Cirurgia Geral › Pré e Pós-operatório
A avaliação pré-operatória
Avaliação pré-operatória e estratificação de risco cirúrgico
Transformar a avaliação em um plano de preparo, medicamentos e acompanhamento proporcional ao risco do paciente e ao risco de adiar a cirurgia.
Sociedade Brasileira de Cardiologia — Diretriz de Avaliação Cardiovascular Perioperatória da Sociedade Brasileira de Cardiologia – 2024. Gualandro DM, Fornari LS, Caramelli B, et al. Arq Bras Cardiol. 2024;121(9):e20240590
Conselho Federal de Medicina — Resolução CFM nº 2.174, de 14 de dezembro de 2017, que dispõe sobre a prática do ato anestésico e revoga a Resolução CFM nº 1.802/2006 (publicada no D.O.U. de 27/02/2018, Seção I, p. 82)
Ministério da Saúde / ANVISA / FIOCRUZ — Anexo 03: Protocolo para Cirurgia Segura, aprovado pela Portaria GM/MS nº 1.377, de 9 de julho de 2013, no âmbito do Programa Nacional de Segurança do Paciente (Portaria GM/MS nº 529/2013)
Sociedade Brasileira de Diabetes — Diretriz da Sociedade Brasileira de Diabetes, edição 2025: capítulo "Rastreamento e controle da hiperglicemia no perioperatório"
Colégio Brasileiro de Cirurgiões e Sociedade Brasileira de Nutrição Parenteral e Enteral — Diretriz ACERTO de intervenções nutricionais no perioperatório em cirurgia geral eletiva. de-Aguilar-Nascimento JE, Salomão AB, Waitzberg DL, et al. Rev Col Bras Cir. 2017;44(6):633-648
Garcia AP, Pastorio KA, Nunes RL, Locks GF, Almeida MCS — Indicação de exames pré-operatórios segundo critérios clínicos: necessidade de supervisão. Rev Bras Anestesiol. 2014;64(1)
Covre ER, Melo WA, Tostes MFP, Fernandes CAM — Tendência de internações e mortalidade por causas cirúrgicas no Brasil, 2008 a 2016. Rev Col Bras Cir. 2019;46(1):e20191979
Santos GAAC, Bocchi SCM — Cancelamento de cirurgias eletivas em hospital público brasileiro: motivos e redução estimada. Rev Bras Enferm. 2017;70(3):561-568
Degani-Costa LH, Faresin SM, Falcão LFR — Avaliação pré-operatória do paciente pneumopata. Rev Bras Anestesiol. 2014;64(1)
Oliveira Filho FJ, Garcia LR, Mellucci Filho PL, Rodrigues LS, Bertanha M — Eletrocardiograma na Avaliação Pré-Operatória do Paciente de Baixo Risco: Evidências Atuais (editorial). Arq Bras Cardiol. 2024;121(1):e20230808
SBD/SBA/ABESO. Rastreamento e controle da hiperglicemia no perioperatório. Diretriz SBD, edição 2026. [Acessar fonte](https://diretriz.diabetes.org.br/rastreamento-e-controle-da-hiperglicemia-no-perioperatorio/)
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Mulher de 32 anos, hígida, sem medicação de uso contínuo, sem queixas, vai a exérese de nódulo mamário sob anestesia local com sedação. O ambulatório encaminha com pedido de hemograma, coagulograma, glicemia, creatinina, urina tipo I, radiografia de tórax e eletrocardiograma. Qual conduta se sustenta nas recomendações brasileiras?
O paciente que você vai ver
Quinta-feira, ambulatório de cirurgia geral. O residente empurra uma pasta pela mesa e diz, já de pé: "faz o pré-operatório do seu Waldir, ele opera terça". Dentro da pasta há um pedido com um carimbo e uma frase manuscrita — "solicito avaliação pré-operatória e risco cirúrgico" — e um formulário de duas folhas com quarenta campos. O primeiro campo pergunta há quanto tempo o paciente é hipertenso.
Seu Waldir tem 68 anos, 82 quilos e 1,70 m. Tem colelitíase sintomática há oito meses, três cólicas biliares, a última com vômito, e uma colecistectomia videolaparoscópica marcada para a terça-feira seguinte, dia 18. Infartou há três anos, fez angioplastia com implante de stent na ocasião e desde então toma um comprimido por dia "do coração". Fumou trinta anos e parou na semana do infarto. Trouxe uma sacola de supermercado com seis caixas de remédio dentro, um envelope com exames de dois meses atrás e a mulher, que fala mais do que ele.
O que trava aqui não é a doença dele — a vesícula está resolvida, e a cirurgia é a mesma há décadas. Trava a pasta. Você preenche os quarenta campos, marca hipertensão, diabetes e infarto prévio, escreve "risco cirúrgico moderado" na última linha e faz o que todo mundo faz: pede a bateria. Hemograma, coagulograma, ureia, creatinina, sódio, potássio, glicemia, urina tipo I, radiografia de tórax, eletrocardiograma, mais um pedido de avaliação com o cardiologista. Onze itens. Dois deles vão mudar alguma coisa. Um vai voltar levemente alterado e abrir uma investigação nova. E a única informação que muda de verdade o dia da cirurgia está na sacola, numa caixa que ninguém abriu: dapagliflozina 10 mg, um comprimido pela manhã.
Vale entender para que serve o papel que você está preenchendo, porque isso reorganiza tudo o que vem depois. A avaliação pré-operatória não é um passaporte com dois carimbos possíveis, liberado e não liberado. É um documento que responde a três perguntas para gente que não vai te ligar: quanto risco este paciente carrega para esta cirurgia, o que dá para reduzir nos dias que faltam, e o que a equipe da sala precisa saber na manhã do dia 18. Quem decide se anestesia é o anestesista, e a norma que rege isso é do Conselho Federal de Medicina — a Resolução 2.174/2017 diz que, antes de qualquer anestesia fora da urgência, é indispensável conhecer com a devida antecedência as condições clínicas do paciente, e que cabe ao anestesista decidir sobre a realização ou não do ato. O seu papel é entregar a ele um paciente conhecido e, na medida do possível, otimizado.
Quem adoece disso
O tamanho do problema brasileiro dá a escala do gesto. Entre 2008 e 2016, o Sistema de Informações Hospitalares registrou 37.565.785 internações cirúrgicas pagas pelo SUS — média de 4,17 milhões por ano — com mortalidade cirúrgica global de 1,63%, variando de 1,07% no Norte a 2,02% no Sul. Isso é da ordem de 68 mil mortes por ano em internação cirúrgica, cerca de 186 por dia. E o país opera pouco: a taxa fica em torno de 2.020 procedimentos por 100 mil habitantes ao ano, contra a meta internacional de 5.000. Os dois números juntos formam o pano de fundo de toda decisão que você vai tomar neste capítulo: a fila é longa, e cada adiamento que você provoca tem custo para alguém que está nela.
O que a avaliação de rotina produz, medido em hospital universitário brasileiro, é desperdício em uma ponta e falha na outra. Em estudo prospectivo de um ano com 1.063 adultos em cirurgia eletiva não cardíaca, 41,9% dos exames feitos em pacientes asa I não tinham indicação pelo protocolo do próprio serviço, e em asa II foram 17,72%. Os campeões de pedido inútil são os testes de coagulação — 552 tempos de protrombina e 402 tempos de tromboplastina parcial ativada solicitados sem indicação —, seguidos de 207 hemogramas e 141 creatininas. Só que o mesmo estudo mostra o outro lado com a mesma clareza: entre os asa IV, 22,5% dos exames que estavam indicados não foram feitos, e faltaram 222 eletrocardiogramas. A conclusão prática não é "pedir menos", e muito menos "pedir mais": é que a bateria fixa erra nos dois sentidos ao mesmo tempo, porque ela não pergunta nada sobre o paciente.
O cancelamento é onde a conta chega. Num hospital público terciário do Estado de São Paulo, das 8.443 cirurgias eletivas agendadas em 2013, 573 foram suspensas — 6,79%, taxa menor que os 16,1% a 17,3% relatados por outros hospitais universitários brasileiros. Das suspensões classificadas, 48,33% foram por motivo clínico e 46,40% por motivo não clínico, com "a pedido do cirurgião ou mudança de conduta" liderando (17,93%), seguido de "paciente não internou" (8,96%) e falta de material (6,50%). Os autores estimam que 80% das razões sejam preveníveis, o que levaria o índice de 6,79% para 1,36%. Guarde a metade clínica: quase toda ela é descompensação de doença crônica no dia — hipertensão e diabetes na frente —, que é exatamente aquilo que a avaliação existe para encontrar com antecedência. Cirurgia cancelada na véspera raramente é azar; costuma ser uma avaliação feita tarde demais para servir de alguma coisa.
Por que acontece o que acontece
A cirurgia é um estresse fisiológico programado, e é isso que torna o risco previsível. Do jejum à alta, quatro coisas se somam num intervalo curto: a resposta neuroendócrina à incisão, com liberação de catecolaminas e cortisol; a resposta inflamatória, que deixa o sangue transitoriamente hipercoagulável; a anestesia, que remove reflexos protetores e derruba a resistência vascular; e a imobilidade com dor, que reduz volume corrente e mantém estase venosa. O efeito hemodinâmico é uma demanda miocárdica de oxigênio elevada por 48 a 72 horas em alguém que, nesse mesmo período, pode estar hipovolêmico, anêmico e taquicárdico. Num coração com reserva, isso passa. Num coração sem reserva, isso é o gatilho. Daí a régua que atravessa o capítulo: o que prevê complicação é reserva funcional, não idade — a idade só entra nos escores porque, em média, prediz reserva.
É por isso que a pergunta mais barata da consulta é também a mais forte. Capacidade funcional abaixo de quatro equivalentes metabólicos — ou, em linguagem de beira de leito, incapacidade de subir dois lances de escada — marca maior chance de complicação perioperatória, e a diretriz brasileira recomenda determiná-la na anamnese, pela habilidade de subir dois lances, em todo paciente que vai a operação de risco intermediário ou alto (Classe I, nível de evidência B). Quatro equivalentes metabólicos correspondem a um consumo de cerca de 14 mL de oxigênio por quilo por minuto, quatro vezes o gasto de repouso: subir dois lances é um teste de esforço submáximo que o paciente já fez de graça, várias vezes, sem eletrodo nenhum. Quem sobe demonstrou que aumenta débito cardíaco sob demanda. Quem não sobe não demonstrou nada — e, pior, pode estar assintomático apenas porque nunca atinge o limiar que produziria o sintoma. A própria diretriz reconhece esse ponto cego ao dizer que o escore perde acurácia justamente em quem tem baixa capacidade funcional, e que esse paciente pode precisar de investigação adicional mesmo com escore baixo.
O segundo mecanismo é o do exame que não muda conduta, e ele é probabilístico, não clínico. Um teste com especificidade limitada, aplicado a uma população de baixa probabilidade da doença, devolve sobretudo falso-positivo — o valor preditivo positivo cai junto com a prevalência. E o resultado não é inútil e inofensivo: é uma cascata de exame, parecer, adiamento e, às vezes, intervenção. A diretriz brasileira diz isso na letra ao alertar que a solicitação de provas funcionais no perioperatório exige cautela porque pode desencadear propensão a revascularizar, sem que a revascularização profilática reduza eventos em doença coronária estável. O dano do exame desnecessário quase nunca é o exame.
O terceiro mecanismo é que risco não é atributo do paciente: é atributo do par paciente-procedimento. A mesma pessoa é de baixo risco para uma catarata e de alto risco para uma aorta abdominal, porque o que muda é a duração, o estresse hemodinâmico e a perda de sangue e fluidos da intervenção. Por isso a diretriz classifica primeiro o procedimento e só depois aplica o índice clínico. Inverter essa ordem é o erro que produz a frase "paciente de alto risco" no prontuário de quem vai fazer uma exérese de lipoma.
O tempo para otimizar varia com o problema. Insuficiência cardíaca descompensada exige avaliação e tratamento antes de cirurgia eletiva, sem transformar três meses em espera obrigatória para todo diagnóstico recente. Depois de angioplastia, importam indicação, dispositivo, antiagregação e risco de adiar. HbA1c abaixo de 8% é meta desejável de otimização, sem veto automático; inibidores de SGLT2 requerem planejamento de suspensão por três a quatro dias conforme a droga. Cessar tabagismo e corrigir desnutrição também pedem oportunidade e acompanhamento. O interno identifica o problema e discute urgência e benefício de otimizar, em vez de apenas somar prazos.

Como se apresenta de verdade
O pedido que chega à sua mão é sempre o mesmo — "avaliação pré-operatória" — e o paciente por trás dele é sempre diferente. Seis figuras cobrem quase toda a agenda, e a conduta muda inteira de uma para a outra. Reconhecer qual delas está sentada na sua frente é a primeira decisão, e é a que economiza os quarenta minutos seguintes.
O paciente que precisa de uma pergunta e de nenhum exame
Mulher de 34 anos, sadia, sem medicação de uso contínuo, exérese de nódulo de mama sob anestesia local com sedação. O procedimento é de baixo risco intrínseco, e a diretriz brasileira é explícita: paciente clinicamente estável, sem condição cardíaca de alto risco, pode ser encaminhado a procedimento de baixo risco sem necessidade de avaliação adicional. Nenhum exame de rotina, nenhum parecer, nenhum eletrocardiograma — um editorial dos Arquivos Brasileiros de Cardiologia resume o ponto: nessas condições o eletrocardiograma pré-operatório não reduz mortalidade perioperatória e aumenta custo por sobreutilização.
O trabalho real aqui leva cinco minutos e é todo de anamnese: capacidade funcional, alergia com a pergunta certa, medicação de uso contínuo incluindo o que ela não considera remédio (anticoncepcional, anti-inflamatório de farmácia, chá para emagrecer, agonista de GLP-1 comprado por conta), abertura de boca e Mallampati, jejum combinado e consentimento assinado. Esse paciente é a maioria da agenda ambulatorial, e é nele que a bateria fixa produz os 41,9% de exames sem indicação medidos em asa I.
O paciente com doença crônica compensada — o mais comum
É o seu Waldir. Hipertenso, diabético, coronariopata com evento antigo, cinco a sete comprimidos por dia. A pergunta deixa de ser "tem doença?", porque a resposta é sim para todas, e passa a ser outra: cada uma delas está compensada, e quanta reserva sobrou? Compensação se mede por comportamento, não por diagnóstico — dorme com quantos travesseiros, sobe quantos degraus antes de parar, teve dor no peito nos últimos meses, quantas idas ao pronto-socorro no último ano.
É também o paciente em que a lista de medicações vale mais que a lista de exames, porque é aqui que moram as três decisões de dias-antes: o que suspende e quando, o que continua sem discussão, e o que precisa de ajuste de dose. Um paciente com essa cara, indo a uma colecistectomia videolaparoscópica, sai da consulta com dois ou três exames pedidos, não onze.
O paciente descompensado — a lista que manda parar
Existe um conjunto de onze condições em que a estabilização tem prioridade sobre a operação eletiva, que deve, sempre que possível, ser adiada e reconsiderada só depois da compensação clínica. Elas estão na primeira tabela do bloco seguinte, e duas leituras dessa lista mudam o seu comportamento. A primeira: ela é curta e é clínica — não há um único exame nela, tudo se reconhece com anamnese, exame físico e um eletrocardiograma. A segunda: fora dela, adiar por "achei o paciente meio ruim" custa uma vaga na fila e não protege ninguém.
Há uma armadilha específica na hipertensão. O corte de 180 por 110 mmHg foi estabelecido a partir de dados observacionais antigos, numa época em que ainda não se conheciam os riscos da hipotensão perioperatória; hoje sabe-se que pressão sistólica abaixo de 119 mmHg e diastólica abaixo de 63 mmHg associam-se a maior mortalidade em 30 dias. O alvo continua o mesmo, mas o esforço para "normalizar" a pressão na véspera, com dose extra de anti-hipertensivo, produz o risco que a norma nem media.

O idoso frágil, que os escores não enxergam
Fragilidade é redução de reserva fisiológica em vários sistemas ao mesmo tempo, e é entidade distinta de idade, de multimorbidade e de dependência — dá para ser velho e não frágil, e dá para ser frágil aos 62. No Brasil, a prevalência é de 9% entre pessoas de 50 anos ou mais na comunidade e de 16% acima de 65 anos, com valores maiores em ambiente de saúde. O paciente frágil tem mais infecção, delirium, lesão renal aguda, arritmia, infarto e deiscência no pós-operatório, fica mais tempo internado, recupera pior a funcionalidade e morre mais.
A diretriz recomenda avaliar fragilidade rotineiramente em idosos que vão a cirurgia de risco intermediário ou alto e medi-la com instrumento validado em vez de impressão clínica (Classe IIa). O motivo é desconfortável: a impressão subjetiva de médicos não especializados em saúde do idoso se deixa contaminar por idade avançada, baixo peso, número de doenças e uso de bengala, levando a supor fragilidade onde ela não existe. Uma escala clínica de fragilidade de nove níveis resolve isso em dois minutos. Vale registrar o limite: ainda é incerto quanto a fragilidade acrescenta aos escores de risco cardíaco. O que ela acrescenta com certeza é conversa — ela dimensiona o que o paciente e a família precisam saber antes de decidir.
O paciente em que a cirurgia não pode esperar
Aqui a régua inverte. Em emergência, o papel de quem avalia se restringe a sugerir monitorização — inclusive o local do pós-operatório — e medidas de redução de risco no intra e no pós-operatório, e a diretriz é explícita ao dizer que não se recomenda indicar nenhum exame complementar que atrase a cirurgia proposta. Em urgência há tempo para otimizar terapêutica e, quando indicado, para um ecocardiograma; provas funcionais de isquemia, não, porque o resultado não muda conduta se a cirurgia não pode ser adiada para tratar coronária.
Entre os dois extremos existe a categoria que o interno confunde com eletiva: a cirurgia tempo-dependente. Não é urgência, mas o atraso piora o prognóstico da doença de base — cirurgia oncológica é o exemplo usual, e a diretriz de diabetes acrescenta neurocirurgia descompressiva, revascularização miocárdica, sangramento ginecológico e fraturas com risco de necrose ou perda funcional, sugerindo janela de 1 a 6 semanas. Nessas, a mesma diretriz libera operar com hemoglobina glicada acima de 8%, desde que com acompanhamento especializado no pré e no pós-operatório. Traduzindo: a decisão de adiar pesa o risco da cirurgia contra o risco de esperar, e não apenas o primeiro.
Como fechar o diagnóstico
A ordem correta é o oposto da que se pratica. Primeiro classifica-se o procedimento, depois exclui-se a lista de condições instáveis, depois calcula-se o escore, depois mede-se a capacidade funcional — e só então, com esses quatro dados, decide-se se algum exame acrescenta alguma coisa. Quem pede o exame antes está usando o resultado para descobrir o que perguntar, e é assim que se gera cascata.
Um princípio governa o bloco inteiro: exame pré-operatório só existe para responder a uma pergunta que a anamnese levantou. Se você não consegue completar a frase "se este resultado vier alterado, eu faço X", o exame não tem indicação — e não pedir, nesse caso, não é economia: é conduta.
As seis perguntas que decidem quase tudo
Capacidade funcional. Não pergunte "o senhor se cansa?", porque todo mundo se cansa. Pergunte o que a diretriz manda perguntar: o senhor sobe dois lances de escada sem parar? Se a casa é térrea, ancore em outra coisa da vida dele — carregar a compra do mercado, varrer o quintal inteiro, andar quatro quarteirões em ritmo normal. E, quando a resposta for "faz tempo que não subo", descubra por quê: joelho e pulmão dão respostas diferentes de coração.
Doença descompensada. Percorra as onze condições instáveis e faça as perguntas correspondentes: dor no peito nova ou em repouso, dispneia progressiva, ortopneia, edema, síncope, palpitação sustentada. Cada "sim" muda a data da cirurgia; cada "não" bem perguntado economiza um exame.
Evento cardiovascular recente e o que foi feito nele — infarto, acidente vascular cerebral, angioplastia com stent, revascularização, tromboembolismo. O dado que decide não é o diagnóstico, é a data, e ela precisa vir com o documento: "fiz uma ponte" e "colocaram um stent" são coisas diferentes, e o paciente troca as duas com frequência.
As medicações, uma a uma, com a caixa na mão. É o item que mais gera erro real, e o único jeito de fazê-lo direito é abrir a sacola. Peça as caixas, as receitas e o cartão de outro serviço; pergunte por injeção semanal, colírio, adesivo, remédio comprado sem receita e remédio para emagrecer. A conduta item por item está na tabela do bloco seguinte.
Via aérea e jejum. A avaliação de vias aéreas não é exclusiva do anestesista: a Resolução CFM 2.174/2017 lista, no conteúdo mínimo da ficha pré-anestésica, abertura de boca e mandíbula, classificação de Mallampati, mobilidade atlanto-occipital, distância tireomentoniana, condições dentárias, prótese dentária e circunferência cervical. Olhe a boca e conte os dentes moles — prótese que solta na indução é evento evitável na véspera. O jejum é combinado agora, com hora escrita.
Alergia, com a pergunta certa. Não é "o senhor tem alergia?", é "o que aconteceu quando o senhor tomou?". Náusea com dipirona não é alergia, e o rótulo errado custa um analgésico para o resto da vida; exantema com amoxicilina é alergia até prova em contrário, e muda a antibioticoprofilaxia. Pergunte também por látex, porque a norma pede ênfase nisso, e por reação adversa a anestesia em parentes — hipertermia maligna se herda, e essa é a única chance de descobrir antes.
Classificar o procedimento, e só depois o paciente
O risco intrínseco depende do tipo e da duração da operação, não de quem a recebe, e se mede pela probabilidade de morte cardiovascular, infarto ou acidente vascular cerebral em 30 dias. Abaixo de 1% é baixo — mama, tireoide, dentário, oftalmológico, ortopédico menor, ressecção transuretral de próstata, cirurgia superficial. De 1% a 5% é intermediário — intraperitoneal (colecistectomia, hérnia hiatal, esplenectomia), cabeça e pescoço, urológica e ginecológica major, neurocirurgia e ortopedia major, endarterectomia de carótida sintomática, transplante renal. Acima de 5% é alto — aorta e vascular major, amputação por isquemia aguda, esofagectomia, pneumectomia, ressecção pancreática, hepatobiliar, cistectomia total, transplante hepático e pulmonar, perfuração intestinal.
Duas consequências imediatas. A colecistectomia videolaparoscópica é de risco intermediário, e isso sozinho já indica eletrocardiograma. E, em procedimento de baixo risco, paciente clinicamente estável e sem condição cardíaca grave segue direto para a cirurgia, sem avaliação adicional — nem exame, nem parecer. Boa parte do trabalho do ambulatório é reconhecer esse caso e devolvê-lo em cinco minutos.
O escore — e o que ele de fato entrega
A diretriz brasileira não elege um algoritmo único: manda excluir primeiro as condições cardíacas graves e instáveis e depois calcular o risco por um dos índices disponíveis, conforme a preferência do avaliador. O mais usado é o escore de Lee, já validado na população brasileira, com seis variáveis de peso igual, detalhadas na tabela do bloco seguinte: zero ou uma é risco baixo, duas é intermediário, três a seis é alto.
A classificação atual é semiquantitativa, e a razão disso é uma lição que serve para todo escore. Os percentuais da coorte original — 0,4%, 0,9%, 7% e 11% das classes I a IV — envelheceram: em dados mais recentes, reunidos na diretriz europeia, os mesmos estratos apareceram com 4%, 6%, 10% e 15%, provavelmente porque se opera hoje gente mais grave. Na classe I a diferença é de dez vezes. Como esses números variam muito conforme país e população, os autores brasileiros preferiram não escrever valor absoluto nenhum no relatório de risco. Na prática: use o escore para dizer baixo, intermediário ou alto, e resista a escrever "risco de 0,4%" no laudo, porque esse número não descreve o seu hospital.
Duas limitações precisam estar na sua cabeça. O escore perde acurácia em quem tem baixa capacidade funcional — esse paciente pode receber classificação baixa ou intermediária e ainda assim merecer investigação antes de cirurgia de alto risco. E o escore de Lee perde a capacidade de discriminar classes em cirurgia vascular arterial, subestimando eventos, especialmente em aneurisma de aorta abdominal; nesse cenário a diretriz recomenda o índice do Vascular Study Group of New England, que pontua idade (4 acima de 80 anos, 3 entre 70 e 79, 2 entre 60 e 69), doença coronariana (2), insuficiência cardíaca (2), doença pulmonar obstrutiva crônica (2), creatinina acima de 1,8 mg/dL (2), tabagismo (1), diabetes em insulinoterapia (1), betabloqueador crônico (1) e revascularização prévia (menos 1) — 0 a 4 baixo, 5 e 6 intermediário, 7 ou mais alto. Por fim, o que nenhum índice contempla, e a diretriz avisa: o risco de tromboembolismo venoso, prevalente e prevenível, que exige abordagem dedicada.
O eletrocardiograma — e os dois exames que quase ninguém pede
O principal papel do eletrocardiograma pré-operatório não é diagnóstico: é fornecer um traçado basal para comparação caso apareça suspeita de evento no pós-operatório. Isso reorganiza a indicação. Ele é Classe I quando há história ou exame físico sugestivos de doença cardiovascular, quando a operação é de risco intermediário ou alto, quando o paciente é de risco intermediário ou alto pelos algoritmos, e na presença de diabetes melito. É Classe IIa em obesos e acima de 40 anos — e é essa última linha que precisa de disciplina, porque é recomendação fraca num país onde metade dessa população tem alguma alteração no traçado.
Enquanto a bateria de rotina é pedida em quem não precisa, dois exames com recomendação Classe I passam despercebidos. O primeiro é o peptídeo natriurético: BNP ou NT-pró-BNP acima de 65 anos, ou entre 45 e 64 anos com doença cardiovascular estabelecida ou fator de risco para ela — diabetes, hipertensão, doença coronariana, obesidade, fibrilação atrial. BNP acima de 92 pg/mL ou NT-pró-BNP acima de 300 pg/mL associaram-se a risco 3,4 vezes maior de morte ou infarto não fatal em 30 dias; BNP abaixo de 30 pg/mL tem alto valor preditivo negativo.
O segundo é troponina com eletrocardiograma no pré-operatório e no primeiro e segundo dias do pós-operatório, em paciente de risco intermediário ou alto submetido a cirurgia de risco intermediário ou alto (Classe I). A maior parte do infarto perioperatório é silenciosa: acontece sob analgesia, sem dor torácica, e só aparece na curva. A contraparte é igualmente clara — dosar troponina em paciente de baixo risco ou em operação de baixo risco é Classe III. E há uma armadilha que exige o valor basal: troponina de alta sensibilidade pode estar acima do percentil 99 em até metade dos pacientes que vão a cirurgia não cardíaca, por anemia, doença renal, insuficiência cardíaca ou sepse. Sem a dosagem pré-operatória, a elevação do segundo dia não tem com o que ser comparada — e é a variação, não o valor isolado, que faz o diagnóstico.

O que não pedir, e o que custa pedir
Coagulograma. Tempo de protrombina e tempo de tromboplastina parcial ativada lideram a lista de exames feitos sem indicação nos dados brasileiros — 552 e 402 pedidos indevidos numa única casuística de um ano. Em paciente sem história de sangramento, sem hepatopatia, sem anticoagulante e sem doença hematológica, o rendimento é baixíssimo, e a triagem que funciona é a anamnese: sangrou muito em extração dentária, em parto, em cirurgia prévia? Faz hematoma sem trauma? Alguém na família sangra?
Ecocardiograma de repouso. Não é exame de rotina, e a diretriz classifica como Classe III a solicitação em indivíduo assintomático, sem suspeita de insuficiência cardíaca ou de valvopatia moderada a grave, para cirurgia de risco intermediário ou baixo — o uso mais liberal aumenta o tempo de hospitalização sem benefício clínico. As indicações Classe I são específicas: insuficiência cardíaca conhecida ou suspeita indo a cirurgia de risco intermediário ou alto sem avaliação no último ano ou com piora; valvopatia moderada a importante sem avaliação nos últimos 6 a 12 meses ou com piora; transplante hepático; e prótese valvar em paciente sintomático.
Provas funcionais de isquemia. Teste ergométrico é Classe III em cirurgia de baixo risco e em paciente de baixo risco indo a cirurgia de risco baixo ou intermediário; nos demais casos é Classe IIb, e só quando o resultado puder mudar a conduta. Provas funcionais com imagem são Classe IIa apenas na combinação de baixa capacidade funcional com risco intermediário ou alto, indo a cirurgia eletiva de risco intermediário ou alto; em quem tem capacidade funcional preservada, elas acrescentam pouco ao escore. A cineangiocoronariografia não é recomendada rotineiramente e tem as mesmas indicações de fora do perioperatório.
Radiografia de tórax e urina tipo I. A radiografia muda a conduta em 0,1% a 3% dos casos; considerá-la faz sentido em história de doença cardiopulmonar, idade acima de 40 anos ou procedimento de médio a grande porte, sobretudo torácico e abdominal — indicação frouxa que precisa ser apertada com uma pergunta concreta sobre o que se espera encontrar. Urina tipo I de rotina em assintomático não tem lugar; rastrear bacteriúria assintomática produz antibiótico sem doença.
A trava que faz tudo isso funcionar não é uma lista: é uma linha escrita. Exame não pedido sem justificativa registrada vira exame pedido pelo próximo, porque a ausência de um item na pasta é indistinguível de esquecimento. Escreva na avaliação, com todas as letras: "não solicitados coagulograma, radiografia de tórax e urina tipo I — sem história de sangramento, sem sintoma respiratório, sem sintoma urinário; nenhum deles mudaria a conduta". Duas linhas que economizam uma semana.
Os outros riscos, que o cardiológico não cobre
O erro conceitual mais comum do interno é achar que "risco cirúrgico" quer dizer risco cardiovascular. O parecer do cardiologista responde uma pergunta; sobram cinco.
Risco pulmonar. Pesam idade acima de 60 anos, doença respiratória prévia, tabagismo acima de 20 maços-ano, índice de massa corporal igual ou acima de 40, albumina abaixo de 3,5 g/dL, apneia obstrutiva do sono, corticoide crônico, etilismo e dependência para atividades de vida diária; e, do lado do procedimento, cirurgia torácica e de abdome superior, anestesia com mais de três horas e caráter de urgência. Espirometria não é rastreio: indica-se em cirurgia torácica ou de abdome superior com suspeita de doença pulmonar crônica, em pneumopatia sintomática, em bariátrica, em cifoescoliose e em doença neuromuscular. Sobre tabagismo, diga a frase certa: parar ajuda, o benefício aparece a partir de cerca de quatro semanas, e a abstinência curta não aumenta o risco.
Risco glicêmico. Diabetes muda dose, muda horário de cirurgia e muda a lista de medicações suspensas; a diretriz brasileira de diabetes pede glicemia de jejum e hemoglobina glicada na avaliação de quem não tem diagnóstico, sobretudo acima de 35 anos ou com fator de risco, tratando a consulta pré-operatória como oportunidade de diagnosticar diabetes desconhecido. O manejo está no bloco da conduta; o esquema de correção durante a internação é assunto do capítulo de hiperglicemia hospitalar.
Risco tromboembólico. A sua avaliação alimenta a decisão de profilaxia, e os dados que ela precisa colher são conhecidos: idade, índice de massa corporal, tipo e duração prevista da cirurgia, neoplasia em atividade, trombose ou embolia prévias, trombofilia, uso de estrogênio, mobilidade esperada no pós-operatório e — do outro lado da balança — sangramento ativo, coagulopatia, plaquetopenia e previsão de anestesia em neuroeixo, que impõe distância mínima entre a punção e a dose do anticoagulante. Colher e registrar isso é obrigação da avaliação; qual esquema, qual dose e por quantos dias é assunto do capítulo de profilaxia de tromboembolismo venoso no perioperatório, nesta mesma apostila.
Risco infeccioso. A avaliação também alimenta a antibioticoprofilaxia, com outros dados: classificação prevista da ferida operatória, presença de implante ou prótese, peso — porque a dose depende dele —, alergia a betalactâmico com a descrição do que aconteceu, colonização conhecida e infecção ativa em outro sítio, que costuma ser motivo para adiar. A droga, a dose e a duração são do capítulo de antibioticoprofilaxia cirúrgica e classificação de feridas, também desta apostila. O que pertence a você é garantir que o dado exista e que a prescrição permita administrar dentro dos 60 minutos que antecedem a incisão — janela que o protocolo nacional confere em voz alta, na sala.
Sobram o risco de via aérea e aspiração e o risco funcional e cognitivo do idoso, já tratados. Nenhum dos cinco é respondido por um parecer cardiológico — e é por isso que "aguardando risco cirúrgico" costuma esconder uma avaliação que ainda não começou.
O que existe no SUS, e o que fazer quando não existe
Quase toda a régua deste capítulo é feita de coisas disponíveis: anamnese, exame físico, eletrocardiograma, hemograma, creatinina, glicemia e hemoglobina glicada estão em qualquer unidade que faça pré-operatório. Ecocardiograma transtorácico existe, com fila; cintilografia de perfusão e ecocardiograma de estresse existem em serviços de referência, com fila maior. Peptídeo natriurético e troponina de alta sensibilidade têm disponibilidade desigual entre serviços, e onde eles não chegam a recomendação Classe I não deixa de valer — ela só deixa de ser executável, e a diferença precisa aparecer escrita.
Quando o exame indicado não estiver disponível a tempo, o caminho não é fingir que ele foi pedido: revisite se ele mudaria alguma coisa, substitua a informação pelo que existe — capacidade funcional bem perguntada, eletrocardiograma basal e exame físico cardiovascular cuidadoso cobrem boa parte —, e escreva o que faltou e o que foi feito no lugar. Falta registrada é limitação; falta silenciosa vira surpresa às três da manhã.
A avaliação em oito passos, e as tabelas que se consulta no meio dela
A avaliação pré-operatória produz um plano, não uma declaração de ausência de risco. Considere também o prejuízo de adiar o tratamento e confira se cada exame pode mudar uma decisão.
- 1Definir urgência e benefício da operação. Na emergência, avaliação e ressuscitação essenciais ocorrem em paralelo, sem exames que atrasem tratamento necessário.
- 2Identificar condições descompensadas e discutir otimização ou adiamento da cirurgia eletiva; decisões em procedimentos tempo-sensíveis devem ponderar ambos os riscos.
- 3Estimar risco do procedimento e do paciente com ferramenta apropriada, capacidade funcional e avaliação clínica; não usar o escore como autorização isolada.
- 4Selecionar exames que respondam a perguntas concretas e planejar o que fazer se alterados, evitando bateria fixa em pacientes de baixo risco.
- 5Reconciliar todos os medicamentos, inclusive automedicação. Registrar última dose, dias de suspensão quando indicada e critérios de reintrodução.
- 6No diabetes, buscar controle sem hipoglicemia. HbA1c desejável abaixo de 8% é meta de otimização, não cancelamento automático por um resultado isolado.
- 7Rever via aérea, risco pulmonar, nutrição, trombose, infecção, anemia, fragilidade, jejum e apoio para recuperação.
- 8Confirmar compreensão do paciente, consentimento e plano de vigilância pós-operatória; o interno apresenta a proposta à cirurgia e anestesiologia.
As onze condições que fazem adiar a cirurgia eletiva
| Condição | Como se reconhece na consulta |
|---|---|
| Síndrome coronariana aguda | Dor torácica em repouso ou em crescendo; isquemia nova no traçado |
| Doenças instáveis da aorta torácica | Dor dorsal lancinante, assimetria de pulsos, dissecção em seguimento |
| Edema agudo dos pulmões | Dispneia de repouso com estertores difusos, hipoxemia, ortopneia |
| Choque cardiogênico | Hipotensão com sinais de má perfusão e congestão |
| Insuficiência cardíaca classe funcional III ou IV | Sintomas a esforços mínimos ou em repouso |
| Angina classe funcional III ou IV | Dor a esforços mínimos ou em repouso |
| Estenose aórtica ou mitral importante sintomática | Sopro com síncope, angina ou dispneia; valvopatia conhecida com piora |
| Bradiarritmia ou taquiarritmia grave | Bloqueio atrioventricular total, taquicardia ventricular, síncope |
| Fibrilação atrial de alta resposta | Frequência acima de 120 batimentos por minuto |
| Hipertensão não controlada | Pressão acima de 180 por 110 mmHg — e o adiamento só se aplica a cirurgia eletiva de alto risco |
| Hipertensão pulmonar sintomática | Dispneia desproporcional, hiperfonese de B2, disfunção direita |
Índice de Risco Cardíaco Revisado (escore de Lee) — o cálculo de beira de leito
| Variável (1 ponto cada) | O que conta como presente |
|---|---|
| História de doença coronária | Infarto prévio, prova funcional positiva, angina, nitrato ou onda Q |
| História de insuficiência cardíaca | Diagnóstico prévio, independentemente da fração de ejeção |
| História de doença cerebrovascular | Acidente vascular cerebral ou ataque isquêmico transitório prévios |
| Creatinina acima de 2,0 mg/dL | Valor mais recente e representativo do estado atual |
| Diabetes em uso de insulina | Insulinoterapia — diabético em tratamento oral não pontua |
| Cirurgia intraperitoneal, intratorácica ou vascular suprainguinal | Variável do procedimento, não do paciente: entra antes de ele chegar |
| Leitura | 0 a 1 baixo; 2 intermediário; 3 a 6 alto. Relata-se a classe, não o percentual |
Tempos de jejum pré-anestésico — Anexo II da Resolução CFM nº 2.174/2017
| O que foi ingerido | Jejum mínimo |
|---|---|
| Líquidos claros sem resíduos (água, chá) | 2 horas |
| Leite materno | 4 horas |
| Leite não humano ou fórmula | 6 horas |
| Refeições leves | 6 horas |
| Dieta geral | 8 horas |
Medicação de uso contínuo no perioperatório — o que fazer com cada uma
| Classe | Conduta | Quando | Fonte |
|---|---|---|---|
| Betabloqueador | MANTER em quem já usa. Não introduzir em quem não usava | Durante todo o perioperatório. Introdução nos 7 dias que antecedem a cirurgia é Classe III | SBC 2024, Quadro 18 (Classe I, nível B / Classe III, nível B) |
| Estatina | MANTER em quem já usa; introduzir antes de cirurgia vascular arterial | Todo o perioperatório; em vascular, atorvastatina 20 mg iniciada de preferência 2 semanas antes e mantida por 30 dias | SBC 2024, Quadro 19 (Classe I, nível A e B) |
| Inibidor da ECA e bloqueador do receptor de angiotensina | Decisão individualizada: manter é permitido, suspender também. Se suspender, reintroduzir o quanto antes | Considerar suspender a dose da manhã do dia da cirurgia quando houver previsão de sangramento ou labilidade pressórica; a não reintrodução em até 2 dias associou-se a mais mortalidade | SBC 2024, item 3.2.4.1 e Quadro 10 |
| Diurético | MANTER, inclusive no dia — a manutenção mostrou-se segura | Sem suspensão de rotina; individualizar se houver hipovolemia | SBC 2024, item 3.2.4.3 |
| Bloqueador de canal de cálcio | MANTER em uso crônico, com decisão individualizada | Todo o perioperatório | SBC 2024, item 3.2.4.2 |
| Clonidina e simpatolíticos centrais | MANTER — a suspensão tem efeito rebote. Não introduzir para reduzir evento cardiovascular | Todo o perioperatório | SBC 2024, item 3.2.4.4 |
| AAS em prevenção SECUNDÁRIA | MANTER 100 mg por dia | Todo o perioperatório. Exceções: neurocirurgia e ressecção transuretral de próstata convencional — suspender 7 dias antes | SBC 2024, Quadro 20 (Classe I, nível A) |
| AAS em prevenção PRIMÁRIA | SUSPENDER, e não reintroduzir no pós-operatório | 7 dias antes | SBC 2024, Quadro 20 (Classe I, nível A) |
| Clopidogrel | Pode ser MANTIDO em procedimento de baixo risco de sangramento; SUSPENDER nos de risco moderado ou alto | 5 dias antes | SBC 2024, Quadros 20 e 21 |
| Ticagrelor | SUSPENDER | 5 dias antes | SBC 2024, Quadros 20 e 21 |
| Prasugrel | SUSPENDER | 7 dias antes | SBC 2024, Quadros 20 e 21 |
| Varfarina | SUSPENDER e conferir RNI abaixo de 1,5 na véspera; se estiver acima, vitamina K 1 a 2 mg por via oral e nova dosagem no dia seguinte | 5 dias antes. Ponte com heparina só em alto risco tromboembólico e prótese mecânica — não é para todos | SBC 2024, Quadro 25 e Figura 5 |
| Anticoagulantes orais diretos | SUSPENDER conforme o risco de sangramento do procedimento e a função renal; não se faz ponte com heparina | Rivaroxabana e apixabana: 24 h antes em baixo risco de sangramento, 48 h em alto risco ou clearance de 15 a 30 mL/min, reintroduzindo 24 h ou 48 h depois. Dabigatrana com função renal normal: 24 h (baixo) ou 48 h (alto); com clearance abaixo de 50 mL/min: 48 h (baixo) ou 96 h (alto). Após cateter peridural, aguardar 6 horas da retirada para a próxima dose | SBC 2024, Quadro 26 (protocolo PAUSE) |
| Metformina | MANTER até a véspera; considerar suspender no dia da cirurgia | Reintroduzir depois do procedimento, conforme evolução e ausência de complicação | SBD 2025, R5 (Classe IIa, nível B) e Tabela 1 |
| Sulfonilureia e glinida | SUSPENDER | 24 horas antes (glibenclamida, glimepirida, gliclazida). Clorpropamida: 48 a 72 horas, por meia-vida longa | SBD 2025, R4 (Classe I, nível C) |
| Inibidor de SGLT2 (dapagliflozina, empagliflozina, canagliflozina) | SUSPENDER quando houver restrição de ingestão calórica ou cirurgia de grande porte — risco de cetoacidose euglicêmica | 3 a 4 dias antes. Reintroduzir depois de liberada a ingestão oral e resolvidos os fatores de risco | SBD 2025, R6 (Classe I, nível B) |
| Inibidor de DPP-4 | MANTER | Todo o perioperatório (evitar saxagliptina em quem tem insuficiência cardíaca) | SBD 2025, R11 (Classe I, nível A) |
| Pioglitazona | Pode ser MANTIDA em cirurgia eletiva não cardíaca | Cautela em risco de descompensação cardíaca; o efeito persiste semanas após a suspensão | SBD 2025, R12 (Classe IIb, nível C) |
| Agonista de GLP-1 e coagonista GLP-1/GIP | MANTER dose e intervalo em esquema estável há mais de 12 semanas e sem risco de broncoaspiração; preparo especial obrigatório em todos | Dieta líquida nas 24 horas anteriores, com 8 a 12 horas de jejum. Suspender só se houver risco de aspiração, escalonamento de dose ou menos de 12 semanas de estabilidade: 7 dias para os de longa duração (semaglutida, dulaglutida, tirzepatida), 1 dia para os de curta (liraglutida, lixisenatida) | SBD 2025, R7, R9 e R10 (Classe I, nível C) |
| Insulina prandial (regular e análogos rápidos) | SUSPENDER as doses fixas durante o jejum; manter apenas correção de hiperglicemia | A partir do início do jejum | SBD 2025, R16 (Classe I, nível C) |
| Insulina basal NPH | MANTER a dose da noite anterior; reduzir 50% da dose da manhã em quem usa mais de metade da dose total como NPH ou dois terços dela pela manhã | Manhã do dia da cirurgia até o fim do jejum | SBD 2025, R15 (Classe IIa, nível C) |
| Insulina basal análoga (glargina, degludeca) | REDUZIR 20% a 30% da dose; até 50% em quem usa mais de metade da dose total como basal | A partir da noite anterior para glargina; começando 72 horas antes para as ultralentas, como degludeca | SBD 2025, R13 e R14 |
Lista de Verificação de Cirurgia Segura — o que se confere, quando e com quem
| Fase | Quem participa | O que o condutor confere |
|---|---|---|
| Antes da indução anestésica | Condutor, anestesiologista e enfermagem, com o paciente sempre que possível | Identificação confirmada com o próprio paciente; procedimento e local corretos; consentimento cirúrgico e anestésico assinados; sítio demarcado e visível; monitor multiparamétrico conectado e funcionando; alergias conhecidas; avaliação de via aérea difícil e risco de aspiração; risco de perda sanguínea acima de 500 mL no adulto ou 7 mL/kg na criança; checagem de segurança anestésica concluída |
| Antes da incisão (pausa cirúrgica) | Toda a equipe, parada | Apresentação de cada um por nome e função; confirmação em voz alta de paciente, sítio e procedimento; etapas e eventos críticos previstos pelo cirurgião, com perda sanguínea esperada; preocupações do anestesiologista, incluindo comorbidades e previsão de hemocomponentes; confirmação da esterilização por indicador e das condições de equipamento; antimicrobiano profilático administrado nos últimos 60 minutos; exames de imagem necessários disponíveis e expostos |
| Antes de o paciente sair da sala | Cirurgião, anestesiologista e enfermagem | Nome do procedimento efetivamente realizado; contagem final de compressas, agulhas e — em cavidade aberta — instrumental; identificação e etiquetagem da amostra, lida em voz alta; problemas de equipamento documentados; plano de recuperação pós-operatória revisado |
Uma pessoa deve conduzir a lista de verificação e confirmar as respostas com a equipe. Resolva as não conformidades antes de prosseguir na etapa correspondente. A demarcação do sítio cabe ao médico da equipe cirúrgica, antes do encaminhamento e, sempre que possível, com o paciente acordado. Use o símbolo padronizado da instituição, sem ambiguidades e visível após preparo e colocação dos campos.
Após individualizar a suspensão de um medicamento, escreva a data e, quando necessário, o horário da última dose. Expressões como “5 dias antes” podem gerar contagens diferentes; a convenção da tabela considera dias completos sem a droga antes da cirurgia. Os exemplos não se aplicam automaticamente a todos os pacientes: antiplaquetários exigem considerar indicação, stent e sangramento, e GLP-1 exige avaliar sintomas, escalonamento e risco de aspiração. A data deve traduzir a decisão acordada com a equipe.
A necessidade de repetir um exame depende de sua indicação e de mudanças clínicas desde a coleta. A diretriz apresenta intervalos específicos para ecocardiograma, que não constituem validade universal para outros exames. Reavalie resultados após eventos capazes de alterá-los, como internação, desidratação, uso de contraste ou mudança de medicamentos. Quando houver eletrocardiograma prévio, examine e preserve o traçado para comparação.
A conduta, hora a hora
O relógio deste capítulo é o calendário, e ele corre para trás a partir da data marcada. O que segue é o seu Waldir: 68 anos, 82 kg, colecistectomia videolaparoscópica eletiva na terça, dia 18. Infarto há três anos com angioplastia e stent, dupla antiagregação encerrada há mais de dois anos; hipertensão, diabetes tipo 2 e dislipidemia. Usa losartana 50 mg de 12 em 12 horas, hidroclorotiazida 25 mg pela manhã, metformina 850 mg de 12 em 12 horas, dapagliflozina 10 mg pela manhã, sinvastatina 20 mg à noite e ácido acetilsalicílico 100 mg pela manhã. Creatinina 1,3 mg/dL, com depuração estimada de 63 mL/min. Hemoglobina glicada 7,4%. Sobe dois lances de escada sem parar.
O escore de Lee dele soma 2 — história de doença coronária e cirurgia intraperitoneal — e cai em risco intermediário. Nenhuma das onze condições instáveis está presente. Capacidade funcional acima de quatro equivalentes metabólicos. Com esses três dados a avaliação inteira já está desenhada, e nenhum exame ainda foi pedido.
Duas semanas antes — a consulta que decide o resto
Quarenta minutos com a sacola de remédios aberta sobre a mesa. Colhe-se tudo e pede-se pouco: o que a bateria fixa cobriria de errado, a anamnese cobre certo. Repare no que não entra na lista de pedidos, e no que entra e quase nunca é lembrado.
Prescrição- Eletrocardiograma de 12 derivações (SBC 2024, Quadro 3, Classe I: doença coronária conhecida, cirurgia de risco intermediário, risco intermediário pelo escore e diabetes — quatro indicações Classe I no mesmo paciente)
- Creatinina com sódio e potássio — é variável do escore e governa dose de droga; ele usa diurético e inibidor de SGLT2 (SBC 2024)
- Hemograma — cirurgia intraperitoneal com previsão de sangramento, e hemoglobina abaixo de 12 g/dL é variável do índice AUB-HAS2 (SBC 2024, Tabela 4)
- Glicemia e HbA1c conforme avaliação do diabetes. HbA1c abaixo de 8% é desejável para otimização, sem tratar esse valor como limiar absoluto de liberação ou cancelamento.
- NT-pró-BNP (SBC 2024, Quadro 29, Classe I, nível B: acima de 65 anos em operação não cardíaca)
- Troponina de alta sensibilidade BASAL, para comparação no 1º e 2º dias de pós-operatório (SBC 2024, Quadro 30, Classe I, nível B)
- NÃO solicitados, com o motivo escrito na avaliação: coagulograma (sem história de sangramento, sem hepatopatia, sem anticoagulante); radiografia de tórax (assintomático, sem doença pulmonar em atividade); urina tipo I (assintomático, sem implante); ecocardiograma (sem insuficiência cardíaca ou valvopatia suspeitas — Classe III de rotina neste cenário); prova funcional de isquemia (capacidade funcional acima de 4 equivalentes metabólicos)
Duas semanas antes — o que só funciona com tempo
Tudo o que reduz risco de verdade começa agora, e é por isso que a consulta na véspera é inútil. Cada item tem prazo próprio, e o prazo é a informação.
Prescrição- Manter ácido acetilsalicílico 100 mg por via oral, uma vez ao dia, durante TODO o perioperatório — prevenção secundária, com infarto e stent prévios (SBC 2024, Quadro 20, Classe I, nível A)
- Manter sinvastatina 20 mg por via oral à noite, sem interrupção; a suspensão em usuário crônico é preditor independente de evento cardiovascular (SBC 2024, Quadro 19, Classe I, nível B)
- Se a hemoglobina glicada voltasse acima de 8%: encaminhar a endocrinologista e considerar adiar a cirurgia eletiva não tempo-sensível para otimização (SBD 2025, R2 e Nota Importante 2)
- Registrar na avaliação: escore de Lee = 2 (risco intermediário); capacidade funcional acima de 4 equivalentes metabólicos, sobe dois lances sem parar; nenhuma condição cardiovascular instável
Uma semana antes — a contagem regressiva, com data e não com número de dias
A reconciliação precisa de uma instrução para cada medicamento. A dapagliflozina merece atenção porque jejum e estresse cirúrgico podem precipitar cetoacidose com glicemia pouco elevada; suspendê-la com antecedência conforme o protocolo e reiniciar apenas com recuperação clínica e ingestão adequada. Ela não é a única droga cuja prescrição muda: neste caso, os anti-hipertensivos e a metformina também têm orientação específica para a manhã da cirurgia. Não deixar que uma frase de destaque contradiga o plano escrito.
Prescrição- Dapagliflozina 10 mg — ÚLTIMA DOSE na quinta-feira, dia 13. Não tomar nos dias 14, 15, 16 e 17. Reintroduzir apenas depois de liberada a ingestão oral e resolvidos os fatores de risco para cetoacidose (SBD 2025, R6, Classe I, nível B: 3 a 4 dias antes de cirurgia de grande porte ou com restrição de ingestão calórica)
- Ácido acetilsalicílico 100 mg — MANTIDO, inclusive na manhã do dia 18, com um gole de água (SBC 2024, Quadro 20)
- Metformina 850 mg — MANTIDA até a véspera, inclusive na noite do dia 17 (SBD 2025, R5, Classe IIa, nível B). A regra antiga de suspender 48 horas antes por medo de acidose lática não se sustentou nos estudos citados pela diretriz vigente
- A receita sai com a DATA da última dose escrita, nunca com "suspender 3 dias antes" — o restante das classes está na tabela do bloco anterior, e a contagem de dias, na nota que a acompanha
Véspera, segunda-feira dia 17 — jejum combinado com hora
O jejum não é "nada por boca depois da meia-noite": é uma prescrição com dois relógios. Prolongá-lo sem necessidade piora resistência insulínica, sede, fome, ansiedade e náusea no pós-operatório, sem reduzir aspiração. Com a cirurgia no primeiro horário, os números da norma brasileira dão uma janela confortável — e o paciente sai da consulta com esses horários escritos num papel.
Prescrição- Última refeição leve às 22h do dia 17 — 8 horas antes da indução prevista para as 7h30 (CFM 2.174/2017, Anexo II: dieta geral 8 horas, refeições leves 6 horas)
- Líquidos claros sem resíduo, contendo maltodextrina, liberados até as 5h30 do dia 18 — 2 horas antes da indução (Diretriz ACERTO 2017, recomendação 5, grau forte, evidência alta; CFM 2.174/2017: líquidos claros 2 horas)
- Metformina 850 mg por via oral às 22h do dia 17 — última dose. Sinvastatina 20 mg às 22h, mantida
- Losartana 50 mg por via oral às 20h do dia 17, mantida. A dose da manhã do dia 18 fica SUSPENSA, com reintrodução assim que houver condição clínica — decisão individualizada, tomada por haver previsão de pneumoperitônio e labilidade pressórica, e registrada para que ninguém a esqueça no pós-operatório (SBC 2024, item 3.2.4.1)
- Confirmar que o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido cirúrgico e o anestésico estão assinados ANTES do encaminhamento ao centro cirúrgico (Protocolo para Cirurgia Segura, MS/ANVISA 2013, item 6.1.1)
- Se ele usasse insulina NPH: manter a dose habitual na noite da véspera e reduzir 50% da dose da manhã do dia 18 em quem usa mais de metade da dose total como NPH ou dois terços dela pela manhã (SBD 2025, R15). Com glargina, reduzir 20% a 30% já a partir da noite da véspera; com degludeca, a redução começa 72 horas antes (R13 e R14)
Manhã da cirurgia, terça-feira dia 18
Três decisões cabem na primeira meia hora do dia, e as três são suas se você for o interno da enfermaria: o que ele toma com um gole de água, o que se mede antes de descer, e o que faz a cirurgia parar.
Prescrição- Ácido acetilsalicílico 100 mg por via oral com um gole de água, às 6h (SBC 2024, Quadro 20, Classe I, nível A)
- Losartana e hidroclorotiazida — SUSPENSAS nesta manhã, conforme decidido e registrado na véspera
- Glicemia capilar às 6h. Acima de 250 mg/dL: comunicar imediatamente e considerar adiar até que fique abaixo desse limite; o ajuste ainda é possível até 4 horas antes do procedimento (SBD 2025, Nota Importante 3)
- Se glicemia abaixo de 70 mg/dL: glicose 50%, 20 mL por via endovenosa, com reavaliação em 5 a 15 minutos, comunicando o anestesista (SBD 2025)
- Insulina prandial fixa — SUSPENSA durante todo o jejum; insulina de ação rápida apenas como correção de hiperglicemia (SBD 2025, R16, Classe I, nível C)
- Em quem usa insulina ou tem diabetes tipo 1: cetonemia capilar se houver acidose na gasometria, sintomas sugestivos, omissão de dose basal ou uso de inibidor de SGLT2. Normal abaixo de 0,6 mmol/L; acima de 3 mmol/L, provável cetoacidose (SBD 2025)
- Aferir pressão arterial. Acima de 180 por 110 mmHg em cirurgia eletiva de alto risco, considerar adiar — sem correr atrás de número baixo com dose extra, porque sistólica abaixo de 119 mmHg associa-se a maior mortalidade em 30 dias (SBC 2024, item 3.2.1)
- Confirmar o sítio demarcado com caneta dermográfica por médico da equipe, com o paciente acordado, em símbolo que permaneça visível após o preparo da pele (Protocolo para Cirurgia Segura, item 6.1.2)
Na porta do centro cirúrgico — onde a sua avaliação é conferida em voz alta
Aqui termina o seu turno neste capítulo. A Lista de Verificação de Cirurgia Segura — cujas três fases estão detalhadas na última tabela do bloco anterior — não é papelada da enfermagem: é o momento em que tudo o que você colheu duas semanas antes precisa estar escrito onde a equipe consegue ler. Se a alergia, a via aérea difícil ou a suspensão da dapagliflozina não estiverem na avaliação, ninguém vai adivinhar às 7h30.
Prescrição- Garantir que a avaliação, na pasta, traga em local visível: alergias, achados de via aérea, escore e classe de risco, decisões de medicação com datas, e o que ficou por otimizar (Protocolo para Cirurgia Segura, itens 5.1 e 6.1)
- Confirmar consentimentos cirúrgico e anestésico assinados e sítio demarcado antes de o paciente ser encaminhado à sala (itens 6.1.1 e 6.1.2)
- Se qualquer item da lista não estiver em conformidade, a verificação é INTERROMPIDA e o paciente permanece na sala até a solução — a regra tem essa palavra (item 5, parte final). Daqui em diante, o pós-operatório é outro capítulo
Como saber se está funcionando
A avaliação pré-operatória tem um problema de retroalimentação: quem a escreve quase nunca fica para ver se deu certo. O parecer sai, o paciente opera, e o interno só sabe do desfecho se o caso deu errado. A pergunta que organiza o acompanhamento é uma só: o que eu escrevi mudou alguma coisa? Avaliação que não muda conduta, não muda data e não muda prescrição foi um formulário preenchido — e o próximo paciente vai receber o mesmo formulário.
Esperado: Melhor controle glicêmico possível sem hipoglicemia, com metas perioperatórias individualizadas. HbA1c abaixo de 8% é desejável; resultado acima disso exige avaliação do contexto, benefício de otimizar e risco de adiar, sem cancelamento automático.
Se não melhora: Acima de 8%, encaminhar a endocrinologista e considerar adiar cirurgia eletiva que não seja tempo-sensível; abaixo de 6% em quem usa insulina ou secretagogo, também — o risco aqui é de hipoglicemia. Glicemia acima de 250 mg/dL na manhã pede adiamento até ficar abaixo disso, com ajuste ainda possível até 4 horas antes. E se houver acidose, vômito, dor abdominal ou uso de inibidor de SGLT2, meça cetonemia mesmo com glicemia normal: a cetoacidose euglicêmica engana o protocolo padrão e resolve em torno de 36 horas, contra 18 horas da cetoacidose clássica, porque costuma ser subtratada.
Esperado: Sem variação relevante em relação à troponina basal e sem alteração nova no traçado comparado ao pré-operatório.
Se não melhora: A maior parte do infarto perioperatório é silenciosa — acontece sob analgesia, sem dor torácica —, e é por isso que a recomendação é de dosagem seriada e não de dosagem sob suspeita. Diante de elevação, o que faz diagnóstico é a variação em relação ao valor basal, e não o valor isolado: troponina de alta sensibilidade pode estar acima do percentil 99 em até metade dos pacientes antes mesmo de operar, por anemia, doença renal, insuficiência cardíaca ou sepse. Sem basal, você fica sem referência — o que transforma a decisão de pedir a troponina pré-operatória em algo que se cobra do dia anterior, não do dia do evento.
Esperado: Cada item suspenso reintroduzido assim que a condição que motivou a suspensão desapareceu, com a data registrada.
Se não melhora: Aqui a avaliação pré-operatória cobra a conta mais cara: o que foi suspenso de propósito e não voltou. Antagonista do sistema renina-angiotensina não reintroduzido em até 2 dias após a cirurgia associou-se a aumento de mortalidade; estatina suspensa em usuário crônico é preditor independente de evento; inibidor de SGLT2 volta só depois de liberada a ingestão oral e resolvidos os fatores de risco para cetoacidose; metformina volta conforme a evolução e a ausência de complicação. Escreva a data prevista de retorno de cada suspensão na própria avaliação — é o único registro que sobrevive à troca de equipe.
Esperado: Cirurgia realizada na data marcada, sem cancelamento por causa clínica evitável e sem surpresa de medicação na sala.
Se não melhora: Cancelamento por descompensação de doença crônica no dia é o indicador mais direto de avaliação feita tarde ou feita rasa — quase metade das suspensões de cirurgia eletiva tem essa causa, e a estimativa brasileira é de 80% de evitabilidade. Pegue o caso, volte à sua avaliação e ache a linha que faltou. Os cancelamentos se concentram no primeiro horário da manhã e da tarde e nos extremos de idade — pista concreta sobre onde a preparação falha.
Onde o erro machuca
O dano: Cetoacidose diabética euglicêmica no pós-operatório imediato. O jejum e a redução de aporte de carboidrato são o gatilho principal descrito, e o quadro se instala com glicemia normal ou pouco elevada — de modo que o protocolo padrão, que dispara pela hiperglicemia, não dispara. A consequência medida é atraso: a acidose associada a inibidor de SGLT2 leva em torno de 36 horas para resolver, contra 18 horas da cetoacidose do diabetes tipo 1, atribuído justamente a subtratamento com insulina nas primeiras 24 horas.
Como pegar a tempo: Suspender 3 a 4 dias antes de cirurgia de grande porte ou com restrição de ingestão calórica, escrevendo a DATA da última dose na receita. Em cirurgia de emergência, suspender na hora e monitorar cetonemia capilar por 3 a 5 dias, ou enquanto durar o jejum. E abra a sacola: dapagliflozina, empagliflozina e canagliflozina entram na vida do paciente por prescrição do cardiologista ou do nefrologista, não do endocrinologista, e o paciente costuma dizer que "é do coração".
O dano: Efeito rebote e aumento de eventos aterotrombóticos, num paciente que tem exatamente o substrato para isso. A régua brasileira separa os dois cenários com clareza: em prevenção primária, o ácido acetilsalicílico deve ser suspenso 7 dias antes e não reintroduzido; em prevenção secundária, deve ser mantido em 100 mg por dia durante todo o perioperatório, com as únicas exceções sendo neurocirurgia e ressecção transuretral de próstata convencional, onde qualquer sangramento é catastrófico ou não tem acesso à hemostasia direta.
Como pegar a tempo: A pergunta que resolve não é "ele toma AAS?", é "por que ele toma AAS?". Infarto, stent, revascularização, acidente vascular cerebral ou doença arterial periférica em qualquer lugar da história transformam o comprimido em prevenção secundária, e ele fica. Documento na mão, não memória: o paciente troca ponte por stent com frequência.
O dano: Nos dois sentidos. Um dia a menos de suspensão de antiagregante em cirurgia de risco moderado de sangramento vira hematoma, reoperação ou transfusão; um dia a mais em quem tem stent recente aumenta janela de risco trombótico. O erro é banal e sistemático, porque "suspender 5 dias antes" é ambíguo em português: quem conta a partir do dia da cirurgia e para no quinto dia do calendário fica com quatro dias sem droga.
Como pegar a tempo: Não escreva número de dias na receita: escreva data. "Última dose de clopidogrel na quarta-feira, 12 de agosto; nenhum comprimido de 13 a 17; cirurgia dia 18." Repita a data em voz alta para o paciente e para o acompanhante, e peça que eles repitam de volta. Se o serviço tiver formulário, a linha da última dose precisa ter um campo de data, não um campo de texto livre.
O dano: O paciente entra na sala com o coração avaliado e com cinco outros riscos não avaliados: pulmonar, glicêmico, tromboembólico, infeccioso e de via aérea. É assim que se opera alguém sem profilaxia de tromboembolismo, sem antibiótico dentro da janela de 60 minutos antes da incisão, sem que ninguém tenha olhado a boca, e com uma prótese dentária que solta na indução.
Como pegar a tempo: Trate o parecer cardiológico como um dos itens da avaliação, e não como a avaliação. Percorra os cinco restantes com uma pergunta cada, e registre o dado que alimenta a decisão dos outros: classificação da ferida e alergia a betalactâmico para a antibioticoprofilaxia; mobilidade, neoplasia, trombose prévia e previsão de bloqueio em neuroeixo para a profilaxia de tromboembolismo; Mallampati e circunferência cervical para a via aérea. A frase "aguardando risco cirúrgico" costuma significar que a avaliação de verdade ainda não começou.
O que dizer ao paciente e à família
Duas coisas precisam sair desta consulta na cabeça do paciente, e só duas: o que ele tem de fazer nos dias que faltam, e o que ele tem de comunicar se acontecer. Todo o resto é conforto. O consentimento é assunto à parte e tem norma própria — o termo específico da anestesia precisa trazer as técnicas, as vantagens, as desvantagens e os riscos associados, em linguagem clara e acessível, e a assinatura acontece antes de o paciente ser encaminhado ao centro cirúrgico, não na maca. O que a técnica de comunicar notícia difícil tem a acrescentar está em capítulo próprio; aqui ficam as falas.
A prova de que a informação chegou não é a cara de quem entendeu: é o paciente repetindo. Termine toda orientação de medicação pedindo que ele conte de volta o que vai fazer, com a data.
Explicando qual remédio para e qual continua
“Seu Waldir, cada caixa tem uma instrução neste papel. Neste plano, a dapagliflozina tem última dose na quinta, dia 13, e fica suspensa nos dias seguintes, inclusive no dia da operação; depois a equipe dirá quando retomar. Losartana e hidroclorotiazida vão até a véspera e ficam suspensas na manhã do dia 18. A metformina também não entra nessa manhã. A sinvastatina continua; o ácido acetilsalicílico será mantido conforme a decisão da equipe pelo seu stent e pelo risco de sangramento. Vamos conferir juntos o nome, a última dose e o que tomar na manhã da cirurgia?”
Não diga: Suspende esse aqui três dias antes. O paciente sai e conta os três dias do jeito dele, quase sempre errando para menos, e chega no dia da cirurgia com o comprimido de sábado tomado.
Quando algo mudou entre a consulta e a cirurgia
“Faltam duas semanas, e nesse tempo o senhor pode mudar. Se aparecer dor no peito, se ficar cansado subindo aquela escada que hoje o senhor sobe sem parar, se der falta de ar deitado, se der febre, ou se algum médico mudar algum remédio seu — o senhor liga para este número antes do dia 18. Não é para "não incomodar" e chegar no dia: se algo mudou, a gente prefere remarcar com calma do que descobrir na porta da sala. Remarcar duas semanas antes custa uma ligação; descobrir às sete da manhã custa a sua vaga e a de outro paciente.”
Não diga: Qualquer coisa a gente vê no dia. É como se produz o cancelamento das sete da manhã, que nos dados brasileiros é o horário em que a maioria das suspensões acontece.
Ele pergunta se a cirurgia é arriscada por causa do infarto antigo
“Vou responder com o que eu calculei, e não com um chute. Pelo índice que a gente usa, o senhor está no risco intermediário — nem o grupo mais tranquilo, nem o mais grave. O que mais pesa a favor do senhor é uma coisa simples: o senhor sobe dois lances de escada sem parar, e isso mostra que o coração aumenta o trabalho quando precisa. Por causa desse risco intermediário, a gente vai colher um exame de sangue do coração antes e repetir no primeiro e no segundo dia depois, para pegar cedo qualquer alteração — mesmo sem dor, porque nessa fase o coração costuma reclamar calado.”
Não diga: Está tudo bem, é uma cirurgia simples. Reduz o risco a zero na cabeça do paciente e, quando algo acontece, transforma uma complicação prevista numa quebra de confiança.
Onde bons médicos discordam
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.
Manter, porque a suspensão não demonstrou benefício e a retirada tem custo próprio
Grandes análises retrospectivas que compararam suspensão e manutenção não encontraram diferença na incidência de hipotensão, na necessidade de ressuscitação volêmica ou na mortalidade em 30 dias. A descontinuação no dia da cirurgia também não aumentou a incidência de hipertensão imediatamente antes da intervenção nem a taxa de cancelamento — ou seja, o argumento prático a favor de suspender é fraco. E há um dado que pesa contra a suspensão descuidada: quando o bloqueador do receptor foi suspenso e não reintroduzido em até 2 dias após a cirurgia, houve aumento de mortalidade. A recomendação formal é de que a medicação pode ser mantida, com suspensão permitida em casos selecionados.
SBC — Diretriz de Avaliação Cardiovascular Perioperatória 2024, item 3.2.4.1 e Quadro 10 (Classe I)
Suspender, porque a hipotensão intraoperatória é o desfecho que mais custa
No mesmo documento, o estudo de Roshanov e colaboradores é apresentado com resultado oposto: a suspensão do antagonista do sistema renina-angiotensina associou-se a menor risco de hipotensão intraoperatória e a redução do desfecho composto de morte, infarto e acidente vascular encefálico. O argumento se apoia na fisiologia do bloqueio: sob anestesia, com vasodilatação e jejum, a resposta compensatória de vasoconstrição depende justamente do eixo bloqueado. E hipotensão perioperatória não é evento inócuo — pressão sistólica abaixo de 119 mmHg associa-se a maior mortalidade em 30 dias, e a hipotensão é preditora independente de infarto.
SBC — Diretriz de Avaliação Cardiovascular Perioperatória 2024, item 3.2.4.1 (Roshanov et al.) e item 3.2.2
Considere tipo de cirurgia, variabilidade da pressão e perda volêmica prevista. Hipotensão postural ou risco importante de hipotensão perioperatória pesam na discussão sobre omitir a dose da manhã; insuficiência cardíaca com fração de ejeção reduzida exige avaliar a continuidade do tratamento otimizado. Combine a decisão com a equipe e registre o plano de reintrodução, para que uma suspensão temporária não se torne definitiva por esquecimento.
Manter dose e intervalo, com preparo dietético
Recomenda-se manter a dose e o intervalo habituais em pacientes com esquema estável há mais de 12 semanas e sem fatores de risco para broncoaspiração, associando dieta líquida nas 24 horas que antecedem o procedimento, jejum de 8 a 12 horas e, quando disponível, ultrassonografia gástrica à beira do leito. O argumento é que as metanálises mostram consistentemente mais resíduo gástrico e mais procedimentos abortados entre usuários, mas não mostram diferença significativa na taxa de aspiração pulmonar ou de pneumonia aspirativa; e que a suspensão prolongada tem custo próprio — descontrole glicêmico e reganho de peso —, sendo que a própria hiperglicemia retarda o esvaziamento gástrico, com risco de retenção aumentando 36% a cada 1% de hemoglobina glicada.
SBD — Diretriz da Sociedade Brasileira de Diabetes 2025, recomendações R7, R8 e R9 (Classe I, nível C)
Suspender antes do procedimento
No mesmo capítulo, recomenda-se suspender por sete dias os agonistas de longa duração — semaglutida oral ou subcutânea, dulaglutida, tirzepatida — ou por um dia os de curta duração, em quem tem fator de risco para broncoaspiração, está em escalonamento de dose ou não atingiu estabilidade terapêutica de 12 semanas. Os dados que sustentam: seguindo o protocolo de 7 dias da sociedade americana de anestesiologia, a taxa de retenção gástrica caiu de 12,7% para 4,4% em 815 pacientes; e, em análise de 1.094 endoscopias, apenas suspensões acima de 14 dias em pacientes sem sintomas digestivos deixaram de mostrar risco aumentado de resíduo gástrico.
SBD — Diretriz da Sociedade Brasileira de Diabetes 2025, recomendação R10 e Nota Importante 8
Priorizar a avaliação individual com anestesiologia e o posicionamento conjunto SBD/SBA/ABESO disponível em 2026: distinguir esquema estável e baixo risco de sintomas digestivos, escalonamento e maior risco de aspiração. Há preparo alimentar específico e possibilidade de manutenção em pacientes selecionados; não aplicar suspensão semanal universal nem presumir estômago vazio apenas porque a droga foi suspensa. Registrar a orientação acordada e o plano glicêmico.
O raciocínio, em voz alta
Volte ao seu Waldir: 68 anos, 82 kg, colecistectomia videolaparoscópica marcada para terça, dia 18. Infarto com stent há três anos, hipertensão, diabetes tipo 2, dislipidemia. Seis caixas na sacola: losartana, hidroclorotiazida, metformina, dapagliflozina, sinvastatina e ácido acetilsalicílico. Traz exames de dois meses atrás e um pedido genérico de "risco cirúrgico". Acompanhe o raciocínio, em voz alta.
antes de olhar exame, classifico a cirurgia e percorro a lista curta
Colecistectomia é intraperitoneal, e intraperitoneal está na faixa de risco intermediário. Isso elimina o caminho curto — ele não é o paciente de baixo risco que segue direto para a sala — e já indica eletrocardiograma. Em seguida, as onze condições instáveis, todas de anamnese: dor no peito nova ou em repouso, não; dispneia progressiva, ortopneia, edema, não; síncope ou palpitação sustentada, não; ausculta limpa; pressão de 138 por 84 mmHg. Escrevo "sem condições cardiovasculares instáveis", porque isso é informação, enquanto o silêncio parece exame não feito.
calculo o escore em quinze segundos
Lee: doença coronária, sim, 1. Insuficiência cardíaca, não. Doença cerebrovascular, não. Creatinina acima de 2,0 — a dele é 1,3, então não. Diabetes em uso de insulina — ele usa oral, não pontua, e essa é a linha que mais se erra. Cirurgia intraperitoneal, sim, 1. Total de 2: risco intermediário. No relatório escrevo "escore de Lee = 2, risco intermediário" e nenhum percentual, porque os números da coorte original envelheceram — na classe I ficaram dez vezes menores que as estimativas atuais.
faço a pergunta mais barata da consulta
"O senhor sobe dois lances de escada sem parar?" Ele hesita, diz que quase não sobe escada. A mulher corrige: sobe, sim, os dois lances da casa da filha, todo domingo, sem parar e sem dor. Acima de quatro equivalentes metabólicos. Isso muda duas coisas de uma vez: o escore continua confiável, e a prova funcional sai da lista — ela é Classe IIa apenas na combinação de baixa capacidade funcional com risco intermediário ou alto. Uma pergunta bem-feita acabou de economizar uma cintilografia e três semanas de fila.
abro a sacola, e é aqui que a avaliação vira útil
Ácido acetilsalicílico: pergunto por que ele toma. Infarto com stent — prevenção secundária, fica, inclusive na manhã da cirurgia. Sinvastatina fica, porque suspendê-la em usuário crônico é preditor independente de evento. Losartana e hidroclorotiazida ficam até a véspera; a dose da manhã do dia 18 eu suspendo, por previsão de pneumoperitônio e labilidade pressórica, e escrevo a data de reintrodução na mesma linha, porque o dano documentado está na medicação que sai e não volta. Metformina fica até a noite da véspera — a régua vigente é essa, não a dos 48 horas. E a dapagliflozina para, com data escrita: última dose quinta, dia 13, nada nos dias 14 a 17. Se ela ficar, o jejum pode produzir cetoacidose com glicemia normal, que ninguém procura porque a glicemia está normal.
peço quatro exames e escrevo os cinco que não pedi
Eletrocardiograma — ele preenche quatro indicações Classe I ao mesmo tempo. Creatinina com eletrólitos, hemograma, glicemia e hemoglobina glicada. NT-pró-BNP, porque acima de 65 anos é Classe I e quase ninguém lembra. E troponina basal, porque risco intermediário em cirurgia de risco intermediário tem indicação Classe I de troponina e eletrocardiograma no pré, no primeiro e no segundo dias — sem o basal, a dosagem do segundo dia fica sem referência. Na linha seguinte, escrito: não solicitados coagulograma, radiografia de tórax, urina tipo I, ecocardiograma e prova funcional, com o motivo de cada um. Duas linhas que impedem que a bateria inteira seja pedida de novo pelo próximo profissional.
fecho combinando horários e pedindo que ele repita
Última refeição leve às 22h de segunda; líquido claro com maltodextrina liberado até 5h30 de terça — duas horas antes da indução, e não a meia-noite do dogma. Consentimentos assinados antes de descer. Glicemia capilar às 6h, com adiamento se estiver acima de 250 mg/dL. E, antes de ele sair da sala, peço que me conte de volta: qual remédio para, em que dia é a última dose, e até que horas ele pode beber. Ele erra a data na primeira vez e acerta na segunda. É por isso que se pergunta.
Faça você
Agora é dona Vilma, 66 anos, 62 kg. Colelitíase sintomática, colecistectomia videolaparoscópica eletiva agendada para daqui a três semanas. Há dois meses teve síndrome coronariana aguda e fez angioplastia com stent farmacológico; está em dupla antiagregação com ácido acetilsalicílico 100 mg e clopidogrel 75 mg por dia. Também usa atenolol, atorvastatina e sertralina. Creatinina 1,1 mg/dL. Sem angina desde a alta, sobe um lance de escada e para — antes do infarto subia dois. O cirurgião pergunta se pode operar.
o que classifico primeiro
Colecistectomia é intraperitoneal, portanto risco intrínseco intermediário, e é procedimento de risco moderado de sangramento. O escore de Lee dela soma 2 — doença coronária e cirurgia intraperitoneal —, também risco intermediário. Nenhuma das onze condições instáveis está presente hoje.
o dado que domina todos os outros
O intervalo desde a intervenção coronária percutânea. Quando a angioplastia foi feita por síndrome coronariana aguda, operar é Classe I a partir de 12 meses, Classe IIa entre 6 e 12 meses, Classe IIb entre 30 dias e 6 meses e Classe III abaixo de 30 dias. Dois meses são 60 dias.
o que a capacidade funcional está dizendo
Ela subia dois lances e agora sobe um. Isso é queda de capacidade funcional depois de evento coronariano recente, e não detalhe de conforto: abaixo de quatro equivalentes metabólicos o escore perde acurácia, e essa é justamente a combinação em que a investigação adicional passa a fazer sentido antes de cirurgia de risco intermediário ou alto.
o que aconteceria se a cirurgia fosse mantida
Ácido acetilsalicílico 100 mg é mantido durante todo o perioperatório — não é ele que se discute. O clopidogrel, em cirurgia de risco moderado de sangramento, seria suspenso 5 dias antes, e interromper a dupla antiagregação antes do tempo mínimo tem consequência: trombose de stent.
conduta: decida se opera agora, e escreva o plano com datas
— sua vez —
Continuidade do caso e prática do internato
Confira a sacola de Waldir com a prescrição e a orientação verbal. Corrija qualquer divergência antes de pedir que ele explique o plano com as próprias palavras.
Questão integrativa 1
HbA1c de 8,3% cancela automaticamente uma cirurgia?
Questão integrativa 2
Glicemia normal afasta cetoacidose em quem usava dapagliflozina?
Questão integrativa 3
Por que escrever datas em vez de apenas “suspender antes”?
Questão integrativa 4
Seu Waldir deve manter todos os comprimidos de pressão no dia da cirurgia porque a conversa diz que continuam?
Questão integrativa 5
Toda pessoa em uso de GLP-1 recebe a mesma regra de suspensão?
Questão integrativa 6
Qual pergunta justifica um exame pré-operatório?
Ver como fecharíamos
A colecistectomia dela é eletiva e não é tempo-dependente, então a resposta é adiar — e adiar com data, não indefinidamente. Aos 60 dias de uma angioplastia por síndrome coronariana aguda, operar cai na faixa de Classe IIb (entre 30 dias e 6 meses), a mais fraca das recomendações que ainda admitem o procedimento; esperar até completar 6 meses leva a decisão para Classe IIa, e até 12 meses, para Classe I. Numa colelitíase sem colecistite aguda, colangite ou pancreatite, o custo de esperar quatro meses é aborrecimento e dieta; o de antecipar é trombose de stent sob suspensão de antiagregante. A queda de capacidade funcional de dois lances para um reforça o adiamento: é dado novo depois de evento recente, e baixa capacidade funcional somada a risco intermediário é a combinação em que a prova funcional com imagem é Classe IIa. O plano escrito tem cinco linhas. Primeira: remarcar a cirurgia para depois de completados 6 meses da angioplastia, com a data alvo no papel e o cirurgião avisado agora, não na véspera. Segunda: manter ácido acetilsalicílico 100 mg por dia e clopidogrel 75 mg por dia sem interrupção até lá — a dupla antiagregação é a razão do adiamento, e suspendê-la enquanto se espera anula o motivo de esperar. Terceira: manter atenolol, porque betabloqueador de uso crônico é Classe I para manutenção no perioperatório e a retirada abrupta tem efeito rebote, e manter atorvastatina. Quarta: investigar a queda de capacidade funcional agora, para chegar à data remarcada com o diagnóstico feito em vez de descobrir na véspera. Quinta, para o dia que vier: o ácido acetilsalicílico é mantido em 100 mg por dia durante todo o perioperatório, e o clopidogrel é suspenso com DATA escrita, cinco dias sem comprimido antes da operação; se em algum momento for preciso operar antes do tempo mínimo, a orientação é fazê-lo em centro com suporte multidisciplinar e retaguarda hemodinâmica, sem ponte com heparina de baixo peso molecular, que nesse cenário é Classe III. Por fim, a conversa: dona Vilma precisa ouvir o motivo do adiamento em duas frases, com a data nova na mão, ou vai entender que perdeu a vaga e procurar outro serviço, onde a história do stent recente pode não ser contada. Questões integrativas — respostas comentadas 1. Não. É preciso ponderar risco, oportunidade de otimização e prejuízo de adiar, especialmente em operação tempo-sensível. 2. Não. Pode haver cetoacidose euglicêmica; sintomas, acidose e cetonas precisam ser avaliados no contexto. 3. Porque reduz ambiguidades e permite ao paciente e à equipe conferir a última dose e a retomada. 4. Não. A conversa precisa reproduzir o plano individual: neste caso há suspensão matinal de losartana e hidroclorotiazida. 5. Não. Avaliar estabilidade da dose, sintomas, risco de aspiração e preparo com anestesiologia. 6. Que decisão será tomada com o resultado. O exame deve responder a uma necessidade do paciente e do procedimento.
Exérese de nódulo de mama é procedimento de baixo risco intrínseco, e a diretriz brasileira afirma que paciente clinicamente estável, sem condição cardíaca de alto risco, pode seguir para procedimento de baixo risco sem avaliação adicional. Sem história de sangramento, sem hepatopatia e sem anticoagulante, o rastreio de coagulopatia por exame tem rendimento baixíssimo — e testes de coagulação lideram a lista de exames pedidos sem indicação em dados brasileiros. A norma do ato anestésico permite ao anestesista solicitar exames, mas condiciona isso à condição clínica e ao procedimento proposto: não há exigência automática. O que a avaliação entrega aqui é anamnese, via aérea, jejum e consentimento — mais a linha registrando o que não foi pedido.
Teste-se
Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.
Plano de revisão
Em 7 dias
Sem consultar nada, escreva as seis variáveis do escore de Lee e some o escore de dois pacientes reais da sua enfermaria — um clínico e um cirúrgico. Depois pegue a última avaliação pré-operatória que você assinou e confira três coisas: existe uma linha dizendo qual é a capacidade funcional em degraus? Existe alguma medicação suspensa sem data escrita? Existe uma linha dizendo quais exames NÃO foram pedidos e por quê? Corrija o que faltar antes de fechar o prontuário.
Em 30 dias
Pegue o seu Waldir e mude um dado por vez, escrevendo quais linhas da avaliação mudam. E se ele usasse insulina em vez de metformina — o escore muda? E se a creatinina fosse 2,3 mg/dL? E se ele não subisse os dois lances? E se a cirurgia fosse uma esofagectomia em vez de uma colecistectomia? E se o stent tivesse sido colocado há dois meses, e não há três anos? E se ele usasse rivaroxabana por fibrilação atrial? E se fosse cirurgia de emergência por colecistite necrosante, às três da manhã? Para cada cenário, escreva o que você pediria, o que deixaria de pedir e qual medicação teria data de última dose diferente.
Agora atenda
Agora atenda: mulher de 72 anos encaminhada ao ambulatório para avaliação pré-operatória de artroplastia total de quadril eletiva, marcada para daqui a três semanas. Tem hipertensão, diabetes tipo 2, fibrilação atrial em uso de anticoagulante oral e queixa de que "cansa para subir escada há uns meses". Chega com uma sacola de remédios e um envelope de exames de outro serviço. Conduza a avaliação: classifique a cirurgia e o paciente, calcule o escore em voz alta, faça as seis perguntas que decidem, revise a lista de medicações uma a uma dizendo o que para e em que data, decida quais exames pedir e quais NÃO pedir com o motivo, e explique a ela, em voz alta, o que ela precisa fazer nos dias que faltam.
