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Pneumonia na comunidade: onde este paciente vai dormir
Pneumonia adquirida na comunidade (CURB-65 / gravidade)
Dimensionar a gravidade com os dados que você mesmo colheu, decidir o destino, dar a primeira dose sem esperar e saber o que fazer no dia 3 quando a febre não cedeu.
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Responda antes de ler
Mulher de 66 anos chega ao pronto-socorro com tosse e febre há três dias. Está lúcida e orientada, fala frases inteiras sem esforço. Frequência respiratória contada em um minuto: 26. Pressão arterial de 124 por 70 mmHg. Ureia de 44 mg/dL. Saturação de oxigênio de 90% em ar ambiente. A radiografia mostra consolidação em base direita. Ela mora sozinha num sítio a 40 quilômetros da cidade, veio de carona com um vizinho que só volta a passar dali a quatro dias, e não tem telefone. Qual a conduta?
O paciente que você vai ver
São três pacientes numa manhã de junho, e a radiografia dos três diz a mesma coisa: consolidação em um lobo, à direita. Se o exame de imagem decidisse alguma coisa, os três teriam o mesmo destino. Nenhum tem.
Márcia tem 34 anos, dá aula de geografia, não fuma e não toma remédio nenhum. Há quatro dias começou com febre, tosse com catarro amarelado e uma dor no lado direito do peito que piora quando respira fundo. Chega andando, conversando, incomodada com a espera. Temperatura axilar de 38,4 °C. Frequência respiratória de 22 incursões por minuto, contada com o relógio na mão. Pressão arterial de 118 por 74 mmHg. Saturação de oxigênio de 97% em ar ambiente. Lúcida, orientada, sabe o dia da semana. Estertores na base direita. Ela vai para casa hoje, com um comprimido e uma data de retorno.
Seu Waldir tem 79 anos, é hipertenso, diabético há vinte anos e mora com a filha. A filha conta que ele "não é assim": desde ontem confunde as pessoas, dormiu o dia inteiro e hoje de manhã não reconheceu a casa. Tosse pouco. Febre, teve — 37,8 °C agora. Frequência respiratória de 32. Pressão arterial de 88 por 54 mmHg. Saturação de 88% em ar ambiente. Ureia de 92 mg/dL. Ele não vai para casa, não vai para a enfermaria e não pode esperar a vaga: precisa de leito de terapia intensiva, e precisa de antibiótico agora, antes de qualquer transporte.
Dona Cleide tem 66 anos, fuma desde os dezoito, tem tosse crônica que ela chama de "tosse de cigarro" e mora sozinha num sítio a quarenta quilômetros da cidade. Veio na carona do vizinho, que volta hoje e só passa de novo no sábado. Está lúcida, orientada, conversa sem esforço aparente. Frequência respiratória de 26. Pressão arterial de 124 por 70 mmHg. Ureia de 44 mg/dL. Saturação de 90% em ar ambiente. Pelo escore que se calcula à beira do leito, ela some dentro da faixa mais leve — tem um ponto, o da idade, e um ponto é candidato a tratamento ambulatorial. Ela também não vai para casa.
É aí que mora o problema deste capítulo. Pneumonia é fácil de diagnosticar: febre, tosse, uma consolidação. O que é difícil é dimensionar — e o dimensionamento decide tudo o que vem depois. Decide se o paciente toma comprimido ou recebe droga na veia, se o esquema cobre o germe comum ou também o incomum, se alguém vai olhar para ele daqui a seis horas ou daqui a dois dias, e se ele vai dormir na cama dele, numa enfermaria ou monitorizado.
Existe um instrumento que ajuda a responder essa pergunta, e ele cabe numa linha: confusão, ureia, frequência respiratória, pressão arterial e idade. É um escore de cinco pontos, calculado com dados que o próprio interno colhe — nenhum deles depende de tomografia, de laboratório sofisticado ou de parecer. Márcia tem zero. Seu Waldir tem cinco. Dona Cleide tem um.
E é justamente Dona Cleide que ensina a coisa mais importante sobre escores: eles são piso, não teto. O número diz o risco mínimo que aquela combinação de variáveis carrega. Ele não sabe que ela está com 90% de saturação, não sabe que ela mora a quarenta quilômetros, não sabe que o vizinho só volta no sábado e não sabe que ninguém vai perceber se ela piorar na quinta-feira à noite. Um escore baixo autoriza a alta; ele não a obriga. Um escore alto, esse sim, obriga a internar.
Os três continuam pelas próximas páginas: Márcia para mostrar como se escreve uma alta que funciona, Dona Cleide para mostrar o que a régua social veta, e Seu Waldir para mostrar o que a primeira hora tem de conter quando o paciente está grave. E há um quarto que aparece no meio do caminho — o paciente que estava indo bem, tomou o antibiótico certo, e no terceiro dia continua febril. Esse é o momento em que o interno mais erra, e o erro tem nome: trocar o antibiótico sem procurar o motivo.
Quem adoece disso
Pneumonia é a doença que mais enche leito de enfermaria no Brasil e é a terceira causa de morte do país. Em 2024, o Sistema de Informações Hospitalares do SUS registrou 703.463 internações por pneumonia — cerca de 1.900 por dia, todos os dias — e 73.946 óbitos hospitalares nessas internações, algo como 200 mortes por dia. A letalidade hospitalar global foi de 10,51%. Traduzindo para o plantão: de cada dez pacientes que você interna com este diagnóstico, um morre. Não é uma doença de baixo risco que ocasionalmente complica; é uma doença de risco alto que frequentemente vai bem.
O peso não se distribui por igual, e é a distribuição que muda a conduta. As internações se concentram nos dois extremos da vida: 173.472 delas foram em menores de cinco anos (24,7% do total) e 331.929 em pessoas de 60 anos ou mais (47,2%). Os óbitos, não. Dos 73.946 mortos, 62.267 tinham 60 anos ou mais — 84,2% do total. Abaixo de 20 anos morreram 1.453 pessoas, 2,0%. A criança pequena ocupa leito e sobrevive; o idoso ocupa leito e morre. A criança tem capítulo próprio nesta coleção, com régua e doses próprias, e nada do que se lê aqui se aplica a ela.
A letalidade por faixa etária desenha uma rampa que vale memorizar porque ela é o desenho do risco à sua frente: 4,23% entre 20 e 29 anos, 5,92% entre 30 e 39, 7,58% entre 40 e 49, 10,77% entre 50 e 59, 13,67% entre 60 e 69, 16,76% entre 70 e 79 e 22,97% acima de 80 anos. Um em cada quatro pacientes internados com mais de 80 anos não recebe alta. Esse número é a razão pela qual a idade entra em qualquer escore de gravidade de pneumonia — não como preconceito, mas como o maior fator de risco isolado que a doença tem.
A tendência de fundo confirma o desenho. As infecções do trato respiratório inferior foram a terceira causa de morte no Brasil tanto em 1990 quanto em 2015, com 59.599 e 75.602 óbitos, respectivamente. O número absoluto subiu 26,8% no período, mas a taxa por 100 mil habitantes caiu de 63,5 para 47,0, e a taxa padronizada por idade caiu 25,5%. Ou seja: o país melhorou o desfecho da doença e, ao mesmo tempo, envelheceu — e o envelhecimento devolveu em números absolutos o que o tratamento ganhou em risco individual. O aumento se concentrou justamente na faixa de 70 anos ou mais. Quem vai ser interno na próxima década vai ver mais pneumonia em idoso, não menos.
A permanência hospitalar dá a medida do custo e do ritmo. Foram 4.672.824 dias de internação por pneumonia em 2024, com média de 6,6 dias por paciente. Em adultos de 40 anos ou mais a média fica entre 7 e 8 dias. Esse número tem uma leitura prática direta: quem interna por pneumonia costuma passar uma semana no hospital, e o que decide se essa semana vira duas é o que se faz nas primeiras horas e a disciplina de reavaliar no terceiro dia. Cada dia a mais de internação é exposição a evento adverso, a infecção hospitalar e a perda funcional no idoso.
Um último dado muda a maneira de olhar para o calendário. A internação por pneumonia tem sazonalidade acoplada à circulação de vírus respiratórios, e o período de maior circulação de influenza é também o de maior ocupação de leito. A consequência é operacional e clínica ao mesmo tempo: nos meses de campanha de vacinação e de pico de gripe, a probabilidade de o quadro à sua frente ser viral sobe, a probabilidade de coinfecção bacteriana sobe junto, e a pergunta "cabe oseltamivir aqui?" passa a ser tão obrigatória quanto "cabe antibiótico?". Fora desses meses, ela raramente se coloca.
Nada disso torna pneumonia uma doença rara ou uma hipótese de exceção. É o contrário: é o diagnóstico mais previsível do pronto-socorro de adultos, e por isso mesmo o mais suscetível ao automatismo. O paciente entra, alguém pede a radiografia, alguém escreve ceftriaxona, e ninguém contou a frequência respiratória nem perguntou quem mora com ele. As três coisas que mudam o desfecho — dimensionar, decidir o destino e dar a primeira dose cedo — são exatamente as que não aparecem no pedido de exame.
Por que acontece o que acontece
A pneumonia é uma inflamação que enche de líquido e células um pedaço de pulmão que continua recebendo sangue. Quase tudo o que se mede à beira do leito decorre dessa frase, e entender por quê é o que transforma o escore em raciocínio.
Comece pelo alvéolo cheio. O ar não entra mais ali, mas o capilar ao redor continua perfundido — sangue venoso passa pela área consolidada e volta ao coração esquerdo sem ter encontrado oxigênio. Isso é shunt, e shunt tem uma propriedade incômoda: ele responde mal ao oxigênio suplementar, porque aumentar a fração inspirada não adianta em alvéolo que não ventila. Daí vêm duas consequências práticas. A primeira: a saturação em ar ambiente é o melhor termômetro isolado da extensão funcional da doença, melhor que a área que aparece no filme. A segunda: paciente que precisa de fluxo alto para manter a saturação, ou que não sobe a saturação apesar do oxigênio, não tem "pneumonia com hipoxemia" — tem uma área consolidada grande o bastante para justificar terapia intensiva.
A taquipneia vem em seguida e vem antes de tudo. Aumentar a frequência respiratória é a única compensação barata que o organismo tem: mais ciclos por minuto sobre as unidades alveolares que ainda funcionam. Por isso a frequência respiratória sobe cedo, muito antes da hipotensão e antes da confusão, e por isso ela entra nos escores de gravidade — não como sintoma de desconforto, mas como medida direta do quanto o pulmão que sobrou está sendo forçado. Contar a frequência respiratória por um minuto inteiro é o exame complementar mais barato e mais desprezado da medicina de adultos: em muitos prontuários ela é o único sinal vital que ninguém mediu e todo mundo escreveu.
A confusão mental do idoso não é senilidade nem "internação que confundiu". Ela tem três fontes somadas: a hipoxemia, que reduz oferta de oxigênio ao cérebro; os mediadores inflamatórios circulantes, que atravessam a barreira e desorganizam a função cortical; e a reserva cerebral menor, que faz o mesmo insulto produzir um efeito visível onde no jovem não produziria. É por isso que confusão de início agudo pesa tanto num escore de pneumonia: ela é a manifestação neurológica de uma doença sistêmica, e no idoso ela aparece antes da febre, antes da tosse e às vezes no lugar delas. Um idoso que "ficou estranho" tem pneumonia até prova em contrário, e essa frase salva mais vidas do que qualquer refinamento de antibiótico.
A ureia elevada conta a mesma história por outro caminho. Ela sobe na pneumonia por dois motivos que andam juntos: hipoperfusão renal — desidratação, vasodilatação, redução do volume circulante efetivo — e catabolismo proteico aumentado pela resposta inflamatória. Não é, portanto, um marcador de doença renal: é um marcador de repercussão sistêmica, o único exame de sangue que entra no escore, e o que separa a pneumonia que ficou no pulmão da pneumonia que já mexeu com o corpo inteiro. É também o motivo pelo qual existe uma versão do escore sem ela, para uso onde não há laboratório.
Do lado do germe, um mecanismo explica a primeira escolha de antibiótico. O pneumococo é uma bactéria de parede espessa de peptidoglicano, e é essa parede que os betalactâmicos destroem — daí a amoxicilina funcionar tão bem e tão barato na maioria dos casos. Já os chamados agentes atípicos escapam dessa lógica por razões estruturais, não por esperteza: o micoplasma não tem parede celular, e legionela e clamídia vivem dentro da célula do hospedeiro, onde o betalactâmico não alcança concentração útil. Antibiótico que precisa entrar na célula e agir sobre o ribossomo — macrolídeo, tetraciclina, quinolona — resolve; betalactâmico não. É por isso que a discussão sobre "cobrir atípico" não é uma questão de espectro maior ou menor, mas de dois mecanismos de ação diferentes para dois lugares diferentes.
Falta o mecanismo que explica a reavaliação, e ele é o mais mal compreendido do capítulo. Matar a bactéria e apagar a inflamação são processos com velocidades distintas. O antibiótico correto reduz a carga bacteriana em horas, mas a cascata inflamatória já disparada — citocinas, febre, exsudato alveolar, infiltrado no filme — leva dias para se desmontar. É por isso que febre no segundo dia de tratamento correto é evolução esperada, e não falha; é por isso que a radiografia continua feia quando o paciente já está bem; e é por isso que a janela para julgar resposta é de 48 a 72 horas, não de 24. Trocar antibiótico na madrugada do segundo dia é tratar a impaciência do plantonista, não o paciente.
E há o espaço onde o antibiótico deixa de chegar. Quando a inflamação alcança a pleura, aumenta a permeabilidade e o líquido acumula na cavidade. No início é um derrame estéril e de fluxo livre, que se resolve com o tratamento do parênquima. Se a infecção invade esse espaço, o consumo de glicose e a produção de ácido lático pelas bactérias e pelos neutrófilos derrubam o pH local, a fibrina se deposita e o líquido se organiza em lojas. Aí o problema deixou de ser farmacológico: existe pus dentro de uma cavidade fechada, com pH baixo que inativa parte dos antibióticos e com septos que impedem a droga de circular. Nenhuma dose resolve espaço fechado — resolve dreno. Esse é o mecanismo por trás da regra mais útil da reavaliação: febre que persiste depois de 72 horas de antibiótico adequado é derrame complicado até que se prove o contrário.

Como se apresenta de verdade
O paciente deste capítulo já tem foco. Ele chegou com tosse, febre e uma alteração pulmonar — a abordagem da dispneia sem dono, aquela em que ainda se disputa entre coração, pulmão e embolia, é assunto de capítulo próprio. Aqui a pergunta seguinte é outra: que forma de pneumonia é esta, quem provavelmente a causou e o que ela vai parecer no paciente que não é o do livro.
Vale fixar a fronteira antes de andar. Pneumonia adquirida na comunidade é a que começa fora do hospital, ou nas primeiras 48 horas de internação. Quadro que aparece depois disso, ou em quem está em ventilação mecânica, tem outra flora, outro espectro e outro capítulo — o da febre no paciente internado. Confundir os dois na sala de emergência produz o erro mais caro da antibioticoterapia: cobrir germe hospitalar em quem veio da rua.
Percurso de aprendizagem
Primeiro, diagnóstico sindrômico e destino: a pergunta é quem pode ser cuidado em casa e quem precisa de suporte.
Depois, escolha antimicrobiana, dose e reavaliação. Diferencie aspiração, pneumonite química e infecção com abscesso/empiema.
Aprofunde complicações e grupos especiais a partir de uma falha de resposta concreta, usando imagem e líquido pleural quando indicados.
A forma típica, e o quanto ela vale
O quadro clássico é de início relativamente abrupto: febre alta com calafrio, tosse que em poucos dias fica produtiva, dor torácica que piora com a inspiração profunda e taquipneia. Ao exame, estertores crepitantes localizados, e quando a consolidação é extensa aparecem os sinais de condensação — frêmito tóraco-vocal aumentado, macicez à percussão, sopro tubário, broncofonia. É o quadro do pneumococo, e é o quadro que faz a hipótese entrar na cabeça de qualquer examinador.
O que é preciso saber é o alcance desse conjunto: menos de 40% dos médicos acertam o diagnóstico de pneumonia apenas com anamnese e exame físico. Isso não desqualifica o exame — é ele que levanta a hipótese, define a gravidade e escolhe o destino. Significa apenas que a ausência do quadro clássico não afasta a doença, e que a presença dele não dispensa a confirmação quando ela está disponível.
O idoso: a apresentação que não parece pneumonia
É a apresentação que mais mata e a que menos se reconhece. O idoso com pneumonia pode chegar sem febre, sem tosse e sem queixa respiratória nenhuma. O que a família traz é outra coisa: "está confuso", "caiu", "não come", "não levanta", "parou de falar", "ficou incontinente". A febre pode estar ausente ou ser substituída por hipotermia, e a leucocitose pode faltar — a resposta térmica e a resposta medular são atenuadas com a idade, e a ausência delas não é sinal de doença leve.
Três consequências práticas seguem daí. Primeira: em qualquer idoso com confusão aguda, queda inexplicada ou piora funcional súbita, a ausculta do tórax e o oxímetro entram na avaliação inicial, não na segunda rodada. Segunda: a confusão aguda pontua no escore de gravidade — não é ruído, é gravidade medida. Terceira: a descompensação de doença crônica preexistente costuma ser a manifestação de estreia. Insuficiência cardíaca que descompensa sem causa, diabetes que descontrola de repente, doença pulmonar obstrutiva que exacerba fora de padrão — em todos esses, procurar infecção pulmonar faz parte da avaliação, e não é excesso de zelo.
Há um efeito colateral pedagógico dessa apresentação: o idoso frequentemente é internado com o rótulo errado — "delirium a esclarecer", "queda", "desidratação" — e o antibiótico chega tarde. Quando o desfecho ruim aparece, ele é atribuído à idade. O que houve foi atraso de reconhecimento.
Quem causa, e o quanto isso muda a conduta
O Streptococcus pneumoniae segue sendo a bactéria mais prevalente entre os agentes de pneumonia adquirida na comunidade, e é ele que justifica a primeira escolha ser um betalactâmico. Depois dele vêm Haemophilus influenzae, Staphylococcus aureus, bacilos Gram-negativos em pacientes com doença estrutural, e o grupo dos atípicos: Mycoplasma pneumoniae, Chlamydophila pneumoniae e Legionella sp.
Os vírus deixaram de ser figurantes. Com testes moleculares, vírus são detectados em cerca de um terço dos casos de pneumonia adquirida na comunidade em adultos, com influenza à frente, seguido de rinovírus, vírus sincicial respiratório, parainfluenza, adenovírus e metapneumovírus. Coinfecção viral e bacteriana ocorre em torno de 20% dos casos e se associa a quadros mais graves e internações mais longas. O resultado prático não é abandonar o antibiótico quando o painel viral vem positivo — é lembrar que a detecção de vírus não exclui bactéria, e que a decisão de suspender o antibacteriano depende do lugar do paciente e da gravidade, não só do resultado do teste.
Existe uma situação em que a etiologia realmente muda tudo: a pneumonia por aspiração. Paciente com rebaixamento de consciência, disfagia, sequela neurológica, alcoolismo ou má higiene oral, com quadro de evolução mais arrastada, cavitação, escarro fétido ou envolvimento de segmentos dependentes — segmento posterior do lobo superior direito e segmentos basais posteriores, porque o brônquio-fonte direito é mais vertical e recebe o que desce. Aí a cobertura precisa incluir anaeróbios de orofaringe, e o esquema muda. Na aplicação atual, não se acrescenta cobertura anaeróbia de rotina apenas por suspeita de aspiração; abscesso ou empiema mudam essa decisão (ATS/IDSA 2019).
Tuberculose: quando pensar e o que pedir
No Brasil, este é o diferencial que muda tudo, e o momento de lembrar dele é antes de prescrever, não depois de falhar. Pense em tuberculose diante de tosse que já dura três semanas ou mais, febre vespertina, sudorese noturna, emagrecimento, contato com pessoa com tuberculose, história de encarceramento, situação de rua, infecção pelo HIV, uso de imunossupressor ou imagem em ápice, com cavitação, ou com padrão que não combina com a duração do quadro.
O que se pede é o teste rápido molecular para tuberculose em amostra de escarro. Ele é indicado prioritariamente para o diagnóstico de tuberculose pulmonar e laríngea em adultos e adolescentes, dá resultado em cerca de duas horas, tem sensibilidade próxima de 90% no escarro — superior à da baciloscopia — e detecta resistência à rifampicina com sensibilidade de 95%. Na estratégia nacional, a pessoa com tosse por três semanas ou mais é um sintomático respiratório e deve ter escarro examinado. O tratamento da tuberculose tem capítulo próprio; o que pertence a este é a suspeita e o pedido do exame.
Há uma armadilha específica que liga os dois assuntos. As fluoroquinolonas — levofloxacino e moxifloxacino — estão entre os medicamentos de maior atividade contra o bacilo da tuberculose e são peças centrais dos esquemas de resistência. Prescrever quinolona empiricamente para uma "pneumonia" que na verdade é tuberculose produz melhora clínica parcial, atrasa o diagnóstico em semanas, negativa temporariamente o exame e seleciona resistência a uma droga que fará falta depois. Num país com a carga de tuberculose que o Brasil tem, essa é uma razão clínica — e não apenas de custo — para não usar quinolona como primeira escolha.
Exacerbação de doença pulmonar obstrutiva crônica ou pneumonia?
Os dois quadros compartilham o paciente, o mês do ano e metade dos sintomas, e a separação é possível à beira do leito. A exacerbação da doença obstrutiva é definida por piora dos sintomas respiratórios além da variação habitual: mais dispneia, mais volume de escarro, escarro mais purulento. O exame mostra broncoespasmo difuso — sibilos, tempo expiratório prolongado, hiperinsuflação — e não mostra sinais localizados de condensação. A febre costuma ser baixa ou ausente.
Pneumonia, no mesmo paciente, acrescenta um achado focal: estertores localizados, macicez, dor pleurítica, febre mais alta, e uma imagem com consolidação. A diferença que resolve na prática é a radiografia: exacerbação não produz consolidação nova. Por isso, no portador de doença obstrutiva com piora aguda, a imagem deixa de ser opcional — ela separa dois tratamentos diferentes, e o paciente pode ter os dois ao mesmo tempo.
O manejo da doença obstrutiva estável e da sua exacerbação — broncodilatador, corticoide sistêmico, ventilação não invasiva, critérios de antibiótico na exacerbação — é assunto de capítulo próprio desta mesma apostila. O que pertence aqui é a separação e a consequência: havendo consolidação, trate a pneumonia com o esquema da pneumonia; havendo broncoespasmo, trate o broncoespasmo junto, e não em vez.
Os pacientes em que a régua muda
Imunossuprimido: pessoa vivendo com HIV e contagem baixa de linfócitos T CD4+, transplantado, em quimioterapia, neutropênico, ou em uso prolongado de corticoide e imunobiológicos. O espectro de agentes se abre — Pneumocystis jirovecii, micobactérias, fungos, citomegalovírus — e a decisão deixa de caber em escore de pneumonia comunitária. O comportamento correto é internar mais facilmente, investigar etiologia com mais empenho e discutir o caso com quem acompanha a imunossupressão. As recomendações deste capítulo foram construídas para o adulto imunocompetente.
Diabetes: não muda o agente, muda o curso. Hiperglicemia prejudica quimiotaxia e função de neutrófilo, a doença tende a ser mais extensa, e a própria infecção descompensa o controle glicêmico — a pneumonia pode se apresentar como cetoacidose ou estado hiperglicêmico. Duas condutas seguem: medir glicemia em todo diabético com pneumonia, e não confundir a hiperglicemia da infecção com falha de adesão ao tratamento do diabetes.
Gestante: a alteração fisiológica da gravidez reduz a reserva respiratória — o útero eleva o diafragma, a capacidade residual funcional cai e a demanda de oxigênio sobe. A mesma pneumonia se descompensa mais rápido, e o limiar de internação é mais baixo. A radiografia de tórax não deve ser adiada em nenhum período gestacional quando é preciso investigar pneumonia, com proteção abdominal; e toda gestante e puérpera com síndrome gripal deve receber antiviral, mesmo sem sinal de agravamento e mesmo vacinada.
Como fechar o diagnóstico
O interno não erra pneumonia por não saber o que é pneumonia. Erra por inverter a ordem: pede a imagem antes de contar a frequência respiratória, espera o resultado do laboratório antes de decidir o destino, e chega ao fim da manhã com um paciente investigado e sem conduta.
A ordem abaixo é a ordem real. Primeiro o que se colhe com a mão, o relógio e o oxímetro — porque é isso que define onde o paciente vai dormir. Depois o que se pede, e por quê. Por último o que se recusa a pedir, e o que custa pedir.
1. O primeiro exame é o escore, e ele se calcula à beira do leito
O CURB-65 tem cinco itens e vale um ponto cada: confusão mental de início agudo; ureia elevada; frequência respiratória acima de 30 incursões por minuto; pressão arterial sistólica abaixo de 90 mmHg ou diastólica igual ou abaixo de 60 mmHg; e idade igual ou maior que 65 anos. Quatro dos cinco não precisam de laboratório nenhum. A soma vai de zero a cinco, e cada faixa carrega uma mortalidade e um destino sugerido — os valores estão no quadro de faixas, e a distância entre dois e três pontos é a distância entre observar e correr.
Onde não há laboratório — unidade básica, visita domiciliar, primeira avaliação antes da coleta — usa-se o CRB-65, que é o mesmo escore sem a ureia. Ali as faixas são outras: zero ponto é candidato a tratamento ambulatorial, com mortalidade em torno de 1,2%; um ou dois pontos mandam avaliar tratamento hospitalar, com mortalidade em torno de 8%; três ou quatro pontos indicam hospitalização urgente, com mortalidade em torno de 31%. Note a consequência prática: sem a ureia, a idade pesa proporcionalmente mais, e todo paciente com 65 anos ou mais já sai da faixa verde. Isso não é defeito do escore — é ele dizendo, com honestidade, que sem exame de sangue não dá para liberar um idoso com a mesma confiança.
Sobre a ureia, um detalhe que muda pontuação e precisa ser dito com todas as letras. O escore foi derivado com o corte de 7 mmol/L, que corresponde a cerca de 42 mg/dL de ureia sérica na unidade usada pelos laboratórios brasileiros; o texto da recomendação nacional transcreve esse item como ureia acima de 50 mg/dL. Entre 42 e 50 mg/dL as duas réguas discordam por um ponto inteiro — e um ponto pode ser a diferença entre casa e enfermaria. A escolha adotada aqui é o corte original, 42 mg/dL, por dois motivos: é o valor com que as faixas de mortalidade foram construídas, e ele erra para o lado de internar, que é o lado barato do erro. Quem preferir seguir a transcrição nacional deve ao menos ler ureia entre 42 e 50 mg/dL como sinal amarelo que desempata qualquer decisão limítrofe.
Dois pacientes-exemplo, calculados item a item. Márcia, 34 anos: sem confusão, ureia normal, frequência respiratória de 22, pressão de 118 por 74, idade abaixo de 65 — zero ponto, mortalidade esperada de 0,7%, candidata a tratamento em casa. Seu Waldir, 79 anos: confusão de início agudo, ureia de 92 mg/dL, frequência respiratória de 32, sistólica de 88 mmHg, idade de 79 — cinco pontos, a pontuação máxima, mortalidade em torno de 57% na coorte original. Ele não é um paciente para enfermaria; é um paciente para leito monitorizado, e o antibiótico dele não pode esperar a vaga.
2. A saturação em ar ambiente, que veta o que o escore autoriza
O oxímetro tem de ser aplicado em todo paciente com suspeita de pneumonia, e o valor que importa é o de ar ambiente, antes de qualquer suplementação. Saturação abaixo de 92% indica internação, independentemente do escore. Esse é o veto mais frequente e o mais fácil de perder, porque é o único critério que não aparece no cálculo e sozinho muda o destino.
Dona Cleide mostra como isso funciona. Ela tem um ponto no CURB-65 — apenas a idade — e a faixa de um ponto é candidata a tratamento ambulatorial. Só que sua saturação é de 90% em ar ambiente. Um só número desmonta o resultado do escore, e a decisão passa a ser internação com oxigenoterapia. Vale reparar que, no CRB-65, ela já sairia da faixa verde por causa da idade — o escore sem laboratório, mais conservador, teria chegado ao mesmo lugar.
Duas cautelas de execução. Leitura ruim é comum em extremidade fria, em hipoperfusão, com esmalte e em movimento: confirme a curva e a correlação com o pulso antes de aceitar um valor baixo isolado. E lembre da recíproca: saturação normal não exclui pneumonia nem exclui gravidade. Paciente com frequência respiratória de 34, confusão e pressão de 86 por 50 continua sendo um paciente grave com saturação de 95%.
A gasometria arterial não é exame de rotina na pneumonia. Ela entra quando há hipoxemia que não corrige, quando se suspeita de retenção de gás carbônico — doença obstrutiva, obesidade, rebaixamento de consciência — e quando o paciente é candidato a terapia intensiva, porque a relação entre a pressão parcial de oxigênio e a fração inspirada é um dos critérios menores de gravidade. A leitura passo a passo do distúrbio acidobásico tem capítulo próprio nesta coleção e não se repete aqui.
3. Radiografia de tórax: o que ela responde e o que ela não responde
A radiografia de tórax, em duas incidências — póstero-anterior e perfil —, faz parte da tríade propedêutica clássica e está recomendada de rotina quando disponível. Ela confirma a presença de consolidação, mede a extensão, revela derrame, cavitação e outras complicações, e ajuda no diagnóstico diferencial com neoplasia. Para todo paciente que vai ser internado, ela é obrigatória.
O que a radiografia não responde precisa ser dito com a mesma clareza. Ela não define etiologia: nenhum padrão de imagem separa pneumococo de micoplasma ou de vírus com confiança suficiente para escolher antibiótico. Ela não mede gravidade sozinha: os três pacientes desta abertura têm a mesma imagem e três destinos diferentes. E ela é lenta para melhorar: a resolução radiológica ocorre semanas depois da resolução clínica, o que torna inútil — e caro — repetir o filme para autorizar alta.
A ultrassonografia de tórax tem sensibilidade e acurácia maiores que a radiografia para alterações do parênquima; na emergência, feita à beira do leito, alcança sensibilidade de 95% contra 60% da radiografia, com especificidade semelhante, e é especialmente útil na gestante, no paciente restrito ao leito e para caracterizar derrame e loculação, além de guiar a punção. A atualização de diretriz de 2025 já a aceita como alternativa diagnóstica à radiografia nos serviços onde há treinamento — e essa condicional é o ponto: método operador-dependente, ainda restrito no Brasil a centros de maior complexidade.
A tomografia de tórax é o método mais sensível para acometimento do parênquima e não é exame de rotina. Ela entra quando a acurácia da radiografia é baixa — obesidade, imunossupressão, alterações radiológicas prévias —, quando é preciso excluir outro diagnóstico, e na investigação da falta de resposta ao tratamento, para procurar abscesso, necrose e derrame loculado. O custo de pedi-la de rotina não é só financeiro: em uma série de pacientes com suspeita de pneumonia na emergência, a tomografia mostrou diagnósticos alternativos em 16% dos casos e tuberculose em 8% — o que é ótimo quando havia pergunta, e é radiação e achado incidental quando não havia.

4. Exames de sangue: o que decide, o que acompanha e o que ilude
A ureia é o único exame de sangue que entra na decisão de destino, e é por isso que ela se pede em quem vai ser pontuado pelo CURB-65 — o que na prática significa quase todo adulto atendido em serviço com laboratório. Junto com ela vale colher creatinina, porque a função renal estimada define ajuste de dose dos antibióticos, e eletrólitos, porque hiponatremia aponta para legionela e porque a desidratação é frequente.
O hemograma não separa pneumonia viral de bacteriana. Leucocitose favorece a bacteriana, mas a sobreposição é grande demais para arbitrar prescrição. O que ele faz bem é outra coisa: leucopenia e plaquetopenia são marcadores de gravidade, e a anemia muda decisões de suporte. Peça-o no paciente que interna; na consulta de quem vai para casa, ele não muda nada.
A proteína C-reativa e a procalcitonina são complementares à avaliação clínica e não devem ser tomadas como critério isolado para estabelecer ou modificar conduta. A procalcitonina se eleva em duas horas após o estímulo bacteriano e é mais específica para infecção bacteriana; a proteína C-reativa tem pico por volta de 48 horas e sobe em qualquer processo inflamatório. O uso que tem lastro é o de seguimento: se a procalcitonina não cai 50% até o terceiro dia de tratamento, o risco de morte em 30 dias é maior. E há um uso específico da proteína C-reativa que reaparece adiante: valores acima de 150 mg/L identificam o fenótipo inflamatório que se beneficia de corticoide adjuvante.
O lactato não faz parte da avaliação da pneumonia; faz parte da avaliação da sepse. Ele entra no instante em que aparece hipotensão, sinal de má perfusão ou disfunção orgânica — e nesse instante o paciente saiu deste capítulo e entrou no pacote de sepse, que tem tempo, volume e alvo próprios.
5. Microbiologia: de quem colher, e o que muda quando cresce
Investigação etiológica não é necessária no paciente com pneumonia não grave tratado em casa. Ela está indicada em quem tem pneumonia grave, em quem não respondeu à terapia empírica inicial e em quem interna em terapia intensiva. Fora disso, colher exame microbiológico atrasa a primeira dose e não muda a prescrição.
Em quem tem indicação, o conjunto básico é: exame direto e cultura de escarro — ou de aspirado nasotraqueal em quem não expectora —, hemocultura, antígenos urinários para pneumococo e para legionela, e testes moleculares para vírus e agentes atípicos. O escarro só vale se a amostra prestar: menos de 10 células epiteliais e mais de 25 leucócitos por campo. Amostra que não cumpre esse critério é saliva com nome de exame, e o resultado dela orienta para o lado errado.
O que muda quando cresce alguma coisa: hemocultura positiva permite estreitar o espectro, encurta discussões e é o único achado que transforma tratamento empírico em tratamento dirigido. Antígeno urinário para legionela é útil justamente porque o agente não responde a betalactâmico — encontrá-lo obriga a manter macrolídeo ou quinolona. E identificar o agente permite, em bom número de casos, sair de um esquema largo para um estreito, que é o que reduz seleção de resistência.
6. Vírus: quando a pergunta vale a pena
Testar para influenza muda conduta em duas direções e por isso vale a pena na sazonalidade: um resultado positivo indica antiviral, e o antiviral tem janela de tempo. Painéis moleculares multiplex detectam de 18 a 20 patógenos respiratórios em cerca de uma hora, e são recomendados sobretudo nos casos graves.
O que não se deve concluir de um painel positivo é que não há bactéria. Vírus são detectados em cerca de um terço dos adultos com pneumonia, coinfecção ocorre em torno de 20% e se associa a doença mais grave. A régua de 2025 é explícita e útil: no paciente ambulatorial sem comorbidade com vírus respiratório detectado, sugere-se não prescrever antibiótico; no ambulatorial com comorbidade e em qualquer paciente internado, mantém-se o antibiótico empírico pela preocupação com coinfecção. Quem decide é o lugar e a gravidade, não o resultado do teste.
7. O que não pedir — e o custo de pedir
Não peça hemocultura, escarro nem antígeno urinário no paciente que vai para casa com pneumonia não grave. Custo: horas de espera, punção sem benefício, e a chance de um resultado contaminado gerar antibiótico de espectro largo depois.
Não repita a radiografia para dar alta a quem melhorou clinicamente. Custo: prolonga internação por um achado que só vai se normalizar semanas depois, e transforma um paciente pronto para sair num paciente "que ainda está com o pulmão feio". Imagem de controle tem lugar em quem não melhorou, em quem tem suspeita de neoplasia subjacente — sobretudo tabagista com mais de 50 anos e pneumonia que não resolve — e em quem teve complicação.
8. O diferencial mora aqui, porque é o mesmo exame que separa
Tromboembolismo pulmonar: dispneia e dor pleurítica com febre baixa, sem consolidação clara ou com infiltrado que não combina com o grau de hipoxemia; fator de risco para trombose, assimetria de membros. O exame que separa é a angiotomografia — e é justamente a tomografia pedida por falta de resposta que descobre boa parte desses casos.
Insuficiência cardíaca descompensada: dispneia, estertores, hipoxemia — e, contra a pneumonia, ausência de febre, ortopneia, dispneia paroxística noturna, turgência jugular, edema, terceira bulha, e um padrão de imagem de congestão bilateral e simétrica com derrames laminares. O exame que separa é o peptídeo natriurético quando disponível, e a ecocardiografia; a resposta ao diurético também informa. Os dois coexistem com frequência no idoso, e tratar um não dispensa procurar o outro.
Tuberculose pulmonar: tosse de três semanas ou mais, febre vespertina, sudorese noturna, emagrecimento, contato, imagem de ápice ou cavitária. O exame que separa é o teste rápido molecular no escarro. É o diagnóstico que mais se paga em pensar cedo no Brasil.
Neoplasia de pulmão com pneumonia obstrutiva: tabagista, quadro recorrente sempre no mesmo lobo, atelectasia associada, emagrecimento, resolução lenta. O exame que separa é a tomografia e, depois dela, a broncoscopia. Esta é a principal razão legítima para uma radiografia de controle tardia.
9. O que existe no SUS — e o que isso obriga a mudar
Tudo o que decide destino está disponível em qualquer unidade: relógio, esfigmomanômetro, oxímetro de pulso e a pergunta "quem mora com o senhor?". Essa é a boa notícia do capítulo, e é o que sustenta a insistência em contar frequência respiratória e medir saturação em vez de pedir exame.
Do lado do tratamento, a lista nacional de medicamentos essenciais define o que a farmácia da unidade tem. No componente básico estão amoxicilina — suspensão de 50 mg/mL, cápsula e comprimido de 500 mg —, amoxicilina com clavulanato de potássio 500 mg + 125 mg em comprimido, azitromicina 500 mg em comprimido, claritromicina 250 e 500 mg, e, no injetável, ceftriaxona de 250 mg, 500 mg e 1 g, cefotaxima de 500 mg e benzilpenicilina potássica de 5.000.000 UI.
Três ausências mudam a prescrição, e vale conhecê-las antes de escrever a receita. Doxiciclina, que a diretriz norte-americana usa como alternativa ambulatorial de primeira linha, está no componente estratégico — não é o que a farmácia básica dispensa para pneumonia. Levofloxacino, a quinolona respiratória, também está no componente estratégico, vinculado a programa, e não é medicamento de retirada rotineira na unidade básica; some-se a isso a razão clínica já dada, de mascarar tuberculose. E azitromicina injetável não consta da lista: no paciente internado que engole, o macrolídeo é dado por via oral ao lado do betalactâmico intravenoso, e isso não é improviso — é a combinação que a rede efetivamente entrega.
Também não constam da lista nacional a ampicilina com sulbactam e a moxifloxacina, ambas citadas nas diretrizes. Onde o hospital as tiver na padronização própria, valem as doses das diretrizes; onde não tiver, a cefalosporina de terceira geração com macrolídeo cobre o mesmo terreno e é a escolha realista.
Pontuar, decidir o destino e escrever o esquema daquele destino
Ao terminar, você deve reconhecer pneumonia, justificar o local de cuidado e propor tratamento que considere gravidade, comorbidades e complicações. Escores ajudam; oxigenação, perfusão, condição funcional e possibilidade de tratamento em casa continuam no centro. A decisão cabe em três perguntas encadeadas: quantos pontos o paciente tem, o que veta a alta que a pontuação autorizaria, e qual é o esquema do lugar onde ele vai ficar. Os quadros abaixo são a régua de execução — os números moram aqui e não se repetem no texto corrido.
- 1Conte a frequência respiratória com relógio, por um minuto inteiro, com o paciente em repouso.
- 2Meça pressão arterial e saturação de oxigênio em ar ambiente, antes de qualquer suplementação.
- 3Verifique confusão mental de início agudo — pergunte à família se ele "está assim mesmo", não confie na primeira impressão.
- 4Some os pontos do CURB-65; onde não houver laboratório, use o CRB-65 e aceite que ele é mais conservador.
- 5Aplique os vetos: saturação abaixo de 92%, comorbidade descompensada, impossibilidade de tomar remédio por boca, e condição social que impeça tratamento e retorno.
- 6Defina o destino: casa, enfermaria ou terapia intensiva — e escreva no prontuário qual foi o critério que decidiu.
- 7Prescreva o esquema daquele destino e administre a primeira dose antes de qualquer transporte, coleta ou espera de vaga.
- 8Na sazonalidade de influenza, decida sobre oseltamivir na mesma prescrição.
- 9Marque a reavaliação com data: 48 a 72 horas para quem vai para casa; diária para quem interna.
CURB-65 de 0 a 1 ponto — casa
Mortalidade em torno de 1,5%. Candidato a tratamento ambulatorial com antibiótico por via oral. A alta só se concretiza se nenhum veto estiver presente: saturação abaixo de 92%, comorbidade descompensada, impossibilidade de via oral ou condição social que impeça o tratamento. Retorno marcado em 48 a 72 horas.
CURB-65 de 2 pontos — considerar enfermaria
Mortalidade em torno de 9%. Faixa de decisão, não de automatismo: internação breve para observação e antibiótico, ou tratamento ambulatorial com reavaliação em 48 horas quando a saturação está boa, não há comorbidade descompensada e há quem traga o paciente de volta. Na dúvida com dois pontos, interne.
CURB-65 de 3 pontos — enfermaria, como pneumonia grave
Mortalidade em torno de 22%. Internação hospitalar com esquema de pneumonia grave, antibiótico intravenoso e reavaliação diária. Nesta faixa a discussão deixa de ser "interna ou não" e passa a ser "enfermaria ou leito monitorizado" — e ela se decide pelos critérios de terapia intensiva, não pela pontuação.
CURB-65 de 4 a 5 pontos — avaliar terapia intensiva
Mortalidade de 41,5% com quatro pontos e 57% com cinco na coorte de derivação. Avaliação imediata para leito monitorizado, terapia combinada intravenosa administrada o mais precocemente possível, e acionamento de quem vai receber o paciente antes de terminar a prescrição. Aqui a primeira dose vem antes do transporte, sempre.
| Destino e situação | Esquema | Via e intervalo | Duração | Fonte |
|---|---|---|---|---|
| Casa — sem comorbidade, sem antibiótico nos últimos 3 meses, sem fator de risco para resistência | Amoxicilina 1 g (duas cápsulas de 500 mg) | Via oral, de 8 em 8 horas | 5 dias | SBPT 2018 (recomendação de duração); dose de 1 g de 8 em 8 horas conforme ATS/IDSA 2019 |
| Casa — alternativa quando há alergia a betalactâmico e a resistência local a macrolídeo é baixa | Azitromicina 500 mg | Via oral, 1 vez ao dia | 3 a 5 dias | SBPT 2018 (Quadro 5) |
| Casa — com comorbidade (doença pulmonar, cardíaca, hepática ou renal crônica, diabetes, alcoolismo, neoplasia, imunossupressão) ou uso recente de antibiótico | Amoxicilina + clavulanato de potássio 500 mg + 125 mg associada a azitromicina 500 mg | Ambas por via oral; o betalactâmico de 8 em 8 horas, a azitromicina 1 vez ao dia | 5 a 7 dias o betalactâmico; 3 a 5 dias a azitromicina | SBPT 2018 (Quadro 5); apresentação conforme Rename 2024 |
| Casa — alergia a betalactâmico e a macrolídeo | Moxifloxacino 400 mg ou levofloxacino 500 a 750 mg | Via oral, 1 vez ao dia | 5 a 7 dias | SBPT 2018 (Quadros 5 e 6) |
| Enfermaria | Ceftriaxona 1 g (ou cefotaxima 1 a 2 g) associada a azitromicina 500 mg | Ceftriaxona intravenosa de 12 em 12 horas; cefotaxima intravenosa de 8 em 8 horas; azitromicina por via oral ou intravenosa, 1 vez ao dia | 7 a 10 dias | SBPT 2018 (Quadros 5 e 6) |
| Enfermaria — alternativa em monoterapia | Levofloxacino 500 a 750 mg ou moxifloxacino 400 mg | Via oral ou intravenosa, 1 vez ao dia | 5 a 7 dias | SBPT 2018 (Quadros 5 e 6) |
| Terapia intensiva | Ceftriaxona 1 g (ou cefotaxima 1 a 2 g) associada a azitromicina 500 mg; alternativa: cefalosporina de terceira geração associada a quinolona respiratória | Ambos por via intravenosa, o mais precocemente possível | 7 a 14 dias | SBPT 2018 (Quadro 5) |
| Suspeita de aspiração de conteúdo gástrico, pneumonia necrosante, abscesso pulmonar ou doença periodontal grave | Amoxicilina + clavulanato, piperacilina-tazobactam, clindamicina 600 mg ou moxifloxacino 400 mg | Clindamicina intravenosa de 8 em 8 horas; piperacilina-tazobactam 4 g + 0,5 g intravenosa de 6 em 6 ou 8 em 8 horas | 7 a 21 dias | SBPT 2018 (Quadros 5 e 6) |
| Pneumococo resistente à penicilina, forma não grave | Betalactâmico em dose alta: amoxicilina 3 g/dia ou amoxicilina + clavulanato 4 g/dia, associado a macrolídeo ou quinolona respiratória | Via oral, dose diária dividida de 8 em 8 horas | 5 a 7 dias | SBPT 2018 (Quadro 5) |
| Staphylococcus aureus resistente à meticilina adquirido na comunidade | Clindamicina 600 mg, linezolida 600 mg ou vancomicina | Clindamicina intravenosa de 8 em 8 horas; linezolida por via oral ou intravenosa de 12 em 12 horas; vancomicina intravenosa 500 mg de 6 em 6 horas ou 1 g de 12 em 12 horas | 7 a 21 dias | SBPT 2018 (Quadros 5 e 6) |
| Influenza confirmada ou suspeita na sazonalidade, em quem tem fator de risco ou sinal de gravidade | Fosfato de oseltamivir 75 mg | Via oral, de 12 em 12 horas; iniciar já, sem aguardar o teste e sem contar horas desde o início dos sintomas | 5 dias | Ministério da Saúde, Guia de Manejo e Tratamento de Influenza 2023 (Tabela 4) |
| Corticoide adjuvante na pneumonia grave hospitalizada, exceto quando o agente é influenza | Hidrocortisona 200 mg/dia, ou prednisona 50 mg/dia, ou metilprednisolona 0,5 mg/kg de 12 em 12 horas | Hidrocortisona intravenosa; prednisona por via oral; metilprednisolona intravenosa | 7 dias para hidrocortisona e prednisona; 5 dias para metilprednisolona | Esquemas listados na Tabela 2 do documento da SBPT 2018; indicação conforme SCCM/ESICM 2024 e ATS 2025 |
CURB-65: os cinco pontos, o corte e como se mede cada um
| Item | Vale 1 ponto quando | Como se mede na prática |
|---|---|---|
| Confusão mental | Desorientação de início agudo em pessoa, tempo ou espaço | Pergunte nome, lugar e ano, e confirme com o acompanhante se aquilo é novo. Demência estável não pontua; piora aguda sobre demência, sim |
| Ureia | Acima de 42 mg/dL (equivalente ao corte original de 7 mmol/L) | Exige coleta de sangue; onde não houver laboratório, use o CRB-65 |
| Frequência respiratória | Acima de 30 incursões por minuto | Contada com relógio por um minuto inteiro, paciente em repouso, sem avisar que está sendo contada |
| Pressão arterial | Sistólica abaixo de 90 mmHg ou diastólica igual ou abaixo de 60 mmHg | Basta uma das duas. Confira em decúbito e sentado no idoso |
| Idade | 65 anos ou mais | É o item de maior peso isolado da doença e não se negocia |
Faixas do CURB-65 e do CRB-65: mortalidade e destino sugerido
| Escore | Pontuação | Mortalidade | Destino sugerido |
|---|---|---|---|
| CURB-65 | 0 a 1 | Baixa, em torno de 1,5% | Candidato a tratamento ambulatorial |
| CURB-65 | 2 | Intermediária, em torno de 9,2% | Considerar tratamento hospitalar |
| CURB-65 | 3 ou mais | Alta, em torno de 22% | Tratamento hospitalar como pneumonia grave |
| CURB-65 | 4 a 5 | 41,5% com 4 pontos e 57% com 5 na coorte de derivação | Avaliar terapia intensiva |
| CRB-65 | 0 | Baixa, em torno de 1,2% | Candidato a tratamento ambulatorial |
| CRB-65 | 1 a 2 | Intermediária, em torno de 8,15% | Avaliar tratamento hospitalar |
| CRB-65 | 3 a 4 | Alta, em torno de 31% | Hospitalização urgente |
Critérios de terapia intensiva — versão simplificada do consenso ATS/IDSA (um critério maior, ou três ou mais menores, indicam cuidados intensivos)
| Tipo | Critério |
|---|---|
| Maior | Choque séptico |
| Maior | Necessidade de ventilação mecânica |
| Menor | Frequência respiratória acima de 30 incursões por minuto |
| Menor | Confusão mental |
| Menor | Relação entre pressão parcial de oxigênio e fração inspirada abaixo de 250 |
| Menor | Ureia igual ou acima de 50 mg/dL |
| Menor | Infiltrados multilobares |
| Menor | Pressão arterial sistólica abaixo de 90 mmHg |
O que veta a alta que a pontuação autorizaria
| Veto | Definição |
|---|---|
| Hipoxemia | Saturação de oxigênio abaixo de 92% em ar ambiente |
| Comorbidade descompensada | Insuficiência cardíaca, doença obstrutiva, diabetes, doença renal ou hepática fora de controle |
| Impossibilidade de via oral | Vômitos, disfagia, rebaixamento de consciência |
| Condição social | Mora sozinho sem rede, distância ou transporte que impeçam o retorno, situação de rua, uso de álcool ou drogas que comprometa a adesão, dúvida real sobre o cumprimento do tratamento |
| Complicação já presente | Derrame pleural volumoso, cavitação, abscesso |
| Gestação | Qualquer idade gestacional com pneumonia |
Oseltamivir no adulto: dose e ajuste pela função renal
| Situação | Depuração de creatinina | Dose para tratamento de 5 dias |
|---|---|---|
| Função renal normal ou comprometimento leve | Acima de 60 mL/min | 75 mg de 12 em 12 horas |
| Comprometimento moderado | Acima de 30 até 60 mL/min | 30 mg de 12 em 12 horas |
| Comprometimento grave | Acima de 10 até 30 mL/min | 30 mg 1 vez ao dia |
| Hemodiálise | Igual ou abaixo de 10 mL/min | 30 mg após cada sessão de hemodiálise — três doses em cinco dias |
| Diálise peritoneal ambulatorial contínua | Igual ou abaixo de 10 mL/min | Dose única de 30 mg imediatamente após a troca da diálise |
O que a lista nacional de medicamentos essenciais entrega para este capítulo
| Medicamento | Apresentação na Rename 2024 | Componente de financiamento |
|---|---|---|
| Amoxicilina | 500 mg cápsula; 500 mg comprimido; 50 mg/mL suspensão oral | Básico |
| Amoxicilina + clavulanato de potássio | 500 mg + 125 mg comprimido; 50 mg/mL + 12,5 mg/mL suspensão oral | Básico |
| Azitromicina | 500 mg comprimido; 40 mg/mL pó para suspensão oral | Básico e Estratégico |
| Claritromicina | 250 mg e 500 mg comprimido; 500 mg cápsula; 50 mg/mL grânulo para suspensão oral | Básico |
| Ceftriaxona | 250 mg, 500 mg e 1 g pó para solução injetável | Básico |
| Cefotaxima sódica | 500 mg pó para solução injetável | Básico |
| Benzilpenicilina potássica | 5.000.000 UI pó para solução injetável | Básico e Estratégico |
| Cloridrato de clindamicina | 150 mg e 300 mg cápsula | Básico |
| Doxiciclina | 100 mg comprimido e comprimido solúvel | Estratégico — não é o que a farmácia básica dispensa para pneumonia |
| Levofloxacino | 250 mg e 500 mg comprimido | Estratégico — vinculado a programa, não é retirada de rotina na unidade básica |
| Linezolida | 600 mg comprimido; 2 mg/mL solução para infusão | Estratégico |
| Fosfato de oseltamivir | 30 mg, 45 mg e 75 mg cápsula | Estratégico |
| Prednisona | 5 mg e 20 mg comprimido | Básico e Estratégico |
O corte de ureia do CURB-65 nasceu em 7 mmol/L, que equivale a 42,0 mg/dL de ureia sérica — conta direta pela massa molar de 60,06 g/mol. O texto da recomendação brasileira transcreve o item como ureia acima de 50 mg/dL, e a mesma transcrição reaparece nos critérios menores de terapia intensiva. Entre 42 e 50 mg/dL as duas réguas divergem por um ponto inteiro. Este capítulo adota 42 mg/dL, que é o valor com que as faixas de mortalidade foram construídas e é o que erra para o lado de internar.
O documento brasileiro de 2018 traz duas durações diferentes para a mesma situação: o Quadro 5 registra 7 dias para amoxicilina no paciente ambulatorial sem comorbidade, e o texto da seção de duração recomenda monoterapia por 5 dias para a pneumonia de baixa gravidade tratada fora do hospital. Este capítulo adota 5 dias, por coincidir com o corpo de evidência citado pelo próprio documento, com o mínimo de 5 dias da diretriz norte-americana de 2019 e com a atualização de 2025.
Não se dobra o comprimido de amoxicilina com clavulanato para aumentar a dose de amoxicilina: dois comprimidos de 500 mg + 125 mg de 8 em 8 horas entregam 750 mg de clavulanato por dia, e é o clavulanato que causa a diarreia que faz o paciente abandonar o tratamento. Quando é preciso chegar a 3 g de amoxicilina por dia, mantenha um comprimido de 500 mg + 125 mg de 8 em 8 horas — 375 mg de clavulanato ao dia — e acrescente uma cápsula de amoxicilina 500 mg em cada tomada.
Ceftriaxona 1 g de 12 em 12 horas equivale a 2 g por dia; a mesma dose diária administrada de uma vez também é usada. Reconstitua o pó de 1 g em 10 mL de água para injeção, dilua em 100 mL de soro fisiológico a 0,9% e infunda em 30 minutos — o que corresponde a 200 mL por hora na bomba. Ceftriaxona não precisa de ajuste na disfunção renal isolada.
O Quadro 1 do documento brasileiro de 2018, que reproduz a pontuação do Pneumonia Severity Index, imprime 'ureia > 65 mg/l' e 'glicose > 250 mg/l'. As unidades corretas são miligramas por decilitro: ureia acima de 65 mg/dL — equivalente ao critério original de nitrogênio ureico igual ou acima de 30 mg/dL — e glicose acima de 250 mg/dL. Lido ao pé da letra, o quadro pontuaria praticamente todo paciente.
A conduta, hora a hora
A linha do tempo abaixo separa os três pacientes da abertura e mostra o que muda em cada marco. Cada um traz o gesto, a razão do gesto e a prescrição escrita como ela sai no papel — dose, via, intervalo e duração.
Uma regra atravessa todos os marcos: a primeira dose do antibiótico vem antes da vaga, antes do transporte, antes da cultura e antes do resultado da imagem. Antibiótico prescrito e não administrado não trata ninguém, e o intervalo entre a decisão e a infusão é o pedaço do tratamento que depende inteiramente de quem está no plantão.
Minuto 0 — os cinco dados, antes de escrever qualquer coisa
Cinco dados ajudam a reconhecer a gravidade inicial, e os cinco se colhem em menos de três minutos: frequência respiratória contada em um minuto inteiro, pressão arterial, saturação em ar ambiente, estado mental confirmado com o acompanhante e idade. A ureia entra em seguida, junto com a coleta. Só depois disso faz sentido pedir imagem, e a imagem complementa o diagnóstico e pode mudar o destino ao mostrar extensão ou complicações. O suporte do paciente instável não espera sua realização.
Prescrição- Frequência respiratória contada com relógio por 1 minuto, com o paciente em repouso, e registrada no prontuário com o horário (SBPT 2018)
- Medir saturação imediatamente, em ar ambiente se isso for seguro. Hipoxemia e sofrimento respiratório exigem suporte sem esperar registro basal; anotar dispositivo e oferta de oxigênio quando a medida já for sob tratamento.
- Pressão arterial e avaliação de confusão mental de início agudo, confirmada com quem trouxe o paciente (Lim e cols., 2003)
- Ureia e creatinina; a ureia pontua o escore e a creatinina define ajuste de dose dos antibióticos (SBPT 2018)
- Radiografia de tórax em duas incidências, póstero-anterior e perfil, obrigatória em quem vai internar (SBPT 2018)
- Oxigênio suplementar se houver hipoxemia, com alvo prescrito e reavaliação. Não atrasar sua instalação para colher um valor em ar ambiente; ajustar o alvo em quem tem risco de retenção de CO2 conforme o capítulo de oxigenoterapia.
Primeira hora — quem vai para casa (Márcia, 34 anos, CURB-65 zero)
Zero ponto, saturação de 97%, sem comorbidade, mora com o companheiro, tem transporte e telefone. Nenhum veto presente. A prescrição é curta e a consulta não termina nela: uma alta de pneumonia só funciona com quatro elementos escritos — a dose por extenso, a duração, a data do retorno e os sinais que trazem o paciente de volta antes dessa data.
Prescrição- Amoxicilina 500 mg, duas cápsulas (1 g) por via oral de 8 em 8 horas, durante 5 dias — 30 cápsulas no total (SBPT 2018 para a duração; ATS/IDSA 2019 para a dose)
- Dipirona 500 mg a 1 g por via oral de 6 em 6 horas se dor ou temperatura igual ou acima de 37,8 °C, ou paracetamol 500 a 750 mg de 6 em 6 horas
- Hidratação por via oral, repouso relativo e suspensão do tabagismo enquanto durar o quadro
- Retorno marcado em 48 a 72 horas para reavaliação clínica, com a data escrita na receita (SBPT 2018)
- Retorno imediato, antes da data marcada, se: falta de ar nova ou que piora, febre que persiste depois do terceiro dia de remédio, confusão ou sonolência, dor no peito que aumenta, ou incapacidade de tomar o comprimido
- Sem antibiótico injetável, sem corticoide e sem antitussígeno: nenhum dos três tem indicação na pneumonia não grave tratada em casa
Primeira hora — quem o escore liberaria e a clínica interna (Dona Cleide, 66 anos, CURB-65 um)
Um ponto, faixa de tratamento ambulatorial. Dois vetos presentes: saturação de 90% em ar ambiente e ausência de qualquer rede que perceba a piora e a traga de volta antes de sábado. Interna. O registro no prontuário precisa dizer isso com essas palavras — "CURB-65 de 1 ponto; interna por hipoxemia e por impossibilidade de tratamento e retorno domiciliar" —, porque é essa frase que protege a decisão e ensina quem ler depois.
Prescrição- Oxigênio por cânula nasal, titulado para manter saturação acima de 92% (SBPT 2018)
- Ceftriaxona 1 g por via intravenosa de 12 em 12 horas — reconstituir o pó em 10 mL de água para injeção, diluir em 100 mL de soro fisiológico a 0,9% e infundir em 30 minutos (SBPT 2018, Quadro 6)
- Azitromicina 500 mg por via oral, 1 vez ao dia, enquanto a paciente engolir (SBPT 2018, Quadro 5; apresentação injetável não consta da Rename 2024)
- Hemocultura em dois sítios e escarro para exame direto e cultura, colhidos antes da primeira dose se isso não a atrasar em mais de alguns minutos (SBPT 2018)
- Hemograma, sódio, potássio, glicemia e ureia e creatinina de controle
- Registro seriado de frequência respiratória, saturação, pressão arterial, temperatura e nível de consciência a cada 6 horas nas primeiras 24 horas
- Profilaxia de tromboembolismo venoso conforme o protocolo da instituição, por se tratar de paciente clínico internado com mobilidade reduzida
Primeira hora — o paciente grave (Seu Waldir, 79 anos, CURB-65 cinco)
Cinco pontos: confusão, ureia de 92 mg/dL, frequência respiratória de 32, sistólica de 88 mmHg e 79 anos. Mortalidade esperada em torno de 57%. Aqui oxigênio, acesso, primeira dose e acionamento do leito de maior complexidade são organizados em paralelo. A hipotensão desloca o caso para o pacote de sepse, que tem coleta de lactato, volume e alvo próprios e é assunto de capítulo específico; o que este capítulo determina é que o antibiótico seja administrado o mais precocemente possível, e que a terapia seja combinada.
Prescrição- Oxigênio suplementar imediato, com alvo de saturação acima de 92%, e monitorização contínua
- Dois acessos venosos periféricos calibrosos; coleta de hemocultura em dois sítios, escarro, antígenos urinários para pneumococo e legionela, lactato, hemograma, função renal e eletrólitos (SBPT 2018)
- Ceftriaxona 1 g por via intravenosa de 12 em 12 horas, primeira dose administrada ainda na sala de emergência, antes do transporte (SBPT 2018, Quadros 5 e 6)
- Azitromicina 500 mg 1 vez ao dia associada ao betalactâmico — a terapia combinada é a recomendação para a forma grave (SBPT 2018, Quadro 5)
- Se houver hipotensão que não responde, sinal de má perfusão ou disfunção orgânica: acionar o pacote de sepse, com o tempo e o volume definidos no capítulo próprio
- Corticoide adjuvante na pneumonia grave, exceto quando o agente é influenza: hidrocortisona 200 mg por dia por via intravenosa durante 7 dias, ou prednisona 50 mg por dia por via oral durante 7 dias, ou metilprednisolona 0,5 mg/kg por via intravenosa de 12 em 12 horas durante 5 dias (esquemas da Tabela 2 da SBPT 2018; indicação conforme SCCM/ESICM 2024 e ATS 2025)
- Contato com o serviço que vai receber o paciente antes de terminar a prescrição, e transporte acompanhado com oxigênio e monitorização
Na sazonalidade de influenza — o que entra na mesma prescrição
Entre os meses de maior circulação viral, a pergunta sobre antiviral vale para todo paciente com quadro compatível. Considera-se síndrome gripal a febre de início súbito, mesmo que referida, acompanhada de tosse ou dor de garganta e de pelo menos um entre mialgia, cefaleia e artralgia. Sinais de gravidade — dispneia, desconforto respiratório, saturação igual ou abaixo de 94% ou exacerbação de doença preexistente — configuram síndrome respiratória aguda grave, que é de notificação e de internação. O antiviral não espera o resultado do exame.
Prescrição- Fosfato de oseltamivir 75 mg por via oral de 12 em 12 horas, durante 5 dias, iniciado já e sem aguardar o resultado laboratorial — na síndrome respiratória aguda grave e em quem tem fator de risco, sem contar horas; a janela de 48 horas é só de quem não tem fator de risco (Ministério da Saúde, Guia de Manejo e Tratamento de Influenza 2023; o manejo do antiviral está em Infecção pela COVID-19 e síndromes respiratórias virais, na apostila de Infectologia)
- Ajuste pela depuração de creatinina: 30 mg de 12 em 12 horas entre 30 e 60 mL/min; 30 mg uma vez ao dia entre 10 e 30 mL/min; 30 mg após cada sessão de hemodiálise (Guia de Manejo e Tratamento de Influenza 2023, Tabela 5)
- Toda gestante e puérpera com síndrome gripal recebe antiviral, mesmo sem sinal de agravamento e mesmo vacinada (Guia de Manejo e Tratamento de Influenza 2023)
- Antibiótico associado ao antiviral apenas quando houver suspeita consistente de coinfecção bacteriana — que é o caso de quem tem consolidação e critérios de pneumonia (Guia de Manejo e Tratamento de Influenza 2023)
- Corticoide adjuvante não entra quando o agente é influenza (ATS 2025)
- Notificação da síndrome respiratória aguda grave e precaução para gotículas e aerossóis conforme o protocolo do serviço
24 a 48 horas — a primeira leitura de tendência e a troca de via
Compare com o número de ontem, não com uma impressão. A comparação é possível porque a frequência respiratória e a saturação da admissão foram anotadas. Este é também o momento em que se pergunta se ainda há motivo para a droga estar na veia: paciente hemodinamicamente estável, afebril ou com febre em queda, que come e engole, pode passar para a via oral — e a transição sistematizada, com critérios objetivos, reduz tempo de internação e uso de antibiótico intravenoso sem consequência adversa.
Prescrição- Nas primeiras 12 horas espera-se resposta ao oxigênio e ao volume, não ao antibiótico: manter o mesmo esquema, titular o oxigênio pelo alvo de saturação e não usar antitérmico em horário fixo profilático (SBPT 2018)
- Registro seriado dos mesmos parâmetros da admissão, para comparação direta
- Transição para via oral quando houver estabilidade hemodinâmica, melhora clínica, capacidade de ingestão e trato gastrointestinal funcionante (SBPT 2018)
- Esquema oral equivalente: amoxicilina com clavulanato 500 mg + 125 mg de 8 em 8 horas, ou o macrolídeo já em uso, completando a duração total contada desde o primeiro dia (SBPT 2018)
- Revisão do resultado das culturas: se houver agente identificado, estreitar o espectro em vez de manter o esquema empírico
- Suspensão do oxigênio quando a saturação se mantiver acima de 92% em ar ambiente por período consistente
- Revisão da lista completa de medicamentos com a função renal do dia, seguindo as regras de ajuste do capítulo próprio
48 a 72 horas — a hora em que a decisão se revê
Quem não melhorou dentro dessa janela caracteriza falha terapêutica, e a falha tem uma lista curta de causas. O erro do interno aqui não é trocar o antibiótico: é trocar o antibiótico sem procurar o motivo, porque a maioria dos motivos não se resolve com droga nova. Antes de escrever um nome novo na prescrição, percorra cinco perguntas: apareceu complicação local — derrame, empiema, abscesso, necrose? o agente está fora do espectro escolhido — legionela, tuberculose, fungo, vírus? o esquema está sendo cumprido na dose, no intervalo e pelo tempo? há doença de base ou obstrução — neoplasia, corpo estranho, imunossupressão? o diagnóstico está errado — embolia, insuficiência cardíaca, doença intersticial?
Prescrição- Radiografia de tórax de controle procurando derrame, cavitação e progressão — aqui, sim, ela tem pergunta a responder (SBPT 2018)
- Ultrassonografia de tórax quando houver suspeita de derrame: mostra loculação, estima volume e guia a punção (SBPT 2018)
- Tomografia de tórax quando a radiografia não resolve, para procurar abscesso, necrose, derrame loculado e diagnóstico alternativo (SBPT 2018)
- Teste rápido molecular para tuberculose em escarro diante de tosse arrastada, imagem de ápice ou cavitação, contato ou vulnerabilidade (Ministério da Saúde, Manual de Recomendações para o Controle da Tuberculose, 2019)
- Conferência da administração: peça o aprazamento e confira quantas doses foram efetivamente infundidas, e em que horários
- Ampliar cobertura apenas com hipótese e fatores de risco definidos. Aspiração isolada não exige cobertura anaeróbia adicional de rotina; considerar essa cobertura em abscesso pulmonar ou empiema. Para MRSA e Pseudomonas, avaliar isolamento prévio e fatores locais validados, além da gravidade, em vez de usar somente a presença de doença estrutural.
- Coleta de nova hemocultura antes de qualquer mudança de esquema
Quando aparece derrame pleural
Febre que persiste com dor no hemitórax, macicez à percussão, murmúrio abolido e nova queda de saturação muda o problema de lugar: deixou de ser parênquima e passou a ser espaço fechado. Derrame pequeno, de fluxo livre, acompanha a resolução do parênquima e não exige procedimento. Derrame volumoso, loculado, com pus franco ou com critérios bioquímicos de complicação, exige drenagem — e nenhuma dose de antibiótico substitui o dreno.
Prescrição- Ultrassonografia de tórax como exame de escolha para estimar volume, identificar loculação e guiar a punção (SBPT 2018)
- Toracocentese diagnóstica com envio do líquido para citologia, bioquímica com desidrogenase lática, glicose, proteína e pH, exame direto pelo Gram e cultura
- Discutir drenagem com a equipe diante de pus, Gram/cultura positivos ou derrame parapneumônico com pH de 7,2 ou menos, se houver coleção acessível com segurança. Loculações, volume, evolução e repercussão respiratória também orientam a decisão; ultrassom deve guiar o procedimento.
- Na infecção pleural ou no abscesso, escolher esquema que inclua anaeróbios conforme microbiologia, alergias e protocolo local. Não adicionar clindamicina ou outro agente apenas porque houve aspiração sem evidência dessas complicações.
- Abscesso, necrose e empiema exigem duração individualizada conforme controle do foco e resposta clínica, em conjunto com infectologia/pneumologia. O intervalo de 7 a 21 dias do quadro antigo não é teto universal nem substitui a avaliação da drenagem. Pneumonite química após aspiração não é indicação automática de antibiótico.
- Avaliação da cirurgia torácica quando a drenagem não resolve ou há loculação extensa
Alta hospitalar — a decisão por critério, não por sensação
Estabilidade clínica é o retorno a valores normais de temperatura, frequência cardíaca, frequência respiratória, saturação, estado mental, pressão arterial sistólica e capacidade de alimentar-se por via oral. Alcançados esses parâmetros, e completado o tempo mínimo, o paciente sai — com o restante da duração prescrito por escrito. Não se pede radiografia para autorizar alta de quem melhorou: a imagem leva semanas para limpar, e esperar por ela transforma um paciente pronto num paciente internado.
Prescrição- Conferir os sete parâmetros de estabilidade clínica antes de assinar a alta (SBPT 2018)
- Completar a duração total contada desde o primeiro dia de tratamento: 5 a 7 dias na forma de baixa gravidade, 7 a 10 dias na moderada a alta, até 14 dias a critério do médico assistente (SBPT 2018)
- Prescrição da via oral por escrito, com dose, intervalo, número de dias e a data em que o tratamento termina
- Consulta de reavaliação agendada em 7 a 10 dias, e não a orientação genérica de procurar o serviço se piorar
- Sem radiografia de controle para dar alta a quem melhorou clinicamente (SBPT 2018)
- Imagem de controle tardia, em 6 semanas, apenas em quem tem risco de neoplasia subjacente — tabagista, quadro recorrente no mesmo lobo, resolução lenta — ou em quem teve complicação
Depois da alta — o que evita a próxima
A consulta de pneumonia é uma das poucas em que o paciente está mobilizado para ouvir sobre prevenção, e as duas medidas com maior retorno cabem na mesma frase: vacina e cigarro. A vacinação contra influenza reduz intensidade dos sintomas, necessidade de hospitalização e mortalidade; a vacina pneumocócica conjugada reduz em 45,6% os casos de pneumonia pelos sorotipos vacinais e em 75% a doença pneumocócica invasiva.
Prescrição- Vacina contra influenza anualmente, com prioridade para adultos com 60 anos ou mais, portadores de doença crônica pulmonar, cardiovascular, renal, hepática, hematológica ou metabólica, imunossuprimidos, gestantes e puérperas, profissionais de saúde e residentes em instituições de longa permanência (SBPT 2018)
- Vacina pneumocócica indicada a adultos com 60 anos ou mais; a pessoas de 2 a 59 anos com doença crônica cardíaca ou pulmonar, doença falciforme, diabetes, alcoolismo, cirrose, fístula liquórica ou implante coclear; a imunossuprimidos e asplênicos; e a adultos de 19 a 59 anos tabagistas ou com asma (SBPT 2018)
- Esquema sequencial recomendado para 60 anos ou mais: uma dose da conjugada 13-valente seguida da polissacarídica 23-valente 6 a 12 meses depois, e segunda dose da 23-valente 5 anos após a primeira (SBPT 2018); com doença crônica cardíaca, pulmonar, renal ou hepática, diabetes, asplenia, imunossupressão ou outra condição da rede de imunobiológicos especiais, a partir dos 5 anos e inclusive no idoso, a rede aplica desde maio de 2026 a conjugada 20-valente em dose única, sem 23-valente depois (Nota Técnica nº 52/2026)
- Aconselhamento e oferta de tratamento para cessação do tabagismo, disponível na rede pública
- Revisão da adesão ao tratamento das comorbidades — diabetes, insuficiência cardíaca, doença obstrutiva —, que são o que decide a gravidade do próximo episódio
- Avaliação de disfagia e de higiene oral em quem teve quadro sugestivo de aspiração
Como saber se está funcionando
Prescrever é a parte fácil. O que separa quem já atendeu de quem está começando é dizer em voz alta, com prazo, o que se espera que aconteça — e o que se faz quando não acontece. Na pneumonia do adulto os prazos são dois e não se negociam: a janela para julgar resposta ao antibiótico é de 48 a 72 horas, e o paciente que foi para casa volta dentro dela.
Toda reavaliação é uma comparação, e comparação exige que o número da primeira avaliação exista no prontuário. Quem não anotou a frequência respiratória da admissão não tem como dizer, dois dias depois, se o paciente melhorou — vai dizer que "está melhor", que é opinião, não medida.
Esperado: Queda em relação ao número da admissão, com o paciente em repouso. É o primeiro parâmetro a melhorar e o mais sensível.
Se não melhora: Frequência que não cede, ou que sobe, em paciente com antibiótico adequado, indica extensão da doença, complicação local ou agente fora do espectro. Frequência que cai acompanhada de sonolência, respiração irregular ou retenção de gás carbônico não é melhora: é fadiga, e indica suporte ventilatório.
Esperado: Redução progressiva da necessidade de oxigênio, com manutenção acima de 92% em ar ambiente antes da alta.
Se não melhora: Necessidade crescente de oxigênio, ou queda nova em quem vinha estável, levanta derrame, pneumotórax, progressão da consolidação e embolia. Quem não mantém a saturação apesar de fração inspirada alta é candidato a leito monitorizado.
Esperado: Picos mais baixos e mais espaçados a partir do segundo dia; muitos pacientes ficam afebris entre 48 e 72 horas.
Se não melhora: Febre nas primeiras 48 horas de tratamento correto é evolução esperada e não justifica troca. Febre que persiste além de 72 horas caracteriza falha terapêutica e obriga a percorrer as cinco causas — complicação local, agente fora do espectro, tratamento não administrado, doença de base ou obstrução, e diagnóstico errado — antes de mudar a droga.
Esperado: Estabilização sem necessidade de expansão volêmica repetida.
Se não melhora: Hipotensão que persiste ou aparece, com lactato elevado, oligúria ou má perfusão periférica, deixou de ser pneumonia e virou disfunção orgânica: aciona o pacote de sepse, com o relógio e o volume definidos em capítulo próprio.
Esperado: Retorno ao estado mental habitual, confirmado com quem convive com o paciente.
Se não melhora: Confusão que aparece ou piora é sinal de gravidade e não de "internação que confundiu". Reavalie oxigenação, glicemia, sódio, função renal, sepse e o próprio antibiótico; e lembre que confusão sustentada em idoso é critério de terapia intensiva quando somada a outros dois critérios menores.
Esperado: Retomada da alimentação e da via oral, o que autoriza a transição do antibiótico intravenoso para o oral.
Se não melhora: Quem deixou de comer e de engolir perdeu o critério que sustentava tratamento domiciliar. Em quem já está internado, é o sinal para manter a via intravenosa e investigar disfagia, náusea por droga e rebaixamento.
Esperado: Estertores que se reduzem e murmúrio que se recupera, sem macicez nova.
Se não melhora: Macicez nova, frêmito abolido, murmúrio francamente diminuído e dor no mesmo hemitórax desenham derrame parapneumônico. O exame que responde é a ultrassonografia de tórax, e a resposta muda a conduta de farmacológica para procedimento.
Esperado: Queda acompanhando a melhora clínica — o valor está na tendência, não no número único.
Se não melhora: Procalcitonina que não cai 50% até o terceiro dia associa-se a maior risco de morte em 30 dias e reforça a busca por complicação. Marcadores altos em paciente evidentemente melhor não justificam prolongar antibiótico nem repetir imagem.
Esperado: Doses tomadas nos horários, caixa com o número de comprimidos compatível com os dias decorridos.
Se não melhora: É a causa de falha mais frequente e a mais barata de checar. Peça para ver a caixa e conte os comprimidos; no internado, peça o aprazamento e confira quantas doses foram efetivamente infundidas. Falha por dose não administrada não se corrige com antibiótico novo.
Onde o erro machuca
O dano: A imagem não mede gravidade. Consolidação extensa em jovem hígido com saturação de 97% vai para casa; consolidação discreta em idoso confuso e hipotenso vai para leito monitorizado. Quem decide pelo filme interna quem não precisava e libera quem precisava — e o segundo erro é o que mata.
Como pegar a tempo: Calcule o escore e leia a saturação antes de olhar o exame. Escreva no prontuário qual critério decidiu o destino. A radiografia confirma o diagnóstico, mede extensão e procura complicação; ela não substitui os cinco pontos.
O dano: A frequência respiratória é um dos cinco pontos do escore, é o parâmetro que mais cedo se altera e é o único que permite dizer, dois dias depois, se o paciente melhorou. Sem ela, o escore sai subestimado, a alta é dada por sensação e a reavaliação perde a régua de comparação.
Como pegar a tempo: Conte com relógio, por um minuto inteiro, com o paciente em repouso e sem avisar que está contando. Anote o número e o horário. Trate a frequência respiratória como sinal vital obrigatório em todo paciente com queixa respiratória, e desconfie de todo prontuário em que ela vale 18 por três dias seguidos.
O dano: Um escore baixo não sabe que a saturação é 90%, que o paciente mora sozinho a quarenta quilômetros, que ele vomita o comprimido ou que a insuficiência cardíaca dele descompensou junto. Alta amparada só na pontuação é a alta que volta em 48 horas — quando volta.
Como pegar a tempo: Depois de somar os pontos, aplique os vetos, um a um: saturação abaixo de 92%, comorbidade descompensada, impossibilidade de via oral, condição social que impeça tratamento e retorno, complicação presente, gestação. Qualquer um deles derruba a alta que a pontuação autorizaria.
O dano: Entre a decisão e a infusão cabe a busca de vaga, o transporte, a coleta de cultura e a troca de plantão. Na forma grave, a recomendação é que o antibiótico seja dado o mais precocemente possível, e cada hora nesse intervalo é uma hora de bacteremia sem tratamento em um paciente com mortalidade esperada acima de 20%.
Como pegar a tempo: Administre a primeira dose ainda na sala, antes do transporte e antes da vaga. Se a hemocultura não pode ser colhida em minutos, colha depois. Confirme com a enfermagem que a dose foi infundida, e registre o horário — prescrição não é administração.
O dano: A carga bacteriana cai em horas, mas a cascata inflamatória leva dias para se desmontar. Trocar antes de 48 horas rotula como resistência o que é apenas tempo insuficiente, queima uma droga barata e eficaz, amplia o espectro sem indicação e atrapalha a leitura da evolução, porque a partir daí ninguém sabe mais a que atribuir a melhora.
Como pegar a tempo: Respeite a janela de 48 a 72 horas. Nas primeiras 12 horas espera-se resposta ao oxigênio e ao volume, não ao antibiótico. Quando a janela fechar sem melhora, percorra as cinco causas de falha antes de escrever qualquer nome novo.
O dano: Além do alerta de segurança que restringiu essa classe, num país com a carga de tuberculose do Brasil a quinolona produz melhora parcial de uma tuberculose tratada como pneumonia, atrasa o diagnóstico em semanas, reduz a chance de o exame de escarro ser positivo e seleciona resistência a uma droga central dos esquemas de tuberculose resistente. E o levofloxacino não é medicamento de retirada rotineira na farmácia básica.
Como pegar a tempo: Reserve a quinolona para quem tem alergia a betalactâmico e a macrolídeo, para doença mais grave e para quando não houver outra opção. Antes de prescrevê-la, pergunte há quanto tempo é a tosse — três semanas ou mais mandam pedir teste molecular para tuberculose, não antibiótico de largo espectro.
O dano: A limpeza radiológica leva semanas, e a clínica melhora em dias. Esperar o filme normalizar prolonga internação sem benefício, aumenta exposição a evento adverso e a infecção hospitalar, e transforma um paciente pronto para sair num paciente "que ainda está com o pulmão feio".
Como pegar a tempo: Dê alta por critérios de estabilidade clínica: temperatura, frequência cardíaca, frequência respiratória, saturação, estado mental, pressão sistólica e capacidade de comer. Imagem de controle tardia fica reservada a quem tem risco de neoplasia subjacente ou teve complicação.
O dano: O idoso com pneumonia pode chegar sem febre, sem tosse e sem leucocitose — e a queixa que a família traz é confusão, queda ou parada de comer. Rotular como delirium e investigar por dias adia o antibiótico justamente no grupo com letalidade hospitalar de 16,8% aos 70 anos e de 23,0% acima de 80.
Como pegar a tempo: Em todo idoso com confusão aguda, queda inexplicada ou piora funcional súbita, ausculte o tórax e meça a saturação na primeira avaliação. Ausência de febre não afasta infecção nessa idade, e hipotermia tem o mesmo peso da febre alta.
O dano: "Tome o antibiótico e procure se piorar" transfere ao paciente uma decisão técnica que ele não tem como tomar. Sem saber o que é piorar, ele volta tarde; sem a duração escrita, interrompe o tratamento no terceiro dia porque melhorou.
Como pegar a tempo: Escreva na receita a dose, o intervalo, o número de dias e a data em que o tratamento termina. Marque o retorno em 48 a 72 horas com a data escrita. Ensine quatro sinais de volta imediata em palavras do dia a dia e peça que o paciente ou o acompanhante os repita antes de sair.
O dano: Pneumonia que começa fora do hospital, ou nas primeiras 48 horas de internação, tem flora comunitária. Prescrever esquema antipseudomonas e cobertura para Staphylococcus aureus resistente por reflexo — porque o paciente é idoso, ou faz hemodiálise, ou mora em instituição — amplia espectro sem ganho: a categoria que agrupava esses pacientes foi abandonada justamente por não predizer o agente.
Como pegar a tempo: Trate pelo local de aquisição e pelos fatores de risco individuais documentados: isolamento prévio do agente, internação recente com antibiótico parenteral, doença estrutural do pulmão. Sem eles, o esquema é o comunitário — e quem começou o quadro depois de 48 horas de internação pertence a outro capítulo.
O que dizer ao paciente e à família
Quem vai executar o tratamento da pneumonia tratada em casa é o paciente, sozinho, por cinco dias. Ele decide se toma o comprimido no horário, se para quando melhorar no terceiro dia e se volta às três da manhã ou espera amanhecer. Tudo o que este capítulo ensina depende dessa conversa funcionar.
Duas regras práticas. A primeira: traduza a palavra técnica para o corpo. "Saturação" não existe fora do hospital; "o oxigênio no seu sangue está baixo" existe. A segunda: peça que repitam — não como teste, e sim como conferência da sua explicação. Se o paciente repete errado, quem falhou foi quem explicou.
Explicar que é pneumonia e que ela pode ser tratada em casa
“"O que a senhora tem é uma pneumonia. Eu sei que essa palavra assusta, e eu preciso te dizer duas coisas ao mesmo tempo: é pneumonia, e ela pode ser tratada em casa. Eu conferi as coisas que decidem isso — a sua respiração está no ritmo certo, a pressão está boa, o oxigênio no seu sangue está bom e a senhora está lúcida. Nessa situação o comprimido funciona igual ao remédio na veia. O que eu vou te pedir é que tome certinho e que volte aqui daqui a dois dias, mesmo que esteja melhor."”
Não diga: Evite "é uma pneumoniazinha", que faz a pessoa não voltar, e evite "pneumonia é grave, qualquer coisa corra para o hospital", que faz voltar por qualquer coisa e não voltar pelo que importa.
Explicar a dose e a duração de um jeito que sobreviva ao terceiro dia
“"São duas cápsulas juntas, de oito em oito horas. Uma forma fácil: sete da manhã, três da tarde e onze da noite. São cinco dias, e a caixa tem exatamente o que a senhora precisa — trinta cápsulas. No terceiro dia a senhora vai estar bem melhor e vai ter vontade de parar. Não pare: o que sobra vivo quando se para no meio é justamente a bactéria mais resistente. Pode me repetir quantas cápsulas por vez e de quantas em quantas horas?"”
Não diga: Evite "tomar conforme orientação" e evite entregar a receita sem dizer a data em que o tratamento termina. Evite também deixar o horário em aberto: "de 8 em 8 horas" sem âncora vira "quando lembrar".
Ensinar os sinais de retorno imediato
“"Preste atenção em quatro coisas. Primeira: falta de ar nova, ou que piora — se ficar difícil terminar uma frase sem parar para respirar, volte. Segunda: se a febre não ceder até o terceiro dia de remédio, ou se ela voltar depois de ter passado. Terceira: se a senhora ficar confusa, muito sonolenta ou o pessoal de casa notar que está estranha. Quarta: se não conseguir tomar o comprimido, se vomitar. Qualquer uma dessas quatro, a senhora não espera a data da consulta. Vem na hora, de dia ou de madrugada."”
Não diga: Evite "observe sinais de desconforto respiratório", "piora do padrão" e "dessaturação". Nenhuma dessas palavras vai ser reconhecida em casa às duas da manhã.
Explicar a internação de quem esperava ir para casa
“"A senhora está com pneumonia, e eu preciso internar. Não é porque a pneumonia é maior do que as outras: é porque o oxigênio no seu sangue está mais baixo do que deveria e porque, se a senhora piorar durante a noite lá no sítio, não tem como alguém perceber e trazer a senhora a tempo. Aqui a gente dá oxigênio, dá o remédio na veia nos primeiros dias e olha a senhora de perto. A maioria das pessoas nessa situação melhora e vai para casa em cerca de uma semana."”
Não diga: Evite prometer prazo exato de alta e evite minimizar com "é só por precaução". Se depois houver piora, a família perde a confiança justamente quando mais vai precisar dela.
Explicar por que não vai antibiótico quando o quadro é viral
“"Eu examinei o senhor com calma e não encontrei pneumonia. O que o senhor tem é uma infecção por vírus — e vírus não melhora com antibiótico. Não é economia de remédio: é que ele não age nesse tipo de infecção, pode dar diarreia e alergia, e deixa as bactérias do seu corpo mais resistentes para uma próxima vez, quando o senhor realmente precisar. O que ajuda agora é líquido, remédio para a febre e tempo. Mas eu não vou te deixar sem plano: se em três dias o senhor não estiver melhor, ou se aparecer algum dos sinais que eu vou te ensinar, o senhor volta."”
Não diga: Evite "não é nada" e "é só uma virose". A pessoa ouve "o médico não achou nada" e procura outro serviço no dia seguinte, onde recebe o antibiótico que você não deu. Sempre entregue um plano com prazo e com sinais.
Conversar com a família no terceiro dia sem melhora
“"Passaram três dias e ele não melhorou como a gente esperava. Isso acontece, e tem uma lista curta de motivos: pode ter juntado líquido em volta do pulmão, pode ser um micróbio que esse remédio não cobre, pode ser que as doses não tenham entrado como deveriam, pode ser alguma doença por trás, ou pode ser que o diagnóstico precise ser revisto. Antes de trocar o remédio eu quero checar cada um desses. Vou pedir um exame de imagem hoje, e preciso que vocês me ajudem numa parte: me contem quantos comprimidos ele realmente tomou."”
Não diga: Evite culpar a família pela adesão em tom de acusação, e evite trocar o antibiótico só para mostrar ação. Falha terapêutica é hora de investigar, e a família precisa entender isso para não achar que o serviço está tentando remédios ao acaso.
Falar com a família do paciente idoso e grave, sem prometer o que não se pode
“"O seu pai está com uma pneumonia grave. Ele está confuso, com a pressão baixa e com o oxigênio baixo, e isso significa que a infecção já está afetando o corpo inteiro, não só o pulmão. Nessa situação, mesmo com tudo certo, o risco de ele não sobreviver é real — e eu prefiro te dizer isso agora do que deixar você descobrir sozinha. O que a gente vai fazer é começar o antibiótico agora mesmo, dar oxigênio e levá-lo para um leito com monitor. Eu vou te procurar de novo hoje à tarde para dizer como ele respondeu. Há alguma coisa que ele já tenha dito sobre o que gostaria em uma situação assim?"”
Não diga: Evite números de prognóstico jogados sem contexto, e evite a frase "vamos fazer tudo o que for possível" sem dizer o que é esse tudo. Evite também adiar a conversa sobre preferências para quando o paciente já não puder participar dela.
Onde bons médicos discordam
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.
Sete dias no ambulatorial — quadro de tratamento empírico do documento brasileiro
O Quadro 5 do documento de 2018 registra 7 dias para amoxicilina ou amoxicilina com clavulanato no paciente ambulatorial sem comorbidade, 5 a 7 dias quando há fator de risco, 7 a 10 dias na enfermaria e 7 a 14 dias na terapia intensiva.
Recomendações para o manejo da pneumonia adquirida na comunidade 2018, Quadro 5. J Bras Pneumol. 2018;44(5):405-425.
Cinco dias no ambulatorial, e duração guiada por estabilidade clínica no internado
O texto da seção de duração do mesmo documento brasileiro recomenda monoterapia por 5 dias na pneumonia de baixa gravidade tratada fora do hospital, e registra que tratamentos de 5 a 7 dias parecem suficientes na maior parte das vezes. A diretriz norte-americana de 2019 chega ao mesmo lugar por outro caminho: a duração deve ser guiada por uma medida validada de estabilidade clínica e não deve ser inferior a 5 dias no total.
SBPT 2018, seção sobre duração da antibioticoterapia; Metlay JP e cols., Am J Respir Crit Care Med. 2019;200(7):e45-e67.
Menos de cinco dias, com mínimo de três, em quem atinge estabilidade
A atualização de 2025 sugere menos de 5 dias de antibiótico — com mínimo de 3 — para pacientes ambulatoriais e para internados com pneumonia não grave que alcançam estabilidade clínica; para a forma grave, mantém a recomendação forte de 5 dias ou mais.
Jones BE e cols., Am J Respir Crit Care Med. 2025;212(1):24-44.
A pergunta que resolve à beira do leito não é "qual número está certo", e sim "este paciente atingiu estabilidade?". Estabilidade é o retorno a valores normais de temperatura, frequência cardíaca, frequência respiratória, saturação, estado mental, pressão sistólica e capacidade de comer. Quem atinge todos eles até o terceiro dia de tratamento não precisa de sete: encerrar em cinco reduz efeito adverso, seleção de resistência e custo, e é o que a evidência citada pelos três documentos sustenta. Quem ainda tem febre, taquipneia ou necessidade de oxigênio no quinto dia não recebe alta com o tratamento encerrado — recebe investigação. Três situações escapam da regra e pedem tratamento longo, sem discussão: complicação local, como empiema, abscesso e pneumonia necrosante, com 7 a 21 dias; agente identificado que exige esquema próprio, como Staphylococcus aureus e Gram-negativos entéricos; e infecção metastática, como endocardite ou meningite. Qualquer que seja o número escolhido, ele precisa aparecer por escrito na receita, com a data em que o tratamento termina — a duração que não está escrita vira a duração que o paciente inventa.
Não usar de rotina, nem na forma grave — diretriz norte-americana de 2019
A recomendação de 2019 é de não usar corticoide de rotina na pneumonia não grave e de sugerir não usar na pneumonia grave, por incerteza sobre o efeito em mortalidade e por preocupação com hiperglicemia e com o uso indiscriminado.
Metlay JP e cols., Am J Respir Crit Care Med. 2019;200(7):e45-e67.
Usar no paciente hospitalizado com forma grave — atualização focada de 2024
A atualização conjunta de 2024 emite recomendação forte a favor do corticoide em adultos hospitalizados com pneumonia adquirida na comunidade grave, e registra que o painel não conseguiu definir molécula, dose e duração ideais.
Chaudhuri D e cols., 2024 Focused Update: Guidelines on Use of Corticosteroids in Sepsis, ARDS, and Community-Acquired Pneumonia. Crit Care Med. 2024;52(5):e219-e233.
Sugerir na forma grave, recomendar contra na não grave, excluir a pneumonia por influenza — atualização de 2025
A atualização de 2025 recomenda fortemente não administrar corticoide sistêmico na pneumonia não grave e sugere administrá-lo na forma grave, com exceção explícita da pneumonia por influenza. O documento brasileiro de 2018 já apontava na mesma direção ao concluir que o corticoide na forma grave se mostrou seguro e benéfico em desfechos clínicos importantes, e ao sugerir priorizar quem tem maior expressão inflamatória, identificada por proteína C-reativa acima de 150 mg/L.
Jones BE e cols., Am J Respir Crit Care Med. 2025;212(1):24-44; SBPT 2018, seção sobre corticoide adjuvante e Tabela 2.
A divergência é de época: a recomendação de 2019 foi escrita antes dos ensaios que mudaram o campo, e os documentos de 2024 e 2025 já os incorporam. Para o paciente à sua frente, três perguntas resolvem. A primeira: ele preenche critério de pneumonia grave — critério maior do consenso, ou três ou mais menores, ou admissão em terapia intensiva? Se não preencher, não use: nesse grupo a recomendação contra é forte e o dano — hiperglicemia, sobretudo — é real. A segunda: o agente é influenza? Se for, não use, porque essa é a exceção nomeada. A terceira: há contraindicação relativa que pese mais que o benefício — diabetes descontrolado, sangramento digestivo ativo, imunossupressão profunda, suspeita de tuberculose ou de infecção fúngica não tratada? Preenchidos os critérios e afastadas as exceções, qualquer um dos esquemas usados nos ensaios é defensável, porque nenhum documento elege um: hidrocortisona 200 mg por dia por 7 dias, prednisona 50 mg por dia por 7 dias, ou metilprednisolona 0,5 mg/kg de 12 em 12 horas por 5 dias. Escolha um, escreva a data de término junto com a dose, e meça glicemia capilar enquanto durar.
CURB-65 e CRB-65 — recomendação brasileira
O documento brasileiro apresenta o CURB-65 e o CRB-65 como instrumentos que se qualificam pela simplicidade, pela aplicabilidade imediata e pela facilidade de uso em ambientes hospitalares ou não, e usa suas faixas para sugerir o local de tratamento. Reconhece como limitação a ausência de comorbidades no cálculo, o que torna o valor preditivo negativo um pouco inferior ao do índice mais longo.
SBPT 2018, seção sobre escores de avaliação de gravidade; figuras 1 e 2.
Índice de gravidade da pneumonia, preferencialmente — diretriz norte-americana de 2019
A recomendação de 2019 é forte, com evidência de qualidade moderada, para usar uma regra de predição validada de prognóstico, preferencialmente o índice de gravidade da pneumonia, em vez do CURB-65, por identificar proporção maior de pacientes como de baixo risco e permitir mais altas seguras.
Metlay JP e cols., Am J Respir Crit Care Med. 2019;200(7):e45-e67.
Os dois instrumentos respondem à mesma pergunta com precisões e custos diferentes, e a escolha depende do que você tem. O CURB-65 tem cinco itens, quatro deles sem laboratório, e se calcula de cabeça no corredor — por isso ele é o que o interno de plantão de fato usa, e um escore usado vale mais que um escore melhor esquecido. O índice mais longo tem 20 variáveis, discrimina melhor o baixo risco e é o instrumento certo quando a pergunta é "dá para mandar este paciente para casa com segurança?" e há tempo e calculadora. Uma combinação prática funciona bem: calcule o CURB-65 em todos; se der zero ou um, e não houver veto, dê alta; se der dois, e você estiver inclinado a liberar, use o índice longo para sustentar a decisão; se der três ou mais, interne sem procurar segunda opinião de escore. E lembre da limitação comum aos dois: nenhum deles pondera comorbidade descompensada, hipoxemia e condição social do jeito que a decisão real exige — por isso os vetos existem, e por isso a documentação do que decidiu vale mais que o número.
Monoterapia com betalactâmico é suficiente — posição brasileira, britânica, europeia e latino-americana
A proposta do grupo executivo brasileiro é monoterapia com betalactâmico ou com macrolídeo para o paciente ambulatorial sem comorbidade, sem uso recente de antibiótico e sem fator de risco para resistência. As orientações britânicas, europeias e da Associação Latino-Americana do Tórax dão menos importância aos patógenos atípicos nos casos menos graves e não recomendam sua cobertura inicial, promovendo a amoxicilina como primeira escolha. Um estudo comparando betalactâmico isolado, betalactâmico com macrolídeo e nova fluoroquinolona não mostrou inferioridade da monoterapia na mortalidade em 90 dias na pneumonia não grave.
SBPT 2018, seção sobre antibioticoterapia — tratamento de pacientes ambulatoriais.
Amoxicilina em dose alta como primeira escolha, com macrolídeo e doxiciclina como alternativas condicionadas — diretriz norte-americana de 2019
Para o adulto previamente hígido, a recomendação de 2019 é forte para amoxicilina 1 g de 8 em 8 horas; doxiciclina 100 mg de 12 em 12 horas é recomendação condicional; e o macrolídeo isolado só é aceito em regiões onde a resistência do pneumococo a macrolídeos seja menor que 25%. Havendo comorbidade, a recomendação passa a ser combinação de betalactâmico com macrolídeo ou doxiciclina, ou monoterapia com quinolona respiratória.
Metlay JP e cols., Am J Respir Crit Care Med. 2019;200(7):e45-e67.
Comece por reconhecer que as duas posições concordam mais do que parece: nas duas, o adulto hígido tratado em casa recebe betalactâmico, e a discussão é sobre o que se acrescenta. Para decidir, pergunte três coisas. Há comorbidade, uso de antibiótico nos últimos três meses ou fator de risco para resistência? Se houver qualquer uma, acrescente o macrolídeo — nesse grupo as duas posições convergem para combinação. O quadro sugere legionela, com apresentação mais grave, sintomas gastrointestinais, confusão e hiponatremia? Se sugerir, o macrolídeo deixa de ser opcional, porque betalactâmico isolado não trata legionela. E, no Brasil, o macrolídeo isolado é uma escolha ruim para o pneumococo: um levantamento nacional de 2014 encontrou 17,2% de resistência do pneumococo à eritromicina no conjunto das faixas etárias — abaixo do limiar de 25% que a diretriz norte-americana usa para autorizar monoterapia com macrolídeo, mas alto o bastante para que ele seja a segunda escolha, e não a primeira, em quem pode tomar betalactâmico. A doxiciclina, que a diretriz norte-americana oferece como alternativa, está no componente estratégico da lista nacional e não é o que a farmácia básica dispensa — o que a torna uma opção de papel para a maior parte da rede.
O raciocínio, em voz alta
Elias, 58 anos, motorista de aplicativo, procura o pronto-socorro num sábado à tarde. Febre há quatro dias, tosse com catarro esverdeado e dor no lado esquerdo do peito que piora quando respira fundo. Fuma um maço por dia desde os vinte e oito anos. Tem diabetes tipo 2, usa metformina 850 mg de 12 em 12 horas e diz que "anda esquecendo" de tomar. Chega andando, fala frases inteiras, está incomodado com a dor. Temperatura axilar de 38,9 °C.
o que penso agora
Febre, tosse produtiva e dor pleurítica de quatro dias em tabagista de 58 anos: pneumonia adquirida na comunidade é a hipótese principal, e não vou gastar tempo disputando com o diferencial da dispneia sem foco, porque aqui já há foco. O que preciso saber não é o diagnóstico — é o tamanho dele. Peço os cinco dados que decidem antes de pedir qualquer exame.
os cinco dados
Frequência respiratória contada com relógio, um minuto inteiro, ele quieto: 32. Pressão arterial de 104 por 62 mmHg. Saturação de 93% em ar ambiente, antes de qualquer oxigênio. Orientado em tempo, espaço e pessoa; o cunhado que o trouxe confirma que ele está como sempre. Idade 58.
como isso muda o que penso
Três dos cinco já não pontuam: sem confusão, sistólica acima de 90 e diastólica acima de 60, idade abaixo de 65. A frequência respiratória de 32 pontua — está acima de 30. Falta a ureia, e ela pode ser a diferença entre um ponto e dois, que é a diferença entre candidato à alta e candidato à internação.
o que peço
Ureia e creatinina, glicemia, hemograma, sódio e potássio; radiografia de tórax em duas incidências, porque tenho acesso e porque menos de 40% dos diagnósticos se sustentam só com exame físico. Não peço hemocultura, não peço escarro, não peço procalcitonina e não peço tomografia — ainda não tenho pergunta que qualquer um deles responda.
a resposta que complica
Ureia de 46 mg/dL. Creatinina de 1,3 mg/dL. Glicemia de 342 mg/dL. Radiografia com consolidação em base esquerda, sem derrame visível. E a ureia de 46 cai exatamente no vão entre as duas réguas: pelo corte original do escore, 42 mg/dL, ela pontua e o CURB-65 é dois; pela transcrição de 50 mg/dL que circula nos textos brasileiros, ela não pontua e o escore é um.
como resolvo a discordância
Adoto o corte original, 42 mg/dL, porque foi com ele que as faixas de mortalidade foram construídas e porque ele erra para o lado de internar. O escore é dois: mortalidade intermediária, em torno de 9%, faixa em que se considera tratamento hospitalar. Mas percebo uma coisa mais importante: essa discussão não é a que decide o caso.
o que realmente decide
A glicemia de 342 mg/dL em quem admite esquecer a metformina é comorbidade descompensada, e comorbidade descompensada é um dos vetos que derrubam a alta independentemente da pontuação. Some-se a saturação de 93%, que está acima do corte de 92% mas sem folga nenhuma para uma noite ruim. Ele interna. Escrevo no prontuário a frase inteira: CURB-65 de dois pontos pelo corte de 42 mg/dL; interna por escore intermediário somado a diabetes descompensado.
a primeira hora
Hemocultura em dois sítios e escarro colhidos enquanto a enfermagem prepara a medicação — sem atrasar a dose. Ceftriaxona 1 g por via intravenosa de 12 em 12 horas, reconstituída em 10 mL de água para injeção, diluída em 100 mL de soro fisiológico e infundida em 30 minutos. Azitromicina 500 mg por via oral uma vez ao dia, porque ele engole e porque a apresentação injetável não existe na rede. Oxigênio titulado para manter saturação acima de 92%. Controle de glicemia capilar e insulina conforme o protocolo do serviço, seguindo o capítulo próprio sobre hiperglicemia no internado. Profilaxia de tromboembolismo venoso.
48 horas
Afebril há 20 horas, frequência respiratória de 20, saturação de 96% em ar ambiente sem oxigênio há um dia, pressão de 118 por 72, lúcido, comendo. Hemocultura negativa até agora. Ele preenche os sete parâmetros de estabilidade clínica. Troco a via: amoxicilina com clavulanato 500 mg + 125 mg por via oral de 8 em 8 horas, e mantenho a azitromicina até completar cinco dias.
alta no quinto dia
Completa cinco dias de tratamento contados desde a primeira dose, e sai com o esquema oral prescrito por escrito, com a data em que termina. Não peço radiografia para dar alta: ele melhorou clinicamente, e a imagem vai levar semanas para limpar. Marco retorno em dez dias, converso sobre a vacina da gripe e sobre cessação do tabagismo, e reforço o controle do diabetes — que é o que vai decidir a gravidade do próximo episódio.
o que teria mudado tudo
Se ele estivesse confuso, ou com sistólica de 88 mmHg, ou com saturação de 89%, o destino não seria a enfermaria — seria leito monitorizado, com a primeira dose administrada antes de qualquer transporte. E se a ureia tivesse voltado 46 mg/dL num paciente sem nenhum veto, com glicemia normal e com quem o levasse de volta em dois dias, a mesma discordância entre 42 e 50 mg/dL teria de ser resolvida do outro lado — e a decisão correta seria alta com retorno em 48 horas, não internação por precaução.
Faça você
Ivone, 72 anos, hipertensa, internada há 72 horas por pneumonia adquirida na comunidade em lobo inferior direito. Entrou com CURB-65 de três pontos — confusão leve, ureia de 61 mg/dL e frequência respiratória de 34 — e vem recebendo ceftriaxona 1 g por via intravenosa de 12 em 12 horas com azitromicina 500 mg por via oral uma vez ao dia, com a primeira dose administrada 40 minutos após a chegada. Nas primeiras 24 horas melhorou: voltou a se orientar, a frequência caiu para 26 e a saturação subiu de 91% para 95% em ar ambiente. Hoje, terceiro dia, piorou de novo. Temperatura de 38,7 °C com calafrio, frequência respiratória de 28, saturação de 90% em ar ambiente, pressão de 116 por 70 mmHg. Queixa-se de dor no lado direito do peito e prefere ficar deitada sobre esse lado. À percussão do hemitórax direito, macicez em base; frêmito tóraco-vocal abolido nessa região e murmúrio vesicular francamente diminuído. Hemoculturas da admissão negativas.
achado
Três dias de antibiótico adequado com melhora inicial e piora agora: febre que voltou com calafrio, saturação que caiu de 95% para 90%, dor pleurítica localizada, decúbito preferencial sobre o lado acometido e um exame torácico que mudou — macicez, frêmito abolido e murmúrio diminuído na base direita.
o que isso significa
Ausência de melhora, ou piora, dentro da janela de 48 a 72 horas caracteriza falha terapêutica. E a combinação de macicez com frêmito abolido, murmúrio diminuído e dor no mesmo hemitórax não é sinal de bactéria resistente: é sinal de que o problema mudou de lugar, do parênquima para o espaço pleural.
as cinco perguntas
Antes de escrever qualquer droga nova: apareceu complicação local — derrame, empiema, abscesso, necrose? o agente está fora do espectro escolhido — legionela, tuberculose, fungo, vírus? o esquema foi de fato administrado na dose, no intervalo e no horário? há doença de base ou obstrução por trás? o diagnóstico está errado? A checagem do aprazamento mostra que as seis doses previstas de ceftriaxona foram infundidas nos horários, e a azitromicina foi tomada nos três dias.
conduta
— sua vez —
Ver como fecharíamos
Não trocar o antibiótico — investigar o espaço pleural, que é a causa que o exame físico já apontou. Ajustar o oxigênio para manter saturação acima de 92% e solicitar ultrassonografia de tórax, que é o exame de escolha para estimar volume, identificar loculação e guiar a punção; a radiografia de controle entra junto, porque agora ela tem pergunta a responder — derrame, cavitação, progressão. Se o volume for significativo, toracocentese diagnóstica, com o líquido enviado para citologia, bioquímica com desidrogenase lática, glicose, proteína e pH, exame direto pelo Gram e cultura. Pus franco, bactéria no Gram, loculação ou repercussão respiratória indicam drenagem torácica: nenhuma dose de antibiótico esteriliza espaço fechado. Colher nova hemocultura antes de qualquer mudança de esquema, e só ampliar o espectro com hipótese nomeada — cobertura de anaeróbios se houver suspeita de aspiração ou empiema, com amoxicilina e clavulanato, clindamicina 600 mg por via intravenosa de 8 em 8 horas ou piperacilina-tazobactam. Confirmado o empiema, a duração deixa de ser de dias e passa a ser de 7 a 21 dias, contados a partir do controle do foco. Vale registrar o que o caso ensina fora da técnica: a melhora nas primeiras 24 horas provou que o antibiótico estava certo, e é justamente por isso que a piora no terceiro dia não é indicação de trocá-lo. Trocar aqui seria substituir uma droga que funcionou por outra que também não vai drenar. Na aplicação atual, não se acrescenta cobertura anaeróbia de rotina apenas por suspeita de aspiração; abscesso ou empiema mudam essa decisão (ATS/IDSA 2019).
O escore desta paciente é de um ponto — apenas a idade —, faixa de mortalidade baixa e candidata a tratamento ambulatorial. Só que escore é piso, não teto: ele autoriza a alta, não a obriga. Dois vetos estão presentes e cada um deles sozinho já decide. O primeiro é a saturação de 90% em ar ambiente: valores abaixo de 92% indicam internação, independentemente da pontuação, e esse critério não entra no cálculo justamente porque é medido à parte. O segundo é a condição social: a alta pressupõe que alguém perceba a piora e traga a paciente de volta dentro de 48 a 72 horas, e aqui não há quem perceba nem como voltar. Trocar a amoxicilina por quinolona não resolve nenhum dos dois problemas e acrescenta o risco de mascarar tuberculose num país de alta carga. Observar seis horas e liberar apenas transfere a decisão para depois do plantão. E a tomografia não decide destino: a extensão da consolidação na imagem não é o que separa quem fica de quem vai — pacientes com a mesma imagem podem ter destinos diferentes.
Teste-se
Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.
Plano de revisão
Em 7 dias
Apresente um caso com hipótese, gravidade, destino e antibiótico proposto. Explique o que a radiografia acrescenta e quais achados fariam rever internação, cobertura ou necessidade de drenagem.
Em 30 dias
Reavalie uma pneumonia que não melhorou: tempo de resposta, adesão, diagnóstico alternativo, resistência e complicações pleurais. Discuta alta com estabilidade clínica, via oral e plano de retorno, sem depender apenas do número de dias.
Agora atenda
Homem de 74 anos chega ao pronto-socorro trazido pela filha, com tosse há cinco dias e febre. Ela conta que ele "não está reconhecendo direito" desde ontem e comeu pouco. Conte a frequência respiratória, meça a saturação em ar ambiente, verifique a confusão com a acompanhante, calcule a gravidade, decida onde ele vai dormir e prescreva o esquema daquele destino — com dose, via, intervalo e duração — dizendo à filha, com as palavras dela, o que está acontecendo.
