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A noite que ninguém examina
Apneia obstrutiva do sono
Apneia obstrutiva do sono no adulto: quem suspeitar e com que instrumento, qual exame confirma e como ler o laudo, a pressão positiva que só funciona se for usada, a hipoventilação da obesidade, o motorista sonolento e o paciente com apneia que vai ser sedado, operado ou internado.
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Responda antes de ler
Mulher de 49 anos, hipertensa, índice de massa corporal de 36 e circunferência do pescoço de 41 cm, vem à unidade básica por cansaço e ronco relatado pelo marido. Pontua 5 no STOP-Bang e 6 na escala de sonolência de Epworth. Qual é a interpretação correta desses instrumentos?
O paciente que você vai ver
Três e dez da madrugada de uma quarta-feira, enfermaria de clínica médica de um hospital geral, vinte e quatro leitos e um posto de enfermagem no meio do corredor. Você é o interno de plantão e está terminando de evoluir uma admissão quando a técnica de enfermagem surge à porta da sala de prescrição: “O do leito 7 está com a saturação apitando, 81%, e o ronco dá para ouvir daqui”. Ela não parece assustada. Diz que ele fez isso a noite inteira, que a saturação desce e sobe sozinha, e que só veio chamar porque desta vez o número ficou mais tempo embaixo.
O leito 7 é de Everardo Juruena, 54 anos, caminhoneiro de carreta há vinte e seis anos, internado na véspera por erisipela extensa na perna esquerda, com febre e a placa vermelha subindo até o joelho. Pesa 118 kg e mede 1,72 m. É hipertenso, toma quatro remédios para pressão e, pela anotação da admissão, a pressão chegou 168 por 96 no pronto-socorro. No fim da tarde pediu “alguma coisa para dormir”, porque a enfermaria faz barulho, e a prescrição da noite ganhou diazepam 10 mg por via oral. Às onze da noite a dor da perna apertou, e a enfermagem fez a morfina de resgate que estava prescrita.
À beira do leito, a cena se repete na sua frente enquanto você observa. Ele está deitado de costas, a cabeceira baixa, e ronca alto. De repente o ronco para. Durante uns vinte e poucos segundos não passa ar pela boca nem pelo nariz, mas o tórax e o abdome continuam se mexendo, um afundando enquanto o outro sobe, como quem puxa o ar contra uma porta fechada. A saturação, que estava em 90%, escorrega até 79%. Então vem um ronco engasgado, o corpo se mexe, o ar volta, a saturação sobe de novo e o ronco recomeça. Na tela do monitor, a curva da última hora parece um serrote. Você conta: são ciclos quase a cada minuto.
Você chama pelo nome e ele demora a acordar. Nos primeiros segundos não sabe onde está; depois reconhece o hospital, pede desculpa e diz que “é assim mesmo”. Sentado, em ar ambiente, a saturação fica em 91%, a frequência respiratória em 18 e a pressão em 158 por 94. O pescoço é largo e curto, a língua ocupa quase toda a boca quando ele a abre, e os dois tornozelos estão inchados, não só o da perna doente. A acompanhante, Ephigenia Jucá, a companheira dele há trinta anos, acordou com a movimentação. “Doutor, ele é assim há muito tempo. Em casa eu durmo virada para ele para cutucar quando para de respirar.” E, quase sem querer, conta o que mais a preocupa: no mês passado ele cochilou parado num semáforo, com a carreta carregada, e quem buzinou atrás foi que o acordou.
Você volta ao prontuário. Os exames da admissão estão lá desde a tarde, e ninguém tinha olhado com essa pergunta na cabeça: a gasometria venosa colhida para o lactato mostra bicarbonato de 31 mEq/L, com cloreto normal, potássio normal e nenhum diurético de alça na prescrição. Um bicarbonato alto assim, num homem que não vomita e não recebe furosemida, costuma ser o rim guardando base há semanas para compensar um gás carbônico que não sai. Somado à saturação de 91% acordado, ao edema dos dois tornozelos e ao serrote do monitor, o prontuário começa a contar uma história que não está escrita nele: a doença deste homem não é só a perna.
Nesse ponto cabem várias perguntas, e cada uma tem um jeito errado de ser respondida às três da manhã. O que se faz agora com a saturação de 79% — e por que a máscara de oxigênio com reservatório, que é o reflexo de quem foi chamado, pode ser a pior escolha neste paciente. O que fazer com o diazepam e com a morfina da próxima noite. Que exame pedir, e quando, para um homem internado por outra doença. Como separar o ronco com pausas da hipoventilação que o bicarbonato está sugerindo. Se ele vai poder voltar para a boleia na semana que vem. E o que dizer a ele e à companheira sem transformar a conversa numa acusação. Este capítulo começa por esta noite, mas a mesma doença vai aparecer para você de outras formas: na mulher da unidade básica que se queixa de insônia e cansaço, no hipertenso que não controla com três remédios, no homem que opera a vesícula depois de amanhã e ronca como Everardo.
Quem adoece disso
A apneia obstrutiva do sono é uma doença muito comum que quase nunca chega com o nome. O consenso da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia de 2022 — a régua brasileira deste capítulo — recupera os números clássicos da coorte de Wisconsin, com trabalhadores de 30 a 60 anos: índice de apneia-hipopneia de pelo menos 5 eventos por hora em 24% dos homens e 9% das mulheres, e de pelo menos 15 por hora em 9% e 4%. Os números recentes são maiores, e o próprio consenso explica por quê: a população envelheceu, a obesidade aumentou, os sensores ficaram mais sensíveis e a definição de hipopneia ficou mais tolerante. No estudo EPISONO, feito na cidade de São Paulo com 1.042 voluntários representativos da população adulta, 32,8% tinham a síndrome. As estimativas globais põem o Brasil entre os dez países com mais casos: cerca de 49 milhões de pessoas com índice de pelo menos 5 e 25 milhões com pelo menos 15.
Os fatores de risco são os que você vê no corredor: sexo masculino, obesidade, idade avançada e alterações craniofaciais. Em alguns grupos de idosos, o índice de pelo menos 5 eventos por hora chega a 90% dos homens e 78% das mulheres, o que obriga a separar o achado de exame da doença que merece tratamento. A diretriz brasileira de hipertensão de 2025 lembra que a doença é mais frequente em homens e em mulheres depois da menopausa. E a apresentação muda com o sexo: o consenso descreve roncos e pausas presenciadas sobretudo nos homens, e cansaço, fadiga, cefaleia matinal e insônia sobretudo nas mulheres — o que ajuda a entender por que tanta mulher com apneia passa anos tratada como ansiosa ou insone.
A maior parte dos pacientes chega por outra porta. O consenso cita prevalência muito alta em quem está no pré-operatório de cirurgia bariátrica, em quem tem hipertensão resistente — perto de 80% —, fibrilação atrial ou acidente vascular cerebral, este com prevalência entre 30% e 70%. A hipertensão aparece em até metade das pessoas com apneia, e cerca de 30% dos hipertensos têm apneia. A diretriz brasileira de fibrilação atrial de 2025 encontra apneia em 60% a 82% dos pacientes com a arritmia e relata recorrência depois da cardioversão em 82% dos que tinham apneia sem tratamento, contra 42% dos tratados. O capítulo de obesidade e síndrome metabólica, na apostila de Endocrinologia, registra o outro lado da mesma moeda: o protocolo brasileiro de diabetes tipo 2 de 2026 põe a apneia do sono entre os fatores que, somados ao excesso de peso, indicam rastrear diabetes.
No hospital, a doença é quase sempre invisível. A diretriz da American Academy of Sleep Medicine de 2025 para o adulto internado por doença clínica — a primeira da academia sobre o paciente hospitalizado — lista como comorbidades de alto risco a insuficiência cardíaca, a fibrilação atrial, a síndrome coronariana aguda, a doença pulmonar obstrutiva crônica, a hipertensão pulmonar, o acidente vascular cerebral e a obesidade grave, isto é, boa parte de uma enfermaria de clínica médica. A mesma diretriz registra que a continuidade do tratamento com pressão positiva durante a internação chega a apenas 5,8% em grandes séries populacionais: o paciente que usa o aparelho em casa costuma passar a internação sem ele. E lembra que a depressão respiratória em quem recebe opioide é comum na enfermaria.
Na estrada, o risco é de terceiros. Pelo consenso da SBPT, a pessoa com apneia não tratada tem duas a três vezes mais acidentes automobilísticos que a pessoa sem apneia, sobretudo pela sonolência diurna; o motorista profissional soma a isso mais obesidade, doença cardiovascular, diabetes e síndrome metabólica que a população geral. O tratamento com pressão positiva reduz o risco de acidente a um nível semelhante ao de motoristas sem apneia. É por isso que a Resolução Contran nº 927, de 2022, exige a avaliação de distúrbios do sono na renovação, adição e mudança para as categorias C, D e E, as de caminhão, ônibus e carreta — e é por isso que a cena deste capítulo é a de um caminhoneiro.
No Sistema Único de Saúde, o diagnóstico existe e o tratamento é irregular. O capítulo de hipertensão arterial sistêmica, na apostila de Cardiologia, já registra que a polissonografia existe no sistema, mas por referência e com fila. A apneia obstrutiva do sono não tem protocolo clínico e diretrizes terapêuticas publicado pelo Ministério da Saúde. E o aparelho de pressão positiva não é dispensado diretamente ao paciente pelo Ministério: segundo o parecer técnico nº 1.308/2025 do núcleo de assessoria técnica do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, que se apoia na ficha técnica de produtos para saúde da Conitec, o CPAP é financiado pelo Ministério da Saúde para secretarias, hospitais e entidades sem fins lucrativos, e não constava em lista de dispensação do município e do estado analisados. Na prática, o acesso depende de programas locais, da compra pelo próprio paciente ou de ação judicial. O interno precisa saber disso para não prometer o que o sistema não entrega — e para escrever o encaminhamento de modo que a fila ande.
Na criança, a apneia obstrutiva do sono tem prevalência estimada de 1% a 4%, com pico entre 2 e 8 anos, quando as amígdalas e a adenoide são proporcionalmente maiores que a via aérea, e sobe bastante na criança obesa. A doença da criança é outra, com outro exame, outro corte e outro tratamento, e aparece neste capítulo só no ponto de reconhecer e encaminhar.
Por que acontece o que acontece
A faringe é um tubo de músculo e tecido mole sem esqueleto próprio entre o nariz e a laringe. Essa falta de arcabouço é o que permite falar e engolir, e é também o que permite o tubo fechar. O calibre dela, a cada inspiração, resulta de um cabo de guerra que o consenso da SBPT descreve assim: puxando para fechar, a pressão negativa que o diafragma cria dentro da via aérea e a pressão dos tecidos que a envolvem; puxando para abrir, a contração dos músculos dilatadores — o genioglosso à frente — e a tração longitudinal que o volume pulmonar exerce sobre a traqueia. Acordado, o músculo vence. Dormindo, a atividade dos dilatadores cai, e em quem tem apneia obstrutiva do sono o equilíbrio se rompe: a faringe estreita até vibrar, o que é o ronco, ou fecha por completo, o que é a apneia. Todo paciente com a doença tem algum grau de comprometimento da anatomia; a vibração noturna repetida ainda lesa o músculo da região e piora o que já estava ruim.
O evento que você viu no leito 7 tem uma sequência que vale conhecer segundo a segundo, porque cada passo explica um sintoma. A via aérea fecha e o ar para, mas o comando respiratório continua: o diafragma puxa contra a faringe colapsada, e é por isso que tórax e abdome se movem em sentidos opostos — a apneia é obstrutiva porque há esforço, e seria central se o esforço também parasse. Sem ventilação, o oxigênio cai e o gás carbônico sobe. O cérebro responde com um despertar breve, que o paciente não percebe e não lembra; o tônus dos dilatadores volta, a faringe reabre com um ronco engasgado e vêm algumas respirações profundas que devolvem a saturação. O sono retorna, o tônus cai de novo, e o ciclo recomeça. O despertar salva a noite e estraga o dia: é ele que reabre a via aérea, e é a repetição dele, dezenas de vezes por hora, que fragmenta o sono e produz a sonolência diurna.
Nem todo mundo fecha a faringe pelo mesmo motivo, e o consenso organiza a doença em quatro fenótipos: anatomia comprometida, com via aérea estreita ou colapsável; músculos dilatadores ineficientes; limiar de despertar baixo, em que o paciente acorda ao menor esforço e não chega a sono estável; e controle ventilatório instável, o chamado alto ganho de alça, em que o centro respiratório responde demais a cada variação de gás carbônico e produz respiração cíclica. A distinção explica por que um adulto magro pode ter apneia importante e por que o mesmo tratamento funciona muito num paciente e pouco em outro. Medir esses fenótipos exige equipamento e método que não existem na prática clínica; para o interno, basta saber que anatomia é o denominador comum e que os outros três mecanismos entram por cima dela.
A obesidade é o principal fator de estreitamento, e por mais de um caminho. A gordura se deposita nas paredes da faringe e na língua — pacientes com apneia têm mais gordura na língua que obesos do mesmo peso sem apneia —, o volume pulmonar cai e com ele a tração que ajuda a manter o tubo aberto, e a circunferência do pescoço cresce junto com a da cintura. Há um mecanismo que conversa diretamente com o edema dos tornozelos de Everardo: ao deitar, o líquido acumulado nas pernas durante o dia migra para o pescoço, e esse deslocamento noturno se correlaciona com o índice de apneia, com a circunferência do pescoço e com o tempo que a pessoa passou sentada. É uma das razões pelas quais o paciente edemaciado — o caminhoneiro que passa doze horas sentado, o cardiopata congesto — piora à noite. O peso também é dinâmico: ganhar acelera a progressão da doença, e perder reduz a gravidade.
Posição, álcool e remédios mudam a mesma faringe de uma noite para outra. Deitado de costas, a gravidade leva a língua e o palato mole para trás, e o índice de apneia costuma ser maior em decúbito dorsal que de lado; o consenso atribui parte da variação entre uma noite e outra no mesmo paciente justamente ao tempo gasto em supino, ao álcool e aos fármacos que agem no sistema nervoso central. Benzodiazepínico e opioide fazem duas coisas ruins ao mesmo tempo: diminuem o tônus dos dilatadores, o que fecha mais a faringe, e sobem o limiar de despertar, o que alonga cada apneia e aprofunda cada dessaturação. O capítulo de agitação e insônia no internado, na apostila de Síndromes do Paciente Internado, descreve o efeito pelo lado do sedativo: no paciente com apneia não tratada, ele reduz a resposta ventilatória ao gás carbônico e a resposta de despertar à hipóxia. Na noite de Everardo, diazepam e morfina tiraram do caminho o único mecanismo que o protegia, que era acordar.
Sexo e idade também entram no mecanismo. O homem tem faringe mais longa e palato mole de maior área, portanto mais colapsável. A progesterona estimula os músculos da via aérea e a ventilação, o que ajuda a explicar por que a doença é menos comum na mulher antes da menopausa e se aproxima da do homem depois dela; testosterona elevada, seja por suplementação de andrógeno, seja pela síndrome dos ovários policísticos, pode agravar a apneia. Com a idade, a gordura em torno da faringe aumenta, os tecidos perdem elasticidade, o palato mole alonga e a resposta dos quimiorreceptores diminui. No idoso, o cansaço e o cochilo costumam ser atribuídos à idade, e a doença passa sem diagnóstico.
Da noite para a doença do dia, o caminho é a hipóxia intermitente somada à ativação simpática. Cada apneia termina com uma descarga simpática mediada pelos quimiorreceptores, vasoconstrição periférica e pico de pressão; repetida a noite toda, essa descarga ajuda a explicar a hipertensão e a perda do descenso noturno da pressão, com queda menor que 10% durante o sono. Somam-se liberação de substâncias vasoativas, inflamação sistêmica e estresse oxidativo. A pressão intratorácica muito negativa durante o esforço contra a faringe fechada aumenta a pós-carga do ventrículo esquerdo e, com a inflamação, favorece o remodelamento das câmaras e a fibrilação atrial. O metabolismo também sofre: a apneia se associa à resistência à insulina e à síndrome metabólica, e piora o controle glicêmico de quem já tem diabetes.
Na maioria das pessoas com apneia, o gás carbônico que sobe durante cada evento é eliminado nas respirações profundas que vêm depois. A síndrome de hipoventilação associada à obesidade começa quando isso deixa de acontecer. O consenso descreve a hipercapnia como multifatorial: mais trabalho para ventilar um tórax pesado, complacência pulmonar pior, capacidade residual funcional menor, resistência maior, resposta central reduzida à hipercapnia e à hipoxemia e menor ação da leptina. O gás carbônico que sobra ao fim da noite é compensado pelo rim, que retém bicarbonato — o 31 do prontuário de Everardo —, e o bicarbonato alto amortece o estímulo respiratório da noite seguinte, que por isso retém mais. Oxigênio sozinho não quebra esse ciclo: corrige o número do oxímetro, tira o estímulo hipóxico e o despertar, e deixa o gás carbônico subir sem alarme. A pressão positiva age por outra via: funciona como uma tala pneumática que mantém a faringe aberta sem depender do músculo, e quando a ventilação também é insuficiente o aparelho de dois níveis de pressão soma volume a cada respiração.

Como se apresenta de verdade
A apneia obstrutiva do sono acontece enquanto o paciente está inconsciente, e por isso a anamnese dela tem duas testemunhas: a pessoa que dorme ao lado, que conta a noite, e o próprio paciente, que conta o dia. O consenso da SBPT recomenda que a consulta inicial seja feita, sempre que possível, junto com o companheiro ou a companheira de cama. Quando não há testemunha — quem mora sozinho, quem dorme na boleia, o internado sem acompanhante —, a noite precisa ser observada de outro jeito: pela enfermagem, pelo oxímetro, ou pela pergunta certa feita ao colega de viagem.
O quadro se organiza em quatro partes que você vai procurar em ordem: os sintomas da noite, os do dia, a doença que trouxe o paciente por outra porta e o exame físico que muda a probabilidade. Duas situações pedem atenção à parte, porque mudam a conduta de imediato: a hipoventilação que se esconde atrás do ronco e a criança que ronca.
Percurso de aprendizagem
Primeiro, reconhecer apneia e suas consequências no cotidiano, inclusive sonolência em atividades de risco.
Depois, identificar hipoventilação e outras causas de hipercapnia. Oxigênio pode ser necessário, mas não corrige sozinho obstrução nem ventilação inadequada.
Aprofunde interpretação de exames e escolha de aparelhos após compreender a indicação e conseguir avaliar uso e resposta.
O que a pessoa do lado ouve
O ronco da apneia é alto, habitual e perturbador — incomoda quem dorme no mesmo quarto, às vezes no quarto ao lado — e é interrompido por silêncios que terminam num engasgo ou num ronco explosivo. A apneia presenciada é o sinal noturno mais específico: “ele para de respirar”, “eu fico contando”, “eu cutuco”. O paciente pode acordar com sensação de sufocamento, e muitos contam isso como pesadelo ou como refluxo. O consenso lista ainda noctúria, congestão nasal, sudorese noturna e salivação excessiva. A noctúria merece a pergunta, porque o homem de mais de cinquenta anos que levanta três vezes para urinar costuma sair da consulta com hipótese de próstata e nenhuma pergunta sobre ronco.
Ronco sozinho não é apneia. A pessoa que ronca sem pausas, sem engasgos e sem sintomas de dia pode ter ronco primário, que não traz o risco cardiovascular nem o risco de acidente da apneia. O que separa os dois, na conversa, são as pausas e o dia seguinte; o que separa de verdade é o exame do sono. A pergunta útil ao acompanhante não é “ele ronca?”, que quase todos respondem que sim, e sim “o ronco para e volta com um engasgo?”.
Pausas sem esforço são outra doença. No paciente com insuficiência cardíaca, com acidente vascular cerebral ou em uso crônico de opioide, a respiração pode crescer e diminuir em ondas, com apneias em que o tórax também para — é a apneia central, que tem outro mecanismo e não responde da mesma forma à pressão positiva. Na cena, o tórax e o abdome se moviam em sentidos opostos durante o silêncio: havia esforço, e portanto obstrução.
O que o paciente sente de dia
O sintoma diurno central é a sonolência diurna excessiva, e ele precisa ser separado do cansaço. Sonolência é cochilar sem querer — lendo, vendo televisão, parado no trânsito, depois do almoço numa reunião. Cansaço é falta de energia sem vontade de dormir. As duas coisas coexistem na apneia, mas a primeira é a que tem consequência para terceiros. A sonolência vem acompanhada de dificuldade de concentração, irritabilidade, prejuízo de memória e da capacidade de trabalho, alteração do humor, sintomas depressivos e cefaleia ao acordar, que melhora ao longo da manhã.
A mulher costuma contar outra história. O consenso descreve, nas mulheres, cansaço, fadiga, cefaleia matinal e insônia com mais frequência que o ronco testemunhado. Insônia e apneia se somam com frequência, e a combinação reduz a qualidade de vida e a adesão ao tratamento com pressão positiva, além de aumentar a mortalidade. A mulher de 58 anos que chega à unidade básica com “não durmo, acordo cansada e com dor de cabeça” tem na apneia uma hipótese obrigatória, e não uma curiosidade.
A Escala de Sonolência de Epworth mede o quanto a pessoa cochila em oito situações do cotidiano, cada uma pontuada de 0 a 3, com total de 0 a 24; o consenso chama de sonolência excessiva a pontuação de 11 ou mais. Ela mede sonolência, e não apneia: muita gente com apneia moderada não se sente sonolenta, e a sonolência tem várias outras causas. O consenso manda sempre investigá-las — sono insuficiente, higiene do sono inadequada, síndrome das pernas inquietas, hipotireoidismo, depressão, narcolepsia —, e a elas se somam os remédios que dão sono. Mesmo com o tratamento bem feito, 12% a 30% das pessoas mantêm sonolência residual, e a primeira causa a descartar nesses casos é o aparelho mal usado.
No motorista, pergunte diretamente e sem tom de acusação: se já cochilou dirigindo, se já saiu da faixa, se já teve um quase acidente, se precisa parar para dormir no meio do trajeto, se dirige de madrugada. A resposta costuma vir mais fácil da boca de quem viaja com ele. Registre a profissão no prontuário e no encaminhamento — o protocolo de regulação de pneumologia do TelessaúdeRS de 2023 pede exatamente isso, chamando atenção para motoristas e trabalhadores de linha de montagem.
Quem chega por outra porta
Boa parte dos pacientes não vem por causa do sono, e o interno encontra a apneia quando pergunta por ela diante de uma doença que ela causa ou agrava. A primeira porta é a hipertensão, sobretudo a resistente e a que não cai à noite na monitorização ambulatorial: a diretriz brasileira de hipertensão de 2025 inclui ronco e apneia na anamnese do hipertenso e a apneia entre as causas secundárias a investigar. Diagnóstico, definição de resistência e metas pressóricas pertencem ao capítulo de hipertensão arterial sistêmica, na apostila de Cardiologia; a investigação e o tratamento da apneia pertencem a este.
A segunda é a fibrilação atrial, em que a apneia é fator de risco, fator de recorrência depois de cardioversão e ablação, e causa a procurar ativamente — o capítulo de fibrilação atrial, na apostila de Cardiologia, lista a apneia entre as condições que se investigam na enfermaria. Seguem-se o acidente vascular cerebral, a doença arterial coronariana, a insuficiência cardíaca, o diabetes tipo 2 e a síndrome metabólica. Na mulher, a síndrome dos ovários policísticos e o climatério, que têm capítulos próprios na apostila de Ginecologia, trazem apneia pelo peso, pelos androgênios e pela perda da progesterona.
A terceira é a obesidade, e com ela a cirurgia bariátrica: o capítulo de cirurgia bariátrica e obesidade mórbida, na apostila de Cirurgia do Aparelho Digestivo, registra a apneia do sono grave entre as comorbidades que tornam elegível o paciente com índice de massa corporal entre 30 e 35, e manda investigar a apneia antes da operação. O pulmão doente é a quarta porta: o consenso encontra apneia em 61% dos pacientes com doença pulmonar intersticial, em 19% a 60% dos asmáticos e em até 95% dos asmáticos graves, e descreve a sobreposição com a doença pulmonar obstrutiva crônica, que tem capítulo próprio nesta apostila.
A quinta é o próprio hospital. O paciente internado que ronca e dessatura em ciclos, que “dorme demais” depois de um sedativo, que acorda confuso com o oxigênio ligado, que tira a máscara de pressão positiva trazida de casa, está contando a doença para a enfermagem, e a enfermagem precisa de alguém que escute. A diretriz da AASM de 2025 chama de risco aumentado o internado com sonolência diurna somada a dois entre hipertensão diagnosticada, ronco alto habitual e apneia ou engasgo presenciado, e também o internado com comorbidade de alto risco.
O exame físico que muda a probabilidade
O consenso manda avaliar de rotina a pressão arterial, o índice de massa corporal, a circunferência do pescoço, as alterações craniofaciais, a faringe, o índice de Mallampati e a obstrução nasal. A circunferência do pescoço se mede na altura da cartilagem cricoide, com fita inextensível; os instrumentos de triagem usam o corte de 40 cm, e o exame pericial de trânsito usa 45 cm para homens e 38 cm para mulheres. Pescoço largo com cintura larga, num homem, já coloca a doença entre as hipóteses principais.
Na face e na boca, procure retrognatia e micrognatia — o queixo que recua em relação à testa, visto de perfil —, palato mole alongado e baixo, úvula grossa, estreitamento lateral da orofaringe, amígdalas aumentadas e língua grande. O índice de Mallampati modificado classifica, com o paciente sentado e de boca aberta, o quanto a língua deixa ver do palato e da úvula: nas classes 3 e 4, ela esconde quase tudo. O consenso cita o estadiamento de Friedman, que combina Mallampati, tamanho das amígdalas e índice de massa corporal, como preditor do sucesso da cirurgia de tecidos moles, e não como diagnóstico. No nariz, desvio de septo, pólipos e a rinite que obstrui entram no plano, porque atrapalham o uso da máscara.
Termine procurando o que muda a gravidade: edema de membros inferiores, turgência jugular, segunda bulha pulmonar hiperfonética, cianose, saturação baixa acordado. Esses são os sinais de que o problema pode ter passado do ronco para a hipoventilação e para o coração direito, e é essa possibilidade que decide se o paciente pode esperar a fila ou precisa de gasometria hoje.
Quando o ronco vem com hipoventilação
A síndrome de hipoventilação associada à obesidade é definida pelo consenso como obesidade, com índice de massa corporal de 30 ou mais, somada a gás carbônico arterial acima de 45 mmHg acordado, medido ao nível do mar, depois de excluídas doença pulmonar, neuromuscular, metabólica ou de caixa torácica que expliquem a hipercapnia. Em cerca de 90% dos casos há apneia obstrutiva junto, e mais de 70% dos pacientes têm apneia grave. O que a diferencia da apneia isolada é o que aparece de dia: dispneia, edema de membros inferiores, hipoventilação na vigília, sinais de cor pulmonale e face pletórica, além dos sintomas noturnos de sempre.
Dois achados baratos acendem a suspeita, e o consenso os dá com número: saturação de pulso abaixo de 93% e bicarbonato sérico venoso de 27 mEq/L ou mais. Everardo tinha 91% sentado em ar ambiente e bicarbonato de 31. A partir daí a suspeita pede gasometria arterial, e não uma nova oximetria. A leitura do distúrbio acidobásico e da compensação é do capítulo de gasometria arterial, na apostila de Interpretação de Exames à Beira do Leito; o que este capítulo acrescenta é a pergunta que o bicarbonato alto obriga a fazer ao paciente obeso que ronca.
No hospital, a hipoventilação costuma aparecer de três jeitos: o paciente que dessatura mais do que a apneia explicaria e não sobe a saturação acordado, o paciente que fica sonolento ou confuso depois que alguém aumentou o oxigênio para “corrigir o número”, e o paciente que recebeu sedativo ou opioide e não acorda direito de manhã. Os três pedem gasometria arterial antes da próxima dose de qualquer coisa.
A criança que ronca
A apneia da criança não tem dono em outro capítulo deste nível, e este assume o reconhecimento e o encaminhamento; a indicação e a técnica da cirurgia pertencem ao otorrinolaringologista. O consenso descreve os transtornos respiratórios do sono na infância como um contínuo que vai do ronco primário, o que ocorre em pelo menos três noites por semana sem eventos obstrutivos, sem alteração de trocas gasosas e sem despertares frequentes, até a apneia obstrutiva. Os principais preditores são ronco, apneias observadas pela família e sono agitado.
Na consulta, detalhe o ronco — frequência, intensidade, posição, continuidade, esforço — e pergunte por enurese, respiração oral, infecções de repetição da via aérea superior, desempenho escolar e labilidade emocional. No exame, a criança com apneia tende a crescer abaixo do previsto para a idade, e aparecem os estigmas do respirador bucal, as amígdalas palatinas aumentadas, o formato craniofacial alongado, com mento curto, mandíbula recuada e palato alto, e, nos casos graves, sinais de sobrecarga do ventrículo direito e hipertensão. Obesidade, síndromes genéticas com acometimento craniofacial, doenças neuromusculares, síndrome de Down, síndrome de Prader-Willi e malformação de Chiari pedem atenção especial.
A polissonografia em laboratório é o exame padrão na criança, e os cortes são outros: o limite inferior para dizer que há apneia varia entre 1 e 2 eventos por hora, um índice obstrutivo acima de 5 indica apneia moderada e a partir de 10, grave; no adolescente usa-se a classificação do adulto. A adenotonsilectomia é a primeira opção quando há hipertrofia do tecido linfoide, com mais chance de falha em lactentes, crianças obesas, síndromes craniofaciais e quadros graves. O papel do interno é reconhecer, registrar o que viu e encaminhar à otorrinolaringologia com essas informações.
Como fechar o diagnóstico
O diagnóstico de apneia obstrutiva do sono exige um exame objetivo do sono. Questionário, escala, história boa e pescoço largo dizem quanta chance há; não dizem se há doença nem quanto. A investigação responde a três perguntas, nesta ordem: há hipoventilação que muda o que se faz hoje; há apneia, de que gravidade e com que padrão; e há outra coisa explicando o sono ruim ou o dia sonolento.
Há ainda uma quarta pergunta, que é do sistema e não do paciente: onde, no SUS, este exame vai ser feito, e o que o pedido tem de dizer para a regulação mandá-lo à fila certa. O interno que só escreve “solicito polissonografia” no papel devolve o problema para a próxima consulta.
O questionário estima a chance; não fecha nem afasta
O consenso da SBPT resume a regra em uma frase: nenhum instrumento de triagem, isoladamente, é capaz de afastar ou confirmar a apneia sem um estudo objetivo do sono. Os questionários servem para outra coisa — identificar quem tem alto risco para priorizar a fila e escolher o exame, e identificar no pré-operatório quem tem mais chance de complicação respiratória. Pela mesma lógica, e porque não há benefício nítido em tratar quem não tem sintomas, o consenso não recomenda rastrear apneia em pessoas assintomáticas.
O STOP-Bang é o mais usado. São oito perguntas de sim ou não — ronco alto, cansaço, apneia observada, pressão alta, índice de massa corporal acima de 35, idade acima de 50 anos, circunferência do pescoço acima de 40 cm e sexo masculino —, com alto risco a partir de 3 pontos. Numa meta-análise de pacientes encaminhados a laboratório de sono, a sensibilidade foi de 90%, 94% e 96% para qualquer apneia, moderada a grave e grave, e a especificidade de 49%, 34% e 25%. Leia esses números como um instrumento que deixa passar pouca apneia grave e acusa muita gente que não tem: um STOP-Bang baixo tranquiliza, um alto só aumenta a chance.
Dois instrumentos têm vínculo brasileiro. O NoSAS soma pontos para circunferência do pescoço, índice de massa corporal, ronco, idade acima de 55 anos e sexo masculino, com alto risco a partir de 8 de 17; foi derivado na Suíça, validado numa coorte brasileira, e nas duas coortes discriminou melhor que o STOP-Bang e o questionário de Berlim. O GOAL tem quatro itens — sexo masculino, índice de massa corporal de 30 ou mais, idade de 50 anos ou mais e ronco alto —, com alto risco a partir de 2, e foi derivado e validado na população brasileira. O questionário de Berlim, também validado aqui, parece funcionar melhor na atenção primária que no laboratório de sono.
Para escolher o exame, o consenso usa uma definição clínica de alta probabilidade de apneia moderada a grave: sonolência diurna excessiva mais dois de três critérios — ronco alto e frequente, apneias presenciadas ou episódios de sufocamento, e hipertensão arterial. O protocolo de regulação do TelessaúdeRS, com outra finalidade, encaminha para polissonografia quem tem dois de três sintomas: roncos, sonolência diurna excessiva e pausas presenciadas. As duas regras parecem iguais e não são; a primeira decide o tipo de exame, a segunda decide a entrada na fila.
Quatro exames, e para quem serve cada um
O consenso classifica os exames do sono em quatro tipos, do mais completo ao mais simples. A polissonografia tipo 1 é feita no laboratório, com técnico acordado a noite toda e pelo menos sete canais — eletroencefalograma, eletro-oculograma, eletromiograma do mento, eletrocardiograma, fluxo aéreo, cintas de esforço e oximetria —, e é o padrão-ouro para diagnóstico e gravidade, porque mede o sono de verdade: estágios, despertares, microdespertares. O tipo 2 tem os mesmos canais sem supervisão. O tipo 3, a poligrafia domiciliar, tem de quatro a sete canais — fluxo, esforço e oximetria —, colocados pelo próprio paciente em casa. O tipo 4 registra um ou dois canais, obrigatoriamente com oximetria.
A poligrafia domiciliar é recomendada para quem tem alta probabilidade de apneia moderada a grave e não tem comorbidade grave ou descompensada nem outro distúrbio do sono, e deve ser feita em serviço com experiência, com leitura manual revisada por especialista em medicina do sono — nunca só a leitura automática. Nesse paciente, a poligrafia tem boa concordância com a polissonografia e desfechos equivalentes de sonolência, qualidade de vida e adesão ao aparelho, com vantagens reais: dorme em casa, custa menos, espera menos. Fora desse perfil ela funciona mal, e o consenso diz para não usá-la em quem não tem alta probabilidade.
A polissonografia deve ser preferida ao exame domiciliar, pela recomendação da AASM reproduzida no consenso, quando há doença cardiorrespiratória significativa, doença neuromuscular, hipoventilação acordado ou suspeita de hipoventilação no sono, uso crônico de opioide, insônia grave ou acidente vascular cerebral prévio; e também na suspeita de hipersonia de origem central, parassonia ou distúrbio de movimento do sono, e em quem não consegue montar o equipamento sozinho. Everardo, com provável hipoventilação e opioide na prescrição, é paciente de polissonografia, não de poligrafia.
A oximetria noturna isolada é triagem, não diagnóstico. É barata, fácil e boa para documentar que a hipoxemia melhorou com o tratamento, mas pode dar falso-negativo, não distingue apneia obstrutiva de central e perde acurácia com anemia, hipotensão, doença vascular periférica, obesidade, doença pulmonar obstrutiva e movimentação durante o sono. Existe ainda a polissonografia em noite dividida: a primeira parte diagnostica e a segunda titula o aparelho, e só vale se a apneia moderada a grave tiver sido registrada em pelo menos 2 horas de diagnóstico, seguidas de pelo menos 3 horas de titulação.
O negativo que não absolve
Com alta suspeita clínica, uma poligrafia negativa, inconclusiva ou tecnicamente inadequada deve ser seguida de polissonografia em laboratório — recomendação forte da AASM, que o consenso adota. E quando a primeira polissonografia vem negativa e a suspeita continua forte, uma segunda polissonografia é recomendada, com força menor. O motivo não é desconfiança do aparelho, é aritmética.
A poligrafia divide os eventos pelo tempo de registro, porque não sabe quando o paciente está dormindo; a polissonografia divide pelo tempo de sono. Quem passa duas horas acordado na cama tem essas duas horas somadas ao denominador. Além disso, sem eletroencefalograma a poligrafia só enxerga a hipopneia que derruba a saturação, e perde a que termina num microdespertar sem dessaturar. As duas perdas empurram o índice para baixo, e o consenso aponta onde isso pesa: na apneia leve, nos jovens, nas mulheres e em quem tem peso normal, que fazem mais eventos sem dessaturação. A insone é o exemplo extremo — muito tempo acordada e muitos eventos que só despertam —, e a conta do bloco de tabelas mostra uma apneia moderada virando leve na mesma noite.
Na prática, isso significa ler a poligrafia normal com a pergunta “quem é este paciente?”. Num homem obeso com sonolência e pausas presenciadas, poligrafia normal é mais provavelmente exame ruim que ausência de doença. Numa mulher com insônia, cansaço e hipertensão resistente, poligrafia com índice leve pode ser apneia moderada subestimada. Nos dois casos, o próximo passo é a polissonografia, e o pedido deve dizer por quê.
Lendo o laudo
O índice de apneia-hipopneia é o número de apneias e hipopneias dividido pelas horas de sono. Apneia é a redução do fluxo de pelo menos 90% por pelo menos 10 segundos; é obstrutiva se há esforço toracoabdominal, central se não há, mista se tem as duas fases. Hipopneia, na definição recomendada pela AASM e descrita no consenso, é a redução do fluxo de pelo menos 30% por pelo menos 10 segundos com dessaturação de pelo menos 3% ou com microdespertar. O índice de distúrbio respiratório soma ao índice de apneia-hipopneia os despertares relacionados ao esforço respiratório, e o consenso prefere usá-lo para definir a doença. A gravidade usa os cortes de 5, 15 e 30: normal abaixo de 5, leve de 5 a 14,9, moderada de 15 a 29,9 e grave a partir de 30 eventos por hora — as mesmas faixas que a diretriz brasileira de hipertensão de 2025 reproduz.
Existe uma definição alternativa de hipopneia, que exige dessaturação de 4% e não aceita o microdespertar. Ela produz um índice menor no mesmo paciente e na mesma noite, e o consenso diz que é fundamental o laudo declarar qual regra usou. Ao comparar dois exames, ou ao receber um laudo de outro serviço, procure essa linha antes de comparar os números: uma queda de 15 para 8 pode ser só a troca da regra.
Do laudo, tire para a decisão: o índice total e a regra de hipopneia; o índice em decúbito dorsal e lateral, porque a apneia que só existe de costas abre a porta para a terapia posicional; o índice no sono REM; a saturação mínima e o tempo com saturação abaixo de 90%, que dão a carga de hipoxemia e sugerem hipoventilação quando são desproporcionais ao índice; a proporção de eventos centrais, que muda o tratamento; e o eletrocardiograma da noite, com pausas, bradiarritmias ou fibrilação atrial. Se houve titulação, a pressão em que os eventos foram controlados em REM e de costas.
No internado: testar agora, depois ou na alta
A diretriz da AASM de 2025 sugere, com recomendação condicional e baixa certeza de evidência, rastrear a apneia no adulto internado com risco aumentado, desde que o rastreio faça parte de um caminho que leve ao diagnóstico e ao tratamento. O rastreio pode ser um questionário, como o STOP-Bang, e ou uma oximetria noturna de alta resolução. O exame diagnóstico deve ser feito, idealmente, depois que o paciente estiver estabilizado, na internação ou depois da alta, e a própria diretriz lista contraindicações relativas ao teste no leito: necessidade de oxigênio de 3 L/min ou mais, dor intensa, estado mental alterado e sono interrompido por nebulização, coleta de sangue ou barulho.
No hospital público brasileiro, a polissonografia de leito é exceção. O caminho realista para o paciente como Everardo tem quatro peças: registrar no prontuário, com hora, o que a enfermagem e você viram — ronco com pausas, esforço durante o silêncio, ciclos de dessaturação, duração —, porque é essa descrição que convence a regulação; usar oximetria contínua durante o sono como triagem e como monitorização, que o capítulo de agitação e insônia no internado chama de o exame mais subutilizado da situação; pedir gasometria arterial se houver qualquer sinal de hipoventilação; e sair com o plano de alta pronto, que a AASM também recomenda, com o exame solicitado e a data de retorno.
Não confunda a pergunta do capítulo de insônia com esta. A polissonografia não tem lugar na investigação da insônia aguda do internado; tem lugar, fora do hospital ou depois da estabilização, no paciente cujas noites mostram apneia.
Quando a pergunta é o gás carbônico
Saturação abaixo de 93% acordado e bicarbonato venoso de 27 mEq/L ou mais no obeso que ronca pedem gasometria arterial, colhida acordado e com a oferta de oxigênio anotada. Gás carbônico acima de 45 mmHg confirma hipoventilação na vigília; a síndrome de hipoventilação associada à obesidade só se diagnostica depois de afastar o que também retém gás carbônico. Para isso o consenso lista prova de função pulmonar com medida de força muscular — pressões inspiratória e expiratória máximas —, radiografia de tórax, eletrocardiograma, função tireoidiana e polissonografia, de preferência com medida de gás carbônico expirado ou transcutâneo, quando o serviço tiver.
O diagnóstico diferencial da hipercapnia crônica passa pela doença pulmonar obstrutiva, que é do capítulo de DPOC estável e exacerbação desta apostila; pelas doenças neuromusculares, como esclerose lateral amiotrófica e miastenia; pelas doenças da parede torácica, como cifoescoliose e sequela de toracoplastia; pelo hipotireoidismo; e pelos fármacos que deprimem o centro respiratório. O paciente pode ter mais de uma. A combinação de apneia obstrutiva com doença pulmonar obstrutiva, a síndrome de sobreposição, tem mais morbidade e mortalidade que cada doença isolada, e nela os sintomas clássicos da apneia ajudam pouco a suspeitar: o consenso indica polissonografia no paciente com doença pulmonar obstrutiva quando há suspeita clínica, cor pulmonale, policitemia ou hipertensão pulmonar desproporcional à obstrução. A apneia isolada eleva pouco a pressão pulmonar; somada à hipoventilação da obesidade ou à doença pulmonar obstrutiva, pode produzir hipertensão pulmonar grave.
No laudo da polissonografia, a hipoventilação do sono tem definição própria da AASM, reproduzida no consenso: gás carbônico acima de 55 mmHg por pelo menos 10 minutos, ou aumento de mais de 10 mmHg em relação ao valor acordado deitado, chegando acima de 50 mmHg, por pelo menos 10 minutos. Se o ecocardiograma mostrar hipertensão pulmonar sem doença das câmaras esquerdas num paciente com apneia, o protocolo de regulação de pneumologia do TelessaúdeRS encaminha à pneumologia quando a pressão sistólica estimada da artéria pulmonar passa de 35 mmHg.
Fluxo, tabelas e contas da apneia obstrutiva do sono
Você deve investigar sono e sonolência, diferenciar obstrução de hipoventilação e entender o papel do suporte noturno. Uma gasometria e um índice de exame não substituem história, segurança durante o sono e avaliação funcional. O fluxo vai do adulto com motivo para suspeitar até o seguimento do tratamento, com dois desvios que decidem antes de tudo: a hipoventilação e o paciente internado. As tabelas servem para escolher o instrumento e o exame, para refazer as contas que mudam a classe de gravidade no mesmo paciente, e para separar o que a perícia de trânsito mede do que a consulta decide. As notas trazem, com a conta feita, três defeitos de fonte capazes de mudar a conduta.
- 1Adulto com ronco com pausas, sonolência que atrapalha, cefaleia matinal ou insônia com cansaço, ou com doença de porta (hipertensão resistente, fibrilação atrial, acidente vascular cerebral, insuficiência cardíaca, obesidade grave, pré-operatório de bariátrica): ouvir o acompanhante, medir pressão, índice de massa corporal e pescoço, examinar faringe e nariz.
- 2Sem sintoma e sem doença de porta: não rastrear.
- 3Saturação abaixo de 93% acordado, bicarbonato venoso de 27 mEq/L ou mais, edema, sinais de cor pulmonale ou sonolência depois de oxigênio ou sedativo: gasometria arterial antes de qualquer outro passo.
- 4Gás carbônico acima de 45 mmHg acordado, com índice de massa corporal de 30 ou mais: síndrome de hipoventilação associada à obesidade até afastar doença pulmonar, neuromuscular, de parede torácica, hipotireoidismo e fármacos. Exame do sono: polissonografia, nunca poligrafia.
- 5Internado com risco: registrar os eventos com hora, oximetria contínua no sono, rever benzodiazepínico e opioide, decúbito lateral e cabeceira elevada; manter a pressão positiva de quem já usa, com o aparelho dele; testar depois de estabilizar; sair com plano de alta.
- 6Alta probabilidade de apneia moderada a grave (sonolência mais dois de: ronco alto e frequente, apneias ou sufocamento presenciados, hipertensão), sem comorbidade grave e sem outro distúrbio do sono: poligrafia domiciliar com leitura manual, ou polissonografia.
- 7Baixa probabilidade com sintomas, doença cardiorrespiratória significativa, doença neuromuscular, opioide crônico, insônia grave ou acidente vascular cerebral: polissonografia tipo 1.
- 8Poligrafia negativa, inconclusiva ou tecnicamente inadequada com suspeita alta: polissonografia tipo 1. Polissonografia negativa com suspeita forte: considerar segunda polissonografia.
- 9Índice de 15 ou mais; ou de 5 a 14,9 com sonolência, cognição prejudicada, alteração do humor, insônia, hipertensão, doença isquêmica ou acidente vascular cerebral: pressão positiva, titulada em laboratório ou por autotitulação domiciliar.
- 10Autotitulação não serve em hipoventilação, insuficiência cardíaca, doença pulmonar obstrutiva, doença neuromuscular, hipoxemia noturna, não roncador e apneia central: titulação em laboratório.
- 11Em todos: perda de peso, exercício, sem álcool à noite, sem sedativo desnecessário, evitar decúbito dorsal, tratar obstrução nasal. Apneia leve sem sintomas nem comorbidade, ou intolerância à pressão positiva: aparelho intraoral, terapia posicional ou cirurgia, com especialista, confirmando a eficácia com novo exame.
- 12Seguimento da pressão positiva: cartão de memória com uso de pelo menos 4 horas em pelo menos 70% das noites, vazamento e índice residual; sonolência, pressão arterial e peso; na hipoventilação, gasometria. Hipercapnia que persiste com CPAP bem usado: dois níveis de pressão.
- 13Motorista das categorias C, D e E com sonolência ou apneia moderada a grave sem tratamento: orientar por escrito a não dirigir até o controle, registrar no prontuário e no encaminhamento; a aptidão é decidida pelo médico perito examinador de trânsito.
- 14Pré-operatório: STOP-Bang em todos; alto risco sem hipoventilação, hipertensão pulmonar grave ou hipoxemia de repouso pode operar como se tivesse o diagnóstico, com a equipe ciente e medidas de mitigação; com esses achados, otimizar antes; depois da cirurgia, encaminhar para o exame do sono.
Instrumentos de probabilidade: o que somam e para que servem
| Instrumento | O que pontua | Alto risco | Onde ajuda | O que não faz |
|---|---|---|---|---|
| STOP-Bang | Ronco alto, cansaço, apneia observada, pressão alta, índice de massa corporal acima de 35, idade acima de 50, pescoço acima de 40 cm, sexo masculino (1 ponto cada) | 3 ou mais de 8 | Pré-operatório e fila de exame; sensibilidade de 90% a 96% conforme a gravidade | Especificidade de 25% a 49%: acusa muita gente sem apneia |
| NoSAS | Pescoço acima de 40 cm (4), índice de massa corporal 25 a 29 (3) ou 30 ou mais (5), ronco (2), idade acima de 55 (4), sexo masculino (2) | 8 ou mais de 17 | Validado em coorte brasileira, discriminou melhor que STOP-Bang e Berlim | Não confirma nem afasta |
| GOAL | Sexo masculino, índice de massa corporal de 30 ou mais, idade de 50 ou mais, ronco alto (1 ponto cada) | 2 ou mais de 4 | Derivado na população brasileira; quatro perguntas | Não confirma nem afasta |
| Berlim | Três categorias: ronco; fadiga e sonolência; obesidade e hipertensão | 2 categorias positivas | Atenção primária | Especificidade baixa em clínica de sono |
| Epworth | Chance de cochilar em oito situações, de 0 a 3 cada | 11 ou mais de 24 indica sonolência excessiva | Medir sonolência e acompanhar resposta ao tratamento | Não mede apneia: há apneia moderada sem sonolência e sonolência sem apneia |
Qual exame, para qual paciente
| Paciente | Exame | Por quê | Se vier normal |
|---|---|---|---|
| Alta probabilidade de apneia moderada a grave, sem comorbidade grave nem outro distúrbio do sono | Poligrafia domiciliar (tipo 3) com leitura manual, ou polissonografia | Nesse perfil os desfechos com a poligrafia equivalem aos da polissonografia, e a espera é menor | Polissonografia tipo 1 |
| Sintomas com baixa probabilidade | Polissonografia tipo 1 | A poligrafia não é indicada fora da alta probabilidade | Procurar outras causas de sonolência; segunda polissonografia se a suspeita continuar forte |
| Doença cardiorrespiratória significativa, neuromuscular, opioide crônico, insônia grave, acidente vascular cerebral | Polissonografia tipo 1 | A poligrafia rende pouco em apneia central, hipoventilação e hipoxemia, e subestima quem dorme pouco | Rever o diagnóstico diferencial com o laboratório |
| Saturação abaixo de 93% acordado ou bicarbonato venoso de 27 ou mais | Gasometria arterial, depois polissonografia com gás carbônico se houver | A hipercapnia muda o tratamento e o risco da noite | Gasometria normal: seguir a investigação da apneia pela probabilidade |
| Internado com risco aumentado | Triagem por questionário e oximetria contínua; exame após estabilizar ou na alta | Oxigênio de 3 L/min ou mais, dor, confusão e sono interrompido prejudicam o teste no leito | Triagem normal não afasta: manter o plano de alta se a noite mostrou pausas |
| Criança com ronco habitual e pausas | Polissonografia em laboratório, com otorrinolaringologia | Cortes pediátricos diferentes; adenotonsilectomia é a primeira opção com hipertrofia linfoide | Reavaliar com o especialista; ronco primário não é apneia |
Da noite ao número: a mesma noite em contas diferentes
| Situação | Conta | Índice | Classe |
|---|---|---|---|
| Homem que dorme bem, polissonografia | 120 eventos ÷ 6,0 h de sono | 20,0/h | Moderada |
| O mesmo homem, poligrafia | 120 eventos ÷ 7,5 h de registro | 16,0/h | Moderada |
| Mulher insone, polissonografia | 96 eventos ÷ 4,0 h de sono | 24,0/h | Moderada |
| A mesma mulher, poligrafia, que não vê 40 hipopneias só com microdespertar | 56 eventos ÷ 7,5 h de registro | 7,5/h | Leve |
| Adulto jovem e magro, polissonografia | 42 eventos ÷ 5,5 h de sono | 7,6/h | Leve |
| O mesmo adulto, poligrafia | 30 eventos ÷ 7,0 h de registro | 4,3/h | Normal |
| Hipopneia com 3% de dessaturação ou microdespertar | (24 apneias + 66 hipopneias) ÷ 6,0 h | 15,0/h | Moderada |
| Mesma noite com a regra de 4%, em que 40 hipopneias deixam de contar | (24 apneias + 26 hipopneias) ÷ 6,0 h | 8,3/h | Leve |
| Adesão exigida em 30 noites | 70% × 30 noites | 21 noites com 4 h ou mais | Mínimo adequado |
| Cartão com média de 5,1 h por noite | 18 noites com 4 h ou mais ÷ 30 noites | 60% | Inadequada, apesar da média |
Motorista das categorias C, D e E: o que a perícia mede e o que a consulta decide
| Parâmetro | Perícia de trânsito (Contran 927/2022, Anexo X) | Consulta (SBPT 2022 e instrumentos) | O que muda para o interno |
|---|---|---|---|
| Pressão arterial | Indício se sistólica acima de 130 e diastólica acima de 85 mmHg | Hipertensão diagnosticada pontua no STOP-Bang; na resistente, apneia em cerca de 80% | Pela conjunção, 160 por 80 não é indício pericial; na consulta, conta |
| Peso | Indício se índice de massa corporal acima de 30 | Acima de 35 no STOP-Bang, 30 ou mais no GOAL, 25 a 29 ou 30 ou mais no NoSAS | Cortes diferentes para perguntas diferentes |
| Pescoço | Na cricoide: acima de 45 cm em homens, acima de 38 cm em mulheres | Acima de 40 cm no STOP-Bang e no NoSAS | Homem com 42 cm pontua na consulta e não na perícia |
| Faringe | Mallampati modificado 3 ou 4 | Mallampati e amígdalas no exame; Friedman prediz resposta à cirurgia | Achado de exame, não diagnóstico |
| Sonolência | Epworth acima de 12 no item 1.2.5; “maior ou igual a 12 (> 12)” no item 1.3 | Epworth de 11 ou mais é sonolência excessiva | Escores 11 e 12 são sonolência clínica e indício pericial duvidoso: oriente pela régua clínica |
| Consequência | Epworth 12 ou mais e/ou dois indícios objetivos: a critério do perito, aprovação temporária ou avaliação específica e polissonografia | Exame objetivo do sono sempre; tratamento pela gravidade e pelos sintomas | O interno orienta, registra e encaminha; a aptidão é do perito |
Epworth 12 no exame do condutor. O Anexo X da Resolução Contran nº 927/2022 põe como indício de distúrbio do sono, no item 1.2.5, “Escala de Sonolência Epworth: > 12”, e no item 1.3 manda para avaliação o candidato com escore “maior ou igual a 12 (> 12)”. Um motorista com 12 pontos é indício pelas palavras do item 1.3, que incluem o 12, e não é pelo símbolo do mesmo item nem pelo 1.2.5, que começam no 13. A distância para a régua clínica é maior: o consenso da SBPT chama de sonolência excessiva a pontuação de 11 ou mais. Os escores 11 e 12 são sonolência clínica e podem não ser indício pericial. Esta apostila lê o item 1.3 pelas palavras (12 conta) e orienta o motorista pela régua clínica, que começa em 11.
Hipertensão sistólica isolada no exame do condutor. O mesmo Anexo X, no item 1.2.1, define o indício de hipertensão como “pressão sistólica > 130mmHg e diastólica > 85mmHg”. Pela conjunção, as duas precisam passar do corte: um caminhoneiro de 62 anos com 160 por 80 mmHg — hipertensão sistólica isolada, frequente justamente no condutor mais velho — não soma esse indício, enquanto um com 132 por 86 soma. Na consulta, hipertensão diagnosticada pontua no STOP-Bang de qualquer forma. Esta apostila trata como fator de risco clínico qualquer hipertensão, e a leitura pericial do item é do perito.
Índice de 15,0 sem sintomas no consenso da SBPT. O Quadro 8 define apneia obstrutiva por índice de distúrbio respiratório de 5,0 ou mais com sintomas “ou IDR > 15,0 eventos/h sem considerar os sintomas”, mas o mesmo quadro põe a apneia moderada na faixa de 15,0 a 29,9, e o texto sobre prevalência usa “IAH ≥ 15 eventos/h independente de sintomas”. Um paciente assintomático com índice exatamente 15,0 não teria apneia pela linha de definição e teria apneia moderada pela linha de gravidade e pelo texto corrido. Duas das três passagens do documento incluem o 15, a faixa de gravidade começa nele e a diretriz brasileira de hipertensão de 2025 também chama 15 a 29,9 de moderada: esta apostila adota 15 ou mais.
A conduta, hora a hora
A conduta na apneia obstrutiva do sono corre em três relógios. O da noite é o da segurança: posição, sedativo, opioide, oxigênio na dose certa e a pergunta sobre o gás carbônico. O da internação é o do caminho: registrar o que se viu, oferecer pressão positiva a quem precisa, pedir o exame certo e não deixar o diagnóstico morrer na alta. O da vida é o mais longo: a estrada, o aparelho usado todas as noites, o peso, a pressão.
A linha do tempo abaixo é a de Everardo, do chamado das três da manhã ao cartão de memória de três meses depois. O primeiro minuto de qualquer dessaturação — via aérea, quando ventilar com bolsa e máscara, quando chamar ajuda — é do capítulo de dessaturação aguda na enfermaria, na apostila de Síndromes do Paciente Internado, e a escolha do dispositivo e do alvo de oxigênio é do capítulo de oxigenoterapia, na apostila de Procedimentos e Vias de Acesso. O tratamento da erisipela é do capítulo de infecções bacterianas cutâneas, na apostila de Dermatologia. O que se segue é o que só a apneia acrescenta — e três partes dela não têm dono em outro capítulo do nível, por isso este as assume: a síndrome de hipoventilação associada à obesidade, a orientação ao motorista com apneia e o paciente com apneia que vai ser operado. O capítulo de avaliação pré-operatória e estratificação de risco cirúrgico, na apostila de Pré e Pós-operatório, lista a apneia entre os fatores de risco de complicação pulmonar; o que fazer com ela antes e depois da cirurgia está aqui, no caso de completar.
Quarta-feira, 3h15 — a saturação de 79% e o serrote
Você acorda Everardo, eleva a cabeceira e o vira de lado. A saturação sobe para 91% em menos de um minuto, sem oxigênio, e isso já responde à primeira pergunta: o que derruba a saturação é a faringe que fecha no sono, não o pulmão. A segunda pergunta é o que piorou esta noite, e a resposta está na prescrição: diazepam às dez e morfina às onze, num homem cujo único mecanismo de proteção era acordar. A terceira é o bicarbonato de 31. Por causa dele, o oxigênio é titulado com cuidado quando necessário, em conjunto com a avaliação de ventilação, por cateter nasal de baixo fluxo, com alvo de 88% a 92%, a faixa que o capítulo de oxigenoterapia usa para quem tem risco de hipercapnia — nunca a máscara com reservatório, que corrigiria o número do monitor e deixaria o gás carbônico subir em silêncio. Você pede a gasometria arterial agora, com ele acordado, e liga para o residente com a história resumida em três frases: ronco com pausas e esforço, dessaturação cíclica depois de benzodiazepínico e opioide, e bicarbonato de 31 com saturação de 91% acordado. Antes de sair do quarto, combina com a técnica de enfermagem o que ela vai observar e anotar.
Prescrição- Cabeceira elevada a 30 a 45 graus e decúbito lateral durante o sono; evitar decúbito dorsal
- Oximetria de pulso contínua durante o sono, com alarme em 88%
- Na dessaturação, assegurar via aérea e ventilação e acionar ajuda se a resposta ao reposicionamento não for imediata. Oxigênio titulado pode ser necessário, inclusive durante o sono, com alvo inicial de 88% a 92% no risco de hipercapnia e gasometria; hipoxemia ameaçadora exige suporte imediato. Oxigênio isolado não trata obstrução nem hipoventilação.
- Suspender o diazepam noturno
- Gasometria arterial agora, acordado, anotando a oferta de oxigênio no pedido
- Enfermagem: anotar horário, duração das pausas e menor saturação; chamar o plantão se ele não despertar ao chamado, se a saturação não subir acordado ou se ficar sonolento entre os ciclos
Quarta-feira, 3h50 — a gasometria que muda o plano
A gasometria arterial em ar ambiente mostra pH de 7,38, gás carbônico de 54 mmHg, bicarbonato de 31 mEq/L e oxigênio de 58 mmHg. O pH quase normal com bicarbonato alto conta uma acidose respiratória crônica compensada: há um componente de compensação que sugere retenção prévia, mas uma única gasometria não determina quando o CO2 subiu nem exclui agravamento recente ou distúrbio misto. Acordado, com índice de massa corporal de 39,9 e sem história de tabagismo, doença neuromuscular ou deformidade do tórax, a hipótese principal passa a ser a síndrome de hipoventilação associada à obesidade, quase sempre acompanhada de apneia obstrutiva grave. Ele está lúcido e o pH não está ácido, portanto esta não é, agora, uma insuficiência respiratória hipercápnica agudizada; se o pH estivesse caindo com sonolência, a decisão de ventilação não invasiva seria imediata, com o residente. O que muda desde já é a analgesia e a lista do que não se prescreve. A dor da erisipela é real e precisa ser tratada, mas com analgésico de horário que não deprima a respiração; a morfina fica para a dor que não cede, em dose menor, com oximetria contínua e reavaliação da sedação antes de cada nova dose. E a investigação da hipercapnia começa ainda nesta internação, com os exames que afastam as outras causas.
Prescrição- Dipirona 1 g por via intravenosa de 6 em 6 horas (2 mL da solução de 500 mg/mL), como analgesia de horário
- Morfina somente para dor que não cede à dipirona, em dose menor que a da véspera, com oximetria contínua e escala de sedação antes de cada dose
- Nenhum benzodiazepínico, hipnótico ou antipsicótico sedativo para dormir
- Hormônio estimulante da tireoide, hemograma procurando policitemia, eletrocardiograma e radiografia de tórax
Quarta-feira, 8h — a visita e o que a enfermaria pode oferecer
Na visita, o residente concorda com a hipótese e a discussão vai para o que a enfermaria consegue fazer. A diretriz da AASM de 2025 sugere oferecer pressão positiva durante a internação ao paciente com apneia recém-diagnosticada ou moderada a grave sem tratamento, e sugere que alguém com experiência em sono esteja disponível — pode ser o pneumologista, a fisioterapia respiratória ou uma teleconsulta. Everardo ainda não tem exame, mas tem hipercapnia acordado e uma noite documentada de dessaturação cíclica: a equipe chama a fisioterapia respiratória e a pneumologia do hospital para ventilação não invasiva noturna supervisionada, com interface e parâmetros definidos por quem titula. O papel do interno é ver a resposta: a curva da oximetria da noite, a gasometria da manhã, o nível de consciência, a pele sob a máscara. O edema dos dois tornozelos, a hipoxemia e a hipercapnia pedem olhar o coração direito, e o ecocardiograma entra se o hospital tiver. A pressão alta com quatro remédios volta a ser discutida com a régua do capítulo de hipertensão, sabendo que o CPAP baixa pouco o número — cerca de 4 mmHg na pressão sistólica de 24 horas, no estudo que o consenso da SBPT cita — e que o controle continua dependendo dos remédios.
Prescrição- Ventilação não invasiva noturna com a fisioterapia respiratória, interface e parâmetros definidos pela equipe que titula
- Manter oximetria contínua durante o sono e gasometria arterial na manhã seguinte
- Ecocardiograma transtorácico, se disponível na internação
- Antibiótico e cuidados da erisipela conforme o capítulo de infecções bacterianas cutâneas
Quinta-feira, 6h30 — a primeira noite com a máscara
A anotação da enfermagem é honesta: ele tirou a máscara duas vezes, o aparelho alarmou vazamento pela boca e ele acordou com a boca seca. Mesmo assim, entre uma retirada e outra, os ciclos de dessaturação praticamente sumiram, a menor saturação foi 86% e a gasometria da manhã veio com gás carbônico de 50 mmHg e pH de 7,41. Everardo diz que dormiu melhor do que em anos e que se sentiu sufocado nos primeiros minutos. É a noite que decide a adesão dos meses seguintes: o consenso da SBPT lembra que uma experiência inicial favorável ajuda fundamentalmente na adesão de longo prazo, e que os fatores que melhoram a adesão são educação sobre a doença e os benefícios esperados, monitoramento do uso e intervenções comportamentais. Você não discute força de vontade; resolve o problema concreto. Vazamento pela boca pede outra interface ou ajuste da que está; sufocação no início pede adaptação acordado, com a máscara ligada durante o dia, antes de dormir com ela; boca seca melhora quando o vazamento para. E você explica o que viu no monitor com as palavras dele: com a máscara, a respiração não parou.
Prescrição- Revisar a interface com a fisioterapia respiratória: tamanho, ajuste e vazamento pela boca
- Sessões de adaptação com a máscara ligada, acordado, durante o dia
- Manter a ventilação não invasiva em todos os períodos de sono, inclusive cochilos
Quinta-feira, 11h — a conversa sobre a carreta
A conversa sobre dirigir não pode ficar para a alta, quando o paciente já está com a mala na mão. Com Ephigenia presente e com a permissão dele, você junta o que já sabe: sonolência que o fez cochilar parado num semáforo, suspeita forte de apneia grave com hipoventilação e nenhum tratamento ainda. A orientação médica é não dirigir — nem a carreta, nem o carro — até que o diagnóstico esteja feito, o tratamento esteja em uso e a sonolência tenha cedido, e ela vai por escrito no prontuário e no resumo de alta. Você explica também como o sistema funciona, porque é isso que tira o medo do desemprego da frente da conversa: o médico que atende não suspende habilitação de ninguém; a Resolução Contran nº 927, de 2022, exige avaliação de distúrbios do sono na renovação das categorias C, D e E, e quem decide aptidão é o médico perito examinador de trânsito; a própria resolução prevê o resultado de inapto temporário para o que é passível de tratamento e, para o candidato com indícios de distúrbio do sono, aprovação temporária ou encaminhamento para avaliação e polissonografia — tratar não é fim de carreira. O afastamento do trabalho durante a investigação vai no atestado. Se ele recusar a orientação e seguir dirigindo, o que o médico pode ou deve fazer com o sigilo é doutrina do capítulo de Código de Ética Médica e princípios da bioética, na apostila de Medicina Legal e Bioética.
Prescrição- Registrar no prontuário: orientação de não dirigir até diagnóstico, tratamento em uso e sonolência controlada, dada ao paciente e à acompanhante, com data e hora
- Atestado de afastamento do trabalho pelo período da internação e da investigação
Sexta-feira — a alta com um plano que não deixa o diagnóstico morrer
Everardo recebe alta com a erisipela regredindo e sem aparelho em casa, e é aqui que a internação costuma perder o diagnóstico. A AASM sugere sair com um plano de alta que garanta diagnóstico e tratamento oportunos. No SUS, isso significa três documentos bem escritos e uma conversa franca. O pedido de polissonografia — não de poligrafia, porque há hipoventilação e opioide recente — leva o que o protocolo de regulação do TelessaúdeRS pede: sintomas e prejuízo funcional, a profissão com a observação de motorista, alteração de via aérea superior, comorbidades, índice de massa corporal e os exames com data, incluindo a gasometria. O encaminhamento à pneumologia leva a hipótese de hipoventilação associada à obesidade. O resumo de alta vai para a unidade básica com a orientação sobre dirigir e com as pendências: pressão, glicemia — o capítulo de obesidade lembra que a apneia entra nos fatores de rastreio de diabetes —, peso e o tratamento da obesidade, que é daquele capítulo. A conversa franca é sobre o aparelho: o CPAP não é dispensado diretamente ao paciente pelo Ministério da Saúde, o acesso depende do programa do município ou do estado, e o serviço social do hospital é quem sabe qual existe ali. Se a hipercapnia tivesse exigido ventilação diurna ou não tivesse melhorado com a ventilação noturna, a alta com equipamento seria decisão da pneumologia do hospital, e não um item da lista. A falta de aparelho em casa não pode ser tratada como detalhe inevitável: antes da alta, a pneumologia deve decidir se ele precisa manter suporte ventilatório fora do hospital e viabilizar acesso, local de cuidado e prazo seguro de investigação. A vinheta descreve uma barreira do sistema, não uma autorização geral para retirar VNI de quem ainda depende dela. A indicação de CPAP ou dois níveis depende da hipoventilação, da resposta e da avaliação especializada.
Prescrição- Não dirigir até reavaliação com exame do sono e tratamento em uso — orientação por escrito, com cópia no resumo de alta
- Sem benzodiazepínico, sem opioide e sem álcool à noite; dormir de lado, com a cabeceira elevada
- Polissonografia tipo 1, com a descrição dos eventos da internação, a gasometria e a profissão no pedido
- Encaminhamento à pneumologia: suspeita de síndrome de hipoventilação associada à obesidade com apneia obstrutiva grave
- Resumo de alta à unidade básica: pressão arterial, glicemia, peso e orientação sobre direção
- Voltar antes se piorar a cefaleia ao acordar, a sonolência, a falta de ar, o inchaço das pernas ou se houver confusão
Seis semanas depois — o laudo e a titulação
O laudo da polissonografia de noite dividida chega ao ambulatório de pneumologia, onde você está no rodízio. Nas 2 horas e 40 minutos de diagnóstico, o índice de apneia-hipopneia foi de 64 eventos por hora pela regra de 3%, com eventos quase todos obstrutivos, 88 por hora de costas e 41 de lado, menor saturação de 68% e 41% do tempo de sono abaixo de 90%. Nas 3 horas e 30 minutos seguintes, a titulação manual controlou os eventos, inclusive em sono REM e de costas, com CPAP de 13 cmH2O e máscara nasal. Você lê o laudo pela ordem do bloco de investigação. É apneia grave, e grave também de lado, portanto a terapia posicional não resolve sozinha. A carga de hipoxemia é desproporcional, o que combina com a hipoventilação. E a titulação foi em laboratório, que é onde deveria ser: aparelho automático não se usa para titular quem hipoventila. O consenso da SBPT aceita o CPAP como tratamento inicial do paciente estável com hipoventilação associada à obesidade e apneia grave, que é o caso da maioria, lembrando que a hipercapnia melhora mais devagar que com dois níveis de pressão nas primeiras semanas. O aparelho chega pelo programa estadual, depois de três semanas.
Prescrição- CPAP a 13 cmH2O durante todo o sono, inclusive cochilos, com a máscara nasal definida na titulação
- Trazer o cartão de memória do aparelho em cada retorno
- Gasometria arterial no retorno, depois de semanas de uso regular
Três meses — o cartão de memória e a volta ao trabalho
O cartão de memória mostra uso médio de 6,2 horas por noite, com 26 das 30 noites acima de 4 horas — 87%, acima dos 70% que definem adesão adequada —, vazamento dentro do esperado para a máscara e índice residual de 3,1 eventos por hora. A pontuação de Epworth caiu de 16 para 6. A gasometria veio com gás carbônico de 44 mmHg e bicarbonato de 26: a hipercapnia de vigília se resolveu com o CPAP, e o aparelho de dois níveis, que seria o próximo passo se ela persistisse, não foi necessário. A pressão está em 138 por 84 com os mesmos quatro remédios, e ele perdeu 6 kg. Sem sonolência e com o tratamento documentado, a volta ao trabalho é possível, e o caminho formal é a perícia: você escreve um relatório para ele levar, com o diagnóstico, o tratamento, a adesão medida pelo aparelho e a resposta da sonolência. O consenso lembra que a relação entre horas de uso e benefício é de dose e resposta, e que o tratamento com CPAP reduz o risco de acidente ao nível de quem não tem apneia — desde que usado todas as noites, inclusive na boleia.
Prescrição- Manter CPAP a 13 cmH2O; retitular se houver perda de peso importante, volta do ronco ou da sonolência
- Relatório médico ao paciente com diagnóstico, tratamento, adesão e resposta, para apresentar na perícia de trânsito
- Seguimento com o cartão de memória, Epworth, pressão arterial e peso a cada consulta
Como saber se está funcionando
Reavaliar a apneia obstrutiva do sono é olhar para dois lugares que o paciente não vê: a noite, pelo aparelho e pelo oxímetro, e o sangue, quando há hipoventilação. O terceiro lugar é o dia — sonolência, pressão, peso, direção —, e esse o paciente vê, mas costuma relatar melhor do que está.
O cartão de memória do aparelho tornou a reavaliação objetiva: o consenso da SBPT resume o seguimento do CPAP a três parâmetros fundamentais — adesão, vazamento e índice residual —, e a telemonitorização, quando existe, permite detectar o problema nos primeiros dias, que são os que decidem a adesão de longo prazo. A tabela abaixo diz o que medir, quando, o que esperar e o que fazer quando não vem.
Esperado: Pelo menos 4 horas por noite em pelo menos 70% das noites, e quanto mais horas, maior o benefício
Se não melhora: Procure a causa antes de culpar o paciente: máscara que machuca ou vaza, obstrução nasal, sensação de sufocamento, insônia, aerofagia, boca seca. Educação, adaptação acordado e ajuste da interface resolvem a maioria. Intolerância que persiste pede especialista para aparelho intraoral, terapia posicional ou cirurgia.
Esperado: Abaixo de 5 eventos por hora, o mesmo alvo da titulação ótima
Se não melhora: Vazamento alto torna o índice do aparelho pouco confiável: corrija primeiro. Depois, pense em pressão insuficiente, ganho de peso, álcool ou sedativo novo e apneias centrais surgidas com o tratamento, que costumam ceder em 4 a 8 semanas; persistindo, retitulação com o especialista.
Esperado: Dentro do limite indicado para o aparelho e a interface em uso
Se não melhora: Revise tamanho e ajuste da máscara, boca aberta durante o sono e barba. Vazamento pela boca com máscara nasal pede suspensor de mandíbula ou máscara oronasal, lembrando que a oronasal costuma exigir pressão maior.
Esperado: Pontuação abaixo de 11, com cefaleia matinal, noctúria e concentração melhores
Se não melhora: Primeiro, adesão: uso insuficiente é a causa mais comum de sonolência residual. Com adesão boa, investigue sono insuficiente, higiene do sono, pernas inquietas, hipotireoidismo, depressão, narcolepsia e remédios que dão sono; 12% a 30% mantêm sonolência mesmo bem tratados.
Esperado: Gás carbônico em queda até 45 mmHg ou menos acordado, com bicarbonato voltando ao normal
Se não melhora: Confira adesão e eventos residuais. A hipercapnia persiste em 20% a 50% dos pacientes mesmo com adesão adequada, e o próximo passo costuma ser o aparelho de dois níveis de pressão, com a pneumologia. pH caindo com sonolência é urgência, não ajuste de ambulatório.
Esperado: Sem ciclos de dessaturação, com menor saturação dentro do alvo definido para o paciente
Se não melhora: Reposicione, revise o que foi prescrito para dormir e para dor, confira se a máscara foi colocada e está vazando, e peça gasometria se ele estiver sonolento ou se o oxigênio precisou subir.
Esperado: Pressão no alvo do capítulo de hipertensão, peso em queda e nenhum cochilo ao volante
Se não melhora: Pressão fora do alvo com apneia bem tratada segue a régua da hipertensão resistente. Ganho ou perda importante de peso pede retitulação. Cochilo ao volante com aparelho em uso reabre a investigação e mantém a orientação escrita de não dirigir.
Onde o erro machuca
O dano: O sedativo e o opioide diminuem o tônus dos músculos que abrem a faringe e sobem o limiar de despertar: cada apneia dura mais, cada dessaturação vai mais fundo, e o gás carbônico sobe durante a madrugada, quando ninguém está olhando.
Como pegar a tempo: Pergunte por ronco, pausas e sonolência na admissão de todo obeso, hipertenso resistente, cardiopata e pré-operatório. Insônia do internado não se trata com benzodiazepínico — o capítulo de agitação e insônia no internado detalha o que fazer. Analgesia de horário sem opioide, opioide só para a dor que não cede, com oximetria contínua e escala de sedação.
O dano: O número do oxímetro melhora e o paciente piora: sem o estímulo hipóxico e sem o despertar, a ventilação cai, o gás carbônico sobe, o pH cai e a consciência rebaixa atrás de um monitor tranquilo.
Como pegar a tempo: Saturação abaixo de 93% acordado e bicarbonato venoso de 27 ou mais no obeso que ronca são a pista. Peça gasometria arterial, oferte oxigênio com alvo de 88% a 92% e trate a hipoventilação com pressão positiva, não com mais oxigênio.
O dano: A poligrafia divide os eventos pelo tempo de registro e não vê a hipopneia que só desperta: subestima o índice sobretudo em quem dorme mal, em mulheres, em jovens e em magros. O paciente segue sem tratamento, sonolento, dirigindo, com a pressão descontrolada.
Como pegar a tempo: Com alta suspeita, poligrafia negativa, inconclusiva ou mal registrada leva à polissonografia em laboratório. E não peça poligrafia para quem tem insônia grave, hipoventilação, doença cardiorrespiratória significativa, doença neuromuscular, opioide crônico ou acidente vascular cerebral.
O dano: A escala de Epworth mede sonolência, e há apneia moderada e grave sem sonolência; o STOP-Bang tem especificidade de 25% a 49%. Um erro deixa sem exame quem tem a doença; o outro rotula e trata quem não tem.
Como pegar a tempo: Use o questionário para estimar a chance, escolher o exame e priorizar a fila. O diagnóstico e a gravidade vêm do exame objetivo do sono, sempre.
O dano: A retirada abrupta faz os eventos voltarem na noite em que o paciente recebe sedativo, opioide e anestesia. A continuidade do tratamento na internação chega a apenas 5,8% em grandes séries.
Como pegar a tempo: Pergunte na admissão e no pré-operatório se ele usa o aparelho e peça que traga o dele, com a máscara. A AASM manda manter o tratamento de quem já usa, salvo contraindicação, e a SASM, usar antes e depois da cirurgia. Anote a pressão e a interface na prescrição.
O dano: No primeiro caso, o motorista sonolento volta à estrada sem orientação, com risco de acidente para ele e para terceiros e sem registro de que foi avisado. No segundo, ele esconde o sintoma, abandona o seguimento e dirige do mesmo jeito.
Como pegar a tempo: Pergunte por cochilo ao volante e quase acidente, oriente por escrito a não dirigir até diagnóstico, tratamento e controle da sonolência, e explique que a aptidão é decidida pelo médico perito examinador de trânsito, que conta com o tratamento como caminho de volta.
O que dizer ao paciente e à família
A apneia pede conversas que parecem simples e não são. O paciente não viu nada do que você vai contar, a acompanhante viu tudo e às vezes carrega anos de noites mal dormidas e de medo, e o assunto encosta em peso, em trabalho e em habilitação. Culpa não trata apneia; uma frase que faça o paciente se ver respirando — ou deixando de respirar — trata.
Três cuidados atravessam todas as falas: falar da doença, e não do peso como defeito moral; não prometer o que o sistema não entrega, como o aparelho de graça na semana que vem; e separar com clareza o que é orientação médica, que é sua, do que é decisão pericial, que não é. Quando a acompanhante estiver presente, confirme antes com o paciente que ele quer que ela participe.
Contar ao paciente o que aconteceu durante a madrugada
““Seu Everardo, quero contar o que a gente viu esta noite, porque o senhor estava dormindo e não tem como saber. O senhor roncava alto e, de repente, o ar parava de passar, mesmo com o peito fazendo força. Ficava assim uns vinte segundos, o oxigênio do sangue caía, e o senhor dava um ronco engasgado e voltava a respirar. Isso aconteceu quase a cada minuto. O remédio para dormir e o da dor deixaram essas paradas mais longas. É isso que a sua esposa vê em casa, e tem nome e tratamento.””
Não diga: “O senhor quase parou de respirar por causa do peso.”
Perguntar sobre sonolência ao volante sem soar como acusação
““Uma pergunta que eu faço a todo motorista que ronca assim, e o que o senhor me disser fica entre nós e a sua saúde: já aconteceu de o sono chegar dirigindo? De cochilar num sinal, sair da faixa, ter que parar para dormir no meio da viagem? Muita gente com esse problema passa por isso sem perceber que é da doença.””
Não diga: “O senhor está dirigindo dormindo? Isso é um perigo para todo mundo.”
Orientar a não dirigir enquanto a doença não estiver tratada
““Com o que o senhor me contou e com o que vimos à noite, a minha orientação é não dirigir, nem a carreta nem o carro, até a gente fazer o exame, começar o tratamento e o sono do dia passar. Vou escrever isso no seu prontuário e no papel da alta. Eu não suspendo a sua carteira — quem avalia a aptidão é o médico perito do trânsito, na renovação. E essa doença tem tratamento que devolve o sono; o caminho de volta para a estrada existe e passa pelo aparelho.””
Não diga: “O senhor não pode mais trabalhar de motorista.”
Antes da primeira noite com a máscara, quando o paciente tem medo de sufocar
““Essa máscara não respira pelo senhor; ela sopra um ar com um pouco de pressão para manter a garganta aberta enquanto o senhor dorme. No começo dá a sensação de ar demais, e isso passa. Vamos fazer diferente: o senhor coloca agora, acordado, vendo televisão, por alguns minutos. Se incomodar, tira. Hoje à noite a fisioterapia fica por perto, e se vazar ou machucar a gente troca o tamanho.””
Não diga: “É só colocar e dormir, não tem segredo.”
No retorno, o paciente que tira a máscara no meio da noite e quer desistir
““O cartão mostra que o senhor usa umas três horas e depois tira. Isso já é esforço, e quero entender o que acontece nessa hora: acorda com a boca seca, a máscara vaza, aperta, dá calor, o senhor vai ao banheiro e não coloca de volta? Cada uma dessas tem solução diferente. As horas da madrugada são justamente as do sono em que a garganta mais fecha, então vale a pena a gente resolver isso junto antes de pensar em desistir.””
Não diga: “Se o senhor não usar direito, não adianta nada e o problema é seu.”
“Vou emagrecer e aí não preciso de aparelho”
““Emagrecer ajuda muito, e eu quero que o senhor emagreça — quanto mais peso perder, mais a apneia melhora. Mas isso leva meses, e a apneia acontece hoje à noite, na estrada de amanhã. O aparelho protege enquanto o peso cai. Quando o senhor tiver perdido bastante, a gente refaz o exame e ajusta a pressão ou vê se ainda precisa.””
Não diga: “Emagrecer não resolve, o senhor vai usar isso para sempre.”
No pré-operatório, o paciente com alta probabilidade de apneia pergunta se a cirurgia vai ser cancelada
““Não, pelo que eu examinei, não precisa cancelar. Pelo questionário e pelo exame, é bem provável que o senhor tenha apneia do sono, e isso muda alguns cuidados: a anestesia e a equipe vão saber disso, a dor vai ser tratada dando preferência a remédios que não deixem a respiração lenta, e depois da cirurgia o senhor vai dormir de lado ou com a cabeceira alta, com o oxigênio monitorado. Passada a recuperação, o senhor faz o exame do sono, porque a apneia merece tratamento mesmo sem cirurgia nenhuma.””
Não diga: “O senhor tem apneia e a anestesia fica perigosa, melhor não operar.”
Onde bons médicos discordam
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.
Rastrear no hospital — AASM, dezembro de 2025
Sugere, com recomendação condicional e baixa certeza de evidência, rastrear a apneia no adulto internado por doença clínica com risco aumentado, o que inclui quem tem só a comorbidade de alto risco — insuficiência cardíaca, fibrilação atrial, síndrome coronariana aguda, doença pulmonar obstrutiva crônica, hipertensão pulmonar, acidente vascular cerebral, obesidade grave —, por questionário e ou oximetria noturna, desde que dentro de um caminho com diagnóstico, pressão positiva e plano de alta.
Mehra R, et al. J Clin Sleep Med. 2025;21(12):2193-2203 (American Academy of Sleep Medicine)
Não rastrear quem não tem sintoma — SBPT, 2022
Pela ausência de benefício nítido em tratar indivíduos sem sintomas, não recomenda rastrear apneia em pessoas assintomáticas. Os instrumentos servem para priorizar filas de exame e para o pré-operatório. O próprio consenso registra que os ensaios de CPAP em pacientes sem sonolência não reduziram eventos cardiovasculares.
Duarte RLM, et al. J Bras Pneumol. 2022;48(4):e20220106 (Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia)
Pelo escopo, a diretriz da AASM foi escrita para o paciente que está na sua frente — o internado por doença clínica —, e o consenso brasileiro fala do adulto em geral; pela data, a AASM também é a mais nova. As duas, porém, concordam no que mais importa ao interno: rastreio só vale se levar a algum lugar. Esta apostila adota o rastreio no internado com comorbidade de alto risco, feito com o que custa nada — a pergunta ao acompanhante sobre ronco e pausas, o STOP-Bang e a leitura da anotação noturna da enfermagem —, porque o resultado muda a segurança da própria noite: sedativo, opioide, posição, oxigênio e gasometria. O exame objetivo do sono fica para quem rastreou positivo ou teve eventos documentados, pedido na alta com plano de seguimento; sem sintoma, sem evento e sem caminho de tratamento, não se pede polissonografia só pela comorbidade. Essa restrição do exame é leitura desta apostila, que junta o escopo da AASM à advertência da SBPT.
Indicar pressão positiva — SBPT, 2022, reproduzindo a AASM de 2019
A pressão positiva é recomendada para índice de apneia-hipopneia de 15 ou mais e também para índice de 5 a 14 com sonolência diurna excessiva, cognição prejudicada, alteração do humor, insônia, hipertensão, doença cardíaca isquêmica ou acidente vascular cerebral.
Duarte RLM, et al. J Bras Pneumol. 2022;48(4):e20220106 (Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia)
Encaminhar à pneumologia só a partir de 15 — TelessaúdeRS, fevereiro de 2023
O protocolo de regulação encaminha à pneumologia a apneia moderada ou grave, com índice de 15 ou mais na polissonografia, ou a suspeita sem polissonografia disponível e sem fator obstrutivo de via aérea superior; a apneia leve diagnosticada não aparece entre as condições de encaminhamento.
TelessaúdeRS-UFRGS/SES-RS. Protocolos de Regulação Ambulatorial – Pneumologia Adulto, versão digital 2023, Protocolo 5
O primeiro degrau decide. Os dois documentos respondem a perguntas diferentes: o consenso diz quem se beneficia do tratamento, e o protocolo gaúcho organiza a fila de uma rede estadual de regulação. Para a pergunta que o paciente com apneia leve e sonolência faz — “eu preciso do aparelho?” —, o documento escrito para essa decisão é o consenso, e o protocolo regional, embora mais novo, não foi escrito para ela. Esta apostila adota a indicação da SBPT: apneia leve com sonolência, hipertensão, doença isquêmica, acidente vascular cerebral, insônia, humor ou cognição afetados pode receber pressão positiva. Na prática do SUS, as medidas gerais começam na atenção primária no mesmo dia — peso, álcool, sedativos, posição —, e o encaminhamento carrega o que o próprio protocolo pede: a sonolência com o prejuízo funcional, a profissão e as comorbidades, com teleconsultoria quando houver. No motorista profissional sonolento, a indicação não espera o índice chegar a 15.
Sonolência excessiva a partir de 11 — SBPT, 2022
Pontuação de 11 ou mais, num total de 24, indica sonolência diurna excessiva; a escala mede sonolência e não serve como triagem de apneia.
Duarte RLM, et al. J Bras Pneumol. 2022;48(4):e20220106, Quadro 5 (Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia)
Indício pericial acima de 12 — Contran, março de 2022
No exame de aptidão das categorias C, D e E, o Anexo X considera indício de distúrbio do sono Epworth acima de 12 (item 1.2.5) e manda o candidato com escore “maior ou igual a 12 (> 12)” e ou dois indícios objetivos para aprovação temporária ou avaliação específica com polissonografia, a critério do perito (item 1.3).
Resolução Contran nº 927, de 28 de março de 2022, Anexo X
As duas réguas são do mesmo ano, e a do Contran é norma — mas a natureza só desempata quando o escopo e a data empatam, e o escopo não empata. A resolução foi escrita para a perícia do candidato à habilitação; o consenso, para o paciente em consulta. Na consulta, quem está na sua frente é o paciente, e a decisão é clínica: há sonolência que exige investigar, tratar e orientar sobre dirigir? Esta apostila adota o corte clínico de 11 para essa decisão e dá ao motorista com 11 ou 12 a mesma orientação escrita que daria ao de 16 quando houver apneia ou cochilo ao volante. A régua do Contran continua sendo a do perito, e o próprio anexo é incoerente no escore 12, como mostra a nota do bloco de tabelas; lendo-o, esta apostila segue as palavras do item 1.3, em que 12 conta.
O raciocínio, em voz alta
Ilma Levi, 58 anos, 84 kg, 1,64 m, costureira autônoma, chega à unidade básica com o marido porque “não dorme”. Acorda várias vezes durante a noite, levanta duas vezes para urinar, acorda com dor de cabeça que melhora até o meio da manhã e passa o dia cansada, mas diz que não cochila sem querer. Teve a menopausa aos 51 anos. É hipertensa há doze anos e usa três anti-hipertensivos em dose plena, entre eles um diurético tiazídico; na consulta a pressão é 152 por 94, e a média da automedida em casa da última semana foi 148 por 92. Há um ano toma clonazepam em gotas à noite, prescrito para a insônia. O marido conta que ela ronca “quando está cansada” e que às vezes “dá umas paradas”, mas diz não ter certeza. O pescoço mede 38 cm, o índice de Mallampati é 3, não há retrognatia e o nariz é livre; a saturação é 97%. A escala de Epworth soma 9. Meses antes, uma poligrafia domiciliar feita por um convênio da prefeitura registrou 7,9 eventos por hora em 7 horas e 40 minutos de registro, com laudo de “apneia leve”, e ela quer saber se precisa de mais remédio para dormir.
o que a queixa de insônia esconde
Na mulher, a apneia chega mais como insônia, cansaço e cefaleia matinal do que como ronco testemunhado, e o consenso da SBPT descreve exatamente esse padrão. Somam-se a noctúria, a menopausa e, principalmente, a hipertensão que não controla com três remédios, um deles diurético — a porta em que a apneia aparece em cerca de 80% dos pacientes. Com esse conjunto, apneia obstrutiva do sono é hipótese obrigatória, e a insônia pode ser parte da mesma doença, a combinação que reduz a adesão ao tratamento e piora a qualidade de vida.
a conta da probabilidade
STOP-Bang: ronco, cansaço, pressão alta e idade acima de 50 somam 4 pontos; a apneia observada é duvidosa e não entra, o índice de massa corporal de 31,2 não passa de 35, o pescoço de 38 cm não passa de 40 e ela não pontua pelo sexo — alto risco a partir de 3. NoSAS: 5 pontos pelo índice de massa corporal de 30 ou mais, 2 pelo ronco e 4 pela idade acima de 55 somam 11, acima do corte de 8. GOAL: índice de massa corporal, idade e ronco somam 3, acima do corte de 2. A Epworth de 9 não desmente nada disso, porque ela mede sonolência, e muita gente com apneia não se sente sonolenta.
por que a poligrafia foi o exame errado
A poligrafia domiciliar é indicada para quem tem alta probabilidade de apneia moderada a grave pela definição clínica do consenso — sonolência diurna excessiva mais dois entre ronco alto e frequente, apneias presenciadas e hipertensão —, sem outro distúrbio do sono. Ilma não tem sonolência excessiva, e tem insônia, que é justamente uma das situações em que a polissonografia deve ser preferida. Três questionários positivos aumentam a chance; não transformam a paciente no perfil em que a poligrafia foi validada.
a conta que o laudo não fez
O índice de 7,9 em 7 horas e 40 minutos de registro corresponde a cerca de 61 eventos. A poligrafia não sabe quanto tempo ela dormiu; se, como ela conta, passou boa parte da noite acordada e dormiu 4 horas e meia, os mesmos 61 eventos dão 13,6 por hora. E a poligrafia não vê a hipopneia que termina em microdespertar sem dessaturar, frequente em mulheres. O resultado “leve” é compatível com uma apneia bem maior. Com suspeita clínica alta, poligrafia negativa ou inconclusiva leva à polissonografia em laboratório — e aqui o exame nem deveria ter sido a poligrafia.
o que fazer com o remédio para dormir
A resposta à pergunta dela é não: mais sedativo piora a apneia, porque o benzodiazepínico diminui o tônus dos músculos que abrem a faringe e alonga cada apneia. O clonazepam, em uso há um ano, não deve ser simplesmente cortado, pelo risco de abstinência e rebote da insônia: combina-se com ela uma retirada gradual, acompanhada. A insônia se trata com terapia cognitivo-comportamental, e o consenso registra, em ensaios pequenos, que ela também pode aumentar o uso noturno do CPAP. Enquanto isso, entram as medidas que valem para toda apneia: evitar álcool à noite, dormir de lado, exercício e perda de peso.
a polissonografia
O pedido de polissonografia tipo 1 vai com o motivo escrito: suspeita clínica alta, insônia, hipertensão resistente e poligrafia provavelmente subestimada, com o laudo anexado. O exame vem com 4 horas e 50 minutos de sono, 2 horas e 10 minutos acordada depois de adormecer, índice de apneia-hipopneia de 24 eventos por hora pela regra de 3% — 38 de costas, 12 de lado, 41 em sono REM —, índice de distúrbio respiratório de 27, menor saturação de 84% e 3% do tempo abaixo de 90%. É apneia moderada, com grande piora de costas e em REM.
a decisão de tratamento
Com índice de 15 ou mais, a pressão positiva é recomendada independentemente de sonolência, e a hipertensão reforça a indicação. O índice de 12 de lado mostra dependência de posição, mas ela ainda teria apneia leve com hipertensão dormindo só de lado; a terapia posicional entra como complemento, e como alternativa se ela não tolerar o aparelho, assim como o aparelho intraoral, eficaz na apneia leve a moderada. Como a insônia costuma derrubar a adesão, o retorno com o cartão de memória é marcado para as primeiras semanas, e não para daqui a seis meses. O acesso ao aparelho segue o programa local, e isso é dito a ela com franqueza.
o que fica aqui e o que volta para a hipertensão
A investigação das outras causas de hipertensão resistente, a monitorização ambulatorial e o ajuste dos remédios seguem o capítulo de hipertensão arterial sistêmica, sabendo que o CPAP ajuda a pressão em poucos milímetros de mercúrio e não substitui os anti-hipertensivos. O seguimento da apneia fica com este capítulo, e com um detalhe: como ela não era sonolenta, a Epworth não serve para medir resposta. Os marcadores dela são a cefaleia ao acordar, a noctúria, a qualidade do sono, a pressão e o cartão com pelo menos 4 horas em 70% das noites.
Faça você
Gonçalo Xerez, 47 anos, 112 kg, 1,70 m, porteiro de prédio no turno da noite, é visto no ambulatório de avaliação pré-operatória: colecistectomia por videolaparoscopia eletiva, marcada para depois de amanhã, por cólicas biliares de repetição. É hipertenso, com um remédio e pressão de 134 por 84 na consulta. A esposa, que o acompanha, reclama do ronco e diz que já o viu parar de respirar e voltar engasgado. Ele se sente cansado e soma 13 na escala de Epworth. O pescoço mede 44 cm. A saturação em ar ambiente é 96%, não há edema, a ausculta é normal, nunca fumou e o bicarbonato venoso colhido nos exames pré-operatórios é 25 mEq/L. Nunca fez exame do sono.
o que o STOP-Bang já decide
Ronco alto, cansaço, apneia observada, pressão alta, índice de massa corporal de 38,8, pescoço de 44 cm e sexo masculino somam 7 pontos; só a idade não pontua. É alto risco, e na avaliação pré-operatória a SASM admite que o paciente com alta probabilidade siga para a cirurgia como se tivesse o diagnóstico, com a equipe e o paciente cientes de que o risco é maior e com medidas de mitigação.
o que obrigaria a adiar
A SASM considera insuficiente a evidência para cancelar ou adiar a cirurgia só para fazer o exame do sono, a não ser que haja doença sistêmica significativa ou descontrolada, ou problema adicional de ventilação ou troca gasosa — síndrome de hipoventilação, hipertensão pulmonar grave, hipoxemia de repouso não explicada por outra doença. Nesses casos, avalia-se e otimiza-se antes.
o que procurar nele antes de responder
Saturação de 96% acordado, bicarbonato venoso de 25, ausência de edema e de sinais de coração direito falam contra hipoventilação e contra hipertensão pulmonar importante; a pressão está controlada. A pergunta seguinte é se a cirurgia tem pressa: é eletiva, mas as cólicas se repetem.
o que acontece depois da alta
A apneia provável não termina com a cirurgia. Ele tem sonolência excessiva, ronco alto e frequente, apneia presenciada e hipertensão, sem comorbidade grave: é o perfil de alta probabilidade de apneia moderada a grave em que a poligrafia domiciliar é aceitável. E trabalha à noite, o que pesa na sonolência e em como volta para casa.
Ver como fecharíamos
Complete o caso decidindo o perioperatório e o seguimento. A cirurgia não precisa ser adiada: com STOP-Bang de 7, sem sinais de hipoventilação, sem hipertensão pulmonar sugerida e com a pressão controlada, a SASM admite operar o paciente de alta probabilidade como se tivesse o diagnóstico, desde que as medidas de mitigação sejam implementadas e a decisão seja conversada com o cirurgião e com ele. O que você faz hoje é deixar a probabilidade escrita: no pedido de avaliação anestésica e na evolução, “alto risco de apneia obstrutiva do sono (STOP-Bang 7), sem sinais de hipoventilação: saturação de 96% em ar ambiente e bicarbonato de 25”. No pós-operatório, isso vira prescrição: decúbito lateral ou cabeceira elevada, analgesia de horário que poupe opioide, nenhum benzodiazepínico para dormir e oximetria contínua durante o sono enquanto houver opioide. A técnica anestésica é da anestesia. Na alta, ele sai com a orientação de avisar a equipe da unidade básica — a SASM recomenda exatamente isso — e com o pedido de exame do sono: pelo perfil, poligrafia domiciliar com leitura manual ou polissonografia, conforme a rede. Como ele tem sonolência de 13 e trabalha à noite, a orientação sobre não dirigir sonolento entra na conversa e no papel, mesmo sem habilitação profissional. Se a apneia moderada a grave se confirmar, a indicação é pressão positiva; se um dia ele precisar de outra cirurgia, o aparelho vai junto.
Questionários estimam probabilidade e não fazem diagnóstico: o consenso da SBPT afirma que nenhum instrumento isolado confirma ou afasta a apneia sem estudo objetivo do sono. O STOP-Bang de 3 ou mais indica alto risco, com sensibilidade alta e especificidade baixa, entre 25% e 49% conforme a gravidade. A escala de Epworth mede sonolência, e há apneia moderada e grave sem sonolência, sobretudo em mulheres, que costumam relatar cansaço e insônia. Repetir a escala só atrasa, e a oximetria isolada é triagem, com falso-negativo e sem distinguir apneia central de obstrutiva.
Teste-se
Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.
Plano de revisão
Em 7 dias
Faça uma anamnese do sono com o paciente e, quando possível, acompanhante. Explique qual exame responde à hipótese e o que uma hipercapnia diurna acrescenta à avaliação.
Em 30 dias
Acompanhe alguém iniciando pressão positiva: uso durante todo o sono, ajuste da máscara, vazamentos, sintomas e acesso. Discuta uma internação com hipoventilação e o que precisa estar resolvido para alta segura.
Agora atenda
Agora atenda: Adalgisa Rebouças, 63 anos, 102 kg, 1,58 m, merendeira aposentada, chega à unidade básica trazida pela filha, Josefina Torquato, que mostra no celular um vídeo gravado de madrugada: a mãe ronca, fica em silêncio fazendo força para respirar e volta com um engasgo. Adalgisa diz que dorme mal, cochila no ônibus e na missa, e que a pressão “não abaixa” com dois remédios; hoje está 156 por 98. Usa clonazepam em gotas para dormir há dois anos. O pescoço mede 41 cm, a saturação em ar ambiente é 94% e há edema discreto nos dois tornozelos. Converse com as duas, estime a probabilidade com os instrumentos do capítulo, decida se há sinal que peça gasometria antes do exame do sono, escolha o exame certo para ela, oriente sobre o remédio para dormir e escreva o encaminhamento com o que a regulação precisa para colocá-la na fila.
