Cirurgia Geral › Pré e Pós-operatório
Duas contas que não se somam
Profilaxia de tromboembolismo venoso no perioperatório
Avaliar separadamente trombose e sangramento, ajustar fármaco e horários e preparar uma profilaxia que continue segura após a alta.
Ministério da Saúde, Secretaria de Ciência, Tecnologia, Inovação e do Complexo Econômico-Industrial da Saúde, Departamento de Assistência Farmacêutica e Insumos Estratégicos — Relação Nacional de Medicamentos Essenciais: Rename 2024. Brasília, 2024, 1ª edição, versão eletrônica, 254 páginas.
Ministério da Saúde — Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para a Prevenção de Tromboembolismo Venoso em Gestantes com Trombofilia, aprovado pela Portaria Conjunta SAES/SCTIE nº 23, de 21 de dezembro de 2021, republicada em 3 de janeiro de 2022.
Gualandro DM e colaboradores — Diretriz de Avaliação Cardiovascular Perioperatória da Sociedade Brasileira de Cardiologia – 2024. Arquivos Brasileiros de Cardiologia, 2024, volume 121, número 9, artigo e20240590.
Sociedade Brasileira de Anestesiologia — SBA 2020: atualização na diretriz da anestesia regional em uso de anticoagulantes. Revista Brasileira de Anestesiologia, 2020, volume 70, número 4. DOI 10.1016/j.bjan.2020.02.006.
Hospital Universitário da Grande Dourados / Ebserh — Protocolo PRT.DCDT.001: Tromboprofilaxia venosa em pacientes internados. Versão 02, emissão 6 de setembro de 2023, publicado pela Resolução nº 190, de 6 de setembro de 2023, Boletim de Serviço nº 393, de 11 de setembro de 2023. 26 páginas.
Bula profissional de Noxx (enoxaparina sódica), Blau Farmacêutica S.A., modelo de bula para o profissional de saúde conforme RDC 47/09. Apresentações de 20, 40, 60, 80 e 100 mg. 31 páginas.
Albricker ACL e colaboradores — Diretriz Conjunta sobre Tromboembolismo Venoso – 2022, do Departamento de Imagem Cardiovascular da Sociedade Brasileira de Cardiologia, Colégio Brasileiro de Radiologia, Sociedade Brasileira de Angiologia e Cirurgia Vascular e Sociedade Brasileira de Medicina Nuclear. Arquivos Brasileiros de Cardiologia, 2022, volume 118, número 4, páginas 797 a 857.
ASRA. Regional anesthesia in the patient receiving antithrombotic or thrombolytic therapy, fifth edition, 2025. [Acessar fonte](https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/39880411/)
ASCO. Venous Thromboembolism Prophylaxis and Treatment in Patients With Cancer, 2019; atualização 2023. [Acessar fonte](https://ascopubs.org/doi/10.1200/JCO.19.01461)
Responda antes de ler
Homem de 66 anos, 92 quilos, internado há quatro dias aguardando osteossíntese de fratura transtrocantérica de fêmur, agora marcada para as 8h da manhã seguinte sob raquianestesia. Creatinina 1,0, com depuração de creatinina estimada em 95 mL/min. Plaquetas 260 mil, sem sangramento. A prescrição traz enoxaparina 40 mg por via subcutânea às 20h, e são 22h15 — a dose de hoje ainda não foi aplicada porque a caixa da noite atrasou. Qual conduta com a dose desta noite?
O paciente que você vai ver
Dez e pouco da noite numa terça-feira, na enfermaria de clínica cirúrgica de dezesseis leitos. Você é o interno de plantão e a tarefa que o residente deixou antes de descer para o centro cirúrgico cabe em uma frase: “confere as profilaxias da ala e me manda no telefone o que você mudou”. Sobre o balcão do posto estão as folhas impressas do dia, e a técnica de enfermagem, a Aldenice, já separou quatro delas com clipe — não porque tenham algo errado, mas porque nas quatro a linha da heparina está diferente uma da outra e ela quer saber qual está certa antes de virar a noite.
No leito 4 está o seu Nivaldino Bentivi, 71 anos, 68 quilos, 1,70 metro, segundo dia de pós-operatório de gastrectomia subtotal por adenocarcinoma gástrico. A folha dele traz enoxaparina 40 miligramas por via subcutânea uma vez ao dia, e a alta está prevista para o fim da semana. No leito 7 está o Herculano Bevilaqua, 34 anos, hígido, internado hoje à tarde para uma herniorrafia inguinal videolaparoscópica eletiva amanhã de manhã. A folha dele também traz enoxaparina 40 miligramas. No leito 9 está o Gercino Bragada, 66 anos, 92 quilos, quarto dia de espera por osteossíntese de fratura transtrocantérica de fêmur, marcada para as oito da manhã sob raquianestesia. A folha dele traz enoxaparina 40 miligramas às vinte horas, e a dose de hoje ainda não foi feita. No leito 12 está a dona Olindina Bonilha, 79 anos, 46 quilos, terceiro dia de pós-operatório de laparotomia por obstrução intestinal por bridas, com creatinina de 1,9. A folha dela não traz linha nenhuma de profilaxia, e também não traz nenhuma frase explicando por quê.
As quatro folhas parecem quatro versões da mesma pergunta, e não são. São quatro perguntas diferentes que só por coincidência se escrevem na mesma linha da prescrição. Num deles a decisão certa é manter o que está; noutro, a decisão certa é retirar; no terceiro, a decisão é sobre o horário e não sobre a dose; e no quarto — o único em que a folha está em branco — a decisão pode até ser não fazer, mas então ela precisa estar escrita, com nome, e não pode ser um vazio.
Este capítulo é sobre esse vazio. Todo paciente cirúrgico internado tem uma decisão de profilaxia de tromboembolismo venoso, e “não fazer” é uma delas — é a única que, sendo correta com frequência, quase nunca aparece no papel. E é sobre as duas contas que governam essa decisão, que são duas e não uma: o risco de trombar e o risco de sangrar. Elas usam variáveis diferentes, não se somam, não se cancelam e não são o espelho uma da outra. Quem faz uma conta só acerta metade dos leitos por sorte.
Quem adoece disso
O tromboembolismo venoso é a terceira doença cardiovascular mais prevalente do mundo, atrás apenas do infarto agudo do miocárdio e do acidente vascular cerebral, e é a única das três que se previne com uma linha de prescrição de custo baixo. O protocolo institucional que este capítulo audita registra que quase todo paciente hospitalizado tem pelo menos um fator de risco para tromboembolismo e que cerca de 40% têm três ou mais — número que ele atribui ao oitavo consenso do American College of Chest Physicians. Traduzindo para a enfermaria: a pergunta não é quais dos seus pacientes têm risco, é quais deles têm risco suficiente para justificar a heparina, o que é outra pergunta e tem outra resposta.
O paciente cirúrgico tem uma particularidade que o distingue do clínico e que muda a aritmética. O mesmo protocolo observa que o cirúrgico com frequência apresenta o procedimento como único fator de risco, enquanto o clínico acumula vários fatores que se mantêm por tempo indeterminado. Isso tem duas consequências opostas e igualmente importantes. A primeira é que o risco do cirúrgico é datado: começa numa hora conhecida, a da incisão, e decresce de forma previsível. A segunda é que ele não termina na alta — a operação continua produzindo risco depois que o paciente sai pela porta, e é exatamente por isso que existe profilaxia estendida para alguns procedimentos e não para o paciente clínico.
A magnitude do benefício está nos próprios números que o protocolo publica para o escore cirúrgico que adota. Sem profilaxia mecânica ou farmacológica, o risco estimado de tromboembolismo é inferior a 0,5% na categoria de risco muito baixo, 1,5% na baixa, 3% na moderada e 6% na alta. São doze vezes de diferença entre as pontas, e a decisão que separa uma ponta da outra leva menos de dois minutos por leito. O que trava não é a conta. É que a folha impressa vem com a linha já preenchida do dia anterior, e manter é mais fácil do que decidir — inclusive quando o certo era apagar.
Por que acontece o que acontece
A trombose venosa se forma quando três coisas coincidem: sangue mais lento, parede vascular agredida e sangue mais coagulável. A operação entrega as três de uma vez, e essa é toda a razão de o paciente cirúrgico ser diferente. A anestesia e a imobilidade da mesa e do leito reduzem a velocidade do sangue nas veias da panturrilha por horas seguidas; a manipulação de tecidos expõe fator tecidual e ativa a cascata; e a resposta inflamatória ao trauma cirúrgico eleva fibrinogênio e fator VIII e reduz a atividade fibrinolítica por dias. Não é um insulto pontual: é uma janela que abre na sala e demora a fechar.
A duração dessa janela é o dado que mais importa para o interno e o que menos aparece nas conversas de corredor. O estado protrombótico do pós-operatório não termina quando o paciente começa a andar no corredor, nem quando ele recebe alta. Em cirurgia oncológica abdominal e pélvica e em cirurgia ortopédica de grande porte dos membros inferiores, ele se estende por semanas — e a maior parte dos eventos tromboembólicos ligados a essas operações acontece depois da alta, quando não há mais ninguém conferindo folha nenhuma. Toda a lógica da profilaxia estendida nasce daí, e quem não entende esse mecanismo lê a prescrição de vinte e oito dias de heparina como excesso de zelo.
Do outro lado da decisão está o mecanismo do sangramento, e ele é diferente em natureza, não apenas em direção. O risco de trombose é sistêmico e mais ou menos uniforme: o sangue do paciente todo está mais coagulável. O risco de sangramento é, em boa parte, local e específico do procedimento — depende de onde há uma superfície cruenta, de quantas anastomoses foram feitas, de que órgão foi ressecado e de quanto espaço tem o hematoma para crescer sem comprimir algo que não pode ser comprimido. É por isso que a tabela de fatores de risco hemorrágico do protocolo tem duas metades que não conversam: uma lista geral, que serve para qualquer paciente, e uma lista por procedimento, em que a pancreatoduodenectomia, a ressecção hepática, a craniectomia e a cirurgia da medula espinhal têm cada uma os seus próprios fatores.
Daí a regra de ouro do capítulo, e a razão do título: são duas contas, e elas não se somam. Um escore de trombose alto não fica menor porque o paciente sangra; ele continua alto e continua indicando que a heparina traria benefício. O que o risco de sangramento faz não é reduzir o risco de trombose — é retirar da mesa o instrumento farmacológico e obrigar a escolher outro. Confundir as duas contas produz os dois erros simétricos que se veem na enfermaria: heparina em quem está sangrando, porque o escore de trombose era alto; e nenhuma medida em quem tem risco alto de trombose e risco alto de sangramento, porque alguém entendeu que os dois se anulavam.
A profilaxia mecânica existe justamente para ocupar esse quadrante. A compressão pneumática intermitente e as bombas plantares atuam no primeiro vértice da tríade — devolvem velocidade ao sangue venoso — sem tocar na coagulação, e por isso são a resposta ao paciente que trombaria e não pode receber anticoagulante. Elas são menos eficazes que a heparina, e é honesto dizer isso ao aluno: o protocolo registra a superioridade do método farmacológico e reserva o mecânico para quem tem contraindicação ou risco alto de sangramento, com a ordem explícita de trocar para o farmacológico assim que o risco hemorrágico ceder. Profilaxia mecânica não é o método de quem tem preguiça de decidir; é o método de um quadrante específico, e ele tem data para acabar.
Falta o mecanismo do dano que o capítulo mais teme, que não é o sangramento cirúrgico e sim o hematoma intraespinhal. O espaço peridural é um compartimento fechado por osso: um sangramento que em qualquer outro lugar do corpo seria um hematoma sem consequência ali comprime a medula e pode deixar paraplegia permanente. A bula da enoxaparina descreve exatamente isso e diz que o evento é raro com doses iguais ou inferiores a 40 miligramas por dia, mas que o risco sobe com doses maiores, com cateter peridural mantido no pós-operatório, com punções repetidas ou traumáticas e com uso concomitante de qualquer coisa que altere a hemostasia. É por isso que a agulha e a heparina precisam de um relógio entre elas, e é por isso que esse relógio tem quatro leituras brasileiras diferentes, como se verá.
Uma última peça de fisiologia decide o capítulo inteiro no paciente magro e no paciente com rim ruim: a heparina de baixo peso molecular é eliminada por via renal, e a não fracionada não. Quando a filtração glomerular cai, a enoxaparina acumula, a meia-vida de eliminação se alonga e a dose que era profilática vira uma dose intermediária sem que nada na folha acuse a mudança. A diretriz da Sociedade Brasileira de Anestesiologia diz a mesma coisa em uma frase seca — abaixo de 30 mililitros por minuto de depuração de creatinina, a meia-vida de eliminação dobra — e é dessa frase que decorrem, ao mesmo tempo, a troca de fármaco e o alongamento da janela do neuroeixo. Um único dado de laboratório mexe nas três coisas: qual heparina, quanto dela e a que horas o anestesista pode puncionar.

Como se apresenta de verdade
O paciente cirúrgico chega à sua decisão de profilaxia por caminhos que se parecem pouco entre si, e a primeira habilidade é reconhecer qual deles está na sua frente antes de abrir qualquer escore. São cinco apresentações típicas na enfermaria de cirurgia, e cada uma tem um ponto de decisão distinto: numa o procedimento decide quase sozinho, noutra o risco vem inteiro de fora da sala cirúrgica, na terceira o problema é hemorrágico e não trombótico, na quarta o problema é de relógio, e na quinta o problema só começa quando o paciente já foi embora.
O paciente que o próprio procedimento já classifica
É o caso mais frequente e o mais rápido. Homem de 34 anos, sem comorbidade, sem medicação de uso contínuo, internado na véspera de uma herniorrafia inguinal videolaparoscópica eletiva. O risco dele é o risco da operação, e quase nada mais. Não há neoplasia, não há trombose prévia, não há imobilidade anterior à internação, e ele vai andar pelo corredor na mesma tarde.
O que caracteriza essa apresentação é a pobreza de dados, e ela é um dado. Quando a anamnese não acrescenta nada ao risco do procedimento, o escore vai fechar baixo por construção, e a decisão tende para a não prescrição — o que é diferente de tender para o vazio na folha. A pergunta prática que separa essa apresentação da seguinte é uma só, e cabe em quinze segundos: tirando a operação de amanhã, o senhor tem alguma coisa que aumente o risco de trombose? Se a resposta é não, e a revisão do prontuário confirma, você está aqui.
A armadilha desta apresentação não é clínica, é administrativa. A folha impressa do serviço frequentemente já vem com a linha da heparina preenchida, porque alguém padronizou a internação cirúrgica com profilaxia por omissão. O paciente jovem, hígido, de cirurgia pequena, recebe então uma injeção que não traz benefício mensurável e carrega um risco pequeno mas real de sangramento e de plaquetopenia. Retirar essa linha é uma decisão ativa e precisa ser registrada como tal.
O paciente cujo risco não vem da operação
Aqui a cirurgia é o menor dos problemas. Homem de 71 anos com adenocarcinoma gástrico em tratamento, operado de gastrectomia subtotal, ou mulher de 68 anos com trombose venosa profunda há dois anos que vai a uma colecistectomia. O câncer em atividade, o antecedente de tromboembolismo, a trombofilia conhecida e a imobilidade prévia carregam peso alto em qualquer modelo de estratificação e, no paciente cirúrgico, somam-se ao peso do procedimento em vez de substituí-lo.
O sinal de que você está nesta apresentação é simples: o escore fecha alto mesmo antes de você contar os pontos da operação. É o paciente em que a profilaxia é a linha mais importante da folha inteira, e também o paciente em que a duração vai se tornar a pergunta difícil — porque o risco dele não termina com a cicatrização.
Um detalhe de anamnese que muda pontuação e passa despercebido: história familiar de tromboembolismo em parente de primeiro grau. Ela pesa no modelo de avaliação usado no paciente cirúrgico e quase nunca é perguntada na admissão de enfermaria, porque a pergunta padrão é sobre hipertensão, diabetes e câncer na família. Custa uma frase: alguém da sua família teve trombose ou embolia pulmonar?
O paciente que sangra, ou que está prestes a sangrar
Esta apresentação se reconhece pelos números do laboratório e pela descrição da operação, não pela queixa. Plaquetas abaixo de 50 mil; razão normalizada internacional acima de 1,5 por insuficiência hepática; úlcera gastroduodenal ativa; hemorragia nos três meses anteriores à internação; sangramento em curso pelo dreno. Do lado cirúrgico, a lista é outra e é específica: pancreatoduodenectomia com fístula pancreática ou sangramento sentinela, ressecção hepática extensa com plaquetopenia, e o grupo de procedimentos em que a complicação hemorrágica tem consequência desproporcional — craniectomia, cirurgia da medula espinhal, trauma espinhal, procedimentos reconstrutivos com enxerto livre.
O erro característico aqui é achar que essa apresentação dispensa a primeira conta. Não dispensa. O paciente com pancreatoduodenectomia e fístula continua tendo risco alto de trombose, e continua precisando de alguma coisa: compressão pneumática intermitente, bomba plantar, mobilização assistida pela fisioterapia. É neste quadrante que a folha mais fica vazia, e a razão é banal: o campo do formulário oferece a heparina e não oferece o equipamento, de modo que a medida certa depende de alguém digitá-la por conta própria.
Uma sutileza que evita suspensões desnecessárias, e que o protocolo registra em letra miúda: sangramento ativo é contraindicação absoluta, mas duas coisas ficam fora dessa definição — epistaxe leve e menstruação fisiológica. Também não conta a hipertensão sistólica isoladamente — ela é contraindicação relativa, e o próprio documento diz que não existe valor de pressão sistólica que sirva como ponto de corte, mandando comparar os níveis atuais com os habituais daquele paciente.
O paciente que vai receber bloqueio no neuroeixo
É a apresentação em que o problema não é dose nem indicação, e sim relógio. Homem de 66 anos aguardando osteossíntese de fratura de fêmur marcada para as oito da manhã sob raquianestesia; mulher de 40 anos com cateter peridural instalado para analgesia após laparotomia. Nos dois, a heparina está indicada e vai continuar indicada; o que está em jogo é a que horas ela entra e a que horas ela sai.
O gatilho para reconhecer essa apresentação é uma pergunta que raramente aparece na passagem de plantão: este paciente tem procedimento com punção raquidiana ou peridural marcado, ou cateter peridural instalado? Se a resposta for sim, a linha da heparina deixa de ser uma decisão de enfermaria e passa a ser uma decisão compartilhada com a anestesiologia, com horário escrito na prescrição em vez de “às 20 h” genérico.
O detalhe que mais escapa é o cateter que fica. A punção única acaba na sala; o cateter peridural para analgesia continua no dorso do paciente por dois ou três dias, e cada dose de heparina desses dias tem de respeitar a mesma janela que a punção respeitou, além de uma janela nova no momento em que o cateter for retirado. É a apresentação em que o interno mais precisa saber que existe um relógio, mesmo que quem o leia seja o anestesista.
O paciente cujo problema começa na alta
Cirurgia oncológica abdominal ou pélvica; artroplastia de quadril ou joelho; fratura de quadril operada; mieloma múltiplo em uso de talidomida ou análogos. São pacientes que passam bem a internação, andam pelo corredor no terceiro dia, recebem alta no quinto e concentram parte importante do seu risco tromboembólico nas semanas seguintes, longe de qualquer folha impressa.
Reconhecer essa apresentação exige inverter a pergunta habitual. Em vez de “este paciente ainda precisa de heparina hoje?”, a pergunta é “este paciente vai precisar de heparina depois de sair daqui, e por quantos dias?”. Ela tem de ser feita antes do dia da alta, porque a resposta positiva desencadeia três outras tarefas que não cabem em vinte minutos: receita, ensino da técnica de aplicação e a conversa sobre onde conseguir o medicamento.
É também a apresentação em que a resposta brasileira é mais desconfortável, e o capítulo não vai contorná-la. A profilaxia estendida existe, tem indicação reconhecida em documento em vigor no país e não tem, para o paciente cirúrgico, porta de acesso pela Relação Nacional de Medicamentos Essenciais. Quem prescreve vinte e oito dias de enoxaparina para um paciente de cirurgia oncológica está prescrevendo, na prática, vinte e oito seringas que a família vai comprar. A quantidade a obter após a alta corresponde apenas às doses restantes do curso contado a partir da operação, descontando as já administradas. Verificar acesso real, pois inclusão ou ausência no elenco nacional não determina sozinha o estoque local.
Como fechar o diagnóstico
A investigação deste capítulo não pede exame novo quase nenhum. Ela pede que se leia, na ordem certa, o que já está no prontuário — e a ordem certa é o oposto da que se pratica. O hábito é olhar a folha do dia anterior e decidir se mantém; o correto é fazer a conta do risco de trombose, depois a conta do risco de sangramento, depois olhar a função renal e o calendário do centro cirúrgico, e só então escrever. As quatro coisas levam menos tempo do que a discussão que se tem quando uma delas foi pulada.
Uma delimitação antes de começar, para o capítulo não invadir o vizinho. O escore que se usa aqui é o do paciente cirúrgico. O paciente clínico internado — pneumonia, insuficiência cardíaca descompensada, infecção urinária — tem escore próprio, régua própria e capítulo próprio, “As três profilaxias”, na apostila de Prescrição e Cuidado do Paciente Internado, que trata da tríade tromboembolismo, lesão de estresse e broncoaspiração na enfermaria clínica. Aqui só entra o paciente que passou, ou vai passar, pela mesa cirúrgica.
Primeira conta: o risco de trombose no paciente cirúrgico
O protocolo institucional é explícito sobre a divisão de ferramentas: o escore mais utilizado para o paciente clínico é o de Pádua e, para o paciente cirúrgico, o de Caprini. Não são intercambiáveis, e usar o errado não é uma imprecisão acadêmica — Pádua não tem itens para tipo de operação, duração do ato cirúrgico ou artroplastia, que são justamente os itens que carregam peso no paciente da clínica cirúrgica.
O Caprini funciona por soma de itens com pesos de 1, 2, 3 e 5 pontos. Valem 1 ponto, entre outros, idade entre 41 e 60 anos, cirurgia pequena, índice de massa corporal acima de 25, edema de membros inferiores, veias varicosas, gravidez ou pós-parto, história de abortamento espontâneo de repetição, uso de contraceptivo ou terapia de reposição hormonal, sepse no último mês, doença pulmonar grave incluindo pneumonia no último mês, função pulmonar anormal, infarto agudo do miocárdio, insuficiência cardíaca congestiva no último mês, doença inflamatória intestinal e restrição ao leito por menos de 72 horas.
Valem 2 pontos idade entre 61 e 74 anos, cirurgia artroscópica, cirurgia aberta com mais de 45 minutos, cirurgia laparoscópica com mais de 45 minutos, neoplasia, confinamento no leito por mais de 72 horas, imobilização com gesso e cateter venoso central. Valem 3 pontos a idade acima de 75 anos, a história prévia e a história familiar de tromboembolismo, o fator V de Leiden, o polimorfismo 20210A da protrombina, o anticoagulante lúpico, o anticorpo anticardiolipina, a homocisteína elevada, a plaquetopenia induzida por heparina e as demais trombofilias. E valem 5 pontos, cada um, o acidente vascular cerebral no último mês, a artroplastia eletiva de quadril ou joelho, a fratura de quadril, pelve ou membro inferior, e a lesão medular aguda no último mês.
Repare no desenho: os itens de 5 pontos sozinhos já jogam o paciente na faixa de risco alto. Uma fratura de quadril, por si só, vale mais que idade avançada somada a neoplasia somada a cirurgia longa. Isso é intencional e é a parte do escore que o interno mais precisa memorizar, porque é a que dispensa contas: quem tem um item de 5 pontos está na faixa alta antes de você somar o resto.
Duas observações operacionais sobre a coleta desses dados. A primeira é que “cirurgia aberta com mais de 45 minutos” é um dado que ninguém mede na enfermaria — está na descrição cirúrgica, com hora de início e hora de término, e vale abrir. A segunda é que o item de mobilidade tem uma definição operacional que muda pontuação: confinamento no leito por mais de 72 horas pontua o dobro de restrição ao leito por menos de 72 horas, e a fronteira entre os dois é a data em que o paciente parou de andar, não a data da internação.
Segunda conta: o risco de sangramento, que tem duas metades
A conta do sangramento no paciente cirúrgico não é um escore único, e o protocolo é honesto ao dizer que é preciso considerar o risco hemorrágico do procedimento em conjunto com os fatores de risco individuais. Ela tem, portanto, uma metade geral e uma metade específica do procedimento, e as duas precisam ser percorridas.
A metade geral vale para qualquer paciente e é uma lista de verificação: sangramento ativo; sangramento importante prévio; doença hemorrágica conhecida não tratada; insuficiência renal ou hepática graves; trombocitopenia; acidente vascular encefálico agudo; hipertensão arterial não controlada; punção lombar, peridural ou anestesia espinhal nas últimas 4 horas ou nas próximas 12 horas; e uso concomitante de anticoagulantes, antiagregantes plaquetários ou trombolíticos. Para neuroeixo, essa lista histórica não substitui o plano atual de intervalos específicos: primeira dose diária profilática de HBPM em geral ≥12 horas após punção, hemostasia adequada e janela própria após retirada do cateter, acordadas com anestesiologia.
A metade específica é o que distingue este capítulo do capítulo clínico. Em cirurgia abdominal pesam sexo masculino, hemoglobina pré-operatória abaixo de 13 gramas por decilitro, neoplasia e cirurgia complexa — definida no próprio documento como dois ou mais procedimentos, dificuldade de dissecção ou mais de uma anastomose. Na pancreatoduodenectomia pesam sepse, fístula pancreática e sangramento sentinela. Na ressecção hepática pesam o número de segmentos ressecados, a ressecção concomitante de órgãos extra-hepáticos, a neoplasia primária de fígado, a hemoglobina baixa e a plaquetopenia. E há um grupo à parte, o dos procedimentos em que a complicação hemorrágica tem consequência desproporcional: craniectomia, cirurgia da medula espinhal, trauma espinhal e procedimentos reconstrutivos com enxerto livre.
Há um escore de sangramento no protocolo, o IMPROVE, com corte em 7 pontos, mas ele foi construído e validado para o paciente clínico e o próprio documento o apresenta dentro da seção do paciente clínico. Para o cirúrgico, o instrumento é a leitura das duas listas acima. Vale conhecer o escore porque ele aparece na prova e no prontuário eletrônico de muitos serviços, e porque a conferência dele rendeu um achado registrado nas notas deste capítulo.
O dado que mexe em três decisões ao mesmo tempo: a função renal
Estime a depuração de creatinina, não olhe só o valor da creatinina. A fórmula que o protocolo adota é a de Cockcroft e Gault: multiplique 140 menos a idade pelo peso em quilos, divida por 72 vezes a creatinina em miligramas por decilitro, e multiplique o resultado por 0,85 se a paciente for mulher. É uma conta de calculadora de celular e ela decide três coisas de uma vez.
Decide qual heparina. Abaixo de 30 mililitros por minuto, o protocolo recomenda heparina não fracionada, 5.000 unidades internacionais por via subcutânea a cada 8 ou 12 horas, porque a depuração dela é predominantemente extrarrenal e não acumula; e manda descontinuar a heparina de baixo peso molecular e substituí-la se a função renal piorar durante a internação. Decide a dose, se ainda assim se optar pela de baixo peso molecular: a bula reduz a dose profilática de 40 para 20 miligramas por dia quando a depuração está abaixo de 30. E decide o relógio do neuroeixo, porque a meia-vida dobra.
Um cuidado com o peso na fórmula: o paciente cirúrgico de enfermaria frequentemente tem peso registrado na admissão e não repesado depois, e a diferença entre o peso de admissão e o peso do terceiro dia de pós-operatório de uma laparotomia pode ser de vários quilos em qualquer direção. Peso estimado a olho é a origem silenciosa de metade dos erros de dose deste capítulo, porque a dose profilática padrão é fixa e não denuncia o erro.
E um cuidado com as faixas da própria bula, que se sobrepõem: ela define insuficiência renal moderada como depuração de 30 a 50 mililitros por minuto e leve como depuração de 50 a 80, na mesma frase. O valor exato de 50 pertence, portanto, às duas classes ao mesmo tempo. Não há consequência prática grande, porque a bula não recomenda ajuste em nenhuma das duas faixas, mas é o tipo de borda que o interno precisa aprender a notar — noutro documento, a mesma sobreposição decide dose.
O calendário do centro cirúrgico, que ninguém pergunta
Antes de escrever ou manter a linha da heparina, é preciso saber três datas que não estão na folha da prescrição: quando foi a última operação, quando é a próxima, e se há punção raquidiana ou peridural prevista. A terceira é a que quase nunca é perguntada, e é a que produz o cancelamento de cirurgia às sete da manhã.
O protocolo trata as três como contraindicação absoluta à profilaxia farmacológica em condições específicas: punção lombar nas últimas 4 horas; punção lombar esperada nas próximas 12 horas; e procedimento cirúrgico esperado para as próximas 12 horas. Essa terceira linha é mais ampla do que se imagina — ela não fala em bloqueio, fala em procedimento cirúrgico, o que abrange o paciente que vai à sala sob anestesia geral. Para neuroeixo, essa lista histórica não substitui o plano atual de intervalos específicos: primeira dose diária profilática de HBPM em geral ≥12 horas após punção, hemostasia adequada e janela própria após retirada do cateter, acordadas com anestesiologia.
Na prática de enfermaria, isso vira uma regra de escrita e não de farmacologia: quando há operação ou bloqueio marcado, o horário da heparina deixa de ser detalhe administrativo e passa a ser parte da prescrição, escrito por extenso. A recomendação do protocolo de prescrever a enoxaparina para as vinte horas tem uma razão operacional declarada: concentrar a aplicação no fim do dia dá margem para que um imprevisto cancele a dose enquanto ela ainda está no papel — e é essa mesma razão que faz o horário virar informação clínica quando existe uma sala marcada para a manhã seguinte.
As quatro perguntas da alta, feitas antes do dia da alta
A investigação da alta começa no meio da internação, e são quatro perguntas. A operação foi oncológica abdominal ou pélvica? Foi ortopédica de grande porte de membro inferior — artroplastia de quadril ou joelho, fratura de quadril? O paciente tem mieloma múltiplo em uso de talidomida ou análogos? O escore de trombose ficou na faixa mais alta?
Se qualquer resposta for sim, existe indicação de considerar profilaxia após a alta, e três tarefas nascem daí. A primeira é decidir o número de dias, que é onde os documentos brasileiros divergem e onde este capítulo não vai declarar vencedor. A segunda é ensinar a técnica de aplicação a alguém que vá aplicar — o próprio paciente, um familiar, a equipe da unidade básica —, e isso não se faz na manhã da alta com o carro esperando. A terceira é a conversa sobre onde conseguir o medicamento, que é a mais desconfortável e a menos evitável.
Há ainda uma pergunta de segurança que pertence à alta e é sistematicamente esquecida: o paciente que vai para casa com heparina precisa saber quais sinais o fazem voltar antes do retorno marcado. Sangramento que não para, urina escura, fezes pretas, hematoma que cresce, e — específico deste capítulo e não intuitivo para leigo — dor nova em uma panturrilha só, ou falta de ar que aparece de repente. O paciente em profilaxia estendida está em profilaxia justamente porque o risco não acabou.
A decisão em oito passos, e as quatro tabelas que se consulta no meio dela
Risco de trombose e de sangramento orientam escolhas simultâneas. A prescrição deve incluir dose, função renal, relação com punção ou cateter, reavaliação e término.
- 1Estimar risco trombótico com ferramenta apropriada ao procedimento e ao contexto, sem reduzir todas as indicações a um número de Caprini.
- 2Avaliar sangramento, hemostasia, plaquetas, função renal, peso e medicamentos; risco hemorrágico não é subtraído do escore trombótico.
- 3Escolher medidas gerais, compressão pneumática e profilaxia farmacológica conforme indicação; se a droga for temporariamente contraindicada, definir alternativa e momento de reavaliar.
- 4Conferir fármaco, dose profilática ou terapêutica, depuração e protocolo. Insuficiência renal pode exigir ajuste ou troca, não simples manutenção da folha.
- 5No neuroeixo, distinguir intervalo antes da punção, primeira dose depois da punção e retirada do cateter. Para HBPM profilática diária, a primeira dose pós-punção é em geral ≥12 horas; a janela de ≥4 horas após retirada de cateter não substitui esse intervalo.
- 6Acordar horários com anestesiologia, considerando punção traumática, cateter e função renal. Conferir o horário efetivo, não apenas o que estava prescrito.
- 7Reavaliar diariamente hemostasia, mobilidade, necessidade e efeitos adversos; monitorar plaquetas conforme risco de trombocitopenia induzida por heparina e tempo de exposição.
- 8Quando indicada extensão por quatro semanas após cirurgia oncológica abdominal/pélvica, contar a duração desde a operação, descontar doses já administradas e registrar a data final e acesso ao medicamento.
Faixas de Caprini: o mesmo protocolo, duas seções, duas ordens diferentes
| Faixa e pontuação | Risco estimado de tromboembolismo sem profilaxia | O que manda a lista de regimes por escore | O que manda a seção das cirurgias abdominais, pélvicas, urológicas, ginecológicas, vasculares e plásticas |
|---|---|---|---|
| Muito baixo — 0 ponto | Menos de 0,5% | Deambulação precoce e frequente isolada, ou, conforme avaliação da equipe cirúrgica, compressão pneumática intermitente ou dose baixa de heparina não fracionada ou de baixo peso molecular, durante a hospitalização | Recomenda-se contra o uso de profilaxia farmacológica ou mecânica; estimular deambulação precoce |
| Baixo — 1 a 2 pontos | 1,5% | Compressão pneumática intermitente ou dose baixa de heparina não fracionada ou de baixo peso molecular, durante a hospitalização | Medidas gerais de tromboprofilaxia, como deambulação precoce e hidratação adequada, em vez de medidas farmacológicas ou mecânicas |
| Moderado — 3 a 4 pontos | 3% | Compressão pneumática intermitente e dose baixa de heparina não fracionada ou de baixo peso molecular, durante a hospitalização | Medidas gerais mais profilaxia farmacológica para a maioria; preferir heparina de baixo peso molecular; mecânica se houver risco hemorrágico aumentado, até que ele diminua |
| Alto — 5 a 8 pontos | 6% na tabela de risco, que não separa esta faixa da seguinte | Dose baixa de heparina não fracionada ou de baixo peso molecular, completando 7 a 10 dias no total desde o início da necessidade | A seção não usa esta faixa; usa apenas muito baixo, baixo e moderado, e trata a extensão em item próprio |
| Muito alto — acima de 8 pontos | Sem linha própria na tabela de risco do documento | Compressão pneumática intermitente e dose baixa de heparina não fracionada ou de baixo peso molecular, completando 30 dias no total desde o início da necessidade | A seção não usa esta faixa; a extensão que ela prevê é de 4 semanas, e só para cirurgia oncológica abdominal ou pélvica sem risco aumentado de sangramento |
Neuroeixo: comparar documentos sem misturar punção e retirada de cateter
| Documento | Heparina de baixo peso molecular em dose profilática: intervalo entre a última dose e a punção ou a retirada do cateter | Intervalo entre a punção ou a retirada do cateter e a dose seguinte | Heparina não fracionada subcutânea profilática |
|---|---|---|---|
| Diretriz da Sociedade Brasileira de Anestesiologia, 2020 | 12 horas, tanto para o bloqueio quanto para a retirada do cateter peridural | Primeira HBPM profilática pós-punção: em geral ≥12 horas; após retirada de cateter: ≥4 horas, respeitando também a janela desde a punção e a hemostasia | Procedimento no neuroeixo 4 a 6 horas após a última administração; atraso de 1 hora na dose seguinte |
| Bula profissional da enoxaparina, modelo aprovado pela Anvisa | Pelo menos 12 horas após dose baixa; pelo menos 24 horas após doses mais elevadas; com depuração abaixo de 30 mililitros por minuto, dobrar o tempo | O intervalo de pelo menos 4 horas citado nesta comparação não deve ser usado isoladamente como liberação após punção. Para a primeira dose diária profilática de HBPM, considerar ≥12 horas desde a punção e hemostasia; a janela após retirada de cateter é distinta, com plano anestésico individualizado. | Não tratada nesta bula, que é de heparina de baixo peso molecular |
| Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas federal, gestantes com trombofilia, 2021 | Suspender 12 horas antes se a dose for profilática; 24 horas antes se for dose plena | 6 a 8 horas após a raquianestesia, a peridural ou a retirada do cateter | Não tratada neste protocolo, que padroniza enoxaparina |
| Protocolo institucional de tromboprofilaxia, Ebserh, versão 02 de 2023 | Contraindicação absoluta se houver punção lombar prevista nas próximas 12 horas | A regra histórica de 4 horas não é uma janela universal para todas as heparinas. Aplicar os intervalos específicos de fármaco, dose, função renal, punção e retirada de cateter com a anestesiologia. | A mesma regra acima, sem distinção entre as heparinas |
Conversão para a beira do leito: adulto de 68 quilos, conferida contra a apresentação de bula
| O que se prescreve | Dose por administração | Volume por administração | O que sai da farmácia | Total no dia |
|---|---|---|---|---|
| Enoxaparina 20 mg SC 1 vez ao dia (rim ruim ou peso abaixo de 50 kg) | 20 mg | 0,2 mL | 1 seringa preenchida de 20 mg/0,2 mL | 20 mg, 0,2 mL |
| Enoxaparina 40 mg SC 1 vez ao dia (dose profilática padrão) | 40 mg | 0,4 mL | 1 seringa preenchida de 40 mg/0,4 mL | 40 mg, 0,4 mL |
| Enoxaparina 60 mg SC 1 vez ao dia (91 a 130 kg) | 60 mg | 0,6 mL | 1 seringa preenchida de 60 mg/0,6 mL | 60 mg, 0,6 mL |
| Enoxaparina 40 mg SC de 12 em 12 h (índice de massa corporal acima de 40) | 40 mg | 0,4 mL | 2 seringas preenchidas de 40 mg | 80 mg, 0,8 mL |
| Enoxaparina 1 mg/kg SC de 12 em 12 h — dose plena, não é profilaxia | 68 mg | 0,68 mL | 1 seringa graduada de 80 mg/0,8 mL, desprezando 0,12 mL antes de aplicar | 136 mg, 1,36 mL |
| Heparina sódica 5.000 UI SC de 12 em 12 h | 5.000 UI | 0,25 mL | 1 ampola de 5.000 UI/0,25 mL | 10.000 UI, 0,50 mL, 2 ampolas |
| Heparina sódica 5.000 UI SC de 8 em 8 h | 5.000 UI | 0,25 mL | 1 ampola de 5.000 UI/0,25 mL | 15.000 UI, 0,75 mL, 3 ampolas |
| Heparina sódica 7.500 UI SC de 8 em 8 h (obesidade) | 7.500 UI | 0,375 mL | 1 ampola e meia de 5.000 UI/0,25 mL por dose | 22.500 UI, 1,125 mL, 4 ampolas e meia |
| Exemplo de curso total de 4 semanas após a operação, com enoxaparina 40 mg/dia quando essa dose é apropriada; descontar as doses hospitalares para dispensação na alta | 40 mg | 0,4 mL | 28 seringas no curso total; na alta, somente o número restante até completar quatro semanas após a operação | 1.120 mg, 11,2 mL ao longo de 28 dias |
| Profilaxia estendida de 5 semanas com enoxaparina 40 mg ao dia | 40 mg | 0,4 mL | 35 seringas preenchidas de 40 mg | 1.400 mg, 14,0 mL ao longo de 35 dias |
O que o SUS fornece para esta decisão, pela Rename 2024 — e o que não fornece
| Item | Situação na Rename 2024 | O que isso significa na enfermaria e na alta |
|---|---|---|
| Heparina sódica 5.000 UI/0,25 mL solução injetável | Consta, no Componente Básico da Assistência Farmacêutica | É a heparina de acesso mais capilarizado do país, e é justamente a preferida na insuficiência renal — nesse ponto o elenco federal e a recomendação clínica apontam para o mesmo lado |
| Enoxaparina sódica 40 mg/0,4 mL e 60 mg/0,6 mL solução injetável | Consta, no Componente Especializado, grupo 1A, tendo como documento norteador o protocolo de prevenção de tromboembolismo venoso em gestantes com trombofilia | A dispensação ambulatorial por essa via tem indicação restrita à gestante com trombofilia; a enoxaparina que se aplica na enfermaria vem da compra do hospital, e a da profilaxia estendida do paciente cirúrgico não tem porta por este componente |
| Enoxaparina sódica 20 mg/0,2 mL solução injetável | Não consta — a Rename traz apenas as apresentações de 40 e 60 mg | É exatamente a apresentação que o protocolo indica para depuração abaixo de 30 mililitros por minuto e para peso abaixo de 50 quilos; para esse paciente, o elenco federal empurra de volta para a heparina não fracionada |
| Fondaparinux | Não consta — zero ocorrência no documento inteiro | É a alternativa que o protocolo reserva a quem tem história de plaquetopenia induzida por heparina, e o próprio protocolo já a marca como medicamento não padronizado; o paciente com esse antecedente fica sem alternativa farmacológica no elenco federal |
| Rivaroxabana, apixabana e dabigatrana | Não constam — zero ocorrência no documento inteiro | São a espinha dorsal da profilaxia oral estendida em ortopedia na literatura internacional; no elenco federal essa via simplesmente não existe |
| Varfarina sódica 1 mg e 5 mg comprimido | Consta, no Componente Básico | É o anticoagulante oral do SUS, mas não é fármaco de profilaxia perioperatória de tromboembolismo — quem já a usava em casa entra noutro problema, o da anticoagulação crônica e da ponte, que é de Distúrbios da coagulação e uso de anticoagulantes, na apostila de Hematologia e Hemoterapia |
| Meias de compressão graduada, compressão pneumática intermitente e bombas plantares | Não constam, e não poderiam constar: não são medicamentos | A alternativa recomendada para quem não pode receber heparina não é garantida por elenco nenhum; depende de o hospital ter o equipamento, e é preciso conferir antes de prescrever |
O protocolo apresenta recomendações diferentes para Caprini baixo na lista geral e na seção abdominal e pélvica. Antes de prescrever, identifique a população e a recomendação específica do procedimento. Registre o escore, o risco de sangramento e a justificativa da estratégia, inclusive quando forem escolhidas apenas medidas gerais.
No Caprini, a faixa de 3 pontos começa em idade ≥75 anos. A expressão “acima de 75” na transcrição do protocolo deixa o paciente de exatamente 75 anos sem classificação e pode subestimar o risco. Use o limite inclusivo apresentado no modelo.
Para o escore de sangramento apresentado, o rodapé da tabela classifica ≥7 como alto risco. Portanto, 7 pontos exatos pertencem a essa faixa, apesar da redação “maior que 7” no texto corrido. Confira os fatores somados e registre o total.
A bula citada apresenta ajuste profilático da enoxaparina para 20 mg/dia na insuficiência renal grave, mas usa 30 mg/dia em uma advertência sobre neuroeixo. Essa diferença de redação não define uma janela segura para todas as doses. Combine com anestesiologia o intervalo específico para fármaco, dose, função renal, punção e retirada do cateter.
A bula descreve início pré-operatório em alguns regimes, enquanto o protocolo institucional lista cirurgia nas próximas 12 horas entre as restrições à profilaxia farmacológica. Não combine essas regras sem avaliar o contexto. Defina e registre o horário com a equipe, considerando procedimento, hemostasia e técnica anestésica.
Os prazos citados variam conforme população: 7–10 dias para alguns estratos de Caprini, 30 dias para escores muito altos e 4 semanas em cirurgia oncológica abdominal ou pélvica selecionada. A bula também diferencia cirurgia oncológica e ortopédica. Escolha a recomendação aplicável ao caso e escreva a data de término e o plano de reavaliação.
A seção cirúrgica do protocolo trata de procedimentos não ortopédicos. Embora o Caprini pontue artroplastias e fraturas de quadril, pelve ou membro inferior, isso não fornece o regime específico desses procedimentos. Consulte o percurso ortopédico correspondente para dose e duração.
As tabelas federais citadas para gestantes com trombofilia apresentam lacunas de redação nos limites de peso, como 90 kg na profilaxia e 70 kg no tratamento. Não improvise a classificação nesses pontos nem extrapole a tabela para outros pacientes cirúrgicos. Esclareça a faixa aplicável com a equipe e registre a dose definida.
As seringas de enoxaparina citadas têm concentração de 100 mg/mL: 20 mg/0,2 mL, 40 mg/0,4 mL, 60 mg/0,6 mL, 80 mg/0,8 mL e 100 mg/1 mL. A heparina de 5.000 UI/0,25 mL tem 20.000 UI/mL. Confira concentração e volume da apresentação disponível antes de administrar.
A justificativa epidemiológica do protocolo não esclarece o denominador de alguns percentuais de mortalidade e complicações. Evite reproduzi-los como letalidade por caso. A indicação de profilaxia deve se apoiar na avaliação de risco e na recomendação pertinente ao procedimento.
Os índices cardiovasculares perioperatórios não substituem a avaliação de tromboembolismo venoso. A diretriz SBC 2024 citada reconhece a necessidade de abordagem dedicada, sem oferecer nessa seção um esquema de profilaxia cirúrgica. Registre separadamente o instrumento e o protocolo usados para TEV.
A conduta, hora a hora
O relógio deste capítulo é o da enfermaria à noite, e ele tem uma particularidade: quase tudo que você decide agora só produz efeito amanhã, e quase tudo que você deixa de decidir agora vira uma injeção aplicada às vinte horas por alguém que confiou na folha. A ronda das profilaxias tem uma ordem que economiza tempo — os leitos em que a dose de hoje ainda não foi aplicada vêm primeiro, porque neles ainda dá para mudar.
Abaixo, a ronda dos quatro leitos da abertura, com o que se escreve em cada um. As linhas de prescrição estão no formato em que se escrevem de verdade, com horário por extenso quando o horário faz parte da decisão.
22h15 — leito 9, Gercino Bragada: o leito em que a dose de hoje ainda dá para segurar
Sessenta e seis anos, 92 quilos, 1,72 metro, quarto dia de espera por osteossíntese de fratura transtrocantérica de fêmur, agora marcada para as oito da manhã sob raquianestesia. Creatinina 1,0, depuração estimada de 95 mililitros por minuto. A folha traz enoxaparina 40 miligramas às vinte horas e a Aldenice ainda não aplicou, porque a caixa da noite atrasou. Some o Caprini: idade entre 61 e 74 anos, 2; índice de massa corporal de 31, acima de 25, 1; fratura de quadril, 5; confinamento no leito por mais de 72 horas, 2. Total de 10, e um item de 5 pontos sozinho já o colocaria na faixa alta. Risco de sangramento: nada na lista geral, e a osteossíntese não está nas listas específicas. Ele deveria receber. Mas há uma punção raquidiana marcada para daqui a menos de dez horas, e todas as quatro réguas brasileiras convergem para pelo menos 12 horas entre a dose profilática e a punção. A dose das vinte horas de hoje não pode entrar, e a decisão precisa ser escrita agora, senão ela é aplicada às onze da noite por quem está pondo a ala em ordem.
Prescrição- SUSPENDER a dose de enoxaparina de hoje — punção raquidiana prevista para as 08h00 de amanhã; intervalo mínimo de 12 horas entre a dose profilática e a punção não seria cumprido
- Compressão pneumática intermitente contínua em membros inferiores até a ida ao centro cirúrgico, se disponível na unidade
- Estimular exercícios ativos de tornozelo no leito, conforme orientação da fisioterapia
- Comunicar a anestesiologia: última dose de enoxaparina 40 mg às 20h00 de ontem; nenhuma dose hoje
- Reintroduzir enoxaparina 40 mg SC apenas após liberação da anestesiologia, respeitando o intervalo pós-punção
22h30 — leito 7, Herculano Bevilaqua: o leito em que a decisão é apagar uma linha
No paciente de 34 anos, 78 kg, sem comorbidades, a laparoscopia prevista por mais de 45 minutos soma dois pontos no Caprini. Avaliar o protocolo específico e favorecer deambulação e medidas indicadas ao baixo risco, sem prescrever heparina apenas por haver internação. Cirurgia prevista em menos de 12 horas não é contraindicação universal a qualquer profilaxia: o horário depende do agente, da dose, da hemostasia e da anestesia, sobretudo se houver neuroeixo. Registre a razão da escolha e reavalie se o risco mudar.
Prescrição- SEM indicação de profilaxia farmacológica de tromboembolismo venoso — escore de Caprini calculado, 2 pontos, faixa de baixo risco; paciente hígido, deambulando, cirurgia programada para as próximas 12 horas
- Deambulação precoce e frequente, iniciada ainda hoje e retomada na primeira tarde de pós-operatório
- Hidratação adequada por via oral até o início do jejum
- Reavaliar o escore no primeiro dia de pós-operatório e a cada mudança de mobilidade
22h50 — leito 12, dona Olindina Bonilha: a folha em branco que não é decisão
Setenta e nove anos, 46 quilos, 1,52 metro, terceiro dia de pós-operatório de laparotomia por obstrução intestinal por bridas. Creatinina 1,9. Faça a conta de Cockcroft e Gault antes de qualquer coisa: 140 menos 79 dá 61; 61 vezes 46 dá 2.806; 72 vezes 1,9 dá 136,8; 2.806 dividido por 136,8 dá 20,5; e como é mulher, multiplica-se por 0,85, chegando a 17 mililitros por minuto. Está abaixo de 30, e isso muda a molécula. O Caprini dela: idade acima de 75, 3; cirurgia aberta com mais de 45 minutos, 2; confinamento no leito por mais de 72 horas, 2. Total de 7, faixa alta. Risco de sangramento: sem sangramento ativo, sem plaquetopenia, dreno com débito seroso. Ela deveria estar em profilaxia e não está, e a folha não diz por quê — o que impede saber se alguém decidiu ou se alguém esqueceu. A escolha do fármaco não é enoxaparina: com depuração de 17, o protocolo prefere heparina não fracionada, que tem eliminação predominantemente extrarrenal. Nota-se de passagem que a apresentação de enoxaparina de 20 miligramas, que seria a alternativa, não consta da Rename.
Prescrição- Heparina sódica 5.000 UI SC de 12 em 12 horas (08h00 e 20h00) — profilaxia de tromboembolismo venoso
- Justificativa registrada em evolução: escore de Caprini 7, faixa de alto risco; depuração de creatinina estimada em 17 mL/min por Cockcroft e Gault, abaixo de 30, motivo da escolha de heparina não fracionada em vez de heparina de baixo peso molecular
- Hemograma e plaquetas basais; programar acompanhamento conforme risco de trombocitopenia induzida por heparina, exposição prévia, duração e protocolo, com investigação de queda relevante.
- Vigilância de sangramento pela equipe de enfermagem: débito e aspecto do dreno, sítio cirúrgico, gengivas, urina e fezes; comunicar imediatamente qualquer sangramento
- Reavaliar peso na balança em 48 horas e recalcular a depuração a cada dosagem de creatinina
23h10 — leito 4, seu Nivaldino Bentivi: o leito em que a decisão é sobre o mês que vem
Setenta e um anos, 68 quilos, 1,70 metro, segundo dia de pós-operatório de gastrectomia subtotal por adenocarcinoma gástrico. Creatinina 1,3. A conta: 140 menos 71 dá 69; 69 vezes 68 dá 4.692; 72 vezes 1,3 dá 93,6; 4.692 dividido por 93,6 dá 50,1 mililitros por minuto — o valor que, como registrado nas notas, a bula reivindica ao mesmo tempo para a faixa moderada e para a leve, sem que isso mude a dose em nenhuma das duas. Caprini: idade entre 61 e 74 anos, 2; neoplasia, 2; cirurgia aberta com mais de 45 minutos, 2; restrição ao leito por menos de 72 horas, 1. Total de 7, faixa alta. A linha de hoje está correta e não se mexe nela. O que precisa entrar na folha é outra coisa, e ela tem prazo: a alta está prevista para o fim da semana, e ele é cirurgia oncológica abdominal — a categoria em que a profilaxia continua depois da porta. Escrever isso hoje, e não no dia da alta, é o que dá tempo de ensinar a aplicação e de ter a conversa sobre o custo.
Prescrição- MANTER enoxaparina 40 mg SC uma vez ao dia, às 20h00 — escore de Caprini 7, cirurgia oncológica abdominal, sem risco aumentado de sangramento
- Registrar em evolução a indicação de profilaxia estendida após a alta e o prazo escolhido, com a justificativa (ver divergências entre os documentos brasileiros sobre 28 e 30 dias)
- Solicitar à enfermagem o treinamento de aplicação subcutânea com o paciente e com a filha, iniciando amanhã e repetido pelo menos duas vezes antes da alta
- Reavaliar sangramento, função renal e plaquetas conforme condição clínica e risco de reação à heparina; não impor coleta duas vezes por semana a todo usuário indistintamente.
- Incluir no planejamento de alta: receita da profilaxia estendida, orientação escrita de sinais de alarme e conversa sobre acesso ao medicamento
Manhã seguinte, 09h40 — a reintrodução depois do bloqueio, no leito 9
Gercino teve punção única atraumática às 08h20, sem cateter, e função renal preservada. Para HBPM profilática em dose diária, a primeira dose pós-punção deve respeitar pelo menos 12 horas, além de hemostasia adequada e avaliação anestésica. Não confundir com o intervalo de quatro horas após retirada de cateter. Neste exemplo, 16h00 seria cedo; 20h20 é o primeiro horário que completa 12 horas, e uma dose às 21h00 pode ser acordada se a avaliação continuar favorável. Punção traumática, disfunção renal ou outros riscos podem exigir intervalo maior. Registrar horário real da punção e da administração.
Prescrição- Enoxaparina 40 mg SC uma vez ao dia, primeira dose às 21h00, somente com hemostasia adequada e liberação da anestesiologia após punção atraumática única às 08h20. Reavaliar se houver mudança clínica; intervalo neste exemplo de 12 horas e 40 minutos.
- Registrar em evolução: punção única, atraumática, sem cateter peridural; intervalo pós-punção combinado com a equipe de anestesiologia
- Vigilância neurológica de membros inferiores nas primeiras 24 horas: força, sensibilidade, dor em linha média do dorso e função vesical
- Manter compressão pneumática intermitente até a deambulação assistida
Quinto dia — a alta do seu Nivaldino, e as três tarefas que ela carrega
A alta do paciente de cirurgia oncológica abdominal não termina na receita de analgésico. Se a decisão foi manter a profilaxia em casa, três coisas precisam estar prontas: o número de dias escrito com data de término, para o paciente não parar antes nem continuar indefinidamente; a técnica de aplicação praticada por quem vai aplicar, com a seringa na mão e não na conversa; e a orientação de que a bolha de ar da seringa preenchida não deve ser expelida antes da aplicação, porque é ela que empurra o medicamento e evita vazamento no local da injeção. Some-se o alerta que ninguém dá: a enoxaparina de profilaxia estendida do paciente cirúrgico não tem porta de dispensação pela Rename, e a família vai descobrir isso na farmácia se não descobrir aqui.
Prescrição- Enoxaparina na dose profilática individualizada para completar 28 dias após a operação quando indicada a extensão. Registrar data da cirurgia, doses já recebidas, quantidade restante e data da última dose; não reiniciar a contagem na alta.
- Orientação escrita ao paciente: alternar o lado do abdome a cada aplicação, a pelo menos cinco centímetros do umbigo; não expelir a bolha de ar da seringa; não aplicar por via intramuscular
- Sinais de alarme por escrito, com telefone da unidade: sangramento que não para, hematoma que cresce, fezes pretas, urina escura, dor nova em uma panturrilha só, falta de ar súbita
- Relatório de alta com a indicação, o prazo e a justificativa da profilaxia estendida, para a unidade básica e para o ambulatório de oncologia
- Retorno ambulatorial em 7 dias, com hemograma e contagem de plaquetas
Quando a decisão é não continuar em casa — e isso também se escreve
Nem toda cirurgia gera profilaxia estendida, e a maioria não gera. O paciente de colecistectomia videolaparoscópica sem comorbidade, o de herniorrafia, o de apendicectomia que andou no mesmo dia: nenhum deles leva heparina para casa, e o protocolo é explícito ao dizer que não há benefício em estender a profilaxia após a alta de pacientes clínicos ou cronicamente imobilizados. O erro aqui não é prescrever demais: é o relatório de alta silencioso, que faz a unidade básica reintroduzir por conta própria ou o paciente continuar comprando seringa por medo. Uma frase resolve, e ela pertence ao relatório de alta tanto quanto a receita.
Prescrição- Registrar no relatório de alta: profilaxia farmacológica de tromboembolismo venoso mantida apenas durante a internação, suspensa na alta por (motivo), sem indicação de profilaxia estendida
- Orientar deambulação e hidratação em casa, e retorno imediato se dor em panturrilha, edema assimétrico de membro inferior ou falta de ar súbita
- Não emitir receita de heparina
A qualquer hora — quando a heparina precisa parar no meio da internação
Três gatilhos param a heparina antes do prazo, e os três chegam pelo telefone do posto. Sangramento novo e relevante: para tudo, avalia e troca para método mecânico enquanto durar o risco. Queda de plaquetas: a suspeita de plaquetopenia induzida por heparina nasce de queda significativa da contagem durante o uso, tipicamente entre o quinto e o vigésimo primeiro dia, e a conduta é contraintuitiva — suspende-se toda heparina, incluindo a de baixo peso molecular, porque o quadro é protrombótico, e não se transfunde plaqueta por causa do número. Piora da função renal: descontinua-se a heparina de baixo peso molecular e troca-se por não fracionada. Em qualquer dos três, o que entra no lugar precisa ser escrito na mesma hora, senão o paciente fica sem nada com risco alto de trombose.
Prescrição- SUSPENDER heparina — registrar o motivo (sangramento, queda de plaquetas, piora de função renal) e o horário da última dose aplicada
- Iniciar compressão pneumática intermitente ou bombas plantares imediatamente, se não houver contraindicação mecânica
- Se suspeita de plaquetopenia induzida por heparina: suspender todas as heparinas, incluindo flush de cateter, e discutir alternativa com a hematologia — não transfundir plaquetas apenas pela contagem
- Definir e escrever a data da reavaliação do risco hemorrágico para retomada do método farmacológico
Como saber se está funcionando
A profilaxia é a linha da prescrição que mais envelhece mal. Ela é escrita num dia em que o paciente estava acamado, com um rim que funcionava, sem sangramento e sem procedimento marcado, e continua sendo impressa idêntica por uma semana enquanto as quatro coisas mudam. Reavaliar não é reler a linha: é refazer as duas contas com os dados de hoje.
Esperado: Estabilidade da contagem em relação ao valor de base
Se não melhora: Queda significativa durante o uso, da ordem de 30 a 50% do valor inicial, sobretudo entre o quinto e o vigésimo primeiro dia de exposição, levanta a suspeita de plaquetopenia induzida por heparina: suspender imediatamente todas as heparinas e substituir por outra terapia. Abaixo de 50 mil a heparina é contraindicação relativa; entre 50 mil e 100 mil, decidir com os demais fatores de risco de sangramento.
Esperado: Depuração acima de 30 mililitros por minuto para manter a heparina de baixo peso molecular na dose habitual
Se não melhora: Se a depuração cair abaixo de 30 durante a internação, descontinuar a heparina de baixo peso molecular e substituir por heparina não fracionada 5.000 unidades internacionais por via subcutânea a cada 8 ou 12 horas. E lembrar que a mesma queda dobra a janela do neuroeixo, o que muda o planejamento de qualquer bloqueio previsto.
Esperado: Peso dentro da faixa em que a dose fixa de 40 miligramas é adequada, aproximadamente entre 50 e 90 quilos
Se não melhora: Abaixo de 50 quilos ou com índice de massa corporal abaixo de 18, a dose sugerida cai para 20 miligramas ao dia. Acima de 90, sobe conforme a faixa de peso. E acima de índice de massa corporal 40, o protocolo passa a 40 miligramas de 12 em 12 horas. O ponto de atenção é que a dose padrão é fixa: ela não denuncia sozinha o paciente que saiu da faixa.
Esperado: Progressão da deambulação de acordo com o esperado para o procedimento
Se não melhora: Um paciente que parou de andar mudou de faixa de risco, ainda que nada mais tenha mudado: restrição ao leito por menos de 72 horas vale 1 ponto e confinamento por mais de 72 horas vale 2. E a frase da evolução de ontem dizendo que ele deambulava não substitui a observação de hoje — é a discrepância mais comum entre prontuário e corredor.
Esperado: Ausência de sangramento novo; dreno com débito e aspecto estáveis
Se não melhora: Sangramento ativo relevante é contraindicação absoluta e obriga a trocar para método mecânico. Vale a ressalva do próprio protocolo, que evita suspensões desnecessárias: epistaxe leve e sangramento menstrual fisiológico não contam como sangramento ativo.
Esperado: Força e sensibilidade preservadas; ausência de dor em linha média do dorso; função vesical e intestinal preservadas
Se não melhora: Dor na linha média da região dorsal, déficit sensitivo ou motor novo em membros inferiores, ou alteração vesical ou intestinal, exigem suspeita imediata de hematoma intraespinhal — diagnóstico e tratamento com urgência, incluindo descompressão medular. É a única complicação deste capítulo em que a demora de horas custa função definitiva.
Esperado: Indicação de profilaxia estendida decidida, com número de dias e data de término escritos
Se não melhora: Se não houve decisão até a véspera da alta, o paciente sai sem receita ou com receita sem prazo, e as duas coisas dão errado de formas opostas: uma interrompe a profilaxia de quem precisava dela, outra a perpetua em quem já não precisa. Escreva a data do último dia, por extenso, na receita e no relatório.
Onde o erro machuca
O dano: O plantão seguinte não tem como distinguir “avaliei e concluí que não há indicação” de “não avaliei”. Nos dois casos a folha está igual. O resultado prático é oscilação: um plantonista introduz, o outro retira, e o paciente com risco alto passa dias alternando entre receber e não receber.
Como pegar a tempo: Escrever a não indicação como se escreve uma prescrição, com o escore calculado e o motivo: “sem indicação de profilaxia farmacológica — Caprini 2, baixo risco, deambulando”. É uma linha, e ela transforma um vazio numa decisão auditável.
O dano: Produz os dois erros simétricos. De um lado, heparina no paciente com sangramento ativo porque “o escore de trombose estava alto”. Do outro, nenhuma medida no paciente com risco alto de trombose e alto de sangramento, porque alguém entendeu que um anulava o outro — e esse é o paciente que mais precisa de compressão pneumática intermitente.
Como pegar a tempo: Fazer as contas em duas etapas, escritas separadamente na evolução. A primeira responde “ele trombaria?”, a segunda responde “ele pode receber anticoagulante?”. A segunda nunca muda a resposta da primeira; ela só escolhe o método.
O dano: O escore de Pádua não tem itens para tipo de operação, duração do ato cirúrgico, artroplastia ou fratura de quadril. Aplicado a um paciente de artroplastia eletiva de joelho sem outras comorbidades, ele pode devolver pontuação baixa para alguém que, no escore cirúrgico, entraria na faixa alta só por esse item de 5 pontos.
Como pegar a tempo: Uma pergunta antes do escore: este paciente operou ou vai operar? Se sim, o instrumento é o de Caprini. Se não, é o de Pádua, e a régua é a do capítulo clínico.
O dano: A heparina de baixo peso molecular é eliminada por via renal e acumula. A dose que era profilática na admissão vira, sem aviso e sem mudança na folha, uma dose com efeito anticoagulante maior — em paciente idoso, magro e operado, exatamente o perfil com maior risco de sangramento. E a mesma queda de função renal dobra o tempo que o anestesista precisa esperar para puncionar, o que costuma ser descoberto às sete da manhã.
Como pegar a tempo: Recalcular a depuração a cada creatinina nova, com o peso da balança. Abaixo de 30 mililitros por minuto, trocar por heparina não fracionada, que tem eliminação predominantemente extrarrenal.
O dano: É o erro que cancela cirurgia. A dose das vinte horas aplicada na véspera de uma raquianestesia marcada para as sete da manhã deixa apenas 11 horas de intervalo, abaixo do mínimo que todas as réguas brasileiras usam, e o anestesista, corretamente, adia. O paciente perde a vaga de sala, e a família perde a diária de acompanhante que já pagou.
Como pegar a tempo: Perguntar, em toda ronda, se há procedimento ou bloqueio marcado, e escrever o horário da heparina por extenso quando houver. A recomendação de prescrever para as vinte horas existe justamente para deixar o dia livre para mudanças; ela só funciona se alguém usar esse dia.
O dano: Não sobra tempo para ensinar a aplicação a quem vai aplicar, nem para a conversa sobre custo e acesso. O paciente sai com uma receita que não entende, compra as primeiras seringas, aprende a aplicar com o vídeo que a filha achou, e interrompe na segunda semana — que é justamente a semana em que o risco ainda está alto.
Como pegar a tempo: Fazer a pergunta da alta no meio da internação, não no fim: este paciente vai precisar de heparina depois de sair, e por quantos dias? A resposta positiva abre três tarefas que precisam de dias, não de minutos.
O que dizer ao paciente e à família
As conversas deste capítulo são quase todas com gente que não é o paciente: a técnica de enfermagem que vai aplicar, o anestesista que vai puncionar, o plantonista que assume depois de você. E quando é com o paciente, o assunto raramente é a trombose — é a agulha, o medo do sangramento e o preço.
Duas coisas precisam sair de cada uma dessas conversas: o que muda na prática de quem ouve, e o horário. Profilaxia é um capítulo de horários, e horário combinado no corredor e não escrito é horário que não existe.
A técnica de enfermagem pergunta se pode aplicar a enoxaparina das vinte horas
“Hoje não, Aldenice, e vou escrever isso na folha agora para não ficar só na nossa conversa. Ele tem raqui marcada para as oito da manhã e precisa de pelo menos doze horas entre a última dose e a punção. Se a dose entrar às vinte, dá doze horas justas e o anestesista vai adiar — e ele tem razão em adiar.”
Não diga: “Pode segurar essa aí.” A frase resolve hoje e some na troca de plantão: quem entra à meia-noite vê a dose não checada, entende como esquecimento e aplica.
Ligando para a anestesiologia sobre o paciente que tem bloqueio marcado
“Dra. Clarisse, é sobre o leito 9, osteossíntese de fêmur das oito. A última enoxaparina dele foi 40 miligramas ontem às vinte horas, e hoje eu suspendi. A depuração de creatinina está em 95. Queria combinar com a senhora o horário de reintrodução depois da punção, para eu já deixar escrito na prescrição.”
Não diga: “Ele está com clexane, tudo bem fazer raqui?” Sem a hora da última dose e sem a função renal, a pergunta não pode ser respondida, e a ligação vai ter de ser repetida.
O paciente pergunta por que está levando injeção na barriga se não sente nada
“Essa injeção não é para nada que o senhor esteja sentindo — é para uma coisa que a gente está tentando impedir de acontecer. Depois de uma cirurgia como a sua, o sangue fica mais fácil de coagular por algumas semanas, e pode se formar um coágulo na perna que viaje para o pulmão. A dose é pequena, bem menor do que a de quem já tem coágulo, e serve só para não deixar começar.”
Não diga: “É anticoagulante, é rotina.” A palavra anticoagulante assusta e a palavra rotina esvazia, e as duas juntas produzem o paciente que recusa a dose sem dizer que recusou.
Explicando ao paciente e à família por que a decisão foi não usar heparina
“No caso do senhor, eu calculei o risco e ele ficou baixo: cirurgia por vídeo, o senhor é jovem, não tem outras doenças e vai andar ainda hoje à tarde. Fazer a injeção não traria ganho e traz um risco pequeno de sangramento. Então a decisão foi não fazer, e eu escrevi essa decisão no prontuário com o motivo, para ninguém achar que a gente esqueceu.”
Não diga: “O senhor não precisa.” Não explica, não fica registrado e não sobrevive à primeira pessoa que olhar a folha e estranhar a ausência.
Ensinando a aplicação para quem vai aplicar em casa
“Aplica na gordura da parte de baixo da barriga, a pelo menos cinco centímetros do umbigo, mudando de lado a cada dia — hoje direito, amanhã esquerdo. Tem uma bolha de ar dentro da seringa: não tire, ela é que empurra todo o remédio para dentro. E não esfregue depois. Agora faça a de hoje comigo olhando, que amanhã a senhora faz sozinha e eu confiro.”
Não diga: Explicar sem a seringa na mão. Aplicação subcutânea aprendida por descrição verbal falha na primeira noite, e quem falha tem vergonha de ligar.
A conversa sobre onde conseguir o medicamento da profilaxia estendida
“Preciso ser direto com a senhora sobre uma coisa prática. São 28 aplicações, uma por dia, e essa apresentação não é das que a farmácia do posto entrega para o caso do seu pai. Vou dar a receita e o relatório para a senhora levar à unidade de saúde e ao serviço social daqui — às vezes o município tem uma via, às vezes não. Estou dizendo agora, e não na porta, porque a senhora precisa de tempo para resolver isso.”
Não diga: Entregar a receita sem avisar. A família descobre na farmácia, no dia da alta, com o paciente no carro — e a profilaxia simplesmente não começa.
Passando o plantão sobre o paciente com cateter peridural
“Leito 6, cateter peridural para analgesia, previsão de retirada amanhã de manhã. A enoxaparina está às vinte horas e a retirada só pode ser doze horas depois da dose. Deixei escrito na prescrição e avisei a anestesiologia. Se alguém adiantar a dose ou adiantar a retirada, avisa antes de fazer.”
Não diga: Passar o leito como “analgesia por cateter, sem intercorrências”. O cateter é a intercorrência potencial, e quem assume precisa saber que existe um relógio amarrado a ele.
Onde bons médicos discordam
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.
Usar o escore de Caprini, porque é o instrumento que os protocolos assistenciais brasileiros em uso adotam para o paciente cirúrgico
O protocolo institucional de tromboprofilaxia venosa em pacientes internados, versão 02 de 2023, afirma que o escore mais utilizado para os pacientes cirúrgicos é o de Caprini, reproduz o modelo com os pesos de 1, 2, 3 e 5 pontos, publica a estratificação de risco por faixa e amarra a cada faixa um regime e uma duração. É a régua operacional que existe, está escrita, tem número de resolução e é auditável.
Protocolo PRT.DCDT.001, HU-UFGD/Ebserh, versão 02, itens 7, 9.5, tabelas 7 e 8
Não há escore adotado por diretriz brasileira de perioperatório, e tratar o de Caprini como régua nacional é atribuir-lhe uma autoridade que ele não tem no país
A Diretriz de Avaliação Cardiovascular Perioperatória da Sociedade Brasileira de Cardiologia de 2024 declara que o risco de tromboembolismo venoso não está contemplado nos índices que discute e que merece abordagem dedicada — e não a fornece. A palavra Caprini aparece uma única vez no documento, como sobrenome de autor numa referência. Não existe protocolo clínico federal de prevenção de tromboembolismo para o paciente cirúrgico: o único protocolo federal sobre prevenção de tromboembolismo cobre gestantes com trombofilia. A Diretriz Conjunta sobre Tromboembolismo Venoso de 2022, multissocietária, não trata de profilaxia. O que existe, portanto, são protocolos institucionais, e eles variam de hospital para hospital.
Diretriz de Avaliação Cardiovascular Perioperatória da SBC – 2024, seção de índices de risco; Rename 2024, anexo do Componente Especializado; Diretriz Conjunta sobre Tromboembolismo Venoso – 2022
Use o instrumento adotado pelo protocolo do serviço e registre nome, pontuação e fatores considerados. Na ausência de protocolo, o Caprini é a referência cirúrgica apresentada neste capítulo, cuja aplicação deve ser discutida com a equipe. Identifique a origem institucional da recomendação, sem atribuí-la a uma diretriz nacional que não a apresenta.
Quatro semanas, isto é, 28 dias, para cirurgia oncológica abdominal ou pélvica sem risco aumentado de sangramento
É o prazo que a seção cirúrgica do protocolo institucional prevê no item de profilaxia estendida, e é também o que a bula da enoxaparina recomenda para pacientes submetidos a cirurgia oncológica com risco elevado de tromboembolismo — “até 4 semanas”. Dois documentos independentes convergem nesse número para esse perfil.
Protocolo PRT.DCDT.001, item 9.5.1; bula profissional da enoxaparina, item 8, profilaxia em pacientes cirúrgicos
Trinta dias, quando o escore de risco é muito alto — e cinco semanas quando a cirurgia é ortopédica de grande porte
O mesmo protocolo institucional, na lista de regimes por faixa de Caprini, manda completar 30 dias no total desde o início da necessidade para escore acima de 8, sem exigir que a cirurgia seja oncológica. E a bula recomenda tromboprofilaxia de até 5 semanas, ou 35 dias, para quem se submete a cirurgia ortopédica de grande porte com risco elevado. Um paciente de gastrectomia oncológica com escore 10 satisfaz duas regras ao mesmo tempo, que diferem em 2 dias; entre o menor e o maior prazo aplicável a perfis vizinhos, a diferença chega a 7 dias.
Protocolo PRT.DCDT.001, item 9.5, regimes IV e V; bula profissional da enoxaparina, item 8, profilaxia em pacientes cirúrgicos
Defina a duração pela recomendação aplicável ao procedimento e ao paciente. Registre a regra escolhida e a data do último dia na receita. Antes da alta, confirme acesso ao medicamento, compreensão da administração e plano de seguimento. Dificuldade de obtenção exige organização da assistência e revisão do plano com a equipe.
Punção e retirada de cateter são eventos diferentes
A leitura que generaliza quatro horas para a primeira dose de HBPM após qualquer punção é inadequada. Diretrizes de anestesia regional distinguem a primeira dose pós-punção, em geral após pelo menos 12 horas no esquema profilático diário, do intervalo após retirada do cateter. A tabela deve ser interpretada com agente, dose, função renal, hemostasia e detalhes da técnica.
SBA 2020, seção de heparina de baixo peso molecular; bula da enoxaparina, item 5, anestesia espinhal e peridural; protocolo PRT.DCDT.001, contraindicações absolutas
De seis a oito horas depois da raquianestesia, da peridural ou da retirada do cateter
É o que determina o único protocolo clínico federal brasileiro sobre prevenção de tromboembolismo venoso, aprovado por portaria conjunta e em vigor, ao tratar da reintrodução da enoxaparina depois do parto e do bloqueio. Foi escrito para a gestante, mas é a única janela de reintrodução que consta de norma federal brasileira, e é uma vez e meia a duas vezes mais conservadora que a da sociedade de anestesiologia.
Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para a Prevenção de Tromboembolismo Venoso em Gestantes com Trombofilia, Portaria Conjunta nº 23/2021, item 6.8
Na aplicação prática, distinguir punção de retirada de cateter e usar a janela específica de fármaco, dose e função renal com anestesiologia; para primeira dose diária profilática de HBPM, em geral ≥12 horas após punção, não apenas quatro horas. As posições antigas permanecem acima como contexto documental, e não como opções equivalentes para prescrever hoje.
O raciocínio, em voz alta
Volte ao seu Nivaldino Bentivi: 71 anos, 68 quilos, 1,70 metro, segundo dia de pós-operatório de gastrectomia subtotal por adenocarcinoma gástrico, laparotomia de três horas e vinte. Creatinina 1,3; plaquetas 212 mil; hemoglobina 10,8. Dreno de cavidade com 60 mililitros de líquido seroso em 24 horas. Sentou na poltrona ontem e hoje andou até a porta do quarto com apoio. A folha traz enoxaparina 40 miligramas por via subcutânea às vinte horas. A alta está prevista para sexta-feira, daqui a três dias. É onze e dez da noite e você tem que decidir o que muda.
faço a primeira conta antes de olhar a linha que já está escrita
Escore de Caprini, porque ele é paciente cirúrgico. Idade de 71 anos cai na faixa de 61 a 74, 2 pontos. Neoplasia, 2 pontos. Cirurgia aberta com mais de 45 minutos — a descrição cirúrgica diz três horas e vinte —, 2 pontos. Restrição ao leito por menos de 72 horas, já que ele sentou ontem e andou hoje, 1 ponto. Total de 7. Faixa alta, com risco estimado de 6% de tromboembolismo sem profilaxia. Nenhum item de 5 pontos: ele chegou à faixa alta por soma, e não por um item isolado.
faço a segunda conta separada, e ela não desconta nada da primeira
Lista geral de risco hemorrágico: sem sangramento ativo, sem sangramento importante prévio, sem coagulopatia conhecida, plaquetas normais, sem acidente vascular agudo, pressão controlada, sem punção no neuroeixo prevista nem nas últimas 4 horas, sem antiagregante ou anticoagulante concomitante. Lista específica da cirurgia abdominal: sexo masculino, sim; neoplasia, sim; hemoglobina pré-operatória abaixo de 13, preciso conferir no prontuário; cirurgia complexa com mais de uma anastomose — a gastrectomia subtotal com reconstrução tem —, sim. São fatores presentes, mas o dreno está seroso e a hemoglobina está estável em 10,8 no segundo dia. Não há sangramento em curso; há um perfil que exige vigilância. Método farmacológico mantido, com vigilância reforçada. Para neuroeixo, essa lista histórica não substitui o plano atual de intervalos específicos: primeira dose diária profilática de HBPM em geral ≥12 horas após punção, hemostasia adequada e janela própria após retirada do cateter, acordadas com anestesiologia.
confiro a molécula e a dose contra a função renal e o peso
Cockcroft e Gault: 140 menos 71 dá 69; vezes 68 quilos dá 4.692; dividido por 72 vezes 1,3, que é 93,6, dá 50,1 mililitros por minuto. É homem, não multiplico por 0,85. Está acima de 30, então não há indicação de trocar por heparina não fracionada nem de reduzir para 20 miligramas. O peso de 68 quilos está dentro da faixa de 50 a 90 em que a dose fixa de 40 miligramas é adequada. A linha atual está correta e eu não mexo nela — anoto no prontuário que conferi, com a conta, porque conferir sem registrar é a mesma coisa que não conferir para quem vem depois.
olho o calendário e não encontro nada que mude o horário
Sem reoperação programada, sem punção raquidiana ou peridural prevista, sem cateter peridural instalado — a analgesia dele é venosa. O horário das vinte horas fica, e fica pela razão certa: uma aplicação no fim do dia ainda pode ser cancelada se aparecer um procedimento ou se a plaqueta cair na coleta da manhã.
faço a pergunta da alta hoje, três dias antes, porque ela abre tarefas que levam dias
A cirurgia oncológica abdominal e o perfil do paciente favorecem profilaxia estendida, se o risco hemorrágico permanecer aceitável. Com o responsável, planejo quatro semanas após a operação e escrevo a data de término. Os dias de internação fazem parte dessas quatro semanas; não acrescento automaticamente 28 dias a partir da alta. Escores ajudam a caracterizar risco, mas não substituem a recomendação específica do procedimento e a reavaliação clínica.
transformo a decisão em três tarefas com nome e prazo, e uma delas é desconfortável
Inicio treinamento de aplicação com Nivaldino e a filha antes da alta, confirmo a apresentação e as orientações do dispositivo e calculo o número de doses restantes até a data final. Explico sinais de sangramento e suspeita de trombose ou embolia e como buscar atendimento. Confiro acesso local ao medicamento com farmácia e serviço social durante a internação: regras de dispensação e disponibilidade devem ser verificadas, sem prometer acesso ou afirmar impossibilidade apenas com base numa lista nacional.
Faça você
Agora é a dona Olindina Bonilha, do leito 12: 79 anos, 46 quilos, 1,52 metro, terceiro dia de pós-operatório de laparotomia por obstrução intestinal por bridas. Creatinina 1,9; plaquetas 190 mil; hemoglobina 9,6, estável. Dreno com débito seroso pequeno. Ela não anda desde a internação e a folha não traz nenhuma linha de profilaxia — nem medicamentosa, nem mecânica — e nenhuma frase explicando a ausência. Às sete da manhã o cirurgião avisa que ela vai precisar de uma reabordagem eletiva na quinta-feira, daqui a dois dias, e que a anestesiologia cogita bloqueio no neuroeixo associado à anestesia geral. Percorra os passos e decida.
primeira conta
Escore de Caprini, porque é paciente cirúrgica. Idade acima de 75 anos, 3 pontos. Cirurgia aberta com mais de 45 minutos, 2 pontos. Confinamento no leito por mais de 72 horas — ela não anda desde a internação e já são três dias de pós-operatório —, 2 pontos. Total de 7, faixa alta. A folha em branco não corresponde a esse número, e a primeira tarefa é descobrir se houve decisão ou esquecimento: procure na evolução dos três dias uma frase que justifique a ausência. Se não houver, foi esquecimento.
segunda conta
Lista geral: sem sangramento ativo, plaquetas normais, sem coagulopatia conhecida, sem uso de antiagregante. Insuficiência renal grave entra na lista geral de fatores de risco hemorrágico, e é preciso pesá-la. Lista específica da cirurgia abdominal: hemoglobina pré-operatória provavelmente abaixo de 13, a conferir; sexo feminino não pontua nessa lista; cirurgia complexa, a depender da descrição. Há risco hemorrágico aumentado pela função renal, mas não há sangramento e não há contraindicação absoluta. O risco de trombose alto permanece alto: a segunda conta não o reduz, ela só escolhe o método e a molécula.
a conta que decide a molécula
Cockcroft e Gault, com o peso da balança e não estimado: 140 menos 79 dá 61; vezes 46 quilos dá 2.806; dividido por 72 vezes 1,9, que é 136,8, dá 20,5; vezes 0,85 porque é mulher, dá 17 mililitros por minuto. Abaixo de 30. Isso tem três consequências, e não uma: muda o fármaco de escolha, reduziria a dose se ainda assim se optasse pela heparina de baixo peso molecular, e dobra a janela do neuroeixo. Some-se o peso de 46 quilos, abaixo de 50, que por si só já reduziria a dose de enoxaparina para 20 miligramas — apresentação que, registre-se, não consta da Rename.
o calendário
Reabordagem eletiva daqui a dois dias, com possibilidade de bloqueio no neuroeixo. Isso não impede a profilaxia hoje e amanhã; impede a dose da véspera dentro da janela. E a janela dela não é a janela padrão: com depuração de 17 mililitros por minuto, a bula manda dobrar o tempo — e é exatamente aqui que o capítulo mostrou que a bula deixa um buraco, porque atrela o tempo dobrado a uma dose de 30 miligramas ao dia que ela própria não prescreve. Se a escolha for heparina não fracionada, a régua da sociedade de anestesiologia é outra e mais curta.
o que se escreve, e para quem se liga
Uma prescrição, uma justificativa, um exame de controle, uma vigilância e uma ligação. Escreva as cinco coisas — e escreva o horário, não “às 20 h” por hábito.
Continuidade do caso e prática do internato
Use Nivaldino para calcular a data final a partir da operação e Gercino para separar as três janelas: antes da punção, primeira dose depois dela e retirada de cateter.
Questão integrativa 1
Caprini alto autoriza heparina durante sangramento ativo?
Questão integrativa 2
Punção às 08h20 permite primeira enoxaparina diária às 16h00 neste exemplo?
Questão integrativa 3
Quatro horas após retirada do cateter equivalem a quatro horas após a punção?
Questão integrativa 4
Quatro semanas de profilaxia oncológica começam na alta?
Questão integrativa 5
Por que rever a função renal durante a internação?
Questão integrativa 6
Plaquetas devem ser colhidas no mesmo calendário em todo usuário?
Ver como fecharíamos
A folha em branco não é decisão, e o primeiro ato é preencher a lacuna com uma decisão registrada. Ela tem Caprini 7, faixa alta, sem contraindicação absoluta: está indicada profilaxia farmacológica. Com depuração de creatinina de 17 mililitros por minuto, a escolha não é enoxaparina, e sim heparina sódica 5.000 unidades internacionais por via subcutânea a cada 12 horas — pela eliminação predominantemente extrarrenal, e com a vantagem prática de ser a heparina que consta do Componente Básico da Rename. A justificativa vai na evolução com a conta escrita, incluindo o peso aferido em balança, porque foi o peso que decidiu. O controle é hemograma com plaquetas hoje e a cada dois a três dias, pela vigilância de plaquetopenia induzida por heparina. A vigilância é de sangramento, com a enfermagem, olhando dreno, sítio cirúrgico, gengivas, urina e fezes. E a ligação é para a anestesiologia, hoje e não na véspera: informe que ela está em heparina não fracionada de 12 em 12 horas, informe a depuração de 17, e combine o horário da última dose antes da reabordagem de quinta-feira e o horário de reintrodução depois — deixando os dois escritos na prescrição. Some-se o que a mobilidade pede e o remédio não resolve: compressão pneumática intermitente se houver na unidade, e solicitação à fisioterapia de mobilização passiva e exercícios de tornozelo, porque ela está no leito há três dias e essa é a variável que mais fácil se corrige. Questões integrativas — respostas comentadas 1. Não. Avaliar os dois riscos, adotar medidas apropriadas e definir quando a profilaxia farmacológica poderá começar. 2. Não. São 7 horas e 40 minutos. O intervalo geral de pelo menos 12 horas só se completa às 20h20, ainda condicionado à avaliação clínica e anestésica. 3. Não. São eventos diferentes, com intervalos que precisam ser considerados em conjunto. 4. Não. Contar desde a cirurgia e prescrever apenas o período restante quando o plano é completar quatro semanas pós-operatórias. 5. Porque acúmulo de anticoagulante pode aumentar sangramento e alterar dose, agente e intervalos de procedimentos. 6. Não. A frequência depende do risco de reação à heparina, duração, exposição prévia e condição clínica.
Enoxaparina profilática às 22h15 deixaria menos de 12 horas até a raquianestesia das 8h. A dose atrasada exige revisar o plano com a anestesiologia e registrar o que foi decidido, incluindo proteção contra trombose durante eventual interrupção. Para HNF subcutânea em baixa dose, a recomendação de intervalo é diferente, em geral 4 a 6 horas com avaliação apropriada; portanto, não se pode inventar um protocolo de 12 horas para qualquer heparina. Uma substituição pode ser discutida pela equipe, mas não deve ser feita autonomamente apenas para preservar a agenda. Meia dose de enoxaparina ou exame isolado não são atalhos automáticos para liberar punção. Considerar dose, função renal, horários, risco trombótico e risco hemorrágico.
Teste-se
Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.
Plano de revisão
Em 7 dias
Sem consultar nada, escreva as duas contas de três pacientes da sua enfermaria: o escore de Caprini item por item, com a pontuação de cada um, e a lista de risco hemorrágico com a metade geral e a metade específica do procedimento. Depois abra a folha de prescrição dos três e veja se o que está escrito corresponde ao que você acabou de calcular. Em pelo menos um deles não vai corresponder, e o exercício é descobrir se o errado é a folha ou a sua conta.
Em 30 dias
Volte ao seu Nivaldino e troque um dado de cada vez, anotando o que se altera na decisão a cada troca: creatinina de 1,3 para 2,6; peso de 68 para 45 quilos; plaquetas de 212 mil para 44 mil; acrescente uma raquianestesia marcada para as sete da manhã seguinte; acrescente história de plaquetopenia induzida por heparina há dois anos; troque a gastrectomia oncológica por uma herniorrafia inguinal em paciente de 34 anos. Para cada versão, responda três coisas: qual método, qual molécula e por quantos dias — e em qual delas a resposta correta passa a ser não prescrever, com a frase que você escreveria na folha.
Agora atenda
Agora atenda: homem de 68 anos, 74 quilos, internado na enfermaria de clínica cirúrgica no primeiro dia de pós-operatório de colectomia por neoplasia de cólon sigmoide. A técnica de enfermagem chama você ao posto porque a prescrição do dia não tem linha de profilaxia de tromboembolismo, e o paciente tem creatinina de 2,1 e plaquetas de 96 mil. Faça as duas contas, decida o método e a molécula, e escreva a decisão — inclusive se ela for não prescrever heparina.
