo aconteceu?Dias: pior entre o 2.º e o 4.º, resolve em 3 a 7Horas, da saúde à obstruçãoProgressivo, de 12 h a 7 dias
O que responde ao tratamento inicial?Melhora com corticoide e, se indicada, adrenalina nebulizadaNão é caso de tratar e observar: é caso de assegurar a via aéreaResposta inadequada, especialmente com toxemia e secreções, levanta traqueíte bacteriana; o achado não confirma sozinho a causa.

Graduar o crupe sem aparelho nenhum

O que observarLeveModeradoGraveAmeaça à vida
EstridorAusente em repouso; aparece com agitação ou choroPresente em repouso, audível sem estetoscópioIntenso em repouso, inspiratório e às vezes nos dois temposPode diminuir por queda do fluxo — silêncio aqui é piora, não melhora
Esforço respiratórioSem tiragem ou tiragem mínimaTiragem de fúrcula e intercostal, batimento de asa nasalTiragem acentuada em vários andares, taquipneiaRespiração paradoxal, exaustão, esforço que começa a cessar
Entrada de arNormalLevemente diminuídaNitidamente diminuídaMuito diminuída ou quase inaudível
CorNormalNormalCianose com agitaçãoCianose em repouso
Nível de consciênciaNormal, criança interageIrritada quando estimulada, acalma no coloAgitação persistenteLetargia, sonolência, criança “tranquila demais”
O que isso manda fazerCorticoide em dose única e alta com orientaçãoCorticoide e adrenalina nebulizada; observar 3 a 4 hCorticoide em dose alta e adrenalina; observar e considerar internaçãoAdrenalina, oxigênio em alto fluxo, terapia intensiva; não protelar intubação

Dose por peso contra a apresentação que existe na farmácia

Fármaco e apresentação realDose9 kg12 kg20 kg
Dexametasona 4 mg/mL, solução injetável (ampola de 2,5 mL) — via oral, intramuscular ou intravenosa0,15 mg/kg, dose única (teto de 12 mg)1,35 mg = 0,34 mL1,8 mg = 0,45 mL3 mg = 0,75 mL
A mesma ampola, na dose alta do crupe grave0,6 mg/kg, dose única (teto de 12 mg)5,4 mg = 1,35 mL7,2 mg = 1,8 mL12 mg = 3 mL
Dexametasona elixir 0,1 mg/mL, via oral0,15 mg/kg, dose única1,35 mg = 13,5 mL1,8 mg = 18 mL3 mg = 30 mL
Fosfato sódico de prednisolona 3 mg/mL, solução oral1 mg/kg/dia por 2 a 3 dias (teto de 40 mg/dia)9 mg = 3 mL12 mg = 4 mL20 mg = 6,7 mL
Fosfato sódico de prednisolona 1 mg/mL, solução orala mesma dose, na outra concentração do elenco9 mg = 9 mL12 mg = 12 mL20 mg = 20 mL
Epinefrina 1 mg/mL (1:1000), ampola de 1 mL — por nebulizador0,5 mL/kg, sem diluir, até o teto de 5 mL4,5 mL = 4,5 mg (4,5 ampolas)teto: 5 mL = 5 mg (5 ampolas)teto: 5 mL = 5 mg (5 ampolas)

As três decisões de destino, e o que precisa estar escrito em cada uma

DecisãoO que precisa estar presente para ela ser tomadaO que fica registrado e dito
Alta para casaAusência de estridor em repouso; e, se houve adrenalina nebulizada, no mínimo 3 horas de observação depois dela sem recorrência; criança aceitando líquidos; família com condição de retornarHora da adrenalina e hora da reavaliação; que o corticoide já foi dado e é dose única; os gatilhos de retorno imediato — estridor em repouso de novo, esforço, sonolência, recusa de líquidos, cianose; e que a piora noturna nos próximos dois dias faz parte do esperado
Permanência em observação ou internaçãoEstridor em repouso persistente com tiragem intensa ou agitação; recorrência após melhora inicial; incapacidade de hidratar-se por boca; saturação abaixo de 92% ou cianose; comprometimento do estado geral; dúvida diagnóstica; fator de risco para crupe graveQual dos critérios foi o que segurou a criança, com hora; reavaliações sucessivas com o mesmo vocabulário; se houve segunda dose de adrenalina e quando
Terapia intensiva e chamada de quem assegura via aéreaHipoxemia documentada; resposta mínima ou ausente à adrenalina; letargia ou cianose em repouso; suspeita de epiglotite ou de traqueíte bacterianaQue a hipótese deixou de ser crupe simples e por quê; que a chamada foi feita e a que horas; que nada foi introduzido na boca da criança

Conferência que fechou: o exemplo do protocolo municipal para uma criança de 12 kg com crupe moderado. Dexametasona a 0,15 mg/kg dá 1,8 mg; dividido pela ampola de 4 mg/mL, dá 0,45 mL — bate. Prednisolona a 1 mg/kg dá 12 mg; na solução de 3 mg/mL, dá 4 mL — bate. Dexametasona elixir de 0,1 mg/mL para os mesmos 1,8 mg dá 18 mL — bate. As três contas do documento estão certas.

Conferência que fechou, com uma consequência prática: o teto de 5 mL da adrenalina nebulizada morde a partir de 10 kg, porque 0,5 mL/kg × 10 kg = 5 mL. Como o pico de incidência do crupe é aos 18 meses, quando a criança pesa por volta de 11 quilos, a maioria dos pacientes já está no teto: na prática, a dose habitual é 5 mL, e o cálculo por peso só muda alguma coisa abaixo de 10 kg. Numa criança de 12 kg, o teto reduz a dose de 0,5 para 0,42 mg/kg; numa de 20 kg, para 0,25 mg/kg.

Faixa que não pertence a nenhuma classe, achado 1. O guia da Sociedade Brasileira de Pediatria fecha a Tabela 1 com “escore total: < 6 = leve; 7-8 = moderada; > 8 = grave”. Percorrendo os inteiros de 0 a 9: o escore 6 não é leve (não é menor que 6), não é moderado (não está entre 7 e 8) e não é grave (não é maior que 8). Uma criança com 6 pontos não tem classificação nessa tabela. Some-se que a tabela tem cinco sinais pontuados de 0 a 3, com máximo de 15, enquanto o escore de Westley original chega a 17 com pesos desiguais — não são a mesma escala, e os cortes de uma não valem para a outra.

Faixa que não pertence a nenhuma classe, achado 2. O protocolo municipal escreve “crupe leve, definido como escore de Westley menor que 2” e “crupe moderado a grave, com escore de Westley superior a 3”. Os escores 2 e 3 ficam fora das duas definições. E há um problema maior: o protocolo gradua a conduta inteira por um escore que ele não publica em nenhuma das dezesseis páginas. Quem só tiver esse documento na mão não consegue calcular o número de que ele depende.

Tabela contra texto corrido, no mesmo documento, achado 1. No corpo do texto, o guia da Sociedade Brasileira de Pediatria escreve que a dexametasona varia “de 0,15 mg/kg (crupe leve) até 0,6 mg/kg (crupe grave)”. Na Tabela 2, a linha do crupe severo traz “Dexametasona 0.6 mg IM”, sem o por quilo. Numa criança de 9 kg a diferença é de 5,4 mg contra 0,6 mg, fator 9; numa de 12 kg, 7,2 mg contra 0,6 mg, fator 12; numa de 20 kg, fator 20. Lido ao pé da letra, o número da tabela subdosa o caso mais grave na exata proporção do peso da criança.

Tabela contra texto corrido, no mesmo documento, achado 2. O texto do mesmo guia dá a dose de epinefrina inalatória como “0,5 mL/kg até a dose máxima de 5 mL”. A Tabela 2 prescreve “l-epinefrina: 5 mL” fixo para crupe moderado e para crupe severo, sem referência a peso. Num lactente de 5 kg, 5 mL é o dobro da dose por peso, e equivale a 1 mg/kg; num de 6 kg, 1,67 vez; num de 8 kg, 1,25 vez. Acima de 10 kg os dois números coincidem, porque o teto morde — o que explica por que o erro passa despercebido na maioria dos pacientes e aparece exatamente nos menores, que são os de maior risco.

Tabela contra texto corrido, no mesmo documento, achado 3. A Tabela 3 do guia diz que o crupe viral acomete de 3 meses a 3 anos; o texto corrido do mesmo documento, duas páginas antes, diz que acomete de 1 a 6 anos com pico aos 18 meses, e o protocolo municipal de 2026 repete 1 a 6 anos. Uma criança de 5 anos com tosse de latido está dentro da faixa segundo o texto e fora dela segundo a tabela.

Linha de tabela que não diferencia nada. Ainda na Tabela 3, que é a tabela de diagnóstico diferencial entre crupe viral e traqueíte bacteriana, duas linhas trazem valores idênticos nas duas colunas: “pródromos: coriza e tosse seca” e “febre: 37,8 a 40,5 °C”. A linha da febre contradiz o texto corrido do próprio guia, que descreve a traqueíte com febre superior a 38,5 °C e toxemia. Numa tabela cujo propósito é separar duas doenças, uma linha com a mesma faixa dos dois lados não separa nada — e a de febre, além disso, conflita com o texto.

Fluxograma contra texto corrido, e a Rename decide quem está certo. O texto do protocolo municipal oferece, na falta de dexametasona, “prednisolona, via oral, 1 mg/kg/dia (dose máxima 40 mg/dia)”. O fluxograma da página 12 do mesmo documento escreve “Prednisona 1 mg/kg”. Não são sinônimos, e a diferença é prática: a Rename 2024 lista fosfato sódico de prednisolona em solução oral de 1 mg/mL e de 3 mg/mL, mas lista prednisona apenas em comprimido de 5 mg e de 20 mg. Uma criança de 12 kg precisaria de 2,4 comprimidos de 5 mg para receber 12 mg de prednisona; a mesma dose de prednisolona são 4 mL de uma solução. O texto corrido é o praticável.

Erro dentro da bula, por fator 2,5. A bula do fosfato dissódico de dexametasona injetável declara, em apresentações, “4 mg/mL: embalagem com 50 ampolas de 2,5 mL”; e declara, em composição, “cada ampola contém: fosfato dissódico de dexametasona 4,37 mg”, com nota de que 4,37 mg do sal equivalem a 4,0 mg de dexametasona ácido fosfórico. Refiz: uma ampola de 2,5 mL a 4 mg/mL contém 10 mg, não 4 mg. O campo de composição descreve o conteúdo de 1 mL e o chama de ampola — fator 2,5. Para a prescrição do crupe isso não muda a dose, porque se prescreve em mililitros, mas muda o que você acha que está na sua mão: a ampola inteira, aspirada por engano, entrega 10 mg.

Diferença de 17% entre o rótulo e a base, e ela não é erro — é ambiguidade. A mesma bula escreve, em posologia, que “cada mL contém 4 mg de dexametasona ácido fosfórico (igual a 3,33 mg de dexametasona)”. Se a dose de 0,15 mg/kg dos ensaios se refere à dexametasona base, então os 0,45 mL calculados para uma criança de 12 kg entregam 1,50 mg de base, e não 1,80 mg — 16,8% a menos. Se ela se refere ao éster fosfato, a conta do protocolo está perfeita. Nenhum dos dois documentos brasileiros diz a qual das duas se refere. Registro os dois lados; não escolho.

O que o Sistema Único de Saúde não fornece, conferido por busca exata na Rename 2024. Budesonida para nebulização não consta: existem apenas suspensão para inalação nasal de 32, 50 e 64 mcg no componente básico, e 200 e 400 mcg em aerossol, cápsula e pó inalatório no especializado, vinculadas aos protocolos de asma e de doença pulmonar obstrutiva crônica. A dose de 2 mg que o guia oferece como alternativa exigiria 4 mL da suspensão comercial de 0,5 mg/mL ou 8 mL da de 0,25 mg/mL — nenhuma das duas no elenco. Cefuroxima também não consta, com zero ocorrências, embora os dois documentos a citem para a traqueíte bacteriana; ceftriaxona consta, em 250 mg, 500 mg e 1 g. E um aviso de método: a palavra “adrenalina” não aparece nenhuma vez na Rename — a denominação usada é epinefrina.

Dois prazos para a mesma observação, no mesmo documento. O protocolo municipal escreve duas vezes que a observação após a adrenalina é de aproximadamente 3 a 4 horas, e uma terceira vez, no critério de alta, que o mínimo é de 3 horas. Não são contraditórios, mas não são a mesma instrução: um é uma janela, o outro é um piso. O guia da Sociedade Brasileira de Pediatria acrescenta um terceiro relógio ao mandar considerar internação diante de piora clínica 2 horas após a adrenalina. Na prática, três horas é o mínimo defensável e quatro é o confortável; abaixo de três não há amparo em nenhum dos dois documentos.

Uma instrução que se contradiz na mesma página. O protocolo manda nebulizar a epinefrina “não diluída” e, em nota de rodapé, manda completar com soro fisiológico quando o volume for menor que 3 mL. Refiz a conta: com 0,5 mL/kg, o volume só fica abaixo de 3 mL em crianças com menos de 6 kg. A leitura que concilia as duas frases é que não se dilui a dose, apenas se completa o volume até o mínimo que o nebulizador aceita — mas o documento não diz isso, e essa conciliação é minha.

Conferência que fechou, e que vale como sanidade da via aérea: os dois documentos mandam usar cânula traqueal meio número menor que a calculada para a idade — o guia especifica 0,5 mm a menos de diâmetro interno. Refiz o que isso custa em área: numa criança de 2 anos, trocar 4,5 mm por 4,0 mm deixa 79% da área interna do tubo ideal; aos 4 anos, 5,0 por 4,5 mm deixa 81%; aos 6, 5,5 por 5,0 mm deixa 83%. Perde-se cerca de um quinto da área, o que aumenta a resistência do tubo e pesa na ventilação — é um preço aceitável diante do edema subglótico que impediria a passagem do tubo cheio, e é a razão de esse meio número não ser detalhe de anotação.

Duas afirmações do mesmo parágrafo que não se encaixam. O guia diz que, entre os internados com crupe, a etiologia bacteriana aparece na proporção de 1 para 40 ou 50 casos, e que essa proporção sobe até 1 para 8 nas internações em terapia intensiva; duas frases depois, cita a série de Hopkins segundo a qual a traqueíte bacteriana responde por 48% das internações em terapia intensiva por obstrução potencialmente fatal, contra 46% do crupe viral. Uma razão de 1 para 8 significa que a traqueíte seria 11% do conjunto; 48% contra 46% é uma razão de aproximadamente 1 para 1. As duas leituras diferem por um fator próximo de 8. É possível que os denominadores sejam diferentes — todos os internados em terapia intensiva com crupe, num caso, e apenas as obstruções potencialmente fatais, no outro —, mas o documento não define nenhum dos dois, e quem ler o parágrafo em sequência sairá com uma impressão numérica errada.

Uma redação que amplia demais, e que não é erro de conta. O protocolo municipal escreve, na seção de antibióticos, que “pacientes com critérios de gravidade e necessidade de encaminhamento às unidades de pronto atendimento” devem receber a primeira dose de antibiótico de largo espectro na unidade de origem. O parágrafo abre falando de infecção bacteriana associada — febre alta, toxemia, progressão, falha terapêutica —, mas a frase citada, lida isoladamente, manda antibiótico para todo paciente encaminhado por gravidade, inclusive o crupe viral grave que só precisa de adrenalina e corticoide. Não sei qual das duas leituras o documento pretende, e não escolho: registro que a frase comporta as duas e que a decisão, na criança à sua frente, é do preceptor.

Sobre o teto de 12 mg da dexametasona: ele só morde a partir de 20 kg na dose de 0,6 mg/kg, de 40 kg na de 0,3 e de 80 kg na de 0,15. Em criança de crupe, portanto, o teto é quase sempre irrelevante — o que não é motivo para omiti-lo da prescrição, porque a mesma folha vai ser lida por quem atender uma criança de 25 quilos.

08

A conduta, hora a hora

Voltamos para Nicolly, 2 anos, 12 quilos, duas e dez da manhã. Ela faz estridor que se ouve da porta, tem tiragem de fúrcula, está irritada mas se acalma no colo, cor normal, saturando 96% em ar ambiente. Isso é crupe moderado, e a classificação foi feita sem encostar nela.

O que segue é a noite inteira, marco a marco. Repare que dois dos oito marcos são sobre não fazer coisas, e que o marco mais importante da alta é um relógio, não um exame.

Antes de começar, um item de sala que o protocolo municipal traz e que quase nenhum protocolo clínico traz: deixar a folha de parada pediátrica preenchida e de fácil acesso a todos os profissionais envolvidos no atendimento. Numa doença em que duas em mil crianças precisam de tubo e em que a deterioração, quando vem, é rápida, o gesto de preencher pesos e doses antes de precisar deles é o que separa uma equipe que age de uma equipe que calcula. Faça isso na chegada de qualquer criança com estridor em repouso, mesmo — e principalmente — quando ela parecer estável.

  1. Minuto 0 — o que não se faz

    Nicolly fica no colo da mãe. Ninguém a transfere para a maca, ninguém pede para ela deitar, ninguém abre a boca dela com abaixador de língua, ninguém tenta pegar acesso venoso. O protocolo municipal é explícito: manter a criança o mais confortável possível, de preferência no colo, evitando qualquer situação que possa causar estresse, com cautela em exames detalhados e em especial na inspeção da garganta. A razão está na mecânica: chorar aumenta a pressão negativa inspiratória, colapsa mais a via aérea extratorácica e transforma fluxo laminar em turbulento. Uma criança que chora obstrui mais do que a mesma criança quieta. A sala também se organiza em silêncio. Você diz à mãe, antes de qualquer coisa, o que vai acontecer nos próximos minutos, porque mãe informada segura criança calma. E pede à técnica que traga o material sem aparato — monitor com alarme baixo, oxímetro no dedo do pé se o da mão incomodar, nebulizador já montado.

  2. Minuto 2 — classificar com os olhos, e escrever o peso

    Cinco observações resolvem a classificação: estridor em repouso ou só com agitação; grau de tiragem; entrada de ar à ausculta feita com a criança no colo; cor; nível de consciência. Nicolly tem estridor em repouso e tiragem de fúrcula, com boa entrada de ar, cor normal e sensório preservado — crupe moderado. A saturação de 96% não entra nessa conta, e é importante entender por que não. O guia da Sociedade Brasileira de Pediatria manda oximetria em toda criança com estridor e, na mesma frase, avisa que saturação normal pode gerar impressão falsa de baixo risco: o calibre despenca muito antes de faltar oxigênio no sangue. A oximetria vale quando está baixa; quando está normal, não diz nada sobre a obstrução. O peso vai para o papel agora: 12 kg. Toda dose desta noite sai dele, e conta feita de cabeça no corredor é onde moram os erros de vírgula.

  3. Minuto 5 — o corticoide, que é para quase todo mundo

    Corticoide não é o degrau seguinte: é o primeiro. O protocolo municipal manda dose única de dexametasona até no crupe leve, aquele que vai para casa em seguida — e essa é a informação que mais se perde na prática, porque parece excessivo tratar uma criança que está bem. Trata-se porque o corticoide acelera a resolução dos sintomas, reduz a necessidade de retorno ao atendimento e diminui o tempo de internação; o guia acrescenta que reduz também a necessidade de terapia intensiva e a necessidade de associar epinefrina. A dose de Nicolly: 0,15 mg/kg × 12 kg = 1,8 mg. Na ampola de 4 mg/mL, são 0,45 mL. Via oral, intramuscular ou intravenosa — o protocolo diz que as três funcionam, e como ela engole bem, a oral evita uma agulha e uma choradeira. As doses de 0,15, 0,3 e 0,6 mg/kg são descritas como igualmente eficazes pelo protocolo municipal, com teto de 12 mg; o guia da Sociedade Brasileira de Pediatria prefere escalonar a dose pela gravidade. A divergência está no bloco próprio; para uma criança moderada, qualquer das duas leituras cabe. Se não houver dexametasona, a alternativa praticável é fosfato sódico de prednisolona, 1 mg/kg/dia, com teto de 40 mg/dia — para Nicolly, 12 mg, que na solução de 3 mg/mL são 4 mL. A diferença que importa: prednisolona precisa de doses diárias por 2 a 3 dias, enquanto a dexametasona resolve em dose única, porque age por mais de 48 horas. Dose única é uma vantagem clínica real quando a família mora longe.

  4. Minuto 8 — a adrenalina nebulizada, e o que ela compra

    Crupe moderado a grave recebe epinefrina nebulizada; crupe leve não recebe. A dose é 0,5 mL/kg da solução 1 mg/mL, que é a mesma coisa que 1:1000, sem diluir, com teto de 5 mL. Para Nicolly, 0,5 × 12 = 6 mL, acima do teto: a dose é 5 mL, ou seja, cinco ampolas de 1 mL, o que corresponde a 5 mg de epinefrina no copo do nebulizador. O fluxo de oxigênio do protocolo é 6 L/min. Cinco miligramas parece muito porque a gente compara com a dose intramuscular da anafilaxia, que está na casa de décimos de miligrama. A comparação é enganosa: aqui a droga age topicamente sobre a mucosa da via aérea e a absorção sistêmica é pequena. Ainda assim, o guia registra que estudos controlados não mostraram efeitos colaterais com uma dose, mas relata o caso de uma criança previamente saudável com crupe grave que desenvolveu taquicardia ventricular e infarto do miocárdio após epinefrina inalatória. Um relato de caso não muda a indicação; muda o cuidado de monitorizar. Registre no papel a hora exata. Essa marca vale mais do que qualquer anotação de exame que você faça hoje, porque é dela que sai a hora da alta. Uma observação que o capítulo não pode esconder: a bula da ampola de epinefrina 1 mg/mL declara uso intramuscular, intravenoso e subcutâneo, e não lista nebulização entre as vias nem crupe entre as indicações. Você está usando fora de bula, com respaldo de um protocolo municipal e de um guia de sociedade, com o insumo fornecido pelo Sistema Único de Saúde. Duas notas de indicação que costumam faltar. A primeira: o guia da Sociedade Brasileira de Pediatria inclui, além do crupe moderado e grave, as crianças com procedimento ou manipulação prévias da via aérea superior — o que amplia a indicação para além da graduação de gravidade. A segunda: a experiência clínica citada pelo guia sugere que as doses podem ser repetidas a cada 2 horas nos casos de falência respiratória, e o fluxograma municipal manda repetir se houver recorrência ou desconforto intenso. Repetir é previsto; repetir sem reavaliar o diagnóstico, não.

  5. Minuto 10 — oxigênio, se for preciso, e do jeito que não agita

    Nicolly satura 96% e não precisa de oxigênio. Se precisasse, a técnica seria a que o protocolo descreve: blow-by — segurar a fonte de oxigênio a alguns centímetros do rosto, criando uma nuvem em torno do nariz e da boca, sem contato com a pele, sem máscara e sem cânula nasal, porque essas causam mais agitação. É a mesma lógica de tudo o mais nesta noite: o dispositivo que incomoda menos ganha do dispositivo que entrega mais. Na criança que está na faixa de ameaça à vida, o protocolo sobe para oxigênio a 15 L/min, adrenalina nebulizada e terapia intensiva — e adverte, em letras maiúsculas no original, para não protelar intubação orotraqueal em paciente com critérios de gravidade, esforço respiratório e necessidade de oxigênio em alto fluxo. Duas coisas que não são tratamento e continuam sendo prescritas: vapor quente e ar umidificado, que os estudos não mostraram melhorar nada, e medicamentos para tosse, que não são recomendados. O heliox tem pouca evidência para uso rotineiro e, acrescenta o protocolo com honestidade administrativa, não existe nas unidades.

  6. Minuto 40 — a primeira reavaliação, e a armadilha dela

    Trinta minutos depois da nebulização, Nicolly está visivelmente melhor: o estridor sumiu em repouso, a tiragem cedeu, ela pegou no sono no colo. É exatamente aqui que a alta errada acontece. O efeito da epinefrina é ultrarrápido e breve. O guia da Sociedade Brasileira de Pediatria dá a duração da ordem de 2 horas e avisa que o paciente pode voltar ao estado de desconforto inicial quando a ação termina; o protocolo municipal é mais enfático e trata o fenômeno como efeito de rebote depois de 2 horas, com alerta destacado. Chamem como quiserem — retorno ao basal ou rebote —, a consequência prática é a mesma: a melhora dos primeiros trinta minutos não é informação sobre o destino da criança. O que essa melhora informa é outra coisa, e é boa: ela confirma que o diagnóstico é crupe. Uma criança que não melhora nada com adrenalina e corticoide está dizendo que você está tratando a doença errada.

  7. Hora 3 — a decisão da alta

    O critério de alta do protocolo municipal tem duas partes e as duas precisam estar presentes: criança livre de estridor em repouso e no mínimo 3 horas de observação depois da nebulização de epinefrina, quando esta foi necessária. Acrescento os dois itens práticos que o mesmo documento usa como critério de encaminhamento e que, portanto, precisam estar resolvidos para a alta: a criança está aceitando líquidos e não houve recorrência dos sintomas após a melhora inicial. O texto do protocolo fala em 3 a 4 horas em dois lugares e em mínimo de 3 horas no critério de alta; o guia da Sociedade Brasileira de Pediatria manda considerar internação diante de piora 2 horas após a epinefrina. São três relógios ligeiramente diferentes para a mesma pergunta. Três horas é o piso defensável nos dois documentos; quatro é o confortável. Abaixo de três, não há amparo. Nicolly completa três horas sem estridor em repouso, mamou, está dormindo. Vai para casa às 5h20 com o corticoide já dado — dose única, nada a tomar em casa — e com as instruções de retorno escritas, não faladas.

  8. A outra rota — quando não é crupe

    Se a criança da porta fosse Enzo, nada acima teria acontecido. Diante de epiglotite suspeita — estridor sem tosse ladrante, voz abafada, salivação, postura em tripé, febre alta, aparência tóxica, tudo instalado em horas —, a sequência é outra e é curta: manter a criança na posição que ela escolheu e no colo de quem a trouxe; oferecer oxigênio por aproximação se necessário; não examinar a orofaringe; não deitar; não puncionar veia na sala; e acionar imediatamente quem assegura via aérea pediátrica, com transferência para ambiente controlado. O protocolo municipal coloca a suspeita de epiglotite entre as dúvidas diagnósticas que mandam encaminhar à urgência, e não oferece manejo — porque manejo de epiglotite não se faz numa unidade de pronto atendimento de bairro. Se a criança fosse a terceira, a da traqueíte bacteriana, o sinal seria terapêutico: recebeu corticoide e adrenalina e não melhorou, mantendo febre alta e toxemia. Aí o protocolo municipal manda administrar a primeira dose de antibiótico de largo espectro na unidade de origem antes do encaminhamento, sugerindo cefalosporina de segunda ou terceira geração — e a Rename 2024 nos obriga a um ajuste, porque cefuroxima não consta do elenco nacional e ceftriaxona consta. O guia da Sociedade Brasileira de Pediatria acrescenta a regra negativa: na traqueíte bacteriana não há lugar para corticoide nem para epinefrina inalatória. Ela vai para terapia intensiva, e a intubação, quando necessária, é feita em centro cirúrgico com endoscopia. E se fosse corpo estranho — começo súbito, sem pródromo, criança que estava comendo ou brincando —, nem corticoide nem adrenalina fariam qualquer coisa, e a conduta é a remoção por quem faz endoscopia de via aérea. Esse cenário não tem capítulo próprio neste nível; reconhecê-lo é obrigação deste.

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Como saber se está funcionando

Reavaliar crupe é olhar cinco coisas, sempre as mesmas, sempre com as mesmas palavras, e anotar a hora. O vocabulário estável é o que permite que quem assumir o plantão às sete compare o que vê com o que você viu — “estridor em repouso, tiragem de fúrcula” é comparável; “desconforto respiratório leve” não é.

Há uma complicação que só aparece depois que tudo dá certo, e por isso ela precisa estar aqui, na reavaliação, e não no bloco de conduta. O guia da Sociedade Brasileira de Pediatria dedica uma seção ao edema pulmonar que se instala no momento em que a obstrução alta é aliviada, em pacientes sem doença pulmonar ou cardíaca prévia. O mecanismo é de pressão: durante o esforço contra uma via aérea estreitada, a pressão pleural fica muito mais negativa que a pressão dentro da via aérea, e essa negatividade se transmite ao interstício pulmonar, reduzindo a pressão em torno dos vasos e puxando água para fora deles.

Depois de aliviar obstrução importante, dessaturação e estertores levantam a possibilidade de edema pulmonar relacionado à pressão negativa. Isso não dispensa checar ventilação, permeabilidade da via aérea, posição do tubo quando presente e outras causas de deterioração. Reavalie imediatamente com a equipe; a nova hipótese orienta o suporte, sem excluir problemas do procedimento antes de examiná-los.

Estridor em repousoAntes do tratamento, 30 min após a nebulização, e depois de hora em hora até a alta

Esperado: Desaparecer em repouso, restando no máximo com choro ou agitação — é o critério de alta do protocolo municipal

Se não melhora: Estridor persistente com esforço importante ou piora de comportamento exige escalonamento e avaliação da via aérea. Rever diagnóstico e tratamento; doses adicionais de adrenalina podem ser necessárias sob monitorização enquanto se organiza suporte.

Esforço respiratório: tiragem, batimento de asa nasal, frequência respiratóriaJunto com o estridor, na mesma passada

Esperado: Retrações regredindo de cima para baixo — fúrcula primeiro, depois intercostal — e frequência respiratória caindo com a criança tranquila

Se não melhora: Tiragem acentuada, batimento de asa nasal e taquipneia caracterizam desconforto respiratório grave e mandam encaminhar. Respiração paradoxal é sinal de fadiga: o guia a descreve levando à piora da ventilação, e é situação de terapia intensiva

Entrada de ar à auscultaA cada reavaliação, com a criança no colo

Esperado: Murmúrio vesicular audível e simétrico, melhorando junto com o esforço

Se não melhora: Queda progressiva da entrada de ar com estridor que diminui é a combinação mais perigosa da noite: menos ruído porque passa menos ar. Trate como piora, nunca como melhora

Nível de consciênciaContinuamente, e formalmente a cada reavaliação

Esperado: Criança irritada quando estimulada e que se acalma no colo; interage entre as crises de tosse

Se não melhora: Letargia, irritabilidade intensa e exaustão respiratória caracterizam comprometimento do estado geral e mandam encaminhar; o guia lista alteração do nível de consciência entre os indicadores de risco de falência respiratória. A criança que fica subitamente quieta depois de horas agitada está piorando

Cor — perfusão, cianose de lábios e extremidadesA cada reavaliação, em luz suficiente

Esperado: Corada, perfundida, sem cianose em repouso nem com agitação

Se não melhora: Cianose de lábios ou extremidades é critério de encaminhamento no protocolo municipal, ao lado da saturação abaixo de 92%. Cianose em repouso é o extremo da escala e situação de terapia intensiva

Saturação de oxigênioNa chegada, obrigatória em toda criança com estridor, e sempre que houver mudança clínica

Esperado: Acima de 92%, sabendo que um valor normal não exclui obstrução grave

Se não melhora: Saturação abaixo de 92% é critério de encaminhamento; hipoxemia documentada indica doença avançada e falência respiratória iminente, e o guia a considera indicativo de internação em terapia intensiva. Se a criança tem crupe apenas moderado e mesmo assim está hipoxêmica, procure acometimento das vias aéreas inferiores

O relógio da adrenalina, e a capacidade de beberHora anotada da nebulização; janela de 2 horas para o retorno do efeito; 3 a 4 horas para a decisão de alta

Esperado: Nenhuma recorrência de estridor em repouso dentro da janela, e criança aceitando líquidos por boca

Se não melhora: Recorrência dos sintomas após melhora inicial é critério explícito de encaminhamento, assim como recusa de líquidos, vômitos e risco de desidratação. Repetir a epinefrina se houver recorrência ou desconforto intenso, e considerar internação se a piora ocorrer dentro de 2 horas da dose

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Onde o erro machuca

Olhar a garganta, deitar a criança ou tirá-la do colo diante de estridor com febre alta, voz abafada e salivação

O dano: É o erro que mata mais rápido neste capítulo, e é o mais automático de todos: ninguém decide examinar a orofaringe de uma criança com dor de garganta, apenas examina. Numa supraglotite, o tecido acima das cordas não tem cartilagem, colapsa na inspiração e já está edemaciado; estímulo, choro e decúbito somam-se a isso. O protocolo municipal manda cautela com exames detalhados, especialmente a inspeção da garganta, e o guia registra que essa região é de fácil colapso, o que torna as infecções ali potencialmente letais.

Como pegar a tempo: Faça a triagem pelas seis perguntas antes de qualquer manobra. Se a resposta apontar para epiglotite, o exame físico acaba onde está: criança na posição que escolheu, no colo, oxigênio por aproximação se necessário, e chamada imediata de quem assegura via aérea pediátrica. O acesso venoso, se for necessário, se obtém no ambiente controlado, não no consultório.

Medir a gravidade do crupe pela saturação de oxigênio

O dano: Duas consequências opostas, as duas ruins. A primeira é dar alta a uma criança com estridor em repouso e tiragem porque “está saturando 97” — a luz da via aérea se estreita marcadamente antes de a criança ficar hipóxica, e o guia avisa que a saturação normal gera impressão falsa de baixo risco. A segunda é tranquilizar-se com a subida da saturação depois do oxigênio, sem notar que o esforço não mudou.

Como pegar a tempo: Gradue pelo estridor em repouso, pela tiragem, pela entrada de ar, pela cor e pelo nível de consciência. Faça a oximetria — ela é obrigatória em toda criança com estridor —, mas use-a só quando estiver baixa: hipoxemia aqui significa doença avançada e falência iminente, e não gravidade intermediária.

Não dar corticoide ao crupe leve, “porque ele vai para casa mesmo”

O dano: De todos os erros desta lista, é o mais comum e o que menos deixa rastro: a criança melhora sozinha na maioria das vezes e ninguém liga a segunda visita à omissão da primeira. O corticoide acelera a resolução dos sintomas, reduz a necessidade de retorno ao atendimento médico e diminui o tempo de internação; o guia acrescenta redução da necessidade de terapia intensiva e da necessidade de associar epinefrina. O protocolo municipal manda dose única de dexametasona para o crupe leve com todas as letras.

Como pegar a tempo: Trate o crupe leve com dose única de corticoide antes da alta, por via oral se a criança engole. É uma dose só, cabe na consulta, e dispensa receita de continuidade — a dexametasona age por mais de 48 horas, que é justamente a janela do pico da doença.

Dar alta trinta ou sessenta minutos depois da adrenalina nebulizada, aproveitando que a criança “ficou ótima”

O dano: A adrenalina age por vasoconstrição da mucosa, não sobre a inflamação: o efeito é quase instantâneo e dura da ordem de 2 horas. A criança que sai de alta aos 40 minutos volta a obstruir dentro do carro ou em casa, longe de qualquer oxigênio. O protocolo municipal chega a destacar o risco de rebote após 2 horas como alerta gráfico.

Como pegar a tempo: Anote a hora da nebulização e conte a partir dela: mínimo de 3 horas de observação, com 3 a 4 horas como janela recomendada, e alta só com ausência de estridor em repouso. Se houver recorrência, repita a adrenalina e reavalie o destino — piora dentro de 2 horas da dose é argumento para internar.

Insistir em nebulização com soro ou vapor, em xarope para tosse, ou sedar a criança agitada

O dano: Nebulização com solução fisiológica e ar umidificado não têm eficácia comprovada, e o guia manda desencorajar a nebulização se a criança se agitar com o procedimento — o que transforma um placebo em dano, porque agitação fecha via aérea. Estudos não demonstraram melhora com vapor quente. Medicamentos para tosse não são recomendados. E sedar a criança agitada apaga o principal sinal de monitorização que você tem, que é o nível de consciência, além de deprimir o esforço que a está mantendo ventilada.

Como pegar a tempo: O que acalma criança com crupe é o colo, o ambiente silencioso e o tratamento que funciona. Se for nebulizar, que seja a epinefrina indicada, com a criança no colo dos pais e em ambiente calmo — e interrompa se ela se agitar mais com a máscara do que sem ela. Agitação persistente numa criança com obstrução alta é sinal para reavaliar gravidade, não para sedar.

Repetir tratamento sem reavaliar gravidade, entrega e diagnóstico

O dano: Repetir nebulizações sem reavaliar pode atrasar o reconhecimento de obstrução ameaçadora ou de outra causa, como traqueíte bacteriana. Resposta insuficiente não confirma essa etiologia sozinha. Febre alta, toxemia, secreções, progressão e resposta ao suporte devem ser avaliadas em conjunto, com ajuda experiente e preparo da via aérea.

Como pegar a tempo: Após resposta insuficiente, chamar ajuda experiente, reavaliar a via aérea e procurar alternativas diagnósticas. Se necessário, repetir adrenalina nebulizada sob monitorização e preparar suporte apropriado; nem repetição automática nem proibição automática de nova dose.

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O que dizer ao paciente e à família

Quase tudo o que se diz nesta noite tem função clínica, não apenas humana. Mãe informada segura criança calma, e criança calma obstrui menos — a conversa é parte do tratamento da obstrução, não um adendo educado a ele. E a orientação de alta é o único tratamento que continua funcionando depois que a família sai pela porta.

Na chegada, antes de qualquer manobra — comprar calma com informação

Mãe, pode continuar com ela no colo assim mesmo, é o melhor lugar para ela agora. Esse barulho que a senhora está ouvindo vem da garganta dela, que inchou por causa do vírus do resfriado, e é por isso que a tosse ficou com esse som de cachorrinho. Eu não vou mexer nela, não vou deitar, não vou abrir a boca dela. Vou só olhar de longe e escutar o peito com ela aí no seu colo. Quanto mais calma ela ficar, mais fácil o ar passa — chorar aperta ainda mais. Então a senhora é parte do tratamento aqui.

Explicando por que o remédio é um só e não vai ter receita para casa

Eu vou dar um corticoide para ela agora, por boca, e é uma dose só. A senhora não vai ter que dar nada em casa. Esse remédio fica agindo por mais de dois dias, e dois dias é justamente o tempo em que essa doença costuma estar no pior. Ele não mata o vírus, ele desincha a garganta — e desinchar é o que faz o ar voltar a passar.

Antes da nebulização de adrenalina, para que a melhora rápida não seja mal lida

Vou fazer uma inalação com um remédio que aperta os vasinhos da garganta e desincha na hora. A senhora vai ver a diferença em uns quinze minutos, e eu quero que a senhora saiba de uma coisa desde já: esse efeito é rápido, mas dura umas duas horas. Por isso a gente não vai embora quando ela melhorar. A gente vai ficar aqui pelo menos três horas depois da inalação, para ver se ela se mantém bem sozinha. Se eu deixar a senhora ir embora daqui a meia hora, ela pode piorar no meio do caminho.

Quando a família pergunta por radiografia ou por exame de sangue

Entendo a pergunta, e a resposta é que aqui o exame atrapalha mais do que ajuda. Metade das crianças com essa doença tem a radiografia do pescoço normal, e criança sadia às vezes tem a radiografia parecendo doente — então o exame não confirma nem descarta. Pior: para fazer, eu teria que tirar ela do seu colo, levar para outra sala e deitar, e é aí que ela chora e aperta mais. O diagnóstico dela é feito olhando e escutando, e isso eu já fiz.

Na alta — as instruções que precisam ser escritas, e não faladas

Estou escrevendo aqui as coisas que fazem a senhora voltar correndo, e quero que a senhora leia comigo agora. Voltar se o barulho na respiração aparecer de novo com ela quieta, parada, sem chorar. Voltar se ela começar a puxar o pescoço ou as costelas para respirar. Voltar se ela ficar muito molinha, sonolenta demais, ou se os lábios ficarem roxos. E voltar se ela não estiver conseguindo beber. Mais uma coisa importante: hoje à noite e amanhã à noite ela pode piorar um pouco de madrugada — essa doença faz isso, piora à noite e melhora de dia, e o pior costuma ser no segundo ou terceiro dia. Piorar um pouco à noite e melhorar de manhã é o esperado. O que não é esperado são os quatro sinais que eu escrevi aqui.

Diante da suspeita de epiglotite — falar com a mãe sem descrever a catástrofe

Mãe, eu preciso da sua ajuda para uma coisa muito específica: mantenha ele exatamente nessa posição, sentado, inclinado para frente, e não deixe ninguém deitar ele. Nem eu. A garganta dele está muito inchada, num lugar diferente do que a gente vê nos resfriados, e essa posição é a que mantém o ar passando. Eu já chamei a equipe que cuida da respiração das crianças e eles estão vindo. Não vou olhar a boca dele nem furar o braço dele aqui — isso vai ser feito lá, com tudo preparado. A senhora fica junto o tempo todo.

Explicando à equipe, na passagem de plantão, por que a criança não pode ir embora ainda

Nicolly recebeu dexametasona 1,8 mg por boca às 2h15 e adrenalina nebulizada 5 mL às 2h20 — dose de teto, ela tem 12 quilos. Melhorou aos 40 minutos, sem estridor em repouso desde então. A janela de observação vence às 5h20, e é essa hora que decide, não a aparência dela agora. Se voltar a fazer estridor em repouso antes disso, é para repetir a adrenalina e me chamar, porque piora dentro de duas horas da dose muda o destino dela de casa para internação. O corticoide é dose única, não tem nada pendente na prescrição.

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Onde bons médicos discordam

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.

Qual régua gradua o crupe no Brasil — e a resposta é que há duas, incompatíveis entre si

Escore de Westley, com cortes próprios — protocolo municipal de Belo Horizonte, 2026

O documento gradua toda a conduta pelo escore de Westley: crupe leve é escore menor que 2, e recebe apenas dexametasona; crupe moderado a grave é escore superior a 3, e recebe dexametasona mais epinefrina nebulizada. Duas ressalvas de leitura: os escores 2 e 3 não caem em nenhuma das duas definições, e o documento não publica a tabela do escore em nenhuma de suas dezesseis páginas — quem tiver apenas esse protocolo na mão não consegue calcular o número de que ele depende.

SMSA/PBH. Protocolo: abordagem e manejo — crupe na infância, 2026, seção de tratamento e fluxograma

Escore clínico próprio, com cinco sinais e outros cortes — Sociedade Brasileira de Pediatria, 2017

O guia publica uma tabela de escore clínico para abordagem do estridor com cinco sinais — estridor, retração, entrada de ar, cor e nível de consciência —, cada um pontuado de 0 a 3, e fecha com os cortes: menos de 6 é leve, 7 a 8 é moderado, mais de 8 é grave. O máximo possível é 15, e não 17 como no Westley original, que usa pesos desiguais. O escore 6 não pertence a nenhuma das três classes.

SBP, Departamento Científico de Emergências. Crupe viral e bacteriano, jan. 2017, Tabela 1

Como decidir

Não use número que você não pode calcular, e não misture os cortes de uma escala com os itens de outra — uma criança com 6 pontos na tabela da Sociedade Brasileira de Pediatria não é classificável, e um Westley de 3 não é classificável pelo protocolo municipal. Para a criança à sua frente, gradue pelos achados que as duas fontes de fato compartilham, que são os cinco da tabela de graduação deste capítulo: estridor em repouso, esforço, entrada de ar, cor e nível de consciência. Se o seu serviço tiver protocolo institucional próprio, ele é a régua — e vale descobrir qual é antes do plantão, não durante.

A dose de dexametasona é única para todos ou escalonada pela gravidade?

Doses equivalentes — protocolo municipal, 2026

O documento afirma que doses de 0,15, 0,3 e 0,6 mg/kg são igualmente eficazes, por via oral, intramuscular ou intravenosa, com teto de 12 mg, e sustenta a afirmação em ensaios comparativos citados na bibliografia. No fluxograma, porém, ele mesmo escalona: 0,15 a 0,3 mg/kg para o leve-moderado e 0,6 mg/kg para o grave — de modo que o texto e o fluxograma do mesmo documento não dizem exatamente a mesma coisa.

SMSA/PBH, 2026, seção de corticoides e fluxograma da página 12

Dose escalonada pela gravidade — Sociedade Brasileira de Pediatria, 2017

O guia recomenda dexametasona em dose única variando de 0,15 mg/kg no crupe leve até 0,6 mg/kg no crupe grave, e a tabela de tratamento repete o escalonamento: 0,15 a 0,3 mg/kg no leve, 0,3 a 0,6 mg/kg no moderado. A linha do crupe severo dessa mesma tabela traz “0.6 mg IM”, sem o por quilo — leitura literal que subdosaria o caso mais grave na proporção do peso da criança, e que o texto corrido do próprio guia desmente.

SBP, jan. 2017, seção de corticosteroides e Tabela 2

Como decidir

As duas posições concordam no essencial — dose única, qualquer via, corticoide para todos — e divergem numa faixa em que o próprio protocolo municipal diz não haver diferença de eficácia. Para a criança à sua frente, o critério prático é outro: qual apresentação você tem. Com ampola de 4 mg/mL, 0,6 mg/kg numa criança de 12 kg são 1,8 mL, perfeitamente administráveis; com elixir de 0,1 mg/mL, a mesma dose vira 72 mL de líquido, que criança nenhuma bebe, e 0,15 mg/kg vira 18 mL, que já é bastante. A apresentação disponível decide mais do que a divergência.

Sem dexametasona, qual é a alternativa — e ela existe no elenco do Sistema Único de Saúde?

Prednisolona oral por 2 a 3 dias — protocolo municipal, 2026

Na ausência de dexametasona, o documento indica prednisolona por via oral, 1 mg/kg/dia, com dose máxima de 40 mg/dia, e registra explicitamente que a alternativa exige doses diárias por 2 a 3 dias, perdendo a vantagem da dose única. Registra também que a budesonida nebulizada não é utilizada de rotina por ser mais cara, de administração mais difícil, e por não estar na relação municipal de medicamentos.

SMSA/PBH, 2026, seção de corticoides

Budesonida inalatória 2 mg — Sociedade Brasileira de Pediatria, 2017

O guia afirma que a budesonida inalatória reduz os sintomas de gravidade do crupe em comparação ao placebo e é semelhante à dexametasona nos casos leves e moderados, na dose inalatória de 2 mg, e a coloca na tabela de tratamento do crupe moderado como alternativa à dexametasona de 0,3 a 0,6 mg/kg.

SBP, jan. 2017, seção de corticosteroides e Tabela 2

Como decidir

Confira o elenco antes de escolher: na Rename 2024, budesonida existe como suspensão para inalação nasal de 32, 50 e 64 mcg e como aerossol, cápsula e pó inalatório de 200 e 400 mcg vinculados aos protocolos de asma e de doença pulmonar obstrutiva crônica — suspensão para nebulização não consta, e a dose de 2 mg exigiria 4 mL de uma suspensão de 0,5 mg/mL que o elenco nacional não oferece. Prednisolona, por outro lado, consta em solução oral de 1 e de 3 mg/mL. Para a criança à sua frente, a pergunta que decide é qual frasco existe na farmácia da sua unidade hoje, e se a família tem condição de dar mais duas ou três doses em casa caso a escolha caia na prednisolona.

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O raciocínio, em voz alta

Maitê Cassol tem 14 meses e 9 quilos. Chega à unidade de pronto atendimento à 1h50 de uma terça-feira de julho, no colo do pai. Coriza há três dias, tosse desde ontem; hoje à noite a tosse mudou de som e ela acordou fazendo barulho para puxar o ar. Está no colo, acordada, com estridor audível a dois metros, tiragem de fúrcula e intercostal, batimento de asa nasal, rouca, cor normal, respondendo ao pai. Temperatura axilar de 37,9 °C. Saturação de 97% em ar ambiente. Bebe o que oferecem. Nasceu de 36 semanas; nunca teve quadro parecido.

  1. primeiro, a pergunta que muda a rota

    Antes de graduar, separe. Houve pródromo de três dias — pesa para crupe. A voz está rouca e a tosse mudou de som — corda vocal comprometida, portanto abaixo da epiglote. Não há relato de dor para engolir nem salivação, e ela bebe o que oferecem. Febre baixa, criança que interage. Instalação em dias, não em horas. Cinco das seis perguntas apontam na mesma direção: é crupe. A garganta não precisa ser examinada, e não será.

  2. gradue com os cinco achados, e ignore o oxímetro

    Estridor presente em repouso, tiragem em dois andares com batimento de asa nasal, entrada de ar preservada, cor normal, sensório normal. Isso é crupe moderado. A saturação de 97% não entra na classificação — a luz da via aérea se estreita muito antes de a criança dessaturar, e o guia avisa que a saturação normal gera impressão falsa de baixo risco. Anote também o fator de risco que ela tem: prematuridade, que está na lista do protocolo municipal e vai pesar na decisão de quanto tempo observar.

  3. escreva as duas doses, em mililitros, antes de administrar qualquer coisa

    Peso 9 kg. Dexametasona 0,15 mg/kg dá 1,35 mg; na ampola de 4 mg/mL, são 0,34 mL, por boca, dose única. Se a unidade só tiver elixir de 0,1 mg/mL, a mesma dose são 13,5 mL. Se não houver dexametasona, prednisolona 1 mg/kg dá 9 mg, que na solução de 3 mg/mL são 3 mL — com a diferença de que ela precisará de mais doses diárias por 2 a 3 dias. Epinefrina nebulizada: 0,5 mL/kg × 9 kg = 4,5 mL da solução 1 mg/mL, sem diluir, abaixo do teto de 5 mL. São quatro ampolas e meia, 4,5 mg no copo, com oxigênio a 6 L/min. Ela é uma das poucas crianças em que o cálculo por peso muda alguma coisa: acima de 10 kg todo mundo recebe o teto de 5 mL.

  4. marque a hora, e não confunda melhora com alta

    Nebulização às 2h05. Às 2h35 ela dorme no colo do pai, sem estridor em repouso, com tiragem mínima. Essa melhora informa que o diagnóstico está certo — crupe responde, traqueíte bacteriana não — e não informa nada sobre a alta. O efeito da adrenalina dura da ordem de 2 horas. A janela de observação corre até, no mínimo, as 5h05, e o protocolo municipal recomenda 3 a 4 horas.

  5. decida às cinco da manhã, com os quatro itens na mão

    Às 5h10 Maitê está sem estridor em repouso desde as 2h35, sem recorrência, mamou duas vezes, e o pai tem carro. Os quatro itens estão presentes: ausência de estridor em repouso, três horas cumpridas após a adrenalina, hidratação oral mantida, família com condição de retornar. Alta. Na folha vai escrito: corticoide já administrado em dose única, nada a tomar em casa; a piora noturna nos próximos dois dias faz parte do esperado, com o pior entre o segundo e o quarto dia; e os quatro gatilhos de retorno imediato — estridor com a criança quieta, esforço para respirar, sonolência excessiva ou recusa de líquidos, lábios roxos. E uma pergunta que você faz antes de eles saírem: já vieram por isso nas últimas 24 horas? Retorno não planejado em 24 horas é fator de risco para crupe grave, e quem atende a segunda vez raramente sabe da primeira.

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Faça você

Gael Frainer tem 3 anos e 14 quilos. Chega às 23h40 de um sábado, no colo da mãe, trazido de carro. A mãe conta que ele jantou normalmente às 19h, brincou, e que perto das 21h começou a reclamar que a garganta doía; às 22h a febre subiu e ele não quis mais água. Agora está na maca, sentado, o tronco jogado à frente e apoiado nas mãos, boca entreaberta, com saliva acumulada no canto da boca. Não tosse. As poucas palavras que diz saem abafadas, e não há rouquidão. Temperatura axilar de 39,4 °C. Está pálido, com olhar parado, e não se interessa pelo que acontece na sala. Faz um ruído inspiratório contínuo. Saturação de 95% em ar ambiente. Você é o interno; o pediatra plantonista está com outro paciente e a unidade fica a 25 minutos do hospital de referência.

  1. diga em voz alta qual é a hipótese e qual foi o dado que a fez

    Estridor sem tosse ladrante e sem rouquidão, voz abafada, salivação com recusa de líquidos, postura em tripé, febre alta com aparência tóxica, e tudo isso instalado em pouco mais de duas horas numa criança que jantou bem. Seis perguntas, seis respostas contra crupe. O dado que resolve o empate, se houvesse empate, é a velocidade: horas, não dias. Trate como obstrução supraglótica até prova em contrário — e a prova não virá de exame nenhum feito aqui.

  2. liste, em ordem, os gestos que você não vai fazer — e o que faz em lugar deles

    Não introduzir abaixador de língua nem inspecionar a orofaringe; não deitar; não tirar do colo da mãe nem separar; não puncionar veia na sala; não forçar máscara no rosto; não pedir radiografia cervical. Em lugar disso: manter a posição que ele escolheu, oxigênio por aproximação se necessário, ambiente silencioso, e a chamada imediata de quem assegura via aérea pediátrica, com acionamento do transporte para ambiente controlado. Diga à mãe, com estas palavras, que ninguém vai deitar o filho dela — ela é quem vai segurar a posição enquanto vocês esperam.

  3. resolva a tentação da adrenalina e do corticoide

    A pergunta aparece sempre: “e se eu nebulizar adrenalina enquanto espero?”. Os dois documentos brasileiros indicam a epinefrina nebulizada para crupe moderado a grave, não para supraglotite, e nenhum deles oferece manejo medicamentoso de epiglotite — o protocolo municipal a coloca entre as dúvidas diagnósticas que mandam encaminhar. Some-se o custo do gesto: colocar máscara no rosto de uma criança que está mantendo a via aérea aberta por postura é o tipo de manipulação que a literatura de crupe passa o documento inteiro pedindo para evitar. Este é um ponto em que o capítulo não decide por você: registre que a indicação não existe nos documentos brasileiros abertos, que a decisão numa unidade sem via aérea avançada é de julgamento, e que ela se toma com o preceptor, não sozinho.

  4. diga o que muda se, quatro horas depois, o quadro for outro

    Imagine que a história fosse diferente: três dias de coriza, tosse de latido, rouquidão, febre de 39,2 °C, aparência tóxica — e que ele já tivesse recebido dexametasona e adrenalina nebulizada há duas horas, sem melhora nenhuma. Aí a hipótese muda de novo, e a falta de resposta é o próprio argumento: o guia diz que a ausência de resposta à epinefrina e ao corticosteroide é o que diferencia o crupe bacteriano do viral. Nesse cenário a conduta é primeira dose de antibiótico de largo espectro ainda na unidade de origem, com a ressalva de elenco — cefuroxima não consta da Rename 2024, ceftriaxona consta —, transferência para terapia intensiva, e a lembrança de que ali corticoide e adrenalina inalatória não têm papel.

Ver como fecharíamos

Hipótese: epiglotite (supraglotite) aguda, construída sobre seis achados que empurram para longe do crupe — ausência de pródromo, ausência de tosse ladrante e de rouquidão, voz abafada, sialorreia com disfagia, postura em tripé mantida por escolha, e febre alta com aparência tóxica — e sobre um sétimo que resolve sozinho: a instalação em horas. Conduta imediata: nenhuma manipulação. Criança na posição que escolheu, no colo da mãe, ambiente calmo, oxigênio apenas por aproximação se houver necessidade, oximetria contínua sem incomodar. Chamada imediata de quem assegura via aérea pediátrica e acionamento do transporte para o hospital de referência, com a equipe informada de que se trata de obstrução supraglótica suspeita. Nada por via oral, nenhuma punção venosa na sala, nenhuma inspeção de orofaringe, nenhuma radiografia — o guia da Sociedade Brasileira de Pediatria é explícito ao dizer que a radiografia cervical não deve ser realizada em crianças com obstrução das vias aéreas superiores, que a normal não exclui supraglotite e que a alterada não diagnostica crupe. O que fica registrado: a hora de cada sinal, a hora da chamada, e a frase de que nenhuma manobra sobre a via aérea foi realizada na unidade. Se a via aérea for perdida antes da chegada da equipe, o plano é ventilação com bolsa-válvula-máscara e chamada do profissional mais experiente disponível; a técnica de via aérea avançada em si está descrita no capítulo “Via aérea no trauma”, da apostila de Trauma, e não neste. E o fechamento que este capítulo deve à história: o motivo de você provavelmente nunca ver o Gael na vida real está numa vacina. O componente contra Haemophilus influenzae tipo b entra na vacina pentavalente, aplicada aos 2, 4 e 6 meses de idade — o esquema é considerado completo com três doses em menores de 1 ano ou com uma dose acima de 1 ano, e a vacina está indicada até 6 anos, 11 meses e 29 dias. O calendário inteiro é do capítulo “Retomar, não recomeçar”, de Infectologia Pediátrica; aqui a vacina entra apenas como o determinante que mudou a epidemiologia da doença. Pergunte pela caderneta. Criança com esquema incompleto ou sem comprovação devolve a epiglotite ao topo da sua lista — foi por isso que ela ficou rara sem ficar impossível.

Gabarito da questão de abertura
Comentário

No protocolo explicitado, 0,5 mL/kg × 8 kg = 4 mL da solução 1 mg/mL: quatro ampolas, total de 4 mg para nebulização. A dose por via inalatória não deve ser confundida com a intramuscular da anafilaxia. Há protocolos, como o da Sociedade Canadense de Pediatria, que utilizam 5 mL independentemente de idade e peso; portanto, essa alternativa não representa superdose universal, apenas não corresponde ao esquema solicitado. Associar o tratamento indicado com corticosteroide e observar após a adrenalina, pois o efeito é transitório. Fluxo e volume de nebulização devem ser compatíveis com o equipamento, mantendo monitorização clínica.

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Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
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Plano de revisão

Em 7 dias

Compare crupe e epiglotite por história, voz, tosse, saliva, posição e estado geral. Explique por que saturação normal não exclui obstrução grave. Classifique e confira o tratamento de um caso de crupe, escolhendo via e dispositivo apropriados. Diga o que evitar na suspeita de epiglotite e quem deve ser acionado.

Em 30 dias

Após adrenalina, reavalie esforço, estridor em repouso, comportamento e ingestão. Decida observação, repetição monitorizada, internação ou suporte avançado conforme a resposta. Se ela for insuficiente, reconsidere o diagnóstico enquanto trata a obstrução. Antes da alta, cumpra o período de observação após a última dose, confira estabilidade e oriente retorno por recorrência. O título do capítulo lembra a proteção da via aérea no cenário de risco, não uma regra para toda consulta de garganta.

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Agora atenda

Plantão noturno de unidade de pronto atendimento: chega uma criança de 2 anos fazendo ruído na inspiração. Separe crupe de epiglotite pelas seis perguntas antes de encostar, gradue sem usar o oxímetro, prescreva corticoide e adrenalina em mililitros da apresentação que a unidade tem — e decida a hora da alta pelo relógio, não pela aparência.

Laringotraqueíte aguda – A garganta que não se olha — Internato | OsceLabs