Clínica Médica › Pneumologia
Velcro nas bases
Nódulo pulmonar e doenças intersticiais
Doenças pulmonares intersticiais para o interno: tirar o rótulo de DPOC e de congestão de quem tem o pulmão endurecendo, perguntar pela casa, pelo trabalho e pelos remédios, pedir a tomografia certa, saber onde o corticoide ajuda e onde mata, e conduzir a exacerbação que interna
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Homem de 32 anos tem febre de 38 °C, dor e inchaço em torno dos tornozelos e nódulos vermelhos dolorosos nas pernas há dez dias. A radiografia de tórax mostra linfonodomegalia hilar bilateral com parênquima normal. Não tem tosse nem falta de ar, e os exames para tuberculose e HIV foram colhidos. Sobre a conduta, é correto afirmar:
O paciente que você vai ver
É terça-feira, passa pouco das sete da manhã, e a enfermaria de clínica médica ocupa o segundo andar de um hospital geral. No leito 22 está o senhor Elpídio Salgado, 71 anos, motorista de ônibus aposentado, 68 quilos e 1,70 m, que subiu do pronto-socorro às duas da manhã. A linha do diagnóstico de internação diz: pneumonia bilateral em paciente com DPOC. Ele já recebeu a primeira dose de ceftriaxona e de azitromicina, uma ampola de furosemida por causa da crepitação e está com cateter nasal a 3 L/min, saturando 90%. O residente foi chamado para a sala de emergência e deixou escrito na evolução: colher história completa, reavaliar às nove. Você é o primeiro médico que vai sentar ao lado dessa cama desde a madrugada.
A história, que sai devagar porque ele para no meio das frases para respirar, não começa há dez dias. Começa há pouco mais de dois anos, quando a ladeira da padaria passou a pedir uma parada no meio. Depois foi a escada de casa, depois o banho — hoje ele se senta num banquinho de plástico para se enxugar. A tosse é seca, sem catarro, e piora quando ele conversa muito. A unidade básica ouviu ex-fumante com falta de ar e escreveu DPOC; há um ano ele usa uma bombinha de budesonida com formoterol, na técnica certa, e garante que nada mudou. A espirometria foi pedida, entrou na fila e nunca foi feita. Fumou um maço por dia dos 18 aos 60 anos. Os últimos dez dias trouxeram falta de ar parado, sem febre, sem catarro colorido, sem dor no peito e sem inchaço nas pernas.
No exame, a frequência respiratória é de 28 incursões por minuto, a pressão de 132/78 mmHg, o pulso de 104 e a temperatura axilar de 36,6 °C. A jugular não enche a 45 graus, não há edema, não há terceira bulha nem sopro. Na ausculta, as duas bases — e, à direita, até a metade do campo pulmonar — trazem um estertor fino, no fim da inspiração, parecido com o som de duas tiras de velcro sendo descoladas devagar. Não há sibilo. Você pede que ele tussa, ausculta de novo, e o som continua igual. Quando ele apoia as mãos no lençol, você repara nos dedos: a unha perdeu o ângulo com a pele e a ponta ficou arredondada, como uma baqueta de tambor. A esposa, dona Ignez Castilho, que chegou às sete com uma sacola de remédios, conta que as mãos dele ficaram assim de uns dois anos para cá.
A radiografia do pronto-socorro mostra opacidades reticulares nas duas bases, com os pulmões pequenos, e um velamento mais difuso por cima delas. Dentro da sacola está a pasta da unidade básica, e nela uma radiografia de três anos atrás, laudada como acentuação da trama nas bases, a correlacionar com a clínica. Ninguém pôs as duas lado a lado. O balanço da noite registra 1.800 mL de diurese depois da furosemida e a mesma saturação de antes. O peptídeo natriurético ainda não foi colhido, e a gasometria da admissão, com 3 L/min de oxigênio, trouxe pressão parcial de oxigênio de 58 mmHg e de gás carbônico de 34 mmHg.
Na sacola há também losartana, sinvastatina e omeprazol, este para a queimação que acorda seu Elpídio de madrugada. Nenhuma das caixas é das que costumam lesar o pulmão. As perguntas que o prontuário faz são as de sempre: é pneumonia, é o coração, é a DPOC da unidade básica? A saturação que não subiu com o diurético, o estertor que não mudou com a tosse, a falta de sibilo num suposto DPOC, os dedos e a radiografia de três anos atrás apontam para outro lugar: um pulmão que vem endurecendo há anos e que piorou de repente.
O que este capítulo ensina é o que fazer com esse pulmão, na ordem em que as decisões aparecem. Reconhecer a doença intersticial por trás do rótulo errado; procurar a causa que se pode retirar, na casa, no trabalho e na caixa de remédios; pedir a tomografia e a função pulmonar certas; separar a exacerbação da infecção, do coração e da embolia; saber em que doença o corticoide ajuda e em qual ele piora o desfecho; conversar com o doente e a família sobre um prognóstico que ninguém contou a eles; e dar alta com o encaminhamento certo e o oxigênio certo. Às nove o residente volta. Até lá, você tem duas horas, uma sacola de remédios e um estetoscópio que acabou de ouvir velcro.
Quem adoece disso
Doença pulmonar intersticial é o nome de um grupo grande de doenças que atingem o tecido entre o alvéolo e o capilar — não é uma doença só. O que o interno precisa saber sobre a frequência delas cabe em três frases: são raras perto de pneumonia, asma, DPOC e insuficiência cardíaca; por serem raras, quase nunca entram como primeira hipótese; e, por não entrarem, o doente costuma passar anos com o nome de outra coisa. O relatório da Conitec que avaliou o nintedanibe descreve esse caminho para a fibrose pulmonar idiopática: o diagnóstico é com frequência desconsiderado, e os sintomas acabam atribuídos ao cigarro, à DPOC ou à idade.
A fibrose pulmonar idiopática é a mais comum das doenças intersticiais crônicas, segundo o mesmo relatório, e mesmo assim não há estudo brasileiro de base populacional sobre ela. A estimativa brasileira que o relatório usa é de 3,5 a 5,1 casos novos por 100 mil habitantes por ano e de 7,1 a 9,4 doentes por 100 mil. Numa cidade de 500 mil habitantes, isso dá cerca de 18 a 26 casos novos por ano e de 36 a 47 pessoas vivendo com a doença — poucos para uma unidade básica, muitos para quem nunca pensa neles. A mortalidade registrada por fibrose pulmonar idiopática no Brasil passou de 0,65 por 100 mil em 1996 para 1,21 por 100 mil em 2010, um aumento que pode refletir mais doença, mais idosos ou mais diagnóstico, sem que o dado permita separar as três coisas.
O prognóstico é o dado que muda a conversa. A diretriz brasileira de tratamento de 2020 registra mediana de sobrevida de 2,9 anos sem tratamento; o relatório da Conitec cita mediana de 2 a 3 anos a partir do diagnóstico, de 27,4 meses para quem chega com capacidade vital forçada abaixo de 55% do previsto e de 55,6 meses para quem chega com ela a partir de 70%. A evolução de cada doente, porém, é difícil de prever: há quem perca função devagar por muitos anos, há quem piore rápido, e há quem alterne estabilidade com pioras agudas. É por isso que a conversa sobre o que o doente quer começa cedo, com ele bem, e não na madrugada em que a saturação cai.
Idade, sexo e hábito separam hipóteses antes de qualquer exame. A diretriz brasileira de doenças intersticiais de 2012 lembra que a fibrose pulmonar idiopática é rara abaixo dos 50 anos, predomina em homens e é mais frequente em fumantes; que a doença intersticial das colagenoses predomina em mulheres; que a sarcoidose aparece em qualquer idade, e não só em jovens; e que a pneumonite de hipersensibilidade e a sarcoidose são menos frequentes em fumantes. Homens adoecem mais de pneumoconiose porque se expõem mais no trabalho. No Brasil, a mesma diretriz aponta a pneumonite de hipersensibilidade como causa importante de doença intersticial, quase sempre por exposição doméstica — pássaros, mofo, travesseiro de pena — ou a isocianatos de tintas e inseticidas, e registra que o pulmão de fazendeiro, clássico dos livros estrangeiros, é incomum aqui. As pneumoconioses mais comuns no país são a silicose, a do carvão, a de poeiras mistas e a asbestose.
Nas colagenoses, o pulmão não é detalhe. Na esclerose sistêmica, a doença intersticial clinicamente significativa aparece em cerca de 40% dos doentes — em até 80% das necrópsias —, é a principal causa de adoecimento e de morte e é mais frequente quando há anticorpo anti-Scl-70. Na polimiosite e na dermatomiosite, a doença do pulmão chega antes da doença do músculo em até um terço dos casos. Entre os fármacos, a diretriz de 2012 aponta cinco como os que mais lesam o pulmão — amiodarona, minociclina, nitrofurantoína, bleomicina e metotrexato — e lembra que a lesão, na maioria das vezes, não depende da dose nem do tempo de uso, podendo surgir meses depois de começar a amiodarona ou anos depois de terminar alguns quimioterápicos.
Os sinais que o interno ouve e vê também têm número. O relatório da Conitec cita estertor em velcro nas bases em até 90% dos doentes com fibrose pulmonar idiopática e baqueteamento digital em 30 a 40%; a diretriz de 2012 dá 30 a 50% de baqueteamento na fibrose idiopática e cerca de 25% na pneumonite de hipersensibilidade, e acrescenta que, nessas duas doenças e na asbestose, o dedo em baqueta indica pior prognóstico. A exacerbação aguda — a piora rápida que interna — atingiu 8,5% e 14,2% dos doentes no primeiro ano dos dois maiores estudos citados pela diretriz, e 9,6% e 20,7% no terceiro ano; estima-se que cerca de metade das mortes por fibrose pulmonar idiopática decorra dela. Na síntese da mesma diretriz, que cita uma série sul-coreana de 461 doentes e outros estudos com resultado semelhante, a mortalidade hospitalar da exacerbação foi de 50% e subiu para 90% quando houve ventilação mecânica, e a mediana de sobrevida depois do episódio foi de 2,2 meses.
As réguas brasileiras deste capítulo têm idades muito diferentes, e convém dizer qual governa cada decisão e desde quando. O diagnóstico das doenças intersticiais segue a diretriz da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia de 2012, que nunca teve segunda edição e é anterior às atualizações internacionais sobre a tomografia e sobre a fibrose que progride. O tratamento farmacológico da fibrose pulmonar idiopática segue a diretriz brasileira de 2020. O oxigênio domiciliar segue as recomendações brasileiras de 2022. A fibrose pulmonar progressiva — a fibrose de outra causa que continua piorando apesar do tratamento — não tem documento brasileiro: a régua em uso é a diretriz internacional de 2022 da ATS, ERS, JRS e ALAT. O Ministério da Saúde não publicou protocolo clínico para a fibrose pulmonar idiopática: a incorporação do nintedanibe e da pirfenidona ao SUS foi recusada em dezembro de 2018, nenhum dos dois consta da Rename 2024, e um parecer técnico de abril de 2024 ainda registrava a ausência de protocolo. Um terceiro antifibrótico, o nerandomilaste, foi aprovado pela Anvisa em 2026 para fibrose pulmonar idiopática e progressiva e depende de preço definido para chegar às farmácias.
Por que acontece o que acontece
Entre o ar do alvéolo e o sangue do capilar há uma parede finíssima: o epitélio alveolar, uma lâmina de tecido de sustentação e o endotélio. Esse espaço é o interstício, e as doenças deste capítulo o espessam com inflamação, com granuloma ou com cicatriz. Duas consequências saem daí. A primeira é que o oxigênio atravessa pior uma parede grossa, e a capacidade de difusão — medida no laboratório de função pulmonar pela difusão do monóxido de carbono — cai cedo, às vezes antes de qualquer outro número. A segunda é que o pulmão fica rígido: precisa de mais força para inflar, cabe menos ar, e o doente respira curto e rápido, que é o jeito mais barato de ventilar um órgão duro. Na espirometria isso aparece como padrão restritivo, com capacidade vital baixa e relação entre o volume do primeiro segundo e a capacidade vital normal ou alta — o oposto do que se espera na DPOC.
A falta de oxigênio aparece primeiro no esforço, e há uma razão física para isso. Em repouso, a hemácia atravessa o capilar com tempo de sobra para se carregar, mesmo passando por uma parede espessada. No exercício, o débito cardíaco sobe, o sangue corre mais depressa, o tempo de contato encurta e a membrana doente deixa de dar conta; somam-se áreas mal ventiladas que continuam recebendo sangue. É por isso que a queda de 4 pontos ou mais na saturação durante o esforço pode denunciar doença intersticial com radiografia normal, como lembra a diretriz brasileira de 2012, e é por isso que o doente com fibrose dessatura no corredor muito antes de dessaturar na cama. As recomendações brasileiras de oxigênio de 2022 acrescentam que essa hipoxemia de esforço é comum, costuma ser mais intensa do que na DPOC para a mesma perda de função e marca pior prognóstico.
O estertor em velcro é o som do pulmão rígido se abrindo. Pequenas vias aéreas e alvéolos das bases — onde a fibrose costuma começar — fecham na expiração e se reabrem de uma vez no fim da inspiração, em estalos finos e numerosos. Como o som não nasce de líquido, não muda quando o doente tosse e não some com o diurético, e é essa teimosia que separa, à beira do leito, o velcro da crepitação da congestão que melhora com a diurese. A diretriz de 2012 o descreve como comum nas doenças fibrosantes e menos frequente nas granulomatosas, sobretudo na sarcoidose. O baqueteamento digital acompanha as doenças fibrosantes, e na fibrose pulmonar idiopática, na pneumonite de hipersensibilidade e na asbestose indica pior prognóstico; dedo em baqueta num doente com falta de ar não é achado para anotar e esquecer.
Por muito tempo se pensou que a fibrose pulmonar idiopática começasse como inflamação — uma alveolite que, sem tratamento, viraria cicatriz —, e a doença foi tratada por décadas com corticoide e imunossupressor. A hipótese hoje mais aceita, descrita na diretriz brasileira de tratamento de 2020, é outra: agressões ao epitélio alveolar liberam mediadores que estimulam fibrose, o reparo sai anormal, fibroblastos proliferam e viram miofibroblastos, o colágeno se deposita e a arquitetura do pulmão se desfaz, sem inflamação evidente. O desenho que resulta é o da pneumonia intersticial usual: fibrose que começa na periferia e nas bases, reticulado, brônquios repuxados pela retração do tecido em volta — as bronquiectasias de tração — e, no fim, o faveolamento, cistos de parede espessa empilhados sob a pleura como um favo de mel.
Se a doença não é inflamatória, o anti-inflamatório não tem alvo e fica só com o efeito colateral. O ensaio que comparou a combinação de prednisona, azatioprina e N-acetilcisteína com placebo na fibrose pulmonar idiopática teve o braço da combinação interrompido: mortalidade de 11% contra 1%, hospitalização de 29% contra 8%, eventos adversos graves de 31% contra 9% e nenhuma diferença na função pulmonar. A diretriz de 2012 registrou o resultado e passou a dizer que o doente com fibrose idiopática nunca deve receber corticoide isolado. Os fármacos que funcionam atacam a fibrose: o nintedanibe inibe tirosinoquinases de receptores de fatores de crescimento envolvidos na proliferação e migração de fibroblastos, e a pirfenidona modula TGF-β e TNF-α e reduz a síntese de colágeno. A diretriz de 2020 reconhece que os dois desaceleram a queda da capacidade vital, que é preditora forte de mortalidade, e que nenhum fármaco cura a doença — o pulmão que já cicatrizou não volta.
Na pneumonite de hipersensibilidade, o mecanismo é o de uma resposta imune a algo que se respira todo dia. Proteínas de pássaros, esporos do mofo, poeira de pena ou isocianatos chegam ao bronquíolo e ao alvéolo de uma pessoa sensibilizada, que responde com inflamação linfocitária em torno da pequena via aérea e com granulomas. Daí a tomografia com nódulos centrolobulares mal definidos, vidro fosco e mosaico com ar aprisionado na expiração, e o lavado broncoalveolar com linfócitos acima de 30%. Enquanto a exposição continua, a inflamação continua; com anos, o que era inflamação vira fibrose, e a diretriz internacional de 2022 lembra que a fibrose da pneumonite crônica pode ter o mesmo padrão de pneumonia intersticial usual da fibrose idiopática, muitas vezes impossível de separar só pela imagem. É por isso que o tratamento começa por afastar o antígeno, e é por isso que a pergunta sobre a casa vale mais do que qualquer exame.
Na sarcoidose, o que se acumula são granulomas compactos, sem necrose caseosa, nos linfonodos do hilo e do mediastino, no pulmão e em qualquer outro órgão. Os macrófagos ativados e os granulomas produzem calcitriol, e daí a hipercalcemia, em cerca de 5% dos doentes, e a hipercalciúria, em cerca de 10%, que podem chegar ao rim como nefrocalcinose e litíase. Granuloma não é assinatura exclusiva da sarcoidose: tuberculose, micoses, beriliose e pneumonite de hipersensibilidade também fazem granuloma, e num país com tanta tuberculose isso muda a ordem da investigação. Nos fármacos, a lesão vem por efeito tóxico direto, por reação imunológica ou pelos dois, e a mesma droga pode desenhar dano alveolar difuso, pneumonia intersticial não específica, pneumonia em organização ou pneumonia eosinofílica; idade, oxigênio em alta concentração, radioterapia prévia e combinação com outros fármacos modulam o risco. Nas colagenoses, quem agride é a autoimunidade: a pneumonia intersticial não específica é o desenho mais descrito na polimiosite e na dermatomiosite, e na esclerose sistêmica a doença intersticial é a principal causa de morte.
A exacerbação aguda é um segundo processo por cima do primeiro. Sobre a fibrose antiga instala-se dano alveolar difuso — o desenho histológico da síndrome do desconforto respiratório agudo, com membranas hialinas —, que na tomografia aparece como vidro fosco ou consolidação novos, periféricos, multifocais ou difusos, sobre o reticulado e o favo que já existiam; o padrão difuso tem o pior prognóstico. A causa costuma ser desconhecida, e infecção, cirurgia, biópsia pulmonar, quimioterapia e radioterapia estão entre os precipitantes descritos. O pulmão que tinha pouca reserva perde o que restava. A ventilação mecânica compra tempo para que um processo agudo se desfaça, mas aqui o terreno embaixo é uma cicatriz que não se desfaz — e o número que a diretriz de 2012 registra mostra o que isso significa: 90% de mortalidade entre os ventilados. Fora da fibrose idiopática, algo parecido acontece em parte dos doentes com fibrose de outra causa: a doença continua avançando mesmo com a causa tratada e passa a se comportar como a idiopática. A diretriz internacional de 2022 chamou isso de fibrose pulmonar progressiva e considerou plausível que o antifibrótico que freia uma freie também a outra.
Como se apresenta de verdade
A doença intersticial raramente chega com o próprio nome. Chega como DPOC que não responde à bombinha, como insuficiência cardíaca que não responde ao diurético, como pneumonia que não resolve com o segundo antibiótico, como cansaço que a família atribui à idade. O ponto de partida é sempre parecido: um adulto com falta de ar que piora em meses ou anos, tosse seca e, na ausculta, estertor fino nas bases que não se comporta como congestão. A diretriz brasileira de 2012 diz que a história detalhada é o que mais informa nessas doenças e manda verificar, em todo doente, a ocupação, o tabagismo, o refluxo, os fármacos e os sinais de doença sistêmica — e costuma ser o interno o primeiro a perguntar.
O título deste capítulo junta duas coisas que o nível do Internato separou. O nódulo pulmonar — a lesão arredondada e isolada que aparece numa radiografia ou tomografia pedida por outro motivo — tem dono: O achado que ninguém foi procurar, capítulo 3 da apostila de Cirurgia Torácica, assume a investigação do nódulo achado por acaso, a estimativa de probabilidade, a régua de seguimento, a decisão de biopsiar e a de parar de seguir; e o nódulo que já tem diagnóstico de câncer passa a A mesma sombra, no mesmo lugar, capítulo 4 da mesma apostila. Este capítulo não reescreve nenhuma dessas decisões e manda o leitor para lá, inclusive quando o nódulo aparece no meio de uma fibrose — o câncer de pulmão é uma das comorbidades da fibrose pulmonar idiopática que a diretriz internacional de 2022 manda procurar. A decisão de operar um câncer num pulmão com fibrose, que depende da reserva funcional, também é de A mesma sombra, no mesmo lugar; o que este capítulo acrescenta a ela é um número da diretriz brasileira de 2012: numa série de doentes com fibrose idiopática operados para retirar câncer de pulmão, a exacerbação aguda ocorreu em 7%, e todos esses morreram. O que fica aqui é o outro desenho de imagem: o comprometimento difuso, de muitas linhas e pontos ao mesmo tempo, que é o das doenças intersticiais.
As fronteiras são declaradas nos dois sentidos. As pneumoconioses são de Ninguém vem por causa disso, e o nexo com o trabalho, a comunicação do acidente e a notificação, de Em que o senhor trabalha, ambos na apostila de Medicina do Trabalho: este capítulo faz a pergunta ocupacional e cede a eles a leitura ocupacional do achado. A DPOC e os critérios de oxigênio domiciliar prolongado são de Duas doenças com a mesma sigla, nesta apostila; a asma, o tromboembolismo pulmonar e a pneumonia são dos capítulos 2, 4 e 1 desta apostila; a dispneia sem diagnóstico no pronto-socorro é de Dispneia aguda no pronto-socorro, em Síndromes do Paciente na Emergência. A artrite reumatoide é de Antes da primeira erosão e a hemorragia alveolar das vasculites, de Cada especialista viu um pedaço, na apostila de Reumatologia; a esclerose sistêmica e as demais colagenoses como doenças do corpo inteiro, com a suspeita e o rastreio da doença intersticial na esclerose sistêmica, são do capítulo Esclerose sistêmica, Sjögren e outras colagenoses, da mesma apostila, e a doença intersticial como doença — padrões de tomografia, antifibrótico, oxigênio, critérios de progressão — é deste capítulo; enquanto aquele não estiver publicado, este fica também com a parte que decide o pulmão. A linfonodomegalia do mediastino como diferencial por compartimento é de O andar em que ela mora, em Cirurgia Torácica; o coração da sarcoidose, de Cardiomiopatias: o que sobra quando não é isquemia nem valva, em Cardiologia; os dispositivos de oxigênio, de O litro que não vira fração, em Procedimentos e Vias de Acesso; a leitura sistemática da radiografia, do capítulo de radiografia de tórax em Interpretação de Exames à Beira do Leito. Ficam com este capítulo, por não terem dono no nível, a fibrose pulmonar idiopática, a pneumonite de hipersensibilidade, a doença pulmonar por fármacos, a sarcoidose como doença, a doença intersticial das colagenoses como problema do pulmão, a exacerbação aguda e a fibrose pulmonar progressiva.
Percurso de aprendizagem
Comece pelo reconhecimento: dispneia progressiva, crepitações, exposições e sinais de doença sistêmica.
Depois organize os grandes padrões e o papel da discussão multidisciplinar, evitando transformar um achado de imagem em diagnóstico isolado.
Aprofunde tratamento específico, toxicidade e exacerbações depois de compreender o mecanismo e os objetivos de cuidado.
Quando pensar: o doente que carrega o nome de outra doença
Três rótulos costumam esconder as doenças intersticiais que o interno encontra. O primeiro é a DPOC sem espirometria: ex-fumante com falta de ar, bombinha que não muda nada, nenhum sibilo na ausculta e, quando alguém finalmente faz o exame, nenhuma obstrução. O segundo é a insuficiência cardíaca que não responde: crepitação nas bases, diurese farta depois da furosemida e a mesma saturação, sem jugular distendida, sem edema e sem terceira bulha. O terceiro é a pneumonia que não resolve: opacidades bilaterais que já estavam, mais discretas, numa radiografia antiga que ninguém pegou para comparar. Diante de qualquer um dos três, a pergunta é a mesma: e se o pulmão estiver endurecendo?
Três achados de beira de leito sustentam a suspeita. O estertor em velcro, fino, no fim da inspiração, que não muda com a tosse. O baqueteamento digital, que a família às vezes sabe datar. E a dessaturação ao esforço: medir a saturação em repouso e depois de uma caminhada no corredor, com o oxímetro no dedo, e ver cair 4 pontos ou mais é um exame que custa cinco minutos e que a diretriz de 2012 aponta como capaz de revelar doença intersticial com radiografia normal ou duvidosa. O interno que ouve velcro e não põe o doente para andar deixou de fazer o exame mais barato do capítulo.

A história e o exame procuram também o que está fora do pulmão, porque várias doenças sistêmicas começam por ele. A lista de sintomas e sinais de colagenose da diretriz de 2012 é longa e vale ser feita como roteiro: dor, inchaço ou rigidez nas articulações; dedos que ficam brancos e roxos no frio; sensibilidade ao sol e mancha no rosto; boca e olhos secos há meses; úlceras na boca ou nos genitais; mãos e antebraços inchados; pele grossa e rachada nas laterais dos dedos, as mãos de mecânico; feridas na ponta dos dedos; engasgo com comida, azia e regurgitação; e fraqueza para levantar da cadeira, subir escada ou pentear o cabelo. Qualquer resposta positiva muda a investigação e, às vezes, o tratamento.
A história que o interno colhe tem seis perguntas que não podem faltar. Desde quando, e se há radiografias antigas para comparar. Quanto fumou e quando parou. Onde trabalhou a vida inteira, e não só o último emprego — a diretriz manda perguntar por poeiras, fumos, vapores e gases em cada ocupação, porque o nome da função não traduz o risco. Como é a casa: pássaros, mofo nas paredes, travesseiro ou edredom de pena, umidificador. Que remédios usa e usou nos últimos anos, inclusive os que já parou. E se há alguém na família com fibrose pulmonar — casos familiares respondem por 0,5 a 2% da fibrose idiopática. A tosse também merece a pergunta sobre refluxo, rinossinusite e hiper-responsividade brônquica, que a diretriz manda afastar antes de atribuir a tosse à doença intersticial.
Fibrose pulmonar idiopática: o homem acima dos 60 que fumou
A fibrose pulmonar idiopática é uma pneumonia intersticial crônica, fibrosante, de causa desconhecida, restrita aos pulmões, com o padrão de pneumonia intersticial usual na tomografia ou na biópsia. O retrato é o de seu Elpídio: homem acima dos 60, fumante ou ex-fumante, falta de ar que se instala em meses a anos, tosse seca, estertor em velcro nas bases e dedos em baqueta. Não há febre, não há artrite, não há pele alterada — se houver, a hipótese muda. É rara abaixo dos 50 anos, e um adulto jovem com fibrose pede outra explicação antes desse nome.
O nome idiopática carrega uma exigência: só se chega a ele depois de afastar o que tem causa. Exposição ambiental ou ocupacional, fármaco e colagenose precisam ter sido procurados e não encontrados. Quando isso foi feito e a tomografia de alta resolução mostra o padrão típico num doente com o contexto clínico certo, a diretriz brasileira de 2012 diz que o diagnóstico pode ser feito sem biópsia na maioria dos casos, e a diretriz internacional de 2022 confirma a dispensa da biópsia também no padrão provável, em que a confirmação histológica acontece em 80 a 85% das vezes. Nos casos sem padrão típico, o diagnóstico sai de uma discussão entre pneumologista, radiologista e patologista, e não de um laudo isolado.
A evolução não é igual para todos. O relatório da Conitec descreve três comportamentos: a maioria piora devagar, com sintomas que já tinham mais de dois anos no diagnóstico; uma parte piora rápido; e, em qualquer dos dois grupos, há quem tenha exacerbações agudas. Os fatores que a diretriz de 2012 associa a pior sobrevida ajudam a ler o doente à frente: sexo masculino, dispneia maior no início, baqueteamento, hipertensão pulmonar, fibrose extensa na tomografia, capacidade vital abaixo de 70% do previsto, difusão abaixo de 40% e saturação que cai abaixo de 90% no exercício.
A fibrose idiopática raramente vem sozinha. A diretriz internacional de 2022 manda procurar e tratar hipertensão pulmonar, refluxo gastroesofágico, apneia do sono e câncer de pulmão, e envolver cuidados paliativos para tosse, falta de ar e ansiedade. Em fumantes, a fibrose das bases pode vir junto com enfisema dos lobos superiores — combinação em que, segundo a diretriz de 2012, o tabagismo é universal. A mesma diretriz dá a regra que serve ao seu Elpídio: fumante com suspeita de DPOC que tem estertor em velcro ou baqueteamento, espirometria normal ou pouco alterada e hipoxemia deve ser investigado para essa combinação com tomografia de alta resolução, porque na radiografia o enfisema de cima e a fibrose de baixo podem passar despercebidos.
Pneumonite de hipersensibilidade: a casa e o trabalho do doente
No Brasil, a pneumonite de hipersensibilidade quase sempre mora dentro de casa. A diretriz de 2012 aponta como exposições mais comuns os pássaros, o mofo e o travesseiro de pena, além dos isocianatos de tintas e inseticidas; o pulmão de fazendeiro é incomum aqui. Quando a exposição é do trabalho, a pneumonite entra na lista brasileira de doenças relacionadas ao trabalho, e a leitura desse nexo — com a comunicação e a notificação — é do capítulo Em que o senhor trabalha. Pergunte de modo concreto — calopsita na área de serviço, parede com mofo atrás do guarda-roupa, travesseiro ou edredom de pena —, porque o doente raramente chama isso de exposição.
A doença se apresenta em três ritmos. A forma aguda parece gripe: febre, dor no corpo, dor de cabeça, mal-estar, tosse e falta de ar começam 4 a 8 horas depois da exposição, podem melhorar sozinhos e voltam a cada nova inalação — e a diretriz de 2012 avisa que, sem história ambiental detalhada, isso vira o diagnóstico equivocado de pneumonias de repetição. Nas formas subaguda e crônica, a falta de ar e a tosse se instalam devagar, com perda de peso, e o doente não liga os sintomas à exposição, porque ela é contínua. Na ausculta, além do estertor, podem aparecer grasnidos, sons curtos e agudos no fim da inspiração que, com exposição relevante, a diretriz de 2012 relaciona à bronquiolite própria da doença. A pneumonite é menos frequente em fumantes.
O diagnóstico, pela diretriz de 2012, junta peças: sintomas com exposição conhecida; ausência de tabagismo; sintomas que voltam com a reexposição; tomografia com pelo menos dois de três achados — mosaico ou aprisionamento de ar na expiração, vidro fosco e nódulos centrolobulares mal definidos —; linfocitose acima de 30% no lavado broncoalveolar; e, se houver biópsia, a tríade histológica com granulomas ou células gigantes em torno dos bronquíolos, ou outros padrões compatíveis. A pesquisa de anticorpos precipitantes contra um painel de antígenos, que ajudaria, não está disponível no Brasil, segundo a mesma diretriz; e o fator reumatoide é frequentemente positivo na pneumonite, o que confunde quem procura colagenose.
A forma crônica fibrosante é a armadilha. A diretriz internacional de 2022 lembra que ela pode ter o mesmo padrão de pneumonia intersticial usual da fibrose idiopática e que as duas muitas vezes não se separam pela imagem. O que separa é a exposição — e, quando ela existe, a conduta muda de lado: afastar o antígeno passa a ser o tratamento principal, o corticoide passa a ter papel, e o prognóstico passa a depender de a exposição ter sido de fato interrompida. Por isso a pergunta sobre a casa se faz de novo em toda consulta, e não só na primeira.
Colagenose: o pulmão que chega antes da articulação
A doença intersticial das colagenoses predomina em mulheres e acompanha sobretudo a esclerose sistêmica, a polimiosite e a dermatomiosite, a doença mista do tecido conjuntivo, a artrite reumatoide e a síndrome de Sjögren. Em muitos casos o pulmão adoece antes das manifestações sistêmicas, e por isso a diretriz de 2012 manda pesquisar colagenose de rotina em todo doente com doença intersticial, com exame físico dirigido e exames de sangue, e manda pedir tomografia e função pulmonar com difusão já na avaliação inicial de quem tem esclerose sistêmica, polimiosite ou doença mista, mesmo sem queixa respiratória.
Godofredo Casado tem 52 anos, é pedreiro e há quatro meses cansa na metade da laje que antes subia cantando. Tem tosse seca, febre baixa em alguns fins de tarde e dor nas coxas ao subir escada, que ele atribuiu ao serviço. As laterais dos indicadores e dos polegares estão grossas, rachadas e escurecidas, e todo mundo — ele, a esposa, o médico da unidade básica — pôs a culpa no cimento. Os dedos ficam brancos quando ele lava a betoneira de manhã cedo. A tomografia mostra vidro fosco e consolidações nas bases, com algum reticulado; a creatinofosfoquinase está três vezes acima do normal, e o anti-Jo-1 vem positivo. É a síndrome antissintetase — miosite, doença intersticial, artrite, febre, Raynaud e mãos de mecânico —, e a lição é que a mão de mecânico de quem trabalha com as mãos é justamente a que ninguém examina.
Na polimiosite, na dermatomiosite e na síndrome antissintetase, a diretriz de 2012 descreve a pneumonia intersticial não específica como o padrão mais comum, seguida da pneumonia em organização, e manda considerar corticoide, com ou sem imunossupressor, conforme a apresentação; quando se acrescenta um segundo agente na doença leve a moderada, a azatioprina costuma ser a primeira escolha, pela experiência acumulada. Com o anti-Jo-1 negativo e quadro típico, outros anticorpos antissintetase — que a diretriz registra como não mensurados no Brasil em 2012 — podem estar presentes. O esquema de imunossupressão é do reumatologista e do pneumologista; do interno é reconhecer, pedir e não deixar o doente sair com o diagnóstico de dermatite de contato.
Na esclerose sistêmica, a doença intersticial clinicamente significativa atinge cerca de 40% dos doentes e é mais comum com anti-Scl-70. Aqui mora uma regra que protege o rim: a diretriz de 2012 lembra que corticoide em dose alta na esclerose sistêmica aumenta o risco de crise renal, e que em geral se usa prednisona em torno de 10 mg por dia associada ao imunossupressor. O imunossupressor que a diretriz brasileira de 2012 indicava para a doença intersticial relevante da esclerose sistêmica era a ciclofosfamida; na Rename 2024, a ciclofosfamida em comprimido e a azatioprina estão vinculadas ao protocolo federal de esclerose sistêmica, e o micofenolato, não — ele aparece ligado aos protocolos de transplante e de lúpus. O manejo da doença sistêmica, com o protocolo federal, fica para o capítulo Esclerose sistêmica, Sjögren e outras colagenoses, na apostila de Reumatologia.
Na artrite reumatoide, o problema do interno é outro: o pulmão pode adoecer pela artrite ou pelo metotrexato, e os dois quadros começam iguais, com tosse seca e falta de ar que vão piorando. O capítulo Antes da primeira erosão já ensina a pergunta fixa em cada retorno e a radiografia antes da próxima dose; o que este capítulo acrescenta é a sequência quando a radiografia vem alterada: tomografia de alta resolução, função pulmonar com difusão, busca de infecção e conversa com quem prescreveu o metotrexato antes de mais uma dose, porque a diretriz de 2012 lembra que a pneumonia em organização da artrite é difícil de separar da que o próprio metotrexato causa.
Pulmão por fármaco: a caixa de remédio que ninguém abriu
Cinco fármacos concentram a maior parte das lesões pulmonares descritas, segundo a diretriz de 2012: amiodarona, minociclina, nitrofurantoína, bleomicina e metotrexato. A lista cresce com os antineoplásicos e os biológicos. A lesão, na maioria das vezes, não depende da dose nem do tempo de uso, pode demorar meses para aparecer — é o caso típico da amiodarona — ou surgir anos depois de o fármaco ter sido suspenso, como acontece com algumas nitrosoureias. Por isso a pergunta é pelos remédios que o doente usa e também pelos que usou.
Os critérios que o interno aplica à beira do leito são quatro, e todos da diretriz: a exposição veio antes da doença; a imagem é compatível; as causas mais comuns foram afastadas, sobretudo infecção oportunista, pneumonite de radiação e progressão da doença de base; e, quando houve biópsia, há evidência histológica de lesão. A melhora depois da retirada do fármaco reforça o diagnóstico. O corticoide tem papel quando a reação é grave — a diretriz o descreve como eficaz nas reações a drogas —, mas o primeiro tratamento é sempre parar o remédio.
A amiodarona merece atenção especial porque vive no mesmo doente que tem outro motivo para falta de ar: a insuficiência cardíaca. O idoso com fibrilação atrial em uso de amiodarona que piora a dispneia e ganha opacidades bilaterais corre o risco de receber diurético por semanas antes que alguém pense no remédio. A suspensão não é decisão do interno sozinho — o controle do ritmo tem alternativas, que são do capítulo Fibrilação atrial, na apostila de Cardiologia —, mas levantar a hipótese, pedir a tomografia e a difusão e chamar a cardiologia é.
Na nitrofurantoína, pense na mulher que toma o antibiótico todas as noites há meses para evitar infecção urinária e que não o cita quando perguntam pelos remédios, porque não o considera tratamento. No metotrexato, o doente costuma ter artrite reumatoide ou psoríase, e a conversa é com quem prescreveu. Na bleomicina, a história costuma ser a de um câncer tratado com quimioterapia anos atrás, e é preciso perguntar por ela com essas palavras. Nos três, a anotação na evolução precisa dizer qual fármaco, desde quando, em que dose e quando foi suspenso — é essa linha do tempo que vai sustentar ou derrubar o diagnóstico.
Sarcoidose: o granuloma que obriga a pensar em tuberculose
A sarcoidose aparece em qualquer idade e de muitos jeitos. Pode ser a linfonodomegalia dos dois hilos numa radiografia pedida para o exame admissional, sem sintoma nenhum. Pode ser a síndrome de Löfgren — linfonodomegalia hilar bilateral, eritema nodoso, dor e inchaço em torno dos tornozelos e febre —, que costuma evoluir bem. Pode ser a síndrome de Heerfordt, com uveíte, paralisia facial e aumento das parótidas. E pode ser doença do olho, da pele, do coração, do sistema nervoso ou do cálcio, com o pulmão discreto ou normal.
Getúlio Magalhães, 34 anos, professor de educação física, procura o pronto-atendimento com os dois tornozelos inchados e doloridos há dez dias, febre de 38 °C e caroços vermelhos, quentes e dolorosos na frente das duas canelas. Não tem tosse. A radiografia de tórax, pedida porque a febre não passou, mostra os dois hilos aumentados, com os pulmões limpos. É o retrato da síndrome de Löfgren — e, mesmo assim, o raciocínio não para ali: linfonodo hilar com febre, no Brasil, pede que tuberculose, micose e linfoma tenham sido pensados, e a diretriz de 2012 cita uma série em que 7 de 40 suspeitas clínico-radiológicas de sarcoidose eram tuberculose.
O diagnóstico, pela diretriz de 2012, junta quadro clínico e radiológico compatível, granuloma sem necrose caseosa na biópsia e a exclusão de tuberculose, micoses, beriliose, pneumonite de hipersensibilidade e outras doenças granulomatosas. As síndromes de Löfgren e de Heerfordt são as situações em que o diagnóstico pode ser aceito sem biópsia. A enzima conversora de angiotensina está elevada em 80% das formas agudas e em só 20% das crônicas: ajuda, mas não confirma nem exclui. Todo doente com diagnóstico recente passa por oftalmologista experiente, eletrocardiograma, Holter de 24 horas e ecocardiograma, função pulmonar completa e medida da troca gasosa no exercício, porque o olho e o coração podem estar doentes sem queixa.
Muitos doentes não precisam de tratamento. A diretriz de 2012 lembra que doença com menos de dois anos, linfonodomegalia hilar isolada, paralisia facial isolada, edema periarticular e ausência de sintomas indicam bom prognóstico, e que corticoide sistêmico em quem tem pouco ou nenhum sintoma deve ser desencorajado. Trata-se quem tem falta de ar que limita a vida, disfunção pulmonar relevante ou piora progressiva, doença do coração, do sistema nervoso ou do olho que não cede ao colírio, hipercalcemia acentuada ou lesão de pele desfigurante. A massa ou o linfonodo do mediastino como problema de diagnóstico diferencial é de O andar em que ela mora, e a cardiomiopatia da sarcoidose, de Cardiomiopatias: o que sobra quando não é isquemia nem valva; a doença sarcoide como um todo — quem tratar, com quanto e por quanto tempo — é deste capítulo.
Como fechar o diagnóstico
São quatro as perguntas da investigação, e o pedido segue a mesma sequência. Há doença intersticial? Ela tem causa que se possa retirar ou tratar? Qual é a gravidade agora — função, oxigenação, pressão pulmonar? E, quando o doente chega pior, a piora é da própria doença ou de algo que se sobrepôs a ela? A diretriz brasileira de 2012 fixa a avaliação inicial mínima de todo doente com suspeita: exames de sangue de rotina, radiografia de tórax, tomografia de alta resolução, gasometria arterial e função pulmonar com difusão e medida da saturação no esforço.
O interno pede sozinho a tomografia, a espirometria, a oximetria no esforço e os exames de sangue, e deixa escrita a pergunta que cada um responde. Lavado broncoalveolar, biópsia e discussão multidisciplinar são decisões do pneumologista; o que cabe ao interno é chegar a elas com a história ocupacional, ambiental e de fármacos já colhida, porque é isso que dá sentido ao que o lavado e a biópsia vão mostrar.
Tomografia de alta resolução: o exame que decide
A radiografia de tórax desconfia; não decide. Ela pode ser normal ou duvidosa com a doença já instalada, e mostra reticulado nas bases em muita gente que tem outra coisa. O melhor uso dela é a comparação: a radiografia antiga, esquecida numa pasta, que já tinha o mesmo desenho mais discreto, transforma uma pneumonia de dez dias numa doença de anos. Diante de estertor em velcro, baqueteamento ou dessaturação ao esforço, o pedido é a tomografia de alta resolução do tórax, sem contraste, com cortes finos — e, na suspeita de pneumonite de hipersensibilidade, com imagens em expiração, que mostram o ar aprisionado do mosaico.
Na suspeita de fibrose pulmonar idiopática, a diretriz internacional de 2022 classifica a tomografia em quatro categorias pelo grau de confiança de que a biópsia mostraria pneumonia intersticial usual. No padrão típico, a fibrose predomina sob a pleura e nas bases, é heterogênea, com pulmão normal entremeado, e há faveolamento, com ou sem bronquiectasias de tração — confiança acima de 90%. No padrão provável, a distribuição é a mesma e há reticulado com bronquiectasias de tração, sem faveolamento — confiança de 70 a 89%. No indeterminado, há fibrose sem nenhum traço que aponte causa. E há o grupo de achados que sugere outro diagnóstico, que é justamente o que o interno precisa saber reconhecer.
Os achados que desviam do diagnóstico idiopático têm tradução prática. Mosaico ou três densidades diferentes no mesmo pulmão, vidro fosco predominante e muitos micronódulos centrolobulares apontam pneumonite de hipersensibilidade. Fibrose que predomina nos terços superior ou médio lembra pneumonite crônica, colagenose e sarcoidose. Distribuição ao longo dos feixes broncovasculares poupando a região logo abaixo da pleura lembra pneumonia intersticial não específica. Nódulos pequenos e bem definidos ao longo dos feixes, dos septos, da pleura e das fissuras — a distribuição perilinfática — são característicos de sarcoidose e de disseminação linfática de tumor. Consolidação lembra pneumonia em organização; cistos, doenças císticas raras; placa pleural, asbestose; esôfago dilatado, esclerose sistêmica.
Na piora aguda, a tomografia faz uma pergunta diferente: há algo novo sobre o que já existia? Vidro fosco ou consolidação bilaterais sobrepostos ao reticulado e ao favo antigos, em distribuição periférica, multifocal ou difusa, são o desenho da exacerbação aguda — a forma difusa com o pior prognóstico. Consolidação lobar ou segmentar, derrame, cavidade ou nódulo novo apontam para outra coisa. E, se a probabilidade clínica de embolia justificar, a mesma ida ao tomógrafo pode incluir a angiotomografia, pela régua de Tromboembolismo pulmonar: a probabilidade antes do exame, a gravidade antes da droga.
Função pulmonar: capacidade vital, difusão e o corredor
A espirometria da doença intersticial mostra capacidade vital forçada baixa com relação entre o volume do primeiro segundo e a capacidade vital preservada ou aumentada; a restrição se confirma com a medida dos volumes pulmonares. A difusão do monóxido de carbono cai cedo e costuma cair mais do que a capacidade vital. A diretriz de 2012 recomenda espirometria, difusão e saturação no exercício para todo doente na avaliação inicial e medidas seriadas de espirometria e difusão no seguimento. Obstrução ao fluxo aéreo num não fumante com doença intersticial chama atenção para sarcoidose, doenças císticas, bronquiolites, silicose e paracoccidioidomicose.
Os números da função pulmonar têm consequência. Difusão abaixo de 40% do previsto marca doença avançada, que a diretriz manda encaminhar para avaliação de transplante quando as demais condições permitem. Capacidade vital abaixo de 70% e saturação que cai abaixo de 90% no esforço entram entre os fatores de pior sobrevida. Na fibrose pulmonar idiopática, uma série citada pela diretriz mostrou sobrevida em quatro anos de 34,5% em quem dessaturou até 88% ou menos no teste de caminhada, contra 69,1% em quem não dessaturou; na pneumonite de hipersensibilidade crônica, saturação de 88% ou menos no exercício foi o principal preditor de pior sobrevida.
O teste de caminhada de seis minutos é o exame de esforço mais usado: o doente anda num corredor plano, no próprio ritmo, com oxímetro contínuo, e registram-se a distância e o menor valor de saturação. Tem técnica padronizada e valores previstos para adultos brasileiros. No acompanhamento, variações de 25 a 45 metros na distância já são consideradas significativas. Na enfermaria, antes de o laboratório estar disponível, uma caminhada no corredor com oxímetro no dedo responde à pergunta que importa para a alta — o doente dessatura andando? —, desde que seja feita com ele estável, e não no meio da exacerbação.
A gasometria arterial em repouso mede a gravidade da hipoxemia e documenta o gás carbônico, que costuma estar normal ou baixo porque o doente hiperventila. Gás carbônico que sobe numa doença intersticial é sinal tardio, e a diretriz de 2012 o lista entre as indicações de transplante. Na alta de uma exacerbação, a gasometria em ar ambiente é a que serve de base para decidir o oxigênio domiciliar — decisão que, pelas recomendações brasileiras de 2022, só se fecha com o doente estável e o tratamento otimizado.
Sangue e urina: procurar a causa que se pode tratar
A diretriz de 2012 lista os exames de rotina para todo doente com doença intersticial: hemograma, velocidade de hemossedimentação, proteína C reativa, ureia, creatinina, glicemia, cálcio, fósforo, desidrogenase lática, aminotransferases, fosfatase alcalina, creatinofosfoquinase, aldolase, fator antinuclear, fator reumatoide e urina tipo I. A lista não é burocracia: a enzima muscular elevada é a pista da miosite, o cálcio alto é a da sarcoidose, a urina com sangue e proteína é a da vasculite, e a desidrogenase lática alta acompanha a gravidade da exacerbação.
O fator antinuclear positivo, a partir de 1:80, abre a segunda etapa, guiada pela suspeita clínica: anti-Scl-70 e anticentrômero na suspeita de esclerose sistêmica; anti-Jo-1 na de polimiosite e dermatomiosite; anti-Ro e anti-La na de Sjögren; anti-RNP na de doença mista; e o painel do lúpus quando é ele que se suspeita. Duas armadilhas acompanham esses exames. O fator reumatoide é frequentemente positivo na pneumonite de hipersensibilidade, sem que haja artrite reumatoide. E anticorpo negativo não afasta colagenose quando a clínica é forte — na síndrome antissintetase, outros anticorpos além do anti-Jo-1 podem estar presentes e não entram na rotina.
O ANCA entra quando a fibrose convive com urina alterada, perda de função renal, sinusite que não cura ou hemorragia: o capítulo Cada especialista viu um pedaço lembra que a doença intersticial da poliangiite microscópica tem mais comumente o padrão de pneumonia intersticial usual, e que o idoso com fibrose pulmonar e sedimento urinário alterado merece essa pergunta. Na sarcoidose, pedem-se cálcio sérico, função renal e enzima conversora de angiotensina, sabendo que ela ajuda e não decide. Na suspeita de pneumonite de hipersensibilidade, a pesquisa de anticorpos precipitantes contra um painel de antígenos não está disponível no Brasil, segundo a diretriz, e o diagnóstico segue apoiado na exposição, na tomografia e no lavado.
Antes de qualquer corticoide em dose alta ou imunossupressor, a investigação inclui o que o tratamento pode acordar. Tuberculose latente e ativa se rastreiam pela régua de Tuberculose: a pergunta que ninguém faz, na apostila de Infectologia; estrongiloidíase se previne pela do capítulo de geo-helmintíases, O vermífugo de todo mundo, sem esperar exame. O protocolo federal de vasculite associada ao ANCA, de 2025, manda avaliar e tratar helmintíase antes de imunossupressão na doença reumática autoimune; esta apostila aplica a mesma regra ao pulso de corticoide da doença intersticial, e essa extensão é leitura desta apostila, e não texto do protocolo.
Lavado, biópsia e a discussão entre especialistas
O lavado broncoalveolar tem dois usos que interessam ao interno. O primeiro é diagnóstico: linfocitose acima de 30% apoia pneumonite de hipersensibilidade, e o aumento de neutrófilos acompanha a exacerbação aguda e a infecção. O segundo é de segurança: a diretriz de 2012 descreve o lavado como teste excelente para afastar infecção antes de indicar corticoide num infiltrado difuso, e manda afastar infecção de preferência por ele na exacerbação. Quando o doente não tolera a broncoscopia, a decisão de tratar sem lavado é do pneumologista e precisa ficar escrita com o raciocínio.
A biópsia transbrônquica é o principal método para o diagnóstico da sarcoidose, com rendimento que depende do estádio radiográfico — pode passar de 50% quando só há linfonodo, fica acima de 80% quando há comprometimento do parênquima e em torno de 60% na fase fibrótica — e melhora quando se retiram pelo menos quatro fragmentos. Na fibrose, o fragmento transbrônquico costuma ser pequeno demais para mostrar o padrão, e a pergunta passa a ser a da biópsia cirúrgica.
A biópsia pulmonar cirúrgica só se justifica quando a tomografia não é típica e o resultado muda o tratamento. Tem risco: a diretriz de 2012 cita mortalidade de 1,1% e 1,5% em duas séries, maior quando entram doentes em exacerbação, e a própria cirurgia está entre os precipitantes da exacerbação aguda. Deve colher mais de um lobo e evitar as áreas de favo, que só mostram cicatriz final. A decisão é do pneumologista com o cirurgião torácico, e o interno ajuda de verdade quando chega à discussão com a história completa.
O diagnóstico final das doenças intersticiais sai de uma discussão entre clínico, radiologista e patologista, e não de um laudo isolado. A diretriz de 2012 pede que, sempre que possível, os casos sejam discutidos por um grupo experiente e, quando isso não for possível no serviço, que as tomografias e o material de biópsia sejam enviados a quem tenha essa experiência. Para o interno de um hospital geral, isso se traduz num encaminhamento bem feito — com as imagens, e não só com o laudo.
A piora que interna: exacerbação, infecção, coração ou embolia
A exacerbação aguda, pela diretriz de 2012, é um diagnóstico de exclusão construído com seis peças: doença fibrosante conhecida ou descoberta naquele momento; piora da falta de ar sem explicação em até cerca de 30 dias; tomografia com vidro fosco ou consolidação novos sobre o padrão de fibrose; queda da oxigenação em relação à gasometria anterior; ausência de infecção demonstrável; e exclusão de insuficiência cardíaca esquerda, embolia pulmonar e outra causa identificável de lesão pulmonar aguda. Quando tudo se encaixa e a infecção não pôde ser afastada de vez, o diagnóstico é de exacerbação possível. A mesma diretriz reconhece que a piora pode levar mais de 30 dias.
Infecção é o primeiro diferencial e a principal armadilha nos dois sentidos. A diretriz alerta que é um erro presumir que toda piora da fibrose com infiltrado novo seja infecção e tratá-la só com antibiótico — e, no sentido oposto, quem já usa corticoide ou imunossupressor tem risco real de infecção oportunista, inclusive pneumocistose. A série sul-coreana citada pela diretriz, com 163 episódios de piora rápida em 461 doentes com fibrose idiopática, encontrou exacerbação em 55% e infecção em 33%, e mostrou o que separava as duas: na infecção, a fibrose era mais antiga (30 contra 16 meses), a piora mais curta (6 contra 12 dias), a febre mais frequente (51% contra 20%), a proteína C reativa mais alta (15 contra 8 mg/dL) e os neutrófilos do lavado mais numerosos (55% contra 23%). Nenhum desses números decide sozinho um caso.
O pedido da porta, portanto, junta as três frentes. Para infecção: hemograma, proteína C reativa, hemoculturas se houver febre, escarro com cultura quando houver, pesquisa de vírus respiratórios e, no imunossuprimido, a pergunta sobre pneumocistose e micobactéria ao pneumologista. Para o coração: peptídeo natriurético, eletrocardiograma e ecocardiograma, que também estima a pressão pulmonar — e a leitura da resposta ao diurético, que já foi dada pelo pronto-socorro. Para a embolia: probabilidade clínica e exame pela régua de Tromboembolismo pulmonar: a probabilidade antes do exame, a gravidade antes da droga. A decisão sobre o antibiótico que já está correndo segue a régua de Pneumonia na comunidade: onde este paciente vai dormir enquanto a infecção não foi afastada.
Três outras causas de piora aguda merecem uma linha na evolução, porque mudam a conduta: fármaco novo nas últimas semanas, aspiração em quem engasga ou tem refluxo importante, e pneumotórax, que a radiografia do leito mostra em minutos. E há a pergunta que não é de exame: o doente e a família já sabiam da doença de base? Na exacerbação que revela a fibrose — que a diretriz lembra poder ser a primeira manifestação da doença —, a conversa sobre prognóstico precisa acontecer em dias, e não em meses.
O encaminhamento: o que a carta precisa levar
O ambulatório de doenças intersticiais recebe o doente para uma discussão que depende de dados que só a primeira equipe colheu. A carta do interno precisa levar: a linha do tempo dos sintomas e as radiografias antigas; a carga tabágica; todas as ocupações e as exposições da casa, inclusive as negativas; a lista de fármacos atuais e dos últimos anos; os sintomas e sinais de colagenose procurados; as imagens da tomografia de alta resolução, em mídia ou link, e não só o laudo; a espirometria com difusão e o teste de caminhada com a menor saturação; os exames de sangue com os autoanticorpos; e a pergunta clínica escrita — diagnóstico, antifibrótico, transplante, oxigênio.
Pela diretriz de 2012, o encaminhamento para avaliação de transplante começa com a evidência radiológica ou histológica de pneumonia intersticial usual, com a pneumonia intersticial não específica fibrótica e com outras fibroses progressivas e refratárias ao tratamento, como a pneumonite de hipersensibilidade crônica. A mesma diretriz lista o que indica o transplante nesses doentes: difusão abaixo de 40%, queda de 10% ou mais na capacidade vital em seis meses, queda de 15% ou mais na difusão em seis meses, saturação abaixo de 88% no teste de caminhada, faveolamento na tomografia, hipertensão pulmonar secundária e retenção de gás carbônico. A mortalidade em lista de espera de cerca de 40% em um ano mostra o custo de encaminhar tarde, e a diretriz internacional de 2022 manda encaminhar já no diagnóstico quem tem risco aumentado de morrer.
A idade conta. A régua brasileira de 2012 lista, entre as contraindicações relativas, idade acima de 65 anos para transplante unilateral e acima de 60 anos para o bilateral, além da ventilação mecânica na fase aguda e do estado funcional sem potencial de reabilitação. É o centro transplantador que decide, e não o interno — mas o interno não deve prometer transplante a um homem de 71 anos em exacerbação, nem deixar de encaminhar um de 58 com fibrose recém-diagnosticada porque ninguém pensou nisso.
Fluxo, tabelas e contas das doenças intersticiais, da enfermaria ao ambulatório
O objetivo é reconhecer uma síndrome intersticial, procurar exposição ou doença sistêmica e evitar tratamento automático de toda dispneia como DPOC ou congestão. Entenda por que o mesmo corticoide pode ajudar em um contexto e prejudicar em outro. O fluxo organiza a suspeita da primeira ausculta até a alta. As tabelas traduzem o desenho da tomografia em conduta, separam as doenças em que o corticoide ajuda daquelas em que ele não tem papel ou piora o desfecho, fazem as contas da prescrição pelas apresentações da Rename 2024 e põem lado a lado as réguas que dizem quando a fibrose piorou. A régua de cada decisão está declarada: diagnóstico pela diretriz brasileira de 2012, antifibrótico na fibrose idiopática pela diretriz brasileira de 2020, oxigênio domiciliar pelas recomendações brasileiras de 2022 e fibrose pulmonar progressiva pela diretriz internacional de 2022, porque não há documento brasileiro sobre ela. Nas notas estão três defeitos de fonte capazes de mudar a conduta, cada um com sua conta.
- 1Adulto com falta de ar que piora em meses, tosse seca, estertor fino nas bases que não muda com a tosse ou dedos em baqueta: escreva doença intersticial como hipótese, mesmo que o prontuário diga DPOC, congestão ou pneumonia.
- 2Procure a radiografia antiga e meça a saturação em repouso e andando no corredor; queda de 4 pontos ou mais no esforço reforça a suspeita.
- 3Faça as seis perguntas — desde quando, cigarro, todas as ocupações, a casa (pássaros, mofo, pena), fármacos atuais e antigos, família — e o roteiro de colagenose.
- 4Peça tomografia de alta resolução, espirometria com difusão e os exames de rotina da diretriz de 2012; fator antinuclear a partir de 1:80 abre os anticorpos específicos pela suspeita clínica.
- 5Exposição encontrada: afaste o antígeno já, trate como pneumonite de hipersensibilidade até a discussão especializada e, se for do trabalho, acrescente a leitura de nexo de Em que o senhor trabalha.
- 6Fármaco compatível: suspenda com quem prescreveu, registre a linha do tempo e reavalie; corticoide só na reação grave.
- 7Colagenose provável: reumatologia e pneumologia juntas; na esclerose sistêmica, nada de prednisona em dose alta.
- 8Linfonodo hilar ou nódulos perilinfáticos: afaste tuberculose, micose e linfoma antes de chamar de sarcoidose; oftalmologista, eletrocardiograma, Holter e ecocardiograma para todos.
- 9Nenhuma causa, adulto acima dos 60 com padrão típico ou provável de pneumonia intersticial usual: hipótese de fibrose pulmonar idiopática para a discussão multidisciplinar, sem corticoide de manutenção.
- 10Encaminhe com imagens, função, linha do tempo e pergunta escrita; com pneumonia intersticial usual ou difusão abaixo de 40%, pergunte também por transplante.
- 11Piora em até cerca de um mês com vidro fosco novo: separe infecção, coração, embolia, fármaco e aspiração antes de chamar de exacerbação.
- 12Exacerbação: alvo de saturação escrito, conversa sobre ventilação mecânica no primeiro dia, profilaxia de estrongiloidíase no dia do pulso se o corticoide for dado, e nenhuma ciclofosfamida.
- 13Alta: oxigênio de esforço para quem dessatura andando, oxigênio contínuo só com doente estável e critério confirmado, vacinas pelo centro de imunobiológicos, reabilitação e retorno com a pneumologia.
O desenho da tomografia e o que ele manda fazer
| O que a tomografia mostra | Onde predomina | Pense primeiro em | Próximo passo do interno |
|---|---|---|---|
| Faveolamento, reticulado e bronquiectasias de tração | Sob a pleura e nas bases, com pulmão normal entremeado | Fibrose pulmonar idiopática, se não houver exposição, fármaco nem colagenose | Fechar as seis perguntas e encaminhar com as imagens para discussão multidisciplinar |
| Reticulado com bronquiectasias de tração, sem favo | Sob a pleura e nas bases | Padrão provável de pneumonia intersticial usual, com as mesmas causas a afastar | O mesmo caminho do padrão típico; biópsia só se houver dúvida clínica |
| Mosaico, ar aprisionado na expiração, micronódulos centrolobulares, vidro fosco | Difuso ou nos terços superior e médio | Pneumonite de hipersensibilidade | Perguntar de novo pela casa e pelo trabalho e afastar o antígeno |
| Vidro fosco e reticulado poupando a faixa logo abaixo da pleura | Ao longo dos feixes broncovasculares, nas bases | Pneumonia intersticial não específica: colagenose, fármaco | Roteiro de colagenose, anticorpos e revisão da caixa de remédios |
| Nódulos pequenos ao longo de feixes, septos, pleura e fissuras, com linfonodo hilar | Distribuição perilinfática | Sarcoidose; disseminação linfática de tumor | Afastar tuberculose, micose e linfoma; olho, coração e cálcio |
| Consolidações, padrão perilobular, sinal do atol | Variável | Pneumonia em organização, fármaco, colagenose | Revisar fármacos e colagenose antes de qualquer corticoide |
| Vidro fosco ou consolidação novos sobre fibrose antiga | Periférico, multifocal ou difuso | Exacerbação aguda, infecção, congestão ou embolia | Pedido de porta das três frentes e conversa sobre suporte no mesmo dia |
| Placas pleurais com fibrose basal | Bases | Asbestose | História ocupacional detalhada e o capítulo Ninguém vem por causa disso |
Corticoide: onde ajuda, onde não tem papel e onde piora o desfecho
| Situação | O que a régua diz | Dose descrita na régua | O que não fazer |
|---|---|---|---|
| Fibrose pulmonar idiopática estável | Diretriz de 2020: sem evidência para recomendar ou não recomendar; diretriz de 2012: nunca corticoide isolado | Nenhuma | Prednisona com azatioprina e N-acetilcisteína — mortalidade de 11% contra 1% no ensaio interrompido |
| Exacerbação aguda da fibrose | Diretriz de 2012: comumente prescrito, tratamento controverso; diretriz internacional de 2022: pode ser tratada com corticoide | Entre os esquemas descritos em 2012, pulsos de metilprednisolona de até 1 g/dia por 3 dias | Acrescentar ciclofosfamida venosa; adiar a conversa sobre ventilação mecânica |
| Pneumonite de hipersensibilidade | Afastar o antígeno é a chave; o corticoide acelera a resolução na forma aguda e subaguda e pode ser mantido na crônica | Prednisona 0,5 a 1,0 mg/kg de peso ideal, sem passar de 60 mg/dia, por 1 a 2 semanas, com retirada em 2 a 4 semanas | Dar corticoide e deixar o pássaro, o mofo ou a pena em casa |
| Sarcoidose com indicação de tratar | Corticoide é a droga de escolha; muitos doentes não precisam de tratamento | Prednisona 20 a 40 mg/dia por 1 a 3 meses, retirada até 5 a 10 mg/dia, mínimo de 12 meses; 1 mg/kg/dia em coração, sistema nervoso e olho graves | Tratar a síndrome de Löfgren pouco sintomática; tratar antes de afastar tuberculose |
| Esclerose sistêmica com doença intersticial | Dose alta aumenta o risco de crise renal | Prednisona em torno de 10 mg/dia associada a imunossupressor | Pulso ou prednisona em dose alta sem o reumatologista |
| Reação pulmonar a fármaco | O primeiro tratamento é a retirada; o corticoide é eficaz nas reações a drogas | Pela gravidade, com o especialista | Manter o fármaco suspeito enquanto se discute o corticoide |
Contas da prescrição do capítulo pelas apresentações da Rename 2024
| Fármaco e apresentação | Dose da régua ou do caso | Conta | Na prática |
|---|---|---|---|
| Succinato sódico de metilprednisolona, pó para solução injetável de 500 mg (Componente Especializado) | Pulso de até 1 g/dia por 3 dias (diretriz de 2012); seu Elpídio, 68 kg, recebe 1 g/dia | 1.000 ÷ 500 = 2 frascos por dia; 3 dias = 6 frascos | 2 frascos por dose, reconstituídos conforme o fabricante |
| Prednisona, comprimidos de 20 mg e de 5 mg (Componentes Básico e Estratégico) | Pneumonite de hipersensibilidade: 0,5 mg/kg de peso ideal; Regina, 58 kg | 0,5 × 58 = 29 mg, arredondado para 30 mg = 20 + 5 + 5 | 1 comprimido de 20 mg e 2 de 5 mg pela manhã |
| Prednisona, comprimidos de 20 mg e de 5 mg | Sarcoidose: 20 a 40 mg/dia; manutenção de 5 a 10 mg/dia | 20 a 40 mg = 1 a 2 comprimidos de 20 mg; 5 a 10 mg = 1 a 2 de 5 mg | Dose única pela manhã, com a retirada escrita na receita |
| Prednisona, comprimido de 5 mg | Esclerose sistêmica: em torno de 10 mg/dia | 10 ÷ 5 = 2 comprimidos | 2 comprimidos de 5 mg por dia, decididos com o reumatologista |
| Sulfato de morfina, solução oral de 10 mg/mL (Componente Especializado) | Dispneia refratária: 2,5 mg até de 4 em 4 horas no caso; na série da diretriz de 2012, a maioria usou até 20 mg/dia | 2,5 ÷ 10 = 0,25 mL por dose; 6 doses = 15 mg = 1,5 mL/dia; 20 mg/dia = 2 mL | Seringa oral de 1 mL; laxante prescrito junto |
| Proteção contra estrongiloidíase antes de imunossuprimir | Avaliar exposição e necessidade de tratamento; consultar o esquema atualizado em O vermífugo de todo mundo. | Ivermectina é a primeira escolha quando indicada e sem contraindicação; dose pelo peso e apresentação conferida. | Não confundir dose de campanha ou esquema de albendazol de três dias com tratamento suficiente em todo contexto. |
| Nintedanibe (não consta da Rename 2024) | 150 mg duas vezes ao dia, dose-alvo dos ensaios citados na diretriz de 2020 | 150 × 2 = 300 mg/dia | Prescrição do especialista; o SUS não fornece |
| Pirfenidona (não consta da Rename 2024), cápsula de 267 mg registrada na Anvisa | 2.403 mg/dia, dose-alvo dos ensaios citados na diretriz de 2020 | 2.403 ÷ 267 = 9 cápsulas por dia = 3 cápsulas três vezes ao dia | Prescrição do especialista; o SUS não fornece |
Quando a fibrose piorou: as réguas lado a lado
| Documento e trecho | Para quem vale | O que conta como piora | Janela |
|---|---|---|---|
| Diretriz brasileira de 2012, capítulo de função pulmonar | Doenças restritivas em geral | Capacidade vital com mudança de 10% ou mais; difusão com mudança de 20% ou mais | 6 a 12 meses |
| Diretriz brasileira de 2012, capítulo de sarcoidose | Decisão de tratar a sarcoidose | Perda de 10% ou mais da capacidade vital ou de 15% ou mais da difusão | 6 a 12 meses |
| Diretriz brasileira de 2012, capítulo de transplante | Fibrose com pneumonia intersticial usual ou não específica fibrótica | Queda de 10% ou mais da capacidade vital ou de 15% ou mais da difusão, entre outros critérios | 6 meses |
| Diretriz internacional de 2022 | Fibrose que não é a idiopática: definição de fibrose pulmonar progressiva | Dois de três: sintomas piores; queda absoluta da capacidade vital acima de 5 pontos percentuais ou da difusão acima de 10 pontos; progressão na tomografia | 1 ano, sem outra explicação |
Duas réguas de piora da difusão na mesma diretriz. O capítulo de função pulmonar da diretriz brasileira de 2012 chama de mudança clinicamente significativa, nas doenças restritivas, a variação da capacidade vital de 10% ou mais e da difusão de 20% ou mais; os capítulos de sarcoidose e de transplante do mesmo documento usam 15% para a difusão. A conta de um caso: difusão que cai de 60% para 49% do previsto perdeu 11 pontos, uma queda relativa de 18,3% — não é mudança significativa pelo capítulo de função pulmonar, é piora que indica tratar a sarcoidose e que entra entre os critérios de transplante, e é progressão fisiológica pela diretriz internacional de 2022, que usa queda absoluta acima de 10 pontos em um ano. Na prática, use o limiar do capítulo que trata da decisão em jogo, e registre sempre o valor absoluto e o relativo na evolução.
Escalonamento de azatioprina que estoura o próprio teto. No capítulo de sarcoidose, a diretriz brasileira de 2012 manda iniciar a azatioprina com 50 mg/dia, elevando 2,5 mg/kg a cada duas semanas, até a dose máxima de 200 mg/dia. Num adulto de 70 kg, o degrau é 2,5 × 70 = 175 mg: o primeiro aumento leva a 50 + 175 = 225 mg/dia, acima do teto, e num adulto de 60 kg o segundo degrau já daria 350 mg/dia. A leitura coerente com o teto é que 2,5 mg/kg/dia seja o alvo, e não o degrau — mas o texto não diz isso, e o esquema de azatioprina na sarcoidose é decisão do especialista, com hemograma depois de cada aumento, como pede a própria diretriz.
Uma frase que faz a combinação tríplice parecer boa. Na pergunta sobre N-acetilcisteína, a diretriz brasileira de 2020 descreve o estudo de 2005 como a avaliação da N-acetilcisteína em associação a corticoide e azatioprina comparada com placebo, com redução da queda da capacidade vital e da difusão nos que receberam a combinação. Naquele estudo, os dois braços recebiam prednisona e azatioprina — o placebo substituía só a N-acetilcisteína —, como descreve corretamente a diretriz de 2012. O braço da combinação contra placebo verdadeiro, num ensaio posterior, teve mortalidade de 11% contra 1%, onze vezes maior, e hospitalização de 29% contra 8%. Quem ler só o trecho de 2020 pode sair achando que prednisona com azatioprina e N-acetilcisteína freia a fibrose idiopática; a conduta certa continua sendo não usar.
A conduta, hora a hora
A conduta da doença intersticial acontece em dois tempos que se misturam na internação. O tempo agudo é o da piora: oxigênio com alvo escrito, separar a exacerbação do que se trata de outro jeito, decidir o corticoide com a pneumologia e combinar com o doente até onde vai o suporte — tudo nas primeiras 24 horas. O tempo crônico é o do diagnóstico e do futuro: tirar a causa que se pode tirar, nomear a doença com quem sabe, planejar oxigênio, vacinas, reabilitação, antifibrótico quando cabe, e ter a conversa que ninguém teve. O interno que só cuida do primeiro dá alta a um doente que volta; o que só cuida do segundo não chega a dar alta.
Em todas as doenças do capítulo, quatro ações não saem da farmácia: afastar a exposição e o fármaco suspeito, registrar a linha do tempo, encaminhar com as imagens e escrever a decisão sobre suporte avançado com as palavras do doente. Os marcos abaixo seguem seu Elpídio da primeira manhã à alta, e cada um traz a prescrição daquele momento.
Terça, 7h10 às 9h — tirar o rótulo e colher o que ninguém colheu
Você começa pelo que o prontuário não tem. A linha do tempo vai para o alto da evolução: falta de ar progressiva há cerca de 26 meses, tosse seca, baqueteamento datado pela esposa, radiografia de três anos atrás já com reticulado nas bases, piora nos últimos dez dias. As seis perguntas são feitas uma a uma e anotadas também quando a resposta é não: antes de dirigir ônibus urbano por 40 anos, foi cobrador; nunca criou pássaro, não há pombo no forro, a casa não tem mofo que a esposa conheça e o travesseiro é de espuma; não usou amiodarona, nitrofurantoína, metotrexato nem quimioterapia; ninguém na família teve fibrose. O roteiro de colagenose é negativo, com exceção da azia noturna já conhecida. A hipótese sai escrita assim: doença pulmonar intersticial fibrosante crônica não diagnosticada, com piora aguda; diferenciais, exacerbação aguda, infecção, insuficiência cardíaca e embolia pulmonar. O rótulo de DPOC fica em suspenso até alguém fazer uma espirometria. A saturação de 90% com 3 L/min está abaixo do alvo de 92% a 96% que O litro que não vira fração adota para quem não retém gás carbônico — e a gasometria mostrou gás carbônico de 34 mmHg —, então o fluxo sobe e a reavaliação fica marcada. A furosemida não é repetida: não havia congestão, e a diurese farta não mudou a saturação. O antibiótico do pronto-socorro continua enquanto a infecção não for afastada, pela régua do capítulo de pneumonia.
Prescrição- Oxigênio por cateter nasal a 4 L/min, alvo de saturação de 92% a 96%, reavaliar em 30 minutos; enfermagem ajusta de 1 a 5 L/min dentro do alvo
- Oximetria contínua
- Suspender furosemida; reavaliar se surgir sinal de congestão
- Manter ceftriaxona e azitromicina até fechar a investigação de infecção, pela régua de Pneumonia na comunidade: onde este paciente vai dormir
- Hemograma, VHS, PCR, ureia, creatinina, glicemia, cálcio, fósforo, DHL, TGO, TGP, fosfatase alcalina, CPK, aldolase, FAN, fator reumatoide e urina tipo I
- Peptídeo natriurético, eletrocardiograma e ecocardiograma
- Pesquisa de vírus respiratórios em amostra de nasofaringe
- Tomografia de alta resolução do tórax hoje; angiotomografia na mesma ida se a régua de embolia indicar
- Profilaxia de tromboembolismo venoso pela régua do serviço
Terça, 13h — a tomografia dá nome à doença de base
A tomografia de alta resolução mostra, nas duas bases e sob a pleura, reticulado com bronquiectasias de tração e faveolamento, com pulmão preservado entremeado — o padrão típico de pneumonia intersticial usual — e, por cima dele, vidro fosco novo, bilateral e multifocal. Não há consolidação lobar, derrame, nódulo, mosaico nem micronódulos que puxem para pneumonite de hipersensibilidade, e não há distribuição perilinfática. A régua do capítulo de embolia foi aplicada e a angiotomografia, feita na mesma ida, não mostrou trombo. O ecocardiograma mostra ventrículo esquerdo com função normal e pressão sistólica pulmonar estimada em 38 mmHg; o peptídeo natriurético veio dentro do esperado para a idade; os leucócitos estão em 11.200/mm³ sem desvio, a proteína C reativa em 3,1 mg/dL, a desidrogenase lática um pouco acima do limite, e a pesquisa de vírus foi negativa. A pneumologia avalia às 14h. O diagnóstico de trabalho fica assim: exacerbação aguda possível de fibrose pulmonar com padrão de pneumonia intersticial usual, por enquanto sem causa encontrada — possível porque a infecção não foi afastada por lavado, e o doente, com saturação de 92% com 4 L/min, não tem condição de broncoscopia segura no julgamento do pneumologista. A decisão é o pulso de metilprednisolona por três dias, dentro do teto descrito pela diretriz brasileira de 2012, sem ciclofosfamida — o ensaio randomizado de 2022 não mostrou benefício e teve mortalidade numericamente maior com ela —, com o antibiótico mantido enquanto o corticoide começa. A profilaxia de estrongiloidíase entra no mesmo dia, pela régua do capítulo de geo-helmintíases, e a glicemia passa a ser vigiada.
Prescrição- Metilprednisolona 1 g IV uma vez ao dia por 3 dias: 2 frascos de 500 mg por dose, pela decisão da pneumologia
- Avaliar risco de estrongiloidíase antes do pulso e organizar investigação/tratamento com a equipe conforme O vermífugo de todo mundo. Quando indicado no adulto sem contraindicação: ivermectina 200 mcg/kg VO ao dia por 2 dias; não usar albendazol de três dias como proteção universal nem atrasar tratamento urgente sem discussão.
- Glicemia capilar antes das refeições e às 22h enquanto durar o corticoide em dose alta, com insulina pela escala do serviço
- Ciclofosfamida não indicada na exacerbação aguda
- Manter o antibiótico até a evolução e os exames afastarem infecção
- Oxigênio com alvo de 92% a 96%; chamar o plantonista se a saturação sair do alvo com 5 L/min
Terça, 16h — a conversa antes de a saturação cair
Com seu Elpídio acordado e orientado, e com dona Ignez e a filha na sala, o residente conduz e você participa — as frases precisam ser suas também, porque é você quem estará no andar amanhã. A conversa tem três partes. A primeira é o que está acontecendo: o pulmão vem endurecendo há anos por uma doença que tem nome, fibrose pulmonar, e piorou de repente; a piora pode responder ao tratamento e pode não responder. A segunda é o que se sabe: a diretriz brasileira de 2012 registra mortalidade hospitalar de 50% nessa piora, e de 90% entre os que precisaram de ventilação mecânica; a diretriz internacional de 2022 não recomenda ventilação mecânica para a maioria dos doentes com fibrose que evoluem para insuficiência respiratória. A terceira é a pergunta que decide: se piorar, o que é importante para ele. Seu Elpídio diz que não quer ser intubado — viu o irmão morrer assim — e que aceita tudo o que o ajude a respirar sem o tubo. A decisão vai para a evolução com as palavras dele, a data, os nomes de quem estava presente e o que foi aceito como teto: oxigênio em alto fluxo e medicação para falta de ar, sem intubação. A equipe de cuidados paliativos é chamada no mesmo dia. A técnica dessa conversa — como dizer o número sem tirar a esperança, o que fazer com o silêncio — é de O que se diz quando não se sabe, na apostila de Comunicação, Ética e Segurança na Prática; o que cabe aqui é o conteúdo e o momento: a conversa acontece hoje, e não no dia em que for preciso decidir.
Prescrição- Registrar a decisão compartilhada específica de Elpídio sobre suporte: ele aceita alto fluxo e controle de sintomas e recusa intubação, conforme a conversa do caso. Documentar compreensão, capacidade e possibilidade de revisão; fibrose pulmonar isoladamente não determina limitação universal de suporte.
- Comunicar a decisão ao plantão médico, à enfermagem e à terapia intensiva
- Solicitar avaliação da equipe de cuidados paliativos hoje
Quarta, 7h — a madrugada no prontuário
Às 3h a saturação caiu para 85% com 5 L/min e a frequência respiratória subiu para 34. O plantonista leu a decisão na evolução, trocou o cateter comum pelo cateter nasal de alto fluxo, com os parâmetros ajustados com a fisioterapia, e a saturação voltou a 92%. Às 7h você reavalia: seu Elpídio está cansado, fala frases curtas e está orientado; a glicemia das 6h foi de 238 mg/dL. Antes de atribuir tudo à doença de base, a piora da madrugada merece a checagem da véspera em versão curta: febre, secreção nova, ausculta assimétrica, pneumotórax, sobrecarga de volume. A radiografia no leito não mostra pneumotórax nem consolidação nova, e o balanço está equilibrado. A falta de ar que persiste com o oxigênio é tratada como sintoma, e não só como número: a diretriz de 2012 descreve morfina oral em dose baixa na dispneia da fibrose pulmonar idiopática, com alívio e sem depressão respiratória na série relatada, a maioria dos doentes com até 20 mg por dia; a dose se ajusta pelo sintoma, e o laxante vai junto, porque a constipação é o efeito adverso mais comum. A equipe de paliativos, que viu seu Elpídio no fim da tarde, concorda com o plano.
Prescrição- Cateter nasal de alto fluxo com os parâmetros da fisioterapia, alvo de saturação de 92% a 96%, reavaliação a cada 2 horas
- Morfina solução oral 10 mg/mL: 2,5 mg (0,25 mL) VO se falta de ar intensa, até de 4 em 4 horas; rever a dose em 24 horas
- Laxante prescrito junto com a morfina, pela padronização do serviço
- Insulina pela escala do serviço enquanto durar o corticoide
- Radiografia de tórax no leito
Quinta a sábado — o fim do pulso e o que não entra na prescrição
O terceiro pulso termina na quinta. A fração de oxigênio do alto fluxo cai aos poucos, e no sábado seu Elpídio volta ao cateter comum a 3 L/min com saturação de 93%. Não houve febre nem secreção, a pesquisa de vírus foi negativa, e o antibiótico é suspenso no quinto dia, pela régua do capítulo de pneumonia. A prednisona oral entra com a dose e a retirada escritas pela pneumologia e com data de término na prescrição — a diretriz brasileira de 2012 descreve os esquemas usados na exacerbação, mas não fixa um. No sábado, a filha chega com uma lista impressa da internet: N-acetilcisteína, um antifibrótico e um remédio de imunidade que um parente usou. Você explica o que as diretrizes dizem de cada um. A de 2020 sugere não usar N-acetilcisteína. A azatioprina não tem papel: associada à prednisona e à N-acetilcisteína, aumentou a mortalidade no ensaio que a diretriz de 2012 registra. E o antifibrótico é conversa para quando ele estiver estável, com o especialista, porque freia a perda de função ao longo de meses e não trata a crise de agora. O omeprazol continua, porque a azia noturna é real, e a razão fica escrita: a diretriz internacional de 2022 sugere não usar antiácido para melhorar o pulmão na fibrose idiopática e manda tratar o refluxo sintomático pelas regras do refluxo, que são de Sete anos de omeprazol, na apostila de Gastroenterologia.
Prescrição- Prednisona VO na dose e com a retirada escritas pela pneumologia, com data de término na prescrição
- Suspender ceftriaxona e azitromicina no quinto dia, sem febre, sem secreção e com a investigação de infecção negativa
- Omeprazol 20 mg VO em jejum, mantido pela azia noturna, com a indicação escrita
- Oxigênio por cateter nasal a 3 L/min, alvo de 92% a 96%, com teste de redução a cada turno
- N-acetilcisteína, azatioprina e ciclofosfamida não indicadas
Segunda — os anticorpos chegam e a doença ganha um nome provisório
Os exames da primeira manhã estão todos no sistema: fator antinuclear não reagente, fator reumatoide negativo, creatinofosfoquinase e aldolase normais, cálcio normal, urina tipo I sem sangue e sem proteína — e, com a urina limpa e sem outro órgão doente, sem motivo para ANCA. Não há exposição, não há fármaco, não há colagenose, e a tomografia tem o padrão típico num homem de 71 anos que fumou 42 maços-ano. A hipótese passa a ser fibrose pulmonar idiopática, e a palavra provisória fica escrita, porque o diagnóstico sai da discussão no serviço de doenças intersticiais. Duas conversas acontecem na mesma manhã. Com o residente, a da carta de encaminhamento, com imagens, exames, linha do tempo, exposições negadas e a pergunta escrita: confirmar o diagnóstico e discutir antifibrótico. Com seu Elpídio e dona Ignez, a do antifibrótico: a diretriz brasileira de 2020 sugere nintedanibe ou pirfenidona na fibrose pulmonar idiopática, porque diminuem a velocidade da perda de função; o Ministério da Saúde decidiu em 2018 não incorporar os dois ao SUS, eles não constam da Rename, e é o especialista quem conversa sobre o acesso; um terceiro, aprovado pela Anvisa em 2026, ainda não chegou às farmácias. O transplante também é mencionado com honestidade: pela régua brasileira de 2012, a idade dele é contraindicação relativa, e quem decide é o centro transplantador, se o especialista achar que vale perguntar.
Prescrição- Encaminhamento ao ambulatório de doenças intersticiais com imagens, exames, linha do tempo e a pergunta: confirmar diagnóstico e discutir antifibrótico
- Espirometria com difusão e teste de caminhada solicitados para quando estiver estável, antes da consulta especializada
- Registro na evolução das exposições, fármacos e sintomas de colagenose pesquisados e negados
Terça seguinte, 10h — o corredor antes da alta
Seu Elpídio está em ar ambiente desde a noite anterior, com saturação de 91% sentado, e a gasometria em ar ambiente mostra pressão parcial de oxigênio de 61 mmHg. Você o põe para andar no corredor com o oxímetro no dedo: em dois minutos a saturação cai para 84% e ele para, sem fôlego. Com cateter a 2 L/min, a mesma caminhada vai a quatro minutos com saturação de 90%. Duas decisões saem daí, com réguas diferentes. O oxigênio contínuo em repouso não se decide hoje: as recomendações brasileiras de 2022 usam para a doença intersticial os mesmos critérios da DPOC e pedem que a indicação seja avaliada com o doente estável e o tratamento otimizado — e ele está a uma semana de uma exacerbação, com pressão parcial de oxigênio acima do limiar. A reavaliação fica marcada, com gasometria em ar ambiente, pela régua de Duas doenças com a mesma sigla. O oxigênio para o esforço, sim, tem indicação: as mesmas recomendações descrevem oxigênio ambulatorial para quem satura 88% ou menos na atividade física e melhora a tolerância com ele, e registram que a evidência de benefício é controversa — o que também vai para a evolução, com a razão da escolha, que é permitir que ele ande dentro de casa e faça a reabilitação. As recomendações lembram ainda que, na doença intersticial, os fluxos necessários costumam ser altos, e que o fornecimento é gratuito pelos programas municipais e estaduais do SUS.
Prescrição- Oxigênio domiciliar por concentrador para esforço e deambulação: cateter nasal a 2 L/min, pelo programa municipal
- Reavaliação do oxigênio em repouso, com gasometria em ar ambiente, quando estável — data escrita na carta de alta
- Encaminhamento para reabilitação pulmonar
Quarta, 11h — a alta que continua o tratamento
A alta sai com o que a internação construiu, escrito para quem vai continuar. Na receita, a prednisona com a retirada dia a dia e a data em que termina, para que ninguém a renove por inércia. Na carta, as vacinas: o manual dos centros de referência para imunobiológicos especiais inclui as pneumopatias crônicas entre as indicações de vacina influenza e de vacina pneumocócica 23-valente, e a unidade básica faz o encaminhamento. Também na carta, a decisão sobre suporte avançado, com cópia entregue à família, porque a próxima piora pode ser atendida por uma equipe que nunca o viu. O retorno na unidade básica fica marcado para até sete dias, o ambulatório de doenças intersticiais com prioridade, a reabilitação pulmonar e o acompanhamento com cuidados paliativos. Os sinais para voltar são ditos em voz alta e escritos: falta de ar em repouso, saturação que não sobe com o oxigênio, febre, confusão ou sonolência. E o rótulo que o trouxe até aqui é corrigido na carta numa frase: o diagnóstico de DPOC não foi confirmado; a doença é pulmonar intersticial fibrosante, com hipótese de fibrose pulmonar idiopática em investigação especializada.
Prescrição- Prednisona VO com retirada escrita dia a dia e data de término
- Omeprazol 20 mg VO em jejum enquanto houver azia noturna
- Oxigênio de esforço conforme o marco anterior
- Revisar vacinação contra influenza e esquema pneumocócico pelo calendário e histórico vacinal atuais, com encaminhamento ao serviço de imunobiológicos especiais; não copiar automaticamente apenas VPP23 de um manual anterior.
- Retorno na unidade básica em até 7 dias; ambulatório de doenças intersticiais com prioridade; reabilitação pulmonar; cuidados paliativos ambulatoriais
- Cópia da decisão sobre suporte avançado entregue ao doente e à família
Como saber se está funcionando
Reavaliar uma doença intersticial é separar três coisas que se parecem: a evolução natural da fibrose, a resposta ao que se fez — afastar o antígeno, suspender o fármaco, dar corticoide onde cabe — e o dano do próprio tratamento. Na internação, os parâmetros se medem em horas; no ambulatório, em meses, e a diretriz internacional de 2022 manda reavaliar a progressão a cada 3 a 6 meses, ou antes se houver piora.
O interno não fecha sozinho a decisão de antifibrótico, de imunossupressor ou de transplante. O que ele garante é que os números certos estejam medidos do mesmo jeito, de preferência no mesmo laboratório, e escritos com valor absoluto e relativo — é isso que permite a qualquer um dizer, na consulta seguinte, se a doença andou.
Esperado: Alvo de saturação mantido com oferta que cai ao longo dos dias depois do pulso
Se não melhora: Saturação fora do alvo com alto fluxo: rever infecção, pneumotórax, sobrecarga de volume e embolia, e cumprir o que a decisão registrada sobre suporte avançado prevê — sem improvisar a intubação que o doente recusou e sem negar o que ele aceitou.
Esperado: Glicemia controlada com a escala de insulina e volta ao basal com a retirada do corticoide
Se não melhora: Hiperglicemia persistente pede insulina basal pela régua do serviço e revisão da dose com a pneumologia. Febre ou infiltrado novo em quem recebeu pulso é infecção até prova em contrário, e no imunossuprimido a lista inclui pneumocistose e micobactéria.
Esperado: Menor saturação estável ou melhor, com distância igual ou maior
Se não melhora: Saturação mais baixa andando, mais oxigênio para a mesma distância ou perda de 25 a 45 metros ou mais: sinal de progressão ou de complicação — hipertensão pulmonar, embolia, infecção — e antecipação da consulta especializada.
Esperado: Valores estáveis, registrados em valor absoluto e relativo
Se não melhora: Na fibrose que não é idiopática, queda absoluta acima de 5 pontos na capacidade vital ou de 10 na difusão em um ano, com sintomas ou tomografia piores, preenche a definição de fibrose pulmonar progressiva e leva ao especialista a pergunta sobre antifibrótico; para tratar sarcoidose e para transplante, valem os limiares da diretriz de 2012 da tabela de réguas.
Esperado: Antígeno fora da casa ou do trabalho, fármaco suspenso e melhora clínica e funcional
Se não melhora: Piora apesar do corticoide na pneumonite de hipersensibilidade: antes de subir a dose, pergunte de novo — as aves foram para a casa ao lado, o mofo voltou, o edredom de pena ficou. Na reação a fármaco, confira se outro remédio da mesma lista entrou na receita.
Esperado: Melhora de sintomas, função ou imagem, e retirada até 5 a 10 mg/dia de prednisona
Se não melhora: Sem melhora em três meses, a diretriz de 2012 manda pensar em fase fibrótica irreversível, má adesão, dose inadequada, resistência ou outro diagnóstico; manutenção acima de 10 mg/dia ou efeito adverso importante pede poupador de corticoide, decidido pelo especialista.
Esperado: Sem infecção, diarreia controlada, hemograma e provas hepáticas dentro do esperado para o fármaco
Se não melhora: Diarreia persistente no nintedanibe — ela atingiu cerca de 62% dos doentes nos ensaios — ou alteração de hemograma e de provas hepáticas no imunossupressor: contato com quem prescreveu antes da próxima dose. Na azatioprina, o hemograma depois de cada aumento de dose é exigência da diretriz de 2012.
Onde o erro machuca
O dano: A fibrose avança por anos sem diagnóstico, sem oxigênio de esforço, sem vacinas de pneumopatia crônica, sem encaminhamento e sem conversa sobre prognóstico; o nome da doença aparece pela primeira vez na exacerbação, quando a mortalidade hospitalar chega à metade.
Como pegar a tempo: Estertor em velcro, baqueteamento ou dessaturação ao esforço num suposto DPOC mandam para tomografia de alta resolução e espirometria com difusão — é a regra da diretriz de 2012 para o fumante com suspeita de DPOC que tem esses achados.
O dano: Hipovolemia, piora da função renal e dias de antibiótico sem alvo, enquanto a exacerbação segue sem suporte adequado e a conversa sobre ventilação mecânica não acontece.
Como pegar a tempo: Piora com vidro fosco novo sobre fibrose antiga: pedido de porta das três frentes — infecção, coração, embolia — e decisão escrita sobre o que se trata e o que se suspende.
O dano: A combinação dos três aumentou a mortalidade de 1% para 11% e as hospitalizações de 8% para 29% no ensaio interrompido, sem ganho de função; o corticoide isolado soma infecção, diabetes, osteoporose e fraqueza muscular sem ter alvo.
Como pegar a tempo: Corticoide na fibrose idiopática, só na exacerbação e decidido com a pneumologia; o tratamento que freia a doença é o antifibrótico, pela diretriz de 2020, indicado pelo especialista.
O dano: A inflamação volta a cada retirada, a dose sobe, os efeitos adversos se acumulam, e a forma crônica vira fibrose que já não responde.
Como pegar a tempo: A primeira prescrição é o afastamento — para onde vão as aves, quem limpa o mofo, qual travesseiro sai de casa —, escrita na receita e perguntada de novo em cada consulta.
O dano: Corticoide numa tuberculose ganglionar dissemina a infecção; corticoide numa síndrome de Löfgren pouco sintomática expõe o doente a efeitos adversos numa doença de bom prognóstico.
Como pegar a tempo: Granuloma exige exclusão de tuberculose e micose; trate só pelas indicações da diretriz de 2012 e escreva a observação como conduta, com data de reavaliação.
O dano: A decisão é tomada às 3h por quem não conhece o doente e costuma ser a intubação de um pulmão fibrosado, com mortalidade de 90% entre os ventilados nos estudos citados pela diretriz, contra uma vontade que ninguém perguntou.
Como pegar a tempo: No primeiro dia da exacerbação: conversa com doente e família sobre o que se sabe e o que ele quer, registro com as palavras dele, cuidados paliativos chamados e cópia da decisão entregue na alta.
O que dizer ao paciente e à família
Na doença intersticial, a conversa tem uma dificuldade própria: o doente passou anos ouvindo que tinha outra coisa, mais branda, e recebe de uma vez um nome novo, um prognóstico ruim e a notícia de que o remédio que freia a doença não sai de graça. O que ajuda é dizer uma coisa de cada vez, na ordem em que cada uma muda o que a família vai fazer.
As falas abaixo são do interno, com seu Elpídio e dona Ignez na enfermaria e com Regina, a doente do caso resolvido, no ambulatório.
Tirar o rótulo sem culpar ninguém
““Seu Elpídio, a falta de ar que o senhor tem há dois anos não parece ser DPOC. Pelo exame e pela tomografia, o pulmão foi ficando mais duro, com cicatriz, e por isso a bombinha não ajudou. Não foi descuido do senhor: é uma doença que muitas vezes demora a ser reconhecida.””
Não diga: “Erraram o seu diagnóstico esses anos todos.” A frase pode até ser verdadeira, mas não ajuda o doente a decidir nada hoje e destrói a confiança na unidade básica que vai acompanhá-lo depois da alta.
Explicar a piora sem prometer
““A cicatriz que o senhor já tinha piorou de repente, e isso tem nome: exacerbação. Estamos tratando com oxigênio e com um corticoide forte por três dias. Alguns doentes melhoram bem; outros, não. Nos próximos dias vamos saber mais, e eu venho contar ao senhor e à dona Ignez.””
Não diga: “É uma pneumonia forte, com o antibiótico passa.” Promete o que não se sabe e adia a conversa que precisa acontecer hoje.
Perguntar o que importa antes da piora
““Se a respiração piorar muito, existe a possibilidade de colocar um tubo e ligar um aparelho para respirar. Nessa doença, o aparelho ajuda pouco, e a maioria dos doentes que chega a ele não sai do hospital. Eu preciso saber do senhor: se isso acontecer, o que é mais importante para o senhor?””
Não diga: “O senhor quer que a gente faça tudo?” A pergunta joga na família um peso impossível e não diz o que tudo significa num pulmão com fibrose.
O antifibrótico que o SUS não fornece
““Existem remédios que diminuem a velocidade com que o pulmão perde força — não curam, mas freiam. A sociedade brasileira de pneumologia sugere o uso deles na sua doença, e o especialista vai dizer se servem para o senhor. Hoje o SUS não fornece esses remédios; o médico do ambulatório vai conversar com o senhor sobre isso.””
Não diga: “Esse remédio não tem pelo SUS, então nem adianta falar.” Tira do doente uma decisão que é dele com o especialista e esconde uma informação a que ele tem direito.
O oxigênio de esforço
““Parado, o seu oxigênio está aceitável; andando, ele cai bastante. Por isso o senhor vai para casa com oxigênio para usar quando andar e na fisioterapia. Não é para ficar parado com medo de cansar: o oxigênio é justamente para o senhor conseguir se mexer. E perto do oxigênio não pode ter chama, nem cigarro de visita.””
Não diga: “Agora o senhor vai depender de oxigênio.” Soa como sentença e faz o doente usar menos o oxigênio justamente onde ele serve.
As aves de Regina
““Dona Regina, o que está inflamando o seu pulmão é uma reação ao que a senhora respira em casa, e o mais provável são as calopsitas. O remédio ajuda, mas sozinho não resolve: se elas ficarem, a inflamação volta. Eu sei que elas são companhia. Vamos pensar juntas para onde elas podem ir.””
Não diga: “A senhora vai ter que se livrar dos passarinhos.” Dita como ordem, a frase costuma virar calopsita escondida na área de serviço e corticoide que não funciona.
Na alta, a decisão que acompanha o doente
““Dona Ignez, esta folha diz o que o seu Elpídio decidiu sobre o tubo e o aparelho. Guarde junto com a carta de alta e mostre a qualquer equipe que atender ele numa próxima piora. Se ele mudar de ideia, isso também vale: é só conversar de novo com a gente ou com o médico do posto.””
Não diga: “Isso fica registrado no prontuário do hospital.” O prontuário não vai estar na ambulância nem no pronto-socorro de outra cidade.
Onde bons médicos discordam
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.
Diretriz brasileira de doenças intersticiais, SBPT, 2012 — a ciclofosfamida aparece como possibilidade
Descreve o tratamento da exacerbação como de suporte, com antibiótico e corticoide comumente prescritos, e registra que agentes citotóxicos têm sido sugeridos sem estudos controlados: cita um estudo não randomizado em que a ciclofosfamida venosa mensal depois do pulso de metilprednisolona pareceu aumentar a sobrevida de alguns doentes, e outro em que o uso de ciclofosfamida esteve entre os fatores ligados a melhor resposta.
Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia. J Bras Pneumol. 2012;38(supl. 2):S1-S133, capítulo 19
Ensaio randomizado EXAFIP, 2022 — evidência contra a ciclofosfamida venosa
Em 119 doentes com exacerbação aguda ou suspeita, todos com glicocorticoide em dose alta, quatro pulsos de ciclofosfamida venosa tiveram mortalidade em três meses de 45%, contra 31% com placebo; a diferença não alcançou significância estatística, e os autores concluíram que os resultados são evidência contra o uso da ciclofosfamida venosa nesses doentes.
Naccache JM et al. Lancet Respir Med. 2022;10(1):26-34
As duas posições tratam do mesmo doente — o adulto com exacerbação aguda da fibrose idiopática —, e a data e o desenho decidem: a sugestão de 2012 veio de estudos não randomizados, e a resposta de 2022 veio de um ensaio randomizado e duplo-cego feito para essa pergunta, que não mostrou benefício e teve mortalidade numericamente maior. Esta apostila adota não usar ciclofosfamida na exacerbação aguda da fibrose pulmonar idiopática. O ensaio não é documento brasileiro, e nenhum documento brasileiro posterior revisou o ponto — a diretriz de tratamento de 2020 declara que não analisou a exacerbação —, de modo que a posição é desta apostila, sustentada pelo ensaio. Para o doente à sua frente, a decisão prática é a do corticoide com a pneumologia, do suporte e da conversa sobre ventilação; se alguém propuser ciclofosfamida, a pergunta a fazer é se há outro diagnóstico em jogo, como colagenose ou vasculite, em que ela tenha outro papel.
Conitec e Ministério da Saúde, dezembro de 2018 — não incorporar nintedanibe nem pirfenidona
A comissão considerou que a evidência não demonstrava benefício claro ao doente com o nintedanibe, com perfil de segurança desfavorável e alta taxa de eventos adversos e de abandono, e que a pirfenidona, embora reduzisse a queda da capacidade vital, tinha benefício incerto sobre qualidade de vida, exacerbações e mortalidade. As portarias decidiram não incorporar os dois ao SUS e admitem nova avaliação diante de fatos novos.
Relatórios de Recomendação nº 419 e nº 420; Portarias SCTIE/MS nº 86 e nº 88, de 24 de dezembro de 2018
Diretriz brasileira de tratamento farmacológico da fibrose pulmonar idiopática, SBPT, 2020 — sugere usar os dois
Com metodologia GRADE, sugere usar nintedanibe, com evidência moderada, e pirfenidona, com evidência baixa, em recomendação condicional: os dois reduzem o ritmo de queda da capacidade vital, que é preditora forte e independente de mortalidade; nas meta-análises analisadas, o nintedanibe reduziu exacerbações sem diferença significativa na mortalidade, e a pirfenidona reduziu a mortalidade, com evidência moderada nesse desfecho, sem efeito significativo nas exacerbações. Declara que a recomendação não leva em conta custos.
Baddini-Martinez J et al. J Bras Pneumol. 2020;46(2):e20190423, perguntas 1 e 2 e Quadro 5
Antes de desempatar, vale ver que os dois documentos respondem perguntas vizinhas: a diretriz de 2020 diz se o fármaco deve ser oferecido ao doente, sem considerar custo; a Conitec decidiu se o SUS deve comprá-lo, pesando orçamento junto com a evidência. No ponto em que discordam de verdade — o benefício clínico —, o escopo é o mesmo, e a data decide: a diretriz de 2020 é posterior e, com metodologia GRADE, manteve a sugestão de uso. Esta apostila adota a diretriz de 2020 para a indicação clínica: o doente com fibrose pulmonar idiopática confirmada deve ouvir do especialista que existe tratamento que freia a doença, com seus efeitos adversos e com a incerteza sobre mortalidade. E adota as portarias de 2018 para o que o SUS fornece, que é nenhum dos dois. Para o doente à sua frente, isso quer dizer escrever a indicação na carta de encaminhamento, não prometer e não negar o fármaco, e deixar a decisão com o especialista e o doente.
Diretriz brasileira de doenças intersticiais, SBPT, 2012 — variação relativa
Considera clinicamente significativa, nas doenças restritivas, a mudança de 10% ou mais na capacidade vital e de 20% ou mais na difusão em 6 a 12 meses, no capítulo de função pulmonar, e usa 15% para a difusão nos capítulos de sarcoidose e de transplante; registra que quedas da capacidade vital acima de 5% já indicavam pior sobrevida na fibrose idiopática.
Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia. J Bras Pneumol. 2012;38(supl. 2), capítulos 5, 13 e 21
Diretriz internacional ATS, ERS, JRS e ALAT, 2022 — fibrose pulmonar progressiva por queda absoluta
Na fibrose que não é a idiopática, define progressão por dois de três critérios no último ano, sem outra explicação: piora dos sintomas, queda absoluta da capacidade vital acima de 5 pontos percentuais do previsto ou da difusão acima de 10 pontos, e progressão na tomografia; usa essa definição para sugerir nintedanibe em quem falhou o manejo padrão.
Raghu G et al. Am J Respir Crit Care Med. 2022;205(9):e18-e47, Tabela 4
Primeiro o escopo: a régua de 2012 foi escrita para dizer se uma mudança de exame é real, e é anterior ao conceito de fibrose progressiva; a de 2022 foi escrita para decidir se a fibrose de outra causa passou a se comportar como a idiopática e merece a pergunta sobre antifibrótico. Para o doente em seguimento com fibrose que não é idiopática — a pneumonite crônica, a colagenose, a fibrose não classificável —, o escopo decide pela régua de 2022, que também é a mais nova, e esta apostila a adota. A conta mostra por que isso importa: capacidade vital que cai de 80% para 74% do previsto perdeu 6 pontos, uma queda relativa de 7,5% — não é mudança significativa pela régua de 2012 e já é critério fisiológico de progressão pela de 2022. Para tratar sarcoidose e para os critérios de transplante, os limiares da diretriz de 2012 continuam sendo a régua brasileira, porque foram escritos para essas decisões. Em qualquer caso, escreva na evolução o valor absoluto e o relativo, e quem ler depois aplica a régua da decisão que tiver de tomar.
O raciocínio, em voz alta
Regina Kubitschek tem 58 anos, 58 kg e 1,58 m, é costureira e trabalha em casa, num quarto dos fundos. Nunca fumou. Há oito meses tem tosse seca e falta de ar que começou na escada e hoje aparece quando varre a casa; perdeu 4 kg sem querer. Foi tratada duas vezes para pneumonia na unidade de pronto-atendimento, com melhora parcial. Conta, sem dar importância, que se sentiu muito melhor nas duas semanas em que ficou na casa da irmã, em outra cidade, e que piorou poucos dias depois da volta. No ambulatório de clínica médica do hospital, a ausculta tem estertores finos nas bases e alguns sons curtos e agudos no fim da inspiração; não há baqueteamento. A saturação é de 94% sentada e de 88% depois de subir dois lances de escada. Ela traz uma radiografia com velamento difuso discreto e o laudo de uma tomografia que fala em vidro fosco difuso e nódulos centrolobulares mal definidos.
1. Reconhecer que a pneumonia de repetição é outra coisa
Uma não fumante com tosse seca e falta de ar há oito meses, perda de peso, dessaturação ao esforço, duas pneumonias que não resolveram de todo, melhora longe de casa e piora na volta tem o desenho que a diretriz brasileira de 2012 descreve para a pneumonite de hipersensibilidade — e a mesma diretriz avisa que, sem história ambiental detalhada, ela vira o diagnóstico equivocado de pneumonias de repetição. Os sons curtos e agudos no fim da inspiração, os grasnidos, apontam para a bronquiolite própria da doença. A hipótese escrita na evolução passa a ser pneumonite de hipersensibilidade até que se prove o contrário.
2. Fazer a pergunta pela casa até o fim
A pergunta genérica — tem bicho em casa? — recebe um não, porque Regina não pensa nas aves como bicho. A pergunta concreta muda a história: há três anos, duas calopsitas moram numa gaiola dentro do quarto de costura, a um metro da máquina, e a parede atrás do armário de tecidos tem uma mancha de mofo que volta todo inverno. O travesseiro é de espuma. Nenhum dos remédios que ela usa lesa o pulmão, e ela não tem dor nas juntas, Raynaud, boca seca ou fraqueza. As duas exposições ficam registradas, com o tempo e a distância.
3. Pedir a tomografia certa e ler o que ela mostra
A tomografia de alta resolução é repetida com imagens em expiração, que a primeira não tinha: além do vidro fosco e dos nódulos centrolobulares mal definidos, aparece o mosaico com ar aprisionado. São três achados, e a diretriz pede pelo menos dois de três; não há faveolamento nem bronquiectasias de tração, e o desenho é o de uma doença ainda inflamatória. A espirometria mostra restrição leve e a difusão está em 58% do previsto. Os exames de rotina vêm normais, com o fator antinuclear não reagente e o fator reumatoide fracamente positivo — que, na pneumonite de hipersensibilidade, é achado frequente e não sinal de artrite reumatoide.
4. Confirmar sem biópsia
A pneumologia faz broncoscopia com lavado broncoalveolar antes de qualquer corticoide, e os linfócitos correspondem a 42% das células, sem germe nas culturas. A diretriz de 2012 permite firmar o diagnóstico clínico de pneumonite de hipersensibilidade, sem biópsia, quando o contexto clínico e tomográfico é adequado e há linfocitose no lavado — e é o caso. O lavado cumpriu também a segunda função: afastou infecção antes do corticoide.
5. Afastar o antígeno antes do remédio
A primeira prescrição não é de farmácia: as calopsitas vão para a casa da filha, a gaiola sai de casa, e a parede com mofo é limpa por outra pessoa, com Regina fora de casa, e o quarto de costura passa a ser ventilado. Ela pergunta se pode visitar as aves na casa da filha, e a resposta honesta é que cada reexposição pode reacender a inflamação. O afastamento é a chave do tratamento, pela diretriz, e na forma aguda pode bastar sozinho. Como Regina já dessatura ao esforço e perdeu difusão, o especialista decide acrescentar corticoide.
6. Fazer a conta do corticoide e da profilaxia
A diretriz de 2012 descreve prednisona de 0,5 a 1,0 mg/kg de peso ideal, sem passar de 60 mg por dia, por uma a duas semanas, com retirada nas duas a quatro semanas seguintes. Com índice de massa corporal de 23,2, o peso de Regina é tomado como o ideal: 0,5 × 58 = 29 mg, arredondados para 30 mg — de manhã, um comprimido de 20 mg mais dois de 5 mg, por duas semanas, com a retirada escrita na receita. No mesmo dia, a profilaxia de estrongiloidíase pela régua do capítulo de geo-helmintíases: avaliação e tratamento do risco de estrongiloidíase pelo esquema atualizado do capítulo O vermífugo de todo mundo. A vacina influenza e a pneumocócica 23-valente entram na carta, porque o manual dos centros de imunobiológicos especiais lista a pneumonite entre as pneumopatias crônicas.
7. Reavaliar e dizer o que fazer se voltar
Seis semanas depois, sem corticoide há duas semanas e sem as aves em casa, Regina sobe os dois lances de escada com saturação de 93%, a capacidade vital e a difusão melhoraram, e a tomografia de controle mostra menos vidro fosco. O plano de seguimento fica escrito: função pulmonar e caminhada com oxímetro a cada três a seis meses; se os sintomas voltarem, a primeira pergunta é pela exposição, antes de repetir o corticoide; e, se aparecer fibrose que avança apesar do afastamento — queda absoluta de capacidade vital ou de difusão com piora de sintomas ou de imagem em um ano —, a pergunta sobre fibrose pulmonar progressiva vai para o especialista.
Faça você
Valdomiro Icatu tem 69 anos, 81 kg, é comerciante aposentado e nunca fumou. Tem fibrilação atrial há dois anos e, desde então, usa amiodarona 200 mg por dia, anticoagulante e losartana; o ecocardiograma de um ano atrás mostrava fração de ejeção preservada. Há três meses tem tosse seca, febre baixa em alguns fins de tarde, perdeu 5 kg e passou a cansar ao caminhar meio quarteirão. Na unidade básica, a furosemida foi aumentada duas vezes, sem melhora. Chega à enfermaria com saturação de 90% em ar ambiente, estertores finos bilaterais, sem jugular distendida e sem edema. A radiografia mostra opacidades bilaterais, assimétricas, mais periféricas. O peptídeo natriurético está pouco elevado, e o ecocardiograma de hoje é igual ao de um ano atrás. Não há pássaro, mofo ou exposição no trabalho, e ele não tem sintomas articulares, de pele ou musculares.
1. Liste as hipóteses e o dado que pesa em cada uma
Escreva as quatro ou cinco hipóteses para a falta de ar e as opacidades de Valdomiro e, para cada uma, o dado da história, do exame ou dos exames que pesa a favor ou contra.
2. Diga o que pede hoje e por quê
Monte o pedido do dia com a pergunta que cada exame responde, incluindo o que precisa estar pronto antes de qualquer corticoide.
3. Decida o que fazer com a amiodarona e com quem
Diga se a amiodarona continua, quem participa da decisão e o que precisa ficar escrito na evolução sobre o fármaco.
4. Explique quando o corticoide entra e o que dizer ao doente
Diga em que situação o corticoide tem papel nesse quadro, o que se espera ver nas semanas seguintes se a hipótese principal estiver certa e como você explica o plano a Valdomiro.
Ver como fecharíamos
As hipóteses são cinco. Insuficiência cardíaca descompensada pesa pouco: não há jugular distendida nem edema, o ecocardiograma não mudou em um ano, a furosemida aumentada duas vezes não trouxe melhora, e o peptídeo pouco elevado é esperado na fibrilação atrial. Infecção pesa um pouco, pela febre baixa, mas três meses de evolução e opacidades bilaterais periféricas cabem mal numa pneumonia comum. Toxicidade pulmonar da amiodarona pesa muito: é um dos cinco fármacos que a diretriz brasileira de 2012 aponta como os que mais lesam o pulmão, a lesão costuma aparecer meses depois do início, e a mesma droga pode dar desenhos diferentes na tomografia e na biópsia. Embolia pulmonar pesa menos num doente anticoagulado, e a régua de Tromboembolismo pulmonar: a probabilidade antes do exame, a gravidade antes da droga decide se precisa de exame. Colagenose e pneumonite de hipersensibilidade ficam no fim da lista, sem sintomas sistêmicos e sem exposição. O pedido de hoje: tomografia de alta resolução, para ver o desenho — vidro fosco, consolidações periféricas, reticulado; os exames de rotina da diretriz, com fator antinuclear e fator reumatoide; hemograma e proteína C reativa; hemoculturas nos picos de febre e pesquisa de vírus respiratórios; e a difusão do monóxido de carbono quando ele puder fazer. Se a pneumologia considerar corticoide, o lavado broncoalveolar é a forma de afastar infecção antes, e a profilaxia de estrongiloidíase segue a régua do capítulo de geo-helmintíases. A amiodarona não continua sem discussão: a suspeita é conversada no mesmo dia com a cardiologia, que escolhe a alternativa para a fibrilação atrial pela régua do capítulo Fibrilação atrial, e a evolução registra o fármaco, a dose, a data de início e a data da suspensão — essa linha do tempo é o que vai sustentar o diagnóstico, junto com a melhora depois da retirada, que a diretriz aponta como reforço. O primeiro tratamento é parar o fármaco; o corticoide entra se a reação for grave, com hipoxemia importante ou doença extensa, decidido com o especialista, porque a diretriz o descreve como eficaz nas reações a drogas. Se a hipótese estiver certa, espera-se melhora da falta de ar, da oxigenação e da imagem ao longo de semanas, e piora ou falta de resposta fazem voltar à lista de hipóteses. A Valdomiro, a explicação é direta: um remédio do coração, muito útil, pode inflamar o pulmão em algumas pessoas; ele vai ser trocado por outro, com a cardiologia, e ninguém deve parar remédio nenhum por conta própria em casa.
Linfonodomegalia hilar bilateral, eritema nodoso, dor periarticular e febre formam a síndrome de Löfgren, uma das situações em que a diretriz brasileira de 2012 aceita o diagnóstico de sarcoidose sem biópsia, desde que tuberculose e outras doenças granulomatosas estejam sendo afastadas. A mesma diretriz lembra que muitos doentes não precisam de tratamento, que linfonodomegalia hilar isolada e edema periarticular indicam bom prognóstico e que corticoide sistêmico em quem tem pouco ou nenhum sintoma deve ser desencorajado. A enzima conversora não confirma nada sozinha.
Teste-se
Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.
Plano de revisão
Em 7 dias
Faça uma história de casa, trabalho, medicamentos e sintomas sistêmicos. Relacione ausculta, padrão funcional e tomografia à hipótese e escreva o encaminhamento com os dados que mudam a avaliação.
Em 30 dias
Discuta uma piora aguda: infecção, edema, tromboembolismo e exacerbação não devem ser confundidos. Apresente suporte e investigação em paralelo e pratique a conversa sobre prognóstico e preferências sem generalizar limites de um caso para todos.
Agora atenda
Agora atenda: mulher de 49 anos, cozinheira, com falta de ar há oito meses, dedos que ficam brancos e roxos no frio há três anos, pele dos dedos endurecida, azia e engasgo com comida, estertores finos nas bases e saturação que cai para 87% andando no corredor. Colha a história das exposições e dos fármacos, examine mãos, pele e boca, peça os exames de rotina e os anticorpos pela suspeita, decida o que não pode ser prescrito antes da avaliação da reumatologia e explique à paciente por que o pulmão e as mãos são a mesma doença.
