PediatriaPneumologia Pediátrica

Resfriado comum na criança

Rinofaringite aguda (resfriado comum) na infância

O resfriado é a infecção que a criança mais vai ter nos primeiros anos e a que menos precisa de receita. Contar a respiração antes de nomear, tratar o desconforto com dose por quilo escrita em mililitros, deixar o antibiótico e o xarope fora da receita com um argumento que a família aceite — e reconhecer o dia em que a história deixa de ser resfriado: a respiração que acelera, a gripe da criança pequena que pede oseltamivir, o ouvido, o seio da face e a tosse que passa de duas semanas.

Fontes deste capítulo

Brasil. Ministério da Saúde; Organização Pan-Americana da Saúde; Fundo das Nações Unidas para a Infância. Manual de quadros de procedimentos: Aidpi Criança — 2 meses a 5 anos. Brasília: Ministério da Saúde, 2017. 74 p. ISBN 978-85-334-2502-6.

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente. Guia de manejo e tratamento de influenza 2023. Brasília: Ministério da Saúde, 2023. 58 p. ISBN 978-65-5993-460-7.

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente. Guia de Vigilância em Saúde. 6. ed. rev. Brasília: Ministério da Saúde, 2024. v. 1, capítulo Coqueluche. ISBN 978-65-5993-506-2.

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Acolhimento à demanda espontânea: queixas mais comuns na Atenção Básica. Brasília: Ministério da Saúde, 2013. (Cadernos de Atenção Básica, n. 28, v. II). ISBN 978-85-334-1973-5.

Brasil. Ministério da Saúde. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais: Rename 2024. Brasília: Ministério da Saúde, 2024. ISBN 978-65-5993-710-3.

01

Responda antes de ler

Mãe de menina de 3 anos com resfriado há 2 dias pergunta o que pode dar em casa. Qual orientação está de acordo com as fontes brasileiras sobre a criança com resfriado?

02

O paciente que você vai ver

Quarta-feira, dez para as cinco da tarde, fim de junho. A unidade básica fecha às sete e a demanda espontânea ainda tem nove fichas na caixa de madeira da recepção. A médica de família que te orienta saiu para uma visita domiciliar do outro lado do bairro e deixou o recado no seu caderno: “atende os de hoje e me liga se alguém não couber no que você sabe”. A ficha de cima diz, na letra da recepcionista: “criança, gripe, mãe quer antibiótico”.

Rafaelina Meireles entra com o filho apoiado no quadril e um papel dobrado na mão. Salvador tem 1 ano e 8 meses, 11 kg na caderneta, e o nariz escorre até o lábio. Ela senta, desdobra o papel — é o bilhete da creche — e começa antes da primeira pergunta. “Doutor, é o quarto resfriado desde março. Ontem a creche me ligou porque ele estava quente, e a professora disse que o catarro dele ficou verde, que isso é infecção, que é para voltar com antibiótico. O filho da minha vizinha teve igualzinho, tomou amoxicilina e sarou em dois dias. Eu entro no caixa do mercado às seis da manhã e não durmo há quatro noites.”

A história sai em pedaços, e você a monta na ordem. Começou há quatro dias com espirros e o nariz escorrendo “água”, e ele seguiu brincando. A tosse chegou no segundo dia, piora quando ele deita e o acorda de madrugada. Na segunda noite o termômetro marcou 38,1 °C; ontem, na creche, 37,8 °C; desde ontem à tarde, nada passou de 37,5 °C. Hoje cedo a secreção ficou grossa e esverdeada. Ele come menos, mas mama no peito à noite, aceita água e suco, e a fralda da manhã veio pesada. Enquanto a mãe fala, Salvador desce do colo e vai atrás de uma bola de papel no chão da sala. A avó deu xarope caseiro de guaco com mel, e ontem à noite Rafaelina pingou duas vezes um descongestionante nasal “infantil” que a atendente da farmácia indicou. O frasco ficou em casa, e ela não sabe o nome do que tem dentro.

Você pede que ela o segure no colo e espera. O chaveiro que sai da bolsa resolve em meio minuto: ele se acalma, mastigando a ponta. Você conta a respiração olhando a barriga, um minuto inteiro no relógio da parede: 32. Não há retração abaixo das costelas, nenhum ruído na inspiração, nenhum chiado. Temperatura axilar de 37,3 °C, frequência cardíaca de 118, e o oxímetro da sala de acolhimento marca 98%. A secreção nas duas narinas é espessa, amarelo-esverdeada; a garganta está levemente avermelhada, sem placas; as duas membranas timpânicas estão translúcidas, sem abaulamento. Ele chora com força na otoscopia e para assim que volta para o peito. Mucosas úmidas. Na caderneta, o peso segue a mesma curva desde os seis meses.

O campo da prescrição do prontuário está em branco. Rafaelina já pôs o bilhete da creche em cima da mesa, virado para você, e espera. Na sala de espera, outras duas mães seguram crianças com o nariz escorrendo.

O que está na sua frente é a infecção que o Salvador mais vai ter nos primeiros anos de vida e a que menos precisa de receita. Esta consulta decide três coisas, e o capítulo é sobre elas: o que ele tem e o que ele não tem; o que vai para a receita e o que fica fora dela — dito de um jeito que uma mãe exausta aceite; e o dia exato em que essa história deixa de ser resfriado e passa a ser outra coisa.

03

Quem adoece disso

Resfriado comum, rinofaringite aguda e rinite viral são nomes do mesmo quadro — o V Consenso Brasileiro sobre Rinites, de 2024, trata os termos como sinônimos. É a infecção mais repetida da infância: o Consenso registra de sete a dez episódios por ano na criança, causados por mais de 200 cepas virais — rinovírus em primeiro lugar, e também coronavírus, influenza, parainfluenza, vírus sincicial respiratório, adenovírus e enterovírus. A incubação dura de dois a quatro dias. Como a imunidade contra um vírus não protege contra os outros duzentos, a criança que acabou de entrar na creche encontra, numa sala só, o repertório viral inteiro de vinte colegas — e o quarto resfriado desde março, na criança que começou a creche em março, é o esperado, não o alarmante.

Na criança saudável, a doença se resolve sozinha: o Consenso descreve a infecção pelos vírus respiratórios como autolimitada, de morbidade curta. O que dá peso ao resfriado não é ele, são as suas vizinhanças: nas populações de risco, a mesma infecção abre caminho para complicações nos seios da face, no ouvido médio e no pulmão. É por isso que a consulta de um resfriado não é consulta de receita, e sim de fronteira — de separar a criança que vai melhorar em casa daquela que já não está mais só resfriada.

A febre é o motor da procura. Pelo documento da Sociedade Brasileira de Pediatria sobre o manejo da febre aguda, de 2021, 20% a 30% das consultas pediátricas têm a febre como queixa principal, e a ansiedade que ela gera tem nome no próprio documento — febrefobia. Os antitérmicos estão entre os fármacos mais usados em criança, com e sem receita, e são causa frequente de intoxicação, quase sempre por erro de dose ou de intervalo. Num estudo brasileiro citado pela SBP, com 575 cuidadores, 43,3% das crianças tinham recebido subdose, 48,7% a dose certa e 8,0% uma dose acima da faixa terapêutica — e 75,1% dos cuidadores tinham recebido a dose de um profissional de saúde. Os frascos tinham a concentração certa; o que variava eram os gotejadores, que entregavam gotas de volumes diferentes, em geral menores. Na maioria das vezes, a dose que a criança recebe em casa é a que um profissional ditou.

O antibiótico não tem papel no resfriado. O Consenso de Rinites resume os estudos: não houve benefício significativo do antibiótico nem no resfriado comum nem na chamada rinite purulenta aguda, mesmo com sintomas persistentes, em crianças ou adultos (quatro estudos, 723 participantes, risco relativo de 0,73 com intervalo de confiança de 0,47 a 1,13 — um intervalo que atravessa o 1 e, portanto, não mostra efeito), e há efeitos adversos significativos nos dois grupos. O Consenso conclui que o uso rotineiro não é recomendado. Na consulta do Salvador, isso quer dizer que nada indica que a amoxicilina da vizinha encurtaria a doença dele, e os efeitos adversos viriam junto.

O Brasil não tem PCDT do resfriado comum, e a régua da criança está espalhada em documentos de naturezas diferentes, cada um governando uma decisão. A classificação da tosse, as medidas caseiras, os remédios a desencorajar e os prazos de retorno vêm do Manual de Quadros de Procedimentos do Aidpi Criança, de 2017 — o manual a que a Caderneta da Criança de 2024 ainda remete. A descrição do curso da doença e do tratamento de suporte vem do Caderno de Atenção Básica nº 28, volume II, do Ministério da Saúde (2012, reimpresso em 2013), que nunca teve segunda edição. Os descongestionantes e a rinite viral têm o Consenso de Rinites de 2024; o antitérmico, o documento da SBP de 2021; o oseltamivir, o Guia de Manejo e Tratamento de Influenza de 2023; a coqueluche, o Guia de Vigilância em Saúde de 2024. Onde esses documentos discordam — e discordam no descongestionante, no ibuprofeno e no prazo da tosse —, o capítulo diz quem ganha e por quê.

Este capítulo é dono do resfriado comum da criança — do curso esperado, do que se prescreve e do que não se prescreve, da conversa com a família e do retorno —, que não tinha dono no nível, e assume também a síndrome gripal da criança com fator de risco: quem recebe oseltamivir pelo guia federal e em que dose. Cede o resto, pelo nome do capítulo. A faringoamigdalite, inclusive a da criança, é de Faringoamigdalites e critérios de Centor; a otite média aguda e a rinossinusite, de Otites e rinossinusite: quando o antibiótico muda o desfecho; a rinite alérgica, de Rinite alérgica e asma alérgica; o corpo estranho nasal, de Epistaxe, corpo estranho em nariz e ouvido e trauma nasal. Nesta apostila, a pneumonia e a sua classificação pelo Aidpi são de Pneumonia adquirida na comunidade na criança; a bronquiolite, de Bronquiolite viral aguda por vírus sincicial respiratório; a sibilância, de Asma na infância; o estridor, de Laringotraqueíte aguda (crupe viral) e epiglotite. O lactente febril sem foco é de Febre sem sinais localizatórios no lactente e abordagem da criança febril, em Emergências Pediátricas; o diagnóstico e o isolamento da covid-19, de Infecção pela COVID-19 e síndromes respiratórias virais, em Infectologia; o calendário de vacinas, de Calendário Nacional de Vacinação da criança (PNI) e esquemas por idade, em Infectologia Pediátrica. A coqueluche tem capítulo — Coqueluche: diagnóstico, tratamento e profilaxia de contatos, na apostila de Infectologia Pediátrica —, dono da definição de caso, da coleta e do transporte do material, da notificação, do tratamento e da profilaxia dos contatos; este capítulo fica com o reconhecimento na porta, porque a coqueluche começa como resfriado, e com o primeiro passo que não espera: notificar e colher antes do macrolídeo.

04

Por que acontece o que acontece

O vírus pousa no epitélio do nariz e da nasofaringe e se multiplica ali. O que a mãe descreve — nariz entupido, espirro, coriza, tosse às vezes produtiva, garganta arranhando, mal-estar — vem de duas fontes ao mesmo tempo, como descreve o Consenso de Rinites: a ação direta do vírus sobre a mucosa e a resposta imune que ela recruta. A congestão é vaso dilatado e mucosa edemaciada; a coriza clara dos primeiros dias é secreção de glândula e líquido que sai dos vasos; o espirro é o reflexo de uma mucosa irritada. Nada disso é defeito a corrigir. É a defesa funcionando, e é por isso que o tratamento do resfriado é de conforto: não há remédio que desligue essa resposta sem cobrar alguma coisa em troca.

Depois dos primeiros dias, a secreção engrossa e fica amarela ou verde. O Caderno de Atenção Básica nº 28 explica a mudança pela destruição das células epiteliais e pela chegada dos neutrófilos — a cor verde é da mieloperoxidase, uma enzima do próprio neutrófilo — e registra que o achado costuma ser interpretado, precipitadamente, como infecção bacteriana. A cor mede inflamação, não bactéria. O Consenso de Rinites completa o raciocínio: as defesas da mucosa nasal contra vírus e bactérias são competentes, a infecção nasal por bactéria extracelular raramente se estabelece, e a própria “rinite bacteriana” não tem prova direta de infecção da mucosa — é definida como suposta complicação da viral. O catarro verde do quarto dia é o que o Salvador deveria mesmo ter.

O perigo verdadeiro do resfriado mora nos espaços que drenam para o nariz. O Consenso descreve como o rinovírus participa da rinossinusite aguda: reduz o transporte mucociliar, incha a mucosa e fecha os óstios dos seios paranasais, e a secreção que não drena deixa de ser só secreção. A tuba auditiva, que liga a nasofaringe ao ouvido médio, é mais curta e mais horizontal na criança pequena; o edema a fecha, o ouvido médio perde a ventilação, e a otite aparece no meio do resfriado ou logo depois. É por isso que toda consulta de resfriado olha o ouvido — e é por isso que o antibiótico, quando entra, entra por um diagnóstico novo feito no ouvido ou no seio da face, e não pela duração nem pela cor da coriza. Os critérios desse diagnóstico são de Otites e rinossinusite: quando o antibiótico muda o desfecho.

No lactente, o nariz entupido é mais que incômodo. O bebê pequeno respira preferencialmente pelo nariz e precisa dele livre para mamar: com a narina cheia, solta o peito para respirar, chora, mama pouco e dorme mal, e a família chega dizendo que ele “não come”. A solução salina e a aspiração antes das mamadas atacam exatamente esse ponto. O Caderno 28 descreve as soluções isotônicas a 0,9% como seguras e úteis para desobstruir o nariz, e aceita, no lactente, os dispositivos próprios de aspiração nasal — sem repetir a manobra muitas vezes ao dia, para não ferir a mucosa nem provocar sangramento.

A tosse do resfriado vem da secreção que escorre para a faringe, da inflamação da via aérea alta e, depois, de uma mucosa que ainda se refaz, e por isso costuma durar mais que o resto. O Caderno 28 descreve os sintomas mais intensos até o terceiro dia, regredindo por volta do sétimo ao décimo, com a tosse podendo ficar alguns dias a mais. A tosse é mecanismo de defesa — é ela que tira a secreção da via aérea —, e o próprio Caderno diz que a melhor maneira de enfrentar a angústia dos pais é explicar o caráter autolimitado da doença e o papel da tosse. Suprimi-la com xarope na criança pequena não acelera a cura e retira justamente o que protege o pulmão: o Aidpi põe os sedativos da tosse e os expectorantes na lista de remédios nocivos a desencorajar.

A febre é o termostato do hipotálamo regulado para cima pela prostaglandina E2, produzida em resposta à infecção. Os três antitérmicos usados no Brasil — paracetamol, dipirona e ibuprofeno — agem pelo mesmo caminho, inibindo as ciclo-oxigenases e a síntese dessa prostaglandina, como descreve o documento da SBP. Saem daí duas consequências práticas. A primeira: não há razão farmacológica para alternar dois antitérmicos — o efeito não soma, e o risco de erro de dose e de evento adverso se multiplica. A segunda: o antitérmico trata o desconforto que a febre causa, e não a infecção; baixar o número não encurta o resfriado, e a SBP registra que o antitérmico dado para prevenir a convulsão febril não reduziu a recorrência numa metanálise de 540 crianças (a crise febril é de Crise febril simples e complexa: manejo e orientação familiar, em Neurologia Pediátrica). A frase do documento serve de lembrete: a febre é um sinal, não uma doença.

Os descongestionantes tópicos são vasoconstritores: contraem os vasos da mucosa e desentopem o nariz em minutos. Absorvidos, fazem o mesmo fora do nariz. O Consenso de Rinites registra efeitos cardiovasculares e no sistema nervoso central importantes o bastante para contraindicá-los abaixo de 6 anos, e o Caderno 28 manda evitá-los no lactente pelo risco de intoxicação — o rótulo “infantil” do frasco que a atendente vendeu não muda a farmacologia. Quando o efeito passa, a mucosa volta mais congestionada: é a rinite medicamentosa, que o Consenso liga ao uso além de cinco dias e o Caderno, além de três. Os descongestionantes orais, quase sempre vendidos junto de um anti-histamínico, não têm eficácia comprovada na criança, pelo Caderno, e somam os efeitos adversos das duas classes; o anti-histamínico, por sua vez, não alivia o resfriado de quem não é atópico, e as associações sedam.

Das medidas caseiras do Aidpi, o mel merece um parágrafo porque tem idade: o manual o aceita para aliviar a tosse, mas só a partir de 1 ano, sem dizer por quê. A razão é o botulismo intestinal do lactente. O esporo do Clostridium botulinum — e o mel é a fonte clássica dele nessa forma da doença — germina num intestino que ainda não tem a microbiota que o conteria e produz a toxina ali mesmo. O Guia de Vigilância em Saúde descreve essa forma e situa a maior vulnerabilidade entre 3 e 26 semanas de vida: constipação e irritabilidade primeiro, depois dificuldade de sustentar a cabeça, sucção e choro fracos, hipoatividade e paralisia descendente que pode chegar à respiração. Para uma doença que se cura sozinha, é risco sem contrapartida nenhuma. O Salvador, com 1 ano e 8 meses, já pode tomar o mel da avó. O guaco que vem junto no xarope caseiro fica no que o Aidpi chama de medidas culturalmente aceitas — nenhum dos documentos usados aqui avalia a planta —, e o que a consulta não aceita é somar a ele um xarope de farmácia.

Duas vistas complementares: corte frontal da cavidade nasal e seios da face, com mucosa espessada e secreção; ao lado, detalhe da nasofaringe, tuba auditiva e orelha média com tímpano íntegro.
A inflamação da mucosa pode dificultar a drenagem dos seios da face e a ventilação da orelha média pela tuba auditiva. As duas vistas mostram relações anatômicas complementares. A cor amarelo-esverdeada da secreção, isoladamente, não define infecção bacteriana.
05

Como se apresenta de verdade

O resfriado se reconhece pelo curso, não por um sinal. Nenhum achado isolado — nem a febre, nem a cor da secreção, nem a tosse — separa a criança resfriada da que tem outra coisa; o que separa é o jeito como os sintomas começam, a ordem em que aparecem, o dia em que já deveriam estar melhorando e a respiração contada. As seções seguem essa lógica: o curso esperado, o que é normal repetir, a gripe que se disfarça de resfriado, o que se parece com resfriado e não é, o lactente jovem e o exame que decide.

1. O curso esperado, dia a dia

O Caderno 28 descreve o começo com coriza clara ou mucoide, obstrução nasal, espirros e irritação na garganta; tosse e febre podem vir junto. No quadro comparativo do Consenso de Rinites, o resfriado pelos vírus comuns tem início gradual e dura menos de 14 dias, com espirro, coriza, obstrução e dor de garganta comuns e tosse em geral úmida. Os sintomas são mais fortes até o terceiro dia e regridem por volta do sétimo ao décimo; a tosse pode ficar alguns dias além disso. No Salvador, a sequência é a do texto: espirro e coriza no primeiro dia, tosse no segundo, febre baixa na segunda noite e na creche, secreção esverdeada no quarto.

A febre alta no primeiro ou no segundo dia, sozinha, não muda o diagnóstico — o Caderno registra que ela não é o sintoma predominante, que costuma ser baixa quando aparece, mas que pode ser alta mesmo sem infecção bacteriana. O que muda a conduta é outra febre: a que aparece ou piora depois que a criança estava melhorando, e a que persiste, que o Aidpi põe entre os motivos de retorno imediato e o Guia de Influenza entre os sinais de agravamento da criança; e a febre de início súbito com prostração, que manda pensar em síndrome gripal (seção 3).

A secreção muda de cor no terceiro ou quarto dia, e a mudança é esperada. O que importa na secreção é o tempo e o lado: a que piora depois do quinto dia ou persiste além do décimo pede reexame do seio da face (seção 4); a que sai de um lado só, purulenta ou com sangue, pede a pergunta sobre corpo estranho.

2. Quantos resfriados cabem num ano

Sete a dez, pelo Consenso de Rinites. Para a mãe do Salvador, esse número é o primeiro alívio da consulta: quatro resfriados em quatro meses de creche não são “imunidade baixa”, são uma criança conhecendo, um de cada vez, vírus que ainda não conhecia, numa sala em que todos põem a mão em tudo e tudo na boca.

O número de resfriados, sozinho, não é alarme. O que muda o olhar é a gravidade e o crescimento: a criança que sai de um resfriado e entra numa pneumonia, que interna, que tem infecções graves ou em lugares incomuns, ou que sai da curva de peso. A caderneta é o primeiro filtro — o Salvador segue na mesma curva desde os seis meses —, e a leitura da curva é de Acompanhamento do crescimento: curvas da OMS, peso, estatura e perímetro cefálico, em Puericultura e Desenvolvimento. Os sinais de alerta de imunodeficiência e a investigação da criança com infecções graves de repetição são de Imunodeficiências primárias e secundárias, em Imunologia.

3. Resfriado ou síndrome gripal: a pergunta que muda a receita

A influenza também escorre o nariz, e é aqui que a criança pequena complica a separação. No quadro do Consenso, a gripe começa de repente, com febre e dores no corpo comuns, tosse seca e, ao contrário do resfriado, sem espirros; dura de 7 a 14 dias. Para fins de prescrição, o Guia de Manejo e Tratamento de Influenza define síndrome gripal como febre de início súbito, mesmo que só referida, com tosse ou dor de garganta e ao menos um entre cefaleia, mialgia e artralgia, na ausência de outro diagnóstico específico.

Abaixo de 2 anos, a definição fica mais larga, porque o lactente não conta que dói o corpo: basta febre de início súbito, mesmo que referida, com sintomas respiratórios — tosse, coriza e obstrução nasal —, sem outro diagnóstico específico. Leia a frase devagar, porque ela descreve muitos resfriados febris. A diferença que resta está na palavra súbito: o resfriado do Salvador começou por espirro e coriza, a febre só veio na segunda noite, baixa, e foi embora; a criança que acordou brincando e à tarde está com 39 °C, largada no colo, e só então começa a escorrer o nariz tem a história da gripe.

A consequência está no próprio Guia. Criança abaixo de 5 anos é fator de risco para complicação da influenza — o maior risco de internação está abaixo de 2 anos e a maior mortalidade abaixo de 6 meses —, e para toda síndrome gripal com fator de risco o oseltamivir está indicado independentemente da vacina, mesmo no atendimento ambulatorial, sem esperar exame e de preferência nas primeiras 48 horas. Na criança pequena, portanto, a pergunta “resfriado ou síndrome gripal?” decide se há um antiviral na receita. Os demais fatores de risco do Guia valem em qualquer idade, e na pediatria os mais frequentes são asma e outras pneumopatias, cardiopatia, doença renal ou hepática, anemia falciforme e outras doenças hematológicas, diabetes, doença neurológica ou do desenvolvimento que comprometa a respiração ou aumente o risco de aspiração (paralisia cerebral, síndrome de Down, epilepsia, doença neuromuscular), imunossupressão, obesidade, tuberculose, uso prolongado de ácido acetilsalicílico abaixo de 19 anos e população indígena aldeada ou com dificuldade de acesso.

4. O que se parece com resfriado e não é

A rinite alérgica é a imitação mais frequente e a de curso mais diferente. No quadro do Consenso, ela começa de repente e dura semanas, com espirros e coriza comuns, tosse rara e seca, sem dores no corpo e sem febre. A criança que “vive resfriada”, espirra em sequência pela manhã, coça o nariz e não tem febre em nenhum dos episódios não está tendo dez resfriados por ano — está tendo uma rinite. O diagnóstico e o tratamento são de Rinite alérgica e asma alérgica, em Imunologia; aqui, o que cabe é não receitar a cada episódio o que a rinite alérgica não precisa.

Secreção purulenta de um lado só, numa criança que brinca com miçanga, grão e pedaço de espuma, é corpo estranho nasal até prova em contrário. O Consenso lista o corpo estranho retido numa das fossas nasais com secreção purulenta unilateral entre os diferenciais da criança, e põe sintomas de um lado só e sangramento entre os sinais de outra doença. O resfriado é bilateral; o corpo estranho escolhe um lado e não melhora com os dias. A retirada é de Epistaxe, corpo estranho em nariz e ouvido e trauma nasal, em Otorrinolaringologia; o que se pede aqui é olhar as duas narinas separadamente, com a lanterna, em toda criança com coriza.

O Consenso manda suspeitar de rinossinusite pós-viral quando, na evolução do resfriado, os sintomas pioram depois do quinto dia ou persistem além do décimo; o Caderno 28, de 2012, fala em sintomas além de 10 a 14 dias ou piora depois do quinto dia. Suspeitar é reexaminar, não prescrever: a criança que melhora devagar, mesmo depois de dez dias, continua com um quadro viral. Quando essa história passa a se chamar bacteriana e quando o antibiótico muda o desfecho é decisão de Otites e rinossinusite: quando o antibiótico muda o desfecho, que trabalha com a atualização brasileira de 2025 e a categoria de rinossinusite viral prolongada.

A coqueluche começa exatamente como um resfriado. O Guia de Vigilância em Saúde descreve a fase catarral, de uma a duas semanas, com febre pouco intensa, mal-estar, coriza e tosse seca, seguida de acessos de tosse cada vez mais intensos e frequentes; só então chegam os paroxismos — cinco a dez tossidas numa única expiração, o guincho na inspiração que vem depois, o vômito após a tosse. No lactente menor de 6 meses, grupo das formas graves e muitas vezes letais, os acessos podem trazer cianose e apneia. Na primeira semana ninguém distingue; distingue-se a tosse que muda de caráter e a que não vai embora, e é por isso que o resfriado sai da consulta com data de retorno e que o jeito da tosse entra em toda reavaliação.

A dor de garganta com vesículas ou vermelhidão junto de um resfriado é, para o Aidpi, infecção leve de garganta: analgésico e reavaliação em dois dias se a dor persistir. Placas, gânglios dolorosos no pescoço e ausência de coriza puxam a história para Faringoamigdalites e critérios de Centor, em Otorrinolaringologia. A covid-19 pode imitar qualquer quadro desta seção — no quadro do Consenso, com evolução variável de 7 a 25 dias e perda de olfato e paladar frequente —, e a decisão de testar e de isolar é de Infecção pela COVID-19 e síndromes respiratórias virais.

5. O lactente jovem: onde o resfriado deixa de ser trivial

O quadro de tosse do Aidpi começa aos 2 meses. Abaixo disso, a mesma coriza chega num bebê que respira pelo nariz, desidrata depressa e cuja febre já pede avaliação própria: a criança febril nos primeiros meses é de Febre sem sinais localizatórios no lactente e abordagem da criança febril, em Emergências Pediátricas, e não entra na lógica de medidas caseiras e retorno em cinco dias. No lactente, a queixa que domina é o nariz entupido atrapalhando a mamada, e a pergunta que decide é quanto ele mama e quantas fraldas molha.

Entre 2 e 6 meses, três coisas mudam em relação ao Salvador. A dipirona não entra antes de 3 meses nem abaixo de 5 kg, pela bula — e o quadro do Aidpi, que começa aos 2 meses e em 4 kg, erra justamente aqui (ver as notas do bloco de critérios). O ibuprofeno não entra antes de 6 meses. E a coqueluche vira caso suspeito mais cedo, com tosse de 10 dias ou mais, não de 14. O menor de 6 meses em aleitamento exclusivo recebe o peito mais vezes, como manda o Aidpi — não chá, não água com açúcar, não mel.

6. O exame que decide: a respiração contada

O exame do resfriado é curto e tem uma parte que não se pula. Pelo Aidpi, antes de classificar a tosse procuram-se os sinais gerais de perigo: não consegue beber nem mamar, vomita tudo, teve convulsão ou movimentos anormais nas últimas 72 horas, está letárgica ou inconsciente, tem enchimento capilar acima de 2 segundos, batimento de asa do nariz ou gemência. Qualquer um deles tira a criança da unidade, com urgência.

Depois, a respiração, contada em um minuto inteiro com a criança tranquila: respiração rápida é 50 ou mais por minuto de 2 a 12 meses incompletos e 40 ou mais de 1 a 5 anos incompletos. Olha-se a tiragem subcostal, escuta-se o estridor em repouso, procura-se a sibilância. Nenhum sinal é “não é pneumonia”, a classificação em que o resfriado mora. Respiração rápida é pneumonia; tiragem, estridor em repouso ou sinal geral de perigo é pneumonia grave ou doença muito grave, e a condução das duas é de Pneumonia adquirida na comunidade na criança. A sibilância se classifica antes, pelo quadro próprio, e é de Asma na infância; o estridor é de Laringotraqueíte aguda (crupe viral) e epiglotite. O Salvador, com 32 por minuto aos 20 meses, sem tiragem, sem estridor e sem chiado, classifica como “não é pneumonia”.

O resto do exame procura as vizinhanças: a otoscopia, porque a otite é a complicação que se esconde atrás do choro; a garganta; as duas narinas, uma de cada vez; a hidratação; o peso na caderneta. Contagem feita com a criança chorando não vale — o Aidpi exige a criança tranquila —, e é melhor esperar o peito ou o chaveiro do que anotar um número que não foi contado.

06

Como fechar o diagnóstico

O resfriado é diagnóstico clínico, e a investigação deste capítulo é quase toda sobre não pedir. O exame que não muda a conduta atrasa a consulta, custa, fura a criança e produz um número que puxa uma receita. As seções dizem o que não se pede, o que se faz no lugar do exame e as poucas situações em que um exame muda o que acontece com a criança.

1. O resfriado típico não pede exame

O Caderno 28 é direto: o diagnóstico é habitualmente clínico, sem necessidade de exames complementares. A radiografia e a tomografia dos seios da face ficam para a suspeita de complicação, e os achados de imagem — opacificação, secreção, espessamento da mucosa — aparecem tanto no quadro viral quanto no bacteriano. A radiografia de seios pedida para “confirmar sinusite” num resfriado de quatro dias mostra o que o resfriado já tem, e empurra para o antibiótico de que ele não precisa.

Hemograma e proteína C-reativa seguem a mesma lógica: nenhum dos documentos que regem a criança resfriada — o Aidpi, o Caderno 28, o Consenso de Rinites — os pede no quadro típico, e nenhum resultado mudaria o que vai para a receita do Salvador. A radiografia de tórax só entra quando a criança sai da classificação “não é pneumonia”, e aí a decisão é de Pneumonia adquirida na comunidade na criança.

2. O que substitui o exame: a sequência do Aidpi

O formulário do Aidpi é uma investigação em ordem, e cabe em cinco minutos. Peso, idade e temperatura na entrada. Primeira consulta ou retorno para o mesmo problema. Sinais gerais de perigo. A tosse: há quantos dias, se há sibilância. A respiração contada em um minuto com a criança tranquila, a tiragem subcostal, o estridor, o chiado. O ouvido e a garganta. A alimentação, o crescimento na curva e as vacinas na caderneta.

A ordem existe por um motivo: ela impede que a queixa da família — o catarro verde — escolha o diagnóstico antes do exame. A contagem da respiração vem antes da conversa sobre antibiótico porque é ela, e não a cor da secreção, que separa o resfriado da pneumonia. O capítulo usa o quadro do Aidpi e não ensina a estratégia como método, que é tema de Emergências Pediátricas.

3. O oxímetro: quando existe, entra

A saturação não faz parte da classificação da tosse no Aidpi, e a unidade sem oxímetro classifica sem ele. Quando o aparelho existe, ele muda uma decisão: pelo Guia de Influenza, saturação de 94% ou menos em ar ambiente é sinal de agravamento na criança, e numa síndrome gripal ela sozinha faz a definição de SRAG — que troca a receita para casa pelo oseltamivir imediato e pela internação. No quadro de sibilância do Aidpi, a saturação também gradua a crise (ver Asma na infância). No Salvador, 98%.

4. Teste de vírus respiratório: o que muda e o que não muda

Para a criança com síndrome gripal e fator de risco, o Guia de Influenza indica o oseltamivir sem exigir exame, com receita simples, e de preferência nas primeiras 48 horas: esperar o resultado de um teste para prescrever é perder a janela que o próprio Guia descreve como a de maior benefício. Na SRAG, o antiviral começa logo após a suspeita, sem esperar a coleta, e a coleta da amostra, quando possível, vem antes da primeira dose.

Para o resfriado típico, o teste não muda nada: não há antiviral para rinovírus, adenovírus ou para os outros duzentos agentes. A pergunta sobre testar ou não para covid-19, e o que o resultado muda no isolamento, é de Infecção pela COVID-19 e síndromes respiratórias virais, em Infectologia.

5. A tosse que passou do prazo

O Aidpi manda investigar a tosse que passa de 14 dias. O Guia de Vigilância em Saúde é mais preciso para a coqueluche e começa mais cedo no lactente: é caso suspeito o menor de 6 meses, vacinado ou não, com tosse de qualquer tipo há 10 dias ou mais e ao menos um entre tosse paroxística, guincho inspiratório, vômito depois da tosse, cianose, apneia ou engasgo; e a criança de 6 meses ou mais com tosse há 14 dias ou mais e paroxismo, guincho ou vômito pós-tosse. Tosse em qualquer tempo com contato próximo de caso confirmado em laboratório também é caso suspeito. As duas regras não coincidem, e a nota do bloco de critérios mostra onde brigam.

Diante do caso suspeito, o que se faz na porta é notificar e colher o material de nasofaringe para cultura ou PCR em tempo real antes do antibiótico eficaz — ou, no máximo, até três dias depois de iniciá-lo. O Guia chama de eficazes os macrolídeos (azitromicina, claritromicina, eritromicina) e o sulfametoxazol com trimetoprima. O esquema, a dose por idade e a profilaxia dos contatos ficam com a apostila de Infectologia Pediátrica. A tosse que passa de 14 dias sem sinal de coqueluche sai da lógica do resfriado. Este capítulo fica com o gatilho — o Aidpi manda investigar — e com três perguntas de porta: há alguém em casa com tuberculose ou tosse crônica, houve chiado que ninguém classificou, houve engasgo com objeto ou alimento antes de a tosse começar? A primeira leva a Tuberculose: diagnóstico, esquema RIPE e tratamento da ILTB, em Infectologia, que trata dos contatos; a segunda, a Asma na infância; a terceira, à avaliação de corpo estranho na via aérea.

6. As perguntas que valem mais que um exame

Há alguém em casa com gripe forte, ou com tosse há semanas? A resposta muda a probabilidade de influenza e de coqueluche mais do que qualquer exame à mão. As vacinas estão em dia na caderneta — as doses contra coqueluche da idade, a dose de influenza do ano? A criança frequenta creche, e desde quando? Tem asma, cardiopatia, doença neurológica ou outra condição que a faça grupo de risco para influenza em qualquer idade?

E, sempre, o que já foi dado, em que dose e medido como. O descongestionante da farmácia, o xarope da avó, o antitérmico “de 4 em 4 horas, intercalando”. No estudo que a SBP cita, três em cada quatro cuidadores tinham recebido a dose de um profissional de saúde, e quase metade das crianças estava subdosada, com o gotejador de gotas menores como causa provável. Pergunte qual frasco, qual dosador, quantas gotas — e há dengue circulando no bairro, antes de escrever ibuprofeno.

07

Classificar, dosar por peso e marcar o dia em que deixa de ser resfriado

Primeiro procure sinais de perigo, dificuldade respiratória e particularidades do lactente jovem. Depois diferencie resfriado, síndrome gripal e possíveis complicações por história e exame dirigido. O plano do resfriado combina conforto, alimentação, hidratação e orientação sobre evolução; o motivo de não usar medicamentos de baixo benefício deve ser explicado de forma breve e ligado a esse plano.

  1. 1Sinal geral de perigo pelo Aidpi — não consegue beber nem mamar, vomita tudo, convulsão ou movimento anormal em 72 h, letargia, enchimento capilar acima de 2 s, batimento de asa do nariz ou gemência? Sim: referir com urgência. Não: siga.
  2. 2Menos de 2 meses de idade, ou febre nos primeiros meses de vida? A criança sai do quadro de tosse do Aidpi e vai para a avaliação do lactente febril (Emergências Pediátricas).
  3. 3Respiração contada em 1 minuto, criança tranquila. Sibilância: classificar antes pelo quadro de sibilância. Tiragem subcostal ou estridor em repouso: pneumonia grave ou doença muito grave. Respiração rápida (50 ou mais de 2 a 11 meses; 40 ou mais de 1 a 4 anos): pneumonia. Nenhum desses: não é pneumonia.
  4. 4Não é pneumonia — é síndrome gripal? Febre de início súbito com tosse ou dor de garganta e cefaleia, mialgia ou artralgia; abaixo de 2 anos, febre súbita com tosse, coriza ou obstrução nasal; sem outro diagnóstico. Com saturação de 94% ou menos, dispneia ou esforço respiratório: SRAG — oseltamivir já e internação.
  5. 5Síndrome gripal com fator de risco — toda criança abaixo de 5 anos, ou doença de base em qualquer idade: oseltamivir por peso de 12/12 h por 5 dias, sem esperar exame, de preferência em até 48 h. Sem fator de risco: julgamento clínico, também de preferência em 48 h.
  6. 6Vizinhanças: ouvido (otite), garganta (placas e gânglios), cada narina (secreção de um lado só: corpo estranho), dia de doença (piora após o 5º dia ou sintoma além do 10º: reexaminar o seio da face).
  7. 7Tosse: abaixo de 6 meses, 10 dias ou mais com paroxismo, guincho, vômito pós-tosse, cianose, apneia ou engasgo; de 6 meses em diante, 14 dias ou mais com paroxismo, guincho ou vômito pós-tosse — caso suspeito de coqueluche: notificar e colher nasofaringe antes do macrolídeo. Tosse além de 14 dias sem esses sinais: investigar.
  8. 8Resfriado: soro fisiológico nasal, líquidos e peito, antitérmico por peso quando houver desconforto, escrito em mL. Nenhum antibiótico, xarope para tosse, descongestionante ou antigripal. Mel só a partir de 1 ano.
  9. 9Saída com data: voltar já se não bebe ou não mama, se piora o estado geral, se a febre aparece ou piora, se a respiração acelera ou fica difícil; voltar em 5 dias se não melhorar.

Resfriado, síndrome gripal ou rinite alérgica: o que separa e o que muda

AchadoResfriado comumSíndrome gripal (influenza)Rinite alérgicaO que muda na consulta
InícioGradual, em geral pelo espirro e pela corizaSúbito, pela febreSúbito, em episódios que duram semanasFebre súbita abaixo de 5 anos: pensar em oseltamivir
FebreAusente ou baixa; pode ser alta nos primeiros dias sem bactériaComum, com prostraçãoAusenteFebre que aparece ou piora depois da melhora: retorno imediato
EspirrosComunsNãoComunsEspirro separa da gripe, não da alergia
Coriza e obstruçãoComuns, nas duas narinasPor vezesComunsCoriza purulenta de um lado só: corpo estranho
TosseComum, úmida; pode durar além do restoComum, secaRara, secaParoxismo, guincho ou vômito pós-tosse: coqueluche
Dores no corpoComunsComunsNãoNão separa resfriado de gripe
DuraçãoMenos de 14 dias; pior até o 3º dia, melhora do 7º ao 10º7 a 14 diasSemanasPiora após o 5º dia ou além do 10º: reexaminar seio da face

Dose por peso, com teto, escrita em mililitros (apresentações da Rename 2024)

Medicamento e apresentaçãoDose e intervaloTeto e restriçãoSalvador, 11 kgCriança de 15 kg
Paracetamol 200 mg/mL, solução oral — componente básico10 a 15 mg/kg por dose, de 6/6 h, quando houver desconforto75 mg/kg por dia; nunca acima de 4.000 mg por dia, o teto do adulto110 a 165 mg = 0,55 a 0,8 mL por dose; máximo de 825 mg (4,1 mL) por dia150 a 225 mg = 0,75 a 1,1 mL por dose; máximo de 1.125 mg (5,6 mL) por dia
Dipirona 500 mg/mL, solução oral — componente básico (1 mL = 20 gotas no frasco conferido)10 a 12 mg/kg por dose, de 6/6 h; o Aidpi escreve 1 gota a cada 2 kgNão usar abaixo de 3 meses ou de 5 kg; teto do adulto de 1 g por dose (40 gotas)110 a 132 mg = 0,22 a 0,26 mL, cerca de 5 gotas (125 mg)150 a 180 mg = 0,30 a 0,36 mL, 6 a 7 gotas
Ibuprofeno 50 mg/mL, suspensão oral — componente básico5 a 10 mg/kg por dose, de 8/8 hSó acima de 6 meses e com dengue afastada; no máximo 200 mg por dose na criança55 a 110 mg = 1,1 a 2,2 mL por dose75 a 150 mg = 1,5 a 3,0 mL por dose
Fosfato de oseltamivir, cápsulas de 30, 45 e 75 mg — componente estratégicoSó na síndrome gripal com fator de risco ou na SRAG; de 12/12 h por 5 dias. A partir de 1 ano: até 15 kg, 30 mg; acima de 15 a 23 kg, 45 mg; acima de 23 a 40 kg, 60 mg; acima de 40 kg, 75 mg. Abaixo de 1 ano: 3 mg/kg (0 a 8 meses) ou 3,5 mg/kg (9 a 11 meses)75 mg por dose, a dose do adulto; a Rename não tem a suspensão oral, e o Guia ensina a abrir a cápsula30 mg por dose = 1 cápsula de 30 mg aberta em 2 mL de água; 10 cápsulas no total15 kg ainda é “até 15 kg”: 30 mg por dose, 10 cápsulas de 30 mg
Cloreto de sódio 0,9%, solução nasal — componente básicoGotas ou jatos nas duas narinas antes das mamadas, das refeições e do sonoSem teto farmacológico; no lactente, aspirar sem repetir a manobra muitas vezes ao diaUm frascoUm frasco

O que fica fora da receita: a restrição, a idade e quem a sustenta

RemédioRestriçãoIdadeFonte
AntibióticoSem benefício no resfriado nem na rinite purulenta aguda; efeitos adversos significativos; uso rotineiro não recomendadoTodasV Consenso Brasileiro sobre Rinites, 2024
Descongestionante nasal tópicoContraindicadoAbaixo de 6 anosConsenso de Rinites, 2024; nocivo a desencorajar no Aidpi, 2017
Descongestionante oral e antigripaisNocivos a desencorajar; sem eficácia comprovada na criança, com vários efeitos colaterais2 meses a 5 anos (Aidpi); criança em geral (Caderno 28)Aidpi, 2017; Caderno de Atenção Básica nº 28, v. II
Sedativos da tosse e expectorantesNocivos a desencorajar; antitussígeno e mucolítico sem indicação na infecção viral da garganta, que o Caderno trata como o resfriado2 meses a 5 anos (Aidpi); todas (Caderno 28)Aidpi, 2017; Caderno 28
Anti-histamínicoNão alivia o resfriado de quem não é atópicoTodasCaderno 28
Anti-inflamatório para tosse ou gargantaNocivo a desencorajar; não recomendado no resfriado por efeitos colaterais (o ibuprofeno como antitérmico é outra decisão, nas divergências)2 meses a 5 anos (Aidpi); todas (Caderno 28)Aidpi, 2017; Caderno 28
MelNão darAbaixo de 1 anoAidpi, 2017
Ácido acetilsalicílico como antitérmicoNão recomendado, pelo risco de síndrome de ReyeToda criançaSBP, Manejo da febre aguda, 2021
Dois antitérmicos alternados ou associadosNão recomendadoTodasSBP, 2021
DipironaContraindicadaAbaixo de 3 meses ou de 5 kgBula da dipirona (o quadro do Aidpi começa em 4 kg)
IbuprofenoNão usarAbaixo de 6 meses, ou com dengue não afastadaAidpi, 2017

Quando deixa de ser resfriado: o sinal, o que ele significa e quem conduz

SinalO que significaO que fazer agoraQuem conduz
Sinal geral de perigoDoença muito graveReferir com urgênciaAidpi; capítulo da doença encontrada
Respiração rápida: 50 ou mais (2 a 11 meses); 40 ou mais (1 a 4 anos)PneumoniaAntibiótico e retorno em 2 dias, pelo AidpiPneumonia adquirida na comunidade na criança
Tiragem subcostal ou estridor em repousoPneumonia grave, doença muito grave ou obstrução altaReferir com urgênciaPneumonia na criança; Laringotraqueíte aguda (crupe viral) e epiglotite
SibilânciaCrise de sibilânciaClassificar pelo quadro próprio antes da tosseAsma na infância; bronquiolite no lactente
Febre súbita com sintomas respiratórios abaixo de 5 anos, ou com doença de baseSíndrome gripal com fator de riscoOseltamivir por peso, sem exame, de preferência em 48 hEste capítulo
Saturação de 94% ou menos, dispneia ou esforço numa síndrome gripalSRAGOseltamivir imediato, coleta e internaçãoEste capítulo até a transferência
Dor de ouvido, otorreia ou membrana abauladaOtite média agudaDiagnóstico e decisão do antibióticoOtites e rinossinusite
Piora depois do 5º dia ou sintoma além do 10ºSuspeita de rinossinusite pós-viralReexaminar; melhora lenta segue viralOtites e rinossinusite
Secreção purulenta de um lado sóCorpo estranho nasalExaminar narina por narinaEpistaxe, corpo estranho em nariz e ouvido e trauma nasal
Tosse de 10 dias ou mais abaixo de 6 meses, ou de 14 dias ou mais depois, com paroxismo, guincho ou vômito pós-tosse (ou cianose, apneia, engasgo no menor de 6 meses)Caso suspeito de coquelucheNotificar e colher nasofaringe antes do macrolídeoEste capítulo na porta; tratamento em Infectologia Pediátrica
Tosse além de 14 dias sem sinais de coquelucheTosse prolongadaInvestigarFora deste capítulo
Febre no lactente nos primeiros mesesLactente febrilAvaliação própriaFebre sem sinais localizatórios no lactente

Quando a evolução exige outra avaliação

Evolução ou achadoO que examinarPróximo percurso
Dor de ouvido, otorreia ou irritabilidade localizadaOuvido e otoscopia interpretados com sintomasAvaliação de otite
Sintomas persistentes sem melhora, piora após melhora ou quadro intensoCronologia, exame e sinais de complicaçãoAvaliação de sinusite conforme critérios
Respiração rápida, esforço, hipoxemia ou prostraçãoFrequência, trabalho respiratório, oxigenação e estado geralPneumonia ou outra doença respiratória relevante
Tosse em acessos, guincho ou apneiaIdade, duração, contato e repercussãoCoqueluche; não esperar definição temporal em criança grave
Secreção unilateral persistente ou fétidaHistória e cavidade nasal conforme segurançaCorpo estranho ou outra causa localizada

Plano de conforto que a família consegue executar

NecessidadeOrientaçãoComo avaliar se funcionou
Nariz obstruídoHigiene nasal cuidadosa quando interfere no conforto ou na mamadaMelhora da alimentação e do descanso
Ingestão menorOfertas menores e frequentes, mantendo aleitamentoAceitação e diurese
Dor ou mal-estarMedida sintomática apropriada à idade e ao desconfortoConforto e atividade, sem perseguir temperatura normal
Dúvida sobre a evoluçãoDescrever curso esperado e sinais de alertaCuidador consegue explicar quando retornar

Duas normas federais em vigor divergem no prazo da tosse. O quadro de tosse do Aidpi (2017) manda investigar a tosse “há mais de 14 dias” em qualquer criança de 2 meses a 5 anos; o Guia de Vigilância em Saúde (2024) faz caso suspeito de coqueluche o menor de 6 meses com tosse há 10 dias ou mais e um sinal associado, e a criança de 6 meses ou mais com 14 dias ou mais. Conta no lactente: 3 meses, tosse há 11 dias com vômito depois dos acessos — pelo Aidpi, “não é pneumonia”, medidas caseiras e retorno em 5 dias, isto é, reavaliação no 16º dia; pelo Guia, caso suspeito no 11º dia, com notificação e coleta. Conta na criança maior: 14 dias exatos com paroxismo — pelo Guia, suspeito (14 é “14 ou mais”); pelo Aidpi, ainda não (14 não é “mais de 14”). Esta apostila adota o Guia de Vigilância quando há sinal de coqueluche (degrau 1, escopo: é a norma escrita para a doença suspeita) e o Aidpi para a tosse prolongada sem esses sinais.

O quadro de analgésico e antitérmico do Aidpi (2017) começa a dipirona na faixa de 4 a 7 kg, com 2 a 4 gotas, num manual que começa aos 2 meses; a bula da dipirona 500 mg/mL em gotas contraindica o uso abaixo de 3 meses de idade ou de 5 kg. Conta: lactente de 2 meses com 4,5 kg recebe pelo quadro 2 gotas (50 mg, 11 mg/kg); pela bula, está contraindicado duas vezes — pela idade (2 meses, abaixo de 3) e pelo peso (4,5 kg, abaixo de 5). Entre 2 e 3 meses, e em qualquer lactente abaixo de 5 kg, o antitérmico do quadro que resta é o paracetamol.

O PCDT da Dor Crônica (Portaria Conjunta nº 1/2024), na posologia do paracetamol, escreve na mesma linha “crianças abaixo de 12 anos: 10 a 15 mg/kg a cada 4 ou 6 horas; dose máxima de 75 mg/kg/dia”. Conta: 15 mg/kg de 4/4 h são 6 tomadas, 90 mg/kg por dia — 1,2 vez o teto declarado ao lado; no Salvador, 165 mg × 6 = 990 mg contra o teto de 825 mg. Cabem no teto 15 mg/kg de 6/6 h (60 mg/kg/dia) ou, no máximo, 12,5 mg/kg de 4/4 h (75 mg/kg/dia). Este capítulo prescreve de 6/6 h, o intervalo do Aidpi.

Dois documentos do Ministério da Saúde divergem sobre o descongestionante nasal na criança resfriada. O Caderno de Atenção Básica nº 28 (2012) aceita o descongestionante tópico “ocasionalmente em crianças e adultos”, evita-o só no lactente e limita o uso a três dias; o Aidpi (2017) o põe entre os remédios nocivos a desencorajar dos 2 meses aos 5 anos. Conta: criança de 3 anos com resfriado — pelo Caderno, uso ocasional por até 3 dias é aceitável; pelo Aidpi, não se usa. Fora do Ministério, o Consenso de Rinites (2024) contraindica abaixo de 6 anos e fixa o limite em 5 dias, 1,7 vez o prazo do Caderno. A decisão, com os degraus, está no bloco de divergências.

08

A conduta, hora a hora

A consulta precisa deixar um plano utilizável em casa: como aliviar desconforto, manter alimentação e líquidos, acompanhar evolução e reconhecer a necessidade de retorno. Medicação sintomática só entra quando indicada, com dose e concentração conferidas. As etapas podem ocorrer juntas conforme a necessidade da família.

O Salvador conduz a linha principal. Onde a criança à sua frente se afasta dele — a febre súbita da gripe, o lactente pequeno, a tosse que não passa —, o marco diz o que muda.

  1. Minuto 0 — antes da queixa, o perigo

    Rafaelina chega falando do catarro verde, e a primeira decisão é não deixar o catarro escolher a consulta. Enquanto ela conta, você olha: ele brinca, desce do colo, chora forte e para no peito. Você faz as perguntas que o Aidpi manda fazer primeiro — se bebe e mama, se vomita tudo, se teve convulsão — e observa o resto. Nenhum sinal geral de perigo: a consulta pode seguir na unidade.

    Prescrição
    • Registrar peso (11 kg, na caderneta), idade (1 ano e 8 meses) e temperatura axilar (37,3 °C).
    • Sinais gerais de perigo pesquisados e ausentes: bebe e mama, não vomita tudo, sem convulsão em 72 h, ativo, enchimento capilar normal, sem batimento de asa do nariz nem gemência.
    • Se algum estivesse presente: completar a avaliação, fazer o tratamento prévio e referir com urgência — e a consulta de resfriado terminaria aqui.
  2. Minuto 3 — a respiração contada, antes de qualquer conversa sobre remédio

    Com a criança calma no colo, um minuto de relógio: 32 incursões. Aos 20 meses, respiração rápida seria 40 ou mais. Sem tiragem subcostal, sem estridor em repouso, sem sibilância. A classificação do Aidpi é “não é pneumonia”, e é ela que permite, dez minutos depois, dizer à mãe que não há pneumonia com a segurança de quem contou.

    Prescrição
    • FR de 32 irpm, contada em 1 minuto com a criança tranquila (corte de 1 a 4 anos: 40 ou mais).
    • Sem tiragem subcostal, sem estridor em repouso, sem sibilância; SpO2 de 98% em ar ambiente.
    • Classificação pelo Aidpi: não é pneumonia.
    • Se houvesse sibilância: classificar pelo quadro de sibilância antes da tosse (Asma na infância).
  3. Minuto 6 — resfriado ou síndrome gripal

    A história do Salvador começa por espirro e coriza; a febre veio na segunda noite, baixa, e já foi embora. Não houve febre de início súbito: não é síndrome gripal, e não há antiviral na receita. Mas é neste marco que outra criança muda de caminho, e por isso a pergunta sobre como a febre começou se faz em toda criança resfriada que teve febre.

    Prescrição
    • Início gradual (espirro e coriza no 1º dia), febre baixa só na 2ª noite e na creche: não preenche a definição de síndrome gripal.
    • Se a febre tivesse começado de repente, com tosse, coriza ou obstrução nasal, abaixo de 2 anos e sem outro diagnóstico: síndrome gripal — e, abaixo de 5 anos, com fator de risco.
    • Nesse caso: fosfato de oseltamivir 30 mg por via oral de 12/12 h por 5 dias (1 ano ou mais e até 15 kg) — 1 cápsula de 30 mg aberta em 2 mL de água, com até 1 colher de chá de alimento adocicado, dada inteira logo após o preparo; 10 cápsulas; sem esperar exame; de preferência nas primeiras 48 h.
    • Com saturação de 94% ou menos, dispneia ou esforço respiratório: SRAG — primeira dose de oseltamivir na unidade, coleta e internação.
  4. Minuto 9 — as vizinhanças: ouvido, garganta, cada narina

    Otoscopia dos dois lados, mesmo com o choro: membranas translúcidas, sem abaulamento. Garganta levemente avermelhada, sem placas, sem gânglio doloroso no pescoço. Cada narina com a lanterna: secreção espessa nas duas, sem assimetria. Quarto dia de doença, sem piora depois de ter melhorado. Nenhuma vizinha doente — e cada negativo registrado é o que vai sustentar a conversa sobre o antibiótico.

    Prescrição
    • Otoscopia bilateral: membranas timpânicas translúcidas, sem abaulamento — sem otite.
    • Orofaringe com hiperemia leve, sem exsudato; sem adenomegalia cervical dolorosa.
    • Narinas examinadas uma a uma: secreção mucopurulenta bilateral, sem assimetria.
    • 4º dia de doença, sem piora depois de melhora: sem motivo para reexame de seio da face.
    • Diagnóstico: rinofaringite aguda (resfriado comum), sem sinal de complicação.
  5. Minuto 12 — a receita do nariz e da água

    O que alivia o Salvador está na farmácia da unidade e na cozinha de casa. O soro fisiológico nasal desentope o nariz para ele mamar e dormir; a oferta de líquidos e do peito repõe o que a febre e a coriza gastam. O mel, que aos 20 meses ele já pode tomar, é medida caseira aceita pelo Aidpi. O descongestionante da farmácia sai hoje, e sai com o motivo dito.

    Prescrição
    • Cloreto de sódio 0,9% solução nasal (Rename, componente básico): gotas ou jatos nas duas narinas antes das mamadas, das refeições e de dormir.
    • Oferecer água e líquidos com mais frequência; manter o peito em livre demanda.
    • Mel: pode, a partir de 1 ano, como medida caseira para a tosse; nunca abaixo de 1 ano.
    • Suspender o descongestionante nasal comprado na farmácia: contraindicado abaixo de 6 anos (Consenso de Rinites) e nocivo a desencorajar no Aidpi.
    • Não prescrever xarope antitussígeno, expectorante, antigripal nem anti-histamínico.
  6. Minuto 15 — o antitérmico, com a dose que chega à criança

    O Salvador está sem febre agora, mas pode ter febre de novo antes de sarar, e a dose que a mãe dará às duas da manhã é a que você escrever. A receita diz para que serve o remédio — o desconforto, não o número —, em miligrama e em mililitro, com o dosador, o intervalo, o teto e o que não fazer. Um antitérmico só.

    Prescrição
    • Paracetamol 200 mg/mL solução oral: 15 mg/kg = 165 mg = 0,8 mL por via oral, com seringa dosadora, de 6/6 h se houver febre com desconforto (choro, irritação, recusa de comer ou de dormir).
    • Teto conferido: 4 doses × 165 mg = 660 mg/dia, abaixo de 75 mg/kg/dia (825 mg).
    • Se a família já tiver dipirona 500 mg/mL: 10 a 12 mg/kg = 5 gotas (125 mg) no frasco de 20 gotas por mL, de 6/6 h — em vez do paracetamol, nunca junto.
    • Ibuprofeno é opção acima de 6 meses e com dengue afastada: 5 a 10 mg/kg = 1,1 a 2,2 mL da suspensão de 50 mg/mL, de 8/8 h, máximo de 200 mg por dose.
    • Não alternar nem associar antitérmicos; não usar ácido acetilsalicílico; banho frio e compressas não entram como rotina — efeito curto, com calafrio e irritação.
  7. Minuto 18 — a conversa e a saída com data

    Agora, e só agora, o antibiótico. Com o exame registrado, a conversa tem argumento: o que o Salvador tem, por que a secreção ficou verde, o que o antibiótico faria e o que não faria, e — o que desarma a exaustão — o que vai acontecer nos próximos dias e o que a faz voltar antes. As falas estão no bloco de conversa. A consulta termina com duas datas: a do retorno imediato, que depende de sinal, e a do retorno em cinco dias, que depende de não melhorar. Nenhum dos documentos federais usados neste capítulo fixa critério de afastamento da creche para o resfriado comum; esta apostila adota a volta quando a criança está sem febre há 24 horas sem antitérmico e em condições de acompanhar a rotina — empréstimo do prazo que o Guia de Influenza usa para liberar o profissional de saúde com síndrome gripal —, e coriza ou tosse, sozinhas, não afastam.

    Prescrição
    • Orientação escrita: voltar imediatamente se não conseguir beber ou mamar, se piorar o estado geral, se a febre voltar ou piorar, se a respiração ficar rápida ou difícil.
    • Voltar em 5 dias se não estiver melhorando.
    • Voltar antes se a tosse vier em acessos, com guincho, vômito ou perda de fôlego, e em qualquer caso se passar de 14 dias.
    • Creche: retorno com 24 h sem febre, sem antitérmico, e disposição para a rotina; declaração a pedido da mãe.
    • Mãos lavadas antes de comer e depois de limpar o nariz; tosse e espirro no antebraço; lenço usado vai para o lixo.
  8. Dia 5 — o retorno que confirma ou muda o nome

    Se o Salvador voltar no quinto dia melhorando, a consulta é curta: a tosse pode continuar, a secreção pode seguir colorida, e nada disso pede receita nova. Se voltar sem melhora, a reavaliação refaz o exame inteiro — a respiração contada, o ouvido, cada narina, o jeito da tosse — procurando o nome novo. O bloco de reavaliação diz o que olhar e o que esperar em cada parâmetro.

    Prescrição
    • Refazer sinais gerais de perigo, FR em 1 minuto, tiragem, estridor, sibilância, otoscopia, narinas e orofaringe.
    • Melhorando, mesmo com tosse e secreção colorida: manter as medidas e repetir os sinais de retorno imediato.
    • Piora depois de ter melhorado, ou sintomas além do 10º dia: reexame de seio da face pelos critérios de Otites e rinossinusite.
    • Membrana abaulada, otorreia ou dor de ouvido: otite média aguda (Otites e rinossinusite).
    • Tosse virando acessos com guincho ou vômito: aplicar a definição de caso suspeito de coqueluche para a idade.
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Como saber se está funcionando

Na evolução habitual, os sintomas diminuem progressivamente. A família deve procurar avaliação antes do retorno programado se houver respiração difícil, incapacidade de beber ou mamar, prostração, piora importante ou febre com sinais de alerta. O retorno em cinco dias se não houver melhora é referência do percurso AIDPI, não um prazo obrigatório de espera.

Compare o quadro atual com o início: curso da febre, respiração, dor localizada, alimentação e atividade. Otoscopia e outros componentes do exame dirigido são acrescentados conforme a nova queixa. Não repita apenas a conclusão de resfriado se a evolução mudou.

Frequência respiratória e esforçoEm toda consulta, contada em 1 minuto com a criança tranquila; em casa, a família observa se a respiração fica rápida ou “puxada”

Esperado: Abaixo do corte da idade (50 de 2 a 11 meses; 40 de 1 a 4 anos), sem tiragem e sem gemência

Se não melhora: Respiração rápida: pneumonia pelo Aidpi, conduzida em Pneumonia adquirida na comunidade na criança. Tiragem, estridor em repouso ou gemência: referência urgente.

Ingestão de líquidos, peito e diureseA cada contato; em casa, as fraldas de cada dia

Esperado: Aceita o peito e os líquidos, mesmo comendo menos; fraldas molhadas como de costume

Se não melhora: Não consegue beber nem mamar, ou vomita tudo: sinal geral de perigo — voltar na hora e referir.

FebrePela família, com termômetro, a cada episódio de desconforto; na consulta, a curva desde o início

Esperado: Febre nos primeiros dias, cedendo; ausente depois

Se não melhora: Febre que aparece ou piora depois de a criança ter melhorado, ou que persiste: retorno imediato pelo Aidpi e sinal de agravamento pelo Guia de Influenza — reexaminar ouvido, respiração e seio da face.

Secreção nasalNo retorno de 5 dias e, se houver, no do 10º

Esperado: Espessa e colorida depois dos primeiros dias, diminuindo entre o 7º e o 10º; nas duas narinas

Se não melhora: Piora depois do 5º dia ou persistência além do 10º: reexame de seio da face (Otites e rinossinusite). De um lado só e purulenta: corpo estranho nasal.

OuvidoOtoscopia em toda consulta; em casa, dor, choro ao deitar, secreção saindo do ouvido

Esperado: Membranas translúcidas, sem abaulamento, sem otorreia

Se não melhora: Membrana abaulada, otorreia ou dor: otite média aguda — diagnóstico e decisão do antibiótico em Otites e rinossinusite.

Tosse: duração e caráterEm todo retorno, com pergunta direta sobre acessos, guincho, vômito depois da tosse, cianose ou pausa na respiração

Esperado: Úmida, melhorando junto com o resto; pode ficar alguns dias além da coriza

Se não melhora: Paroxismo, guincho ou vômito pós-tosse (ou cianose, apneia, engasgo abaixo de 6 meses) com 10 dias ou mais de tosse abaixo de 6 meses, ou 14 dias ou mais depois: caso suspeito de coqueluche. Além de 14 dias sem esses sinais: investigar.

Estado geral, sono e interaçãoRelato diário da família; na consulta, a criança entre os picos de febre

Esperado: Brinca e interage quando a febre cede; dorme mal pelo nariz nos primeiros dias

Se não melhora: Irritabilidade ou apatia que não melhoram com a febre controlada: alteração do nível de consciência, sinal de agravamento na criança pelo Guia de Influenza — reavaliação no mesmo dia.

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Onde o erro machuca

Prescrever antibiótico porque a secreção ficou verde ou porque a família pediu

O dano: Nenhum benefício no resfriado nem na rinite purulenta aguda, pelo Consenso de Rinites, e efeitos adversos significativos na criança. A família aprende que catarro verde se trata com amoxicilina e volta com o próximo resfriado pedindo o mesmo; e, se no retorno aparecer uma otite ou uma pneumonia, ela chega com antibiótico já começado e a pergunta errada — “o remédio falhou?”.

Como pegar a tempo: Registrar o exame negativo item por item (respiração contada, ouvido, garganta, narinas) antes de conversar; explicar a cor pela inflamação; entregar a lista do que faz voltar e a data do retorno. O antibiótico que não se dá precisa de um plano que ocupe o lugar dele.

Receitar — ou deixar de suspender — descongestionante, antigripal, xarope para tosse ou anti-histamínico na criança pequena

O dano: O descongestionante tópico é contraindicado abaixo de 6 anos, com efeitos cardiovasculares e no sistema nervoso central, e o Caderno 28 aponta risco de intoxicação no lactente; sedativos da tosse, expectorantes, descongestionantes e antigripais estão entre os remédios nocivos do Aidpi; o anti-histamínico não alivia o resfriado de quem não é atópico, e as associações sedam.

Como pegar a tempo: Perguntar o que já está em uso e mandar suspender em voz alta, com o motivo; oferecer no lugar o que funciona — soro fisiológico nasal, líquidos, peito e, a partir de 1 ano, mel.

Tratar o número do termômetro, alternar antitérmicos ou escrever a dose em gotas sem conferir o frasco

O dano: No estudo citado pela SBP, quase metade das crianças recebia subdose — em boa parte pelo gotejador que pinga gotas menores — e 8% recebiam dose acima; a alternância multiplica o erro sem somar efeito. Dipirona a 1 gota por quilo, o hábito que a SBP condena, dá 25 mg/kg, mais que o dobro do topo de 12 mg/kg.

Como pegar a tempo: Indicar o antitérmico pelo desconforto; um fármaco só; dose em mg/kg convertida em mL e medida com seringa dosadora; teto diário escrito na receita.

Classificar sem contar a respiração — ou contá-la com a criança chorando

O dano: A pneumonia da criança pequena começa como resfriado, e o que a separa é a frequência respiratória; sem ela, a criança com pneumonia sai com soro nasal e retorno em cinco dias, quando o Aidpi mandaria antibiótico e retorno em dois.

Como pegar a tempo: Um minuto inteiro, olhando a barriga, com a criança calma no colo; anotar o número e o corte da idade; se ela não acalmar, esperar o peito ou recontar em alguns minutos — nunca estimar.

Chamar de resfriado a síndrome gripal da criança abaixo de 5 anos — ou esperar exame para dar o oseltamivir

O dano: A criança abaixo de 5 anos é grupo de risco para complicação da influenza, com o maior risco de internação abaixo de 2 anos; o Guia indica o antiviral para toda síndrome gripal com fator de risco, sem exigir exame, e o maior benefício está nas primeiras 48 horas.

Como pegar a tempo: Perguntar como a febre começou em toda criança resfriada que teve febre; aplicar a definição do Guia (abaixo de 2 anos, febre súbita com sintomas respiratórios); prescrever com a tabela de peso na mão e ensinar a abrir a cápsula em 2 mL de água.

Dar alta sem data — ou deixar a tosse passar de duas semanas sem perguntar como ela é

O dano: O retorno imediato só funciona se a família souber quais sinais o disparam; e a coqueluche, que começa igual ao resfriado, dá formas graves e muitas vezes letais abaixo de 6 meses, idade em que o caso suspeito começa aos 10 dias de tosse.

Como pegar a tempo: Toda saída com os sinais de retorno imediato ditos e escritos, a data do retorno em cinco dias e a instrução de voltar antes se a tosse vier em acessos, com guincho, vômito ou perda de fôlego.

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O que dizer ao paciente e à família

A conversa com a família que veio buscar antibiótico é o centro deste capítulo, porque é nela que a consulta do resfriado dá certo ou dá errado. A mãe do Salvador não pediu amoxicilina por ignorância: pediu porque está exausta, porque a creche mandou, porque a vizinha viu “funcionar” e porque ninguém lhe disse o que esperar. O Caderno 28 dá a direção — a melhor maneira de enfrentar a angústia dos pais é explicar o caráter autolimitado da doença e o papel da tosse —, e o capítulo acrescenta a ordem: primeiro o que a criança não tem, depois o que tem, depois o que não vai na receita e por quê, e por fim o que vai acontecer e o que faz voltar.

Recusar sem plano é abandonar. A família que sai sem antibiótico e sem data volta à noite em outro serviço, e o antibiótico sai de lá. A família que sai sabendo o que olhar, o que dar, como medir, quando voltar e com a porta aberta tem com o que esperar a doença passar.

Abrindo — o que ele não tem, antes do que ele tem

Rafaelina, eu examinei o Salvador inteiro, e começo pelo que mais te preocupa: ele não está com pneumonia. Eu contei a respiração dele por um minuto e ela está normal para a idade; o peito não afunda, não tem chiado, o oxigênio está em 98%. O ouvido está bom dos dois lados, e a garganta não tem placa. O que ele tem é um resfriado. É o quarto desde março, e isso é o esperado para quem começou a creche em março: criança dessa idade costuma ter de sete a dez resfriados por ano.

Não diga: “É só uma virose.” O “só” diminui o que a mãe está passando, e a palavra virose, sem o exame explicado, soa como diagnóstico de quem não examinou.

Explicando o catarro verde

Esse catarro verde assusta todo mundo, mas ele é sinal de que o corpo está brigando com o vírus. Nos primeiros dias o nariz escorre água; depois chegam as células de defesa, e são elas que deixam a secreção grossa e esverdeada. Por isso quase todo resfriado fica verde lá pelo terceiro ou quarto dia. A cor não quer dizer bactéria. O que me faria pensar em outra coisa é o tempo: se ele piorar depois de ter melhorado, ou se passar de dez dias assim.

Não diga: “Verde não é nada.” Sem a explicação, fica a palavra da professora contra a sua — e é a professora que vê a criança todo dia.

Respondendo ao pedido do antibiótico — e à vizinha

Eu entendo por que você pediu, e quero te mostrar por que hoje eu não receito. Antibiótico mata bactéria, e o resfriado é causado por vírus. Quando estudaram crianças e adultos com resfriado, mesmo com catarro amarelo e verde, o antibiótico não fez a doença passar mais rápido — e deu efeito colateral. O filho da sua vizinha provavelmente melhorou em dois dias porque já estava no fim do resfriado, e ia melhorar do mesmo jeito. Se eu der agora, o Salvador fica com o efeito colateral sem o benefício. E, se no retorno eu achar uma otite ou uma pneumonia, aí ele vai precisar, e aí eu vou receitar.

Não diga: “Antibiótico não serve para nada.” É falso e fecha a porta: a mãe precisa ouvir que existe o dia em que ele serve, e que você vai reconhecer esse dia.

O descongestionante da farmácia e o mel da avó

Tem uma coisa que eu preciso que você pare hoje: o remédio de nariz da farmácia. Mesmo escrito “infantil”, ele não é para criança dessa idade — ele fecha os vasos do nariz, mas pode agir no coração e no sistema nervoso, e em criança pequena há risco de intoxicação. Guarda longe dele ou descarta. O mel que a sua mãe dá pode continuar, porque ele já tem mais de um ano e o mel alivia a tosse. Xarope de farmácia para tosse, não: é a tosse que limpa o peito dele.

Não diga: “Quem mandou dar remédio sem receita?” A atendente e a avó fizeram o que acharam certo; a culpa faz a mãe esconder o próximo remédio em vez de perguntar.

O que dar e como medir

Para ele ficar melhor, são três coisas. Soro no nariz antes de mamar e de dormir, porque com o nariz livre ele mama e dorme. Peito e água à vontade. E, se a febre vier e ele ficar incomodado — chorando, sem querer comer, sem conseguir dormir —, paracetamol: 0,8 mL nesta seringa, com intervalo de pelo menos seis horas, no máximo quatro vezes no dia. Não precisa acordá-lo para dar, não precisa dar só porque o termômetro marcou, e não intercala com outro remédio. Me mostra como você vai puxar na seringa?

Não diga: “Dá 11 gotinhas se tiver febre.” A gota muda de frasco para frasco, “se tiver febre” vira toda vez que o termômetro subir, e sem a demonstração a dose das duas da manhã é um palpite.

O que vai acontecer — e o que faz voltar

Deixa eu te dizer o que esperar, para você não se assustar no caminho. O pior do resfriado costuma ser até o terceiro dia, e ele já está no quarto; do sétimo ao décimo dia ele deve estar bem melhor, e a tosse pode ficar mais uns dias. Você volta na hora, de dia ou de noite, se ele não conseguir mamar nem beber, se ficar mole ou muito diferente, se a febre voltar ou piorar depois de ter passado, ou se a respiração ficar rápida ou com o peito afundando. Se em cinco dias ele não estiver melhorando, você volta mesmo sem nada disso. E, se a tosse vier em crises, com vômito ou perda de fôlego, também.

Não diga: “Qualquer coisa, volta.” Qualquer coisa é tudo e é nada: a mãe exausta volta pelo catarro verde, que é esperado, e não volta pela respiração rápida, que ninguém descreveu.

A creche e o trabalho

Sobre a creche: ele pode voltar quando estiver 24 horas sem febre, sem ter tomado remédio para febre, e com disposição para a rotina. Nariz escorrendo e tosse, sozinhos, não impedem. Se você quiser, eu faço uma declaração dizendo que ele foi atendido, que é um resfriado e que não precisa de antibiótico — e faço também a sua declaração de comparecimento para o trabalho. O que mais protege a casa e a creche é lavar a mão depois de limpar o nariz e tossir no braço.

Não diga: “A creche não pode exigir antibiótico.” Pode até ser verdade, mas é a mãe quem vai ter a conversa amanhã cedo; dê a ela o papel que resolve, não uma briga para comprar.

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Onde bons médicos discordam

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.

Descongestionante nasal na criança resfriada: uso ocasional, remédio a desencorajar ou contraindicado?

Uso ocasional, evitado só no lactente e por até três dias — Caderno de Atenção Básica nº 28, v. II (Ministério da Saúde, 2012; reimpressão de 2013)

O Caderno descreve os descongestionantes tópicos como utilizáveis ocasionalmente em crianças e adultos, manda evitá-los no lactente pelo risco de intoxicação e desaconselha o uso por mais de três dias, pela rinite química. No mesmo trecho, registra que não há evidência de eficácia dos descongestionantes, tópicos ou sistêmicos, e que os orais não têm eficácia comprovada na criança.

Brasil, Ministério da Saúde. Cadernos de Atenção Básica nº 28, v. II — Acolhimento à demanda espontânea: queixas mais comuns na Atenção Básica (2012/2013), seção de rinossinusites agudas.

Remédio nocivo a desencorajar, dos 2 meses aos 5 anos — Aidpi Criança (Ministério da Saúde, OPAS e Unicef, 2017)

No quadro de alívio da tosse com medidas caseiras, o manual lista descongestionantes nasais ou orais entre os remédios nocivos a desencorajar, ao lado de anti-inflamatórios, sedativos da tosse, expectorantes e antigripais, sem exceção por idade dentro da faixa do manual.

Brasil, Ministério da Saúde; OPAS; Unicef. Manual de Quadros de Procedimentos: Aidpi Criança — 2 meses a 5 anos (2017).

Contraindicado abaixo de 6 anos; no máximo cinco dias — V Consenso Brasileiro sobre Rinites (ASBAI, ABORL-CCF e SBP, 2024)

Na seção de tratamento, o Consenso atribui aos descongestionantes intranasais efeitos cardiovasculares e no sistema nervoso central importantes, contraindica-os abaixo de seis anos, pede que sejam evitados no idoso e limita o uso a cinco dias pelo risco de rinite medicamentosa.

Solé D et al. V Consenso Brasileiro sobre Rinites — 2024. Braz J Otorhinolaryngol. 2025;91(1):101500.

Como decidir

Esta apostila adota: nenhum descongestionante, tópico ou oral, no resfriado da criança abaixo de 6 anos; a partir de 6 anos, nenhum por rotina e, se a família já usa, não mais que cinco dias. Degrau 1 (escopo): dos 2 meses aos 4 anos e 11 meses, o Aidpi é o documento escrito para essa criança e vence o Caderno e o Consenso, escritos para todas as idades. A partir dos 5 anos, fora da faixa do Aidpi, o Caderno e o Consenso empatam no escopo — o Caderno trata das rinossinusites agudas em qualquer idade, o Consenso do fármaco em qualquer rinite —, e o degrau 2 (data) dá o Consenso de 2024: contraindicado até 6 anos e limite de cinco dias. A frase do Caderno que o Consenso não contradiz continua valendo e é a que decide a rotina: não há evidência de eficácia do descongestionante no resfriado.

Ibuprofeno como antitérmico da criança resfriada: reserva ou alternativa equivalente?

Reserva: acima de 6 meses, dengue excluída, só na criança alérgica a dipirona e a paracetamol — Aidpi Criança (Ministério da Saúde, OPAS e Unicef, 2017); Caderno 28 (2012) sem anti-inflamatório no resfriado

O quadro de analgésico e antitérmico traz paracetamol, dipirona e ibuprofeno, mas restringe o ibuprofeno, em nota, a maiores de 6 meses, com dengue excluída, nas crianças alérgicas a dipirona e paracetamol, com máximo de 200 mg por dose; o quadro de alívio da tosse põe os anti-inflamatórios entre os remédios nocivos. O Caderno de Atenção Básica nº 28, para o resfriado em qualquer idade, não recomenda anti-inflamatório não esteroide pelos efeitos colaterais.

Aidpi Criança — Manual de Quadros de Procedimentos (2017); Cadernos de Atenção Básica nº 28, v. II (2012/2013).

Alternativa equivalente: paracetamol, dipirona e ibuprofeno recomendados no Brasil — Sociedade Brasileira de Pediatria, Manejo da Febre Aguda (outubro de 2021)

O documento recomenda os três antitérmicos, sem ordem de preferência, todos eficazes e seguros na faixa terapêutica quando usados isoladamente; dá o ibuprofeno a 5 a 10 mg/kg por dose como antitérmico e cita estudos em que ele e o paracetamol tiveram o mesmo efeito em uma hora, com efeito mais duradouro do ibuprofeno em seis horas. Não exige alergia às outras duas.

Sociedade Brasileira de Pediatria. Departamentos Científicos de Pediatria Ambulatorial e de Infectologia. Manejo da febre aguda. Documento Científico, 5 out. 2021.

Como decidir

Esta apostila adota a SBP: o ibuprofeno é alternativa ao paracetamol e à dipirona, sem exigir alergia às outras duas — mantidas as travas do Aidpi que a SBP não contradiz: idade acima de 6 meses, dengue afastada e teto de 200 mg por dose. Degrau 1 (escopo): nenhum dos documentos foi escrito para esta decisão exata — o Aidpi é da criança doente de 2 meses a 5 anos, o Caderno do resfriado em qualquer idade, a SBP da febre em qualquer criança —, e cada um cobre só uma parte do paciente; empate. Degrau 2 (data): vence o mais novo, a SBP de 2021. Pelo paciente à frente, a decisão é simples: abaixo de 6 meses, ou onde há dengue circulando e ela não foi afastada, o ibuprofeno fica fora; nos demais, escolha um dos três pelo que a família tem e sabe medir — e só um.

Oseltamivir na criança pequena com síndrome gripal: o antiviral reduz complicação?

Indicado para toda síndrome gripal com fator de risco, e toda criança abaixo de 5 anos é fator de risco — Guia de Manejo e Tratamento de Influenza (Ministério da Saúde, 2023)

O Guia indica o fosfato de oseltamivir para todos os casos de síndrome gripal com condições ou fatores de risco, independentemente da vacina e mesmo no atendimento ambulatorial, e fundamenta a indicação no benefício do tratamento precoce na duração dos sintomas e, principalmente, na ocorrência de complicações; descreve o maior benefício quando o antiviral começa nas primeiras 48 horas.

Brasil, Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente. Guia de Manejo e Tratamento de Influenza 2023.

O tratamento antiviral da rinite viral não demonstrou reduzir complicações — V Consenso Brasileiro sobre Rinites (ASBAI, ABORL-CCF e SBP, 2024)

Na seção de rinites infecciosas, que inclui o vírus influenza entre os agentes da rinite viral, o Consenso escreve que os tratamentos farmacológicos existentes são, na maioria, paliativos, e que o tratamento antiviral, de eficácia teórica, não demonstrou diminuir o risco de complicações.

Solé D et al. V Consenso Brasileiro sobre Rinites — 2024. Braz J Otorhinolaryngol. 2025;91(1):101500.

Como decidir

Esta apostila adota o Guia de Influenza para a criança com síndrome gripal. Degrau 1 (escopo): o Guia é escrito para o paciente com suspeita de influenza e fator de risco; a frase do Consenso está numa seção sobre o resfriado comum em geral, causado por mais de duzentos vírus, para quase todos os quais não existe antiviral. As duas frases acabam decidindo pacientes diferentes. A criança com coriza de início gradual, sem febre súbita, não tem síndrome gripal e não recebe oseltamivir — é o Salvador. A criança abaixo de 5 anos com febre súbita e sintomas respiratórios, sem outro diagnóstico, tem síndrome gripal com fator de risco e recebe o antiviral sem esperar exame, de preferência nas primeiras 48 horas — é o Lourenço do caso resolvido.

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O raciocínio, em voz alta

Lourenço Bragança, 3 anos e 2 meses, 15 kg, é trazido pelo pai, Aires, a uma unidade de pronto atendimento às dez da noite de uma terça-feira de julho. Ontem de manhã foi bem para a creche; às três da tarde a creche ligou: febre de 39,4 °C e “caído”. À noite começou a tosse seca, e o nariz passou a escorrer. Hoje a febre voltou a cada seis horas, entre 38,8 °C e 39,5 °C; ele reclama de dor de cabeça e nas pernas, come pouco e bebe água. A irmã de 8 anos teve “gripe forte” há quatro dias. Não tomou a vacina de influenza deste ano e não tem doença prévia. No exame: 38,9 °C, frequência cardíaca de 132, respiração de 30 por minuto contada com ele deitado no colo do pai, sem tiragem, sem estridor, sem sibilância, saturação de 97%, hidratado, abatido mas respondendo; membranas timpânicas normais, orofaringe avermelhada sem placas, coriza nas duas narinas. O pai pergunta se é “aquela gripe que está dando” e se não precisa de antibiótico “para não virar pneumonia”.

  1. primeiro, o perigo e a respiração

    Sinal geral de perigo: bebe, não vomita tudo, sem convulsão, abatido mas responde, sem gemência, sem batimento de asa — nenhum. Respiração contada em um minuto: 30, abaixo de 40 para a idade; sem tiragem, estridor ou chiado; saturação de 97%. Pelo Aidpi, não é pneumonia — e o pai já tem a primeira resposta da noite.

  2. resfriado ou síndrome gripal

    A febre veio antes de tudo, de repente e alta, com cefaleia e dor nas pernas, e só depois vieram a tosse seca e a coriza; a irmã teve gripe há quatro dias. Pela definição do Guia de Influenza — febre de início súbito, tosse, cefaleia e mialgia, sem outro diagnóstico específico —, é síndrome gripal. Não é a história do Salvador, que começou pelo espirro.

  3. fator de risco, exame e janela

    Três anos: abaixo de 5, fator de risco para complicação da influenza. Com fator de risco, o Guia indica o oseltamivir independentemente de vacina — e ele nem tem a do ano —, no atendimento ambulatorial e sem exigir exame. Da febre das três da tarde de ontem até agora são 31 horas: dentro das primeiras 48 horas, em que o Guia descreve o maior benefício. Não há teste a esperar.

  4. a dose — e a fronteira dos 15 kg

    A partir de 1 ano, a dose vai pelo peso: até 15 kg, 30 mg; acima de 15 a 23 kg, 45 mg. A balança marca 15,0 kg — exatamente no limite, e 15 ainda é “até 15”: fosfato de oseltamivir 30 mg de 12/12 h por 5 dias, 10 cápsulas de 30 mg. Com 15,2 kg seriam 45 mg. Aos 3 anos ele pode não engolir a cápsula: abrir, misturar o conteúdo inteiro em 2 mL de água com até uma colher de chá de algo doce, dar tudo logo após o preparo — e, se ele vomitar até uma hora depois da dose, repetir a dose, como manda o Guia. A primeira dose sai ainda na unidade.

  5. o antitérmico, em mililitros

    Paracetamol 200 mg/mL: 15 mg/kg = 225 mg = 1,1 mL de 6/6 h se houver desconforto; quatro doses somam 900 mg, abaixo do teto de 75 mg/kg/dia (1.125 mg). Ou dipirona 500 mg/mL, 6 a 7 gotas. Um só, escolhido pelo que o pai tem em casa e sabe medir.

  6. o antibiótico que o pai pediu

    Não entra. O Guia de Influenza é explícito: não há evidência de benefício do antimicrobiano no paciente com influenza, exceto na forte suspeita de coinfecção bacteriana — e a respiração normal, sem tiragem e com saturação de 97%, não sustenta essa suspeita hoje. O que o pai leva no lugar é o que faz o Lourenço voltar: pelo Guia, na criança, febre que persiste ou que volta, respiração rápida com esforço, gemido, estridor, chiado, palidez ou saturação baixa, irritabilidade ou apatia; pelo Aidpi, não conseguir beber ou piora do estado geral.

  7. a saída

    Receita com o oseltamivir e o antitérmico em mililitros; sinais de retorno imediato ditos e escritos; retorno em cinco dias se não melhorar; creche só depois de 24 horas sem febre sem antitérmico. A dose de influenza que ele não tomou é conversa para Calendário Nacional de Vacinação da criança (PNI) e esquemas por idade, em Infectologia Pediátrica.

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Faça você

Euclides Lorenzo, 4 meses, 6,3 kg, nascido a termo e em aleitamento exclusivo, é trazido pela mãe, Arinda, à unidade básica. Há 11 dias começou com coriza e uma tosse seca “de resfriado”, sem febre; em outra unidade, no segundo dia, orientaram soro no nariz. Há três dias a tosse mudou: vem em crises, uma atrás da outra, ele fica vermelho, “perde o fôlego” e às vezes vomita a mamada no fim da crise. Ontem à noite a mãe achou que ele ficou “roxinho” durante um acesso. Entre as crises mama e parece bem. O avô, que mora com eles, tosse há três semanas. Na caderneta, recebeu a primeira dose de pentavalente aos 2 meses. No exame, entre as crises: afebril, respiração de 44 por minuto contada em um minuto, sem tiragem, sem estridor, sem sibilância, saturação de 97%. Durante a consulta, um acesso com oito tossidas seguidas termina numa inspiração ruidosa.

  1. classifique pelas duas réguas federais e diga qual vale para ele

    Pelo Aidpi: sem sinal geral de perigo, 44 por minuto (abaixo de 50 para a idade), sem tiragem, estridor ou chiado — “não é pneumonia”; e a regra da tosse prolongada ainda não disparou, porque são 11 dias, e não mais de 14. Pelo Guia de Vigilância em Saúde: menor de 6 meses, tosse de 10 dias ou mais, com paroxismo, vômito depois da tosse e um episódio de cianose — caso suspeito de coqueluche. As duas normas estão em vigor e dizem coisas diferentes para ele hoje; vale o Guia, escrito para a doença suspeita (degrau 1, escopo). O avô com três semanas de tosse na mesma casa reforça a suspeita.

  2. decida o que acontece antes de ele sair da unidade

    Notificar o caso suspeito. Colher material de nasofaringe para cultura ou PCR em tempo real antes do macrolídeo — ou, no máximo, até três dias depois de iniciado. E não mandá-lo para casa com soro no nariz: o Guia descreve o menor de 6 meses como o grupo das formas graves, muitas vezes letais, com cianose e apneia nos acessos, e o Euclides já ficou roxo uma vez. Ele sai para avaliação hospitalar no mesmo dia. O esquema de macrolídeo com dose por idade, a decisão de internar e a profilaxia do avô e dos demais contatos ficam com a apostila de Infectologia Pediátrica.

  3. diga o que faltou na primeira consulta, sem culpar ninguém

    No segundo dia, ninguém distinguiria: a fase catarral da coqueluche é igual a um resfriado. O que faltou foi a saída com data e com sinal — retorno em cinco dias se não melhorasse e a instrução de voltar se a tosse viesse em acessos, com vômito ou perda de fôlego — e uma pergunta que vale mais que exame: alguém em casa tosse há semanas?

Ver como fecharíamos

Caso suspeito de coqueluche pela definição do Guia de Vigilância em Saúde para o menor de 6 meses — tosse há 10 dias ou mais com paroxismo, vômito pós-tosse e cianose —, embora o Aidpi ainda o classifique como “não é pneumonia”, com tosse abaixo de 14 dias; as duas normas divergem, e vale a escrita para a doença suspeita. Na porta: notificação, coleta de nasofaringe antes do macrolídeo (ou até três dias após o início) e avaliação hospitalar no mesmo dia, pela gravidade da coqueluche nessa idade e pelo episódio de cianose. Tratamento, internação e profilaxia dos contatos com Infectologia Pediátrica.

Gabarito da questão de abertura
Comentário

O Aidpi aceita o mel como medida caseira para aliviar a tosse a partir de 1 ano e põe descongestionantes, sedativos da tosse, expectorantes e antigripais entre os remédios nocivos a desencorajar dos 2 meses aos 5 anos; o V Consenso Brasileiro sobre Rinites contraindica o descongestionante intranasal abaixo de 6 anos, por efeitos cardiovasculares e no sistema nervoso central. O Caderno de Atenção Básica nº 28 registra que o anti-histamínico não alivia o resfriado de quem não é atópico e descreve a solução salina a 0,9% como segura, inclusive no lactente.

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Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
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Plano de revisão

Em 7 dias

Reconheça o curso de um resfriado e explique por que cor da secreção isolada não define infecção bacteriana. Proponha conforto, higiene nasal quando útil, alimentação e hidratação. Diferencie esse caso de síndrome gripal que exige avaliação específica, otite, sinusite e pneumonia. Se indicar antitérmico para desconforto, confira a dose e o produto sem combinar medicamentos desnecessariamente.

Em 30 dias

Uma criança melhorou e voltou a ter febre; outra apresenta dor de ouvido; um lactente passou a mamar menos e respirar com esforço. Reavalie cada um e justifique o próximo passo. Faça uma conversa com a família que pediu antibiótico: acolha a preocupação, explique os achados e deixe um plano concreto de cuidado e retorno. A orientação precisa mostrar o que fazer, não apenas enumerar proibições.

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Agora atenda

Agora atenda: unidade básica, segunda-feira de manhã. Clarindo Carvalhal traz a filha, Aurelina, de 2 anos e 5 meses e 12 kg, com coriza há três dias, tosse à noite e febre de 38,5 °C no primeiro dia; hoje a secreção está amarela, e ele quer “um antibiótico e um xarope”, porque a escola pediu atestado e ele já perdeu dois dias de trabalho. Examine na ordem do Aidpi, conte a respiração, decida entre resfriado e síndrome gripal pela história da febre, prescreva o antitérmico em mililitros para o peso dela, suspenda o que não serve e conduza a conversa sobre o antibiótico até o fim — com os sinais de retorno imediato e a data do retorno.

Rinofaringite aguda – Resfriado comum na criança — Internato | OsceLabs