Cirurgia GeralPré e Pós-operatório

A operação pode esperar dez dias

Terapia nutricional no paciente cirúrgico (enteral x parenteral)

Reconhecer risco nutricional mesmo na obesidade, escolher via e progressão e decidir com a equipe quando vale otimizar antes de operar.

Fontes deste capítulo

de-Aguilar-Nascimento JE, Salomão AB, Waitzberg DL, Dock-Nascimento DB, Correa MITD, Campos ACL, Corsi PR, Portari Filho PE, Caporossi C; Comissão de Cuidados Perioperatórios do Colégio Brasileiro de Cirurgiões; Sociedade Brasileira de Nutrição Parenteral e Enteral. Diretriz ACERTO de intervenções nutricionais no perioperatório em cirurgia geral eletiva. Revista do Colégio Brasileiro de Cirurgiões, v. 44, n. 6, p. 633-648, 2017. DOI 10.1590/0100-69912017006003

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Especializada e Temática. Manual de terapia nutricional na atenção especializada hospitalar no âmbito do Sistema Único de Saúde – SUS. Brasília: Ministério da Saúde, 2016. 60 p. Versão eletrônica, Editora MS, ordem de serviço 2016/0022

Weimann A, Braga M, Carli F, Higashiguchi T, Hübner M, Klek S, Laviano A, Ljungqvist O, Lobo DN, Martindale RG, Waitzberg D, Bischoff SC, Singer P. ESPEN practical guideline: clinical nutrition in surgery. Clinical Nutrition, v. 40, p. 4745-4761, 2021. DOI 10.1016/j.clnu.2021.03.031

Kondrup J, Allison SP, Elia M, Vellas B, Plauth M. ESPEN guidelines for nutrition screening 2002. Clinical Nutrition, v. 22, n. 4, p. 415-421, 2003. DOI 10.1016/S0261-5614(03)00098-0

Castro MG, Ribeiro PC, Matos LBN, Abreu HB, Assis T, Barreto PA, Ceniccola GD, Cunha HFR, Gonçalves RC, Gonçalves TJM, Loss SH, Nunes DSL, Alves JTM, Toledo DO. Diretriz BRASPEN de Terapia Nutricional no Paciente Grave. BRASPEN Journal, v. 38, n. 2, supl. 2, p. 2-46, 2023. ISSN 2764-1546

01

Responda antes de ler

Homem de 66 anos com adenocarcinoma de antro gástrico tem gastrectomia subtotal marcada para daqui a cinco dias. Pesava 72 kg há três meses e 67 kg há um mês; hoje pesa 63 kg, mede 1,70 m e come cerca de dois terços do que precisa. A albumina é de 3,6 g/dL. O pedido da equipe diz “estado geral bom, liberado”. Qual é a conduta mais adequada antes de assinar o pré-operatório?

02

O paciente que você vai ver

Quarta-feira, duas e vinte da tarde, ambulatório de cirurgia digestiva de um hospital universitário que recebe pacientes pela regulação estadual. A pilha de retornos está no fim quando o residente, Domingos, deixa uma pasta sobre a mesa e já sai em direção ao centro cirúrgico: “é o pré-operatório do seu Genaro, a gastrectomia é segunda. Albumina normal, está liberado, só confere e assina”. Dentro da pasta há a biópsia de três semanas atrás, com adenocarcinoma de antro gástrico, a tomografia de estadiamento sem doença a distância, o pedido de gastrectomia subtotal e uma folha de exames com hemoglobina de 11,6 g/dL e albumina de 3,6 g/dL.

Genaro Valadares tem 66 anos, é motorista de ônibus aposentado e entra acompanhado da esposa, dona Ursulina Palhares. Anda sem ajuda, conversa bem e diz que está “forte para operar”. O que a pasta não diz está em três papéis que ninguém pôs lado a lado. A ficha de encaminhamento da unidade básica, de três meses atrás, anota 72 quilos. O laudo da endoscopia, de um mês atrás, anota 67 quilos no campo do peso para a sedação. A balança do ambulatório, agora, marca 63 quilos. Ele mede 1,70 metro.

Dona Ursulina completa o que a balança sugere. Há umas três semanas ele come metade do prato, diz que estufa logo, deixou a carne porque “não desce” e vomitou duas vezes depois do almoço no último mês. Ele mesmo acha que emagrecer fez bem para a pressão. A calça de sair foi furada duas vezes no cinto, e a aliança passou a girar no dedo.

Você faz a conta que ninguém fez. Nove quilos sobre setenta e dois são 12,5% do peso em três meses; quatro quilos sobre sessenta e sete são quase 6% só no último mês. O índice de massa corporal de 21,8 kg/m² parece tranquilizador, a albumina também, e nenhum dos dois responde à pergunta que importa nesta tarde: com quanta reserva este homem vai atravessar uma gastrectomia daqui a cinco dias, e os dias em que vai comer ainda menos do que come hoje?

A folha de recordatório que você pede à nutricionista do ambulatório volta em dez minutos com um número: cerca de 1.200 kcal por dia na última semana, contando o café com leite e o pão que ele ainda aceita. Pela régua de bolso do manual federal, um adulto sem doença grave precisa de 25 a 35 kcal por quilo; no meio da faixa, são 1.890 kcal para os 63 quilos de hoje. Ele está comendo cerca de 64% do que precisa, e está perdendo peso nesse ritmo há um mês.

O que se decide aqui não é se ele pode ser operado. É se ele deve ser operado na segunda. A resposta passa por uma triagem de três minutos que o prontuário não tem, por uma conversa com o residente que vai soar como atraso, e por uma pergunta que quase ninguém faz no ambulatório: o suplemento que você vai prescrever chega à boca dele, se ele não consta de nenhuma lista de medicamentos que o SUS entrega na farmácia?

Este capítulo é sobre a terapia nutricional do paciente cirúrgico, do ambulatório à alta: a triagem que decide a data, o que se prescreve antes da operação, a comida que volta nas primeiras 24 horas, a sonda deixada na sala e o dia em que a veia entra. A consistência da dieta, a conta da enteral do quilo ao frasco e a síndrome de realimentação ficam com Dieta hospitalar: escolha, jejum, progressão e via alternativa, na apostila de Prescrição e Cuidado do Paciente Internado. As horas do jejum antes da anestesia ficam com Avaliação pré-operatória e estratificação de risco cirúrgico; a fisiologia do catabolismo, com Resposta metabólica ao trauma (fases de Cuthbertson); o íleo, a fístula e o vazamento de anastomose, com Complicações pós-operatórias (febre pós-op, íleo, fístula), todos nesta apostila. O que nenhum deles responde, e este capítulo assume, é a triagem nutricional do candidato à operação e o que ela muda.

03

Quem adoece disso

Comece pela frequência, porque ela desfaz a impressão de que o seu Genaro é exceção. O manual federal de terapia nutricional hospitalar, de 2016, registra que cerca de metade dos pacientes já chega desnutrida à internação, e que a proporção pode chegar a 80% no câncer de cabeça e pescoço, de pâncreas e do trato gastrointestinal — exatamente a população do ambulatório de cirurgia oncológica. O mesmo manual relata, do inquérito brasileiro de avaliação nutricional hospitalar publicado em 2001, que a desnutrição atingia 31,8% dos pacientes na admissão e 61,0% quando a internação passava de 15 dias. Quer dizer que o hospital não recebe só o desnutrido: ele também fabrica o desnutrido, e o operado que fica duas semanas internado é o candidato natural.

A consequência para quem opera está dita na diretriz brasileira de intervenções nutricionais no perioperatório, a Diretriz ACERTO, de 2017: quanto mais comprometido o estado nutricional, maiores a morbidade, a mortalidade e o custo hospitalar depois da operação, e a associação é mais evidente no idoso. A diretriz europeia de cirurgia de 2021 soma dois dados que ajudam a dimensionar o problema: ingestão oral inadequada por mais de 14 dias associa-se a mortalidade maior, e a desnutrição aparece em análises multivariadas como fator de risco independente para complicação, morte, tempo de internação e custo, tanto no internado em geral quanto no operado por câncer.

O lado bom da conta é que a intervenção tem efeito medido, e medido justamente no paciente que parece o seu. A diretriz europeia relata uma série de 800 pacientes com câncer gástrico e risco nutricional grave operados por gastrectomia: a infecção de sítio cirúrgico foi de 17,0% em quem recebeu suporte adequado por pelo menos dez dias antes da operação, contra 45,4% em quem recebeu suporte inadequado, ou nenhum, por menos de dez dias. Relata também uma coorte de 1.085 pacientes triados pela NRS-2002 antes de operação abdominal, dos quais 512 estavam em risco e receberam, a critério do cirurgião, sete dias de enteral ou parenteral antes de operar: nos escores 3 e 4 o suporte pré-operatório não mudou infecção nem internação, e nos 120 pacientes com escore de pelo menos 5 as complicações caíram de 50,6% para 25,6%, com internação de 13,7 contra 17,9 dias.

Lidos lado a lado, os números dizem uma coisa só. O benefício não está em nutrir todo mundo que vai operar; está em achar quem tem risco alto e dar a esse paciente tempo suficiente de terapia antes da incisão. A mesma diretriz relata, de uma revisão sistemática, que a parenteral pré-operatória no operado do trato digestivo reduziu as complicações de 45% para 28%, e registra que esse benefício só é evidente no desnutrido grave, com perda de 10% a 15% do peso, tratado por sete a 14 dias. Nos três números, o efeito aparece em quem estava desnutrido de verdade e recebeu dias, não horas, de terapia.

A imunonutrição — fórmula enriquecida com arginina, ácidos graxos ômega-3 e nucleotídeos — é a intervenção com mais ensaios. A Diretriz ACERTO de 2017 contava mais de 50 estudos randomizados e cinco metanálises, com redução de complicações, sobretudo infecciosas, e do tempo de internação, sem redução demonstrada de mortalidade. A diretriz europeia de 2021 cita uma metanálise mais recente, com 83 ensaios e 7.116 pacientes, que confirma a direção do efeito. O que continua em disputa não é se funciona, e sim em quem, por quanto tempo e em que momento do perioperatório — e é daí que sai uma das divergências deste capítulo.

Há também uma epidemiologia de processo, e ela é a que o interno alcança. A diretriz brasileira abre o texto dizendo que a prescrição de terapia nutricional perioperatória ainda é esquecida entre cirurgiões, apoiada num levantamento suíço-austríaco cujo título chama a nutrição perioperatória de órfã da cirurgia. O manual federal transformou a triagem em indicador de qualidade — proporção de internados triados em até 48 horas, com meta mínima de 80% — e a Portaria de Consolidação SAES/MS nº 1, de 2022, exige do hospital habilitado em terapia nutricional protocolo escrito de triagem e avaliação nutricional. Uma meta de 80% e uma exigência de protocolo só existem porque, sem elas, a triagem não acontece sozinha.

O problema não termina na alta. A diretriz europeia relata que, depois de esofagectomia, a perda de peso chega a 5% a 12% em seis meses e que mais da metade dos pacientes perde mais de 10% do peso em doze meses. A Diretriz ACERTO registra que desnutrição e estado funcional ruim são os principais fatores de risco de reinternação no operado, e que muitos pacientes que receberam terapia nutricional no perioperatório vão para casa sem orientação para mantê-la. É a última linha da trajetória do seu Genaro, e a que mais se perde.

Um cuidado de leitura fecha o bloco. As medidas de frequência citadas aqui são brasileiras, mas antigas e relatadas de segunda mão pelo manual federal; os números de efeito vêm de estudos estrangeiros e estão citados como a diretriz europeia os relata, com a atribuição a ela. A régua de conduta, porém, é brasileira e é recente o bastante para decidir o caso de hoje: a Diretriz ACERTO de 2017, com a do paciente grave de 2023 para quem está na terapia intensiva.

04

Por que acontece o que acontece

A Diretriz ACERTO pede que a operação seja lida, do ponto de vista metabólico, como um trauma planejado. A resposta a esse trauma — o catabolismo que a caloria da primeira semana não reverte, a retenção de água e sódio, a glicemia que sobe sem ninguém ter comido — tem capítulo próprio nesta apostila, Resposta metabólica ao trauma (fases de Cuthbertson), e fica lá. Aqui o foco é a outra metade da conta: com quanta reserva o paciente entra nesse trauma. A mesma operação, com a mesma técnica, gasta músculo e proteína de um homem que perdeu 12,5% do peso em três meses e de um homem que não perdeu nada; só o segundo tem de onde tirar sem pagar com infecção, cicatrização ruim e dias a mais de internação.

É por isso que a triagem de risco nutricional mistura dois eixos que parecem de naturezas diferentes. A NRS-2002 soma o estado nutricional de hoje — perda de peso com prazo, índice de massa corporal com condição geral, ingestão da última semana — à gravidade da doença, que o instrumento lê como aumento de necessidade, e acrescenta um ponto a quem tem 70 anos ou mais. Os protótipos que o próprio instrumento dá explicam a lógica: pontua 2 o paciente preso ao leito pela doença, por exemplo depois de uma operação abdominal de grande porte, cuja necessidade de proteína aumenta muito e que em muitos casos vai precisar de alimentação artificial. O risco nutricional, nessa definição, é o estado de agora mais a ameaça que a doença e o tratamento fazem a ele. Para o candidato à cirurgia, a própria operação já é parte do risco.

O instrumento não nasceu de consenso de opinião. Seus autores o testaram retrospectivamente em 128 ensaios randomizados de suporte nutricional e verificaram que os ensaios com pacientes que preenchiam os critérios de risco tinham mais chance de mostrar benefício clínico do suporte do que os ensaios com pacientes que não os preenchiam. Quer dizer que o escore foi construído para responder exatamente à pergunta do ambulatório: em quem nutrir muda desfecho. Pela regra do instrumento, o plano de cuidado nutricional está indicado em quatro combinações — desnutrição grave, doença grave, desnutrição moderada com doença leve, ou desnutrição leve com doença moderada —, o que se traduz num total igual ou maior que 3.

O que a terapia pré-operatória consegue fazer em poucos dias também tem medida. A diretriz europeia de 2021 registra que um aumento considerável de função fisiológica e de proteína corporal total aparece em sete dias de nutrição parenteral no desnutrido, e que uma melhora adicional significativa aparece na segunda semana. É a base biológica das janelas de sete a 14 dias. Ela também desenha o limite do que se promete: a terapia melhora a travessia da operação — força, cicatrização, defesa contra infecção —, não o tumor, e nenhuma das três diretrizes lidas aqui a apresenta como tratamento da doença de base.

A imunonutrição tem um mecanismo proposto que a diretriz brasileira do paciente grave descreve em três passos. O trauma leva células mieloides imunossupressoras a invadir o tecido linfoide, e essas células consomem arginina do meio. Sem arginina, o linfócito T perde função e capacidade de multiplicação, e a defesa contra infecção cai. Alguns cânceres, em especial os do trato digestivo e de cabeça e pescoço, também aumentam essas células. Daí o racional de repor arginina antes da operação, e daí também duas consequências práticas: o efeito depende de dose e de nível tecidual atingido, o que exige dias de oferta e não uma lata na véspera; e a arginina não é recomendada na vigência de sepse, pelo risco — que a própria diretriz chama de pouco fundamentado — de aumentar a mortalidade. A combinação com ômega-3 é a que concentra os melhores resultados.

Depois da operação, o medo que mais atrasa a comida é o de “proteger a anastomose”. Ele não tem sustentação. A diretriz do paciente grave registra que a oferta enteral ou oral precoce não põe em risco anastomose feita em condições adequadas, mesmo de estômago ou de reto, e que a enteral precoce reduz a incidência de deiscência; a Diretriz ACERTO lista a segurança da realimentação precoce inclusive depois de esofagectomia, gastrectomia e duodenopancreatectomia, com menos complicações infecciosas e menos dias de internação. Por que o intestino vazio não é intestino em repouso, e por que o soro em excesso prolonga o íleo, está nos capítulos Dieta hospitalar: escolha, jejum, progressão e via alternativa e Complicações pós-operatórias (febre pós-op, íleo, fístula).

Quando a boca não basta, o intestino continua sendo a primeira escolha, e há números para isso. A diretriz brasileira associa a nutrição enteral a menor morbidade e menor internação do que a parenteral no pós-operatório; a europeia relata uma metanálise de 29 ensaios e 2.552 operados do trato digestivo em que a enteral teve menos complicações infecciosas, menos vazamentos de anastomose e internação mais curta. O intestino, porém, nem sempre está disponível, e no operado do trato digestivo alto a boca demora: edema, obstrução e esvaziamento gástrico lento atrasam a ingestão justo em quem já chegou depleto. Uma sonda nasojejunal posicionada na sala, ou uma jejunostomia, alimenta o jejuno além da anastomose enquanto o segmento de cima se recupera. As duas têm preço: a sonda nasal sai por acidente com frequência significativa nos primeiros dias, e a jejunostomia concentra as complicações graves de sonda, embora permita terapia mais longa quando o pós-operatório complica.

O jejuno recém-operado também não recebe volume cheio de uma vez. A diretriz europeia recomenda começar a enteral a 10, no máximo 20 mL/h, e subir com cuidado, porque a tolerância é limitada e a meta pode levar de cinco a sete dias; registra relatos isolados de isquemia de delgado, com mortalidade alta, associados a estrangulamento de alça ou a infusão rápida demais. Quando nem assim o intestino entrega, entra a veia — e a veia tem um custo que não é só o do cateter. A norma sanitária da parenteral exige equipe multiprofissional formal, prescrição médica precedida de avaliação nutricional e uma via de acesso usada só para ela; a glicose que chega direto ao sangue reorganiza a insulina, e o fósforo, o potássio e o magnésio caem quando a caloria entra em quem estava depletado. Por isso a decisão da veia se toma com dois relógios diferentes: o de quem come pouco, que conta dias abaixo de 60% da meta, e o de quem não pode usar o intestino, que no desnutrido não espera.

Bandeja de refeição hospitalar parcialmente consumida, com recipiente de suplemento nutricional ao lado.
A ingestão efetiva precisa ser acompanhada, além de registrar a dieta prescrita. História de perda de peso, redução alimentar, funcionalidade e avaliação nutricional ajudam a reconhecer risco e planejar suporte. Uma refeição isolada ou o valor de albumina não estabelecem, por si só, o diagnóstico nutricional nem um prazo fixo para adiar uma operação.
05

Como se apresenta de verdade

O problema nutricional do paciente cirúrgico aparece em seis formas, e o erro característico é tratar as seis com a mesma linha de prescrição. Entre uma forma e outra, a diferença não está na gravidade da doença de base: está na reserva com que o paciente chega, o tempo que ele vai ficar sem comer e se o intestino dele pode ou não receber alguma coisa. A ordem abaixo segue a trajetória do operado, do ambulatório à alta.

O candidato que perdeu peso e ninguém mediu

É o seu Genaro, e é o paciente mais comum do ambulatório de cirurgia oncológica do trato digestivo e de cabeça e pescoço. Ele não parece doente. Anda, conversa, tem índice de massa corporal normal e albumina normal, e muitas vezes interpreta o emagrecimento como coisa boa. O dado que o denuncia está espalhado em documentos que ninguém junta: o peso da unidade básica, o do laudo da endoscopia, o da balança de hoje. Junte-os com as datas, porque perda de peso sem prazo não classifica nada.

Os sinais de beira de leito que acompanham a perda são pobres e úteis: roupa larga, cinto furado de novo, aliança que gira, prótese dentária que solta, saciedade precoce, vômito depois da refeição, carne que “não desce”. Nenhum deles substitui a balança, mas qualquer um deles obriga a procurar o peso anterior.

O que se decide aqui é se o paciente está em risco nutricional alto e, se estiver, se a terapia nutricional vem antes da operação. A Diretriz ACERTO manda instituir terapia nutricional pré-operatória de 5 a 10 dias no candidato a operação de moderado a grande porte com risco moderado a alto, com recomendação forte e evidência alta. É uma decisão de data, e por isso ela precisa ser tomada no ambulatório, não na véspera.

O idoso frágil e o obeso que também desnutre

Dois fenótipos enganam o olho. O idoso perde músculo com a idade, e a perda de massa muscular de quem vai operar deixou de ser só desnutrição: a Diretriz ACERTO lembra que a sarcopenia é passível de reversão por intervenção nutricional e treino de resistência, e por isso é fator de risco modificável no eletivo; a diretriz europeia nomeia o idoso sarcopênico como grupo de alto risco que deve receber suplemento oral antes de operação abdominal de grande porte. Na NRS-2002, 70 anos ou mais somam um ponto por si. Para quem tem 60 anos ou mais, o manual federal propõe a miniavaliação nutricional reduzida e usa a circunferência da panturrilha abaixo de 31 cm como marcador de desnutrição.

O obeso é o outro engano. O manual federal registra que, com a epidemia de obesidade, os parâmetros antropométricos podem estar dentro da normalidade num paciente cujo estado nutricional está comprometido, e a diretriz europeia pede que a obesidade sarcopênica não seja subestimada no operado. Um índice de massa corporal de 31 kg/m² com oito quilos perdidos em cinco meses não é reserva: é perda de peso com gordura por cima.

Para os dois, a Diretriz ACERTO abre uma porta que ainda é pouco usada, a pré-habilitação — exercício aeróbico e de resistência combinado a cuidado nutricional por cerca de quatro semanas, no paciente de menor reserva funcional. A recomendação é fraca, com evidência baixa: a maioria dos estudos mostra melhora da capacidade funcional sem reduzir complicações nem internação. A avaliação da fragilidade em si é do capítulo Avaliação pré-operatória e estratificação de risco cirúrgico.

O eletivo bem nutrido, que só precisa não ser atrapalhado

É a maior parte da agenda, e aqui a terapia nutricional consiste sobretudo em não atrapalhar. Triado sem risco, este paciente não precisa de suplemento de rotina antes de operar: a diretriz europeia recomenda estimular suplemento oral só em quem não cobre a necessidade com a comida. O que ele precisa é de jejum pré-anestésico sem excesso, cuja prescrição em horas é do capítulo Avaliação pré-operatória e estratificação de risco cirúrgico, e de comida de volta cedo.

Depois de videocolecistectomia, herniorrafia e operação orificial, a Diretriz ACERTO recomenda dieta e hidratação por boca imediatamente, sem hidratação venosa. Depois de operação abdominal eletiva, a comida volta por boca ou por sonda nas primeiras 24 horas, desde que o paciente esteja estável do ponto de vista hemodinâmico e ainda que haja anastomose digestiva, e a mesma diretriz propõe abandonar a evolução clássica de líquida para pastosa e para sólida em favor da dieta conforme a vontade do paciente, com tolerância geralmente acima de 70%.

O dano típico deste grupo é o de sobra: a sonda nasogástrica mantida por hábito, o jejum que espera flatos, a hidratação venosa que ninguém reduz. Os três são tratados, com as réguas deles, em Complicações pós-operatórias (febre pós-op, íleo, fístula) e em Resposta metabólica ao trauma (fases de Cuthbertson). A consistência que se escreve quando a comida volta é do capítulo Dieta hospitalar: escolha, jejum, progressão e via alternativa.

O operado de trato digestivo alto e de cabeça e pescoço, que não vai comer cedo

Aqui a decisão nutricional acontece antes da incisão, e quem não a levanta na véspera perde a chance de resolvê-la na sala. A Diretriz ACERTO manda considerar terapia por sonda ou cateter, iniciada em 24 horas, em dois grupos: o operado de grande porte de cabeça e pescoço — a laringectomia total é o exemplo — e do trato digestivo alto, como esofagectomia, gastrectomia total e ressecção ou derivação pancreática, quando a boca precoce é impossível ou não recomendada; e o paciente que não chega a 60% da meta só com a via oral depois de 5 a 7 dias de pós-operatório.

A diretriz europeia desenha o mesmo grupo por outro ângulo: enteral em 24 horas quando a boca não pode começar cedo e a ingestão vai ficar abaixo de 50% por mais de sete dias, no operado de grande porte de cabeça e pescoço ou do trato digestivo por câncer, no politraumatizado grave e no desnutrido evidente no momento da operação. E recomenda considerar sonda nasojejunal ou jejunostomia por cateter fino em todo candidato a enteral que vai a operação de grande porte do trato digestivo alto ou do pâncreas, com atenção especial ao desnutrido.

A gastrectomia subtotal do seu Genaro não está na lista nominal da diretriz brasileira. Ele, porém, está no grupo de risco das duas: desnutrido, com vômito pós-prandial antes de operar e com uma anastomose gastrojejunal pela frente. É exatamente o paciente em quem a pergunta “vai sonda na sala?” precisa ser feita ao cirurgião antes do centro cirúrgico, e não respondida por omissão depois dele. A técnica de passagem e a confirmação de posição são do capítulo Sondagem nasogástrica e nasoentérica, na apostila de Procedimentos e Vias de Acesso.

O operado que come pouco

É o paciente do terceiro, quarto, quinto dia: a dieta foi liberada, a bandeja chega, e ele come um terço. Ninguém escreve o terço. A decisão desta forma tem relógio, e o relógio conta dias abaixo de 60% da meta. Pela Diretriz ACERTO, a via oral que não chega a 60% depois de 5 a 7 dias abre a sonda; e a oferta calórica que não chega a 60% depois de cinco dias de pós-operatório abre a parenteral, isolada ou associada à enteral. O manual federal indica a enteral, em geral, abaixo de 60% da recomendação. A diretriz europeia usa outro corte, 50% por mais de sete dias, para somar parenteral à enteral.

O primeiro passo, antes de escolher via, é garantir que o percentual é real: o que entrou, e não o que foi prescrito ou servido. Como se mede a ingestão, como se lê a bandeja e como se somam as pausas da bomba é do capítulo Dieta hospitalar: escolha, jejum, progressão e via alternativa. O que este capítulo acrescenta é que, no operado, o prazo tem de ser contado a partir do dia da operação, e que o desnutrido que entrou na sala com risco alto não tem a mesma folga de quem entrou bem nutrido.

Os três prazos brasileiros para a mesma pergunta — quando a veia entra em quem come pouco — não coincidem, e é daí que sai a primeira divergência deste capítulo.

O operado que não pode usar o intestino

É outra decisão, com outro relógio. As contraindicações à enteral que a diretriz europeia lista são obstrução intestinal ou íleo, choque grave, isquemia intestinal, fístula de alto débito e hemorragia intestinal grave; o manual federal cita obstrução, síndrome do intestino curto e fístula enterocutânea de alto débito; a diretriz brasileira do paciente grave, na discussão da recomendação sobre parenteral no pós-operatório, fala em obstrução mecânica, fístula de alto débito em delgado, isquemia intestinal e hemorragia digestiva. O abdome aberto, por si, não contraindica a enteral; o íleo pós-operatório prolongado pode contraindicar, e a enteral nesse contexto só se faz com cautela e vigilância estreita de intolerância.

Nesse paciente, a pergunta dos 60% não se aplica, porque não há o que medir: não entra nada. A régua brasileira separa o desnutrido do bem nutrido. No desnutrido ou em alto risco nutricional impossibilitado de receber pela boca ou por sonda, a parenteral é precoce — pela diretriz do paciente grave, assim que possível; pela Diretriz ACERTO, a via digestiva impossibilitada já é, sozinha, indicação de parenteral. No bem nutrido com contraindicação à via digestiva, a diretriz do paciente grave recomenda esperar sete dias antes de começar a veia.

O diagnóstico do íleo, do vazamento e da fístula é do capítulo Complicações pós-operatórias (febre pós-op, íleo, fístula), que manda decidir a via de nutrição da fístula com o capítulo da dieta hospitalar. Aquele capítulo, por sua vez, traz a regra geral do tempo da parenteral no internado, mas não trata do operado. Este capítulo assume a via nutricional do operado com fístula, vazamento ou íleo prolongado — quando a veia entra, com que meta, e o que o cirurgião não pode esquecer nela.

06

Como fechar o diagnóstico

A investigação nutricional do candidato à operação não depende de exame caro e cabe numa consulta. São seis levantamentos, nesta ordem, e o primeiro exige só uma balança e os papéis que o paciente já trouxe. O que costuma faltar não é o dado, é alguém que o junte antes de a data da operação ser escrita.

A balança e o calendário: perda de peso tem prazo

O manual federal chama a variação do peso em relação ao habitual de índice mais importante da avaliação antropométrica, e dá a conta: a perda percentual é o peso habitual menos o atual, vezes cem, dividido pelo habitual. O que a conta não dá é o prazo, e sem prazo o número não classifica nada — perder 10% em um mês e perder 10% em um ano são pacientes diferentes. Escreva sempre as duas coisas: quanto, e desde quando.

O peso habitual raramente está na memória do paciente, e quase sempre está em algum papel. Procure na ficha de encaminhamento da unidade básica, no laudo da endoscopia ou da colonoscopia, que registra peso para calcular a sedação, na ficha de anestesia de procedimento anterior, na receita de quimioterapia, no cartão de programa de hipertensão ou diabetes. Peso referido entra na evolução rotulado como referido, e por quem. No seu Genaro, três documentos dão três pontos da curva: 72 quilos há três meses, 67 há um mês, 63 hoje. São 12,5% em três meses e quase 6% no último mês, o que diz também que a perda está acelerando.

Dois cuidados antes de confiar no número. Edema e ascite escondem perda de massa, e o manual federal pede que o acúmulo de líquido seja observado antes de interpretar o peso; no membro amputado, desconta-se a parte ausente. E a balança do ambulatório não é a da unidade básica: diferença de um quilo entre aparelhos não é perda, mas nove quilos são.

A NRS-2002 em três minutos, do jeito que ela é somada

A triagem começa por quatro perguntas de sim ou não: o índice de massa corporal é menor que 20,5? Houve perda de peso nos últimos três meses? A ingestão diminuiu na última semana? O paciente está gravemente doente, como em terapia intensiva? Qualquer sim leva à segunda parte. Quatro nãos levam a nova triagem semanal — e, no texto original do instrumento, a considerar um plano nutricional preventivo se houver operação de grande porte marcada; na versão do manual federal, o candidato a operação de grande porte segue para a segunda parte mesmo com quatro nãos.

A segunda parte tem duas colunas, e em cada uma vale só a categoria mais alta que o paciente preenche. Na coluna do estado nutricional, pontua 1 a perda acima de 5% em três meses ou a ingestão abaixo de 50% a 75% da necessidade na última semana; pontua 2 a perda acima de 5% em dois meses, o índice entre 18,5 e 20,5 com condição geral comprometida ou a ingestão de 25% a 60%; pontua 3 a perda acima de 5% em um mês, ou acima de 15% em três meses, o índice abaixo de 18,5 com condição geral comprometida ou a ingestão de 0 a 25%. Na coluna da gravidade da doença, pontua 1 o doente crônico com complicação aguda — cirrose, doença pulmonar obstrutiva crônica, hemodiálise, diabetes, câncer — e a fratura de quadril; pontua 2 a operação abdominal de grande porte, o acidente vascular cerebral, a pneumonia grave e a neoplasia hematológica; pontua 3 o traumatismo craniano, o transplante de medula e o paciente de terapia intensiva com escore APACHE acima de 10. Soma-se, e quem tem 70 anos ou mais ganha mais 1. Total de 3 ou mais é risco nutricional, e o plano de cuidado começa.

Esta apostila adota, para o candidato à operação, a leitura do manual federal: a operação de grande porte já indicada entra na coluna da gravidade antes de acontecer. É a leitura que responde à pergunta que se faz no ambulatório — quanto esta operação vai cobrar de quem vai passar por ela —, e é uma escolha desta apostila, porque o texto original do instrumento descreve a gravidade pelo estado de agora. A consequência precisa estar escrita: por essa leitura, todo candidato de 70 anos ou mais a operação abdominal de grande porte soma 3 — já está em risco — mesmo sem nenhuma alteração nutricional, e o que o separa dos outros é o valor final.

O seu Genaro fica assim: perda acima de 5% no último mês, 3 pontos na coluna nutricional; gastrectomia, 2 pontos na coluna da gravidade, acima do 1 que o câncer daria sozinho; 66 anos, nenhum ponto de idade. Total, 5. Se a operação não fosse contada, o total seria 4 — e a diferença entre 4 e 5 é justamente a que separa, na coorte citada pela diretriz europeia, quem não se beneficiou do suporte pré-operatório de quem teve metade das complicações. Uma ressalva de edição: a versão do manual federal troca, na gravidade moderada, o acidente vascular cerebral por “fraturas”; use a lista do original, conferida nas notas do critério.

Do risco à avaliação: quem avalia, e com o quê

Triagem positiva não é diagnóstico, é encomenda de avaliação. O manual federal manda seguir da triagem para a avaliação nutricional detalhada, e as duas normas sanitárias dizem o mesmo com força de regra: a indicação de enteral e a de parenteral têm de ser precedidas de avaliação nutricional, e a da enteral repetida no máximo a cada dez dias. A equipe multiprofissional de terapia nutricional é a encarregada, pela norma da enteral, de criar os mecanismos de triagem e vigilância nutricional do hospital.

O instrumento clínico que o manual federal descreve é a avaliação subjetiva global: história de perda de peso, mudança de ingestão, sintomas digestivos e exame físico simplificado, com três categorias — A, bem nutrido; B, suspeita de desnutrição ou desnutrição moderada; C, gravemente desnutrido. Somam-se o peso, a altura, o índice de massa corporal e, quando possível, a dobra cutânea tricipital, a circunferência do braço e a muscular do braço; no idoso, a panturrilha. O manual acrescenta a força de preensão manual como indicador funcional sensível de depleção proteica em curto prazo.

O papel do interno aqui é pedir a avaliação e não substituí-la, mas também não esperar por ela para abrir a conversa sobre a data. A triagem de três minutos já basta para saber que o seu Genaro não é um paciente para operar na segunda sem terapia nutricional, e a avaliação da nutricionista vai dizer quanto, como e com o quê.

Risco grave: os quatro critérios que autorizam adiar

A diretriz brasileira manda tratar antes o risco moderado a alto, sem definir com números onde começa cada um. Quem define é a diretriz europeia de 2021, que chama de risco nutricional grave a presença de pelo menos um de quatro critérios: perda de peso acima de 10% a 15% em seis meses; índice de massa corporal abaixo de 18,5 kg/m²; avaliação subjetiva global C ou NRS acima de 5; albumina abaixo de 30 g/L, sem doença hepática ou renal. Para esse paciente ela manda nutrir antes da operação de grande porte mesmo que a operação, inclusive por câncer, tenha de esperar, por sete a 14 dias.

Ponha o seu Genaro contra os quatro, porque o resultado ensina. A perda de 12,5% em três meses cai dentro da faixa de 10% a 15% que o próprio critério usa como corte, e por isso ele é grave para quem lê 10 e não é para quem lê 15. O índice de 21,8 não preenche. A NRS de 5 não é “acima de 5”. A albumina de 36 g/L não preenche. Lido ao pé da letra, o critério europeu deixa de fora um homem que perde peso cada vez mais rápido — e as notas do critério mostram que o corte da NRS é inalcançável, por aritmética, em qualquer candidato a operação abdominal eletiva com menos de 70 anos.

Esta apostila adota duas leituras, e as duas vão declaradas: a perda acima de 10% em seis meses já é critério de risco grave, e a NRS de 5 ou mais também, porque é a partir de 5 que a coorte citada pela própria diretriz mostrou benefício. Com qualquer das duas, o seu Genaro é paciente de sete a dez dias de terapia antes da incisão. Sem nenhuma das duas, ele continuaria sendo paciente de terapia pré-operatória pela regra brasileira de risco moderado a alto — só que por menos dias.

Os exames: o que a albumina diz antes e depois da operação

A albumina muda de significado com o relógio da operação, e isso não é contradição entre fontes, é cronologia. Antes de operar, ela é marcador de prognóstico: a diretriz brasileira do paciente grave registra que a hipoalbuminemia pré-operatória identifica quem terá mais complicação infecciosa, internação mais longa e maior mortalidade, e a diretriz europeia a trata como fator de risco cirúrgico claro, que reflete catabolismo e gravidade da doença mais do que desnutrição. Depois da operação, ela cai com a inflamação do trauma cirúrgico e não deve ser usada como marcador de estado nutricional; essa leitura do pós-operatório é do capítulo Resposta metabólica ao trauma (fases de Cuthbertson).

Duas consequências para o ambulatório. A albumina baixa antes da operação é sinal de alarme e entra no critério de risco grave. A albumina normal não desfaz nada: a do seu Genaro é 3,6 g/dL, e ele perdeu 12,5% do peso. Liberar pela albumina é ler um marcador de inflamação como se fosse uma balança.

O resto do laboratório serve à segurança da terapia, não ao diagnóstico da desnutrição. Antes de subir a oferta em quem estava comendo pouco, doses de fósforo, potássio e magnésio, pela régua do capítulo Dieta hospitalar: escolha, jejum, progressão e via alternativa, que é dono da síndrome de realimentação. A glicemia e a hemoglobina glicada da avaliação pré-operatória são do capítulo Avaliação pré-operatória e estratificação de risco cirúrgico, e a insulina da dieta contínua e da parenteral, de Hiperglicemia hospitalar e esquema de insulina de correção.

A necessidade e a meta: a conta que vai escrita na folha

O método recomendado para medir gasto energético é a calorimetria indireta, que quase nenhuma enfermaria tem. Na falta dela, o manual federal manda estimar por quilo de peso atual: 20 a 25 kcal/kg no crítico e 25 a 35 kcal/kg no adulto sem doença grave. No pós-operatório, com enteral nos primeiros dias, a Diretriz ACERTO recomenda não passar de 25 kcal/kg, com cerca de 1,5 g/kg de proteína. Para o seu Genaro, de 63 quilos, isso dá uma faixa de 1.575 a 2.205 kcal antes da operação e uma meta de 1.575 kcal com 94,5 g de proteína depois dela.

A meta vira três números na evolução, e não um. A meta em kcal. A meta de proteína em gramas. E o limiar de 60% dessa meta em kcal — 945 kcal no caso dele —, que é o número que abre a próxima via. Quem escreve só “dieta hiperproteica” não tem como saber, no quinto dia, se cruzou ou não o gatilho.

Uma conta de coerência antes de escolher a fórmula: 1,5 g/kg de proteína rendem 6 kcal/kg, e 6 sobre 25 são 24% da energia. Uma fórmula cuja fração de proteína fique abaixo de 24% não entrega a proteína do ACERTO sem estourar as 25 kcal/kg. Confira no rótulo da fórmula padronizada no seu hospital; se não fecha, a prescrição é de fórmula hiperproteica ou de módulo de proteína à parte, e subir o volume não resolve. A conta completa da enteral, do quilo ao frasco e à água livre, é do capítulo Dieta hospitalar: escolha, jejum, progressão e via alternativa.

07

Da balança à veia: as réguas, as contas e o que não fecha nos documentos

Triagem identifica risco; avaliação detalhada orienta terapia. A decisão de adiar exige risco nutricional relevante e segurança oncológica ou clínica para aguardar.

  1. 1Recuperar peso usual e trajetória, ingestão, força e capacidade funcional; obesidade ou albumina normal não excluem desnutrição.
  2. 2Aplicar triagem e discutir avaliação nutricional. Albumina isolada reflete também inflamação e não substitui diagnóstico nutricional.
  3. 3Em risco nutricional grave, considerar terapia pré-operatória por cerca de 7–14 dias quando clinicamente seguro, individualizando com cirurgia e nutrição; emergência não espera esse período.
  4. 4Preferir via digestiva quando viável e garantir acesso real ao suplemento ou dieta, com metas e responsáveis.
  5. 5Após operação, retomar alimentação precocemente conforme segurança, tolerância e anatomia; verificar contraindicações, continuidade intestinal e riscos antes de iniciar ou avançar.
  6. 6Prescrever energia e proteína com progressão apropriada. Em risco de realimentação, avaliar fósforo, potássio, magnésio e tiamina e evitar atingir a meta integral abruptamente.
  7. 7Medir o que foi efetivamente ingerido ou infundido e tratar barreiras como dor, náusea, interrupções e perda da sonda. Nutrição parenteral depende de indicação individual, não apenas de um dia fixo.
  8. 8Na alta, combinar via, quantidade, obtenção, treinamento, sinais de complicação e seguimento; reavaliar necessidade e tolerância.

O que a norma federal exige de quem prescreve parenteral

A Portaria MS/SNVS nº 272, de 1998, que a consolidação de 2022 ainda invoca como a norma em uso, exige equipe multiprofissional de terapia nutricional formal e obrigatória, com pelo menos um médico, um farmacêutico, um enfermeiro e um nutricionista. A indicação e a prescrição são médicas, e a indicação vem depois de avaliação nutricional. A bolsa é inviolável e não se transfere de recipiente. A via de acesso é exclusiva: usá-la para qualquer outra solução só com aprovação formal da equipe. O paciente é controlado clínica e laboratorialmente, e a parenteral só se suspende depois de avaliar se a via digestiva já atende à necessidade, se há complicação que ponha a vida em risco e se os objetivos podem ser alcançados. A Portaria de Consolidação SAES/MS nº 1, de 2022, acrescenta o conteúdo mínimo: aminoácidos, carboidratos, vitaminas e minerais, com ou sem lipídio diário.

Antes de operar: o achado, a régua e o que muda na data

Achado na triagemO que diz a réguaO que muda na data e na prescrição
NRS-2002 abaixo de 3Manual federal e instrumento original: sem risco nutricional; nova triagem semanalNenhum suplemento de rotina; suplemento só se a comida não cobre a necessidade (diretriz europeia); a data não muda
NRS-2002 de 3 ou 4Risco nutricional: o plano de cuidado começa; Diretriz ACERTO: terapia pré-operatória de 5 a 10 dias no risco moderado a altoAvaliação nutricional detalhada; suplemento oral proteico; data mantida se couberem pelo menos 5 dias de terapia
NRS-2002 de 5 ou mais, ou perda acima de 10% em seis meses (leituras desta apostila)Diretriz ACERTO: risco alto, terapia antes; diretriz europeia: risco grave, 7 a 14 dias mesmo que a operação espereSete a dez dias de terapia antes da incisão; a data é remarcada quando não couberem
Perda ponderal importante, IMC <18,5 kg/m², avaliação subjetiva global C ou NRS >5; albumina <30 g/L pode compor risco grave na ausência de disfunção hepática ou renal, interpretada com inflamaçãoRisco nutricional grave exige avaliação integrada. Albumina não diagnostica desnutrição sozinha nem valor normal a exclui; interpretar perdas, ingestão, doença e capacidade funcional.Como a linha anterior; se a via enteral não cobre a necessidade, parenteral pré-operatória por 7 a 14 dias (diretriz europeia)
Desnutrido que vai a operação de grande porte por câncer do trato digestivo ou de cabeça e pescoçoACERTO: imunonutrientes no maior risco; paciente grave: 5 dias antes e 7 depois; europeia: 5 a 7 dias antes, peri ou pós no desnutridoFórmula com arginina, ômega-3 e nucleotídeos; avaliar com cautela na sepse
Esofagectomia, gastrectomia, pancreatectomia ou laringectomia com boca tardia previstaACERTO: sonda ou cateter em 24 horas; europeia: sonda nasojejunal ou jejunostomia no desnutridoA pergunta ao cirurgião é feita na véspera: vai via de alimentação distal à anastomose?

Depois da operação: quando cada via entra, e onde os documentos se afastam

Situação do operadoRégua brasileiraPrazoRessalva ou divergência
Colecistectomia por vídeo, herniorrafia, operação orificialDiretriz ACERTO, recomendação 7Dieta e hidratação por boca imediatasSem hidratação venosa
Operação abdominal eletiva, estável, com ou sem anastomoseDiretriz ACERTO, recomendação 7Boca ou sonda em até 24 horasDieta conforme a vontade do paciente, sem escada obrigatória de consistências
Grande porte de cabeça e pescoço ou do trato digestivo alto, boca impossível ou não recomendadaDiretriz ACERTO, recomendação 8.ISonda ou cateter em 24 horasEuropeia: começar a 10 a 20 mL/h; meta pode levar 5 a 7 dias
Só a boca, abaixo de 60% da metaDiretriz ACERTO, recomendação 8.ISonda entre o 5º e o 7º diaManual federal: enteral, em geral, abaixo de 60%, sem prazo
Boca e sonda juntas abaixo de 60% da meta, intestino funcionandoACERTO 8.III; paciente grave 11.2; manual federal5º dia; 7º dia; 24 a 72 h no desnutridoDivergência 1 deste capítulo; europeia: abaixo de 50% por mais de 7 dias
Via digestiva impossível, desnutrido ou em alto riscoACERTO 8.III; paciente grave 11.5; manual federalParenteral assim que possívelAs três réguas convergem
Via digestiva impossível, bem nutridoPaciente grave 11.5Esperar 7 diasA discussão da mesma recomendação fala em 5 a 7
Alta sem cobrir a necessidade pela bocaDiretriz ACERTO, recomendação 9Manter suplemento oral ou enteralManual federal: orientação de alta programada com antecedência de até 72 horas

A conta do seu Genaro, do quilo ao mililitro por hora

PassoContaResultado
1. Perda de peso em três meses(72 − 63) × 100 ÷ 7212,5% — risco grave para quem lê o corte europeu em 10%
2. Perda de peso no último mês(67 − 63) × 100 ÷ 675,97% — 3 pontos na coluna nutricional da NRS-2002
3. Índice de massa corporal63 ÷ 1,70²21,8 kg/m² — não pontua e não tranquiliza
4. NRS-20023 (perda em um mês) + 2 (gastrectomia) + 0 (66 anos)5 — risco alto; seria 4 sem contar a operação
5. Necessidade antes da operação63 × 25 a 35 kcal/kg1.575 a 2.205 kcal/dia; 1.890 no meio da faixa
6. Ingestão atual1.200 ÷ 1.89063,5% da necessidade
7. Suplemento oral de 1,5 kcal/mL2 unidades × 200 mL × 1,5600 kcal; total de 1.800 kcal/dia, 95,2% da necessidade
8. Meta depois da operação63 × 25 kcal/kg; 63 × 1,5 g/kg1.575 kcal e 94,5 g de proteína por dia
9. Limiar da próxima via1.575 × 0,60945 kcal/dia
10. Fração de proteína que fecha a conta1,5 g/kg × 4 kcal/g ÷ 25 kcal/kg24% da energia em proteína
11. Enteral a 20 mL/h, fórmula de 1,0 kcal/mL20 × 24 h480 kcal/dia, 30,5% da meta
12. Enteral a 40 mL/h40 × 24 h960 kcal/dia, 61,0% da meta — cruza o limiar
13. Enteral a 65 mL/h65 × 24 h1.560 kcal/dia, 99,0% da meta
14. Déficit acumulado do 1º ao 4º dia938 + 379 + 1.416 + 1.5754.308 kcal que nenhuma refeição futura repõe

Da meta prescrita à nutrição recebida

EtapaAção prática
Antes de começarAvaliar risco de realimentação, eletrólitos e necessidade de tiamina; definir peso de cálculo e via com nutrição.
Início e progressãoPrescrever aporte inicial e avanço individualizados, evitando meta plena abrupta em alto risco.
Todos os diasSomar aporte realmente recebido; revisar interrupções, tolerância, glicemia, balanço e eletrólitos conforme risco.
Quando a meta não é atingidaIdentificar a barreira, otimizar via digestiva e discutir complemento ou via parenteral conforme gravidade e previsão.
AltaDefinir meta viável, quantidade, obtenção, quem administra e consulta para reavaliar.

A versão federal da NRS-2002 difere do instrumento original nos exemplos de gravidade moderada da doença. O original inclui operação abdominal de grande porte, acidente vascular cerebral, pneumonia grave e neoplasia hematológica. O manual substitui AVC por “fraturas” e especifica leucemias e linfomas. A diferença pode alterar o escore: no exemplo de 72 anos com fratura de quadril e sem pontuação nutricional, a soma passa de 2 para 3 se “fraturas” for interpretado como categoria moderada. Identifique a versão utilizada e confira a categoria da doença; não some duas categorias para a mesma condição.

As instruções também diferem após quatro respostas negativas na triagem inicial. O original orienta nova triagem semanal e consideração de plano preventivo se houver grande operação prevista; o manual encaminha esse candidato à triagem final. Este capítulo segue essa instrução federal no ambulatório cirúrgico. Assim, um paciente com 70 anos ou mais e operação abdominal de grande porte pode atingir 3 pontos sem alteração nutricional: 0 por nutrição, 2 pela operação e 1 pela idade. O resultado identifica risco para avaliação, sem demonstrar, por si, desnutrição ou necessidade de adiar.

A diretriz europeia citada usa NRS acima de 5 entre os critérios de risco grave, mas discute benefício do suporte em escores ≥5. No candidato eletivo com menos de 70 anos, a soma de 3 pontos nutricionais e 2 pela operação chega a 5; a idade acrescenta um ponto a partir dos 70. O percurso adota ≥5 como sinal de alto risco a ser avaliado, explicitando que essa escolha se apoia na discussão da evidência. O escore deve ser integrado aos demais critérios e à segurança de aguardar a operação.

A definição europeia descreve perda de peso acima de 10%–15% em seis meses, sem fornecer um único limite. Este percurso usa o limite inferior, acima de 10%, na avaliação de risco grave. Registre percentual, período e velocidade da perda: os 12,5% em três meses do caso têm significado diferente de uma variação lenta. A decisão sobre suporte e adiamento deve considerar os outros achados nutricionais e a doença que será operada; o percentual não decide sozinho a data.

A tabela descritiva de perda ponderal e a NRS medem aspectos diferentes. No manual, perda acima de 7,5% em três meses é chamada de grave na tabela, enquanto a pontuação máxima da NRS por esse intervalo exige mais de 15%. O caso atinge pontuação maior pela perda no último mês. Portanto, registre todos os intervalos relevantes. Os sinais estritos “menor” e “maior” ainda deixam alguns valores exatos sem faixa na tabela descritiva; nesses limites, mantenha o valor medido e faça a avaliação completa, sem forçar um rótulo.

A ACERTO apresenta 5–10 dias para terapia pré-operatória no risco moderado a alto e discute 7–14 dias de dietas enriquecidas em desnutridos moderados ou graves. As populações e fórmulas não são idênticas. O percurso usa 7–10 dias no alto risco, dentro da sobreposição, com possibilidade de extensão quando a equipe julgar seguro. O prazo deve permitir oferta efetiva e reavaliação; não basta contar dias em que o suplemento foi prescrito, mas não consumido.

As recomendações de via oral, enteral e parenteral precisam ser lidas em sequência. O percurso considera a oferta real em relação à meta: se, no quinto dia, apenas a via oral fornece menos de 60%, avalie sonda quando o intestino puder ser usado. Se oral e enteral já otimizadas permanecerem insuficientes, avalie complementação parenteral na janela descrita. Se a enteral estiver contraindicada, a decisão é outra e depende também do risco nutricional. A diferença de prazos entre as recomendações não autoriza pular uma via digestiva utilizável nem esperar passivamente diante de oferta insuficiente.

Na diretriz do paciente grave, as recomendações destacam sete dias para determinadas decisões sobre parenteral, enquanto a discussão apresenta janelas de 5–7 dias e situações de início precoce. Há também referência a percentuais de oferta diferentes. Identifique a população: bem nutrido ou desnutrido, baixo ou alto risco, enteral contraindicada ou apenas insuficiente. O exemplo de 55% da meta no quinto dia ilustra por que o calendário sozinho não resolve a indicação. Documente oferta recebida, tentativas de otimização e previsão de duração da limitação, com revisão pela equipe de nutrição.

As referências administrativas do manual de 2016 incluem atos posteriormente substituídos ou consolidados, como descrito nas fontes: RDC nº 63/2000, RDC nº 503/2021 e Portaria de Consolidação SAES/MS nº 1/2022. Algumas entradas bibliográficas também apontam para outro ato ou atribuem autoria incorreta. Para questões de habilitação e organização do serviço, identifique número, órgão e versão do texto aplicável, em vez de copiar a bibliografia antiga. Esses ajustes de referência não substituem os critérios clínicos de indicação nutricional nem alteram o papel da equipe multiprofissional.

O manual federal foi disponibilizado com marcadores não preenchidos nos campos de ISBN e endereço eletrônico. Sua identificação neste capítulo usa título, órgão, ano de 2016 e ordem de serviço 2016/0022. Não reproduza o marcador gráfico como se fosse um ISBN válido.

A consolidação de 2022 mantém remissões à RDC nº 63/2000 em trechos sobre enteral, embora as fontes apresentadas indiquem sua substituição pela RDC nº 503/2021. A remissão histórica precisa ser lida com essa atualização. Ao organizar o serviço, não deduza a vigência de um ato apenas porque ele aparece citado em outro texto. Diferencie a norma de terapia enteral, os requisitos de habilitação e as regras de outros assuntos, como resíduos, que podem ter sido atualizados em momentos distintos.

A Portaria nº 272/1998 foi emitida pela Secretaria de Vigilância Sanitária do Ministério da Saúde. Alguns textos posteriores a atribuem à Anvisa, o que dificulta localizar a fonte. Use número, data e órgão constantes do ato para identificá-la. A divergência de autoria bibliográfica não cria duas normas de terapia parenteral.

Na tabela histórica de procedimentos de 2009, a linha de nutrição parenteral em adulto apresenta total diferente da soma das parcelas: 18,00 e 0,00 não resultam em 60,00. Esses valores são apenas um achado do texto consultado. Não os use como preço ou regra atual de custeio; a conferência administrativa deve recorrer à tabela aplicável ao serviço.

As fórmulas e os insumos de terapia nutricional hospitalar não precisam aparecer individualmente na Rename para integrar o procedimento. A norma citada inclui seu custo na terapia realizada pelo hospital. Para o plano ser executável, confirme fórmula, componentes, via e obtenção com a equipe e a farmácia. A ausência de uma apresentação no elenco de 2024 não demonstra indisponibilidade local nem justifica substituir nutrientes ou vias sem avaliação.

As faixas energéticas do manual se sobrepõem em 25 kcal/kg: 20–25 no crítico e 25–35 no adulto sem doença grave. A ACERTO usa até 25 kcal/kg nos primeiros dias de enteral pós-operatória. O mesmo número pode ocupar posições diferentes porque as populações e fases diferem. Identifique o percurso aplicado, acompanhe a oferta e ajuste conforme tolerância.

Os demais componentes descritos da NRS coincidem entre manual e original: perguntas iniciais, IMC de 20,5, categorias nutricionais, ponto adicional a partir de 70 anos e limiar de risco de 3 pontos. A avaliação nutricional deve preceder a indicação de terapia. Para jejum, as fontes citadas apresentam intervalos de referência para sólidos e líquidos com carboidrato; aplique-os dentro dos critérios de seleção e do plano anestésico, sem extrapolar para pacientes com risco de esvaziamento inadequado.

08

A conduta, hora a hora

O que segue são as três semanas do seu Genaro Valadares — 66 anos, 63 quilos medidos, 1,70 metro, adenocarcinoma de antro gástrico com gastrectomia subtotal indicada, 12,5% do peso perdidos em três meses — do ambulatório à alta. Em cada marco, as linhas aparecem do jeito que vão escritas, e a régua que sustenta cada uma fica entre parênteses. A data da operação, a fórmula e a via não são decisões do interno; o que é do interno é levantar cada uma a tempo, com o número na mão, e escrever a linha que a decisão tomada exige.

  1. Quarta-feira, 14h40 — a triagem, e a conversa sobre a data

    A NRS-2002 do seu Genaro soma 5: perda de quase 6% no último mês, gastrectomia indicada, nenhum ponto de idade. A perda de 12,5% em três meses já passa do limite inferior do critério europeu de risco grave, e a ingestão está em 64% da necessidade. A régua brasileira manda terapia nutricional pré-operatória de 5 a 10 dias nesse risco, e esta apostila adota sete a dez dias no risco alto. Operar na segunda daria cinco dias de terapia a um homem que perde peso cada vez mais rápido. Você liga para o Domingos antes que ele entre na sala, e a conversa dura dois minutos porque vai com números: perda, prazo, escore e o que a diretriz manda. A decisão é da cirurgiã que opera, e ela remarca a gastrectomia para a sexta-feira da semana seguinte — nove dias de terapia, dentro da janela, sem prejuízo que ela considere relevante para o tumor. A janela pertence ao caso selecionado: risco grave pode justificar cerca de 7–14 dias de otimização, mas o benefício precisa ser ponderado com o risco de adiar. Hemorragia, perfuração, isquemia ou obstrução que exija intervenção urgente não deve esperar a terapia nutricional pré-operatória.

    Prescrição
    • Registrar na evolução os três pesos com data (72 kg há três meses, 67 kg há um mês, 63 kg hoje), a perda de 12,5% em três meses e de 5,97% no último mês, e o índice de massa corporal de 21,8 kg/m²
    • Registrar a NRS-2002 com as parcelas: 3 (estado nutricional) + 2 (gastrectomia indicada) + 0 (idade) = 5, risco nutricional alto
    • Solicitar avaliação nutricional detalhada pela nutricionista hoje, com a meta pré-operatória de 1.575 a 2.205 kcal/dia informada por escrito
    • Gastrectomia subtotal remarcada pela equipe cirúrgica para a sexta-feira seguinte, com o motivo escrito: terapia nutricional pré-operatória por nove dias em risco nutricional alto (Diretriz ACERTO 2017, recomendação 3)
  2. Quarta-feira, 15h10 — o suplemento que chega à boca

    Antes de escrever a fórmula, você pergunta quem vai consegui-la. Dona Ursulina diz que compra o que for preciso por dez dias, se souber o quê. O suplemento hiperproteico comum ela encontra e consegue pagar; a fórmula com arginina, ômega-3 e nucleotídeos custa mais do que a família pode gastar, e o hospital não a fornece no ambulatório. Nenhuma das duas consta da Rename, e a norma federal de terapia nutricional é hospitalar — o valor da fórmula oral está dentro dos serviços da internação. A imunonutrição está indicada e fica registrada como indicada e não obtida; a data não depende dela. Dois suplementos de 200 mL a 1,5 kcal/mL somam 600 kcal e levam a ingestão estimada de 1.200 para 1.800 kcal, 95% da necessidade do meio da faixa. Como ele come menos do que precisa há um mês, os eletrólitos vêm antes da oferta maior.

    Prescrição
    • Suplemento oral hiperproteico e hipercalórico de 1,5 kcal/mL, 200 mL duas vezes ao dia, nos intervalos, sem substituir refeição — 600 kcal/dia (terapia pré-operatória preferencialmente oral, Diretriz ACERTO 2017, recomendação 3)
    • Fórmula com arginina, ômega-3 e nucleotídeos indicada por 5 a 7 dias antes da operação; registrada como não obtida pela família e não fornecida no ambulatório
    • Seis refeições pequenas; a consistência e a adaptação da carne seguem a régua de Dieta hospitalar: escolha, jejum, progressão e via alternativa
    • Diário alimentar feito pela esposa: quanto sobra no prato em cada refeição e quantas unidades de suplemento foram tomadas
    • Fósforo, potássio e magnésio hoje, antes de subir a oferta (risco de realimentação pela régua do capítulo da dieta hospitalar)
    • Retorno em sete dias, com peso na mesma balança; retorno antes se vomitar mais de uma vez por dia ou se não conseguir tomar o suplemento
  3. Quarta-feira seguinte, 7º dia de terapia — o retorno que confirma a data e decide a sonda

    Peso de 63,4 quilos na mesma balança: parou de cair. O diário mostra o suplemento tomado em 13 das 14 tomadas e metade a dois terços do prato nas refeições, sem vômito na semana; a nutricionista estima a ingestão em cerca de 90% da necessidade. Fósforo, potássio e magnésio normais. A data fica. Resta a pergunta que precisa ser feita agora, e não na sala: vai via de alimentação distal à anastomose? A gastrectomia subtotal não está na lista nominal da diretriz brasileira, mas o seu Genaro é desnutrido, vomitava depois de comer e vai ter uma anastomose gastrojejunal; a diretriz europeia recomenda considerar sonda nasojejunal ou jejunostomia nesse perfil. A cirurgiã opta pela sonda nasojejunal passada durante a operação, posicionada na alça jejunal além da anastomose. O jejum da véspera segue a régua do capítulo Avaliação pré-operatória e estratificação de risco cirúrgico.

    Prescrição
    • Manter o suplemento oral duas vezes ao dia até a véspera da operação
    • Registrar na evolução a decisão da equipe: sonda nasojejunal posicionada no intraoperatório, distal à anastomose gastrojejunal, para enteral precoce (Diretriz ACERTO 2017, recomendação 8.I; diretriz europeia de 2021, recomendação 23)
    • Jejum pré-anestésico e bebida com carboidrato prescritos pela régua do capítulo Avaliação pré-operatória e estratificação de risco cirúrgico
    • Pedir à nutricionista a fórmula enteral padronizada no hospital e a fração de energia que ela entrega em proteína, para fechar a conta da meta proteica antes da operação
  4. Sexta-feira, 18h — dia da operação: as linhas das primeiras 24 horas

    Gastrectomia subtotal com reconstrução em Y de Roux, quatro horas, sem intercorrência. A sonda nasojejunal voltou fixada na narina, com a posição descrita na folha da operação. A comida volta em até 24 horas, com anastomose e tudo, e começa pelo jejuno, devagar. A fórmula padronizada entrega 16% da energia em proteína — abaixo dos 24% que a meta do ACERTO exige a 25 kcal/kg —, e por isso a nutricionista acrescenta módulo de proteína. A meta vai escrita em três números, para que o terceiro dia possa ser comparado com ela.

    Prescrição
    • Meta registrada na evolução: 1.575 kcal/dia (25 kcal/kg) e 94,5 g de proteína/dia (1,5 g/kg); limiar de 60% = 945 kcal/dia (Diretriz ACERTO 2017, recomendação 8.II)
    • Enteral pela sonda nasojejunal a 20 mL/h a partir das 6h de sábado, fórmula polimérica de 1,0 kcal/mL em bomba de infusão, com módulo de proteína prescrito pela nutricionista (início a 10 a 20 mL/h, diretriz europeia de 2021, recomendação 25)
    • Aumentar a velocidade conforme tolerância a cada 24 horas; suspender o aumento se houver distensão, vômito ou dor
    • Líquidos por boca em pequenos goles a partir da manhã de sábado, conforme aceitação, liberados pela equipe cirúrgica (realimentação em até 24 horas mesmo com anastomose, Diretriz ACERTO 2017, recomendação 7)
    • Sonda marcada na saída da narina e marca registrada na evolução; conferir a marca a cada turno
    • Glicemia capilar em enteral contínua pela régua de Hiperglicemia hospitalar e esquema de insulina de correção
  5. Sábado e domingo, 1º e 2º dias — contar o que entrou, e não o que foi prescrito

    No primeiro dia, a enteral correu a 20 mL/h e entregou 480 kcal; pela boca entraram líquidos equivalentes a cerca de 10% da meta. Total, 40,5%. No segundo, a velocidade subiu para 40 mL/h, 960 kcal, e a boca chegou a 15%: 76%, acima do limiar. O que se confere nesses dois dias não é se a prescrição está bonita, é o volume que a bomba de fato infundiu e o que ficou no copo. O fósforo caiu de 3,4 para 2,9 mg/dL no segundo dia, ainda normal, e a reposição e a vigilância seguem a régua do capítulo dono da realimentação. A fórmula com imunonutrientes, que a diretriz do paciente grave recomenda também por sete dias depois da operação oncológica, não está padronizada no hospital, e a padrão continua.

    Prescrição
    • Registrar diariamente o volume infundido pela bomba nas últimas 24 horas e o percentual da meta que entrou somando boca e sonda (dia 1: 40,5%; dia 2: 76%)
    • Enteral a 40 mL/h no segundo dia, se sem distensão, vômito ou dor
    • Dieta por boca conforme aceitação e liberação da equipe cirúrgica, com a consistência pela régua de Dieta hospitalar: escolha, jejum, progressão e via alternativa
    • Fósforo, potássio e magnésio diários nas primeiras 72 horas de oferta crescente, com reposição conforme a régua do capítulo da dieta hospitalar
    • Peso diário na mesma balança da enfermaria
  6. Segunda-feira, 3º dia, 6h10 — a sonda que saiu e o vômito

    Às duas da manhã ele acordou confuso, puxou a sonda nasojejunal e foi contido pela técnica. Às cinco vomitou 400 mL de conteúdo bilioso; o abdome está distendido e ele não elimina flatos desde a noite. A investigação — íleo, obstrução, vazamento de anastomose — é do capítulo Complicações pós-operatórias (febre pós-op, íleo, fístula), e a equipe cirúrgica pede tomografia, mantém dieta zero e passa sonda nasogástrica para descompressão. O que é seu é o relógio nutricional, que ninguém mais vai contar: nos dois primeiros dias ele recebeu 40,5% e 76% da meta, com déficit somado de 1.317 kcal, e o terceiro dia começou sem sonda e com vômito — se nada entrar além de goles, fecha perto de 10% e leva o déficit acumulado para mais de 2.700 kcal. A sonda nasojejunal não se repassa às cegas através de uma anastomose de três dias; se for recolocada, será por endoscopia, a critério da equipe.

    Prescrição
    • Registrar o percentual da meta por dia desde a operação e o déficit acumulado (938 + 379 kcal nos dois primeiros dias; projeção de mais 1.416 kcal no terceiro)
    • Solicitar hoje a avaliação da equipe multiprofissional de terapia nutricional, antes do resultado da tomografia, com a pergunta escrita: via digestiva disponível nos próximos dias?
    • Fósforo, potássio, magnésio e glicemia hoje, como linha de base caso a via venosa seja indicada
    • Não repassar a sonda nasojejunal sem decisão da equipe cirúrgica; a técnica e a confirmação de posição são do capítulo Sondagem nasogástrica e nasoentérica
  7. Terça-feira, 4º dia, 11h — a tomografia, e o dia em que a veia entra

    A tomografia mostra alças distendidas e estômago remanescente cheio, sem coleção, sem extravasamento de contraste e sem ponto de obstrução mecânica. É íleo pós-operatório com estase, e a cirurgiã prevê pelo menos mais três a cinco dias de dieta zero com descompressão. Aqui o erro mais provável é esperar um prazo que não se aplica: o quinto dia é a régua de quem come pouco, e os sete dias são a régua do bem nutrido sem via digestiva. O seu Genaro é desnutrido e está sem via digestiva, e para ele as três réguas brasileiras convergem — parenteral agora. A via central é passada hoje, e a primeira bolsa sobe à noite, depois dos eletrólitos e da tiamina.

    Prescrição
    • Nutrição parenteral indicada: desnutrido em risco alto com via digestiva impossibilitada por íleo pós-operatório (Diretriz ACERTO 2017, recomendação 8.III; diretriz brasileira do paciente grave, recomendação 11.5)
    • Cateter venoso central com um lúmen exclusivo para a parenteral, identificado; indicação, sítio e conferência de posição pela régua de Acesso venoso central: indicação, sítios e o que dá errado
    • Nenhum antibiótico, hemoderivado ou medicação pelo lúmen da parenteral; uso excepcional só com aprovação formal da equipe multiprofissional (Portaria MS/SNVS nº 272/1998, item 5.6.5)
    • Bolsa tudo-em-um prescrita com a equipe multiprofissional, com meta de 1.575 kcal/dia e 94,5 g de aminoácidos/dia, alcançada de forma progressiva pela régua de realimentação do capítulo Dieta hospitalar: escolha, jejum, progressão e via alternativa
    • Tiamina antes da primeira bolsa; a Rename 2024 só traz tiamina em comprimido, e a apresentação injetável depende da padronização da farmácia do hospital
    • Fósforo, potássio e magnésio diários nas primeiras 72 horas de parenteral; glicemia capilar e insulina pela régua de Hiperglicemia hospitalar e esquema de insulina de correção
    • Peso diário e balanço hídrico; a bolsa não se transfere de recipiente nem se interrompe para outra infusão
  8. Do 7º ao 12º dia — a volta ao intestino, a retirada da veia e a alta

    No sétimo dia ele elimina flatos, o débito da sonda nasogástrica cai e a equipe a retira. A boca volta com líquidos e sobe conforme a aceitação: cerca de 40% da meta no oitavo dia, 62% no nono e 70% no décimo, com suplemento oral. A parenteral foi reduzida na proporção do que a boca passou a entregar e é suspensa na manhã do décimo primeiro dia, depois da avaliação que a norma exige — a via digestiva já atende e a ingestão sobe; esta apostila usa como referência boca e suplemento acima de 60% da meta por dois dias seguidos e em ascensão, espelhando o limiar de entrada do ACERTO. A alta, no décimo segundo dia, é a hora em que a terapia mais se perde: ele ainda não come o que precisa, e a diretriz brasileira manda manter o suplemento. O que entra na receita precisa chegar a casa.

    Prescrição
    • Reduzir a parenteral na proporção da ingestão oral registrada e suspender após avaliação formal da capacidade da via digestiva de atender à necessidade (Portaria MS/SNVS nº 272/1998, item 5.8); retirar o cateter quando não houver outra indicação
    • Na alta: suplemento oral hiperproteico e hipercalórico duas vezes ao dia, com quantidade escrita, mantido enquanto a ingestão não cobrir a necessidade (Diretriz ACERTO 2017, recomendação 9)
    • Orientação nutricional de alta programada com antecedência, com as necessidades, a forma de uso e o caminho de obtenção combinados com a família e o serviço social (manual federal de 2016)
    • Peso semanal na unidade básica, anotado com data, e retorno ao ambulatório de cirurgia em sete dias com o diário alimentar
    • Na carta de alta: perda de peso pré-operatória, NRS-2002, terapia recebida em cada fase e o que a família precisa saber sobre fórmula e suplemento, que não são fornecidos pela farmácia básica
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Como saber se está funcionando

Sete parâmetros acompanham a terapia nutricional do operado, da primeira consulta à alta. Três deles só existem se alguém tiver escrito a meta em números no primeiro dia — sem a meta, não há percentual para comparar, e o quinto dia chega sem que ninguém saiba se o gatilho foi cruzado.

Peso, na mesma balança e com dataNo pré-operatório, a cada retorno, no máximo semanal; durante a terapia nutricional no hospital, diariamente.

Esperado: Antes da operação, a perda para ou o peso sobe; depois dela, peso estável, descontado o edema dos primeiros dias.

Se não melhora: Peso que continua caindo com suplemento registrado como tomado significa meta subestimada, adesão otimista ou perda por vômito: refaça o diário e a conta. Se a ingestão real ficar abaixo de 60% da necessidade apesar do suplemento, a conversa passa a ser de sonda antes da operação, e a data volta à mesa. Ganho rápido de peso nos primeiros dias do pós-operatório é água, e não recuperação — a leitura é do capítulo Resposta metabólica ao trauma (fases de Cuthbertson).

Percentual da meta que entrou, somando boca, suplemento e sondaDiariamente: pelo diário alimentar no pré-operatório; pelo registro da enfermagem e pelo volume infundido da bomba no pós-operatório, contando a partir do dia da operação.

Esperado: No pré-operatório de risco alto, próximo da necessidade estimada; no pós-operatório, acima de 60% da meta em kcal desde os primeiros dias, e subindo.

Se não melhora: Só a boca abaixo de 60% no quinto dia: entra a sonda. Boca e sonda juntas abaixo de 60% no quinto dia, já otimizadas, na enfermaria: parenteral associada, pela Diretriz ACERTO; na terapia intensiva, no sétimo dia, pela diretriz do paciente grave. Antes de escalar, confira pausas, sonda obstruída e jejum por exame — a leitura da bandeja e das pausas da bomba é do capítulo Dieta hospitalar: escolha, jejum, progressão e via alternativa.

Tolerância da enteral pela sonda distal à anastomoseA cada turno, enquanto a velocidade estiver subindo.

Esperado: Velocidade crescente a partir de 10 a 20 mL/h, sem distensão, dor ou vômito, com a meta atingida em cinco a sete dias.

Se não melhora: Distensão com dor ou vômito: pare de subir, reduza e comunique a equipe cirúrgica, porque a diretriz europeia registra isquemia de delgado associada a infusão rápida demais. Sonda que saiu não se repassa às cegas através de anastomose recente; a decisão é da equipe, e a técnica é do capítulo Sondagem nasogástrica e nasoentérica. Enquanto a sonda não volta, o relógio da via continua correndo, e alguém precisa contá-lo.

Fósforo, potássio e magnésioAntes de subir a oferta em quem vinha comendo pouco, e diariamente nas primeiras 72 horas de enteral ou parenteral crescentes.

Esperado: Os três estáveis.

Se não melhora: Queda de fósforo ao aumentar a oferta é realimentação se instalando: repor, segurar a progressão, redosar e dar tiamina seguem a régua do capítulo Dieta hospitalar: escolha, jejum, progressão e via alternativa, dono da síndrome. O que é específico do operado: o desnutrido de risco alto que começa parenteral depois de dias sem receber nada entra na janela de risco já no primeiro dia de bolsa.

Glicemia capilar na terapia contínuaDurante toda a enteral contínua e toda a parenteral.

Esperado: Dentro da faixa-alvo do serviço; no paciente de terapia intensiva, a diretriz brasileira do paciente grave recomenda 140 a 180 mg/dL.

Se não melhora: Hiperglicemia na parenteral é previsível, porque a glicose chega direto ao sangue em velocidade fixa, e a insulina acompanha a fonte de caloria pela régua de Hiperglicemia hospitalar e esquema de insulina de correção. Se a enteral ou a parenteral for interrompida por qualquer motivo, a insulina prescrita para ela precisa ser revista na mesma hora.

O lúmen exclusivo e o sítio do cateter da parenteralA cada turno, enquanto houver parenteral.

Esperado: Lúmen identificado e usado só para a bolsa; sítio sem sinal local de infecção; bolsa íntegra, infundida no recipiente em que chegou.

Se não melhora: Medicação correndo pelo lúmen da parenteral se corrige na hora e se registra: a norma sanitária só admite uso excepcional com aprovação formal da equipe multiprofissional. Febre com cateter central no operado abre a investigação de Febre no paciente internado e no pós-operatório, na apostila de Síndromes do Paciente Internado; retirada e troca do cateter seguem Acesso venoso central: indicação, sítios e o que dá errado.

Critério de saída da veia, da sonda e do suplementoDiariamente, a partir do dia em que a boca volta, e obrigatoriamente na véspera da alta.

Esperado: Parenteral reduzida na proporção do que a boca entrega; sonda retirada quando não houver mais o que acrescentar; alta com suplemento enquanto a necessidade não for coberta pela comida.

Se não melhora: Parenteral suspensa sem avaliação é desvio de norma: antes de suspender, avalie se a via digestiva atende à necessidade, se há complicação que ponha a vida em risco e se os objetivos são alcançáveis. Esta apostila usa como referência boca e suplemento acima de 60% da meta por dois dias seguidos e subindo. Quem ainda não cobre a necessidade pela boca sai com suplemento escrito, quantidade, retorno e caminho de obtenção combinado, pela recomendação 9 da Diretriz ACERTO.

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Onde o erro machuca

Liberar o candidato para operar pela albumina normal, sem pesar nem triar

O dano: O paciente entra na operação com a reserva que a albumina não mede. A hipoalbuminemia pré-operatória prediz complicação, mas a albumina normal não exclui desnutrição: ela reflete gravidade e catabolismo, não estoque. O desnutrido operado sem terapia paga em infecção — na gastrectomia do desnutrido grave, a diretriz europeia relata infecção de sítio cirúrgico de 45,4% sem suporte adequado, contra 17,0% com ele.

Como pegar a tempo: Junte dois pesos com data e calcule a perda antes de olhar o laboratório. Aplique a NRS-2002 com a operação indicada na coluna da gravidade. A albumina entra depois, como critério de gravidade quando está abaixo de 30 g/L, e nunca como liberação.

Manter a data do desnutrido de risco alto porque a sala já está marcada

O dano: Cinco dias de suplemento não são a terapia que a régua recomenda para esse risco, e a operação feita antes do tempo transforma desnutrição conhecida em complicação previsível. A Diretriz ACERTO recomenda terapia pré-operatória de 5 a 10 dias no risco moderado a alto, com grau forte e evidência alta; a diretriz europeia manda nutrir antes mesmo que a operação, inclusive por câncer, precise esperar.

Como pegar a tempo: Leve a conversa à equipe cirúrgica no mesmo dia, com perda, prazo, escore e recomendação. Proponha uma data dentro da janela — sete a dez dias no risco alto — e registre o motivo. Quem decide a data é quem opera; quem não leva o número à decisão decidiu por omissão.

Prescrever suplemento ou fórmula sem perguntar se chega à boca

O dano: A linha fica correta na receita e o paciente chega à operação com a ingestão de antes. Fórmula enteral, suplemento e fórmula com imunonutrientes não constam da Rename 2024, e a norma federal de terapia nutricional é hospitalar — o valor da fórmula oral está dentro dos serviços da internação. Fora do hospital, o produto depende da família ou do que a rede local oferece.

Como pegar a tempo: Pergunte antes de escrever: quem compra, quem fornece, por quantos dias. Combine com a nutricionista e o serviço social. Se o suplemento não for obtido, registre e ajuste o plano — mais refeições, comida mais densa — e peça o diário para saber o que de fato entrou.

Esperar o quinto dia para dar parenteral ao desnutrido que não pode usar o intestino

O dano: É aplicar a quem não pode comer a régua de quem come pouco. O quinto dia da Diretriz ACERTO mede tempo abaixo de 60% da meta; os sete dias da diretriz do paciente grave medem a espera do bem nutrido. No desnutrido com via digestiva impossibilitada, cada dia de espera é um dia de nada, somado ao déficit que ele trouxe de casa.

Como pegar a tempo: Faça duas perguntas separadas. O intestino pode receber? Se não pode, e o paciente é desnutrido ou está em alto risco, a parenteral é precoce, e as três réguas brasileiras concordam. Se pode, conte os dias abaixo de 60% e siga a escada: boca, sonda, veia.

Ir direto para a veia no operado cujo intestino funciona

O dano: A parenteral troca um problema resolvível por outro: cateter central, glicose direto na veia, equipe multiprofissional obrigatória e custo. A diretriz brasileira associa a enteral a menos morbidade e menos internação do que a parenteral no pós-operatório, e a europeia relata, com enteral, menos complicações infecciosas, menos vazamentos de anastomose e internação mais curta. Anastomose recente não é motivo para poupar o intestino.

Como pegar a tempo: Antes da veia, esgote a sonda. Se o intestino funciona e a boca não basta, a sonda entra primeiro — e, no operado de trato digestivo alto com risco alto, ela se decide na véspera, para sair da sala junto com o paciente.

Dar alta ao operado que ainda não come o que precisa sem plano nutricional escrito

O dano: A terapia de antes e de depois da operação se perde na primeira semana em casa. A Diretriz ACERTO registra que desnutrição e estado funcional ruim são os principais fatores de risco de reinternação do operado, e que muitos pacientes recebem alta sem orientação para manter a oferta. Depois de esofagectomia, a diretriz europeia relata perda de 5% a 12% do peso em seis meses.

Como pegar a tempo: Na véspera da alta, some a ingestão dos últimos dias contra a meta. Se não cobre, a receita sai com suplemento, quantidade e duração até o retorno, peso semanal com data e retorno marcado — e a família sai sabendo onde obter o que foi prescrito, porque a farmácia básica não entrega.

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O que dizer ao paciente e à família

Seis conversas atravessam a trajetória do operado em terapia nutricional. Cinco são com o paciente e a família, e nenhuma delas leva mais de dois minutos. A primeira é com um colega, e é a que decide a data.

O residente, ao telefone, já na porta do centro cirúrgico: “A sala é segunda, não dá para mexer. Ele está bem.”

Domingos, é o seu Genaro da gastrectomia de segunda, antes de você entrar. Ele perdeu nove quilos em três meses, quatro só no último mês, e está comendo 64% do que precisa. A NRS dá 5. A diretriz do ACERTO recomenda de cinco a dez dias de terapia nutricional antes de operar nesse risco, com recomendação forte, e com a data de segunda ele recebe cinco. Queria levar à cirurgiã a proposta de operar na sexta da semana que vem, com suplemento desde hoje. Posso apresentar assim?

Não diga: “Acho que ele está meio desnutrido, não seria melhor esperar?” Impressão sem número vira adiamento sem motivo, e é recusada. A conversa que muda a data leva perda, prazo, escore e régua, e devolve a decisão a quem opera.

Seu Genaro: “Doutor, eu quero operar logo. O tumor não cresce enquanto a gente espera?”

A pressa é justa, e eu entendo. O que a gente sabe com segurança é que operar quem perdeu tanto peso, tão rápido, aumenta a chance de infecção e de complicação depois da cirurgia. Esses nove dias não são espera parada: são dias de comer mais e tomar o suplemento para o senhor chegar mais forte à operação. A cirurgiã, que conhece o seu tumor, considerou esse prazo seguro. Se aparecer vômito que não para, dor forte ou sangramento antes disso, o senhor volta antes.

Não diga: “O suplemento vai ajudar a tratar o câncer.” Não vai, e o paciente precisa saber o que está comprando: a terapia melhora a travessia da operação, não o tumor.

Dona Ursulina: “Esse suplemento é caro. Não dá para pegar no posto?”

No posto não tem, e não é falta de estoque: esse tipo de produto não está na lista que o SUS entrega na farmácia. Dentro do hospital, a dieta faz parte do tratamento da internação. Para casa, vou pedir à nutricionista e à assistente social que vejam com a senhora o que a rede daqui oferece. Se não houver, ele precisa de duas unidades por dia por nove dias, e a nutricionista mostra também como deixar a comida de casa mais forte, para render mais.

Não diga: “É só comprar na farmácia.” Prescrever o que a família não consegue obter é escrever uma linha que não chega à boca. A pergunta vem antes da receita, e o plano muda se a resposta for não.

Seu Genaro, na manhã seguinte à operação: “Posso tomar água? Não vai estourar os pontos lá dentro?”

Pode, em goles pequenos. A costura aguenta, e comer cedo ajuda o intestino a voltar e o corpo a cicatrizar. A dieta mais forte está entrando pela sonda fininha que passa pelo nariz e vai direto ao intestino, depois da costura. Se o senhor sentir enjoo, a barriga estufar ou vomitar, avise a enfermagem na hora, que a gente para e reavalia.

Não diga: “Por enquanto nada pela boca, para proteger a costura.” É a crença que as diretrizes desmontam: a realimentação precoce não põe em risco anastomose bem feita, e o jejum de proteção custa músculo e dias de internação.

Dona Ursulina, no quarto dia: “Por que vão pôr comida na veia? Ele não vai mais comer? Vai ficar dependente?”

O intestino dele parou por alguns dias, o que pode acontecer depois dessa cirurgia, e a sonda do nariz saiu. Ele chegou fraco à operação e não pode ficar esses dias sem receber nada. A alimentação pela veia é uma ponte: corre por um cateter só dela, numa bolsa preparada pela equipe de nutrição, e sai quando o intestino voltar e ele conseguir comer a maior parte do que precisa. Não cria dependência. A gente mede todo dia o quanto ele come para saber a hora de tirar.

Não diga: “É um soro com vitaminas.” A parenteral não é soro, tem risco próprio e tem critério de retirada; diminuir o procedimento tira da família a chance de entender por que ele sai e quando.

Seu Genaro, no dia da alta: “Até quando eu tomo esse suplemento? Já estou comendo.”

O senhor está comendo, mas ainda não o bastante para repor o que perdeu e cicatrizar. Por isso o suplemento continua duas vezes por dia até o retorno. Pese na mesma balança toda semana e anote a data. Se o peso voltar a cair, ou se a comida não descer, procure o posto ou volte aqui antes do dia marcado. No retorno a gente decide, com o peso e o diário, se para ou continua.

Não diga: “Tome enquanto sentir fraqueza.” Critério sem medida não tem data de revisão; o que decide a suspensão é peso e ingestão medidos, e o retorno marcado.

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Onde bons médicos discordam

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.

Quando a veia entra no operado cujo intestino funciona, mas não entrega a meta

Cinco dias abaixo de 60% da meta — diretriz brasileira de cirurgia geral eletiva, Colégio Brasileiro de Cirurgiões e SBNPE, 2017 — posição adotada por esta apostila para o operado de enfermaria

Quando a via digestiva está impossibilitada, ou quando a oferta calórica não atinge 60% da meta planejada depois de cinco dias de pós-operatório, a parenteral deve ser prescrita, isolada ou associada à enteral. O texto de apoio reconhece que não há ensaio randomizado comparando o momento de início no operado não crítico, cita diretrizes que propõem parenteral até o terceiro dia quando a enteral é insuficiente ou contraindicada, como no íleo prolongado, e diretrizes de terapia intensiva que só a propõem depois da primeira semana. O escopo declarado é a cirurgia geral eletiva, com exclusão do paciente crítico e da urgência.

Diretriz ACERTO de intervenções nutricionais no perioperatório em cirurgia geral eletiva. Rev Col Bras Cir. 2017;44(6):633-648 — recomendação 8.III, grau fraco, evidência baixa

Sete dias abaixo de 60% da meta — diretriz brasileira do paciente grave, SBNPE, 2023, seção do cirúrgico crítico — adotada por esta apostila para o operado em terapia intensiva

A parenteral é indicada apenas quando a enteral não é possível ou quando não supre pelo menos 60% da meta por sete dias. No desnutrido ou em alto risco nutricional impossibilitado de receber pela boca ou por sonda, a parenteral é precoce; no bem nutrido com contraindicação à via digestiva, espera-se sete dias. A discussão da própria recomendação 11.5 fala em cinco a sete dias e usa 50% como corte para o bem nutrido que ficará mais de sete dias sem receber o suficiente.

Diretriz BRASPEN de Terapia Nutricional no Paciente Grave. BRASPEN J. 2023;38(2 Supl 2):2-46 — recomendações 11.2 (evidência muito baixa) e 11.5 (opinião de especialista)

De 24 a 72 horas de enteral insuficiente no desnutrido moderado ou grave — manual federal de terapia nutricional hospitalar, 2016 — lado não adotado para o operado

A parenteral é indicada, em geral, na contraindicação absoluta ao uso do trato gastrointestinal — obstrução intestinal, síndrome do intestino curto, fístula enterocutânea de alto débito — e quando o indivíduo apresenta desnutrição moderada ou grave e, depois de 24 a 72 horas, a oferta pela via enteral é insuficiente. O manual vale para todo adulto internado no SUS, não é específico do operado e não fixa, para essa decisão, o que conta como insuficiente; para a enteral, fixa a ingestão oral abaixo de 60% da recomendação.

Ministério da Saúde. Manual de terapia nutricional na atenção especializada hospitalar no âmbito do SUS. Brasília, 2016 — seção 5.4, indicação da terapia nutricional enteral e parenteral

Como decidir

Primeiro, determine se o intestino pode ser utilizado. Via digestiva indisponível em paciente desnutrido ou de alto risco exige discussão precoce de parenteral. Se o intestino funciona, some o que foi efetivamente recebido por boca e sonda e otimize essas vias. O percurso usa o quinto dia como referência de revisão na enfermaria e o sétimo no paciente crítico, considerando as populações das diretrizes. Se apenas a boca permanece abaixo de 60% no quinto dia, avalie sonda; parenteral entra quando a via digestiva não pode ser usada ou segue insuficiente após otimização na janela descrita. A previsão de indisponibilidade prolongada pode antecipar a decisão. Registre risco, oferta, tolerância e justificativa, sem usar o prazo como autorização para esperar sem agir.

Quantos dias de terapia nutricional antes de operar o desnutrido, e com que fórmula

De 5 a 10 dias, de preferência com suplemento oral proteico, no risco moderado a alto — Diretriz ACERTO, 2017, recomendação 3 — piso adotado por esta apostila

Terapia nutricional pré-operatória por via oral, enteral ou parenteral deve ser instituída no candidato a operação de moderado a grande porte com risco nutricional moderado a alto, acessado preferencialmente pela NRS-2002. A prescrição de 5 a 10 dias, de preferência por suplemento proteico oral e, se não for possível, por enteral ou parenteral, melhora os desfechos pós-operatórios, com resultados demonstrados sobretudo no câncer do aparelho digestivo e de cabeça e pescoço.

Diretriz ACERTO de intervenções nutricionais no perioperatório em cirurgia geral eletiva. Rev Col Bras Cir. 2017;44(6):633-648 — recomendação 3, grau forte, evidência alta

De 7 a 14 dias com imunonutrientes no desnutrido moderado ou grave — Diretriz ACERTO, 2017, texto de apoio da recomendação 4 — interseção de 7 a 10 dias adotada por esta apostila no risco alto

No paciente de maior risco submetido a operação de grande porte, a terapia nutricional deve incluir imunonutrientes, por suplemento oral ou por via enteral. O texto de apoio relata uma revisão de cinco metanálises segundo a qual, em desnutridos graves ou moderados, a terapia pré-operatória por sete a 14 dias com dietas enriquecidas com imunonutrientes se associa a redução de infecção e de internação, e cita uma metanálise que sugere mais benefício quando a fórmula é dada em todo o perioperatório, ou só no pós-operatório, do que só antes da operação.

Diretriz ACERTO de intervenções nutricionais no perioperatório em cirurgia geral eletiva. Rev Col Bras Cir. 2017;44(6):633-648 — recomendação 4, grau forte, evidência alta, e texto de apoio

Cinco dias antes e sete depois, na operação de grande porte por câncer do trato digestivo ou de cabeça e pescoço — diretriz brasileira do paciente grave, 2023, recomendação 11.3 — lado não adotado para o candidato ambulatorial

Recomenda fórmula imunomoduladora, como suplemento ou enteral, por cinco dias antes e sete dias depois da operação de grande porte por câncer do trato digestivo ou de cabeça e pescoço, especialmente no desnutrido, e pede cautela no uso em vigência de sepse. A discussão registra que os estudos com desnutridos mostram efeito melhor que nos bem nutridos e que a massa de estudos mais bem desenhados pende para o pós-operatório.

Diretriz BRASPEN de Terapia Nutricional no Paciente Grave. BRASPEN J. 2023;38(2 Supl 2):2-46 — recomendação 11.3, evidência baixa

Como decidir

Defina duração e fórmula separadamente. Para o candidato eletivo de alto risco, o percurso planeja 7–10 dias de suporte, podendo chegar a 14 quando a equipe considerar a espera segura para a doença. A avaliação combina NRS, perda ponderal, IMC, avaliação subjetiva global e contexto da albumina; nenhum resultado isolado substitui a decisão clínica. A janela de cinco dias é a referência mínima apresentada para terapia pré-operatória, sem converter uma operação urgente em eletiva. Imunonutrição é discutida para desnutridos em grandes operações oncológicas digestivas ou de cabeça e pescoço, fora da sepse. Se a fórmula não estiver disponível, mantenha a estratégia nutricional adequada com alternativa definida pela equipe, sem vincular automaticamente a data cirúrgica à marca ou composição de um suplemento.

A sonda do operado de trato digestivo alto: nasogástrica, como prefere a norma federal para a enteral curta, ou distal à anastomose, como recomendam as diretrizes cirúrgicas

Cateter nasogástrico como via preferencial da enteral de até cinco dias — norma federal de credenciamento e habilitação em terapia nutricional, 2022, com origem em 2009 — mantida por esta apostila para o paciente sem anastomose digestiva alta

Quando a indicação de nutrição enteral for por período de até cinco dias, a via de acesso preferencial é o cateter nasogástrico. A regra está numa norma de credenciamento, habilitação e financiamento da terapia nutricional, vale para toda a enteral do SUS e não distingue o paciente operado nem a posição de uma anastomose.

Portaria de Consolidação SAES/MS nº 1, de 22 de fevereiro de 2022 — art. 125 (origem: Portaria SAS/MS nº 120/2009, art. 12)

Sonda ou cateter distal à anastomose, decidido com a equipe na operação — Diretriz ACERTO, 2017, e diretriz europeia de cirurgia, 2021 — posição adotada por esta apostila para o operado de trato digestivo alto

A diretriz brasileira manda considerar terapia precoce por sonda nasojejunal, nasogástrica, gastrostomia ou jejunostomia no operado de grande porte do trato digestivo alto ou de cabeça e pescoço, quando a boca precoce é impossível ou não recomendada, registra equivalência de morbidade e internação entre sonda nasoentérica e jejunostomia, e que a jejunostomia permite terapia mais longa quando há complicação. A europeia recomenda considerar sonda nasojejunal ou jejunostomia por cateter fino em todo candidato a enteral que vai a operação de grande porte do trato digestivo alto ou do pâncreas, especialmente o desnutrido, e registra que a sonda nasal sai por acidente com frequência significativa.

Diretriz ACERTO. Rev Col Bras Cir. 2017;44(6):633-648 — recomendação 8.I, grau forte, evidência alta; Weimann A et al. ESPEN practical guideline: clinical nutrition in surgery. Clin Nutr. 2021;40:4745-4761 — recomendação 23, grau B

Como decidir

Escolha a via conforme anatomia operada e duração prevista do suporte. Na anastomose esofágica, gástrica ou pancreática recente com alimentação oral tardia prevista, o percurso considera acesso distal, decidido antes ou durante a operação. Uma sonda nasogástrica deixada para descompressão não deve ser usada para alimentar sem autorização da equipe cirúrgica. Quando a anatomia permite e o suporte será breve, a via nasogástrica pode ser apropriada conforme o planejamento. Para necessidade prolongada, a jejunostomia pode oferecer continuidade, inclusive após a alta. Registre a finalidade de cada sonda e o plano de progressão.

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O raciocínio, em voz alta

Seu Orestes Boaventura tem 74 anos, 90 quilos e 1,70 metro — índice de massa corporal de 31,1 kg/m². Adenocarcinoma de cólon ascendente, com colectomia direita por laparotomia marcada para daqui a oito dias. É hipertenso e não tem diabetes. No cartão do programa de hipertensão da unidade básica, há cinco meses, pesava 98 quilos; no laudo da colonoscopia, há dois meses, 96. A filha conta que desde o diagnóstico ele “fechou a boca”: come dois terços do prato e trocou o jantar por café com leite. Albumina de 3,7 g/dL, hemoglobina de 10,9 g/dL. O pedido de avaliação pré-operatória diz “obeso, bem nutrido”. Você é o interno do ambulatório e precisa responder três perguntas: ele está em risco, o que muda antes da operação e o que muda depois dela.

  1. o que eu leio antes do laboratório

    Três pesos com data: 98 quilos há cinco meses, 96 há dois, 90 hoje. São 8 quilos em cinco meses, 8,2% do peso, e 6 quilos só nos últimos dois meses, 6,25%. A curva está acelerando. O índice de 31,1 kg/m² e a albumina de 3,7 g/dL não desfazem essa curva: o manual federal registra que, na obesidade, a antropometria pode estar dentro da normalidade num paciente cujo estado nutricional está comprometido. “Obeso, bem nutrido” é uma frase sobre o espelho, e não sobre a balança.

  2. a NRS-2002, parcela por parcela

    Na triagem inicial, ele perdeu peso nos últimos três meses e comeu menos na última semana: sim e sim, segunda parte. Na coluna nutricional, a perda acima de 5% em dois meses vale 2; a ingestão de dois terços, entre 50% e 75%, valeria 1, e vale a categoria mais alta. Na coluna da gravidade, a colectomia é operação abdominal de grande porte, 2 pontos, acima do 1 que o câncer daria sozinho. Aos 74 anos, mais 1. Total, 5: risco nutricional alto pela leitura deste capítulo, que conta a operação indicada.

  3. o que o critério europeu diz, e por que ele não basta

    Contra os quatro critérios europeus de risco grave, ele não preenche nenhum: 8,2% em cinco meses não chegam a 10% em seis; o índice está muito acima de 18,5; a albumina está acima de 30 g/L; e a NRS de 5 não é “acima de 5”. Pela régua brasileira, porém, ele é candidato a operação de grande porte com risco moderado a alto, e a Diretriz ACERTO manda terapia pré-operatória de 5 a 10 dias; pela leitura deste capítulo, a NRS de 5 o põe no risco alto, de sete a dez dias. Os oito dias até a data cabem na janela. A operação não precisa ser remarcada; precisa ser precedida.

  4. o que eu prescrevo hoje, e o que pergunto antes de prescrever

    Suplemento oral hiperproteico duas vezes ao dia a partir de hoje, o jantar de volta no lugar do café com leite, diário alimentar feito pela filha, retorno em cinco dias com peso na mesma balança, e avaliação da nutricionista. Ele vai a operação de grande porte por câncer do trato digestivo e tem risco nutricional: pergunto se a família consegue a fórmula com imunonutrientes, e registro a resposta; se não conseguir, o suplemento comum segue e a data não muda. Fósforo, potássio e magnésio antes de subir a oferta, pela régua do capítulo Dieta hospitalar: escolha, jejum, progressão e via alternativa. O jejum da véspera é prescrito pela régua de Avaliação pré-operatória e estratificação de risco cirúrgico.

  5. o que eu não pedi, e por quê

    Não pedi sonda nem parenteral antes da operação: ele come dois terços do que precisa e o intestino funciona, e a parenteral pré-operatória fica para quem a enteral não cobre. Não pedi via de alimentação na sala: colectomia direita não é operação de trato digestivo alto, e a comida pode voltar em até 24 horas mesmo com a anastomose ileocólica. E não cortei calorias porque ele é obeso: o manual federal admite peso ajustado para estimar a necessidade de quem tem obesidade, mas essa conta é da nutricionista, e perder peso não é objetivo das três semanas que vêm.

  6. o que eu vigio depois da operação

    No primeiro dia pós-operatório, meta em kcal, proteína em gramas e limiar de 60% escritos na evolução, e o percentual somado todo dia a partir da operação. Se no quinto dia só a boca estiver abaixo de 60%, entra a sonda; se boca e sonda juntas seguirem abaixo de 60% no sétimo dia, a parenteral entra associada. Se aparecer íleo prolongado, a pergunta muda para “o intestino pode receber?”, e nele, que chegou em risco alto, a veia não espera o quinto dia. Na alta, se ainda não cobre a necessidade pela boca, sai com suplemento, quantidade, retorno marcado e o caminho de obtenção combinado com a filha.

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Faça você

Dona Quitéria Santana tem 61 anos, 58 quilos e 1,60 metro. Está na enfermaria de cirurgia, na manhã do sexto dia de pós-operatório de duodenopancreatectomia por tumor de ampola. Antes da operação perdeu 7% do peso em dois meses, somou 4 na NRS-2002 e recebeu cinco dias de suplemento com imunonutrientes; saiu da sala com jejunostomia por cateter fino. A enteral pela jejunostomia começou a 10 mL/h no primeiro dia; tentou-se subir para 40 mL/h no terceiro e para 50 mL/h no quarto, com distensão e dor, e ela voltou a 30 mL/h, bem tolerados, com pausa de uma hora por dia para o banho. A fórmula tem 1,0 kcal/mL. Por boca aceita pouco líquido: esvaziamento gástrico lento, um vômito por dia. Está afebril, sem sinais de peritonite, com dreno de débito seroso que a equipe considera sem sinal de fístula. Glicemias entre 150 e 210 mg/dL. Fósforo de 3,3 mg/dL no primeiro dia e de 2,6 mg/dL hoje. A nutricionista estima que a boca entregou 5% da meta ontem.

  1. a meta e o limiar

    Calcule a meta calórica, a meta proteica e o limiar de 60% pela régua da diretriz brasileira para os primeiros dias de enteral pós-operatória, com o peso de 58 quilos. Complete: meta de ____ kcal/dia, ____ g de proteína por dia, limiar de ____ kcal/dia.

  2. o que de fato entrou ontem

    Calcule o que a jejunostomia entregou no quinto dia, a 30 mL/h por 23 horas, some os 5% da boca e diga o percentual da meta. Complete: a enteral entregou ____ kcal, a boca ____ kcal, total de ____% da meta, ____ do limiar.

  3. a pergunta que vem antes do prazo

    Diga se o intestino dela pode receber e o que isso define sobre qual pergunta você está respondendo. Depois diga qual régua brasileira de prazo vale para ela — pense em onde ela está e em que tipo de operação fez — e qual seria o prazo se ela estivesse na terapia intensiva.

  4. as linhas da parenteral

    Escreva as linhas de hoje: o acesso e o que pode correr por ele, a meta da parenteral — lembrando que ela complementa uma enteral que continua —, a progressão, o que fazer com o fósforo que caiu, a glicemia e a enteral. Quando a linha pertence a outro capítulo, escreva o nome dele no lugar de um esquema de memória.

  5. quando a veia sai

    Escreva o critério de redução e de suspensão da parenteral, e as três coisas que a norma sanitária manda avaliar antes de suspender.

  6. Continuidade do caso e prática do internato

    Compare o risco de Orestes ao de Genaro e explique por que a decisão depende de perda, ingestão, gravidade e segurança de adiar, não do peso atual isolado.

  7. Questão integrativa 1

    IMC de 31 e albumina de 3,7 afastam risco nutricional de Orestes?

  8. Questão integrativa 2

    Toda cirurgia deve esperar dez dias de suplemento?

  9. Questão integrativa 3

    A meta prescrita é igual ao aporte recebido?

  10. Questão integrativa 4

    Desnutrido grave deve receber a meta integral já no primeiro dia?

  11. Questão integrativa 5

    Intestino em descontinuidade permite dieta apenas porque passaram 24 horas?

  12. Questão integrativa 6

    O que torna a receita nutricional de alta executável?

Ver como fecharíamos

A meta pela Diretriz ACERTO para os primeiros dias de enteral é de até 25 kcal/kg, com cerca de 1,5 g/kg de proteína: 58 × 25 = 1.450 kcal/dia e 58 × 1,5 = 87 g/dia; o limiar de 60% é 870 kcal/dia. Ontem a jejunostomia entregou 30 mL/h × 23 h = 690 mL, 690 kcal, e a boca, 5% de 1.450, cerca de 72 kcal: 762 kcal, 52,6% da meta, abaixo do limiar — e há três dias ela está nessa faixa, com a enteral já no teto que tolera e pausa mínima. O intestino dela pode receber, mas não o bastante; a pergunta, portanto, não é a do intestino indisponível, é a do relógio de quem recebe pouco. Ela é operada eletiva e está na enfermaria: o documento escrito para ela é a Diretriz ACERTO, que indica parenteral, isolada ou associada à enteral, quando a oferta não chega a 60% depois de cinco dias; como a sonda já estava em uso e otimizada, a parenteral entra associada hoje. Na terapia intensiva, pela diretriz do paciente grave, o prazo seria de sete dias. As linhas: cateter venoso central com lúmen exclusivo para a parenteral, nada mais correndo por ele sem aprovação formal da equipe multiprofissional, com indicação e sítio pela régua de Acesso venoso central: indicação, sítios e o que dá errado; bolsa prescrita com a equipe para cobrir a diferença até a meta, cerca de 690 kcal/dia e a proteína que a enteral não entrega, alcançada de forma progressiva; a enteral continua a 30 mL/h, com nova tentativa de subir em 24 a 48 horas se a distensão ceder. O fósforo que caiu de 3,3 para 2,6 mg/dL com a oferta crescente é sinal de realimentação: reposição, ritmo da progressão, dosagem diária nas primeiras 72 horas de parenteral e tiamina seguem a régua de Dieta hospitalar: escolha, jejum, progressão e via alternativa. As glicemias de 150 a 210 mg/dL, que tendem a subir com glicose direto na veia, têm insulina pela régua de Hiperglicemia hospitalar e esquema de insulina de correção, e a insulina da parenteral é revista se a bolsa for interrompida. A parenteral é reduzida na proporção do que boca e jejunostomia passarem a entregar e, pela referência deste capítulo, suspensa quando as duas somarem mais de 60% da meta por dois dias seguidos e em ascensão — depois de avaliar, como exige a Portaria MS/SNVS nº 272/1998, se a via digestiva atende à necessidade, se há complicação que ponha a vida em risco e se os objetivos da terapia são alcançáveis. Questões integrativas — respostas comentadas 1. Não. Perda de peso, redução da ingestão e função podem indicar risco apesar da obesidade e albumina preservada. 2. Não. A otimização se aplica a casos selecionados; urgência e risco de adiar precisam ser avaliados. 3. Não. Contabilizar ingestão e infusão reais e interrupções para decidir ajustes. 4. Nem sempre. Avaliar realimentação e progredir com monitorização de eletrólitos e tiamina quando indicada. 5. Não. Conferir anatomia e acesso seguro com cirurgia e nutrição. 6. Produto ou alimentação viável, quantidade, forma de uso, responsável, acesso e seguimento definidos com paciente e equipe.

Gabarito da questão de abertura
Comentário

A perda de 12,5% do peso em três meses, quase 6% só no último mês, põe o paciente em risco nutricional alto: a NRS-2002 soma 5, com 3 pontos pela perda em um mês e 2 pela gastrectomia indicada. A Diretriz ACERTO de 2017 recomenda terapia nutricional pré-operatória de 5 a 10 dias no risco moderado a alto, com grau forte e evidência alta, e a diretriz europeia de cirurgia de 2021 aceita que a operação, inclusive por câncer, espere para nutrir o paciente de risco grave. Albumina e índice de massa corporal normais não desfazem a perda de peso: a albumina reflete gravidade e catabolismo, não reserva. A data é decisão de quem opera, e a proposta vai à equipe com os números.

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Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
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Plano de revisão

Em 7 dias

Sem consultar nada, escreva as quatro perguntas da triagem inicial da NRS-2002, as três categorias da coluna nutricional e as três da gravidade da doença, com um exemplo de cada, e a regra da idade. Depois pontue um candidato de 71 anos a colectomia que perdeu 6% do peso em dois meses e come metade do prato, e diga o que o total muda na data da operação. Em seguida, escreva as duas perguntas separadas que decidem a parenteral no operado — o intestino pode receber? quantos dias abaixo de 60% da meta? — e o prazo que este capítulo adota para a segunda na enfermaria e na terapia intensiva, com a fonte de cada um.

Em 30 dias

Separe três operados atendidos na sua enfermaria nas últimas semanas e monte, para cada um, quatro linhas: os pesos com data antes da operação, a NRS-2002 que ninguém calculou, os dias de terapia nutricional que ele recebeu antes da incisão e o percentual da meta que entrou em cada dia até a alta. Marque o dia em que cada um cruzou, ou teria cruzado, o limiar de 60%, e o que foi feito nesse dia. Depois abra o protocolo de triagem nutricional do seu hospital e confira três coisas: qual instrumento ele usa, se a lista de gravidade moderada da NRS-2002 traz o acidente vascular cerebral ou as fraturas, e quem faz a triagem nas primeiras 48 horas. Por fim, pergunte à nutricionista qual fórmula enteral o hospital padroniza e que fração da energia ela entrega em proteína.

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Agora atenda

Agora atenda: homem de 61 anos com adenocarcinoma de esôfago distal e esofagectomia marcada para daqui a seis dias. Tem disfagia a sólidos há quatro meses, perdeu 11 quilos — de 78 para 67 — e hoje só aceita líquidos e pastosos. Mede 1,75 metro. Levante o que precisa levantar, calcule a perda com o prazo e a NRS-2002, leve à equipe o que a triagem muda na data, prescreva a terapia pré-operatória pela via que a disfagia permite e pergunte ao cirurgião, antes do centro cirúrgico, pela via de alimentação distal à anastomose. Depois explique ao paciente, em linguagem de família, por que operar alguns dias mais tarde pode ser operar melhor.

Terapia nutricional no paciente cirúrgico – A operação pode esperar dez dias — Internato | OsceLabs