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Clínica MédicaPneumologia

Asma: chiar não é diagnóstico, e sentir-se bem não é controle

Asma: diagnóstico, controle e tratamento escalonado

Confirmar a asma com teste funcional antes de fixar o rótulo, medir o controle com uma régua em vez de estimá-lo, subir e descer degraus dentro do que a farmácia do SUS entrega, e reconhecer a crise que não pode ir para casa.

Fontes deste capítulo

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção Especializada à Saúde; Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação em Saúde. Portaria Conjunta SAES/SCTIE nº 43, de 24 de março de 2026. Aprova o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas de Asma. Brasília: Ministério da Saúde, 2026.

Pizzichini MMM, Carvalho-Pinto RM, Cançado JED, Rubin AS, Cerci Neto A, Cardoso AP, Cruz AA, Fernandes ALG, Blanco DC, Vianna EO, Cordeiro Jr G, Rizzo JA, Fritscher LG, Caetano LSB, Pereira LFF, Rabahi MF, Oliveira MA, Lima MA, Almeida MB, Stelmach R, Pitrez PM, Cukier A. Recomendações para o manejo da asma da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia — 2020. Jornal Brasileiro de Pneumologia. 2020;46(1):e20190307.

Comissão de Asma da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia; Grupo de Trabalho das Diretrizes para Asma da SBPT. Diretrizes da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia para o Manejo da Asma — 2012. Jornal Brasileiro de Pneumologia. 2012;38(supl.1):S1-S46.

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Ciência, Tecnologia, Inovação e Insumos Estratégicos em Saúde. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais: Rename 2024. Brasília: Ministério da Saúde, 2024. 252 p. ISBN 978-65-5993-710-3.

GlaxoSmithKline Brasil. Aerolin (sulfato de salbutamol) solução para nebulização 5 mg/mL — bula para o profissional de saúde. Rio de Janeiro: GSK, [s.d.].

01

Responda antes de ler

Homem de 58 anos, ex-tabagista de 20 maços-ano, refere dispneia que varia muito de intensidade ao longo das semanas, com gatilhos identificáveis, e conta que teve asma na infância. A espirometria mostra limitação persistente do fluxo aéreo com resposta parcial ao broncodilatador. O quadro tem características das duas doenças. Qual é o tratamento inicial correto?

02

O paciente que você vai ver

Segunda-feira, sete e quarenta da manhã. A unidade básica atende um bairro ligado ao hospital de referência por uma única linha de ônibus, e a viagem leva quarenta minutos quando não chove. A agenda da manhã tem dezessete nomes, mais duas vagas de demanda espontânea já ocupadas antes de a porta abrir. O interno escalado para a sala 2 é você. Do outro lado da parede, a médica da equipe começou um pré-natal que vai demorar. Antes da primeira ficha, a técnica de enfermagem, a Lucimar, deixa duas pastas na sua mesa e diz uma frase que parece organização e é diagnóstico: "essas duas são as suas, e as duas têm asma".

A primeira pasta é de Zulema Bicalho, 38 anos, auxiliar de lavanderia num hospital particular. Ela entra chiando. Não é aquele chiado que só o estetoscópio ouve: é o que a Lucimar ouviu do corredor. Zulema senta, apoia as duas mãos nos joelhos, e fala em frases inteiras — o que já é uma informação, e das boas. Diz que veio buscar receita da bombinha, porque a farmácia não entrega mais sem papel. Tem asma "desde criança", frase que na pasta aparece escrita por três profissionais diferentes ao longo de nove anos e que ninguém em lugar nenhum registrou de onde veio.

Você pergunta quantas bombinhas ela usou desde a última receita. Ela abre a bolsa e coloca três frascos de salbutamol em cima da mesa, dois vazios e um pela metade. A receita anterior tem data de quatro meses atrás. Você faz a conta com ela em voz alta e ela mesma se surpreende: dois frascos e meio em cento e vinte dias. Na pasta não há corticoide inalatório em receita nenhuma. Há, sim, dois atendimentos em pronto-socorro no último ano, um deles com prednisona por cinco dias, e nas duas vezes o encaminhamento dizia "retornar à unidade", coisa que não aconteceu.

A segunda pasta é de Idelfonso Ribas, 46 anos, porteiro de um prédio residencial, nunca fumou. A queixa está escrita na ficha com quatro palavras: tosse há três meses. Não chia. Não tem febre, não emagreceu, não sua à noite. Tossiu na frente de dois médicos, tomou amoxicilina na primeira vez e azitromicina na segunda, e a tosse continua igual. Traz um raio X de tórax de cinco semanas atrás com laudo de "exame dentro dos limites da normalidade". Ele senta e diz, antes de qualquer pergunta, a frase que resume três meses: "doutor, à noite é pior".

Os dois casos parecem opostos e são o mesmo problema visto de dois lados. Zulema tem um rótulo de asma que ninguém confirmou e um tratamento que ninguém escalonou; Idelfonso tem uma asma possível que ninguém considerou porque ele não chia. Entre os dois, o interno vai precisar de duas coisas que não estão na pasta: um teste que mostre variação do fluxo aéreo e uma régua que meça controle em vez de estimá-lo.

Há um terceiro paciente que não está nesta agenda e vai aparecer neste capítulo mais adiante: o que chega ao pronto-socorro em crise. Ele é o desfecho que o consultório existe para evitar, e é onde as decisões ficam mais curtas — quanto beta2-agonista, quando o corticoide entra, qual saturação autoriza a alta e qual delas obriga a internação. As três cenas usam as mesmas duas ideias: asma é uma doença de fluxo aéreo que varia, e o tratamento que muda o desfecho é anti-inflamatório, não broncodilatador.

Uma advertência de território antes de começar. Este capítulo é do adulto. Sibilância no lactente e na criança pequena, teste terapêutico com corticoide inalatório na pré-escola e manejo da crise pediátrica são de "Crise asmática na criança", na apostila de Pneumologia Pediátrica, e não são reescritos aqui. Pneumonia adquirida na comunidade é do capítulo vizinho, "Pneumonia na comunidade: onde este paciente vai dormir". Doença pulmonar obstrutiva crônica entra aqui só como diferencial — o que separa uma da outra — e o manejo dela fica com o capítulo de DPOC desta mesma apostila e com o PCDT da DPOC vigente. Anafilaxia, que entra na lista de diferenciais de dispneia com sibilo, tem capítulo próprio: "Anafilaxia e choque anafilático no pronto-socorro", em Medicina de Emergência.

Uma fronteira sem dono precisa ser dita, porque ela decide onde este capítulo para. Não há, no nível Internato, capítulo de insuficiência respiratória aguda, de ventilação não invasiva ou de intubação fora do trauma — o que existe são "Dessaturação aguda na enfermaria" e "Dispneia aguda indiferenciada", que atacam o sintoma e não o suporte ventilatório. Este capítulo assume a crise asmática até o ponto em que ela deixa de ser tratamento farmacológico e passa a ser suporte: reconhecer a insuficiência respiratória, saber que a deterioração progressiva, a necessidade de ventilação mecânica e a parada cardiorrespiratória são critérios de transferência para terapia intensiva, e chamar quem intuba. Escolha de modo ventilatório, parâmetros e a discussão sobre ventilação não invasiva na asma ficam fora — e, no nível Internato, hoje ficam sem endereço.

O que sobra para o interno, e que este capítulo assume, é a faixa do meio: o adulto que chega chiando, o adulto que chega tossindo sem chiar, a decisão de confirmar antes de tratar, a medida do controle, a escolha do degrau dentro do que existe na farmácia, a descida do degrau quando o paciente melhora, e o reconhecimento da crise que não pode ir para casa.

03

Quem adoece disso

A asma é comum o suficiente para que a estatística encoste no consultório todos os dias. O PCDT da Asma de 2026 registra o Brasil na quinta posição em prevalência entre adultos da América do Sul, com 4,6% da população, e na segunda posição quando a conta é de crianças, com 12,1%. Numa agenda de dezessete adultos, a aritmética simples põe uma pessoa com asma na sala, e o inquérito nacional citado pelas recomendações de 2020 da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia acrescenta o detalhe que muda a conduta: apenas 12,3% dos asmáticos brasileiros tinham asma bem controlada.

O número que dói é o de internação. O mesmo PCDT traz a série do Sistema de Informações Hospitalares: 134.222 internações por asma no SUS em 2013 e 87.707 em 2023, com permanência média em torno de três dias ao longo de todo o período. A queda é real e vem sendo atribuída ao maior acesso a tratamento; ainda assim, oitenta e sete mil internações por ano são oitenta e sete mil eventos que, na maior parte, começaram numa consulta de rotina que não escalonou o tratamento ou numa receita que só tinha broncodilatador.

A mortalidade é o argumento definitivo contra tratar asma com calma. O PCDT registra, pelo Sistema de Informações sobre Mortalidade, prevalência média de 1,16 óbito por 100.000 habitantes por ano entre 2014 e 2021, com 64% dos óbitos em mulheres e a maior proporção em pessoas de 60 anos ou mais; crianças e adolescentes respondem por 2%. O documento traduz isso na frase que o interno deve levar para o plantão: uma média de seis mortes por asma por dia no Brasil.

Repare no perfil de quem morre. Não é o adolescente atópico do estereótipo: é sobretudo mulher e sobretudo idosa. Isso conversa com dois achados do próprio protocolo — a asma no idoso é subdiagnosticada porque a dispneia é aceita como parte do envelhecimento e porque doença pulmonar obstrutiva crônica e insuficiência cardíaca embaralham o quadro. A idosa que chia, no Brasil, tem mais chance de ser tratada como "cansaço da idade" do que como asma, e é ela quem aparece na estatística de óbito.

Adesão é o outro número que decide desfecho. As recomendações de 2020 citam inquérito nacional em que apenas 32% dos asmáticos eram aderentes ao tratamento, e apontam a baixa adesão como a principal causa de falta de controle. O documento separa o que é voluntário — medo do corticoide, crença de que a bombinha "vicia" — do que é involuntário: falta de acesso ao medicamento e dificuldade em usar o dispositivo. As duas metades pedem condutas diferentes, e confundir uma com a outra é o erro que transforma problema de acesso em rótulo de paciente não aderente.

O custo aparece nas duas pontas. As recomendações de 2020 estimam que a asma grave comprometa mais de um quarto da renda familiar entre usuários do SUS, e o PCDT registra evidência nacional de que acompanhamento especializado com oferta de medicamento melhora o controle e reduz de forma significativa o custo para as famílias e para o sistema. Isso é epidemiologia com consequência de prescrição: receita que o paciente não consegue aviar não é tratamento, é despesa transferida.

Um último número, do lado do diagnóstico. Estudo com adolescentes brasileiros citado nas recomendações de 2020 encontrou 23% com sintomas de asma e 12% com diagnóstico prévio — quase metade dos sintomáticos sem rótulo. O inquérito da Organização Mundial da Saúde entre adultos de 18 a 45 anos citado no mesmo documento encontrou os mesmos 23% de sintomas contra 12% de diagnóstico. Subdiagnóstico dessa ordem significa que, para cada Zulema com rótulo não confirmado, existe um Idelfonso com asma sem rótulo nenhum.

04

Por que acontece o que acontece

A definição que o PCDT usa é útil justamente porque é chata: asma é doença respiratória crônica, heterogênea e complexa, caracterizada por inflamação das vias aéreas e por sintomas respiratórios recorrentes — sibilância, dispneia, opressão torácica e tosse — que variam em intensidade e flutuam ao longo do tempo, associados a fluxo aéreo expiratório variável, que pode se tornar persistente. Cada pedaço dessa frase é um pedaço da conduta. A inflamação justifica o corticoide; a variação justifica o teste funcional repetido; o "pode se tornar persistente" justifica a pressa.

A obstrução da asma tem três componentes que somam no mesmo lugar. O músculo liso brônquico contrai, o que é rápido de instalar e rápido de reverter; a mucosa edemacia, o que é mais lento nos dois sentidos; e o muco se acumula na luz, o que é o mais lento de todos. O beta2-agonista de curta duração atua sobre o primeiro componente e só sobre ele. Isso explica, num só raciocínio, por que a bombinha de alívio funciona em minutos e por que ela não resolve nada: ela desfaz o espasmo e deixa o edema e o muco no lugar, prontos para o espasmo seguinte.

O corticoide inalatório atua sobre o componente que o broncodilatador não alcança. Por isso o PCDT é categórico em dois princípios que o interno precisa saber de cor: não se trata asma apenas com beta2-agonista de curta duração, pelo risco aumentado de exacerbação grave e morte; e todos os pacientes devem receber tratamento contendo corticoide inalatório. Isso não é gosto de serviço nem tradição de enfermaria: separa tratar o sintoma de tratar a doença que o produz.

Há um mecanismo perverso escondido no uso isolado do beta2-agonista, e ele explica por que uma droga que alivia pode matar. Quem usa só broncodilatador sente-se bem depressa a cada crise e, portanto, não procura ajuda; a inflamação segue avançando sem tratamento; e o alívio repetido embota a percepção da gravidade. O PCDT quantifica o alerta: mais de três frascos de 200 doses ao ano já configura uso excessivo, o que corresponde a uso médio superior a uma dose por dia. As recomendações de 2020 vão além e registram que o uso de mais de um frasco por mês se associa a maior risco de morte por asma.

O formoterol é o motivo pelo qual o alívio pode carregar anti-inflamatório junto. Ele é um beta2-agonista de longa duração, mas de início de ação rápido — combinação incomum na classe. Isso permite usar o mesmo inalador de corticoide com formoterol como manutenção e como resgate, o que o PCDT chama de MART, terapia de manutenção e alívio, e de AIR quando o mesmo dispositivo é usado só sob demanda. A consequência prática é elegante: cada vez que o paciente sente sintoma e usa o inalador, ele recebe uma dose extra do anti-inflamatório exatamente no momento em que a inflamação está pior.

O contrário disso é uma armadilha de prescrição. Combinações de corticoide inalatório com um beta2-agonista de longa duração que não seja formoterol não servem como medicamento de alívio, por início de ação mais lento — o PCDT cita explicitamente o salmeterol. E o beta2-agonista de longa duração isolado, sem corticoide, é contraindicado na asma: as recomendações de 2020 registram que a monoterapia com esse grupo aumenta o risco de hospitalização e de morte por asma, e o tratam como efeito de classe. O quadro de asma-DPOC do PCDT repete a regra em letra de fôrma: não administrar beta2-agonista de longa duração sem corticoide inalatório.

O exame físico normal não desmente nada. O achado mais comum na asma é sibilo expiratório, e o próprio PCDT registra que ele pode estar ausente ou audível só na expiração forçada. Pior: na exacerbação grave a sibilância também desaparece, e aí por obstrução extrema — pouco ar movido produz pouco ruído. É por isso que o mesmo achado, tórax sem sibilos, aparece na coluna mais leve e na coluna mais grave da tabela de gravidade da crise. O que separa as duas colunas não é o sibilo: é o murmúrio vesicular, o esforço, a fala e a saturação.

Por fim, a parte que dá pressa ao diagnóstico. A limitação do fluxo aéreo, que começa variável, pode se tornar persistente com o tempo, e o PCDT lista entre os fatores de risco para isso a ausência de tratamento com corticoide inalatório em quem já teve exacerbação grave. Traduzindo para a pasta de Zulema: nove anos de salbutamol sem corticoide não são só nove anos de sintoma mal controlado, são nove anos de oportunidade de preservar função pulmonar que passaram.

Cortes de brônquio normal e com estreitamento por músculo liso espessado, edema mucoso e muco.
A obstrução na asma combina broncoconstrição, inflamação, edema e muco, com remodelamento variável. Broncodilatadores e tratamento anti-inflamatório atuam em aspectos complementares. O desenho resume mecanismos e não pressupõe que o corticosteroide remova imediatamente um tampão de muco ou que todo paciente tenha as mesmas alterações. Ilustração didática original.
05

Como se apresenta de verdade

A asma não tem um quadro; tem um padrão. O que aumenta a probabilidade não é qual sintoma o paciente relata, e sim como esse sintoma se comporta no tempo. Quatro sintomas entram na conta — sibilância, falta de ar, aperto no peito e tosse — e nenhum deles, sozinho, vale muito. O que vale é a variação: eles vão e voltam, mudam de intensidade, pioram à noite ou nas primeiras horas da manhã, e aparecem diante de gatilhos identificáveis.

As seções a seguir percorrem o espectro que o interno encontra: o padrão que sugere asma, o padrão que empurra para outro diagnóstico, a asma que se apresenta só como tosse, a asma que começa depois dos quarenta e cheira a trabalho, a fronteira com a doença pulmonar obstrutiva crônica e, por fim, a crise — que tem apresentação própria e engana justamente quem procura sibilo.

Percurso de aprendizagem

Comece pela crise e seus sinais de gravidade, com reavaliação da resposta e reconhecimento de necessidade de ajuda.

Passe ao diagnóstico de limitação variável e à avaliação de controle e risco. Evite rotular todo sibilo como asma.

Finalize com terapia que contém corticoide inalatório, demonstração técnica e plano de ação. Estude escalonamento e tratamentos especiais após revisar adesão, técnica e exposição.

1. O padrão que sugere asma, e por que ele vale mais que o sintoma

O PCDT lista como sugestivos os sintomas respiratórios que apresentem variação ao longo do tempo e em intensidade, com piora típica durante a noite ou nas primeiras horas da manhã, e que costumam ser desencadeados por infecções virais, exercício físico, exposição a alérgenos, mudanças climáticas, riso ou irritantes ambientais como fumaça, poluentes ou odores fortes. A frase de Idelfonso — "à noite é pior" — é, sozinha, mais informativa que a ausculta de todo o consultório.

Riso como gatilho merece atenção porque é a pergunta que ninguém faz e que quase nunca dá falso positivo. O mesmo vale para ar frio e para o cheiro de produto de limpeza. Quando o paciente reconhece um gatilho reprodutível, ele está descrevendo hiperresponsividade brônquica em linguagem leiga, e isso é conteúdo diagnóstico.

Dois antecedentes deslocam a probabilidade para cima: início dos sintomas ainda na infância e presença atual ou pregressa de rinite alérgica ou eczema, além de história familiar de asma ou alergia. O PCDT trata a associação entre vias aéreas superiores e inferiores como regra e não exceção — rinite alérgica é a comorbidade mais comum na asma. Perguntar por espirro, prurido nasal, congestão e rinorreia faz parte da anamnese de asma, não é digressão.

O que a asma faz ao corpo de quem trabalha em pé também conta. Zulema conta que sobe dois lances de escada da lavanderia e chega "puxando", e que passou a evitar a escada. Evitar esforço é a forma mais comum de mascarar descontrole: o paciente reduz a demanda até que o sintoma suma, e depois responde que está bem. O PCDT registra exatamente esse mecanismo ao advertir que uma pessoa sedentária pode não relatar incômodo mesmo com função pulmonar reduzida.

Nada disso, somado, fecha diagnóstico. O protocolo é explícito ao dizer que o diagnóstico se dá pela identificação tanto de critérios clínicos quanto funcionais, obtidos por anamnese, exame físico e exames de função pulmonar, e deve ser baseado, sempre que possível, na combinação desses elementos. A clínica sugere; quem confirma é a espirometria.

2. O que empurra para outro diagnóstico

Há achados que o PCDT classifica como menos compatíveis com asma e que devem acender a luz do diferencial: produção crônica de escarro; falta de ar acompanhada de tontura ou parestesia; dor torácica; e dispneia induzida por exercício com ruído inspiratório. Cada um aponta para um lugar diferente, e nenhum deles exclui asma sozinho — apontam para investigar antes de rotular.

Escarro crônico e infecções de repetição levam a bronquiectasia e à própria doença pulmonar obstrutiva crônica. Tontura, parestesia e suspiros levam a hiperventilação e respiração disfuncional, que é diagnóstico de exclusão mas existe e é comum. Ruído inspiratório, ou estridor, durante o esforço leva a obstrução laríngea induzível, condição que o PCDT destaca como frequente em atletas e em atividades de alta intensidade — e que costuma passar anos como "asma que não responde a nada".

No exame, dois achados são explicitamente atípicos para asma: crepitações e sibilância inspiratória. Crepitação empurra para insuficiência cardíaca, pneumonia e doença parenquimatosa; sibilância inspiratória empurra para obstrução alta. Já a sibilância expiratória não é exclusiva de asma e aparece em obstrução laríngea funcional, doença pulmonar obstrutiva crônica, infecções respiratórias, traqueomalácia e aspiração de corpo estranho.

No adulto de qualquer idade, um diferencial é obrigatório no Brasil e tem capítulo próprio: tosse crônica com hemoptise, dispneia, fadiga, febre, suores noturnos, anorexia e perda de peso é tuberculose até que se prove o contrário, e o quadro de diferencial do PCDT a lista para todos os pacientes de 6 anos em diante. O rastreio, o escarro, o teste molecular e o esquema estão em "Tuberculose: a pergunta que ninguém faz", na apostila de Infectologia, e não são reescritos aqui. Vale guardar uma consequência prática que o PCDT registra e que raramente se ouve: a espirometria não deve ser realizada em indivíduo com suspeita de tuberculose.

Duas causas de tosse que se resolvem com a caneta e que costumam sumir na anamnese apressada: tosse relacionada a inibidor da enzima conversora de angiotensina, que o quadro do PCDT lista para os maiores de 40 anos, e a síndrome da tosse das vias aéreas superiores — o gotejamento pós-nasal, com espirros, prurido, nariz entupido e pigarro. Antes de escalonar bombinha em quem tosse, vale conferir se o paciente usa um desses medicamentos e se o nariz está entupido.

3. A asma que não chia: o adulto com tosse de três meses

Tosse é um dos quatro sintomas típicos, e nada no PCDT exige que ela venha acompanhada de sibilo. O adulto que tosse há meses, com piora noturna e de madrugada, com gatilho reprodutível e com exame físico e radiografia normais, é apresentação de asma até que a função pulmonar diga o contrário. Chamar isso de "asma variante tosse" ajuda pouco na conduta: o que muda a conduta é submeter esse paciente ao mesmo teste funcional que qualquer outro suspeito de asma.

O problema é que essa apresentação tem alta chance de espirometria normal. É exatamente a situação prevista no protocolo: quando o teste de função pulmonar não confirma fluxo aéreo expiratório variável, recomenda-se repeti-lo em outras circunstâncias — durante o período de sintomas, nas primeiras horas da manhã, ou após a suspensão do broncodilatador pelo tempo recomendado — e considerar testes adicionais.

Para esse paciente, o teste de provocação brônquica é o instrumento certo pelo motivo certo. O PCDT registra que a provocação com metacolina apresenta alto valor preditivo negativo, sendo eficaz para descartar o diagnóstico de asma. Isto é: se você quer parar de tratar asma em alguém que não tem, esse é o exame que resolve. Se ele não existe na sua rede, isso é uma informação a registrar no prontuário e a encaminhar, não uma licença para tratar às cegas para sempre.

Uma pista clínica útil no consultório enquanto o exame não sai: a resposta ao broncodilatador pode estar temporariamente ausente durante exacerbações graves ou infecções virais. Um paciente que fez espirometria normal na semana seguinte a um resfriado forte pode precisar repetir fora daquele contexto — e não ser dispensado com "não é asma".

Idelfonso é esse paciente. Ele não chia, tossiu na frente de dois médicos, tomou dois antibióticos, tem radiografia normal e piora noturna. O que falta na pasta dele não é mais um antibiótico: é uma espirometria com prova broncodilatadora, feita fora do período de infecção, e uma pergunta que ninguém fez sobre o que ele respira no trabalho.

4. Asma que começa no adulto: a pergunta sobre o trabalho

O PCDT é direto: em indivíduos com asma de início na vida adulta, asma previamente controlada que se tornou mal controlada, ou reaparecimento de sintomas de asma iniciada na infância, deve-se investigar a possibilidade de componente ocupacional. São três gatilhos de suspeita, e os três aparecem com frequência na atenção primária.

A pergunta que abre esse diagnóstico é simples e quase nunca é feita: os sintomas permanecem os mesmos, melhoram ou pioram nos dias em que a pessoa está afastada do trabalho — fins de semana, feriados, férias, intervalos entre turnos? O protocolo pede que todas as respostas sejam registradas de forma sistemática para análise clínica e revisão em consultas futuras. Registrar importa porque o padrão só aparece quando há mais de uma consulta anotada.

Zulema trabalha numa lavanderia hospitalar. Produtos de limpeza estão entre os agentes que as recomendações de 2020 citam nominalmente como exposição ocupacional associada à dificuldade de controle, ao lado de látex e de agentes de baixo peso molecular, e o mesmo documento lembra que a exposição ocupacional pode ser a causa da asma, não apenas um agravante.

O que muda na conduta se a resposta for positiva? Muda muito, e é a parte que nenhuma bombinha substitui. O PCDT afirma que, no contexto da asma ocupacional, a identificação precoce e a eliminação dos agentes sensibilizantes são fundamentais e que pacientes sensibilizados devem ser removidos de qualquer exposição adicional o mais rapidamente possível, com encaminhamento para avaliação especializada quando disponível. Nenhum degrau de tratamento compensa uma exposição diária mantida.

Vale ainda o teste funcional caseiro que o próprio protocolo autoriza: na falta de espirometria, uma mudança de pelo menos 20% no pico de fluxo expiratório é indicativa de asma, e o documento destaca que essa medida é especialmente útil no diagnóstico de asma ocupacional. Medir o pico de fluxo duas vezes ao dia por duas semanas, incluindo dias de trabalho e dias de folga, é o desenho que revela o padrão — quando existe medidor.

5. Depois dos 40: onde a asma encosta na doença pulmonar obstrutiva crônica

Esta seção é a fronteira mais perigosa do capítulo, e por isso ela declara logo o que faz e o que não faz. Ela ensina a separar asma de doença pulmonar obstrutiva crônica na porta do consultório. Ela não ensina a tratar doença pulmonar obstrutiva crônica: estável ou exacerbada, isso é do capítulo de DPOC desta mesma apostila de Pneumologia e do PCDT da DPOC vigente, que o próprio PCDT da Asma cita como destino de duas condutas específicas. A linha foi traçada onde a decisão muda de dono: aqui vai até a escolha do tratamento inicial e para.

O quadro de diferencial do PCDT organiza a suspeita por idade. A partir dos 40 anos, entram na lista tosse, expectoração e dispneia aos esforços em quem tem tabagismo ou exposição nociva — doença pulmonar obstrutiva crônica; dispneia com esforço, sintomas noturnos e edema de tornozelo — insuficiência cardíaca; dispneia com esforço, tosse não produtiva e baqueteamento digital — doença pulmonar parenquimatosa; início súbito de dispneia com dor no peito — embolia pulmonar. A idade de Idelfonso, 46 anos, já o coloca nessa lista mesmo sem carga tabágica.

O que separa asma de doença pulmonar obstrutiva crônica, segundo o quadro do protocolo, cabe em três eixos. Tempo: sintomas que variam ao longo do tempo e em intensidade favorecem asma; dispneia persistente na maioria dos dias favorece doença pulmonar obstrutiva crônica. Idade de início: antes dos 40 favorece asma; depois dos 40 favorece a outra. Exposição e história: diagnóstico atual ou na infância de asma favorece asma; história de tabagismo, exposições tóxicas, baixo peso ao nascer ou doenças respiratórias prévias como tuberculose favorece doença pulmonar obstrutiva crônica.

Na função pulmonar a separação é menos limpa do que se imagina, e o quadro reconhece isso: asma tem limitação variável do fluxo aéreo e pode ter limitação persistente; doença pulmonar obstrutiva crônica tem limitação persistente com ou sem reversibilidade ao broncodilatador. Ou seja, resposta positiva ao broncodilatador não exclui doença pulmonar obstrutiva crônica, e limitação persistente não exclui asma. O protocolo também registra que a variabilidade elevada no pico de fluxo expiratório pode aparecer na sobreposição das duas.

A consequência prática é uma só e não admite dúvida: quando há características de asma, ou quando o quadro é de sobreposição, o tratamento com corticoide inalatório é essencial para reduzir o risco de exacerbações graves e morte, e não se administra beta2-agonista de longa duração — nem antagonista muscarínico de longa duração — sem corticoide inalatório. Broncodilatador de ação prolongada isolado é tratamento inicial de doença pulmonar obstrutiva crônica, não de asma. Na dúvida entre as duas, o PCDT manda tratar como asma e reavaliar em 2 a 3 meses, encaminhando se houver incerteza diagnóstica ou resposta inadequada. É a assimetria que salva: errar para o lado do corticoide custa candidíase oral; errar para o lado do broncodilatador isolado custa exacerbação grave.

6. A crise: o que se vê, e o que engana

A exacerbação quase nunca é um raio em céu azul. As diretrizes de 2012 registram que, na maioria das vezes, as exacerbações ocorrem de forma gradual, com deterioração clínica progressiva ao longo de 5 a 7 dias, e que as causas mais comuns são infecções virais ou exposição a alérgenos, seguidas de poluição, exposição ocupacional e medicamentos, sendo os anti-inflamatórios não esteroidais os mais frequentes. Isso significa que quase toda crise que chega ao pronto-socorro teve uma semana de aviso.

A avaliação inicial é clínica, rápida e objetiva, e tem um instrumento obrigatório: a oximetria de pulso, que as diretrizes mandam adotar em todas as faixas etárias para avaliação acurada da gravidade — nunca interpretada de maneira exclusiva e isolada do contexto clínico. No adulto, sempre que possível, acrescenta-se medida objetiva de obstrução, por espirometria ou pico de fluxo seriado.

Os parâmetros que separam leve e moderada de grave, no quadro de classificação de 2012, são de beira de leito: estado mental, dispneia, fala em frases completas ou incompletas, retrações, frequência cardíaca, pico de fluxo em porcentagem do previsto e saturação. Zulema falando frases inteiras, sem retração, sem agitação, com frequência cardíaca abaixo de 110, está na coluna leve a moderada — e é isso, não a intensidade do chiado, que define o quanto se tem de tempo.

O que engana é o silêncio. No quadro de 2012, sibilância ausente com murmúrio vesicular normal fica na coluna leve a moderada, e sibilância ausente com murmúrio vesicular diminuído fica na coluna muito grave, ao lado de cianose, sudorese, exaustão, confusão, sonolência e fala monossilábica. O mesmo achado de ausculta ocupa as duas pontas da tabela. Quem ausculta procurando sibilo e volta aliviado do leito de uma insuficiência respiratória cometeu o erro que a tabela existe para prevenir.

A frequência cardíaca tem a mesma armadilha no extremo. Acima de 110 por minuto é sinal de gravidade, mas o marcador de muito grave é acima de 140 ou bradicardia — e bradicardia num asmático em crise, com esforço respiratório visível, é sinal pré-terminal, não sinal de calma. O mesmo vale para agitação: no quadro, agitação aparece já na coluna grave, e confusão e sonolência na muito grave. Paciente asmático agitado está hipoxêmico até prova em contrário, e não é candidato a sedação.

Por fim, a história pesa tanto quanto o exame. As diretrizes de 2012 listam os dados que identificam risco de evolução fatal ou quase fatal no adulto, e no topo dessa lista está a exacerbação prévia grave que exigiu internação em terapia intensiva, sobretudo quando houve ventilação mecânica. Entram também três ou mais visitas à emergência ou duas ou mais hospitalizações por asma no último ano, uso frequente de corticoide sistêmico, uso de dois ou mais frascos de beta2-agonista de curta duração por mês, problemas psicossociais e dificuldade de acesso à assistência, comorbidade cardiovascular ou psiquiátrica, asma lábil e má percepção do grau de obstrução. Perguntar isso leva quarenta segundos e muda o limiar de internar.

06

Como fechar o diagnóstico

Investigar asma tem uma peculiaridade que quase nenhuma outra investigação do internato tem: o exame que confirma pode vir normal em quem tem a doença, e isso não é falha do exame. É a doença sendo variável. Daí a regra central do PCDT: quanto maiores e mais frequentes forem as variações, maior a confiabilidade no diagnóstico; e, se o resultado inicial for negativo, os testes podem ser repetidos durante os sintomas ou nas primeiras horas da manhã.

Há uma segunda regra de sequência, e ela é a que mais se desobedece na atenção primária: é recomendado, sempre que viável, que a confirmação diagnóstica aconteça antes do início do tratamento com corticoide inalatório, porque a introdução precoce dessa terapia reduz a variabilidade dos sintomas e das alterações funcionais e dificulta identificar os critérios típicos. Confirmar primeiro não é preciosismo: é a diferença entre um diagnóstico e um rótulo vitalício.

1. Espirometria com prova broncodilatadora: o que ela precisa mostrar

A avaliação da função pulmonar é preferencialmente por espirometria, com análise do volume expiratório forçado no primeiro segundo e da relação entre ele e a capacidade vital forçada. O que o exame precisa mostrar para confirmar asma no adulto está escrito com número no PCDT: aumento do volume expiratório forçado no primeiro segundo — ou da capacidade vital forçada — maior ou igual a 12% e a 200 mL em relação ao basal, com maior confiabilidade se o aumento for maior ou igual a 15% e a 400 mL.

Os dois critérios são simultâneos, e é aqui que a leitura apressada erra. Doze por cento sem duzentos mililitros não confirma; duzentos mililitros sem doze por cento não confirma. Num paciente com volume expiratório forçado basal de 1,5 L, 12% são 180 mL — abaixo do piso absoluto, e portanto insuficiente mesmo tendo passado no critério percentual. O mesmo paciente precisa de pelo menos 200 mL, o que equivale a 13,3% do basal dele. Quanto menor o volume de partida, mais o critério em mililitros manda.

A técnica da prova tem tempo e dose: medir de 10 a 15 minutos após a inalação de 200 a 400 microgramas de salbutamol ou equivalente, comparando com os valores anteriores. O teste é mais confiável se o broncodilatador tiver sido suspenso antes, e o PCDT dá os prazos: beta2-agonista de curta duração por pelo menos 4 horas; formoterol e salmeterol por 24 horas; tiotrópio, umeclidínio e glicopirrônio por 36 a 48 horas. Paciente que usou a bombinha de resgate no ônibus a caminho do laboratório pode fazer um exame que não confirma nada.

Duas trocas de vocabulário que o PCDT registra e que valem para conversar com quem faz o exame. O que se chamava de reversibilidade agora se chama responsividade, e cobre tanto a melhora rápida em minutos após broncodilatador quanto a melhora progressiva ao longo de dias a semanas após início do corticoide inalatório. E variabilidade é o termo guarda-chuva: pode ser vista no curso de um dia, de um dia para o outro, entre consultas, sazonalmente, ou a partir de um teste de resposta.

A espirometria precisa ser feita por profissional capacitado, com equipamento em boas condições, manutenção e calibração regulares e uso de filtro. O protocolo reconhece que a dificuldade de acesso, especialmente em regiões remotas, leva a subdiagnóstico e a monitoramento inadequado, e cita tele-espirometria e espirometria na atenção primária como estratégias de enfrentamento. Enquanto isso, a decisão de iniciar tratamento sem espirometria deve considerar a probabilidade de asma e a urgência do tratamento — e a espirometria deve ser realizada assim que possível, o que é uma pendência a agendar e não uma frase para encerrar o assunto.

2. Quando a espirometria não confirma: os outros cinco caminhos

O quadro de critérios do PCDT não tem um teste; tem seis, e basta um. Além da responsividade ao broncodilatador, valem: variação excessiva do pico de fluxo expiratório medido duas vezes ao dia por duas semanas, com variabilidade média diária maior que 10% no adulto; aumento da função pulmonar após 4 semanas de tratamento com corticoide inalatório, com ganho maior ou igual a 12% e 200 mL; teste de provocação brônquica positivo; e variabilidade excessiva da função pulmonar entre consultas, com variação maior ou igual a 12% e 200 mL.

A variabilidade entre consultas vem com um aviso do próprio quadro: boa especificidade e baixa sensibilidade. Traduzindo, quando ela aparece vale muito; quando não aparece não serve de nada. É um teste que só presta no sentido positivo, e serve bem ao paciente que já tem duas ou três espirometrias arquivadas na pasta e nenhuma delas foi comparada com a outra.

A provocação brônquica tem número próprio no adulto: queda do volume expiratório forçado no primeiro segundo maior ou igual a 20% com dose padrão de metacolina, ou maior ou igual a 15% com hiperventilação padronizada, solução salina hipertônica ou manitol, ou maior que 10% e 200 mL com desafio por exercício padronizado. E vem com uma trava técnica útil: se o volume expiratório cair durante a provocação, verifique se a relação com a capacidade vital forçada também caiu, porque inalação incompleta — por obstrução laríngea induzível ou esforço insuficiente — pode produzir queda falsa.

Há ainda o papel do eosinófilo, que o PCDT define por negação e por limite. Em paciente com sintomas típicos e teste de função pulmonar negativo, eosinófilos sanguíneos acima do intervalo de referência podem apoiar o diagnóstico de asma tipo 2, mas também podem decorrer de condições não relacionadas; e níveis mais baixos não excluem o diagnóstico. A contagem varia com sexo, idade e horário da coleta, sendo geralmente mais elevada pela manhã. É apoio, nunca critério.

Um lembrete de sequência que resolve o caso urgente: em situações clínicas urgentes, o tratamento da asma pode ser iniciado imediatamente e os testes diagnósticos devem ser realizados nas semanas seguintes. Ninguém deve esperar espirometria para tratar quem está em crise. O que não pode acontecer é a semana seguinte nunca chegar.

3. Pico de fluxo expiratório: o exame que o protocolo pede e a rede não tem

Na indisponibilidade da espirometria, o PCDT aceita o pico de fluxo expiratório, com a ressalva de que é menos preciso e menos sensível e deve ser usado apenas quando a espirometria não estiver disponível. Ele serve para três coisas: avaliar variabilidade da obstrução, monitorar clinicamente e detectar crise precocemente, especialmente em pacientes com baixa percepção dos sintomas de obstrução.

A técnica tem regras que o protocolo escreve porque elas mudam o resultado. Para cada medição, use a maior de três leituras. Use sempre o mesmo medidor, porque o valor pode variar em até 20% entre medidores diferentes. E o cálculo da variabilidade diária é explícito: no dia, faça a diferença entre o maior e o menor valor e divida pela média dos dois; repita por 14 dias consecutivos e tire a média dos 14 resultados.

Vale fazer a conta com número redondo, porque ela costuma assustar de tão pequena. Um paciente com pico de fluxo de 420 L/min de manhã e 480 L/min à tarde tem diferença de 60 e média de 450, o que dá 13,3% — acima do corte de 10% do adulto. Já 440 e 480 dão diferença de 40 sobre média de 460, ou 8,7%: abaixo do corte, num dia. Por isso o desenho exige duas semanas, e não um dia bom.

Aqui aparece o primeiro descompasso de acesso deste capítulo, e ele é verificável. O medidor de pico de fluxo não consta da Rename 2024, nem entre os medicamentos dos três componentes nem no Anexo IV, que é a Relação Nacional de Insumos: busca exata sobre o texto normalizado por "pico de fluxo", "peak flow", "espirômetro", "nebulizador" e "medidor" devolve zero ocorrência no documento inteiro. A Rename lista medicamentos e insumos da assistência farmacêutica; equipamento pode ser financiado por outra via, e o PCDT não diz por qual. O interno precisa saber que o exame que o protocolo manda usar quando não há espirometria não está na lista do que a farmácia entrega.

O mesmo vale para o espaçador, e este dói mais porque ele é técnica, não conforto. O PCDT afirma que a via preferencial de administração na exacerbação é o dispositivo pressurizado dosimetrado com espaçador, e que dispositivos de pó não são adequados para a maioria das crianças pequenas e para alguns idosos, para quem se prefere o pressurizado com espaçador. Busca exata por "espaçador", "câmara", "aerocâmara" e "expansora" na Rename 2024 também devolve zero. Quem prescreve bombinha para um idoso com pouca coordenação está prescrevendo um conjunto que o sistema entrega pela metade.

4. Confirmar o diagnóstico em quem já usa corticoide inalatório

Este é o caso de Zulema e de milhares de pastas na atenção primária: o paciente já está sendo tratado, ninguém tem o exame que confirmou, e suspender o tratamento para investigar gera insegurança. O PCDT dedica um quadro inteiro a isso e organiza por cenário, com uma exigência de comunicação: fornecer orientações claras sobre quais medicamentos interromper e por quanto tempo.

Cenário um: sintomas respiratórios variáveis e fluxo aéreo expiratório variável. Diagnóstico de asma confirmado. Avalia-se o nível de controle e revisa-se o tratamento com corticoide inalatório. Este é o desfecho que se busca, e ele encerra a discussão.

Cenário dois: sintomas variáveis, mas sem fluxo aéreo variável. Considerar repetir a espirometria após suspensão do broncodilatador ou durante os sintomas, e verificar variabilidade entre consultas e resposta ao broncodilatador. Se ainda assim os resultados forem normais, a conduta depende de um corte funcional: com volume expiratório forçado no primeiro segundo acima de 70% do previsto, considerar reduzir o corticoide inalatório e reavaliar em 2 a 4 semanas, e então considerar provocação brônquica ou repetir a prova broncodilatadora. Abaixo de 70% do previsto, considerar iniciar ou intensificar a manutenção com corticoide inalatório por 3 meses e reavaliar sintomas e função — e, se não houver resposta, retomar a dose anterior e encaminhar para investigação.

Cenário três: poucos sintomas, função pulmonar normal e sem fluxo variável. Considerar repetir a prova broncodilatadora e, se normal, investigar diagnósticos alternativos. Aqui a redução do corticoide vira o próprio teste: se os sintomas surgirem e a função cair, a asma está confirmada e se volta à menor dose eficaz anterior; se nada mudar na menor etapa de controle, considera-se interromper a manutenção ou mudar para corticoide com formoterol sob demanda, monitorando o paciente por pelo menos 12 meses.

Cenário quatro: falta de ar persistente com limitação persistente do fluxo aéreo. Considerar intensificar o corticoide inalatório por 3 meses e reavaliar; sem resposta, retomar a dose anterior e encaminhar, ou tratar da mesma forma que pacientes com sobreposição asma-DPOC. Note que em nenhum dos quatro cenários a saída é parar tudo e ver o que acontece: o protocolo diz, em outro ponto, que não se deve interromper completamente o corticoide inalatório, exceto quando isso for necessário temporariamente para confirmar o diagnóstico.

5. O que não é rotina: imagem, eosinófilo e IgE

Exames de imagem não fazem parte da rotina diagnóstica da asma. O PCDT admite radiografia simples de tórax na avaliação inicial para diagnóstico diferencial, e tomografia em situações específicas — suspeita de comorbidade ou de diagnóstico diferencial em adulto com asma de difícil controle, onde ela pode revelar bronquiectasias, enfisema, nódulos e espessamento de parede. A radiografia de Idelfonso, normal, cumpriu exatamente esse papel: excluiu, não confirmou.

Duas advertências do protocolo sobre imagem que evitam pedido inútil. A presença de enfisema em imagem pode ajudar a diferenciar asma de doença pulmonar obstrutiva crônica no adulto, mas as duas podem coexistir e não existe limite radiológico bem estabelecido para essa distinção; e o aprisionamento de ar aparece tanto na asma quanto no envelhecimento pulmonar. Além disso, imagem torácica não é recomendada para avaliar declínio de função pulmonar nem resposta ao tratamento.

O hemograma tem lugar, e ele é modesto e concreto: excluir anemia como causa ou fator agravante de dispneia, auxiliar na identificação do fenótipo eosinofílico e identificar anormalidades da série branca. A contagem de eosinófilos não é critério diagnóstico inicial; é ferramenta complementar na definição do fenótipo inflamatório na asma grave.

A investigação de sensibilização por IgE específica — teste cutâneo de puntura ou dosagem sérica — serve para caracterizar a asma alérgica, não para diagnosticá-la. O PCDT registra que o teste cutâneo é simples, rápido, de alta sensibilidade e baixo custo quando feito por profissional experiente com extratos padronizados, e que a dosagem sérica não é mais confiável do que ele, além de mais cara — sendo preferida em pacientes não cooperativos, com doença dermatológica extensa, ou com risco potencial de anafilaxia pela história clínica.

E a advertência que impede o erro mais comum com esses testes: nem o teste cutâneo positivo nem a IgE específica elevada confirmam, por si, que aquele alérgeno é responsável pelos sintomas. A relação entre exposição e sintoma tem de ser confirmada pela história. Na impossibilidade de acesso, o protocolo aceita que anamnese e exame físico deem indicativos: histórico de eczema e rinite alérgica, eventual alergia alimentar, início na infância, exacerbações sazonais.

6. A investigação na crise: o que pedir, e o que não pedir

Na crise, a investigação inverte a lógica do ambulatório: quase nada é necessário, e o pouco que é precisa ser rápido. As diretrizes de 2012 afirmam que a realização de exames complementares não é necessária na maior parte dos casos atendidos nos serviços de urgência, e que as indicações se aplicam à avaliação de diagnóstico diferencial, comorbidades e complicações.

O quadro de indicações é curto e vale decorar. Gasometria arterial: sinais ou sintomas de quadro grave, pico de fluxo abaixo de 30% do previsto, ou saturação abaixo de 93%. Radiografia de tórax: exacerbação grave ou suspeita de comorbidade ou complicação, como pneumonia, insuficiência cardíaca e pneumotórax. Hemograma: suspeita de infecção — com a observação, do próprio quadro, de que a contagem de neutrófilos pode se elevar 4 horas após o uso de corticoide sistêmico, o que significa que hemograma colhido depois do corticoide é difícil de interpretar. Eletrólitos: comorbidade cardiovascular, uso de diuréticos ou altas doses de beta2-agonista, especialmente associados a xantinas e corticoides sistêmicos.

A indicação de eletrólitos tem mecanismo e merece uma frase. O uso repetido de beta2-agonista causa hipocalemia — a própria bula do salbutamol adverte que a terapia com agonistas beta2-adrenérgicos pode resultar em hipocalemia potencialmente grave, sobretudo após administração parenteral ou por nebulização. Num paciente que recebeu três nebulizações em uma hora e vai receber corticoide sistêmico, o potássio sai da categoria de pedido por hábito e entra na de pedido com indicação escrita.

Um exame que não entra na crise, e que o interno às vezes pede por hábito: o pico de fluxo tem valor no adulto e é medida objetiva recomendada, mas o PCDT registra que no maior de 5 anos ele pode ser usado como medida complementar — e as diretrizes de 2012 advertem que, nas exacerbações, as medidas seriadas de pico de fluxo têm pouca confiabilidade em crianças e adolescentes, porque a dispneia impede verificações confiáveis de uma manobra esforço-dependente. No adulto que consegue soprar, ele vale; no adulto que não consegue soprar, a incapacidade de fazer a manobra é, ela própria, o dado.

A oximetria, ao contrário, entra sempre. Ela aparece nas duas pontas do documento de 2012: como medida obrigatória na avaliação inicial e, na lista de equívocos do pronto-atendimento, a ausência de mensurações da saturação por oximetria figura ao lado de história e exame físico inadequados e da ausência de medidas funcionais como um dos erros de avaliação da gravidade. Custa menos que qualquer outra medida da sala e é a que mais se deixa de fazer.

07

Confirmar, medir, escalonar — e prescrever o que a farmácia entrega

O capítulo deve capacitar você a reconhecer gravidade, tratar a crise sob supervisão e construir o controle posterior. Diagnóstico, controle de sintomas e risco de exacerbação são perguntas diferentes; a técnica do inalador precisa ser demonstrada, não apenas descrita. Quatro decisões governam a asma do adulto, e elas se encadeiam nesta ordem: o fluxo aéreo varia de forma suficiente para chamar isto de asma? o controle das últimas quatro semanas está em que faixa, medido e não estimado? qual degrau corresponde a essa faixa, e qual apresentação desse degrau o paciente consegue retirar? e, quando ele chega em crise, qual sinal autoriza a alta e qual obriga a ficar? As tabelas abaixo respondem uma pergunta cada. As notas ao final registram as contas conferidas nos documentos, inclusive as que não fecharam.

  1. 11. Antes de qualquer coisa, pergunte se o paciente já usa corticoide inalatório. Se não usa, confirme antes de tratar: o corticoide reduz a variabilidade e apaga o que a espirometria precisaria mostrar. Se já usa, entre pelo quadro de confirmação em quem está tratado, e não suspenda nada sem dizer o que suspender e por quanto tempo.
  2. 22. Peça espirometria com prova broncodilatadora. Confirma asma no adulto o aumento de 12% e de 200 mL, os dois ao mesmo tempo, medido de 10 a 15 minutos após 200 a 400 microgramas de salbutamol. Suspenda o beta2-agonista de curta duração por 4 horas e o de longa duração por 24 horas antes do exame.
  3. 33. Exame normal não encerra. Repita durante os sintomas, nas primeiras horas da manhã, ou fora do período de infecção viral, e considere os outros caminhos: variabilidade do pico de fluxo acima de 10% em duas semanas, ganho funcional após 4 semanas de corticoide inalatório, provocação brônquica, variabilidade entre consultas.
  4. 44. Em paralelo, feche o diferencial que muda tudo. Tosse crônica com febre, sudorese e emagrecimento é tuberculose até prova em contrário; escarro crônico e infecções de repetição pedem outra hipótese; estridor inspiratório ao esforço é obstrução laríngea; tosse em quem usa inibidor da enzima conversora de angiotensina pode ser do comprimido.
  5. 55. Meça o controle das últimas quatro semanas com um instrumento, não com a pergunta "como vai a asma?". Conte separadamente os fatores de risco de exacerbação, que existem mesmo com sintomas controlados: exacerbação no último ano, tratamento só com beta2-agonista de curta duração, uso excessivo desse beta2, baixa adesão, técnica inalatória incorreta, volume expiratório reduzido, tabagismo, eosinofilia e vulnerabilidade social.
  6. 66. Escolha o degrau pela apresentação dos sintomas e pelo risco, e só então escolha a apresentação. Todo paciente recebe corticoide inalatório; nenhum recebe beta2-agonista de longa duração sem corticoide; e nenhum é tratado só com beta2-agonista de curta duração.
  7. 77. Antes de assinar, pergunte onde essa receita será aviada. Beclometasona e salbutamol saem do Componente Básico e da Farmácia Popular; budesonida isolada, formoterol e a combinação budesonida com formoterol saem do Componente Especializado, com processo. A escolha entre os dois regimes de tratamento, no Brasil, passa por essa porta.
  8. 88. Antes de subir degrau, confirme que os sintomas são mesmo de asma e corrija técnica inalatória, adesão, exposição a alérgenos e comorbidades. O protocolo manda intensificar apenas se a asma permanecer não controlada apesar de boa adesão e técnica adequada.
  9. 99. Depois de pelo menos 3 meses de estabilidade clínica, desça. A redução é obrigação, não cortesia: procura-se a menor dose que mantenha sintomas e exacerbações sob controle. O que não se faz é parar o corticoide inalatório, e não se retira o beta2-agonista de longa duração de quem está controlado com a associação.
  10. 1010. Na crise, a ordem é outra e é curta: cinco sinais em sessenta segundos, oxigênio, beta2-agonista repetido e corticoide sistêmico ainda na primeira hora; reavaliação em 30 a 60 minutos; e um destino nomeado. Ninguém sai do pronto-socorro com receita só de beta2-agonista.

1. Os seis caminhos que confirmam asma no adulto — e onde cada um falha

CaminhoO que precisa mostrar no adultoOnde ele falha
Prova broncodilatadora na espirometriaAumento do volume expiratório forçado no primeiro segundo, ou da capacidade vital forçada, de 12% e 200 mL em relação ao basal — os dois critérios juntos. Mais confiável com 15% e 400 mL. Medir 10 a 15 min após 200 a 400 mcg de salbutamol.A responsividade some durante exacerbação grave e infecção viral, e cai se o paciente usou broncodilatador antes do exame. Em quem tem volume basal alto, 12% exige um ganho grande em mililitros.
Variação do pico de fluxo em duas semanasVariabilidade média diária acima de 10%. A cada medida, a maior de três leituras; duas medidas por dia; média das variabilidades de 14 dias.Menos sensível que a espirometria, depende de esforço e do mesmo aparelho a cada medida — o valor varia até 20% entre medidores diferentes. E o medidor não consta da Rename.
Ganho funcional após 4 semanas de corticoide inalatórioAumento do volume expiratório forçado no primeiro segundo de 12% e 200 mL, ou de 20% no pico de fluxo, em relação ao basal.Consome quatro semanas e exige uma medida basal que muitas vezes não foi feita. Só serve se alguém registrou o ponto de partida.
Provocação brônquicaQueda do volume expiratório forçado no primeiro segundo de 20% com dose padrão de metacolina; 15% com hiperventilação padronizada, salina hipertônica ou manitol; mais de 10% e 200 mL com exercício padronizado.Pouco disponível na rede. Queda pode ser falsa por inalação incompleta — confira se a relação com a capacidade vital forçada também caiu. Contraindicada na gestação e não se faz com suspeita de tuberculose.
Variabilidade entre consultasVariação do volume expiratório forçado no primeiro segundo de 12% e 200 mL, ou de 20% no pico de fluxo, entre duas avaliações.Boa especificidade e baixa sensibilidade, como o próprio protocolo registra: quando aparece vale muito, quando não aparece não afasta nada.
Eosinófilos de sangue periféricoNão confirma. Em paciente com sintomas típicos e função pulmonar negativa, valor acima do intervalo de referência apoia asma de perfil tipo 2.Sobe por causas não relacionadas à asma, varia com sexo, idade e hora da coleta, e valor baixo não exclui a doença. É apoio, nunca critério.

2. Medir o controle das últimas quatro semanas

InstrumentoO que ele contaControladaParcialmente controladaNão controlada
Avaliação de controle do GINA, reproduzida nos dois documentos brasileirosQuantos destes quatro itens estiveram presentes: sintomas diurnos mais de duas vezes por semana; despertar noturno por asma; necessidade de medicação de resgate mais de duas vezes por semana; limitação de atividade por asma.Nenhum item1 a 2 itens3 a 4 itens
Teste de Controle da Asma, versão em português validada no BrasilEscore somado de cinco itens: limitação de atividade, dispneia, despertar noturno, uso de resgate e autoavaliação do controle.20 ou maisde 15 a 19, como está impresso no documento15 ou menos, como está impresso no documento
Questionário de Controle da Asma com sete itensEscore médio de sete itens, incluindo o volume expiratório forçado pré-broncodilatador; sem espirometria chama-se de seis itens, e sem espirometria nem resgate, de cinco.0,75 ou menosde 0,75 a menos de 1,5, como está impresso no documentoacima de 1,5, como está impresso no documento

3. O degrau do adulto e a porta por onde o remédio sai

Como os sintomas se apresentamRegime preferencial do protocoloRegime alternativoOnde o paciente retira, segundo a Rename 2024
Sintomas infrequentes, um a dois dias por semana ou menosCorticoide inalatório com formoterol em dose baixa, sob demanda — etapas 1 e 2Corticoide inalatório em dose baixa sempre que o beta2-agonista de curta duração for usado, no mesmo dispositivo ou em dois, com o corticoide logo após — etapa 1Preferencial: Componente Especializado (budesonida com formoterol). Alternativo: Componente Básico e Farmácia Popular (beclometasona e salbutamol)
Sintomas em menos de três a cinco dias por semana, com função pulmonar normal ou levemente reduzidaCorticoide inalatório com formoterol em dose baixa, sob demanda — etapa 2Corticoide inalatório em dose baixa de manutenção mais beta2-agonista de curta duração sob demanda — etapa 2Preferencial: Componente Especializado. Alternativo: Componente Básico e Farmácia Popular
Sintomas na maioria dos dias, quatro a cinco por semana ou mais; ou despertar por asma uma vez por semana ou mais; ou função pulmonar baixa; ou tabagismo ativo, má percepção da broncoconstrição, exacerbação grave recente, hiperresponsividade grave ou exposição sazonal em cursoCorticoide inalatório com formoterol em dose baixa como manutenção e alívio — etapa 3Corticoide inalatório com beta2-agonista de longa duração em dose baixa, ou corticoide inalatório em dose média, com beta2-agonista de curta duração sob demanda — etapa 3Preferencial: Componente Especializado. Alternativo com corticoide isolado em dose média: Componente Básico (beclometasona 250 mcg, 3 a 4 jatos ao dia)
Sintomas diários, despertar noturno uma vez por semana ou mais, com função pulmonar baixaCorticoide inalatório com formoterol em dose média como manutenção e alívio — etapa 4Corticoide inalatório com beta2-agonista de longa duração em dose média mais beta2-agonista de curta duração sob demanda; corticoide isolado em dose alta é outra opção, com pior adesão — etapa 4Preferencial: Componente Especializado. Sintomas ou exacerbações que persistem apesar de técnica correta e boa adesão na etapa 4 exigem avaliação especializada

4. Tabela de conversão — as drogas deste capítulo num adulto de 70 kg, nas apresentações que a Rename 2024 lista

Medicamento e apresentaçãoDose escrita no documentoQuanto isso é em mililitros ou jatosQuanto isso é em frasco, ampola ou comprimidoComponente da assistência farmacêutica
Salbutamol, suspensão aerossol 100 mcg por dose4 a 10 jatos por dose, a cada 20 minutos na primeira hora4 jatos = 400 mcg = 0,4 mg; 10 jatos = 1.000 mcg = 1,0 mgFrasco pressurizado de 200 doses. Três frascos ao ano são 600 doses = 1,64 dose por dia, o corte de uso excessivoBásico, e também na Farmácia Popular
Salbutamol, solução para inalação 5 mg/mLAdulto: 2,5 a 5,0 mg por nebulização, diluídos em soro fisiológico até 2,0 a 2,5 mL2,5 mg = 0,5 mL; 5,0 mg = 1,0 mLFrasco de 10 mL contém 50 mg. Descartar o que sobrar 30 dias após abertoBásico, e também na Farmácia Popular
Salbutamol, solução injetável 0,5 mg/mL, ampola de 1 mLAdulto: 200 mcg em 10 minutos, seguidos de infusão de 3 a 12 mcg/min — recurso extremo, não rotina200 mcg = 0,4 mL0,4 ampola. Cada ampola de 1 mL tem 0,5 mgBásico
Brometo de ipratrópio, solução para inalação 0,25 mg/mLAdulto: 0,5 mg a cada 20 minutos por 3 doses, associado ao beta2-agonista; depois a cada 2 a 4 horas0,5 mg = 2,0 mLTambém existe como aerossol de 20 mcg por dose: 4 a 8 jatos são 80 a 160 mcgBásico
Prednisona, comprimidos de 5 mg e de 20 mg40 a 50 mg ao dia por 5 a 7 dias, pela manhã, em dose única (protocolo de 2026); 1 mg/kg ao dia, máximo 60 mg, por 5 a 10 dias (diretriz de 2012)Via oral, sem conversão de volume40 mg = 2 comprimidos de 20 mg; 50 mg = 2 de 20 mg mais 2 de 5 mg; 60 mg = 3 de 20 mg. Sem desmame quando o curso for menor que duas semanasBásico
Sulfato de magnésio, solução injetável a 50%Adulto: 2 g em dose única em infusão superior a 20 minutos, diluídos em 50 mL de soro fisiológico, na crise muito grave sem resposta50% são 500 mg/mL; 2 g em dose única = 4 mLA apresentação a 10% tem 100 mg/mL: os mesmos 2 g em dose única seriam 20 mLBásico
Dipropionato de beclometasona, aerossol e pó para inalação oral, 50, 200, 250 e 400 mcg por doseDose baixa 200 a 500 mcg ao dia; média acima de 500 até 1.000; alta acima de 1.000 (partícula padrão, 12 anos ou mais)Com a apresentação de 250 mcg: 2 jatos ao dia = 500 mcg, ainda baixa; 4 jatos = 1.000 mcg, ainda média. Com a de 50 mcg: 4 jatos = 200 mcgFrascos de 200 doses. A Farmácia Popular fornece as apresentações de 50, 200 e 250 mcgBásico, e também na Farmácia Popular
Budesonida com formoterol, 200 mcg mais 6 mcg por inalação, cápsula ou pó inalanteEtapa 3: 1 inalação, uma ou duas vezes ao dia, mais 1 sob demanda. Etapa 4: 2 inalações duas vezes ao dia, mais 1 sob demandaEtapa 3 com duas tomadas: 400 mcg de budesonida e 12 mcg de formoterol ao dia de manutenção. Etapa 4: 800 mcg e 24 mcgTeto de 12 inalações ao dia, somando manutenção e alívio: 72 mcg de formoterol e 2.400 mcg de budesonida em dose medidaEspecializado, grupo 2 — exige processo

Duas contagens diferentes para o mesmo ano e o mesmo sistema. O PCDT de 2026 informa 134.222 internações por asma no SUS em 2013, citando o Sistema de Informações Hospitalares; as recomendações da sociedade de 2020 informam 129.728 internações em 2013. A diferença é de 4.494 internações, ou 3,5% sobre o menor número. Os dois documentos citam a mesma origem. Nenhum dos dois explica o recorte usado, e o capítulo cita o número do protocolo por ser o mais recente — mas o leitor precisa saber que há dois.

Uma conta que fecha, e que vale citar em plantão. O PCDT registra prevalência média de 1,16 óbito por asma por 100.000 habitantes por ano entre 2014 e 2021 e traduz isso como uma média de seis mortes por dia. Refazendo: 1,16 por 100.000 sobre uma população de cerca de 203 milhões dá 2.355 óbitos por ano, ou 6,5 por dia. A frase do documento está correta e é conservadora.

A etapa 5 do quadro de posologia não sobe dose. O quadro de dose e frequência de formoterol com budesonida do PCDT prescreve, para a etapa 5, exatamente o mesmo que para a etapa 4: duas inalações duas vezes ao dia mais uma sob demanda. Com a apresentação de 200 mcg por inalação que o próprio quadro declara, isso são 800 mcg de budesonida ao dia em manutenção. Pelo quadro de doses do mesmo protocolo, budesonida é dose alta acima de 800 mcg ao dia — logo, 800 é o topo da dose média. Já o texto do capítulo de tratamento e a figura das etapas colocam dose alta de corticoide inalatório na etapa 5, por período limitado de 3 a 6 meses. As duas coisas não podem ser verdadeiras ao mesmo tempo com a apresentação de 200/6.

O corte de uso excessivo de beta2-agonista de curta duração confere. O PCDT diz que mais de três frascos de 200 doses ao ano correspondem a uso médio superior a diário. Refazendo: 3 × 200 = 600 doses ao ano, divididas por 365 dias, dão 1,64 dose por dia — de fato acima de uma por dia. E o alerta mais grave, das recomendações de 2020: mais de um frasco por mês, que são 6,7 doses por dia, associa-se a maior risco de morte por asma. Zulema, com dois frascos e meio em quatro meses, está em 4,2 doses por dia.

Três números do plano de ação de 2020 que não fecham entre si. O documento diz que, na manutenção e alívio com corticoide e formoterol, o plano deve conter a dose fixa de 12 em 12 horas mais doses adicionais de até mais seis de 6 microgramas, e que a dose máxima recomendada de formoterol é de 72 mcg ao dia; em outro trecho, fixa o limite em 12 inalações ao dia. Com a manutenção usual de duas inalações duas vezes ao dia, quatro mais seis são 10 inalações, ou 60 mcg — o teto de 72 mcg e o de 12 inalações nunca são alcançados. Os três números só fecham se a manutenção for de seis inalações ao dia, isto é, três de 12 em 12 horas, que não é o regime descrito. Quem prescreve deve tratar 72 mcg ao dia como teto do total, e não somar seis doses extras a qualquer manutenção.

O corticoide oral da crise tem duas réguas brasileiras vigentes, e elas não coincidem. A diretriz de 2012 manda prednisona ou prednisolona 1 mg/kg ao dia, máximo de 60 mg, por 5 a 10 dias na alta da emergência. As recomendações de 2020 e o PCDT de 2026 mandam 40 a 50 mg ao dia por 5 a 7 dias. Num adulto de 70 kg, a primeira dá 70 mg limitados pelo teto a 60 mg, e a segunda dá 40 a 50 mg: 20% acima do teto mais recente e 50% acima do piso, com até cinco dias a mais de duração. Em comprimidos da Rename, são 3 comprimidos de 20 mg contra 2 comprimidos de 20 mg.

O alvo de oxigênio também tem dois números. A diretriz de 2012 fixa a meta em saturação de 92% ou mais no adulto, subindo para 94% a 95% em gestantes, cardiopatas e crianças. O PCDT de 2026 não fixa alvo de oxigenoterapia e usa outro corte para outra finalidade: saturação abaixo de 90% como indicativo de tratamento intensivo. Um paciente com 91% está abaixo da meta de 2012 e acima do gatilho de 2026.

Há uma faixa de saturação e de função pulmonar em que nenhum dos dois critérios escritos decide. A diretriz de 2012 autoriza a alta com saturação acima de 95% e pico de fluxo ou volume expiratório forçado de 70% ou mais do previsto, e indica internação com saturação abaixo de 92% ou valores de 50% ou menos após tratamento pleno. Entre 92% e 95% de saturação, e entre mais de 50% e menos de 70% de função, o paciente não preenche o critério de alta nem o de internação. Na prática isso é a faixa de observação prolongada e reavaliação, mas o documento não a nomeia — e é justamente onde mora o paciente que volta em 48 horas.

O quadro de definição de controle das recomendações de 2020 tem três defeitos de borda na mesma linha. No Teste de Controle da Asma, o valor 15 pertence simultaneamente à faixa parcialmente controlada, impressa como 15 a 19, e à faixa não controlada, impressa como 15 ou menos. No Questionário de Controle da Asma de sete itens, o valor 0,75 pertence à faixa controlada, impressa como 0,75 ou menos, e também à parcialmente controlada, impressa como 0,75 a menos de 1,5. E o valor exato de 1,50 não pertence a nenhuma das três: a faixa intermediária exclui o 1,5 e a faixa não controlada exige acima de 1,5. À beira do leito, trate qualquer valor de fronteira pelo lado mais grave e olhe o resto da avaliação.

No quadro de gravidade da crise de 2012, o gás carbônico se sobrepõe e a frequência respiratória não separa nada. A pressão parcial de gás carbônico aparece como abaixo de 40 mmHg na coluna leve a moderada e abaixo de 45 mmHg na coluna grave: toda pressão abaixo de 40 pertence às duas colunas ao mesmo tempo. E a frequência respiratória traz a palavra aumentada tanto na coluna grave quanto na muito grave, de modo que ela não distingue essas duas. Em compensação, dois eixos do mesmo quadro fecham sem sobreposição e sem vão: pico de fluxo acima de 50%, de 30 a 50% e abaixo de 30%; e saturação acima de 95%, de 91% a 95% e 90% ou menos.

Um parêntese com fator 2 na tabela de drogas da asma aguda de 2012. A linha da terbutalina declara solução para nebulização a 10 mg/mL e, logo abaixo, dose máxima de 5 mg entre parênteses como 1 mL. A 10 mg/mL, 1 mL são 10 mg; 5 mg são 0,5 mL. O parêntese está correto nas duas linhas vizinhas, de salbutamol e de fenoterol, que estão a 5 mg/mL — foi arrastado para uma linha cuja solução é duas vezes mais concentrada. Quem prescrever pela tabela sem conferir a concentração dobra a dose.

A nebulização contínua tem uma taxa sem a concentração que a torna interpretável, e um alvo dez vezes acima da bula. A tabela de 2012 indica, no adulto, 10 a 15 mg de salbutamol por hora, manda diluir em soro fisiológico e acoplar a bomba de infusão, e fixa a taxa da bomba em 12 a 14 mL/h — sem escrever a concentração final. Se alguém correr a solução pura de 5 mg/mL nessas taxas, entrega 60 a 70 mg por hora, de 4 a 7 vezes o alvo da própria linha; a concentração que faz a conta fechar é de 0,71 a 1,25 mg/mL, ou seja, diluir a solução de 4 a 7 vezes. Além disso, a bula do produto de referência descreve administração contínua com concentração final de 50 a 100 mcg/mL e velocidade usual de 1 a 2 mg por hora — de 5 a 15 vezes menos que o alvo da diretriz.

As contas que bateram, tão informativas quanto as que não bateram. Sulfato de magnésio a 50% são 500 mg/mL, e 2 g são de fato 4 mL. Os equivalentes da Rename batem com o sal heptaidratado: 100 mg/mL dividido por 246,5 e multiplicado por 2 dá 0,811 mEq/mL, contra 0,81 declarado, e 500 mg/mL dá 4,057, contra 4,05. No ipratrópio a 0,25 mg/mL, 0,125 mg são 0,5 mL e 0,25 mg são 1,0 mL, como está escrito. E o critério de asma grave do PCDT — budesonida acima de 800 mcg ao dia no adulto — coincide exatamente com a borda da dose alta do quadro de doses do mesmo documento.

Divergência entre duas normas em vigor sobre qual beta2-agonista de longa duração o SUS oferece para asma. A Rename 2024 lista xinafoato de salmeterol 50 mcg pó inalatório no Componente Especializado, grupo 2, com o protocolo de asma como documento norteador. O PCDT de 2026 afirma, no quadro de terminologia, que o beta2-agonista de longa duração disponível no SUS é o formoterol, e não inclui salmeterol na sua lista de medicamentos. A própria Rename declara, ao fim do anexo, que seus documentos norteadores estão atualizados até 30/11/2024 — quando o protocolo vigente era o de 2023, revogado pelo de 2026. Até que a Rename seja atualizada, as duas normas dizem coisas diferentes sobre a mesma prateleira.

Quatro medicamentos que aparecem no protocolo e não na lista de financiamento. Busca exata sobre o texto normalizado da Rename 2024 não devolve nenhuma ocorrência de benralizumabe nem de dupilumabe, que o PCDT de 2026 arrola como imunobiológicos para asma no SUS com critérios de elegibilidade próprios; omalizumabe e mepolizumabe estão lá, no grupo 1B do Componente Especializado. A elegibilidade ao omalizumabe na asma alérgica grave está em Rinite alérgica e asma alérgica, na apostila de Imunologia. Montelucaste e teofilina também não constam, coerentemente com o que o próprio protocolo diz sobre antagonistas do receptor de leucotrieno e teofilinas orais não estarem incorporados no SUS para asma — o que importa porque as recomendações de 2020 ainda listam montelucaste como opção em várias etapas, com dose de 10 mg ao dia para maiores de 15 anos.

O que o protocolo manda usar e a lista de insumos não traz. O PCDT afirma que a via preferencial na exacerbação é o dispositivo pressurizado com espaçador e que o pico de fluxo deve ser usado quando não houver espirometria. Busca exata sobre a Rename 2024, incluindo o Anexo IV, que é a Relação Nacional de Insumos, não devolve ocorrência de espaçador, câmara expansora, medidor de pico de fluxo, nebulizador nem espirômetro. A Rename lista medicamentos e insumos da assistência farmacêutica, e equipamento pode ser custeado por outra via — o ponto é que o protocolo não diz por qual, e o interno que prescreve espaçador não sabe onde o paciente vai buscá-lo.

Dois tetos diferentes para o mesmo jato. O PCDT de 2026 indica, na exacerbação leve a moderada, 4 a 10 jatos de salbutamol de 100 mcg a cada 20 minutos durante a primeira hora; a tabela de 2012 indica, para adultos, 4 a 8 jatos a cada 20 minutos por 3 doses. A diferença de dois jatos por dose é pequena em miligramas — 0,2 mg — e some diante da regra comum: repetir a cada 20 minutos na primeira hora, com espaçador, e reavaliar.

A palavra gota não existe na bula da solução de salbutamol a 5 mg/mL. A bula prescreve em mililitros: 0,5 a 1,0 mL diluídos até 2,0 ou 2,5 mL para o adulto. A prescrição em gotas, hábito de pronto-socorro, não tem âncora no documento do fabricante, e o número de gotas por mililitro depende do conta-gotas. Escreva em miligramas ou em mililitros. A mesma bula traz, na mesma seção, a opção de usar 2,0 mL do produto sem diluir — que são 10 mg, de 2 a 4 vezes a dose diluída descrita no parágrafo anterior; a própria bula reconhece que alguns adultos podem precisar de até 10 mg, mas as duas opções aparecem lado a lado sem que a diferença de quatro vezes esteja marcada.

Um limite de bula que a crise ultrapassa por desenho. A bula da solução para nebulização diz que o tratamento intermitente pode ser repetido quatro vezes ao dia. Os protocolos de exacerbação mandam repetir o beta2-agonista a cada 20 minutos na primeira hora — três nebulizações em sessenta minutos, quase o teto diário da bula antes do fim da primeira hora. Isso é prática consagrada e está em todos os documentos de crise; o interno só precisa saber que está prescrevendo acima da posologia de bula, e que é por isso que a monitorização de frequência cardíaca, tremor e potássio deixa de ser opcional.

08

A conduta, hora a hora

A linha do tempo abaixo cobre as duas portas por onde a asma chega ao interno: a sala de emergência, onde as decisões são de minutos, e a consulta, onde são de meses. Elas se ligam num ponto: a alta do pronto-socorro é a consulta que mais muda desfecho no ano inteiro do paciente, porque é a única em que ele está assustado o bastante para ouvir.

Os pesos usados nas prescrições são de um adulto de 70 quilos. Nada aqui vale para menores de 12 anos, cujo manejo está em "Crise asmática na criança", na apostila de Pneumologia Pediátrica.

  1. Minuto 0 — cinco sinais, antes de escrever qualquer coisa

    O paciente em crise se classifica em menos de um minuto, à beira do leito, com cinco observações: como ele fala, se está alerta ou agitado, se usa musculatura acessória, a frequência cardíaca e a saturação. Fala em frases inteiras, sem retração, alerta, frequência abaixo de 110 e saturação acima de 95% descrevem crise leve a moderada. Frases incompletas, retrações acentuadas, agitação, frequência acima de 110 e saturação entre 91% e 95% descrevem crise grave. Cianose, sudorese, exaustão, confusão ou sonolência, fala monossilábica, murmúrio vesicular diminuído com tórax silencioso, frequência acima de 140 ou bradicardia e saturação de 90% ou menos descrevem insuficiência respiratória. Se o paciente consegue soprar, acrescente o pico de fluxo. E pergunte, em quarenta segundos, o que identifica risco de evolução fatal: internação prévia em terapia intensiva por asma, três ou mais idas à emergência ou duas internações no último ano, uso frequente de corticoide sistêmico, dois ou mais frascos de beta2-agonista por mês.

    Prescrição
    • Oximetria de pulso na admissão e monitorização contínua se saturação abaixo de 95%
    • Pico de fluxo expiratório na admissão, se o paciente conseguir executar a manobra — a incapacidade de executá-la é, ela própria, sinal de gravidade
    • Sem exame complementar de rotina: gasometria arterial só com sinais de quadro grave, pico de fluxo abaixo de 30% do previsto ou saturação abaixo de 93%
    • Radiografia de tórax só na exacerbação grave ou com suspeita de pneumonia, insuficiência cardíaca ou pneumotórax
  2. Minutos 0 a 20 — oxigênio, beta2-agonista e corticoide, nesta ordem e sem esperar exame

    As três primeiras decisões não dependem de nenhum resultado. Oxigênio titulado, beta2-agonista de curta duração inalado e corticoide sistêmico ainda na primeira hora. O corticoide é o que muda desfecho: a diretriz de 2012 diz que os corticoides sistêmicos são essenciais no tratamento da exacerbação e devem ser usados precocemente, porque reduzem inflamação, aceleram a recuperação, reduzem recidivas e hospitalizações e diminuem o risco de asma fatal. Via oral e intravenosa têm efeito clínico equivalente — a via se escolhe pela capacidade de deglutir, não pela gravidade. E corticoide inalatório não substitui o sistêmico na crise: não há evidência suficiente para essa troca, em adultos nem em crianças. Sobre o dispositivo, pressurizado com espaçador e nebulizador têm eficácia semelhante, inclusive nas exacerbações graves, e a escolha pode ser feita por particularidade do serviço. Água destilada nunca serve de veículo de nebulização, em hipótese nenhuma.

    Prescrição
    • Oxigênio titulado para SpO2 de 92% a 95% no adulto, conforme GINA 2026; individualizar na gestação e em condições associadas. Monitorar continuamente na crise grave e não retardar suporte por falta de medida em ar ambiente.
    • Salbutamol aerossol 100 mcg por jato — 4 a 10 jatos com espaçador, a cada 20 minutos na primeira hora
    • Ou salbutamol solução para inalação 5 mg/mL — 0,5 a 1,0 mL, que são 2,5 a 5,0 mg, diluídos em soro fisiológico até 2,0 a 2,5 mL, com fluxo de oxigênio de 6 a 8 L/min, a cada 20 minutos por 3 doses
    • Prednisona 40 mg por via oral, dose única, ainda na primeira hora — 2 comprimidos de 20 mg
    • Se a via oral não for viável: metilprednisolona 32 mg IV uma vez ao dia, equivalente à prednisona 40 mg/dia escolhida neste caso. Conferir reconstituição e apresentação do produto. Reavaliar diariamente e retornar à via oral assim que possível, completando o curso total; a mudança de via não exige multiplicar a dose anti-inflamatória.
  3. Minutos 20 a 60 — o que a crise grave acrescenta

    Duas drogas entram por gravidade, não por rotina. O brometo de ipratrópio é reservado às exacerbações mais graves, em doses repetidas, administrado junto com o beta2-agonista; a diretriz de 2012 registra que seus benefícios são mais marcantes na abordagem inicial, parecendo diminuir a necessidade de admissão hospitalar, e que a manutenção da droga além disso tem benefício controverso. O sulfato de magnésio intravenoso é indicado nas exacerbações muito graves sem resposta ao tratamento usual; quando a resposta é favorável, ela ocorre em 1 a 2 horas, e os efeitos adversos comuns são rubor cutâneo e náuseas durante a infusão. Aminofilina intravenosa não integra o manejo habitual da exacerbação: o benefício adicional é pequeno e a toxicidade e as interações são relevantes. A persistência de gravidade exige equipe experiente e suporte intensivo, sem uma etapa obrigatória de aminofilina antes de escalar o cuidado. Repare no que não entra: antibiótico não faz parte do tratamento da crise de asma, e só se prescreve quando há uma infecção bacteriana identificada, o que é outro diagnóstico.

    Prescrição
    • Brometo de ipratrópio solução 0,25 mg/mL — 2,0 mL, que são 0,5 mg, junto com o beta2-agonista, a cada 20 minutos por 3 doses; depois a cada 2 a 4 horas na crise grave
    • Ou ipratrópio aerossol 20 mcg por dose — 4 a 8 jatos com espaçador, a cada 20 minutos por 3 doses
    • Sulfato de magnésio 2 g IV em dose única na crise grave com resposta insuficiente ao tratamento inicial: 4 mL da apresentação a 50%, diluídos conforme protocolo institucional para infusão em 20 minutos. Monitorar pressão e resposta; não programar repetição automática em 20 minutos (GINA 2026).
    • Dosar potássio em quem recebeu doses repetidas de beta2-agonista, sobretudo com corticoide sistêmico, diurético ou comorbidade cardiovascular
  4. Minuto 60 — reavaliar e dizer o destino em voz alta

    A resposta se avalia de 30 a 60 minutos após o tratamento inicial, com reclassificação da gravidade. Três desfechos, e um deles é o que a maioria dos serviços não nomeia. Alta: boa resposta, sem sinais de gravidade, saturação acima de 95% e pico de fluxo ou volume expiratório forçado de 70% ou mais do previsto. Internação: saturação abaixo de 92%, ou pico de fluxo e volume expiratório de 50% ou menos após tratamento pleno na emergência, ou alguma complicação — e a diretriz acrescenta que os critérios de internação devem ser menos rígidos para pacientes com problemas socioeconômicos, especialmente sem condições de tratamento domiciliar adequado ou com dificuldade de acesso ao hospital. Unidade de terapia intensiva: deterioração progressiva, manutenção dos critérios de crise muito grave apesar de tratamento adequado, necessidade de ventilação mecânica ou parada cardiorrespiratória. Entre a alta e a internação sobra a faixa que nenhum critério escrito cobre — saturação de 92% a 95%, função entre 50% e 70% —, e nela o paciente fica em observação por pelo menos mais uma hora, com nova série de beta2-agonista e nova reavaliação, e não vai para casa por cansaço da equipe.

    Prescrição
    • Reavaliar 30 a 60 minutos após o tratamento inicial: fala, esforço, ausculta, frequência cardíaca, frequência respiratória, saturação e pico de fluxo
    • Escrever no prontuário qual critério decidiu o destino, com o número que o sustenta
    • Manter beta2-agonista a cada 20 minutos ou espaçar para cada 1 a 4 horas conforme a resposta, e manter o oxigênio titulado
    • Considerar internação com limiar mais baixo em quem mora longe, mora só, não tem telefone ou não tem como voltar
  5. Alta do pronto-socorro — quatro itens, e nenhum deles é opcional

    Esta é a consulta mais importante do ano do paciente asmático, e a diretriz de 2012 explica por quê: em nosso meio, os pacientes frequentemente fazem dos serviços de pronto-atendimento seu único local de tratamento da asma. O PCDT é categórico sobre o conteúdo da alta: o paciente deve receber prescrição de tratamento de manutenção regular contendo corticoide inalatório, medicamento de alívio sob demanda e um curso curto de corticoide oral, e o uso exclusivo de beta2-agonista de curta duração não é recomendado. Some a isso a técnica inalatória revisada na frente de você e um plano de ação por escrito, que deve dizer quatro coisas: o que fazer no dia a dia, quando e por quanto tempo usar o resgate e aumentar o controlador, quando usar corticoide oral e quando procurar emergência. Quem sai daqui com uma receita de salbutamol e um "procure sua unidade" volta.

    Prescrição
    • Beclometasona aerossol 250 mcg por dose — 1 jato de 12 em 12 horas, que são 500 mcg ao dia; ou 2 jatos de 12 em 12 horas, 1.000 mcg ao dia, se a crise foi precedida de descontrole crônico
    • Salbutamol aerossol 100 mcg por dose — 1 a 2 jatos com espaçador se necessário, podendo repetir a cada 20 a 30 minutos até três vezes seguidas; se precisar de mais que isso, procurar atendimento
    • Prednisona 40 mg ao dia, pela manhã, por 5 dias — 2 comprimidos de 20 mg em dose única diária, sem desmame por ser curso menor que duas semanas
    • Retorno agendado, com data no papel, entre 2 e 7 dias
    • Plano de ação escrito e técnica inalatória demonstrada pelo paciente antes de ele sair da sala
  6. Consulta de 2 a 7 dias — fechar a crise e abrir o diagnóstico

    O PCDT define o que se faz nessa consulta: avaliar se a crise se resolveu e se o corticoide oral pode ser suspenso; verificar o controle dos sintomas e os fatores de risco; investigar a possível causa da exacerbação; e revisar ou fornecer o plano de ação escrito. Acrescenta que o tratamento de manutenção com corticoide inalatório geralmente pode voltar aos níveis anteriores após 2 a 4 semanas, mas que, se a crise foi precedida por sinais de controle cronicamente inadequado com técnica e adesão adequadas, pode ser necessário intensificar. O documento de monitoramento acrescenta uma regra específica: se a exacerbação foi autogerenciada, sem hospitalização, reavalie o paciente antes de suspender o corticoide oral. É também aqui que se procura a causa — infecção viral, alérgeno, exposição ocupacional, anti-inflamatório não esteroidal, betabloqueador oral ou em colírio, abandono do corticoide inalatório.

    Prescrição
    • Aplicar um instrumento de controle e anotar o escore no prontuário, não a impressão
    • Rever a técnica inalatória com o dispositivo na mão do paciente, e corrigir na hora
    • Agendar espirometria com prova broncodilatadora, se o diagnóstico ainda não foi confirmado por teste objetivo
    • Perguntar se os sintomas melhoram nos dias de folga, e registrar a resposta para comparar na consulta seguinte
  7. A consulta de ambulatório — confirmar antes de fixar o degrau

    Fora da crise, a sequência inverte: primeiro o teste, depois o rótulo, depois o degrau. Em quem ainda não usa corticoide inalatório, confirme antes de tratar. Em quem já usa, siga o quadro de confirmação em paciente tratado, e diga com clareza o que suspender e por quanto tempo — o próprio protocolo reconhece que essa suspensão gera insegurança e ansiedade e pede orientação explícita. Não interrompa completamente o corticoide inalatório fora desse contexto. Depois do diagnóstico, a espirometria vira instrumento de risco futuro: repita entre 3 e 6 meses do início do tratamento e depois a cada 1 a 2 anos, com mais frequência em quem tem maior risco ou asma grave. E, na primeira consulta, resolva o que não é bombinha: rinite — cujo manejo está em Rinite alérgica e asma alérgica, na apostila de Imunologia —, refluxo, obesidade, apneia do sono, tabagismo — cuja cessação segue o protocolo específico do tabagismo — e exposição ambiental ou ocupacional.

    Prescrição
    • Espirometria com prova broncodilatadora, com a instrução escrita de suspender beta2-agonista de curta duração por 4 horas e de longa duração por 24 horas
    • Se não houver espirometria acessível, registrar isso no prontuário, iniciar tratamento pela probabilidade clínica e manter o pedido em aberto — não transformar a ausência do exame em diagnóstico definitivo
    • Vacinação em dia, incluindo influenza e covid-19
    • Encaminhamento para avaliação especializada se houver incerteza diagnóstica, suspeita de asma ocupacional, ou sintomas e exacerbações que persistem na etapa 4 com técnica e adesão corretas
  8. Escolher o degrau, escrever o que a farmácia avia — e descer quando der

    O degrau vem da apresentação dos sintomas e do risco, e a apresentação vem da farmácia. No regime preferencial do protocolo, o corticoide inalatório com formoterol serve de manutenção e de alívio, e ele sai do Componente Especializado, com processo. No regime alternativo, corticoide inalatório de manutenção com beta2-agonista de curta duração de alívio, as duas peças saem do Componente Básico e da Farmácia Popular. O protocolo diz que o regime alternativo é opção quando o preferencial não é viável, e que a escolha do inalador deve considerar a disponibilidade do dispositivo no sistema de saúde. Depois de 3 meses de estabilidade, desça: reduzir o corticoide inalatório em 25% a 50% a cada 3 meses é viável e seguro para a maioria dos adultos, ainda que especialistas defendam 9 a 12 meses de estabilidade antes de começar. Duas coisas não se fazem na descida: interromper o corticoide inalatório e retirar o beta2-agonista de longa duração de quem está controlado com a associação — a retirada do segundo piora controle e qualidade de vida e aumenta exacerbações.

    Prescrição
    • Regime preferencial, etapa 3: budesonida com formoterol 200/6 mcg — 1 inalação de 12 em 12 horas mais 1 inalação sob demanda, respeitando o teto de 12 inalações ao dia somando manutenção e alívio
    • Regime alternativo, etapa 3 com o que há no Básico: beclometasona aerossol 250 mcg — 2 jatos de 12 em 12 horas, que são 1.000 mcg ao dia, mais salbutamol 100 mcg, 1 a 2 jatos sob demanda, ambos com espaçador
    • Nunca beta2-agonista de longa duração sem corticoide inalatório, e nunca corticoide com salmeterol como medicamento de alívio
    • Ao descer: reduzir 25% a 50% da dose do corticoide inalatório e reavaliar em 3 meses, com controle medido antes e depois
    • Registrar na receita a apresentação e o número de jatos por dia, e não apenas o nome do medicamento
09

Como saber se está funcionando

Asma é a doença em que o paciente se acostuma com o próprio sintoma, e por isso a reavaliação não pode depender do relato espontâneo. O PCDT organiza o monitoramento em quatro eixos — controle dos sintomas, risco futuro, comorbidades, e técnica e adesão ao inalador — e fixa a periodicidade: 3 a 6 meses após o início ou ajuste do tratamento, e sempre após exacerbação, com frequência maior em paciente de alto risco.

Os parâmetros abaixo separam o que se mede na crise, em minutos, do que se mede no ambulatório, em meses. O campo que importa é o último de cada linha: o que fazer quando o número não melhora.

Saturação de oxigênioNa admissão da crise e a cada reavaliação, de 30 a 60 minutos após o tratamento inicial. Em todo paciente, de todas as idades, sempre — a ausência de oximetria figura entre os erros de avaliação de gravidade listados pela diretriz de 2012.

Esperado: Subir e permanecer acima de 92% com o oxigênio titulado no adulto, e entre 94% e 95% em gestante e cardiopata. Acima de 95% em ar ambiente é um dos dois critérios de alta.

Se não melhora: Abaixo de 92% após tratamento pleno indica internação. Abaixo de 90% indica tratamento intensivo pelo PCDT. Abaixo de 93% é uma das indicações de gasometria arterial. Não interprete a saturação isolada do contexto: paciente que precisa de oxigênio para manter 95% não está no mesmo lugar de quem mantém 95% em ar ambiente.

Fala, esforço e estado mentalNa admissão e a cada reavaliação da crise, antes de olhar qualquer número.

Esperado: Voltar a falar frases inteiras, parar de usar musculatura acessória e permanecer alerta e cooperativo.

Se não melhora: Fala monossilábica, retrações acentuadas mantidas, sonolência ou confusão colocam o paciente na coluna de insuficiência respiratória, independentemente do que diga a ausculta. Agitação em asmático é hipoxemia até prova em contrário e não é indicação de sedativo. Deterioração progressiva apesar de tratamento adequado é critério de terapia intensiva.

Pico de fluxo expiratório ou volume expiratório forçado no primeiro segundoNa admissão da crise, se o paciente conseguir soprar, e na reavaliação de 30 a 60 minutos. No ambulatório, ao diagnóstico, entre 3 e 6 meses de tratamento e depois a cada 1 a 2 anos.

Esperado: Na crise: chegar a 70% ou mais do previsto ou do melhor valor do paciente, que é o outro critério de alta. No ambulatório: estabilidade ou melhora entre as medidas.

Se não melhora: Valores de 50% ou menos após tratamento pleno indicam internação; abaixo de 30% do previsto é uma das indicações de gasometria e coloca o paciente na faixa muito grave. Entre mais de 50% e menos de 70%, o paciente não preenche critério de alta nem de internação: fica em observação, recebe nova série de beta2-agonista e é reavaliado.

Consumo de beta2-agonista de curta duraçãoEm toda consulta, contando frascos e datas de receita, não perguntando "usa muito?".

Esperado: Uso raro e decrescente. Menos de três frascos de 200 doses por ano, e idealmente muito menos.

Se não melhora: Mais de três frascos ao ano são 1,64 dose por dia e configuram uso excessivo, com maior risco de exacerbação; mais de um frasco por mês, 6,7 doses por dia, associa-se a maior risco de morte por asma. A resposta não é reduzir o resgate por decreto: é revisar diagnóstico, técnica, adesão e exposição e, corrigidos esses, subir o degrau do controlador.

Técnica inalatóriaEm todas as consultas, com o dispositivo na mão do paciente. O PCDT repete essa exigência em quatro pontos diferentes do texto.

Esperado: O paciente executa a técnica correta na sua frente, sem que você descreva os passos antes.

Se não melhora: Técnica incorreta aumenta o risco de exacerbação e é um dos fatores que devem ser corrigidos antes de qualquer aumento de etapa. Evite prescrever pressurizado e pó ao mesmo tempo, porque exigem técnicas diferentes. Se destreza, fluxo inspiratório, coordenação ou cognição não permitirem, troque o dispositivo em vez de aumentar a dose.

Controle medido nas últimas quatro semanasA cada 3 a 6 meses do início ou ajuste do tratamento, e sempre após exacerbação.

Esperado: Migrar para a faixa controlada e permanecer nela por pelo menos 3 meses antes de qualquer redução de dose.

Se não melhora: Antes de subir a etapa, confirme que os sintomas são mesmo de asma e corrija técnica inalatória, adesão, exposição a alérgenos e comorbidades — o protocolo condiciona a intensificação a isso. Persistir descontrolado na etapa 4 com técnica e adesão corretas é indicação de avaliação por especialista e de fenotipagem.

Exacerbações e fatores de risco futuroA cada consulta, contando episódios do último ano e cursos de corticoide oral.

Esperado: Zero exacerbação e nenhum curso de corticoide oral no período.

Se não melhora: Uma exacerbação no último ano já é fator de risco para a próxima, mesmo com sintomas controlados — controle de sintomas e risco futuro podem ser discordantes, e paciente com sintomas mínimos ainda pode ter exacerbação grave ou fatal. Corticoide oral em pelo menos metade dos dias do ano anterior, ou dose alta de corticoide inalatório com beta2-agonista de longa duração sem controle, define asma grave e encaminha.

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Onde o erro machuca

Renovar a receita de salbutamol sem prescrever corticoide inalatório

O dano: É o erro que mata neste capítulo, e não por exagero de retórica. O beta2-agonista desfaz o espasmo e deixa intactos o edema e o muco; o alívio repetido embota a percepção de gravidade e adia a procura por ajuda; e a inflamação segue avançando até a exacerbação que chega numa via aérea sem tratamento. O protocolo diz, em letra de fôrma, que não se trata asma apenas com beta2-agonista de curta duração pelo risco aumentado de exacerbação grave e morte, e que todos os pacientes devem receber tratamento contendo corticoide inalatório.

Como pegar a tempo: Conte os frascos antes de assinar. Mais de três frascos de 200 doses ao ano são 1,64 dose por dia e já configuram uso excessivo; mais de um frasco por mês associa-se a maior risco de morte. Se o paciente pede renovação do resgate, a receita que sai da sala tem de conter o controlador — e a beclometasona sai do Componente Básico e da Farmácia Popular, de modo que não há desculpa de acesso para essa peça.

Tratar asma a vida inteira sem nunca ter feito um teste de função pulmonar

O dano: Dois danos opostos e igualmente reais. Quem tem asma e nunca confirmou carrega um rótulo frágil que qualquer médico seguinte pode desmontar, e costuma ficar subtratado; quem não tem asma e carrega o rótulo recebe corticoide inalatório por anos e nunca é investigado para o que realmente causa a tosse ou a dispneia — insuficiência cardíaca, obstrução laríngea induzível, bronquiectasia, doença pulmonar obstrutiva crônica, tosse por inibidor da enzima conversora de angiotensina.

Como pegar a tempo: Confirme antes de tratar sempre que for viável, porque o corticoide inalatório reduz a variabilidade e apaga o que a espirometria mostraria. Em quem já está tratado, use o quadro de confirmação em paciente tratado em vez de suspender tudo por conta própria. E se a espirometria não existe na sua rede, escreva isso no prontuário e mantenha o pedido em aberto — a ausência do exame não é diagnóstico.

Perguntar "como vai a asma?" e anotar a resposta como avaliação de controle

O dano: A pergunta aberta mede adaptação, não doença. O protocolo registra que a percepção do paciente sobre frequência e intensidade dos sintomas pode não refletir os objetivos terapêuticos e que uma pessoa sedentária pode não relatar incômodo mesmo com função pulmonar reduzida — porque ela já reduziu a demanda até o sintoma sumir. O resultado é um paciente "bem" que segue acordando à noite e usando resgate três vezes por semana, e que só aparece na estatística quando exacerba.

Como pegar a tempo: Aplique um instrumento e anote o escore. As quatro perguntas do GINA levam trinta segundos: sintoma diurno mais de duas vezes por semana, despertar noturno por asma, resgate mais de duas vezes por semana e limitação de atividade. Conte separadamente os fatores de risco de exacerbação, que existem mesmo com sintomas controlados — controle e risco podem ser discordantes.

Prescrever beta2-agonista de longa duração sem corticoide inalatório, ou usar o de ação lenta como resgate

O dano: A monoterapia com beta2-agonista de longa duração na asma aumenta o risco de hospitalização e de morte, e as recomendações de 2020 tratam isso como efeito de classe. Do outro lado da mesma armadilha, combinações de corticoide com beta2-agonista de longa duração que não contenham formoterol não servem de medicamento de alívio pelo início de ação mais lento — o protocolo cita o salmeterol pelo nome —, de modo que o paciente fica sem resgate eficaz numa crise.

Como pegar a tempo: Nenhuma prescrição de asma contém beta2-agonista de longa duração isolado, e a regra vale também para a sobreposição asma-DPOC, em que o quadro do protocolo repete que não se administra nem beta2-agonista nem antimuscarínico de longa duração sem corticoide inalatório. E não use corticoide com formoterol como alívio em quem usa regularmente corticoide com outro beta2 de longa duração: falta evidência de segurança e eficácia para essa combinação.

Dar alta da crise com beta2-agonista e a orientação de procurar a unidade

O dano: A alta do pronto-socorro é, no Brasil, a única consulta de asma que muitos pacientes têm, e a diretriz de 2012 diz isso com todas as letras. Alta sem corticoide inalatório, sem curso de corticoide oral e sem data de retorno é a receita da recidiva nas duas primeiras semanas — que o mesmo documento aponta como consequência do manejo inadequado. Zulema já saiu assim duas vezes no último ano, e nas duas o encaminhamento dizia apenas retornar à unidade.

Como pegar a tempo: Quatro itens saem com o paciente: corticoide inalatório de manutenção, medicamento de alívio, curso curto de corticoide oral e retorno agendado entre 2 e 7 dias, com data escrita. Some a técnica inalatória demonstrada pelo paciente na sua frente e o plano de ação por escrito, com as quatro instruções: o dia a dia, quando aumentar o resgate e o controlador, quando usar corticoide oral e quando voltar à emergência.

Chamar de má adesão o que é falta de acesso — ou prescrever a apresentação que a farmácia não entrega

O dano: As recomendações de 2020 separam explicitamente a não adesão voluntária — medos e mitos sobre o tratamento — da involuntária, que é falta de acesso ao tratamento ou dificuldade no uso do dispositivo. Rotular a segunda como se fosse a primeira encerra a investigação no lugar errado: o paciente volta descontrolado, o médico sobe o degrau, e o medicamento novo também não chega. No Brasil isso tem endereço concreto: o regime preferencial do protocolo depende de corticoide com formoterol, que sai do Componente Especializado com processo, enquanto beclometasona e salbutamol saem do Componente Básico.

Como pegar a tempo: Pergunte onde o paciente retira cada item da receita e há quanto tempo não consegue. Se o inalador com formoterol não está acessível, o regime alternativo do próprio protocolo — corticoide inalatório de manutenção com beta2-agonista de curta duração de alívio — é uma escolha legítima, e o protocolo diz que a escolha do inalador deve considerar a disponibilidade no sistema de saúde. O que não é legítimo é deixar o paciente sem corticoide nenhum enquanto o processo tramita.

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O que dizer ao paciente e à família

Na asma, o que se fala na consulta integra a prescrição em vez de enfeitá-la. O protocolo lista, entre as obrigações com todo paciente, receber informações claras sobre a doença e os objetivos do tratamento, ser treinado para usar corretamente o dispositivo e aprender a reconhecer sinais de piora com um plano de ação escrito. Isso não se cumpre com um folheto.

As falas abaixo servem para as situações que mais travam o interno: explicar por que é preciso um exame para dizer que é asma, por que a bombinha de todo dia é a que trata, e por que sentir-se bem não é o mesmo que estar controlado.

Explicar por que ainda não dá para dizer que é asma, mesmo com nove anos de rótulo

"A senhora tem sintomas que combinam muito com asma, e eu não estou duvidando do que a senhora sente. O que eu não tenho na pasta é o exame que mostra isso. A asma tem uma marca registrada: o ar sai com mais dificuldade em uns momentos e com menos em outros, e existe um exame de sopro que mede exatamente essa diferença. Eu quero esse exame por um motivo prático: com ele eu sei qual bombinha e qual dose a senhora precisa, e sem ele eu fico chutando há nove anos, como já ficaram antes."

Não diga: Evite "a senhora nunca teve asma", que desautoriza o sintoma e três colegas anteriores, e evite "vamos ver se é asma mesmo", que soa como se o paciente estivesse sendo posto em dúvida. O exame é para escolher o tratamento, não para desmentir a pessoa.

Explicar a diferença entre a bombinha que alivia e a que trata

"A senhora tem duas bombinhas agora, e elas fazem coisas diferentes. Essa que a senhora já usa abre o brônquio na hora, em minutos, e é ótima para o momento em que falta ar. Só que ela não trata a inflamação que está por baixo — ela alivia e vai embora. Essa outra, que a senhora vai usar todo dia mesmo quando estiver bem, é a que desincha o brônquio por dentro. É a que faz a senhora precisar cada vez menos da primeira, e é a que evita a crise que trouxe a senhora ao pronto-socorro duas vezes no ano passado."

Não diga: Evite "é só um corticoide, é fraquinho", porque minimiza e depois não sustenta a conversa sobre efeito adverso. Evite também dizer que a bombinha de alívio "faz mal": ela é essencial na crise, e o problema é usá-la como único tratamento.

Responder ao medo do corticoide, que é o motivo mais comum de abandono

"Entendo o receio, e ele tem fundamento quando se fala do corticoide em comprimido, tomado por muito tempo. Essa bombinha é outra coisa: a dose é muito menor e ela age quase toda dentro do pulmão, que é onde a senhora precisa. O efeito mais comum é sapinho na boca e rouquidão, e os dois se evitam com duas medidas simples: usar o espaçador e bochechar com água e cuspir depois de cada uso. E olha o outro lado: quem não usa a bombinha de todo dia acaba tomando o comprimido de corticoide a cada crise, e é esse que faz o estrago."

Não diga: Evite "não tem efeito nenhum", porque a primeira candidíase destrói a confiança. Evite também prometer que ela vai poder parar: o protocolo diz que não se interrompe completamente o corticoide inalatório, e o que se busca é a menor dose eficaz.

Perguntar sobre o trabalho de um jeito que traga a informação

"Quero entender uma coisa do seu dia. Nos dias de folga, no domingo, nas férias — o chiado e a falta de ar ficam iguais, melhoram ou pioram? Pense na última vez que a senhora ficou três ou quatro dias sem ir trabalhar. Pergunto porque, quando a asma começa na vida adulta, às vezes o que dispara está no trabalho, e aí não é só questão de bombinha: a gente precisa saber a que a senhora fica exposta e o que dá para mudar."

Não diga: Evite "seu trabalho está te fazendo mal, você precisa sair de lá", dito na primeira consulta e sem confirmação: é a frase que faz o paciente parar de responder. E evite anotar só a conclusão — anote a resposta, para poder comparar na consulta seguinte.

Dizer que o paciente não está controlado quando ele acha que está

"O senhor me disse que está bem, e eu acredito que o senhor esteja se sentindo melhor do que no ano passado. Mas eu preciso te mostrar uma conta. O senhor acorda à noite por causa da tosse duas vezes por semana, usa a bombinha de alívio três vezes por semana e deixou de subir a escada. Cada uma dessas três coisas conta um ponto, e três pontos, na régua que a gente usa, é asma não controlada. Não é que o senhor esteja fazendo algo errado: é que o tratamento de agora não está sendo suficiente, e isso tem conserto."

Não diga: Evite transformar a medida em cobrança: o escore mede o tratamento, não a disciplina do paciente. E evite subir a dose no mesmo minuto sem antes conferir técnica inalatória, adesão e exposição — o protocolo condiciona a intensificação a essa checagem.

Explicar que a receita mudou porque a farmácia mudou

"Vou explicar por que a receita de hoje é diferente da que o senhor trouxe. Aquele inalador que junta os dois remédios num só é o que o protocolo prefere, e para consegui-lo pelo sistema é preciso abrir um processo na farmácia de alto custo, que leva tempo. Eu vou abrir esse processo hoje. Enquanto ele não sai, eu não quero o senhor sem tratamento: esta receita é de dois remédios separados que o senhor pega na unidade e na farmácia popular, e ela também está no protocolo. Quando o outro sair, a gente troca."

Não diga: Evite "é a mesma coisa", porque não é, e o paciente descobre. Evite também mandar o paciente esperar o processo sem tratamento nenhum, que é a forma mais comum de transformar barreira de acesso em exacerbação.

Alta da crise: dizer os sinais de alarme de um jeito que se lembre às três da manhã

"Antes da senhora ir, três coisas para levar de cabeça. Primeira: esse comprimido é por cinco dias, todos os dias de manhã, mesmo que a senhora melhore no segundo. Segunda: a bombinha marrom é todo dia, de manhã e à noite, para sempre, e é ela que evita a senhora voltar aqui. Terceira: se a senhora precisar da bombinha de alívio mais de três vezes seguidas em uma hora, ou se não conseguir falar uma frase inteira sem parar para respirar, não espere a consulta — volte. E a consulta está marcada para quinta, com data neste papel."

Não diga: Evite "qualquer coisa, procure um pronto-socorro", que não é critério e não é lembrado. Evite também entregar o plano sem ver o paciente usar o dispositivo — a técnica demonstrada por você e a técnica executada pelo paciente são coisas diferentes.

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Onde bons médicos discordam

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.

O alívio do adulto: corticoide com formoterol sob demanda, ou beta2-agonista de curta duração com corticoide de manutenção?

O regime preferencial do protocolo nacional

Corticoide inalatório com formoterol em dose baixa, sob demanda nas etapas 1 e 2 e como manutenção e alívio nas etapas 3 e 4, é o regime 1, declarado preferencial em todas as etapas do adulto. O racional é que cada uso de alívio entrega anti-inflamatório no momento em que a inflamação está pior, e que a prevenção de exacerbação grave é prioridade em todas as etapas.

Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas de Asma, Portaria Conjunta SAES/SCTIE nº 43, de 24 de março de 2026, quadro de conduta inicial em adultos e adolescentes.

O regime alternativo, e o que a farmácia básica entrega

O mesmo protocolo mantém o regime 2 — corticoide inalatório de manutenção com beta2-agonista de curta duração de alívio, ou corticoide sempre que o beta2 for usado — como alternativa quando o regime 1 não é viável, ou em paciente clinicamente estável, com boa adesão e sem exacerbação no último ano; e manda considerar a disponibilidade do dispositivo no sistema de saúde ao escolher o inalador. As duas peças do regime 2 estão no Componente Básico e na Farmácia Popular; as do regime 1 estão no Componente Especializado, com processo.

Mesmo protocolo, seção de escolha do inalador e nota da Farmácia Popular; e Rename 2024, Anexo I, Componente Básico, e Anexo III, Componente Especializado, grupo 2.

Como decidir

Decida pelo paciente que está sentado à sua frente, e a pergunta que resolve não é qual regime é melhor no ensaio clínico: é qual dos dois esse paciente terá em casa nos próximos trinta dias. Se ele já tem processo aberto ou consegue o inalador combinado, o regime 1 é o preferencial e não há motivo para hesitar. Se ele mora longe da farmácia de alto custo, já perdeu duas retiradas ou nunca abriu processo, prescrever o regime 1 sozinho é prescrever nada — e o próprio protocolo autoriza o regime 2. O erro grave, comum aos dois caminhos, é o mesmo: deixar o paciente com beta2-agonista de curta duração isolado enquanto se decide. Abra o processo e, no mesmo dia, entregue corticoide inalatório do Componente Básico.

Quanto corticoide oral, e por quantos dias, na alta da crise do adulto

Por peso, com teto de 60 mg, por 5 a 10 dias

Prednisona ou prednisolona 1 mg/kg ao dia, máximo de 60 mg ao dia, preferencialmente pela manhã, por 5 a 10 dias, para todo paciente em condições de alta da emergência salvo exacerbações muito leves. Num adulto de 70 kg, o teto manda: 60 mg, ou 3 comprimidos de 20 mg.

Diretrizes da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia para o Manejo da Asma, 2012, conduta na alta dos serviços de urgência.

Dose fixa de 40 a 50 mg, por 5 a 7 dias

Prednisolona, ou equivalente em prednisona, 40 a 50 mg ao dia por 5 a 7 dias nas exacerbações graves, em dose única diária, com administração matinal preferida para minimizar efeito sobre o eixo hipotálamo-hipófise-adrenal, e sem necessidade de desmame se o uso for menor que duas semanas. As recomendações da mesma sociedade em 2020 trazem o mesmo teto de 40 a 50 mg por 5 a 7 dias no plano de ação.

Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas de Asma, 2026, esquemas de administração; e Recomendações da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia, 2020, seção de orientações para uso de corticoide oral.

Como decidir

As duas condutas são seguras e a diferença absoluta é pequena: no adulto de 70 kg, 60 mg contra 40 a 50 mg, e até cinco dias a mais. O que decide não é o número, e sim quem é o paciente. Em quem tem diabetes, hipertensão de difícil controle, transtorno de humor conhecido, osteoporose ou cursos repetidos de corticoide no último ano, o esquema mais curto e de dose menor tem menos custo cumulativo, e o protocolo mais recente é o que o sustenta. Em quem chegou com crise grave, tem história de internação em terapia intensiva por asma ou vai voltar para casa longe e sem retorno garantido, o curso mais longo compra margem. Em qualquer dos dois, escreva a data de término no papel e reavalie antes de suspender se a crise foi manejada em casa.

Qual saturação persegue o oxigênio na crise, e qual delas dispara a escalada

Meta de 92% ou mais no adulto

Nos pacientes adultos, a meta da oxigenoterapia é manter saturação de 92% ou mais; em gestantes, pacientes com doenças cardiovasculares e crianças, a meta sobe para 94% a 95%. A escolha do sistema de oferta depende do grau de hipoxemia, dos sinais clínicos e do conforto do paciente.

Diretrizes da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia, 2012, seção de oxigenoterapia no manejo das exacerbações.

Corte de 90% como gatilho de tratamento intensivo

O protocolo nacional de 2026 não fixa meta de oxigenoterapia. Manda realizar oximetria de pulso e usa outro corte, com outra finalidade: saturação abaixo de 90% como indicativo de tratamento intensivo, ao lado de sinais de gravidade e de risco iminente, que disparam beta2-agonista, oxigênio controlado, corticoide sistêmico e transferência urgente.

Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas de Asma, 2026, seção sobre apresentação inicial durante exacerbação aguda.

Como decidir

Os dois números respondem a perguntas diferentes e podem conviver na mesma prescrição: 92% é meta de titulação do oxigênio, e 90% é gatilho de escalada. O paciente com 91% não está em conflito de diretrizes — está abaixo da meta e acima do gatilho, o que significa oferecer oxigênio e reavaliar em minutos, não relaxar. Nenhum dos dois documentos autoriza decidir pela saturação sozinha: a própria diretriz de 2012 adverte que ela nunca deve ser interpretada de maneira exclusiva e isolada do contexto clínico. Um paciente com 96% que fala por monossílabos e usa musculatura acessória é mais grave que um paciente com 93% que conversa.

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O raciocínio, em voz alta

Aluísio Ourives, 52 anos, 78 quilos, ajudante de depósito, chega ao pronto-socorro de um hospital geral às 21h40 de uma quarta-feira, trazido pela filha. Tem asma desde a adolescência. Faz cinco dias que a tosse piorou depois de um resfriado da neta, e faz dois que ele acorda de madrugada. Hoje usou a bombinha de alívio nove vezes. Entra andando, senta na maca antes que alguém peça, e fala em pedaços de frase. Frequência respiratória 28, frequência cardíaca 124, pressão 142 por 88, saturação 93% em ar ambiente, temperatura 36,4 °C. Usa musculatura acessória do pescoço. Ausculta com sibilos difusos, murmúrio vesicular presente. Não consegue executar o pico de fluxo na primeira tentativa. A filha conta que ele nunca usou bombinha todo dia, só quando aperta, e que foi internado numa unidade de terapia intensiva por asma "faz uns seis anos".

  1. o que penso agora

    Exacerbação de asma, e não é leve. Fala em frases incompletas, uso de musculatura acessória, frequência cardíaca acima de 110 e saturação de 93%: pelo quadro de gravidade, isso é crise grave. A incapacidade de executar o pico de fluxo é ela própria um dado, não uma lacuna. Tenho de tratar antes de terminar a anamnese.

  2. o que pergunto em quarenta segundos

    Internação prévia em terapia intensiva por asma — ele tem, e é o item que mais pesa entre os marcadores de risco de morte por asma. Quantas idas à emergência e internações no último ano, uso de corticoide sistêmico, quantos frascos de bombinha por mês, e o que usa de manutenção. Nove usos de resgate em um dia e nenhum controlador respondem à última pergunta antes de eu terminá-la.

  3. o que faço nos primeiros vinte minutos

    Oxigênio titulado para saturação de 92% ou mais. Salbutamol aerossol de 100 mcg, 8 jatos com espaçador, repetidos a cada 20 minutos na primeira hora — ou nebulização com 1,0 mL da solução de 5 mg/mL, que são 5 mg, diluídos até 2,5 mL, com oxigênio a 6 a 8 L/min. E prednisona 40 mg por via oral, dose única, agora: ele deglute, e via oral e intravenosa têm efeito equivalente.

  4. o que acrescento porque a crise é grave

    Brometo de ipratrópio, 2,0 mL da solução de 0,25 mg/mL, que são 0,5 mg, junto com o beta2-agonista, a cada 20 minutos por três doses. O benefício é maior justamente na abordagem inicial e parece reduzir a necessidade de internação — depois disso, o ganho é controverso, então ele entra agora ou não entra.

  5. o que não peço

    Não peço radiografia: não há suspeita de pneumonia, insuficiência cardíaca ou pneumotórax, e a crise, por enquanto, é grave e não muito grave. Não peço gasometria: a saturação é 93%, no limite do corte de 93% para gasometria, e não há pico de fluxo abaixo de 30% nem sinal de quadro muito grave. Não prescrevo antibiótico: o gatilho foi viral e antibiótico não trata crise de asma.

  6. o que peço

    Potássio. Ele vai receber três séries de beta2-agonista em uma hora e um corticoide sistêmico, e a própria bula do salbutamol adverte que agonistas beta2-adrenérgicos podem causar hipocalemia potencialmente grave, sobretudo por nebulização. É o único exame com indicação neste paciente agora.

  7. reavaliação de 60 minutos

    Fala em frases inteiras. Frequência respiratória 20, frequência cardíaca 104, saturação 96% em ar ambiente. Sibilos escassos. Agora consegue soprar: pico de fluxo de 62% do previsto. Melhorou muito — e ainda assim não preenche o critério de alta, que exige saturação acima de 95% e função de 70% ou mais.

  8. a decisão que a maioria erra

    Ele também não preenche critério de internação, que exige saturação abaixo de 92% ou função de 50% ou menos após tratamento pleno. Está na faixa que nenhum dos dois critérios cobre. A conduta é observar por mais pelo menos uma hora, repetir o beta2-agonista e reavaliar — e não dar alta porque a maca é necessária.

  9. segunda reavaliação

    Duas horas de sala. Saturação 97% em ar ambiente, pico de fluxo de 76% do previsto, sem sibilos, sem uso de musculatura acessória, falando normalmente. Agora ele preenche os dois critérios de alta. O que decide o destino a partir daqui deixa de ser o pulmão e passa a ser o contexto: ele mora com a filha, tem telefone, e o retorno pode ser agendado.

  10. o que sai escrito com ele

    Beclometasona aerossol 250 mcg, 2 jatos de 12 em 12 horas — 1.000 mcg ao dia, dose média, porque a crise foi precedida de descontrole crônico e ele nunca usou controlador. Salbutamol 100 mcg, 1 a 2 jatos com espaçador se necessário, com a instrução de procurar atendimento se precisar de mais de três séries em uma hora. Prednisona 40 mg pela manhã por 5 dias, dois comprimidos de 20 mg, sem desmame. Retorno em quatro dias, com data no papel. Plano de ação escrito, e ele demonstra a técnica antes de sair.

  11. o que fica pendente, e por quê

    Espirometria com prova broncodilatadora agendada, com a orientação escrita de suspender o salbutamol por 4 horas antes. Não se faz agora: durante e logo após a exacerbação a resposta ao broncodilatador pode estar temporariamente ausente. E fica registrada na consulta de retorno a pergunta que ninguém fez em seis anos: quantos frascos de bombinha ele usa por mês. Dois ou mais é o marcador de risco de asma fatal.

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Faça você

Zulema Bicalho volta à unidade três semanas depois, com a espirometria na mão. Volume expiratório forçado no primeiro segundo basal de 1,8 L, que é 68% do previsto para ela; após 400 mcg de salbutamol, 2,05 L. Ela iniciou beclometasona 250 mcg, 1 jato de 12 em 12 horas, na consulta passada, e diz que está "bem melhor". Perguntada item a item, responde que acorda por tosse uma vez por semana, usa o salbutamol duas vezes por semana e voltou a subir a escada da lavanderia sem parar. E acrescenta, sem ser perguntada de novo, que no feriado prolongado não tossiu nenhuma vez.

  1. achado 1

    A prova broncodilatadora: 2,05 menos 1,8 são 250 mL, e 250 sobre 1.800 são 13,9%. Os dois critérios do adulto — 12% e 200 mL — estão preenchidos ao mesmo tempo.

  2. achado 2

    O controle das últimas quatro semanas, contado pelos quatro itens: despertar noturno por asma, sim; resgate mais de duas vezes por semana, não, ela usa exatamente duas; sintoma diurno mais de duas vezes por semana, não; limitação de atividade, não. Um item.

  3. achado 3

    A dose atual: beclometasona 250 mcg, 2 jatos ao dia, são 500 mcg — o topo da faixa baixa para maiores de 12 anos, que vai de 200 a 500 mcg ao dia.

  4. achado 4

    O feriado prolongado sem tosse, dito espontaneamente por uma auxiliar de lavanderia hospitalar com asma que se manifestou na vida adulta.

Ver como fecharíamos

O diagnóstico está confirmado por critério funcional, e isso encerra nove anos de rótulo sem prova: 250 mL e 13,9% preenchem os dois critérios. O controle está parcial, não pleno — um item entre quatro coloca a asma na faixa parcialmente controlada, e um despertar noturno por semana é sintoma que se trata, não que se tolera. Antes de subir o degrau, confira o que o protocolo manda conferir: técnica inalatória com o dispositivo na mão, adesão real, exposição e comorbidade — a rinite dela, por exemplo, nunca foi tratada. Se tudo estiver correto, o passo é subir dentro do que ela consegue retirar: dobrar a beclometasona para 2 jatos de 12 em 12 horas, o que leva a 1.000 mcg ao dia, dose média, mantendo o salbutamol de alívio; e, em paralelo, abrir o processo do corticoide com formoterol, que é o regime preferencial. O achado que muda mais que a dose é o quarto: o feriado sem tosse, numa asma de início adulto, obriga a investigar componente ocupacional — perguntar de forma sistemática se os sintomas melhoram nas folgas, registrar as respostas para comparar entre consultas, e encaminhar para avaliação especializada, porque nenhum degrau de tratamento compensa exposição diária mantida. Não pare a beclometasona para testar nada: o diagnóstico já está feito, e o protocolo só admite interromper o corticoide inalatório temporariamente quando isso é necessário para confirmar o diagnóstico.

Gabarito da questão de abertura
Comentário

No quadro de sobreposição, o protocolo nacional é explícito: o tratamento com corticoide inalatório é essencial para reduzir o risco de exacerbações graves e morte, a adição de beta2-agonista ou de antimuscarínico de longa duração geralmente é necessária, e não se administra nenhum dos dois sem corticoide inalatório. Broncodilatador de ação prolongada isolado é tratamento inicial da doença pulmonar obstrutiva crônica, não da asma nem da sobreposição, e na asma aumenta o risco de exacerbação grave e morte. Corticoide oral de manutenção aparece no mesmo quadro apenas como último recurso. Tratamento só com resgate está proscrito. A conduta se completa com reavaliação em 2 a 3 meses e encaminhamento se houver incerteza diagnóstica ou resposta inadequada. Manejo da doença pulmonar obstrutiva crônica em si segue o protocolo próprio dela.

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Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
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Plano de revisão

Em 7 dias

Demonstre uso do inalador com espaçador e peça ao colega que repita. Depois interprete um registro de sintomas e um teste funcional, indicando o que apoia o diagnóstico e o que falta confirmar.

Em 30 dias

Resolva uma exacerbação e organize a consulta após a crise: controlador, alívio, técnica, adesão, plano escrito e retorno. Explique por que sentir-se bem hoje não elimina risco futuro.

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Agora atenda

Mulher de 41 anos chega à unidade básica pedindo renovação da receita da bombinha. Diz que tem asma desde criança e que está "bem". Traz na bolsa dois frascos vazios de salbutamol e um pela metade; a receita anterior é de quatro meses atrás. Não usa nenhum outro medicamento inalatório. Confirme o diagnóstico, meça o controle em vez de estimá-lo, e escreva uma receita que ela consiga aviar.

Asma: diagnóstico, controle e tratamento escalonado – Asma: chiar não é diagnóstico, e sentir-se bem não é controle — Internato | OsceLabs